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REVISTA EXPERIMENTAL DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA UNISC - SANTA CRUZ DO SUL VOLUME 9 nº 9/dezembro de 2013

Exceção

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Expediente

Quem fez a Exceção?

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Rui Borgmann Repórter e revisão final

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Augusto Dalpiaz Repórter e produtor

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Luis Gustavo Finger Repórter e subeditor

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Vania Soares Repórter e subeditora

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Júlio Assmann Repórter e produtor

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Thiago Jacob Burger Repórter

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Ani Camila Jantsch Repórter e editora on-line

Exceção é a revista-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz do Sul. Ela é desenvolvida pelos acadêmicos da disciplina de Jornalismo de Revista, ministrado pelo professor Demétrio de Azeredo, em parceria com alunos de outras habilitações, na expectativa de exercitar todas as vertentes comunicacionais. Blog: http://revistaexcecao.blogspot.com.br/ Facebook: /RevistaExcecao Unisc Universidade de Santa Cruz do Sul

Av. Independência, 2293 - Bairro Universitário Santa Cruz do Sul - RS / Brasil - CEP: 96815-900 Fone: (51) 3717 7300 Site: www.unisc.br

Tiragem: 500 exemplares Capa: Couchê fosco 170g Miolo: Couchê fosco 90g Gráfica: Grafocem

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Demétrio Soster Editor chefe

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Jonatan Trindade Repórter e revisor

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Thamires Waechter Repórter e produtora

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Gabriela Meller

Repórter e editora

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Daiana Carpes Diagramadora

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Alan Faleiro

Repórter e revisor

14 Laura Gomes Repórter e editora de fotografia 2

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Editorial

Uma Revista de “y” a “z”

As convergências marcaram essa edição. A começar pelas gerações, temos em nossa equipe geração “y” e “z”. Décadas separam nossos registros de nascimento, mas trazem diferentes aprendizados, pontos de vista. Há aqueles mais conservadores. Não querem mudar uma vírgula, uma expressão, os da geração “y”. Os transformadores, moderninhos, da “z”. Os mais saidinhos da “y” que entusiasmam nossas manhãs de produção e fazem dessa revista a Exceção. Produzimos muitas reportagens. O básico, como arroz e feijão, mas fomos além. Ousamos, “não seríamos diferentes”, colocamos nas páginas a nossa cara, ela mesmo, para serem interpretadas por quem abrir as próximas 60 páginas. Pra isso montamos roteiro,

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equipe de produção, cenografia, maquiagem, fotografamos muito e fugimos das regras. O mais curioso nessa disciplina – Jornalismo de Revista é a relação que construímos. Relação esta, entre colegas da graduação, alunos de diferentes semestre e habilitações da nossa “Comunicação Social” interagindo em busca do mesmo objetivo, a construção desta edição. Mais que colegas, gerações que compõe uma equipe. Aqui unimos nossos aprendizados. Essa mistura deixou características marcantes, colocando um tempero especial. Transformando nosso feijão em feijoada. Este “prato”, nenhuma cozinheira, tendo a receita em mãos, conseguirá repetir, a nossa revista Exceção.

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Sumário 40

Ensaios

Formandos de Fotografia mostram seus trabalhos

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Um rio de histórias

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O cigarro do futuro

Eu so

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Con todo


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Quanto mais antigo e original melhor

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Navegando contra a maré

A felicidade pode ser aprendida

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A voz que vem do poste

O sorriso do rei permanece

ou o seu futuro

nversas por os os lados

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A Ferrari dos tropeiros

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Crônicas

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História em quadrinhos

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Em terra de Oktoberfest, quem fala italiano é exceção5


Um rio de histórias Martins já viveu situações de drama, suspense e até terror no cenário chamado Jacuí Júlio Assmann Reportagem e fotografia

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Jacuí é referência em todo o Rio Grande do Sul, pois conforme o Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Alto Jacuí (Coaju) é o segundo rio mais extenso do Estado. O Jacuí também é extremamente necessário aos produtores de arroz no sistema de irrigação das lavouras. Mas você já pensou no número de vezes que os 710 quilômetros de extensão total do rio serviram como cenário de histórias protagonizadas por personagens da vida real, como é o caso do próprio João Martins? De seus 57 anos de vida, 27 são dedicados à atividade de pesca e 11 ao mergulho, profissões que herdou do pai, pois como ele mesmo disse, “a fruta não cai longe do pé”. Para a nossa conversa, Martins me recepcionou na sala de estar de sua casa e, muito à vontade, com a voz grave e rouca, começou a falar sobre suas aventuras vividas na maioria das vezes, embaixo d’água. Sobre opção profissional dele, o pescador disse que a falta de estudo no passado contribuiu para sua permanência em trabalhos relacionados a rios e ao mar. Ele contou que iniciou como pescador no Rio Jacuí, mas também já trabalhou na construção e na limpeza das usinas hidrelétricas de Itaúba e a de Passo Real, ambas na cidade de Salto do Jacuí, na abertura do canal do Rio Taquari e até nas águas do mar, na cidade de Rio Grande. O pescador recorda que entre 1976 e 1977 trabalhouno Rio Uruguai. Neste local ele quase perdeu a vida ao ter ficado preso durante oito horas embaixo de um dos pilares da ponte. Já em 1979, Trindade foi a São Paulo para trabalhar em uma equipe que recuperava barcos afundados e fazia a limpeza dos rios Tietê e Tamanduateí. Naquela época, ele sofreu um acidente e quase perdeu a vida no momento em que mergulhava no Tamanduateí. Trindade lembra que a mangueira ligada ao cilindro de oxigênio que ele utilizava cortou em uma pedra. O mergulhador foi atendido em um dos hospitais da cidade, mas logo se recuperou e foi liberado. João também residiu em Santos, em São Paulo e em Pato Branco, no Paraná.

A esposa Janice Silveira Trindade também recorda com ele que o dia 13 de outubro de 1987 poderia ter acabado em tragédia, pois o barco em que o casal tripulava juntamente com a filha Aline, que na época tinha apenas dois anos, afundou no Rio Jacuí. Como Janice não sabia nadar, João nadava com um braço e com o outro puxava a esposa que, por sua vez, segurava a criança desacordada. Após ter sido tirada da água, Aline foi reanimada. João e Janice conseguiram salvar suas próprias vidas e a da filha, mas não desejam este tipo de experiência a ninguém. Dedicado às suas profissões, Trindade realizou o curso de mergulhador profissional e possuía a Carteira Marítima que autoriza a condução de barcos, tanto que ele já fez diversas vezes o percurso de Rio Pardo até Porto Alegre atrav és do Jacuí. Apesar de sua trajetória em diversos locais e das recordações, um dos momentos mais marcantes da profissão de Martins como mergulhador foi na reconstrução da ponte do Rio Jacuí em Rio Pardo, em 1992, quando um barco com altura elevada derrubou parte do pavimento. E como todo bom filho a casa torna, João voltou para Rio Pardo e desde então trabalha somente como pescador no Rio Jacuí. Mesmo com a vasta experiência em profissões que exige habilidade e muito conhecimento da água, João afirma que é difícil a vida de pescador, pois além de manter o barco, motor e equipamento necessário para a atividade e ficar longe de casa por quase uma semana, várias espécies de peixes estão em extinção por conta da exploração de recursos minerais do rio, como por exemplo, a remoção de areia e cascalho. Apesar da fiscalização da Patrulha Ambiental e da Capitania dos Portos do Rio Grande do Sul, acontece até extração de areia ilegal no rio. Outra dificuldade enfrentada por pescadores é quando há enchente no Jacuí, tendo a necessidade de erguer acampamentos em campos próximos às margens do rio. Todas essas dificuldades enfrentadas pela classe fazem do trabalho uma atividade instável. Atualmente, Trindade ensina a profissão ao filho Everton, de 14 anos, fidedigno companheiro do pai nas pescarias.

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Causos de pescador Até certo ponto de nossa conversa, o pescador estava com um olhar concentrado, parecendo visualizar o que narrava. Alguns minutos depois, ele disse que iria parar de contar essas histórias, pois eu poderia não acreditar. Porém, pedi para ele continuar e disse que estava ali, justamente, para lhe ouvir. Em todos estes anos de “profissões aquáticas”, Trindade viu coisas no Rio Jacuí que, segundo ele, são inacreditáveis. Certa vez, quando ele ainda tinha 10 anos e acompanhava os pais em uma colheita de arroz, não conseguia dormir durante a noite porque alguém atirava pedras na barraca onde sua família se abrigava. Na manhã seguinte, João foi caçar pássaros e tropeçou em uma cruz cravada no chão. Assustado, o garoto chamou a mãe. Havia um homem sepultado ali. O corpo era de um cavaleiro

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que havia caído no Arroio do Batinga, um dos afluentes do Jacuí, e morrido afogado muitos anos antes. Mais tarde, à noite, a mãe de João rezou pela alma do cavaleiro, o que teria feito com que eles conseguissem descansar e dormir sossegados durante toda a madrugada. Há aproximadamente 15 anos, Trindade lembra diversos acontecimentos assustadores que fazem qualquer um pensar duas vezes antes de passar sequer uma noite no Jacuí. Certa vez, duas amigas morreram afogadas enquanto pescavam na barragem do rio. A morte dessas mulheres foi muito repercutida e devido às dificuldades de acesso, a remoção dos dois corpos ocorreu mais de uma semana após a tragédia. Alguns dias depois, João pescava durante a noite e em certo momento, ouviu vozes e barulhos na água e olhou para o rio. Para sua surpresa as amigas que haviam morrido afogadas. Martins


admite ter ficado muito assustado, mas afirmou que nada de ruim lhe aconteceu. Além das mulheres, o pescador também já viu um jovem conhecido e dois primos seus morrerem afogados. Em outra ocasião, o pescador se deparou-se com o incêndio nas proximidades do acampamento da Brigada Militar às margens do rio. O pescador desceu do barco, foi até o local e percebeu que estava sozinho, pois não havia ninguém no acampamento. À medida que ele se aproximava do incêndio, ele ouvia uma voz trêmula pedindo socorro e o fogo ficando cada vez menor e mudando de cor, de vermelho para azul. Apesar do misterioso fogo e da voz, João foi embora não sabendo explicar até hoje o que realmente aconteceu naquele lugar. Outro momento assustador foi quando João estava acampado nas proximidades de um taquaral durante uma pescaria. Ele lembra que passavam dois minutos da meia-noite quando estava deitado dentro da barraca e ouviu muitas vozes do lado de fora. O pescador imagi-

nou que eram várias pessoas e que assim como ele, pescavam ou então caçavam nos arredores. No outro dia, durante a manhã, Trindade percebeu que ninguém havia caminhado no local, pois não existiam pegadas na areia. Em seguida, ele lembrou que muitas pessoas morreram afogadas no rio e que as vozes ouvidas, provavelmente, eram dos respectivos espíritos. Em todos seus 38 anos de profissões ligadas aos rios e ao mar, Martins tem esses momentos vividos no Rio Jacuí guardados em sua memória. Mas neste local onde todos esses episódios contados aconteceram, seria somente uma coincidência ou existem “coisas estranhas” mesmo? Coincidência ou não, toda essa experiência do pescador o faz trazer em seu barco, além dos peixes, histórias que são recordadas até hoje e que fazem qualquer um que se sente corajoso pensar duas vezes antes de pescar no Jacuí, principalmente durante a noite. Nestes casos, até os mais destemidos pescadores precisam também de outro tipo de rio: o de coragem.

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A felicidade pode ser aprendida Um cantinho especial de Santa Cruz do Sul promete dar uma forcinha para quem quer diminuir as atitudes negativas e acentuar aquelas que s達o positivas Ani Camila Jantsch Reportagem e fotografia

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stá anoitecendo. Na entrada, portão de ferro grande. O cheiro instiga quem passa pela calçada. Basta tocar a fechadura que o portão se abre. De cima, um pátio enorme, com árvores e uma pequena horta com verduras e ervas. É possível avistar duas casas. A que chama atenção é uma cabana rústica de dois pisos, poltronas coloridas na sacada e luzes internas que parecem ser de velas. O cheiro bom vem de lá. Um trilho de pedras leva até a frente da cabana. Através de uma porta de vidro é possível ver que não há ninguém no andar de baixo. Entro, deixo os tênis ao lado da escada e subo até o segundo piso. As luzes realmente são de velas, o aroma bom vem dos incensos e de fundo, uma música suave deixa o ambiente ainda mais tranquilo. Sentada em um colchonete encontro Martina Krause, 55 anos. Com um sorriso ela faz a saudação: Namaskar, modo de cumprimento indiano. Ato que se repete todas as terças-feiras, quando a instrutora de Yoga abre as portas de sua residência, no bairro Higienópolis, em Santa Cruz do Sul, para quem tiver interesse pelo autoconhecimento e expansão da consciência. Trata-se de um grupo de meditação, criado por ela e pela terapeuta holística, Neiva Dupont, 48 anos. O primeiro encontro aconteceu em 12 de março de 2013. Nestes poucos mais de 7 meses, cerca de 40 pessoas já passaram por lá. A maioria, desconhecidos. Martina recebe todos com calma e passa seu conhecimento adiante sem cobrar nada. Apesar de tempo ser algo cada vez mais precioso e de quase nada ser de graça nos dias de hoje. A única coisa que ela pede é que os participantes relaxem e sigam os passos para chegar em um estágio de calmaria mental. O motivo? Apenas um. Ajudar no processo de satisfação e paz interior. “Quando pessoas provocam o movimento de indivíduos, seja esse movimento de corpos, mentes ou vontades, alguma coisa muito importante já foi feita pelo coletivo. Perceber que você possui algo que vale a pena ser compartilhado e ter interesse nas outras pessoas é um passo importante para trabalhar em grupo”, explica.

