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GRILO: A REVISTA QUE A CENSURA ASSASSINOU

DARCY RIBEIRO: A VOZ QUE A DITADURA NÃO CALOU

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385 D EZEMBRO 2012

ÓRGÃO OFICIAL DA A SSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA

MUNIR AHMED

Nenhum brasileiro foi tão criativo nem tão generoso na vida política e pessoal como ele. Esse é o grande Oscar Niemeyer que perdemos. PÁGINA 3 E EDITORIAL FADADO À ETERNIDADE NA PÁGINA 2

VIDAS GUTEMBERG MONTEIRO • JOELMIR BETING • DÉCIO PIGNATARI • CARLOS KLEIN • BORIS STRUGATSKY


EDITORIAL

DESTAQUES ARQUIVO PÚBLICO DO DF

03 E SPECIAL - O Brasil perdeu seu grande humanista ○

FADADO À ETERNIDADE

EXAGEROS À PARTE, DARCY não errou ao prever que Niemeyer alcançaria, como alcançará, uma projeção na História como a que, entre nós, recobre a obra de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, o artista que deu dimensão permanente ao barroco brasileiro. Se não é meio-irmão de Michelangelo, Niemeyer é irmão inteiro do criador do celebrado conjunto de profetas de Minas Gerais. COMO OS ARTISTAS CITADOS, Niemeyer ganhou singularidade pela sua excepcional capacidade criadora, expressa em exemplos em que arquitetura e arte se impõem à admiração pelo rasgo de genialidade presente em seus traços. A sedução pelas curvas, em que via uma reprodução das montanhas do País e das mulheres que ele tanto admirava, fez dele um criador sem igual, como demonstram obras como as colunas do Pa2

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lácio da Alvorada, as mãos voltadas para o firmamento da Catedral de Brasília e tantas outras que ele espalhou pelo Brasil e pelo mundo. Não sem razão, um distante observador estrangeiro, o Financial Times de Londres, apontou-o como um dos responsáveis pela construção da imagem do Brasil. ESSE CARIOCA DE LARANJEIRAS e cidadão do mundo afirmou sua individualidade rara também no campo da consciência política, em que demonstrou invejável coerência, com sua adesão desde 1940 ao Partido Comunista Brasileiro e sua inabalável fidelidade a esse ideário, que o levou a gestos de generosidade em favor de queridos companheiros, como Luiz Carlos Prestes, a quem ele doou um apartamento depois que o líder do PCB retornou de prolongado exílio, e como Joaquim Cardozo, o excepcional calculista de algumas de suas mais arrojadas obras, a quem ele prestou solidariedade desde que este, sacrificado por um acidente da vida profissional, se isolou, esquecido por muitos, numa solitária existência no Recife.

16 E SPECIAL - Um dos maiores brasileiros de todos os tempos ○

17 MEMÓRIA - Tortura, por Rodolfo Konder ○

18 PREMIAÇÃO - Duas mulheres conquistam as principais láureas do Jabuti 2012 ○

19 L EGALIDADE - A ABI contrária à redução dos poderes do MP ○

20 G ASTANÇA - Copa 2014 e Jogos 2016, uma farra com dinheiros públicos ○

22 P OLÊMICA - Os equívocos em torno das medalhas olímpicas ○

23 A RTE - Renoir: Mulheres da Primavera ○

24 É TICA - No metrô de Nova York, uma imagem que suscita mil palavras ○

32 H OMENAGEM - Paixão para mudar o mundo ○

34 D EPOIMENTO - As duas guerras de Audálio Dantas ○

40 IMPRENSA - Grilo, a revista que a ditadura assassinou ○

SEÇÕES 0 L IBERDADE DE I MPRENSA 28 As idéias da Repórteres Sem Fronteiras ○

D IREITOS H UMANOS 31 Depois de quase meio século, a Câmara devolve o mandato aos cassados pela ditadura militar ○

VIDAS 46 O cérebro traiu Gutemberg ○

É ESTE OSCAR NIEMEYER cujo desaparecimento o Brasil deplora, por perder um artista inigualado, um cidadão atento aos problemas sociais e dramas humanos de seu tempo e um ser capaz da mais larga fraternidade.

14 E SPECIAL - Oscar, o arquiteto do Brasil

SUPERLATIVO E GENEROSO em muitas de suas observações sobre a vida, as pessoas e as instituições, Darcy Ribeiro não cometeu excesso quando disse que foi Oscar Niemeyer o único homem em que pôs os olhos que seria “recordado para lá do ano 3000”. “Os homens do futuro o verão – acrescentou – como contemporâneo e meio-irmão de Michelangelo.”

12 E SPECIAL - As catedrais do comunista ○

MAURÍCIO AZÊDO

06 E SPECIAL - Minhas relembranças do meu amigo Oscar

48 Joelmir, o jornalista econômico. De verdade ○

50 Pignatari, na vanguarda desde sempre ○

51 Carlos Klein, o talento precoce ○

51 Boris Strugatsky, o último grande nome da ficção científica soviética ○


ESPECIAL

BERNARDO GUTIÉRREZ/FOLHAPRESS

O BRASIL PERDEU SEU GRANDE HUMANISTA Exaltado no País e no exterior por sua notável criatividade, Oscar Niemeyer recebeu honras de Chefe de Estado e o carinho do povo em Brasília e no Rio de Janeiro. Ele participou da construção da imagem do Brasil, disse The Financial Times, de Londres. P OR C LÁUDIA S OUZA E I GOR W ALTZ

A ABI manifestou no dia 6 de dezembro sua profunda tristeza pelo falecimento de Oscar Niemeyer, cujo desaparecimento, disse a entidade em declaração que então divulgou, “priva o Brasil e a Humanidade de um humanista que marcou sua passagem pelos séculos 20 e 21 com criatividade inigualada, fecunda produção artística e literária e notável coerência na adesão a idéias de progresso social”. Niemeyer, que faria 105 anos no dia 15 seguinte, era sócio da ABI desde 30 de julho de 1953, quando ingressou na Casa pela mão do então Presidente Herbert Moses. Oscar era então diretor da revista Módulo, especializada em arquitetura e temas culturais. Ele manteve sua vinculação com o jornalismo até seus últimos meses de vida através da revista Nosso Caminho, por ele criada e também voltada para a arquitetura e questões culturais. JORNAL DA ABI 385 • DEZEMBRO DE 2012

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FABIO RODRIGUES POZZEBOM/ABR

ESPECIAL OSCAR NIEMEYER

Niemeyer morreu às 21h5 min do dia 5, em decorrência de uma infecção respiratória, no Hospital Samaritano, em Botafogo, Zona Sul do Rio, onde estava internado desde o dia 2 de novembro. Seu corpo foi embalsamado e deixou a Santa Casa de Misericórdia de Inhaúma, no subúrbio do Rio, no início da tarde do dia 6. Após a celebração de uma missa para familiares e amigos no Hospital Samaritano, foi levado em cortejo ao Aeroporto Santos Dumont, para embarque em avião presidencial rumo a Brasília. O velório foi realizado das 16h às 20h, no Palácio do Planalto, projetado por ele. O local foi oferecido à família pela Presidente Dilma Rousseff, que decretou luto oficial por oito dias e determinou que Niemeyer recebesse honras de Chefe de Estado enquanto seu corpo permanecesse em Brasília, onde milhares de pessoas desfilaram diante de sua esquife, grande parte delas tomada de forte emoção. Após o velório, o corpo de Niemeyer retornou ao Rio de Janeiro e ficou exposto no Palácio da Cidade. O Prefeito Eduardo Paes decretou luto oficial de três dias na Cidade do Rio de Janeiro.

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DESTAQUE NO MUNDO A morte de um dos arquitetos mais renomados do mundo repercutiu na mídia nacional e internacional. O jornal Der Spiegel, da Alemanha, noticiou: “A morte de Oscar Niemeyer: o senhor das curvas”; a BBC, de Londres: “O arquiteto brasileiro que desenhou alguns dos prédios modernistas mais famosos do século XX morreu antes de completar 105 anos”; The New York Times: “Morre Niemeyer, que deu a Brasília seu toque, ao misturar modernismo com uma nova sensualidade e captar a imaginação do mundo”; Le Figaro: “Oscar Niemeyer, uma lenda desaparece”; Financial Times: “Morre Oscar Niemeyer, o arquiteto que participou da construção da imagem do Brasil”; Corriere della Sera: “Morre Niemeyer, o arquiteto do século XX”; Le Monde: “Niemeyer, arquiteto da sensualidade”; El País: “Morre Niemeyer, o poeta da curva”; Clarín: “Niemeyer foi um dos mais emblemáticos nomes da arquitetura moderna do século 20 e um homem fiel às suas convicções”; Washington Post: “Uma das mentes criativas mais distintas de sua profissão”. Nas redes sociais, o nome Niemeyer foi um dos mais citados no dia 6 de dezembro. No Twitter, a morte de Oscar Niemeyer ficou entre os dez assuntos mais citados do mundo. PRIVILÉGIO Ziraldo lembrou a militância de Niemeyer em defesa dos ideais comunistas. “Para minha geração, para meus amigos, para o pessoal que combateu as coisas que a gente combateu, foi um privilégio ter a presença de Niemeyer nas nossas vidas”, disse. Zuenir Ventura destacou a longevidade do mestre, que se manteve ativo até os últimos anos de vida. “Fiquei com a esperança de que alguém ia desmentir a morte dele.” O ex-Presidente de Cuba Fidel Castro e seu sucessor, Raúl Castro, fizeram-se presentes no velório de Oscar Niemeyer no Palácio da Cidade, onde as coroas enviadas por ambos ganharam destaque ao lado das mandadas pelo Embaixador

A Presidente Dilma compareceu ao velório de Niemeyer, depois de decretar luto oficial por oito dias.

de Cuba no Brasil, Carlos Zamora, pelo Governador Sérgio Cabral, pelo Prefeito Eduardo Paes e pelo Prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda. Também mandaram coroas a Academia Brasileira de Letras, o Instituto de Arquitetos do BrasilIAB, o Conselho Nacional de Arquitetura e Urbanismo, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia-Crea, a Cobra Tecnologia e a Liga Independente das Escolas de Samba-Liesa, entre outras instituições. O caixão de Niemeyer, recoberto com a Bandeira Nacional, ficou exposto no segundo andar do Palácio, onde uma sala foi reservada para a família dele e sua viúva, Vera Lúcia Cabreira Niemeyer, que recebeu ali as manifestações de pesar de amigos e autoridades, entre as quais o Presidente da IAB, arquiteto Sérgio Magalhães; o acadêmico Cícero Sandroni; o advogado Modesto da Silveira, membro da Comissão de Ética da Presidência da República e Conselheiro da ABI; a Deputada Jandira Feghali (PCdoB) e membros desse partido. Um dos dirigentes do PCdoB, Carlos Henrique Miranda, revelou que o PCdoB decidiu dar o nome de Oscar Niemeyer ao edifício sede do partido, em São Paulo. Durante o velório, cerca de 200 pessoas assinaram o livro de condolências, entre as quais os jornalistas Ziraldo, Zuenir Ventura, Aureclydes Ponce de Leon, que veio de Belo Horizonte especialmente para homenagear seu amigo e participou também da vigília no Palácio do Planalto,

em Brasília, Regina Zappa e Maurício Azêdo, Presidente da ABI, entre outros. O jornalista Roberto D’Ávila também destacou a longevidade de Niemeyer. “Os grandes gênios viveram muito tempo, como Picasso e Miró, mas ninguém chegou aos 104 anos trabalhando. Ele deixou uma grande escola, mas a arquitetura dele não é repetível. Era um homem extraordinário. Ele se preocupava com a questão humana de tudo, tinha uma bondade incrível.” O poeta Ferreira Gullar lamentou a perda irreparável para o País e para a arquitetura mundial. “Ele tinha uma arquitetura poética. Introduziu não só a forma curva, mas também a leveza. Os prédios parecem flutuar. Para nós, amigos, é uma dor irreparável”, afirmou. Luís Carlos Prestes Filho, que esteve presente junto com a mãe, Maria Prestes, lembrou a amizade do arquiteto com seu pai. “Ambos foram os grandes comunistas do Brasil. A população perde não apenas um grande artista, mas também um grande homem. Sempre foi muito solidário com os ideais do meu pai”, lembrou. Na opinião da socióloga Maysa Machado, fundadora do Movimento de Mulheres do PDT e do Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, a longevidade de Niemeyer era reflexo não apenas de sua genética, mas de seu amor pela vida e pelos valores que defendia. “Para mim, ele era a síntese do orgulho de ser brasileiro. Com ele, vai-se um pouco da pujanCHARLOTTE BALAVOINE

LÚCIDO, ATÉ O FIM Após o anúncio da morte de Niemeyer, o médico Fernando Gjorup disse que o arquiteto estava otimista e que só perdeu a consciência pela manhã, após ser sedado. “Antes dessa internação, ele chegou a conversar com a equipe sobre seus novos projetos de trabalho. Ele não gostava de falar sobre a saúde dele, mas sabia que já tinha passado da metade da vida. Ele nunca falou sobre morte, só falava em viver. A equipe médica tinha esperança, mas havia a fragilidade de um senhor de quase 105 anos”, disse Gjorup Informou a equipe médica que Niemeyer apresentou piora progressiva nos dois dias que precederam ao óbito. Ele estava sendo submetido a hemodiálise e seu estado imunológico já era deficiente. Cerca de dez familiares estavam na Unidade Coronariana do Hospital quando ele morreu. Em maio deste ano, Niemeyer fora internado, com quadro de desidratação e pneumonia, tendo recebido alta 16 dias depois. No dia 13 de outubro, ele deu entrada no Hospital Samaritano após sentirse mal. Apresentava um quadro de desidratação e permaneceu internado por duas semanas. Em 2 de novembro, seis dias depois de receber alta, retornou ao Samaritano e foi submetido a tratamento de hemodiálise e fisioterapia respiratória. Sócio da ABI por quase 60 anos, Niemeyer presidiu a Comissão de Honra do Centenário da ABI, composta por 170 personalidades de vários setores da vida nacional. Niemeyer era então mais velho que a ABI: chegara ao centenário em 15 de dezembro de 2007. Depois do velório em Brasília, que contou a com presença da Presidente Dilma Rousseff, o corpo de Oscar Niemeyer chegou na madrugada seguinte ao Rio de Janeiro, onde foi novamente velado no Palácio da Cidade, em Botafogo, em cerimônia aberta ao público. O evento contou com a participação de políticos, artistas e profissionais da imprensa. Entre os presentes estiveram o Governador do Rio, Sérgio Cabral; o Prefeito da

Cidade, Eduardo Paes; o Governador de Minas Gerais, Antônio Anastasia; o Prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda; o ex-Governador do Paraná e também arquiteto, Jaime Lerner, além do jornalista Merval Pereira, do cartunista Ziraldo e do escritor Zuenir Ventura.

Niemeyer criou o projeto da Sede do Partido Comunista Francês em 1965, quando esteve exilado. Acima, a revista Módulo, que criou e editou a partir de 1955.


“Eu posso dizer que perdi a pessoa de quem eu mais gostava no mundo, meu amigo. Perdi tudo. Estou muito fragilizada.” VERA LÚCIA CABREIRA NIEMEYER “A gente tem que sonhar, senão as coisas não acontecem, dizia Oscar Niemeyer. Poucos sonharam tão intensamente e fizeram tantas coisas acontecerem como ele. Niemeyer foi um revolucionário, o mentor de uma nova arquitetura, bonita, lógica e inventiva. Das injustiças do mundo ele sonhou, ele sonhou uma sociedade igualitária. O Brasil perdeu hoje um de seus gênios. É dia de chorar sua morte. É dia de saudar sua vida.” PRESIDENTE DILMA ROUSSEFF “Juntamo-nos a todo o Brasil no luto pela morte do arquiteto Oscar Niemeyer. Ele se vai, mas ficará entre nós presente nas linhas dos edifícios que plantou no Brasil e em todo o mundo.” LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA E MARISA LETÍCIA, em nota divulgada pelo Instituto Lula “Suas criações originais, unindo arquitetura e poesia, expressaram os limites elevados da genialidade brasileira e ajudaram a projetar o nome do Brasil no exterior.” JOAQUIM BARBOSA, PRESIDENTE DO STF “O Brasil perde um de seus mais ilustres brasileiros. Niemeyer deixa um exemplo, não de competência técnica, mas o de pensar o Brasil do futuro ao desenhar Brasília. Nos deixa um legado de luta pela vida e pelos ideais. Sempre foi um comunista e nunca negou a sua opção política, inclusive nos momentos que o Brasil viveu em uma ditadura. Exemplos como este são um paradigma para a sociedade.” OPHIR CAVALCANTI, PRESIDENTE DA OAB “O Brasil perdeu o maior gênio que o País produziu em 512 anos. O destino nos beneficiou nos tornando contemporâneos de Oscar Niemeyer. Niterói é uma cidade que deve muito a ele, que a adotou e fez dela a sede de seu legado.” JORGE ROBERTO SILVEIRA, PREFEITO DE NITERÓI “Um homem de convicções claras que serviu ao País com os dons que tinha. Colocou seu gênio criativo a serviço do belo. Um exemplo de respeito pelo pluralismo. Rezarei para que encontre a fonte da beleza que o ilumine.” DOM ORANI TEMPESTA, ARCEBISPO DO RIO “Oscar Niemeyer teve uma vida bonita. Foi um dos maiores artistas do seu tempo e um homem maior que a sua arte.” CHICO BUARQUE “A obra de Niemeyer é simples e pura, como pede o Brasil. Quem é arquiteto e viaja pelo mundo encontra admiradores de Niemeyer em qualquer lugar.” GUSTAVO PENNA, ARQUITETO

As obras, aqui e mundo afora Obra do Berço Ministério da Educação e Saúde Conjunto Arquitetônico da Pampulha Sede da Nações Unidas - Onu Parque do Ibirapuera Edifício Copan Casa das Canoas Palácio da Alvorada Palácio do Planalto Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida Casa do Cantador Congresso Nacional Sede do Partido Comunista Francês Centro de Cultura Le Havre Editora Mondadori Memorial à Cabanagem Terminal Rodoviário de Londrina Memorial da América Latina Museu de Arte Contemporânea de Niterói Museu Oscar Niemeyer Anexo da Serpentine Gallery Auditório Ibirapuera Museu Nacional Honestino Guimarães Caminho Niemeyer Estação Cabo Branco Parque da Cidade Dom Nivaldo Monte Museu Pelé Cieps Sambódromo do Rio de Janeiro Memorial JK Edifício Manchete

ANTÔNIO GAUDÉRIO/FOLHAPRESS

“Poucos sonharam tão intensamente”, disse a Presidente

ça que a minha geração herdou de lutar pelas causas que acreditamos”, comentou. A professora Marilda Campos, também uma das fundadoras do PDT no Rio, lembra um episódio ocorrido enquanto ainda era diretora do Ciep Avenida dos Desfiles, no Sambódromo, uma das obras projetadas por Niemeyer. “Nós queríamos fazer pequenas mudanças, como a criação de jardins, hortas, além de pintar linhas na avenida para que as crianças pudessem usar como quadra esportiva. A resposta das autoridades era sempre negativa, pois afirmavam que Niemeyer jamais autorizaria mudanças em seu trabalho. Entrei em contato com o arquiteto, pedindo que ele me recebesse, e para minha surpresa, ele agendou nosso encontro já para o dia seguinte. Ele não só autorizou nossos projetos, como ainda proferiu uma frase que eu jamais esquecerei: Se a arquitetura não serve ao homem, então ela não serve a nada.” Mas não foram apenas pessoas que conheceram pessoalmente o arquiteto que estiveram presentes para prestar uma última homenagem. A artista plástica e professora de História da Arte Ana Cristina Nadruz se declarou uma grande fã de Niemeyer. “Ele foi um dos maiores gênios da Humanidade. Um carioca, um brasileiro de convicções. Ele irá continuar presente na memória de todos por meio de seu legado”. Na opinião do administrador Jorge Luiz Reis Kudsi, a grande marca deixada por Niemeyer é seu compromisso com a beleza, seja de suas obras ou de seus ideais. “Ele lutou por mais igualdade, foi um visionário. É uma perda irreparável, mas acredito que ele cumpriu com sua missão”, acrescenta.

A trajetória, do juvenil do Flu ao Sambódromo Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares Filho nasceu no bairro das Laranjeiras, na Zona Sul do Rio de Janeiro, no dia 15 de dezembro de 1907. Torcedor do Fluminense, Niemeyer chegou a jogar no time juvenil do clube de Laranjeiras. Aos 21 anos casou-se com Annita Baldo. Em 1929, entrou para a Escola Nacional de Belas-Artes do Rio de Janeiro, onde cinco anos depois formou-se engenheiro arquiteto. Em 1932, nasceu Anna Maria, sua única filha, que morreu em junho de 2012. O casamento com Annita Baldo, a primeira mulher, durou 76 anos. Eles tiveram cinco netos, 13 bisnetos e quatro trinetos. Annita morreu em 4 de outubro de 2004. Niemeyer casou-se novamente em 2006, com sua secretária, Vera Lúcia Cabreira. O início da carreira foi no escritório de Lúcio Costa e Carlos Leão. Niemeyer foi designado por Lúcio Costa para auxiliar Le Corbusier, famoso arquiteto suíço, de passagem pelo Brasil, em 1936, para colaborar com o projeto do prédio do Ministério da Educação no Rio. Em 1940, Niemeyer conheceu Juscelino Kubitschek, então Prefeito de Belo Horizonte, e realizou seu primeiro grande projeto, o Conjunto da Pampulha, no bairro da capital mineira, que incluía o Cassino, a Casa do Baile, o Clube e a Igreja de São Francisco de Assis. Em São Paulo, Niemeyer projetou o Parque Ibirapuera e o Edifício Copan. Em 1956, com JK na Presidência do Brasil, participou do Plano Piloto de Brasília, e

foi responsável pela construção dos principais prédios da nova capital federal. Projetou os Palácios do Itamaraty, Alvorada, o Congresso Nacional, a Catedral, a Praça dos Três Poderes, entre outros prédios e monumentos. Comunista histórico, Niemeyer era filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde 1945. Em 1964, teve seu escritório no Rio invadido por agentes da ditadura. Perseguido, Niemeyer decidiu morar fora do Brasil. Elaborou o projeto da Universidade Constantine, na Argélia, na África, e desenvolveu a sede da Onu em Nova York, nos Estados Unidos. Também projetou a sede da editora Mondadori, em Milão, na Itália, e do Partido Comunista Francês, em Paris. Nos anos 1970, abriu seu escritório na Champs Elysées, em Paris. Retornou ao Brasil no início dos anos 1980, e consolidou os projetos do amigo Darcy Ribeiro, antropólogo e então ViceGovernador do Rio, ao lado do Governador Leonel Brizola. Os Cieps (Centro Integrado de Educação Pública) e o Sambódromo do Rio são obras deste período. A cidade de Niterói é a segunda do Brasil com o maior número de trabalhos do arquiteto, depois de Brasília. O Museu de Arte Contemporânea-Mac, e o Caminho Niemeyer integram o conjunto de edificações assinadas pelo mestre. Em 2007, Niemeyer completou 100 anos de vida. Sua trajetória foi aplaudida com inúmeros prêmios, como o Pritzker, recebido em 1988, e a Ordem Nacional do Mérito.

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ESPECIAL OSCAR NIEMEYER

Minhas relembranças do meu amigo Oscar Durante mais de 42 anos o jornalista mineiro Aureclydes Ponce de Leon foi amigo de Oscar Niemeyer, com o qual manteve afetuoso relacionamento e de quem mereceu grande confiança. Ainda sob o impacto da perda do amigo, ele faz aqui a evocação de momentos da longa convivência entre ambos e revela aspectos pouco conhecidos da intimidade do arquiteto. O texto foi produzido especialmente para esta edição em homenagem a Niemeyer. FOTOS E IMAGENS: ACERVO PESSOAL PONCE DE LEON

P OR P ONCE DE L EON

Oscar. Simplesmente Oscar. Para o mundo, Niemeyer. Oscar dos cem anos. Oscar dos mil anos. Oscar dos milênios. Oscar Eterno. É assim que prefiro começar a contar casos e histórias de uma amizade de 42 anos. É verdade: fomos amigos por 42 anos. Quando Maurício Azêdo me pediu que escrevesse sobre Oscar Niemeyer para uma edição especial do Jornal da ABI em homenagem aos seus 103 anos, pensei comigo: quantos amigos comuns já não escreveram; quantos colegas seus pelo mundo; quantos jornalistas do rádio, da televisão e da mídia impressa não editaram livros e publicaram matérias admiráveis e completas sobre Oscar? Lembro-me de uma edição especial da L’Architecture d’Aujourd’hui de janeiro de 1974, editada por Yvette Pontoizeau, toda ela dedicada, em suas 114 páginas, ao Oscar Niemeyer, mostrando todos os seus projetos no Brasil e aqueles espalhados pelo mundo até então. E de mais de uma centena de livros e outras publicações, de filmes, vídeos, entrevistas e exposições. Livros editados em todos os continentes, em inúmeros idiomas. Fotos dos maiores fotógrafos do mundo. Afinal, existem obras de Oscar, num total de quase 200, em 17 países. Livros de autores estrangeiros a começar por Stamo Papadaki a Jean Petit com Niemeyer, Poète D’Architecture. Fotos que correram o mundo de profissionais como Marcel Gautherot, Claus Meyer, Jean Manzon, René Burri, Peter Scheier, David Zingg, Thomaz Farkas, Luiz Carlos Barreto, Mário Fontenelle, Gabriel Godin, Ernesto Silva, Walter Firmo, Milan. E agora, ainda recentemente, a mais importante Bienal Internacional de Arquitetura, a 12ª de Veneza, na Itália, homenageando Niemeyer com 50 anos depois de Brasília. Aos 104 anos, criando como sempre fez, Oscar não escondia a alegria por receber tantas homenagens. O acróstico de Santiago Calatrava – um dos mais importantes arquitetos espanhóis – comemorando os 100 anos de Niemeyer, define a emoção de todos os estudantes de Arquitetura do mundo que um dia sonharam em repetir o mestre. Geraldo Carneiro traduziu o acróstico de Santiago Calatrava: “Assim que o descobri quando eu era apenas um estudante / Observando a beleza de suas formas / Saboreando a pureza plástica de suas obras / Como um apren6

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Ponce de Leon abraça Niemeyer no aniversário de José Aparecido de Oliveira.

diz inconsciente / Antes de entrar no círculo de seus seguidores / Regressa hoje a lembrança dessa arquitetura leve pura”. Do que se escreveu sobre Oscar e sua obra não se pode esquecer o livro de Max Bense, um professor alemão de Ulm, que esteve no Brasil quatro vezes – a primeira em 1960 – e que publicou na Alemanha, em 1965, a obra Inteligência Brasileira. Na emoção da descoberta de Brasília e da obra de Oscar e Lúcio Costa, ele definia como uma ousadia imensa o nascer de uma capital em pleno cerrado de solo arenoso e inóspito.

E dava conta de que Oscar e Lúcio eram para ele como Copérnico e Galileu eram para Descartes: “Há uma incontestável proclamação brasileira de inteligência cartesiana quando se vê o plano e a concretização da nova capital, Brasília, como uma momentânea e extrema intensificação do poder criador universal”. Continuo me perguntando onde descobrir fatos e histórias que ainda não foram contadas, senão aquelas vivenciadas por mim com meu amigo Oscar. Às vezes penso em dois brasileiros que há décadas respaldam a imagem do Brasil no

exterior. Definitivamente, os mais conhecidos. Pelé e Niemeyer. Quando repórter da Bloch Editores vivi uma história bastante curiosa. Numa reunião de pauta da revista Fatos & Fotos, sugeri uma matéria com os brasileiros mais conhecidos no mundo. Fiz a relação das personalidades que seriam convidadas e a matéria foi aprovada. Alberto Dines, então diretor da revista, mandou que eu me virasse e reunisse todos para a foto de abertura em página dupla: Pelé, Oscar Niemeyer, Jorge Amado, Di Cavalcânti, Guiomar Novais, Carlos Chagas, Éder Jofre, Ary Barroso, Ivo Pitanguy, Eleazar de Carvalho, Juscelino Kubitschek, Maria Ester Bueno, Marcolino Candau – Presidente da Organização Mundial de Saúde. Não participariam da foto Ari Barroso que estava hospitalizado na Clínica São José, no Humaitá (fiz com Ary sua última entrevista), Eleazar de Carvalho e Ivo Pitanguy, que estavam em Paris, e Maria Ester Bueno, que estava em Londres. Para minha surpresa e desespero todos os outros convidados confirmaram, menos Pelé, que condicionou sua presença ao dia em que o Santos fosse jogar no Rio de Janeiro. Então estava combinado: no dia do jogo todos se reuniriam para uma foto histórica. Onde? No estúdio da Bloch na Rua Frei Caneca? No Aterro do Flamengo, com o Pão de Açúcar ao fundo? Consegui que a foto fosse feita no Palácio das Laranjeiras, onde residiam o Presidente Jango, Dona Maria Thereza e seus filhos João Vicente e Denise. No dia do jogo do Santos contra o Botafogo, no Maracanã, Lula – este, técnico do Santos – liberou Pelé depois do almoço até às 16 horas. Estavam hospedados no Hotel Novo Mundo, na Praia do Flamengo, bem próximo ao Palácio das Laranjeiras, local onde faríamos as fotos. Os carros da Bloch foram apanhar todos os convidados para a reportagem e eu me encarreguei de buscar Pelé. Juscelino, que morava na Avenida Vieira Souto, abriu mão do transporte, pois passaria no escritório de Oscar, no Posto 6 na Av. Atlântica, para apanhá-lo. Reunidos nos jardins do Laranjeiras ficamos todos aguardando a chegada dos dois. O tempo passava, e Pelé tinha que retornar ao hotel. Como Oscar e Juscelino não apareceram, as fotos foram feitas por Nicolau Drei e Gil Pinheiro. Só descobri o motivo da ausência de Niemeyer e JK quando cheguei à Redação e Arnaldo Niskier, então nosso Chefe de Reportagem, me disse: “Ponce, o Adolpho mandou demiti-lo”. Não entendi nada até Arnaldo me explicar que JK e Niemeyer haviam estado no Palácio das Laranjeiras, mas não foram autorizados a entrar. Quem proibiu a entrada eu nunca soube. JK e Oscar voltaram e não participaram da foto. Demitido, apelei para o meu amigo Oscar, que comentou o caso com JK. Juscelino já me conhecia desde os tempos em que eu era Chefe de Reportagem do jornal Binômio, de Belo Horizonte, quando às vezes eu o acompanhava em várias viagens pelo interior de Minas. Juscelino ligou para o Adolpho e no dia seguinte eu estava de volta à Redação. A matéria foi publicada e no dia da circulação da Fatos & Fotos, recebi de lei-


O repórter Ponce de Leon rouba uma obra de Portinari da igreja da Pampulha, para denunciar o total abandono do local. Depois de publicada a matéria no jornal Última Hora, o quadro foi devolvido ao então Governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto.

tores elogios pela reportagem e uma observação : “Boa matéria, mas foi uma pena você ter esquecido do Niemeyer. Ele é páreo duro para o Pelé lá na Europa”. O que mais eu podia dizer, a não ser “é mesmo uma pena”: “Meu amigo Oscar ficou de fora”. Um sonho: conhecer Niemeyer

Minha aproximação com Oscar deuse no início dos anos 1960, quando cheguei ao Rio para trabalhar nas revistas Manchete e Fatos & Fotos, da Bloch Editores. Antes tinha ido morar em Belo Horizonte, em 1956, para fazer a Escola de Arquitetura (sou um arquiteto frustrado). Foi Ney Bianchi, repórter da Bloch, quem me apresentou ao Jaquito, quando me mudei de vez para o Rio, em 1961. Cheguei à Manchete com uma idéia fixa: conhecer e entrevistar Oscar Niemeyer, por quem nutria imensa admiração e o principal motivo da minha paixão pela arquitetura. Sabia tudo sobre ele. Ao longo dos anos, tinha organizado um arquivo quase completo sobre tudo o que se referia a Oscar Niemeyer. Conhecia em detalhes todo o conjunto da Pampulha e cheguei a viajar ao Rio, em 1959, para visitar o prédio do MEC (Palácio Gustavo Capanema) e conhecer a Obra do Berço, na Lagoa. Foram muitas as matérias que fiz sobre Oscar para a Manchete, O Cruzeiro, Fatos & Fotos, Visão, Jornal do Brasil. Minha aproximação com ele rendeu também muitos casos e histórias não publicadas. Começo por Belo Horizonte onde, como repórter do jornal Última Hora, e depois de várias matérias denunciando o abandono total da Igreja de São Francisco, obra de Niemeyer na Pampulha, resolvi “roubar ” um quadro da Via Sacra, de Portinari, maneira bastante radical que encontrei para mostrar ao então Prefeito Amintas de Barros o risco que todas as obras ali expostas corriam com o desleixo da Prefeitura e o abandono da Igrejinha de Oscar. Todos os quadros poderiam ser levados de uma só vez. Nos fundos, a porta da sacristia era uma lona rasgada. Na frente, o imenso vidro da porta de entrada estava completamente quebrado e foi por onde saí com o quadro de Portinari para colocá-lo no jipe da Última Hora.

Na reportagem enfatizei a enorme falta de respeito pela obra de Niemeyer na Pampulha. Principalmente com a Igreja, que desde sua construção tivera uma história bastante turbulenta. O projeto do conjunto da Pampulha é de 1940, ano em que igreja começou a ser construída, até 1943, quando seria inaugurada e feita a sagração do templo. Na época, no entanto, o projeto de Niemeyer e os quadros de Portinari tornaram-se bastante polêmicos, com repercussão além das fronteiras do Brasil. A revista Life, então um dos mais importantes veículos de comunicação do mundo, veio a Belo Horizonte conhecer a obra e entrevistou Dom Antônio dos Santos Cabral, Arcebispo da cidade, que se recusava inaugurá-la e abençoála: “Aquilo não é uma igreja. Aquilo é um deboche”, disse Dom Cabral à Life. Assim, durante dezessete anos a igreja permaneceu fechada sem que nela pudessem ser realizadas missas, casamentos ou batizados. Somente quando Dom Cabral afastou-se por motivo de saúde e Dom João Rezende Costa o substituiu, foi que Juscelino, em 1959, quando já era presidente, conseguiu que Dom João fizesse a sagração e celebrasse a primeira missa na igreja. Cerca de 50 mil pessoas estiveram presentes ao ato litúrgico. Em 1961, dois anos depois de aberta ao público, quando “roubei” o quadro de Portinari para denunciar o abandono, a igreja de Oscar Niemeyer estava em estado lastimável. Cheguei à Redação da Última Hora com o quadro embrulhado por jornal. Foi um alvoroço. Hélio Adami de Carvalho, diretor da edição mineira, quase me demitiu. Roberto Drummond e Dauro Mendes ficaram mudos. A notícia do “roubo” chegou a Samuel Wainer, no Rio, e ele ordenou que eu mantivesse o quadro escondido por alguns dias. Só assim baixou a poeira na Redação. “Não devolvam o quadro ainda” disse Samuel. O assunto do “roubo” de um Portinari rendeu em toda a imprensa e teve grande repercussão. Três dias depois, Samuel mandou que entregássemos a obra ao Prefeito Amintas de Barros. O Prefeito recusou-se a recebê-la. Saímos da Prefeitura rumando diretamente para o Palácio da Liberdade onde o Governador Maga-

lhães Pinto nos recebeu em seu Gabinete e encaminhou o quadro de Portinari ao Bispo Dom Serafim. Valeu a aventura, porque um empresário mineiro do setor imobiliário, amigo de Niemeyer, na mesma semana em que a matéria foi publicada com grande destaque, inclusive na edição nacional do jornal Última Hora, mandou recuperar toda a igreja, no primeiro trabalho de restauração completa desde sua conclusão em 1943.

“aquele rapazinho saído agora da escola” e, acrescentava Rodrigo Melo Franco, “com cara de menino”, que Juscelino optou definitivamente. Juscelino era cinco anos mais velho que Niemeyer, mas sensível o bastante para dizer àquele menino que conhecera num quarto do Grande Hotel, na Rua da Bahia, em Belo Horizonte: “Você é comunista porque é poeta. Você é meu Michelangelo”, como está gravado em fita, num depoimento de JK, em 1976, ao jornalista Argemiro Ferreira.

A amizade entre JK e Oscar

Oscar conheceu Juscelino em Belo Horizonte, em 1940, apresentado por Rodrigo Melo Franco de Andrade, o criador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional-Iphan. Juscelino estava começando as obras da barragem da Pampulha e queria transformar aquela região num bairro nobre. Queria obras exclusivas. “Você quer experimentar um rapazinho que saiu agora da escola?”’, perguntou Rodrigo. Naquele mesmo dia Oscar encontrou-se com Juscelino, que lhe deu o prazo de um dia para que ele apresentasse a idéia do projeto do conjunto da Pampulha: o Cassino, o Iate Clube, a Casa do Baile e a Igreja. Aprovado o projeto, Oscar chamou Portinari, depois Burle Marx, para que projetasse os jardins. O da Pampulha foi o primeiro jardim projetado por Burle Marx. Juscelino encontrou-se com Oscar outras vezes para pedir-lhe novos projetos. Foi como Oscar Niemeyer Soares Filho que ele assinou um ofício datado de dezembro de 1942 solicitando à Prefeitura de Belo Horizonte a liberação de 200 mil cruzeiros para o projeto do Teatro Municipal da cidade. Oscar morava no Rio, na Rua Carvalho de Azevedo, número 96, como fazia constar no ofício. Os caminhos de Oscar e Juscelino nunca mais deixaram de se cruzar. Aliás, já vinham de bem antes algumas coincidências premonitórias. Juscelino, formado em Urologia e chegado de Paris, foi nomeado no dia 14 de junho de 1929 para o seu primeiro emprego na 3ª Enfermaria da Clínica Cirúrgica da Prefeitura. No mesmo ano, em outubro de 1929, Oscar entrou para a Escola de Belas-Artes. Só depois veio a Escola de Arquitetura. Foi por

O alargamento da praia de Copacabana

No Rio, meus contatos com Oscar estreitaram-se e passaram a ser constantes. De alguns de seus grandes projetos no Brasil publiquei matérias na Manchete, em O Cruzeiro, Visão, Fatos & Fotos, Última Hora e Jornal do Brasil. Do seu projeto para o alargamento da praia de Copacabana vivi uma frustração e uma grande alegria. Oscar nunca quis apresentá-lo. O Governador era Carlos Lacerda e tudo estava intrinsecamente ligado a um plano urbanístico do grupo grego Doxiadis para o Rio de Janeiro. Eu havia preparado uma matéria para a revista Manchete e Oscar fizera um desenho em guache – que depois devolvi a ele – para ilustrá-la. Pelo projeto de Oscar, os hotéis seriam construídos próximos ao mar, na areia, cercados de píers onde funcionariam bares e restaurantes. Era um projeto maravilhoso. Para meu melhor entendimento e para orientar a matéria Oscar pediu que o procurasse no escritório e me entregou o texto que havia preparado, onde ficava claro: “Agora, cientes desse estudo, vocês me pedem para publicá-lo e eu, informado de que nenhum projeto vai ser realizado (apenas a pista de rolamento será ampliada) permito-me atendê-los. Afinal, trata-se de um problema grave desta cidade e para ele todos devem contribuir. No caso de Copacabana, o importante a meu ver é definir preliminarmente o objetivo em vista. Se a idéia é melhorar a praia, dando-lhe aspecto mais humano e acolhedor; ou apenas tentar resolver com o alargamento da Avenida Atlântica o tráfego dessa zona. Na primeira hipótese,

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não me parece justificável esse alargamento. Nesses casos – urbanização em orla marítima – a solução clássica é evitar circulação intensa de veículos entre habitações e a praia.” “Em princípio, minha idéia é a seguinte: Aumentar a ampliação prevista para a praia, nela construindo três grandes conjuntos de hotéis, os hotéis de turismo que faltam em Copacabana, pelo menos na escala que ele solicita (des.1). Assim, em vez dos pequenos hotéis que se comprimem ao longo de toda a praia, sem os espaços livres e nem os locais de esportes e recreio indispensáveis, criaríamos três conjuntos diferentes, cada um compreendendo três torres de 30 andares, complementados no térreo por grandes marquises destinadas a bares, piscinas, locais de estar, etc. Com essa solução tornaríamos o empreendimento autofinanciável, e a ampliação da praia possível, sem as despesas enormes que obras mais urgentes reclamam. Seriam hotéis “sui generis”, que por eles mesmos promoveriam o turismo, integrando seus hóspedes no ambiente de Copacabana, nesse ambiente de praia que os turistas buscam nos climas tropicais. Imaginei uma avenida Atlântica diferente: uma pequena faixa para veículos destinada à “promenade” inevitável; uma faixa de estacionamento; uma larga avenida de pedestres (20 metros) – um “Champs Élysées” junto ao mar – onde os moradores passeassem tranqüilos, deparando de quando em quando com pequenos bares e casas de chá; e em plena areia como oásis de concreto, as torres dos hotéis, altas e leves, marcando com sua presença dominante a importância de Copacabana”. “Foi baseado nessa idéia de ampliar a praia de Copacabana que, anos atrás, estudei um projeto. Nunca o apresentei. Não sentia afinidade com o Governo da Guanabara e durante muito tempo ele ficou na gaveta. Mas como o estudo me interessasse, fui pouco a pouco o modificando como quem se diverte a burilar um brinquedo proibido”. Quando Oscar comentou comigo que um grande projeto urbanístico para Copacabana jamais seria realizado, peguei na sua mesa o desenho que ele havia feito para ilustrar a reportagem – era o maior entre os seis – e pedi: – Oscar, faça pelo menos uma dedicatória nesse desenho para mim. Quero guardar de lembrança. E ele escreveu: “Para o amigo Ponce um abraço, Oscar Niemeyer. Rio 10/7/69”. Trinta e cinco anos depois, digitalizei o desenho, coloquei numa bela moldura, e levei a cópia para ele.

Com autógrafo para Ponce de Leon, o projeto de alargamento de Copacabana na visão de Niemeyer, de 1969. Tudo explicado numa carta manuscrita.

Oscar em seu escritório, em Paris. Uma foto em alto contraste e solarizada. A reportagem foi publicada na edição de 24 de junho de 1966 e me valeu um elogio do entrevistado: “A reportagem ficou muito boa. Você falou tudo. Não faltou nada. Falou até dos tempos em que eu jogava no juvenil do Fluminense”.

O medo de avião

No início de 1966 combinei com Oscar uma matéria de capa para a Visão, uma revista semanal de circulação nacional. Ele pediu que deixasse a matéria para abril porque iria viajar para a Europa. Em abril, nada. Ficou para início de maio. Fui procurá-lo e começamos a matéria, que custou outras duas visitas à cobertura do prédio 3.940 da Avenida Atlântica. A capa foi criada por Ziraldo, então Diretor de Arte de Visão – sobre uma foto que fiz do 8

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Um raro momento: Niemeyer entra num DC-3 da Real Aerovias, que competia com os Constellation da Panair. Ao lado, capa criada por Ziraldo para a Visão, de junho de 1966.

– Mas falei também do lutador de jiujitsu nos tempos em que você freqüentava a academia do Hélio Grace. E Oscar se lembrou das rodas de samba onde ele tocava cavaquinho e violão. Naquela hora, me veio a vontade de entrar no assunto sobre o qual Oscar não gostava de falar e que, na reportagem de Visão abordei superficialmente: as viagens de avião. Único momento em que ele não é determinado. Não decide. Oscar Niemeyer nunca negou sua aversão pelas viagens aéreas. Mas, quando não há outro jeito, ele se arrisca a uma travessia do Atlântico a bordo de um Boeing. Muitas outras vezes foi de navio. Quando a viagem era mesmo no Brasil, não discutia: ia de carro. Foram assim muitas das viagens para Brasília. Apesar do medo de avião, sofreu dois acidentes graves de carro; por medo de avião, já chegou atrasado ou deixou de comparecer a importantes congressos internacionais. Oscar tem projetos espalhados pelo mundo inteiro. Quando Fidel Castro lhe fez um convite para abrir e presidir um Congresso Internacional de Arquitetura, em Cuba, ele confirmou a presença. Dois dias antes do embarque, pediu ao Muller, um arquiteto que trabalhava com ele, que fosse representá-lo. Finalmente, a pergunta que Oscar não esperava: – Oscar, e quando você resolve embarcar num Boeing e atravessar o Atlântico? – Eu chego mais cedo ao aeroporto, tomo meus uísques e embarco pronto para sentar e apagar. – Mas, de repente, você acorda, olha lá embaixo o Atlântico muito azul, preparado para chegar ao continente, e pousar em Lisboa, em Roma ou Paris. E aí? – Aí eu digo: agora, Oscar, foda-se. Pois a foto – muito rara – de Niemeyer enfrentando um DC-3 estava no alto da segunda página da matéria Uma Prancheta a Serviço do Belo. O lide da reportagem

mostrava como Niemeyer é universal: “No funeral de Le Corbusier, André Malraux pronunciou um belo discurso em que mencionou apenas três nomes: Neutra, Costa e Niemeyer. O fato nos dá a medida exata da dimensão internacional da arquitetura brasileira e do prestígio dos mestres Lúcio Costa e Oscar Niemeyer”. A matéria estava editada e a revista rodando quando recebi o bilhete: “Ponce, preciso falar com você. Oscar ”. Era sobre o edifício da Avenida Vieira Souto onde morava Juscelino Kubitschek, citado na reportagem. Eu havia deixado em seu escritório o texto final, para que Oscar se inteirasse da matéria que estava sendo publicada. Um dia antes de a revista chegar às bancas, Oscar mandou uma carta ao Diretor de Redação fazendo ressalva em relação ao que estava no texto: “Li hoje, com prazer, a entrevista do meu amigo Ponce de Leon no último número dessa revista e sobre a mesma desejo esclarecer pequeno engano. Não foi para Juscelino Kubitscheck que projetei o edifício da av. Vieira Souto. O ex-Presidente é apenas morador desse prédio. Projetei-o para outra pessoa, a pedido do meu amigo Marco Paulo Rabelo. Como o assunto já foi por mim esclarecido publicamente várias vezes, não creio necessária sua retificação. Desejo somente consigná-la. Oscar Niemeyer” O Plano Lúcio Costa e o Centro da Barra

Quando, em 1969, no Governo Negrão de Lima, Lúcio Costa terminou o Plano Piloto para a urbanização da Barra da Tijuca – uma área compreendida entre a Barra, o Pontal de Sernambetiba e Jacarepaguá –, Oscar já estava trabalhando no projeto do Centro da Barra para a Desenvolvimento Engenharia, do empresário Múcio Athayde. Ele era um dos maiores proprietários de terras na Barra – 1.800.000 metros quadrados de


Era o primeiro grande anúncio imobiliário apelando para a ecologia e o meio ambiente. Em 1970, ninguém ainda se preocupava com isso: “descubra o azul do mar e o verde das montanhas”. O aeroporto de Brasília

O Centro da Barra segundo Niemeyer: único projeto inserido no Plano Piloto de Lúcio Costa. Seriam 82 torres, mas só três foram construídas.

