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JORNAL EXPERIMENTAL DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA UNISC - SANTA CRUZ DO SUL VOLUME 18 nº 3/agosto 2012

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Valesca de Assis volta a Santa Cruz

EDITORIAL

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Momento de comemoração ou de reflexão? É possível dizer que ambos fazem parte dos 25 anos da Feira do Livro de Santa Cruz do Sul. Comemoração porque o evento está, de fato, consolidado: possui estrutura, organização e faz parte do espaço cultural da região e não apenas da cidade. Reflexão porque é vital olhar o período da sua existência como o local da intervenção nas coisas da mente e do desenvolvimento da cultura, independente da sua abrangência. Serve, sim, para se pensar no que de fato auxilia na vida das pessoas do ponto de vista do conhecimento. Diante deste contexto, o Unicom procurou olhar o passado e o presente dos livros e da vida cultural na praça, tendo como centro das atenções o desenvolvimento efetivo da Feira neste primeiro quarto de século em Santa Cruz do Sul. Mas, a ideia propriamente vem de 1969, quando foi criada a Feira Intercolegial Estudantil do Livro, que objetivava desenvolver o gosto pela leitura entre as pessoas a partir da comercialização de obras literárias a preços mais acessíveis. Observe-se que a iniciativa era de estudantes de nível médio, vindos de escolas públicas e particulares. Esforço desta natureza, sem dúvida, precisa ser revisitado e lembrado ao público. Trata-se de um modo diferente de se olhar para a cultura pela juventude da época, que pretendia manter viva a cultura entre os santa-cruzenses e talvez torná-la mais presente entre os seus diversos setores. Do contrário, jamais esta iniciativa teria obtido sucesso. Da mesma forma, nos anos 80, a reorganização (ou retomada) da feira, tendo à frente órgãos públicos municipais e estaduais, ao lado da representação da iniciativa privada, teve como norteador a vontade de facilitar o acesso à cultura, levando-a em definitivo para a praça. Ao mesmo tempo, esta edição do Unicom apresenta o patrono – Antonio Skármeta - e a homenageada da Feira – Valesca de Assis -, nomes conhecidos do público em geral. Em função do padrinho do evento ser chileno, o leitor encontrará a entrevista com ele tanto em espanhol quanto em português e a feira ganha mais amplitude com a presença deste autor reconhecido em nível internacional. Igualmente, o Unicom traz reportagem que relaciona cinema e literatura, de como a leitura pode despertar o escritor que está dentro de cada um, além de nova forma de contar histórias em pequenos textos classificados como minicontos. A edição apresenta ainda matéria sobre livros de cabeceira, sem esquecer uma breve reflexão sobre o slogan da Feira 2012: Ler aproxima. Boa leitura a todos e visitem o site da Feira do Livro da Agência A4 (hipermidia.unisc.br/25feiradolivro), que fará a cobertura do evento entre os dias 25 de agosto e 2 de setembro.

Autora de A valsa da medusa é a homenageada da 25ª Feira do Livro LUCAS SILVA ENTREVISTA Tra nsita r por diversos gêneros literários e seus públicos nem sempre é tarefa fácil para os escritores. Esse trabalho, segundo Valesca de Assis, exige o estudo da técnica antes de colocá-la em prática. A homenageada da 25ª Feira do Livro de Santa Cruz do Sul é educadora, filósofa, autora premiada e ministrante de oficinas literárias por todo o estado do Rio Grande do Sul. Seu primeiro livro foi a A valsa da medusa, pela editora Movimento, em 1990. Valesca de Assis conversou por e-mail com o Unicom e disse estar muito feliz em ser homenageada na cidade onde nasceu e em evento que tem Antonio Skármeta como patrono. Qual é a expectativa para a Feira do Livro em Santa Cruz do Sul e a importância de eventos como este para a nova geração de leitores? A melhor possível! É na cidade onde nasci, onde viveram meus antepassados, são 25 anos da Feira e o Patrono, ah, o patrono será nada menos do que um ídolo: Antonio Skármeta. A importância está muito relacionada ao fato de apresentar os livros, permitir que sejam tocados, que se mostrem atraentes. Porém, o maior sentido das feiras de livro são as leituras prévias de obras dos autores convidados. Aí está a função, a importância e o ganho de 90% da Feira. Você já escreveu livros nos mais diversos gêneros literários. Existe diferença no processo de criação de acordo com o gênero? Sim, existiu, para mim, uma evolução técnica importante até chegar à construEditor-chefe: Hélio Etges

Exp edien te

OPINIÃO/ENTREVISTA

Feira do livro: passado e presente

UNISC– Universidade de Santa Cruz do Sul Av. Independência, 2293 - Bairro Universitário Santa Cruz do Sul – RS - CEP 96815-900 Curso de Comunicação Social - Jornalismo Bloco 15 – Sala 1506 Telefone: 51 3717-7383 Coordenador do curso: Demétrio Soster

Subeditora: Vanessa Costa Arte da Capa: Rudinei Kopp Infográfico: Renan Silva Diagramação: Daiana Carpes Reportagem: Luiza Adorna

ção de um livro infantil Um dia de gato. Também, a passagem do livro dito adulto para o juvenil como o Diciodiário. Os diferentes tipos de leitores estão em processos mentais completamente diversos e o escritor tem de estar dentro destas diferentes estruturas. Por isso, escrever para crianças é, a meu ver, o ponto alto de minha literatura. Até agora, claro, pois espero crescer sempre. Já a crônica, onde também me atrevo, tem características diferentes da narrativa de ficção. E me agrada muito escrever e ler crônicas: acho-as deliciosas e excelentes para iniciar um leitor tardio. Que conselho você daria a quem deseja seguir carreira de escritor? Se eu posso dar um conselho a alguém é ler muitíssimo, observar e anotar a técnica de cada escritor e, se possível, frequentar uma oficina literária. É como o trabalho de um jardineiro: se ele não souber quando semear, quando adubar, em que período e quais galhos podar e de quanto sol a planta precisa, entre outros conhecimentos técnicos, não poderá construir nem manter um jardim. Não é mesmo? Você é natural de Santa Cruz do Sul. Qual aspecto referente à cidade mereceria um livro? Já escrevi duas novelas que têm intensa referência a Santa Cruz: A valsa da medusa e A colheita dos dias. Este último vai ter sua terceira edição (quase reescrita!) na Feira de Santa Cruz. No livro de crônicas, Todos os meses, também refiro-me bastante a Santa Cruz do Sul. A história da cidade, de seus inícios, é muitíssimo interessante, e está muito presente em A valsa da medusa, recentemente reedidata.