Um pequeno “altar”, atrás de Martina, com velas e porta-retratos também chama a atenção. Nas fotos, um mesmo senhor de óculos estampa um sorriso. Trata-se do filósofo e educador, Prabhat Ranjan Sarkar, mais conhecido como P.R.Sarkar. Não é sem motivos que o local possui fotos do mestre indiano. Os encontros são fundamentados na Biopsicologia, prática que tem origem na filosofia Indiana difundida pelo guru. A expansora da Biopsicologia no Brasil é a antropóloga, doutora em psicologia pela Universidade de Harvard-EUA e monja, Susan Andrews que estudou na Índia com P.R. Sarkar. Foi com Andrews que Martina conheceu a técnica que hoje ensina em Santa Cruz. Em um momento de sua vida, Martina sentiu um vazio, que precisava encontrar algo a mais para ficar satisfeita. Foi então que conheceu o Parque Ecológico Visão Futuro, ecovila fundada por Andrews em Porangaba, São Paulo. Por lá, participou de um retiro, com atividades durante vários dias. Martina ficou encantada com o que aprendeu. “Somos capazes de desenvolver o equilíbrio emocional com as técnicas ensinadas”, ressalta. Foi aí que decidiu expandir o aprendizado para que outras pessoas tivessem esse conhecimento e também pudessem multiplicar o ensinamento. Um dos principais benefícios da prática da Biopsicologia é que ela ajuda a diminuir atitudes negativas, que perturbam o equilíbrio, e acentua sentimentos positivos. Ansiedade, agitação, irritação, pessimismo ou medo da vida. São alguns destes sentimentos negativos que ninguém quer ter, mas que, com a pressão da vida moderna, cada vez mais se tornam difíceis de ser evitados. Em momentos assim, quem nunca devorou doces como se não houvesse amanhã, só para sentir aquela sensação de bem-estar? Além dos quilinhos a mais, se torna um vício que só dá prazer momentâneo. Com os exercícios realizados pelo grupo é diferente. Eles têm o objetivo de transformar nossas emoções perturbadoras e atingir harmonia psíquica, física e espiritual, gerando saúde integral. Martina diz que as práticas são

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comprovadas cientificamente como eficazes. “Pausa para uma observação da repórter”: Não sei se realmente o são. Mas quando descobri a função da Biopsicologia, pensei na seguinte frase: “Os problemas têm o tamanho e a importância que se dá a eles”. Podemos afetar o corpo através da mente, e vice-versa. As pessoas reagem diferente diante de um problema. Isso se deve a interpretação que cada uma faz da situação. A Biopsicologia ensina que a resposta para os problemas está no relaxamento. Parece ser uma solução ingênua se pensarmos que o segredo da felicidade é só relaxar. No entanto, o caminho é longo. Assim como todo aprendizado, exige disciplina. Faça um teste agora: pare, feche os olhos e tente não pensar em nada. Difícil? Por mais que tentamos, a mente teimosa não obedece. Por ela passa de tudo: imagens, inquietações, planejamentos do que precisamos fazer. Quanto mais nos esforçamos para esvaziar a mente, mais pensamentos a invadem, como pipocas pulando em uma panela. É por isso que muitas pessoas têm dificuldades de praticar a meditação. A mente consciente vive em intensa atividade,

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voltada para o mundo externo. A mente subconsciente é geralmente reprimida. É aí que está o objetivo dos encontros: alcançar o estado de paz mental. Naquele 12 de março, já havia anoitecido quando as pessoas começaram a chegar à casa de Martina. Poucas se conheciam. Mesmo assim, abraços davam as boas-vindas a quem ia se juntando ao grupo. Quando os ponteiros marcaram 20 horas e os colchonetes e almofadas ficam totalmente ocupados, Martina, com uma voz calma e tranquila, pede para que todos fechem os olhos e convidem a respiração para aquele momento interno de quietude. Começa a saga em busca da fórmula da felicidade. Após o momento de silêncio, Martina propõe os ásanas. Essa palavrinha estranha é nada mais do que “posturas mantidas confortavelmente, relaxantes”, desenvolvidas há milhares de anos pelos mestres de Yoga. A conduzir o grupo nesta viagem, ela explica que os ásanas têm efeito importante sobre as glândulas endócrinas. Nosso estado mental, segundo Martina, está ligado intimamente com os hormônios produzidos por essas glândulas. Assim, exercem forte


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influência nas emoções e nos estados de consciência. “A pressão suave sobre as diversas glândulas endócrinas interfere nas secreções hormonais e proporciona equilíbrio emocional e paz mental”, explica. De fato. É o que acontece quando estamos “para baixo”, tristes. O corpo também reflete nosso estado de espírito. A pele fica triste sim. Geralmente temos dores de estômago, de cabeça. A resposta é que as mudanças de humor são acompanhadas por uma cachoeira de hormônios, chamados de “moléculas de emoção”, que afetam todas células do corpo. Cada célula possui milhões de receptores para as substâncias químicas envolvidas na experiência emocional. É nesse sentido que também trabalha a Biopsicologia. Durante os exercícios dos ásanas, nunca descuidamos da respiração. Pelo contrário. É parte essencial dos exercícios desta filosofia indiana. Onde, através de atividades regulares,o praticante armazena energia para ser utilizada no propósito de atingir a consciência superior. O que não acontece quando se pratica exercícios focados apenas no físico. Os ásanas apenas iniciam a preparação do corpo e da mente para a meditação. Antes ainda do momento principal é preciso conhecer a força do Kiirtan. Com o cântico do mantra a mente evoluiu mais um degrau rumo à meditação. Ao fazê-lo, direcionamos todos os órgãos sensoriais e motores para o Ser Supremo, explica Martina. Acredita-se que o Kiirtan vibra o ambiente. O espaço reservado para a prática em Santa Cruz é iluminado apenas

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por velas e pela luz que passa pela janela do sótão. Martina pede para que todos levantem e deixem o chão livre, sem os colchonetes. “Vamos executar o Kiirtan”, diz. O ambiente é invadido por um som suave, com palavras que se repetem: “Baba Nam Kevalam“. Na verdade trata-se de um mantra. Baba significa “O meu amado”, Nam signifi ca “nome” ou “vibração” e Kevalam significa “apenas”. Então o significado literal do mantra é “O amor é tudo o que existe”. Imagine a cena: todos de pé, concentrados no mantra. Passos de um lado para o outro, com os olhos fechados. A única “preocupação” é cuidar da respiração. Sim, é uma experiência diferente. Estranha na primeira vez. O fato que é quando você menos espera, entra no clima. O Kiirtan durou 15 minutos. O resultado é que realmente a concentração acontece de forma espontânea. A mente entra em outra dimensão. Entre essas práticas, canções que fazem referência a Baba, que significa Pai, Criador ou Consciência Suprema. Todos voltam para seus respectivos colchonetes. Agora sim. Mais focados, prontos para iniciar a meditação. Martina ressalta que no começo é difícil limpar totalmente a mente. É preciso determinação. A prática correta é a pos-


tura de Lótus, em que as pernas ficam cruzadas, com o pé direito colocado sobre a coxa esquerda e o pé esquerdo, sobre a coxa direita. Sem aquele som de hummmm....Todos ficam em silêncio. Para iniciantes, a dica é concentrar na inspiração e expiração, para que nenhum pensamento invada a mente. A prática da meditação pode ter efeitos mensuráveis sobre como o cérebro funciona mesmo quando alguém não está ativamente meditando. A prática pode nos ajudar a encontrar o equilíbrio no cotidiano. É o que faz a orientadora educacional, Salete Maria Hochscheidt, participante assídua dos encontros. “Quando percebo que estou muito acelerada, em alguma situação de estresse, ou preciso tomar alguma decisão, procuro fechar os olhos por alguns momentos e respirar. Uma respiração mais profunda (diafragmática), que acalma. Por alguns minutos é possível desligar, deixar a mente descansar e a respiração contribui muito para isto”, revela. Salete pretende ir mais além. Quer abrir espaços sistemáticos de meditação na escola onde trabalha. “A proposta é para que o aluno em seu dia a dia, em situações de conflito, nervosismo (provas, avaliações, problemas de convivência com colegas), passe a utilizar

este método”, explica. O temperamento explosivo do supervisor financeiro, João Rene dos Santos, 54 anos, somado ao estresse do trabalho, fez com que ele procurasse ajuda na meditação. O que era para ser um experimento, acabou virando rotina. João, que reside em Venâncio Aires, segue até Santa Cruz do Sul para os encontros na casa de Martina. “Mais calmo e evoluído, obtive crescimento tanto na vida profissional quanto amorosa. Não explodo por tudo”, diz o supervisor, que garante nunca deixar de frequentar o espaço. Salete, João e os outros integrantes do grupo provam a cada semana que é possível encontrar o equilíbrio através da Biopsicologia, sem largar a vida na cidade e morar, literalmente, no meio do mato. As práticas aprendidas com o grupo podem ser feitas em qualquer local e a qualquer hora. Basta a vontade e o silêncio. “Nosso corpo é uma máquina, e nós somos o maquinista”, reforça Martina pouco antes de todos, de mãos dadas, formar um círculo e rezar Ave Maria e Pai Nosso. Abraços. Agradecimentos por mais um encontro. Mãos se unem entre os olhos. A cabeça baixa em direção ao coração. Martina deseja um bom retorno a todos e convida todos para um chá puro de ervas e bolo. Natural, é claro! Namaskar!

P.R. Sarkar Prabhat Ranjan Sarkar nasceu na Índia em 1921. Começou a praticar meditação com quatro anos de idade. Em 1955 criou a Ananda Marga (“O caminho da bem-aventurança”), uma organização internacional socioespiritual que ensina yoga, meditação e presta serviço a populações carentes. Elaborou uma filosofia chamada Educação Neohumanista, onde cada ser humano é visto como um ser de infinita potencialidade e o papel fundamental da educação é desenvolver suas múltiplas dimensões. Fundou a AMURT-AMURTEL, Associação civil de caráter beneficente, principalmente por acreditar que a espiritualidade só se concretiza por meio de uma participação ativa e propositiva na sociedade. Suas finalidades são: a prestação de auxílios temporários e auxílios permanentes como escolas de educação infantil e ensino fundamental, projetos de apoio sociofamiliar e socioeducativo, educação ambiental, bem como despertar a consciência para o Serviço Social e formação de voluntários. No Brasil, a AMURT-AMURTEL desenvolve projetos no Pará, Minas Gerais, São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. 15


O cigarro do futuro Dispositivo eletrônico substitui o tabaco e promete auxiliar o dependente a deixar de fumar ou pelo menos diminuir os riscos à saúde.

Rui Borgmann Reportagem e fotografia

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nquanto as empresas e órgãos representantes da cadeia produtiva do tabaco discutem ações para se manter no mercado, seja com a agricultura do fumo ou mesmo pela continuidade da produção de cigarros perante o Governo, que ultimamente vem impondo restrições, quem ganha espaço é o cigarro eletrônico ou e-cigar, como costuma ser chamado o novo dispositivo pelos usuários. Inventado por um farmacêutico chinês, motivado pela morte de seu pai, segundo ele, pelo consumo abusivo do cigarro, o e-cigar foi produzido em 2003 e introduzido no mercado no ano seguinte. Hon Lik trabalhava numa empresa chamada Golden Dragon Holdings. Mais tarde ela mudou seu nome para Ruyan, que significa “para se assemelhar a fumar”. Em 2005, começou a exportar seus produtos. Numa espécie de cilindro, que se assemelha a uma caneta com um led na ponta (simulando a brasa), o cigarro eletrônico chega forte no mercado, prometendo ser uma alternativa segura para diminuir o tabagismo no mundo. No Brasil a comercialização se iniciou em 2006, porém a Associação Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu sua venda em 2009. Há muito conteúdo a respeito do e-cigar na Internet, mas pouca informação concreta. No centro de Venâncio Aires, um técnico em computação, que prefere não ser identificado temendo represálias por parte de órgãos federais, cansou da rotina de arrumar computadores; viu no cigarro eletrônico a oportunidade de incrementar seus negócios seguindo a mesma linha virtual. Atualmente com 36 anos, é o defensor número 1 deste novo método de fumar ou vaporar. Fumante há 19 anos, P.R. descobriu na internet sites de vendas, adquiriu um kit do produto e passou a usar. Desde então guardou a carteira de cigarros pela metade na gaveta de sua mesa de computador e nunca mais precisou do isqueiro para acender o cigarro, a não ser para uso doméstico. Em meio a conserto de máquinas de computadores e notebooks, passou a comercializar o e-cigar. Entre um cliente e outro, em poucos meses cerca de 250 pessoas trocaram o cigarro convencional pelo eletrônico. “Meus amigos me viam vaporando, tinham curiosidade, me pediam para experimentar e logo encomendavam”, conta.