área, com 400 metros de praia. Um projeto grandioso com 80 torres, inserido no próprio Plano Piloto de Lúcio. O engenheiro gaúcho Raimundo de Paula Soares era o Secretário de Obras da Guanabara e Geraldo Segadas Viana o Diretor-Geral do Departamento de Estradas de Rodagem do Estado-DER. Não existia ainda caminho para a Barra que não fosse a estradinha do Joá. Múcio Athayde convenceu o Secretário Paula Soares de que ele seria o próximo Governador se conseguisse abrir um novo caminho que justificasse e facilitasse a implantação do Plano Piloto de Lúcio Costa. Surgiu assim o projeto da estrada Lagoa-Barra, com o elevado do Joá. “Começa a erguer-se na Baixada de Jacarepaguá a mais bela cidade oceânica do mundo. O Rio do futuro nasce com filosofia própria, planejado, medido, calculado, imposição e conseqüência do Anel Rodoviário e das obras do DER na região”, escreveria Paula Soares na apresentação do Plano Piloto de Lúcio Costa. Estavam definidos no projeto o Centro Metropolitano da Guanabara e, próximo à Pedra da Panela (tombada), a área para os grandes edifícios que poderiam chegar a 70 andares. Na área mais nobre, no início da Barra, Lúcio abria o espaço para as torres de Oscar Niemeyer do “Centro da Barra” {que Múcio Athayde tentou a todo custo transformar em Athaydevi-

Também discordei e discuti com ele várias vezes o assunto. Os três edifícios se chamariam torres “Charles De Gaulle”, “Ernest Hemingway” e “Jean Jacques Rousseau”. Nunca soubemos o porquê dessa decisão de Múcio Athayde. Uma tarde saí do prédio do MEC com Lúcio Costa e Carlos Drumond de Andrade para tomarmos um sorvete numa pequena sorveteria que existia em frente à ABI, na Rua Araújo Porto Alegre, e que depois virou agência do Banco América do Sul. Lúcio lamentava seriamente os nomes que Múcio havia dado às torres. Insistiu comigo para que eu o convencesse a mudar. Lúcio argumentava: “Ali na Barra, naquela praia maravilhosa, as torres tinham que se chamar Iracema, Janaína, Moema. Pelo amor de Deus, tire essa idéia absurda da cabeça do Múcio”. Infelizmente as torres foram lançadas com os nomes iniciais e o projeto ficou reduzido às três primeiras torres lançadas e inacabadas por décadas. O grandioso projeto de Oscar com as suas 80 torres morria ali. Até porque começou errado. Múcio mandou fazer uma imensa maquete – caríssima – que levaria ao escritório de Oscar para que ele a aprovasse, bem como as fotos que foram feitas dela para divulgação. Múcio tinha maquiado a maquete e colocado aletas nas laterais dos prédios. No escritório de Oscar, Múcio cobriu a maquete com a bandeira nacional e ficamos esperando que Oscar chegasse do almoço. Ao ver seu projeto modificado na maquete, Oscar veio derrubando as torres com o braço, e falando completamente irado: “Puta que pariu, Múcio, não foi isso que eu fiz.” A maquete ficou totalmente destruída e tivemos que refazer todo o trabalho.

Oscar tinha viajado para a Itália preocupado com o que seria divulgado no lançamento do Centro da Barra. Antes da viagem havíamos conversado também a respeito de uma reportagem que eu estava preparando sobre o aeroporto de Brasília. Ele queria acrescentar alguma coisa, e de Milão me mandou um telegrama pedindo que eu suspendesse a matéria: “Peço suspender a reportagem Ministério pt Estarei Rio dia dois quando conversaremos Niemeyer”. A reportagem nunca foi publicada, mas as informações redigidas por ele ficaram guardadas comigo: “Tempos atrás, chegando da Europa verifiquei que um projeto de aeroporto ia ser construído em Brasília, já aprovado pelo Ministério da Aeronáutica – projeto que não atendia nem aos serviços, nem ao espírito arquitetônico da nova Capital”. Anos mais tarde a Aeronáutica inaugurou o aeroporto, sem que Oscar tivesse aprovado o projeto. Um encontro em Paris

Era início de 1973 e Oscar estava em Paris. Eu estava de viagem marcada para Frankfurt, onde faria um festival de comida brasileira para a Varig e o Hotel Glória. Na pasta levava sempre o livro de David Douglas Duncan O Mundo Privado de Pablo Picasso – O Perfil Fotográfico Íntimo do Maior Artista do Mundo, com um total de 319 fotos. A ligação com o livro começou numa tarde em que, visitando a Livraria Brasiliense, na Rua da Assembléia, encontrei Paulo Francis garimpando livros. Ele estava lle} – ao inseri-la no Plano Diretor: “para com o livro de David Duncan nas mãos. o Centro da Barra já existe um projeto de Entregou-me o livro e disse: “Olha isso”. Em autoria do arquiteto Oscar Niemeyer, Paris, fui direto encontrar Oscar no seu esconcepção que contribuiu decisivamente critório no prédio da Pan Am, no Champs para a adoção aqui, nas faixas de Dunas, Élysées. Eu estava com o livro nas mãos. do partido que transformará a praia da Conversei com ele sobre a possibilidade de Barra na futura praia das Torres”. fazer um livro igual. Ele folheou o livro e Pronto para o lançamento do Plano não topou. Ainda assim, fiz uma seqüênPiloto de Lúcio Costa, preparamos um cacia de fotos dele no escritório trabalhanderno especial para o Jornal do Brasil e fiz do num projeto para Boumedienne, Preduas outras reportagens com depoimentos sidente e Primeiro-Ministro da Argélia. de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa para as No dia seguinte fomos almoçar no revistas O Cruzeiro e Fatos & Fotos. restaurante George V. Durante o almoço A partir de janeiro de 1970 deixei as Reinsisti na produção de um livro igual ao dações quando fui convidado por de Pablo Picasso que estava em miMúcio Athayde para dirigir a agência nhas mãos. Discuti as fotos e a aborde publicidade Los Angeles e prepadagem da vida íntima e o particular rar a campanha de lançamento do do seu dia-a-dia. Oscar disse não pela Centro da Barra, que motivou anúnúltima vez. cios de página dupla nos principais Viajei para Frankfurt, de onde voljornais do Rio e São Paulo. Uma camtei, após 15 dias, para Paris. Quando, na panha intensa para aquele que seria, volta ao Brasil, fui me despedir de Osna época, o maior projeto arquitetôcar. Ele perguntou se eu voltava direto nico do Brasil. O estudo de viabilidaao Rio. Disse-lhe que não, pois passaria de foi feito por Mário Trindade, exum dia em Madri e dois em Lisboa, Presidente do BNH – Banco Nacioonde ficaria na casa de um amigo. Só três nal de Habilitação. dias depois estaria de volta ao Brasil. Preparávamos a campanha de – Você está com dinheiro? No fim lançamento das três primeiras torda viagem o dinheiro fica curto –, disse res quando vivemos o primeiro Oscar. impasse. Oscar discordava (mais – O que tenho é o suficiente. TeTelegrama enviado de Milão para Ponce de Leon, em tarde Lúcio Costa também) dos nonho 450 dólares ainda comigo –, resfevereiro de 1970: Niemeyer pede que o jornalista suspenda a matéria sobre as críticas ao Aeroporto de Brasília. mes que Múcio queria dar às torres. pondi.

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– Leva mais esse –, disse Oscar tirando 500 dólares da carteira. – Não precisa –, insisti. – Leva, porra... – Só se for para lhe pagar quando você voltar ao Rio. Dois meses depois, quando Oscar retornou, fui ao seu escritório levar o dinheiro, mas ele recusou-se, definitivamente, a receber. Fiquei lhe devendo 500 dólares. A Avenida dos Desfiles

Avenida dos Desfiles – foi assim que começou a ser chamado o Sambódromo, a passarela do samba. A obra estava sendo concluída – fora realizada em tempo recorde – e todos os envolvidos no projeto sofriam de uma ansiedade coletiva, mas certos de que a Avenida dos Desfiles seria inaugurada conforme o calendário, no Carnaval de 1984. O próprio Oscar ficava lá direto. Ansiosos também estavam José Carlos Sussekind, João Otávio Brizola, DarcyRibeiro , Tatiana Memória. Coube a mim, que trabalhava com Darcy na Funarj, preparar todo o material do lançamento do Sambódromo, com a criação dos folders, mapas de acesso às arquibancadas, convite para inauguração, ingressos e outros materiais gráficos. Com o leiaute do fôlder procurei Oscar no escritório para pedir o texto de apresentação na abertura. De início, era “Avenida dos Desfiles” com algumas menções à “Passarela”. Na capa: “Avenida dos Desfiles – Rio de Janeiro – A passarela é uma festa o ano inteiro”. Na última capa do fôlder, com a planta e a localização dos setores era “Passarela do Samba”. No próprio texto de apresentação que Oscar escreveu, o sambódromo era chamado de “Passarela dos Desfiles”. “Como aconteceu com Brasília – escreve Oscar – a Passarela dos Desfiles foi inaugurada na data prevista. Construída em tempo recorde – três meses e meio apenas – ela representa um exemplo irrecusável do progresso da nossa engenharia. Não se restringe ao Carnaval propriamente dito. Graças a Darcy Ribeiro a Passarela dos Desfiles assumiu uma nova dimensão, levando para aquela área não apenas os desfiles carnavalescos que já lhe pertenciam, mas um novo complexo cultural e artístico de maior importância.” No fôlder ficava bastante explícito: “A mão criadora de Niemeyer, o samba, a escola, a creche, o museu e a grande praça se completam”. Os ingressos produzidos pela Riotur já estavam à venda e o convite que havíamos feito para o evento especial da inauguração, às 18 horas do dia 2 de março de 1984, no Museu do Carnaval, estavam sendo enviados aos convidados. Dois dias antes da inauguração uma entrevista coletiva de Darcy Ribeiro foi marcada para anunciar o programa. Feliz e extremamente expansivo, naquela sua alegria contagiante, Darcy anunciou: “Depois de amanhã, dia dois, estaremos inaugurando o Sambódromo”. Assim a Sapucaí foi batizada e nunca mais deixou de chamar-se Sambódromo. A amizade, o entrosamento, a cumplicidade de Oscar e Darcy vinham de longe. De décadas. Aprofundaram-se com a Universidade de Brasília. O contato diário, as discussões técnicas e a mesma obsessividade pelas mulheres. Dois profun10

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Foto feita por Ponce de Leon no escritório de Niemeyer, que ficava na Avenue des Champs-Élysées, em Paris.

dos conhecedores da alma feminina. Pelos sonhos de um País igualitário e solidário falavam o mesmo idioma. Viviam as mesmas emoções. Foi a Oscar que Darcy pediu os Cieps e o Sambódromo. “Darcy Ribeiro não é apenas um dos homens mais inteligentes que conheci. É, também, um homem que ama essa cidade e a vê com o otimismo e as esperanças de um iluminado.” Assim Oscar escreveu para mim o texto que lhe pedi para a capa da revista em quadrinhos que estávamos produzindo para a campanha de Darcy ao Governo do Estado do Rio de Janeiro. O Museu e o Teatro JK

Quando em 2002 se preparavam as comemorações do centenário de Juscelino

Kubitschek, procurei Oscar e lhe fiz um pedido muito especial. Comentei que nas principais capitais brasileiras existiam grandes logradouros e grandes avenidas com o nome de Juscelino, enquanto em Belo Horizonte, cidade onde ele foi prefeito, depois Governador do Estado e de onde saiu para a Presidência da República, havia apenas uma pequena praça perdida com seu nome e, de resto, a Pampulha que ele próprio construíra. Disse a Oscar que o Prefeito Célio de Castro havia cedido uma área da Prefeitura para que pudéssemos construir ali o Museu e o Teatro JK. A Sudecap havia até entregue a mim a planta da área. – Oscar, eu disse ao Célio que você ia fazer o projeto de graça para que Belo Horizonte pudesse homenagear Juscelino. E então? – perguntei.

– Eu só preciso de fotos do local, visto de todos os ângulos e dos imóveis que circundam a área. Vamos fazer o projeto. No sábado seguinte cheguei ao escritório de Oscar com todas as fotos e todas as plantas da área destinada ao Museu e ao Teatro. Perguntei se o Teatro poderia ter uns 700 lugares. Estávamos sozinhos, em frente à sua prancheta. – Vamos ver, disse Oscar. De pé, em frente à prancheta, medindo as plantas e fazendo cálculos, Oscar ia riscando o papel vegetal, buscando os traços definitivos para o projeto. Os desenhos de que não gostava ia jogando para trás e eu, ao seu lado, assistindo ao seu processo de criação, ia juntando e enrolando as folhas que ele jogava fora. De repente, mais uns cálculos e uma defini-

Niemeyer visita o andamento das obras do Sambódromo, no início de 1984.


ção: “Não dá para ter 700 lugares, só 500. Vou fazer o palco reversível. Ele vai abrir também para a área externa para espetáculos ao ar livre”. E terminou: – É isso aqui. Quantos minutos? – Quarenta e cinco, eu disse. – Não, quarenta. Oscar escreveu então na parte direita do desenho: “Em quarenta minutos. Um desenho para meu amigo Ponce de León. Oscar”. O desencanto com Brasília

Afinal, foram ricas todas essas experiências e todas as oportunidades de vivenciar uma amizade e uma admiração que vinha desde os tempos dos meus sonhos de estudante de Arquitetura e que continuaram por quase meio século. Sobre Brasília, comentei uma vez as críticas que ele fizera à cidade. Foi quando falava como paraninfo de uma turma de formandos de Arquitetura. Não poupava a cidade da especulação imobiliária e das injustiças com a classe operária. Com o texto do discurso composto e impresso em helvética corpo 22 perguntei se ele assinaria embaixo para que eu colocasse em um quadro. Oscar assinou na hora. Tempos atrás, preparando esta matéria, estive com ele em Belo Horizonte, quando perguntei se poderia inserir todo aquele texto na reportagem e ele me disse que fizesse apenas uma pequena citação. E ponderou: ”O texto só depois da minha morte”. Mas o próprio Niemeyer, numa entrevista ao repórter Mário César Carvalho, da Folha de S. Paulo, quando questionado sobre o fato de Brasília ter sido planejada para ser uma cidade igualitária e hoje ter se tornado uma das mais desiguais do Brasil, não escondeu sua decepção: “É claro que essa situação me entristece. Brasília mudou bastante em relação àquele clima de união e solidariedade que reinava em seus tempos originais. Vivíamos aquela época como uma grande família sem preconceitos e desigualdades.

Uma vez inaugurada Brasília, vieram os homens do dinheiro e tudo se modificou: a vaidade e o individualismo mais detestáveis se fizeram presentes”. Essa entrevista recente, por ocasião dos 50 anos de Brasília, não difere muito daquele texto do discurso de 30 anos passados que um dia ele assinou para mim: “E lhes advertirei honestamente, pois o sabemos interessados nesse problema, como o Plano de Lúcio Costa vem sendo desvirtuado. Como as quadras de habitação foram recusadas aos mais necessitados, embora destinadas a todos os habitantes de Brasília, principalmente a todas as crianças de Brasília, para que juntas nelas pudessem crescer e se formar, equilibrando assim o contato diário entre ricos e pobres, a dura realidade que seus lares humildes lhes oferecem, nesse período transitório de contradições e desacertos. E lhes mostrarei – se desejarem – como um espírito de discriminação domina todo o Distrito Federal, com as margens do lago, por exemplo, antes previstas para uso comum, foram entregues, ostensivamente, aos clubes burgueses – invenção do lucro imobiliário – cujas quotas, excessivamente caras, os tornam proibitivos às classes trabalhadoras.” “E lhes perguntarei, finalmente, o que pensam fazer para corrigir tanta injustiça? Eis, meus amigos, a situação de Brasília, eis a situação de um País com sessenta milhões de brasileiros na miséria e quinze milhões de ricos e remediados – com os pobres cada vez mais pobres, e os ricos cada vez mais ricos – decididos por todos os meios a ampliar esse período vergonhoso de exploração e rapina. Oscar Niemeyer” “O mais moço de todos nós”

Há exatos 54 anos Oscar comemorava seu cinqüentenário no Rio, cercado de amigos, no almoço que ofereceu em sua casa, na Estrada das Canoas, a pouco mais de 20 convidados. Lá estavam Jorge Amado, Rubem Braga, Lúcio Costa, Atos Bulcão, entre outros. Juscelino não compare-

Projeto da Mesquita de Argel, capital da Argélia.

ceu, mas mandou em telegrama. Enquanto Jorge Amado dizia que “Niemeyer é o maior artista brasileiro contemporâneo” e Lúcio Costa, referindo-se aos 50 anos de Oscar Niemeyer, acrescentava “Oscar é ainda e continuará a ser o mais moço de todos nós”, Rubem Braga escreveu: “O cinqüentenário de Oscar Niemeyer é, na verdade, uma grande data brasileira. Devia ser, pelo menos, feriado carioca”. Em 2006,quando se comemoravam os 50 anos da posse de Juscelino na Presidência da República, o canal a cabo GNT apresentou uma série de cinco programas produzido pela Giros, com supervisão da jornalista Bethe Ritto, direção de Belisário França e Carlos Gregório, e a direção-geral de Letícia Muhana. Todos os convidados do programa já confirmados foram gravados. Faltava apenas o depoimento de Oscar Niemeyer. A produtora não conseguia chegar a ele para marcar a data, e Belisário conversou comigo para tentarmos a autorização. Fui até o escritório de Oscar e disse-lhe que o programa já estava pronto para ser exibido dependendo unicamente de seu depoimento. Disse-lhe que se autorizasse faríamos no mais rápido espaço de tempo. Oscar então me confirmou para o dia seguinte: “Mas vocês têm apenas uma hora para gravar. Das 2 às 3, antes da

Projeto do Museu e Teatro JK, que Oscar Niemeyer fez atendendo a um pedido de Ponce de Leon. Ao final, uma dedicatória: “Em 40 minutos, um desenho para o meu amigo”.

chegada dos jornalistas alemães que vão passar a tarde aqui comigo”. Garanti que o tempo seria bastante e, no dia e hora marcados estávamos lá gravando o seu depoimento. Do que Oscar falou uma coisa guardei comigo como prova da sua determinação para tudo o que fazia. Falando de Brasília ele disse: “Eu podia, diante do prazo curto, pensar uma arquitetura mais simples, que me permitisse trabalhar com mais calma com relação ao ponto final. Mas não. Procurei fazer a coisa como eu gostava. Tanto que, quem vai a Brasília, eu fico tranquilo, pode gostar ou não dos palácios, mas não pode dizer que se viu coisa parecida. Isso é o mais importante em arquitetura: a surpresa, o espanto diante de uma obra diferente.” Trabalhando muito, sempre

Aos 104 anos, ainda trabalhando e criando obras deslumbrantes, como a futura Catedral de Belo Horizonte, restava a ele, comunista e ateu convicto, a bênção coletiva dos párocos de todas as igrejas – ele já não se lembra quantas – que projetou. É o ateu ecumênico que mais projetou igrejas no mundo. Ancelmo Gois deu conta na sua coluna – uma pesquisa de Ana Cláudia Guimarães – daquelas igrejas mais conhecidas e lembradas. Em Belo Horizonte, além da nova catedral, a igrejinha de São Francisco, na Pampulha; em Brasília, duas catedrais (a da cidade e a dos militares), mais duas capelas, sendo uma no Palácio do Alvorada e a outra de Nossa Senhora de Fátima. Foram duas também no Estado do Rio: a de Miguel Pereira e a de Vargem Grande. No bairro carioca de Manguinhos, projetou a igreja de São Daniel Profeta. Somam-se outras do seu ecumenismo: a igreja Ortodoxa de Brasília, um templo da Igreja Universal, no Rio; um templo batista em Niterói, duas mesquitas na Argélia, e a sinagoga de Jerusalém, ajudado por um de seus discípulos, o arquiteto David Resnick. (Ver a matéria As catedrais do comunista, de Marcelo Auler, na página 12) A última vez que fui ao seu escritório levar algumas fotos e o desenho de Copacabana emoldurado, brinquei com ele sobre a possibilidade de acrescentar ao texto que ele fez para o livro que estou editando sobre Juscelino Kubitschek alguma coisa sobre os 50 anos de Brasília. Fumando sua cigarrilha sentenciou: – Ô Ponce, a velhice é uma merda. Na verdade, o centenário de Oscar Niemeyer, deveria ter sido, pelo menos, feriado nacional. JORNAL DA ABI 385 • DEZEMBRO DE 2012

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ARQUIVO ABR

ESPECIAL OSCAR NIEMEYER

AS CATEDRAIS

DO COMUNISTA Ateu declarado, Niemeyer foi o artista que mais criou projetos de templos para diferentes religiões. P OR M ARCELO A ULER

Ao longo dos seus 104 anos, 70 deles voltados para a arquitetura, Oscar Niemeyer destacou-se como um dos mais reconhecidos e respeitados profissionais da área, transformando-se em uma verdadeira grife. Afinal, sempre defendeu que a arquitetura deve ser bonita e diferente, com sentido de uma obra de arte, de tal forma que seu resultado espante e surpreenda. É o que ocorre com as centenas de projetos que desenhou, não importa a utilização a que se destinaram: de palácios de governo às sedes de instituições como a Onu ou de partidos políticos, passando por teatros, praças, museus, universidades e escolas. Paralelamente à dedicação ao desenho, Niemeyer manteve uma impressionante coerência na defesa da bandeira política que empunhou desde os seus 40 anos de vida: o comunismo, como consta na reportagem “Niemeyer, um disciplinado comunista”. O curioso é que, apesar de ter encampado uma ideologia que tem no materialismo um dos seus pilares, Niemeyer, graças às práticas que vivenciou na sua família – na casa da avó, aos domingos, havia missa – sempre encarou os religiosos como “pessoas do bem”. No recente livro As Igrejas de Oscar Niemeyer (Editora Nosso Caminho, agosto de 2011), ele descreve: “A idéia de um Deus todo-poderoso, criador de todas as coisas, havia desaparecido do meu pensamento. Mas a visão de um ser humano tão frágil e desprotegido, diante deste universo fantástico que o cerca, leva-me a acompanhar as conquistas da ciência, empenhada em desvendar os mistérios do cosmo e da nossa própria existência”. 12

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Mas para ele ficou a certeza, a partir da convivência com amigos – em sua maioria católicos – de que “se tratava de gente boa e bem intencionada, que manifestava uma atitude generosa diante da pobreza, sem a revolta que em mim passou a dominar.” Fascínio pelos templos

Tudo isto o levou, no exercício da sua profissão, a considerar um verdadeiro fascínio os desenhos e projetos de templos e igrejas, onde se prega fé, na qual ele não acreditava. Em sete décadas foram cerca de 30 desenhos a pedido de variados credos religiosos ou mesmo de particulares, como as capelas projetadas para amigos. “Nunca ninguém fez tantas igrejas. Mas eu via a igreja de uma forma simpática, por causa destes meus antecedentes da família, que eram todos religiosos. Depois é um tema de arquitetura importante, fascinante, porque você tem que cuidar, criar o altar, criar a nave, criar problemas de luz, dar uma certa beleza interior. Me agradava muito”, explicou na mesma entrevista em que considerou que “a vida é uma merda” . No mesmo livro citado ele confessa: “Com que prazer desenhei as colunas da Catedral de Brasília, a subirem em círculo, criando a forma desejada. E lembro os contrastes de luz que adotei”. Em seguida, concluiu mostrando a diferença de sentimentos diante da obra pronta dele, como autor, e do usuário, como pessoa crente: “Quando projeto uma catedral, reconheço que o prazer que sinto em ver uma obra bem realizada é muito menor do que a importância que

lhe dão aqueles que vão freqüentá-la, pois é ali que acreditam estarem perto de Deus. Para eles, o ser supremo que, onipotente, tudo criou”. Recentemente, se espantou com a facilidade com que desenhou uma igreja para o Caminho Niemeyer em Niterói, como ele próprio confessou em maio de 2011: “Agora fiz uma igreja que eu fiquei espantado. Fiquei pensando em uma igreja pequena que pediram para fazer. Então, pensando, eu imaginei a cruz, depois fiquei pensando que dos braços da cruz, era uma cruz grande, e dos braços da cruz saía a cobertura e a igreja estava pronta. Igreja feita em duas etapas. Estou tentando fazer em Niterói, no Caminho Niemeyer. A igreja me encantou muito, porque eu fiz sem pegar no lápis, pensando na igreja. Tão lógica a idéia: você faz a cruz, grande, a entrada, dos braços da cruz sai a cobertura. Tá feita a igreja”. Ele também construiu capelas atendendo a pedidos de amigos. Em 1970, foi a capela Santa Júlia, em Luziânia (GO), no sítio de Juscelino Kubitschek. A capela de Santa Cecília foi erguida em 1989, no sítio de José Aparecido de Oliveira, em Miguel Pereira (RJ). Para o ex-governador Orestes Quércia, ele projetou uma capela residencial em Pedregulho (SP), em 1990. Já Roberto Irineu Marinho encomendou a capela Santa Clara, em sua fazenda, em Poços de Caldas (MG), em 2008. Em todas, bem ao seu estilo, misturou formas curvilíneas com espaços livres. Algumas jamais saíram do papel, como a mesquita de Argel. Os templos erguidos, porém, surpreenderam. A começar pelo

primeiro deles, coincidentemente, o menor: a igreja de São Francisco de Assis, mais conhecida como Igreja da Pampulha. Encomendada por Juscelino Kubitschek, então Prefeito de Belo Horizonte (MG), para substituir outro projeto que não lhe agradou, foi inaugurada em 1943. O sucesso dela está nas suas linhas curvas que fugiram aos tradicionais padrões da época. Niemeyer fez novos experimentos em concreto armado, abandonando a laje sob pilotis e criando uma abóbada parabólica em concreto. Não bastasse isto, recorreu ao pintor Cândido Portinari, autor das pinturas no painel central desenhado atrás do altar, dos quadros da Via Sacra ali exposta e dos azulejos que revestem as paredes do púlpito, duas bancadas laterais e as paredes do confessionário, dando à igreja um sentido de obra de arte. Na explicação do próprio Niemeyer, o resultado final alcançado na igreja foi de todos os seus projetos o que mais se aproximou da idéia colocada no papel. Nem por isto, contudo, ele deixou de ter problemas. A igreja, a princípio, foi rejeitada pelo Arcebispo de Belo Horizonte, Dom Antônio dos Santos Cabral. Realmente, custou a ser aceita pelo então bispo da Capital mineira. Na verdade, a Cúria nutria ciúmes por não ter participado da discussão do projeto da igreja de São Francisco. Alegou-se que a construção desrespeitou o Código do Direito Canônico. No entanto, segundo comentários da época, o que de fato escandalizou as autoridades eclesiásticas foram as pinturas de Portinari. Em con-


SNPC/RODRIGO ROSSE

Projetos realizados IGREJA DA PAMPULHA (BELO HORIZONTE - MG) Projeto de 1944, construção de 1945. CAPELA DO PALÁCIO ALVORADA (DF) Projeto de 1956, construção de 1958. IGREJA NOSSA SENHORA DE FÁTIMA (DF) SQS 307/308 – Projeto de 1957; construção 1958. Foi o primeiro templo de alvenaria erguido em Brasília. Antes dele existiu uma Capela no Catetinho, feita em madeira. CATEDRAL METROPOLITANA DE BRASÍLIA (DF) Projeto de 1959, construção em 1960 e inauguração em 1970. IGREJA DE SÃO DANIEL PROFETA BONSUCESSO (RJ) Projeto de 1959, inauguração em 1960. CAPELA SANTA JÚLIA (LUZIÂNIA – GO) Projeto de 1970. CAPELA DO PALÁCIO JABURU (DF) Setor Palácio Presidencial. Datas do projeto e do início da obra não especificadas, provavelmente em 1973, quando da construção do Palácio. IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ORTODOXA ANTIOQUINA DE BRASÍLIA (DF) QI 09 Lago Sul; projeto de 1986, início da obra 1988. CAPELA SANTA CECÍLIA (MIGUEL PEREIRA – RJ) Projeto de 1989, Fazenda de José Aparecido de Oliveira. CAPELA DA RESIDÊNCIA DE ORESTES QUÉRCIA (PEDREGULHO - SP) Projeto de 1990. CATEDRAL SANTA MARIA DOS MILITARES RAINHA DA PAZ (DF) Canteiro Central do Eixo Monumental, próximo ao Setor Militar Urbano. Projeto 1992 , inauguração em 1994.

Dois dos projetos mais famosos de Niemeyer: A Igreja São Francisco de Assis, da Pampulha, em Belo Horizonte, e a Catedral Metropolitana de Brasília (na página ao lado).

Altares desenhados ALTAR DO CONGRESSO EUCARÍSTICO NACIONAL (DF) Projeto de 1967. ALTAR PARA A MISSA DO PAPA JOÃO PAULO II (BRASÍLIA - DF) Projeto de 1991.

Projetos não executados IGREJA NO INSTITUTO DE TEOLOGIA DA UNB Projetada em 1961. CENTRO ESPIRITUAL DOS DOMINICANOS (SAINTE, BOUCHES DU RHÔNE, FRANÇA) Projetado em 1967.

CAPELA DO ANEXO IV DA CÂMARA DOS DEPUTADOS (DF) Anexo IV da Câmara – Projeto de agosto de 1994 início da obra 1994.

MESQUITA DE ARGEL Projetada em 1968.

CAPELA DOM BOSCO (DF) Parque da Ermida Dom Bosco, QI 29, Lago Sul. Projeto de abril de 2004 inauguração março de 2006.

IGREJA CATÓLICA DE NITERÓI Projetada em 1997. Caminho Niemeyer.

CAPELA SÃO JOSÉ - FUNDAÇÃO FREI GASPAR (VARGEM GRANDE, RIO DE JANEIRO) Na qual ele teria utilizado um projeto feito em 1991 para a Ilha da Gigóia, adaptado em 2008. CAPELA DE SANTA CLARA (POÇOS DE CALDAS - MG) Fazenda de Roberto Irineu Marinho. Projeto de 2008.

IGREJA EM PETRÓPOLIS Projetada em 1986.

CATEDRAL BATISTA DE NITERÓI Projetada em 1997. Caminho Niemeyer. CAPELA DO MEMORIAL ROBERTO SILVEIRA Projetada em 1997. Caminho Niemeyer. CAPELA ECUMÊNICA DARCY RIBEIRO (MONTES CLAROS - MG) Projetada em 2001. CATEDRAL CRISTO REI (BELO HORIZONTE – MG) Projetada em 2006.

A sede do IAB-RJ agora se chama Casa do Arquiteto Oscar Niemeyer Menos de uma semana após o seu passamento, colegas de profissão reverenciam o grande morto. Uma prolongada salva de palmas saudou na tarde de 14 de dezembro o descerramento da placa que dá o nome de Oscar Niemeyer à sede do Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento do Rio de Janeiro, no Beco do Pinheiro, no bairro do Catete, Zona Sul do Rio. A manifestação de aplausos repetiu-se minutos depois, quando foi descerrada no auditório do IAB a faixa da inscrição Casa do Arquiteto Oscar Niemeyer, que encima o palco. A convite do Presidente do IAB, arquiteto Sérgio Magalhães, descerraram a fita da placa do andar térreo do prédio três arquitetos que tra-

balharam com Niemeyer – James Zettel, Ítalo Campofiorito e Glauco Campello –, o Presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo-Cofea, arquiteto Haroldo Pinheiro, e Maurício Azêdo, Presidente da ABI, entidade de que Oscar Niemeyer era sócio desde 30 de julho de 1953. A placa tem estes dizeres: “No dia 14 de dezembro de 2012 a sede do Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento do Rio de Janeiro, passou a ser denominada Casa do Arquiteto Oscar Niemeyer. Por decisão do Conselho Deliberativo, reunido em 12 de dezembro de 2012”.

seqüência, a igreja demorou 13 anos para ser consagrada e aceita pela Diocese de Belo Horizonte. Curiosamente, mais de 50 anos depois a cúria de Belo Horizonte foi pedir a Niemeyer o projeto de sua nova catedral, possivelmente o último por ele desenhado, até hoje ainda não executado. Entre a Igreja da Pampulha e a nova catedral de Belo Horizonte, foram trinta diferentes projetos, cada qual com a sua história. O maior número de encomendas foi de templos católicos, mas além da mesquita de Argel ele também desenhou uma catedral batista, em Niterói, que não saiu do papel. Na mesma cidade, também no Caminho de Niemeyer, foi feito o projeto de uma igreja católica, também não erguida.

parede exterior os azulejos pintados por Atos Bulcão, representando o Espírito Santo e a Estrela da Natividade. Depois vieram a Catedral Metropolitana – um dos seus mais famosos projetos –, a Igreja Dom Bosco e a capela do Palácio Alvorada. Ainda nos anos de chumbo da ditadura militar que o perseguiu e o fez exilar-se em Paris, foi construída a Capela do Palácio do Jaburu, sede da Vice-Presidência da República (1973). Em 1988, ele entregou a Igreja Católica Apostólica Ortodoxa Antioquina São Jorge de Brasília, localizada no Lago Sul. Já no período da redemocratização do País foram os militares que chamaram Niemeyer para desenhar a Catedral Santa Maria dos Militares Rainha da Paz, inaugurada em 1994, junto ao Setor Militar Urbano. No mesmo ano foi inaugurada a Capela da Câmara dos Deputados. Capela na Favela

Em Brasília concentra-se o maior número de templos desenhados e construídos. Ali, a primeira a ser erguida foi a pequena Igreja Nossa Senhora de Fátima, entre as Superquadras 307 e 308 Sul. Ela está debaixo de uma “leve laje triangular invertida de concreto, apoiada em três pilotis que a sustentam no ar. Sua parede com ‘furos’ fechados por vidros coloridos lhe dá uma penumbra interna. Tinha em seu interior afrescos de Alfredo Volpi, que foram destruídos, mas ainda mantém na

Entre as mais de 30 igrejas e capelas projetadas por Oscar Niemeyer há duas, no Rio de Janeiro, que embora sejam obras abertas ao público, são praticamente desconhecidas pela grande maioria dos cariocas. Uma delas incrustada na Favela de Manguinhos, a Igreja de São Daniel, inaugurada pelo Presidente Juscelino Kubitschek, em 1960. Ela tinha uma Via Sacra pintada por Guignard e uma estátua do santo moldada por ninguém menos do que Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Embora tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural-Inepac, por localizar-se dentro de uma favela ela jamais mereceu os cuidados devidos e estava em precárias condições, assim como acontece com construções do Caminho de Niemeyer, em Niterói, como o Jornal do Brasil mostrou na reportagem Crack e fezes, obstáculos do Caminho Niemeyer. Na capela São Daniel, as obras de artes foram retiradas de seu interior por questões de segurança. Outra capela pouquíssimo conhecida é a Capela São José, projetada em 2008, gratuitamente, para a Fundação Ação Social Frei Gaspar, em Vargem Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Consta que ele utilizou neste projeto a idéia que havia desenvolvido antes para uma igreja na Ilha da Gigóia, que acabou não se realizando.

Após os dois atos, o IAB lançou a campanha nacional Niemeyer sim, Projeto Cingapura não, de repúdio à decisão do Governo do Distrito Federal de contratar com uma empresa de Cingapura, na Ásia, a elaboração do Projeto Brasília 2060, que definirá o planejamento estratégico da capital até o ano 2060. O público reagiu com risadas de ironia a várias passagens da exposição sobre o contrato feita pelo Presidente Sérgio Magalhães, como a de que técnicos da Jusong, a empresa contratada, viriam seis vezes a Brasília para trabalhar no projeto, e a de que o pagamento das parcelas do contrato seria feito no Peru, disposição depois alterada, para que o pagamento se faça no Brasil. O contrato tem o valor de US$ 4 milhões, dos quais mais de US$ 800 mil foram pagos em Cingapura na assinatura do contrato pelo Governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, que viajou para lá com vários de seus Secretários.

Ao se manifestar nessa parte do ato, o Presidente da ABI expressou o apoio da Casa ao movimento lançado pelo IAB contra um “contrato de sabor colonial” e que ofende uma personalidade estelar da cultura brasileira, Oscar Niemeyer. Dois bisnetos de Niemeyer – Carlos Ricardo Niemeyer e Caíque Niemeyer – compareceram à manifestação, da qual participaram também a Diretora de Atividades Culturais e Cívicas e Diretora Administrativa do Clube de Engenharia, Ana Lúcia Moraes e Souza Miranda; o Presidente da Associação Brasileira de Consultorias de Engenharia-ABCE, Mauro Viegas; o Presidente do Sindicato Nacional de Arquitetura e Engenharia-Sinaenco, Márcio Batista de Amorim; o Presidente da Federación Panamericana de Asociaciones de Arquitectos-FPAA; o representante do Reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Pró-Reitor Pablo Benetti; e o Presidente do IAB do Distrito Federal, Paulo Henrique Paranhos.

Maioria está em Brasília

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JAMIL BITTAR/AGÊNCIA O GLOBO

ESPECIAL OSCAR NIEMEYER

“Diria que sou um ser humano como outro qualquer – que nasceu, viveu e morreu. Sou um homem comum – que trabalhou como todos os outros. Passou a vida debruçado sobre uma prancheta. Interessou-se pelos mais pobres. Amou os amigos e a família. Nada de especial. Não tenho nada de extraordinário. É ridículo esse negócio de se dar importância”. A declaração, dada por Oscar Niemeyer ao jornalista Geneton Moraes Neto em 2007, exatamente quando o arquiteto completava um século de vida, pode soar como prova irrefutável de humildade de um gênio em seu ofício. Mas nem de longe traduz a realidade. A morte de Niemeyer teve grande repercussão mundial. Sinal de reconhecimento, respeito e admiração por este carioca nascido em 1907 e que teria completado 105 anos no dia 15 de dezembro. No Brasil, praticamente todas as publicações dedicaram primeiras páginas a homenagens ao arquiteto – desde os chamados ‘jornalões’ até as publicações mais populares. O mesmo aconteceu em programas de rádio e telejornais. Alguns veículos, em especial, foram felizes ao utilizar na composição de suas diagramações elementos gráficos e reproduções de algumas das mais famosas obras de Niemeyer – tais como as capas das edições de 6 de dezembro do Correio Braziliense, Estado de Minas e Extra, este último do Rio de Janeiro. “Apesar do reconhecimento internacional e de servir como referência para muitas gerações de arquitetos no Brasil e no exterior, a obra de Niemeyer nunca será reproduzida devido ao grau de criatividade individual em cada uma delas. Embora estejam sob alguns parâmetros comuns à arquitetura moderna, seu modo de projetar e sua expressão têm uma dose muito importante de sua criatividade individual, o que faz que seus traços sejam admirados, mas não reproduzidos”, diz o arquiteto e urbanista Sérgio Magalhães, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil. E não foram poucas as obras executadas pelo arquiteto, das quais certamente se destaca um feito que, dito assim, à queimaroupa, parecia um projeto que beirava a sandice. Construir uma cidade inteira – no caso, a nova capital federal idealizada pelo Presidente Juscelino Kubitschek. Loucura? Não para Oscar Niemeyer. “A gente tem que sonhar, senão as coisas não acontecem”, costumava repetir o mestre dos traços curvos que, no projeto de Brasília, contou com a parceria de Lúcio Costa e o apoio entusiasmado de jovens arquitetos. “Nós trabalhávamos em um grupo de 16 profissionais. Eu tinha acabado de chegar da Europa e Niemeyer me deu essa oportunidade. Cheguei lá em 1958. Ninguém acreditava que aquilo fosse ficar pronto, mas ficou. Essa foi a minha melhor experiência profissional. Depois fomos ficando velhos e nos tornamos amigos. Ele queria justiça para o mundo e trabalhava de manhã até à noite”, declarou à imprensa o arquiteto Ítalo Campofiorito. O colega Jaime Zettel, que também atuou na construção da capital, ressaltou a eficiência da dobradinha entre Niemeyer e Lúcio Costa. 14

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Oscar, o arquiteto do Brasil A morte de Niemeyer, poucos dias antes de completar 105 anos, gerou uma infinidade de homenagens pelo mundo. E ao menos uma certeza: nunca houve, e tampouco haverá, outro arquiteto tão expressivo nos quesitos longevidade e genialidade. POR PAULO C HICO “Esse período em Brasília foi inspirador. Eles chefiavam o grupo com maestria. Ninguém acreditava que o projeto ficaria pronto, mas com eles à frente não tinha como não dar certo”, disse Zettel ao jornalista Hanrrikson de Andrade, do Uol. Morador de Brasília há mais de três décadas, Alexandre Garcia fez comentário emocionado sobre a capital, na edição do Bom Dia Brasil exibida pela TV Globo no dia 6 de dezembro. “Nesses últimos 36 anos eu tive o privilégio visual de conviver, de viver, no meio da obra de Niemeyer, diante dessas curvas que nunca cansam. Um traço que se estendeu pelo mundo inteiro. Um homem cuja obra foi maior do que suas próprias convicções. Apesar de ateu, fez a catedral aqui de Brasília, depois de ter feito a Igreja da Pampulha. Fez a igrejinha Nossa Senhora de Fátima, e até uma mesquita em Israel. Como comunista, no Governo militar, fez o Palácio do Jaburu, da Vice-presidência da República, o anexo do Palácio do Planalto... Enfim, sua

produção transcende. Niemeyer pode partir, mas a sua obra fica para sempre. Eu recordo aqui uma lembrança de Oscar. Ele contava que Juscelino o tomava pelo braço e, caminhando pela Praça dos Três Poderes, dizia em seu ouvido, de forma quase confidente: ‘Que beleza, hein, Niemeyer?’”. A quase unanimidade de um criador imortal

Oscar manteve sua vinculação com o jornalismo até seus últimos meses de vida através da revista Nosso Caminho, por ele criada e voltada para a arquitetura e questões culturais. “Costumo dizer aos estudantes que não basta sair da escola para ser bom profissional. O sujeito tem de se abrir para o mundo e não ficar atrás da visão estreita dos especialistas”, defendia o mestre. Apesar do reconhecimento maciço da mídia nacional e internacional, nem só de elogios foi feito o obituário de Niemeyer. O jornalista Reinaldo Azevedo escreveu em seu blog, na Veja Online, no dia 6

de dezembro, artigo que causou polêmica – talvez o seu único e real intento. Em “Morre Oscar Niemeyer, metade gênio e metade idiota”, ele disparou: “Ele pensava e escrevia coisas detestáveis. A estupidez política de Niemeyer, que defendia regimes homicidas, não condena a sua obra. Mas a sua obra também não absolve a sua estupidez política”, iniciou, para depois reproduzir trechos de um texto escrito por ele próprio em 1999. “Pessoalmente, acho Oscar Niemeyer um gênio, embora deplore as suas escolhas políticas e enxergue em sua trajetória de vida o principal desvio de caráter dos comunistas: o oportunismo nos meios com o totalitarismo no fim. Mas e daí? Vou dizer, por isso, que não vislumbro no seu trabalho a centelha do gênio? Vislumbro. Não sei quanto tempo ainda dura esta nossa aventura. Pelo tempo que durar, o seu trabalho restará como bom exemplo do que pode produzir o gênio humano. (...) O que censuro mais em Juscelino Kubitschek


ARQUIVOABR

FOLHA IMAGEM

Nem só de desenhos viveu Oscar Niemeyer. Ele também escreveu. E bastante. Não menos brilhante do que seu lado arquiteto, mas certamente nublado pelo seu talento descomunal diante da prancheta, esteve seu lado escritor. Quase Memórias: Viagens, Tempos de Entusiasmo e Revolta, de 1968, marca sua estréia. Nessa carreira paralela, escreveu ainda Como Se Faz Arquitetura (1986); Meu Sósia e Eu (1992); Conversa de Arquiteto (1994) e As Curvas do Tempo Memórias (1998). Neste último, Niemeyer faz uma seleção de textos de caráter afetivo, quando um dos temas é a família, ou a arquitetura e as artes que a integram. Fala de livros e sobre os autores que sente prazer em ler. O Brasil e o Rio de Janeiro – em especial a vista para o mar das janelas de seu escritório. Cenários dos quais ele sempre sente saudades quando passa muito tempo

acesso à leitura. O livro traz ainda carta de Fidel Castro, citado pelo autor como exemplo para a juventude. Em outubro de 2008, dois meses antes de seu 101º aniversário, Oscar lançou ainda Crônicas, com noite de autógrafos na galeria de arte de sua filha, Anna Maria Niemeyer, na Gávea, Zona Sul do Rio. O livro traz artigos publicados na Folha de S.Paulo, no Jornal do Brasil, no Correio Braziliense e em outros órgãos da imprensa

REPRODUÇÃO

Em paralelo, uma carreira fértil também como escritor

fora. Sensibilidade e nostalgia são os ingredientes desta obra literária na qual se revela um versátil contador de histórias. Via Editora Revan, pela qual saíram quase todas as suas obras, lançou um livro de contos – Sem Rodeios, em 2006 – e O Ser e a Vida, de 2007, no qual reflete acerca da importância da literatura na formação humana e na construção de um país mais justo. Ele discute um pouco sobre como a leitura foi relevante em sua vida pessoal e profissional, uma vez que proporciona um alargamento de horizontes. Obras clássicas, como as de Lima Barreto, Mário de Andrade, Eça de Queirós, Machado de Assis e Voltaire, e de colegas contemporâneos, como Jorge Amado e Graciliano Ramos, levaram-no a conhecer diversos problemas e assuntos, mesmo aqueles que já tinham sua atenção. Nesse contexto, sua preocupação maior é com os jovens e seu

ACERVO FAMÍLIA SAMUEL WAINER

do que nele, aí, sim, é a vocação para achar que a sociedade obedece a regras que cabem num projeto. Brasília foi, em muitos aspectos, um delírio caro, desnecessário e megalômano, que, ademais, afastou a política da vida dos cidadãos comuns.” O artigo, é claro, provocou reações imediatas. Uma das mais contundentes partiu de Leonardo Boff. Em seu site, no dia 9 de dezembro, o teólogo e escritor respondeu: “Notoriamente, Veja se compraz em desfazer as figuras que melhor mostram nossa cultura e que mais penetraram na alma do povo brasileiro. O que Reinaldo não tolera em Oscar é que, sendo comunista, se mostra solidário, compassivo com os que sofrem, que celebra a vida, exalta a amizade e glorifica o amor. Tais valores não cabem na ideologia capitalista de mercado, defendida por Veja e seu albergado, que só sabe de concorrência, de acumulação à custa da exploração ou da especulação, da falta de solidariedade e de justiça em nível internacional. Mas não nos causa surpresa; a revista assim fez com Paulo Freire, Cândido Portinari, Lula, Dom Helder Câmara, Chico Buarque, Tom Jobim, João Gilberto, Frei Betto, João Pedro Stédile, comigo mesmo e com tantos outros. Ela é um monumento à razão cínica.”

