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“Talvez o pecado do atual Governo no Brasil seja disfarçar mal”, diz o repórter e comentarista econômico de O Globo e da GloboNews. Páginas 16, 17, 18, 19, 20 e 21

L. PASCHOAL/AGÊNCIA O GLOBO

GEORGE VIDOR “Em qualquer país, o partido no poder se aparelha do Estado”

Órgão oficial da Associação Brasileira de Imprensa

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Jornal da ABI

AGOSTO 2009

A IMPRENSA FEMININA, O

ATAULFO ALVES, TODA

OS NOVOS LANCES DA LUTA

FILÉ MIGNON DO MERCADO

A CADÊNCIA EM LIVRO

EM DEFESA DO DIPLOMA

SOB A FORMA DE REVISTAS, FEITAS COM CAPRICHO, ELA DOMINA O SETOR EDITORIAL. PÁGINAS 3, 4, 5, 6 E 7

BIOGRAFIA ESCRITA POR SÉRGIO CABRAL MOSTRA A GRANDEZA DO SAMBISTA. PÁGINAS 41, 42 E 43

UNIVERSITÁRIOS ENGAJAM-SE NO MOVIMENTO DE REVISÃO DA DECISÃO DO STF. PÁGINAS 14 E 15


Editorial

UM ANÁTEMA SOBRE A JUSTIÇA É INACREDITÁVEL QUE SOB o Estado Democrático de Direito instituído pela Constituição de 1988 um órgão de comunicação seja submetido a censura e, pior ainda, esta se estenda por um mês inteiro, como ocorre com o jornal O Estado de S. Paulo, submetido a uma sanção inconstitucional nas barbas de autoridades dos três Poderes da República. Se houvesse respeito ao texto da Lei Maior e ao regime político dela derivado, essa medida teria sido revogada de imediato, ainda que sem a celeridade como aquela, suspeita, que marcou a tramitação da petição judicial que ensejou a decisão inconstitucional. Esta foi urdida em horas por um magistrado, o Desembargador Dácio Vieira, que deveria ter-se declarado impedido de atuar no feito, dadas as suas notórias ligações pessoais com a família do postulante do benefício censório. A PRORROGAÇÃO DA CENSURA ao Estadão é imposta pela estranha leniência com que tramitam os recursos e embargos formulados pelo patrono do Estadão, o experiente advogado Manuel Alceu Affonso Ferreira, os quais são rejeitados de plano ou submetidos a exigências de um rito processual que não foi observado na tramitação da petição que o gerou. Estamos diante de uma encenação, em que seus protagonistas cumprem à risca o papel que nos bastidores lhes foi destinado para empurrar para as calendas a decisão que restabeleça a liberdade de informação assegurada pela Constituição. EMBORA A MAGISTRATURA, por apreço à sua independência, não tenha de se render ou se deixar influenciar pela repercussão alcança-

Jornal da ABI Número 344 - Agosto de 2009

Editores: Maurício Azêdo e Francisco Ucha Projeto gráfico, diagramação e editoração eletrônica: Francisco Ucha Edição de textos: Maurício Azêdo, Marcos Stefano e Paulo Chico Fotos: Acervo Biblioteca da ABI (Biblioteca Bastos Tigre), Agência Brasil, Agência Câmara, Agência O Globo, Folha Dirigida, Folhapress. Apoio à produção editorial: Alice Barbosa Diniz, Conceição Ferreira, Diogo Collor Jobim da Silveira, Fernando Luiz Baptista Martins, Guilherme Povill Vianna, Maria Ilka Azêdo, Mário Luiz de Freitas Borges. Publicidade e Marketing: Francisco Paula Freitas (Coordenador), Queli Cristina Delgado da Silva, Paulo Roberto de Paula Freitas. Diretor Responsável: Maurício Azêdo Associação Brasileira de Imprensa Rua Araújo Porto Alegre, 71 Rio de Janeiro, RJ - Cep 20.030-012 Telefone (21) 2240-8669/2282-1292 e-mail: abi.presidencia@abi.org.br Impressão: Taiga Gráfica Editora Ltda. Avenida Dr. Alberto Jackson Byington, 1.808 - Osasco, SP

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Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

da pelos feitos que é chamada a decidir, os atores do Poder Judiciário não podem colocar-se numa espécie de olimpo, indiferentes à significação que possam ter as decisões que deles se reclamam, sobretudo quando está em jogo e vulnerada a integridade do regime democrático que a Constituição modelou. Não podem também permanecer passivos diante das ponderações surgidas no seio da sociedade no País e no exterior e do próprio Poder Judiciário, como as feitas pelo Presidente do Supremo Tribunal Federal, o qual, depois de manifestações reticentes a respeito, admitiu que um processo dessa envergadura deveria ser decidido logo.

DESTAQUES DESTA EDIÇÃO 03

Mercado - Imprensa, substantivo feminino

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Homenagem - A Escola Superior de Guerra confere Medalha de Mérito à ABI

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Reação - Os meios jornalísticos e acadêmicos reagem à negação do diploma pelo Supremo

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Depoimento - George Vidor

DIRETORIA – MANDATO 2007/2010 Presidente: Maurício Azêdo Vice-Presidente: Tarcísio Holanda Diretor Administrativo: Estanislau Alves de Oliveira Diretor Econômico-Financeiro: Domingos Meirelles Diretor de Cultura e Lazer: Jesus Chediak Diretor de Assistência Social: Paulo Jerônimo de Sousa (Pajê) Diretor de Jornalismo: Benício Medeiros CONSELHO CONSULTIVO 2007-2010 Chico Caruso, Ferreira Gullar, José Aparecido de Oliveira (in memoriam), Miro Teixeira, Teixeira Heizer, Ziraldo e Zuenir Ventura. CONSELHO FISCAL 2009-2010 Geraldo Pereira dos Santos, Presidente, Adail José de Paula, Adriano Barbosa do Nascimento, Jorge Saldanha de Araújo, Luiz Carlos de Oliveira Chesther, Manolo Epelbaum e Romildo Guerrante. MESA DO CONSELHO DELIBERATIVO 2009-2010 Presidente: Pery Cotta 1º Secretário: Lênin Novaes de Araújo 2º Secretário: Zilmar Borges Basílio Conselheiros efetivos 2009-2012 Adolfo Martins, Afonso Faria, Aziz Ahmed, Cecília Costa, Domingos Meirelles, Fernando Segismundo, Glória Suely Álvarez Campos, Jorge Miranda Jordão, José Ângelo da Silva Fernandes, Lênin Novaes de Araújo, Luís Erlanger, Márcia Guimarães, Nacif Elias Hidd Sobrinho, Pery de Araújo Cotta e Wilson Fadul Filho. Conselheiros efetivos 2008-2011 Alberto Dines, Antônio Carlos Austregesylo de Athayde, Arthur José Poerner, Carlos Arthur Pitombeira, Dácio Malta, Ely Moreira, Fernando Barbosa Lima (in memoriam), Leda Acquarone, Maurício Azêdo, Mílton Coelho da Graça, Pinheiro Júnior, Ricardo Kotscho, Rodolfo Konder, Tarcísio Holanda e Villas-Bôas Corrêa. Conselheiros efetivos 2007-2010 Artur da Távola (in memoriam), Carlos Rodrigues, Estanislau Alves de Oliveira, Fernando Foch, Flávio Tavares, Fritz Utzeri, Jesus Chediak, José Gomes Talarico,

Goeldi - Um poeta das sombras e da luz

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Acervo - Uma nova vitrine para as artes

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Biog rafia - Na cadência de Ataulfo Biografia

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F otog rafia - Para curtir Cartier-Bresson otografia

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Televisão - Há 40 anos, o jornal dos brasileiros

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História - Canudos e Contestado: nossas duas guerras santas ○

ARTIGO 08 Uma lei dispensável, por Maurício Azêdo ○

SEÇÕES CEU NA AB BI 10 A C O N T EEC Chico Xavier revive na pele de Nélson Xavier ○

Publicidade também para a mídia alternativa ○

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L I B E RRD D A D E D E IM P R E N SA NS O direito de resposta tem aplicação imediata, sustenta Zveiter ○

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Lentidão da Justiça prorroga mordaça no Estadão

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Agravou-se o desrespeito à liberdade de expressão, diz relatório de Comissão da ABI

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D I R E I TTO O S HU M A N O S Revivendo com emoção a luta de 1979 pela anistia

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MEN SA GEN S NS AG NS Uma carta de Ivo Herzog

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ENQUANTO PERDURAR ESSA VIOLÊNCIA, vernos-emos diante daquela imagem utilizada por José Américo de Almeida ao condenar a cassação do mandato do Senador Luís Carlos Prestes, seu colega de representação, em 1948: a censura ao Estadão é um anátema sobre o Poder Judiciário.

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A RESPONSABILIDADE DA EDIFICAÇÃO e aperfeiçoamento de um sistema democrático entre nós cabe ao conjunto da sociedade e aos órgãos e entes públicos e particulares que a compõem e representam – os três Poderes da República, as instituições da sociedade civil, as pessoas comuns do povo. O Poder Judiciário não pode escusar-se de cumprir a sua missão nessa obra coletiva: a de zelar pela indenidade da Constituição e protegê-la contra as agressões que sofre, incluídas, e principalmente, aquelas partidas de seus membros, como esta que mantém o Estadão sob uma rolha totalitária.

V I DA S Cronkite, o inventor do telejornal da noite ○

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A imprensa perde Mayrink e um dos seus textos mais brilhantes

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Pinheiro Júnior dá um adeus emocionado a dois companheiros

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Bob Nélson, um pioneiro da publicidade

José Rezende Neto, Marcelo Tognozzi, Mário Augusto Jakobskind, Orpheu Santos Salles, Paulo Jerônimo de Sousa (Pajê), Sérgio Cabral e Terezinha Santos. Conselheiros suplentes 2009-2012 Antônio Calegari, Antônio Henrique Lago, Argemiro Lopes do Nascimento (Miro Lopes), Arnaldo César Ricci Jacob, Ernesto Vianna, Hildeberto Lopes Aleluia, Jordan Amora, Jorge Nunes de Freitas, Lima de Amorim, Luiz Carlos Bittencourt, Marcus Antônio Mendes de Miranda, Mário Jorge Guimarães, Múcio Aguiar Neto, Raimundo Coelho Neto e Rogério Marques Gomes. Conselheiros suplentes 2008-2011 Alcyr Cavalcânti, Edgar Catoira, Francisco Paula Freitas, Francisco Pedro do Coutto, Itamar Guerreiro, Jarbas Domingos Vaz, José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Ponce de Leon, Ruy Bello, Salete Lisboa, Sidney Rezende,Sílvia Moretzsohn, Sílvio Paixão e Wilson S. J. de Magalhães. Conselheiros suplentes 2007-2010 Adalberto Diniz, Aluízio Maranhão, Ancelmo Góes, André Moreau Louzeiro, Arcírio Gouvêa Neto, Benício Medeiros, Germando de Oliveira Gonçalves, Ilma Martins da Silva, José Silvestre Gorgulho, Luarlindo Ernesto, Luiz Sérgio Caldieri, Marceu Vieira, Maurílio Cândido Ferreira, Yacy Nunes e Zilmar Borges Basílio. COMISSÃO DE SINDICÂNCIA Jarbas Domingos Vaz, Presidente, Carlos Di Paola, José Carlos Machado, Luiz Sérgio Caldieri, Marcus Antônio Mendes de Miranda, Maria Ignez Duque Estrada Bastos e Toni Marins. COMISSÃO DE ÉTICA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Alberto Dines, Arthur José Poerner, Cícero Sandroni, Ivan Alves Filho e Paulo Totti. COMISSÃO DE LIBERDADE DE IMPRENSA E DIREITOS HUMANOS Orpheu Santos Salles, Presidente; Arcírio Gouvêa Neto, Daniel de Castro, Germando de Oliveira Gonçalves, Gilberto Magalhães, Lucy Mary Carneiro, Maria Cecília Ribas Carneiro, Mário Augusto Jakobskind, Martha Arruda de Paiva, Wilson de Carvalho e Yacy Nunes. COMISSÃO DIRETORA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL Paulo Jerônimo de Sousa, Presidente, Ilma Martins da Silva, Jorge Nunes de Freitas, José Rezende Neto, Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli e Moacyr Lacerda.


 MERCADO

RITA BRAGA

Publicações voltadas para as mulheres se tornaram o filão jornalístico mais importante do Brasil nos últimos anos. Historicamente, essas revistas sempre estiveram com elas a cada conquista. Mas existe mulher de verdade nessas páginas?

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POR MARCOS STEFANO

os últimos dois séculos, elas foram as protagonistas da maior revolução de costumes de que se tem notícia. Primeiro, lutaram pelo direito de estudar e chegaram à faculdade, ainda no final do século XIX. Na década de 30, passaram a votar. Com a Segunda Guerra Mundial, puderam trabalhar. E, a partir dos anos 60, depois de protestos e queima de sutiãs, exigiram direitos iguais, inclusive em relação ao amor e ao respeito. Se ainda falta muita coisa, para chegar nesse ponto, muitas pagaram altos preços, sofrendo violências, sendo caluniadas e difamadas. Venceram até o pensamento científico, que foi contra elas ao afirmar a pretensa su-

perioridade masculina. Ainda assim, pelo que dizem às recorrentes pesquisas de comportamento, também gostam de estar sempre atraentes, adoram as gentilezas varonis e muitas ainda querem fazer de tudo para se tornar boas mães e esposas. Como nos tempos da vovó. Entender esse multifacetado universo não é simples, que o digam os boquiabertos homens. Justamente por isso, desde que passaram a lutar por todas essas conquistas, as mulheres também apostaram na comunicação para fazer seus anseios conhecidos. Hoje, a imprensa brasileira é um substantivo feminino e as publicações voltadas para elas se tornaram o mercado editorial mais importante do País. Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

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MERCADO IMPRENSA, SUBSTANTIVO FEMININO

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Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

trar mulher que sabia ler era uma raridade. Por volta de 1870, dos milhões de brasileiras, apenas 14% estavam alfabetizadas e às donzelas estava reservado o papel de administradoras do lar. Entre pratos e agulhas, sair de casa, só para ir às missas e olhe lá. Mais, defendia a sociedade patriarcal, seria perigoso. Assim, não é de surpreender que a primeira publicação feminina do Brasil, o carioca Espelho Diamantino – Periodico de Política, Literattura, Bellas Artes, Theatro e Modas Dedicado as Senhoras Brasileiras, de 1827, tenha sido lançada por um homem, Pierre Plancher. No editorial do primeiro número, ele logo soltava que “manter as mulheres em um estado de estupidez”, “pouco acima dos animais domésticos”, era “uma empresa tão injusta como prejudicial ao bem da humanidade”. Desde o começo e ao longo do tempo, os avanços na imprensa feminina acompanharam as transformações na sociedade. Coincidência ou não, no ano em que surgia a imprensa feminina no País também era aprovada a primeira lei de instrução pública que estendia às garotas o direito à alfabetização. Escravidão no lar Tons mais feministas, em textos escritos também por mulheres, só seriam encontrados a partir de 1852, com o lançamento do Jornal das Senhoras, comandado por aquela que talvez tenha sido a primeira mulher jornalista do Brasil, Cândida do Carmo Souza Menezes. Por “cooperar com todas as forças para o melhoramento social e para a emancipação moral da mulher”, como a publicação mesmo dizia, sofreu grande represália masculina sob a forma de cartas indignadas que chegavam à Redação. A professora argentina Joana Paula Manso de Noronha topou a briga e apenas deixou de identificar as autoras dos textos mais polêmicos. Mas as revistas da época não eram homogêneas. Enquanto algumas como Bello-Sexo, de 1862, traziam uma linha mais instrutiva sobre a família, até com pre-

ceitos religiosos, outras como o semanário O Sexo Feminino, de 1873, trataram de acender de vez a fogueira da defesa dos direitos da mulher. Neste, a também professora Francisca Senhorinha da Mota Diniz chegou a escrever: “Queremos a nossa emancipação, reaver direitos perdidos. Queremos educação e instrução para conhecermos nossos direitos e os negócios do casal. Enfim, queremos ser companheiras dos nossos maridos, e não escravas, Nem continuar a viver enganadas.” Ainda mais aguerrida era Josephina de Azevedo, irmã do poeta Álvares de Azevedo. Em 1889, ela lançou a revista A Família e, tanto no Rio quanto em São Paulo, incentivava a participação da mulher na política, tratando a leitora como “eleitora”. Militante abolicionista e republicana, ela percorria as principais cidades do País, defendia o divórcio, um século antes de se tornar direito, além de outras causas feministas. Por onde passava, recebia apoio de outras publicações do gênero. De certo mesmo, naqueles tempos, apenas a temática geral dessas publicações pioneiras. Seguindo a influência francesa e devido à necessidade das mulheres se adornarem para as grandes festas, as revistas começaram a abrir cada vez mais espaço para a moda. Outro pólo era a literatura. Em meio a ingênuas histórias de amor, grandes escritores como Raymundo Corrêa, Olavo Bilac e Machado de Assis publicaram algumas de suas obras. No caso de Machado, sua colaboração era constante. Entre outros, ele escreveu para O Espelho, que circulou entre 1859 e 1860, O Jornal das Famílias (1863-1878) e A Estação (1879-1904). Neste último, saiu em forma de folhetim seu romance Quincas Borba. Apesar de voltados para o “belo sexo”, todos esses periódicos tinham

Para Dulcília Buitoni, autora do livro Mulher de Papel, a imprensa feminina sempre trouxe ideologias claras com um jornalismo que não é informativo, mas diversional, opinativo e de serviço.

muitos homens assinando artigos. Usando pseudônimos, claro. Aos poucos, as senhoras foram tomando conta do corpo redacional. Nos veículos menores, logo tornaram-se maioria. A Borboleta, de 1904, publicado em Teresina, foi o primeiro noticioso do Piauí a ter corpo redacional inteiramente feminino. Já nas grandes publicações o fenômeno de homens assinando com nome de mulheres ainda persistiria por várias décadas até se esvair em um ou outro caso, nos quais tal subterfúgio era tratado como algo “sofisticado”.

MARCOS STEFANO

A temática feminina tomou conta de todos os tipos de mídia. É destaque em todos os veículos de informação, inclusive na televisão. Mas a verdade é que a imprensa feminina elegeu a revista como seu veículo por excelência. Talvez porque os jornais já tenham nascido voltados para o homem, enquanto revistas trabalham com qualidades que interessam diretamente à mulher: ilustração, cor, jogo, prazer, uma linguagem mais pessoal, muita variedade. Levantamento do Mídia Dados, anuário produzido pelo Grupo de Mídia, de São Paulo, revela que já são 83 títulos femininos periódicos, comercializados em bancas e por assinaturas, no Brasil. Sem contar com outras centenas de revistas segmentadas sobre moda, artesanato, celebridades, dieta, culinária, decoração, saúde, romance, televisão e outras coleções e edições especiais, que têm na mulher seu principal consumidor. Cada vez mais visuais, as revistas femininas não apenas espelham o universo da mulher, mas transmitem idéias, modas, costumes. Em suas páginas há visões de mundo capazes de modificar até mesmo as não leitoras: – À primeira vista, receitas de culinária, conselhos de beleza, contos de amor e depoimentos de experiências são neutros. Mas a imprensa feminina sempre trouxe no seu bojo ideologias claras, mais que a imprensa dedicada ao público em geral. Seu jornalismo não é o informativo, mas o diversional, opinativo e de serviço. Trabalhando historicamente com o coração em três grandes áreas: moda, beleza e culinária. Ao longo do tempo temas como comportamento, saúde e educação foram incorporados, mas ainda não se comparam aos outros. – analisa a jornalista e pesquisadora da Universidade de São Pauloe da Faculdade Cásper Líbero Dulcília Schroeder Buitoni. Especialista na história e na linguagem da imprensa feminina brasileira, ela é autora de Imprensa Feminina (Editora Ática) e do recém-relançado e atualizado Mulher de Papel (Summus Editorial), leitura obrigatória para quem deseja entender a representação da mulher na imprensa feminina. As revistas femininas já existem desde 1693, quando o periódico Lady´s Mercury foi lançando na Inglaterra. Quando chegaram por aqui, apenas no século XIX, encontraram um obstáculo difícil de ser transposto: o Brasil era uma nação assustadoramente masculina do ponto de vista cultural e encon-



Revolucionárias, mas nem tanto A maior profissionalização do jornalismo no século XX não teria como efeitos apenas o fim de publicações efêmeras, a diminuição dos títulos em circulação, a dependência da publicidade e o advento de notícias e reportagens em detrimento da opinião. Também seria responsável por diversos veículos femininos terem adotado um tom mais sóbrio e, em muitos casos, mais tradicionalista e conservador. Tendência que se observa até hoje, com uma ou outra exceção. Isso fica muito claro quando se analisa o tom empregado pelas revistas femininas nas primeiras décadas do século passado. De acordo com a jornalista Dulcília Buitoni, nas quatro primeiras décadas a mulher recebeu adjetivos como “o oásis no deserto”, “a mãe que sofreu com a guerra” e “a sacerdotisa da beleza”. Nesse período, revistas como A Cigarra e Frou-Frou tornam-se populares, mas o grande destaque é a Revista Feminina, fundada em São Paulo no ano de 1914, inicialmente como um folheto de divulgação de produtos como comésticos, romances e culinária. Depois, com vida própria, alcança tiragens que superam os 20 mil exemplares, premiando leitoras que trouxessem novos assinantes com fotos na revista e o título de “embaixatriz” da publicação em suas cidades. Trazia seções de moda, saúde, beleza e culinária sob títulos como O Menu do Meu Marido, além de crônicas e poemas. As mulheres podiam trocar confidências, discutir suas crises e tirar dúvidas em um tipo de consultório sentimental. “Meu noivo é um rapaz honesto, mas não o amo. Caso ou não?”, era uma das típicas questões debatidas. A Revista Feminina defendia o voto feminino e divulgava notícias dos movimentos de mulheres mundo afora, mas respeitava o papel que a sociedade dava ao sexo feminino. Protestos mais agressivos, como os feitos pelas suffragettes na Inglaterra, e questões explosivas eram sempre condenados. A mulher na imprensa feminina da época tinha dois papéis: de boa mãe e esposa. Ficava nisso. Uma das novidades dos anos 40 e 50 foi a ênfase dada ao cinema e o modelo em que se transformaram os artistas do rádio e dos filmes. Mas o ponto mais importante veio com a modernização do País, a partir do pós-guerra e da política desenvolvimentista. A