P. R. não revela quanto ganha por mês com a venda, mas diz que os valores dos kits variam de R$ 200 a R$ 500, fora o líquido que é adquirido separado. Ele faz questão de ressaltar que comercializa o cigarro eletrônico produzido nos Estados Unidos e em boa parte da Europa, locais em que a venda é liberada. “Como o cigarro é proibido em boates e festas fechadas, o e-cigar cai como uma luva”, exalta o vendedor. Tratado como produto de tabaco, é regulado pela FDA (Food and Drug Administration), que se assemelha à Anvisa aqui no Brasil, porém só é permitida a venda para maiores de 18 anos. No exterior o produto é vendido em bares, restaurantes e em shoppings, juntamente com os cigarros normais. Financeiramente as empresas tabagistas e as indústrias estão começando a acordar em relação ao cigarro eletrônico, não pensando em proibir, mas em engordar ainda mais seus rendimentos. “O e-cigar não está atrapalhando. Pelo contrário, o consumo de cigarros convencionais tem até aumentado”, explica P.R. E ele está certo. Segundo números liberados pela Souza Cruz e publicados pelo Anuário Brasileiro do Tabaco, os números de cigarros comercializados no mercado brasileiro em 2010 chegaram a 116,2 bilhões de unidades, apresentando um ligeiro crescimento de 0,6% no ano seguinte. “O cigarro nunca vai terminar. Além disso, as indústrias estão abrindo o olho para ter uma espécie de incremento nos ganhos do tabaco. Hoje o cigarro eletrônico não representa 0,5 % das vendas se comparado ao cigarro normal”, diz. Ele acrescenta que a maior indústria de fumo do mundo, a americana Philliph Morris já lançou sua marca de e-cigar. A Reynolds está no mesmo caminho, bem como a Souza Cruz. O assessor de imprensa da Associação de Fumicultores do Brasil (Afubra), Mario Toll, diz que a preocupação da entidade ainda são as restrições ao tabaco, entretanto ele informa que o cigarro eletrônico está entre as pautas em seminários que a Afubra participa envolvendo a classe fumageira. “Recentemente um dos assuntos em discussão num encontro sobre tabaco na Indonésia foi o cigarro eletrônico”, conta Toll. Diante dessa realidade, fica evidente que a liberação desse tipo de dispositivo no Brasil e no mundo não é apenas uma questão científica, mas também política. Na me-

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dida em que mais estudos forem realizados a fim de comprovar se há ou não risco à saúde, e se esse eventual risco é maior ou menor que o risco provocado pelos cigarros de tabaco, as autoridades sanitárias deverão sofrer pressões para reavaliar a situação, definindo finalmente se os cigarros eletrônicos podem ou não ser usados como alternativa segura para diminuir o tabagismo no mundo. P.R. entende que a decisão da Anvisa em suspender a venda foi precipitada e que foi baseada em testes sob a consulta de produtos chineses de má qualidade. Ele suspeita que essas pesquisas foram encomendadas. “Não há comprovação e também não faz sentido a Anvisa liberar um cigarro com 4.700 substâncias tóxicas e que comprovadamente causa câncer e vetar outro sem conseguir provar se faz ou não faz mal.”

Substância é usada em cosméticos O e-líquido é mais viscoso do que a água e tem a propriedade de ser facilmente vaporizado, sendo, portanto, usado como veículo para a nicotina chegar aos pulmões. À primeira vista, os cigarros eletrônicos apresentam muitas vantagens. Um atomizador espalha a nicotina em minúsculas gotas, que se misturam ao vapor produzido pelo aparelho. O fumante aspira a nicotina e solta apenas vapor inodoro. Assim, a pessoa não fica com o desagradável cheiro de fumaça, e quem está ao lado não fuma de forma passiva. O cigarro contém apenas nicotina, e não leva substâncias tóxicas como alcatrão ou aditivos presentes no tabaco dos cigarros. Nos Estados Unidos e na Europa, a exemplo do Brasil, há locais em que as leis de restrição ao tabaco estão mais severas e cada vez mais é possível ver pessoas ostentando um tipo diferente de cigarro entre os lábios. Até o ator Johnny Depp, no filme “O Turista”, usou um dispositivo, incentivando a curiosidade e até mesmo o consumo do produto. Mas será que eles fazem tão bem quanto afirmam as empresas que os vendem?

O farmacêutico Luiz Frietto Jr. ressalta que este tipo de dispositivo possui grandes vantagens em relação ao cigarro de tabaco. Ele ressalta que apesar de os efeitos na saúde não serem totalmente conhecidos pela ciência, estudos apontam que, justamente por não possuir tabaco ou combustão, não provoca doenças relacionadas ao cigarro convencional como pneumonia, câncer, bronquite, trombose e impotência sexual). “Além disso, não causa pigarro nem tosse crônica, e também não expõe outras pessoas aos riscos da fumaça do tabaco, dentre outras várias que poderíamos citar.” Ele reforça que na maioria dos e-líquidos o principal componente é o propilenoglicol, substância usada há muito tempo em alimentos, cosméticos e medicamentos, incluindo os inalatórios, seguido de glicerina, água destilada, nicotina e flavorizantes . “Dessa forma, os líquidos não possuem alcatrão, monóxido de carbono e nenhuma das mais de 4.700 substâncias tóxicas que são comumente encontradas em produtos derivados do tabaco.”

“Minha filha agradece” Fumante há 15 anos, o empresário Leandro Hamester acredita que o primeiro passo para a mudança é querer parar de fumar e superar o primeiro mês, segundo ele o mais difícil. Há quase um ano e meio usando o vapor, diz que entre os maiores benefícios está em acordar pela manhã bem disposto e sem o tradicional pigarro. O ambiente da casa e o carro, que antes fediam a cigarro, agora não têm mais o cheiro ruim. “Minha filha também agradece”, reforça o empresário de 38 anos. Hamester ressalta que hoje em dia sente o cheiro ruim nas outras pessoas fumantes, fato que antes praticamente não sentia. Para o caso de faltar a bateria do e-cigar quando sai e evitar uma possível recaída, leva uma reserva. Para completar, Leandro diz que a mudança de hábito manteve o ambiente mais limpo, sem as baganas de cigarros que antes iam ao chão ou num canteiro que vivia sempre cheio.

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“Meus vícios são cigarro e chimarrão” Com 63 anos de idade, seu físico já não é dos melhores se comparado a um atleta. Somado há 44 anos como fumante, o cabeleireiro Lair Stroschöen deixou de lado a carteira de cigarros e adquiriu um kit do cigarro eletrônico. Mesmo tendo o ‘controle’ sobre o cigarro - fumava menos de uma carteira por dia -, sua resistência deixava a desejar. Ele se considera dependente de nicotina, pela sua profissão, e também por gostar da prática de esportes, motivou-se a deixar de lado o tradicional cigarro de tabaco substituindo-o pelo eletrônico. Lair faz academia três vezes por semana e ainda encontra um tempo para o futebol. Depois de três meses usando o cigarro eletrônico notou a diferença. “Minha resistência ficou melhor depois que comecei a vaporar. Ao fazer esteira chamava o professor da academia para ver como aos poucos fui melhorando o rendimento”, conta o revigorado cabeleireiro. No seu armarinho próximo à cadeira do salão, Lair guarda seus kits e seus variados sabores de aromatizantes e líquidos graus de nicotina. Como as mãos estão sempre próximas do cliente ao barbear ou cortar o cabelo, a todo o momento tinha a mania de lavar as mãos e comer uma fruta para tirar o cheiro desagradável do cigarro. Em meio a um atendimento e outro, Lair conta que tem dois vícios: o cigarro e o chimarrão, mas apesar de não incomodar os clientes com a nova aquisição, prefere vaporar quando está sozinho, na companhia de uma cuia de chimarrão. A próxima missão será convencer seu irmão, um fumante inveterado. “Sei que é difícil, mas vou seguir tentando”, conclui.

Cigarrete

Vendedor diz que o produto fabricado nos EUA e na Europa são mais confiáveis em relação ao chinês

Cabeleireiro venâncio-airense trocou o hábito do tradicional cigarro pelo eletrônico após fumar por 44 anos

Palavras do repórter Sou fumante há 15 anos e há um deixei o vício de lado. Ainda com dificuldades de abandonar de vez o hábito de fumar, experimentei o cigarro eletrônico. Há seis meses uso-o de forma esporádica e posso dizer que a sensação é diferente. Não incomodo mais ninguém que por ventura esteja ao meu lado, porém tenho receio em usar o dispositivo em público. As pessoas olham com desconfiança, talvez por não conhecer. Evito vaporar em locais que há concentração de muitas pessoas e só uso quando estou sozinho ou em locais onde há algum fumante. Durante as entrevistas senti muita seriedade nas palavras das pessoas que deixaram o tradicional cigarro para migrar para o uso do eletrônico. Um novo método que deveria passar por uma avaliação mais rigorosa da própria Anvisa, que num primeiro momento vetou a comercialização no Brasil. Penso que poderia ser um método eficaz para quem enfrenta problemas com o tabaco e com o hábito de deixar de fumar. É improvável que um invento que conta com mínimas substâncias possa fazer tão mal como as 4.700 substâncias encontradas no cigarro.

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Conversas por todos os lados Quem disse que existem apenas uma ou duas maneiras de dialogar? Jonatan A. Trindade Reportagem e fotografia

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diálo go é uma conversa entre duas ou mais pessoas, que manifestam as suas ideias ou afetos de forma alternativa. Ou seja, é também uma discussão ou uma troca de impressões com vista a chegar a um entendimento. As formas de dialogar se modificaram com o passar do tempo, mais especificamente com a chegada da era digital, onde a instantaneidade e falta de tempo obriga as pessoas a recorrer a outras maneiras de se expressar. Então nos questionamos, num primeiro momento, como estamos nos comunicando? Algumas pessoas substituíram a conversa convencional, de marcar encontros e jogar conversa fora, pela internet. Outras encontraram no celular, um meio de comunicar-se, através de mensagens de texto, ligações ou aplicativos, baixados nos aparelhos mais modernos. Redes sociais, bate-papos e e-mails são maneiras diferentes de se comunicar. E o interessante é que dentro delas é possível identificarmos personagens com histórias curiosas. Um dos grandes problemas na sociedade atual é a falta de diálogo. Conversar sobre coisas sérias ou bobagens, brincar com as palavras, qualquer diálogo é fundamental para a mente, o corpo e

principal mente, dar uma pausa em nossas rotinas turbulentas. Quando crianças criamos amigos imaginários, seres que nos acompanham em todas as brincadeiras, todos os lugares e falamos com eles sobre tudo. Sim, logo cedo, somos estimulados a nos comunicar, com nós mesmos e com o próximo. Mais tarde, na adolescência, o diálogo se torna um pouco mais complicado, pois enfrentamos o período de transições, conflitos e muitas dúvidas, e falar sobre elas, nem sempre é uma tarefa fácil. E hoje em dia, é nesse período que as redes sociais ganham mais força, sendo a principal conexão entre as pessoas. Existem aqueles que utilizam o bate-papo para encontros, os que têm mais amigos virtuais que reais e alguns relacionamentos iniciam-se pela internet. Alguns duram, outros são instantâneos, mas o curioso é como esse novo modo de se relacionar difere dos que se iniciam nos moldes tradicionais. Quanto mais o tempo passa, maiores são nossas responsabilidades, e conversar se torna algo raro, então entram em cena com forte participação, a comunicação com o auxílio de alguns itens, seja pelo computador, telefone e cartas.

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O amor falado Cristine Isabel Sulzbacher, de 34 anos, moradora de Santa Cruz do Sul, namora há pouco mais de um ano. Conheceu seu namorado Edson, em um baile no interior de Venâncio Aires. Ele mora em Linha Travessa, localidade que fica a 15 minutos de Venâncio Aires. Lá, o acesso à internet é difícil e a forma de comunicação entre eles sempre foi o telefone. Cristine relata que desde o início as ligações são constantes, uma vez que as redes sociais não fazem parte da relação. Ela relembra também que, em alguns casos, a ligação durou mais de duas horas e que sempre tinham assunto para ficarem mais tempo conversando. Para Cristine, namorar uma pessoa próxima facilitaria a relação; o telefone aproxima, mas não substitui. A ligação os deixa mais perto, pois é possível ouvir a voz, perceber a respiração do outro, o que é impossível notar através da tela de um computador, conclui ela.