Niemeyer com Juscelino Kubitschek (acima) e Samuel Wainer durante a inauguração de Brasília. Abaixo, ao lado do amigo escritor Jorge Amado.

durante as últimas décadas. Ele fez alterações em alguns deles e escreveu outros especialmente para a edição. As crônicas refletem sua opinião a respeito da política, do Rio antigo, dos amigos e das suas experiências de vida. “Trato de vários assuntos e os critico de maneiras diferentes. Falo até sobre o Bush”, disse ele, na época. Amigos próximos sempre estiveram presentes em todas as frentes de trabalho do multifacetado Oscar – que nesta vida fez quase de tudo, inclusive sambas, como Tranquilo com a Vida, em parceria com seu enfermeiro, Caio Almeida. A maioria dos companheiros de Oscar foi dar seu adeus no velório. O jornalista e escritor Zuenir Ventura foi um deles. “Ele ajudou muitas pessoas durante a ditadura. Sempre dava um jeito de mandar dinheiro para quem estava no exílio, como Luiz Carlos Prestes”. E complementa que, dono de longevidade tão produtiva, “Niemeyer nos acostumou tanto com a idéia de que, além

de gênio, era imortal, que a morte acabou pegando a gente de surpresa”. Na entrevista concedida a Geneton, citada no início desta reportagem, ele reafirmou sua condição de ateu. “Não acredito em nada. Apenas na natureza: tudo começou não se sabe quando nem como. Eu bem que gostaria de acreditar em Deus. Mas não. Sou pessimista diante da vida e do homem”. Quem pode garantir a veracidade de tal convicção? Mas, se admitirmos a possibilidade de que Oscar esteve redondamente equivocado ao longo de 104 anos, temos que reconhecer que o Cara lá de cima foi, mais uma vez, generoso para com a Humanidade. Irônico, talvez. Viver por mais de um século de forma lúcida – mesmo durante a última internação, Niemeyer recusava-se a falar em morte, e ocupava-se apenas de novos projetos é coisa pra poucos. O que dizer, então, de atingir a imortalidade?

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ANA CAROLINA FERNANDES/FOLHAPRESS

ESPECIAL OSCAR NIEMEYER

Um dos maiores brasileiros de todos os tempos (Para Vera Lúcia Niemeyer) P OR A RTHUR P OERNER

No próximo dia 15, como há muitos e muitos anos, excetuados os do exílio, eu felicitaria o Oscar por mais um aniversário, e ele, como sempre, engrenaria um bom papo. Eu ficaria de ligar para marcarmos almoço ou jantar, mas nunca tive coragem para apropriar-me de mais tempo ainda do pouco que lhe restava. Às vezes, eu seria surpreendido, como às 21h de um dos últimos, imediatamente pré ou já pós-centenário, por um dos seus assessores: – “Ele pede que o senhor volte a ligar daqui a uma hora, porque está finalizando um projeto”. Apesar da idade, não deixava de produzir nem à noite da data natalícia. Acredito que seja um feito mundial inédito. De um sonhador genial que até samba fez. Mas Oscar jamais se preocupou com façanhas ou livros de recordes, muito menos com homenagens e honrarias. Queria apenas viver a sua vida de marxista coerente no amor ao seu povo e ao seu trabalho, para quem a prática era o critério da verdade. Dialético em tudo que fazia e vivia, um mestre da invenção e da criatividade ou, como dizia o Darcy Ribeiro, nosso amigo comum, “Uma força da natureza”. Conheci-o em meados dos anos 1960, quando me procurou na Redação do Correio da Manhã para que o ajudasse a resolver um problema: teria que estar em

Jornal da ABI ÓRGÃO OFICIAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA Editores: Maurício Azêdo e Francisco Ucha presidencia@abi.org.br / franciscoucha@gmail.com

Genebra no dia seguinte, na inauguração de um congresso do Conselho Mundial da Paz, mas não poderia viajar – leiase: amarelara, mas uma vez, na iminência de um vôo – e queria que eu, colunista de diplomacia e política externa do jornal, com os meus contatos no Itamarati e no corpo diplomático, fizesse chegar à Suíça pelo menos o seu discurso, o que acabamos conseguindo com as boas graças de uma prestimosa aeromoça da Swiss Air. Foi o início de uma longa amizade, que se solidificaria nos almoços e jantares no Lucas, ali pertinho do seu escritório da Atlântica, nos reencontros em Argel, onde criava a Universidade de Constantine, e pela vida afora. Dos últimos encontros, ficaram na lembrança a festa do centenário, na bela Casa das Canoas, no Joá, e as duas vezes em que fui entrevistá-lo: para o Jornal do Brasil ou para O Pasquim21, com o Ziraldo, e para o filme O Eterno Poder Jovem, de Jesus Chediak. Ano passado, fui à comemoração dos 104 anos, mas o elevador, talvez mais antigo do que o homenageado, simplesmente enguiçou, e os dois infartos no meu prontuário vetaram a subida pelos degraus até o 11º andar. Tinha, entre tantas qualidades, uma que me tocava bem de perto: a preocupação com a precisão na linguagem. Enio Sil-

veira, da Civilização Brasileira, nosso editor dos anos 1960, certa vez me disse que Oscar seria um dos grandes escritores do País, se a arquitetura não monopolizasse todas as suas energias e todo o seu tempo disponível. Guardarei sempre as melhores recordações dos nossos encontros. Estivemos sempre do mesmo lado político, nas lutas e campanhas democráticas, inclusive contra a ditadura. E o seu exemplo de

DIRETORIA – MANDATO 2010-2013 Presidente: Maurício Azêdo Vice-Presidente: Tarcísio Holanda Diretor Administrativo: Orpheu Santos Salles Diretor Econômico-Financeiro: Domingos Meirelles Diretor de Cultura e Lazer: Jesus Chediak Diretora de Assistência Social: Ilma Martins da Silva Diretora de Jornalismo: Sylvia Moretzsohn

Projeto gráfico e diagramação: Francisco Ucha Edição de textos: Maurício Azêdo

CONSELHO CONSULTIVO 2010-2013 Ancelmo Goes, Aziz Ahmed, Chico Caruso, Ferreira Gullar, Miro Teixeira, Nilson Lage e Teixeira Heizer.

Apoio à produção editorial: Alice Barbosa Diniz, Conceição Ferreira, Guilherme Povill Vianna, Maria Ilka Azêdo, Ivan Vinhieri, Mário Luiz de Freitas Borges.

CONSELHO FISCAL 2011-2012 Adail José de Paula, Geraldo Pereira dos Santos, Jarbas Domingos Vaz, Jorge Saldanha de Araújo, Lóris Baena Cunha, Luiz Carlos Chesther de Oliveira e Manolo Epelbaum.

Publicidade e Marketing: Francisco Paula Freitas (Coordenador), Queli Cristina Delgado da Silva.

MESA DO CONSELHO DELIBERATIVO 2011-2012 Presidente: Pery Cotta Primeiro Secretário: Sérgio Caldieri Segundo Secretário: José Pereira da Silva (Pereirinha)

Diretor Responsável: Maurício Azêdo Associação Brasileira de Imprensa Rua Araújo Porto Alegre, 71 Rio de Janeiro, RJ - Cep 20.030-012 Telefone (21) 2240-8669/2282-1292 e-mail: presidencia@abi.org.br

Conselheiros Efetivos 2012-2015 Adolfo Martins, Afonso Faria, Aziz Ahmed, Cecília Costa, Domingos Meirelles, Fichel Davit Chargel, Glória Suely Alvarez Campos, Henrique Miranda Sá Neto, Jorge Miranda Jordão, Lênin Novaes de Araújo, Luís Erlanger, Márcia Guimarães, Nacif Elias Hidd Sobrinho, Pery de Araújo Cotta e Vítor Iório.

REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Diretor: Rodolfo Konder Rua Dr. Franco da Rocha, 137, conjunto 51 Perdizes - Cep 05015-040 Telefones (11) 3869.2324 e 3675.0960 e-mail: abi.sp@abi.org.br

Conselheiros Efetivos 2011-2014 Alberto Dines, Antônio Carlos Austregésilo de Athayde, Arthur José Poerner, Dácio Malta, Ely Moreira, Hélio Alonso, Leda Acquarone, Maurício Azêdo, Milton Coelho da Graça, Modesto da Silveira, Pinheiro Júnior, Rodolfo Konder, Sylvia Moretzsohn, Tarcísio Holanda e Villas-Bôas Corrêa.

REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS Diretor: José Eustáquio de Oliveira

Conselheiros Efetivos 2010-2013 André Moreau Louzeiro, Benício Medeiros, Bernardo Cabral, Carlos Alberto Marques Rodrigues, Fernando Foch, Flávio Tavares, Fritz Utzeri, Jesus Chediak, José Gomes Talarico (in memoriam), Marcelo Tognozzi, Maria Ignez Duque Estrada Bastos, Mário Augusto Jakobskind, Orpheu Santos Salles, Paulo Jerônimo de Sousa e Sérgio Cabral.

Impressão: Taiga Gráfica Editora Ltda. Avenida Dr. Alberto Jackson Byington, 1.808 - Osasco, SP

Conselheiros Suplentes 2012-2015 Antônio Calegari, Antônio Henrique Lago, Argemiro Lopes do Nascimento (Miro

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marxista conseqüente, lúcido e firme, sem jamais deixar de ser um humanista, fortaleceu as minhas próprias convicções. Era, enfim, uma dessas raras pessoas que, num primeiro e desavisado momento, até espanta que também sejam mortais. Estou com a atriz Marília Pêra: “O Niemeyer era a minha esperança de imortalidade”. Com as minhas mais sentidas condolências para a Vera Lúcia, os familiares e a legião de amigos que soube cultivar.

Lopes), Arnaldo César Ricci Jacob, Continentino Porto, Ernesto Vianna, Hildeberto Lopes Aleluia, Irene Cristina Gurgel do Amaral, Jordan Amora, Luiz Carlos Bittencourt, Marcus Antônio Mendes de Miranda, Mário Jorge Guimarães, Múcio Aguiar Neto, Rogério Marques Gomes e e Wilson Fadul Filho.

Conselheiros Suplentes 2011-2014 Alcyr Cavalcânti, Carlos Felipe Meiga Santiago, Edgar Catoira, Francisco Paula Freitas, Francisco Pedro do Coutto, Itamar Guerreiro, Jarbas Domingos Vaz, José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Ponce de Leon, Salete Lisboa, Sidney Rezende, Sílvio Paixão e Wilson S. J. Magalhães. Conselheiros Suplentes 2010-2013 Adalberto Diniz, Alfredo Ênio Duarte, Aluízio Maranhão, Arcírio Gouvêa Neto, Daniel Mazola Froes de Castro, Germando de Oliveira Gonçalves, Ilma Martins da Silva, José Silvestre Gorgulho, Luarlindo Ernesto, Marceu Vieira, Maurílio Cândido Ferreira, Sérgio Caldieri, Wilson de Carvalho, Yacy Nunes e Zilmar Borges Basílio. COMISSÃO DE SINDICÂNCIA Carlos Felipe Meiga Santiago, Carlos João Di Paola, José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria Ignez Duque Estrada Bastos e Marcus Antônio Mendes de Miranda. COMISSÃO DE ÉTICA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Alberto Dines, Arthur José Poerner, Cícero Sandroni, Ivan Alves Filho e Paulo Totti. COMISSÃO DE DEFESA DA LIBERDADE DE IMPRENSA E DIREITOS HUMANOS Presidente, Mário Augusto Jakobskind; Secretário, Arcírio Gouvêa Neto; Alcyr Cavalcânti, Antônio Carlos Rumba Gabriel, Arcírio Gouvêa Neto, Daniel de Castro, Ernesto Vianna, Geraldo Pereira dos Santos,Germando de Oliveira Gonçalves, Gilberto Magalhães, José Ângelo da Silva Fernandes, Lênin Novaes de Araújo, Lucy Mary Carneiro, Luiz Carlos Azêdo, Maria Cecília Ribas Carneiro, Martha Arruda de Paiva, Miro Lopes, Orpheu Santos Salles, Sérgio Caldieri e Yacy Nunes. COMISSÃO DIRETORA DA DIRETORIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL Ilma Martins da Silva, Presidente; Manoel Pacheco dos Santos, Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Mirson Murad e Moacyr Lacerda. REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Conselho Consultivo: Rodolfo Konder (Diretor), Fausto Camunha, George Benigno Jatahy Duque Estrada, James Akel, Luthero Maynard e Reginaldo Dutra. REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS José Mendonça (Presidente de Honra), José Eustáquio de Oliveira (Diretor),Carla Kreefft, Dídimo Paiva, Durval Guimarães, Eduardo Kattah, Gustavo Abreu, José Bento Teixeira de Salles, Lauro Diniz, Leida Reis, Luiz Carlos Bernardes, Márcia Cruz e Rogério Faria Tavares.

JORNAL DA ABI • DEZEMBRO DENÃO 2012ADOTA AS REGRAS DO A CORDO O RTOGRÁFICO DOS P AÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA , COMO ADMITE O DECRETO N º 6.586, DE 29 DE SETEMBRO DE 2008. O 385 JORNAL DA ABI


MEMÓRIA

Tortura POR RODOLFO KONDER

E

m 1975, nos subterrâneos da ditadura militar, conheci a tortura – talvez a pior das fraturas da alma humana. Naqueles tempos, multiplicavam-se os regimes autoritários na América Latina. Hoje, felizmente, conquistamos a democracia e vivemos em liberdade. Embora a prática da tortura persista em muitos países, crescem as pressões da opinião pública mundial em defesa dos Direitos Humanos, como parte de uma nova cultura planetária que está surgindo. Diante do torturador, olhamo-nos num implacável espelho. Nossa própria imagem se parte, fragmenta-se em mil pedaços. Isso não nos deixa mais

Direitos Humanos. São os governos, portanto, que as vêm estuprando, em dezenas de países. Nos porões, nas masmorras do mundo todo, porém, alguma coisa perturba a rotina perversa dos torturadores, em seu trabalho de fragmentar, humilhar, estilhaçar, desintegrar – e, freqüentemente eliminar – seres humanos, a serviço de uma ordem, de uma estrutura de poder que depende do medo e da violência para se sustentar, para conservar seus ensangüentados privilégios. O que inquieta os torturadores? Uma convenção, aprovada por consenso na Assembléia-Geral da ONU, vinte e seis anos atrás, e avalizada também pelo Governo brasileiro.

tra questão envolvida. Há cura para a tortura? Podemos – e devemos – punir duramente os torturadores. Mas, e os torturados? O Canadian Center for Investigation and Prevention of Torture (Centro Canadense para Investigação e Combate à Tortura), de Toronto, e o Rehabilitation Center for Torture Victims (Centro de Reabilitação das Vítimas da Tortura), em Copenhague, são as únicas instituições que se dedicam, hoje, à questão da tortura e suas seqüelas, como objeto precípuo de suas atividades. A organização canadense funciona desde 1984; a dinamarquesa, desde 1982. Em ambos os casos, há estudos perturbadores, conELIANE SOARES

espaço, por exemplo, para qualquer crença ingênua na bondade intrínseca dos seres humanos. A experiência da tortura torna as pessoas mais solitárias, deixa seqüelas quase insuperáveis. Sugere até mesmo uma “síndrome do torturado”, semelhante à “síndrome do prisioneiro de guerra”. No mundo inteiro, jornalistas como eu têm sido detidos e torturados por defenderem pacificamente suas opiniões. Eles são vítimas da opressão oficial, como milhares de dissidentes políticos, artistas, intelectuais, menores e mulheres. Na Turquia, nas Filipinas, em El Salvador, na Síria, na Índia, na Etiópia, no Marrocos, temos inúmeros registros de mulheres torturadas, sexualmente humilhadas pelos agentes da lei e da ordem. Mesmo enfrentando graves dificuldades para denunciar as violações dos seus direitos, enfermeiras, professoras, advogadas, juízas, assistentes sociais, estudantes, jornalistas, religiosas, militantes e parentes de pessoas perseguidas têm revelado os abusos estarrecedores cometidos contra elas pelas autoridades. Os governos – cumpre lembrar – são responsáveis pelo respeito às normas internacionais de proteção aos

O documento consagra o princípio de jurisdição universal obrigatória sobre os torturadores. Isso quer dizer que um torturador, a menos que seja extraditado para sofrer processo em outro país, será processado em qualquer nação onde se encontre. Além disso, a convenção impede o repatriamento forçado ou a extradição de pessoas que corram o risco de serem torturadas. Mais: exclui a “obediência a ordens superiores” como defesa contra uma acusação de tortura. Obriga ainda os Estados a investigar quaisquer informações sobre a prática de tortura e de outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes. E cria um Comitê contra a tortura, que examina informes, investiga denúncias, busca esclarecimentos, acolhe reclamações. Para as inúmeras vítimas de tortura, que vivem num campo minado pela memória de horrores muitas vezes indescritíveis, a convenção representou um certo alívio. Digo “certo alívio” porque há aqui ou-

clusões chocantes que envolvem também a configuração de uma “síndrome do torturado”. A vítima carrega pesada carga do passado, sofre uma espécie de inversão moral (vê nas outras pessoas propósitos perversos, intuitos cruéis e posturas mentirosas), convive com um atormentador sentimento de culpa, sofre de depressões freqüentes, sente-se perdida, desorientada, perde o sono ou tem insistentes pesadelos. Sua crença mais profunda no ser humano lhe foi retirada – ou, no mínimo, rudemente golpeada. Relatório recente da Anistia Internacional revela que a tortura é praticada com regularidade “em mais de noventa países”. Assim, podemos concluir que ainda não saímos da pré-História. Se a liberdade de uma pessoa deve significar a liberdade de todas as pessoas, – e o destino dos seres humanos é um só – então cumpre reconhecer que, se alguém está sendo torturado, aqui ou em qualquer outro ponto do planeta, todos nós estamos sendo torturados. Pior: somos todos torturadores. RODOLFO KONDER, jornalista e escritor, é Diretor da Representação da ABI em São Paulo, Diretor Cultural da UniFMU e Conselheiro da União Brasileira de Escritores.

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PREMIAÇÃO

REPRODUÇÃO

Duas mulheres conquistam as principais láureas do Jabuti 2012 A jornalista Míriam Leitão vence na categoria Não-ficção; Stella Maris Rezende, na categoria Ficção.

A lista dos vencedores CAPA A Anatomia de John Gray (Record) LEONARDO IACCARINO

ILUSTRAÇÃO Bananas Podres (Casa da Palavra) FERREIRA GULLAR

ILUSTRAÇÃO DE LIVRO INFANTIL E JUVENIL Mil e Uma Estrelas (SM)

juvenil: enquanto A Mocinha do Mercado Central ficou em primeiro, A Guardiã dos Segredos de Família, também de sua autoria, terminou em segundo. “Acredito que esta tenha sido a primeira vez que um juvenil vence a categoria de Livro do Ano de Ficção”, afirmou a autora, antes de lembrar que faz 33 anos que publicou sua primeira obra. Os vencedores das 29 categorias, anunciados em 18 de outubro, também subiram ao palco para receber seus prêmios, assim como segundos e terceiros colocados. Apenas os ganhadores de cada uma das categorias entram na disputa dos principais prêmios da noite, de Livro do Ano. O primeiro colocado em cada categoria recebeu um troféu e um prêmio em dinheiro no valor bruto de R$ 3 mil. Os vencedores de Livro do Ano levam R$ 30 mil. Rodrigo, um superjurado

Na noite de premiação também foram anunciados os nomes dos jurados. Na apuração da categoria Romance, Rodrigo Gurgel, o jurado C, que enfureceu editores e autores, deu notas muito baixas a alguns concorrentes e altas a outros, definindo, sozinho, os vencedores. O livro Infâmia, de Ana Maria Machado, um dos finalistas na categoria Roman-

Império do Brasil: 1826-1865 (Civilização Brasileira) TÂMIS PARRON

CIÊNCIAS NATURAIS Fundamentos da Paleoparasitologia (Fiocruz) LUIZ FERNANDO FERREIRA KARL JAN REINHARD E ADAUTO ARAÚJO (ORGS.)

CIÊNCIAS DA SAÚDE Clínica Psiquiátrica – A Visão do Departamento e do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP (Manole) EURÍPEDES CONSTANTINO MIGUEL, VALENTIN GENTIL E WAGNER FARID GATTAZ

MARILDA CASTANHA

C OMUNICAÇÃO

ARQUITETURA E URBANISMO

O Império dos Livros: Instituições e Práticas de Leitura na São Paulo Oitocentista (Edusp)

A Arquitetura de Croce, Aflalo e Gasperini (Paralexe)

MARISA NIDORI DEAECTO

Aprendizagem Organizacional no Brasil (Artmed)

CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER

CLAUDIA SIMONE ANTONELLO E ARILDA SCHMIDT GODOY

Saga Brasileira: A Longa Luta de um Povo por Sua Moeda (Record) MIRIAM LEITÃO

Alfabetização no Brasil: Uma História de Sua História (Cultura Acadêmica – Oficina Universitária)

ROMANCE

MARIA DO ROSÁRIO LOMBO MORTATTI (ORG.)

FOTOGRAFIA Os Chicos – Fotografia (Nitro Editorial) LEO DRUMOND

GASTRONOMIA Ambiências: Histórias e Receitas do Brasil (DBA)

ARTES

O Destino das Metáforas (Iluminuras)

INFANTIL

WEYDSON BARROS LEAL

BIOGRAFIA

DIDÁTICO E PARADIDÁTICO

Benjamin: Poemas Com Desenhos e Músicas (Melhoramentos)

TEORIA/CRÍTICA LITERÁRIA A Espanha de João Cabral e Murilo Mendes (34) RICARDO SOUZA DE CARVALHO

TURISMO E HOTELARIA

PROJETO GRÁFICO

DIREITO

POESIA

Direitos da Criança e do Adolescente em Face da TV (Saraiva)

Alumbramentos (Iluminuras)

ANTONIO JORGE PEREIRA JÚNIOR

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KATI FACELI, ANA CAROLINA, JOÃO GAMA, ANDRE CARLOS PONCE

PAULO DE ASSUNÇÃO

Eletrodinâmica de Ampère (Unicamp)

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Inteligência Artificial: Uma Abordagem de Aprendizado de Máquina (Grupo Gen)

A Mocinha do Mercado Central (Globo Livros)

ÁUREO GOMES MONTEIRO JÚNIOR, CELIA CUNICO, MARCIA PORTO E ROGÉRIO COELHO

A Política da Escravidão no

TECNOLOGIA E INFORMÁTICA

JUVENIL

CIÊNCIAS EXATAS

CIÊNCIAS HUMANAS

OSCAR NAKASATO

História do Turismo no Brasil Entre os Séculos XVI e XX (Manole)

JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO

ANDRÉ KOCH TORRES ASSIS E JOÃO PAULO MARTINS DE CASTRO CHAIB

Nihonjin (Saraiva)

BIÁGIO D’ÁNGELO

Mundo Leitor – Linhas da Vida: Caderno do Orientador (Ahom Educação)

Fernando Pessoa: Uma Quase Autobiografia (Record)

REPORTAGEM

E DUCAÇÃO

MARA SALLES

SIDNEY ROCHA

ce, recebeu nota zero de Gurgel. Em nota, a Editora Objetiva manifestou descontentamento e questionou o resultado. Nihonjin, obra de estréia de Oscar Nakasato, foi eleito o melhor romance. Para 2013, novas mudanças devem ocorrer, segundo o curador do Prêmio, José Luiz Goldfarb. “Alguma coisa ocorrerá para que o peso de um jurado não possa ser tão forte”, explicou.

Psicanálise: Uma Arqueologia das Práticas de Cura, Psicoterapia e Tratamento (Annablume)

CONTOS E CRÔNICAS

Para Tim Lopes o prêmio maior de direitos humanos A distinção é concedida pela Presidência da República, através de sua Secretaria de Direitos Humanos.

ECONOMIA, ADMINISTRAÇÃO E NEGÓCIOS

FERNANDO SERAPIÃO

Samico (Bem-te-vi)

DIVULGAÇÃO/RECORD/TOMAS RANGEL

A jornalista Míriam Leitão (foto) e a escritora Stella Maris Rezende foram as grandes vencedoras do Prêmio Jabuti 2012, entregue na noite de 28 de novembro, em São Paulo. O livro-reportagem Saga Brasileira: A Longa Luta de um Povo por sua Moeda (Record), de Míriam, venceu na categoria Não-ficção, e A Mocinha do Mercado Central (Globo Livros), de Stella, venceu na categoria Ficção. É a primeira vez que duas mulheres conquistam os prêmios mais importantes da noite. “Eu estou transbordando de alegria”, afirmou no palco Míriam Leitão, após ter seu nome anunciado pelo apresentador da noite, Carlos Tramontina. “O poder, no sentido amplo, é muito masculino ainda, mas nós estamos avançando. Então, que o Jabuti se prepare para, em outros anos, ter mais mulheres.” Sobre a obra que lhe rendeu o Jabuti, Míriam revelou ter chorado enquanto escrevia certas passagens. “O Plano Collor provocou tragédias pessoais, arquivou planos. Às vezes, eu me emocionava com a persistência do Brasil. Não é a coisa fria, monetária, do dinheiro, era um País refazendo sua trajetória”, confessou Míriam. Além de ganhar o prêmio de melhor obra de ficção, Stella Maris Rezende concorreu contra ela própria na categoria

STELLA MARIS REZENDE

Linha do Tempo do Design Gráfico no Brasil (Cosac & Naify) CHICO HOMEM DE MELO E ELAINE RAMOS COIMBRA

MARIA LÚCIA DAL FARRA

T RADUÇÃO

PSICOLOGIA E PSICANÁLISE

Odisseia (34)

Estrutura e Constituição da

TRAJANO VIEIRA

O maior prêmio do Governo brasileiro para pessoas e instituições que se destacam na defesa dos direitos humanos em 2012 vai homenagear Tim Lopes. O jornalista foi o vencedor, in memoriam, na categoria Mídia, da 18ª edição do Prêmio Direitos Humanos, concedido pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de JaneiroSJPMRJ informou que Tim Lopes foi escolhido, entre outras personalidades, pela “atuação marcada pela consciência humanitária que, inevitavelmente, contribuiu para a ampliação da sensibilidade da sociedade brasileira sobre a necessidade do respeito aos direitos humanos”. A indicação para a premiação foi feita pelo Sindicato em colaboração com Tânia Lopes, irmã de Tim. “Este prêmio é muito importante, pois chega num momento em que os índices de jornalistas vítimas de violência vêm crescendo no Brasil”, destaca a Presidente do Sindicato, Suzana Blass. “O alerta para estes crimes é fundamental, principalmente como prevenção”, completa ela. Tim Lopes foi torturado e assassinado em junho de 2002 por traficantes de drogas quando fazia uma reportagem para a Rede Globo de Televisão sobre venda de drogas e exploração sexual de menores em bailes na Vila Cruzeiro, no bairro da Penha, subúrbio do Rio de Janeiro. “Esta homenagem é uma alegria, um grande reconhecimento em nível nacional da luta de Tim”, comemorou Tânia Lopes. O caso mobilizou a imprensa brasileira em torno dos perigos enfrentados por jornalistas na cobertura de áreas de risco e inspirou as discussões sobre a prática do jornalismo no Brasil, culminando com a criação, em dezembro do mesmo ano, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo-Abraji, segundo informou a entidade.


EVENTO

LEGALIDADE

A ABI contrária à redução dos poderes do MP

Foi numa festa de gala no Golden Room do Copacabana Palace.

Sua presença em investigações é garantia de eficácia e isenção, sustenta declaração da Casa.

Adolfo Martins: Ressaltando o compromisso com o bom e honesto jornalismo.

a cerimônia, ressaltou a importância da premiação e lembrou que ela já faz parte do calendário nacional dos grandes eventos: “Há que se destacar o processo de votação, pelo sistema transparente e democrático que elegeu as Personalidades, num pleito que tem participação brilhante da Associação Brasileira das Agências de Viagens e da Associação Brasileira de Imprensa. Parabenizo cada um dos eleitos pelo trade, pois fizeram por merecer. Aqui fica o nosso reconhecimento pelo muito que têm contribuído para o desenvolvimento do turismo deste País”. Arcírio Gouvêa Neto, Secretário da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI representou a entidade, e disse na abertura da solenidade: “É um contentamento poder representar a ABI numa festa tão bonita. Este é um momento muito importante para todos nós, já que o trade turístico brasileiro tem diante de si desafios significativos pela frente, como preparar a casa para receber os milhares de turistas que virão ao nosso País nos próximos anos e prepará-la de uma tal forma que eles não somente gostem como tenham vontade de voltar. A gente torce para que o Turismo consiga representar uma parcela maior do PIB brasileiro”. O Presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens, Antônio Azevedo, recorreu à poesia para saudar a todos: “Cumprimento aos agraciados como Personalidade do Turismo 2012. Estamos próximos de um novo ano e gostaria de citar a poetisa paranaense, Helena Kolody: É sempre amanhecer para aqueles que caminham ao encontro do sol”. O Presidente do Grupo Folha Dirigida, Adolfo Martins, disse em seu discurso, ao fim da solenidade: “Hoje, cada uma das Personalidades presentes terá seu título legitimado consagrando quem se destaca na área do Turismo. Aproveito para ressaltar o compromisso com o bom e honesto jornalismo que não frauda e nem manipula a informação. Realizamos o debate e abrimos espaços para os atores de todo o segmento do Turismo nas suas diferentes esferas, sejam elas públicas ou privadas. Ressalto que todos que estão aqui promovem a humanização do desenvolvimento e são reconhecidos como empreendedores do turismo nacional”, disse Adolfo Martins.

Em mensagem enviada aos participantes do ato de lançamento da campanha Brasil contra a Impunidade, realizada em Brasília em 11 de dezembro, com a participação de promotores de Justiça, procuradores e senadores e deputados contrários à proposição, a ABI expressou opinião contrária à Proposta de Emenda à Constituição 37, de 2011, que atribui a autoridades policiais a exclusividade das investigações criminais, afastando destas o Ministério Público. A posição da ABI foi manifestada em declaração lida no ato pelo ProcuradorGeral de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, Cláudio Soares de Souza, ao qual a Casa enviou a seguinte mensagem:

“Impossibilitado de fazê-lo de viva voz, pessoalmente, peço-lhe a gentileza de transmitir ao plenário desse relevante encontro a inarredável adesão da Associação Brasileira de Imprensa à luta contra a PEC 37, de 2011, que constituirá inaceitável passo atrás no esforço nacional de combate à impunidade. O Ministério Público, em todos os níveis da Federação, é uma garantia de eficácia e isenção na apuração e responsabilização de delitos de variada natureza e não pode ser afastado da execução dos encargos que vem exercendo com extremado zelo e admirável espírito público. Cordialmente, Maurício Azêdo, Presidente da Associação Brasileira de Imprensa.”

FABIO RODRIGUES POZZEBOM/ABR

Em um clima de reconhecimento, comemoração e confraternização, o Grupo Folha Dirigida realizou no dia 28 de novembro, no Golden Room do Copacabana Palace, durante um jantar, a entrega do 11º Prêmio Personalidades do Turismo. O evento é uma realização do jornal Mercado & Eventos e das revistas FT Brasil e Folha do Turismo, pertencentes ao Grupo Folha Dirigida, com a parceria da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav Nacional) e da ABI. A premiação reconhece, através de votação democrática, de forma direta e secreta, por meio eletrônico junto ao trade do Turismo, as dez personalidades e três instituições que mais se destacaram ao longo de 2012. Neste ano os eleitos que receberam suas placas foram Antônio Américo, diretor comercial da Azul Linhas Aéreas Brasileiras; Domingos Leonelli, Secretário de Estado de Turismo da Bahia e Presidente do Fornatur; Flávio Dino, Presidente da Embratur; Juarez Cintra Filho, Presidente do Grupo Ancoradouro; Luis Paulo Luppa, Presidente da Trend; Marco Ferraz, Presidente da Braztoa; Mário de Carvalho, Diretor da Tap Portugal para Brasil e América Latina; Michael Barkoczy, Presidente da Flytour Viagens; Renê Hermann, Presidente do Grupo Costa Cruzeiros para a América do Sul; Toni Sando, Presidente Executivo do São Paulo Convention & Visitors Bureau; Instituições: Avianca; Aviesp (Associação das Agências de Viagens do Interior do Estado de São Paulo); Avirrp (Associação das Agências de Viagem de Ribeirão Preto e Região). O Secretário Nacional de Políticas de Turismo, Vinícius Lummertz, representou o Ministro Gastão Vieira na solenidade: “Fiz questão de prestigiar este evento por ser uma grande festa do nosso setor. Afinal de contas, o Ministério do Turismo tem sido parceiro constante de todo o setor. O prêmio é um importante reconhecimento para quem o recebe. Temos muito forte a cultura da crítica no Brasil e uma iniciativa deste tipo ajuda a reconhecer as pessoas que se dedicam ao Turismo e constróem exemplos de trabalho e conduta. Parabéns ao Mercado & Eventos por essa iniciativa”, afirmou Lummertz. A Senadora Lídice da Mata (PSB/BA) expressou sua alegria em participar da festa e prestigiar principalmente o Secretário de Turismo da Bahia, Domingos Leonelli, pela sua eleição como Personalidade do Turismo: “Sem dúvida este é um grande momento, principalmente porque vem premiar um Estado que tanto investe no turismo. A homenagem a Domingos Leonelli é mais do que merecida pelo trabalho que vem realizando à frente da Secretaria de Turismo, assim como no Fornatur”, lembrou. O Secretário de Turismo do Estado do Rio de Janeiro e Presidente da TurisRio, Ronald Ázaro, representou o Governador Sérgio Cabral e foi convidado a subir ao palco para entregar a placa Personalidade do Turismo a Domingos Leonelli, Secretário de Turismo da Bahia. Ele falou da sua satisfação e da importância da festa. “Fico feliz e honrado em poder participar deste encontro do turismo brasileiro em uma noite tão brilhante.” O Vice-Presidente Executivo do Mercado & Eventos e Folha do Turismo, Roy Taylor, ao abrir

FOLHA DIRIGIDA

Turismo premia suas Personalidades

O Presidente da Câmara, Deputado Marco Maia, recebeu o apoio da ABI.

Poder de cassar é da Câmara, diz a ABI A ABI manifestou-se, em 11 de dezembro, contra a tentativa de membros do Supremo Tribunal Federal de cassar sem audiência da Câmara Federal os mandatos dos Deputados João Paulo Cunha, Valdemar Costa Neto e Pedro Henry, condenados a penas de prisão e perda do mandato no julgamento da Ação Penal 470. A cassação dos mandatos, decidida pelo voto de desempate do Ministro Celso de Mello, após o placar de 4 a 4 verificado na sessão de 10 de dezembro, é apontada pela ABI como “inadmissível colisão com o artigo 55, parágrafo 2º, da Constituição da República”.

A posição da ABI foi comunicada ao Presidente da Câmara, Deputado Marco Maia (PT-RS), no seguinte telegrama: “A Associação Brasileira de Imprensa congratula-se com Vossa Excelência pela vigorosa defesa das prerrogativas do Poder Legislativo, alvo neste momento de ameaças totalitárias de membros do Supremo Tribunal Federal, que pretendem atropelar as disposições constitucionais para cassar mandatos parlamentares, em inadmissível colisão com o artigo 55, parágrafo 2º, da Constituição da República. À frente de seus pares, resista, Presidente Marco Maia! Atenciosamente, Maurício Azêdo, Presidente da ABI.”

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TANIA REGO/ABR

GASTANÇA Obras a pleno vapor no Maracanã: estádio irá gerar um lucro astronômico para o concessionário.

Copa 2014 e Jogos 2016, uma farra com dinheiros públicos Um oba-oba com que a mídia é conivente dissipa recursos com obras perdulárias e planeja destruir bens de grande valor social. P OR D ANIEL M AZOLA

Estabeleceu-se no País uma enorme polêmica sobre a aplicação de recursos públicos destinados à execução da Copa do Mundo 2014 e dos Jogos Olímpicos 2016. Mas é principalmente no Rio de Janeiro, cidade sede dos Jogos Pan-Americanos em 2007 e que abrigará as duas maiores competições do mundo nessa década, que as polêmicas e crítica ficam mais evidentes. Simplesmente porque, mais uma vez, medidas são tomadas com os dinheiros públicos, ferindo o interesse coletivo e garantindo o lucro da iniciativa privada. A insatisfação se estabeleceu, primeiro, porque muito pouco foi aproveitado do mega-evento que a Cidade acolheu há apenas cinco anos, e ainda está prevista a demolição de praças esportivas no complexo do Estádio do Maracanã, local onde pretendem construir estacionamentos de carros para os dois únicos jogos do Campeonato Mundial de Futebol que ocorrerão no Rio. Segundo, porque após tantos empréstimos aprovados na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro para reformar o Estádio do Maracanã, o palco popular de partidas antológicas será cedido por 35 anos à iniciativa privada. Para aumentar ainda mais o drama das polêmicas sobre os mega-eventos, a previsão inicial era de que as obras, só para a Copa do Mundo, deveriam consumir em todo o País cerca de R$ 23,36 bilhões, mas estimativas já apontam para um total de quase R$ 100 bilhões até 2014. Números oficiais apontam que 98,56% do 20

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dinheiro destinado à execução da Copa do mundo sairão dos cofres públicos, contra apenas 1,44% da iniciativa privada. Dinheiro que poderia ser investido em escolas, hospitais, moradia, saneamento, cultura, etc. Metade dessa bolada inimaginável sairá do BNDES e da Caixa Econômica Federal, isto sem contabilizar os recursos que serão destinados para a execução dos Jogos Olímpicos do Rio e que também entrarão nessa fatura dos bilhões públicos. Sorvedouro de milhões

O mundialmente conhecido Estádio do Maracanã, que leva o nome do jornalista Mário Filho e foi imortalizado pela genialidade de jogadores como Pelé, Zico, Garrincha, Roberto Dinamite, Rivelino, Romário, entre tantos outros deuses do esporte, com suas jogadas e lances que ficaram colados na retina de todos aqueles que tiveram o privilégio de vivenciar momentos gloriosos no palco sagrado do futebol brasileiro; celebrado por cronistas especiais ou através das lentes do ‘Canal 100’, onde observávamos nas salas de cinema os torcedores – ‘figuraças’ – com aqueles aparelhos de rádio gigantes colados ao pé do ouvido, os semblantes impagáveis de arquibaldos e geraldinos em puro êxtase e euforia. Tudo isso é passado, quem viveu viveu! Agora, o nosso Maraca passa por um drama maior que o passado na final da Copa do Mundo de 1950, quando o Brasil perdeu a final para o Uruguai por 2 a 1. A tragédia começou quando foi anunciado pelas autoridades que o Estádio do Maracanã seria cedido à iniciativa priva-

da, isto após várias reformas, inclusive para os Jogos Pan-Americanos. Só na última e maior reforma, há mais de cinco anos, 869 milhões de reais, montante em que não se contabilizam os mais de R$ 300 milhões gastos em outras instalações dos Jogos. Naquele momento, o então Secretário de Esportes do Governo do Estado, Eduardo Paes, afirmou: “Uma coisa é certa, o Maracanã é imprivatizável. Ele é um símbolo muito forte do Rio, e vai continuar sendo público. Queremos torná-lo rentável, explorar melhor os usos que ele pode ter”. Em 2007, as praças esportivas Célio de Barros e Júlio Delamare foram reformadas e adequadas para os Jogos Pan-Americanos e agora não valem para 2014, e não serão utilizadas para os Jogos Olímpicos em 2016, nem para o planejamento e treinamento dos atletas. O Maracanãzinho é outro exemplo da leviandade dessas decisões e de como nossos governantes agem tomando medidas inacreditáveis com o dinheiro público. O mais tradicional ginásio poliesportivo da Cidade do Rio, conhecido com Estádio do Maracanãzinho, palco de diversos espetáculos, atualmente tem capacidade para um público de 11.800 pessoas, porém o Comitê Organizador dos Jogos definiu que são necessários no mínimo 12.000 lugares sentados. Então será necessário nova reforma. E quem vai pagar? E ainda há a impressionante decisão de demolir o velódromo construído para os Jogos de 2007 e que também não servirá para 2016. A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos deveriam ser grandes eventos espor-

tivos e culturais que garantissem melhorias efetivas para o povo brasileiro, mas a exemplo do que ocorreu após os Jogos PanAmericanos, quase nada ficará em benefícios que venham a atender às demandas e necessidades da população de baixa renda e da sociedade como um todo. Não bastasse a demolição do Maracanã, para dar lugar a um estádio totalmente elitizado, para consumidores de alta renda e turistas, também está prevista a destruição do Parque Aquático Júlio Delamare e do Estádio de Atletismo Célio de Barros. Muitos atletas, estudantes, crianças, moradores da região, etc, que convivem e utilizam essas praças esportivas não concordam com isso. Existem diversos projetos sociais acontecendo há muitos anos nesses espaços; centenas de atletas treinam diariamente no complexo. Até agora não houve reunião de representantes do Governo com esses profissionais, usuários e atletas; ninguém foi consultado, nem informado. Segundo o edital de licitação divulgado em 22 de outubro, a concessão custará à empresa que ganhar o contrato para administrar, por 35 anos, o espaço do complexo do Maracanã um aluguel de R$ 7 milhões ao Estado. No final das contas, o Estado, vai arrecadar o valor de R$ 245 milhões. Vamos ficar apenas com 26% dos R$ 869 milhões já gastos de dinheiro público. Especialistas estimam que o estádio vai gerar R$ 154 milhões por ano à empresa vencedora, que terá um gasto de R$ 50 milhões. A previsão é que os recursos investidos pelo concessionário sejam quitados em 12 anos e o lucro total chegue a R$ 2,5 bilhões. Flechadas nos índios

A língua tupi exerceu forte influência sobre o português falado no Brasil. Maracanã é uma dessas palavras que usamos no dia-a-dia, originária dessa importante cultura. Pois bem, no complexo do Estádio do Maracanã existe uma ocupação indígena no mesmo local onde foi o antigo Museu do Índio, um imóvel que caso seja destruído só pode ser interpretado pelos cidadãos como ato que lesa o patrimônio cultural da Cidade do Rio de Janeiro. Foi nesse local, onde hoje é o bairro do Maracanã e depois viria a ser construído o maior estádio de futebol do planeta para a Copa do Mundo de 1950, que em 1865 o Duque de Saxe doou seu imóvel e terreno de 14.300 metros ao Império do Brasil para a Pesquisa da Cultura Indígena. Por volta de 1905 o local foi transformado em Museu do Índio pelo Ministério da Agricultura para sediar o Serviço de Proteção ao Índio-SPI, que depois deu origem à Fundação Nacional do Índio-Funai comandada pelo Marechal Cândido Rondon, que funcionou no local até 1972, quando o antropólogo e professor Darcy Ribeiro instalou ali o Museu do Índio, que funcionou até 1976. Preservar o local e torná-lo um novo espaço cultural para a Cidade, de preferência ligado aos indígenas, para ensinar e divulgar nossa História para as novas e futuras gerações, deveria estar nos planos dos nossos governantes para os dois megaeventos; seria um ótimo legado. O turismo também seria muito beneficiado. Mas a realidade é outra: a demolição do imóvel dará lugar a estacionamentos de automó-


veis. O líder dos indígenas que ocupam o local há mais de cinco anos, cacique Carlos Tucano, reivindica que as autoridades ofereçam como alternativa “um lugar digno”, caso o prédio do antigo museu seja demolido. A Defensoria Pública da União no Rio de Janeiro ajuizou uma ação civil pública pedindo a preservação e recuperação do prédio histórico. O pedido de liminar, feito no dia 24 de outubro à Justiça Federal, contempla tanto a preservação do imóvel quanto o cumprimento da missão do Museu, que é divulgar a cultura indígena. Diversas entidades e movimentos sociais também se opõem à intenção de demolir o prédio. O historiador Milton Teixeira é um dos defensores da preservação do espaço tanto por seu aspecto histórico quanto cultural. O drama da Escola Friedenreich

Uma promessa quebrada

Circulando entre o interior e o exterior do Galpão da Cidadania, a Promotora Pública Bianca Mota de Moraes, da 1ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Proteção à Educação, disse estar acompanhando o caso desde 2009. “A comunidade escolar tinha nos sinalizado sobre isso. Investigamos e buscamos saber do Estado e do Município se essa demolição ocorreria. Recebemos em agosto deste ano a resposta do Estado de que as obras no Maracanã não alcançariam a demolição da escola, tanto que já tínhamos dado a questão por resolvida”, disse ela. A Promotora afirmou ter entregado ao Chefe de Gabinete da Casa Civil cópia do ofício da Secretária Estadual de Obras afirmando que a escola não seria demolida. Com o anúncio da demolição, Bianca diz que o objetivo maior agora “é garantir a continuidade do direito à educação desses alunos. Que a comunidade escolar continue íntegra, que ela não seja segmentada e fragmentada”. Segundo ela, a Promotoria tentará que o diálogo seja pro-

Plebiscito contra a privatização

A Frente Nacional de Torcedores, o Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro e o movimento O Maraca é Nosso, entre outras entidades da sociedade civil, e parlamentares do Rio estudam a possibilidade de convocação de um plebiscito popular sobre o destino da administração do Maracanã. A alternativa foi debatida no dia 8 de novembro em meio à questionada audiência pública convocada pelo Governo do Estado para apresentar o projeto de concessão do complexo esportivo, como forma de minorar os males já feitos ao local. Arquibaldos e geraldinos argumentam que se o estádio foi desfigurado e que ao menos não seja entregue para a administração privada

dutivo, que não se precise chegar às vias judiciais, com uma ação civil pública. Do lado de fora do Galpão, o Deputado estadual Paulo Ramos (PDT) afirmou que não houve ambiente para o encontro. “Não podemos considerar que foi realizada a audiência pública. Mas pelo menos a mensagem do público foi ouvida, e é aquela que nós sabemos: a obra do Maracanã é um absurdo, como não atendia às exigências da Fifa com uma obra de mais de R$ 1 bi? Depois disseram que não acabariam com o Júlio Delamare e com o Célio de Barros, agora vão acabar e ainda incluíram a Escola e o Museu do Índio. Tudo para entregar ao Eike Batista, porque o objetivo é exatamente este! Então a população já não agüenta mais”. O sociólogo e vereador eleito Renato Cinco (Psol) aponta a alternativa do plebiscito como uma das prioridades de seu mandato a partir de 1º de janeiro. “Hoje o nosso objetivo é conseguir o debate sobre a privatização. O Governo quer discutir o modelo de privatização, mas não quer discutir se deve ou não privatizar, que deve ser o primeiro debate. Vamos brigar por isso, essa consulta à população para a Copa das Confederações acontecer com o Maracanã nas mãos do Estado”, afirmou ele, que classificou a tentativa de audiência pública no Galpão da Cidadania, na zona portuária, como um “arremedo de democracia” ao tentar legitimar uma decisão que o Governo tomou sem consultar a população. Também inconformada com a atuação do Governo tanto nas obras do Maracanã quanto na condução da audiência pública, a Deputada Janira Rocha (Psol) é favorável ao cancelamento da reunião no Galpão da Cidadania: “Vamos constituir uma representação ao Ministério Público e pedir um encaminhamento para as instâncias judiciais no sentido de anular isto aqui. Não foi possível haver um debate sobre a proposta em si”.