Luísa Ziemann Rafaela Schneider Frederico Silva Augusto Dalpiaz Isadora Trilha Eduarda Pavanatto Martina Wrasse Scherer Juliana Eichwald

Lucas Silva Este Jornal foi produzido pelos monitores da Agência Experimental A4, sob a supervisão do professor Hélio Etges. Impressão: Grafocem Tiragem: 1.000 exemplares


Das páginas do livro às telas do cinema De Drácula a Crepúsculo: boa parte das obras literárias é adaptada para o cinema

JULIANA EICHWALD REPORTAGEM

porções de vendas tão grandes que a produtora americana Warner Bros não hesitou em comprar os direitos de adaptação para o cinema. Assim como as obras literárias, os filmes alcançaram o mesmo, ou maior, patamar em todo o mundo. Para os seguidores do bruxinho, é inevitável a comparação entre os dois meios, mas, mesmo com as críticas, os filmes tornaram-se sucesso de bilheteria. A produção da indústria cinematográfica é constante e parte dela são adaptações. “A partir de um livro de sucesso pode sair um filme bom para a crítica ou para o público ou para os dois. Também pode sair um filme ruim para a crítica e para o público. Ou ainda a crítica pode adorar, mas não fazer sucesso com o público, ou vice-versa”, explica Jair. O professor prefere referir-se ao processo livrofilme como recriação. “Adaptação é termo que pressupõe passagem direta, sem considerar que exista um processo criativo no meio”. O livro Querido John, de Nicholas Sparks, caiu de tal forma na graça dos leitores que, assim como Harry Potter, ganhou sua versão para o cinema. E o sucesso foi tão estrondoso que, após o lançamento do filme, houve reedições da capa do livro com a imagem dos atores principais da adaptação. Clássicos de Shakespeare e os surpreendentes Frankenstein, de Mary Shelley, e Drácula, de Bram Stoker, da mesma forma, possuem suas recriações. O vampirão da Transilvânia tem em torno de 15 filmes com a sua história, e demonstra, assim, a força da literatura no meio cinematográfico.

Capa original do livro

Capa da adaptação para o cinema

Reedição da capa do livro

Capa do clássico de Bram Stocker

Jair Giacomini e Alexandre Borges

Uma das adaptações para o cinema

FILMES E LIVROS

Imagine a cena: depois de alguns dias devorando um livro que o encantou do início ao fim, você descobre que ele ganhou adaptação para o cinema. Ansioso, dirige-se à bilheteria no primeiro dia em que o filme está em cartaz e garante o seu lugar. A sessão está prevista para o dia seguinte e lá está você em frente à entrada uma hora antes do filme ter o seu início. Já sentado na poltrona, revive no pensamento os melhores momentos da obra. Suas expectativas crescem a cada segundo. No auge dos pensamentos, o filme inicia. Uma hora e meia depois, você não possui forças para se levantar da poltrona, tamanha é a decepção. A parte da história que mais encantou você não foi produzida. Além disso, as cenas não parecem em nada com as que imaginou dias atrás, durante a leitura do livro. Você xinga, esbraveja, diz que o livro é mil vezes melhor e desde o início sabia: a indústria cinematográfica não possui cacife suficiente para produzir obra tão grandiosa quanto aquela. A razão dessa revolta? Leitores e espectadores não conseguem entender que a linguagem de livro e de cinema é diferente. “A escrita e a imagem são duas linguagens diferentes, com naturezas diferentes. É quase como comparar aquele quadro com aquela música”, sentencia o pesquisador e professor do curso de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Jair Giacomini, de 40 anos. Aí está a luz da sua lâmpada. A mente do leitor pode ser tão poderosa e tão criativa quanto a dos roteiristas e produtores cinematográficos. Para o também professor de Comunicação Social da Unisc, Alexandre Borges, de 39 anos, dependendo do perfil do livro, as escolhas para adaptação são comerciais. “Normalmente a escolha por produzir um filme baseado em livro se dá pela possibilidade de alta bilheteria. É uma estratégia”, diz. A saga Harry Potter, da escritora J.K. Rowling, é um exemplo dessa estratégia. Os primeiros exemplares da série tomaram pro-

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Uma trajetória marcada pela inovação Exposição é modernizada para atrair cada vez mais apaixonados pela leitura

FEIRA DO LIVRO

LUÍSA ZIEMANN REPORTAGEM

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Sem tema, sem patrono e sem escritor homenageado. Assim estreou a Feira do Livro de Santa Cruz do Sul. Mas nem a falta de apoio ou público, ambos tímidos no começo, diminuíram o desejo de popularizar a leitura. Hoje, o evento é considerado um dos mais importantes do gênero e também um dos destaques no cenário sociocultural do estado. Organizada pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) há 25 anos, a mostra conquista mais visibilidade e credibilidade a cada edição. Porém, o histórico de manifestações literárias na cidade antecede a década de 80. Outras exposições também deixaram sua marca e serviram de base para a estruturação da Feira. Desde o início as dificuldades foram constantes e, até chegar ao seu formato atual, foram feitas inúmeras modificações. No entanto, manteve-se igual a qualidade da sua maior atração: os livros. Segundo o professor e chefe do Departamento de Letras da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Elenor Schneider, o primeiro movimento cultural-literário presente no município foi a Feira Intercolegial Estudantil do Livro (Fiel), de 1969 a 1974. Voltada ao público jovem e, na época, existente em várias cidades, ela surgiu do esforço de alunos do ensino médio de escolas públicas e particulares. Publicações selecionadas com antecedência eram cedidas por editoras de Porto Alegre por consignação e vendidas a baixo custo. “Os próprios estudantes eram os livreiros”, lembra Schneider. O principal objetivo era expor obras de qualidade com descontos atrativos e, assim,