A tecnologia como ferramenta de diálogo

Diogo de Souza Dorneles tem 29 anos e atualmente mora em Porto Alegre. Utiliza diariamente a internet e seus recursos como forma de comunicação. Diogo possui em seu aparelho celular diversos aplicativos e com múltiplas funções como para mensagens e chamadas telefônicas via wi-fi. Esses serviços são gratuitos e a quantidade de usuários aumenta a cada dia. Também há os que mostram as linhas de ônibus interurbanos e táxis de Porto Alegre, facilitando a vida da população, pois especifica o trajeto e a possibilidade de descobrir quais ônibus passam naquele ponto onde você está no momento. Já o referente aos táxis, ele utiliza para chama-los, escolhendo a forma de pagamento, permitindo ver o nome e telefone do motorista, placa e o tipo de veículo que está indo lhe buscar. Ou seja, uma excelente forma de diminuir o tempo de espera, sem preocupações. Para Diogo, o telefone tem seu lado bom, pois é por onde é possível ouvir a voz da pessoa. Entretanto tem seus custos, seja convencional, que a cada dia se torna mais obsoleto, ou celular ambos tem custo. Muitas operadoras estão fazendo planos de celular baseando no uso maior do cliente na internet do que nas ligações. Hoje, a forma de se comunicar tornou-se mais rápida. Antigamente, ao fazermos uma ligação para alguém e a mesma não se encontrava em casa ou no trabalho, não tinha como falar com ela. Atualmente, além do telefone convencional, temos o celular, que permite ficarmos comunicáveis quase que em tempo integral. Na realidade usamos o aparelho cada vez menos para ligações, pois na maioria das vezes, serve para ouvirmos música, internet, despertador e aplicativos.

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Namoro que se iniciou na tela do computador

Morgana Pereira da Costa tem 27 anos e mora em Santa Cruz do Sul. Desde março de 2010 namora com Maicon Cássio Riediger e essa história não se iniciou pelo modo convencional. Tinha fortes razões para não dar certo. Tudo começou pelo gosto em comum, a música, pois ele era baixista em uma banda de rock’n roll, ela, fã do estilo musical. Então, na intenção de enturmar-se com pessoas com as mesmas preferências, e inclusive com a música em questão, o qual ela curtia, Morgana adicionou Maicon no Orkut, rede social muito popular na época. Após esse primeiro passo, o contato entre os dois era raro, e somente pela internet, os assuntos eram sobre o estilo musical. Três de março de 2010, ambos iriam para o show de uma banda em Porto Alegre. Combinaram de se encontrarem por lá e se conhecem pessoalmente, pois até então, o contato era virtual. A primeira impressão não foi das melhores, pois Maicon mostrou-se antipático e introspectivo. Após esse primeiro momento, Maicon passou a comunicar-se com Morgana pelo Orkut, puxando assunto, e assim, marcaram mais um encontro. No dia 27 de março do mesmo ano, combinaram de ir a um festival de rock’n roll onde ficaram pela primeira vez, iniciando o namoro. Os destinos haviam se cruzado, mesmo que desastrosamente no início, a situação havia tomado outro rumo. O que parecia improvável e uma simples amizade virtual se transformou em uma linda história de amor que dura quase quatro anos. A internet pode até substituir algumas conversas e contatos reais, mas também aproxima como no caso de Morgana e Maicon.

O gosto por escrever a mão A moradora de Santa Cruz do Sul e acadêmica do curso de letras, Marilene Silva, é adepta da internet, redes sociais e todos os seus recursos, porém utiliza cartas para comunicar-se com seus padrinhos que moram em Canoas. Eles são idosos, não têm acesso às tecnologias digitais e não são usuários do telefone, então encontrou no telegrama, uma forma de comunicação. Esse processo ocorre por intermédio do neto do casal, Leonardo, de 11 anos, que lê e redige as cartas conforme o que eles vão ditando. A maneira mais rápida que encontraram foi essa, onde trocam desde informações de familiares até convites para confraternizações. Marilene afirma que nos dias de hoje, mesmo com a acessibilidade ao telefone, as cartas tornaram-se menos frequentes, mas ainda as utiliza para o envio de convites ou documentos, que são de fácil entendimento, uma vez que seus padrinhos não usam o computador. Segundo ela, escrever uma carta é diferente de digitar um e-mail. Por exemplo, nelas, pode-se ser mais minucioso, delicado, dar toques mais pontuais, pois a escrita é uma forma preciosa de comunicação e ainda proporciona aquela sensação gostosa de pôr no correio e ficar curioso para saber se chegou ao seu destino. 23

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O sorriso do rei permanece De sorriso franco e gargalhada forte, Cl贸vis animou carnavais por doze anos, passou por muitos problemas de sa煤de, ainda assim, para ele, a vida continua bela Vania Soares Reportagem e fotografia

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homem de 1,84 se mostra feliz com a minha chegada. Sorridente, eleva a mão direita para esperar o cumprimento. A esposa imediatamente traz as cadeiras. Sentamos em frente da casa, pois o final da tarde está abafado. Debaixo do pé do cinamomo, ouço o canto do João-de-barro, interrompido pelo barulho do motor do ônibus urbano que passa e deixa um rastro de poeira. Clóvis Kunsler nasceu em Cacequi, no frio de 11 de julho de 1950. Veio para a cidade de Rio Pardo no início dos anos 60, conheceu a graciosa vizinha Maria da Gra-

ça, moça de sorriso fácil, pele clara e bastante falante. Mesmo estando compromissada com outro rapaz, o coração bateu mais forte pelo jovem moreno galanteador. Na primeira oportunidade que o casal teve para ficarem a sós ele foi taxativo; deixa dele e fica comigo. Ela não pensou duas vezes em ficar com o decidido rapaz. Como na vida de todos que escolhem viver a dois, o futuro era incerto, e não podiam prever os caminhos espinhosos que os aguardavam ali na frente.

O rádio abriu caminhos

O roteiro de nossas vidas, não somos nós quem escrevemos, e sim o próprio destino. A história deste ex - radialista, ex-juiz de futebol e ex - rei momo, se divide entre alegrias e tristezas. Em 1967, o aprendiz foi trabalhar na ZYU 35 para cuidar do transmissor na torre, localizada em um grande curral. Ele precisava saltar por vários estábulos para enfim, chegar até o local de trabalho. Mais tarde a torre da rádio Rio Pardo foi mudada de lugar, afastada a três quilômetros do centro. Já casado, foi morar lá com a esposa e a primogênita, Alessandra. Eles gostavam do lugar; tinham oportunidade de criar animais; como vacas leiteiras, porcos e galinhas; eram felizes até a chegada das águas. A residência ficava muito próxima ao rio Pardo e todo o inverno a cena era a mesma; com as chuvas, o leito do rio transbordava e inundava a aparelhagem da estação de rádio. Era preciso aban-

donar a casa imediatamente. Saiam de barco a remo, salvando em primeiro lugar os equipamentos, depois os animais, e, por último, os móveis. Muitas vezes Clóvis saia pela manhã, em pleno inverno, de pés de calços, vestindo somente calção, entrava na água barrenta para carregar a filha e levá-la a um local seguro para se deslocar até a escola. Houve um ano em que a casa ficou submersa por três meses. Mesmo com todos estes percalços, o casal sempre gostou de morar no interior e consideram um dos períodos mais felizes de seu casamento. Depois vieram as filhas Andrezza, Adriana, Aline e Anderson, este fruto de um caso extraconjugal do radialista. Dona Maria não se importa e o recebe em sua casa, como seu filho de verdade. Fotos: Arquivo pessoal

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A vida era uma beleza Maria da Graça ficava em casa cuidando do lar e dos botões na torre de comando, enquanto o esposo se deslocava até o prédio da emissora para exercer outras funções: trabalhou no transmissor, na mesa de áudio e como gerente comercial. Dedicou-se por mais de 20 anos na área radiofônica. “Coloquei muitos autosfalantes nos postes da cidade, para as transmissões locais” disse Clóvis animado. Em 1979, o então prefeito Paulo César Begnis convocou o jovem, com mais de 140 quilos para ser rei momo. O valor do cachê pesou para que aceitasse o convite. Com os novecentos cruzeiros recebidos, comprou o primeiro ventilador, motivo de festa para a família. Foi doze vezes rei momo no carnaval rio-pardense. Durante os quatros dias de folia, todas as atenções eram focadas no rei e na rainha. As vestes eram de um luxo só. Calça curta de cetim em dourado, colete de alpaca branca, meias, sapatilhas confortáveis bordadas e a coroa, adornada com pedras co-

loridas e muitas lantejoulas era o maior destaque para o Rei. A escolha da corte era sempre glamourosa, com baile e escolha da mais bela e melhor sambista, cuja presença de Clóvis influenciava na decisão final. Nas noites de desfiles das escolas de samba e blocos carnavalescos, as regalias era toda para a corte. No palanque oficial eram servidos com muitas bebidas e petiscos variados, depois de saborearem os pratos, desciam para a avenida animar os foliões, o sorriso era permanente, a alegria contagiante e muito samba no pé. Depois disso se dirigiam para os salões e amanheciam na gandaia. A tarde era a vez de animar a criançada nos bailes infantis. Clóvis e a respectiva rainha sempre exuberante dispunham de muito fôlego para garantir as quatro noites de momo. O futebol também foi uma das grandes paixões de Clóvis. No dia da entrevista vestia um calção preto com o símbolo do grêmio, time do coração. Sempre que possível trabalhava como arbitro de futebol, era respeitado e temido pelas agremiações pelo seu excelente desempenho e pulso firme.

A doença lhe tirou pedaços

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Hoje, o homem de cabelos calvos e brancos, de 63 anos passa os dias sentados em sua cadeira de rodas. A culpa é do diabetes, doença hereditária que lhe venceu e afetou também a vida de sua irmã Neusa que amputou o membro inferior. Primeiro, Clóvis precisou amputar um dedo do pé devido a uma pequena ferida nunca cicatrizada, mais tarde, os médicos tiraram o pé direito, e posteriormente a perna esquerda acima do joelho. Talvez o grande drama do guerreiro foi quando descobriu a retinopatia diabética (box) do, qual realizou a cirurgia nos dois olhos, perdendo totalmente a visão. Faz hemodiálise há dezessete anos e mantém a rotina de três vezes na semana deslocar-se a Santa Cruz para realizar o processo de filtragem nos rins. As marcas das seringas nos braços provam o procedimento realizado sempre nos dias marcados. No começo não foi fácil aceitar as novas mudanças, mas aos poucos com a ajuda da esposa, fihos, genros, netos e os quatro irmãos, foi enfrentando a vida em compasso lento, como as marchas no final do carnaval. Muitos amigos lhe viraram as costas, mas outros demonstraram ainda mais a amizade por este homem, de voz grossa, sincero e coração mole. A adaptação foi aos poucos. Os procedimentos e os medicamentos ele segue fielmente, mas em compen-

sação, consume os alimentos de uma forma desregrada. No cardápio do café da manhã, está incluso o “revirado” (uma mistura de arroz, feijão, carne e outras sobras do jantar). Sua nutricionista o repreende, “mas de nada adianta ela falar, vou continuar comendo”, disse num tom quase de deboche, talvez fazendo troça de seu próprio drama. “No almoço, preciso comer carne gorda com granito” acrescenta, sem se preocupar com a saúde.


Ao redor dos netos, vai enfrentando a vida Clóvis e Negra, como ele a chama carinhosamente, ambos aposentados, passam os dias cuidando dos nove netos. Três já são homens feitos, dois já serviram o quartel, mas mesmo assim, de vez em quando, chegam ao vô para pedir a benção. Nos dias quentes sentam em frente do chalé azul para matear e conversar sobre a vida. Atualmente, vive na escuridão total, mas isso não tirou o sorriso do rosto, marca registrada do conhecido “Seu Clóvis”. O famoso Rei Momo que muito animou os bailes de adultos e crianças hoje não consegue ver, mas a seu modo, vai levando a vida, e tentando se adaptar. Um exemplo disso foi quando se desfez do bigode, sua marca registrada, talvez por ter acabado a vaidade. Mas mesmo com as dificuldades, permaneceu o amor pela esposa, que lhe dedica parte de seu tempo, o amor pelos filhos, netos e pelos dois cães, “os pretinhos”, como ele os chama. Os mesmos se debruçam em seu colo, Clóvis estende a mão, dá boa tarde e os animais prontamente o tocam com suas patas. Mantém a mesma alegria que levou por muitos anos aos foliões, mesmo que talvez em seu silêncio divague pelo seu passado, lembrando de um tempo que não volta mais. Deixo a casa na Nova Fahrion bairro afastado 3 km do centro de Rio Pardo, no qual a família Kunsler veio morar a 20 anos - mais feliz, em conversar com uma pessoa, que mesmo tendo passado por grandes dificuldades, não deixou se abater e vai levando a vida, do jeito que dá, isso me faz lembrar de uma marchinha de carnaval que diz: Mas é carnaval não me diga mais quem é você amanhã tudo volta ao normal deixa a festa acabar deixa o barco correr...

