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E NCARTE DA EDIÇÃO 394 - OUTUBRO DE 2013


FRANCISCO UCHA

encarte

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essa altura do campeonato da vida, a notícia já correu mundo. Está velha. O falecimento de Maurício Azêdo, aos 79 anos, no dia 25 de outubro, não foi exatamente uma surpresa. O jornalista, que morreu em decorrência de uma parada cardíaca, estava internado havia duas semanas no Hospital Samaritano, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro. Nos últimos anos, internações semelhantes se repetiram algumas vezes. Desta, no entanto, o desfecho foi diferente. Maurício não teve alta. Simplesmente, partiu. Passado o impacto da perda, tão definitiva quanto a necessidade de dar continuidade a seu trabalho é a impossibilidade de ficar indiferente à falta que ele fará ao cenário do jornalismo brasileiro em geral. E, em particular, à centenária ABI, que presidia desde 2004. “É aquela velha sensação: cada vez que alguém sai de cena, é como se uma biblioteca tivesse se incendiado. Isso é particularmente real quando quem sai de cena é um jornalista. Alguém que, por escolha própria, resolveu passar a vida tentando captar e retratar – de uma maneira ou de outra – a passagem do tempo. Maurício Azêdo tinha um coração combatente. Não se limitou à prática do jornalismo: também embarcou na militância política. Um coração combatente: eis aí um projeto de vida. Já justifica uma caminhada. Para que falar de morte, então?”, propõe Geneton Moraes a este repórter, em resposta a um pedido de declaração a respeito do companheiro de profissão.

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Em registro de pesar, o dia 25 de outubro entra para a história da ABI, com a morte de um de seus mais combativos Presidentes. Aos 79 anos, Maurício Azêdo acabou vítima de uma insuficiência cardíaca. Mas deixou como legado uma obra e diversos exemplos que por certo jamais serão esquecidos. POR PAULO CHICO Foram muitos os pedidos. Inúmeros os retornos. Na quase totalidade deles, o tom foi este mesmo, desfiado pelo premiado jornalista da GloboNews. Desta espécie de ‘dossiê Maurício Azêdo’ que aqui se inicia, constam recordações de casos políticos, passagens célebres da luta em defesa das liberdades, e do primor do texto de um redator realmente admirável. E até mesmo a constatação do quanto poderia soar irascível o gênio de Azêdo. Por vezes, confirmam os depoimentos de alguns amigos, seu humor, literalmente, azedava. Nada demais, tampouco incontornável. Apenas a tradução do comportamento típico de um homem convicto de sua função pública. Como tal, Maurício era apaixonado por debates. E, sobretudo, fiel às próprias idéias. “Tem uma frase do filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592) que diz: ‘a mais honrosa das ocupações é servir o público e ser útil ao maior número de pessoas’. O meu amigo Azêdo foi isso. Um

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servidor público por onde passou, seja nas Redações, seja em funções públicas. Foram mais de quarenta anos de amizade e companheirismo. Quando eu cheguei ao Rio, no início dos anos 1970, foi ele quem me deu meu primeiro freela. Militamos juntos no PCB, no Sindicato, na ABI e no Cineclube Macunaíma. Fomos amigos de repartir um prato de macarrão e de sempre procurar saber como andava a vida de um e de outro, na alegria e na tristeza. Brigamos mil vezes e fizemos as pazes um milhão de outras vezes. Mesmo quando discordava dele, nunca deixava de respeitar e admirar sua pessoa. Em duas palavras: era íntegro e generoso”, descreve Ancelmo Gois, colunista de O Globo. O relato de Ancelmo confirma, em particular, um fenômeno que, com quase todos os demais companheiros, também se dava assim. As tormentas enfrentadas nos inevitáveis embates com o Presidente da Casa dos Jornalistas em pouco tempo transfiguravam-se, novamente, na cal-

maria das amizades profícuas. Maurício era mar generoso. Por mais radicais que fossem as suas posições, por demais acaloradas as discussões, nada havia na sua transparente personalidade que inviabilizasse reaproximações. Tudo sempre podia ser perdoado, superado. Reconstruído. Compartilhado. Oscar Maurício de Lima Azêdo veio ao mundo em 27 de setembro de 1934, no Rio de Janeiro. Nascido em Laranjeiras, foi criado no bairro do Catumbi, onde passou boa parte da infância e da juventude. Formou-se em 1960, na Turma Roberto Lyra da Faculdade de Direito do Catete. Seguiu o Jornalismo por opção. Na verdade, pela paixão. Iniciou sua trajetória em jornais do Partido Comunista Brasileiro (PCB), do qual era militante. Ao longo de sua carreira, foi repórter, redator, cronista, editor, chefe de reportagem, editor-chefe e diretor de Redação. Trabalhou em diversos veículos, como Jornal do Commercio, Diário Carioca, Jornal do Brasil, Diário de Notícias, Jornal dos Sports, Última Hora, O Dia, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo, entre outros diários, além das revistas Manchete, Fatos & Fotos, Pais & Filhos, Realidade e Placar, cuja criação foi baseada em projeto de sua autoria e da qual foi o primeiro editor-chefe. Outro veículo em que atuou foi o periódico Folha da Semana, criado pelo PCB. Devido a seu caráter crítico e às denúncias que publicava, o jornal, que foi veiculado entre os anos de 1965 e 1966, foi proibido de circular pelo então Ministro


“NOS IDOS DE CENSURA PRÉVIA, PRISÕES E TORTURAS, MOSTROU TER A PRINCIPAL QUALIDADE DE UM VERDADEIRO JORNALISTA: A CORAGEM” TONICO F ERREIRA

ano, concedido pelo jornal de Adolfo ABI e no velho Estadão, estava sempre na Martins, ocasião em que confraternizáfrente de batalha, determinado e teimovamos. Com esta morte prematura, sua so, como se estivesse começando na carfigura fará muita falta à ABI e ao jornareira – um idealista nato, destes que já não lismo em geral”, lamentou o jornalista e se fazem mais. Não era de fugir de uma escritor. boa briga, se estavam em jogo as boas Maurício também mostrou-se, ao loncausas, como a liberdade de expressão, go de sua trajetória, um defensor de invespela qual lutou até a morte. Vou lembrar timentos para a qualidade da educação no para sempre o entusiasmo dele no dia da Brasil. Em seus discursos na entrega dos festa do centenário da ABI, entidade pela títulos de Personalidade Educacional, qual todos nós devemos continuar zelanpromoção citada por Niskier e que a ABI do”, dispara Ricardo Kotscho, colunista do realiza, anualmente, em parceria com a R7 e um dos mais premiados repórteres Associação Brasileira de Educação e a brasileiros. Folha Dirigida, o jornalista fazia questão Esta, por sinal, não é a primeira vez que de ressaltar uma de suas principais banKotscho fala sobre Azêdo para esta publideiras: a valorização do magistério, classe cação – e para este repórter. Fez o mesmo que, segundo ele, segue muito desprestipara matéria especial, publicada em 2009, giada no País. Para João Ricardo Modercujo trecho é resgatado a seguir: “A sucurno, Presidente da Academia Brasileira de sal do Estadão no Rio era das Redações Filosofia, Azêdo marcou a história conmais combativas na resistência ao regime temporânea do jornalismo brasileiro. militar e na denúncia das suas mazelas. “Desde jovem ouvi falar do seu nome Lembro-me do Azêdo como um chefe por amigos em comum, pelas suas bandeibastante rigoroso e, ao mesmo tempo, ras e pelas suas idéias. Ele viveu todas as conabsolutamente solidário com seus subortradições políticas do século 20 nos planos dinados. Uns dizem, a seu favor, que ele é político e ideológico. Sua adesão ao trabaum sujeito muito determinado, que vai até lhismo marca uma inflexão no percurso da o fim nas suas brigas, não abre mão das evolução do seu pensamento, avançando suas idéias. Por outro lado, os que o critisempre em direção à liberdade de expressão cam consideram-no muito teimoso, duro em geral, e à liberdade de imprensa em parna queda, dono da verdade. No fundo, vem ticular. Sua trajetória demonstra que o Estaa ser tudo a mesma coisa. Mas, bater de do Democrático de Direito é o único sistefrente com o Azêdo não costuma ser bom ma que garante a ampla liberdade de imnegócio”, avaliou na época. Ao que tudo prensa. Que seu exemplo de indica, uma descrição basvida seja uma referência in- “UM IDEALISTA NATO, tante verossímil. contornável para as novas “Azêdo era ‘um brigão’ DESTES QUE JÁ NÃO gerações de jornalistas propela justiça! Foi de propóSE FAZEM MAIS.” fissionais”, deseja Moderno. sito que não escrevi ‘um luRICARDO K OTSCHO “Maurício Azêdo era, acitador’ ou ‘um militante’ no ma de tudo, um grande repórter. E por isso título desse texto. Estaria certa se tivesse exerceu com maestria muitas outras funescolhido uma das duas palavras. Maurício ções, tanto no jornalismo como na vida foi um lutador e um militante pela justipública. Era um curioso, queria saber das ça, pela liberdade, particularmente pela licoisas nos mínimos detalhes, para depois berdade de imprensa. Mas quero dizer poder contar a história completa. Nos mais que isso. Quero lembrar do Azêdo tempos em que trabalhamos juntos na que conheci no Jornal do Brasil, em 1959 ou 1960. Discutia com energia e não tolerava os reacionários. Eu, quase menina, vinda de uma família numerosa e fechada, ficava assustada ao ouvir as fortes palavras que lançava aos que não concordavam com ele. Algumas eu nunca tinha ouvido, já que em casa até ‘merda’ era considerado palavrão”, inicia assim Ana Arruda seu depoimento tocante. E que ajuda em muito a desvendar o jeito ‘azêdo’ de ser. “Mas, fui conhecendo a fera. E descobri que aquelas fúrias eram produtos da boa ira, da santa ira. Azêdo era também muito corajoso. Não escondia suas opiniões, sua ideologia. Quando assumiu a ABI, terminou o discurso de posse com um ‘Viva o glorioso Partido Comunista do Brasil’! Aplaudi, eu que nunca fui do chamado Partidão e até era discriminada por alguns de seus adeptos que não toleram a esquerda não comunista. Aplaudi a coragem de Maurício, sua coerência, e também o partido que suscitava tal fidelidade. Ele foi um bom Presidente da ABI. Autoritário, era de seu feitio. Mas só fez bem à entidade. Que a Casa do Jornalista sobreviva bem sem ele. Mas que vai fazer muita falta, vai”, concluiu a jornalista e JÚLIO CESAR GUIMARÃES / AGÊNCIA O GLOBO

da Justiça do Governo Castelo Branco, sembarquei e ele estava lá, no aeroporto. Carlos Medeiros Silva. “Maurício foi um Como editor, as funções na revista eram dos melhores jornalistas de nossa geração. internas. Fiquei espantado: ‘Ué, você por Mas, além do profissional que era, foi aqui?’. Um colega da sucursal, que estava também um defensor dos valores democom ele, me alertou: ‘Fica frio, andaram cráticos, um militante na luta contra a diprocurando por ele lá em São Paulo... Ele tadura militar. Pude conhecê-lo melhor, veio esperar a chuva passar ’. É, a Abril e admirá-lo, quando trabalhamos juntos daquele tempo dava cobertura aos seus na Folha da Semana, jornal alternativo de profissionais”, conta o autor do livro oposição ao regime autoritário”, recorda Realidade Re-vista, ao lado de José Hamilo poeta Ferreira Gullar, em declaração ao ton Ribeiro. Jornal da ABI. Azêdo também atuou, nos anos 1970, Talento refinado e brutal força de trabalho nas Redações como repórter, editor, cronista ou colaborador nos jornais Opinião, Movimento e “Como repórter, Azêdo era um profisHora do Povo, e no jornal clandestino Voz sional disciplinado. Estivemos juntos na Operária, órgão do Comitê Central do Redação da revista Manchete, nos idos de PCB, entre outros veícu1960, quando aquela pu“MESMO QUANDO los. Nos anos 1970, fez do blicação estava no auge da Boletim da ABI, espécie de sua circulação e eu tive o DISCORDAVA DELE, embrião desta publicação, privilégio de ser o seu cheNUNCA DEIXAVA DE um instrumento de defe de reportagem. Era um núncia das torturas do reRESPEITAR E ADMIRAR timão. Sempre de esquergime militar. Foi um dos da, com idéias próprias, principais jornais de con- SUA PESSOA. EM DUAS deu mostras de um duplo testação da ditadura, com apreço pelo jornalismo e PALAVRAS: ERA ênfase na defesa das liberÍNTEGRO E GENEROSO” pela política, que exerceu dades públicas e dos direicom igual capricho. NunANCELMO G OIS tos humanos. Um dos ca nos perdemos de vista exemplos desta atuação foi a ampla cobere, quando resolveu presidir a nossa Assotura que deu ao assassinato – dissimulado ciação Brasileira de Imprensa, em situaem suicídio – do jornalista Vladimir Herção difícil, dei-lhe o meu voto de sócio rezog, nas dependências do Doi-Codi do II mido, com absoluta convicção. Esse voto Exército, em São Paulo, em 1975. se repetiu enquanto ele foi candidato, Mesmo não tendo convivido com ele, com prova de fidelidade a uma amizade Carlos Azevedo lembra que Maurício da qual me orgulhava”, festeja Arnaldo “fez excelentes reportagens para o OpiNiskier, membro da Academia Brasileira nião e também algumas para o Movimende Letras (ABL), para destacar outras quato. Infelizmente quando ele participou lidades profissionais de amigo. desses jornais eu estava sendo obrigado a “Como repórter, seu traço mais marviver na clandestinidade”, recorda Azecante era a perseverança. Quando ia atrás vedo, repórter e escritor, que iniciou sua de um assunto, era para saber tudo. Pencarreira em 1960, passou pelas Redações so mesmo que se pode afirmar ter sido ele de grandes jornais e revistas, e foi um dos um pioneiro do jornalismo investigativo. fundadores do jornal Movimento. Como parceiro da Folha Dirigida, o doce Procurado pela reportagem, Tonico Azêdo sempre comparecia à entrega dos Ferreira destaca sua coragem. “Vou lembrar títulos de Personalidade Educacional do sempre com saudade de Maurício Azêdo entrando, na década de 1970, nas Redações dos semanários Opinião e Movimento – onde eu trabalhava e ele era um dos nossos colaboradores mais importantes. Chegava já debatendo, como se estivesse em assembléia permanente. Em meio às disputas políticas típicas das Redações da imprensa alternativa da época, Maurício tinha sempre opinião firme – gostava de uma boa polêmica – mas era voz ponderada. Nos idos de censura prévia, prisões e torturas, mostrou ter a principal qualidade de um verdadeiro jornalista: a coragem”, aponta o repórter da TV Globo. José Carlos Marão atuou com o jornalista na mesma época. “Convivi com o Maurício por pouco tempo, mas o suficiente para aprender muito. Estávamos na segunda fase da revista Realidade – era 1969 ou 1970, não posso precisar – e ele tinha vindo para reforçar o time que tentava reerguer a revista. Além de excelente profissional, tinha algum tipo de militância, embora eu nunca tivesse sabido em que profundidade ou em que tipo de organização. O que sei é que, uma vez, indo para Porto Alegre fazer uma matéria, de-