Capricho, Claudia e Nova atestaram a evolução da imprensa feminina através das décadas, onde a publicidade teve destacado papel de ousadia nos anos 70. Na revista Nova de agosto (abaixo), sensualidade numa das pautas mais freqüentes.

mulher começou a trabalhar fora, tornou-se mais independente e houve um boom de novas revistas direcionadas a ela. Uma das pioneiras foi Capricho, lançada em 1952, com suas inovadoras fotonovelas e histórias que começavam e terminavam na mesma edição. Outra foi Manequim, 1959, com moldes de vestidos para serem usados nos escritórios e repartições públicas. Em 1962, surge Claudia, a revista com nome de mulher e uma autêntica “filha” para o empresário Victor Civita, da Editora Abril. Seguindo uma tendência já consolidada na Europa, o objetivo da publicação é ajudar a mulher de classe média urbana a encontrar sua nova identidade. A aposta é feita em filões já tradicionais da imprensa feminina: moda e casa. Deu mais espaço às mulheres de vários lugares do País e chegou a montar uma cozinha para testar as receitas que divulgava. Mas algumas de suas matérias já mostravam a mudança dos tempos e falavam sobre pílulas anticoncepcionais e a liberação sexual. Um de seus pontos mais altos foi a chegada da psicóloga e jornalista gaúcha Carmen da Silva. Em sua coluna A Arte de Ser Mulher, ela trazia de forma corajosa temas pun-

gentes para o universo feminino como sexo, infidelidade, aborto, casamento, estética, machismo e feminismo. Num autêntico diálogo, versava sobre “O hábito de engolir sapo para manter marido a qualquer preço”, advertia: “Cuidado! O machismo vestiu pele de cordeiro”, e aconselhava: “Só muda quem está viva”. Era um autêntico tratamento de beleza que a mulher não estava acostumada a receber na imprensa e que mostrava a realidade da “pequena rainha triste”, expressão oriunda de um de seus textos.

te-americana Vogue e as francesas Elle e Marie Claire, entre outras. Outro fenômeno, este surgido a partir de meados de 1980, é a publicação de revistas voltadas para as adolescentes. Enquanto a mulher deve seguir certos padrões de beleza para fazer sucesso, a adolescente vive seu dia-a-dia nas páginas da revista. Geralmente, ao lado de seus ídolos. O sucesso dessas publicações e a estabilização da moeda têm outra conseqüência. Nos anos 90 são lançadas revistas mais populares como TiTiTi, Ana Maria e Viva!Mais, que venderam milhões de exemplares mensalmente. Atualmente, veículos desse tipo dão maior atenção a novelas, fofocas sobre celebridades e dicas que vão do sexo ao horóscopo. E continuam vendendo muito bem. “Mais que quaisquer outras publicações, as femininas contribuíram ao ensinar aos jornalistas a tarefa mais comezinha de ouvir o público a que se dirigem. Foram elas que começaram com a linha direta do leitor e com as pesquisas de mercado. Também com elas o fazer jornalístico mudou nas últimas décadas. Desenvolveu-se um novo modo de clicar fotos na rua, de produzi-las nos estúdios – criados, aliás, para alimentar as reportagens de moda, beleza e culinária –, e passou a existir uma maior integração entre texto e arte, com mais riqueza na apresentação das matérias”, escrevem os jornalistas Humberto Werneck, Leonel Kaz, Ricardo Setti e Carlos Maranhão no livro A Revista no Brasil, publicado pela Editora Abril. Dulcília Buitoni concorda com a importância de diversos veículos femininos na longa trajetória de luta da mulher no Brasil, mas ainda traz um questionamento bastante pertinente: é possível encontrar mulheres de verdade nas páginas de várias dessas revistas? Diz ela: – Muitas das revistas que surgiram nesses últimos anos e ainda continuam em circulação inovaram, cada qual a seu

modo. Quando surgiram, foram instrumento de inclusão social, estimularam a reflexão e o empreendedorismo. Isso não somente no veículo impresso, mas também na televisão, com atrações como o TV Mulher. Porém, pegue algumas revistas e tente se achar ali. Não o que você idealiza ser, mas quem você é. Não vai encontrar. Claro, há também bons exemplos e reportagens em todos os veículos que fogem disso. Mas no geral o que você vai encontrar é a mulher branca, sorridente, esbelta... uma modelo. De papel. A receita do sucesso é padronizada e desde a década de 90 gira em torno da cirurgia plástica, do silicone, de futilidades. O fato é que a imprensa feminina informa pouco, mas forma demais. Sempre seguindo uma linha consumista, bastante ligada à publicidade. Diante da força desse mercado, discutir o papel e a missão da imprensa feminina é fundamental. Especialmente se o propósito é continuar seguindo a trajetória de conquistas que marcou as mulheres nos últimos 200 anos. Ouvidas pelo Jornal da ABI, elas, que fazem diariamente o gênero, apontaram esse caminho para ser seguido. – Cada revista tem seu mérito. Especialmente na hora de tratar de tabus, como a sexualidade, sem descambar para o erotismo, mas entrando no campo das emoções, da fertilidade e da informação. Hoje, há muitos títulos, mas cada um precisa se aprofundar no caminho que escolheu – diz a jornalista Joyce Moysés, Redatora-Chefe de Nova. – A imprensa feminina precisa tanto espelhar quanto influenciar o universo de suas leitoras. É um caminho de mão dupla. Creio que a imprensa feminina vem melhorando. Ao procurar trazer mais reportagens e matérias com informações de todo tipo, conseguimos escapar da padronização – ressalta Carla Gullo, Redatora-Chefe da Marie Claire. – Em tempos de mulher melancia, filé ou melão, o grande desafio é reconhecer a pessoa como ela é. Mulher tem cheiro, hálito, pêlos, chulé. Isso é feio? É normal e ótimo, pois a felicidade não está na prateleira da farmácia. A imprensa feminina precisa reconhecer isso, sair da mesmice e parar de orbitar ao redor do homem. – completa Fernanda Leão Bavaresco, Diretora de Redação da TPM.

A mulher fora do papel Se nos anos 60 há uma profusão de temas mais ligados à realidade brasileira, isso começa a mudar a partir da década de 70. A mulher passa a ser enxergada como a garota livre, disposta a desafiar um pouco mais seus limites e passar um dia de chuva com o amado ou fazer uma viagem romântica ao lado dele. Essa aceleração na mudança dos costumes cria espaço para novas publicações e cria uma nova tendência: o surgimento de versões nacionais de títulos de sucesso no exterior. Desembarcam no País desde então a Nova, inspirada na norteamericana Cosmopolitan, a também norJornal da ABI 344 Agosto de 2009

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 DIVULGAÇÃO

Capricho trata as jovens leitoras com respeito, sem subestimá-las ou infantilizá-las. Somos uma amiga mais sabida, diz a Redatora-Chefe Tatiana Schibuola sobre a revista.

 Cinqüentona com jeito teen

Capricho é o maior exemplo de que adolescência não tem idade. Já próxima dos 60 anos de circulação, a publicação continua apostando no visual moderno, muita cor, textos dinâmicos e um papo descontraído para atrair seu público: meninas dos 13 aos 17 anos. Nem sempre foi assim, é bem verdade. Quando foi criada por Victor Civita, em 1952, Capricho era uma revista de fotonovelas. Inspiradas nos folhetins do século XIX, essas tramas cheias de romance, aventura e melodrama, quase sempre com final feliz, eram uma febre mundial. Os leitores, ansiosos pelo “próximo capítulo”, corriam às bancas. A diferença é que Capricho trazia uma única fotonovela, publicada na íntegra numa só edição. O sucesso foi tamanho, que logo a revista já era a mais popular do País. Em 1956, suas tiragens alcançaram os 500 mil exemplares, uma façanha na época. Com o tempo, a publicação ainda seria ampliada e ganharia diversidade,

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com matérias e artigos sobre moda, beleza, comportamento, contos e variedades, além das fotonovelas. Assim foi até 1982, quando houve a primeira transformação: mudou formato, logotipo e conteúdo. De “revista da moça moderna” passou a ser a “revista da gatinha”. Foi uma das primeiras a ser dirigida para o público jovem e adolescente. Outras mudanças viriam, na tentativa de focar melhor o público-alvo, até chegar às adolescentes de classes A, B e C, formato e visual diferenciados. – Poucos veículos sabem falar com o jovem, especialmente nesse segmento. Há muito jargão, tentativa de imitar a internet na publicação impressa, como se isso fosse moderno, e falta de entendimento da linguagem da moçada. Capricho trata as jovens com respeito, sem subestimá-las ou infantilizá-las. Somos uma irmã mais velha ou amiga mais sabida, mais experiente, mas ainda assim, com o posicionamento de uma garota – diz Tatiana Nóbrega Schibuola, de 34 anos, Redatora-Chefe da revista. Bastante experiente na imprensa feminina, Tatiana entende do assunto. Além de Capricho e outras revistas de informação, já escreveu para Boa Forma, Elle, Claudia e Marie Claire. Também participou da criação de Gloss, a revista da Abril para meninas um pouco mais velhas do que aquelas que sua atual revista busca atingir. Com uma equipe de 22 profissionais na Redação e dez no site, tem um enorme desafio: estabelecer comunicação com uma geração que não gosta muito de parar e ouvir. Para vencer barreiras, a revista trabalha com entretenimento, moda, beleza e comportamento. As pautas são elaboradas a partir das conversas com os jornalistas que trabalham no veículo, mas também com sugestões de leitoras e da Galera Capricho, um grupo de garotas que representam o público da revista e que mantêm contato direto

com a Redação. Os textos são curtos, cheios de boxes e retrancas. Na capa, a foto de uma celebridade teen, seguida por uma entrevista pingue-pongue nas páginas internas. – Ter a voz do ídolo em uma entrevista é o máximo para o adolescente. Os temas que tratamos são em si polêmicos. Além da gravidez na adolescência ou da violação de um vídeo íntimo na internet que traz muito constrangimento, relatamos experiências de outras garotas, depoimentos e opiniões de especialistas. Tudo muito objetivo, pois sabemos que somos a porta de entrada desse pessoal para o mundo da imprensa – completa Tatiana. Mesmo pisando em ovos para falar de coisas delicadas e, às vezes, provocando – tornou-se célebre uma edição da revista que trazia na capa uma juvenil Luana Piovani segurando uma camisinha, com a chamada: “Tem que usar!” –, Capricho faz sucesso. Seu site alcança a impressionante marca de 57 milhões de pageviews por mês e estima-se que a revista impressa, com seus mais de 200 mil exemplares quinzenais, seja lida por quase 2 milhões de meninas. Em suma, um grande negócio, que ainda conta com a venda de 8 milhões de produtos licenciados por ano, entre cadernos, material escolar, fragrâncias, maquiagem e underwear, o único evento regular do gênero no País, o NoCapricho, e agora um programa em parceria com o canal pago Boomerang, o Temporada de Moda Capricho. Coisa de gente grande.

 Aposta na intimidade

Independente, sedutora, informada e sofisticada. Quando desembarcou no Brasil, ainda nos anos 1970, Nova chegou dizendo que era para essa mulher que tinha vindo. A princípio, causou arrepios nos mais conservadores e deixou desconfiadas algumas possíveis leitoras: a revista é tudo isso? Passadas quase quatro décadas, a fórmula não mudou e ela caiu no gosto das brasileiras. Versão nacional da Cosmopolitan, revista editada em mais de 50 países e a mais lida do mundo dentre as femininas, Nova é essencialmente uma publicação sobre amor e sexo. Na capa, ao lado de alguma personalidade quase de corpo inteiro, traz chamadas provocantes: “O melhor sexo da vida”, “Lista com posições, brinquedinhos e idéias infalíveis para chegar ao orgasmo”, “Hot”, “Top Secret”. – É uma estratégia de abordagem, já que temos uma identidade bastante forte e clara. Mas nada é erótico. Falamos sobre relacionamentos, sentimentos, emoções femininas. Como amigas em uma conversa mais íntima. Tanto

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MERCADO IMPRENSA, SUBSTANTIVO FEMININO

Mônica Serino comanda uma equipe de 25 profissionais na revista Marie Claire, que quebrou o tabu de que publicação feminina não podia conter temas tidos como fortes, pesados.

é que, segundo pesquisas, o local em que as mulheres mais lêem a revista é no quarto, lugar de privacidade – conta a jornalista Joyce Moysés, 36 anos, Redatora-Chefe de Nova. A equipe da revista conta com 20 profissionais, dos quais 15 são mulheres. Esse grupo tem à disposição, todo mês, o material internacional produzido pela Cosmopolitan. Mas isso serve mais como inspiração ou para complementar o que é feito por aqui: – O sentimento é universal, fotos também podem ser de qualquer lugar, assim como linguagem e assuntos. Mas nossas pautas são dirigidas para o público nacional. Tanto que, na elaboração da revista, contamos com uma intensa colaboração das leitoras. Levamos muito em conta nossas particularidades, o Brasil é mais sensual, o sexo aqui é mais quente que em outros lugares e as fontes que ouvimos, principalmente em matérias sobre saúde,


 também são daqui. É bem verdade que a edição norte-americana tem pontos muito positivos, como números e pesquisas sobre comportamento, muito difíceis de serem feitas em nosso País. Mas sem adaptar e fazer uma versão caseira, ela não daria certo – complementa Joyce. Diferentemente de outras revistas, como Claudia, com suas pautas mais amplas e que atingem vários perfis de mulheres, Nova é bem focada no público que quer atingir: uma mulher jovem, ambiciosa, que busca realização e gosta de beleza. Até por isso, o visual é elegante, misturando muitas fotos com textos leves, apenas um pouco mais longos quando há depoimentos, e receitas, dicas, orientações. Para estabelecer contato mais estreito com as leitoras, o site tem sido uma ferramenta importante. Buscando não ser apenas uma extensão do impresso, atualmente investe em conteúdo exclusivo e na comunicação. Tudo para formar uma autêntica rede social. Mesmo depois de tanto tempo, o objetivo de Nova não mudou. Ainda é influenciar e quebrar tabus.

 Entre a moda e a reportagem

mento, personalidades, crimes, dramas pessoais e familiares. A prioridade é para assuntos “quentes”, mas há uma regra básica: todos os depoimentos devem ser reais. A versão brasileira segue o padrão internacional, ainda que tenha liberdade para fazer seu próprio conteúdo. E realmente usa o material que vem de fora, especialmente para falar sobre tendências, produtos e lugares badalados para viajar e passear. Diferente do que é feito nas reportagens maiores, relatos, textos sobre saúde e sexo: – Não é nossa linha dar receitas. Para nada, especialmente amor e sexo. Não acreditamos em manuais ou regras. Preferimos contar histórias verídicas para que a leitora tire dali sua informação, seu conhecimento e sua identificação – garante Carla. Uma das seções mais procuradas de Marie Claire é justamente a Eu, Leitora. Nela, mulheres contam as mais impressionantes histórias pelas quais passaram. É o caso daquela que, em forte depressão, resolveu se jogar do 15º andar de um prédio. Ou da filha

 Para fugir à regra

O que é uma mulher bonita? Se seus padrões de beleza são guiados simplesmente pela necessidade de ter corpo de modelo, tirar as imperfeições com uma cirurgia plástica, perder peso com as mais inventivas dietas ou turbinar os seios com silicone, você ainda não leu a TPM. Aos oito anos, a revista criada pelos editores Fernando Luna e Paulo Lima para ser a versão feminina da Trip é considerada uma publicação que foge à regra na imprensa feminina, tanto em cara quanto em conteúdo. As reportagens da revista beiram a ousadia e costumam ser bem críticas com aquilo que chama de “indústria da necessidade e do consumo”, ou seja, os padrões que as mulheres precisariam buscar para ser bonitas e realizadas. Com muito bom humor e irreverência, a revista é capaz de fazer um pôster de uma boneca mutilada para falar sobre os riscos da cirurgia plástica. É a “Barbie Monster”. Ou tratar da morte da modelo Ana Carolina Reston, em junho de 2006, com uma discussão que comparou o Índice de Massa Corporal das modelos com o das refugiadas somalianas famintas. Aproveitando o fenômeno das mulheres-fruta, como a Melancia e a Melão, a publicação debateu o machismo na sociedade brasileira e o que leva essas mulheres a gostar de tais títulos. É o tipo de matéria que mostra o fim de feira a que muita gente chegou, mas que explicita um lado bem real do universo feminino, mas que poucos ousam comentar. – A TPM é uma revista que, como outras, trata de temas como beleza, moda, decoração. Mas cujo padrão não é uma mulher esquelética. Primamos pelo ecletismo e podemos fazer tanto um perfil de Lily Marinho, a viMarie Claire derrubou o mito de que no Brasil revista úva de Roberto Marinho, feminina não podia tratar de assuntos considerados como podemos mostrar, sem mais pesados, diz sua Redatora-Chefe, Carla Gullo. preconceitos, como vivem as

mulheres da Assembléia de Deus dos Últimos Dias, que pregam nos morros e prisões cariocas. Porém, o que não fazemos mesmo é pasteurizar a mulherada e embarcar na mesmice – explica Renata Leão Bavaresco, Diretora de Redação da revista. Justamente por causa dessa filosofia, Renata, de 31 anos, já passou pelas mais diversas situações na hora de fazer a revista. Uma delas aconteceu em uma entrevista com o dramaturgo e diretor teatral Gerald Thomas: – Insisti muito para falar com ele. Queria perguntar sobre sua obra, sobre o teatro, subversão de conceitos... Finalmente, ele aceitou. Mas impôs uma condição: se esse era o tema do qual trataríamos, ele daria a entrevista pelado. Tive que aceitar a condição. Foi uma esquisitice. Olhava para ele, para a porta e me perguntava: “O que estou fazendo aqui”. Mas tudo aconteceu numa boa. Outra matéria marcante, essa produzida pela repórter especial Nina Lemos, tratava da obsessão pela limpeza do próprio corpo que algumas mulheres têm. No texto, Nina criti-

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“Chique é ser inteligente”. Foi com este provocativo slogan que a versão brasileira da francesa Marie Claire, uma das revistas femininas mais famosas no mundo, foi lançada pela Editora Globo em 1991. No Brasil, em pouco tempo, ela logo conquistou as mulheres entre 20 e 35 anos, das classes A e B, que formam a maior parte de seus leitores. Sua aposta é simples e direta: conciliar dicas e orientações sobre moda, maquiagem e beleza com reportagens – até históricas e sociais – e relatos de experiências sobre questões polêmicas e delicadas. – Antigamente havia no Brasil um pensamento de que revista feminina não podia tratar de assuntos considerados mais pesados. Provamos com nossas reportagens que isso não é verdade. Daí nosso slogan e filosofia de trabalho, que vêm de encontro ao que a publicação é hoje e aquilo que a mulher anseia, ser bonita, mas também inteligente – explica a Redatora-Chefe de Marie Claire, a jornalista Carla Gullo, 49 anos. Carla trabalhou na semanal Istoé e foi editora de Saúde e Comportamento. Também passou por Boa Forma, Saúde, UMA e os jornais O Globo e Zero Hora. Na Marie Claire, faz parte de uma equipe de 25 profissionais divididos entre Redação, arte e internet. Tudo sob o comando da jornalista Mônica de Albuquerque Lins Serino, Diretora de Redação. São eles que abordam moda, beleza, saúde, viagem, sexo relaciona-

que ajudou a própria mãe a fugir com o amor da vida dela. Se essas histórias são mais chamativas, outras chocam mesmo. Recentemente, a revista publicou o depoimento de uma brasileira radicada nos Estados Unidos que contava ter três filhas do próprio pai por conta dos abusos que sofria. Outros relatos já funcionam mais como inspiração. Exemplo do périplo vivido e descrito por uma mulher que recorreu a um banco de sêmen para engravidar aos 53 anos.

ca os exageros da indústria de cosméticos e até da imprensa feminina que dá receita de que boa noite de amor ou um dia perfeito no trabalho só acontecerão se a pessoa estiver muito bem lavada, depilada e sem qualquer cheiro, mesmo os odores naturais do corpo. Na Redação, a reportagem passou a ser carinhosamente chamada de “nojinho”. – Algumas vezes, até nós mesmos temos nossos conceitos confrontados. Mas isso é ótimo, pois a TPM é para mulheres insatisfeitas com tudo que vêem por aí e estão cansadas de imperativos do tipo: “Faça isso!”, “Faça aquilo!”. Há um ou dois meses, fizeram um levantamento e descobriram que as revistas femininas mandaram usar num mês 678 novos produtos de beleza. A mulher precisa ser mais bem resolvida. Nossas mães já queimaram os sutiãs. Para sermos felizes, não precisamos nem de uma coisa, nem de outra. Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