Doença complicada Ocorre o crescimento de vasos sanguíneos anormais que se estendem pela superfície da retina e que podem invadir o conteúdo gelatinoso do olho, o vítreo. Os vasos proliferativos frequentemente se rompem causando hemorragia ví-

trea, que pode diminuir significativamente a visão. Além isso, tecido fibroso pode crescer sobre os novos vasos sanguíneos e distorcer a visão. E ainda, se o tecido fibroso se contrair, ele puxa a retina causando um descolamento.

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N��eg�nd� c�n�r� � m��� Ao prezar pela qualidade, Rodolfo Eidt se nega a deixar de confeccionar artesanalmente seus acolchoados Augusto Dalpiaz Reportagem e fotografia

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e

m um mundo com os olhos virados sempre para o macro, para a grandeza, chamam atenção aqueles que privilegiam e focam seus esforços no trabalho artesanal. Mesmo com os benefícios oferecidos pela prefeitura de Santa Cruz do Sul, Rodolfo Eidt, 57, prefere manter seu ofício de fazer acolchoados de lã de ovelha, pluma e penas de ganso dentro de seus domínios. Eidt aprendeu a costurar com sua mãe há 40 anos. Na época, seu trabalho era ajudá-la em tarefas de menor escala. Nesse período, o cliente trazia toda a matéria-prima, seja dos recursos animais que dispunham dentro de casa ou de alguma lã que conseguissem, com dificuldade, comprar. O trabalho de costurar ficava, então, por conta de Rodolfo e sua mãe, Maria Brunilda Eidt. Penas e plumas eram também retiradas dos animais da família. Vale ressaltar que em comunidades interioranas, era hábito ter o chamado “ganso sinaleiro”, que funcionava como cachorro, informando quando alguém chegava em sua residência. Então, partindo desse ponto, era comum terem o bicho e aproveitar para tirar as plumas e fazer o acolchoado. Tudo começou a ficar mais “sério” há 23 anos, com um pequeno ateliê. O foco dessa nova jornada era, além da mão-de-obra, fornecer também a matériaprima. A partir daí, a empresa passou a ter um retorno financeiro maior e, atualmente, todos os passos para a confecção de um estofado é desempenhado pela “Acolchoados Eidt”. Desse modo, o processo se tornou mais rápido, o cliente pode sair da loja com o produto pronto, sem ter que ir até o local várias vezes para acompanhar o desenrolar até o produto final. Com o passar dos anos, Rodolfo percebeu que a procu-

ra pelo seu produto começou a aumentar e então decidiu ter um posto de vendas com artigos já prontos. A loja começou na garagem da sua casa, porém, com a demanda, o local ficou pequeno, o que o fez ampliar o alcance e colocar o ponto de venda e a confecção em frente à casa onde mora, na Rua Machado de Assis, n° 32. A lã de ovelha vem de pequenos curtumes de Pântano Grande. Já as plumas são de casas de Rio Pardinho, que têm a produção pequena. No entanto, seu grande fornecedor é uma empresa de Santa Catarina que vende seus excedentes de matéria-prima para Rodolfo. A única opção com grande oferta nesse campo é a lã in natura, exatamente igual como ele é retirado da ovelha, sem passar por nenhum tratamento ou lavagem. Porém, atualmente, Rodolfo jconsegue lã do curtume, um material já lavado, tratado, enviado para ele fazer somente uma segunda lavagem a fim de garantir a total limpeza do produto. O processo de limpeza ocorre da seguinte maneira: quando a lã é retirada da ovelha, se faz necessário curtila, pois ela apresenta um cheiro muito forte. Para isso, ela é colocada em tonéis com água. Rodolfo afunda o conteúdo dentro do recipiente e o fecha por cerca de duas ou três semanas. Depois, o empresário retira, troca a água do tonel e refaz o procedimento três vezes. Após essa fase, ele a enxágua bem, e coloca em sacos na piscina de sua casa por cerca de quatro dias. Em seguida, a máquina a torce e ela vai para o sol, com apenas um dia ela já está pronta para o uso. Em relação à pena, ela obrigatoriamente tem que ser retirada do ganso vivo. Ele não pode estar morto, pois estando abatido, a pluma fica com cheiro forte. Outra

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curiosidade sobre isso é que tanto a pena quanto a pluma devem ser retiradas do peito, senão ela fica grande e com mau cheiro. O maior pico de vendas de Eidt ocorre durante março e o fim de julho, depois desse período começa a manutenção (leia-se a lavagem da lã, uma vez que mesmo após a confecção, ela continua com certa gordura) e a preparação para o próximo inverno, com a produção de acolchoados para a temporada seguinte. Essa antecedência é fundamental para produzir estoque, já que o processo de produção de cada peça não acontece de uma forma rápida. A aposentada Maria Imelda Rippliger, de 90 anos, usa os acolchoados fabricados pela família Eidt há cerca de 40 anos. Seu preferido é o de pluma, pois o considera mais gostoso e quente para o corpo. Irma Maria Bonamigo, de 76 anos, por sua vez, está muito satisfeita com os serviços prestados por Rodolfo. Ela usa os produtos de lã para os dias “não tão frios” e os de pluma para o inverno mais pesado. Um acolchoado de lã de ovelha para casal pode ser feito com duas pessoas em um dia e custa cerca de R$350. Outra opção com o preço um pouco mais em conta é o chamado acolchoado misturado (lã sintética e lã “verdadeira”) que custa R$198, e por não ser muito pesado pode ser usado todo o ano e é considerado um sono leve melhorado. E o acolchoado de pluma é o material com mais qualidade, tem uma confecção diferenciada e custa R$ 890. Um acolchoado de pluma de casal leva em média dois quilos de pluma, que representa em torno de dez gansos. A fim de facilitar o trabalho, Rodolfo criou uma máquina para ajudar a desfiar a lã que é lavada no curtume, pois ela fica muito dura após esse processo, dificultando seu manuseio. Para isso, ele trabalhou três anos manualmente e, somente no quarto ano, viu que, se continuasse agindo totalmente no manual, seu trabalho iria ficar muito difícil. Para a empreitada, contou com a ajuda do metalúrgico João Francisco Rodrigues, que, engajou-se no projeto e o ajudou a construir o aparelho.

Maria Imelda utiliza os acolchoados Eidt há 40 anos

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Rodolfo Eidt trabalha no asilo Associação de Auxílio aos Necessitados (Asan) readaptando coisas que entram de doação. Ele adequa acolchoados, roupas de cama de casal, faz reformas, arruma lençóis rasgados, ou seja, tudo o que faz em sua loja. Há quatro anos, ele já prestava serviços para o abrigo, até que um dia a administradora perguntou se ele poderia trabalhar lá dentro, pois ficaria mais cômodo para ele ajudar. Ele topou o desafio. E não se arrepende. “Faz parte da vida, tenho o trabalho e aquilo lá (o asilo). Hoje já não consigo mais separar uma coisa da outra”

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Irma é cliente dos acolchoados Eidt


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A voz que vem do poste Alto-falantes instalados na Osvaldo Aranha, principal rua de Venâncio Aires, marcam o início da radiodifusão na cidade Alan Faleiro Reportagem e fotografia

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o longínquo ano de 1937, a radiodifusão dava seus primeiros passos em Venâncio Aires. Por meio de alto-falantes instalados em postes, as possibilidades de comunicação foram ampliadas e a população ganhou uma nova forma de entretenimento. Com cerca de 30 mil habitantes na época, a cidade via surgir uma primeira experiência de rádio, o sistema Voz do Poste. Em um trecho de dez quarteirões da Osvaldo Aranha, principal rua da cidade, alto-falantes transmitiam músicas, avisos e dedicatórias. Sabe-se também que, de 1947 a 1952, a rádio-poste Voz do Ouro funcionou em Venâncio Aires. Em 1954, liderada por Ilgo José Wink, a Voz do Ouro ressurgiu batizada pelo povo de Voz do Poste. No entanto, com a meta de evoluir a estrutura de rádio-poste para uma emissora de rádio, em 1956 foi criada a Sociedade Venâncio-airense de Radiodifusão Ltda. Com isso, o sistema de transmissão por altofalantes seria, então, aposentado. “O povo se juntava na praça para ouvir a Voz do Poste. Era uma novidade para os

venâncio-airenses e o rádio era algo, ainda, pouco conhecido”, conta Avelino Klein, 88 anos. As rádios-postes marcaram o surgimento das rádios tais como conhecemos hoje. Conforme Klein, as transmissões ocorriam apenas em determinados horários, como nos finais de tarde, aos sábados pela manhã e aos domingos, quando a programação era mais intensa. A Voz do Poste funcionava como meio de entretenimento e difusora de informações entre os moradores de Venâncio Aires. O surgimento da rádio refletia um período de mudanças e de crescimento na sede do município. Aos poucos, a cidade sentia os efeitos do progresso e da modernidade. Klein conta que as pessoas iam ao Centro, muitas vezes, só para ouvir a rádio-poste. “A praça era um local de encontro e a Voz do Poste era a atração.” O aposentado lamenta que o hábito tenha se perdido com o tempo, uma vez que as famílias, acompanhadas do chimarrão, costumavam lotar a praça aos domingos, algo que quase já não se vê mais. Além da transmissão de músicas, Klein Acervo Iconográfico do Núcleo de Cultura de Venâncio Aires

Surgimento das rádios-postes acompanhava crescimento de Venâncio Aires

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lembra que a rádio-poste era utilizada na divulgação de informações, anúncios comerciais, avisos e dedicatórias dos moradores. “Era comum o envio de mensagens entre os namorados e congratulações nas datas de aniversário.” Ele também recorda que a programação não era fixa e que havia muito improviso. A voz que ecoava dos alto-falantes no Centro da cidade parecia não incomodar os moradores. Conforme Klein, que acompanhou a evolução da radiodifusão em Venâncio Aires, a rádio-poste era vista como uma atração pela população e, apesar das mudanças, mantém o hábito de ouvir rádio. Após o fim do sistema de alto-falantes, cita que a rádio também se caracterizou, nos primeiros anos, por contar com programas de auditório, que reuniam dezenas de espectadores junto ao estúdio. Harry Wildner foi um dos responsáveis pelo funcionamento da última rádio-poste existente na cidade. A Voz do Poste era algo bastante simples: 24 cornetas de alumínio espalhadas pela rua Osvaldo Aranha, responsáveis por levar música e informação aos ouvintes. O serviço funcionava em um pequeno e, com certeza, precário estúdio defronte à Praça Evangélica. A esposa do já falecido Wildner, Clédia Wildner, conta que o marido era apaixonado por rádio e ter atuado junto à Voz do Poste, assim como ter protagonizado a criação da hoje Rádio Venâncio Aires, lhe era motivo de orgulho. Apesar disso, Clédia relembra que foram tempos difíceis e diz que a rádio enfrentava dificuldades para se manter, uma vez que o número de comerciantes na cidade era pequeno. Logo, eram poucos os anunciantes. “Era um sonho do meu marido, mas que foi difícil de realizar. Hoje, ‘fazer rádio’ ficou mais fácil.” Clédia conta que o marido também demonstrava ligação com a radiodifusão por possuir uma oficina, na qual consertava e também vendia aparelhos de rádio. Ela destaca que a Voz do Poste era um importante meio de se comunicar para a população da época e a compara aos veículos de som utilizados, hoje, para levar informações e propagandas às ruas. “Quem passava pela rua, parava para ouvir”, recorda. Sobre os primórdios do rádio em Venâncio Aires, Clédia lembra, ainda, que enfrentavam dificul-

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Clédia: “Quem passava pela rua, parava para ouvir”

dades para encontrar pessoas qualificadas para atuar na rádio, pois cita a necessidade de uma entonação de voz adequada para trabalhar na locução, por exemplo. Ela diz que muitos profissionais vieram de outras cidades, onde já haviam trabalhado na área. Ilgo José Wink – que já atuara em rádio em Santa Cruz do Sul -, por exemplo, foi, também, quem trouxe as cornetas de alumínio. Para colocar em funcionamento a primeira emissora de rádio do município, que aposentou a Voz do Poste, Harry Wildner foi ao Rio de Janeiro, em 1955, e após várias idas e vindas à então capital do Brasil, conseguiu a frequência 1.260khz e o prefixo ZY U-90 para a Sociedade VenâncioAirense de Radiodifusão Ltda. Em 1959, o Ministério de Viação e Obras Públicas assinou a portaria que oficializou a emissora. As rádios-postes foram uma realidade no início da radiodifusão em alguns outros municípios do Rio Grande do Sul. Em Santa Cruz do Sul, a partir dos anos 40, se verifica os primeiros passos rumo a esse processo, por meio da criação de um serviço de comunicação através de altofalantes. Assim como em Venâncio Aires, era chamado de Voz do Poste. A rádio-poste funcionava na praça central e não durou muito tempo. Funcionou de janeiro de 1945 a março de 1946 e serviu de base para a instalação da Rádio Santa Cruz, inaugurada em abril de 1946.