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ACERVO ABI FERNANDO RABELO/FOLHAPRESS

Maurício e Carlos Drummond de Andrade numa das eleições da ABI. Ao lado, com os também vereadores Sérgio Cabral (PSDB) e Francisco Milani (PCB), comemoram a criação da RioFilme.

escritora, que acaba de lançar o livro Antonio Callado, Fotobiografia. Ziraldo é outro que fez questão de dar seu depoimento a esta publicação. “Tive quase meio século de uma amizade consistente, ainda que, pelas circunstâncias da vida, intermitente com o Azêdo. Talvez, por ironia – ou pela força do seu nome – esta amizade não tenha sido, o tempo todo, doce. Nós dois, porém, sabíamos que gostávamos um do outro. E nos respeitávamos. Quando eu soube que, na sua gestão, íamos publicar um jornal de jornalistas, lembrei-me da responsabilidade profissional deste compromisso: um jornal feito por jornalistas, representando a classe, teria que ser a melhor publicação do País. E foi. E é! A gestão do Maurício foi marcada, principalmente, pela extrema qualidade do Jornal da ABI. E, discussões à parte, a personalidade polêmica do nosso Presidente não impediu que ele honrasse sua condição de um dos maiores jornalistas brasileiros de nossa geração”, decretou o cartunista. “Conheci de perto dois Presidentes da ABI. Os dois já se foram. Em visita de cortesia ao mestre Barbosa Lima Sobrinho expliquei o que seria o primeiro programa de jornalismo da FM brasileira: Panorama Brasil. Saí do encontro com o seu apoio. Sinto muito orgulho por ter recebido esta benção. Da mesma forma quando recebi uma linda homenagem nas instalações da Rua Araújo Porto Alegre. Ali estava Maurício. Eu o conheci ainda Vereador e mais tarde no comando de nossa Associação. Azêdo lutou muito pela democracia e pelas liberdades. Arriscou sua vida pela volta do estado de direito. Mas o que os olhos dele brilhavam mesmo era a gente dizer que o Jornal da ABI estava cada vez melhor. Morreu Azêdo, o democrata. Morreu o jornalista. Uma tristeza pra nós. Uma perda para o Brasil”, disse Sidney Rezende. Destacada atuação também na esfera política

Igualmente extensa é sua vida de homem público. Vereador da Câmara Municipal do Rio de Janeiro por três legislaturas (1983-1988, 1989-1992, 1993-1996), Maurício foi Prefeito interino em exer4

cício do Rio por oito dias os campos. Lembro de como jornalista. Foi assim durante anos; “MAURÍCIO FOI UM dos (de 15 a 22 de março de suas brigas para exibir filmes ele na área da comunicação e eu como adLUTADOR E UM 1983), Presidente da Câmaclássicos e novos que eram vogado, junto aos tribunais. Eu fui seqüesra Municipal, de 1983 a proibidos pela censura. Destrado. O próprio Maurício foi seqüestraMILITANTE PELA 1985, e Secretário Municipal de sempre, ele fez da ABI do, e muito torturado, humilhado, por JUSTIÇA, PELA de Desenvolvimento Social um espaço de liberdade da aqueles algozes que se sentiam donos ab(1986-1987), além de Conseexpressão. E o admirava, sosolutos da vida dos presos”. LIBERDADE, lheiro do Tribunal de Conbretudo, pela pessoa transTamanha ênfase no combate à ditaduPARTICULARMENTE parente que era. Não tinha ra cobrou seu preço. Em 1976, o governo tas do Município do Rio, de PELA LIBERDADE 1999 a 2004, quando foi aponada a esconder, falava semmilitar já havia demolido as pequenas sentado por idade. É autor de pre com uma franqueza adorganizações de luta armada e, no passo DE IMPRENSA.” mais de cem leis municipais, mirável. Estive em diversos seguinte, voltava suas baterias para os ANA ARRUDA C ALLADO entre as quais a de criação da debates dos quais participou partidos de esquerda como o PCdoB e o Distribuidora de Filmes S/A (Riofilme), e sempre fiquei impressionado com sua Partidão. Houve um movimento de pricujo projeto foi assinado pelo ator e enpostura”, descreve Adhemar Oliveira. sões que começou por São Paulo, mas logo tão Vereador Francisco Milani (PCB). ParAntônio Modesto da Silveira formouse estendeu ao Rio. Azêdo não escapou. ticipou ainda da elaboração da Lei Orgâse em Direito, pouco antes do golpe de Dom Eugênio de Araújo Salles, Arcebisnica do Município do Rio, em 1990, e do 1964, e dedicou-se à defesa dos presos e po do Rio, chegou a intervir para que a Plano Diretor Decenal da Cidade, em perseguidos políticos. Heleno Fragoso, prisão fosse relaxada. O então Presiden1992. Em tempo: na semana seguinte ao um dos maiores juristas brasileiros, ao este da ABI, Prudente de Moraes, não poufalecimento do Presidente da ABI, o Vecrever sobre essa advocacia especial, relapou esforços neste sentido – fato que reador Eliomar Coelho (Psol) entrou com tou que “Modesto da Silveira foi o advoaprofundaria em definitivo a amizade um projeto para dar à tribuna de imprensa gado que mais defendeu perseguidos da entre os dois. “Azêdo nos dignificou até da Câmara do Rio o nome de “Vereador ditadura”. Lutou pelo Estado de Direito mesmo quando foi preso, em 1976. FicaOscar Maurício de Lima Azêdo”. quando, sob o manto do mais feroz terror mos todos apreensivos, claro. Não pelo que “Conheci o Maurício no copy do Jorpolicial, a população sofria com detenções ele pudesse falar, mas pelo que poderiam nal do Brasil. Depois tivemos um grande ilegais, tortura, assassinatos e desaparecifazer com ele, para tentar quebrar o seu sicontato. Como Vereador, ele fez uma mento de pessoas, a odiosa lêncio”, lamenta Maurício “NÓS, CINEASTAS, Menezes, jornalista. “Milicoisa da maior importância ao propor a prática institucionalizada criação da Riofilme – produtora e districom a finalidade de extermi- ESTÁVAMOS JOGADOS tamos no PCB na época que buidora que foi a salvação do cinema nar a oposição política. Neso foco da repressão era exaNO MEIO DA RUA, E tamente o Partidão. Acomnaqueles tempos, em que o então Presita luta, teve no Presidente SUA ATUAÇÃO dente Fernando Collor havia fechado a da ABI um aguerrido companhei a sua prisão. Ele foi Embrafilme. Nós, cineastas, estávamos panheiro. barbaramente torturado”, POSSIBILITOU A jogados no meio da rua, e sua atuação pos“Conheci o Maurício na reforça Ancelmo Gois. CHAMADA sibilitou a chamada ‘retomada’ do cinema década de 1950, mais preciFelizmente, muitos são nacional. Eu lembro muito do Azêdo, em samente em 1957, quando os que reconhecem o seu ‘RETOMADA’ DO diversos momentos. Fará muita falta, eu entrei para a Uerj, para curempenho pelo restabeleciCINEMA NACIONAL.” mento da democracia no penso nele e, às vezes, demoro a acredisar Direito, e já o encontrei N ELSON PEREIRA DOS S ANTOS tar que tenha partido. Na essência, era lá, estudante da turma anteBrasil. “Conheci o Azêdo na muito jovem, e sempre disposto ao trabarior. À medida em que fui conhecendo aqueépoca do obscurantismo por que passava o lho”, diz Nelson Pereira dos Santos, um le jovem mais profundamente, percebia País. Eis que ambos tínhamos sido punidos dos ícones do Cinema Novo. nele a absoluta correção e a mesma vontapela Revolução Militar de 1964. Após a “Cheguei no Rio, em 1982, e vi a funde de comunicar e praticar valores como o diáspora que aconteceu com todos os injusdação do Cineclube Macunaíma, na ABI. humanismo e o patriotismo. Tornei-me adtamente perseguidos, a Assembléia NacioMaurício havia sido eleito Vereador, e eu mirador a amigo. Desde então trabalhamos nal Constituinte cedeu lugar ao reenconassumi a programação do local. Tive um juntos nessa linha filosófica. E durante a tro. E, mais tarde, no convívio da Associarelacionamento muito produtivo com ditadura essa aproximação foi se consolição Brasileira de Imprensa, a cujos quadros ele. Fiz a programação por uns três anos... dando. Como advogado defendi, desde 1º pertenço desde os anos 1960. Dele guardo E pude confirmar aí a imagem que já tinha de abril de 1964, os presos políticos. Todo uma lembrança que jamais ficará esmaecido Azêdo, como baluarte das lutas contra o tempo, enquanto eu trabalhava as quesda: a sua luta pessoal pela volta à democraa censura e em defesa das liberdades em totões do direito nos tribunais, ele atuava cia, ao Estado de Direito, o fim da censura

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“UM JORNAL FEITO POR JORNALISTAS, REPRESENTANDO A CLASSE, TERIA QUE SER A MELHOR PUBLICAÇÃO DO PAÍS. E FOI. E É! A GESTÃO DO MAURÍCIO FOI MARCADA, PRINCIPALMENTE, PELA EXTREMA QUALIDADE DO JORNAL DA ABI.” ZIRALDO LUCIANA BARROS/AGÊNCIA O GLOBO

ACERVO ABI

e a solidariedade aos mártires dos anos da “Essa foi uma longa batalha, travada em ditadura. O tempo lhe fará justiça”, pondera debates, palestras, artigos e, finalmente, o ex-Senador Bernardo Cabral. em ação no Supremo Tribunal Federal, que “A luta pela democracia e contra a diterminou por livrar-nos dela. Nada foi tadura teve na sociedade civil três pilares: fácil. Lutávamos inicialmente contra a ABI, OAB e CNBB. Maurício Azêdo, cultura de que precisávamos de uma Lei, mesmo antes de presidir a Casa dos Jorqualquer que fosse. Desde logo, duas pesnalistas, atuava na ABI na defesa da libersoas assumiram posições de vanguarda na dade de imprensa e pela integridade físiempreitada: Alberto Dines e Maurício ca destes profissionais. Nem a bomba que Azêdo. Dines, especialmente no Observaexplodiu na Casa em agosto de 1976 catório da Imprensa. Maurício enfrentou, lou sua voz”, complementa Ascânio Secomo lhe era de estilo, os divergentes que leme, de O Globo. “Como muitos outros na ABI democraticamente se opunham à companheiros, tive a oportunidade de ver idéia. Chegada a fase do Supremo, a Assoe ouvir Maurício defendendo a liberdade ciação Brasileira de Imprensa foi admitie narrando os momentos da como Amicus Curiae de sua luta e da ABI. O cona ação, que terminou “DELE GUARDO UMA nheci mais de perto quanvencedora. Maurício e a do se filiou ao PDT. Ele fez LEMBRANÇA QUE JAMAIS ABI acrescentaram valor do jornalismo um verdasocial e jurídico à causa. FICARÁ ESMAECIDA: A deiro sacerdócio. Soube, E reiterar tal reconheciSUA LUTA PESSOAL PELA mento deve ser obrigacomo outros Presidentes VOLTA À DEMOCRACIA, tório sempre que se falar da ABI, defender com honra e altivez o direito AO ESTADO DE DIREITO, da liberdade de imprenà liberdade e à democrasa no Brasil”. O FIM DA CENSURA E A cia. Meu respeito e minha Entre as distinções homenagem a esse comque Azêdo recebeu em SOLIDARIEDADE AOS panheiro de luta e ideal, vida figuram a Medalha que dignificou nossa clas- MÁRTIRES DOS ANOS DA de Mérito Pedro Ernesto, se”, conclui Saulo Goda Câmara Municipal do DITADURA. O TEMPO mes, um dos mais respeiRio de Janeiro; a MedaLHE FARÁ JUSTIÇA” tados repórteres investilha Tiradentes, da AsBERNARDO CABRAL gativos do Brasil. sembléia Legislativa do Jornalista e Deputado Federal (Pros/RJ), Estado do Rio de Janeiro; o Colar Victor Miro Teixeira também ressalta a contunNunes Leal, do Tribunal de Contas do Mudente militância de Azêdo na esfera polínicípio do Rio de Janeiro, e o Colar do tica. “Maurício foi um lutador de várias Mérito Judiciário, conferido em dezemfrentes. Ele lutou pela Anistia, lutou pela debro de 2005 pelo Tribunal de Justiça do núncia de casos de tortura, lutou pelo estaEstado do Rio de Janeiro. belecimento da democracia no País. A luta O corpo do Presidente da ABI foi velapela defesa da liberdade de expressão indo desde às 8 horas de 26 de outubro, na cacluía a derrubada da Lei de Imprensa, símpela 8 do Memorial do Carmo, Zona Norbolo maior das restrições de viés autoritáte do Rio, por onde passaram mais de 300 rio que procediam do Brasil imperial e se companheiros, colegas, familiares e amigos. mantinham vigentes no ordenamento juBoa parte do tempo, o caixão esteve parcirídico para intimidar, constranger, dissuaalmente coberto por uma camisa 10 e pela dir, acossar e reprimir de todos os modos os bandeira do Flamengo, seu time do coração direitos do povo à informação verdadeira”, – aquele mesmo que, um dia antes, lhe trainicia o parlamentar, que conclui, destacaníra. Após a homilia, o padre Luciano Basílio do a atuação de outro importante jornalista. deu a palavra a amigos, que lamentaram a perda do jornalista, por seu combativo perfil profissional e, sobretudo, pela retidão de seu caráter. “Maurício nunca cedeu à tentação do nepotismo, um orgulho para todos nós, embora não tenham sido poucas as vezes em que os parentes o procuravam pedindo ajuda”, contou o sobrinho Luiz Carlos Azêdo, que apresenta o programa 3 a 1, da TV Brasil, e que durante o velório falou em nome da família. O lado de fora da capela estava repleto de coroas de flores, enviadas por entidades e autoridades, como o Prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. O enterro ocorreu na tarde do mesmo dia 26, pouco após às 16 horas, no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju. O governador do Rio, Sérgio Cabral Filho, decretou luto oficial de três dias no Estado. Já se passou bem mais tempo que isso. O luto ainda pesa, parece insistir em não sair de pauta. A luta lateja, pulsa. Diante da ausência, sua urgência se faz presente. Como bem ensinou MauríEra comum encontrar Maurício Azêdo cio, sigamos em frente, sempre. É preciso carregado de papéis e documentos. Aqui, ele fechar o jornal de amanhã. conversa com o jornalista Edmar Morel.

Em 1986, o então Vereador Maurício Azêdo, do PDT, concede entrevista à imprensa como Secretário de Desenvolvimento Social do Governo de Leonel Brizola.