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OPINIÃO

MARIA

Uma lei dispensável A pedido da Folha de S. Paulo, o Presidente da ABI expôs em artigo a sua oposição à idéia de instituição de uma nova lei de imprensa, que ele considera desnecessária. POR MAURÍCIO AZÊDO

A

o suspender, em 1 de abril passado, a sessão em que era julgada a Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental da Constituição ajuizada pelo Deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) para a derrubada da Lei de Imprensa (Lei nº 5.250, de 9 de fevereiro de 1967), o Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Gilmar Mendes, desencadeou uma discussão que se estende até agora, passados mais de três meses da revogação desse texto legal, decidida pelo Supremo no dia 30 daquele mês. Antecipando o voto que depois proferiria, o Ministro Gilmar manifestou então sua preocupação com o que chamou de vácuo que se abriria caso fosse acolhido, como afinal ocorreu, o voto do relator, Ministro Carlos Ayres Britto, favorável à postulação do Deputado Miro Teixeira. Gilmar mencionou como lançado nesse vácuo o direito de resposta, que, disse, poderia ser concedido pelo Poder Judiciário através de decisões monocráticas que não se harmonizassem, dada a diversidade de seus autores. A manifestação do Presidente do Supremo fez prosperar a idéia de que será necessária a instituição de uma nova Lei de Imprensa, despida de disposições inconstitucionais, como aquelas que justificaram a revogação total de Lei nº 5.250/67. Esse entendimento foi expresso com grande ênfase pelos principais jornais diários do País, entre os quais esta Folha de S. Paulo. Um dos defensores de tal proposição, O Estado de S. Paulo, chegou a publicar um editorial com um título que não deixa dúvida quanto ao seu engajamento no es8

Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

forço de certa parte da chamada mídia para alcançar esse objetivo: Por uma nova Lei de Imprensa. No voto acolhido integralmente por seis de seus colegas do Supremo, o Ministro Carlos Ayres Britto destacou que a Constituição concede plenitude à liberdade de imprensa, o que impede que seu exercício possa ser condicionado ou restringido por qualquer texto infraconstitucional —, isto é, pela lei ordinária, pela lei comum. No entender de Ayres Britto, a lei pode regular aspectos determinados da atividade de informação, mas não pode fazê-lo com a abrangência que tinha a lei agora revogada. É esta também a opinião do autor da Arguição nº 130 de 2009, Deputado Miro Teixeira, segundo o qual a lei preconizada só poderia ter por fim o estabelecimento de restrições àquilo a que a Constituição confere plenitude. O principal dos cavalos de batalha da discussão desatada pelo Ministro Gilmar Mendes é a questão do direito de resposta por ele mencionada, o qual exigiria uma regulação que o Estadão, por exemplo, chega a escalonar em etapas que iriam do pedido de explicações de quem se sentisse ou sentir ofendido à retratação e à retificacão espontânea por parte de quem emite ou promove a ofensa. A ABI tem o entendimento de que na verdade a disciplina legal proposta não asseguraria o exercício do direito de resposta, mas sua contrafação, seu esbulho. O direito de resposta favoreceria a sociedade ou os veículos de informação? O direito de resposta estaria cir-

cunscrito à área de comunicação ou alcançaria os variados campos da vida social, já que a ofensa passível de reparação pode ser praticada não apenas pela imprensa? A esse respeito é útil conhecer o pensamento exposto por um especialista na matéria, o Juiz de Direito Luiz Gustavo Grandinetti Castanho de Carvalho, em seminário promovido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro por iniciativa de seu Presidente, Desembargador Luiz Zveiter, e pela Escola da Magistratura do Estado. Salientou Grandinetti que, como está inscrito numa norma constitucional, o direito de resposta tem aplicação imediata, não depende de regulação por lei. Seu arrimo estaria no Código Civil, nas disposições relacionadas com a obrigação de fazer; no Código de Processo Civil, no concernente à concessão da tutela antecipada, e no Código de Defesa do Consumidor, nos dispositivos pertinentes a propaganda e contrapropaganda. Reflexões como as desse magistrado do Estado do Rio podem induzir à conclusão de que, em nome do direito de resposta, setores interessados em desconhecê-lo ou limitá-lo estão a pregar a edição de uma lei – uma nova 5.250/67 – que tem a aparência de algo dispensável, além de colidente com o texto constitucional. A Folha publicou esse texto com a seguinte anotação: OSCAR MAURÍCIO DE LIMA AZÊDO, 74, jornalista, é Presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Foi editor-chefe do “Jornal dos Esportes”, chefe de reportagem do jornal “O Estado de S. Paulo” no Rio de Janeiro, diretor de Redação da revista “Fatos & Fotos” e editor-chefe da revista “Placar”.


HOMENAGEM

A Escola Superior de Guerra confere Medalha de Mérito à ABI A Casa é incluída no Quadro Especial da honraria. Em cerimônia sob a presidência conjunta do Ministro da Defesa Nélson Jobim e do Comandante da Escola Superior de Guerra, Tenente-Brigadeiro-doAr Carlos Alberto Pires Rolla, e com a presença de inúmeros membros do

Conselho Deliberativo da Casa, a Esg conferiu à ABI no dia 20 de agosto a Medalha do Mérito Marechal Osvaldo Cordeiro de Farias, em reconhecimento pelos serviços prestados pela imprensa à instituição.

A ABI foi incluída no Quadro Especial da Medalha ao lado de cinco corporações militares nacionais e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo-Fiesp. As corporações militares agraciadas foram a Escola Naval, a Academia Militar das Agulhas NegrasAman, a Academia da Força Aérea, o Centro Técnico Aeroespacial e o Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo. Além dos Diretores Maurício Azêdo, Presidente, Estanislau Alves de Oliveira, Diretor Administrativo, e Jesus Chediak, Diretor de Cultura e Lazer, compareceram à cerimônia os Conselheiros da ABI Alcyr Cavalcanti, Francisco Paula Freitas, Ilma Martins

FOTOS ALCYR CAVALCANTI

Presença da ABI na cerimônia na Esg: a partir da esquerda, Rogério Marques, Leda Acquarone, Ilma Martins da Silva, Maurício Azêdo, Estanislau Alves de Oliveira e Mário Augusto Jakobskind.

da Silva, Leda Acquarone, Luiz Sérgio Caldieri, Mário Augusto Jakobskind e Rogério Marques Gomes. Entre os agraciados pela Esg e incluídos no Quadro Ordinário da Medalha figuraram vários jornalistas, entre os quais Arnaldo Niskier, membro da Academia Brasileira de Letras; Oliveiros S. Ferreira, ex-Diretor de Redação de O Estado de S. Paulo e atualmente professor da Universidade de São Paulo; José Amaral Argolo, ex-Diretor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e atualmente professor da Esg; Alexandre Garcia, repórter e âncora de programas da Rede Globo de Televisão. Entre os civis homenageados pela Escola encontravam-se os Deputados Raul Jungman, Arolde de Oliveira e Marcelo Itagiba; o Professor Carlos Lessa, ex-Reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ex-Presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social-BNDES; o Professor Eurico Lima Figueiredo, da Universidade Federal Fluminense, e o Secretário de Segurança do Estado do Rio, José Mariano Beltrame. Com o diploma de Amigo da Esg foram agraciados o músico Turíbio Santos, Diretor do Museu Vila-Lobos; o jornalista e escritor Ricardo Cravo Albin, Diretor do Instituto Cultural Cravo Albin; o Diretor da Organização Odebrecht Roberto Dias; o Grupo Poesia Simplesmente, o Jornal do Brasil, a Folha de Londrina e O Adesguiano, órgão da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra-Adesg.

APELO

LEGISLAÇÃO

Modecon quer marcar bem o Dia da Amazônia

A ABI apóia limite de 75 anos no serviço público

Há urgência de defendê-la, diz Maria Augusta Tibiriçá, que participou da campanha O petróleo é nosso, nos anos 40 e 50. Em mensagem firmada pela sua Presidente, Maria Augusta Tibiriçá Miranda, que participu da campanha O petróleo é nosso nos anos 40 e 50 depois relatou em livro o quie foi esse movimento cívico, e pelo Coordenador do Movimento Nacional em Defesa da Amazônia, Ricardo Maranhão, o Movimento em Defesa da Economia Nacional-Modecon pediu aos órgãos governamentais, às entidades estudantis e sindicais e às instituições da sociedade civil que promovam comemorações do Dia da Amazônia, que transcorre no dia 5 de setembro, por força de lei federal. “A finalidade é promover, nessa data, atos que movimentarão nacionalmente o tema Amazônia e a urgência de defendê-la, garantindo a soberania e unidade nacionais”, diz a conclamação de Maria Augusta Tibiriçá e Ricardo

Maranhão, que reproduzem o texto da lei que instituiu o Dia da Amazônia, assim redigida: Lei nº 11.621, de 19 de dezembro de 2007 Institui o Dia da Amazônia. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art. 1º Fica instituído o Dia da Amazônia, a ser comemorado anualmente, em todo o território nacional, no dia 5 de setembro. Art. 2º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. Brasília, 19 de dezembro de 2007; 186ª da Independência e 119ª da República. (a) Luiz Inácio Lula da Silva (a) Marina Silva.”

A ABI enviou mensagem ao Presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, manifestando o seu apoio à Proposta de Emenda Constitucional nº 457, que eleva para 75 anos o limite de idade para permanência no serviço público, conforme apelo dirigido à Casa pela Associação Nacional dos Desembargadores. A intervenção da ABI foi pedida pelos Desembargadores Luiz Eduardo Rabello, do Rio de Janeiro, e Amaral e Silva, de Santa Catarina, que foram recebidos no dia 20 de agosto, em Brasília, por Michel Temer. Foi esta a mensagem que a ABI encaminhou ao Presidente da Câmara: “Ilustre Presidente Deputado Michel Temer, A Associação Brasileira de Imprensa faz votos de que seja fecunda a audiência que Vossa Excelência concederá nesta quinta-feira aos diretores da Associação Nacional dos Desembargadores, Juízes Luiz Eduardo Rabello e

Amaral e Silva, que lhe vão expor a conveniência para o interesse público da Proposta de Emenda Constitucional nº 457, que eleva para 75 anos o limite de idade de permanência no serviço público. Essa medida permitirá que a magistratura, o ensino superior e outros segmentos da administração do País continuem a contar com a experiência de profissionais que têm dado sobejas provas de dedicação à coisa pública e de eficiência no desempenho de seus encargos funcionais. Peço-lhe a gentileza de dar ciência desta manifestação ao Plenário dessa Augusta Casa de Leis, a fim de que os Senhores Deputados sejam informados da repercussão que essa Proposta está a alcançar em outras comunidades profissionais, entre as quais a dos jornalistas. Cordialmente (a) Maurício Azêdo, Presidente da Associação Brasileira de Imprensa-ABI.” Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

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Aconteceu na ABI FILMAGEM

FOTOS IQUE ESTEVES/DIVULGAÇÃO

Chico Xavier revive na pele de Nélson Xavier Tomadas de cenas do novo longa de Daniel Filho, feitas na ABI, impressionam pela capacidade do ator de reproduzir os gestos e o modo de falar do famoso medium e, também, com sua interpretação, de estabelecer semelhança física com o personagem. POR BERNARDO COSTA E PAULO CHICO

Morto em 30 de junho de 2002 na cidade mineira de Uberaba, o principal e mais popular medium brasileiro prepara-se para voltar à cena. E, ao contrário do que podem crer os adeptos do kardecismo, tal fato não ocorrerá numa sessão espírita, mas sim numa sessão de cinema. Está marcado para 2 de abril de 2010 o lançamento oficial do filme sobre Chico Xavier, que, exatamente nessa data, estaria completando um século de vida. Grande produção, sob a direção de Daniel Filho, que esteve à frente de sucessos recentes como Se Eu Fosse Você 1 e 2, a obra se propõe a desvendar a trajetória e o mito criado em torno de Francisco de Paula Cândido, seu nome de batismo. O papel título caberá a três atores diferentes, encarnando Chico Xavier em distintas fases de sua vida. A infância caberá a Matheus Costa. A vida adulta será representada por Ângelo Antônio. Na terceira idade, o personagem ganha alma no corpo de Nélson Xavier que, além da curiosa coincidência do sobrenome em comum, traz consigo impressionante semelhança física com o destacado divulgador do espiritismo no Brasil. Ainda no elenco, nomes como Tony Ramos, Cássia Kiss, Letícia Sabatella, Giulia Gam, Paulo Goulart, Christiane Torloni, Cássio Gabus Mendes, Anselmo Vasconcellos, Giovana Antonelli e Luís Melo. Em um longo e emocionado depoimento para o making of do filme, Nélson Xavier falou de sua relação com Chico Xavier. Contou sobre quando o autor de As Vidas de Chico Xavier, livro que serviu de base para o filme, lhe enviou um exemplar da obra com um bilhete, em que expressava o desejo de que o ator encarnasse o personagem. “Encontrei o Daniel Filho e disse que, se ele fosse realmente rodar este filme, eu me ofereceria para ser o Chico, cujo trabalho me arrebatou profundamente e mudou minha maneira de ver o mundo. Foi um caminho sem volta. E o que mais me parece significativo é que ele encarnou realmente o tal do `amai-vos uns aos outros como a vós mesmos`. Pra mim ele é um santo, pois viveu o amor ao próximo por toda a vida, que é a coisa mais difícil do mundo”, declarou o ator.

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O ator Nélson Xavier impressionou a todos pela incrível semelhança com Chico Xavier. Ao lado, o Auditório Oscar Guanabarino recebe os últimos ajustes para as filmagens que reviveram o programa PingaFogo, da TV Tupi. Abaixo, o jornalista Marcel Souto Maior, biógrafo do medium, e o diretor Daniel Filho.

É do jornalista Marcel Souto Maior a autoria da biografia As Vidas de Chico Xavier, que deu origem ao filme, assim como a de duas outras obras dedicadas ao medium – Por Trás do Véu de Ísis e As Lições de Chico Xavier. Ele teve a oportunidade de acompanhar algumas das gravações, como as realizadas na ABI. “Fiquei impressionado com as cenas que já vi. É uma saga, mas acima de tudo tem o tom de um thriller, que mostra um Chico rodeado de desconfiança e descrença por todos os lados”, diz Marcel, que, por ter lido todos os tratamentos do roteiro, já tinha uma idéia de que esta seria a visão impressa na tela. “Mesmo assim, fiquei deslumbrado. Eu sempre o vi como esse homem na contramão do mundo. Um Chico acuado em muitos momentos, mas que enfrenta a descrença e vai até o fim. O filme não é doutrinário, o que é uma bela visão. O roteiro é ótimo, interpretado por atores incríveis e filmado lindamente. Tenho certeza de que vai agradar a quem tem fé, a quem não tem fé, a quem quer ter fé…”, acredita o jornalista e escritor. O longa, produzido pela Lereby, foi rodado no Rio de Janeiro, na histórica Tiradentes, e em Paulínia, interior de São Paulo. As gravações foram encerradas em 22 de agosto, em Uberaba, com grande mobilização da população da cidade que acolheu Chico Xavier. Para contar detalhes da produção e os bastidores, a produ-

ção lançou um blog oficial (www.chicoxavierofilme. com.br/blog) que é atualizado pela jornalista Patrícia Paladino, com supervisão de Olivia Byington e fotos de Ique Esteves. O edifício-sede da ABI foi utilizado como set de filmagem entre 1º e 16 de agosto. O primeiro set foi ambientado no 7º andar, onde estão localizadas as salas da Presidência, a redação do ABI Online e o setor


Secretaria da Igualdade apóia as homenagens a Mano Décio da Viola Tudo o que se fizer será pouco em relação ao que ele representa para a cultura nacional, diz na ABI o Ministro Edson Santos. POR C LAUDIA S OUZA

Acompanhados pelo diretor Daniel Filho, os três atores que interpretam Chico Xavier: Ângelo Antônio, o garoto Matheus Costa e Nélson Xavier.

administrativo. Neste ambiente foi recriada a Redação da revista O Cruzeiro, que no dia 12 de agosto de 1944 publicou entrevista com Chico, assinada por David Nasser e Jean Manzon, interpretados pelos atores Charles Fricks e Jean Pierre Noher. Segundo Marcel Souto, a intenção dos jornalistas era desmoralizar o medium, que psicografou mais de 40 livros, além de milhares de mensagens de mortos dirigidas a amigos e parentes. Para os repórteres, no entanto, tratava-se de um charlatão: “Foi uma reportagem bastante irônica e tendenciosa. Eles deram nomes falsos e disseram que eram estrangeiros, para evitar resistência por parte do entrevistado. A entrevista foi realizada em Uberaba, onde morava o medium. Ao final, Chico Xavier deu um exemplar autografado de um livro para cada um deles. Quando David Nasser chegou ao Rio leu a dedicatória: “À David Nasser, com um abraço do Emmanuel”, que era o guia espiritual do Chico. Este fato não foi mencionado na reportagem, mas, mesmo assim, ela foi escrita para prejudicá-lo. Ao ler a matéria, ele chorou muito, e foi consolado por Emmanuel, que disse: ‘Jesus Cristo foi crucificado na cruz e você apenas em O Cruzeiro’. No final da vida, Nasser admitiu ter sido este episódio razão de um de seus maiores arrependimentos profissionais”, recorda Marcel. O segundo set foi rodado no 9º andar da ABI, que abriga o Auditório Oscar Guanabarino, transformado no auditório do programa Pinga-Fogo, da TV Tupi, onde, em 1971, Chico Xavier foi entrevistado pelos jornalistas Saulo Guimarães, Letícia de Almeida, Menezes de Assis, João Leonardo e Daniel Albuquerque, interpretados pelos atores Paulo Goulart, Gláucia Rodrigues, Thelmo Fernandes, Daniel Jaimovich, Luis Serra, respectivamente. “Este foi o dia de maior audiência do programa, que tinha duração de 60 minutos, mas ficou no ar ao longo de quase três horas. Depois desta entrevista, ele se tornou conhecido nacionalmente, e não apenas por mineiros, cariocas e paulistas”, explicou o jornalista, que também é diretor do programa Profissão Repórter, da TV Globo. Apesar de toda a experiência à frente e por trás das câmeras de tv e cinema, Daniel Filho afirmou que dirigir Chico Xavier - O Filme é uma responsabilidade muito grande. “Esse tema envolve a fé de milhões de brasileiros. O espiritismo é seguido por muita gente, e Chico Xavier é o homem mais conceituado na religião no Brasil. Pra você ter uma idéia, foi realizada uma pesquisa em Minas para saber quem era o mineiro mais importante do País. Em primeiro lugar ficou Chico Xavier, seguido por Pelé e Juscelino Kubitschek”, contou o diretor.

A Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, órgão vinculado à Presidência da República, vai apoiar os eventos em comemoração ao centenário de nascimento de Mano Décio da Viola, organizados pela ABI, Instituto Cravo Albin e Grêmio Recreativo Escola de Samba Império, com apoio da empresa Capemisa Vida e Previdência. O apoio foi anunciado no dia 31 de julho, na ABI, em encontro que reuniu o Ministro Edson Santos, o Presidente da Casa, Maurício Azêdo, o associado Lênin Novaes, Primeiro Secretário da Mesa do Conselho Delibertivo da ABI e um dos organizadores do projeto, o cantor e compositor Jorginho do Império, filho de Mano Décio da Viola, e o músico, compositor e arranjador Mauro Diniz. As homenagens a um dos maiores nomes da música popular brasileira tiveram início no dia 14 de julho, com evento organizado por professores e alunos da Escola Municipal Mano Décio da Viola, em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio. No dia 18, foi realizada uma feijoada na quadra da Escola de Samba Império Serrano. No dia 20, um debate sobre a trajetória de Mano Décio reuniu no edifício-sede da ABI os pesquisadores Sérgio Cabral, Ricardo Cravo Albin, Rachel Valença e Haroldo Costa, com mediação do Presidente da ABI. Na ocasião, artistas e personalidades da cultura foram agraciados com o Troféu Mano Décio da Viola. O encontro foi encerrado com um show de Jorginho do Império. Um ano de samba

– Pedimos apoio ao Ministro Edson Santos para a realização dos outros eventos programados, como o Festival de Música Brasileira, a gravação de um cd duplo com as composições e sambas-enredo de autoria de Mano Décio da Viola, a realização de um grande show com diversos artistas, sob o comando de Jorginho do Império, no dia 18 de outubro, dia da morte de Mano Décio da Viola, além de apresentações mensais de cantores da mpb, ao lado de Jorginho do Im-

Walter Firmo agora é um dos nossos Como sua ficha antiga desapareceu, ele requereu nova filiação, que o Conselho aprovou O jornalista Walter Firmo, um dos mais destacados repórteres-fotográficos da imprensa brasileira e mundial, ingressou finalmente no quadro social da ABI, à qual ele se vinculara há muitos anos, mas sua ficha não foi encontrada no cadastro de sócios da Casa. Firmo, que é sócio do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro desde maio de 1967, há 42 anos portanto, decidiu preen-

pério, na sede da ABI, até junho de 2010, quando está previsto o encerramento das homenagens – explicou Lênin Novaes. Para a produção do cd Jorginho do Império convidou Mauro Diniz, parceiro de longa data: – Eu e Mauro Diniz trabalhamos juntos pela primeira vez há 14 anos, em 1995, quando ele produziu pela primeira vez um disco meu, intitulado Cidadão Samba. Ele atuou como produtor, arranjador e músico. Só não o deixei cantar para não perder a vez (risos). Considero este um dos melhores trabalhos da minha carreira. Mauro Diniz destacou na reunião a relevância do resgate da trajetória de Mano Décio da Viola na música popular brasileira: – Eu e Jorginho do Império temos afinidades na música e também em nossa história, pois somos filhos de grandes compositores, ele de Mano Décio da Viola e eu de Monarco. Nossa empatia sempre foi muito grande. Estou feliz em participar desta homenagem a Mano Décio da Viola, que era uma enciclopédia da mpb. Costumo lembrar do velho ditado “vão-se os anéis, ficam os dedos”, quando lembro de Mano Décio. Ele partiu, mas sua obra ficou perpetuada, imortal. É preciso ouvir Mano Décio para entender o seu papel ontem, hoje e sempre na música popular brasileira. “O que se fizer será pouco”

O Ministro Edson Santos aplaudiu a iniciativa e assumiu o compromisso de apoiar o projeto através da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial: – Vamos nos integrar às homenagens nas atividades propostas, entendendo que, independentemente da magnitude do evento, será sempre pouco em relação ao que Mano Décio representa para a cultura nacional. A estratégia de apoio inclui a nossa atuação como facilitadores na obtenção de recursos de empresas públicas. Vou designar um funcionário da Secretaria, vinculado à área de cultura, para uma reunião sobre a execução do projeto.

cher nova proposta de filiação depois que na eleição realizada pela Casa em abril de 2006 não pôde exercer o direito de voto, porque os serviços burocráticos da ABI não localizaram a sua ficha de sócio. A proposta de Firmo foi aprovada pelo Conselho Deliberativo da ABI em sua reunião de agosto, realizada no dia 27, juntamente com as dos jornalistas Robson Carlos de Paiva, de Uberaba, Minas, Thiago Jorge Lemos de Souza, do Rio, Vilson Antônio Romero, de Porto Alegre, e Leni Machado da Silva, do Rio, admitidos como sócios efetivos. Com base no parecer da Comissão de Sindicância, o Conselho aprovou a transferência do associado Luiz Carlos de Menezes da categoria de Colaborador para a de Efetivo e a admissão dos jornalistas Osmar Pereira, de Magé, RJ, Pa-

trícia Andrade, de Belo Horizonte, Pedro de Mello Souza, do Rio, e Ricardo Lara Campos, de Belo Horizonte, na categoria Colaborador. Participaram da reunião da Comissão de Sindicância seu Presidente, Jarbas Domingos Vaz, sua Secretária, Maria Ignez Duque Estrada Bastos, e os associados Antônio M. Lopes Filho (Toni Marins), Carlos Di Paola e Luiz Sérgio Caldieri. Firmo, cujo nome completo é Walter Firmo Guimarães da Silva, assinou a proposta de filiação em 16 de fevereiro passado, mas a aprovação desta foi retardada em decorrência de equívoco em sua tramitação. No parecer que emitiu, o Presidente da Comissão de Sindicância, Jarbas Domingos Vaz, assinalou que é uma honra para à ABI incluí-lo em seu quadro social.

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Aconteceu na ABI

Foi o rádio esportivo que fez do futebol uma paixão nacional

na época. Oduvaldo Cozzi era um dos que gostavam muito disso. Como eu tinha dificuldades com o inglês, comecei a aportuguesar os termos, sendo seguido por alguns profissionais. Quando me dei conta, já tínhamos um vocabulário próprio, center-half passou a ser centro-médio, full-back passou a ser zagueiro, e assim por diante.

Luiz Mendes, decano do jornalismo esportivo, Ronaldo Helal e Álvaro Oliveira mostram como a cobertura radiofônica influiu na opinião pública. O jornalismo esportivo e sua relação com a história do rádio brasileiro foram o tema do quarto encontro do ciclo de palestras Futebol-arte: a arte do futebol, promovido pela ABI em parceria com o Grupo de Literatura e Memória do Futebol-MemoFut, o Laboratório de História do Esporte e do Lazer da UFRJ-Sport, o canal SporTV e as editoras Livrosdefutebol.com e Apicuri. O evento, realizado na primeira terçafeira de cada mês, e que se estenderá até o fim do ano, tem por objetivo reunir jornalistas, pesquisadores e representantes da área cultural para debater o esporte a partir de ângulos distintos como o samba, a dança, as artes plásticas, a literatura e o cinema. Formaram a mesa de debates Luiz Mendes, decano do jornalismo esportivo brasileiro, Álvaro Oliveira Filho, comentarista e gerente nacional de esportes do Sistema Globo de Rádio, e Ronaldo Helal, professor da Uerj especializado nas relações entre esporte e meios de comunicação. O jornalista José Rezende, Coordenador do Centro-Histórico e Esportivo da ABI, abriu o encontro apresentando ao público fotografias de importantes nomes do rádio esportivo nacional e áudios com trechos de partidas de futebol narradas por Ari Barroso, Oduvaldo Cozzi, Gagliano Neto, Antônio Cordeiro, Jorge Cury, José Carlos Araújo, entre outros: – É um momento de saudade, pois muitos deles já se foram. Vocês terão uma idéia de como eram as locuções antigas em comparação com as de hoje e os diferentes estilos de narração das escolas paulista e carioca. Os paulistas aplicavam o estilo “metralhadora”, e os cariocas eram mais descritivos. – Às vezes as preliminares são melhores do que a partida principal — comentou Luiz Mendes ao chegar no evento, provocando risos na platéia, que saudou de pé efusivamente a entrada do “comentarista da palavra fácil”. Álvaro de Oliveira Filho, mediador do encontro, iniciou o debate ressaltando a facilidade do rádio em criar mitos em função da ausência do recurso da imagem:

REPRODUÇÃO

POR BERNARDO COSTA

Os momentos mais trágicos do nosso futebol: o ponta-direita Gigghia faz dois gols no goleiro Barbosa e dá ao Uruguai o título de campeão no Maracanã superlotado.

– As pessoas em casa ouvem as mesmas palavras durante a transmissão dos jogos, mas cada um imagina uma cena diferente. O poder do rádio

Para Ronaldo Helal, a mitologia do futebol não existiria sem o rádio. O veículo, disse, foi responsável pela transformação do esporte em paixão nacional e pelo surgimento do patriotismo entre os brasileiros: – Nosso País não tinha uma idéia de nação. O jornalismo esportivo, através do rádio, trouxe o sentimento de brasilidade a partir das transmissões de partidas de futebol. A época do surgimento da televisão, quando muitos acreditavam que o novo veículo provocaria a extinção do rádio, foi recordada por Helal, que observou que aconteceu o contrário, “pois foi a tv que precisou se adaptar”. – Basta ver que hoje todos estão com seus radinhos nos estádios, apesar de estarem vendo o que está acontecendo em campo. Isto porque o poder de formar a opinião pública é muito maior no rádio. Na televisão, você tem a repetição do lance e pode contestar a opinião do comentarista de arbitragem. Já no rádio, pela falta da imagem, o ouvinte confia na informação do repórter que está situado à beira do campo, afirmou Helal. “É tudo Vasco”

Luiz Mendes começou sua exposição destacando as dificuldades enfrentadas pelos pioneiros na transmissão esportiva no rádio brasileiro: – Naquela época, entre 1947 e 1955, quando narrei jogos de futebol, não havia números nas camisas dos jogadores... olha que problema. Lembro que identificávamos os atletas pela maneira como jogavam. Quando as partidas 12 Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

eram internacionais, e recebíamos a visita de times europeus, a identificação dos jogadores era uma tarefa quase impossível. Ari Barroso, por exemplo, chamava os estrangeiros pelos nomes dos jogadores do Vasco, os quais, para ele, eram sempre os adversários (risos). Mendes destacou também as carências na área técnica, como a precariedade do sinal das transmissões, fator responsável pelo surgimento da figura do comentarista no rádio brasileiro: – Antigamente ficava uma pessoa no estúdio, fora do estádio, que fazia alguns comentários sobre o jogo durante o intervalo entre o primeiro e o segundo tempo. Certa vez, Gagliano Neto foi transmitir uma partida em Buenos Aires e durante o intervalo remeteu a transmissão para o estúdio no Rio. O sinal não voltou mais e ele ficou impossibilitado de continuar a narração. No jogo seguinte, para que a mesma coisa não acontecesse, ele convidou um jornalista que fazia a cobertura no estádio para comentar o jogo da cabine durante toda a transmissão. Foi assim que o repórter Ari Lund, do Diário de Notícias de Porto Alegre, se tornou o primeiro comentarista do rádio, mas ele não seguiu na profissão. Havia casos em que transmitíamos o jogo inteiro e só no final sabíamos que ninguém tinha ouvido. Destacou ainda Mendes os problemas que os profissionais do esporte enfrentavam em relação ao vocabulário técnico: – Naquele tempo, o narrador tinha que ter um vocabulário extenso, pois não podia repetir palavras durante as transmissões. Para a palavra bola, por exemplo, eram usados como sinônimo as expressões pelota, esfera, balão de couro, redonda, perseguida. A terminologia em inglês também era muito usada

A final de 1950 Respondendo a uma pergunta da platéia sobre o que sentiu ao narrar o segundo gol do Uruguai contra o Brasil na final da Copa do Mundo de 50, Mendes disse que, apesar de surpreso, continuou narrando o jogo normalmente: – O mesmo não aconteceu com o Cozzi, que ficou perplexo. Também lembro que vi o locutor da Rádio Continental sendo carregado para o departamento médico do estádio, desmaiado. Eu narrei o gol normalmente, apenas perguntei espantado: “Gol do Uruguai? Sim, gol do Uruguai, senhores”. A predileção de alguns jogadores para dar entrevistas após as partidas para tvs, em detrimento do rádio, foi outro ponto suscitado pela platéia. Mendes considera que esse privilégio é natural, já que a televisão paga os direitos de imagem dos jogos e, com isso, financia os clubes. – Quem agüenta o repuxo é a tv. Se os clubes já vão mal com o financiamento das emissoras, sem elas todos estariam com o pires nas mãos. Contudo, concordo que isto limita um pouco o rádio. Matéria exclusiva, não

Álvaro Oliveira Filho disse que a blindagem imposta pelos assessores de imprensa e o aumento do número de jornalistas atuando na área são fatores que também contribuem para distanciar o jogador do repórter de rádio: – Hoje não cabe todo mundo dentro do vestiário para entrevistar quem quer que seja, durante o tempo que quiser. Por isso foi criada a entrevista coletiva, o que prejudica muito as reportagens, pois o jogador só fala aquelas coisas pasteurizadas, inviabilizando as matérias exclusivas. A perda de audiência para a televisão foi o assunto abordado no final do encontro. Álvaro entende que é necessário que os profissionais encontrem uma fórmula para manter os ouvintes ligados no rádio: – A tv hoje faz tudo aquilo que o rádio faz. Anteriormente, tínhamos o diferencial das entrevistas antes e depois dos jogos, a movimentação dos times, a chegada aos estádios. Mas, com as emissoras de tv a cabo, isso também passou a ser feito. Acredito que a internet seja um importante instrumento para manter o público. Hoje as nossas transmissões são recheadas pelas participações dos internautas, que se sentem parte da transmissão e são atraídos por isso. Mendes acredita que o rádio não será ameaçado: – Quando surgiu o rádio disseram que o jornal impresso ia acabar; quando surgiu a tv, postularam o fim do rádio. Mas a verdade é que todos os meios de comunicação estão aí. Há espaço para todos.


Publicidade também para a mídia alternativa Em debate no Conselho Deliberativo da ABI, o Deputado Otávio Leite defendeu a sua proposta de destinação de 10% das verbas de publicidade oficial para os jornais alternativos, regionais e de bairros.

Em longa reunião no Conselho de Deliberativo da ABI, que dedicou ao tema sua sessão de agosto, realizada no dia 31, o Deputado federal Otávio Leite (PSDB-RJ) defendeu o Projeto de Lei nº 4.961/2009, de sua autoria, que propõe que as dotações do Poder Público para anúncios e campanhas oficiais, em todos os niveis da Federação, sejam distribuídas também para os veículos das chamada imprensa alternativa e comunitária, deixando de ser um monopólio da grande imprensa. Pela proposta, observados os preceitos constitucionais e legais relativos à matéria, os órgãos públicos serão obrigados na publicidade de suas obras, anúncios, editais, programas, serviços e campanhas em geral – que sejam divulgados na mídia impressa – a “utilizar-se de jornais intitulados alternativos, de bairros ou regionais, na proporção especificada pela lei”, a partir da data em que esta entrar em vigor. Em seu artigo 2º o Projeto de Lei 4.961/ 2009 prevê que “a parcela a ser destinada à divulgação através de jornais alternativos é fixada em pelo menos 10% do total da verba de publicidade oficial de cada ente para a divulgação na imprensa escrita”. Para se candidatar ao percentual de verba pública de publicidade, os jornais alternativos interessados deverão estar devidamente credenciados junto aos órgãos que serão designados para fazer esse cadastro específico. Na justificativa do projeto, diz o Deputado Otávio Leite que teve duas motivações ao apresentá-lo. A primeira foi a preocupação em fazer a publicidade oficial ser de mais fácil acesso à população, “em geral pouco acostumada a ler os Diários Oficiais”. O segundo motivo foi a percepção da importância dos serviços prestados à população pelos jornais alternativos, de bairro ou regionais. Com isso, disse, amplia-se a transparência do destino das verbas públicas, que é um princípio básico do Estado brasileiro. Antes de sua exposição Otávio Leite foi saudado pelos associados Lênin Novaes e Pery Cotta, 1º Secretário e Presidente do Conselho Deliberativo da Casa, respectivamente. Pery Cotta disse que o Deputado apresentou um projeto de lei muito importante, com um cunho bastante democrático, por oferecer a possibilidade de crescimento dos pequenos veículos: – Eu lembro que nenhum veículo de comunicação cresce nos dias de hoje sem ter um respaldo publicitário, sem verbas que sustentem os gastos de sua elaboração e impressão – afirmou Pery Cotta.

O Deputado lembrou visitas anteriores que fez à sede da ABI. A primeira, como estudante secundarista, para um encontro com o então Presidente Barbosa Lima Sobrinho, juntamente com um grupo de estudantes, para uma entrevista que viria a ser divulgada no jornal alternativo que publicavam no colégio em que estudavam: – Eis que o tempo passou e eu aqui volto para debater com os senhores sobre essa iniciativa, na qual procurei refletir o que me parece importante para a democratização das comunicações no nosso País. Vivemos um momento histórico de um processo de mutação muito sério no que diz respeito à assimilação da informação e o cultivo à obtenção das informações. Deputado Otávio Leite: Jornais alternativos das várias Ressaltando o princípio de regiões precisam ter tiragem regular com tranqüilidade. que com cada pessoa que morre “morre um leitor de jornal” de obras públicas esteja prevista a utiou o de que quando há um nascimento lização de um veículo alternativo regi“nasce potencialmente um leitor de inonal, para divulgar o seu edital, de modo ternet”, Otávio Leite disse que esse proque a população do lugar contemplado cesso sugere uma grande reflexão, dada fique mais atenta aos desdobramentos a necessidade de contribuição para que da obra em si. Ele entende que os edia leitura nos veículos independentes se tais têm que prever as dotações orçaamplie, independentemente dos jormentárias para a obra, a natureza do nais maiores: – O que inspira essa idéia é que quanto mais descentralizada e permeada for a presença de jornais alternativos na sociedade mais a população ficará invulnerável àquela formação de opinião sub-reptícia pelos chamados grandes Como o projeto meios que fazem a cabeça das pessoas e têm suas linhas editoriais muito mais Presente à sessão, o jornalista Oscar direcionadas a interesses das classes Pires, que é Presidente do Sindicato das mais estabelecidas. Empresas de Jornais do Estado do Rio Disse o Deputado que a sua preocude Janeiro, que exclui os da capital, e pação é fazer que os jornais alternativos diretor do jornal O Debate, que circula que estão sendo editados em várias reno Município de Macaé, destacou a relevância do projeto e felicitou o giões do Brasil consigam ter uma tiragem parlamentar por propor que os jornais regular com tranqüilidade, ao contrário alternativos também tenham acesso às do que acontece atualmente, quando verbas públicas de publicidade: circulam “sempre ao sabor de muito es“É uma idéia feliz, que merece forço, muita dedicação e abnegações respaldo de toda a classe jornalística da plenas de jornalistas que estão aí”: imprensa alternativa, porque vai permitir – O objetivo, portanto, da matéria é que os pequenos jornais sobrevivam”. justamente instituir que no âmbito fePires disse que se sentia muito à deral quando dos gastos regulares em vontade para falar sobre o tema, publicidade, aqueles previstos na Consporque há 47 anos atua em jornais tituição, como as campanhas de saúde regionais, e há 33 anos é o responsável pela circulação do jornal pública, ou tributárias, ou informações O Debate e pela direção de um de interesse público, que o Poder Público parque gráfico “que nada fica a dever reserve uma parte das dotações para se aos do grande centro”. destinar a instrumentos e informes Esse trabalho, informou, vem sendo publicitários nos jornais alternativos. realizado com muito sacrifício, lutando Outro ponto que Otávio Leite coninclusive contra perseguições de caráter sidera importante é que nas licitações

EDSONSANTOS-AGÊNCIA CÂMARA

POR JOSE REINALDO MARQUES

projeto, o tempo de duração, entre outras informações do interesse público: – Não vejo por que não colocar na outra ponta a informação ao público que deverá ser o beneficiário direto do investimento público, através de um veículo de comunicação alternativo. Otávio Leite informou aos Conselheiros que o Projeto de Lei 4.691/2009 ganhou curso na Câmara dos Deputados, onde diversos parlamentares se declararam favoráveis à proposta: – Esta semana, esperamos que a Comissão de Ciência e Tecnologia e Comunicação dê o seu pronunciamento no plenário. Eu já conversei com alguns deputados e vejo a possibilidade de a matéria ser aprovada nessa Comissão. Diz o Deputado que não há inconstitucionalidade na sua proposta, que não prevê aumento da despesa pública, o que deve facilitar mais ainda a sua tramitação: – O projeto sugere a disciplina de uma despesa que pode ou não acontecer, que se faça através de um mecanismo disciplinado. Que se use a grande imprensa, mas que se reserve uma boa parte da dotação de publicidade para a imprensa alternativa, que passa a ter nisso não uma fonte de recursos amigavelmente distribuída, mas algo juridicamente estatuído dentro de uma função do Estado brasileiro, que tem a obrigação de zelar para que a comunicação se dê forma menos manipulada.

“O bolo precisa ser distribuído” é visto no interior. político, ameaças e tentativas de fechamento do jornal: – Essas coisas acontecem muito com os jornais ditos alternativos. Para nós o projeto do Deputado Otávio Leite veio em boa hora e vai trazer a esperança de ver o bolo publicitário, que vai todo para os grandes jornais, ser distribuído para os veículos pequenos. Otávio Leite foi feliz na sua iniciativa; se for feliz na sua aprovação, com certeza vai atender aos jornais pequenos e comunitários. Revelou Oscar Pires que atualmente há 400 veículos de imprensa filiados ao Sindicato, enquanto a Associação de Jornais do Interior-Adjori conta com 600 veículos associados: – Nem todos eles têm condições de pagar suas contribuições ao Sindicato ou à própria Associação. E temos certeza se fizermos um levantamento maior vamos constatar que no Estado do Rio há muitos veículos necessitando desse apoio de verbas publicitárias para circular.

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REAÇÃO

OS MEIOS JORNALÍSTICOS E ACADÊMICOS REAGEM À NEGAÇÃO DO DIPLOMA PELO SUPREMO Debates, artigos e reportagens em jornais universitários: a polêmica derrubada do diploma para o exercício do jornalismo, decidida pelo STF em junho deste ano, ainda está distante do fim.

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FRANCISCO UCHA

A controversa decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que, em 17 de junho, cassou a exigência de formação de nível superior para o exercício da profissão de jornalista ainda tem grande repercussão junto à sociedade. Como parte do ciclo de palestras Jornalistas, Escritores e a Realidade Brasileira, a Fundação Biblioteca Nacional (FBN) realizou o debate Fim do Diploma: Cassação das Esperanças, no dia 12 agosto. A ABI foi convidada a participar, por meio da presença de seu Presidente, Maurício Azêdo, que sugeriu o tema para discussão. O encontro, que integra o programa Quarta às 4, aconteceu no Auditório Machado de Assis, na sede da Fundação, no Centro do Rio, com mediação do jornalista Vitor Iório, e a presença dos jornalistas Muniz Sodré, Presidente da FBN, Milton Temer, Marcos de Castro, Manolo Epelbaum, José Rezende, Carlos Arthur Pitombeira, Benício Medeiros, Fichel Davit Chargel, Adail José de Paula e Chico Paula Freitas. Na abertura do evento, Azêdo lembrou que essa é uma questão que se arrasta há anos, desde que o Sindicato de Empresas de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo e o Ministério Público Estadual postularam a inconstitucionalidade do Decreto-Lei nº 972/69, que previa a exigência do curso de Comunicação para o exercício da profissão. O Presidente da ABI lembrou ainda a reação da categoria ao pleito, que inicialmente foi deferido pela Juíza Carla Abrantkoski Rister, da 16ª Vara Cível da Justiça Federal, 3ª Região. “Nesse momento houve uma grande movimentação das entidades de jornalistas. Até que um recurso, ajuizado pelo Sindicato de Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, conduziu à suspensão da liminar, que a juíza tinha conseguido para escancarar as portas do exercício profissional a quem tivesse ou não diploma. Houve, então, novo recurso da parte do Sindicato e do Ministério Público local, e o processo foi distribuído ao Presidente do STF, Ministro Gilmar Mendes, que desde logo deixou claro que a sua posição era contrária à exigência do diploma”, recordou. Ao frisar que o popular canudo é “apenas a representação gráfica” da conclusão do curso de Comunicação Social, Azêdo lembrou que sua exigência foi inicialmente reivindicada pela ABI, em 1918, quando a entidade pro-

Maurício: O importante não é o diploma em si, mas a formação dos jornalistas em escolas de nível superior.

moveu o I Congresso Brasileiro dos Jornalistas. “João Guedes de Melo, redator do Jornal do Commercio e um dos mais destacados diretores da ABI nos anos 10 e 20, chegou a ter o cuidado de propor uma espécie de grade curricular, na qual figuravam as matérias que deveriam fazer parte do currículo de curso superior para o exercício do jornalismo”, disse ele, que fez outra constatação curiosa. “As maiores conquistas dos jornalistas foram, paradoxalmente, conseguidas durante os anos 40, quando vigorava a ditadura Vargas, sendo, pois, incabível a alegação dos Ministros Gilmar Mendes e Celso de Melo de que o diploma foi exigido pela ditadura militar, em 1969, para restringir a liberdade de expressão. A idéia de criação do curso de Jornalismo foi objeto de regulação e de determinação no Decreto-Lei de nº 5.480, de 13 de maio de 1943. Isto é, mais de 40 anos antes do Decreto nº 972, de 1969, já se dispunha na legislação existente do País da necessidade de escolas de Comunicação. Também é importante lembrar o Decreto nº 7.037, de 10 de novembro de 1941, que estipulou o piso salarial para os jornalistas”, afirmou o Presidente da ABI, para quem a referida decisão do STF representa um retrocesso.