Klein acompanhou a evolução da radiodifusão em Venâncio Aires

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Em terra de Oktoberfest, quem fala italiano é exceção Conhecida por cultivar a cultura germânica, Santa Cruz do Sul também dissemina a tradição italiana Laura Gomes Reportagem e fotografia

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vida de repórter é feita mais de surpresas do que de certezas. Preparei-me para essa reportagem com uma ideia completamente diferente do resultado. A minha paixão pela cultura italiana não é segredo para os que me conhecem. Porém, mesmo já tendo visitado o país em forma de bota na Península Itálica, fiquei mais do que surpresa com o que descobri durante a execução dessa pauta. O que acreditei e aprendi nos últimos anos era que os descendentes italianos no Brasil falavam o italiano do jeito deles, uma língua diferente da que encontrei na Itália por questão de tempo e adaptação. Agora entendo porque a minha bisavó, que tem os descendentes da região do Vêneto, Itália, disse que não entendia o italiano do meu bisavô, o qual tem as suas origens na região sul da Itália. Se os dois falavam italiano, como poderiam não se entender? A questão, que descobri somente agora, é que não se tratava de uma língua oficial falada em todo território italiano, mas de várias. Cultivadas, inclusive, em terra de tradição germânica no próprio Brasil. O que mais me surpreendeu foi encontrar pessoas próximas que se comunicam em uma língua que não é a mais falada no País e que, além disso, tem origem em outro continente. O português é o idioma oficial do Brasil, mas não são todos os seus habitantes que se sentem a vontade para se expressar nessa língua. Por ter imigrantes de diversos países, o falar brasileiro é o resultado de várias culturas. “Quando eu fui para a escola me perguntaram se eu falava em casa o italiano ou o português. A mãe não chamava de italiano nem de português. Eu não sabia o que era.” Foi assim que, aos sete anos, ao começar a frequentar a escola, Maria Sartor, agora com 84 anos, descobriu que não sabia uma palavra de português. Em casa, o idioma falado era o vêneto, herança dos avôs, oriundos da região de mesmo nome, no norte da Itália. “Era a única coisa que eles sabiam falar, nem sabiam que existia outra língua”, revela Marilva Parisotto, filha de Maria. Essa forma de falar é reconhecida pela Organização das

Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como a língua vêneta, uma das mais de 30 línguas reconhecidas pela instituição como presentes na Itália. Considerado vulnerável, o idioma vêneto tem dois milhões de falantes apenas na região vêneta, na Itália. A Unesco estima que outros dois milhões de pessoas também falem o idioma em outros lugares, como na Croácia e na Eslovênia. No Rio Grande do Sul, os descendentes dos italianos tratam essa linguagem como dialeto, uma variação da própria língua, e não como uma língua própria. Franco Contro, italiano que vive no Rio Grande do Sul desde 2008, é o responsável pelo programa de rádio sobre a cultura italiana Per sempre Italia, o qual é produzido na primeira parte em italiano gramatical e, na segunda, na língua vêneta. Segundo ele, a primeira língua de quem mora na região vêneta é o italiano. No entanto, as conversas entre amigos acontecem em outro idioma. “Nos círculos de amizade, hoje em dia, se fala vêneto.” Algumas diferenças podem ser notadas entre o vêneto e o italiano. Entre elas está a forma de falar os dias das semanas e os números. Franco se reúne com as turmas de Marilva ocasionalmente para praticar o italiano e também para conversar em vêneto com Maria. A conversa com mãe e filha ocorreu no ‘quiosque’ de Marilva, espaço que conta com cozinha, mesa de estudos, sala de televisão e banheiro. A decoração remete sempre para a bella Itália. O mapa em forma de bota está presente, assim como fotografias do País, um quadro branco com palavras difíceis para os brasileiros se lembrarem do significado em italiano e um armário com livros, conhecido como a biblioteca do italiano. O vinho e o café também fazem parte do recinto como membro honorário, assim como o macarrão, que está quase sempre próximo ao fogão, e o molho pesto na geladeira. Na televisão, a programação são DVDs de artistas italianos e os filmes lá produzidos. Para quem frequenta o quiosque, o pedido é sempre o mesmo: soltanto in italiano, ragazzi!

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A herança vêneta em esquecimento O idioma se transforma com o tempo. Por desuso, algumas palavras se modificam, outras se adaptam. Surgem, assim, outras formas de falar e linguagens específicas de cada região. Para o imigrante que deixou o seu lar em busca de oportunidades, o idioma pode ser uma das formas mais presentes para continuar vivenciando a sua cultura de origem. Maria abre o sorriso ao falar do seu primeiro idioma. “O meu italiano é mais bonito do que o outro italiano.” A língua que ela se refere como sendo dela não é o italiano nem o português, mas sim a língua vêneta. Essa variante linguística é a forma como mãe e filha se comunicam. “Acho que ela fala tudo no dialeto. Na verdade, eu não percebo”, comenta Marilva. Se a comida, o clima e o cenário são diferentes, a comunicação dentro da família e com outros imigrantes pode

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continuar sendo feita na língua materna. De forma a relembrar as raízes, esse modo de falar é transmitido de geração em geração, mas pode estar começando a ser esquecido pelos jovens. “Até hoje, na nossa casa, é tudo em italiano. Não tenho dificuldade de falar o português. Falo por falar, mas gosto mais do meu italiano”, explica Maria. Apesar disso, seus netos não reconhecem a língua da avó. “Meus filhos nunca tiveram muito contato com o dialeto. Eles estudaram alguns livros de italiano, mas mais por curiosidade”, declara Marilva. Para Maria, é falta de interesse. “Não tenho paciência para ensiná-los a falarem italiano, mas eles também nunca pediram para aprender.” As duas trocam comentários murmurados. Uma na língua vêneta, outra no italiano. Logo após, Maria começa a cantarolar no seu idioma materno.


O falar transformado em profissão A herança da família tornou-se a paixão de Marilva. “Comecei a estudar o italiano de brincadeira. Muitas coisas que eu sabia do dialeto eram iguais no italiano e o sotaque eu já tinha. Quando eu era pequena, não gostava que falassem na língua da mãe. Eu tinha raiva porque não entendia nada. Depois que eu comecei a estudar, tudo tomou outro rumo.” A filha de Maria transmite o seu conhecimento sobre a língua e a cultura italiana nas aulas que ministra. São 46 alunos divididos em cinco turmas, mais 30 pessoas de dois grupos que já se formaram em italiano, mas que retornam para encontros realizados pela professora e também para refazer algumas aulas. Esse ano, mais uma turma com 13 alunos se forma: a minha. Mais do que um trabalho, o italiano é parte da vida de Marilva. Ela dedica as noites da semana para o ensino do idioma, assim como gosta de se reunir com os alunos nos fins de semana e feriados para colocar em prática os ensinamentos. São filmes, livros, culinária, visitas de nativos, passeios, músicas e brincadeiras que aproximam, entre si, os estudantes de diferentes turmas da professora. Tudo isso começou quando ela era pequena e escutava os pais conversando. “A mãe e o pai falavam em italiano entre eles, mas comigo era em português. Eu os escutava falando e repetia.” Apesar de gostar mais de falar a linguagem da região vêneta do que o português, Maria, mais conhecida como nonna (avó em italiano) pelos alunos de Marilva, nunca foi

para a Itália. Se algum dia pisar na terra de seus ancestrais, o destino é certo: Vaticano. “Iria para ver o Papa.” A filha já visitou o País três vezes e está com a passagem em mãos para retornar em poucos meses. “A primeira vez na Itália foi muito especial. Era mais do que eu esperava. Porém, se tem uma coisa que eu não penso é em ter aquele orgulho de dizer que sou italiana. Sou brasileira. Tenho antepassados italianos, mas sou daqui. Se eles saíram de lá por necessidade ou alguma outra coisa, aqui eles tiveram uma pátria que os acolheu.” A língua que Maria aprendeu com os pais é o que ela entende como italiano. “A Maria me disse que a Marilva não estava ensinando bem o italiano, por pensar que estivesse ensinando o vêneto de forma errada”, conta o italiano Franco. Maria e ele se comunicam apenas na língua vêneta. Apesar de nunca ter conhecido a região vêneta, Maria consegue conversar perfeitamente com Franco. O italiano se admirou com a história da imigração italiana no Brasil. “Na Itália a gente não sabia nada sobre a grande imigração italiana. Fiquei sabendo quando vim para cá. Ninguém sabia porque ninguém contou nada. Não tem nos livros.” A história dos imigrantes que deixaram a sua terra natal rumo ao Brasil pode não estar escrita nos livros italianos, mas é vivida e sentida por gerações que aqui encontraram e cultivaram um novo lar, mas que ainda preservam o idioma materno.

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Ensaios As fotos realizadas para este ensaio foram feitas pelos formandos do curso Superior Tecnólogo em Fotografia 2013/2. Elas são os Trabalhos de Conclusão de Curso que todos vão apresentar nesse fim de ano. Os temas foram esco-

lhidos por eles e cada um se baseia na sua especialidade, aquilo que julgam ser a melhor área em qual trabalham. Essa especialidade é o caminho pelo qual eles têm o desejo de se dedicar durante sua vida profissional.

Thiane Luiza Graciola

Kathiely Watte

Carolina Feuerborn

Alvaro Pegoraro

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Thiane Luiza Graciola

Manuela Kunzler Carolina Feuerborn

Mariana Frantz Saldanha

Mariana Frantz Saldanha

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Cidade dos vivos HĂĄ muita gente viva nos cemitĂŠrios; todas elas trabalham Thamires Waechter Reportagem e fotografia

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o chegar à porta dos fundos, penso que o cenário é assustador; afinal, cemitério é um lugar místico, que remete automaticamente à morte. Entro pelo portão e, ao andar junto aos túmulos, reparo nos nomes. Alguns casais que foram enterrados juntos, túmulos de famílias inteiras. Túmulos de jovens, idosos. A maioria das lápides é antiga e desgastada pelo tempo. Ou, talvez, quebrada por vândalos. Ando entre os túmulos. O lugar está vazio. O único barulho que se ouve era de vassouras, vindo a poucos metros de onde eu estava. Duas mulheres, de idade entre 45 e 50 anos, varrem a sujeira acumulada nos túmulos. Para elas, aquele era um dia normal de trabalho. Cantam e fofocam sobre suas próprias vidas, contando casos, aconselhando. Falam de filhos, marido, família. Como um emprego em qualquer outra empresa. Atravesso o Cemitério Municipal em direção à recepção do local. Ao errar o caminho, deparei-me em um outro ambiente, onde as lápides são em gavetas. Ambiente silencioso e vazio, paredes brancas, lápides cinzas. O Cemitério Municipal possui mais de 140 mil pessoas sepultadas, enquanto que a população de Santa Cruz é de 118, 374, segundo o Censo de 2010 do IBGE. Ou seja, mais mortos do que a população da

cidade. O único barulho que ouço foi o de meus passos ao sair dali e, finalmente, tentar achar o local da recepção. De volta ao local a céu aberto. As mulheres que varriam a sujeira do cemitério, ao perceber meu erro, me indicam o caminho correto, sempre receptivas. Quando, finalmente acho o ambiente da recepção, deparei-me com duas salas: A primeira abrigava um computador, duas cadeiras, dois sofás, pastas e arquivos. Já na segunda sala cinco homens conversam animadamente, como em uma roda de bar, como no intervalo do trabalho. Ao me apresentar, percebo o perfil das pessoas que trabalham em um cemitério. As funções desempenhadas em tal local são desconhecidas por grande parte da sociedade. Essas pessoas possuem uma vida, histórias, família, filhos. E o cemitério, para eles, é uma empresa como qualquer outra, um emprego como qualquer outro, um cargo como qualquer outro.