Convocação para lutas Em seu último texto, Maurício Azêdo alerta para a inação e conclama os participantes de movimentos populares a desencadear novas jornadas revolucionárias. Aos companheiros e companheiras imobilizados pelo sistema de forças políticas e sociais que neste momento dominam a vida na América. Queremos dizer que estamos de volta com nossas idéias, nossa coerência, nosso passado e novas propostas de luta pela libertação dos povos da América Latina. Somos os que estiveram presos no Estado Nacional do Chile e assistiram impotentes ao assassinato e ao corte das mãos do poeta popular Víctor Jara. Somos os que enfrentamos a dura ditadura militar do Brasil que matou milhares de brasileiros. Fomos companheiros de luta de Carlos Marighella, assim como estivemos no Uruguai e na Argentina organizando lutas ao lado dos tupamaros e montaneros. Estamos prontos a retomar o papel que nos cabe na luta em defesa do povo de nossos países. Para isso, conclamamos os participantes desses movimentos a realização de uma reunião ampla, para retomada de nosso movimento e a programação das jornadas revolucionárias que desde já devemos desencadear para que voltemos ao centro do processo de democratização em nossos países; os companheiros que disponham de espaço e recurso para a realização desse encontro, indiquem data e local onde ele se realizará, para deixarmos as condições de inação com que estamos oprimidos. Rio de Janeiro, Buenos Aires, Montevidéu, Santiago do Chile, outubro de 2013. Maurício Azêdo, vítima da ditadura brasileira.

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Missa de sétimo dia reuniu amigos e admiradores Parentes, amigos, colegas de profissão e admiradores do jornalista Maurício Azêdo reuniram-se no final da manhã de 31 de outubro, na Igreja da Ordem Terceira do Carmo, no Centro do Rio, onde foi celebrada a missa pelo 7º dia do passamento do Presidente da ABI. Em clima de tristeza e emoção, os companheiros lembraram a densa trajetória de luta de Azêdo em defesa da democracia e do povo brasileiro. Amparada pelas filhas, Maria Ilka e Ana Luísa, a mulher de Maurício, Marilka Azêdo, muito emocionada, destacou a coragem e o espírito combativo do companheiro nos momentos mais violentos e decisivos da história política do País. “Maurício é o amor da minha vida e sempre dediquei cada momento de minha existência para apoiá-lo em sua batalha incansável pelo bem comum”, afirmou. A filha Maria Ilka, que fez um emocionante discurso (página 7), lembrou que o espírito de generosidade e humildade do pai permeou toda a vida. “Ele preservou sua essência de menino. Tinha mais idade do que todos os pais de minhas colegas, mas aprendi com ele a nunca deixar a juventude morrer dentro de nós. Meu pai me ensinou a nunca me calar diante das injustiças. Sua atuação na luta pelos Direitos Humanos mostra que nunca negou a origem humilde, pois foi através dessa vivência que compreendeu: todos merecem, acima de tudo, viver com dignidade. Acredito que essa foi sua principal bandeira durante a sua caminhada”. Dedicação ao próximo Os esforços de Maurício em busca do fortalecimento dos direitos e das liberdades no País foram ressaltados durante a liturgia nas palavras do Padre Luciano Borges Basílio, que frisou a dedicação ao próximo como o seu maior legado. “Como não agradecer ao Senhor por uma vida como a de Maurício Azêdo? Um homem que lutou e deixou de exemplo a todos que apenas lutando conquistamos qualquer coisa. Um garoto de origem humilde que alcançou importante posição, fruto de seu esforço, e não se acovardou nem mesmo nos momentos mais sombrios da nossa História recente”. Personalidades do meio do jornalismo e da cultura – como o exSenador Bernardo Cabral, o fotógrafo Evandro Teixeira, o jornalista Sérgio Cabral, a vereadora do Rio Laura Carneiro (PTB) e o acadêmico da ABL, Cícero Sandroni – marcaram presença na celebração. Também presente à 6

ALCYR CAVALCANTI

O Padre Luciano Borges Basílio destacou o legado de Azêdo: “Um homem que lutou e não se acovardou nem mesmo nos momentos mais sombrios da nossa História recente”.

missa estava o funcionário mais antigo da ABI, Adalberto do Nascimento Cândido, carinhosamente conhecido como Candinho, filho de João Cândido, herói da Revolta da Chibata, movimento deflagrado em 1910 contra os castigos físicos impostos pelos oficiais aos marinheiros. Recentemente, Candinho completou 60 anos de trabalho na Associação. Neste período conviveu com Presidentes importantes, como Herbert Moses e Barbosa Lima Sobrinho, além do próprio Maurício. “Meu relacionamento com Azêdo e com sua família sempre foi muito próximo. Ele estava sempre pronto a ajudar as pessoas. A sua morte representou um duro golpe para mim. Lamentavelmente perdemos um herói que dedicou a vida ao povo brasileiro”, pontuou. Apesar do clima de tristeza, e da perda da força de trabalho de seu Presidente, Candinho acredita que a ABI vai retomar o seu papel de destaque na sociedade brasileira. “Precisamos nos inspirar no caráter e na seriedade do Maurício, um ser humano querido por todos. Tenho esperança de que as desavenças políticas vão acabar e de que todos permanecerão unidos pelo bem da ABI”. O sambista Monarco, que trabalhou na ABI durante a adolescência, na gestão de Herbert Moses, enfatizou seu carinho por Azêdo. “Ele era um grande amigo para mim. Enquanto Presidente da ABI, me rendeu uma bonita homenagem, que foi uma das mais emocionantes que já recebi, pois veio de uma instituição onde eu trabalhei ainda garoto. Rezo para que a família dele encontre conforto”, reforçou o célebre portelense.

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Crônica de uma morte anunciada P OR M ARIA C LARA A ZÊDO

A primeira vez que estive visitando meu pai, internado no Hospital Samaritano, na unidade coronariana, foi no dia 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, eu vi estampado em seu rosto a sombra da morte devido à cor esquisita do seu semblante. Era uma cor amarelenta. Eu saí do local com o peito apertado e pesado. Isto foi num sábado. No dia seguinte, meu amigo Marco Antonio, me orientou para eu ir me preparando, assim como a sua irmã médica anestesista, logo que soube que a função renal do meu pai estava comprometida. Ele fazia hemodiálise quase que diariamente para a filtragem do sangue e depois diálise para a retirada da urina. Ainda na unidade coronariana, ele me revelou que o médico lhe teria dito que já tinha ultrapassado todas as estatísticas para mantê-lo vivo. Ao sair da unidade coronariana para o quarto, eu fiquei muito contente , mas ao mesmo tempo receosa porque as sessões de hemodiálise e diálise continuavam. Eu tinha medo de acordar no dia seguinte e receber uma mensagem pelo celular ou falar com o meu irmão pelo Facebook a respeito da saúde do meu pai. Somente fui relaxar no dia 25 de outubro, quando o vi pela última vez e minha irmã Maria Ilka estava no quarto fazendo companhia a ele. Ficamos conversando sobre vários assuntos; meu

pai sabia que eu estava ali presente diante dele e me espantei quando ao chegar eu o vi com a máscara de oxigênio e uma bolsa de sangue para transfusão. Ele respondeu às perguntas do enfermeiro e do fisioterapeuta e se dirigiu a mim pedindo, como falei anteriormente, que fizesse a repercussão do retorno do camarada Fidel Castro no cenário mundial como líder das forças democráticas latino-americanas. Soube que o mesmo havia pedido à minha irmã que teria digitado o texto por ele proferido no celular dela. Eu saí de lá metade contente por tê-lo visto e a outra angustiada por ter tido a certeza que esta tinha sido a minha última vez que o vi vivo. Na sexta-feira , dormi até tarde, para passar a hora da manhã e do almoço... enviei mensagem e liguei para Marilka e não obtive resposta... mais tarde estava na casa do Marco Antonio tentando ver um dvd de um filme italiano La Prima Cosa Bella Della Vita que, realmente, não sei o que vi... eu ainda estava meio que dormindo por conta do efeito dos remédios que havia tomado na noite anterior. Foi quando minha mãe me telefonou dizendo que meu pai estava passando muito mal e que meu irmão estava no hospital... era melhor que fosse para casa e assim eu o fiz... quando entrei minha mãe me deu a notícia... meu pai tinha acabado de falecer... e me senti um cachorro perdido... que acabara de perder o seu dono!


ALCYR CAVALCANTI/AGÊNCIA O GLOBO

Um homem em busca da liberdade sem adjetivos Num dos momentos mais emocionantes da missa de sétimo dia, Maria Ilka Azêdo, filha de Maurício, leu um texto de sua autoria exaltando a trajetória do pai. P OR M ARIA I LKA A ZÊDO

Sei que muitos de vocês conheceram o Maurício com fama de brigão. Um filho de pernambucana arretada não poderia fugir à sua filiação. No entanto, ao longo desses anos em que ele me criou, sempre me tratou com imensa doçura. Não havia um dia em que, quando chegava em casa e eu lhe perguntava como estava, ele não me dissesse em meigo tom: “Melhor agora, que você chegou”. Meu pai me convenceu de que era realmente fiel aos princípios de Ernesto: endurecia, mas não perdia a ternura. FRANCISCO UCHA

É difícil falar de alguém que era considerado um mestre na oratória. As palavras mal nascem e já tentam cumprir o desejo de serem bem sucedidas, seja como homenagem ou como forma de agradecimento. As pessoas presentes aqui nesse momento certamente tiveram papel importante na vida de Maurício Azêdo através de diferentes origens. As duas principais figuras que se construíram ao longo de sua vida foram a de homem público íntegro e a de jornalista que atuou em diversas frentes de luta e mobilização. Na linha entre as duas, estiveram inúmeras atuações, todas com uma mesma característica: o alto nível de comprometimento e identificação que ele tinha com o povo. Sua reivindicação comum dentro de ambas é um substantivo cheio de valor semântico: liberdade. Ela e todos os predicados que lhe são próprios: de expressão, de livre manifestação, de pensamento. Maurício Azêdo foi um homem em busca da liberdade sem adjetivos. Agora eu gostaria de compartilhar um pouco com vocês o lado do Maurício que eu, como filha, conheci. O lado pessoa no sentido de indivíduo, outro que não o homem público. O que posso dizer de meu convívio é que mesmo quando esta-

va fora do “horário de trabalho”, Maurício nunca tirou o seu pensamento do coletivo. Era um homem simples, sem grandes ambições materiais, e por essas mesmas razões sempre foi bastante generoso com os demais. Não foram poucas as vezes que escutei de pessoas que eu sequer conhecia: “Sou muito grato ao seu pai”. Com toda a suavidade que se deve aplicar ao termo, acho que meu pai teve muitas das características de um franciscano – humildade e generosidade.

Maurício, ao lado de sua mulher, Marilka, e de sua filha, Maria Ilka, durante a festa de aniversário de seus 75 anos.

Prova de sua sensibilidade é que adorava poesia. Já quase aos 80 anos, ainda conseguia declamar perfeitamente os sonetos aos quais havia sido apresentado no sexto ano, na aula do professor Serafim, de cujo nome ele também não esquecia. Podia recitar com vigor Antero de Quental, Fernando Pessoa ou Cecília Meireles. Gerava real comoção em quem estava presente. Um de seus poemas favoritos era Ode ao Dois de Julho. Maurício sempre se emocionava ao ouvir os seguintes versos: “Lá do campo deserto da batalha, uma voz se elevou clara e divina. Eras tu – liberdade peregrina! Esposa do porvir – noiva do sol”. Naquela combinação de palavras, Castro Alves acertava em cheio o seu coração. Aliás, coração é um tema peculiar na vida de Maurício. Flamenguista enérgico, já foi personagem de algumas das célebres histórias que se contam sobre o jornalismo e o futebol dos velhos tempos. Épocas de Maracanã com capacidade para 200 mil pessoas, momentos da história que dificilmente se repetirão. A dona do coração rubro-negro era Marilka, esposa devotada que esteve incansável ao seu lado até seus últimos suspiros de vida. Ela faz uma reparação ao extinto ditado “por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”. Marilka, que mais do que esposa, foi uma parceira, conclama uma verdadeira justiça linguística: É ao lado do grande homem que está a grande mulher. Já quase no fim de minha fala, volto ao falar do Maurício menino, pois acredito que ele preservou a sua essência. Nunca deixou de ser aquela criança cujo caderno escolar era feito de papel de embrulhar pão; menino que trocava de sapatos com o irmão na estação de trem. Sua atuação na luta pelos Direitos Humanos mostra que ele nunca negou as origens humildes, pois foi através dessa vivência que ele compreendeu: todos merecem, acima de tudo, viver com dignidade. Acredito que essa foi sua principal bandeira durante a caminhada. Tendo sido sempre coerente com seus ideais, Maurício deixou a marca de que, frente a tudo que hoje acontece em nossa sociedade e em nosso mundo, ainda é possível existir um homem digno, SIM! Amante da literatura e do jornalismo, nos deixou um grande acervo. Mas, em nosso favor, foi legada uma biblioteca ainda mais significativa: um extenso rol de bons exemplos. Eu e minha irmã Ana Luísa, sua filha caçula, compartilhamos uma certeza: a de que queremos seguir o caminho do nosso pai, em busca da verdade e do bem. Uma insuficiência cardíaca começou a comprometer a trajetória de lutas, e foi assim que terminou a sua história. O corpo de Maurício passou a carregar o símbolo daquilo que eu, Maria Ilka, acredito ser a base do seu espírito: um coração enorme. Agradeço a presença de todos vocês que estiveram na jornada do meu pai. Vocês foram fundamentais nessa caminhada. Peço que nos ajudem a preservar a memória de Maurício Azêdo. Filha de Maurício Azêdo, MARIA ILKA AZÊDO é designer gráfica. E flamenguista como o pai.