“Ela vai diretamente de encontro às conquistas e avanços da comunidade dos jornalistas profissionais e vem no bojo de ameaça muito maior, partida desse legislador improvisado que é o Ministro Gilmar Mendes. Assim, ele extrapola os limites de sua competência constitucional para ditar normas que considera que devem ser adotadas pela legislação e comportamentos que não tem como exigir, como pregar represálias por parte do Tribunal de Contas da União ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que tem merecido de sua parte diversas recriminações”. Dando continuidade ao debate, o jornalista Milton Temer, também Diretor Regional do Partido Socialismo e Liberdade (Psol), disse crer que o grande problema enfrentado pelos jornalistas hoje não diz respeito ao fim da exigência do diploma, mas sim à relação social do profissional com a empresa. “Não existe mais a figura do jornalista com carteira assinada. O profissional não tem vínculo com a empresa, não gerando custo social para ela. Ele não consegue cobrar da empresa aquilo que ela deve. É esta relação entre capital e trabalho que interessa às empresas. E a manutenção dessa realidade foi o que motivou a postulação, da parte do Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão de São Paulo, do fim da exigência do diploma”. Segundo Temer, a categoria saiu prejudicada ao não acompanhar, sob o ponto de vista dos direitos trabalhistas,

o avanço tecnológico na campo da informação. “Eu me lembro da greve dos jornalistas de 1979, quando eles se deitaram na frente dos caminhões da Folha de S. Paulo para impedir que a cópia da matéria fosse vendida pela empresa. Hoje, o repórter, ganhando muito menos do que os daquela época, trabalha para um conjunto de mídias sem que seja pago por isso. Os repórteres inclusive estão recebendo, em jornais que concentraram riqueza de capital, celulares apenas para fotografarem e mandarem imagens que vão para diversos segmentos da empresa: jornais, como sites, blogs, entre outros, colocando em risco a profissão de fotojornalista”. Para Muniz Sodré, o que aconteceu nas redações ao longo dos anos foi a mudança do capitalismo patrimonialista para o modelo das holdings, o que significa a criação de uma empresa para administrar outras. Tal fato, afirma ele, acabou com a representatividade social dos jornais, que em seu histórico têm grandes campanhas públicas, como as de implantação da República e pela abolição da escravidão. “Neste atual panorama, essa participação do jornal na política local deixa de existir, propiciando assim, juntamente com o enfraquecimento das instituições republicanas, a intromissão do Supremo Tribunal Federal em casos que extrapolam a sua competência, como a cassação do diploma de jornalismo para o exercício da profissão”, criticou o Presidente da FBN. Em entrevista ao Olhar Virtual, da Coordenadoria de Comunicação da UFRJ, Muniz Sodré, que também é professor da Escola de Comunicação (Eco) da mesma universidade, considerou a extinção do diploma uma vitória da lógica do mercado. “Com diploma, o jornalista tem estatuto clássico enquanto representante de opinião e dos interesses da sociedade; sem ele, haverá contratações com base na prestação de serviços. Desorganizar a profissão interessa aos grandes veículos. Significa retirar o estatuto profissional para melhor comandá-lo. É um rebaixamento na condição do jornalista”, opinou.

A Universidade defende seus direitos: Somos mais antigos do que a lei Também no ambiente das universidades, a derrubada da exigência do diploma para o exercício do jornalismo tem rendido artigos e manifestações. No Jornal da Universidade, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), edição de julho / número 119, foi publicado o artigo O STF e o Jornalismo do Século 19, de Ricardo Schneiders, Diretor da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), em parceria com Márcia Benetti, Coordenadora de Jornalismo da Fabico, que faz parte da instituição de ensino gaúcha.

No texto, eles defendem a formação em jornalismo e resgatam a importância histórica do diploma para a imprensa nacional. “O curso de jornalismo da UFRGS tem 57 anos; a regulamentação da profissão, 40 anos. Somos mais antigos do que a lei e seremos mais longevos do que a extinção da lei. Nossa cabeça está no século 21, em um jornalismo cada vez mais rápido, responsável e profissionalizado. A lamentável decisão do STF não retira o valor da universidade nem nosso compromisso com a formação qualificada de jornalistas. Não


formamos escritores nem poetas. Isso ficou lá no século 19, junto com os argumentos dos ministros do Supremo”, destaca trecho do artigo, que prossegue. “Jornais, revistas, rádios e tvs sempre tiveram colaboradores, e as mídias surgidas na internet ampliaram o espaço para a pluralidade de opiniões. O jornalismo não é o livre exercício da expressão, e sim o exercício metódico da informação de interesse público. O mais constrangedor foi o despreparo (desconhecimento) do Supremo sobre o que é o jornalismo. Nossa elite jurídica disse que jornalismo é literatura, é arte, é poesia. Não, não é. Não basta escrever bem para ser jornalista. O talento precisa ser refinado por técnicas: como apurar, como entrevistar, como se relacionar eticamente com as fontes, como traduzir temas complexos para uma linguagem clara, como reconhecer o valor da informação, como redigir, como editar e hierarquizar essas informações e, especialmente, como compreender a imensa responsabilidade dessa profissão”, afirmam os autores. Na edição de junho do Hipertexto, produzido por estudantes de jornalismo da Puc-RS, a defesa do diploma é assunto de capa, editorial e ocupa ainda três páginas com a cobertura das manifestações e entrevistas com representantes de órgãos de classe, professores, estudantes e profissionais recém-formados, em matérias assinadas por Eduardo Silveira, Joyce Copstein, Marcos Perez e Pedro Palooro. Logo no editorial, docentes da Famecos expressam repúdio à decisão do STF, também por eles classificada como retrocesso. “As universidades têm vocação não apenas para a construção do conhecimento, mas para o exercício da crítica. Este campo profissional é de tal complexidade que requer mesmo o desenvolvimento de princípios eticamente corretos, habilidades e técnicas específicas. O STF não reconheceu a dimensão pública e a importância do exercício do jornalismo”. Em sua edição da agosto, o Jornal da UFRJ, editado pela universidade de

Magistrados são a favor da exigência AMB e ABI firmam em Brasília declaração que defende o ensino superior para o exercício da profissão. Em declaração firmada em Brasília em 6 de agosto, a Associação dos Magistrados Brasileiros-AMB e a ABI manifestaram-se em defesa da conclusão do curso de Jornalismo ou Comunicação Social para o exercício da profissão de jornalista. Firmado pelos Presidentes da AMB, Mozart Valadares, e da ABI, Maurício Azêdo, o pronunciamento foi a principal conclusão do 2º Encontro Nacional de Jornalistas das Associações Filiadas à AMB, que reuniu no Salão Caxambu do hotel Kubitschek Plaza mais de três dezenas de profissionais dessas entidades, procedentes de vários Estados. Ao abrir o Encontro, pela manhã, o Presidente da AMB salientou a importância da liberdade de imprensa e da liberdade de expressão para o fortalecimento e ampliação da democracia no Pais e da contribuição que o Poder Judiciário pode oferecer com esse propósito. De seu lado, o Presidente da ABI preconizou uma colaboração mais estreita entre as instituições de magistrados e de jornalistas, para afastar incomprensões e evitar decisões como as que, poucos dias antes, impuseram censura aos jornais O Estado de S. Paulo e A Tarde, de Salvador, com grave agressão ao texto constitucional, que em seu artigo 220, parágrafo 2º, veda “toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”. Acentuando que exporia com “extrema franqueza” este entendimento, disse Maurício Azêdo que a ABI tem sustentado nos últimos anos que atualmente o maior inimigo da liberdade de imprensa no Brasil é o Poder Judiciário, dada a freqüência com que juízes de diferentes pontos do País, sobretudo na primeira instância, têm adotado decisões que impõem censura aos meios de comunicação. Esses magistrados, acrescentou, ignoram tanto o texto da Constituição como a recente História do País, pois não sabem como foi difícil e penosa a luta para restabelecer o Estado de Direito entre nós. Um show de Forni Após a abertura da sessão, o Professor João José Forni, do Centro Universitário de Brasilia-Ceub, fez uma conferência sobre o tema Gerenciamento de Crise, a qual se estendeu por mais de uma hora e meia e foi seguida, com a platéia sem arredar pé do plenário, por mais de uma hora de perguntas ao conferencista e, em diálogos com este, de relatos de casos por vários dirigentes e representantes de associações estaduais de magistrados. Gaúcho de origem, advogado e jornalista de profissão, Forni trabalhou

GERVÁSIOBAPTISTA/ABR

Com chamada de capa, o artigo publicado no Jornal da Universidade, da UFRGS, critica “a lamentável decisão do STF” e ressalta que “o mais constrangedor foi o despreparo do Supremo sobre o que é o jornalismo”.

mesmo nome, trouxe extensa matéria sobre a questão do diploma para jornalistas. Com depoimentos de diversos profissionais, como a Coordenadora do Ciclo Básico da Eco, Cristina Rego Monteiro. Embora concordando que houve clara confusão dos ministros do STF entre liberdade de expressão e exercício profissional, Cristina frisa que a nova situação segue um processo já em curso. “Nenhuma operadora perguntava a alguém se tinha diploma para abrir um site ou blog. Esses meios trazem um tipo de informação que até interessa à grande imprensa pela pulverização, porém, isto não apaga o lugar do jornalismo de qualidade como referencial de credibilidade, exigindo inclusive uma especialização cada vez maior dos seus profissionais”, afirma. Cristina ainda ironizou o voto do Presidente do STF, Ministro Gilmar Mendes. “Na verdade, tudo está se redesenhando. O lado ruim dessa crise é que muitos levaram um baque, porque dedicaram a vida a uma determinada estrutura. Agora, a realidade pode se rearranjar. Todo mundo cozinha e não precisa de diploma de chef. Entretanto, nem todo mundo come gororoba. E, certamente, existirá quem continuará a preferir as melhores comidas. Aquilo que o chef de cozinha sabe ele não vai desaprender”, acredita ela, numa aposta de que o mercado saberá, e precisará, selecionar os melhores profissionais. Isto é, os mais bem qualificados para o exercício pleno da profissão. Gilmar Mendes é criticado ainda por desconsiderar a opinião dos órgãos de classe, além da vontade popular. Pesquisa nacional de 2008, encomendada pela Federação Nacional dos Jornalistas-Fenaj, revelou que 74% dos entrevistados defendiam a manutenção do diploma para o exercício do jornalismo. “O Ministro Joaquim Barbosa está correto ao afirmar que o colega de Supremo não vai às ruas e vive somente na mídia”, diz José Carlos Torves, diretor de Mobilização, Negociação e Direito Autoral da Fenaj. Diretora da Eco, Ivana Bentes vê pontos positivos na decisão da STF. Ela destaca que a medida dá visibilidade à nova geração de produtores de mídia, que já atuam, sobretudo, no campo digital. “Acho que os maus cursos vão acabar. E não vão fazer falta. Sem conteúdo humanístico, detinham-se apenas no tradicional lide (o que, quem, quando, onde, como e por quê). Costumo brincar que os nossos estudantes são caçados pelo mercado, interessado num profissional diferenciado. Não vejo porque isto vá mudar. Devemos lutar não por cartórios do século XIX, mas pelos novos movimentos sociais de organização em defesa do precariado produtivo. Há certo alarmismo e ingenuidade, pois nada impedia a burla nas redações, onde os maiores salários ficam com os não-diplomados, geralmente cronistas e articulistas”, acredita.

Mozart Valadares: A Associação dos Magistrados do Brasil tem compromisso com os princípios da República democrática.

nas assessorias de imprensa do Banco do Brasil e da Infraero e pôde ilustrar sua exposição com farto material audiovisual e com exemplos da uma experiência profissional muito rica. À tarde, o Encontro contou com exposições do jornalista Fernando Foch, Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio e membro efetivo do Conselho Deliberativo da ABI, e das jornalistas Débora Diniz, Gerente de Comunicação da AMB, e Simone Caldas, que discorreram sobre o tema Mídia x Judiciário: Como vender uma pauta. A declaração A declaração conjunta das duas entidades foi proposta e redigida pelo Vice-Presidente da AMB, Cláudio Dell’Orto, juiz do Tribunal de Justiça do Estado do Rio, e tem o seguinte teor: “Como resultado do 2º Encontro Nacional de Jornalistas das Associações Filiadas à AMB, realizado hoje em Brasília, DF, a Associação dos Magistrados Brasileiros-AMB e a Associação Brasileira de Imprensa-ABI reafirmam o compromisso com os principios fundamentais da República democrática, com ênfase na essencial liberdade de imprensa e na defesa das prerrogativas dos profissionais que representam. A AMB e a ABI renovam o compromisso com a construção de um conjunto de normas regulamentadoras da profissão de jornalista, com a exigência de curso superior. Brasília, 6 de agosto de 2009. (a) Mozart Valadares, Presidente da AMB. (a) Maurício Azêdo, Presidente da ABI.” Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

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DEPOIMENTO

É na redação de O Globo que George Vidor nos recebe para esta entrevista. Em pouco mais de uma hora, nos conta sua trajetória profissional e avalia a cobertura realizada pela mídia na área que domina como poucos. Seja nas colunas em jornais impressos ou na televisão, onde atua na GloboNews desde 1996, o economista por formação, jornalista por absoluta definição, costura os seus comentários e análises de forma elegante e objetiva. E com foco no impacto que as decisões têm no cotidiano da população.

LUCIANA PASCHOAL/AGÊNCIA O GLOBO - DIVULGAÇÃO

De fala mansa, pausada e reflexiva, parece não descansar nunca. Em seu blog, hospedado no site de O Globo, publica posts sobre economia e relatos de viagens, com direito a dicas de hotéis e, sobretudo, de restaurantes. Até mesmo de férias, não abre mão do compromisso de bem informar. “Não publico abobrinhas! Gosto de dar notícias que sejam relevantes, que tenham utilidade. Olha, ali eu já passei, já testei. A comida aqui é boa, ali é caro, não vale a pena... No blog, tudo é mais solto e livre. Posso escrever cinco, dez, 15 ou 20 linhas...”, diz. Durante a entrevista, foi possível perceber, de imediato, a falta de sua marca registrada, a gravata borboleta que ostenta em praticamente todas as suas aparições públicas há cerca de duas décadas. Felizmente, todas as outras características, como a precisão das análises, o bom humor e a visão quase sempre otimista estavam lá. “Eu gostaria de terminar minha carreira vendo um outro país. Um Brasil sem extrema miséria absoluta”, declarou. Que, mais do que um simples desejo, tal sentença seja mais uma previsão de George Vidor. Um tiro exato e certeiro, como tantos outros que marcaram sua carreira.

A elegância econômica de

George Vidor ENTREVISTA A PAULO CHICO*

16 Jornal da ABI 344 Agosto de 2009


JORNAL DA ABI – A ECONOMIA É VISTA,

PREVISÍVEL.

MAS SABEMOS QUE OS MOVI-

POR MUITOS, COMO UMA ÁREA DE DIFÍCIL

MENTOS E TENDÊNCIAS NO SETOR SE DÃO NA

ENTENDIMENTO. COMO, ENTÃO, TORNAR AS

BASE DA RELAÇÃO ENTRE AÇÃO E REAÇÃO. NÃO FALTA, NA COBERTURA EM GERAL, MAIS DO QUE UM RETRATO INSTANTÂNEO, UMA

INFORMAÇÕES SOBRE O SETOR MAIS ACESSÍVEIS À POPULAÇÃO? NÃO FALTA APROXIMAR A NATUREZA DAS ANÁLISES DO COTIDIANO DO

ANÁLISE MAIS EXPLICATIVA DOS PROCESSOS

CIDADÃO COMUM?

ECONÔMICOS?

George V idor – Estamos falando de Vidor uma coisa muito ampla, de maneira geral. Há leitores de economia que gostam de ler assuntos mais profundos no aspecto econômico. São temas que despertam interesse deste leitor, deste telespectador, especificamente. Assim como tem gente que gosta de ler sobre livros, esporte ou cultura. Esse é um leitor qualificado e especializado. É um nicho específico da cobertura econômica, muitas vezes atendido até pelos jornais especializados. Por outro lado, há assuntos da economia que são temas de reportagem geral. Por exemplo, modificações na tributação do Imposto de Renda na fonte... Isso vai interessar à grande maioria de leitores de jornais. Há mesmo matérias cuja leitura é quase obrigatória, apesar de você não gostar de economia, pelo fato de serem questões que fazem parte do cotidiano da sua vida. Tal como saber como fazer para pegar um empréstimo para comprar uma casa... O que há de oferta neste sentido de mercado? Agora, claro, saber sobre os fundamentos da economia brasileira, as contas externas do País, balanços de pagamentos, evolução das finanças públicas ou sobre o ritmo da atividade econômica deve interessar mais ao leitor que realmente gosta de economia. Ou precisa, depende dessas informações, pois é um executivo ou empresário. Nesse sentido bem amplo, a cobertura da mídia é muito boa. Muito melhor do que no tempo em que eu comecei. Em primeiro lugar, porque a questão econômica tornou-se mais rotineira na sociedade. O Brasil se modernizou, as relações de trabalho evoluíram, a economia ganhou peso... Quando comecei, o repórter mais importante era o cara que cobria o café – que respondia por 40% da exportação brasileira. Então, tudo o que acontecia com o café mexia no câmbio, no orçamento da União... Era uma coisa incrível! Mesmo o sujeito que morasse no Rio, e se interessasse por economia, tinha que estar ligado na cotação do café. Hoje, não. Falamos de petróleo, dos programas de energia alternativa... A variedade de assuntos que temos na economia é enorme. E nem existe mais a figura daquele cara que escrevia sobre café! Há jornalistas que acompanham de maneira mais próxima o comércio exterior como um todo... A mídia acompanhou esse movimento.

George V idor – O nosso trabalho Vidor nunca vai fugir do que chamamos de notícia, da coisa mais pulsante que acontece no momento. A maior demanda por informação que existe é mesmo pelas notícias. As pessoas querem saber o que está acontecendo. Daí o sucesso da internet, da tv a cabo, pois você tem a informação instantânea, quase em tempo real. Eu discordo dessa crítica, pois acho que hoje nós temos mais material analítico do que factual. No meu tempo, a gente não era nem factual. Até por falta de qualificação, os jornalistas de décadas atrás reproduziam muito o que queriam ouvir. Fulano disse isso, aquilo, abre aspas e tome termos como ‘acha que’, ‘disse que’, ‘acrescentou’, e por aí vai! Havia até uma quantidade de verbos para conjugar em cada parágrafo, sem repeti-los... ‘Assinalou’, ‘afirmou’, ‘ponderou’, ‘avaliou’, até chegar no ‘concluiu’... (risos) JORNAL DA ABI – A QUE TIPO DE PÚBLICO VOCÊ SE DIRIGE QUANDO ESCREVE SUA COLUNA EM O GLOBO OU FAZ SEUS COMEN-

GLOBONEWS? George V idor – Isso é uma coisa Vidor muito empírica. Nunca alguém me disse que eu devo me dirigir a esse público ou àquele outro... A gente vai aprendendo na prática, até pelo retorno que recebemos. Acho que falo para uma elite de leitores e telespectadores. Eu não tenho nenhuma pretensão de

TÁRIOS NA

“OS ECONOMISTAS GOSTAM DE USAR ALGUNS JARGÕES, HÁ UM CERTO 'ECONOMÊS'. ELES FALAM MUITO PARA ELES MESMOS...” achar que estou falando para a totalidade de leitores de O Globo ou dos assinantes da GloboNews. Eu sei que economia é um tema que só vai despertar interesse se houver um assunto de massa. Do tipo, ‘governo vai lançar um grande programa de habitação popular’. Embora, nesse caso, eu ache que o cara que demanda um financiamento desse tipo não tenha assinatura de internet, tv a cabo e nem compre o jornal no qual eu escrevo. Eu falo, pelo perfil dos veículos, da classe média para cima... Agora, eu acho que é obrigação do profissional de comunicação, em geral, escrever e falar numa linguagem que a maioria das pessoas entenda. Os economistas gostam de usar alguns jargões, há um certo ‘economês’. Eles falam muito para eles mesmos... No começo deste ano eu notei que, nas entrevistas, os jornalistas falavam muito “na margem”, como por exemplo: “a economia vai crescer na margem de dois dígitos”. Talvez o economista entenda de cara, mas o público, o leitor comum, vai levar alguns segundos até entender o significado daquilo. Outro exemplo popular é a famosa taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia), que é citada com bastante freqüência na mídia. Tanto que ela nem é mais explicada conceitualmente. Quem entendeu sabe o que é. Quem ainda não entendeu ficou para trás...