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A rotina na microcidade Todas as manhãs, por volta das 7h15, os funcionários chegam ao seu local de trabalho. Sentam, fazem um chimarrão, assistem ao Bom Dia Brasil e conversam. Atendem às pessoas que procuram por venda de sepulturas, cadastros, conforme elas chegam. E, assim, a manhã se encaminha até a hora do almoço, em que todos se reúnem na cozinha e desfrutam da comida que eles mesmos fazem. Galinhada, churrasco, carreteiro estão entre os pratos do cardápio. À tarde, o trabalho segue, cada um com sua função, como limpeza de túmulos, exumação e atendimentos, até por volta das 17h15, em que a maioria deixa o Cemitério. Alberto Vargas não tem receio de trabalhar no Cemitério Municipal como encarregado da limpeza e manutenção no local. Seguidor da doutrina espírita, casado e pai de duas filhas, ele considera sua casa a sua igreja. “As pessoas me perguntam se, por eu trabalhar em um cemitério, não vou à Igreja. Eu respondo: minha casa já é minha igreja”. Quando não está no cemitério, ele se dedica à família e ao Centro Espírita que frequenta. Com isso, acaba misturando as duas coisas. No Cemitério Municipal, Vargas já avistou vultos, fantasmas, ouviu vozes, passos. “Várias vezes, escutei alguém me chamando e quando fui olhar, não havia ninguém”, relata. Ele acredita que o cemitério é um lugar carregado e que os espíritos estão em toda parte. “Já vi um espírito escorado na mesa, parado, me olhando, mas não o conhecia”, lembra. Em seu tempo livre, ele se dedica à leitura. Seus livros preferidos são os espíritas e ele lê para acalmar as tensões ocorridas eventualmente no trabalho. Outro passatempo de Vargas é o cultivo de plantas. Ele aprecia a horta que tem em sua casa e passa o tempo com isso. Cézar Mello trabalha há seis anos no Cemitério Municipal como agente administrativo. Aos 48 anos, ele é estudante de Química Licenciatura na Universidade de Santa Cruz. Pai de dois meninos e uma menina, Mello conta que o que mais chama a atenção no seu local de trabalho

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é o fato de que os descendentes de turcos são enterrados nus e de lado. Outro ponto destacado por ele se refere às macumbas e despachos realizados por seguidores de umbanda. O fato de Mello, assim como Vargas, conseguir ver espíritos e ser seguidor do espiritismo, fica em segundo plano para ele. “Quando estou na secretaria do cemitério, consigo ver com o canto do olho os vultos passeando no meio dos túmulos”, conta com naturalidade. Ele procura se dedicar aos estudos na Unisc e ao Centro Espírita. Os filhos, Emmanuel, 16 anos, Mikael, 14 e Ellen, 13, realizam ligações frequentemente. Ligam para contar coisas da escola, pedir permissão para fazer algo, ou até mesmo perguntar se o pai vai para casa ou para a faculdade. Valter Correa tem 37 anos e também trabalha como operário no Cemitério. Limpeza de túmulos, entre serviços gerais, estão em sua função. Quando chega sua vez na escala de plantão, ele realiza o trabalho em casa e só vai ao cemitério quando falece alguém. Durante o plantão, feito em escala entre os funcionários, eles ficam atentos, de casa, ao celular. Só precisam comparecer ao Cemitério Municipal em caso de falecimento. Após realizados os procedimentos fúnebres, é hora de voltar para casa. Ele espera o final de semana para curtir em família. A 29ª Oktoberfest , de 2013, foi um exemplo. “O show do Latino foi o melhor”, lembra. Ele levou a filha para a Festa da Alegria e conta que a menina adorou. Fora da Oktoberfest, ele frequenta bares com sua família, faz churrasco e futebol com os amigos para aproveitar o descanso do final de semana. Para Vargas, Mello e Correa, assim como para os demais funcionários do Cemitério Municipal, o dia a dia dentro do local é como se estivessem em outro emprego qualquer. Para eles, fazer parte da administração do cemitério não influi no estilo de vida, amizades. Em outras palavras, o cemitério, para eles, não é um lugar de mortos, mas sim de vivos.

Foto: Banco de imagens


Exceção em áudio: para que todos entendam Acesse www.revistaexcecao.blogspot.com e conheça o novo trabalho, pioneiro em revistas laboratoriais

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A Ferrari dos tropeiros Gabriela Belo Meller Reportagem

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Foto: Banco de imagens


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eu nome é Mariton Guterres, tenho 45 anos. No meu tempo a tropeada aqui era no lombo de um cavalo ou égua, bicho rústico, nascido e domado na fazenda. A égua entrava no cio e arrumávamos um cuiudo de boa fertilidade com um amigo pra procriação. Se a cria dava boa, eu mesmo fazia a doma. Não por hobby, como falam por aí, mas pra trazer o sustento da minha família. Aqui no Alto dos Casemiros, interior de Cachoeira do Sul, amansei tanto cavalo que já me perdi nas contas. Hoje, a realidade é outra. Mas desse modo simples que criei meu filho, o Gabriel Guterres. Sabe quase como eu a lida, e se precisar, acorda cedo, junto comigo. Me acompanha num bom mate amargo. Meu dia não começa antes disso. O serviço de tratar os cavalos é com ele. Claro que em dias de estudo o serviço fica comigo. Quero ver ele formado, tá no início, guri novo de 19 anos. Também quero vê-lo lidando por aqui, mas só nos finais de semana. Minha esposa, Carla, fez minha cabeça. Hoje sem estudo, não se chega a lugar algum. Já meu avô, homem gaúcho e trabalhador, nunca escolheu trabalho nem dia pra ir pra lida, em dia de sol ou chuva acordava cinco horas da manhã, fazia fogo no fogão a lenha, esquentava a água e ia logo cevando um chimarrão. Saía pra estrebaria e encilhava sua mula. Esse era bicho bom. Mas, falando nas mulas, bicho em extinção, boas no serviço, pra carga melhor ainda. Mas isso alguns anos atrás. Logo que comecei a trabalhar, arrumava elas na rédea, mais pra dar direção na hora de montar. Me lembro pouco, era muito jovem. Mas gostava muito de observar meu avô, foi com ele que aprendi o serviço. Era homem “paciencioso”, por aqui isso é qualidade, outros usam “calmo”. Mas acho que calmo significa gente parada, como água em poço. Ele não era assim, muito pelo contrário, em

dias de pouco serviço saía pra ajudar os vizinhos no que fosse preciso. Hoje a lida campeira mudou, vieram os cavalos crioulos. Meu trabalho com eles começou por volta do ano 2000. São animais de força, suportam pesos elevados. Desde que estejam bem alimentados, tenham água à disposição e que o peso em questão não seja uma coisa absurda, suportam o dia inteiro de serviço. Para ter uma Ferrari dessas é preciso um bom investimento. Claro que se o peão ou patrão busca um animal de qualidade isso se dá por uma série de fatores como o sangue que o cavalo possui. Mas não quero que vocês entendam da raça. Pra isso precisa analisar casco, pelagem, coisas que só se aprende na vivência. Quero dividir com vocês meus dias. Contar de como é a vida aqui nos Casemiros. De vestimenta sempre ando assim, largadito. Uma bombacha, pra facilitar no serviço de monta, quando frio, bota de couro, mas em dias como hoje fico de alpargata mesmo. Chapéu e camisa. A pilcha completa uso em dias de passeio, ou em dias de desfile da Semana Farroupilha. Nesse dia deixo do serviço pra honrar a tradição. Meus dois filhos me acompanham sempre. Mas como já falei, a doma é meu sustento. Cavalo é minha paixão, se pudesse ficava com todos os animais que passam por aqui, chego a ter 15 animais pra trabalho por dia, são horas do dia dedicadas pra cada animal. Sem vontade de me despedir. Queria prosear mais um pouco, tomar mais uns mates, mas quando chega por esse horário, cinco da tarde, estão todos, olhando em direção à morada, a espera da boia. O último trato do dia. E aqui depois que escurece, é hora do descanso. A mulher também encerrou todo serviço, alimentou os cachorros e me aguarda pra jantar. Meu filho janta solito, chega mais tarde, só depois do estudo.

Onde os burros não foram pra escanteio Esses animais ainda podem ser encontrados no estado de Pernambuco, mas a realidade lá é a seguinte – como a mula é resultante do cruzamento entre um jumento e uma égua e todos eles ficam soltos na rua das cidades, onde há animais de diversos pelos e mistura sanguínea. O macho desse cruzamento, o burro, fisicamente é mais parecido com a mãe – a égua, ainda assim ele consegue herdar do jumento a força e a resistência. Como contou o senhor Mariton Guterres, o bicho é rústico mesmo. Do tipo que topa qualquer serviço. Aprendemos com o personagem da nossa reportagem que isso se dá pelas características do sangue, forte e prevalecem as características de resistência e bravura, possibilitando que carreguem quilos morro acima no lombo.

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Crônicas O grito de vitória Julianne Barragan Wagner

Ilustração: Frederico Silva

Aluna do curso de Jornalismo

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Um raio de sol teima em habitar a caverna escura e sombria. Embora luminoso, o raio é tão pequenino que passa despercebido. As mãos tentam, em vão, alcançar a luz. Uma força estranha impede que a mente encontre a paz e o sossego desejados. Parece piada que a única luz existente no local ilumine, apenas, o cronograma das provas e trabalhos finais. Só mais algumas semanas para, enfim, saber se venci (ou perdi) a batalha semestral. Sujeitos com livros e listas de chamadas em mãos dizem que são meus aliados, mas os olhares que me lançam toda a manhã fazem o meu instinto os catalogarem de inimigos. À medida que o duelo final se aproxima, os aliados/inimigos surgem com armas cada vez mais sofisticadas: trabalhos para serem feitos em última hora, provas antecipadas, exercícios complicados...Tais armas sugam minhas forças e quase que acabam com a minha jovialidade. Fotos de formandos estampadas nas paredes da universidade me causam inveja. Todos parecem tão inteligentes e confiantes. Já o meu reflexo mostra o medo e a aflição de uma universitária em fim de semestre. Com a mochila nas costas, ando “devagar, quase parando” rumo a sala de aula. O sujeito – aquele da lista de chamada – sorri e me deseja um bom dia, como se dissesse: “viu, eu quero te ajudar”. O café é meu cúmplice na luta contra o sono e o cansaço. O conhecimento adquirido através da leitura de livros, jornais e revistas é o meu braço direito para contra atacar os aliados/ inimigos. A aflição presente em meu olhar pode ser percebida também nos olhos exaustos dos companheiros de batalha. E a pequena luz, aos poucos, vai aumentando e iluminado a mente habitada por incertezas.


Amor perdido! Carolina Schmidt Aluna do curso de Jornalismo

Se eu pudesse, iria te buscar no lugar onde você está para te trazer de volta até aqui nestes mesmos caminhos que um dia esteve! Foi um amor perdido! Se eu pudesse olharia, novamente, em teus olhos e apreciaria o teu sorriso! Se eu pudesse te diria tudo que eu não pude dizer!Se eu pudesse diria para o vento te levar um beijo! Sei que você continua brilhando no lugar onde está! Sei que um dia vamos nos reencontrar! Como não posso mais te ver, olho para uma estrela e imagino que possa ser você. Queria muito te rever, pois ainda está muito viva na minha lembrança! Quando eu olhava nos teus olhos eu sabia que tinha algo! No entanto, perdi esse amor! Era aquele amor, mas que não pode ser vivido! Não sei por que você se foi! Não sei por que tudo acabou sem antes ter começado! Não sei de nada e isso machuca, até hoje! Queria ter você aqui comigo, queria te ver de novo! Sinto saudades do que não vivi, sinto saudades do que pode ter sido e não foi, sinto falta de tudo que foi bom! Uma das piores dores é o amor perdido, não correspondido ou aquele que vai embora! Isso que machuca tanto faz perder o sono e a paz. Por quê? Isso ocorre, pois, nos faz pensar demais, nos faz procurar razões que, muitas vezes, não são encontradas ao certo; e, pior ainda, nos deixam com mais dúvidas para machucar ainda mais o coração! Não sei se o amor é bom ou ruim; mas, assim como traz felicidade pode doer muito! Aquele velho ditado ‘amar é sofrer’ faz sentido e explica muitas coisas. Não sou contra o sentimento, em hipótese alguma, porque pode existir em diferentes formas como de pai para filho, de filho para pai, de neto para avô. O que faz sofrer é o de relacionamento entre casais. O jeito é esperar para que o tempo traga as respostas e maneiras de fugir do sofrimento!