enriquecer o nível de leitura das pessoas. Em todas as suas edições, a Fiel recebeu centenas de estudantes de diferentes partes do estado. Com o fim dessa exposição, a cidade ficou sete anos sem evento destinado ao público leitor. Em 1982, iniciou o que viria a ser a Feira do Livro de Santa Cruz do Sul. Realizada pelo setor de Programação da então 6ª Delegacia da Educação - atual 6ª Coordenadoria Regional de Educação -, a mostra aconteceu, em seu primeiro ano, no segundo andar do Pavilhão Central do Parque da Oktoberfest. Já em 1983, mudou-se para a Praça Getúlio Vargas. Conforme a coordenadora do Setor Cultural da 6ª DE na ocasião, Irene Baumhardt, durante as seis primeiras edições havia oito livreiros, cinco deles da capital e três livrarias locais. O serviço de sonorização era doméstico e o relacionamento com o público era feito pelos próprios professores. No primeiro ano, as barracas onde os livros eram expostos foram cedidas pelo extinto 8º Batalhão de Infantaria Motorizado (BIMtz). Nos anos seguintes, os livreiros trouxeram suas próprias tendas. “Não havia recursos suficientes”, declara Irene. Em 1988, em parceria com a Prefeitura Municipal, através da Secretaria de Turismo, Esporte e Lazer (SMTEL), foram construídas cinco barracas de madeira, conforme a estrutura das usadas na Feira do Livro de Porto Alegre. A sonorização foi substituída. As fitas K7, antes trazidas de casa pelos organizadores, deixaram de fazer parte da Feira. No mesmo ano, iniciou-se a parceria com o Sesc, principal entidade responsável pela promoção até hoje.

Também passaram a apoiar a Feira do Livro a Prefeitura Municipal e a Associação Pró-cultura de Santa Cruz do Sul. A partir daquele momento houve o incremento de atividades paralelas, em especial, dirigidas ao público infantil. Um dos destaques durante o período em que a 6ª DE esteve na organização era a condição estabelecida para os livreiros participarem: as obras expostas só poderiam ser vendidas com 20% de desconto. “No início, tudo era muito precário e longe da infraestrutura que existe hoje”, afirma Schneider. Para Irene, a evolução “foi trabalho de formiguinha”. Segundo dados do Sesc, nas três primeiras edições o número de visitantes não chegou a 3 mil por ano. Mas, aos poucos, ele multiplicou-se e, em sua 19ª edição, alcançou o recorde de 70 mil pessoas (infográfico). A comercialização das publicações que no primeiro ano foi de apenas 480, também cresceu e, em 2006, chegou ao pico de 44.500 exemplares vendidos. Esse resultado deve-se ao comprometimento de seus realizadores e apoiadores, que variaram durante as últimas duas décadas e meia. Além da Pró-cultura, o Serviço Social da Indústria (Sesi), a Secretaria Municipal de Educação e Cultura (Smec), a Associação das Livrarias do Vale do Rio Pardo (Alivarp) e o Grupo Gazeta de Comunicações também fizeram parte da promoção em algumas edições. Em 2005 foi criado um comitê organizador e, desde 2006, o comando está por conta do Sesc, da Prefeitura Municipal e da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).


Mudanças tornam Feira mais organizada e atraente Durante nove dias os mais variados gêneros literários são expostos ao ar livre no coração da cidade. Propagar cultura e levar o livro até a mão do leitor eram os principais objetivos da Feira do Livro. “No início, o porquê da sua realização era desenvolver o interesse pela leitura”, conta Irene Baumhardt. “Esta deve ser uma das finalidades até hoje.” Enquanto a intenção é a mesma, outros aspectos mudaram. Entre eles, a infraestrutura. Os lugares dos expositores foram ajustados para garantir maior comodidade ao público e para todos os livreiros serem privilegiados de forma igual. Hoje, 21 bancas cercam o chafariz da Praça Getúlio Vargas, local de origem e sede definitiva desde 2005. “Havia muita oscilação entre os lugares de realização. Agora está definido”, diz o professor e publicitário Rudinei Kopp, envolvido na organização há sete anos. Outra inovação foi a adoção do uso de um patrono, em 2000, e de um escritor homenageado, em 2009 (infográfico). “A Feira de hoje nos dá a possibilidade de encontro com vários grandes autores”, afirma Elenor Schneider. “O maior salto foi pensar grande nesse sentido”, considera o professor. Além de autores reconhecidos nacional e internacionalmente, talentos locais também ganham espaço através da seleção do escritor homenageado. De igual modo, eventos paralelos como os projetos Encontros com o Professor e Encontro com o Patrono surgiram para garantir cada vez mais a interação do escritor com o público. “Além de gerar algum impacto literário, é importante o autor comparecer além do dia de abertura”, salienta Roberta Corrêa Pereira, gerente do Sesc Santa Cruz do Sul. A intenção é cada vez mais aumentar a participação do patrono no evento, como tem acontecido nos últimos anos. Outras atrações como A hora do conto, realizada pela escritora Valquíria