JORNAL DA ABI – DURANTE MUITO TEMPO, COMENTARISTAS ECONÔMICOS, SOBRETUDO OS DA TV, NÃO GOZAVAM DE BOA FAMA JUNTO AO PÚBLICO, QUE DESCONFIAVA MESMO DO SABER E DAS AVALIAÇÕES TRANSMITIDAS.

NÃO HAVIA MUITA CONFIANÇA NAS

PREVISÕES DOS ECONOMISTAS, ASSIM COMO NAS PREVISÕES METEOROLÓGICAS... ACREDITA QUE ESSA IMAGEM MUDOU NOS ÚLTIMOS ANOS?

A ANÁLISE ECONÔMICA, NO BRASIL,

GANHOU CREDIBILIDADE?

George V idor – Eu acho que sim. Vidor Hoje há mais instrumental que nos permita avaliar as coisas. A análise econômica se baseia no passado. É sempre uma referência estatística que se projeta. Como se comportou assim no passado, há uma forte tendência de se comportar assim no futuro. Dadas essas condições, a gente pode prever se a economia vai crescer ou não, se vai acontecer isso ou aquilo. No entanto, a gente está falando de uma coisa que não é exata. Na meteorologia, quando você vai aumentando as variáveis de avaliação e joga tudo no computador, a probabilidade de dar certo é até maior. Na economia há um componente comportamental que não é exatamente mensurável. Não tanto previsível. Podem ocorrer vários impactos por modismos, por uma resposta emocional... No estudo da economia nós temos o que chamamos de ‘efeito demonstração’, ou ‘efeito macaquice’,

FOTO: ACERVO PESSOAL/O GLOBO

Em março de 1982 Vidor (à esquerda) participa de uma entrevista descontraída com o então Ministro Delfim Neto, que estava com uma boa dose de humor e ironia devido à “boa fase” da economia brasileira, mais tranqüila que a situação turbulenta do ano anterior.

JORNAL DA ABI – A ECONOMIA É UM FENÔMENO COMPLEXO, ÀS VEZES POUCO

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DEPOIMENTO A ELEGÂNCIA ECONÔMICA DE GEORGE VIDOR

ACERVO PESSOAL

que por vezes pode contrariar a lógica e a racionalidade. Na bolsa é comum o investidor comprar ações quando elas estão em alta, quando a lógica seria comprar na baixa e esperar a sua avaliação. Mas, quando se está na alta, fica a sensação de que aquilo vai subir mais... Mas, obviamente, comprando na alta, a possibilidade de ganhos cai consideravelmente. Isso é um exemplo de coisa comportamental, é do ser humano. A busca do equilíbrio entre a ganância, a vontade de ganhar, e o medo de perder. Acho que hoje os comentaristas, em geral, têm uma boa qualidade, com pouquíssimas exceções. Claro, há variantes de estilos. Uns são mais opinativos, outros refletem sua visão de mundo... Isso é permitido na mídia, sobretudo aos comentaristas. Quando eu comecei, quem dava a opinião no jornal era o dono. Não havia espaço para outras opiniões. Às vezes, até havia um ou outro colunista, como o Roberto Campos, que era um articulista. E, geralmente, esses comentaristas tinham fina sintonia com a opinião do dono do jornal. Hoje vemos, dentro de um mesmo jornal, no mesmo time de analistas, opiniões muito divergentes. JORNAL DA ABI – O QUE O ATRAIU PARA A ECONOMIA? COMO ERA O GEORGE VIDOR ESTUDANTE, NA ESCOLA? UM ALUNO CLÁSSICO, APAIXONADO POR NÚMEROS? George V idor – Eu fui atraído, iniVidor cialmente, para o jornalismo pelo gosto pela política. Eu era um estudante que gostava desse engajamento, ainda no secundarismo. Para a média da minha idade eu era muito mais antenado, politizado, até em função das coisas que estavam acontecendo. Por causa disso, comecei a fazer um jornal estudantil, no Colégio Pedro II, unidade Humaitá. Como prêmio, ganhei um estágio remunerado no Correio da Manhã, pouco antes da edição do AI5. O jornal sofreu uma série de sanções, pois fazia oposição ao governo militar, e também tinha um problema sério de administração, vamos reconhecer isso aqui. Juntando essas duas coisas, o Correio da Manhã entrou em parafuso. Aí, aquele jovem estagiário de 16 anos começou a fazer coisas impensáveis para alguém tão cru, ainda mais num grande jornal. Por pura coincidência, me colocaram para fazer umas matérias ligadas à economia. JORNAL DA ABI – SUA ATRAÇÃO, ENTÃO, A QUESTÃO DA ECONOMIA ACONTECEU POR ACASO. George V idor – Eu também não ia Vidor ser jornalista. A bem da verdade, naquela época eu não sabia nem o que queria ser. Não tinha nenhuma vocação latente... FOI MESMO PELO JORNALISMO.

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O jovem Vidor (quinto da esquerda para a direita) participa de um debate com líderes sindicais em maio de 1978, quando era Presidente da Associação dos Jornalistas de Economia e Finanças-AJEF.

JORNAL DA ABI – MAS VOCÊ CHEGOU A FAZER UM JORNAL ESCOLAR QUE GANHOU PRÊMIO...

George V idor – Eu ajudei a fazer um Vidor jornal que tinha uma cara de notícia, tentava copiar um esquema da época. Era muito comum estudantes fazerem jornais, e nem por isso serem depois jornalistas. Eu fiz, por exemplo, um jornal em formato maior, e não um jornalzinho. Isso também se destacou, tanto que a gente ganhou o prêmio lá. Mas, eu não sabia escrever. Não sabia o que era um lide... Fui aprender isso depois, na marra, na Redação. A primeira matéria que fiz no estágio eu tive que datilografar novamente, de tantos erros que tinha. JORNAL DA ABI – ECONOMISTAS SÃO AFEITOS A NÚMEROS. JORNALISTAS, POR SUA VEZ, RENDEM-SE ÀS LETRAS E, QUASE SEMPRE, TÊM PAVOR DA MATEMÁTICA.

COMO

CONSEGUIU CONCILIAR ESSAS DUAS FRENTES? SABER INTERPRETAR ÍNDICES E TRADUZI-LOS COM PRECISÃO, EM PALAVRAS, PARA O PÚBLICO?

George V idor – Quando eu era jorVidor nalista sem formação econômica a ignorância me angustiava muito... Onde é que estou pisando? Ter a formação técnica, o instrumental da economia, me tranqüilizou muito para escrever e analisar as coisas, repassá-las para o leitor. Mas teve gente que aprendeu tudo isso de forma pragmática, com o próprio exercício da profissão. JORNAL DA ABI – VOCÊ ESTÁ COMPLE40 ANOS DE CARREIRA... George V idor – E naquele início, esVidor tou me lembrando agora, teve um episódio muito importante, que foi a chegada do homem à Lua, que acaba de completar 40 anos. O jornal tinha criado uma editoria para os jovens estagiários. Na verdade, a gente estava meio perdido. Teve uma época em que a Dona Niomar, dona do jornal, não podia falar mal dos militares, e passou a falar mal TANDO

do Governador do Estado, que era o Negrão de Lima. A gente só fazia matéria para bater no Governador. E eu fazia isso bem, pois fazer panfleto era comigo mesmo... (risos) Logo depois o jornal se entendeu com o Governador, e nossa editoria foi desmontada. Nesse meio tempo houve a viagem do homem à Lua, e nós fomos transformados na ‘editoria do homem na Lua’. Fiz uma matérias de economia, como a compra, pela Petrobrás, da primeira plataforma de exploração de petróleo no mar. Aí, com a história da viagem espacial, o que eu fazia? Pegava o noticiário que vinha de fora e reescrevia, ‘penteava’ telegrama. Numa dessas correspondências, recebi um pergunta sobre o custo do programa espacial diante da realidade econômica do mundo. Me lembro que só o que homem tinha deixado na Lua custava mais do que o orçamento de um país como Honduras, ou República Dominicana. Fiz uma matéria pequenininha, mas a jogaram no caderno econômico dominical. Eu só peguei a notícia e fiz a comparação. Não tinha a menor noção da coisa na época... Não fiz nenhuma análise e não havia nada de conclusivo, do tipo, se o programa valia a pena ou não. Eu queria somente mostrar o tamanho do investimento, destacar que havia uma corrida espacial e que a maioria dos países não teria a mínima condição de participar daquela história...

mais próximas possíveis do que chamamos de geral. Eu cobria as reuniões das entidades empresariais, como a reunião semanal da Firjan. Um empresário falava de um problema, outro reclamava de uma lei... Na verdade, eu estava era fazendo um trabalho de repórter de geral, só que na economia. JORNAL DA ABI – E QUANDO SURGIU A FACULDADE NA SUA VIDA?

George V idor – Bom, chegou a época Vidor em que eu deveria fazer uma faculdade. Nossos cursos de Jornalismo não eram tão prestigiados. A maioria dos jornalistas sequer tinha curso superior, e não sentia nem a necessidade disso. Mas, aí, começaram a chegar as primeiras meninas formadas na Puc... E isso mexeu muito com a Redação... (risos) Havia pouquíssimas mulheres na carreira. As famílias de classe média não gostavam que suas filhas entrassem nessa. O jornalismo era uma profissão meio maldita, boêmia, era um pouco estigmatizada, trabalhava no final de semana, feriados... Eu tinha a opção de fazer o curso de Jornalismo, mas já havia começado a trabalhar antes da exigência do registro profissional.. Aí, achei mais proveitoso fazer Economia na Cândido Mendes. JORNAL DA ABI – ACHEI UMA DECLARAÇÃO SUA DE QUE, APESAR DE TER CURSADO

ECONOMIA, VOCÊ JAMAIS CONSIDEROU A JORNAL DA ABI – ISSO FOI ABRINDO ESPAÇO PARA VOCÊ NA EDITORIA? George V idor – Houve uma reforVidor mulação na Redação e, por causa dessas matérias, o chefe de reportagem me transferiu para a economia. Eu fiquei chateado, sentido com isso. Achei até que ele tinha ficado decepcionado com o meu trabalho, meio que estava se livrando de mim. Na verdade, ele estava me promovendo, mas eu não tive a noção disso. Imagine um cara com 17 anos indo para um setor que era enfadonho... Fazia as matérias de economia

HIPÓTESE DE ABANDONAR O JORNALISMO PARA TORNAR-SE ECONOMISTA. O QUE HÁ DE TÃO FORTE NAS

REDAÇÕES? O QUE O ATRAI

TANTO NO JORNALISMO?

George V idor – Como passei a cobrir Vidor muito o mercado financeiro, até tive, num determinado momento, convites para pular fora do jornalismo. Mas, não quis, não. Hoje, minha permanência é mesmo pelo tempo dedicado a isso. Nem se quisesse conseguiria mudar de profissão. Já estou com a boca deformada pelo cachimbo. O jornalismo é muito atraente pela possibilidade que ele dá


ACERVO PESSOAL

jornal, e não fazia, conseguiu viabilizar através dele. JORNAL DA ABI – COMO SE DEU SUA REDAÇÕES PARA A TELEVISÃO? George V idor – O acaso na vida é Vidor um mistério. Há alguns anos comecei a fazer um programa na TV Bandeirantes, uma produção independente, na época do Plano Cruzado, no qual era âncora. Eu tinha dicção ruim, desconhecimento da câmera, do corte... Ou seja, receber e aceitar um convite desses, para uma pessoa com meu perfil de então, era um desafio de tremer na base. Depois, comecei a participar de programas de televisão com certa freqüência. E tive novamente a sorte de entrar num momento completamente novo da televisão, que era um canal a cabo só de notícias. A GloboNews foi ao ar no dia 13 de outubro de 1996. Eu comecei lá no dia 17 de outubro do mesmo ano. Eu comecei com eles, que estavam aprendendo também... O País teve muitas crises econômicas nesse período, e eu fui bastante explorado, no bom sentido. (risos). E o poder da televisão é impressionante. Eu fazia coluna há anos no O Globo, mas as pessoas não me reconheciam nas ruas. Elas não ligavam a minha pessoa àquela foto pequenininha que sai nos jornais nos quais eu publico. Com a televisão, sou reconhecido nos lugares, de imediato... PASSAGEM DAS

Muitos congressos e palestras discutiram as incertezas da economia brasileira e os inúmeros Planos de Estabilização que aconteceram no Brasil. Em março de 1994, no início do Plano Real lançado pelo Governo Itamar Franco, Dionisio Dias Cerneiro, Roberto Campos, Aspásia Camargo, Fernando Pinto de Moura, Armando Ourique, George Vidor e Mario Henrique Simonsen tentam responder a pergunta.

de conhecimento das pessoas. O jornalista fala com o Presidente da República e com o cara mais humilde da sociedade. Tem uma possibilidade de contato profissional com diferentes realidades e situações que é muito gratificante. O jornalismo nunca foi uma profissão na qual as pessoas tivessem uma carreira rica. Hoje em dia, até há melhores condições. Mas, como ascensão profissional e financeira, essa é uma carreira que não dá multiplicidade de oportunidades... Tanto que muita gente logo sai da Redação e vai para outras áreas... JORNAL DA ABI – A PARTIR DAÍ, COMO SE DEU SUA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL? George V idor – Eu fiquei pouco Vidor tempo no Correio da Manhã, que logo entrou em crise. Eu andava de terno e gravata. Só tinha um terno, aliás, que meu pai mandou fazer. Eu fui crescendo, e o terno ficando apertado... (risos) Um amigo meu foi convidado para fazer decoração de Carnaval em Teresópolis, e eu fui junto. Era uma festa bem legal, eu ganhava bastante dinheiro para a época... Aí, quando voltei, pensei ‘que bobagem que eu fiz! Como é que eu volto para o Correio da Manhã?’ Mas uns amigos meus estavam montando a sucursal, no Rio, de um jornal baiano, o Tribuna da Bahia. Eu fui, é claro, para cobrir economia, Ministério da Fazenda, com o Delfim Neto no comando de tudo. Neste momento é que o jornalismo econômico despertou de fato, até porque o jornalismo político já tinha sido praticamente zerado. E o País, economicamente, estava crescendo. Assim, lá por 1970, o noticiário migrou fortemente da política para a economia. Ao mesmo tempo, fui trabalhar no jornal Boletim Cambial e na Gazeta Mercantil. Veja só, eu tinha três empregos! E ainda estudava Economia (risos). JORNAL DA ABI – E COMO OCORREU SUA O GLOBO? George V idor – Naquela época a Vidor editoria de Economia de O Globo ainENTRADA EM

da era muito pequena. Quando o Evandro Carlos de Andrade veio pra cá, e reformou o jornal, quis fazer uma editoria grande. Na época, só dois jornais tinham um noticiário econômico importante: o Jornal do Brasil e o Estadão. O resto era ainda muito incipiente. Eu vim para O Globo, em 1972, em pleno milagre econômico, numa carreira meteórica. Em 1975 eu já tinha feito tudo em Economia, já fazia coluna. Era

Evandro me chamou de volta para O Globo, em 1986, em pleno final do Plano Cruzado... JORNAL DA ABI – QUANDO COMEÇOU O PANORAMA ECONÔMICO? George V idor – O Panorama EconôVidor mico tem quase 40 anos. Era uma coluna que não tinha autor fixo. Colocamos uma equipe para fazer o Panorama, que estava comigo e com o Luís

“A CRISE QUE O MUNDO ATRAVESSOU DESDE O FINAL DE 2008 FOI BASTANTE GRAVE. CERTAMENTE, FOI A PIOR DOS ÚLTIMOS 50 ANOS, E PROVAVELMENTE NÃO SE VERÁ OUTRA IGUAL TAMBÉM NAS PRÓXIMAS CINCO DÉCADAS.” um meio bem efervescente. Virei editor, repórter especial, subeditor... Tudo isso ainda bem novo, quase criança. Em 1982, assumi a editoria do jornal até que saí em 1983, quando tive um desentendimento e fui para o Jornal do Brasil, onde fiquei um ano e meio. Depois, fui para a revista Veja, onde fiquei apenas três meses... Lá eles me trataram muita bem, não tenho nenhuma queixa... Mas senti que não ia me adaptar ali. Eu já tinha sido editor de Economia e estava mal acostumado a controlar o meu trabalho. E na Veja havia conflitos... Por exemplo, o centro de decisões da revista estava em São Paulo... Nesse meio tempo em que estava meio perdido, caiu do céu um convite para trabalhar na Gazeta Mercantil, onde fiquei um ano e meio. Aí o

Alberto Bittencourt. E depois vieram outras pessoas... Tivemos ainda o Panecão, que era muito interessante. Havia um caderno anual sobre economia. Ele era mais voltado para pegar publicidade, basicamente com fins comerciais. Do ponto de vista editorial, não trazia grandes contribuições... Em 1972, ou 1973, ele continuava a ser muito forte, com bastante anúncio, e nós aproveitamos para aprofundar as reportagens, viajar pelo interior do Brasil. Como o caderno chegava a ter um orçamento próprio, nós conseguíamos verbas para fazer essas reportagens. Às vezes, o Panecão tinha mais possibilidades de fazer uma viagem do que na própria editoria de Economia. Esse caderno foi uma experiência fabulosa. Tudo o que eu queria fazer no

JORNAL DA ABI – VOLTANDO A FALAR DE AINDA FALTA ALGUM? George V idor – Sempre falta. SemVidor pre. Eu tenho impressão que ele vai ser um pouco nesse meio eletrônico. Na mistura de jornal com a internet, de vídeos com a internet... Eu espero me adaptar. Com o tempo, e essa é uma das coisas ruins do ser humano, a gente vai virando meio dinossauro, começa a reagir contrariamente às novidades... Mas também já passei por tantas mudanças... Já tive que me adaptar tantas vezes pra sobreviver... (risos) DESAFIOS...

JORNAL DA ABI – VOCÊ É TAMBÉM PROCOMO VÊ O NÍVEL DE FORMAÇÃO DOS NOSSOS FUTUROS JORNALISTAS? George V idor – Quando eu comecei Vidor havia nas Redações maior ecletismo. Tínhamos médicos, diplomatas, advogados, artistas e até mesmo pessoas que tinham parado de estudar na quarta série primária. Pessoas que, às vezes, eram ótimos repórteres, mas tinham dificuldades de escrever. Por isso mesmo havia a figura do copidesque, dos redatores que reescreviam as matérias. Mas eram pessoas que tinham experiências de vida fantásticas! O pessoal chega hoje da faculdade com mais FESSOR UNIVERSITÁRIO.

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DEPOIMENTO A ELEGÂNCIA ECONÔMICA DE GEORGE VIDOR FOTOS: ACERVO PESSOAL

formação, sabe escrever melhor, conhece a técnica... No entanto, já há alguns anos, é gente que não tinha experiência: morava com o pai e mãe, nunca havia feito um empréstimo em banco... Não tinha experiência de vida. E isso deu ao jornalismo, como ainda dá hoje, uma certa ingenuidade natural, fruto da pura falta de experiência. Mas o jornalismo tem uma vantagem: você vira uma pessoa tarimbada com muita rapidez. Em seis meses de Redação, já se aprende muito. Já passou por tantas situações que, se você não amadurece, sai fora. Nesse sentido, acho que as escolas de Comunicação foram importantes, pois elas trouxeram para as Redações gente alfabetizada. Talvez agora, com a possibilidade de contratar pessoas que são diplomadas em outras áreas, seja possível dar uma mexida e oxigenar novamente o ambiente.

de nível superior. Algumas empresas, que não estão numa situação financeira boa, podem usar desse artifício para depreciar a mão-de-obra. Esse é um risco. Mas eu acho que o próprio mercado corrige isso. JORNAL DA ABI – PARA QUEM ESTÁ NA 40 OU 50 ANOS, NÃO HÁ LEM-

FAIXA DOS

BRANÇA DE UM ESPAÇO HISTÓRICO NO QUAL O

BRASIL NÃO ESTIVESSE MERGULHADO EM

CRISE ECONÔMICA, SEJA ELA NA FORMA DA HIPERINFLAÇÃO OU DAS ALTAS TAXAS DE DESEMPREGO. TODO O BARULHO FEITO, ENTÃO, EM TORNO DESSA MAIS RECENTE CRISE, NÃO PARECE EXAGERADO? O BRASIL JÁ NÃO ESTÁ UM POUCO ‘VACINADO’ CONTRA CRISES? OS BRASILEIROS JÁ NÃO TIRAM DE LETRA ESSES PERÍODOS DE RECESSÃO?