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ALCYR CAVALCANTI

MENSAGENS

Reconhecimento, nas lembranças de amigos “Os jornalistas que tiveram contato com Azêdo ficavam impressionados com o que parecia ser nele sinal de combatividade extremada e veemência. Pessoalmente, entretanto, minha relação de trabalho e a experiência de diálogo com Maurício exerceram sobre mim uma impressão que, conforme foi ficando mais claro ao longo das batalhas que travamos juntos, era típica, simultaneamente, de um apaixonado (mas capaz de moderação) e de um construtor de alianças e de políticas que buscavam ampliações democráticas. Quando trabalhamos juntos no jornal Folha da Semana descobri nele o senso de humor do qual eu mesmo fui fustigado merecidamente. Lembro-me de uma ocasião em que, entusiasmado pelo filósofo húngaro Lukacs, abusei do direito de citálo. Na reunião de pauta que se seguiu ao festival de citações, Azêdo lamentou que houvesse um autor mais citado que o Diretor da Folha da Semana... Era Lukacs. Maurício já nos faz dolorosamente muita falta.” LEANDRO KONDER, FILÓSOFO E ESCRITOR

“O Brasil perde um homem que lutou contra o autoritarismo em um dos momentos mais obscuros da história do País. Ele deixa um legado de resistência e defesa pelos direitos humanos, pela liberdade, democracia e justiça”.

iniciativas institucionais da OAB, como o lançamento da campanha pela Memória, Verdade e Justiça. Da mesma forma, apoiou e incentivou a criação e atuação da Comissão da Verdade do Rio. Na sede ABI, realizamos diversos atos, como a audiência pública dos militares perseguidos. O Brasil perde um grande combatente. E eu, um amigo.” WADIH DAMOUS, PRESIDENTE DA COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

“Foi uma perda imensa. Era um grande brasileiro, foi Vereador e membro do Tribunal de Contas do Rio. Sempre teremos na ABI uma das nossas principais parceiras na luta pela democracia, como foi na ditadura, e no impeachment de Fernando Collor. Eu e Azêdo recentemente nos posicionamos junto com a Igreja Católica na defesa do Estado Democrático, durante a crise resultante da violência nas manifestações”. FELIPE SANTA CRUZ, PRESIDENTE DA OAB/RJ

“Defensor ferrenho das liberdades democráticas, Maurício Azêdo foi, sempre, obstinado no trabalho e persistente nas lutas ideológicas. Perdi um caro e generoso amigo e Brasil ficou sem um grande homem.” ANTONIO CALEGARI, JORNALISTA

“Maurício Azêdo é sinônimo da importância da imprensa brasileira. Além do homem, foi um dos mais importantes Presidentes da ABI. Sua passagem será sempre lembrada por todos nós.”

“O pesar pelo falecimento do grande e inolvidável jornalista Maurício Azêdo veio atingir a toda a imprensa e a própria sociedade brasileira. Tendo iniciado minha vida profissional como jornalista, o acompanhei ao longo do tempo, tendo nele sempre especial referência, e partilhando do sentimento de luto envio de Porto Alegre a seus familiares e à Direção da ABI minha inteira solidariedade e pesar, confortado pela lembrança do senso de espírito fraterno, e exemplo de vida, atividade e liderança profissional, verdadeira escola que fica para as novas gerações.”

EVANDRO TEIXEIRA, REPÓRTER FOTOGRÁFICO

VICTOR JOSÉ FACCIONI É JORNALISTA E POLÍTICO

“Maurício é daqueles brasileiros que deixaram uma marca por onde passaram. Sempre comprometido com a causa pública, fosse qual fosse a trincheira em que estivesse – na imprensa, no parlamento, na ABI – Azêdo sempre lutou com paixão por aquilo que acreditava ser o melhor, o mais justo, o mais correto. Um exemplo que não pode ser esquecido.”

“Ele foi ícone da minha geração. Além das questões técnicas de jornalismo, aprendi com o Maurício sobre postura ética. Foi com ele que adotei a conduta profissional que me garantiu respeitabilidade em todos os lugares nos quais trabalhei. Postura no sentido de não tendenciar jornalisticamente as informações, de defender a dignidade das pessoas.”

ALESSANDRO MOLON, DEPUTADO FEDERAL (PT/RJ)

NIKO, REPÓRTER FOTOGRÁFICO

MARCUS VINÍCIUS FURTADO COÊLHO, PRESIDENTE DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL

“Maurício simbolizou a coragem, a ética, a integridade. Ele se foi, mas seu exemplo sobrevive e sua memória estará sempre conosco.” RODOLFO KONDER, ABI-SP

“Como Presidente da OAB/RJ, tive com Maurício Azêdo uma intensa convivência institucional. Afinal de contas, OAB e ABI tiveram, juntas, um papel decisivo no combate à ditadura. E Maurício, com a sua trajetória pessoal – ele próprio vítima da repressão – honrou as tradições da entidade que presidiu com tanta competência e combatividade. Lembro que ele prestigiou, com a sua presença e seu discurso vibrante, todas as

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“O traço mais marcante do Azêdo era seu espírito libertário, corajoso, sempre defendendo as mesmas posições progressistas, enfrentando de frente o obscurantismo e as injustiças. Não me lembro de tê-lo visto em outra posição que não na luta contra a censura, contra o autoritarismo. No exercício dos mandatos de Vereador, foi sempre um exemplo de correção e devoção à causa pública. É um dos maiores oradores que já passaram por aquela Casa. Na gestão do

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Dr. Barbosa Lima Sobrinho, eu sempre dizia aos meus colegas que a ABI é aquilo que os jornalistas fazem dela. Na campanha que resultou em sua primeira eleição à Presidência, Azêdo conseguiu mobilizar e conscientizar toda classe em torno da retomada da Casa de maneira como não se via há tempos. Somente isso bastaria para consagrar a sua gestão.” CÍCERO SANDRONI, MEMBRO DA ABL

“Durante um longo tempo trabalhamos juntos no Jornal do Brasil. Creio que nos anos 1960 e talvez 1970. Como característica fundamental, devo dizer que ele era um dos redatores de melhor texto no velho copidesque do JB, cheio de feras desde a reforma de Odilo Costa, filho, nos anos 1950. Além disso, sempre impressionou companheiros pela rapidez com que trabalhava, sem que isso significasse prejuízo para a qualidade do texto. De sua máquina de escrever pareciam sair faíscas”. MARCOS DE CASTRO, JORNALISTA E ESCRITOR

“Conheci o Azêdo na fase mais dura da ditadura militar, apresentado pelo saudoso Mário Cunha, na sucursal Rio do Estadão. Nas voltas da vida, demiti o Maurício, num incidente da Redação. Mas, ele deu a volta por cima. Foi Vereador, com uma atuação brilhante, e membro do Tribunal de Contas. Orgulho-me de ter tomado a iniciativa de quebrar o gelo entre nós. Aberto o caminho, várias vezes nos encontramos, enterrando ressentimentos. Não consigo selecionar o traço mais marcante do Azêdo, para mim o melhor Presidente da história da ABI.” VILLAS-BÔAS CORRÊA, JORNALISTA POLÍTICO

“Foi um jornalista que honrou toda a sua trajetória, marcada pelos compromissos com a lealdade e a coerência. Eis em síntese o que se pode dizer de Maurício Azêdo. À frente da ABI, foi continuador do trabalho de outros grandes líderes da Casa, como Herbert Moses, Prudente de Moraes, neto, Adonias Filho, Elmano Cardim, Barbosa Lima e Fernando Segismundo, sempre fiéis aos ideais que marcaram a sua fundação, em 1908, por Gustavo de Lacerda. Azêdo honra e dignifica a imprensa brasileira.” MURILO MELO FILHO, MEMBRO DA ABL

“Maurício enfrentou a repressão durante o regime militar, foi preso e torturado. Lembro esse fato no livro Mordaça no Estadão, publicado em dezembro. Ele trabalhava então na Sucursal do Rio, onde sofreu com a censura, mas também conseguiu burlar os censores. Deu um furo, com grande matéria, ao transcrever documento de seis páginas da Divisão de Segurança e Informação, do

Ministério da Educação, sobre as ações ‘subversivas’ dos estudantes comunistas. O documento era um manual para reprimir os estudantes e, graças ao Azêdo, tornou-se público.” JOSÉ MARIA MAYRINK JORNALISTA, O ESTADO DE S.PAULO

de oposição à Diretoria então liderada por Fernando Segismundo, sendo empossado em 13 de maio. Foi reeleito em outras três oportunidades – 2007, 2010 e 2013. Nesta última, tive a honra de ser por ele convidado a participar do Conselho Deliberativo, onde integro a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos. Nos irmanamos no pranto pela perda irrecuperável para a imprensa brasileira. Condolências para a grande família da ABI neste momento doloroso. Maurício deixou sua marca indelével na condução desta nossa casa, sempre erguendo bem alto a bandeira da liberdade de imprensa. Vai-se um grande brasileiro! A comunicação social brasileira está de luto! Azêdo, siga escrevendo, onde estiver. Na nossa memória, Maurício vive! VILSON ANTONIO ROMERO É JORNALISTA E DIRETOR DA ASSOCIAÇÃO RIOGRANDENSE DE IMPRENSA - ARI)

“Azêdo sempre esteve ao lado dos interesses populares, atendendo à demanda da população. Nunca se esquivou das lutas necessárias, especialmente nos dois últimos anos, quando vinha intensificando a defesa do Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas, a defesa dos direitos humanos e da dignidade das pessoas, entre outras frentes.”

“Azêdo era um grande exemplo das liberdades democráticas, do jornalismo sério e criterioso. Apesar de ter sofrido no período da ditadura. Até os últimos dias editava e revisava com rigor o Jornal da ABI. Não perdeu a paixão pelo que fazia desde jovem”.

DANIEL MAZOLA, INTEGRANTE DA COMISSÃO DE LIBERDADE DE IMPRENSA E DIREITOS HUMANOS DA ABI

“Infelizmente perdemos Maurício Azêdo e, com a sua saída definitiva, perdemos o olhar crítico competente e honesto e a cultura de um grande homem que sempre nos acolheu com carinho e atenção. Sem dúvida, foi um poderoso aliado e inesquecível na defesa da classe docente. Um nome para se lembrar sempre. Ele é um dos grandiosos exemplos de dignidade, mesmo quando tudo parecia perdido. Ele é o exemplo.”

“Sua partida representa uma grande perda para o jornalismo e para os jornalistas. À frente da ABI, por duas gestões seguidas, Azêdo confirmou seu espírito de luta em defesa da liberdade de expressão e de imprensa, do exercício da profissão de jornalista, e do desenvolvimento da democracia no País. Sócio da ABI desde a época de estagiário do Jornal do Brasil (nunca canso de dizer que ingressei na casa dos jornalistas pelas mãos de Beatriz Bomfim), tive o prazer de conhecer melhor Azêdo nessa última gestão. Ele sempre me transmitiu muita energia e inteligência. Que descanse em paz!”. JORGE ANTONIO BARROS JORNALISTA, O GLOBO

“Fiquei muito triste com a notícia. Foi uma perda grave para a imprensa. De minha parte, lamento não ter tido mais convivência com o Maurício, cujo trabalho aprendi desde logo a admirar. A militância dele à frente da ABI foi decisiva para a representatividade da nossa categoria profissional. Azêdo deixa um grande vazio. Sentiremos falta dele.” EUGÊNIO BUCCI, JORNALISTA E PROFESSOR DA ECA-USP

“Maurício era, antes de tudo, uma referência como parlamentar. Era, de longe, o mais culto e informado sobre os temas da cidade.” OTÁVIO LEITE, DEPUTADO FEDERAL (PSDB/RJ

“A luta, para Maurício, não cessou nem com a redemocratização. É impressionante como ele se manteve atento e ágil para que a liberdade de expressão se mantivesse.” STEPAN NERCESSIAN, ATOR E DEPUTADO FEDERAL (PPS/RJ)

“Mais uma grande perda para a imprensa brasileira. Maurício Azêdo se elegeu Presidente da ABI em abril de 2004, encabeçando a chapa Prudente de Moraes,

SÉRGIO CALDIERI, DIRETOR FINANCEIRO DA ABI

ROBERTO BOCLIN, PRESIDENTE DA ACADEMIA INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO

“A direção e toda a equipe do Monitor Mercantil, funcionários e colaboradores, lamentam profundamente a perda do ilustre jornalista Maurício Azêdo, Presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), ocorrida na última sexta-feira, 25 de outubro. Nosso pesar é ainda maior por reconhecermos na figura e na trajetória de vida deste valoroso companheiro um defensor ímpar das liberdades democráticas, do direito da livre expressão e da ética profissional, princípios que sempre pautaram as suas ações como jornalista e como homem público. À frente da ABI, sucedendo ao não menos ilustre Barbosa Lima Sobrinho – também de saudosa memória – Maurício Azêdo nunca se furtou a apoiar iniciativas que tivessem por objetivo a promoção do bom jornalismo e dos ideais de bem-estar social, causas com as quais era comprometido. Nós mesmos, aqui do MM, tivemos do saudoso Presidente sempre a melhor acolhida nos pleitos em que recorremos à Casa do Jornalista, notadamente em alguns eventos que realizamos em conjunto. Por tudo isso, na hora de seu desaparecimento, nos unimos ao sentimento de tristeza e saudade que toda a classe jornalística do Rio de Janeiro e do Brasil expressam nesse momento de dor, com a certeza de que nosso conforto é o exemplo que Maurício Azêdo deixa para cada um de nós e para a História.” MARCOS DE OLIVEIRA PRESIDENTE, MONITOR MERCANTIL


FRANCISCO UCHA

SAUDADES

Imprescindível P OR M ILTON T EMER

O admirável Azêdo P OR S ATURNINO B RAGA

ROBERTO SATURNINO BRAGA é político e escritor

MILTON TEMER é jornalista e político

Foi embora um lutador P OR H ÉLIO F ERNANDES

Foi embora um lutador. De todas as horas, de todas as lutas, de todos os momentos. Fui conselheiro da ABI com ele, por muito tempo, com Barbosa Lima Sobrinho. O grande Presidente me pediu para ser conselheiro, respondi: “Doutor Barbosa, fico enquanto o senhor for Presidente”. Fiquei. Maurício Azêdo, ao menos, tinha múltiplas atividades, mas movimentávamos as sessões. Em qualquer reunião, tínhamos o prazer do debate. Foi Vereador – junto com um de meus filhos, que tinha 22 anos, se reelegeu, e não quis mais. Fazia palestras pelo Brasil durante a ditadura. Não se importava com a repressão pessoal, se satisfazia em combater a repressão coletiva. Exatamente há nove anos, se aposentou do Tribunal de Contas, foi chamado para salvar a ABI. Aceitou, fomos almoçar, conversamos muito, ele compreendeu quando eu disse que não queria mais ser conselheiro, formou uma equipe ótima, lançou um jornal mensal excelente. No primeiro número, uma entrevista de horas com este repórter. Tivemos diversas experiências, sempre magníficas. Quando Barbosa Lima Sobrinho faleceu, ele era a única pessoa capaz de conduzir a ABI. É uma das figuras mais positivas do jornalismo brasileiro. Um homem de forte combate, nas Redações ou como Vereador, e também em sua atuação no Tribunal de Contas. Um profissional respei-

tado e sempre em ascensão. Graças à sua capacidade de relacionamento, reuniu uma equipe fantástica na ABI, que fez do centenário da Casa um acontecimento vital em todos os setores. Equívocos na escolha de diretores não deixaram Maurício recuperar a saúde. Foi traído por ‘amigos’, que ‘plantavam’ notícias mentirosas sobre e contra ele. Foram massacrados eleitoralmente, entraram na Justiça, perderam, recorreram. Maurício começou a ser atingido no coração, como já haviam tentado atingi-lo na reputação. Nesta não conseguiram. A respeito do coração, nem os médicos FRANCISCO UCHA