Ayres Garcia, e Jogo de Xadrez, idealizado pelo bibliotecário Jair Teves, também divertem o público. “No início, a Biblioteca Municipal levava parte do seu acervo para a praça”, comenta Teves, “mas desenvolver atividades lúdicas envolvidas com a leitura ainda é a melhor saída”, destaca. Com o intuito de tornar o evento cada vez mais atraente e diversificado, o comitê organizador trabalha o ano todo na busca por novidades. Para tudo correr conforme o planejado são feitas reuniões quinzenais, onde todos os assuntos pertinentes à realização da edição seguinte são discutidos. Para editor da Editora Gazeta, Romar Beling, participante desses encontros desde 2009, “a Feira se tornou um evento representativo para toda a região”. Pretextos para seguir com o movimento de cultura e lazer não faltam. A motivação é a aceitação do público, fiel à principal atração literária da cidade. Para não decepcionar, este ano também há inovações. Uma delas é o lançamento do livro Nem te conto, idealizado por Kopp e Beling. A publicação traz série de contos relacionados a Santa Cruz do Sul, escritos por 30 autores. “O pano de fundo de todas as histórias é a cidade”, adianta Kopp. Neste ano o posto de patrono será ocupado pelo escritor chileno Antonio Skármeta, autor da obra O carteiro e o poeta, adaptada para o cinema em 1994. Formado em Filosofia e Literatura, Skármeta trabalhou como professor e se dedicou ao cinema em paralelo à carreira de escritor. Valesca de Assis, patrona em 2000, será a escritora homenageada deste ano. A santa-cruzense estreou como escritora com a publicação de A valsa da medusa, em 1990, e hoje ministra oficinas com ênfase no desbloqueio para a escrita criativa.

FEIRA DO LIVRO

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Padrinho chileno

Santa Cruz recebe A Patrono da 25ª Feira do Livro de Santa Cruz do Sul diz-se honrado em participar do maior evento literário da cidade

AUGUSTO DALPIAZ FREDERICO SILVA RAFAELA SCHNEIDER REPORTAGEM

“É muito estimulante para um escritor ser escolhido como patrono da feira do livro. É uma honra que aceito com alegria”. Desta forma pronunciou-se Antonio Skármeta, patrono da 25ª Feira do Livro de Santa Cruz do Sul, ao ser procurado pela reportagem para uma entrevista. O chileno de 72 anos estará presente no evento, que ocorre de 25 de agosto a 2 de setembro. Mais de 15 obras literárias, algumas adaptadas para o cinema e traduzidas para diversas lín-

Quando o senhor começou a escrever? Comecei a escrever quando era criança em Buenos Aires, primeiro poemas e canções e, mais tarde, contos. Depois parei e somente li muito. Mas aos dezesseis anos eu já tinha certeza de que queria ser escritor e desse momento em diante não parei de escrever até hoje. Por sorte, quase todos os meus romances foram publicadas no Brasil. Meu pai foi muito importante no meu desenvolvimento porque me estimulou criar desde criança.

PATRONO

Em seus livros, há muitas referências ao Chile. Os fatores são autobiográficos? As experiências pessoais costumam dar autenticidade e calor aos relatos. Às vezes recorro às emoções que tive para tornar mais expressivas as ficções que escrevo.

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guas, fazem parte da vida do escritor. Entre elas está O Carteiro e o Poeta. O Unicom conversou com Skármeta para saber dos seus vínculos com a literatura, o cinema e o seu país de origem. Na entrevista descobriu-se que ele está ansioso para conhecer Santa Cruz do Sul. “Sei de seus belos atrativos turísticos e da influência alemã na região”, pronunciou-se. Conheça o patrono através da entrevista que você confere em português na página 6 e em espanhol, na 7.

No livro “La Composición” (“A Redação”, em português) há muitos vínculos com o futebol. Como é seu contato com este esporte? Gosto muito de futebol. Nunca fui bom jogador, de modo que me castigavam nas peladas do bairro me colocando como goleiro. Segurei a bola tantas vezes com as mãos, que decidi que seria melhor ser jogador de basquete. Tenho inclusive um conto que se chama “Basketball”. Como foi sua relação com Pablo Neruda? Tem algo a ver com Mario Jiménez e Neruda em Ardiente Paciencia (“O Carteiro e o Poeta”, em português)? Foi uma conversa muito alegre com ele. Cheio de ironia, de citações de poemas, passeios pela praia e taças de vinho. Uma pessoa calorosa e inspiradora. A adaptação de O Carteiro e o Poeta para o filme foi o que o senhor imaginava? Qual é a sensação de ver um filme baseado em uma de suas obras ganhar um Oscar? O filme de Michael Radford foi um sucesso mundial e fiquei muito feliz quando teve cinco indicações ao Oscar. O diretor conseguiu manter muito bem o equilíbrio entre drama, humor, poesia e política existente no romance. Como foi ter que presenciar o momento mais triste da história do Chile, que foi a ditadura de Pinochet? Foi um regime repressivo e arbitrário. Houve assassinatos e vio-

lação dos direitos humanos. Mas o povo chileno encontrou o caminho para afastá-lo. Eu conto alguma coisa sobre isto no meu último romance “Los días del Arcoíris” (em português, Os dias do Arco-íris). E hoje, como vê o momento que o Chile está passando? De democracia estável, de uma economia razoavelmente sólida e de um processo muito lento de redistribuição da riqueza. Por sorte, nossos estudantes estão atentos e se rebelam contra as injustiças. Qual é a sua sensação ao ser homenageado na Feira do Livro de Santa Cruz do Sul? É muito estimulante para um escritor ser escolhido como patrono da feira do livro. É uma honra que aceito com alegria. Além disso, tenho enorme curiosidade para estar em Santa Cruz do Sul: sei de seus belos atrativos turísticos e da influência alemã na região. Tenho a impressão que poderia ser uma excelente cidade para que algum diretor brasileiro se entusiasmasse para filmar ali meu romance Um pai de cinema (Ed. Record). O povoado original desta obra no Chile é Contulmo. Quero ver com meus próprios olhos se há semelhanças com Santa Cruz do Sul. Além disso, gosto da ideia de ir a um lugar onde moram alguns poetas jovens muito bons como Mauro Ulrich, Romar Beling e Daniela Damaris. Espero conhecêlos pessoalmente. Tradução realizada por Hildegard Susana Jung


Antonio Skármeta ¿Cuando comenzó a escribir? Comencé a escribir cuando niño en Buenos Aires, primero poemas y canciones, luego cuentos. Después paré y sólo leí mucho. Pero a los dieciséis años estaba completamente seguro de que quería ser escritor y desde allí en adelante no dejé de escribir hasta hoy. Por suerte casi todas mis novelas están publicadas en Brasil. Importante en mi desarrollo fue mi padre que me estimuló a ser un creador desde niño.