George V idor – Não, não! Não houVidor ve exagero, não! A cobertura foi quase na medida, tirando, é claro, algum deslize num dia ou outro. Mas, se boJORNAL DA ABI – VOCÊ ACHA QUE OS tarmos a curva do noticiário, ele esteCURSOS DE JORNALISMO, HOJE, GOZAM DE ve no tom certo. A crise que o mundo BOM CONCEITO, SÃO EFICIENTES? atravessou desde o final de 2008 foi basGeorge V idor – Quando dava aula Vidor tante grave. Certamente, foi a pior dos em turmas de Comunicação, eu era um últimos 50 anos, e provavelmente não menino. Tinha praticamente a mesma se verá outra igual também nas próxiidade dos meus alunos. Era o calouro mas cinco décadas. Isso exatamente entre os professores. Por isso mesmo, pelo fato de ela ter abalado o sistema sobravam pra mim as aulas do sábado nervoso da economia, que é o mercade manhã – lembrando que na sexta eu do financeiro. Nunca pensei em ver saía de madrugada das Redações. E, grandes bancos do mundo à beira da faapesar do meu cansaço e dos meus atralência. De fato, o mundo andou ali à Como um dos principais jornalistas de economia do Brasil, George Vidor teve sos, a turma não faltava, estava sembeira do precipício. Os Estados Unidos contato com personalidades de destaque do cenário mundial. Em 1992, logo após a redemocratização, o Presidente chileno Patrício Aylwin recebeu o pre cheia. Mesmo eu sendo um inicivivenciaram um ensaio de algo bastanjornalista em Santiago (no alto). No ano seguinte, o então Presidente do México, ante, um rapaz, eu era o único dentre te parecido com a quebra de 1929... Por Carlos Salinas, concedeu-lhe uma entrevista em seu avião presidencial. os professores, que estava na ativa. Eu sua vez, nunca vi, em toda a minha vida sabia o que estava aconteprofissional, o Brasil numa cendo nas Redações, que situação tão sólida para enpassavam por transformafrentar esse quadro. Quanções. Os demais mestres do o mundo estremecia, eram todos ex-jornalistas. nós éramos os primeiros da Ótimas figuras, mas que fila, os primeiros a desemestavam distantes da reabarcar do ciclo de crescilidade do momento. Por mento. Tínhamos como isso, a sensação que eu ti‘Calcanhar-de-aquiles’ a nha era mesmo de que, questão do câmbio. Ele foi com aquele perfil de pronosso vilão em todas as fessores, os alunos saíam nossas crises, desde a éposabendo muito pouco do ca de D. João VI. A verdaque o mercado exigia na de é que nós passamos por época. Na prática, sair da essa tormenta atual com escola com o diploma de muito pouca oscilação de Jornalismo debaixo do bracâmbio, preservamos as reço queria dizer pouca coiservas... Espero, inclusive, sa... Hoje em dia é diferenque, passada a pior fase da te. Eu vejo na Globocrise, nós possamos retoNews... A TV Globo, em mar o processo de salto que geral, tem um programa de vínhamos dando. Eu gosestágio de seis meses que Numa viagem ao México, no início de 1992, George Vidor entrevistou os empresários que tinham acabado de taria de terminar minha é excepcional. Os estagiáassumir o controle do Bancomer após sua privatização. Na época era o segundo maior banco daquele país. carreira vendo um outro rios atuais aprendem com país. Um Brasil sem extrePOSSÍVEL FATOR POSITIVO DA DERRUBADA DO uma rapidez impressionante. Em três ma miséria absoluta, por exemplo... mas estudou Desenho Industrial, e DIPLOMA A POSSIBILIDADE DE OXIGENAR AS meses eles se formam profissionais. você perde um ótimo profissional por JORNAL DA ABI – SERÁ QUE ISSO NÃO VAI REDAÇÕES DOS JORNAIS. MAS NÃO VÊ RISQuer dizer, alguma boa base eles trauma questão formal de ter feito o curDEMORAR MAIS UM POUCO? COS POSSÍVEIS NESTA MEDIDA POLÊMICA? zem da escola... so específico. Quanto a riscos, eu não George V ido Vido idor – Uma das vantagens sei. O que eu gostaria mesmo é que a George V idor – Às vezes, o sujeito Vidor JORNAL DA ABI – VOCÊ CITOU COMO de se trabalhar com jornalismo é que gente continuasse a ser uma profissão tem uma vocação para ser jornalista, 20 Jornal da ABI 344 Agosto de 2009


MÔNICA IMBUZEIRO/AGÊNCIA O GLOBO

te que a gente faça a transição para uma sociedade mais moderna. E essa é uma missão difícil! Mesmo que sejam criados milhões de empregos no País, há milhões de brasileiros que estariam sempre de fora deste processo... Gente que não estudou e perdeu o bonde da história... Nesse aspecto específico, os programas sociais do governo são fundamentais... No entanto, a forma de administrar do atual governo, às vezes, lembra muito uma coisa ultrapassada. Uma política velha. Há um excesso de controle do aparelho do Estado... Embora toda política seja assim mesmo. Em qualquer país do mundo, o partido que está no poder se aparelha do Estado. Talvez, o pecado do atual governo no Brasil seja disfarçar mal...

nós vemos as coisas se transformando. Quando comecei a trabalhar, um jornal de grande tiragem tinha 60 mil exemplares. Hoje, um jornal com essa tiragem não sobrevive.... A não ser que ele seja especializado ou de uma cidade pequena... Na verdade, nós éramos um país de analfabetos. Quando Juscelino foi eleito, metade da população adulta não sabia assinar o nome. Mal ou bem, hoje temos a massa da população passando pela escola... Vamos esperar o impacto disso nas gerações futuras... E há instrumentos importantes de transformação aí, como a internet e a educação à distância, que ainda vão mudar muitas coisas no País... JORNAL DA ABI – ÍNDICES POSITIVOS DE ECONOMIA PRA CÁ, INDICADORES NEGATIVOS PRA LÁ, CRÍTICAS PESADAS À POLÍTICA ECO-

JORNAL DA ABI – ENTÃO, PODE-SE DIZER

GOVERNO... EM QUE MOMENTOS A COBERTURA DEIXOU DE SE ATER EXATAMENTE AOS NÚMEROS E PASSOU A GANHAR CONTORNOS POLÍTICOS? George V idor – Da década de 1980 Vidor pra cá a economia teve uma simbiose gigantesca com a política...

QUE A BASE DO SUCESSO DO ATUAL GOVER-

NÔMICA DO

JORNAL DA ABI – E ISSO É BOM? idor – Isso é real! É a realiVidor George V dade! Os planos econômicos afetaram o resultado das eleições. O lançamento do real viabilizou oito anos de governo de um presidente que era professor universitário acadêmico. Naquele momento havia conflito de visões de mundo... Entrava em cena uma coisa mais liberal, com a redução do papel do Estado na economia, uma função mais de mercado, menos intervencionista, mais neoliberal e, no fundo, mais capitalista. Quando, por exemplo, se quer passar uma emenda constitucional para abrir o mercado brasileiro de petróleo, o que é uma medida de economia, o pau come mesmo é na esfera política! JORNAL DA ABI – REFIRO-ME AO OUTRO À FUNÇÃO DA MÍDIA DE PRESTAR APOIO A ALGUMA POLÍTICA DE GOVERNO. TEMOS O EXEMPLO DAS ‘FISCAIS DO SARNEY’. NAQUELE MOMENTO, POR EXEMPLO, NÃO

EXTREMO.

HOUVE CERTA PRESSÃO DA IMPRENSA PARA DAR CREDIBILIDADE AO PLANO E ATÉ MOBILIZAR A POPULAÇÃO EM SEU FAVOR?

George V Vidor idor – Jornalista adora política. Adora! Quando ele pode resvalar para a política, vai felicíssimo. Essa mistura, de uma abordagem mais política até mesmo no noticiário das outras editorias, é absolutamente natural. E do cidadão também! Todo mundo diz: ‘não gosto de política!’. Mentira! Na prática, todo mundo discute política o tempo todo... Essa interface é natural... JORNAL DA ABI – A MÍDIA, DE FORMA GERAL, TEM SIDO COMPLACENTE COM O

NO NA ÁREA ECONÔMICA É MESMO A GESTÃO DE FERNANDO HENRIQUE, E ATÉ AÇÕES DE OUTROS PRESIDENTES ANTERIORES?

Economista, jornalista, colunista, editor e professor universitário desde jovem, Vidor também começou a ser convidado a dar palestras, mas depois que se tornou comentarista econômico da GloboNews virou também uma celebridade.

GOVERNO LULA NO QUE TANGE A SEU DESEMPENHO NA ÁREA ECONÔMICA? George V idor – A matéria-prima Vidor para o Lula ser alvo de críticas é muito grande. Ele já se elegeu mudando de discurso. Mas, antes disso, passou a vida toda dizendo que ia alterar isso e aquilo, pregava um virada radical. Graças a Deus, na prática, houve uma evolução no entendimento dessa equi-

tem o dna da crítica em si, apontou os pecados. Essa é também, de certa forma, a missão da imprensa... Depois, passado algum tempo, já vemos o que ficou de fato. E o balanço, até da própria mídia, tornou-se mais positivo. Outro ponto é que o Brasil precisa de algumas reformas reais, estruturais. Na verdade, é como se o País estivesse preso a algumas amarras... E, depen-

George V idor – O processo de deVidor senvolvimento é meio circular, meio espiral. Tem que existir uma seqüência... Por exemplo, o governo do Lula, num determinado momento, aumentou o superávit primário das contas públicas. Isto é, segurou dinheiro para pagar juros... Você imagine essa prática para o que era o PT no passado! Agora, se não fizesse isso, a dívida continuaria aumentando, faltariam os recursos para investimentos, cairia o crescimento... E não seriam gerados bons empregos. JORNAL DA ABI – ACREDITA QUE O MUNDO PODERÁ, UM DIA, CHEGAR AO IDEAL DE LIVRAR-SE DE CRISES E RECESSÕES, OU ESSES SÃO ELEMENTOS PERENES E, NA VERDADE,

“EM QUALQUER PAÍS DO MUNDO, O PARTIDO QUE ESTÁ NO PODER SE APARELHA DO ESTADO. TALVEZ O PECADO DO ATUAL GOVERNO NO BRASIL SEJA DISFARÇAR MAL...” pe e o Governo manteve a espinha dorsal da política econômica, evidentemente com pequenas alterações. Adotou algumas coisas, abandonou outras. Mas, em linhas gerais, manteve a espinha dorsal, o que foi muito bom para o País. Tanto que botou o Henrique Meirelles como Presidente do Banco Central, um nome que veio do PSDB. É evidente que a mídia, que

dendo de como o governo se comporta diante disso, sofre mais ou menos críticas. Algumas são justas, outras não. Veja só, mesmo com toda crítica que está sofrendo, o Governo pratica o patamar mais baixo de taxa de juros da História recente. Mal ou bem, o Governo criou um anteparo para a crise que foi fantástico! A rede de proteção social que o Brasil estabeleceu permi-

IMPRESCINDÍVEIS PARA FAZER A RODA DA ECONOMIA GIRAR?

George V idor – Ah, não. Isso aí não Vidor acontecerá! As crises são inerentes ao sistema econômico. Elas são ajustes. O que já aprendi em economia é que aquela aterrissagem suave não existe muito... O ajuste é sempre um pouco mais brusco... JORNAL DA ABI – É QUASE UM POUSO FORÇADO...

George V idor – É isso aí! (risos). O Vidor que acontece é que os períodos de prosperidade têm-se estendido mais do que no passado. Temos períodos maiores de crescimento, com alguns ajustes em seguida. O mundo está num momento de mudanças para melhor. A questão da sustentabilidade está na agenda. Tem muito de marketing, mas tem muito de uma tomada de consciência, até por exigência do mercado... Caminhamos, acredito, para algo melhor... *Com a participação de Francisco Ucha

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HISTÓRIA FOTOS: ACERVO PARTICULAR PAULO RAMOS DERENGOSKI

Na estrada do Planalto Serrano, um grupo de fanáticos que enfrentou as forças legalistas na Guerra do Contestado posa para uma foto, em 1914. À direita o beato que se chamava São João Maria.

Canudos e Contestado: nossas duas guerras santas No centenário da morte de Euclides da Cunha, uma comparação entre dois conflitos sangrentos. POR PAULO RAMOS DERENGOSKI

Dentre os inúmeros movimentos messiânicos brasileiros o que mais se assemelha ao Contestado é Canudos. Estudioso dos dois surtos revolucionários, acredito que a saga da Serra do Espigão foi maior que a dos sertões do Cocorobó. O tempo de duração – quatro anos – foi mais longo que o das caatingas nordestinas. E até as causas da rebelião jagunça foram complexas: luta antiimperialista contra a empresa Lumber, protesto contra a brutal exação das barreiras de ervamate, complicada questão de limites entre dois Estados, monarquismo, milenarismo, miséria. A uni-los, o apelo religioso. Canudos se tornou conhecido pelo trabalho monumental de Euclides da Cunha – Os Sertões, um dos maiores livros do mundo em todos os tempos. Além de discutir qual dos dois incêndios foi maior – talvez seja importante destacar suas semelhanças. “O anacoreta sombrio, cabelos crescidos até os ombros, barba inculta e longa face escaveirada, olhar fulgurante...” lá nas margens do Vaza Barris era muito parecido com o São João Maria dos carrascais catarinenses. Instalou sua Nova Jerusalém no Belo Monte. Ali pregou e ali morreu. Os sulistas, ao contrário, tiveram dezenas de redutos: Irani, Taquarussu, Santo Antônio, São Roque, Perdizes, Caçador Grande, Aleixo, Poço Preto, Santa Maria, São Miguel etc. Ambos anunciavam o Juízo Final, defendiam a 22 Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

monarquia, proibiam o dinheiro da República. Recusavam a presença entre os seus de republicanos, ladrões, bêbados e meretrizes. Pessoas de relativas posses participaram de ambos os levantes, como os comerciantes Vilanova em Canudos e Euzébio no Contestado. Tinham comandantes de formas, de combate, juízes, coletores. No Norte como no Sul estavam presentes os Doze Pares de França, ou os “Doze Apóstolos”. Ambas as comunidades redistribuíam bens, mas praticavam comércio, especialmente de armas, gado e sal. Sempre ao entardecer rezavam muito. A maior parte de seus membros havia sido vaqueiros ou boiadeiros. Promoviam batizados, casamentos, festas e novenas. Eram monarquistas absolutos e achavam que a República era coisa do demônio... Esta, aliás, foi uma das causas da violência da repressão que contra eles se desencadeou, pois o Brasil vivia um momento de republicanismo exaltado em todos os grandes centros e nas Forças Armadas. Achavam que iriam viver em Idade de Ouro: o paraíso seria reconstruído na face cruel da terra devastada. E principalmente se julgavam imortais. Se morressem, ressuscitariam logo depois para viver em estado de delícias... Diziam ambos os anacoretas – o João Maria e o Conselheiro – “que o sertão ia virar mar e o mar ia virar sertão”. Esqueceram que a terra não é de Deus nem do Diabo. E nem do homem. Mas de Gaya, nossa mãe-natureza... Só a ela caberá a vingança...

Foi durante a Guerra do Contestado que o avião foi usado como arma militar pela primeira vez no mundo. No registro de junho de 1914, o General Setembrino de Carvalho e alguns de seus comandados posam na frente da frágil aeronave.

OS NÚMEROS DA CAMPANHA EXTENSÃO MÁXIMA DA ÁREA CONFLAGRADA ESTIMATIVA DA POPULAÇÃO REBELADA (TOTAL) COMBATENTES REBELDES (ESTIMATIVA) POPULAÇÃO DOS REDUTOS

25 A 28 MIL KM² 20 MIL PESSOAS 8 MIL DE 300 ATÉ 5 MIL

EFETIVOS DAS TROPAS REPRESSORAS REGULARES VAQUEANOS

6 MIL HOMENS 1 MIL HOMENS


A virgem, os fanáticos, a ilusão do paraíso

Volantes compostas por fazendeiros muito bem armados ajudavam as forças do Governo na luta contra os rebeldes do Contestado. Na foto de baixo, de 1914, um dos mais violentos grupos de repressão aos rebeldes: o do latifundiário Fabrício Vieira.

O começo, numa madrugada de 1912 As serras azuladas do Irani: terrenos acidentados, ásperos, dobrados, redobrados, cobertos de pinheirais, faxinais, caragoatazais, entremeados de campestres, sungas, banhadões, peraus, itaimbés, grotas, precipícios, cavernas. Desde os finais do século XIX ali viviam refugiados criminais, gente sem eira nem beira, sem lenço nem documento, rolando na miséria. Em meados de 1912, José Maria lá estava, perambulando, festejando, ministrando beberragens de ervas, sonhando, lendo trechos do livro Carlos Magno e os Doze Pares de França para os caboclos embevecidos. Mas as autoridades de Curitiba consideraram aquela mancha de desafortunados uma invasão de território e corria o boato de que os jagunços haviam “proclamado a monarquia”. O comandante do Regimento de Segurança do Paraná, Coronel João Gualberto (que era pernambucano e tinha ambições políticas), recebeu ordens de marchar contra os fanáticos. E trazê-los manoteados para as barras dos tribunais... No dia 20 de outubro, João Gualberto manda um bilhete a José Maria, intimando-o a depor armas “sob pena de desencadear uma guerra de extermínio, a fim de fazer voltar a ordem e a lei àqueles Sertões”. Às três da madrugada nevoenta de 22 de outubro de 1912, levanta a tropa. Dentro dos padrões da guerra clássica, sua infantaria (cercada de sessenta homens do Regimento de Segurança do Paraná) vai na frente. O comboio de munições com uma metralhadora marcha no meio. Na retaguarda segue um pelotão de onze cavalarianos bem montados, com lanças. Mas o que ele não sabia – ou fingia ignorar – é que esse pequeno troço iria mergulhar num rio caudaloso de 200 sertanejos em armas. O acampamento rebelde rezava – e sonhava – quando foi atacado. José Maria imediatamente destacou diversos grupos para os capões de mato que cercavam o local. No Quadro-Santo, o centro do reduto, deixou o grosso da tropa preparada para eventualida-

des. João Gualberto, ao perceber que os matos ao redor estavam cheios de caboclos, começou a gritar: “Estender linha!”, “Assentar ferros!” Mas a metralhadora engasgava, não cuspia fogo. A cena toda deve ter durado minutos, porque logo os piquetes rebeldes entrariam em ação. À frente deles vinha – como um possesso – o próprio José Maria, dando gritos medonhos de “Viva a liberdade!” “Viva a Coroa céu!” “Viva a Coroa do Império!” Endemoniados, os jagunços combatem de arma nobre (arma branca) – facões de madeira e porretes de três quinas – e assumem a ofensiva. No corpoa-corpo os fuzis levam desvantagem para os pontaços e a soldadesca começa a debandar, entre gritos apavorantes. João Gualberto cai do cavalo – que alguém lhe rouba para fugir – e é retalhado no aço. Mas também José Maria, reconhecido pelo seu gorro de pele de onça, arroja a fronte ao pó, chumbado. Depois da vitória, a caboclada se dispersou dissimuladamente. Novas forças, vindas do Paraná, deram uma varejada no terreno, mas nada encontraram e deram o episódio por encerrado. Embora – na verdade – tudo estivesse apenas começando. Os funerais do Coronel João Gualberto, em Curitiba, foram suntuosos: triste música de fundo, para acompanhar o barulho surdo do incêndio que começava a crepitar – a estalar – nos sertões do Planalto em chamas.

De todos os redutos que se organizaram com a Guerra do Contestado – e eles foram dezenas – o de Cararagoatá foi o mais expressivo sob o ponto de vista da organização social e religiosa. Foi ali, naquele lugarejo perdido nos carrascais, que uma “virgem”, Maria Rosa, vestida de noiva rebelde, com o longo cabelo todo enfeitado de flores silvestres e cavalgando um cavalo branco encilhado com vermelho, corria em volta do acampamento cantando canções e modinhas. Para ela poderia ser uma brincadeira, mas para os matutos que ali se fixaram era a antevisão do paraíso messiânico, sem a contrapartida da realidade esmagadora. A própria palavra Caragoatá, ou Gravatá, ou Garagoatá, é emblemática. Trata-se de uma planta dura e espinhosa, uma bromélia deformada que cresce em todo o sertão brasileiro, em meio às roças abandonadas, às coivaras do mato, às pastagens exuberantes, aos banhados impenetráveis. Onde brota Gravatal a grama não cresce. Pois foi num lugar desses que a Irmandade de José Maria, em 1914, resolveu semear suas ilusões. Para uns a cidade santa dos caragoatazais. Para outros o covil dos errantes do novo século... Depois do massacre de Taquarussu, mais de cem famílias sertanejas convergiam para a região de Caragoatá. Chefiava-os um fazendeiro da região, dono de centenas de cabeças de gado, Elias de Moraes, conhecedor profundo das trilhas e veredas daqueles ermos. Num gesto dramá-

tico, incendiou a própria fazenda e marchou para o reduto à frente de peões, compadres e seguidores. Recebeu o título de “Comandante de Forma do Caragoatá” e se entusiasmou. Sua primeira determinação foi estabelecer guardas avançadas ao longo das estradas e dos chapadões que cercavam a região. Implantou uma disciplina de ferro, com instrução militar diária e castigos corporais para os relapsos. Seus espiões – os chamados “bombeiros” – se dirigiram a todos os povoados da região, em busca de novos adeptos. O lugar-tenente de Elias de Moraes foi um mulato nordestino, desertor, de nome Benevenuto Bahiano, antigo marinheiro de João Cândido na Revolta da Chibata de 1910, homiziado naqueles fundos. Homem de temperamento violento, havia trabalhado na construção da Brazil – Railway, onde degolara um feitor. Outro personagem importante a aderir ao movimento rebelde em Caragoatá foi o ‘capitão” Aleixo Gonçalves de Lima, tradicional líder das populações do Norte catarinense contra o avanço das barreiras físicas do Paraná sobre as rendas dos plantadores de erva-mate da região, avanço esse que foi uma das causas do conflito. Além disso, Aleixo nutria uma velha rixa com a Lumber Corporation, acusando a empresa de ter se apossado de seus pinheirais. Durante o período de Caragoatá, o que caracterizou o povo do Contestado foi o fanatismo exacerbado e uma visão milenarista do fim do mundo. Quando os matutos entravam para aquele reduto, se despojavam de tudo o que possuíam antes. Costumavam repetir, em suas ladainhas, que dali para a frente “todos iriam beber – até o fim! – a água que um só bebesse”, numa visão de expectativa do “paraíso”, na espera do Messias Sertanejo. Tudo, sonho!