ência para debater o destino do Maracanã e decidirmos se sua gestão continuará pública ou se será privatizada via concessão. É fundamental que a população participe deste debate previamente. A democracia precisa ser garantida. O Maracanã é um patrimônio histórico e cultural de valor inestimável. Compreender a importância do Maracanã é compreender que ele não é somente um edifício ou um equipamento de entretenimento que deve ser rentável, mas sim um monumento que carrega parte da memória de nossa gente”, afirmou Mehl. Após a intervenção de outros participantes, inclusive parlamentares, a maioria pedindo a suspensão do encontro, e o silêncio dos representantes do Governo, o clima ficou tenso e torcedores se manifestaram com um grande apitaço antes de virarem as costas e saírem do local, no que foram seguidos por 80% da audiência da reunião. Lá fora os protestos seguiram sob observação da tropa de choque da Polícia Militar.

Laboratórios ameaçados

TANIA REGO/ABR

Outro elemento extremamente polêmico: também vão demolir uma escola pública para atender às exigências da Fifa, a Escola Municipal Friedenreich. Professores, funcionários, alunos e pais estão extremamente preocupados, sem qualquer informação e satisfação: não foram procurados pelo Governo do Estado ou pela Prefeitura, só sabem através da imprensa que deverão ser transferidos para um espaço que será cedido pelo Exército no bairro de São Cristóvão. Mas até hoje não existe nada de concreto, não há notícias que a tal empreitada tenha começado para abrigar a Escola Municipal Friedenreich. Essa escola municipal é motivo de orgulho para toda a comunidade carioca, pois tirou 10º lugar nacional no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica–Ideb. Lá estão matriculados mais de 300 alunos e é ela a única da rede municipal que tem uma quadra poliesportiva fechada. Além de tudo, é uma escola que recebe bem alunos portadores de deficiência. É justamente essa escola que vai abaixo para a construção de um gigantesco estacionamento. Agora, o que pode ser mais importante para a sociedade: a manutenção de um trabalho educacional que está dando certo, onde alunos e professores estão perfeitamente entrosados e satisfeitos, ou construir estacionamentos que ficarão vazios a maior parte do tempo? A resposta é óbvia. Há um paradoxo da demolição pretendida: Friedenreich foi um dos maiores artilheiros do futebol brasileiro, cujo renome só foi superado pelo aparecimento de Pelé e pela justificada fama que este alcançou.

após o fim das reformas para a Copa 2014 e a Olimpíada 2016. Cerca de mil pessoas participaram do início da audiência não reconhecida por setores da sociedade civil e por um grupo de Deputados estaduais presente ao local, entre eles Paulo Ramos (PDT), Janira Rocha (Psol) e Nilton Salomão (PT). O encontro foi capitaneado por Régis Fichtner, Secretário da Casa Civil do Governo do Estado, o qual tentou apresentar o projeto que concede à iniciativa privada a gestão como “readequação” do local (com a demolição do Estádio de Atletismo Célio de Barros, do Parque Aquático Julio Delamare, da Escola Municipal Friendenreich e do antigo Museu do Índio), com a operação e manutenção do estádio e seu entorno por 35 anos. Lembrou Fitchtner que segundo os dados oficiais a concessão custará R$ 7 milhões anuais por 35 anos à empresa que vencer a licitação. Ao final, o Governo arrecadará R$ 245 milhões. De acordo com parlamentares e entidades da sociedade civil, o Governo do Estado já gastou R$ 869 milhões nas atuais obras do Maracanã. A reprovação da audiência pública foi feita após várias denúncias dos participantes, divididos entre torcedores, atletas, pais de alunos e usuários dos equipamentos esportivos, que iam da falta de convite a representantes do Ministério Público e da Secretaria Municipal de Educação (responsável pela Escola Friendenreich) até à ostensiva presença de seguranças à paisana cercando a mesa de representantes do Governo e circulando entre os presentes. Sandra Pampanela, mãe de duas alunas da escola, questionou o caráter do encontro. “Que audiência pública é essa? Nenhuma dessas obras é de interesse público, elas são de interesse dos concessionários”, disse ela. Assim que a reunião foi aberta, Gustavo Mehl, do movimento O Maraca é Nosso, leu carta de diversas entidades e representantes dos afetados pela obras do Maracanã e pediu que o encontro fosse cancelado. “Esta audiência não é legítima, exigimos que seja convocada uma nova audi-

Apesar de centenário, o prédio do Museu do Índio, que está ocupado por cerca de 20 índios de diversas etnias, não é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Durante a polêmica Audiência Pública, conversei com professores, atletas, alunos, indígenas, políticos, representantes de movimentos sociais e de grupos em defesa da manutenção de diversas atividades que ocorrem no complexo do Maracanã. Mas o dado novo que chamou a atenção chegou através das mãos de uma mulher de cabelos grisalhos e voz firme: era um ‘Manifesto em defesa da saúde da população do Rio de Janeiro’ O texto alerta a população fluminense consumidora de alimentos e bebidas, ou seja, todos os habitantes do Estado, caso um importante complexo composto de vários laboratórios de análises pertencentes ao Governo Federal (funcionando ao lado do Museu do Índio) seja extinto, estará em risco toda a rede de abastecimento dos alimentos de origem animal e vegetal que entram no Estado do Rio para consumo humano. Trata-se dos Laboratórios do Lanagro, importante instituição que existe desde 1938, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Esses laboratórios de utilidade pública são custeados com o dinheiro de impostos. Ao longo dos anos, foram extremamente úteis para a preservação da saúde da popuJORNAL DA ABI 385 • DEZEMBRO DE 2012

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MARCELO CAMARGO/ABR

POLÊMICA

lação, já que inúmeras contaminações de alimentos e bebidas foram detectadas. As bebidas alcoólicas, os alimentos enlatados, as carnes, o leite, o amendoim, o café, agrotóxicos, entre outros, podem ser causadores de diversas doenças graves, caso não sejam analisados. Caso ocorra a paralisação das atividades laboratoriais, em virtude da construção dos polêmicos estacionamentos para 2014 e 2016, todos os consumidores fluminenses ficarão sujeitos às doenças, endemias e epidemias causadas por vírus e bactérias que infectam alimentos sem tratamento e fiscalização sanitária de forma adequada. Essa é outra polêmica que demanda decisões corretas e respostas rápidas para a população. O saldo pode ser dramático

DANIEL MAZOLA, jornalista e Conselheiro da Casa, é membro da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos.

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A Seleção Feminina de Vôlei, bi-campeã olímpica, desfila em carro aberto pelas ruas de São Paulo: medalhas das atletas não são contabilizadas.

Os equívocos em torno das medalhas olímpicas É um erro destacar os medalhistas individuais, em detrimento dos integrantes de equipes de esportes coletivos, diz o Presidente do Conselho Federal de Educação Física, Professor Jorge Steinhilber. de a Carta Olímpica se referir à importância da medalha, a mídia não destaca as medalhas dos esportes coletivos. Queremos que a mídia brasileira reflita a respeito deste contexto.

P OR C LÁUDIA S OUZA

A proximidade da realização de eventos como a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 suscitam no Brasil o debate de temas relacionados aos esportes. O Conselho Federal de Educação Física-Confef pretende organizar, em parceria com a ABI, um seminário para discutir o atual sistema de classificação dos países nos Jogos Olímpicos. O objetivo do encontro, que vai reunir profissionais da mídia e do esporte, é destacar a importância do incentivo à prática e ao investimento em esportes coletivos no País e valorizar o medalhista, como detalha, na entrevista a seguir, o professor Jorge Steinhilber, Presidente do Confef.

Jornal da ABI – Qual é a origem da classificação de países por medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos? Steinhilber – De acordo com o entendimento geral, a classificação dos países nos Jogos Olímpicos, resultante do cômputo de medalhas de ouro, é determinação e deliberação do Comitê Olímpico Internacional (COI). Essa compreensão é um equívoco e é aceita de modo acrítico. Na verdade, não existe nenhuma regra estabelecida pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB). A mídia, alguns parlamentares e dirigentes desportivos imaginam que esta norma existe. A Carta Olímpica Internacional, o Estatuto do Movimento Olímpico – que rege os Jogos Olímpicos –, não permite classificação oficial nos Jogos Olímpicos por países. Ela deixa claro que os Jogos devem ser realizados entre

REPRODUÇÃO

Enquanto diversas demandas da sociedade e políticas públicas são represadas, bilhões são gastos para garantir os mega-eventos. Até mesmo uma fundamental e necessária instituição histórica como a ABI, que lutou muito e bravamente para que o Brasil de hoje viva em plenitude democrática, continua aguardando que se revoguem medidas adotadas contra a entidade, principalmente as que cassaram seu status de entidade beneficente de assistência social. Fiscais da União impõem o pagamento de encargos e multas que se não forem anulados levarão à extinção da Casa que é um orgulho do povo brasileiro. Muitas medidas estão sendo adotadas a todo custo para garantir a realização desses mega-eventos. Dessa forma o balanço final deverá ser trágico: os torcedores serão extremamente afetados pela elitização do futebol, geraldinos e arquibaldos não vão passar nem perto dos estádios, que serão transformados em “arenas” assépticas que inviabilizam nossa cultura e forma de torcer; tradicionais praças esportivas darão lugar a estacionamentos; os trabalhadores de classe média e baixa vão sofrer com a especulação imobiliária e o aumento do custo de vida em função da supervalorização de certas áreas da cidade. Arbitrariedades já foram cometidas e está prevista a remoção de mais de 150 mil famílias em comunidades por todo o Brasil. Agora que mencionei as principais polêmicas estabelecidas nessa importante questão, indago: qual é o lugar do mundo em que, para reformar um estádio de futebol, se bota abaixo um museu, uma escola e duas praças esportivas de treinamento e competições. O mais sensato, justo e democrático seria o Governo atender à reivindicação dos grupos afetados e realizar o plebiscito, só no Rio de Janeiro, para decidir se o complexo do Maracanã deve ou não ser privatizado. A Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 são os mais importantes eventos esportivos e culturais do mundo e por isso mesmo precisam ser alavancas que garantam melhorias efetivas para o povo e atendam às demandas da sociedade. Esse é o legado de que nós brasileiros precisamos e esperamos.

atletas e o que vale é a medalha. O atleta medalhista é quem tem valor. Sendo assim, o atual modelo de classificar os países pela conquista de medalhas de ouro ou por somatório de ouro, prata e bronze não reflete os ideais olímpicos. Entretanto, a mídia, em geral, desconsidera as medalhas dos esportes coletivos. Jornal da ABI – Qual é o objetivo de incentivar a discussão sobre as mudanças na classificação dos Jogos Olímpicos? Steinhilber – O Comitê Olímpico Internacional e os Comitês Olímpicos nacionais não estabelecem qualquer classificação global por país. Em função disso, o nosso propósito está relacionado a uma injustiça que está sendo feita com os esportes coletivos, com as provas de conjunto e com as provas de revezamento. Apesar

Jornal da ABI – Em que momento o atual ranqueamento começou a ser adotado? Steinhilber – Os Jogos Olímpicos da era moderna foram resgatados pelo Barão de Coubertin, pedagogo e historiador, que destacava o esporte como fator de educação, de saúde e de formação cidadã. Ele resgatou o ideal olímpico para interromper a guerra e promover a confraternização entre atletas de todo o mundo. Não havia nenhuma intenção de se estabelecer que país conquistaria mais ou menos medalhas. Contudo, na década de 1950, no período da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, os Jogos Olímpicos foram transformados numa espécie de guerra de medalhas. Os EUA começaram a classificar os países por medalha de ouro, porque ele conquistara mais medalhas de ouro. Como vivemos em um mundo capitalista, que incentiva a exacerbação do vitorioso, eles mantiveram este tipo de classificação. Os veículos de comunicação de todo o mundo, de modo geral, passaram a classificar desta forma. Não sou contra a classificação e nem pretendo fazer um resgate do passado. Só não concordo que a classificação seja feita apenas pela medalha de ouro. Penso que as medalha de prata e de bronze devem receber aplausos tanto quanto a medalha de ouro. Jornal da ABI – Como surgiu a idéia de debater este tema? Steinhilber – Comecei isso há dois anos, quando me envolvi mais diretamente no Movimento Olímpico. Comecei a ler sobre o assunto, a procurar a Carta Olímpica e me


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Jornal da ABI – No atual cenário, qual o papel da imprensa no projeto de mudança da classificação nas Olimpíadas? Steinhilber – Acredito que a mídia brasileira pode dar um salto de qualidade em um resgate democrático relacionado à injustiça com os esportes coletivos. Se a Carta Olímpica estabelece que o mais importante é o atleta, o medalhista, nós defendemos que deveria ser contado o número total de medalhas que os atletas receberam. Por que nos esportes coletivos a mídia considera apenas uma medalha para o quadro de classificação? Esta situação vai contra a Carta Olímpica, que afirma que o que vale é o medalhista. Deveríamos somar todos os medalhistas. A mídia diz que o Brasil ganhou 17 medalhas, mas 59 atletas brasileiros subiram ao pódio nas Olimpíadas. Precisamos conjugar o texto da Carta Olímpica a um processo mais ético e democrático de valorização de todas as medalhas. A mídia brasileira poderia aproveitar a oportunidade dos Jogos Olímpicos no Brasil, país que enfatiza culturalmente o esporte coletivo, e dar o mérito a todos os atletas. Por que a mídia brasileira não pode usar o critério para todos os medalhistas? Jornal da ABI – A mudança na classificação modificaria o ranking de países vencedores? Steinhilber – Não estamos defendendo esta tese para melhorar a classificação brasileira no ranking, pois no momento em que fizermos isso todos os demais países também terão o total de suas medalhas somado. Com a mudança os Estados Unidos e a China, por exemplo, não mudariam de patamar, mas os países do meio do ranking mudariam um pouco, incluindo o Brasil, que avançaria duas ou três classificações. Haveria mudanças substanciais no caso da Jamaica, que tem sete medalhas, sendo quatro de ouro. Este país ficaria muito bem classificado por medalha de ouro. O Canadá, que ganhou 30 ou 40 medalhas e só ganhou uma de ouro, ficaria lá embaixo. Então, se somarmos tudo isso, há uma mudança que eu entendo como democrática e justa. Não é porque um país trabalha dois ou três esportes que deveria estar bem classificado. A Hungria, por exemplo, investiu em levantamento de peso, ganhou três ou quatro medalhas, e em luta grego-romana, conquistando duas ou três medalhas. Está no quadro de classificação com 7 ou 8 medalhas e entre os 10 países mais bem classificados em medalhas de ouro. Mas o que este país fez pela saúde, pelo desenvolvimento do esporte em geral? Nada. Jornal da ABI – O senhor acredita que no caso brasileiro o investimento em esporte coletivo ficaria comprometido? Steinhilber – Considero perigoso para o Brasil o fato de que a nossa Presidente Dilma Rousseff, quando terminou os Jogos de Londres, ter percebido que a medalha individual poderia valer mais do que medalha de ouro. Ela disse, na oca-

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deparei com esta situação. Eu também pensava que existisse uma regra. Há mais de 20 anos, o professor Manoel Gomes Tubino publicou um livro sobre o tema. Atualmente, o Comitê Olímpico Brasileiro já está falando sobre o assunto, defendendo o somatório de todas as medalhas na classificação. Recentemente, participei de um evento do COB e fiquei feliz em perceber que ele estava usando o seguinte mote: Brasil Top 10 - pelo total de medalhas. Em um seminário promovido pelo jornal O Globo sobre as Olimpíadas o assunto também foi levantado.

sião, que deveríamos investir mais em esportes individuais. Porém, a cultura brasileira sempre valorizou os esportes coletivos. A proposta que estamos trazendo não se resume apenas à mudança na classificação; não podemos perder de vista a nossa cultura de valorização do esporte coletivo e também dos atletas. Se a classificação ficar do jeito que está, é mais interessante para um país investir em 30 atletas de atletismo do que investir em 30 atletas de voleibol. Porque 30 atletas de atletismo poderão ganhar até 30 medalhas. Já no voleibol, apenas uma. Se pensarmos pela lógica capitalista, pela exarcebação da vitória e da medalha, é lógico que qualquer país vai preferir gastar os seus recursos em esportes individuais. O handebol é muito jogado em nossas escolas. O voleibol é praticado em todos os lugares. Somos o país do futebol. No basquete também conquistamos uma boa participação. Temos os esportes coletivos na nossa tradição. Jornal da ABI – O senhor vem buscando apoio para debater a mudança no ranqueamento com profissionais de comunicação. Como avalia o retorno? Steinhilber – Procuramos a ABI para uma parceria neste sentido. Vamos organizar o primeiro debate no início de 2013, com a participação de ex-atletas olímpicos e jornalistas. Tenho conversado com vários profissionais de imprensa e todos se mostram surpresos – com o fato de não haver uma regra definida sobre classificação – e receptivos em relação às mudanças. Nosso objetivo é ajudar a mídia a refletir e alertá-la para quatro situações concretas e básicas. A primeira é que não existe regra oficial sobre isso, portanto a mídia pode dar um enfoque diferente; em segundo lugar, não permitir que se mude a nossa cultura e manter os esportes coletivos como um processo de desenvolvimento do País; em terceiro lugar é resgatar o que está na Carta Olímpica, ou seja, o que vale é a medalha e o atleta; e em quarto lugar, é lembrar que a mudança na classificação tornaria o sistema mais democrático. Se conseguirmos fazer com que a mídia entenda isso através de seminários e fóruns será muito válido. A medalha de esportes coletivos é mais trabalhosa em função do investimento em vários atletas. É muito mais caro investir em esporte coletivo do que no individual. No entanto, a mídia destaca o contrário. Jornal da ABI – A proximidade de competições esportivas como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 pode contribuir para o debate? Steinhilber – O Brasil vem conquistando estabilidade econômica e política e credibilidade no exterior. É um País vitorioso ao conseguir sediar três megaeventos esportivos como a 5ª edição dos Jogos Militares, a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Este é o momento de nos tornarmos protagonistas de mudanças de caráter ético e democrático. A mídia é quem vai decidir. Se ela concordar com esta idéia, poderá passar a divulgar a classificação desta maneira. Não é preciso mudar nada, já que não existe regra. A nossa mídia pode ser independente do resto do mundo e questionar os padrões internacionais. Temos vários grotões de comunidades menos favorecidas no País. Precisamos deste incentivo para desenvolver o esporte porque ele contribui para a equidade social, para o processo educativo. Não sou contra o investimento em esportes individuais, mas precisamos lembrar o papel social dos esportes coletivos.

NU AO SOL, PIERRE AUGUSTE RENOIR. ÓLEO SOBRE TELA, C1875. MUSEU D'ORSAY-PARIS.

Renoir: Mulheres da Primavera POR PAULO R AMOS D ERENGOSKI

Pierre Auguste Renoir (1841-1919) foi o pintor da alegria, do sol, da música, das gordas mulheres nuas e evanescentes. Nascido na região pedregosa do Limousin, começou a trabalhar ainda meninote, pintando porcelana. Aos 21 anos desembarcou em Paris e logo ficou amigo de Monet, Pissarro, Cézanne, Degas, Manet – todos artistas das coisas simples, da gente comum, das mulheres do povo, das luzes coloridas das cidades e campos. Com Renoir e amigos nasceu o Impressionismo, essa mescla do movimento com os reflexos tremeluzentes da natureza. O fim dos planos fixos, das atitudes hieráticas, das poses e protocolos. Mas as massas não aceitaram os impressionistas! Riam deles: riso dos tolos... Que logo se transformou em lágrimas com a Guerra Franco-Prussiana de 1870. Só após a carnificina é que se redescobriu o valor da alegria de viver, dos parques, das festas, das flores, do nudismo, do Impressionismo. A partir de 1890 Renoir é famoso não só na França, mas em todo o mundo. Suas mulheres nuas, fisicamente palpáveis, corporificadas, vivas, opulentas, são disputadas pela elite mundial a peso de ouro. Ele fica rico e, como todo milionário francês, se manda para o Sul, para o iluminado Midi, em busca do encontro do sol com o mar, onde o momento tem o valor da imortalidade. Mas as guerras sempre voltam e o pano vermelho da tragédia de 1914 termina com a “Be-

lle Époque”. Já não há bailes, nem luzes, nem quadros alegres. O mundo dos impressionistas durou pouco! As delicadezas e ternuras dos pintores amigos de Renoir vão durar para sempre. O otimismo, a leveza, a vibração das cores, das folhas ao vento, da felicidade fugaz, do todo indivisível, dos seios nus, dos sorrisos, das águas claras, das manhãs iluminadas permanecerão eternamente, marcando o mais alto momento da pintura em todos os tempos! No fim da vida ficou doente, com as mãos mutiladas. Mas continuou a trabalhar. Talvez Renoir tenha sido mais que um “impressionista”. Sua vitalidade sensual, ao criar lindas e gordas mulheres nuas através de pinceladas fragmentadas, fazia o reflexo das cores submergir sob a força das formas. Neste sentido foi mais ligado ao mestre do nudismo – Ingrès – do que a Monet. Seus tons alaranjados e avermelhados fugiram à ortodoxia da escola impressionista. Eram mulheres com bochechas rosadas e lábios carminados que estavam além da luz, mais próximas da alegria de viver, longe da brutalidade do mundo: sempre na “Bella Époque”... A beleza de seus últimos quadros atinge o máximo: é o êxtase das cores espalhadas sobre as telas em pinceladas soltas: mulheres como se fossem borboletas da primavera. PAULO RAMOS DERENGOSKI, jornalista e escritor, é membro titular do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. É radicado em Lages.

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ÉTICA

No metrô de Nova York, uma imagem que suscita mil palavras Flagrante feito por um freelancer abre polêmica sobre a ética na prática do fotojornalismo. Até que ponto o dever profissional de registrar os fatos pode sobrepujar o compromisso humanitário na relação entre o fotógrafo e seu personagem? P OR P AULO C HICO

Há imagens que nos contam muito. Retratos que mostram tudo. E fotos que vão além, revelam mais. Até demais. Uma dessas foi publicada na primeira página do jornal The New York Post no dia 4 de dezembro. Em foco, uma pessoa a ponto de ser atingida pelo metrô em Nova York. Era Ki Suk Han, 58 anos. Se a câmera tivesse registrado a seqüência dos acontecimentos, veríamos que o atropelamento, de fato, ocorreu. O homem que tentava desesperadamente voltar à plataforma da estação foi esmagado. Morreu. A fotografia causou polêmica e levou muitos leitores indignados a criticar a sua publicação. E a questionar por que ninguém tentou salvar a vítima. Em especial, a única pessoa que parecia testemunhar a agonia do imigrante coreano, casado, pai de uma filha. O fotógrafo freelancer R. Umar Abbasi, claro, não estava enquadrado pela própria lente. Mas, ainda que oculto, estava em cena. Pelo visto, preferiu clicar o drama final de seu personagem a tentar resgatá-lo dos trilhos. Diante da reação à imagem, reproduzida à exaustão em sites e nas redes sociais por todo o mundo, o autor do registro tentou se justificar. “Eu comecei a correr, na esperança de que o condutor pudesse ver meu flash, assim que Ki Suk Han foi empurrado por um morador de rua. Estou sendo injustamente massacrado. Estava carregando um equipamento pesado. Quando o homem caiu, ninguém o ajudou. As pessoas começaram a correr”. Em sua defesa, ele alega ter disparado o flash nada menos que 49 vezes, numa tentativa de chamar a atenção do condutor do trem. Ele calcula que Han ficou de 10 a 15 segundos naquela situação, antes de ser colhido. Fato é que essa, por certo, não é a melhor maneira de chamar a atenção do maquinista ou de ajudar alguém a subir um degrau de mais de um metro de altura. E nada disso impediu Abbasi de, na sequência, ir à Redação do Post vender as imagens. A polêmica chegou ao Brasil. Marizilda Cruppe foi uma das primeiras fotojornalistas a comentar a questão em sua página no Facebook. Ela, assim como outros profissionais do ramo, falou com o Jornal da ABI. “A imagem é chocante, ainda mais com aquele título que dizia que o homem tinha morrido. Depois do impacto da notícia veio a reflexão sobre como o fotógrafo a teria produzido, por que não teria ajudado, a razão da publicação da foto, daquele título... A questão sobre fotografar ou ajudar é muito antiga no fotojornalismo. Acho pertinentes e necessárias as discussões que se seguem a um episódio desses. Porém, cada caso é um 24

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A capa polêmica: teria o fotógrafo condições de salvar a vítima?

caso. A decisão rápida que se toma numa hora dessas é um somatório do caráter, da ética e da honestidade da pessoa por trás da câmera. Mas eu seria leviana se afirmasse que o fotógrafo optou por não ajudar. Não posso afirmar nada sobre um profissional que não conheço nem de nome”, pondera. Depois de 16 anos como contratada de O Globo, Marizilda optou por seguir um caminho de freelancer. A guinada profissional aconteceu há pouco mais de um ano e meio. “Hoje fotografo menos e com mais profundidade. Meus clientes são, em sua maioria, entidades de direitos humanos e organizações humanitárias e ambientais. Minhas preocupações como cidadã são as mesmas como fotojornalista”, conta ela, que segue em sua análise sobre a imagem feita no metrô de Nova York. “Quero crer que o depoimento do fotógrafo corresponde aos fatos e que ele não pôde mesmo fazer nada para ajudar. Pensar que ele poderia ter salvado essa vida e não o fez é assustador. Com uma análise dos metadados das imagens seria possível saber quanto tempo ele teria tido para agir e a que distância estava da vítima. Sem esses dados concretos, tudo vira achismo

e é a palavra do fotógrafo contra a dos ‘especialistas’ de plantão”. Marizilda conta que, felizmente, nunca esteve diante de uma situação de vida ou morte. “Já houve casos em que pude fotografar e ajudar e outros em que deixei de fotografar por perceber que a pessoa não tinha entendido o impacto que minha foto poderia trazer para a sua vida. O último deles aconteceu em setembro deste ano, com uma mulher vítima de escalpelamento total. Conduzi a situação com muito respeito à sua dor e, depois de uma longa conversa, ela concordou em fotografar sem a peruca. Na hora da foto, porém, pediu que o marido, com quem estava casada há menos de dois anos, saísse do quarto porque ele jamais a tinha visto sem a peruca. Desisti imediatamente, pois eu já tinha as imagens de outras mulheres. Para mim seria mais uma, para ela seria tornar pública uma intimidade que nem o marido conhecia. Achei que ela não tinha percebido direito a situação e preferi decidir em seu nome. Resolvi a foto de outra maneira e ficamos todos felizes.” O público que se diz assombrado pela referida imagem fez desta uma das cenas mais vistas e compartilhadas do mundo

nas últimas semanas. Marizilda não vê contradição nesse ponto. “Esse é apenas mais um indício dos valores morais da sociedade em que vivemos. Fotojornalistas, antes de tudo, são cidadãos. Reclamamos dos paparazzi, mas a edição da revista de celebridades é disputada nos salões de beleza e na sala de espera dos consultórios. Criticam o fotojornalista pela imagem impactante, mas todos querem vê-la e comentá-la até com certa morbidez. A mesma sociedade que reprova os políticos do mensalão sonega o Imposto de Renda, superfatura recibo de táxi, falsifica carteira de estudante e ‘molha a mão do guarda’. E o que dizer dos jabás? As Redações fazem vista grossa para essa prática”, diz ela, que não acredita ser necessária a criação de um código de ética específico para o fotojornalismo. “Ética é ética e ponto. Assim como honestidade é honestidade. Quem está por trás da câmera deve ser ético e honesto com ou sem ela nas mãos. O caráter é um só, não se divide em pessoa física ou jurídica. Dá pra ter credibilidade num fotógrafo que quando está sem a câmera mente e é mau-caráter? Claro que não. Provavelmente ele mente também quando fotografa. Não tem meio honesto ou meio ético. Quem vê as fotos e não é do meio não tem como saber quem é mau-caráter ou desonesto. Mas as empresas que os contratam, sejam freelas ou staff, têm como saber. Nesse meio não há segredos. Acredito que se precise, sim, de uma reflexão constante por parte das empresas sobre a publicação de determinadas imagens e textos e sobre a idoneidade dos profissionais. Vai longe o tempo em que quem dava uma rasteira nos colegas ou nos fotografados era admirado por seu feito. Mas uma vez que os jornais criam demanda por fotos deste tipo, e ainda contratam profissionais sem ética, sempre haverá candidatos a preencher esses espaços”. Imagens chocantes podem se tornar verdadeiros fardos

Daniel Ramalho, fotógrafo do portal Terra no Rio de Janeiro, também acha dispensável a criação de um código de ética para fotojornalistas. E tem uma visão peculiar sobre a conduta profissional em sua área. “Penso que ética é uma coisa individual, vem da origem, da formação de cada um. Quando eu tirei meu registro profissional tive que, além de comprovar minha atuação em veículo de imprensa por longo tempo, apresentar uma carta da empresa que seria contratado pra função e fazer uma prova de conhecimentos técnicos de fotografia, jornalismo e ética. Hoje o cara vai em Niterói, paga uma grana e, pronto, tira o regis-


tro profissional de repórter-fotográfico. Penso que o Sindicato do Jornalistas do Rio de Janeiro, ao invés de somente defender o lobby das universidades particulares pela obrigatoriedade do diploma, deveria impedir práticas como essa, além dessa explosão de cursos de Jornalismo em cada esquina”, critica. Na opinião de Ramalho, a imagem do metrô é, sem dúvida, muito forte. Mostra o trem se projetando na direção da pessoa iluminada com flash direto. “Mas acho que o mais chocante mesmo foi a manchete do jornal: ‘Esse homem vai morrer’. O fotógrafo mexicano Manoel Alvarez Bravo dizia que a legenda deve funcionar como um ‘gatilho’ na mente do observador. Nesse caso, intencionalmente, causou choque e comoção popular. Até em mim, com mais de uma década de atuação na imprensa brasileira. Os editores sabiam o que estavam fazendo, tanto que tinham a resposta pronta. ‘O fotógrafo tentou avisar ao maquinista disparando o flash’, o que, penso eu, não procede porque se tratava de frações de segundo para reação. E o fotógrafo reage fotografando”. Daniel lembra que imagens de alto impacto sempre geram discussão. O sulafricano Kevin Carter, que fez a foto da criança sendo espreitada pelo abutre no Sudão, publicada na primeira página do New York Times em 26 de março de 1993, venceu o Pulitzer, mas foi bombardeado por acusações de negligência, falta de humanidade. A expressão ‘abutres’ usada de forma recorrente – e pejorativa – para definir a atuação carniceira de jornalistas e fotógrafos vem exatamente daí, como nos conta o fotógrafo do portal Terra no Rio. “Na entrevista coletiva após o prêmio, perguntaram ao Kevin Carter pelo destino da criança, aonde ela estava agora, o que ele fez para ajudá-la. Depois de tantas cobranças e tentativas de responsabilizá-lo, depressivo, Carter acabou se suicidando. Imagens chocantes ao extremo se tornam cicatrizes em seus autores. Creio que o fotógrafo R. Umar Abbasi vai passar por processo semelhante. Essa imagem vai atormentá-lo até o fim da vida e ele vai ter sempre que se explicar. Tornase uma espécie maldição, um fardo, às vezes, muito pesado, a carregar. Na adrenalina do momento, na necessidade de grana e mais, diante da ansiedade pela publicação, o fotógrafo não se dá conta das conseqüências que virão. Afora o condicionamento, pois o cara é treinado para fotografar. Instintivamente, ele saca a câmera e dispara. Negar isso é bobagem”. Por fim, Daniel Ramalho filosofa. “Essa discussão existe desde os primórdios do fotojornalismo. Creio que você vai ouvir muito que ‘nenhuma foto vale uma vida’. O Flavio Mota presenciou um linchamento de um homem, chegaram até a jogar álcool no cara. Ele e a repórter chamaram a polícia. Essa reportagem, contada em primeira pessoa, venceu o prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos. Viver é muito perigoso, e o problema filosófico se dá porque que a fotografia eterniza o momento. Recentemente, no enterro do Niemeyer, a família havia solicitado certa privacidade no cemitério, e na hora foi aquela confusão. Eu estava lá e fiz imagens a dis-

A sutil diferença entre responsabilidade e culpa

Alcyr Cavalcanti acredita que pode ter salvo uma vida ao fazer esta foto.

tância, de teleobjetiva, me concentrei em cenas do entorno. Tenho a sorte de ter uma chefia que dialoga e respeitou essa minha atitude. O ‘caixão descendo’ eu não fiz. Mas muitos colegas foram pra cima, atropelando os parentes. E foi isso o que os jornais publicaram no dia seguinte”. O exemplo em que a câmera pode ter ajudado a salvar uma vida

Alcyr Mesquita Cavalcanti, freelancer e professor universitário, é outro que, a exemplo de Daniel Ramalho, recorda imagens igualmente impactantes. “Nos anos 1980 o fotógrafo Antonio Piccino foi premiado por fazer a imagem de uma criança morrendo numa das regulares enchentes em São Paulo. Foi, então, acusado de omissão de socorro. Depois de muita polêmica ficou provado que ele também estava quase submerso e que, devido à distância, não poderia ter chegado até à criança; era impossível. Em muitas ocasiões, como nessa, a necessidade de escolha se apresenta e, às vezes, arma-se um falso dilema, pois a situação é desenhada em frações de segundo, não permitindo fazer as duas coisas, ‘salvar e fotografar’ ou ‘fotografar e salvar’. Acredito que R. Umar Abbasi estava a uma distância que impossibilitava o salvamento. Essas situações são muito rápidas, e o profissional geralmente está com sua atenção e o olho no visor da câmera”, considera Alcyr, que conta uma experiência própria. “Posso citar aqui um dos casos em que estive diretamente envolvido, no final dos anos 1990, em Vigário Geral, Zona Norte do Rio. Eu e o fotógrafo Leo Cor-

reia estávamos em meio a um tiroteio quando bem na nossa frente aparece uma pessoa sendo arrastada pelas algemas por um policial, este com uma pistola na mão. O homem, provavelmente um bandido, estava sangrando muito de uma das pernas. Foi baleado, e a arma estava apontada bem para sua cabeça. Não posso afirmar nada, mas acredito que nossa presença, de câmeras em punho, possa ter salvado a vida do tal elemento. Ele foi somente preso. Talvez, na ausência de testemunhas e registro de imagem, tivesse sido executado pelo policial, como vemos em flagrantes exibidos pela televisão”, acredita Alcyr. Mestre da arte do fotojornalismo, Evandro Teixeira, que por décadas emprestou seu talento ao Jornal do Brasil, também falou com o Jornal da ABI. “Na vida de um repórter, cada momento é um momento. As decisões devem ser tomadas de acordo com as situações que se apresentam. Na realidade, nesta imagem vemos um momento crítico, dramático e terrível. Mas o fotógrafo não pode ser responsabilizado, pois outras pessoas estavam ali, naquela mesma estação. Além disso, ele utilizou do artifício de disparar várias vezes o flash da câmera para chamar a atenção do maquinista, o que não surtiu efeito. Acredito que nada poderia ter sido feito, visto que o tempo de 22 segundos é muito pouco para uma tentativa de salvar a vítima, em função da proximidade do trem. Por outro lado, parece que o fotógrafo, pelo ângulo da cena, deveria estar a uns cinco metros de distância, o que, logicamente, tornava difícil o resgate”.

Nascido na cidade de Rio Branco/AC, Odair Leal colaborou regularmente com importantes veículos, como Valor Econômico, O Dia, Correio Braziliense, Veja, Época e Washington Post, nos Estados Unidos. Atualmente é parceiro da Folhapress, e mantém no ar o site que leva seu nome. “Meu sentimento, ao ver a imagem, foi de indecisão... Fiquei entre meu instinto profissional e a questão do ser humano. Nesse caso, creio, o repórter-fotográfico foi desumano, pois não se preocupou em salvar a vida da pessoa que poderia estar viva. Já me deparei com uma situação semelhante, onde eu poderia só agir profissionalmente ou ajudar alguém que corria risco de morte. Na oportunidade, registrei o fato – o lado jornalístico naquele momento falou mais alto. Mas, logo após prestei atendimento e pude contribuir para que hoje aquela pessoa esteja viva. Esse é o desfecho dos sonhos para toda situação semelhante. Graças a Deus, dei sorte”, festeja. Odair também acha desnecessária a criação de um código de ética mais rígido para o meio em que atua. “A ética é algo que nasce com cada um, por isso temos nossa própria personalidade. Não seria um código o fator de mudança no andamento das coisas e no comportamento das pessoas. Ao longo dos anos, a própria sociedade se acostumou a valorizar o fator negativo em tudo. Ou seja, notícias de tragédias, guerras e mortes são relevantes para o público. A desgraça do outro é atrativo para a maioria. O jornalismo em si criou essa mentalidade. Nesta imagem em questão não é diferente. A vida de alguém está em risco – e a carreira do fotógrafo também – se formos analisar pelos lados distintos. O que não podemos dizer, pois seria exagero, é que o R. Umar Abbasi foi culpado pela morte de Ki Suk Han”. “De fato, o que me chamou a atenção foi o desespero do homem para sair dos trilhos. Por que ninguém ajudou? Mas, se acusarmos o fotógrafo de não ter socorrido Ki Suk Han, temos também que acusar todas as outras pessoas que estavam lá... Ninguém teve tempo suficiente para ajudar? Este assunto é sempre muito complicado – e o profissional da imprensa acaba sendo acusado por não ter agido de forma humana. Contudo, o que não podemos esquecer é que essas fotos polêmicas só são possíveis graças ao trabalho desses caras. Se eles não estivessem lá, presentes a atuantes, jamais saberíamos através de uma imagem o que de fato aconteceu”, contextualiza Daniel Kfouri, fotógrafo que já recebeu um World Press Photo, em 2010. Ele diz que ainda não passou por situação nem de longe semelhante. “Mas se eu tiver com uma câmera na mão diante de uma situação extrema, meu primeiro instinto vai ser fotografar, sempre. Isso se eu tiver habilidade e frieza para tal. O fotojornalista tem que registrar a realidade do mundo e, muitas vezes, por ter feito justamente a sua função, é criticado. Quanto à foto do metrô, a probabilidade de que venha a ganhar prêmios é muito grande. E, se isso ocorrer, a discussão ética, que já nos parece interminável, será maior ainda”, sentencia.

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LIBERDADE DE IMPRENSA DIVULGAÇÃO

As idéias da Repórteres Sem Fronteiras “A imprensa também deve ser exposta a uma crítica pública”, diz o francês Bernoît Hervieu, representante da entidade nas Américas. P OR E DUARDO S Á

Uma das mais conhecidas organizações não governamentais–ongs do mundo relacionadas à imprensa, a Repórteres Sem Fronteira–RSF também está atenta ao que ocorre na mídia brasileira. O jornalista e filósofo Benoît Hervieu, seu representante nas Américas, esteve em novembro no Brasil para conversar com jornalistas e visitar algumas favelas. De passagem pelo Rio de Janeiro foi a algumas comunidades que passaram pelo processo de remoção e conheceu os efeitos das Unidades de Polícia Pacificadora–UPP, inclusive pelo ponto de vista de comunicadores das favelas. Suas impressões serão publicadas num relatório. Nesta entrevista ele conta a história e função da RSF e reconhece as críticas feitas por jornalistas independentes sobre a organização. Faz também uma análise sobre as mudanças em curso nos marcos regulatórios da mídia no continente e aponta alguns problemas no Brasil em relação aos meios de comunicação. A influência de políticos e a falta de pluralismo, no seu ponto de vista, são os principais entraves no País no que diz respeito à informação. Jornal da ABI – Qual necessidade fez surgir a Repórteres Sem Fronteiras–RSF e qual sua função atual? Hervieu – A RSF é uma organização fundada em 1985 no Sul da França, em Montpellier. Era um grupo de jornalistas independentes ou ligados a veículos de imprensa que tinham como objetivo cobrir conflitos ou situações humanitárias que não tinham cobertura nos veículos maiores. Eles copiavam os Médicos Sem Fronteiras, era o tempo do exílio de populações da Ásia, como Camboja e Vietnã, que fugiram das guerras e se refugiaram em parte na França. Surgiram para serem testemunhas de conflitos esquecidos do senso comum. Na época da sua fundação e todo esse movimento mais ou menos alternativo em 1985, também houve a privatização do principal canal de televisão francês. Porque até à eleição de François Mitterand existia o monopólio sobre o setor audiovisual, era uma situação política complicada na França, e também com a entrada de canais estrangeiros o setor entrou na época da concorrência comercial. Os jornalistas não conseguiam vender suas reportagens, pois o setor comercial não estava muito interessado em falar de crise humanitária, guerras na Ásia e na África. Então o projeto fracassou, e depois nos anos 1990 a RSF se converteu numa organização de defesa da liberdade de imprensa. Mudou-se para Paris, onde ainda tem sua sede internacional. Funciona com mais de 150 correspondentes em todo o mundo, e no escritório das Américas temos 27 correspondentes mais uma representante nos Estados Unidos. Tenho que destacar também que depois da saída do fundador da RSF, que era uma pessoa bastante controvertida,oRobertMénard,nossomandatoevoluiu para ser liberdade de informação. Jornal da ABI – Quando você fala em defesa e liberdade de imprensa, o que isto seria na prática?