Resenha

O Carteiro e o Poeta

¿En sus libros, tiene muchas referencias a Chile. Los factores son autobiográficas? Las experiencias personales suelen dar autenticidad y calidez a los relatos. A veces acudo a las emociones que he tenido para hacer más expresivas las ficciones que escribo.

¿La adaptación del “Ardiente paciencia” para la película, fue lo que usted imaginabas? ¿Cuál es la sensación de una película basada en uno de sus obras ganar un Oscar? El film de Michael Radford fue un éxito mundial y fui muy feliz cuando tuvo cinco nominaciones al Oscar. El director logró mantener muy bien el equilibrio de drama, humor, poesía y política que tiene la novela.

¿En el libro “La Composicion” tiene muchos vínculos con el fútbol. ¿Cómo es su contacto con este deporte? Me gusta mucho el fútbol. Nunca fui bueno para jugarlo, de modo que me castigaban en las pichangas de barrio poniéndome de arquero. Tomé tantas veces la pelota con las manos, que decidí que mejor sería jugador de basketball. Tengo un cuento incluso

¿Como fue ter de hacer frente a el momento más triste de la historia de Chile, que fue la dictadura de Pinochet? Fue un régimen represivo y arbitrario. Se asesinó y se violaron los derechos humanos. Pero el pueblo chileno encontró el camino para desplazarlo. Algo de esto cuento en mi última novela “Los días del Arcoíris”.

¿Y hoy, cómo ves el momento en que pasa a Chile? La democracia estable, una economía razonablemente sólida, un proceso muy lento de redistribución de la riqueza. Por suerte nuestros estudiantes están atentos y rebeldes contra las injusticias. ¿Cuál es su sensación de ser honrado en la Feria del Libro de Santa Cruz do Sul? Es muy estimulante para un escritor ser elegido patrono de la feria del libro. Es un honor que acepto con alegría. Además tengo enorme curiosidad por estar en Santa Cruz do Sul: sé de sus bellos atractivos turísticos y de la influencia alemana en la zona. Tengo la impresión que podría ser una excelente ciudad para que algún director brasilero se entusiasme para filmar allí mi novela “Um pai de cinema” (Ed. Record).El pueblo original de esta obra en Chile, es Contulmo. Quiero ver con mis propios ojos si hay semejanzas con Santa Cruz do Sul. Además me gusta ir a un lugar donde viven algunos poetas jóvenes muy buenos como Mauro Ulrich, Romar Beling, y Daniela Damaris. Espero conocerlos personalmente.

Entrevista realizada por Augusto Dalpiaz

Do Chile para o Brasil Esteban Antonio Skármeta Branicic nasceu no dia 7 de novembro de 1940, em Antofagasta, Chile. Na Universidade do Chile (Universidad De Chile) estudou filosofia e literatura e, em 1973, tornou-se professor de literatura na instituição, além de diretor teatral. Realizou sua graduação na Universidade de Columbia (Columbia University), Estados Unidos. Devido ao Golpe Militar ocorrido no Chile em 1973, Skármeta precisou sair do país e refugiar-se na Argentina durante um ano, onde escreveu o livro de relatos Tiro libre (1973). A Alemanha foi seu refúgio durante 15 anos, entre 1974 e 1989. Nesse país europeu, o autor dedicou-se ao cinema e trabalhou como professor na Academia alemã de cinema e televisão. Também,

enquanto estava na Alemanha, escreveu a história de O Carteiro e o Poeta (resenha), em 1985. Após 16 anos de exílio, voltou ao Chile. Antonio Skármeta já recebeu diversos prêmios. Dentre eles destacam-se o Prêmio Casa das Américas, em 1969, pelo livro Desnudo en el Tejado e o Prêmio Municipal de Literatura Infantil e Juvenil, pelo romance El baile de la victoria, 2003. O autor foi nomeado embaixador do Chile na Alemanha em 2000. Skármeta tornou-se um dos ícones do povo chileno pelo modo peculiar como escreve críticas sociais no em seus livros. a

+ i r ei r a f n Co e da f sit

PATRONO

Mario Jimenez é morador de Ilha Negra, litoral do Chile, sem grandes pretensões. Filho de pescador, não quer seguir a carreira de seu pai, deixando-o frustrado. Por ser a única pessoa que sabe ler na ilha, consegue o emprego de carteiro da localidade. Como a cidade é pequena, somente com analfabetos, seu único cliente é Pablo Neruda, que recebe diversas cartas diariamente. Ao entregar suas correspondências e, por insistência do jovem, o carteiro e o poeta tornamse amigos e confidentes. Nessa relação, Neruda ajuda Mario a entender metáforas e poesias e o auxilia em suas conquistas amorosas. No período em que se conhecem, a história dos dois passa por momentos complicados devido à realidade do Chile, com a queda da democracia e a ascensão de Pinochet. O Carteiro e o Poeta é um livro que fala de relações não convencionais, seja entre amigos ou entre homem e mulher.

que se llama “Basketball” ¿Cómo fue tu relación con Pablo Neruda? Tiene que ver con Mario Jiménez y Neruda en “Ardiente paciencia”? Fue un diálogo muy alegre con él. Lleno de ironía, de citas de poemas, paseos por la playa, y copas de vino. Una persona cálida e inspiradora.