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Quanto mais antigo Carros antigos persistem ao tempo e conquistam cada vez mais adeptos LuĂ­s Gustavo Finger Reportagem e fotografia

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paixão por carros antigos é considerada uma prática mundial, podendo encontrar donos desses veículos em diversos países. Em Santa Cruz do Sul, o eletricista Eduardo Augusto Schroeder iniciou o gosto por eles ainda quando criança. O hobby veio de família. “O gosto por carros antigos começou cedo, na família tenho tios que também têm a mesma preferência e possuem cesses automóveis.” Desde pequeno convivendo com isso, Eduardo teve seu interesse despertado para a mecânica e neste ponto, como afirma, os antigos têm uma rusticidade e complexidade que fascina, ao contrário dos dias de hoje, que tudo é eletrônico. O primeiro carro de Eduardo veio como consequência da morte de seu irmão, em 2004. A partir daí, o gosto pelos clássicos só aumentou, principalmente pelos Volkswagen refrigerados a ar. Para muitos comprar um carro antigo é desperdí-

cio de dinheiro, conforme Eduardo, os valores ultrapassam facilmente carros zero km, mas isso não é empecilho para os apaixonados pelo antigomobilismo. Schroeder adquiriu em 2012, uma Kombi ano 1970 a qual ele mesmo fez toda a parte de restauração, deixando somente a pintura a cargo de uma oficina especializada. “A restauração levou cerca de um ano e meio e suas peças sendo restauradas conforme a desmontagem até ficar somente a carcaça que foi para a pintura. O serviço de pintura levou dois meses para ser concluído e após este período começou a montagem e eventual restauro de algum item antes de ser novamente montado”, afirma o eletricista que trabalha em uma concessionária de carros. Porém, nem só de glamour vive essas antiguidades. Manter esses carros leva tempo e dinheiro. Schroeder conta que encontrar itens específicos do modelo da Kombi Split na região é bastante difícil. “No mercado local as peças são mais voltadas ao modelo de Kombi Clipper, que possui a frente mais parecida com a atual. As peças de reposição geralmente são de uma qualidade muito baixa, o que faz procurarmos por itens originais da época, o que se torna bastante caro dependendo do item e modelo do veículo.”

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Duas paixões: a música e os carros antigos Drurys Pedroso é outro apaixonado por esses carros. Como ele mesmo conta: “Eu sou do tempo que isso aí andava, eu vi os Opalas nas concessionárias.” Mas não só por isso que Drurys é um desses antigomobilistas, a música e os carros antigos são paixões que andam juntas. “Isso vem junto com a música, tu abria um disco e tinha a foto da banda na frente de um carrão desses”, conta ao lembrar-se das capas de vinil da época. Sobre o que torna esses carros antigos especiais, o músico que toca na banda Viúva Negra afirma “Esses carros eram do dia-a-dia de muita gente, eles foram deteriorando e sumindo, aí pessoas que nem nós, que participamos de clubes, que somos apreciadores, a gente cuida, ‘Não isso aqui vai ser salvo’, alguns a gente mesmo restaura”. Quanto aos desafios, o contrabaixista se empolga “Por exemplo, esse friso aqui, é que nem garimpar ouro no deserto, não tem nem para vender, não adianta tu ter dinheiro e ir em tal loja para comprar uma grade para o

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Opala 64, tu chega na loja e os caras nem sabem o que tu procuras, nunca ouviram falar. Então isso é o mais emocionante, o garimpo das peças. É tu chegar em uma reunião do clube, ‘Cara eu consegui a garrinha do para-choque’, aí vem todo mundo olhar, é um troféu também.” A dificuldade de encontrar peça é tão grande que Drurys já teve a atitude corajosa de comprar um carro, para tirar uma peça. “Eu já comprei um Opala para tirar a parte de mecânica dele e o resto foi fora”, tamanha é a paixão por esses automóveis. Os carros de Drurys recebem oferta de compra quase que diariamente e conta que no início era mais gentil ao responder as ofertas. “Às vezes eu digo para os caras, ‘Tu viu alguma placa escrito vende-se ali?’, primeiro eu era bem light, explicava que era da família e por isso não estava à venda, mas tem uns caras que chegam aí na grosseria, aí tu tem que ser grosso que nem eles também”, revela. O músico que também conserta instrumentos musicais diz que a manutenção é feita pelos próprios donos dos carros, pois segundo ele é difícil encontrar oficinas mecânicas que aceitem realizar as manutenções. Os colecionadores, em seus clubes, fazem um mutirão e se solidarizam no cuidado a essas relíquias. Conforme conta, o problema é o tempo e os compromissos particulares de cada um. O cuidado é tanto que durante a entrevista Drurys afirma que o Opala 64 estava sujo, ou como disse, “Para mim ele está sujo, eu estou com vergonha de tirarem foto dele assim, tem que ver ele depois dos produtos que a gente passa, agora dá para dizer que ele está imundo”.


De pai para filho Luiz Kothe, 50 anos, se criou dentro de uma Kombi, esse é o motivo que o comerciante utiliza para explicar a paixão pelos carros. Aos 14 anos, com o falecimento de seu pai, foi obrigado a se afastar da Kombi comprada por seu pai e interiorizar uma paixão que mais tarde voltaria à tona. Para pagar as despesas do velório, sua mãe precisou vender o automóvel, deixando Luiz, com 15 anos na época, mais triste ainda. Os anos foram passando e Luiz pensava consigo mesmo “Eu ainda vou comprar uma Kombi dessas, parecidas que nem o pai tinha pra deixar de recordação”. O sonho começou a se realizar em 1994. O primeiro obstáculo tinha sido superado, a tão sonhada Kombi havia sido encontrada. Porém, o dono do veículo também era apaixonado por ela. A partir daí, Luiz iniciou um namoro com a Kombi, buscou convencer o dono a vendê-la, até que dois anos depois Kothe conseguiu ultrapassar o segundo obstáculo. Conforme conta, “Eu fui a casa dele por dois anos para tentar comprar a Kombi desse senhor, que já não andava mais com ela fazia cinco anos, tava parada na garagem, mas também não queria vender, até que o convenci e vendeu para mim, então, começou por ali, mais tarde comprei outros carros para fazer coleção e isso virou um hobby.”

Atualmente fazem parte da coleção de Luiz, uma Kombi 1963, uma Kombi Pick Up 1974, um Fusca que precisa ser restaurado e um Ford 1929 que também necessita de restauro. O gosto por carros antigos promove também a amizade e a solidariedade. “Nós temos aqui em Santa Cruz o Veterancar, clube que faço parte, então nos reunimos, não toda semana, às vezes uma vez por mês, fizemos uma reunião e na ocasião trocamos ideias, vemos qual é o problema de cada um, se falta peça, procuramos nos ajudar, esse é o nosso hobby”, conta o comerciante. Kothe sofre do mesmo problema de Drurys e de tantos outros donos de carros antigos, a vontade alheia de comprar suas relíquias. Nem abastecer tranquilo, o comerciante consegue, logo lhe perguntam se seu xodó está à venda. O apego é sentimental, é como se fosse da família, nem por muito dinheiro os “donos corujas” aceitam vender seus veículos. “Não tem como atribuir preço”, garante Luiz. No grupo do qual faz parte, cada integrante possui seu mecânico e seu chapeador e dessa forma os adeptos do antigomobilismo conseguem restaurar e realizar manutenção em seus veículos, pois conforme informa, a maioria das oficinas nem querem fazer serviços em carros antigos. “É um serviço demorado, o carro fica lá parado por muito tempo ocupando espaço nas oficinas, por isso, temos que achar alguém para fazer isso, que gosta, que tem tempo livre, que considere isso como um hobby também.” O colecionador define a paixão como um círculo vicioso. “O bom do colecionador é isso aí, ele pega um carro, começa a reformar, leva o tempo que precisar e quando fica pronto, ele repete o ciclo, vai lá compra outro carro e começa tudo de novo”, garante Kothe, que revela que já pensa em comprar outras relíquias no momento em que ficarem prontos os que já possui.

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Amor à primeira vista Assim como a maioria desses apaixonados, Claiton Kessler, também iniciou sua paixão pelos carros antigos ainda na infância. Com nove anos já sabia dirigir, o que potencializou ainda mais o interesse por carros. Porém, percebeu que os veículos antigos atraiam muito mais olhares do que um carro zero km. Foi então que com 13 anos, com ajuda de seu pai, Claiton, comprou um Fusca 66. Con-

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forme ele mesmo conta, “Esse foi o início de tudo para mim, depois vieram vários outros carros, Fuscas, Passat, Fiat 147, Dodge Polara, vários Opalas, até que comprei meu primeiro Maverick e desde então já passaram 14 Mavericks pela minha mão.” A relação de Claiton com seu Maverick 76 foi cheia de altos e baixos até que os sentimentos se firmaram e nunca mais se separaram. Comprado há 13 anos, o automóvel só foi restaurado há três. O destino queria que ambos ficassem juntos, toda vez que queria vendê-lo, algo acontecia. “‘Falei’ para ele que se parasse de me deixar emperrado, um dia iria deixá-lo novo e não tentaria mais vendê-lo.” Após 10 anos rodando eventualmente com a máquina, o Maverick, ou o “Mave” como seu dono gosta de chamar recebeu uma restauração completa. “Agora é tudo de primeira, ele possui ar condicionado, direção hidráulica e um motor V8 de 320 cv, hoje é só alegria e nunca mais me deixou na mão”, brinca.


Cada veículo possui sua particularidade, alguns são mais esportivos, outros primam pelo conforto, outros são mais econômicos, mas de maneira geral o que torna o carro especial para seu dono é a história entre ambos, a relação do homem com a máquina, algo que marcou certo momento da vida, tornando aquele veículo mais singular ainda para o seu dono. Kessler garante que a relação com seu carro foi amor à primeira vista. “A primeira vez que vi um Mave, me apaixonei e eu tinha 15 anos de idade.” Claiton sempre gostou de ser independente, por ter aprendido muito cedo a dirigir, logo aos 13 anos já estava determinando a ter seu carro. Com a ajuda de seu pai, mais suas economias e sua bicicleta, conseguiu comprar seu primeiro automóvel, um Fusca. “Na época, se você respeitasse as leis de trânsito no dia a dia, o fato de ser menor de idade passava despercebido, então meu pai concordou em me ajudar e colocou o carro em seu nome, mas com a condição de que se me metesse em encrencas me tirava o carro e deu tudo certo, tanto que a minha primeira multa foi com 32 anos de idade” revela. Porém, a reforma de carros antigos é também uma forma de fazer dinheiro. Há 14 anos, o colecionador tinha recém restaurado um Maverick 75, a rodagem era de apenas 200 km e em suas próprias palavras conta: “Num dia à tardinha tirei ele da garagem pra dar uma volta, quando de repente chegou um cara e disse que queria o carro, que

era pra fazer preço e ligar pra ele. Fiquei mais dois dias com o carro e o cara simplesmente pagou o que pedi, e ele tem o carro até hoje.” Conforme explica, se o automóvel for um modelo procurado e estiver em boas condições gerais, com um pouco de investimento o valor dele pode triplicar. A cisma com as oficinas mecânicas é praticamente unanimidade entre os colecionadores dessas relíquias, Claiton deixa uma dica “Deve-se fugir de oficinas que trabalham somente com carros atuais para executar uma reforma em um carro antigo, pois o resultado geralmente é desastroso, tanto no resultado do trabalho como em valores, pois a restauração é um trabalho artesanal e deve-se ter muito cuidado nos acabamentos, um friso amassado ou mal colocado pode comprometer boa parte do valor agregado ao veículo”. Chama a atenção também para os cuidados com quem vai realizar a manutenção ou restauração dos xodós. “Existe muita picaretagem nesse ramo, deve-se sempre buscar referências de quem está contratando para reforma, restauração ou mesmo para uma simples troca de peça.” Quanto ao valor do Maverick 1976, Kessler explica “Atualmente ele tem um custo superior a 60 mil reais, porém o valor de mercado dele pode ultrapassar os 100 mil reais”. Os carros antigos, conforme afirma devem ser colocados para andar pelo menos uma vez ao mês, mas sempre que pode Claiton utiliza seu ‘Mave’, a não ser quando chove, que aí a história é outra.

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Fotonovela

Eu sou o seu futuro Vou mandar um e-mail para o Pai Jô para resolver meus problemas.

TU SOFRES? Resolvo todos os seus problemas em até três dias. Paixão pela fonte, entrevista não gravada e até pauta perdida. Contato: paijo@gmail.com

Pa i J

Qual mal te aflinge, meu filho?

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Não consigo terminar minha reportagem, Pai Jô. Tem como fazer uma simpatia para me ajudar?

o, m e

ajud

a


Vejo muitos Exus no seu caminho. Não vai ser fácil, mas acho que consigo te ajudar. É só seguir alguns passos. Bora dar uma banda!

Como cada mergulho é um flash, vai te benzer lá no meio do rio Jacuí.

Pai Jô se prepara para dar o banho do descarrego

Logo após... O segundo passo é a meditação. Topa?

Com os meus poderes, você vai virar italiano.

“Para realizar a sua pauta, você precisa se informar. Descubra a história de Rio Pardo

Agora o desafio é passar a noite com os coveiros. Para essa eu vou bater cabelo. Depois me conta como foi.

Não percam os próximos capítulos.

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Revista laboratorial Exceção  

Revista laboratorial, produzida pelos acadêmicos do curso de Comunicação Social, habilitação Jornalismo, da Universidade de Santa Cruz do Su...