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Hervieu – São vários assuntos, mas com certeza temos um foco na segurança dos jornalistas. Temos um sistema comparável ao das agências de imprensa, então publicamos comunicados, temos um site, uma divisão do trabalho com vários jornalistas encarregados, cada um de um continente ou temática. Fazemos campanhas para sensibilizar a opinião pública. Nossa intervenção abrange a segurança do jornalista para ajudar e alertar também sobre o quadro jurídico de um país, por isso o Brasil é interessante. Podemos participar, por exemplo, do exame de jornais em todo o mundo. O Conselho de Direitos Humanos da Onu revisa o caso de cada país e precisa do aviso das ongs sobre a situação das liberdades públicas, da segurança, dos direitos humanos, etc. Podemos fazer missões no país em contato com ongs e jornalistas para avaliar a situação. Tem também todo o assunto do pluralismo, que é muito importante nesse continente. Jornal da ABI – Qual a sua avaliação sobre a mídia na América Latina? Hervieu – A minha chegada na RSF coincidiu com todo o movimento de chegada ao poder de governos mais à esquerda na América do Sul, como Evo Morales, Hugo Chávez, Lula, etc. Foi um contexto bastante novo para a comunicação, porque o modelo midiático herdado da época das ditaduras, das guerras civis, dos conflitos da Guerra Fria no continente, permaneceu com uma alta concentração da mídia. Surgiu um debate sobre o pluralismo real, a questão do acesso à informação, aos recursos para fazer informação. Isso é muito importante, especialmente nesse continente, porque é o primeiro das rádios comunitárias. Então isso foi uma evolução importante na análise do continente feita pela RSF, porque corresponde a uma nova reivindicação nas sociedades latinoamericanas e com uma forte crítica da mídia. Faz que a minha situação não seja muito con-

fortável, porque de um lado tenho que vigiar a situação dos jornalistas, a questão da segurança e jurídica, como denúncias penais contra jornalistas, que no Brasil são numerosas. Mas do outro lado faço também uma intervenção mais ampla sobre a situação do pluralismo no País. Jornal da ABI – Na Argentina foi criada a nova Lei dos Medios, na Bolívia foram ampliadas e valorizadas as rádios comunitárias, assim como em outros países da região. Mas as informações que chegam ao Brasil se referem à censura. Qual a posição da RSF em relação a essa nova mudança jurídica no continente? Hervieu – Depende dos países, porque na Venezuela, por exemplo, somos bastante críticos. Apesar da história que os veículos importantes apoiaram o golpe contra Chávez em 2002, mas é verdade que também criticamos a maneira de fechar a RCTV. O motivo real do seu fechamento era recuperar os aparelhos de difusão do canal, não só punir sua participação no golpe, porque nunca houve um processo jurídico contra o canal sobre isso. A situação é complicada, porque na Venezuela o Governo é muito midiático, principalmente o Presidente. Ele tem um sistema de cadeias nacionais, que pode se tornar uma forma de censura ao obrigar você a se conectar ao canal venezuelano de televisão para fazer uma transmissão em todos os canais abertos e uma parte dos canais a cabo. Mas não se trata de uma ditadura. Jornal da ABI – Mas as rádios comunitárias cresceram no país, não? Hervieu – Cresceram, mas existe na Venezuela um debate sobre o estatuto dessas rádios porque têm forma comunitária mas muitas lutam a favor do Governo e com uma linha editorial pouco independente. Esse debate é diferente do que existe na Bolívia, que é diferente do Equador e agora diferente na Argentina.

Nesse caso, ocorreu pouco desenvolvimento nos últimos anos da mídia comunitária, e a nova divisão midiática está entre o setor privado muito poderoso, como o grupo El Clarín, e de Cristina Kirchner com novos veículos públicos de comunicação. Há um desenvolvimento com um novo marco legal, a lei de serviço de comunicação audiovisual na Argentina, cujo modelo me parece bom: compartilhar as freqüências em 30% para comunitários, privados e públicos. A RSF apoiou desde o início o princípio da lei, mas depois veio o problema da aplicação como, por exemplo, a atribuição do dinheiro da publicidade oficial entregue a uma parte do setor privado mais a favor do Governo. Então também não é totalmente transparente, mas existia a necessidade de uma regulamentação. Houve dois recursos judiciais, também constitucionais, para pedir a suspensão da lei. A partir de 7 de dezembro de 2012 vamos ver o que sucede, a lei deverá ser totalmente cumprida, o que não será fácil porque há uma resistência por parte do Clarín por razões lógicas de interesses econômicos fortes. Depois a Autoridade Federal de Serviços de Audiovisuais–AFSA reconheceu para mim que existia um desenvolvimento insuficiente da mídia comunitária, há muitas coisas para fazer. É interessante, como a nova norma de comunicação da Bolívia, que tem o mesmo princípio. Diferente do caso do Equador, onde existe a mesma proposta mas seu projeto de legislação inclui alguma intervenção sobre os conteúdos da mídia. Estamos mais contra, mas na Argentina e Bolívia, não. Tudo isso corresponde a uma realidade do contexto latino-americano, com uma herança midiática de grupos muito poderosos que têm o direito de existir mas devem também compartilhar mais o espaço com outras vozes e tipos de veículos de comunicação. Com a internet a paisagem da comunicação mudou muito, por isso nosso mandato evoluiu. Todos os cidadãos fazem informação hoje. Um


grupo de comunicação não é dono da comunicação, isso é um problema ainda forte nesse continente. Acho que as coisas começaram a evoluir em vários países da América Latina. No Chile, no entanto, existe ainda uma criminalização das rádios comunitárias, apesar do seu papel muito útil e interessante no momento do terremoto em 2010. Seria bom que o Governo chileno escutasse mais todo o movimento estudantil e de protesto social, porque também existe uma palavra forte sobre o modelo de comunicação herdado da ditadura de Pinochet, que nunca evoluiu durante 21 anos. Não tocaram em nada para não quebrar o compromisso nacional de reconciliação depois da ditadura. Jornal da ABI – Você obviamente conhece a Rede Globo, criada durante a ditadura militar, que tem tanto poder quanto o Clarín, e sabe que aqui também não ocorreu nenhuma mudança. Qual sua análise sobre a concentração dos meios de comunicação no Brasil? Hervieu – É impressionante o poder da Globo, não há nada parecido na França, por exemplo. O Brasil é tradicionalmente um país de desigualdades enormes, e se podia esperar da parte do Governo de Lula, que é um símbolo, ex-preso político da ditadura, liderança na oposição durante anos, uma mudança da paisagem midiática. Mas sabemos que é muito difícil, por várias razões: o Brasil é um país federal com um poder forte dos governadores e dos políticos locais, que também são donos de empresas. O contexto das campanhas eleitorais municipais que acabou de terminar, por exemplo, foi um desastre no lado da censura prévia, das ordens judiciais contra blogs e veículos de imprensa locais, e na violência também. O problema é que muitos veículos locais fazem campanha para um político, então pode se exercer uma vingança da parte do outro lado. Isso põe muito risco para o exercício da profissão de jornalista durante a campanha eleitoral. Ouvi falar de um caso incrível de um senador do Rio Grande do Norte, que tinha sete diários, três emissoras, duas televisões, etc. É como a família Sarney, o problema é que o mesmo fazia também parte da Comissão de Ciência e Telecomunicações do Senado. O Sarney recomendou que seria melhor ele não ser dono de muitos meios, porque o conflito de interesse é enorme. E o senador ligou para o irmão, laranja. Esse é um problema freqüente no Brasil e em muitos países da América Latina e Central. Costumo dizer que em muitos Estados do Brasil o juiz é primo do governador, que é o filho do senador, etc. Isso faz que você tenha um conjunto de interesses que torna muito difícil modificar a paisagem. Não sei se o poder federal tem condições para promover uma mudança nesse nível. Porque a negociação política aqui é também uma coisa incompreensível para o estrangeiro: o sistema político é muito complicado no período das eleições, pois as coligações são diferentes, dependendo do Estado. Mas acho que houve coisas positivas no período de Lula, como a revogação da Lei de Imprensa da ditadura militar. Militamos para sua revogação, mas depois o efeito perverso foi a explosão do número de procedimentos judiciais locais contra jornais e jornalistas no contexto da censura prévia. Isso aconteceu também para veículos maiores, como a censura de mais de 200 dias para o Estadão, que não podia falar das histórias do filho de Sarney. Isso infelizmente é algo comum no Brasil.

Jornal da ABI – Os movimentos que lutam pela democratização das rádios comunitárias são contra o Governo Lula. Dizem que nunca se fecharam tantas rádios apesar dos progressos no País. Hervieu – É verdade que existia uma esperança forte do grupo das rádios comunitárias com Lula e um Governo do PT, mas a mudança não aconteceu. Um estudo da Amarc diz que se abrem 3 mil rádios comunitárias no Brasil e fecham o mesmo número todos os meses. Então é impossível saber quantas existem. Há o problema da concessão de freqüência, ouvi falar ontem no Jacarezinho da Rádio Liberdade, cujo pretexto para fechá-la há quatro meses foi roubo de energia e interferência com outras rádios comerciais. É complicado, porque num país com esse tamanho é difícil imaginar uma regulamentação que se adapte a tudo ao mesmo tempo. É muito mais fácil no Uruguai, onde votaram uma lei excelente para as rádios comunitárias, mas é um país de 3 milhões de habitantes. A lei uruguaia reconhecia como veículo comunitário todos os que não fazem proselitismo político e religioso e ainda privilegia a informação com liberdade de expressão. É um bom critério, que se poderia aplicar ao Brasil. Por isso a questão do estatuto é importante, porque a mídia comunitária é feita por jornalistas que podem ou não ser profissionais. São veículos da própria comunidade, e é importante sublinhar o papel informativo. Sem esses veículos uma parte da informação não existe. As remoções das favelas saem muito pouco na mídia, por exemplo, que vai informar sobre uma ou duas operações espetaculares. Mas a recomposição da favela depois de uma remoção, o desalojamento de uma parte dos moradores que têm que ir para outro lugar? É o caso no Metrô Mangueira. Jornal da ABI – Há correntes no PT que são a favor da regulamentação da mídia, só que a maior parte da publicidade oficial vai principalmente para esses meios que eles criticam. Como é essa questão de ter condições objetivas para criar os meios de comunicação e ter visibilidade? Hervieu – Uma reforma das freqüências é importante, mas não pode ser aplicada sem uma nova norma de distribuição da pauta oficial. Quanto à visibilidade, os veículos principais podem dizer: mas um veículo comunitário atua só num bairro ou zona determinada, e não em todo o País ou várias regiões, como nós. Sabemos que não é justo, porque os veículos comerciais importantes têm as vendagens do mercado e a mídia alternativa ou comunitária não, porque é uma imprensa sem fim de lucro. O problema é que você tem que prever uma subvenção adequada para veículos que precisam de ajuda, e outros muito menos, porque têm inserção comercial tornando indispensável tanto dinheiro do Estado para eles. Mas é complicado, o interesse econômico é forte. Também não temos que ser demagógicos, no sentido de que não se pode criar um milhão de veículos comunitários de um dia para o outro. O problema é buscar uma regulamentação que seja justa, e favoreça o pluralismo informativo. Jornal da ABI – Ocorreram no Brasil várias conferências estaduais e municipais, que culminaram numa conferência nacional de onde tiraram diversas propostas da sociedade civil para um novo marco legal da mídia. Mudou o ministro das comunica-

ções, e até hoje não houve avanço. Como você enxerga isso? Hervieu – É sempre a mesma coisa, como organizar um debate público que seja útil. O debate existe, mas sem muitos efeitos e mudanças para a paisagem midiática. Poderia ser a oportunidade de organizar um confronto entre os movimentos sociais e a sociedade civil também com os veículos importantes de imprensa, porque a imprensa deve ser exposta também a uma crítica pública. Deve ter um debate público amplo sobre um projeto de regulamentação das freqüências no setor audiovisual e a publicidade oficial, mas isso também precisa de uma mobilização do setor político, que por razões que indiquei não vai acontecer. Outra coisa importante é um compromisso de todos os veículos de informação sobre a segurança dos jornalistas, porque todos podem ser afetados, como nos casos das favelas quando houve confrontos com a Polícia e o Exército. No ano de 2012 tivemos grandes problemas, vários jornalistas assassinados. É preciso um compromisso de luta contra a impunidade e o fortalecimento do grêmio dos jornalistas, que é insuficiente no momento.

Jornal da ABI – Quais são os principais problemas em relação às violações no Brasil? Hervieu – No Brasil existem menos assassinatos de jornalistas que em outros países da América Latina. Há esforços contra a impunidade, como a história de um blogueiro no Maranhão, em julho passado, e em vários casos de jornalistas. Não existe isso no México, onde também há uma implicação forte das autoridades nos crimes contra jornalistas. Mas falta um mecanismo comum a nível federal para proteger os jornalistas em uma situação de alto risco ou em campanha eleitoral, etc. Indicações para as várias autoridades federais e estaduais, inclusive para as forças da ordem, para evitar abusos de poderes contra os profissionais da informação. Jornal da ABI – Você tem número dessas mortes no Brasil? Hervieu – Este ano foram onze mortes, três delas já comprovadamente relacionadas com suas atividades profissionais. E em quatro processos estão em curso as investigações. O último foi agora no dia 21 de novembro, em Cam-

RSF cria site anticensura A “Repórteres sem Fronteiras” inaugurou, em 27 de setembro, um site de publicação de conteúdos censurados, proibidos ou cujos autores foram vítimas de represálias. Batizado como WeFightCensorship (“Nós combatemos a censura”, em inglês), abreviado pelas iniciais WeFC, o portal tem por objetivo tornar a censura obsoleta. Esta iniciativa inédita permite a “Repórteres sem Fronteiras” complementar sua missão de observação, defesa, pressão e assistência em nome da liberdade de informação. O site oferecerá conteúdos editoriais (artigos, vídeos, gravações de áudio, fotografias, etc.) enviados por jornalistas ou cidadãos vítimas de censura. Os conteúdos selecionados pelo comitê editorial estarão acompanhados por um texto de apresentação do contexto e do autor. Os documentos processuais ou de outra natureza necessários à apreciação integral do valor informativo dos conteúdos serão igualmente publicados. O site estará disponível em duas línguas: inglês e francês. Serão publicados artigos ou peças jornalísticas do mundo inteiro em suas línguas originais, acompanhadas também da respectiva tradução. Concebido para ser facilmente duplicável, o site será copiado por páginas-espelho, o que impedirá qualquer tentativa de filtragem ou bloqueio. Os internautas também serão chamados a intervir, nomeadamente na difusão e visibilidade dos documentos censurados. “Repórteres sem Fronteiras propõe um instrumento de dissuasão que convida os Estados e outros poderes a res-

peitarem a liberdade de informação, à liberdade que possibilita a existência de todas as outras”, explica Christophe Deloire, diretor-geral da entidade. “O site se baseia no efeito Streisand, segundo o qual quanto maior for a vontade de censura de uma informação na internet mais essa informação será difundida pela comunidade de internautas. Queremos assim demonstrar que prender o autor de um artigo, confiscar exemplares de um jornal ou bloquear o acesso a um site de vídeos não evitará que o conteúdo em questão dê a volta ao mundo, antes pelo contrário.” Graças a uma “caixa-forte” digital protegida, os internautas poderão enviar de forma anônima conteúdos suscetíveis de serem publicados. Um “kit de sobrevivência digital” oferecerá ferramentas como as redes privadas virtuais (VPN, em inglês), programas de encriptação (TrueCrypt) ou tecnologias de comunicação anônima online (TOR). Esses instrumentos permitirão aos produtores de informação proteger suas fontes e, nos países sob ditadura, garantir sua própria segurança. Uma versão experimental do site já se encontra disponível em acesso privado, por inscrição, desde 13 de novembro. Por ocasião do lançamento, a agência Publicis Bruxelas desenhou gratuitamente uma campanha publicitária formada por várias imagens com personalidades como Vladimir Putin, Mahmoud Ahmadinejad ou Bashar al-Assad despidas. “Os regimes totalitários não terão mais nada a esconder ”, afirmou essa campanha destinada à imprensa escrita e internet.

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REPRODUÇÃO DE VÍDEO

LIBERDADE DE IMPRENSA po Grande (MT), onde o jornalista Eduardo Carvalho, editor do site Última Hora News, vinha recebendo ameaças de morte desde o ano passado devido às suas reportagens que colocavam em causa políticos e policiais na região. Isso é um tema que vai além da liberdade de comunicação, seria uma reforma ampla do sistema judicial e policial em muitos Estados para lutar contra a corrupção e a infiltração do crime organizado em vários setores da sociedade. Sabemos que jornalistas que investigam isso se expõem a um perigo muito alto, por isso acho que o problema é geral. Jornal da ABI – Qual foi a sua missão aqui no Brasil desta vez? Hervieu – Eu queria fazer uma etapa aqui no Rio mais sobre o tema comunitário e alternativo, de jornalistas que vivem nas favelas e conhecem a realidade diária daqueles bairros também sob os efeitos da pacificação: a possibilidade de atuar, de interpelar as autoridades, a partir de uma imprensa que ainda não é reconhecida e tem pouco espaço. Saber em que medida eu posso ajudar também para reconstruir ou pedir uma frequência de rádio, por exemplo. A RSF já ajudou rádios comunitárias danificadas ou vítimas de perseguição, sobretudo em Honduras depois do golpe. No Brasil seria importante depois de uma remoção ou operação, por exemplo, que são situações de violência. Nosso critério é a utilidade informativa, uma antena quebrada ou material confiscado, etc. Jornal da ABI – Há um crescente movimento de blogs e jornalistas independentes, alguns deles integrados aos movimentos dos Fóruns Sociais Mundiais. Esse grupo e outros criticam a RSF, acham vocês mais alinhados aos grupos empresariais. Vocês se consideram independentes? Hervieu – Houve duras críticas contra nós, mas isso foi antes. Acho que as coisas evoluíram, porque mudamos o mandato a partir da saída de Ménard, no final de 2008. Mantemos nossa intervenção na segurança de jornalistas de veículos importantes, pois em muitos casos isso na sua empresa é insuficiente. A evolução do mandato foi por essa razão. É verdade que muitos blogueiros ou jornalistas independentes criticavam a RSF porque julgavam que estávamos do lado dos veículos mais importantes. Temos que aceitar essa crítica, mas vejo jornalistas nas favelas, por exemplo. Não apoiaria a mídia comunitária em outros países como Honduras, onde critiquei a atitude dos veículos importantes na época do golpe, que foi também midiático. Então temos que aceitar a crítica, e fazer evoluir o mandato no melhor sentido para que o critério não seja o tamanho de um veículo e sim a informação e sua utilidade. E o direito a ser informado e de informar, isso é uma coisa que devemos defender. Somos forçados a aceitar muitas críticas, mas por boas razões também na época da internet é impossível manter uma defesa clássica da liberdade de imprensa, que seria só da mídia importante. No contexto latino-americano, com um debate amplo que existe agora nessas sociedades, temos que considerar isso porque em muitos casos os veículos maiores se comportam como atores políticos com interesses e fatores econômicos, e não donos da informação.

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Enquanto moradores gritavam “Cidadania já!”, o truculento policial avançou contra Mariana, lhe deu um tapa, destruindo seu equipamento e rasgando sua roupa, como comprova filme no YouTube.

Policiais prendem jornalista no Rio P OR I GOR W ALTZ

Um protesto contra a demolição de uma quadra esportiva no Morro do Vidigal, na Zona Sul do Rio de Janeiro, terminou com a detenção de uma jornalista. Mariana Albanese, de 30 anos, foi detida durante o início da tarde do dia 13 de dezembro por policiais militares da UPP. Segundo o relato de outros profissionais de imprensa que acompanhavam o caso, Mariana fazia a cobertura da manifestação quando foi agredida por policiais e teve seu equipamento danificado. O jornalista Edilson Lima, que a acom-

panhava durante a cobertura, contou que Mariana teria reclamado da truculência dos policiais. Em resposta, a jornalista teria recebido um tapa. “A comunidade está muito abalada pelo ocorrido. As autoridades já chegaram com equipamento para demolição, acompanhados pelo reforço dos policiais da UPP Vidigal, sem que houvesse qualquer comunicação prévia aos moradores”, relatou Edilson. “O único ponto positivo disso é que, após a ocorrência, a demolição foi cancelada”. Mariana foi detida na 15ª DP (Gávea), autuada por desacato à autoridade. Em

nota, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro afirmou que a jornalista era uma das participantes da manifestação e teria sido levada à Delegacia por ter ofendido um policial com xingamentos e o agredido fisicamente. No comunicado, a PM afirma ainda que “o comandante da UPP Vidigal, Capitão Fábio Pereira, abriu procedimento ‘apuratório’ para verificar se houve abuso na conduta do policial”. Cinco dias depois de ser presa, Mariana publicou em seu blog sua versão, confirmada pelo vídeo postado no YouTube: “Poucos segundos antes de um tapa levar meu celular ao chão e um chute o esquartejar, eu sabia que seria agredida. O cabo Péricles, que tinha ordens do Capitão Fábio Pereira para ‘prender quem tentasse impedir’ a demolição, estava lá para fazer o trabalho sujo. Eu filmava a confusão de longe e havia gritado, não para ele, mas para seus colegas cujo lema é ‘Servir e Proteger ’ (os interesses do Governo): ‘Vocês vão acabar com a UPP do Vidigal!’. Mas foi ele, que nem estava na minha linha de filmagem, quem me agrediu. E não pensei duas vezes em partir para cima dele, mesmo sabendo que perderia a briga.” Natural de São Paulo, Mariana vive desde março de 2011 no Vidigal e já teve passagem pelo jornal O Dia e o site da revista Contigo!. Atualmente é responsável pelo site Vidiga!, onde publica notícias, imagens e programação sobre o bairro.

Veículos do Paraná sob censura Em clara agressão ao texto constitucional, que veda expressamente a censura política, artística e ideológica, o Juiz James Hamilton de Oliveira Macedo proibiu que veículos de comunicação do Paraná mencionem em seus conteúdos o nome de Regina Dubay, prefeita eleita do Município de Campo Mourão, a 460 quilômetros de Curitiba. Ela está sendo investigada após denúncia de uma suposta distribuição em larga escala de passagens rodoviárias da Expresso Nordeste com destino à capital paranaense durante o período eleitoral. As viagens de ida e volta teriam o objetivo de beneficiar a candidata eleita. Desde o final de semana, o portal Terra, os jornais Gazeta do Povo e Tribuna do Interior, a TV Carajás, a Rádio T, a Rádio Colméia, a Rádio Humaitá e os sites Tásabendo.com e Coluna do Ely foram proibidos de fazer a identificação em suas matérias. Oliveira Macedo mandou expedir dois mandados judiciais, com a mesma determinação, para que os veículos de imprensa citados “ao divulgarem o material, se abstenham de divulgar o nome da autora ou qualquer outra forma de fotografia que a ela faça alusão, bem como promova adequação da matéria já publicada”. Os mandados atendem aos pedidos da candidata eleita e da empresa de ônibus. A decisão de primeira instância atende aos pedidos feitos pela candidata eleita e pela empresa de ônibus. Cabe recurso no período de 15 dias. Órgãos de imprensa do Município foram notificados no final de

semana e o descumprimento da ordem judicial acarretará multa de R$ 30 mil. Liberdade violada

O Editor-Executivo de Vida Pública da Gazeta do Povo, Rhodrigo Deda, disse que não há razão para o Poder Judiciário impedir que a imprensa mencione quem é alvo da investigação e que a situação viola a liberdade de expressão. “Isso é um fato noticioso, verdadeiro e de interesse público. Não houve abuso do direito de liberdade de expressão ao veicular o fato. Tampouco houve exposição desproporcional do investigado. Em casos como esse, em que há interesse público, o direito de imagem deve ceder espaço para outros direitos igualmente importantes protegidos pela Constituição – os direitos de liberdade de expressão e imprensa”, argumentou. Fernando Lorenzzo, editor do site Tásabendo.com, foi notificado no sábado, dia 24 de novembro, e publicou um editorial em seu portal. “[Se não é censura] Mas o que é então? Só se pode divulgar aquilo que é de seu interesse? O que aconteceu é mera informação pública”, escreveu. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado Paraná-Sindjor-PR classificou a decisão judicial como “censura ao trabalho de jornalistas e órgãos de comunicação que têm o dever, e não apenas o direito, de informar a população sobre as apurações que sejam de interesse público, como

está explicito neste caso”. O Sindicato anunciou que emitiria nota em seu site e comunicaria a violência à Federação Nacional dos Jornalistas-Fenaj, entidade nacional da categoria, sobre “o ato de censura”. Denúncia em apuração

Segundo denúncia publicada pelo portal Terra em 23 de novembro, as passagens fariam parte de dois lotes adquiridos pelo Município em licitações homologadas em junho deste ano, no valor total de R$ 665 mil, para atendimento de pacientes ou de pessoas carentes nas áreas de Saúde e Assistência Social. A denúncia foi apresentada pela coligação “Fazer Mais, Fazer Melhor ”, do candidato Tauillo Tezelli (PPS), derrotado nas eleições por diferença de 694 votos, equivalente a 1,38% dos votos válidos do Município. De acordo com ofício encaminhado à Justiça Eleitoral, no período de julho até final de setembro foram empenhados quase R$ 482 mil para pagamento das passagens licitadas, 72,5% do total estimado para o período de 12 meses. O documento informa que as passagens foram entregues para familiares de eleitores residentes em Curitiba, para que fossem ao Município votar na candidata eleita. O Juiz da 31ª Zona Eleitoral, Edson Jacobucci Rueda Junior, intimou a Prefeitura e a empresa de ônibus a apresentar explicações sobre os gastos no período de campanha.


DIREITOS HUMANOS

Depois de quase meio século, a Câmara devolve o mandato aos cassados pela ditadura militar Em histórica sessão solene realizada em 6 de dezembro no Plenário Ulysses Guimarães, a Câmara dos Deputados devolveu simbolicamente os mandatos de 173 deputados cassados pelo golpe militar de 1º de abril de 1964. Após a sessão, foi inaugurada a exposição Parlamento Mutilado: Deputados Federais Cassados pela Ditadura de 1964 e lançado um livro com o mesmo título sobre aquele momento da História do País. Realizada por iniciativa dos Presidentes da Comissão de Direitos Humanos e Memória, Deputado Domingos Dutra (PT-MA), e da Comissão Parlamentar de Memória, Verdade e Justiça, Deputada Luiza Erundina de Souza (PSB-SP), a sessão prestou homenagem aos 29 parlamentares cassados ainda vivos e aos 144 que faleceram. Entre as vítimas da violência da ditadura, há políticos que apoiaram o Governo João Goulart e dezenas de outros que participaram do MDB, partido constituído após o Ato Institucional número 2 que extinguiu os antigos partidos, e até mesmo membros da Arena, o partido da ditadura, que discordavam do regime. Os homenageados vivos são Alencar Furtado (MDBPR), Almino Affonso (PTB-AM), Almir Turisco de Araújo (MDB-GO), Antônio Carlos Pereira Pinto (MDBRJ), Antônio Francisco de Almeida Magalhães (MDBGO), Camilo Silva Montenegro Duarte (Arena-PA), David José Lerer (MDB-SP), Gastone Righi Cuoghi (MDBSP), João Machado Rollemberg Mendonça (Arena-SE), José Bernardo Cabral (MDB-AM), Júlia Steinbruch (MDB-RJ), Léo de Almeida Neves (MDB-PR), Lígia Moelmann Doutel de Andrade (MDB-SC), Lurtz Sabiá (MDB-SP), Marcelo Gato (MDB-SP), Marco Antônio Tavares Coelho (PST-GB), Marcos Kertzmann (ArenaSP), Marcos Tito (MDB-MG), Maria Lúcia de Melo Araújo (MDB-AC), Maurílio Figueira Ferreira Lima (MDBPE), Milton Vita Reis (MDB-MG), Ney de Albuquerque Maranhão (Arena-PE), Ney Lopes (Arena-RN), Ney Ortiz Borges (PTB-RS), Paulo de Tarso Santos (PDCSP), Plínio Soares de Arruda Sampaio (PDC-SP), Ramon de Oliveira Neto (PTB-ES), Sadi Coube Bogado (MDBRJ) e Wilson Barbosa Martins (MDB-MT).

RECEBERAM HOMENAGEM IN MEMORIAM ABELARDO DE ARAUJO JUREMA (PSD-PB) ABRAHÃO FIDELIS DE MOURA (PSP-AL) ADAHIL BARRETO CAVALCANTI (PTB-CE) ADÃO MANOEL PEREIRA NUNES (PSP-RJ) ALBERTO GUERREIRO RAMOS (COLIGAÇÃO PTB-PSB-GB) ALDEMAR CARVALHO (MDB-PE) ALOYSIO NONÔ (ARENA-AL) ALUIZIO ALVES (ARENA-RN) AMAURY MÜLLER (MDB-RS) AMÉRICO SILVA (PTB-PA) ANACLETO CAMPANELLA (MDB-SP) ANDRADE LIMA FILHO (MDB-PE) ANTÔNIO ADIB CHAMAS (PSP-SP) ANTÔNIO GARCIA FILHO (PTB-GB) ARMANDO TEMPERANI PEREIRA (PTB-RS) ARMINDO MARCÍLIO DOUTEL DE ANDRADE (PTB-SC) ARNALDO CERDEIRA (ARENA-SP) ARTHUR LIMA CAVALCÂNTI (PTB-PE) ATLAS CATANHEDE (ARENA-RR) BENEDITO CERQUEIRA (PTB-GB) BEZERRA LEITE (ARENA-PE) BRENO DA SILVEIRA (MDB-GB) CELESTINO FILHO (MDB-GO) CELSO AMARAL (ARENA-SP) CELSO PASSOS (MDB-MG) CESAR PRIETO (PTB-RS) CHAGAS RODRIGUES (MDB-PI) CHICO PINTO (MDB-BA) CID ROJAS AMÉRICO DE CARVALHO (MDB-MA) CLAY HARDMANN DE ARAUJO (PTB-RS) CLODOMIR LEITE (MDB-PE) CLÓVIS FERRO COSTA (UDN-PA) CUNHA BUENO (ARENA-SP) DEMISTÓCLIDES BATISTA (COLIGAÇÃO MTR-PSB-PST-RJ) DOIN VIEIRA (MDB-SC) DORIVAL DE ABREU (MDB-SP) EDÉSIO NUNES (MDB-RJ) ELOY ÂNGELO COUTINHO DUTRA (COLIGAÇÃO PTB-PSB-GB) EMERENCIANO DE BARROS (MDB-SP) EPAMINONDAS DOS SANTOS (PTB-GB) ERIVAN FRANÇA (ARENA-RN) EWALDO PINTO (MDB-SP) EXPEDITO MACHADO DA PONTE (PSD-CE) FELICIANO DE FIGUEIREDO (MDB-MT)

FELIX VALOIS DE ARAUJO (PTB-RR) FERNANDO DE SANTANNA (PCB-BA) FLORES SOARES (ARENA-RS) FLORIANO MAIA D’AVILA (PTB-RS) FLORICENO PAIXÃO (MDB-RS) FRANCISCO JULIÃO ARRUDA DE PAULA (PSB-PE) GASTÃO PEDREIRA (MDB-BA) GETÚLIO MOURA (MDB-RJ) GILBERTO AZEVEDO (ARENA-PA) GILBERTO MESTRINHO DE MEDEIROS RAPOSO (PTB-RR) GLÊNIO MARTINS (MDB-RJ) HARY NORMANTON (ARENA-SP) HÉLIO GUEIROS (MDB-PA) HÉLIO NAVARRO (MDB-SP) HÉLIO VITOR RAMOS (PSD-BA) HENRIQUE CORDEIRO OEST (PSP-AL) HENRIQUE HENKIN (MDB-RS) HERMANO ALVES (MDB-GB) HUMBERTO EL-JAICK (PTB-RJ) ISRAEL DIAS NOVAES (ARENA-SP) IVETE VARGAS (MDB-SP) JAIME CÂMARA (ARENA-GO) JAMIL AMIDEN (MDB-GB) JOÃO DÓRIA (PDC-BA) JOÃO HERCULINO (MDB-MG) JOÃO SIMÕES (PSD-CE) JORGE CURY (MDB-RJ) JOSÉ ANTONIO ROGÊ FERREIRA (PTB-SP) JOSÉ APARECIDO DE OLIVEIRA (UDN-MG) JOSÉ CARLOS GUERRA (ARENA-PE) JOSÉ COLAGROSSI (MDB-GB) JOSÉ GUIMARÃES NEIVA MOREIRA (PSP-MA) JOSÉ JOÃO ABDALLA (PSD-SP) JOSÉ LAMARTINE TÁVORA (PTB-PE) JOSÉ MARIA MAGALHÃES (MDB-MG) JOSÉ MARIA RIBEIRO (MDB-RJ) JOSÉ PALHANO DE SABÓIA (PTB-CE) JOSÉ PEDROSO (PSD-RJ) LEONEL DE MOURA BRIZOLA (PTB-GB) LUIZ FERNANDO BOCAYUVA CUNHA (PTB-RJ) LUIZ GONZAGA DE PAIVA MUNIZ (PTB-RJ) LUIZ PORTELA (PTB-PE) LYSÂNEAS MACIEL (MDB-GB) MARCIAL DO LAGO (ARENA-GO) MÁRCIO MOREIRA ALVES (MDB-GB) MARIANO BECK (MDB-RS) MÁRIO COVAS (MDB-SP) MÁRIO GURGEL (MDB-ES) MÁRIO MAIA (MDB-AC) MÁRIO PIVA (MDB-BA)

MARIO SOARES LIMA (PSB-BA) MARTINS RODRIGUES (MDB-CE) MATHEUS SCHMIDT (MDB-RS) MATA MACHADO (MDB-MG) MAX DA COSTA SANTOS (PSB-GB) MILTON GARCIA DUTRA (PTB-RS) MOURY FERNANDES (ARENA-PE) MOYSÉS LUPION (PSD-PR) MOYSÉS PIMENTEL (PTB-CE) MÚCIO ATAÍDE (COLIGAÇÃO PTB-PST-PL-MG) MURILO BARROS COSTA REGO (PTB-PE) NADYR ROSSETTI (MDB-RS) NÝSIA CARONE (MDB-MG) OCÉLIO DE MEDEIROS (PSD-PA) OLIVEIRA BRITO (ARENA-BA) OSÉAS CARDOSO (ARENA-AL) OSMAR CUNHA (ARENA-SC) OSMAR DE AQUINO (MDB-PB) OSMAR DUTRA (ARENA-SC) OSWALDO LIMA FILHO (MDB-PE) OTÁVIO RODRIGUES MARIA (PR-SP) PADRE GODINHO (MDB-SP) PADRE VIEIRA (MDB-CE) PAULO CAMPOS (MDB-GO) PAULO FREIRE (ARENA-MG) PAULO JORGE MANSUR (PTB-SP) PAULO MACARINI (MDB-SC) PAULO MINCARONE (PTB-RS) PEDRO GONDIM (ARENA-PB) RAUL BRUNINI (MDB-GB) RENATO ARCHER (MDB-MA) RENATO CELIDÔNIO (MDB-PR) RENATO CLIMACO BORRALHO DE MEDEIROS (PST-RO) ROBERTO CARDOSO ALVES (ARENA-SP) ROLAND CAVALCANTE DE ALBUQUERQUE CORBISIER (PTB-GB) RUBENS PAIVA (PTB-SP) SEBASTIÃO PAES DE ALMEIDA (PSD-MG) SÉRGIO NUNES MAGALHÃES JÚNIOR (PTB-GB) SYLVIO LEOPOLDO DE MACAMBIRA BRAGA (PSP-PA) SIMÃO DA CUNHA (MDB-MG) SOUTO MAIOR (ARENA-PE) TENÓRIO CAVALCÂNTI DE ALBUQUERQUE (UDN-RJ) UNÍRIO MACHADO (MDB-RS) VITAL DO REGO (ARENA-PB) WALDEMAR LUIZ ALVES (PST-PE) WALDYR SIMÕES (MDB-GB) WILLIAM SALEM (PTB-SP) WILSON FADUL (PTB-MT) YUKISCHIGUE TAMURA (ARENA-SP) ZAIRE NUNES (MDB-RS)

No lugar da Casa da Morte, um Museu da Vida Prefeitura de Petrópolis desapropria o prédio de um dos mais cruéis centros de tortura da ditadura. A Casa da Morte, no bairro de Caxambu, em Petrópolis, foi desapropriada e agora é necessário que se faça o complemento, que o local seja transformado em um museu que será importante para as novas gerações saberem que no Brasil houve um tempo obscuro com uma ditadura cruel que matava com requintes de crueldade a quem a ela se opunha. A Casa da Morte, centro de tortura usado por organismos do regime militar para matar, foi conhecida depois do depoimento da única presa sobrevivente, Inês Etiene Romeu, escrito por ela em 1971 e entregue ao Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, oito anos mais tarde. Na época, foi possível localizar o imóvel e identificar agentes que participavam da tortura, assim como militantes desaparecidos que passaram por lá. Durante os 96 dias em que esteve presa, em 1971, Inês foi torturada e sofreu violência se-

xual. “Eu estava arrasada, doente, reduzida a um verme e obedecia como um autômato”, disse Inês Etiene. No dia 7 de dezembro, ocorreu um debate no Palácio Rio Negro, em Petrópolis, com a participação, entre outros, de Rosa Cardoso, integrante da Comissão da Verdade, e Wadih Damous, representando a Ordem dos Advogados do Brasil. A ABI se fez representar pelo presidente da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos, Mario Augusto Jakobskind. O debate sobre locais de memória foi organizado por quatro instituições de defesa dos direitos humanos: ColetivoRJ Memória, Verdade e Justiça, Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis, Comitê Petrópolis em Luta e pela Articulação Estadual pela Memória, Verdade e Justiça RJ, e contou com o apoio da OAB-RJ e do Palácio Rio Negro. Rosa Cardoso revelou a decisão da Prefeitura de Petrópolis, que autorizou em 26

de novembro a desapropriação do imóvel utilizado pela ditadura para torturar e matar opositores. O imóvel já havia sido declarado de utilidade pública em agosto. No entender de Rosa Cardoso, a preservação de locais como a Casa da Morte é fundamental e esse debate deve ser aprofundado pela Comissão da Verdade, que já recomendou a preservação de imóveis em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul para a criação de centros de memória. O objetivo é preservar o conhecimento sobre os horrores que aconteceram nesses locais para que os mais jovens conheçam o que ocorreu no País e se evite a repetição desses fatos. “A autorização para desapropriação é uma vitória da sociedade”, afirmou Rosa Cardoso. Nadine Borges, representando a Ministra Maria do Rosário, titular da Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República, assinalou que a Secretaria está empenhada no sentido

de se criar em várias regiões do País museus, como o da Operação Condor, em Porto Alegre. Ela assinalou a importância de que a Casa da Morte de Petrópolis seja transformada em “Museu da Vida no contexto ideológico para o nunca mais”. Jakobskind parabenizou a iniciativa da Prefeitura de Petrópolis de desapropriar a Casa da Morte, lembrando que em vários países do mundo, como na Polônia, por exemplo, centros que serviram para a morte durante a ocupação nazista hoje são museus, como Auschwitz, destinados sobretudo à juventude, para conhecer o que aconteceu em matéria de barbárie. Lembrou também que nas esquinas do centro da capital polonesa, podem ser vistas placas em bronze com os nomes de vítimas assassinadas pelos nazistas. Antes do debate, mais de 100 pessoas participaram de manifestação em frente à Casa da Morte, lembrando com cartazes os combatentes assassinados pela ditadura no local. JORNAL DA ABI 385 • DEZEMBRO DE 2012

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LUCIANA WHITAKER/FOLHAPRESS

HOMENAGEM

Darcy: Paixão para mudar o mundo Darcy Ribeiro completaria 90 anos em 2012. Seu entusiasmo fez desse inigualável escritor e educador um transformador raro na vida social e cultural brasileira. P OR G ONÇALO J ÚNIOR

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udo parecia fácil demais para o antropólogo e educador mineiro Darcy Ribeiro (1922-1997). De uma energia contagiante, exaltava-se quando estava diante de uma platéia ou de um microfone, falava apressado, mostrava-se afoito, exagerado, gritava para ressaltar seus planos voltados para preservação dos índios e de sua cultura e à educação no País. Sabia exatamente o que fazer e como fazer, como acreditava e deixava transparecer no tom professoral que usava para explicar seus projetos, como o Memorial da América Latina, em São Paulo, projetado por Oscar Niemeyer. Não significava que não tinha razão. Pelo contrário. Darcy era sempre paixão em tudo em que se metia. Era apenas seu jeito intempestivo, passional de se envolver com iniciativas que pretendiam fazer do Brasil um país melhor. Tanto que é difícil imaginar a questão indígena e as transformações na educação brasileira nos últimos 50 anos sem sua imprescindível contribuição. Não por acaso, Antonio Cândido disse que o que espantava nele em especial era a sua capacidade de viver muitas diferentes vidas ao mesmo tempo, enquanto a maioria dos mortais mal consegue dar conta de uma existência. Em tudo em que se aventurou – e este parece ser o melhor termo para definir sua trajetória –, Darcy deixou algum vestígio da originalidade de suas idéias, de sua personalidade forte e determinada, destemida, desafiadora. Seja como Antropólogo e educador seja como político ou intelectual. Sua marca maior foi, sem dúvida, a da indignação pela recusa quase teimosa em aceitar os sofri-

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mentos de sua gente, para quem dedicou dois livros hoje importantes, O Povo Brasileiro e Diários Índios. Os volumes, aliás, demoraram para ser publicados porque Darcy tinha a ambição de construir uma obra que dividisse águas e, portanto, precisavam ser amadurecidos, aprimorados, melhorados. O primeiro é uma cuidadosa e equilibrada análise da transformação do Brasil em nação. “Somos um País racista, mas que respeita a identidade, pelo menos, à distância. Apesar da desproporção das contribuições, nenhuma etnia se autodefiniu como centro étnico. O conjunto é uno, uma etnia nacional, sem tensões entre raças, culturas e regiões. Há, sim, um brasileirismo arraigado: torcemos pela seleção tal como se houvesse uma guerra entre povos.” O segundo livro é autobiográfico. Escrito entre 1949 e 1951, nele Darcy anotou o que viu e ouviu nas duas expedições que fez às aldeias kaapor, na fronteira entre o Pará e

o Maranhão. Observador atento, ele registrou suas impressões sobre a riqueza cultural desses índios de modo simples e apaixonado. Ele também deu voz para os nativos contarem sobre seus costumes, de seus antepassados próximos, de suas origens míticas. Seu propósito era ressaltar a grande perda que representa para o País a destruição violenta dessas sociedades. Na apresentação, escreveu: “Berta, abro este diário com seu nome. Dia a dia escreverei o que me suceder, sentindo que falo com você. Ponha sua mão na minha mão e venha comigo. Vamos percorrer mil quilômetros de picadas pela floresta, visitando as aldeias índias que nos esperam, para conviver com eles, vê-los viver, aprender com eles.” Críticas aos acadêmicos

Darcy não apenas pensava o mundo, queria transformá-lo de modo radical e amplo em nome de um nacionalismo

apaixonado e apaixonante. Criticava a Universidade brasileira por privilegiar a interlocução com teorias e conceitos estrangeiros. Segundo ele, os acadêmicos “testavam”, “verificavam” e “aplicavam” esses conceitos menos preocupados em produzir a sua própria, ainda que fossem teorias de uma “ciência subdesenvolvida”, como queria o sociólogo Guerreiro Ramos, a quem dá o braço a torcer depois de o haver combatido em função dessa mesma idéia. Em suas memórias, insistiu em que as ciências sociais, especialmente a antropologia, deveriam ser instrumentos de profunda transformação social. E bateu pesado ao chamar de infecunda a ciência que se pratica no País, que mantém distante e imparcial, apenas observando, sem se importar com as condições de existência dos grupos estudados. Dava prazer vê-lo falar sobre a peculiaridade da cultura brasileira. Fazia ques-

ACERVO PONCE DE LEON

A história de Darcy Ribeiro foi contada em quadrinhos com desenhos de Eugênio Colonnese em 1986. O projeto dessa revista foi criado pelo jornalista Ponce de Leon para promoção da candidatura de Darcy ao Governo do Estado do Rio.


OTÁVIO MAGALHÃES-AGÊNCIA O GLOBO

tão de refletir e escrever sobre o que via a partir de modelos teóricos alheios aos brasileiros. Preocupava-se essencialmente em não se deixar envolver pelo academicismo de modelo americano ou europeu que, conceitualmente, vive de si e para si, segundo ele, sem a preocupação com seu papel de transformar a sociedade que a envolve. Seu propósito era construir uma grande teoria antropológica brasileira que explicasse problemas e soluções predominantes na vida brasileira, como disse em suas Confissões. Mesmo assim, parecia duro consigo às vezes: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.” Até arrematar, sem perder o prumo e seu senso de militância: “Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.” “Não tive quem me domesticasse”

A história de Darcy começou na cidade de Montes Claros, Norte de Minas Gerais, onde nasceu em outubro de 1922. A perda prematura do pai, traumática para ele, depois seria vista como fator positivo: “Não tive quem me domesticasse”, brincou certa vez. Sobre a ida para São Paulo a fim de estudar Medicina, explicou no fim da vida que desistiu do curso por causa de sua inescapável vocação humanista, que o “forçou” a matar aulas para assistir palestras na Faculdade de Filosofia. Darcy caiu num caldeirão, na época em que utopias ideológicas faziam todos pensar que poderia haver mais justiça social. Decidiu fazer ciências sociais, fato que muito desagradou a família. Não ligou para a pressão dos parentes e descobriu a felicidade do seu papel no mundo, de transformador, maravilhado com as idéias dos professores da Escola de Sociologia e Política, entre eles Herbert Baldus e Roger Bastide. Foi colega de Florestan Fernandes e Oscar Niemeyer. Foi na Universidade que se apaixonou pela obra desbravadora de seu único ídolo declarado, o Marechal Cândido Rondon (1865-1958). O contato entre os dois foi intenso, quando o seu mentor já estava em idade avançada, porém continuava ativo: os dois trabalharam juntos e ele aprendeu muito sobre ações práticas em relação aos índios – que mudaram sua vida para sempre. No primeiro momento, seu contato com diversas nações indígenas, entretanto, teve tropeços graças à sua mania de “falar demais”, de acordo com ele próprio. Depois, aprendeu a lidar com isso e se transformou num nome importante para preservação dos povos da floresta. Ao mesmo tempo, intensificou trabalhos desenvolvidos nas áreas de educação, sociologia e antropologia. Em especial, depois que se aproximou do notável educador baiano Anísio Teixeira (19001971), que tanto admirava e de quem se tornou amigo por toda a vida. Em Brasília

Na mesma época de juventude, entrou para o Partido Comunista. Maduro, mudou-se para Brasília, a fim de ajudar no planejamento e na fundação da Universida-

Foi com enorme paixão e entusiasmo que Darcy Ribeiro se dedicou a tudo em sua vida. Acima, no início de 1984, na Passarela do Samba que leva o seu nome e projetada por Niemeyer. Ao lado, ele e Brizola inauguram um Ciep em Olinda, com a presença do carnavalesco Joãosinho Trinta.

de de Brasília, da qual se tornou o primeiro reitor. Também foi o idealizador da Universidade Estadual do Norte Fluminense. Seu nome já era conhecido. E ficou mais ainda quando ocupou o cargo de Ministro-Chefe da Casa Civil do Presidente João Goulart (1961-1964). Depois de 1964, do mesmo modo que muitos outros intelectuais brasileiros, foi obrigado a se exilar durante a ditadura militar. No seu caso, viveu alguns anos no Uruguai. Voltou na redemocratização e, no primeiro Governo de Leonel Brizola, no Rio de Janeiro (1983-1987), como ViceGovernador, criou, planejou e dirigiu a implantação dos Centros Integrados de Ensino Público-Ciep, projeto pedagógico considerado depois como visionário e revolucionário no Brasil, que se fundamentava na assistência em tempo integral às crianças, incluindo atividades recreativas e culturais para além do ensino formal – aplicou na prática os projetos idealizados décadas antes por Anísio Teixeira. Coube a Darcy incorporar conceitos e a importância da educação como ferramenta para o processo de industrialização e desenvolvimento do País, assim como para reforçar o papel de cidadania que cabe a cada pessoa numa nação. Quando isso aconteceu, estava distante do tempo em que os políticos de direita adotaram esse mesmo discurso. A projeção que obteve nacionalmente nesse aspecto o estimulou a se candidatar ao Governo fluminense pelo PDT nas eleições de 1986. Não levou – Moreira Franco, do PMDB, venceu, graças principalmente à popularidade do recém-lançado Plano Cruzado, criado para conter a inflação. Teve mais sorte em 1991, quando foi eleito Senador pelo Estado do Rio de Janeiro – ficou no cargo até sua morte, seis anos depois.