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Vício da leitura envolve paixão Ângela não abandona seus livros nem mesmo no trabalho

Histórias de quem é apaixonado por livros e tem neles os seus melhores amigos

PAIXÃO

LUIZA ADORNA REPORTAGEM

De todos os estilos, de 100 a 800 páginas. Não importa o tamanho e, muito menos, o estilo do livro. Ler é a única exigência do coração daqueles chamados viciados em histórias, no sentido de ficarem concentrados ao mundo das letras, linhas, páginas e pontos-finais. Sentir satisfação no fazer isso. Acompanhar do começo ao fim, algo criado por alguém desconhecido, é ter a oportunidade de conhecer mais a vida e os gostos das pessoas. E existem várias delas que pensam assim. Para leitores compulsivos como Andressa Bandeira, acadêmica do curso de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), “ler proporciona uma sensação única e maravilhosa”. Estudante do 4º semestre de Jornalismo, ela diz ter começado a gostar aos 11 anos, quando sua mãe se tornou sua professora de literatura. “Ela tinha uma biblioteca, na verdade era um armário repleto de livros, onde os alunos podiam escolher os que quisessem. E aí, era só alegria!”. Andressa explica: “Quando comecei a ler Harry Potter, não larguei mais a companhia dos livros.” Entre as diversas histórias proporcionadas por seu hábito, a arroiotigrense lembra uma ocasião na feira de Sobradinho. “Eu estava maluca atrás de uma publicação, desatenta para todo o resto. Mas, como na Feira tinha duas livrarias expondo, fui à maior e, mesmo depois de revirá-la, não a encontrei”. Desanimada, Andressa ainda saiu de lá com ou-

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Andressa ‘viaja’ ao ler Sherlock Holmes

tras obras. Por sugestão de sua mãe, foi na segunda livraria e começou a procurar. “Rata de biblioteca é assim.” Foi, então, que observou atrás da coleção Jovem Sherlock Holmes sua grande paixão – o que tanto desejava. “Todos sabem o quanto gosto de tudo que envolva Holmes. Fiquei impressionada ao encontrar o que tanto queria, atrás de algo que tanto amo. Saí de lá feliz e realizada.” Apaixonada pelas histórias do detetive, Andressa tem como livro de cabeceira as coletâneas de Sherlock Holmes.. “Eu queria ter escrito esse Holmes personagem. Pode parecer raso na primeira leitura, mas é, na verdade, cheio de nuances e detalhes. Ele poderia tranquilamente ter existido. Sem contar que se eu pudesse entrevistar o Sir Arthur Conan Doyle, autor da série, passaríamos um bom tempo falando do senhor Holmes, com certeza.” Ter escolhido jornalismo deve-se, também, ao hábito adquirido. “Sempre gostei de escrever, antes mesmo de incorporar a leitura em minha vida. Mas, com a paixão por ela, minha vontade de contar histórias, aprender e descobrir aumentaram. Foi como uma bolinha de neve, uma coisa levou a outra.” Assim como Andressa, Ângela Cristina Bartmann, agente administrati-

va da Prefeitura de Paraíso do Sul, lê desde criança. “O primeiro livro que ganhei foi uma Bíblia infantil com gravuras. Tinha 7 anos quando recebi o presente de minha prima Lizete.” Além disso, sempre teve acesso a revistas. “Comecei a ler e não parei mais”. Graduada em Gestão Pública, Ângela não tem preferência específica. “Gosto de ler, simplesmente: de Luis Fernando Veríssimo, Gabriel Garcia Márquez até Agatha Christie.” Para a agente administrativa, não existe regra. “Leio também livros de gestão pública, elaboração de projetos, sustentabilidade e contabilidade pública.” Como livro de cabeceira, ela elege Heróis de Verdade, de Roberto Shinyashiki. “Perdi as contas de quantas vezes o li.” De George R.R. Marin, o livro A Guerra dos Tronos é seu companheiro atual. “A leitura estimula o modo de falar das pessoas. E escrever também faz parte desse processo.” Ângela, apaixonada, já esteve presente em feiras nas cidades de Porto Alegre, Agudo, Santa Maria assim como em Paraíso do Sul, cidade onde reside. Martha Medeiros já dizia: “Tem gente que diz que uma casa sem cortinas é uma casa nua. Eu penso o mesmo de uma casa sem livros. É como se fosse habitada por pessoas sem imaginação, que não tem histórias pra contar.” E, pelo jeito, esse pensamento não é apenas da escritora gaúcha.


Quando a leitura aproxima destinos Relação proporcionada pela literatura é explorada no slogan da 25ª Feira do Livro

ISADORA TRILHA REPORTAGEM

Unir-se a pessoas, ideias e culturas torna-se fácil ao ler um livro. Não é à toa que o slogan escolhido para a 25ª Feira do Livro de Santa Cruz do Sul traz isso à tona. A frase Ler aproxima simplifica todo o espírito comunicativo e aconchegante do evento e de sua principal estrela: o livro. Roberta Pereira, gerente do Serviço Social do Comércio (Sesc) de Santa Cruz do Sul, declara sua satisfação com a escolha. “Achei bárbaro porque, assim como a leitura, a Feira aproxima pessoas e culturas”. Ela também reforça o caráter moderno da frase, uma vez que as novas tecnologias difundem a leitura para qualquer lugar com mais rapidez. Downloads de livros podem ser feitos em computadores e tablets, o que facilita esse processo. Quem também gostou do slogan foi Laura Gomes, estudante de jornalismo da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). “Por mais estranho que pareça, ele faz todo o sentido.” Que a leitura configura momento de interação entre leitor e livro, todos sabem. Porém, tornou-se comum conversar com outras pessoas - inclusive quem não leu a mesma obra - sobre a história em si. Laura concorda e con-