Admirável, realmente admirável, é a expressão que me ocorre com força e espontaneidade ao lembrar a figura de Maurício Azêdo. Pelo caráter, pela inteligência explícita e organizada, pelo devotamento à causa pública e ao ideal da justiça, pela grandeza do espírito e pelos arroubos de luta, foi realmente admirável em tudo isso e em muito mais. Tenho lembrança antiga, fomos jovens dos mesmos anos, arrebatados pelo fascínio dos feitos da URSS, das promessas socialistas, da lógica marxista do Partido Comunista. Encontrávamo-nos. Claro que a lembrança maior é do período de proximidade na Prefeitura do Rio, ele Secretário de Desenvolvimento Social na minha gestão. A primeira memória é a da reação de Brizola ao saber da minha escolha, o chamado e o pedido de reconsideração daquela minha opção para ele infeliz, do que seria um criador de casos que me custaria muito aborrecimento como Prefeito. Não atendi, não reconsiderei e não me arrependi: foi meu primeiro desencontro com Brizola. Vou lembrando mais: os despachos semanais, a precisão dos relatos e das propostas, a correção da fala e da exposição das razões, limpidez gramatical, léxica e sintática, uma raridade coloquial; o conhecimento e o respeito pelo Direito e o gosto pela literatura, a recomendação que me fez da tradução de Mário Quintana da obra de Proust. E o aconselhamento político pelo viés da sabedoria pragmática dos velhos comunistas, que eu muitas vezes desrespeitava no meu anseio de inovar no socialismo pela participação popular direta. Ele não acreditava muito nos Conselhos Governo-Comunidade que eram o principal empenho político da minha gestão. Certa vez me trouxe o caso de um muro construído no Recreio, na areia, na faixa de domínio público, uma apropriação completamente ilegal e absurda de alguém que se dizia proprietário e que não atendia às reiteradas intimações da Prefeitura. Maurício propunha a demolição do muro e eu aprovei plenamente a pro-

posta; no dia seguinte, em duas horas os tratores da Prefeitura derrubaram o muro. Mas o suposto proprietário era desses que tinha ‘rei na barriga’: era um delegado de polícia casado com uma promotora do Estado. E moveu contra nós uma ação criminal por abuso de poder, que nos obrigou a passar um dia inteiro em juízo, em longo interrogatório e espera da sentença, que afinal nos absolveu. Lembro-me da figura confiável e do sobrenome do juiz: era Mair. Ainda uma imagem da memória: nós dois subindo o Morro dos Macacos, onde sua Secretaria havia construído um conjunto de casas populares que íamos inaugurar. Não era uma subida extremamente forte, eu suportei muito bem, caminhante que já era nos meus exercícios diários. Maurício não aguentou, teve que parar um tanto asfixiado, suando abundantemente num dia fresco, sua camisa azul encharcada, anormalmente cansado. Teve que parar no meio do caminho, sentar-se por uns quinze minutos para se recuperar. Fiquei seriamente impressionado, especialmente porque, nessa parada de restauração, ele fumou dois cigarros. Por fim, veio o capítulo doloroso da separação: eu tinha rompido com Brizola e com o PDT, a represália veio forte e todos os secretários que ficaram com o PDT pediram demissão. Ele foi um dos que tiveram que sair; voltava para a Câmara, era Vereador e me avisou honestamente que ia bater duro no meu governo. E como bateu: era de longe a maior figura daquela Câmara, em saber e em inteligência, bateu firme e eu aguentei, sem reduzir em um milímetro a admiração que tinha por ele. Continuamos amigos: ele me ajudou na eleição de Vereador, quatro anos depois, e na de Senador, oito anos depois. Continuamos nos encontrando, na ABI, nos atos da esquerda nacionalista, nos eventos do Casa Grande, continuamos nos abraçando fraternalmente. De fato, tínhamos só uma dissonância grave: ele era tremendamente flamenguista e eu muito botafoguense.

Um importante brasileiro descansou depois de toda uma vida exemplar na mídia brasileira – Maurício Azêdo, grande entre os grandes jornalistas da história da nossa imprensa escrita no século 20, e que foi capaz, já no outono da vida, e já aposentado das lides profissionais e do serviço público, de produzir o que talvez seja a mais bem feita publicação em todo o País, atualmente. Difícil imaginar que alguém consiga manter o nível intelectual, informativo e analítico que ele conseguiu imprimir nesse trabalho em que contou sempre com a colaboração de Francisco Ucha na edição final. Mas não podemos nos limitar ao jornalista. Como militante e Presidente da ABI, Azêdo também foi marco fundamental da luta pelas liberdades democráticas do povo brasileiro. Nas condições mais favoráveis, ou no período tenebroso da ditadura que nos assolou por duas décadas, foi uma lide-

rança constante nas batalhas pelas causas mais patrióticas e justas socialmente. Se a ABI teve um papel fundamental contra os governos militares, muito se deveu à coragem de um pequeno grupo que ladeava Prudente de Moraes Neto e, depois, Barbosa Lima Sobrinho, nesse embate, e que Maurício liderava. Para ele, portanto, nada é mais apropriado do que o celebrado por Brecht em seu poema imortal, cuja essência tento transcrever de memória: Há os que lutam um dia, e são muito bons. Há os que lutam muito tempo, e são excelentes. Há os que lutam sempre: são os imprescindíveis. Azêdo, a despeito de seus momentos de mau gênio; a despeito até de alguns excessos nas relações pessoais, foi um Imprescindível. Até mais ver, portanto, meu camarada.

puderam dar jeito. Os resistentes, como Maurício, sempre pagam pela inveja dos que se entregaram. Mas ele não será esquecido. Esses traidores de todas as horas, serão lembrados pela indignidade. HÉLIO FERNANDES é jornalista e Diretor da Tribuna da Imprensa

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SAUDADES

Azêdo, um bravo combatente P OR A DOLFO M ARTINS

A imprensa brasileira está de luto. Perdeu um de seus ícones. Empobreceu-se com a morte de um seus mais bravos combatentes: o jornalista Maurício Azêdo. Ele foi um mestre para tantos, dentre os quais nos incluímos, orgulhosos por ter aprendido com ele ricas lições, sobretudo aquelas relacionadas ao senso ético e à largueza do compromisso social do trabalho jornalístico. Convivemos profissionalmente nos tempos bicudos da repressão, numa época obscura em que a liberdade era cerceada e em cujo contexto só cresceu o respeito pela sua destemida postura, própria daqueles que não se intimidavam diante dos perigos latentes, soprados pelos vendavais do AI-5. Pela sua consistente formação política, pela sua inquietude de espírito, pelo seu inconformismo diante das distorções sociais, pela sua sen-

sibilidade humana e pelo seu perfil combativo, sempre foi uma figura respeitada e admirada. Foi respeitado pela coerência dos caminhos que trilhou. Pelos compromissos éticos que encampou. Pelas convicções vigorosas que expressou. Foi admirado pelas idéias progressistas que espalhou. Pelos ideais solidários que cultivou. Pelo bom combate que exercitou. Exercitava o jornalismo com paixão contagiante. Sabia como poucos que o jornalismo era, de certa forma, um extensão da atividade pública. Nesse ofício, para usar uma linguagem figurada, ele sempre cuidou da diagramação ética. Sempre se pautou, nos limites de suas possibilidades, pela linha editorial cidadã. Sempre procurou usar as tintas com a veracidade dos fatos. E buscou mobilizar energias, ecoar vozes do inconformismo e clamar pelo direito de todos. Ele sabia que não havia como fazer jornalismo apenas com a objetividade fria,

vezes, de posições polêmicas, sempre alimentadas pelos seus sonhos, utopias e convicções. Seja no jornalismo e, depois, na vida pública e, ultimamente, à frente da casa maior do jornalismo brasileiro (a centenária ABI), sempre foi um líder que não se deixou enclausurar no cárcere da amargura, da indiferença, do quietismo. Ao contrário, procurou erguer os valores éticos, aprofundar a reflexão social, questionar o papel de forças anacrônicas e reforçar os compromissos que o impulsionaram na trajetória de sua vida profissional. Na história recente do jornalismo brasileiro, poucos terão deixado exemplos tão marcantes, quando se colocam em pauta a coragem cívica, a competência profissional e a idoneidade moral. Nosso jornalismo perdeu uma grande figura. E nós perdemos um mestre e um amigo fraternal.

a neutralidade teórica, a imparcialidade ideológica. Sem distorcer os fatos, procurava agregar-lhes algum sentido analítico. Pois, na sua visão, um jornal não poderia ser simplesmente um caleidoscópio de informações reunidas de forma aleatória, desconexa e descompromissadas de seu contexto. Foi na convivência profissional com ele que aprendemos uma lição que tem nos sido de grande valia: o jornalismo, na sua missão de informar e de influenciar a opinião pública, não está desconectado do seu conceito de atividade empresarial. Mas isso não lhe dá o direito de se transformar num balcão de negócios. De calar por astúcia. De sonegar fatos por conveniência. De omitir posições por cumplicidade. Ou de vender a própria alma por sobrevivência. Por onde passou, Azêdo deixou um rastro de senso ético, de combatividade, de liderança, de inquietude e, quantas

ADOLFO MARTINS é jornalista e Presidente do Grupo Folha Dirigida

Homem honrado

Um rombo nas forças democráticas

P OR V ITOR I ORIO

Mais do que a costumeira ‘lacuna’ dos obituários e preitos fúnebres, a morte do jornalista Maurício Azêdo, meu querido amigo e Presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), deixa um rombo nas forças democráticas e progressistas do País, em que ele, como os expoentes da nossa geração, despontou em meados dos anos 1960, na resistência à ditadura militar. Com o progressivo desmantelamento pelo regime das lideranças e dos partidos políticos, assim como dos movimentos sociais, logo nos restariam, das organizações até então atuantes, somente a UNE e o PCB. Nós, Azêdo, eu e muitos jovens jornalistas, optamos pelo chamado ‘Partidão’, que nos propunha algo de bem racional: o caminho da luta de massas. Por isto, nossa palavra de ordem nas passeatas era “Só povo organizado derruba a ditadura”. As únicas alternativas da época eram a troca do adjetivo por armado, o protesto filosófico-comportamental dos hippies, a desmoralizante inércia política ou, a pior de todas, o desbunde das drogas. Azêdo, como sempre preferi chamá-lo, escrevia muito bem, mas o que mais me chamava a atenção nele era o seu insaciável apetite pelo trabalho, o seu lado péde-boi. Impaciente e acionado por alguma força interna – uma úlcera, ao que se especulava –, não hesitava, por exemplo, em chamar a si partes de uma tarefa coletiva que cabiam a companheiros mais lentos ou contemplativos. Tive a oportunidade de comprová-lo no dia-a-dia do semanário de oposição Folha da Semana, lan-

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çado em setembro de 1965, do qual me tornei diretor dois meses depois, para substituir o advogado Alfredo Tranjan, que renunciara à função com a edição do Ato Institucional nº 2, o da extinção dos 13 partidos políticos então existentes. Todos ali, Sérgio Cabral, Luiz Mário Gazzaneo, Leandro Konder, Ferreira Gullar, Otto Maria Carpeaux, Alex Viany, Anderson Campos, José Carlos Avelar e tantos de que não me lembro de imediato, contribuímos para o cumprimento dos objetivos primordiais deste semanário inaugural da chamada imprensa alternativa pós-golpe militar: denunciar as violências da ditadura e clamar pela democracia. Tão bem, aliás, que o jornal mereceu fechamento por um garboso comando de fuzileiros navais, em dezembro do ano seguinte, quando eu já fora deposto, em julho, pelo decreto presidencial que me suspendera os direitos políticos. Mas, quem sempre ‘carregou o piano’, dando mais do que a sua cota – tínhamos que reconhecer –, foi o Azêdo, que seria preso e torturado em 1976. E ele continuou sendo assim, coerente e fiel à sua consciência e aos seus princípios, um guerreiro pela democracia e intransigente defensor da liberdade de expressão, até o final, aos 79 anos, no triste dia 25 de outubro: nos inúmeros jornais em que exerceu as mais diversas funções da profissão, de repórter a Diretor de Redação; como militante e vereador do PDT; Presidente da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro; conselheiro do Tribunal de Contas do Município; e nos mandatos em que honrou as melhores tradições e lembranças de Barbosa Lima

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FRANCISCO UCHA

P OR A RTHUR P OERNER

Sobrinho na presidência da ABI, onde encontrou vasto campo de atividades para a sua porção pé-de-boi, inclusive como um dos editores, ao lado do Francisco Ucha, do excelente Jornal da ABI. Morreu de insuficiência cardíaca no Rio, no Hospital Samaritano, em Botafogo. Deixa inconsoláveis a também incansável companheira Marilka, sempre ao seu lado, inclusive no trabalho, as duas filhas que teve com ela e os dois do primeiro casamento; assim como inconformada, a incontável legião de amigos e admiradores, em que tenho o orgulho de me incluir. ARTHUR POERNER é escritor, jornalista e membro do Conselho Deliberativo e da Comissão de Ética dos Meios de Comunicação da ABI

Ainda muito jovem, tinha acabado de chegar ao Jornal dos Sports, – final da década de 1960 –, conheci o jornalista comunista Maurício Azêdo. O magnífico redator do jornal Última Hora coordenava o Cineclube Macunaíma na ABI e já exercia uma grande liderança no jornalismo político. Flamenguista apaixonado; carioca esquentado, não levava desaforo para a casa. No entanto, brigava hoje, amanhã fazia as pazes. Não era um homem rancoroso. Era apenas um animal político que não abria mão de suas convicções. Mais tarde, encontrei com o Maurício no seu gabinete na Câmara dos Vereadores, na Cinelândia. Sua sala era abarrotada de papéis, documentos e livros. Gostava de conversar, sabia ouvir. Sabia falar. Algumas vezes era contundente no que dizia. Uma fala honesta. Fomos nos reencontrar na ABI. Sua sala apresentava o mesmo cenário de desarrumação de papéis, documentos e livros. Mas ele tinha o controle de tudo. Continuava gostando de conversar. No entanto, seu coração comunista e flamenguista, lamentavelmente, começava a falhar. Estava indo embora um homem honrado. Vamos sentir falta, com muita certeza, da sua liderança, boa conversa, recado contundente, fala honesta e de ser chamado pelo nome completo, como ele gostava de fazer. VICTOR IORIO é jornalista e professor da UFRJ


Maurício-Coragem P OR M ARCELO S. T OGNOZZI

Maurício Azêdo foi um dos melhores sujeitos que conheci em toda minha vida. Convivi com ele no início da minha carreira profissional no Jornal do Commercio do Rio, quando ainda era um repórter iniciante em 1979/1980. Maurício era copy do jornal e me adotou. Me ensinou um monte de coisas sobre ser jornalista, repórter de verdade, não mentir, não enrolar, simplesmente apurar. Um dia ele veio me pedir para votar numa das chapas de reeleição do Dr. Barbosa Lima. “Nisso aí só tem velho, Maurício. A começar pelo Carlos Drummond de Andrade, que nem na ABI vai”, disse eu, bem daquele jeito descarado de repórter metido que eu era. “Você tem que aprender com os mais velhos, seu moleque! Tem que construir seu passado! Esses são os nossos sábios”, respondeu Maurício. Até hoje lembro dele, óculos dependurado na ponta do nariz me dando esporro por causa daquela chapa dos anos 1980. Mais tarde, em 1983, tomou posse como Vereador eleito pelo PDT. Em seguida foi eleito Presidente da Câmara e foi sentar praça na prefeitura enquanto Brizola não nomeava o Jamil Haddad Prefeito do Rio.