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Vítima de um câncer, Darcy se apressou para escrever suas memórias quando soube da doença. Confissões é um livro imprescindível para conhecer sua vida, idéias, sua valiosa contribuição para fazer do Brasil um País melhor, a força de seu legado e seu poder transformador. “Escrevi estas Confissões urgido por duas lanças”, observou na apresentação de suas memórias, publicadas no mesmo ano de sua morte. “Meu medo-pânico de morrer antes de dizer a que vim. Meu medo ainda maior de que sobreviessem as dores terminais e as drogas heróicas trazendo com elas as bobeiras do barato. Bobo não sabe de nada. Não se lembra de nada. Tinha que escrever ligeiro, ao correr da pena. Hoje, o medo é menor, e a aflição também. Melhorei. Vou durar mais do que pensava. Quero muito que estas minhas Confissões comovam. Para isso as escrevi, dia a dia, recordando meus dias. Sem nada tirar por vexame ou mesquinhez nem nada acrescentar por tolo orgulho.”

Seu propósito, nesta recapitulação, era saber e sentir como foi que chegou a ser o que viria ser. “Quero também que (minhas memórias) sejam compreendidas. Não por todos, seria demasia, mas por aqueles poucos que viveram vidas paralelas e delas deram ou querem dar notícia. Nos confessamos é uns aos outros, os de nossa iguala, não aos que não tiveram nem terão vidas de viver, nem de confessar. Menos ainda aos pródigos de palavras de fineza, cortesãos.” Em tom de despedida, acrescentou a seu estilo inconfundível: “Termino esta minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras. A você que fica aí, inútil, vivendo vida insossa, só digo: ‘Coragem! Mais vale errar, se arrebentando, do que poupar-se para nada. O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Essa é, aqui e agora, a nossa parte. Depois, seremos matéria cósmica, sem memórias de virtudes ou de gozos. Apagados, minerais. Para sempre mortos’.” JORNAL DA ABI 385 • DEZEMBRO DE 2012

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DEPOIMENTO

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ão foi uma decisão fácil. Aceitar concorrer ao cargo de Presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo implicaria desistir, pelo menos durante um período, do trabalho que mais o gratificava: ser repórter. Audálio Dantas deixou de fazer muitas coisas para continuar sujando os sapatos na rua, fazendo grandes reportagens. Até o dia em que recebeu a missão de assumir o cargo desafiador. O período era um dos mais sombrios e violentos da História do Brasil, com jornalistas sendo presos, torturados e mortos nos porões da ditadura. Mesmo assim, Audálio aceita a incumbência e transforma o Sindicato numa central de resistência aos desmandos dos militares. Como Presidente, ele atua no fio da navalha, enfrentando duas guerras extremas: tomava decisões que desafiavam o poder e a ultradireita inconformada com a “abertura lenta e gradual”. Ao mesmo tempo lidava com a insatisfação de companheiros da esquerda radical, que tachavam a diretoria do Sindicato com adjetivos pouco louváveis. Mesmo assim, Audálio conduziu a entidade com coragem e generosidade. E teve o apoio da grande maioria dos jornalistas de São Paulo, que nunca estiveram tão unidos quanto naquela época. “Como todas as coisas que fiz na minha vida, quando entro, faço pra valer. E foi o que aconteceu no Sindicato”, disse Audálio nesta entrevista ao Jornal da ABI, cuja primeira parte foi publicada na edição anterior. A continuação pode ser lida a seguir.

Jornal da ABI – A época em que você trabalhou na Realidade foi um dos períodos mais sombrios da História do Brasil, com prisões arbitrárias, torturas e assassinatos nos porões da ditadura militar. Como era conviver com esse clima de insegurança? Audálio Dantas – Havia, claro – como havia em todas as Redações –, o temor da repressão... Durante essa fase, quando eu ainda estava na Quatro Rodas, um pouco antes de ir para a Realidade, prenderam colegas nossos. O Milton Coelho da Graça, que era militante do Partido Comunista, foi preso. Tinham-lhe quebrado os dentes todos! Depois ele foi para a Editora Abril e dirigiu a Realidade. Aliás, o Milton trouxe do Rio de Janeiro vários jornalistas que eram ligados à esquerda. O Rodolfo Konder, o Aristélio Andrade, o Maurício Azêdo... pessoas notoriamente ligadas ao Partido Comunista, que era o partido da esquerda na época. O Fernando Pessoa Ferreira, que era da Quatro Rodas, foi preso, acu-

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sado de subversão e levado para a Operação Bandeirantes, que foi a precursora do Doi-Codi. Eu era Redator-Chefe da revista e me lembro de que fui visitá-lo na Operação Bandeirantes, no Ibirapuera. Jornal da ABI – Como você se sentia nesse clima de insegurança? Audálio Dantas – Eu não era filiado a nenhum partido... Era de esquerda, mas evidentemente essa situação de insegurança me atingia. Quando fui visitar o Fernando Pessoa na Operação Bandeirantes, eles não me deixaram vê-lo. O general ou coronel, sei lá, me recebeu e aí eu percebi em que mundo a gente estava vivendo... a gravidade da situação. Acho que foi mais um companheiro comigo, não me lembro quem... Mas nós levamos roupas para o Fernando e entre elas havia um suéter vermelho e o militar disse: “Olha, acho bom não deixar essa roupa aqui, porque vão pensar que tem alguma conotação política”. (risos) Quer dizer, a estupidez assustava! Era de assustar! O fato é

AS DUAS GUERRAS DE

Audálio Dantas POR F RANCISCO U CHA F OTOS MARTIN CARONE DOS SANTOS

que isso dava a medida da violência. Eu percebi mais fortemente a extensão dessa coisa que, inclusive, tinha um componente muito grande de estupidez, de burrice, porque considerar que uma peça de roupa vermelha pudesse ter essa conotação toda, era assustador... Bom, sempre visitei outros companheiros presos. A isso nunca me neguei, nunca tive temor. Claro que ia achando que era perigoso, mas não deixava de ir. Depois, isso voltou a acontecer com muita força

quando eu já estava no Sindicato dos Jornalistas. Aliás, eu saí da Redação da Realidade quando houve o convite para me candidatar. E o convite veio pelo Milton Coelho da Graça, que era editor da revista. Evidentemente, apesar de toda perseguição que ele sofreu, continuava ligado ao Partido Comunista e muitas outras figuras ligadas ao Partido Comunista participavam do movimento que terminou escolhendo meu nome como candidato. Isso está contado no

livro do Vlado (As Duas Guerras de Vlado Herzog). Jornal da ABI – Por que eles escolheram seu nome? Audálio Dantas – Porque acharam que deviam procurar um sujeito que fosse um nome conhecido, com credibilidade e, ao mesmo tempo, que não estivesse ligado a partidos. Esse movimento que se organizou era muito plural, não era de uma tendência política, mas de várias tendênci-


as, entendeu? Eu resisti até as últimas conseqüências a aceitar essa incumbência, que era quase como se estivessem me dando uma tarefa. Deixei de fazer muita coisa na minha vida para fazer reportagem... eu pensava ‘aí aparece uma viagem e não posso fazer a reportagem’, coisas desse tipo. Eu participava dos movimentos de oposição do Sindicato, sempre participava. Mas ser candidato... Eu não queria ser candidato a Presidente do Sindicato, porque avaliei que iria parar de fazer reportagem. Jornal da ABI – Nesse sentido, podemos afirmar que você estava, de certa forma, se violentando ao aceitar esse cargo, não é? Audálio Dantas – Era uma violentação, sem dúvida. Mas acontece que sendo uma pessoa de esquerda, apesar de não estar militando em uma organização, eu, em determinado momento, disse: ‘É uma tarefa... isso aqui é um caminho que tenho que fazer”, então aceitei e fui, mesmo contrariado. Como todas as coisas que fiz na minha vida, quando entro, faço pra valer. E foi o que aconteceu no Sindicato. Jornal da ABI – A administração anterior do Sindicato deixou alguma pendência, alguma dívida ou algo que a desabonasse? Audálio Dantas – A gente nem se incomodou em ver como estava isso, porque a administração anterior era principalmente burocrática. Considerava que o Sindicato era uma instituição trabalhista, portanto, preocupada com salários, condição de trabalho e nada mais. E nossa proposta, nossa visão, era exatamente a de que, na circunstância em que se vivia, o Sindicato deveria ser um instrumento político e assim o encaminhamos. Desde nossa posse, em maio de 1975, o Sindicato assumiu essa característica. Inclusive com a organização interna que abriu as reuniões da diretoria para os sócios que quisessem participar. Tinham direito a voz inclusive, mas não a voto. Foi uma abertura democrática que nunca havia existido. Nisso, apareceram figuras importantíssimas que contribuíram para a evolução política do Sindicato, como Perseu Abramo, que era um jornalista de grande responsabilidade e um trotskista. Mas não havia preconceito político em relação a posições. Jornal da ABI – A esquerda estava unida? Audálio Dantas – A esquerda estava unida, como não está hoje. A grande frente de esquerda era o maior instrumento contra a ditadura militar. Apenas dois meses depois da nossa posse fui convocado, pela primeira vez, pelo próprio Comandante do II Exército em razão de posições do Sindicato. Quer dizer, nossa entrada no Sindicato coincidiu como uma ofensiva que era contra o PCB. Eles tinham derrotado a luta armada des-

de 1972 ou 1973, e se voltaram para o PCB, que nunca fez nada no sentido de luta armada, pelo contrário, era contra. Então essa campanha da linha dura contra o PCB tinha começado desde janeiro, com o desmantelamento da gráfica do PCB no Rio de Janeiro, e veio crescendo. Vários presos no Rio de Janeiro foram trazidos para cá (São Paulo), no Doi-Codi, e aqui temperaram essa campanha dizendo que a imprensa estava infiltrada pelos comunistas, que dominavam as Redações. E o Sindicato fez uma nota dizendo que isso era um absurdo, que não existia infiltração. E essa campanha, que começou em junho e julho, chegou a outubro com a prisão de 12 jornalistas em seqüência e a morte do Vlado. O Sindicato soltou a nota em virtude de um fato específico. Em uma cerimônia de entrega de diploma da Escola Superior de Guerra, no Palácio dos Bandeirantes, o locutor fez um discurso que era de encomenda dizendo: ‘É verdade, o General tem razão, os comunistas estão tomando conta de tudo, as Redações estão totalmente dominadas’. Foi um discurso inflamado. Esse cara era um jornalista. Então, a nossa nota tinha esse gancho, dizendo que considerávamos que aquele nosso associado estava cometendo um equívoco e pondo em risco o trabalho dos colegas. Foi quando fui convocado pela primeira vez! A gente sabia o que estava acontecendo. Jornal da ABI – O que estava acontecendo? Audálio Dantas – Eles queriam chegar aos jornalistas. E no II Exército o General disse: “Os senhores fizeram uma nota muito violenta contra o companheiro e o rapaz tem razão, os jornais estão tomados pelos comunistas” (risos), dizia o comandante, General Ednardo D’Ávila Mello. Isso foi no começo de julho. Jornal da ABI – Na época, qualquer humanista era tachado de comunista... Audálio Dantas – Pois é... Havia uma guerra surda entre as facções internas do regime. Aqui em São Paulo, principalmente, era aquela que se opunha de maneira muito marcante à proposta de abertura do Governo Geisel. Essa coisa evoluiu até chegar aos fatos de outubro. Jornal da ABI – Vários livros já contaram a história do assassinato de Herzog. Faltava a sua versão como Presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo? Audálio Dantas – O principal sentido desse livro é o de contar essa história do ponto de vista do Sindicato dos Jornalistas, cujo papel foi absolutamente necessário e fundamental para que se denunciasse a farsa montada pela ditadura. O caso Vlado não foi a primeira denúncia do Sindicato. A primeira denúncia se dá quando acontece a primeira prisão de

trapolou; fez uma denúncia grave e o senhor pode estar enquadrado na Lei de Segurança Nacional”. Mais uma vez fui lá e o comandante não me recebeu, estava bravo. Outros oficiais me receberam. O problema é que eles não recuaram como a gente esperava. Foi o contrário, a intenção deles era mostrar “nós estamos aqui”. Acho que o próprio Vlado analisou erroneamente a situação, porque ele ficou de se apresentar. Foi o único caso... ele não foi preso e seqüestrado, eles aceitaram que ele se apresentasse no dia seguinte. E ele se apresenta com uma, digamos... certa “tranquilidade”. “Como não sou nenhum criminoso, eu vou lá”. E foi aí que eles pegaram... Quer dizer, desde a minha ida à Sip, foram três dias; eles prenderam mais três jornalistas e um deles era o Vlado. Foi o último. Isso é o resumo daquela semana. E a semana de grande tensão foi a que se seguiu à denúncia do assassinato! Então, o livro tem esse sentido de resgatar o papel do Sindicato dos Jornalistas, e não só do Sindicato, como dos jornalistas! Os jornalistas se uniram como nunca! Nem antes e nem depois os jornalistas se uniram tanto quanto naquele momento.

um jornalista em 5 de outubro, do Sérgio Gomes da Silva. Eu entrevistei todos para o livro. Conto a história de cada um. Como eles foram presos, o que eles passaram lá, todos os detalhes. Isso fazia parte de um plano completo, não era isolado. E quando chega ao Vlado, curiosamente, eu cheguei a pensar que as coisas estavam se amainando em virtude das denúncias que a gente fazia desde a primeira prisão, porque as prisões haviam parado um tempo. Numa das convocações do General, ele disse que iria nos avisar quando fossem acontecer novas prisões. Isso era algo extremamente perigoso, mas ao mesmo tempo, tinha algum sentido de poder tomar outros rumos. Mas depois pensei: “Vamos ficar cúmplices dessas prisões? Porque, mesmo assim, vão prender jornalistas!” A única vantagem é que antes você não sabia local, hora, dia, para onde ia... E, dessa forma, pelo menos isso se poderia saber. Jornal da ABI – Mas isso não terminou acontecendo, certo? Audálio Dantas – Não. Não chegou a acontecer. E explico por que pensei que o clima havia se amainado. Porque no domingo da semana em que o Vlado morreu, eles fizeram uma coisa que parecia um gesto de... “bondade”, digamos assim. Os jornalistas Paulo Markun e a mulher dele, a Diléia Frate, estavam presos. E o batizado da filha deles estava marcado para o domingo anterior à morte do Vlado. Então, o General mandou libertar os dois para que eles pudessem ir ao batizado. Houve também um fato importante que aconteceu

“Confesso que fui temeroso porque era grave... e durante uma sessão plenária eu citei um por um os nomes dos nove jornalistas presos naquele momento.” no meio da semana. Acho que no dia 22 ou 23, durante a Conferência da Sociedade Interamericana de Imprensa, a Diretoria do Sindicato se reuniu e achou conveniente que eu fosse fazer uma denúncia durante esse evento, que evidentemente era importante. Pensávamos que ao denunciar esse estado de coisas na Sip, que reunia jornalistas de todos os países americanos, isso se tornaria conhecido e eles recuariam. Fui, mas confesso que fui temeroso porque era grave... e durante uma sessão plenária eu citei um por um os nomes dos nove jornalistas presos naquele momento. E isso repercutiu imediatamente, porque eles tinham gente infiltrada em todos os lugares, inclusive na Conferência. Quando voltei para o Sindicato já havia uma nova convocação do II Exército. Dizia: “O Comandante o está convocando para dar explicações porque o senhor ex-

Jornal da ABI – O que aconteceu quando foi divulgada a morte de Vlado? Audálio Dantas – A primeira coisa que houve é que, logo na manhã do domingo, dia 26, no dia seguinte da morte do Vlado, começaram a chegar vários jornalistas no Sindicato. Eles ouviram as notícias, souberam aqui e ali, e foram ao Sindicato para saber o que estava acontecendo. Jornal da ABI – Antes de você assumir o Sindicato, ele não tinha esse papel de congregação? Audálio Dantas – De jeito nenhum, era o contrário. O Sindicato não era para se meter nessas coisas. No domingo de manhã começou a chegar gente ao Sindicato. Eu cheguei de Presidente Prudente porque tinha ido fazer uma palestra lá. Cheguei por volta das 10 horas já com uma nota feita em parceria com o Fernando Pacheco Jordão, que era um dos diretores do Sindicato, uma pessoa muito ligada ao Vlado. E começaram a chegar mais e mais jornalistas. Num determinado momento quase não dava para entrar na sala da Diretoria. Então percebi o que aquilo podia significar. A minha análise imediata foi a seguinte: esses jornalistas sabiam que dezenas de companheiros morreram torturados e não puderam noticiar! Agora chegaram no limite! É por isso que estão vindo aqui. Não era porque um jornalista morreu, mas porque outros 24 jornalistas foram mortos ou desaparecidos antes do Vlado. Mas é que foi a gota d’água! Foi o despertar da consciência desses jornalistas e depois, da consciência nacional, sem dúvida! Essa é a minha interpretação. Tan-

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DEPOIMENTO AS DUAS GUERRAS DE AUDÁLIO DANTAS

to é que muitos dos presentes participaram do texto final daquela nota, deram idéias complementares. Havia, entre eles, aqueles que tinham medo do que podíamos dizer nessa nota. Mas ela foi aprovada praticamente por uma assembléia, com participação de todos. Foi a maior reunião na Diretoria do Sindicato que já aconteceu. Essa nota foi a pedra-detoque por duas razões: Primeiro, ela dizia que a autoridade é responsável pelo preso que tem sob sua custódia e finalizava dizendo que esperávamos que as prisões ilegais acabassem. Era um desafio! Mas, mesmo assim, ela ainda não dizia que não aceitávamos a versão do suicídio. Nenhum de nós aceitava essa versão! E no final, convidávamos para o sepultamento. Isso detonou o movimento, porque foi a primeira vez que um sepultamento de uma vítima da ditadura foi feito com publicidade, com conhecimento. Tanto que se meteram lá umas mil pessoas no dia seguinte. E havia a possibilidade, como houve em outros momentos, de os militares tentarem fazer o sepultamento antecipado, no domingo. Mas esse movimento dos jornalistas foi o responsável por impedir isso. Porque, quando o corpo chegou ao velório no Hospital Albert Einstein, muitos jornalistas lá estavam... e a gente estava convocando a todos. Cada sujeito que saiu daquela reunião, foi para a sua Redação dizendo “olha, temos que ir ao enterro, ao velório, porque eles podem tentar sepultar antes para evitar alguma manifestação amanhã”. Foi um movimento fantástico. E todos foram para o velório. Os militares até poderiam tentar fazer o sepultamento antes, mas seria um escândalo tirar o corpo à força dali porque lá estavam centenas de jornalistas. Ficaram à tarde e depois à noite até o sepultamento no dia seguinte. O Vlado foi a primeira vítima da ditadura a não ser enterrada em silêncio. Esse é um fato importante. Jornal da ABI – Há uma foto comovente sua ao lado do caixão de Vlado no velório... Audálio Dantas – Eu só vi essa foto dez anos depois, e não só essa, como outras fotos do sepultamento, porque elas foram feitas pela Elvira Alegre, que era ligada ao Hamiltinho (Hamilton Almeida Filho), do jornal Ex-. Quando ela percebeu a extensão dos acontecimentos, ficou com receio e não publicou. O jornal Ex- acabou logo depois (ver matéria a partir da página 40) e elas ficaram inéditas. Vi essa foto publicada na Folha de S.Paulo dez anos depois. Vendo a foto, pode parecer que o corpo de Herzog estava sozinho lá, mas não estava. É que chega um momento, em qualquer velório, que as pessoas cansam e vão para rua, respirar um pouco... E eu fiquei ali. Mas, ainda hoje, não sei se eu dormi ou se estava pensando no problema ou em como seria no dia seguinte... não sei.

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“Nas reuniões do Sindicato, tinha gente que propunha tudo! Derrubar o II Exército, derrubar o Governo!”

Jornal da ABI – Você tinha medo do que iria acontecer no dia seguinte? Audálio Dantas – Tinha medo do que poderia acontecer... Durante todos os dias seguintes, até o culto ecumênico! Vamos imaginar... Eles poderiam tentar uma ação desesperada no cemitério, na hora do sepultamento... uma operação militar. Mas eles já estavam recuando, eles perceberam! O dia do sepultamento foi importante como denúncia. O corpo foi sepultado e esse fato não foi escondido, como no caso do Manuel Fiel Filho, que aconteceu três meses depois. Eles praticamente obrigaram a família a enterrar o Fiel Filho logo às 8 horas da manhã! Bom, a gente sabia que os caras estavam alucinados, esse grupo da ultradireita, que se opunha à abertura política, era um bando de celerados! Eles queriam pegar o Geisel, o Governador de São Paulo, Paulo Egydio, o José Mindlin, o Dom Paulo, era uma doideira, entendeu? Dava para ver que estávamos nas mãos de um bando de loucos. Eles ameaçavam com a chamada Operação Jacarta, que era uma repetição do massacre que houve na Indonésia. E o Geisel não era nenhum democrata, nenhum santo! Ele apenas percebeu duas coisas: que havia uma espécie de cansaço dos metais. Estava na

ção do culto ecumênico aconteceu nessa reunião de segunda-feira, dia do sepultamento, à noite, depois que voltamos do II Exército com as fotos do Vlado autopsiado... aquela em que ele está pendurado e todo mundo já publicou. Ela virou uma espécie de marca da ditadura.

hora de o regime se reformar para não ser reformado. Aquela coisa do “vamos fazer a revolução antes que o povo a faça”. Tanto é que depois do episódio, ele declarou que a censura e tortura eram necessárias, a tortura era um expediente necessário em determinadas circunstâncias para derrubar as conspirações comunistas! Bom, a partir do dia do sepultamento, que foi um dia de alta tensão, porque o sepultamento foi feito sob tensão, nós sabíamos que ali estavam os militares disfarçados, acompanhando tudo de perto. E quando eu retornei ao Sindicato, fui convocado mais uma vez! Eu e a Diretoria do Sindicato! Jornal da ABI – Você foi ameaçado de prisão? Audálio Dantas – Não cheguei a ser preso. Considero que em razão da própria denúncia, eu não fui preso. Mas fui convocado e o Comandante Ferreira Marques, que era Chefe do Estado-Maior do II Exército, me disse: “Tenho informações de que o senhor pronunciou um discurso inflamado no cemitério!” E eu perguntei: “Qual discurso inflamado?! Eu recitei versos do Navio Negreiro, de Castro Alves!” (risos). Era verdade. Eu havia recitado Navio Negreiro. Aquilo era uma loucura. Eram dias de

alucinação coletiva dos milicos da ultradireita, não tenha dúvida. Jornal da ABI – A Folha da Tarde noticiou que o Sindicato dos Jornalistas distribuiu comunicado que “em linhas gerais” confirmava as informações dos militares. Como vocês receberam isso? Audálio Dantas – Isso foi uma mentira absurda! Quem lê o texto do comunicado vê que é exatamente o contrário. A Folha da Tarde era a porta-voz do porão. A empresa Folha fazia um jogo duplo, porque a Folha de S.Paulo se comportava de uma maneira, omitia informação, mas não chegava a esse nível. A empresa usava a Folha da Tarde como uma espécie de álibi, dizendo “Olha, nosso jornal está defendendo vocês”. Eles defendiam descaradamente a ditadura, a tortura, tudo! Jornal da ABI – Que jornalistas escreviam no Folha da Tarde? Audálio Dantas – Não cito o nome desses jornalistas no meu livro, mas eles estão citados em outros livros. Muitos deles tinham papel duplo, eram jornalistas e ao mesmo tempo funcionários da Polícia, investigadores, coisa desse tipo. Um dado importante é que a decisão sobre a realiza-

Jornal da ABI – Essa união dos jornalistas se manteve durante a semana? Audálio Dantas – A partir dessa reunião na segunda-feira, dia 27, começaram a surgir as primeiras divergências da esquerda, ao mesmo tempo em que houve uma união forte da categoria. Nas reuniões do Sindicato, tinha gente que propunha tudo! Derrubar o II Exército, derrubar o Governo! E tivemos que lidar com isso. Eu mesmo fui confrontado muitas vezes! Eu tinha certeza do que a gente estava fazendo e sabia que a gente estava no fio da navalha. Que qualquer gesto mal pensado poderia acabar com o próprio canal de protesto, que era o Sindicato. Podiam usar legalmente a lei e fechar o Sindicato, por exemplo! Então, o culto ecumênico foi proposto primeiro como uma missa da Igreja Católica. Depois, um dos diretores argumentou dizendo que não era correto, porque Vlado era judeu. Partimos para idéia do culto ecumênico, que foi o grande momento, o mais significativo daquele protesto, e até acontecer o culto ficamos sem pisar no chão! Isso no Sindicato era quase literal. Eu saía do auditório e ia até a sala da Diretoria sem pisar no chão, porque era um ajuntamento fantástico de gente! Já não era mais só de jornalista: havia estudante, engenheiro, arquiteto, todo mundo. E também ouvia xingamentos, muitas vezes. Jornal da ABI –Muitos jornalistas te acusavam, não compreendiam sua posição? Audálio Dantas – Alguns tinham posição de botar para quebrar. Na primeira reunião decidimos que todas as propostas seriam discutidas pela Diretoria e ela decidiria quais medidas tomar. Aí falavam: “Pô, seu vendido, seu covarde!”. Uma vez fui para a sala da Diretoria, no meio daquelas pessoas todas, praticamente sendo arrastado, e uma moça esbravejou comigo assim: “Faltou colhão!” (risos). Nunca vou esquecer isso (risos). Eram propostas de avançar na esteira dos fatos, como sair numa grande passeata pela cidade. Houve proposta de fazer uma passeata até o II Exército, que era uma medida absurdamente idiota. Jornal da ABI – Quando você tomou a decisão de escrever esse livro? E quanto tempo você passou escrevendo? Audálio Dantas – Tomei a decisão em 2005, mas não comecei a escrita imediatamente por várias razões. Primeiro, porque precisava reconsti-


“Eles poderiam tentar uma ação desesperada no cemitério, na hora do sepultamento...” tuir os fatos e não tinha anotado nada. Então, dependeu de uma pesquisa aprofundada por meio de entrevistas. Jornal da ABI – Você teve auxílio para fazer a pesquisa e as entrevistas? Audálio Dantas – Tive auxílio nas entrevistas, na pesquisa fui só eu, aliás, até me arrependo disso, porque deveria ter pedido ajuda. Foi um trabalho muito grande. Mas nas entrevistas, sim. O Jorge Sá de Miranda acompanhou a maioria das entrevistas e fez o resumo que eu utilizei depois. Jornal da ABI – Você entrevistou muita gente, fez muita pesquisa, muitas recordações dramáticas. Como você driblou a dor? Audálio Dantas – Um dos problemas para começar a escrever todos nós jornalistas temos. Diante da máquina de escrever ou do computador, você fica um tempo e pensa: “E agora, como começo?”. Isso aconteceu comigo de maneira dramática, porque, sendo parte da história, eu pensava “Pô, como vou me colocar nisto aqui? Como vou reviver aqueles momentos de emoção?”. Era uma emoção muito forte. Isso atrasou muito o início da escrita. Só fui começar a escrever em 2010, cinco anos depois da decisão de fazer e de começar a pesquisa. Então, quando comecei, é a tal história – acho que acontece com todos nós –, a coisa deslanchou e percebi que tinha tudo isso registrado na minha cabeça, como se fosse um compartimento. Aquilo estava lá e foi vomitado! Inclusive a emoção que transparece no texto em vários momentos. Eu tinha medo de cometer enganos com datas e nomes, mas depois percebi que estava tudo guardado na cabeça, sem nenhuma anotação! Jornal da ABI – Em algum momento, na hora que escrevia, veio uma emoção forte a ponto de chorar ou ficar deprimido? Audálio Dantas – Chorar não, mas fiquei deprimido muitas vezes, principalmente quando contei alguns episódios que eu me apanhei assim... (pausa) emocionado demais e tive que parar de escrever. Não era só porque aquilo estava me incomodando, mas é porque eu achava que o episódio precisava ser narrado com mais cuidado, não apenas pela emoção. Precisava me ater aos fatos para não ficar preso só à emoção, para não comprometer a informação. Jornal da ABI – Em quanto tempo você retomava? Audálio Dantas – A escrita desse livro foi fragmentada. Um problema sério é que eu não tinha um local para escrever, um escritório. Tenho meu computador aqui em casa, minha biblioteca, mas precisava me afastar para não ter a interferência natural daqui. Então escrevia duas ou três horas por dia, passava três ou quatro dias sem escrever. Foi muito picada a escrita.

Agora, uma coisa importante: sempre procurei continuar no fio da história como fazia nas minhas reportagens. E também usando o famoso gancho jornalístico. Ogancho daquele texto que terminara na véspera, eu pegava para poder continuar. Às vezes ficava mais de dez dias sem escrever. Ah! Eu escrevia muito à noite, na cama, na cabeça, só mentalmente. Jornal da ABI – E não perdia essas idéias no dia seguinte? Audálio Dantas – Não, é curioso. Porque muita gente que tem esse processo mental à noite levanta e vai escrever. Eu elaborava tudo, ficava muitas horas sem dormir, depois adormecia e no dia seguinte, eu acordava com a necessidade de escrever.

sinato de Herzog. Mas como reagiu? Por quê? A partir de que momento? É isso que estou contando nesse livro. Essa foi minha proposta! Agora, há também casos espantosos de acadêmicos, nomes importantes, que escreveram sobre esse período e não citam o Caso Herzog. Não se pode falar do período da ditadura sem citar o Caso Herzog, porque ele foi fundamental, foi um divisor de águas. Não vou citar o livro, mas uma acadêmica de que também não vou citar o nome escreveu uma obra que é supercitada por aí, sobre o caso Herzog. Foi publicada nos Estados Unidos pela imprensa universitária, circulou nos meios universitários. Então essa mentira se tornou internacional. Ela mesma fala na introdu-

Audálio Dantas – Sim, porque uma das coisas que decidi foi não ficar exclusivamente no episódio de seu assassinato. Pensei em contar sua história, em dar um sentido a ela. Uma parte do livro é biográfica. O Vlado menino na Europa, menino no Brasil, o Vlado que se fez homem e se tornou um brasileiro de fato, o Vlado profissional. Só depois entro no caso. O livro não tem a preocupação de trazer novidades, mas tem fatos novos. E também, os protagonistas do episódio foram importantes: a Clarice Herzog, Dom Paulo Evaristo Arns, José Mindlin, que era o Secretário de Cultura, o Rabino Sobel e o Juiz Márcio José de Morais. O livro termina com uma série de cinco entrevistas com eles, evidentemente resumidíssimas

ção que o livro se tornou leitura obrigatória nas universidades da América Latina. E escreve um monte de besteiras que é um negócio que me indignou. Por exemplo, a certa altura ela fala que foram 38 mil pessoas ao culto ecumênico! Disse que foram 8 mil na Catedral da Sé e 30 mil na praça. Nunca! Não sei de onde ela tirou esse número! Não foram! Não cabem oito mil pessoas na Catedral. Por não caber é que as pessoas se espalharam pela praça! Foram 8 mil e não 38 mil. E o livro está com datas erradas! Um absurdo! E, no entanto, esse livro é muito citado. Acho que isso não foi feito de má-fé, mas por relaxamento, preguiça. Ela não fala uma única vez no Sindicato dos Jornalistas! Pô, que conversa é essa?! Assim como a TV Globo fez há alguns anos um Caso Verdade, e não citou uma vez o Sindicato. Eles falaram dos movimentos, do culto ecumênico, do sepultamento, mas não do Sindicato! E por quê? Então, acho que o meu livro deve contribuir para restabelecer o papel do Sindicato dos Jornalistas, para não prevalecerem essas versões absurdas e mentirosas.

porque todos estão ao longo do livro. É o capítulo chamado “Testemunhos” e termina com uma frase do Márcio, sobre a condenação da União pela morte do Vlado, que acho que define aquele momento do Brasil: “Rompeu-se, ali, a unidade do Estado repressivo, como um vaso que se quebra e não tem mais conserto”. É uma definição perfeita. Aliás, ele me ligou outro dia dizendo que estava absolutamente recompensado no livro pelo papel que ele desempenhou. O papel dele foi muito importante!

Jornal da ABI – E sua família? Como lidou com esse trabalho? Audálio Dantas – Durante esse tempo, raramente tive um fim de semana. Isso significa que não sobrava tempo para a família, porque eu saía para escrever e vinha na hora de almoçar. Mas às vezes queria continuar escrevendo e chegava três ou quatro horas da tarde. E isso naturalmente causou alguns problemas. Mas acho que valeu a pena e a Vanira (esposa de Audálio) me ajudou de maneira extraordinária. Jornal da ABI – Vários livros já foram escritos sobre Herzog. Foi difícil escrever a sua versão por causa de tantas outras que já existiam? Audálio Dantas – Sim, sim. Bom, vou me abster de falar de outros, mas vou falar de um livro, o do Fernando Jordão, chamado Dossiê Herzog. Nele, os fatos são narrados, muitas vezes, com a indignação que era mais do que justificável na circunstância. O livro do Jordão é muito importante. Foi o primeiro que colocou o Sindicato no centro dos acontecimentos, ele era um dos diretores. Agora, de uns tempos para cá, foram lançados outros livros que não tinham essa importância. Inclusive, quando anunciei em 2005 que ia escrever a história do Vlado, surgiu assim de repente um outro... não quero nem dizer qual. Mas achei que, apesar disso, eu tinha que cumprir esse papel de restabelecer a verdade dos fatos, principalmente em virtude do papel do Sindicato e do meu próprio papel. Porque essa história foi contada de mil maneiras diferentes e quase todas não fazem nem uma referência ao Sindicato dos Jornalistas! Algumas vezes por acomodação, por omissão, e outras vezes por deliberação. Setores que acham que devem passar por cima da História, principalmente empresas jornalísticas muito fortes. Falar de um Sindicato é como estar trabalhando contra eles. Então, nada de encher a bola. Até alguns companheiros que participaram dos acontecimentos esqueceram o papel do Sindicato! Uma coisa muito comum era dizer que a sociedade civil reagiu ao assas-

Jornal da ABI – Você já tinha a idéia de contar a trajetória do Herzog desde sua infância na Europa?

Jornal da ABI – O depoimento do Rodolfo Konder também foi importante, nesse caso. Audálio Dantas – Foi importante porque ele foi uma das testemunhas da tortura do Vlado. Não podia deixar de ser entrevistado para o livro, apesar de esse fato ser conhecido. Mas ouvir do próprio personagem é muito importante, porque ele rememorou um momento dramático da sua vida; ele foi uma das vítimas. Jornal da ABI – Você acha que sem a eleição dessa Diretoria do Sindicato dos Jornalistas não haveria esse movimento? Audálio Dantas – Ah! Isso eu quero enfatizar: sem aquela Diretoria,

naquele momento no Sindicato, não teria havido a denúncia. Não tenho nenhuma dúvida. Aquela denúncia se produziu porque já era resultante de um movimento muito importante da categoria dos jornalistas. Essa é a primeira questão. E a segunda é que foi o Caso Herzog que começou a reação da sociedade contra a ditadura, uma reação gradativa que começou naquele momento na Praça da Sé e que, depois, em razão desse fato, levou ao ressurgimento do movimento operário, que estava absolutamente abafado. As primeiras greves... O Lula é importante por ser ele a figura que é. Mas ele é um produto desse episódio! Ao cair a censura, não oficialmente, os jornalistas começaram a noticiar as coisas! Por exemplo: como se deu a primeira greve operária depois de anos no ABC? Foi em virtude de uma informação que era impossível publicar antes. Os dados do custo de vida, da inflação... Porque os sindicatos tinham cada um uma data-base e só uma vez no ano podiam solicitar reajuste com base na inflação. Sabe qual foi o primeiro Sindicado a fazer uma assembléia para reclamar a reposição das perdas ocorridas naquele período? O dos jornalistas! Um Sindicato pequeno. Depois outros resolveram reclamar reposição. Os sindicatos dos metalúrgicos no ABC. Depois disso vieram as greves e outros movimentos fundamentais. Claro que aos poucos a sociedade começou a reagir e surgiram movimentos importantes como o das Diretas Já, de 1984. Essa é minha análise e não tenho medo de achar que está errada. Mas por que o papel do Sindicato dos Jornalistas é tão importante? É fácil saber analisando o acontecimento da morte do operário Fiel Filho três meses depois. O metalúrgico foi morto nas mesmas circunstâncias e locais do Vlado. E o que aconteceu? Não houve um movimento de massa, mas houve movimento no próprio regime. Eles ficaram receosos de ter a mesma repercussão do Caso Vlado. Foi quando Geisel demitiu o Comandante do II Exército. Não houve manifestação de rua, ninguém gritou, os jornais já publicaram, deram o fato apesar de não discutir muito, e a repercussão da demissão do Comandante. O Fiel Filho era do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Fizeram uma missa em sua memória e foram cem pessoas. Por que só isso? Por que não saíram as passeatas que lá atrás queriam fazer? Não houve nada. Mas houve a reação do regime, porque aquilo representava uma quebra de hierarquia. E o Lula não se pronunciou nem num caso e nem no outro. Mas depois ele ganha uma força que nasce a partir desses episódios. Jornal da ABI – Por que você acha que ele não se pronunciou? Audálio Dantas – Ué, porque acho que naquele momento ele temia, só

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SINDICATO DOS JORNALISTAS DE SÃO PAULO

DEPOIMENTO AS DUAS GUERRAS DE AUDÁLIO DANTAS DIVULGAÇÃO/TV CULTURA

Herzog entrevista o teatrólogo Jorge Andrade e o jornalista Audálio Dantas no programa Homens de Imprensa, da TV Cultura. Abaixo, no encerramento do ato ecumênico na Catedral da Sé, Audálio Dantas discursa para a multidão, que não coube dentro da Catedral e se espalhou pela Praça da Sé. SINDICATO DOS JORNALISTAS DE SÃO PAULO SINDICATO DOS JORNALISTAS DE SÃO PAULO

pode ser. Houve um momento em que ele despertou para o protesto. Ele é muito inteligente. Em determinado momento ele percebeu que as coisas estavam maduras para acontecer.

Jornal da ABI – Que história você pode contar dessa época? Audálio Dantas – Primeiro, eu não me limitei à ação congressual, tive

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Os jornalistas Gabriel Romero, Audálio Dantas, Fernando Jordão e Erasmo Freitas Nuzzi, Diretor da Faculdade de Jornalismo Casper Líbero, participam de um seminário no Sindicato dos Jornalistas em 1976. Nesse mesmo ano, o General Dilermando Gomes Monteiro, que substituiu o General Ednardo d’Ávila Mello no Comando do II Exército, demitido por Geisel, faz uma visita de cortesia ao Sindicato dos Jornalistas, onde foi recebido por Audálio. SINDICATO DOS JORNALISTAS DE SÃO PAULO

Jornal da ABI – Você foi Presidente do Sindicato dos Jornalistas até 1978 e depois se elegeu Deputado federal. Como foi essa passagem do jornalismo para a política? Existia esperança? Audálio Dantas – Eu pensei muito. Uma das coisas que pensei é que eu já estava envolvido no mundo político. Passar pelo Sindicato foi uma participação política. Achei que como parlamentar podia continuar na briga. E foi o que aconteceu. Meu mandato foi dedicado ao combate à ditadura e principalmente contra a censura.

participação, pronunciamentos, projetos e fiz diversas coisas contra o autoritarismo. Eu fui para a rua, acompanhei todas as greves do ABC em 1979, 1980... Não que eu passasse por lá apenas! Eu participei, ia para os piquetes em porta de fábrica! Não só eu, mas vários parlamentares da oposição: Teotônio Vilela, Ulysses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso, Alberto Goldman, Fernando Morais, que era deputado estadual. Estava nos piquetes. No dia em que proibiram os sindicatos de fazer assembléias nos estádios, lá no ABC, eles não fizeram a assembléia, mas as famílias dos operários se reuniram na Praça da Matriz. E lá estávamos... vários parlamentares, entre os quais Teotônio Vilela. Houve um momento em que havia a perspectiva de invasão da praça por policiais armados, porque eles cercaram a cidade toda. Por várias ruas chegavam policiais armados e houve um claro momento em que eles iam invadir a

praça. Daquele momento, não esqueço nunca: Teotônio Vilela, José Carlos Dias, que era o advogado da Comissão de Justiça, José Gregory, que veio a ser Ministro da Justiça, e eu, nos unimos. Prestes a invadir a praça, o coronel e os soldados com escudos, e esse grupo de parlamentares dizendo que eles não iam entrar. Se eu não fosse deputado, não teria força para fazer isso! Propus também uma comissão de recepção aos exilados que começavam a voltar antes da anistia e muitos ainda eram presos! Era uma comissão partidária do MDB para evitar a prisão deles, inclusive a do Miguel Arraes e de vários outros.


Seqüência de fotos feitas por Elvira Alegre no velório e enterro de Herzog: ao lado, Audálio emocionado junto à esquife do jornalista assassinado; acima, Juca de Oliveira, Plínio Marcos, Mino Carta e Jorge Escosteguy durante o velório; abaixo, Clarice Herzog, com os filhos André e Ivo, e a mãe de Herzog, D. Zora, recebendo apoio. Durante o enterro, D.Zora precisou ser amparada (esquerda).

Elvira Alegre: “Fotografei tudo sob forte tensão” Em depoimento emocionado, exclusivo para o Jornal da ABI, a fotógrafa Elvira Alegre conta pela primeira vez os momentos dramáticos que viveu no dia em que fez as fotos do velório e do enterro de Vladimir Herzog, publicadas nesta página. “O telefone tocou tarde da noite naquele 25 de outubro de 1975 na casa da Rua São Gall, na Vila Romana, em São Paulo. Morávamos eu, Hamilton de Almeida Filho, Paulo Patarra e Mylton Severiano da Silva. Todos trabalhávamos na Ex-Editora, fazendo o jornal Ex-. Myltinho atendeu e nos deu a notícia: ‘Mataram o Vlado e o velório será no Hospital Albert Einstein’. Começavam então as horas de terror e indignação. Logo cedo nos preparamos para irmos ao velório. Hamilton de Almeida Filho, o Haf, meu marido na época, me disse: ‘Leve sua máquina’. Foi assim no destemor dos meus 18 anos que coloquei a máquina na cara e saí registrando tudo e todos

Jornal da ABI – Você foi parlamentar até 1983. E como reagia o jornalista dentro de você? Audálio Dantas – Isso eu sentia... Sentia a falta do jornalista, mas não sobrava tempo, principalmente para a reportagem. Mesmo depois, quando voltei, eu já não tinha mais emprego, estava fora do mercado. Então fui ocupar cargos públicos. A Fenaj era um cargo político e voluntariado. Mas a Presidência da Imprensa Oficial sim, era um meio de subsistência também. Jornal da ABI – Foi um preço alto que você pagou quando se voltou para essa carreira política, inclusive no Sindicato? Audálio Dantas – Foi, foi. Quando terminei o mandato de parlamentar no início de 1983, em março, fui eleito Presidente da Imprensa Oficial e

na seqüência, Presidente da Federação Nacional de Jornalistas. Jornal da ABI – Na Imprensa Oficial do Estado de São Paulo você ficou quanto tempo? E o que destaca desse período? Audálio Dantas – Na Imprensa Oficial fiquei três anos. Destaco principalmente a democratização da administração. Surgiu o primeiro conselho de representantes dos trabalhadores, com um membro do conselho participante das decisões da Diretoria. Depois, o processo contra o Maluf, que tinha cometido várias falcatruas lá na administração. Foi o único processo frontal contra o Maluf. Ele chegou a ser condenado no Tribunal de Justiça. Outro destaque foi a publicação de livros importantes, com sentido político, coisa que não se fazia na

época. Por exemplo, publicamos edições fac-similares dos jornais operários desde o começo do século. Fiz também a edição fac-similar de O Homem do Povo, jornal do Oswald de Andrade. Eles lançaram uma segunda edição recentemente, mas não me deram o crédito. Os resultados financeiros também foram muito importantes. Jornal da ABI – Quando você começou na revista Negócios da Comunicação? Audálio Dantas – Em 2008. É meu emprego atual, continuo nele. Sou diretor da revista. Não é a revista dos meus sonhos, mas é aquela que é possível ser feita. Jornal da ABI – Pra encerrar, fale um pouco de seus amigos, Juca Kfouri, que tem uma admiração

naquele velório. Lá estavam representantes de todas as classes, jornalistas, artistas, políticos, a Igreja. Fotografei tudo sob forte tensão, fui pressionada a dizer quem era, pois todos tinham medo e eu não era conhecida na categoria. Havia chegado à cidade há pouco mais de seis meses vinda de Londrina, no Paraná, para trabalhar como repórter-fotográfica no Ex-. Saímos e fomos para o cemitério Israelita e lá também fotografei o enterro e as pessoas, realizando assim um forte documento que ficaria sob censura por mais de 20 anos. É uma série de quase 50 fotos que fazem

parte do jornalismo brasileiro e de nossa História recente. Naquele dia o sol estava escaldante. Na volta pra casa com meus companheiros, Haf, Mylton Severiano e Narciso Kalili. passei muito mal. Um grande mal-estar e tonturas. No ato da Sé, não fotografei. Salvei meus negativos por sorte, antes da entrada da Polícia na Redação do Ex- na Rua Santo Antônio, no Bexiga. Nove meses depois voltei ao Albert Einstein, onde tinha visto dor e morte, para então dar à luz e vida à minha filha Joana, hoje com 36 anos.”

enorme por você, e Ricardo Kotscho. Como você os conheceu? Audálio Dantas – Eu conheci o Juca Kfouri na Editora Abril, muito jovem. Depois do episódio do Vlado ele era, como dezenas de outros jornalistas, um dos caras que estavam presentes, que apareciam sempre no Sindicato. Porque muita gente se omitiu, temerosa. E ele apareceu em vários momentos, assim como o Ricardo Kotscho, que era repórter do Jornal da Tarde. Kotscho foi o repórter que fez a cobertura mais consistente do episódio. Conheci-o aí. Era jovenzinho e todo dia aparecia para saber o que estava acontecendo, o que não era comum de acontecer.Outrofatoimportanteéque acensuracomeçouacairinformalmente depois da morte do Vlado. Porque os jornais, nesses casos, se limitavam a dar a notícia oficial, que se suicidou. A

maioria dos jornais, a partir da nota de denúncia que nós divulgamos, ligava e perguntava se o Sindicato tinha alguma nota para divulgar, porque se não tivesse não havia notícia. Eles queriam se resguardar na nota do Sindicato, queriam as aspas dali, o que já era um avanço. Foram gradativamenteperdendoomedo.Bom,oRicardinho Kotscho era aquele cara que chegava e perguntava qual é a novidade? O que aconteceu hoje? Ele não perguntava pela nota. Fazia entrevistas com as pessoas que eventualmente estavam ali, conversava comigo e com os diretores. Perguntava o que tinha acontecido na ida ao II Exército... quer dizer, era um repórter que estava realmente no papel do repórter, dava para perceber que ali estava um jornalista de verdade. E aí hoje ele continua sendo um dos melhores amigos que eu tenho.