ta já ter iniciado amizades em função disso. “Ler é uma atividade, na maioria das vezes, solitária. Porém, você sempre vai querer discutir com alguém sobre o que leu. Não importa se a pessoa leu o livro ou não, se você conhece ela ou não. Já fiz muitos amigos conversando sobre literatura.” Se uma conversa sobre histórias e suas personagens pode criar laços, imagine quando o mesmo gosto por livros é dividido entre pessoas que nunca sonhavam em se falar antes. Foi o que aconteceu há seis anos com Letícia Lorensini, de 20 anos, e Renan Dalmoro, de 19, ambos de Encantado. Na época, Letícia cursava a oitava série na Escola Estadual de Ensino Fundamental Farrapos. Ela acompanhou cada lançamento da série Harry Potter e admite ser fã até hoje. Foi nesse período que a estudante descobriu existir em sua escola outros fãs da saga. Eles se reuniam para ler e discutir um possível final para a história. Renan, que estudava na sétima série, também integrava o grupo. O assíduo seguidor de cada novidade lançada por J.K. Rowling logo começou a amizade com Letícia. “Me identifiquei muito com ela. Além da

paixão pelo Harry, gostávamos das mesmas bandas e filmes”, conta Renan. Os dois se encontravam sempre que podiam para desfrutar de seu vício em comum. “Esperávamos ansiosos pelo lançamento dos livros. Chegávamos ao ponto de imprimir versões traduzidas por fãs da internet, tamanho era o nosso desespero”, recorda Letícia. Hoje Letícia é acadêmica do curso de Produção em Mídia Audiovisual da Unisc e Renan faz cursinho preparatório para o Enem. Ele sonha cursar Psicologia em uma universidade federal. A amizade permeada por bruxaria, feitiços, vilões e mocinhos continua viva. A internet tornou-se o principal meio de comunicação entre eles. “Ainda nos pegamos falando dos livros ou relembrando o tempo em que íamos ao cinema juntos para assistir os filmes da série”, lembra Letícia. Sobre o slogan da Feira deste ano, Renan aponta que a leitura só traz benefícios. “Ler é, muitas vezes, um refúgio. Quando encontramos alguém que se refugia nos mesmos livros que nós, nos aproximamos inevitavelmente.”

DESTINO

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Leitura estimula jovens à escrita Acadêmicos da Unisc revelam suas aptidões para a escrita e produção de livros

LEITURA

EDUARDA PAVANATTO REPORTAGEM

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Um bloquinho e uma caneta. Bianca Cardoso precisou apenas disso para dar início ao seu livro, escrito quando ainda estava no ensino médio. A paixão da acadêmica de jornalismo da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) pela escrita começou quando tinha oito anos, após ganhar de aniversário um diário. “Eu escrevia como forma de desabafar, de colocar para fora coisas que eu tinha guardadas dentro de mim.” Na infância, Bianca era fã de gibis como Turma da Mônica e Tio Patinhas. “Conforme eu fui amadurecendo, o gosto pela leitura também foi”, explica. Com isso, começou a se interessar por livros que abordassem temas sobre relacionamentos para, mais tarde, escrever seu próprio romance. “A história do livro era, na verdade, um pouco do que eu queria para mim. Eu queria fugir da minha realidade e o único jeito disso acontecer era quando eu escrevia”. Bianca dedicou oito meses para a produção do seu livro, o que lhe causou problemas na escola. “Eu só pensava em escrever. Ao invés de prestar atenção nas aulas, por exemplo, eu pegava meu bloquinho e uma caneta e ficava ali, naquele mundinho onde eu criava as coisas de acordo com o meu gosto.” Foi esse o principal motivo para que a estudante repetisse de ano. Compartilha o mesmo gosto pela leitura e escrita, a acadêmica de 19 anos do 1º semestre de jornalismo, também da Unisc, Angelita Borges. Aos 17 ganhou o concurso Antologia Poética, realizado pelo Departamento Municipal de Cultura de Santa Cruz do Sul. Este era dividido por gêneros e os participantes podiam inscrever seus contos, poesias e

crônicas. Angelita participou dos três e venceu nas categorias conto e poesia. O prêmio? Um livro publicado com os textos dos vencedores. Denominado Mona Lisa, o conto possui duas páginas e traz como tema o relacionamento de uma jovem modelo e um homem 30 anos mais velho. “Apesar da idade, era a única pessoa que inflava o seu ego. Ele a chamava de Mona Lisa.” Incentivada pela avó, que a ensinou a ler antes mesmo de entrar para a escola, a acadêmica já produziu quatro novelas e mais de 30 contos. “Desde criança minha avó já me incentivava a ler. Ela tinha várias revistas e livros em casa. Foi por isso, também, que comecei a escrever contos e outros textos mais elaborados com 13 anos de idade.” Além da avó, Angelita ressaltou o incentivo da mãe e da professora de português da época. O livro, com os textos dos vencedores, foi lançado na 23ª Feira do Livro de Santa Cruz do Sul, em 2010. Ao contrário das duas alunas, o estudante do 5º semestre de Direito da Unisc, Nathan Ritzel dos Santos, dá outro foco para os seus textos. “Eu sempre tive aptidão maior para escrever coisas sombrias, mais para o lado Edgar Allan Poe”, diz. Seu livro, Fragmentos Dissonantes, formado por diversos contos, retrata isso. A proposta surgiu a partir do desejo de dar continuidade a alguns pensamentos. “Escrevi o livro, pois tinha ideias que eu achava interessantes e eu queria construir uma coisa maior com isso.” Nathan começou a ler