Fui cobrir a posse do Azêdo como Prefeito interino e terminamos os dois deitados, cada um num sofá do gabinete, conversando sobre como era irreversível a redemocratização. Continuamos amigos, embora eu tenha vindo pra Brasília e ele continuasse no Rio. Quando foi montar a chapa para se eleger Presidente da ABI me ligou para comunicar que tinha incluído meu nome para conselheiro. Na reeleição foi a mesma coisa. Ele comunicava. Como comunicou quando me colocou na comissão dos 100 anos da ABI. Não me pediu para ser conselheiro do CDDPH; me nomeou. Quando precisei sair do conselho por questões profissionais, ele não me substituiu. Eu disse que aquilo era constrangedor, porque eu não podia comparecer às reuniões e ele deu uma resposta curta e grossa: “problema seu”. Meu amigo, Maurício-Coragem, meu querido, meu mestre que me acolheu e me ensinou a fazer jornalismo decente e ter orgulho disso... Você foi um cara que viveu intensamente, deixou um exemplo de caráter, de luta, de amor à vida. Eu tenho muito orgulho de ter sido teu amigo e ter tido o privilégio de conviver com você. MARCELO S. TOGNOZZI é jornalista, professor e especialista em Comunicação Política

O doce Azêdo P OR M IRANDA S Á

Sonado, com uma tristeza imensa pela perda de um quase irmão – amigo por mais de 60 anos –, participei do velório de Maurício no Memorial do Carmo, perdido no meio de grande e variada afluência. Lá, ouvi muitos depoimentos relembrando a juventude, o jornalismo e a participação política do Presidente da ABI, que teve o mandato interrompido em pleno exercício. Entre recordações de Alcyr Cavalcanti, Altenir Rodrigues, Ancelmo Gois, Chico Paula Freitas, Daniel Mazola, Fischel Davit, José Argolo, Maria Ignez, Mário Augusto, Sérgio Caldieri e Pery Cotta, um diálogo com Argolo inspirou-me a registrar o perfil do ente querido que levamos ao túmulo. “Azêdo tinha um pavio curto”, comentei. E Argolo: “Ele não tinha pavio…” Relembramos assim as discussões ácidas e as respostas contundentes de Azêdo às provocações, seja nas lutas políticas ou nas diversas Redações em que foi repórter, redator, cronista, chefe de reportagem e editor. Oscar Maurício de Lima Azêdo era impetuoso contra a impostura e a transgressão dos princípios; assim, foi sem dúvida azedo, mas doce na convivência, no trato social e na cortesia com os que o procuravam. Tive, pela internet, o depoimento de um jornalista paranaense que observou a lhaneza dele numa visita que fez a ABI. No nosso longo relacionamento, que vinha dos tempos da Ames – Associação Metropolitana dos Estudantes Secundários, até

dois anos atrás quando me indicou para o Conselho Deliberativo da ABI e o honroso convite para fazer parte da sua diretoria, nunca tivemos um atrito. Divergimos, discutimos, mantivemos desacordos, sem nunca abandonarmos o tratamento fraternal consolidado através dos anos. Tentei mergulhar no infinito para descobrir como Azêdo gostaria de ser tratado no seu obituário. De coração acredito que o que mais o agradaria seria a referência ao seu profissionalismo, porque a imprensa era a sua paixão. E nos jornais e revistas em que atuou, entregava-se de corpo e alma. A prova disso é que, mesmo atento e exigente na presidência da entidade representativa dos jornalistas, nunca abandonou a editoria do Jornal da ABI, refugiando-se em casa para o seu fechamento sempre meticuloso, e, como homem de jornal, obediente aos prazos. Acompanhava todas as fases do jornal, da pauta à colheita do material; da apuração e revisão ao texto final; e, da hierarquização do conteúdo – o fechamento propriamente dito –, até a distribuição. Nessa agitada atividade no Jornal da ABI não estava encerrando sua notável contribuição ao jornalismo brasileiro, porque nos seus editorais manteve a continuidade da sua coerência como arquiteto da informação e, principalmente, como irradiante defensor dos princípios da liberdade de expressão e de imprensa. MIRANDA SÁ é diretor de Arte, Cultura e Lazer da ABI

Forjado na busca da verdade P OR A LBERTO D INES

Não foram muitos os Presidentes da Associação Brasileira de Imprensa oriundos da linha de frente. Todos imperiosamente envolvidos com a defesa e o aprimoramento da instituição jornalística, mas poucos egressos diretamente desta trincheira de luta e incubadora de sonhos chamada Redação. Fernando Segismundo foi um deles e Maurício Azêdo, outro. Na realidade, nada os diferencia dos demais, saídos da academia, da tribuna política ou dos gabinetes da direção de jornais. Igualam-se ao assumir o comando desta secular instituição.

Maurício Azêdo trouxe para a presidência os atributos do jornalista forjado na busca da verdade. Lutou valentemente contra a ditadura militar, foi preso, torturado e mesmo com a redemocratização não abandonou a trincheira da luta pela liberdade de expressão. Foi um dos mais veementes denunciadores da censura togada que hoje substitui a censura fardada e torna a imprensa prisioneira dos seus caprichos e interesses. Encarna o jornalismo combativo, incansável, intransigente, solitário. Em seu caso, solidão e decepções foram pesadas demais. ALBERTO DINES é jornalista e escritor e criou o site Observatório da Imprensa.

Essência da liberdade P OR P INHEIRO J UNIOR

Maurício Azêdo foi mais que um Presidente da ABI, por dois períodos simplesmente brilhantes. Foi o Presidente da ABI que a ressuscitou, puxando nossa centenária entidade da beira do marasmo político-administrativo em que se encontrava desde quando Barbosa Lima Sobrinho não mais pôde comandá-la. Este precipício mortal, eu diria que espreitou a Casa do Jornalista principalmente porque a ditadura militar fragilizou-a. Bloqueou o quanto foi possível suas ações. Chegou a infiltrar inimigos em nossos quadros deliberativos, tomando a ABI como inimiga declarada e primeira, porque a essência da Associação Brasileira de Imprensa, desde a fundação, é a essência mesma da liberdade. Mas Maurício se tomou de amores idealísticos pela ABI ao se eleger Presidente pela primeira vez em 2004. E o fez com tal intensidade que talvez não seja exagero dizer que ela – a grande, envolvente e exigente ABI – pode ter agravado de morte os cuidados que Maurício passou a enfrentar ao ser assaltado pelos implacáveis problemas do coração. Coração bom, coração grande, coração amigo, coração lutador, coração que não podia adoecer e falhar. Porque – dizia o poeta Nicolás Guillén, de Cuba – “un corazón en el pecho de crímenes no manchado” não admitiria e não resistiria às emoções da injustiça e do rancor cumulados exatamente por aqueles a quem mais ele, Maurício, representou e defendeu. Claro é que ele dedicou a força de seu coração lutador, o ideal de seu amor sem mácula e sua marca administrativa eficiente a todos os setores da ABI. Mas a melhor parte de suas inovações ele deixou impressa no que teria de ser o

supremo caráter jornalístico de uma associação jornalística nacional máxima – o Jornal da ABI. E assim o Jornal da ABI é hoje um órgão oficial de autêntica e perfeita representatividade. De interesse ininterrupto como porta-voz das causas impostergáveis dos jornalistas brasileiros. Editado por ele próprio em parceria com o não menos eficiente Francisco Ucha, é o Jornal da ABI a obra de ressurreição mais visível no panorama da entidade ressurreta. Não fosse o vibrante jornalista cheio de vida, décadas a fio, formado e crescido nos mais expressivos diários do País, como Última Hora, Jornal do Brasil, Correio da Manhã, Jornal do Commercio, Diário Carioca, Folha de S.Paulo e mais os alternativos Opinião e Movimento. Cronista esportivo de primeira linha, arguto editorialista político, Vereador pelo PDT, conselheiro do Tribunal de Contas do Município, ex-preso político submetido a torturas e membro do antigo PCB – o Partidão – foi ainda advogado e vidrado cinéfilo fundador do Cineclube Macunaíma. Ao morrer, foi velado no Memorial do Carmo e sepultado no São Francisco Xavier. Mas os companheiros o queriam em câmara ardente na ABI ou na Câmara Municipal, impossibilidade manifestada por motivos independentes inclusive do próprio Conselho Deliberativo da ABI, que viria a se reunir dois dias depois para prestar homenagens ao ilustre homem público que dedicou sua vida à congregação mais ampla dos companheiros. Afinal, sua base política era a igualdade de direitos e deveres, um mundo socialmente unido acima do mal, com o bem ao alcance de todos. PINHEIRO JUNIOR é jornalista e autor do livro A Última Hora (Como Ela Era) – História e Lenda de uma Convulsão Jornalística Contada por um Atuante Repórter do Jornal de Samuel Wainer

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SAUDADES

Jornalismo e a cidadania perdem um combatente P OR M ÁRIO A UGUSTO J AKOBSKIND E A LCYR C AVALCANTI

O jornalismo e a cidadania brasileira perderam um autêntico combatente, o Presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Maurício Azêdo, falecido no dia 25 de outubro, exatamente 38 anos depois do assassinato de Vladimir Herzog pela máquina repressiva da ditadura civilmilitar que assolou o País a partir de abril de 1964. Azêdo se foi, mas fica o seu legado de sempre, o de combater o bom combate. Em 1962 foi um dos líderes da greve dos jornalistas que reivindicavam salários dignos, negados pelo patronato, apesar dos lucros exorbitantes. Eram outros tempos, mas nem por isso deixava de se posicionar, sempre por uma causa justa. Em plena ditadura, em 1968, uma das mais violentas ações do gênero, que se repetem nos dias atuais sob o comando do Governador Sérgio Cabral, a PM invadiu a antiga Faculdade de Medicina, na Praia Vermelha, e fez mais de 500 prisões de estudantes de vários cursos que realizavam uma plenária, colocando todos os presos dentro do então campo do Botafogo, na Rua General Severiano. Essa violência gerou a maior passeata daquela época. Maurício Azedo, rubronegro apaixonado, foi o autor, no extinto Jornal dos Sports, da seguinte manchete sobre a passeata que respondia à violência policial: “100 mil vão às ruas pelo Botafogo”. A única manchete política em toda a história do Jornal dos Sports.

Preso e torturado pela ditadura, o jornalista seguiu em sua luta na defesa dos valores democráticos e socialistas, fundamentais para um Brasil mais justo e sem autoritarismos de qualquer espécie. Eleito vereador pelo PDT, Maurício continuou servindo de exemplo não se dobrando a pressões e enfrentando o poder das oligarquias quando presidiu a Câmara dos Vereadores do Rio. Na Associação Brasileira de Imprensa, desde sempre se alinhava com jornalistas, como Barbosa Lima Sobrinho, entre outros, que combatiam a ditadura e todo o tipo de censura imposta pelos detentores eventuais do poder. Eleito Presidente da entidade em 2004, Maurício sempre abriu as portas da ABI para os setores que se mobilizam na defesa de um Brasil mais justo, mais igualitário. Os auditórios do 7º e 9º andar consolidaram-se como os espaços mais democráticos da cidade do Rio de Janeiro. Sob a direção de Maurício Azêdo, a ABI defendeu galhardamente a liberdade de imprensa e de expressão, bem como se engajou ao lado dos movimentos da sociedade brasileira defensoras da democratização dos meios de comunicação e da defesa incondicional dos Direitos Humanos, que têm sido frequentemente desrespeitados em nome de uma pretensa segurança. Na entrada de nosso prédio encontrava-se uma grande faixa com os dizeres “Pela Abertura dos Arquivos da Ditadura”. O recado foi retirado numa recente madrugada, sem terem sido

identificados seus autores. Poucos dias antes também tinha sido retirada uma faixa informativa sobre a presidência, a direção e os conselheiros eleitos em abril de 2013. Ficou também a dúvida sobre os autores do ato desesperado e digno de uma época de exceção, incompatível com nossos dias. Nos últimos meses de vida, passou a enfrentar uma oposição sectária de grupos inconformados com o fato de a ABI estar na vanguarda da luta por uma mídia realmente democrática e ampliada para os setores sociais que não têm vez e voz na mídia tradicional, além da defesa das manifestações populares legítimas que têm ocorrido em todo o Brasil. Associados vinculados a setores midiáticos tradicionais, sob alegações das mais variadas, questionaram até mesmo a eleição legítima realizada no último mês de abril e que deu a vitória à chapa Prudente de Morais, encabeçada por Maurício. Com a saúde debilitada, nas últimas semanas vivia sob permanente estado de tensão, o que agravou o problema cardíaco que acabou levando-o a um desenlace fatal. Os defensores de valores opostos aos que Azêdo representava chegaram até a ingressar na justiça com alegações, sem o mínimo fundamento, colocando em dúvida uma eleição feita dentro das regras da entidade através de seu Estatuto. No dia 21 de outubro, portanto quatro dias antes da morte do jornalista, uma audiência na Justiça, que dava seguimento ao processo

aberto contra a eleição da Prudente de Morais, teve de ser adiada para o próximo dia 18 de novembro, porque Azêdo não pôde comparecer em função dos problemas de saúde. O processo, acreditamos, deve ser extinto. Mas deixou suas conseqüências, e seqüelas de extrema gravidade, em sua saúde debilitada. Os corvos, fazendo reviver políticos de um passado que esperamos esteja definitivamente sepultado, estão na tentativa de tomar de assalto uma entidade que caminha para 105 anos de uma existência de lutas para transformá-la em um leito passivo e afastado da defesa dos valores que Maurício sempre defendeu.. Nós todos, companheiros e camaradas de Azêdo temos a obrigação de defender e manter o seu legado, respeitando sua última vontade, qual uma carta-testamento em que ele manifestou o desejo de reunir as forças verdadeiramente democráticas na defesa contra os grupos que desejam destruir as conquistas arduamente obtidas através de muito sangue, e muitas lágrimas, para a construção de um Brasil melhor, de um mundo melhor, mais justo e mais igualitário. Finalizamos com um trecho de seu último texto, em que ele nos conclama “a retomar o papel que nos cabe na luta em defesa do povo de nossos países”. Maurício estará sempre presente em nossos corações, em nossas mentes. MÁRIO AUGUSTO JAKOBSKIND é Presidente da Comissão de Liberdade de Expressão e Direitos Humanos da ABI. ALCYR CAVALCANTI é Diretor de Jornalismo da ABI