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IMPRENSA

A revista que a ditadura assassinou A publicação entrou para a História por ter sido proibida pelo regime militar. Por que a censura sufocou uma publicação de histórias em quadrinhos? P OR G ONÇALO J UNIOR

O que poderia haver de tão subversivo numa simples revista em quadrinhos que incomodasse tanto o regime militar brasileiro, a ponto de proibir sua circulação, em agosto de 1973? A resposta à pergunta é longa e complexa. Para começar, o Grilo não era uma simples revistinha para divertir as crianças. Lançada com circulação semanal em outubro de 1971, voltada para leitores adultos, entrou para a História por ter trazido o que havia de mais inteligente e de vanguarda nos quadrinhos americanos e europeus de sua época. Como Robert Crumb, Guido Crepax, Jules Feiffer, Wolinski e Charles Schultz, entre tantos outros. Eram artistas contestadores por natureza, em sintonia com a revolução sexual e a contracultura que sacudia o mundo, então dividido por duas ideologias antagônicas – capitalismo e comunismo –, que colocavam o planeta sob o risco permanente e tenso de uma guerra atômica. Enquanto Valentina, a heroína de Crepax, pregava o amor livre e o orgasmo feminino sem a amarra moral ou religiosa do casamento, Crumb chocava a todos com o sexo explícito do Gato Fritz e o incesto entre membros de uma recatada família de classe média americana. Talvez tudo isso passasse despercebido se Grilo não tivesse outro “problema”: seus editores. Numa época em que os hippies em todo País desafiavam a Polícia com suas cabeleiras e roupas coloridas e um baseado entre os dedos, a mais brilhante geração de jornalistas de São Paulo deixou a Redação da revista Realidade, da Editora Abril e do Jornal da Tarde, publicações de vanguarda da imprensa paulista, logo após o Ato Institucional 5, de dezembro de 1969, para fundar uma cooperativa que pretendia fazer uma imprensa de resistência ao regime militar. Era a turma da editora Art & Comunicação, ou simplesmente A&C, comandada pelos jornalistas Sérgio de Souza, Narciso Kalili, Eduardo Barreto e Roberto Freire. Não foram poucos os colaboradores e membros do grupo – como Kalili e Marcos Faerman, por exemplo, – que acaba40

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ram na luta armada (veja texto a partir da página 42). Mais por causa disso, toda a sua equipe passou a ser ostensivamente vigiada e qualquer iniciativa editorial era vista com desconfiança e monitorada. Foi o que aconteceu com Grilo, que circulou sob intenso crivo e cortes da censura. Antes de o tablóide sair, porém, a A&C lançou O Bondinho, jornal alternativo que se transformou em porta-voz da contracultura brasileira em São Paulo entre 1970 e 1972. Na primeira fase, a publicação surgiu como um guia cultural semanal da rede de supermercados Pão de Açúcar. Com o subtítulo “Revista-guia da cidade de São Paulo”, começou a circular no dia 26 de outubro de 1970. Era só passar numa das lojas e pegar uma num balcão na entrada. Suas primeiras capas traziam somente temas de amenidades, como a chegada da primavera, ou sugeriam quais eram os melhores restaurantes da cidade. Cada volume tinha 40 páginas e desde a estréia brincava com a palavra “cidade” no título do tema da edição: “A cidade está comendo e bebendo como um grego”, estampava o número 3, de 27 de novembro.

Valentina, de Guido Crepax (na outra página); Paulette, de Georges Pichard e Wolinski (acima), e Snoopy (abaixo) eram os preferidos do público.

Criar o futuro

O espírito de resistência de Realidade pela liberdade de expressão que ainda alimentava a cooperativa da A&C e a explosão do semanário carioca O Pasquim – fundado em 1969 e que se tornou de imediato o mais importante jornal de resistência à ditadura – apontaram o caminho para a argumentação usada na defesa da transformação de O Bondinho numa outra publicação, desvinculada do supermercado e com venda em banca. “Era preciso criar o futuro, não esperá-lo acontecer”, justificou década depois o editor Sergio de Souza. E assim se fez. Adeus donas de casa e prateleiras do supermercado. Os números de O Bondinho de sua segunda e última fase se revelariam um rico apanhado cultural, político e sociológico de uma época. Graças ao faro do editor Hamilton Almeida Filho, o jornal quebrou o boicote que se formou da imprensa contra Caetano Veloso e Gilberto Gil, que estavam exilados em Londres, obrigados a ficar por lá ante a ameaça de voltarem à prisão no Brasil – talvez por temor de algum confronto com a ditadura militar ou com a censura. O Bondinho não demorou, claro, a incomodar a censura. Sem dinheiro e perspectivas de anúncios suficientes para sanar as dívidas, O Bondinho deixou de

circular no número 42, oito meses depois de chegar às bancas. Morria assim o portavoz da contracultura em São Paulo. Mas a A&C ainda tinha uma bandeira de luta para manter hasteada: Grilo. A publicação surgiu num momento em que irreverência funcionava como um conceito que deveria estar presente nas formas de agir e de se expressar de muitos jovens nos primeiros anos da década de 1970. Mesmo com a repressão política e a censura instituídas contra a A&C, a ordem estava em fazer tudo de modo contestador – um comportamento quase natural naqueles anos psicodélicos. Pelo menos para quem adotara os hábitos da contracultura – hippies, paz e amor, rock, drogas, liberdade sexual e underground – ou da resistência ao regime militar por meio do jornalismo. Foi com esse espírito que chegou às bancas no dia 12 de outubro de 1971 uma publicação em quadrinhos despretensiosa, impressa em preto e branco, papel jornal e tamanho tablóide: Grilo. Bastava folheá-la, porém, para constatar a diferença em relação à mesmice dos bonecos Disney, da fórmula dos super-heróis invencíveis e do desgaste dos mocinhos de faroeste.


Lá estavam os quadrinhos engajados, representados no primeiro momento pelas tiras em seqüência original dos Peanuts, de Schultz, em seu melhor momento de contestação dos valores sociais. Trazia também o implacável Jules Feiffer. E isso era só o começo. Ao longo de 48 edições, dois almanaques e três livros extras, Grilo se tornou a primeira publicação a editar o papa do underground americano Crumb e os modernos quadrinhos europeus de Crepax, dos franceses Wolinski e Pichard e dos ingleses Johnny Hart e Don Edwing & Paul Coker. Nascida nos primórdios da imprensa alternativa paulistana, a revista rompeu com o conservadorismo e trouxe para o País o que havia de mais atual e irreverente nos quadrinhos feitos por artistas preocupados em dar aos comics um status de arte. Ousou tanto que pagou um preço alto: saiu de circulação, impedida pela censura. Outro ônus a ser pago pela opção: sua exclusão histórica, reduzida a uma publicação de quadrinhos estrangeiros que teria ignorado os artistas brasileiros. A revisão de sua importância agora se faz necessária. No médio prazo, coube à revista influenciar a explosão de títulos de revistas em quadrinhos no formato underground (ou udigrudi) que se seguiu nos anos de 1970 – Balão, Patota, Mad, Eureka e Vaca Amarela – e orientou algumas dezenas de artistas que na década seguinte atingiriam a maturidade em títulos importantes como Inter-Quadrinhos, Chiclete com Banana (Angeli), Circo (Laerte, Glauco e Luiz Gê), Piratas do Tietê, Bundhas, Porrada e outras. E teve duas edições apreendidas. Sérgio de Souza recordou que um dos primeiros casos envolvendo censores e ações da Polícia ocorreu após a publicação da história em quadrinhos Sonhos Cruzados, do quadrinhista Gori, na edição 37, na qual um padre conservador se transformava em Deus para punir um grupo de hippies pecadores. “Era um trabalho realmente iconoclasta. E, se bem me lembro, de grande qualidade e de alto humor.” Fusão de vanguarda

A idéia de uma revista em quadrinhos que resultou no Grilo não era original, como lembrou seu criador, o jornalista José Carlos Marão. Leitor voraz de revistas estrangeiras – hábito comum entre os participantes dos grupos Realidade e Jornal da Tarde –, Marão contou que propôs aos colegas fazer uma fusão de duas revistas mitológicas naquele momento, a italiana Linus e a francesa Charlie, consideradas de vanguarda na Europa e cultuadas pelo público mais adulto. As duas misturavam o que havia de mais

moderno e ousado nos quadrinhos feitos nos Estados Unidos e em países europeus. Para ele, o aparecimento do Grilo está atrelado a uma época em que a pílula anticoncepcional havia liberado a mulher para o sexo. “A liberdade de comportamento era real, nova e assustadora para todos nós, mesmo os que viviam intensamente aquele instante”, observou o ex-editor. Em seus quase três anos de vida, Grilo teve três fases distintas. Além de Marão, editaram a revista o jornalista Geraldo Galvão Ferraz e o artista gráfico Delfim Fujiwara. As seis primeiras edições traziam apenas material americano. A partir do volume sete, chegaram os quadrinhos europeus, com o lançamento no Brasil de Valentina e do humor de Wolinski. Diante da dificuldade das agências européias em ceder os direitos das personagens, Sérgio de Souza e Kalili mandaram o psicanalista e jornalista Roberto Freire à Europa a fim de tentar sensibilizar os autores quanto à cessão gratuita de seus trabalhos para publicação no Grilo. O mesmo seria feito por Hamilton Almeida Filho, nos Estados Unidos. “Fomos bem recebidos porque os artistas eram tão loucos e alternativos quanto nós”, recordou Freire. “A conversa com Crepax durou mais de três horas e ele autorizou o uso de Valentina por um ano, depois de pedir para que eu contasse como estava a resistência à ditadura militar no Brasil.” Freire também convenceu Wolinski. A radicalização dos chamados quadrinhos “envenenados” de Crumb e Gilbert Shelton (autor dos Freak Brothers) viria com Geraldo Galvão Ferraz, o segundo editor de Grilo. Leitor dedicado e um dos primeiros jornalistas a se especializar em quadrinhos no País, pelas páginas do Jornal da Tarde, Ferraz assumiu a revista no terceiro mês, depois de onze edições; no período em que ficou na revista, mudou seu formato do tablóide para o americano convencional, com grampos, e se tornou o responsável pela redefinição da linha editorial, no momento mais irreverente e interessante da revista. Também colocou notícias e discussões sobre quadrinhos – publicou um texto de Umberto Eco sobre o assunto –, cinema e contos de ficção científica. Suas alterações, em vez de descaracterizar a publicação, como temia Marão, enriqueceram-na, equilibrando quadrinhos e textos. A última fase, quando já era mensal, ficou com Delfim Fujiwara, que se destacou por fazer uma completa reformulação visual na revista. Fujiwara chamou atenção pelas capas criativas que combinavam fotografias e desenhos e miolos impressos em diversas tonalidades. “Meu nome aparecia como editor, mas toda edição era discutida de forma coletiva”, contou Fujiwara. Ele relembrou que a idéia de vanguarda da A&C para Grilo foi levada às últimas conseqüências na fase final da revista. “Tínhamos pouco dinheiro e inovamos no que era possível, sempre buscando linguagens novas”. Num desses experimentos, como não havia recursos para impressão em quatro cores, Fujiwara passou a imprimir as páginas em cores diferentes, como fazia a francesa Actuel. A resposta dos leitores às novidades de Grilo foi imediata. A revista se estabilizou com vendas mensais em torno de 50 mil exemplares.

Na Grilo foram publicados o melhor do quadrinho underground americano, como os Freak Brothers, de Gilbert Shelton (acima), e histórias audaciosas como a do desenhista Richard Corben (abaixo).

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Combativo ao pé da letra Equipe de O Bondinho marcou o jornalismo de resistência à ditadura em São Paulo, com profissionais talentosos que mudaram a cara da imprensa paulistana.

Escola underground

O jornalista e historiador Fernando Morais foi um dos colaboradores de O Bondinho e acompanhou o Grilo como leitor. “Eu lia muito Crumb e Wolinski, que representavam uma escola absolutamente underground e incorreta politicamente”, afirmou. O desenhista e empresário Maurício de Sousa destacou que Grilo inovou principalmente no visual. “O grafismo era totalmente destemperado e não tinha nada a ver com o que se publicava na época. Mesmo não gostando, eu ficava admirado, pois sabia que aquilo representava algo de revolucionário.” Outro leitor fiel foi o jornalista Wagner Augusto, editor da Phenix, premiada revista de análise de quadrinhos. Ele ressaltou que a publicação da A&C surgiu estimulada pela exposição internacional de quadrinhos realizada em 1971 em São Paulo e por uma época em que a Europa estava nascendo para a crítica e para a análise dos comics. O pesquisador João Antônio de D’Almeida, de Campinas, destacou uma característica marcante de Grilo: a intensa participação dos leitores na revista, pela seção de cartas, algo não usual naquele tempo. Mesmo com a aceitação de Grilo, a revista não foi perdoada por ignorar autores brasileiros. As exceções ficaram com a publicação dos mineiros Sérgio Macedo e Cláudio Martins – uma história de casa. E fez a opção num momento de efervescência nacionalista, graças às propagandas do “milagre brasileiro” do Presidente Médici. Por isso, não era bem vista pela esquerda. “Eles (os editores) eram americanófilos, culturalmente radicais, agressivos e underground. Esteticamente, eram pessoas muito sensíveis, muito avançadas. Culturalmente, ligados aos americanos, pois desde cedo consumiam publicações americanas. Ou seja, os 42

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quadrinhos americanos traziam uma linguagem familiar para eles e essa era uma coisa que a esquerda odiava”, avaliou o professor de Jornalismo Bernardo Kuscinski. Marão disse que não havia regularidade na produção brasileira e a qualidade do material era ruim. Daí não ter publicado histórias feitas no Brasil. “Assim, a idéia não chegou a ser estimulada”, acrescentou. Geraldo Ferraz achou que o problema estava na falta de dinheiro da editora para pagar autores nacionais. Enquanto isso, a pressão da censura acabou por tirar Grilo de circulação. O artifício usado para liquidar a revista foi indireto, mas eficiente. Na última edição, de agosto de 1973, a revista publicou no rodapé das páginas várias frases que formavam um editoral disfarçado de desabafo: “‘Stop Press: a censura negou o registro de Grilo, por considerar o conteúdo da revista atentatório à moral e aos bons costumes. E Grilo recorreu à própria censura, retirando desta revista as histórias que o censor julgou inapropriadas para nossos leitores. Tal pedido do Grilo de reconsideração quanto ao registro, porém, está há 15 dias aguardando uma palavra final de Brasília. Caso a resposta seja negativa, Grilo passará a ser impresso em formato tablóide, ou seja, deixará de ser revista para ser jornal (os jornais estão dispensados de registro na censura)”. O silêncio como estratégia da censura era implacável: sem licença, a revista era considerada clandestina e impedida de ser vendida nas bancas. Em seu lugar surgiu o jornal Ex-, que durou 16 números e também sucumbiu à censura. A última tentativa foi Mais Um, que não passou de dois números. Assim desapareceu Grilo. Ficou, porém, seu não dimensionável legado. E as histórias em quadrinhos no Brasil jamais seriam as mesmas.

A história do tablóide O Bondinho ainda precisa ser contada. Sua editora, a Art & Comunicação (A&C), nasceu como uma espécie de cooperativa de jornalistas formada por profissionais que viviam em São Paulo; a maioria tinha saído em grupo no final de 1968 da revista Realidade, da Editora Abril, por discordar de mudanças na linha editorial. Não por acaso, aquela tenha sido talvez a geração mais bem-sucedida e criativa do jornalismo brasileiro nos últimos 50 anos. À frente da iniciativa estavam Sérgio de Souza, Narciso Kalili, Hamilton Almeida Filho e Eduardo Barreto. Eles conseguiram convencer 150 jornalistas a comprar cotas da empresa, de modo a capitalizá-la. Participaram da equipe de colaboradores nomes que depois se tornariam muito conhecidos como Geraldo Galvão Ferraz, João Carlos Marão, Dante Matiussi, Bernardo Kucinski, Fernando Morais, Woile Guimarães, Mylton Severiano da Silva e o ‘guru’ Roberto Freire, entre outros. Segundo Kucinski, um estudioso da imprensa alternativa no Brasil, a A&C foi o primeiro grande esforço cooperativo informal de jornalistas nos anos 1970, mas que nunca operou de fato como cooperativa. “Eles propunham acumular capacitação profissional e econômica, prestando serviços jornalísticos para terceiros, para eventualmente lançar publicações próprias”, explicou. O primeiro desafio da editora foi transformar o Jornal da Fotoptica em uma revista de fotografia, rebatizado de Novidades Fotoptica, uma espécie de catálogo da rede de óticas e material fotográfico. Logo a editora criou sua própria publicação para o mesmo segmento, ao lançar a Revista de Fotografia, em maio de 1971, editada por Dante Matiussi e pelo fotógrafo americano George Love. Nessa publicação já se notava que o projeto editorial da A&C era, na verdade, dar continuidade à experiência editorial iniciada em Realidade que ia além do aspecto político de combater ou denunciar o regime. Ou seja, pretendia-se valorizar a autonomia do texto e o desprezo às convenções e tradições jornalísticas, numa adesão ao chamado new-journalism americano – difundido por expoentes da imprensa e da literatura como Tom Wolfe e Norman Mailer, entre outros. O modelo pregava o rompimento com o padrão de objetividade do jornalismo americano, permitindo a prática da subjetividade nos textos, além da vivência das situações durante a realização da reportagem, e a liberdade narrativa e esti-

lística. A A&C acabaria por criar a publicação que melhor cobriu as tendências da contracultura no Brasil – a revista O Bondinho. Depois de romper com o grupo Pão de Açúcar e transformar o tablóide numa revista para bancas, seus talentosos profissionais fundaram o que Kucinski denominou de “jornalismo existencial”, com prioridade para as tendências de comportamento ditadas pela chamada revolução contracultural. Em janeiro de 1972, O Bondinho já tinha se transformado no porta-voz da contracultura e do movimento tropicalista, ao optar por uma linha que privilegiava a discussão sobre comportamento, liberdade sexual e valores convencionais – temas que muito incomodavam a Censura, por defender idéias consideradas subversivas. Folheados quase três décadas depois, os números de O Bondinho dessa fase ainda impressionam pela criatividade gráfica com que suas páginas eram elaboradas. A edição 38, de março de 1972, por exemplo, trouxe na capa uma foto caricaturesca de Caetano Veloso e o título “Caretano”, com o logotipo invertido. Na mesma edição, em texto sobre Os Mutantes, a ilustração era assinada por Rita Lee. Com distribuição nacional, O Bondinho se tornou provocativo. Dobrou o número de páginas e passou a traduzir textos e entrevistas das revistas Playboy – com venda então proibida no Brasil – e Cream, marco do underground inglês. Suas reportagens, perfis e entrevistas eram marcados pela


Projetos ousados

Em dezembro de 1971, dois meses depois do lançamento de Grilo, a A&C partiu para mais uma publicação que lhe permitisse capital de giro para seus projetos editoriais, o Jornalivro. A novidade era simples e barata – também para o lei-

tor: publicar romances em formato de jornal tablóide, vendidos em média por um preço sete vezes menor do que o da edição de livraria. Para reduzir os custos, além do modelo tablóide e papel jornal, a editora recorreu a autores brasileiros cujas obras haviam caído em domínio público – o que evitaria também problemas com a Censura. Novos autores eram convidados a contribuir solidariamente, pois teriam de abrir mão de direitos. Um deles foi Roberto Freire, que teve uma edição de 10 mil exemplares de Cleo e Daniel esgotada em uma semana. Outra experiência curiosa no mesmo formato – o último dos títulos da A&C – foi a revista Fotochock, lançada em abril de 1973. Como diz o nome, trazia uma série de fotos-denúncias com legendas. Na edição de estréia, o tema foi nazismo, numa clara alusão ao regime militar brasileiro, que passava pelo momento de maior repressão. Foi nessa fase que os jornalistas da editora se posicionaram a favor do jornalismo combativo. “Tínhamos um grupo tão unido e de tamanha afinidade profissional, e mesmo afetiva, que nos estimulava a tentar mantê-lo de qualquer forma, no sentido de continuar produzindo o jornalismo em que acreditávamos”, observou Sergio de Souza. O que poucos sabiam era que alguns membros de sua equipe já faziam política clandestina havia muito tempo. Como Narciso Kalili que, em 1968, quando o Governo Costa e Silva passou a ser contestado mais intensamente nas

ruas, com passeata dos estudantes e pela oposição, deixou a Redação de Realidade para cair na luta, literalmente. Narciso explicou aos companheiros que tomou a decisão porque preferia fazer jornalismo diário no Última Hora, onde assumiu a função de editor-chefe. Na verdade, foi para o jornal por orientação da Ação Popular (AP), organização marxista clandestina que se tornaria mais tarde uma das mais importantes na luta armada contra a ditadura. Ele não tinha idéia porém, de que, havia algum tempo, o Departamento de Ordem Política e Social-Dops não apenas sabia de sua relação com a AP como monitorava suas atividades jornalísticas ostensivamente. Irrequieto, Narciso foi às ruas cobrir as passeatas e protestos como repórter e acabou no meio dos “subversivos”, com gritos de slogans contra o regime. Aos poucos, arriscou-se cada vez mais. Não vacilava em dar guarida a perseguidos. Nesses dias conturbados, durante uma greve de gráficos, rompeu o vínculo de confiança com a direção do jornal onde trabalhava – do grupo Folha – e se solidarizou com os amotinados. Chegou a liderar a Redação numa paralisação. Octávio Frias, dono do jornal, tentou demovê-lo da idéia e, diante da firmeza do funcionário, teria dito: “Narciso, você é mesmo um Dom Quixote. Eu só não o demito porque é um sujeito muito simpático”. O fichário do jornalista gaúcho Marcos Faerman no Dops seria bem mais amplo. Por quase duas décadas, ele teve seus passos vigiados sobre supostas atividades subversivas, apesar das evidências de que vários documentos sobre suas ações não estão disponíveis para consulta ou foram extraviados. Por lá se sabe que ele entrou para o Partido Comunista Brasileiro ainda em Porto Alegre, quando tinha apenas 15 anos de idade. Então estudante do Colégio Júlio de Castilhos, ingressou na militância por influência de um tio, que lhe mandou exemplares do jornal Semanário, dirigido por Oswaldo Costa. Na verdade, a publicação não tinha uma orientação comunista. Fundado em 1956 pelos jornalistas Osvaldo Costa e Joel Silveira, durou até 1964, quando foi fechado pelo regime militar. Seu perfil era panfletário, idealista e popular e contava com colaboradores veteranos de reputação nacional – Barbosa Lima Sobrinho, Josué de Castro, Nelson Werneck Sodré e Edmar Morel. Ainda de acordo com o perfil de subversivo montado pelo Dops, Faerman se tornou leitor também de Novos Rumos, semanário do Partido Comunista cujo lema era “nacionalismo, democracia e socialismo”. Ainda na escola, ele se destacou como líder da Juventude Estudantil Comunista. Passou a escrever jornais e a diagramá-los. Tanto envolvimento com a política estudantil justificou sua reprovação por diversas vezes. O gosto pela leitura e o talento para escrever, no entanto, fizeram dele um freqüentador assíduo do colégio, onde praticamente só aparecia para fazer jornais. Até que, em 1962, ao levar um manifesto político escrito por ele à Redação gaúcha do Última Hora, recebeu um convite que mudaria sua vida. Foi atendido pelo jornalista Flávio

REPRODUÇÃO

abordagem de humor, com ênfase em artistas que tinham algo a ver com a rebeldia defendida pela publicação – Novos Baianos, Walmor Chagas, Chico Buarque, Janis Joplin etc. Um dos melhores momentos se dá no número 34, dedicado à volta do exílio de Caetano e Gil. A edição dava como brinde um compacto de Gil com a música Expresso 2222.

Parte da equipe de Redação do jornal Ex-: na primeira fila, a partir da esquerda, José Trajano, Luiz Fernando Vitral e Palmério Dória; atrás, Cláudio Faviere, Armindo Machado, Mylton Severiano, Hilton Libos, Alex Solnik, Márcia Guedes, Luiz Herrero, Hamilton Almeida Filho e Ivo Patarra (encoberto).

Tavares, que depois participaria da luta armada e seria exilado – foi um dos presos trocados pela libertação do Embaixador americano, em 1969. Ao ler o texto, Tavares o convidou para ser repórter júnior do diário de Samuel Wainer. Seu passo seguinte na política foi se juntar à Dissidência Lenista, uma ala divergente da direção do Partido Comunista. Desde 1964, seus futuros participantes foram contra a linha do Partido, principalmente em relação ao pacifismo e à colaboração de classes. De sua fusão com a Polop (Organização Revolucionária Marxista – Política Operária) nasceu o POC, embasado na idéia de um partido operário, na busca do verdadeiro lenismo. Em 1968, como parte de sua militância, Faerman foi eleito para a direção nacional do POC e enviado a São Paulo, onde conseguiu se empregar no Jornal da Tarde. No começo do ano de 1970, o Dops paulistano já sabia de sua vida pregressa e estava em seu encalço – esperava apenas uma oportunidade para prendê-lo. Os agentes da repressão apuraram que o jor-

nalista continuava na militância e usava dois codinomes, Vinicius e Gérson, além de ser conhecido pelo apelido de Marcão – na verdade, uma forma carinhosa de ser chamado pelos amigos, por causa de sua altura e porte físico. Faerman acabou nos porões da Oban em agosto de 1970. Ficou preso por uma semana – de 19 a 26 –, quando foi espancado e torturado. Ao sair, decidiu se desligar definitivamente da militância direta, desestimulado politicamente pela onda de delações que vinha de Porto Alegre. “Por medo e por cansaço”, como justificou depois, afastou-se da organização para se dedicar exclusivamente ao jornalismo. Como não sabia, claro, que deveria informar isso aos espiões do Dops – e convencê-los disso –, permaneceu sob vigilância ostensiva, seguido constantemente. No dia 28 de setembro de 1970, por exemplo, o Ministério do Exército encaminhou ao órgão sua ficha datiloscópica, fotos e fichas individuais de dados informando que o “epigrafado” fora preso em agosto de 1970 e liberado por não ter sido comprovada sua participação em atividades subversivas terroristas. Nas declarações prestadas em 18 de agosto de 1971, Faerman confirmou que esteve preso no Doi-Codi e assumiu ser simpatizante do POC. Em seu depoimento, teria dito que deixou o Partido Comunista em 1968 por falta de ideologia partidária e preparação psicológica para o tipo de trabalho que o POC preconizava. Assim, trocou a militância pela situação de simpatizante. Segundo o Dops, afirmou ainda que, após sua liberação do DoiCodi, não teve envolvimento com nenhuma organização subversiva terrorista. Mas admitiu que prestou ajuda a alguns de seus antigos companheiros por necessidade, sem discutir o aspecto político. Noutra ficha de Faerman, de 1974, lia-se que “O ME (Ministério do Exército), em sua informação 122/74 AM, de 30174, comunicava que o marginado é um dos diretores do jornal-revista Ex-, publicação lançada para substituir o Grilo”. Nos catorze anos seguintes, os agentes vigiaram Faerman quase em tempo integral, por achá-lo “explosivo e intempestivo”.

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A morte de Vlado numa edição explosiva Quando Ex- parecia condenado a desaparecer, aconteceu uma virada surpreendente, relacionada ao romantismo e companheirismo que alimentava a imprensa alternativa naquela época. Paulo Patarra, para os amigos Paulinho, ex-diretor de Redação da revista Realidade, criador da expressão “loucos de 64”, no primeiro semestre de 1975 recebeu da Editora Abril indenização gorda, depois de pedir que o demitissem. E o que fez ele com o dinheiro? Entregou aos amigos que dirigiam o Ex- a quantia de 120 mil cruzeiros, o equivalente ao valor de aproximadamente 35 fuscas zero quilômetro. Era uma soma respeitável, que dava para imprimir cinco números – programaram as edições de agosto a dezembro de 1975. “Dava pro lanche, pra macarronada à noite com vinho Sangue de Boi e outros luxos”, recordou Mylton Severiano. Parte desse dinheiro veio da venda de um apartamento que Patarra tinha na Rua Itapicuru, Perdizes, por um terço do preço. Além de ajudar os amigos, no local acontecera uma tragédia. A jornalista Célia, uma ex-namorada, havia se suicidado ali. O aporte coincidiu com a volta dos colegas, depois da breve e fracassada experiência no Paraná. “O episódio de nossa volta ao Ex- foi doloroso. Convocamos uma assembléia-geral. Hamilton Almeida Filho falou. Disse que o jornal era de todos nós, desde que seguisse na linha traçada desde o início. Marcão havia dado guinada rumo a um jornal de cultura, voltado para o latino-americanismo muito em voga. Nada contra, mas queríamos linha mais jornalística. Gentil, mas um tanto magoado, Marcão retirou-se com Moacir Amâncio e outros que havia levado para lá. E fundou Versus, outro marco da imprensa nanica. Pano rápido.” Patarra e Narciso criaram um novo projeto gráfico para o Ex-, inspirado nas revistas francesas, estilo “varal”, com matérias “penduradas” num fio que corria pelo alto das páginas, mais a seção que abria o jornal, a Salada, com notas curtas. “Paulo escolheu tipografia linda, chamada Optima, adequada a gráficas que se dispunham a nos imprimir ”, lembrou Mylton Severiano. Alguns números seriam rodados na gráfica da família do escritor Raduan Nassar, autor de Lavoura Arcaica. Os Nassar eram donos do Bazar 13, importante loja no bairro de Pinheiros, pioneira no ramo de hipermercado. Mylton contou que Raduan, certa vez, teve de negociar prazo para que fossem honradas algumas dívidas atrasadas que a editora do jornal mantinha com a gráfica. “Ele foi educado, amistoso e condescendente”. E observou: “A rapaziada da gráfica tinha, não sei se é, devoção por nós”. 44

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A injeção de capital veio no número 12 do jornal, que saiu com novo projeto gráfico, 40 páginas e uma mensagem ao lado do título “Hey de vencer ”. Na foto principal, Pelé, nu de costas. Mas o que ajudou a dobrar as vendas daquela edição foi a entrevista com o compositor recluso Geraldo Vandré, autor de Caminhando, hino de resistência à ditadura e que estava desaparecido do meio musical. A equipe de editores era reforçada com os nomes de Paulo Patarra e Narciso Kalili. As vendas do número seguinte foram ainda melhores, com uma entrevista de Fernando Moraes, que viajara a Cuba para fazer uma reportagem sobre o regime socialista comandado por Fidel.

te, Vlado, como era conhecido o diretor de Jornalismo da TV Cultura, havia se enforcado com um cinto, algumas horas depois de se apresentar espontaneamente ao órgão para prestar depoimento sobre a presença de “comunistas” na emissora. Ninguém próximo a ele acreditou na versão. Muito menos a patota da Ex-, que resolveu desmentir a farsa. Sob o comando de Hamilton Almeida Filho (Haf), que assumira a direção do jornal cinco meses antes, a equipe do Ex- e repórteres voluntários foram atrás da história.

“Abre as asas sobre nós”

Surge um Extra

O número 14 de Ex- estava nas bancas quando estreou o tablóide Extra, lançado pela mesma editora. Tinha apenas 16 páginas e destacava no nome a primeira sílaba “Ex” em cor vermelha, numa referência ao principal jornal do grupo. Os dois tinham em comum o mesmo personagem de destaque na capa: o Cardeal de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. Só que, no caso do Ex-, a capa trazia a foto e a chamada, mas uma observação abaixo dizia: “Por motivo de força maior, aguarde”. Teria sido censura? Não. No editorial do Extra, a equipe explicou que o jornal já estava quase todo pronto, mas o religioso demorou para aprovar a entrevista, como havia pedido. Como o tablóide foi rodado no interior do Paraná, para reduzir custos, acabou mantendo a chamada na capa. Era muito mais que uma entrevista, era um documento histórico. Um mês antes do assassinato do jornalista Vladimir Herzog sob tortura no Doi-Codi, Dom Paulo denunciava os métodos usados nos porões da ditadura e negados pela cúpula militar: “A tortura cresceu de novo. Ela estava restringida a São Paulo. Agora está acontecendo de novo, até em outras partes. Já tinha diminuído no Governo Geisel. Tinha diminuído, tinha diminuído bem. Até houve meses em que se dizia: ‘Graças a Deus, não vem mais nenhuma notícia dessas’, e a gente respirava aliviado. Isso tem aumentado sistematicamente de novo”. As vendas de Ex- continuavam crescendo número a número até que veio a edição 16, com a reportagem sobre o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, sob tortura, no prédio do Doi-Codi, na região da Luz, em São Paulo. Oficialmen-

Redações, na casa de Vlado. “A morte estava ao nosso lado.” “Numa noite chuvosa de domingo, 2 de novembro, Dia de Finados de 1975, seis mãos começaram a redigir o texto final da reportagem. Revezando-se na máquina, os três editores principais – Hamilton Almeida Filho, Narciso Kalili e eu – tecemos a história colhida em depoimentos, notas oficiais, observações pessoais, frases soltas, documentos, editoriais, laudos e notícias de jornais e revistas. Cerca de setenta laudas em quarenta horas de vigília. Não fazêlo era como que fazer alguma coisa não-humana.”

Mylton Severiano recordou depois em detalhes o que aconteceu antes da reportagem. Segundo ele, no dia em que Herzog morreu, a maioria da turma conheceu, “fosse por alguns daqueles momentos, o limite entre poder continuar se comportando como seres humanos ou como galináceos. O Ex- 16, de novembro estava pronto para ser impresso, quando a tragédia tocou o telefone. ‘Já soube do Vlado? Pois é, infelizmente ele morreu’. Um transe. ‘Nós não sabíamos de nada. E agora?’ Nos dez dias seguintes, a Redação do Ex- se transformou numa central de informações, e Hamilton, o chefe de uma super-reportagem: em campo, os vinte editores efetivos do Ex- (inclusive ele próprio), e mais uma dezena de repórteres dos demais jornais paulistas – alguns convidados, outros se colocando espontaneamente à disposição’.” Ainda de acordo com Mylton, a equipe do jornal foi para as ruas, no velório, no sindicato, no IML, no enterro, na missa, na cúria, nas

A explosiva edição chegou às bancas com uma capa histórica: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”, o título de destaque, apropriava-se de um trecho do Hino da República, composto por Medeiros e Albuqerque (letra) e Leopoldo Miguez (música) após a proclamação da República e sua letra foi reproduzida como editorial daquela edição. Ainda na capa, logo abaixo, a chamada “A morte do jornalista Vladimir Herzog”, em oito páginas. Talvez tenha sido aquela a mais corajosa reportagem publicada nos onze primeiros anos do regime militar brasileiro. Em poucos dias, aquele número chegava a duas reimpressões e 50 mil exemplares vendidos, o triplo da tiragem normal. Por não estar sujeito à censura prévia, por causa de uma portaria baixada pelo Presidente Geisel no ano anterior, Ex- tinha sido o único órgão de imprensa a publicar uma grande reportagem sobre a morte de Herzog. Por causa da edição, contou Mylton, “um moço procurou o encarregado de assinaturas do Ex-, altas horas da noite, e pediu que sua ‘ficha de assinante’ fosse cancelada, se possível rasgada e incinerada. Um anunciante mandou suspender o anúncio de roupa jovem, alegando ameaças telefônicas ‘contra todos nós’. Um senhor enviou documento (registrado em cartório!), anulando o pedido de assinatura do Exque a filha estudante fizera dias antes.” A denúncia de que o jornalista tinha sido assassinado sob tortura e não se enforcado – tese sustentada por uma foto forjada grotescamente – caiu como uma bomba em Brasília. E a repressão foi para cima da Redação do tablóide. Paulo Patarra passou a ser chamado “dia sim dia não” à Polícia Federal na Rua Xavier de Toledo. Espécie de tortura. “Descobriram que


eu tinha posto dinheiro no Ex-, logo concluíram que eu mandava”, disse Paulo. Havia um censor chamado Bloch, que lhe disse sobre a reportagem da morte de Herzog: “Vocês podiam ter publicado uma foto só! Não meia dúzia! Conheço os militares, um dia eles se enchem e...” Não chegou a concluir a frase. No começo de dezembro, quando a Redação preparava o número 17 do jornal (que seria lançado em janeiro), dois agentes da Polícia Federal entraram sem bater. Um loiro e outro mulato. Faziam o papel da famosa dupla Morde e Assopra, como lembrou Mylton Severiano. “Mulato mal encarado, loiro se fazendo de bom moço. Mulato de mãos enormes, cada dedo um cassetete. Armas leves sob os paletós, que divisávamos quando eles erguiam o braço para apontar algum pôster nas paredes. Não havia diálogo. O loiro anunciou que estava ali para comunicar que estava, naquele momento, apreendida a edição especial de Natal Extra, O Melhor do Ex-. Eram 30 mil exemplares já impressos e estocados na Distribuidora da Abril, a Dinap. No Melhor do Ex- havíamos empregado todas as economias e, com a esperada venda, contávamos avançar.” A capa trazia a foto de homem de capuz, braços cruzados sobre o peito nu, peludo (quem posou de modelo foi o repórter Dácio Nitrini), com a republicação do texto sobre tortura. Os editores foram informados ainda que o jornal passaria a sofrer censura prévia. Tudo deveria ser enviado à Polícia Federal, quem sabe em São Paulo, quem sabe em Brasília. Ao que parecia, o jornal dificilmente voltaria a circular outra vez. Pelo menos com aquele nome. Pois havia mais um round a ser travado. Foi, então, convocada uma reunião extraordinária da cúpula da editora e toda a equipe do jornal. No expediente, aliás, por consenso não havia cargos nem funções especificados. Os nomes estavam listados por ordem “de periculosidade”, como dizia a ilustradora Mariza. “Ignoramos a visita dos tiras da Polícia Federal. Aprontamos o número seguinte, com reportagem de Octavio Ribeiro, o Pena Branca, sobre o esquadrão da morte do Rio. Para fugir à censura prévia, mudamos o título do jornal para Mais Um, logotipo imitando o da CocaCola, desenhado pela mão cheia do Jayme Leão”, narrou Mylton. “Isso é que é!”

Com apenas 28 páginas e datado da segunda quinzena de dezembro de 1975, Mais Um trazia a mais incompreensível das manchetes de um jornal, escrita em letras gigantes e, aparentemente, não fazia referência a nada: “Isso é que é!” No alto, à direita, uma estampa grande com o nome “Ex-Editora Ltda – Selo de garantia”, num esforço de levar o leitor a identificar a ligação com o jornal Ex-. Dentro, era uma das melhores edições desde o primeiro número do antigo jornal, com duas reportagens de impacto relacionadas à ditadura: uma entrevista de duas páginas com o cantor Wilson Simonal, acusado no meio artístico de dedurar colegas junto à repressão – fato que ele negava na entrevista e desafiava a provarem; e mais uma reportagem sobre o

Esquadrão da Morte no Rio, que teria assassinado 198 pessoas no ano que terminava. O personagem da denúncia – em sete páginas – era o coronel Ivy Teixeira Xavier, cansado de descobrir ossadas em seu sítio, na Baixada Fluminense. Os quadrinhos apareciam com três tiras de Rango, o esfomeado personagem de Edgar Vásquez, publicado na época no jornal Folha da Manhã, de Porto Alegre. Trazia também uma tira da tartaruga Ruga, da cartunista Márcia Guedes. Mais uma vez, a turma provocava no longo título do editorial: “Viramos novamente o velocímetro: faltam novamente 100 anos para o nosso próximo centenário! Mais Um n° 1 saúda os leitores, os jornalistas, os amigos e presta homenagem à imprensa nanica: Millôr Fernandes, aquele abraço!” O texto a seguir explicava porque escolheram Millôr como patrono da nova publicação, sem nem mesmo consultá-lo: “Por que você? Por seus 35 anos de imprensa profissional, por se considerar um franco atirador e um liberal radical, pelas composições infantis; pelos panos rápidos, por este slogan: ‘Imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”; pelos pensamentos sem dor e por essa falta cultura; por Liberdade, Liberdade; por Um elefante no Caos, pelo homem do princípio ao fim etc”. Ao final, observaram os editores: “Vai desculpar, Millôr, mas no ano em que a imprensa independente é batizada de nanica, cresce e se multiplica, só podia ser você. Encontramos apenas um Millôr; e, como você disse no Supermercado n° 1, em 1968, na revista Veja, único lugar onde você trabalha hoje, já não se fazem mais Millôres como antigamente. E, na semana em que lançamos Mais Um, você nos alerta para as emoções que nos avizinham em 1976. Vamos lá, Millôr, não vamos perder mais este”. Em janeiro de 1976, com data marcada, estavam intimados a comparecer perante o Coronel Barreto dois dos principais responsáveis pelo Ex-, Hamilton Almeida Filho e Mylton Severiano. Este não se esqueceria do fatídico dia: “Era uma tarde chuvosa, Hamilton e eu tomamos um Reactivan (excitante) regado a Caracu e tocamos para a toca da onça, na Rua Xavier de Toledo, a cem metros da antiga Redação do Estadão, ao lado da Biblioteca Municipal Mário de Andrade, Centro de São Paulo. O Coronel Barreto nos esperava espumando, Mais Um sobre a mesa. Brandindo o jornal, gritava: ‘Vocês continuam publicando o jornal proi-

bido!’ A gente tentou argumentar, que era outro jornal, que a diagramação era outra, que o enfoque... A onça, digo, o gorila, perdão, o Coronel vociferou: “É o mesmo jornal! E se continuar, não respondo mais pela integridade física de vocês!” Mylton escreveu depois que achava que podia ter havido espionagem no caso da apreensão do Extra – O melhor do Ex-, uma vez que o número sequer tinha sido distribuído. Estava, sim, impresso, estava sob a guarda da distribuidora da Editora Abril. Em encontro com Barbosa Lima Sobrinho no Rio, Paulo Patarra lhe mostrou um Ex- e o então ex-Presidente da ABI lhe diz: “Vocês estão indo muito depressa. Devagar.” Barbosa Lima contou que tinha ouvido falar muito, mas não conhecia o tablóide. Na época havia uma expressão dos militares: “Segure seus radicais que eu seguro os meus”. Ou salve-se quem puder, diriam outros. “A gente, que fazia jornalismo, era ‘radical’, nós do Ex-, Coojornal (Porto Alegre), Movimento, Opinião, Pasquim, Repórter, Versus e tantos outros títulos da chamada imprensa alternativa, que fazia jornalismo de resistência e de denúncia contra as arbitrariedades cometidas por agentes da repressão, torturadores e censores. Fomos asfixiados pela

apreensão do número especial de Natal e pelo fracasso de venda do Mais Um, pois os leitores não perceberam que tratava do Ex- disfarçado. Morreu assim o jornal, no falso número 17, chamado Mais Um”. “Nesse momento, acontecia que uma coisa levava à outra. Se censuravam, a gente inventava outra forma de seguir em frente porque tínhamos consciência da importância do que estávamos fazendo, pelo menos para nós, que não concordávamos com a ditadura”, observou Delfim Fujiwara. No balanço que fez dos 16 primeiros números, Amancio Chiodi observou quase 40 anos depois: “Passamos dois anos intensos. Não parávamos um minuto. Foi como um resumo do que eu havia vivido até aquele momento. Falamos de Kissinger, Nixon, TFP. Lembramos a tragédia de Minamata, cidade japonesa cuja população sofreu barbaramente nos anos de 1950, devido à contaminação por mercúrio. Hamiltinho, Dácio e eu fizemos matéria sobre Pelé em Três Corações, usando o carro de Myltinho. Vimos nós e a cidade inteira, um objeto não identificado, bola de fogo que foi sumindo até desaparecer por completo. (...) Incrível, a ditadura nazista tinha vencido. Temporariamente.”