aos sete anos. Primeiro, gibis e, depois, narrativas mais longas, chegando a autores como Howard Phillips Lovecraft, Douglas Adams e Edgar Allan Poe. Seu segundo livro, ainda não finalizado, tem como base os pensamentos de Nietzsche e Maquiavel, de que o homem, em sua essência, é algo ruim e traiçoeiro. A história foi idealizada com a ajuda do acadêmico de Publicidade e Propaganda Guilherme Serveira dos Santos, da Unisc. Ritzel foi autor de um blog, hoje desabilitado, mas que lhe rendeu vários leitores e incentivadores, chamado Hipocrisia Contraditória. “O incentivo é o ar do escritor ou, pelo menos, dos escritores narcisistas como eu, que precisam ver sua obra apreciada”. Em fevereiro deste ano foi convidado para escrever crônicas para o jornal Arauto, de Vera Cruz. Quando o assunto é a publicação desses trabalhos, os estudantes divergem. Nathan Ritzel relata que já estuda orçamentos de editoras e “as vantagens de uma para a outra”. Angelita Borges espera o momento de eles estarem “bons o suficiente” para publicar. Já Bianca Cardoso nem pensa nisso. “Essas coisas eu não gosto de mostrar, são minhas. Foi algo que senti naquela época e não gostaria que alguém visse”, confessa.


Poucas letras também fazem história Literatura que dá asas à imaginação, aos poucos os minicontos ganham o gosto dos leitores

MARTINA SCHERER REPORTAGEM

200 palavras, 150 caracteres ou apenas uma linha. Com este pequeno conjunto de letras, algumas pessoas já conseguiriam escrever uma história com início, meio e fim. São os chamados minicontos, produção que tem sido associada ao minimalismo. Toda essa história iniciou com o guatemalteco Augusto Monterroso, que escreveu “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”, um miniconto que soma 37 letras. Na verdade, não existem regras rígidas quanto a esse número: alguns o definem como contendo menos de 50, enquanto outros consideram 300 caracteres um bom número. O desafio é construir o texto com menos letras possível. Pela definição do professor Elenor José Schneider, do Departamento de Letras da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), as características de um miniconto são as mesmas de um conto, mas, com tudo mais reduzido. São elas: a concisão, a narratividade, a totalidade, o subtexto, a ausência de descrição e o retrato de pedaços da vida. “Não cabem muitas personagens, grandes cenários. Tudo é pequeno”, esclarece. Porém, enfatiza que, com tão pouco espaço para escrever, só alguns conseguem criar boas histórias. Tudo fica muito implícito e, por isso, esse tipo de leitura exige autores maduros e

qualificados e leitores capazes de refletir sobre. A popularização do miniconto tem muito a ver com as tecnologias de comunicação. Esses espaços abriram oportunidades para todos. “Se antes era muito difícil ter obras aceitas por alguma editora, hoje todos podem criar seus espaços, publicar”, explica Schneider. O texto torna-se bastante próximo do ritmo de vida dos jovens, que interagem com várias coisas ao mesmo tempo. Assim como a velocidade da informação, o miniconto é experiência literária instantânea. Tiago Moralles, redator publicitário paulista, é a prova disso. Ele conheceu as micronarrativas através de alguns escritores que lhe mandavam coletivos no Twitter e quando viu “também estava produzindo”. Moralles compara a micronarrativa a uma fotografia, que é pequeno retrato de uma grande cena: o miniconto é apenas fragmento de história. Ora tem início, ora tem meio, ora tem fim. “É estranha essa questão de ter início, meio e fim dentro de uma história que, às vezes, não tem nem tamanho para começar”. Porém alerta: “no início achamos que tudo são micronarrativas, mas não”. No meio existem frases, versos, aforismos, pensamentos e apenas aos poucos

se percebe que aquilo não é história. “Aí começa a sessão desapego. E um monte de produção vai para o lixo”. A acadêmica do 7º semestre de Publicidade e Propaganda da Unisc, Taíssi Alessandra Cardoso, também teve seu primeiro contato com a literatura minimalista através do Twitter. Em 2011, ao participar de uma oficina chamada Lego de Palavras no Intercom Sul em Londrina/PR, ela deveria escrever, limitada pelos 140 caracteres desta rede social, uma espécie de crônica. O que fascina a estudante é a capacidade de os autores construírem enredos consistentes em espaços tão curtos. Além disso, ela se interessa pela subjetividade dessas construções: “são narrativas nas quais as entrelinhas dizem mais do que aquilo que foi escrito”. Os minicontos são resultado de trabalho árduo em que se enxuga a todo instante: cortam-se excessos, vírgulas e pontos. Reduz-se um texto que poderia se desenvolver como um belo romance. Mas, o papel principal cabe aos leitores: sem a interpretação destes, a história parece vazia. Diferente de outras construções literárias, a imaginação entra em cena. No entanto, Elenor Schneider deixa um recado: “Minicontos são lanches rápidos. Sustentam por um tempo. Comida mais consistente tem que ler o tempo todo”.

Alguns toques para você se aventurar no miniconto

 Pode ter humor, mas não é uma piada.  O subtexto é o melhor do miniconto, é o que não está dito, aquilo que cabe ao leitor descobrir, imaginar.  Q uanto mais leituras possíveis, melhor o miniconto.  Q ualquer assunto pode ser inspiração para um bom miniconto: contos maiores, notícias de jornal, a observação da própria vida. Mas, sobretudo, a leitura e o conhecimento.  Faça tudo diferente, tente, invente: o miniconto é também a síntese da criatividade.

MINICONTOS

 Miniconto é um conto pequeno. Portanto deve ter as características do conto: narratividade, isto é, narrador, personagens, espaço e tempo. Efeito. Intensidade. Tensão.  Isso tudo com número limitado de caracteres. Muitos autores chamam de minicontos aqueles com até 200 caracteres, microcontos com até 150 caracteres e nanocontos com até 50 caracteres.  Caractere é qualquer letra ou sinal de pontuação. O título não entra na contagem.  Os minicontos são ficção e têm como objetivo envolver o leitor no enredo.  Use um bom título, ele é uma isca para seu leitor.

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ra a nf i C o si te d no ei r a f

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Jornal Unicom - Feira do Livro