Maurício Azêdo, um exemplo que ficou P OR P EREIRA DA S ILVA

A coluna rende homenagem a esse homem singular, um bravo e valente guerreiro da palavra e das ações humanas que, destemido, exerceu o bom combate, colocando em risco a própria vida nos anos negros da ditadura militar. Mesmo naqueles terríveis anos de luta fratricida, Maurício Azêdo foi um mensageiro da paz. Jamais deixou um amigo na beira do caminho e sempre esteve ao lado da Justiça, tentando salvar os injustiçados, a qualquer hora do dia e da noite. À frente da ABI, sucedendo gloriosamente inigualáveis nomes e bastiões das liberdades democráticas, como Barbosa Lima Sobrinho, cujos legados honrou com imensa sabedoria ao trabalhar pelo resgate da imagem da instituição ABI perante à sociedade e aos gover-

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nos democráticos que passaram a conduzir os destinos da Nação brasileira depois dos anos negros que tingiram de sangue o chão da nossa pátria querida. Como seus antecessores de saudosa memória, não se descuidou da defesa do imperioso direito dos jornalistas exercerem a profissão com liberdade, com senso crítico e ética profissional. E foi além disso: trabalhou incansavelmente para recuperar as finanças da ABI com interlocução com deputados, senadores e representantes dos governos federal, estadual e a Prefeitura do Rio. Foi assim que Maurício Azedo, ao partir, deixou a ABI financeiramente saneada, inclusive com reserva nos cofres e nos bancos. Quem assumir o seu posto terá obrigatoriamente que dar continuidade ao seu trabalho. Paralelamente, procurou pôr em práti-

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ca um plano, um não, vários, para trazer de volta ao seio da ABI velhos e novos companheiros que haviam dela se afastado. Um deles foi a reforma estrutural do Edifício Herbert Moses, por dentro e por fora. Sua primeira obra foi a reestruturação da menina dos seus olhos, a Biblioteca Bastos Tigre, memória histórica da imprensa brasileira, e um dos mais importantes espaços culturais da cidade, dando acesso em seu rico acervo aos pesquisadores, professores e estudantes de Comunicação do País. Maurício ainda tinha muito por fazer, mas fez outra coisa muito importante na área da cultura, da história e da comunicação. O exemplo tão importante quanto ao da Bastos Tigre foi a reformulação do Jornal da ABI, que ganhou um formato inovador, tecnicamente muito próximo da perfeição, com páginas de entrevistas com

velhos companheiros, pessoas que fizeram história no campo jornalístico, seja no impresso, seja na televisão, e matérias relevantes de grande interesse sócio-cultural e político. O site da ABI, na internet, é outro exemplo de sua marca gestora. Querido Azêdo, sua passagem pela vida foi marcante, inclusive na política, como Vereador e Prefeito interino do Rio de Janeiro, e no Tribunal de Contas do Município. Seu nome jamais será esquecido por nós que o queremos tanto bem. Não sendo eu ateu, nem agnóstico, mas respeitoso com todos aqueles que sabem defender, sem maniqueísmo, suas ideologias e credo, digo: descanse em paz ao lado do Senhor. PEREIRA DA SILVA (Pereirinha), matéria publicada no Jornal de Hoje – Nova Iguaçu


CARLOS IVAN/AGÊNCIA O GLOBO

MENSAGENS

Notas oficiais de autoridades e entidades “Maurício Azêdo foi um grande brasileiro. Jornalista militante que sempre se dedicou às causas da democracia e das liberdades. Homem público exemplar sempre dedicado às causas do Rio de Janeiro e do Brasil. Liderou a ABI nos últimos anos com o entusiasmo e o espírito de Barbosa Lima Sobrinho. Amigo fraterno e querido”. SÉRGIO CABRAL, GOVERNADOR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

“Depois de toda uma vida profissional em que foi sempre muito fiel a suas idéias, Mauricio Azêdo a coroou com um grande serviço ao País, ao manter acesa a chama da Associação Brasileira de Imprensa, ocupando sua presidência e fazendo tudo o que estava a seu alcance para não deixar se apagar uma instituição que prestou tantos serviços à nação e à democracia brasileira. Pessoalmente o conheci pouco e não convivemos muito. Mas o admirei em especial por ter sido um dos fundadores do Cineclube Macunaíma, continuador da tradição de ótimos filmes na ABI, iniciada nos anos 1960, no período em que a Cinemateca do Museu de Arte Moderna lá fazia sucessivos festivais com exibições diárias no início da noite, inestimável formadora da cultura cinematográfica de uma geração de cariocas”. ANA MARIA MACHADO, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LETRAS

“Com grande pesar, recebemos a notícia do falecimento do colega, Presidente da Associação Brasileira de Imprensa. À frente da entidade, liderou incansável luta em defesa dos direitos humanos e da livre prática do jornalismo. Foi de grande relevo também sua atuação no Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, sempre incansável e movido pelos mais altos ideais. Neste momento de tristeza, presto minha solidariedade aos familiares e amigos.” HELENA CHAGAS, MINISTRA-CHEFE DA SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

“A comunicação e a cultura do País perderam uma grande referência com a morte de Maurício Azêdo. Ele trabalhou em quase todos os veículos de comunicação relevantes do Brasil nas últimas cinco décadas. Como editor-chefe do antigo Boletim da ABI, foi um vigoroso denunciante das violações dos direitos humanos, cobrando persistentemente a responsabilidade do Estado pelos crimes cometidos. Também foi um grande divulgador do audiovisual brasileiro, fundando cineclubes e criando várias publicações voltadas para as artes, especialmente o cinema.” NELSON BREVE, DIRETOR-PRESIDENTE DA EBC

“A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR), o Conselho de Defesa dos Direitos da

Pessoa Humana (CDDPH) e o GT Comunicadores vêm a público manifestar seu mais profundo pesar pelo falecimento do jornalista Maurício Azêdo, Presidente da Associação Brasileira de Imprensa. Ao longo de sua trajetória como jornalista, e também como Presidente de uma das mais representativas entidades do jornalismo brasileiro, Maurício soube levar a causa dos Direitos Humanos ao mais elevado patamar. A SDH/PR, neste momento de dor e perda, também se solidariza com os amigos e familiares de Maurício, que também era membro do CDDPH.” SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA (SDH)

“Maurício foi não só um jornalista, mas essencialmente um homem de jornal, que deu uma contribuição notável para o jornalismo brasileiro. E foi uma pessoa coerente com suas idéias ao longo de toda a vida.” RICARDO PEDREIRA, DIRETOR EXECUTIVO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE JORNAIS (ANJ).

“Aos 79 anos, Azêdo deixa-nos exemplo de coragem na defesa das liberdades, seja como jornalista, vereador e dirigente sindical. À frente da Associação Brasileira de Imprensa, foi uma voz contundente em favor da liberdade de imprensa e de expressão no País. A Abert se solidariza com a sua família”. DANIEL PIMENTEL SLAVIERO, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EMISSORAS DE RÁDIO E TELEVISÃO – ABERT

“Sua luta incessante na defesa intransigente da democracia e das liberdades de expressão de Imprensa marcaram sua vida. Sua atuação no campo político foi timbrada na defesa da liberdade e da imposição do crescimento igualitário para todos os Brasileiros. A Comunicação Brasileira, e todos nós, estamos de luto”. JOÃO BATISTA DE MELO FILHO, PRESIDENTE, E ERCY TORMA, PRESIDENTE DO CONSELHO DA ASSOCIAÇÃO RIOGRANDENSE DE IMPRENSA - ARI

“Maurício sempre esteve à frente das lutas em defesa da categoria e da sociedade brasileira. Perdemos hoje um grande companheiro”. SINDICATO DOS JORNALISTAS PROFISSIONAIS DO MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO – SPMRJ

“A Federação Nacional dos Jornalistas expressa seu pesar pelo falecimento, no Rio de Janeiro, do Presidente da Associação Brasileira de Imprensa, jornalista Maurício Azêdo, aos 79 anos. (...) Preso e torturado na década de 1970, dedicouse ainda mais à militância política e social de combate à ditadura e defesa dos direitos humanos, também inserindo-se no movimento de denúncia da morte do jornalista Vladimir Herzog. E nas décadas de 1980 e 1990 dedicou-se à política, exercendo três mandatos de Vereador, Secretário municipal e Conselheiro do Tribunal de Contas do Município do Rio

Em 1989, o então Vereador Maurício Azêdo recebe a reportagem de O Globo em seu gabinete.

de Janeiro. Presidiu a Associação Brasileira de Imprensa desde 2004 até o momento, marcando sua atuação na defesa da liberdade de imprensa. A Fenaj se solidariza com seus parentes e amigos por esta perda inestimável.” FENAJ

“É com profunda emoção que acusamos o falecimento do eterno e combativo Presidente da Associação Brasileira de Imprensa – ABI, Maurício Azêdo. A CTB, através de sua seção estadual manifesta sua gratidão à inestimável contribuição à causa democrática que este incansável lutador deixa como legado. Como muitos lutadores na década de 1970, foi preso e torturado. Isso não o intimidou, pelo contrário, aumentou sua dedicação à militância política e social de combate à ditadura e defesa dos direitos humanos, num dos momentos mais obscuro da nossa pátria. A CTB se soli-

dariza com seus parentes e amigos por esta perda inestimável e compartilha da opinião de que devemos perseverar naquilo que foi a luta de Maurício a vida inteira: um País socialmente mais justo, economicamente mais igualitário e politicamente mais democrático.” CENTRAL DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS DO BRASIL

“O Brasil e, mais em particular, a imprensa brasileira sofreram, neste fim de semana, a perda do jornalista Maurício Azêdo. Exemplo de cidadão que se pôs a serviço da vida pública, foi um profissional de prestígio, um grande líder da sua categoria, à frente de entidades como a Associação Brasileira de Imprensa – ABI, e respeitado parlamentar na condição de Vereador na cidade do Rio de Janeiro. O Conselho de Transparência e Controle Social do Senado Federal lamenta muito a perda de um dos seus

membros mais ilustres e destacado representante da sociedade civil. E manifesta à distinta família votos de profundo pesar”. CARLOS FERNANDO MATHIAS DE SOUZA, PRESIDENTE DO CONSELHO DE TRANSPARÊNCIA E CONTROLE SOCIAL DO SENADO

“O Partido Democrático Trabalhista (PDT) lamenta a morte do Presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), falecido nesta sexta-feira aos 79 anos de idade. Maurício foi um companheiro absolutamente íntegro, leal, correto e que sempre dignificou o PDT – partido ao qual se filiou em 1981. Se elegeu vereador pelo PDT do Rio de Janeiro por três legislaturas consecutivas a partir de 1982, sempre honrando os seus mandatos na cidade onde também ocupou os importantes cargos de Presidente da Câmara de Vereadores, Prefeito interino e Conselheiro do Tribunal de Contas.

“100 mil vão às ruas pelo Botafogo” “O PCB não se esquecerá de Maurício Azêdo: Um jornalista militante; um militante jornalista. Neste dia 25 de outubro, morreu um dos maiores símbolos da imprensa brasileira e da resistência à ditadura. Era Presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), onde havia sido reeleito há pouco tempo, por ampla maioria de votos. Nos últimos dias de sua vida, teve uma decepção que não merecia. À falta de votos, a chapa derrotada pelos jornalistas bateu às portas da Justiça, postergando a posse dos eleitos. Desde cedo, Maurício se colocou na linha de frente das lutas mais sentidas de nosso povo, como membro da União da Juventude Comunista (UJC), na campanha do Petróleo é Nosso. Na década de 1960, liderou a primeira greve de jornalistas dentro do antigo Jornal do Brasil, já como militante do PCB. Durante a ditadura militar de 1964, continuou na luta. Em 1968, em uma de suas mais violentas ações, a PM invadiu a antiga Faculdade de Medicina, na Praia Vermelha, e fez mais de 500 prisões de estudantes de vários cursos que realizavam uma plenária, colocando todos os presos dentro do

então campo do Botafogo, na Rua General Severiano. Essa violência gerou a maior passeata daquela época. Azêdo, rubro-negro apaixonado, foi o autor, no extinto Jornal dos Sports, da seguinte manchete acerca da passeata que respondia à violência policial: “100 mil vão às ruas pelo Botafogo”. A única manchete política em toda a história do Jornal dos Sports. Na década de 1970, levou adiante uma ação dos comunistas na cidade do Rio de Janeiro que representava a resistência cultural à censura dos generais e coronéis de plantão. Fundou o Cineclube Macunaíma, na ABI, reduto de encontro de lideranças políticas na ilegalidade em que vivia o PCB. Fruto desta constante luta política, Azêdo foi preso, em 1976, e barbaramente torturado nas dependências do Doi-Codi, no Rio de Janeiro. No início da década de 1980, se afastou do Partido, acompanhando o camarada Luiz Carlos Prestes em sua divergência com o então Comitê Central. Sempre se manteve fiel aos seus princípios, firmando-se como uma das principais lideranças no campo da imprensa de esquerda no Brasil. No PDT, para

onde migraram os camaradas que seguiram Prestes, foi Vereador e Presidente da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. Desde o processo de reconstrução do PCB, a partir da década de 1990, Maurício se tornou um grande amigo do Partido, prestigiando-nos com sua presença em vários eventos, inclusive nas comemorações pelos 90 anos do PCB, em 2012, que se realizou exatamente na ABI. Neste ano, o Comitê Central do PCB resolveu conceder a ele a Medalha Dinarco Reis, uma homenagem a todos aqueles que honram a história do Partido. Maurício ficou emocionado e honrado com a homenagem, que infelizmente não se concretizou ainda em vida, pela pendência judicial em relação às eleições na ABI. A homenagem será mantida, em memória, porque sua história é parte da nossa história. O PCB se orgulha de Azêdo, sentese gratificado por esse filho do povo brasileiro ter pertencido aos seus quadros. O PCB sempre esteve presente na sua vida, e a vida política do PCB estará sempre ligada a esta figura ímpar.” PCB

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MENSAGENS

Maurício foi um jornalista combativo que nunca se intimidou diante da força dos ditadores e das iniquidades da política. Nos anos de chumbo, apesar de preso e torturado pela ditadura, nunca deixou de fazer na grande imprensa e nos jornais alternativos onde trabalhou, o que mais gostava de fazer – bom jornalismo. Eleito Presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) em 2004, Azêdo passou a se dedicar integralmente às causas da defesa da liberdade de imprensa e do trabalho independente dos jornalistas, sempre em prol do direito à informação. Nós, companheiros do PDT, lamentamos a sua perda e nesta hora difícil apresentamos para a sua família os nossos sinceros pêsames”. CARLOS LUPI, PRESIDENTE NACIONAL DO PDT

“Aos profissionais de imprensa a minha solidariedade ante a perda de um dos seus mais brilhantes profissionais. À família de Maurício Azêdo, os meus votos de profundo pesar, certo de que seu exemplo sempre será uma referência para todos”. RENAN CALHEIROS (PMDB-AL), PRESIDENTE DO SENADO