O retrato de uma época Em meados de 1998, Gonçalo trabalhava na Gazeta Mercantil e preparava uma grande reportagem sobre o desaparecimento da editora Art & Comunicação, ou simplesmente A&C, responsável por publicações que marcaram época, como O Bondinho, o jornal Ex-, e Grilo. Esta revista em especial, especializada em histórias em quadrinhos underground, havia terminado quase 25 anos antes, sufocada pela censura – em outubro de 1973 –, e foi o gancho para a reportagem. Assim, Gonçalo saiu a campo para colher depoimentos da maioria dos jornalistas idealizadores da ousada empreitada, entre os quais Sérgio de Souza, Eduardo Barreto e Roberto Freire. A reportagem foi redigida e publicada no suplemento Fim de Semana da Gazeta Mercantil, em agosto de 1998, mas Gonçalo não parou por aí. Percebeu que tinha em mãos um ótimo material, uma história que precisava ser contada. E decidiu escrever um livro sobre a amizade e a união de jornalistas que estavam determinados a não se calarem naquela época de trevas. Durante os dez anos seguintes, ele aprofundou sua pesquisa, entrevistando mais pessoas. “Todos os que participaram da editora foram ouvidos, menos Narciso Kalili, que já havia falecido”, contou. Finalmente, o livro A Morte do Grilo ficou pronto em dezembro de 2008, mas foi lançado somente este ano. O projeto esteve trancado na gaveta durante quatro longos anos à espera de um editor. São mais de 240 páginas que retra-

tam um período efervescente no mercado editorial brasileiro, pois Gonçalo não se limita a contar o sucesso, as lutas e o fim da Grilo e das outras publicações da A&C. Ele vai muito além, traçando um panorama minucioso dos fatos que antecederam a criação da aguerrida editora e o que determinou o seu fim. Gonçalo não é iniciante na área. Já publicou mais de uma dezena de livros. É autor de obras de fôlego como A Guerra dos Gibis, Tentação à Italiana, O HomemAbril, E Benicio Criou a Mulher – que acabou de ser relançado em edição luxuosa pela Ópera Graphica, Maria Erótica e o grande injustiçado do Prêmio Jabuti de 2011, Alceu Penna. Na página de apresentação de A Morte do Grilo, ele escreveu: “Este não é um livro sentimental sobre a amizade. Mas poderia sê-lo. Por que não? Afinal, trata de um sentimento que uniu por toda a vida a mais talentosa geração de jornalistas de São Paulo na segunda metade do século 20. Aos trancos e barrancos, mas sempre juntos, eles encontraram trágicas e divertidas formas de resistir à opressão de uma ditadura militar. Caíram de cabeça erguida muitas vezes e souberam se reerguer.” Na matéria publicada nesta edição do Jornal da ABI, Gonçalo volta ao assunto e faz um apanhado do que aconteceu naqueles anos truculentos da década de 1970. Mais do que reverenciar a qualidade daqueles jornalistas, o texto exalta a coragem e a paixão destemida que eles tinham pela profissão e pela verdade. (Francisco Ucha)

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FRANCISCO UCHA

VIDAS

Gutemberg fazia capas e quadrinhos para a RGE, como X-9, Nick Holmes, Búfalo Bill, entre muitos outros. Nos Estados Unidos fez sólida carreira e foi o desenhista oficial das tiras do Tom & Jerry durante décadas.

O CÉREBRO TRAIU GUTEMBERG Antes de se recuperar de uma isquemia, ele sofreu outra, que lhe foi fatal. P OR C LÁUDIA S OUZA

Um dos maiores desenhistas brasileiros, com mais de 60 anos de aplaudida carreira no Brasil e no exterior, Gutemberg Monteiro, o Gut, morreu aos 96 anos, no dia 10 de dezembro em decorrência de uma isquemia cerebral. Seu corpo foi enterrado em Saquarema, na Região dos Lagos. Seu filho informou que o quadro de saúde dele agravou-se três dias antes. “Ele começou a passar mal e tivemos de levá-lo para a UPA de Madureira. Como não havia atendimento de emergência nem vaga nos hospitais públicos, o médico que nos atendeu sugeriu que o levássemos para casa e prescreveu uma medicação e repouso absoluto. O diagnóstico foi isquemia cerebral. Como moro em Saquarema, levei meu pai para a minha casa.” A família seguiu o tratamento indicado, mas o estado de saúde de Gut se complicou pouco tempo depois. “Meu pai estava se alimentando com dificuldade, mas começou a reagir. Fiquei feliz em vê-lo se recuperando aos poucos, apesar de estar debilitado. Então ocorreu outro episódio de isquemia e ele já não conseguia se comunicar. Vi tristeza nos olhos dele. Tentamos reanimá-lo, mas não foi suficiente. Ele costumava dizer que gostaria de ter46

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minar os seus dias em Saquarema, cidade da qual gostava muito.” Outro desejo de Gut era retornar aos Estados Unidos, onde atuou profissionalmente ao longo de quatro décadas desenhando personagens lendários como Tom & Jerry, Batman, Fantasma e Capitão América. “A viagem estava marcada para maio, mas como minha mãe foi submetida a uma cirurgia na vesícula, a ida foi adiada para o mês de novembro. A chegada da tempestade Sandy interrompeu os planos de meu pai mais uma vez. A situação ficou séria na região do Brooklin, onde fica a casa de meu irmão, que nos receberia. Para se ter uma idéia, a energia elétrica no local só foi restabelecida há pouco tempo”, contou Gutemberg Filho.

Além de voltar aos Estados Unidos, Gut pretendia publicar a sua autobiografia. “Darei continuidade ao sonho de meu pai. Ele queria que o livro fosse ricamente ilustrado com o seu trabalho. Vou pedir ajuda aos amigos e a todos aqueles que reconhecem o talento dele para editar O Chute do Gut, um legado que jamais terá fim.” Um dos mais antigos associados da ABI, Gutemberg Monteiro estabeleceu forte ligação com a Casa ao longo de sua trajetória. No dia 6 de junho passado, foi homenageado com uma exposição de seus trabalhos na sede da entidade. Prestigiaram o evento parentes, amigos e colegas de profissão, como os desenhistas Benício, Nilton Ramalho, José Menezes e Walmir Amaral, e o fotógrafo Iarly Goulart. “Deus fez de mim tudo o que ele quis, eu é que acho que não fui suficientemente inteligente para ir além do ponto em que eu cheguei. Mas me dei muito bem e me sinto realizado profissionalmente e artisticamente. É maravilhoso! Eu não esperava que isso acontecesse na minha vida”, disse Gut no final do evento. Os mais de 60 anos de carreira e as experiências de vida também foram retratados em entrevista que Gutemberg concedeu ao Jornal da ABI e que foi publicada Edição número 379, de junho de 2012.


Um desenhista único, de recursos múltiplos Colegas destacam a excelência da obra de Gutemberg Monteiro. P OR P AULO C HICO

Homenagens póstumas são sempre respeitosas e bem-vindas. Mas elas ganham em vibração e sabor quando prestadas ao homenageado ainda em vida. Assim fez a ABI em 6 de junho deste ano, quando reuniu em sua sede, no Centro do Rio, cartunistas, jornalistas, parentes e amigos de Gutemberg Monteiro, na abertura de uma exposição dos trabalhos deste mineiro de Faria Lemos, nascido em 4 de dezembro de 1916 e considerado um dos maiores desenhistas brasileiros de todos os tempos. Alguns dos colegas presentes àquela solenidade voltaram agora a falar com o Jornal da ABI. Exaltaram a obra de Gut. E lamentaram sua perda. “Quando do evento da ABI, saí de Petrópolis e fui ao Rio especialmente dar um abraço no meu amigo, a quem conheci na década de 1960, na Rio Gráfica e Editora, que depois se transformou na Editora Globo. Havia umas colunas na frente do prédio, e eu costumava brincar que pelo menos uma delas deveria ter o nome e a figura do Gut. Outra deveria ser dedicada ao Lutz. Esses dois lançaram a semente que veio gerar, nos anos 1950, a Rio Gráfica. Gutemberg começou muito cedo, lançou o Gibi e O Globo Juvenil... Fazia a maioria das capas. O grupo chegou a editar simultaneamente mais de 50 revistas, e ele era a referência para todos os novatos que chegavam à Rio Gráfica, que, ao contrário da Ebal, foi um celeiro de desenhistas. Muita gente boa se formou por lá e depois se espalhou pelo mercado, inclusive publicitário”, contou o desenhista José Menezes. Os depoimentos de dois contemporâneos de Gutemberg corroboram o relato do espírito colaborativo do mestre, feito por José Menezes. Benício, criador de cartazes de filmes brasileiros, também começou a carreira na Rio Gráfica e contou que foi Gut quem lhe deu os primeiros ensinamentos sobre ilustração. Não um ensinamento didático, mas uma orientação que se desenvolvia pela presença, pela conversa e pelo exemplo. "Pode se dizer que o Gutemberg foi nosso primeiro grande mestre da profis-

são, uma vez que éramos todos muito jovens na Rio Gráfica, tentando absorver um pouco do enorme talento que ele disponibilizava para todos nós, gratuitamente. Além disso tornou-se um dos nossos melhores amigos, presente em todos os momentos importantes de nossas vidas. Um exemplo de homem correto e amigo dedicado", disse Benício. "Ele foi um exemplo, porque, além de ser um grande artista, foi um grande companheiro", completou Nilton Ramalho, outro desenhista da época. “Eu só tenho a dizer que Gutemberg foi amigo e orientador de todos os desenhistas que chegavam para trabalhar na Rio Gráfica. Ele nunca se negou a nos ajudar, a dar suas sugestões nos desenhos que fazíamos”, resume Menezes, que fala ainda ao Jornal da ABI sobre a qualidade técnica de Gut. E da adoração que Roberto Marinho tinha pelo desenhista. “O mais impressionante em sua produção era a versatilidade. Fazia tanto o desenho sério – X-9 e Meia-Noite, com ilustrações para revistas policiais – como histórias mais leves, passando por Mandrake e Fantasma. O Doutor Roberto tinha um carinho muito grande por ele, inclusive por um detalhe extra: Gut fazia parte do time de futebol de O Globo – e jogava muito bem. O grupo, muitas vezes, ganhou campeonatos disputados entre jornais com gols dele, atacante talentoso”, conta Menezes, que recordou uma passagem engraçada contada pelo amigo. “Nos últimos tempos, ele já andava com muita dificuldade, com o apoio de uma bengala. Me revelou que o problema que tinha no joelho era fruto direto de uma partida de futebol. Jogando nos Estados Unidos, já com mais de 70 anos, deu uns dribles num americano, que se irritou e entrou de sola”. José Menezes lamentou a morte de tamanha referência profissional. “Após fazer

Com seu traço versátil, Gutemberg se sentia confortável em vários estilos de desenho: desde os infantis, como Gasparzinho, até os clássicos, como Ferdinando, de Al Capp. Ao lado, uma breve história do Correio Brasiliense.

desenhos para a Embaixada Americana, Gut acabou sendo convidado a trabalhar nos Estados Unidos, e lá passou cerca de quatro décadas. Foi desenhista, por 15 anos, do Tom & Jerry, do grupo Hanna-Barbera. Mas, é isso... A idade chega e pesa para todos nós. Ele tinha um amor muito grande pelo Brasil, especialmente por Minas, onde nasceu. Acho que queria voltar em definitivo, ter uma fazenda, um sitiozinho, reencontrar suas raízes... E, além de sua obra, nos deixou três filhos: um no Brasil e dois nos EUA – uma na Flórida e um caçula em Nova York. Era de uma simplicidade excepcional, enquanto outros desenhistas por aí exageram na dose de vaidade...”. No evento realizado na ABI, o repórter fotográfico e cinematográfico Iarly Goulart, amigo de Gutemberg desde os tempos de juventude, deu depoimento semelhante sobre a personalidade do homenageado. E queixou-se do fato de o desenhista só vir a ser reconhecido no Brasil a partir dos anos 1990. “No Brasil ninguém o conhecia, apesar de nos Estados Unidos ele ser um artista famoso. Mas isso se deve à sua simplicidade. Se ele fosse uma figura que gostasse de aparecer e badalar seria uma personalidade famosa dentro do seu próprio País”. Em sua carreira de quadrinista nos Estados Unidos, para onde se mudou em 1964, Gut deu forma a personagens dos mais populares, como Gasparzinho, Brasinha, Bolota, Riquinho, entre muitos outros. Trabalhou também em publicidade. “Quando foi para os Estados Unidos, levou a família toda, e já começou fazendo Batman. Foi um dos melhores amigos, um

dos primeiros desenhistas que conheci. Em 1957, quando fui para a Rio Gráfica, ele já estava lá. Era um desenhista fora de série, uma grande pessoa... Vivia dentro da minha casa, adorava meu pai! Aprendi muita coisa com ele. Ele tinha um desenho próprio, fazia a marcação e o esboço das histórias em quadrinho de uma maneira completamente diferente... Acima de tudo, foi um grande trabalhador. Gutemberg Monteiro foi um operário do desenho”, afirma Walmir Amaral, que segue na ativa produzindo sob encomenda para editoras de São Paulo. Ilustrador nascido na Itália em 1945 e radicado no Brasil desde a década de 1950, Primaggio Mantovi também falou ao Jornal da ABI. “Graças a seu enorme talento, Goott, como era chamado nos Estados Unidos, foi um dos primeiros artistas selecionados pessoalmente por Roberto Marinho para trabalhar na então recémfundada Rio Gráfica e Editora. Tinha um traço diferente, pessoal e de fácil identificação, mesmo entre centenas de outras obras. No Brasil, infelizmente, não deixou seguidores diretos. Talvez tenha deixado algum nos EUA, país que lhe ofereceu trabalho e reconhecimento.” O cartunista Zé Roberto Graúna destacou o perfil desbravador e corajoso de Gutemberg Monteiro. “A produção dele extrapola a questão do estilo, pois, além de fazer o seu próprio trabalho, fez com maestria o dos outros. Isso é fantástico! E, mais do que enaltecer a obra do Gut, entendo que a principal virtude desse grande desenhista foi sua trajetória. Ele venceu na vida duas vezes, ao vir para o Rio de Janeiro, aos 13 anos, praticamente com a roupa do corpo; e anos mais tarde quando foi para os Estados Unidos conquistar seu lugar na História. Gutemberg é um exemplo de coragem e superação!”, disse Graúna ao Jornal da ABI. JORNAL DA ABI 385 • DEZEMBRO DE 2012

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DIVULGAÇÃO/BAND

VIDAS

Joelmir, o jornalista econômico. De verdade Depoimentos de colegas, autoridades e parentes descrevem as características que fizeram de Beting um dos mais respeitados comentaristas do jornalismo brasileiro. P OR P AULO C HICO

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Joelmir Beting abrilhantava a bancada do Jornal da Band com seus comentários precisos. Abaixo, concedendo uma entrevista para a Folha de S.Paulo em 1987, no escritório de sua casa.

mília, Palmeiras, amores, dores, cores, canções. Mas não vou chorar por algo mais que tudo que existe no meu mundo que são meus pais. Um regalo divino. Meu pai nunca me faltou mesmo ausente de tanto que trabalhou. Ele nunca me falta por que teve a mulher maravilhosa que é dona Lucila. Segundo seu Joelmir, a segunda maior coisa da vida dele. Que a primeira sempre foi o amor que ele sentiu por ela desde 1960. Quando se conheceram na Rádio 9 de julho. Onde fizeram família. Meu irmão Gianfranco e eu. Filhos do rádio”, disse um emocionado Mauro Beting. O clube citado no texto acima era uma das paixões de Joelmir. O palmeirense

mudou-se do interior para a capital paulista ainda na juventude para estudar Sociologia na Universidade de São Paulo. Porém, fez carreira no jornalismo. Começou como repórter esportivo – área de atuação do filho Mauro – em 1957, quando ainda era universitário. Passou pelos jornais Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e pelas emissoras de televisão Globo, Record e Gazeta, além de diversas rádios. Desde 2004, emprestava seu talento à Band. A pedido do Jornal da ABI, Mauro Beting recorda o processo de mudança de ambiente profissional do pai, que deixou a emoção dos gramados para decifrar a frieza do números. “Em 1962, no PacaMÁRCIA ZOET-FOLHAPRESS

A categoria dos comentaristas, em especial os de televisão, é afeita a excessos verborrágicos. Pessoas que falam demais. Às vezes, bobagens demais. Mas era com precisão numérica, quase cirúrgica, que Joelmir Beting tecia suas análises. Econômico nas palavras, objetivo no texto, rápido no raciocínio, sagaz na ironia. São essas características, presentes na bancada do Jornal da Band, e reproduzidas em colunas publicadas em dezenas de jornais País afora, que transformaram este brasileiro nascido em Tambaú/SP, em 1936, em referência nacional. E que já fazem falta no cotidiano de telespectadores e leitores, há anos acostumados com a informação prestada com clareza. E respeito à inteligência do público. O texto curto, dito em ar solene com certa sisudez de expressão, em contraponto com o uso de figuras de linguagem bem-humoradas, eram marcas de Joelmir como comentarista. Mas teria sido este um estilo desenvolvido especialmente para a profissão? Tais traços fariam mesmo parte da sua personalidade? Joelmir em casa, entre família e amigos, também era uma pessoa engraçada, brincalhona? Com a palavra, Mauro Beting, filho de Joelmir. Jornalista como o pai. “Era ainda pior, ou melhor, era ainda mais engraçado, irônico, satírico. Um grande cara. E que adorava contar história. Um brincalhão até quando falava sério. E ele falava sério brincando. Ele sabia quase tudo. E quando não sabia inventava com uma categoria e criatividade que faziam as versões melhores que os fatos”, conta ele que, em entrevista ao Jornal da ABI, é taxativo ao apontar o maior legado deixado pelo comentarista. “A concisão. A capacidade de explicar, digna do excelente professor que ele sempre foi. Não vejo no jornalismo econômico ninguém com o mesmo estilo, embora existam excelentes profissionais há bom tempo em atividade. E também não vejo em outras áreas alguém com a mesma verve. E poucos com a mesma credibilidade.” Na madrugada de 29 de novembro, Mauro Beting passou por uma prova de

fogo – profissional e pessoal. Leu uma carta emocionada ao vivo pela Rádio Bandeirantes – pouco depois de saber da morte do pai. Joelmir, que além de comentarista no Jornal da Band era apresentador e mediador do dominical Canal Livre, estava internado desde o dia 22 de outubro no Hospital Israelita Albert Einstein, devido a uma doença autoimune que tinha nos rins. Aos 75 anos, o jornalista, que chegou a ser bóia-fria na infância, sofreu um acidente vascular encefálico, e já havia vários dias seu estado de saúde era considerado irreversível pelos médicos. “Uma coisa aprendi com você, Babbo. Antes de ser um grande jornalista é preciso ser uma grande pessoa. Aprendi que não tenho de trabalhar para ser um grande profissional. Preciso tentar ser uma grande pessoa. Como você fez as duas coisas. Desculpem, mas não vou chorar. Choro por tudo. Por isso choro sempre pela fa-


U. DETTMAR/FOLHAPRESS

embu, o Palmeiras empatou com o Corinthians no final de um Dérbi. Na tribuna de imprensa, meu pai simplesmente começou a distribuir bananas aos torcedores alvinegros. Teve de sair escondido no carro de colegas. Chegando à Redação de O Esporte, fez a reportagem do jogo. E, em seguida, a carta de demissão. Não só mudou de emprego. Mudou de área. Logo começou a trabalhar numa revista da Ultragás e em outra corporativa. Pegou gosto pela coisa e em 1966 estava na Folha de S.Paulo. Mas ele não ficou tão mal – até onde sei. Como ele sempre foi um palmeirense patológico, talvez tenha sofrido menos como torcedor, ao passar a cobrir a economia. Afinal, ele não precisava mais ver todos os jogos da equipe.” Respeito e admiração nas palavras dos colegas

“Infelizmente, só nos últimos sete anos tive o privilégio de dividir com Joelmir Beting o ambiente de trabalho, tendo a honra do convívio pessoal e familiar dele. Além da parceria diária na bancada do jornal, nos encontrávamos várias Joelmir Beting numa das inúmeras palestras que proferiu. Esta aconteceu em 1984, no auditório da Folha de S.Paulo. vezes por dia em outros ambientes da emissora, nas rádios do grupo, no Canal Livre, no Band Eleições. Por essas coinciTambém a Ministra da Secretaria de nhamos a notícia de que o quadro dele era uma de suas virtudes. Com ele aprendi que Comunicação Social da Presidência da irreversível, mas não esperava que isso mais importante que ser um bom profisdências da vida, nós trabalhamos na República, Helena Chagas, disse que Joelfosse acontecer. Recebi a informação no sional é preciso antes ser uma boa pessoa. mesma empresa, as Organizações Globo, por muitos anos – bem mais de dez! Mas, mir foi um de seus mestres na carreira de ar e tive o desprazer de repassá-la aos Ele foi melhor colega que jornalista. Ele jornalista. “A sociedade perde hoje aquele telespectadores. Trabalhamos juntos na foi melhor pessoa que profissional. O embora estivéssemos na mesma tv e no Folha de S. Paulo. Ele era um ser incrível, melhor pai que um jornalista pode ser. O que soube, como nenhum outro, falar de mesmo jornal, não compartilhávamos melhor jornalista que um filho pode ter economia de um jeito que todos entendihorário, nem rotinas. Mal nos víamos, e muito bem-humorado, não havia quem não como pai. O que mais tocou a família am. Três qualidades se destacaram na vida gostasse dele. Brincávamos muito porque, nos falávamos muito pouco. Estreitamos foram as impressionantes manifestações de Joelmir: credibilidade, seriedade e simalém de tudo, torcíamos pelo Palmeiras e nossos laços exatamente quando ambos de carinho pela pessoa, mais que pelo plicidade”, declarou em nota. Ela lembrou viemos para a Band”, revela Ricardo Bosempre fazíamos piadas, inclusive sobre a profissional. Gente que não o conhecia e ainda que o jornalista foi pioneiro em ter má fase do time. Ele tinha um humor echat, âncora do Jornal da Band. Boechat conta ainda um episódio – chorou como se fosse da família. Isso nos uma coluna em jornal falando de economuito inteligente. Quando o Joelmir chemeio público, meio de bastidores – que ajuda muito a superar a saudade e a dor.” mia de forma simples e didática e em levar gava, a Redação se iluminava. E não estou Mauro Beting aproveita para esclareessa mesma maneira de explicar para a tv falando isso só porque ele comprova o quanto Joelmir era divertidos entre cer que não havia qualquer mágoa de Joele o rádio. morreu, não. É uma pessoa LE ERA UMA colegas. “Certa vez, e isso mir em relação à antiga emissora, onde O jornalista Augusto Nunes publicou que, sem dúvida, vai deixar PESSOA GOSTOSA atuou por quase duas décadas. “Foram maem sua coluna digital, na Veja, relato que muita saudade.” deve estar nos arquivos da emissora, durante a ravilhosos 19 anos na TV Globo, de 1985 a corrobora a visão de Dilma e Helena ChaPelo Twitter, colegas, DE CONVIVER gas. “Conheci Joelmir no fim dos anos 1970, exibição de uma matéria inclusive de outras emis2004. A mãe dos netos dele, a Helen Martins, AGRADABILÍSSIMA quando o tradutor do economês comandasoras, destacaram o talentrabalha no grupo desde 1993. As homenano Jornal da Band, enÓTIMO PAPO UM quanto a reportagem esva um telejornal. Entramos no estúdio quangens que a Globo fez a ele foram tocantes. to e o prazer de terem do ele estava no ar. Fiquei intrigado com os tava no ar, o Joelmir fez convivido com Joelmir. Meu pai deixou a emissora também por esCONTADOR DE “Uma honra imensa ter tar sendo menos aproveitado do que gostadizeres na placa de papelão que um dos câum comentário tão desHISTÓRIAS DE MITOS sido, um dia, colega de Re- ria. Ele realmente pensou em deixar o tele- meras mantinha erguida: ‘Enrola, Joelmir!’. concertante, tão gaiato, tão engraçado que, quan- QUE TODOS QUERIAM dação de um sujeito talenjornalismo até à chegada da proposta espeTerminado o telejornal, o próprio desfez o tacular da Band, que o fez dar novo impulmistério: ‘Eles pedem que eu fique enrolantoso, divertido, decente e do voltamos ao estúdio, a POR PERTO so à carreira. Também por isso aceitou a prodo quando ocorre algum problema no roteiNadja Haddad, que naquerido como jornalista”, quela ocasião dividia a bancada comigo e posta de fazer a propaganda da Bradesco”, ro’, sorriu. Só que ele nunca enrolava: concomentou William Bonner, editor-chefe explica ele, citando a campanha publicitária tinuava melhorando a cabeça dos telespecdo Jornal Nacional, da TV Globo. Da com ele, deveria ler a cabeça da matéria pela qual Joelmir recebeu algumas críticas. tadores com informações relevantes. No fim seguinte, mas não conseguia parar de rir. mesma emissora, a também comentarisdos anos 1980, ao assumir a Direção de ReE o Joelmir seguia firme, sério, com aquela ta econômica Míriam Leitão reconheceu: dação do Estadão, consegui levar para o jor“Joelmir tirou o jornalismo econômico O elogio da Presidente expressão de lorde inglês que ele sabia ao estilo de Joelmir fazer como ninguém. E eu, totalmente nal a coluna que publicava na Folha de S. Paulo. da linguagem difícil de entender. Foi pidesconcertado, querendo dar continuiO texto era tão bom quanto a voz”. oneiro. Mostrou o caminho de escrever Em nota oficial, a Presidente Dilma Para encerrar a entrevista com Mauro e falar claro”. O mesmo tom foi adotado Rousseff também prestou homenagem ao dade ao jornal, sendo contaminado pelo ataque de risos. A Nadja não conseguia se Beting, o Jornal da ABI quis saber que por Carlos Nascimento, do SBT. “Ele foi jornalista. “Joelmir Beting foi um mestre notícia ou comentário Joelmir nunca recompor, e o Joelmir lá, impávido colosuma inspiração para todo mundo da miem uma das missões primordiais do jorteve a oportunidade de fazer, mas que nalismo: a de explicar as notícias mais nha geração. Éramos jovens repórteres, e so, piadista de mão cheia”, recorda Boegostaria de ter feito? O que ele mais dechat, que resume em seguida: “Ele era uma ele, um exemplo a ser seguido. A única paicomplexas de uma forma simples, nunca pessoa gostosa de conviver, agradabilíssisejava que ocorresse no Brasil? “Ele soxão que se permitia era o Palmeiras. Como simplória. Beting aliava um conhecimennhava que este deixasse de ser o país do jornalista, Joelmir era muito imparcial.” to profundo da economia brasileira com ma, ótimo papo, um contador de histórifaturo para se tornar o País do futuro o as, de mitos, que todos queriam por perMarcelo Tas, da turma do CQC, da Band, uma comunicação didática. Usava compato. Todos torciam por ele, paravam para mais breve possível. Meu pai era um otidefiniu o estilo Joelmir de ser. “Meu aferações de uso corrente para fazer com que mista convicto. Desde sempre”. to à querida família Beting. Tipo raro no todo brasileiro pudesse compreender e vê-lo e ouvi-lo na Band. Nunca vi o JoelO corpo de Joelmir foi velado no Cemir levantar a voz para ninguém”. jornalismo, ele encantava platéias com formar sua própria opinião sobre os fatos. mitério do Morumbi e cremado, no próBoris Casoy, editor e apresentador do inteligência, humor e ironia”. Ele abriu caminhos para um jornalismo prio dia 29 de novembro, no Cemitério Tantas demonstrações de admiração e econômico sob o ponto de vista do cidadão, Jornal da Noite, também da Band, foi ouHorto da Paz, em Itapecerica da Serra, na tro jornalista a manifestar publicamenamizade não pegaram Mauro de surprenão de autoridades, nem de corporações”, Grande São Paulo. ponderou a Presidente da República. te seu pesar pela morte de Joelmir. “Tísa. “O cultivo da amizade era também

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JONAS OLIVEIRA/FOLHA IMAGEM

VIDAS

Pignatari, na vanguarda desde sempre

Morto aos 85 anos, ele introduziu entre nós a Semiótica e a Teoria da Comunicação, mas se consagrou mesmo como um dos pais da poesia concreta brasileira. P OR G ONÇALO J ÚNIOR

Mesmo quem não é leitor freqüente de poesia de qualquer época conhece esses versos, que foram até musicados: “bebacocacola/babecola/bebacoca/babecolacaco/caco/cola/cloaca”. O título do poema é sua última palavra, Cloaca. Um dos mais representativos do concretismo na poesia, é uma crítica humorada à sociedade de consumo – após a explícita alusão à propaganda do refrigerante mais popular do mundo. Tanto que termina com um arroto. Seu autor, Décio Pignatari, um dos poetas mais originais nascidos no Brasil, introdutor da Semiótica e da Teoria da Comunicação no País, morreu no dia 2 de dezembro, aos 85 anos. Fazia tempo que ele estava fora do noticiário. Sua perda suscitou, no entanto, grande quantidade de reportagens e análises, páginas e até cadernos inteiros em sites e suplementos culturais de todo o País. Especialistas de várias áreas, da crítica literária à música, lembraram a importância de sua obra, seu temperamento singular e, sobretudo, como faz falta hoje ter talentos como o dele, de vanguarda, nas artes nacionais. Desde cedo, o poeta nascido em Jundiaí, cidade do interior paulista, em 1927, encantou-se pela palavra, seus sentidos e suas múltiplas possibilidades. Assim se tornaria não só poeta, como também tradutor, ensaísta, teórico da comunicação e professor universitário. Sua trajetória seria marcada pelo encontro com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos em fins da década de 1940. Ele era um jovem estudante de Direito, no Largo de São Francisco, na capital paulista, e já iniciava sua arte radical, realizando experiências com a linguagem poética a partir da 50

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fragmentação das palavras e da incorporação de recursos visuais. Surgiria, assim, o movimento estético que teve como canal de divulgação duas revistas fundadas pelo trio, Noigandres e Invenção. Instaurado inicialmente na música, o Concretismo alcançou a poesia e, depois, as artes plásticas. Décio, Augusto e Haroldo estariam presentes nos principais movimentos culturais a partir de então, inclusive no Tropicalista, nos anos 1960. Ao lado dos irmãos Campos, contribuiu para a divulgação no País da produção de poetas, romancistas e músicos da vanguarda européia e americana. Em Noigandres Décio Pignatari apresentou um dos primeiros e mais importantes textos teóricos: tratava-se de seu plano-piloto para a poesia concreta. Defendeu que não existe poesia revolucionária sem forma revolucionária, o que o aproximava do credo poético do russo Vladimir Maiakovski. O poema concreto foi descrito como “um objeto em e por si mesmo, não um intérprete de objetos exteriores e/ou sensações mais ou menos subjetivas”. Quanto à poesia concreta, apresentou como “uma responsabilidade integral perante a linguagem”. Para isso, propôs o manifesto, a palavra devia ser pensada em suas diversas dimensões: “som, forma visual, carga semântica”. “Mallarmé calabrês”

Augusto de Campos um dia chamou o parceiro de o “Mallarmé calabrês”, num poema dedicado a ele, Profilograma, quando Pignatari completou 60 anos. No momento em que o amigo fez 80 anos, publicou um longo ensaio a seu respeito no Suplemento Literário de Minas Gerais – reproduzido pela Folha de S. Paulo como parte das homenagens na semana de sua

morte. Conta Augusto de Campos que tinha 17 anos na data em que leu um poema dele, O Lobisomem. Ficara impressionado. Com o irmão Haroldo, passaram a se encontrar semanalmente para discutir poesia. As grandes influências na literatura eram Ezra Pound, Arnaut Daniel, Stéphane Mallarmé, James Joyce, E. E. Cummings. Na música, Webern, Schonenberg, Varese e Cage, assim como a arte de Mondrian, Maliévitch, Calder. Do Brasil, Oswald De Andrade, João Cabral e Volpi eram alguns dos preferidos. Diz ainda Augusto de Campos sobre os primeiros anos: “A época era muito instigante. Era o momento pós-guerra, que nos trouxe a novidade da literatura inglesa, contrariando a tradição brasileira, pautada pela francesa. Floresciam o Masp e o Mam, a Cinemateca, Bienais, nova arquitetura. Nas Livrarias Pioneira (especializada em literatura em inglês), Francesa, Italiana nos inteirávamos das últimas novidades. Enquanto os intelectuais do Primeiro Mundo eram basicamente monolíngües e auto-suficientes, nós, do Terceiro, assimilando vários idiomas, fomos devorando tudo e queimando etapas rapidamente com a pretensão de buscar uma síntese fulcrada no critério poundiano da invenção”. Apesar do grande talento, Pignatari não teve o reconhecimento que de fato merecia, como registrou Augusto de Campos em depoimento a O Estado de S. Paulo, após a morte do amigo: “Décio era um extraordinário poeta e pensador. O maior poeta-inventor da minha geração, e um dos maiores da literatura de língua portuguesa de todos os tempos. Radical adversário da ‘geléia geral’, nunca recebeu prêmio nenhum por seu trabalho. Incomodava universidades e academias. Apesar de amplamente reconhecido como um

dos fundadores da poesia concreta, era muito mais do que isso e morre – Oswald da minha geração – incompreendido e injustiçado como esse”. Pignatari quase foi advogado, mas a vocação se impôs. Ao se formar em Direito, já tinha publicado o primeiro livro de poemas, Carrossel. Viveria então por dois anos na Europa, período em que continuou a manter intensa conversa – agora por correspondência – com os irmãos Campos. Por lá conheceu outros artistas de vanguarda, como John Cage, Pierre Boulez e Eugen Gomringer. De volta ao Brasil, foi um dos organizadores da Exposição Nacional de Arte Concreta, realizada em 1956 no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Declarou na ocasião que o evento seria “o primeiro encontro nacional das artes de vanguarda realizado no País, tanto no que se refere às artes visuais quanto à poesia concreta”. A ascendência do grupo de São Paulo sobre a exposição marcou o início da ruptura com os representantes do Rio de Janeiro, como Ferreira Gullar, Amílcar de Castro, Lygia Clark, Lygia Pape e Reynaldo Jardim – numa edição do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, em 1959, eles denunciaram o excesso de dogmatismo a que tinha levado o concretismo, fazendo arte segundo receitas e que terminava, em vez de integrar a arte na vida, submetendo-a a um excessivo racionalismo. Assim foi fundado o “Movimento Neoconcreto”, que teria repercussão no Rio de Janeiro até o começo dos anos 1960. Criador singular

Boris Schnaiderman, tradutor, ensaísta e professor, outro amigo de longa data, também vizinho de bairro, em Higienópolis, lembrou o talento do autor de Cloaca: “Décio tinha alguns insights formidáveis, de perceber no ar coisas que a gente só percebia depois”, contou ao Estado de S. Paulo. Foi em 1961 que o conheceu, quando os concretistas, interessados na obra de Maiakóvski, procuraram seu tradutor no Brasil. Jerusa Pires Ferreira, ensaísta e tradutora, professora da EcaUsp e da Puc-SP – onde dirige o Centro de Estudos da Oralidade – também escreveu a seu respeito: “Falar de Décio é colocarse diante da atitude de um criador singular, entrar por uma transversalização que impede o congelamento de idéias, avançar por muitas polêmicas, contando com algumas posições agônicas, inquietantes, mas é sobretudo prosseguir junto a um talento e avaliar a garra do poeta que, mesmo ao desistir, não desistiria”. O crítico literário Luiz Costa Lima também relembrou o poeta em texto publicado na Folha de S. Paulo: “Apenas de vez em quando tinha notícias suas, que confirmavam continuar o irreverente que sempre foi.” Adiante, conta que um poema seu foi um dos decisivos em sua trajetória como crítico, época em que poesia e política eram entendidas sempre juntas. “Acreditávamos que o mundo podia ter outra face; que ela seria modelada pela poesia revolucionária de Mallarmé e a guerrilha, no caso, asiática. O tempo se encarregou de mostrar nosso engano e ainda nos concedeu que sobrevivêssemos. Mas, se o vietcongue desapareceu, os po-


Carlos Klein, o talento precoce A cidade de Santos perdeu em 30 de novembro um dos seus mais destacados jornalistas, Carlos Henrique Klein, começou precocemente na imprensa, quando tinha apenas 17 anos, escrevendo crônicas e contos, e se tornou um dos principais ícones do jornalismo da Baixada Santista. Klein morreu aos 88 anos, vítima de um infarto. Ex-Editor-Chefe do jornal A Tribuna, entre 1968 e 1990, ele estava internado na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital São Lucas, em Santos. O neto de Klein, Luiz Gustavo Klein Carlan, que é também jornalista e editor de Cultura de A Tribuna, informou que a última internação do avô ocorrera na quinta-feira anterior ao óbito, em virtude de problemas circulatórios. “Os últimos dois anos foram bastante complicados. Ele teve uma série de internações, problemas com diabetes, passou a sofrer de Mal de Alzheimer e, aos poucos, foi perdendo a consciência”, relatou o neto. Ainda de acordo com Luiz Gustavo, que vinha dormindo diariamente com o avô no hospital, o quadro de Klein se agravou nos últimos dias, tanto que ele passou a respirar com auxílio de uma máscara

de oxigênio. No dia 29, o estado de saúde de Klein ficou ainda mais delicado e os médicos resolveram encaminhá-lo para a UTI. No início da manhã do dia 30 ele não resistiu e faleceu. Um conto, uma carta

Carlos Henrique Klein nasceu em Santos em 30 de dezembro de 1923. Seu destino no jornalismo foi traçado por uma carta que escreveu para a seção de colaboradores de A Tribuna. A correspondência chegou às mãos de Cyro Lacerda, então responsável pelo espaço, foi lida e seu conto aceito. Em 1940, aos 17 anos, ele já escrevia crônicas e contos, como colaborador do jornal. Mas foi em 1943, de fato, que ingressou na profissão. Ficou um ano no setor de Revisão de A Tribuna, sob a chefia de Cyro Lacerda, o mesmo que o levara para o jornal e o seduzira com sua página literária editada aos domingos. Sua ida para a Redação aconteceu em 1944, aos 20 anos, quando teve breve passagem pela editoria de Esportes, obedecendo à direção de Antônio Guenaga. Como repórter, fez de tudo um pouco, da pequena nota social à reportagem,

em princípio como curinga (termo usado no jornalismo para quem atua em várias editorias). Chegou a assinar seções especializadas de turismo e automóveis e praticamente exerceu todas as funções na Redação. Em 1950, quando o Diretor-Presidente de A Tribuna era Nascimento Júnior, tornou-se editor executivo, assistente do editor-chefe Geraldo Ferraz. Juarez Bahia foi o substituto de Geraldo Ferraz. E em 1968, quando Bahia saiu e foi trabalhar na imprensa paulistana, Carlos Klein foi convidado, pelo então Diretor-Presidente de A Tribuna, Giusfredo Santini, a assumir o posto de Editor-Chefe. Permaneceu no cargo até novembro de 1990, quando aceitou outro convite, desta vez do Diretor-Presidente Roberto Mário Santini, para ser assistente de diretoria. Apesar de ter atuado como funcionário concursado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE, onde chegou à chefia regional, 50 anos de sua vida foram dedicados à profissão de jornalista. Filho de Gustavo e Severina Klein, Carlos Klein era casado com Neuza Andrade Klein e tinha duas filhas, Cláudia e Márcia.

Boris Strugatsky, o último grande nome da ficção científica soviética P OR C ESAR S ILVA

No dia 20 de novembro o mundo perdeu mais um grande nome da literatura especulativa, Boris Strugatsky, escritor russo que, ao lado do irmão mais velho, Arkady Strugatsky (1925-1991), construiu uma bibliografia sólida no gênero da ficção científica, extremamente popular entre os soviéticos e reconhecida internacionalmente, traduzida que foi em mais de 30 idiomas. Nascido em 14 de abril de 1933, Boris Natanovich Strugatsky passou sua infância em Leningrado (atual São Petersburgo) e lá estava quando a cidade foi sitiada pelo Exército nazista. Em 1955, formou-se em astronomia pela Universidade de Leningrado e trabalhou como matemático no Observatório de Pulkov. Os primeiros trabalhos da dupla eram profundamente influenciados por outro grande nome da ficção russa, Ivan Efremov (1908-1972), com uma visão positivista e ingênua da ciência, mas com o passar do tempo seus textos ficaram mais críticos e satíricos. O romance de estréia

foi From Beyond, publicado em 1958, e o primeiro grande sucesso editorial veio em 1962, com a publicação de Meio-Dia: Século 22, romance fix-up formado por várias histórias curtas interligadas. A enorme aceitação dos leitores russos permitiu que, a partir de 1966, os irmãos Strugatsky se dedicassem à escrita em tempo integral. No total, a dupla publicou cerca de 30 romances e dezenas de contos e novelas. Muitos de seus livros estão disponíveis em língua portuguesa, especialmente em edições lusitanas, tais como Prisioneiros do Poder (1969), Que Difícil é Ser Deus (1964) e Um Besouro no Formigueiro (1980), entre outros. Contudo, quase nada foi publicado no Brasil. Além do conto O Cone Branco de Alaíde, de 1959, visto nas antologias Rotas Para o Amanhã (s/d, Editora Bruguera) e 5 Novelas de Antecipação Soviéticas (1964, Editora Estúdios Cor), somente um romance foi traduzido: Certamente, Talvez (1977), publicado em 1980 pela editora Civilização Brasileira, o qual explora um polêmico conceito científico sobre a ação da própria natureza para equilibrar o Universo, no caso de desREPRODUÇÃO

etas revolucionários continuaram a luzir entre os novos”. O cineasta Ivan Cardoso contou de sua admiração intelectual e do filme que planejaram fazer juntos: “Foi o homem mais inteligente que conheci. Por onde Décio passou não nasceu mais grama. Sabia de tudo. Na última vez que o vi, combinei que faria um filme com ele.” Tinha até título, A Morte da Poesia – O Mundo Que Não Existe Mais. “Em todas as suas multifacetadas práticas e produções, a genialidade de Pignatari irrompia com a força da natureza”, afirmou ao Estado de S. Paulo Lucia Santaella, professora titular na Puc-SP e coordenadora da pós-graduação em tecnologias da inteligência e design digital. Em longo ensaio, ela recordou a “fluência verbal invejável, sua bela voz dava vazão à inextricável mistura de um intelecto iluminado, incomparavelmente agudo, desconcertantemente inovador, com um humor poético por vezes escancaradamente corrosivo, a léguas de distância da hipocrisia das modas atuais do politicamente correto”. Lucia Santaella destacou que sua grandeza poética não se expressou apenas na poesia concreta; Pignatari foi também grande poeta pré-concreto e pós-concreto: “Para ele, a poesia não precisa dar explicações para existir. Entre as mais sutis e finas flores do potencial humano para a criação, poesia é desafio, rebeldia, guerrilha. Além de risco, poesia é desprendimento, solidão, liberdade. É o supremo gozo do inútil; o mais alto preço espiritual que a psique humana pede e paga para a sobrevivência e perpetuação do seu lado mais sensível, aberto, ambíguo, incerto e enigmático”, escreveu ela, num longo ensaio para Estado de S. Paulo. De publicitário a cronista de futebol, de organizador de happenings e performance a professor universitário, Décio Pignatari sobressaía tanto pela inteligência quanto pela irreverência. Sua obra poética está reunida em Poesia Pois é Poesia, de 1977. Em prosa, publicou um volume de contos, O Rosto da Memória, em 1988, e um romance, Panteros, em 1992. A obra para o teatro, Céu de Lona, saiu em volume único em 2004. Entre as traduções literárias, destacam-se as que fez de Dante, Goethe e Shakespeare. Como teórico da comunicação, deixou obras importantes. Um dos destaques é a tradução dos textos de Marshall McLuhan. Entre seus escritos, há contribuições importantes em fases variadas, de Informação, Linguagem e Comunicação, de 1968, a Errâncias, de 1999. Nos últimos anos, dedicou-se à literatura infanto-juvenil: lançou Bili com Limão Verde na Mão, em 2010. O poeta sofria do mal de Alzheimer, estava com a saúde debilitada. Morreu em decorrência de pneumonia aspirativa e insuficiência respiratória, informou a assessoria de imprensa do Hospital Universitário da Usp. Ele foi enterrado no dia 3 de dezembro no Cemitério do Morumbi. Deixou a mulher, Lilla, e três filhos. E um legado que ainda se levará muito tempo para se dimensionar sua real importância.

cobertas científicas ameaçarem estabelecer paradoxos irreversíveis. O maior sucesso da dupla é o romance Stalker (1972), sobre exploradores ilegais que entram em regiões proibidas do território russo com o intuito de resgatar artefatos abandonados por alienígenas e vendê-los no mercado-negro. A história inspirou um longa-metragem com o mesmo nome, dirigido pelo respeitado cineasta Andrey Tarkovsky, em 1979. Além de Stalker, diversos outros romances dos irmãos Strugatsky foram adaptados para o cinema, entre os quais Days of Eclipse, de Alexander Sukorov, (baseado em Certamente, Talvez), The Inhabited Island, de Feodor Bondarchuk (baseado em Prisioneiros do Poder) e Hard to Be a God, de Peter Fleishmann (baseado em Que Difícil é Ser Deus). Após a morte de Arkady, em 1991, Boris publicou mais dois romances assinados como S. Vititsky: Busca da Predestinação ou o 27º Teorema da Ética, em 1994, e Os Incapazes Deste Mundo, de 2003. Boris Strugatsky morreu em São Petersburgo, aos 79 anos, de causa incerta, provavelmente de problemas cardíacos, dos quais o escritor já sofria há algum tempo. Desaparece, assim, o último grande nome da ficção científica soviética, sem que os brasileiros tenham conhecido essa importante parcela da bibliografia do gênero.

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Jornal da ABI 385  

No último número de 2012, o Jornal da ABI faz uma grande homenagem ao arquitedo do Brasil, Oscar Niemeyer. Também publica a segunda parte da...

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