“A direção nacional do PPS lamenta a morte, aos 79 anos, do jornalista Maurício Azêdo, Presidente da ABI, uma perda não apenas para o jornalismo brasileiro, mas para todos os que lutaram pela retomada da democracia no País e pela construção de uma sociedade mais igualitária e justa. Chegou a ser preso pelo aparato de repressão da ditadura militar por suas ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), do qual o PPS é herdeiro. Sempre atuante do campo da imprensa e da política, o companheiro sempre foi um grande defensor da liberdade de expressão. Profissional reconhecido, teve passagens por quase todas as Redações dos principais jornais e revistas do País. Também foi Vereador e conselheiro do Tribunal de Contas do Município do Rio de Janeiro. Nesse momento de dor, o partido se solidariza com a família e amigos do Presidente da ABI, que era tio do jornalista Luiz Carlos Azêdo. Ele deixa a viúva Marilka, com quem teve duas filhas, e mais dois filhos do primeiro casamento”. PPS

“É com pesar que a Diretoria da Associação Catarinense de Imprensa – Casa do Jornalista, comunica o falecimento do amigo e parceiro da ACI, jornalista Maurício Azêdo, Presidente da ABI. Carioca, nascido em Laranjeiras, formou-se em Direito em 1960 pela Faculdade de Direito do Catete, mas continuou se dedicando ao jornalismo, que exercia desde 1958. Foi repórter, redator, cronista, editor, chefe de reportagem, editor-chefe e diretor de redação de diversos veículos. A Diretoria da Associação Catarinense de Imprensa – Casa do Jornalista apresenta suas condolências a todos os familiares e amigos do saudoso Maurício.” ASSOCIAÇÃO CATARINENSE DE IMPRENSA – ACI

“Ele vai fazer muita falta, principalmente nas horas de receber um aconselhamento sobre grandes decisões profissionais. Os textos de Azêdo sempre trouxeram uma luz especial para a liberdade de imprensa, valor caro para a API”. PEDRO NASTRI, DIRETOR CULTURAL DA ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE IMPRENSA

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“Além de profissional talentoso e ético, que honrou sempre as melhores tradições dos jornalistas brasileiros, Azêdo foi um homem dedicado inteiramente às melhores causas da luta democrática, da transformação e da justiça social. E, também, da integração da América Latina. Ele nos deixa preciosas lições!” BETO ALMEIDA, DIRETOR DA LA NUEVA TELEVISIÓN DEL SUR - TELESUR

“Morreu no Rio meu querido amigo, Maurício Azêdo. Jornalista, advogado, vereador. O Presidente da Associação Brasileira de Imprensa – ABI, nesses últimos nove anos, foi um companheiro nas lutas políticas enfrentadas em defesa da construção de um regime democrático para nosso País. Lutamos juntos, e quantos de nós reconhecemos nele a garra incontida em defesa da cidadania, entre nós tão enxovalhada. Conheci Maurício no PDT, sigla partidária fundada por homens e mulheres dignos, comprometidos com os direitos da população e priorizando a Educação, a igualdade de oportunidades no acesso aos direitos básicos. Sou uma das fundadoras, Maurício veio com o líder comunista Luís Carlos Prestes, apoiando o projeto político liderado por Leonel Brizola. Fomos candidatos a vereador, no mesmo pleito, pelo mesmo partido, que infelizmente, nos dias atuais, envergonha as lideranças partidárias que o constituíram. Maurício, um combatente pela liberdade de expressão, um generoso companheiro, sempre me comoveu. Trabalhamos muito naquele momento por nossos ideais e para a eleição de Leonel Brizola. Nas ruas, nos encontrávamos com entusiasmo, certos que a vitória traria mudanças, e irmanados sorvíamos o sonho de um País liberto. Naquele tempo pude experimentar a verdadeira solidariedade do companheiro Maurício Azêdo. Apresentava minha candidatura, em lugares onde eu não tinha trabalho anterior, trazia a luta pelos direitos da mulher à tona, e me destacava para o debate. Em todos esses anos, foi sempre um homem educado, cordial, simples. Em muitas outras situações o vi firme apoiando a liderança de Brizola, já isolado em cruciais instantes do jogo político, escanteado pela cupidez do poder. Maurício não traiu, não mentiu, Maurício trouxe para todos os companheiros sua palavra confiante e batalhadora. Triste, muito triste com sua partida, a partida de um amigo solidário. Amanhã, que seus muitos companheiros levem Maurício, nosso querido homem público, carioca apaixonado, até sua caminhada final.”

CLAYTON Jornal O Povo, de Fortaleza

BRUNO GALVÃO Jornal O Vale, de São José dos Campos, SP

10 NO TRAÇO Dez artistas do traço enviaram para o Jornal da ABI a homenagem de cada um ao jornalista Maurício Azêdo. Em cada estilo, um modo muito particular de traduzir em imagem o espírito combativo e afetuoso do Presidente da ABI.

MAYSA MACHADO, GRUPO TORTURA NUNCA MAIS, RIO DE JANEIRO

“É com muita tristeza que comunicamos o falecimento, do jornalista e Presidente da ABI, o estimado guerreiro Maurício Azêdo. Foi um dos nossos agraciados pela Medalha Abreu e Lima, em 2012. Hoje, além de perder um lutador das boas lutas, o Brasil também perde um defensor da liberdade de expressão e da verdadeira democratização das comunicações. A Casa da América Latina, que durante os três últimos anos conviveu quase que diariamente com Maurício, através do cineclube, que generosamente, acolheu essa vitoriosa parceria, ABI/CAL, lamenta essa perda irreparável.” CASA DA AMÉRICA LATINA

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AROEIRA Jornal O Dia, do Rio de Janeiro


FERNANDES Diário do Grande ABC

JEAN GALVÃO Folha de S.Paulo

BENETT Gazeta do Povo, de Curitiba e Folha de S.Paulo.

RICO Jornal O Vale, de São José dos Campos, SP

MARCO JACOBSEN Folha de Londrina

J.BOSCO O Liberal, de Belém, PA

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Azêdo, o veemente POR SÉRGIO CABRAL

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possível escrevendo a coluna Na hora H do jornal Última Hora. Uma das suas notas antológicas ocorreu quando telefonei para ele informando a viagem para o Uruguai de um colega de jornal (sucursal da Folha de S.Paulo), que também trabalhava para o recém-criado Serviço Nacional de Informações. O problema dele, coitado, era um defeito fatal para qualquer agente secreto: bebia muita cachaça, ficava de porre e nos revelava nomes de companheiros que deveriam ser presos. Era só telefonar para eles e sugerir que se escondessem. Numa noite, revelou que, no dia seguinte, embarcaria para o Uruguai, onde se fingiria de fugitivo da repressão e passaria a conviver com os exilados, sobre os quais escreveria um relatório para o SNI. Comuniquei-me com Azêdo e, no dia seguinte, Na hora H publicava uma nota dando conta que, naquela noite, embarcaria para Montevidéu o repórter Fulano de Tal em missão do SNI. O pessoal do Golbery demitiu imediatamente o agente falastrão. Na Folha da Semana, eu seria o chefe da Redação, mas o posto foi logo ocupado por Azêdo porque eu já tinha outros compromissos profissionais. Além disso, ele era dotado de mais disposição e, sobretudo, mais talento. O tempo demonstrou que foi uma troca acertada porque saiu um jornal muito bem feito e extremamente combativo. Tão combativo que o advogado (e Deputado estadual) Alfredo Tranjan, que convidamos para ser o diretor-responsável, desligou-se da Folha da Semana, logo nos primeiros números, preocupado com uma possível reação violenta do regime. Permaneci no jornal escrevendo sobre música popular e colaborando em outras áreas, quando necessário. O problema de ser chefiado pelo Azêdo é que ele pensa que todo mundo é pé-de-boi como ele. Certa vez, me encomendou uma história das escolas de samba e me obrigou a escrever em tempo recorde minha primeira tentativa de falar das escolas desde as suas origens (eu já havia escrito algo parecido no Jornal do Brasil, mas numa série de 26 artigos). Quem sofria com ele também era o crítico cinematográfico José Carlos Avelar, um excelente diagramador de jornal. Avelar pagou todos os seus pecados por ter dito que não gostara do filme Os Companheiros. Era só encontrar uma diagramação para a primeira página não aprovada FRANCISCO UCHA

Quando me ocorreu escrever um depoimento pessoal sobre Maurício Azêdo, pensei primeiramente no título e saí atrás de um adjetivo para ser colocado ao lado do nome dele. Foi aí que percebi que escreveria sobre uma personalidade de tal riqueza que, com um adjetivo mal escolhido, correria o risco de bancar aquele cego que tentava identificar um elefante apenas com o tato. Escolhi um adjetivo que, segundo Mestre Aurélio, é capaz de identificar o cidadão impetuoso, animado, arrojado, enérgico, forte, vigoroso, entusiástico, fervoroso, caloroso, vivo, intenso, forte e apaixonado em tudo que faz. Todas essas características definem meu homenageado e nenhuma delas entra em conflito com a generosidade e o brilhantismo do meu querido amigo e Presidente da Associação Brasileira de Imprensa. O caso é que são tantas as instituições e pessoas envolvidas com as comemorações do centenário da ABI que a gente acaba esquecendo que tudo isso está acontecendo porque Maurício Azêdo quis que acontecesse e comandou todas as ações daquele jeito que seus amigos conhecem muito bem: batendo o córner e correndo para fazer o gol de cabeça. Afinal, é sob seu comando que a nossa casa revive os tempos de Herbert Moses, de Prudente de Moraes, neto e de Barbosa Lima Sobrinho. Por achar que a sua figura não poderia deixar de ser focalizada nesta edição histórica do nosso jornal é que me valho de um expediente muito comum no velho Pasquim, que consistia em escrever alguma coisa sobre um integrante da equipe e que este só conheceria o texto depois do jornal na rua. Fui autor e vítima dessa malandragem, daí ser capaz de escrever sobre Azêdo sem que ele saiba. Não se trata, portanto, de culto à personalidade, mas de homenagem mesmo. Nossa convivência começou em 1960, no Jornal do Brasil, continuou na Folha da Semana (minha impressão é que se trata do único jornal fechado por decreto governamental, durante a ditadura militar), nas viagens de bonde e lotação para o subúrbio, nas longas conversas junto à estação do Méier, nas assembléias dos jornalistas, até que fomos eleitos ao mesmo tempo para a Câmara de Vereadores e, em seguida, também eleitos para o Tribunal de Contas do Município do Rio de Janeiro. Todo esse tempo foi suficiente para conhecê-lo bem e saber que trata de um ser humano muito especial (lembro-me até de ter escrito ser ele, ao lado de Martinho de Vila, um exemplo de bom caráter). Sou conhecedor do seu lado generoso, do temperamento explosivo (sai debaixo!) e da surpreendente capacidade de perdoar (perdoar no sentido de esquecer),

da firmeza com que defende seus pontos de vista, da capacidade de indignação, da coerência, da fidelidade às causas do povo, do amor ao Brasil e, em particular, ao Rio de Janeiro, da impressionante capacidade de trabalho (é um pé-de-boi de chamar a atenção) do seu belo texto e das suas maravilhosas qualidades de orador. Quando éramos vereadores, cheguei a dizer que ele e Carlos Lacerda foram os melhores oradores que conheci. E continuo dizendo. Logo Lacerda, o único alvo atingido por nós no dia 1º de abril de 1964, quando fracassaram nossas tentativas de reação armada ao golpe militar contra o Presidente João Goulart, por falta de armas e, principalmente, por falta de aptidão para usá-las. É que, fracassadas as tentativas de resistência, só nos restou – ao Maurício, a mim e a dois jornalistas que nos acompanhavam – apedrejar a vitrine envidraçada do Comitê Popular Carlos Lacerda, ou seja, um comitê eleitoral da candidatura do então Governador da Guanabara à Presidência da República. Nosso vandalismo tinha como única explicação a de que estávamos sendo vítimas de um golpe de Estado nitidamente lacerdista. Depois, as coisas ficaram diferentes e Lacerda foi preso e cassado, mas, naquele dia, era ele o líder e a inspiração da agressão à democracia. Lembro agora desse episódio e me ocorre que ele foi narrado por mim ao próprio Carlos Lacerda, mais ou menos dez anos depois, numa mesa de bar. Sorridente, nos chamou de “ridículos”. Instalado o regime ditatorial, resistimos com as armas que o jornalismo nos oferecia. Maurício Azêdo fazia o que era

JORNAL DA ABI 394 • ESPECIAL MAURÍCIO AZÊDO • OUTUBRO DE 2013

pelo chefe, tinha de ouvir a sentença: “O que posso esperar de um camarada que não gostou de Os Companheiros?” Divergências artísticas à parte, o ambiente na Folha da Semana era de extrema camaradagem. Lá estavam, entre muitos outros, Alex Vianny, Leandro Konder, Ferreira Gullar, Luiz Mário Gazzaneo, Oto Maria Carpeaux (seus brilhantes artigos eram escritos a mão), Antonieta Santos, Paulo Francis, Oduvaldo Viana Filho, Arthur José Poerner, que substituiu Alfredo Tranjan como diretor-responsável. Depois, o lugar foi ocupado pelo jovem repórter Anderson Campos. Foi uma aventura que acabou com a decisão do governo comandado por Artur da Costa e Silva de fechar o jornal. A medida chegou ao meu conhecimento de uma maneira um tanto ou quanto assustadora: pretendendo ir à Redação, saltei do elevador do prédio da Avenida Presidente Vargas e vi um grupo de fuzileiros navais com metralhadoras na mão na porta da sala da Folha da Semana. Como eles me viram, em vez de tentar a fuga, caminhei em direção à sala torcendo para não ser identificado. Passei pelos fuzileiros e entrei na sala seguinte: – O Adílson está? – perguntei. – Aqui não tem nenhum Adílson – responderam. – Obrigado – e voltei sem ser incomodado pelos militares. Perdemos o jornal, mas Maurício não deixou de atuar politicamente contra o regime. Por causa disso, foi preso e torturadíssimo. Foi um episódio que me ensinou a conhecer melhor uma das pessoas que mais amei na vida, o velho Prudente de Moraes, neto. Tinha-o como um pai, sentimento que atribuía ao fato de ter, aos três anos de idade, perdido o meu pai e procurava alguém para substituí-lo (o outro “pai” inventado por mim foi Jacob do Bandolim). No caso de Prudente, porém, era ele que tinha uma vocação paterna muito forte, tanto que, na prisão de Azêdo, foi além da sua condição de grande Presidente da ABI. Empenhou-se corajosamente pela liberdade dele, como um pai extremado, enfrentando todas as dificuldades criadas pela ditadura. Quem acompanhou tudo aquilo entenderá perfeitamente aquela cena emocionante da visita de Maurício ao velho Prudente, já muito enfermo e a caminho da morte: os dois abraçados, aos prantos. Hoje, a ABI está bombando. Esta é a homenagem de Maurício Azêdo a Prudente de Moraes, neto e a todos os grandes Presidentes da instituição. SÉRGIO CABRAL é escritor e jornalista. Texto originalmente escrito em 2008, em função do centenário da ABI, e publicado no Jornal da ABI 336.

Jornal da ABI 394 - Encarte Maurício Azêdo  

O FIM DE UMA ERA Este encarte de 16 páginas faz uma homenagem a um dos mais representativos jornalistas do País: Maurício Azêdo, o President...

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