Em 1915 o líder rebelde Bonifácio Papudo (d) se entregou ao oficial das forças legalistas.

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HISTÓRIA CANUDOS E CONTESTADO: NOSSAS DUAS GUERRAS SANTAS

À espera do Senhor Rei Dom Sebastião No Brasil, vários movimentos messiânicos rústicos se assemelham ao Contestado e têm com ele pontos em comum. Sem que um soubesse – ou sequer suspeitasse – da existência de outro, é curioso como por todos eles perpassa uma idéia provinda de Portugal, o sebastianismo, que prometia a vinda de um grande senhor (o Encoberto, o Santo, o Príncipe, o Magno) a restabelecer um reino encantado. Em 1817, nas Alagoas, no Monte Rodeador, um desertor das milícias de nome Silvestre José dos Santos resolveu fundar uma irmandade onde os “sábios” deveriam governar os “ensinados”. Chamava-se Cidade do Paraíso Terrestre. Eles adoravam uma grande pedra dentro da qual estaria a Cruz de São Sebastião. Alí todos seriam imortais e se atacados passariam a ser invisíveis. Tinham uma santa marcha de procissões, chefes de revista de armas e procuradores da honestidade de homens e mulheres. No dia 25 de outubro de 1820 foram massacrados pelo governador de Pernambuco, temeroso que eles adentrassem em seu Estado. Em 1836, um errante de nome João Antônio dos Santos arregimentou massas de deserdados em Piancó, Ca-

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riri, margens do São Francisco, e estabeleceu um reduto na comarca de Flores, em Pernambuco. Uma enorme pedra cavernosa era a Casa Santa. Tomavam bebidas estimulantes (jurema e manacá), dançavam e tinham um rei. Diziam ver tesouros e El Rey Dom Sebastião com sua corte. Depois partiram para sacrifícios humanos, até que em 1838 foram massacrados. No Rio Grande do Sul, em 1872, bem longe do Nordeste, na zona de Sapiranga, ergue-se o morro do Farrabraz, muralha de rocha alcantilada ao pé do qual viviam João Jorge e Jacobina Maurer, que davam remédios e consultas para o povo. Às vezes Jacobina aparecia de branco, em êxtase, com flores nos cabelos. Depois passou a se dizer a reencarnação do Cristo, nomeando até “apóstolo”. Promovia e dissolvia casamentos e anunciava o fim do mundo. Logo certas mortes na região começaram a ser atribuídas a eles e seus adeptos, quase todos colonos alemães chamados de Mucker. A seita se ramificava e uma tropa vinda de Porto Alegre incendiou o templo central, queimando os que lá dentro se encontravam. Finalmente os próprios colonos se estraçalharam entre si...

Sentados, os rebeldes seguram suas espadas da dura madeira de araçá. Eles foram aprisionados na região de Curitibanos pelos vaqueanos da foto, armados com fuzis.

No Nordeste é clássico o movimento do Padre Cícero Romão Batista, o taumaturgo do Crato e do Juazeiro, que teve suspensas as ordens eclesiásticas, mas erigiu um Igreja em torno da qual se aglutinou uma massa sertaneja fanática que acreditava ter o líder poderes divinos e curativos. E até hoje lá está a enorme estátua que é objeto de devoção popular. Um afilhado do Padre Cícero, o beato Lourenço do Caldeirão, estabeleceu-se na Serra do Araripe e passou a liderar cinco mil pessoas, numa comunidade distributivista cheia de prédicas religiosas. Entre 1933 e 1935 o movimento cresceu muito, com o peregri-

no andando pelo interior da caatinga. Outros monges seguiram sua pegadas, como Severino Tavares, que lia e relia para os sertanejos embevecidos o livro A História de Carlos Magno e os Doze Pares de França. Elias, Senhorinho, Quinzeiro e outros profetas menores deram continuidade às pregações alucinatórias. Até que um dia, como sempre, foram atacados por uma força regular. Quatrocentos cadáveres foram contados na destruição do Caldeirão. E assim muitos movimentos de messianismo rústico assolaram os interiores do Brasil. Alguns dos quais tão esquecidos que nem constam das listas dos esquecidos.


Liberdade de imprensa

Presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio, ele adverte que os juízes devem recorrer às regras comuns de interpretação para garantir que a liberdade de imprensa não colida com o direito à honra. A inclusão do direito de resposta no artigo 5º da Constituição, que define os direitos e garantias individuais, assegura sua aplicabilidade imediata, como “regra de suficiente densidade normativa”, sustenta o Presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio, Desembargador Luiz Zveiter, segundo o qual a ausência de regulação legislativa não é obstáculo ao cumprimento dessa norma. Zveiter expôs esse entendimento ao abrir o seminário Mídia & Justiça: O Direito de Resposta, realizado em junho passado por iniciativa do TJ e da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro. O texto integral de sua intervenção, ainda inédito, é agora divulgado pelo Jornal da ABI, com intertítulos de sua Redação. Foi este o teor do seu pronunciamento: ”Este seminário, embora programado há algum tempo, se realiza num momento extremamente oportuno, pois o Supremo Tribunal Federal, em decisões recentes, a última proferida na semana passada, fez alterações profundas no direito de imprensa, seja afastando a incidência da lei específica pelo vício na inconstitucionalidade, seja afastando a exigência de diploma de curso superior para o exercício da atividade jornalística. Como advogado, magistrado e hoje Presidente do Tribunal de Justiça, sempre trabalhei diretamente com a imprensa, pois entendo que a liberdade de expressão é um fator importante no desenvolvimento do País. A imprensa precisa de liberdade e responsabilidade para trabalhar, com ética e correção, prestando um serviço fundamental para a sociedade. A defesa da liberdade de imprensa e da democracia se confundiu na mais profunda materialização da idéia de que liberdade é quando as pessoas podem falar e democracia quando o Estado as ouve. Nesse contexto, em 1994, no Castelo de Chapultepec, situado no centro da cidade do México, realizou-se a Conferência Hemisférica sobre a liberdade de expressão, onde se elaborou uma importantíssima Carta de Princípios, fundada em postulados que, por essenciais ao regime democrático, devem constituir objeto de permanente observância e respeito por parte do Estado e de suas autoridades e agentes, onde se proclamou que: “Uma imprensa livre é condição fundamental para que as sociedades resolvam seus conflitos, promovam o bem-estar e protejam sua liberdade”. O conteúdo dessa Declaração revela

que nada mais nocivo, nada mais perigoso do que a pretensão do Estado de regular a liberdade de expressão, pois o pensamento há de ser livre – permanentemente livre, essencialmente livre, sempre livre. Todos sabemos, e o Supremo Tribunal Federal já teve oportunidade de se pronunciar no sentido de que o exercício correto, pelos profissionais da imprensa, da liberdade de expressão, cujo fundamento reside no próprio texto da Constituição da República, assegura ao jornalista o direito de expender crítica, ainda que desfavorável e em tom contundente, contra quaisquer pessoas ou autoridades. Desta forma, forçoso concluir que o direito de crítica encontra suporte legitimador no pluralismo político, que representa um dos fundamentos em que se apóia, constitucionalmente, o próprio Estado Democrático de Direito (CF, art. 1º, V). A lição espanhola

Não foi por outra razão que o Tribunal Constitucional espanhol, ao proferir as Sentenças nº 6/1981 (Rel. Juiz Francisco Runio Llorente), nº 12/1982 (Rel. Juiz Luís Díez-Picazo), nº 104/1986 (Rel. Juiz Francisco Tomás y Valiente) e nº 171/1990 (Rel. Juiz Bravo-Ferrer), pôs em destaque a necessidade essencial de preservar-se a prática da liberdade de informação, inclusive o direito de crítica que dela emana, como um dos suportes axiológicos que informam e que conferem legitimação material à própria concepção do regime democrático. É relevante observar, ainda, que o Tribunal Europeu de Direitos Humanos, em mais de uma ocasião, também advertiu que a limitação do direito à informação e do direito (dever) de informar, mediante inadmissível redução de sua prática “ao relato puro, objetivo e asséptico de fatos, não se mostra constitucionalmente aceitável nem compatível com o pluralismo, a tolerância (...), sem os quais não há sociedade democrática (...)” (Caso Handyside, Sentença do TEDH, de 07/12/1976). Essa garantia básica da liberdade de expressão do pensamento representa, em seu próprio e essencial significado, um dos fundamentos em que repousa a ordem democrática. Isso, porque “o direito de pensar, falar e escrever livremente, sem censura, sem restrições ou sem interferência governamental” representa, conforme adverte Hugo Lafayette Black, que integrou a Suprema Corte dos Estados Unidos da América, “o mais precioso privilégio dos

FABIANO ROCHA/EXTRA/AGÊNCIA O GLOBO

O direito de resposta tem aplicação imediata, sustenta Zveiter

bunal Federal, deverão os juízes, agora mais do que antes, lançar mão das regras comuns de interpretação para garantir que a liberdade de imprensa não colida com o direito à honra, do qual todos somos titulares. Esta é, pois, a tarefa que se nos apresenta. O art. 5º, inciso V, da Constituição brasileira, ao prever o direito de resposta, qualifica-se como regra impregnada de suficiente densidade normativa, revestida, por isso mesmo, de aplicabilidade imediata. Isso significa que a ausência de regulação legislativa, motivada por transitória situação de vácuo normativo, não se revelará obstáculo ao exercício da prerrogativa fundada em referido preceito constitucional a quem se sentir prejudicado por publicação inverídica ou incorreta, direito, pretensão e ação, cuja titularidade bastará para viabilizar, em cada situZveiter: A Constituição assegura ao jornalista ação ocorrente, a prática concreo direito de expender crítica, ainda que ta da resposta e/ou da retificação. desfavorável e em tom contundente. Cabe registrar, neste ponto, que o direito de resposta somente constituiu objeto de regulação legislativa, no cidadãos...” (Crença na Constituição. Rio Brasil, com o advento da Lei Adolpho Gorde Janeiro: Forense, 1970, p. 63). do (Decreto nº 4.743, de 31/10/1923, arts. 16 a 19), eis que – consoante observa So“Dignidade constitucional” lidônio Leite Filho (Comentários à Lei de É importante observar, no entanto, Imprensa, p. 188, item n. 268, 1925, J. Leite que a Constituição da República, embora Editores) – “Não havia na legislação antegarantindo o exercício da liberdade de rior à lei de imprensa nenhum dispositiinformação jornalística, legitima a intervo regulando o direito de resposta”. venção normativa do Poder Legislativo, Destaco por fim, que no âmbito do permitindo-lhe – observados determinadireito comparado há países que não dos parâmetros referidos no § 1º do art. estabeleceram qualquer tipo de regula220 da Lei Fundamental – a emanação mentação legislativa ao direito de resposde regras concernentes à proteção dos ta, como os Estados Unidos e a Argendireitos à integridade moral e à presertina, nem por isso o direito de resposta vação da intimidade, da vida privada e deixou de ser garantido. da imagem das pessoas. Desta forma, é correto afirmar que o Busca de reflexão direito de crítica não assume caráter abEncerrando, não desconheço que há soluto, eis que inexistem, em nosso sisuma preocupação com esse “período de tema constitucional, como reiteradatransição”, iniciado com as decisões mente proclamado pela Suprema Corte, mencionadas anteriormente do Supredireitos e garantias revestidos de natumo Tribunal Federal, por isso que estareza absoluta. mos hoje aqui reunidos na busca de uma Por isso que o direito de resposta foi reflexão conjunta sobre temas diretaelevado à dignidade constitucional, no mente relacionados à democracia. sistema normativo brasileiro, a partir da Espero que a magistratura nacional Constituição de 1934, não obstante a litenha o equilíbrio necessário para dirimir berdade de imprensa já constasse da Carta os conflitos, e que os juízes rejeitem com Política do Império do Brasil de 1824. rigor todas as tentativas de subjugar, por interesses escusos, o direito constituciTema freqüente onalmente garantido à informação. O seminário de hoje trata especificaTenho certeza de que teremos hoje um mente do direito de resposta, tema sobre dia profícuo, com o desenvolvimento do o qual o nosso Tribunal tem se debruçatema pelo colega Luiz Gustavo Grandido com uma certa freqüência, tanto nos netti de Carvalho, expert no assunto e Juizados Especiais Criminais, quanto, em com a participação muito especial dos alguns casos, nas varas cíveis e criminais. jornalistas Rodolfo Fernandes, Aluizio Não é um assunto simples, pois está diMaranhão e Chico Otavio, além do Deretamente relacionado ao direito à honputado e jornalista Miro Teixeira, todos ra, que tem a mesma proteção constiturespeitados e profundos conhecedores cional da liberdade de imprensa, de modo do tema, e da advogada Doutora Ana Teque na decisão desses conflitos está o juiz reza Basílio, que já promoveu a defesa permanentemente tendo que fazer uma de vários casos emblemáticos. Com a cerponderação entre valores constitucionalteza de que este seminário será apenas mente assegurados. o inicio de uma discussão que pretendeSe o direito tutelado pela lei de immos ver multiplicada, passo a palavra prensa não tem mais esta proteção espara o ilustre palestrante fazer a sua pecial, diante da declaração de sua inapresentação. Muito obrigado.” constitucionalidade pelo Supremo TriJornal da ABI 344 Agosto de 2009

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Liberdade de imprensa

LENTIDÃO DA JUSTIÇA PRORROGA MORDAÇA NO ESTADÃO Em continuada manifestação de corporativismo, a fim de proteger um magistrado que proferiu uma decisão inconstitucional, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal retarda a decisão sobre as petições que o jornal O Estado de S. Paulo formulou para derrubar a censura prévia que lhe foi imposta pelo Desembargador Dácio Vieira. Com isso o Estadão ficou censurado todo o mês de agosto. Uma onda de protestos repudia o arbítrio de que o jornal é vítima. O jornal O Estado de S. Paulo passou todo o mês de agosto sob a censura prévia imposta pelo Desembargador Dácio Vieira, que o impediu de publicar informações sobre as investigações da Polícia Federal na chamada Operação Boi Barrica que envolvam o nome do empresário Fernando Sarney, filho do Presidente do Senado Federal, Senador José Sarney. A permanência da censura resultou da lentidão com que, em visível manifestação de corporativismo destinada a proteger um dos seus magistrados, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal trata as postulações e os recursos ajuizados pelo jornal. Expressão clara e vigorosa desse corporativismo foi o despacho proferido em 13 de agosto pelo Juiz Waldir Leôncio Cordeiro Lopes Júnior, da 2ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, no mandado de segurança ajuizado pelo advogado Manuel Alceu Affonso Ferreira, patrono do jornal, visando à suspensão da censura, determinada pelo Desembargador Dácio Vieira em liminar. Lopes Júnior negou a liminar pleiteada pelo advogado Manuel Alceu, requereu informações ao próprio Dácio Vieira e solicitou o pronunciamento do Ministério Público. “Malgrado o inconformismo do impetrante com a decisão judicial impugnada está sendo observado o devido processo de direito”, justificou o Desembargador Lopes Júnior, que sustentou ainda: “O rito do mandado de segurança é célere, por isso é mais prudente que se aguarde para deferir ou não a providência requerida no momento do julgamento do writ (mandado), quando a questão estará madura”. O próprio Presidente do Supremo Tribunal Federal. Ministro Gilmar Mendes, reconheceu indiretamente a 28 Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

lentidão do Tribunal de Justiça do Distrito Federal na apreciação do caso, ao declarar ao Estado de S. Paulo, como por este publicado na edição de 18 de agosto, que “tem que ter celeridade para decidir sobre isso”. Ele acrescentou: “Não é razoável que, de fato, se dê uma liminar e se espere tanto tempo. O Tribunal tem que se pronunciar”. Embora evitasse tom critico em sua nova intervenção no mandado de segurança que impetrou, o advogado Manuel Alceu expôs em embargo de declaração que opôs à decisão de 13 de agosto do Juiz Lopes Júnior dois pontos que demonstram como o caso está tendo um tratamento inusitado no Tribunal de Justiça do Distrito Federal: Lopes Júnior não se manifestou sobre o pedido de Manuel Alceu para que se desse ciência do mandado ao “órgão de representação judicial do Tribunal de Justiça do Distrito Federal”, como prescrito na nova lei do mandado de segurança (Lei nº 12.016/ 09), e não mandou citar o empresário Fernando Sarney, autor do embargo que ensejou a liminar do Desembargador Dácio Vieira.

A SOCIEDADE CIVIL REAGE AO ARBÍTRIO A censura determinada pelo Desembargador Dácio Vieira gerou uma onda

de manifestações de repúdio e protestos no Brasil e no exterior, onde a restrição imposta ao Estadão teve larga repercussão. Já no primeiro dia de vigência da censura, 1 de agosto, o Estadão publicou declarações emitidas por en-

tidades representativas da comunidade jornalística, como a ABI, a Federação Nacional dos Jornalistas-Fenaj e a Associação Nacional de Jornais-ANJ, bem como do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, todas de condenação ao arbítrio de toga. “A decisão é incompatível com o Democrático de Direito”, disse o Presidente da Fenaj, Sérgio Murilo de Andrade. “A Constituição Brasileira é muito clara, no sentido de que não se pode censurar previamente nenhum tipo de informação”, declarou o Diretor-Executivo da Associação Nacional de Jornais, Ricardo Pedreira. “A liberdade de expressão dos meios de comunicação é uma obrigação que não pode ser frustrada por decisão judicial”, afirmou o Presidente da OAB, Cézar Britto. Após qualificar a decisão do Desembargador Dácio Vieira de “absolutamente inconstitucional”, disse então o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, numa referência ao parágrafo 2º do artigo 220 da Constituição: “O preceito constitucional não deixa margem a dúvida e é inadmissível que um magistrado, de qualquer instância do Poder Judiciário, atropele o texto constitucional como faz essa liminar que impede O Estado de fazer referência e dar notícia sobre o Senhor Fernando Sarney.”

OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA DENUNCIA: FALTA PUDOR Único programa da televisão brasileira voltado especificamente para as questões relacionadas com a comunicação e aspectos da vida social no País e no exterior que a envolvam, o Observatório da Imprensa, criado, dirigido e apresentado por Alberto Dines, dedicou sua edição de 18 de agosto ao caso da censura do Estadão, sobre o qual foram convidados a opinar o Presidente da Associação dos Magistrados Brasilei-


FRANCISCO UCHA

PAULO LIEBERT/AE GIL FERREIRA/SCO-STF

"Alguns magistrados não sentem o menor pudor em determinar a supressão de informações", disse Dines (à esquerda) em seu respeitado Observatório da Imprensa. Gandour (ao centro) manteve a denúncia da censura em todas as edições de agosto do Estadão. Gilmar Mendes (à direita) foi reticente na condenação à demora na decisão do caso. FILIPE ARAÚJO/AE

ros, Juiz Mozart Valadares, o Presidente da ABI e os jornalistas Aluízio Maranhão, Editor de Opinião de O Globo, e Ricardo Gandour, Diretor de Conteúdo do Grupo Estado. O Presidente da AMB disse que a entidade condena a censura e expressou sua convicção de que não há uma investida contra a liberdade de imprensa no País.”Temos mais de 20 mil magistrados. Infelizmente há algumas exceções, mas não há no Judiciário o sentimento de limitar o exercício da função de jornalista”, disse o Juiz Mozart Valadares. Aluízio Maranhão salientou que o País vive “uma situação esdrúxula”: “O Supremo Tribunal Federal decretou a nulidade da Lei de Imprensa herdada da ditadura, mas em instâncias inferiores, na prática, vigora a censura prévia”. Com o vigor habitual, Dines qualificou o episódio como “censura togada”. “Alguns magistrados – disse – não sentem o menor pudor em determinar a supressão de informações. Não impõem sanções pelo que já foi publicado. Agora arrogam-se o direito de atuar preventivamente para evitar a circulação daquilo que não consideram apropriado.” O Presidente da ABI reiterou no programa o entendimento que a Casa mantém acerca da profusão de decisões judiciais que restringem ou violam a liberdade de imprensa: “Hoje o grande inimigo da liberdade de imprensa e da liberdade de expressão é o Poder Judiciário, principalmente por conta de decisões de magistrados de primeira instância”, disse Maurício.

PRECEDENTE PERIGOSO, DIZ CIENTISTA POLÍTICO A repercussão negativa da mordaça no Estadão alcançou diferentes segmentos da sociedade, que expressaram solidariedade do jornal e repudiaram a

Marco Antônio Vila, cientista político: O precedente poderá ser invocado na campanha eleitoral de 2010 por candidato interessado em barrar informações a seu respeito.

decisão de Dácio Vieira. Em sua edição de 14 de agosto, o Estadão publicou as opiniões emitidas a respeito pela atriz e apresentadora Cris Couto, pelo cientista político David Fleischer, pelo jornalista e escritor Audálio Dantas, exVice-Presidente da ABI, pelo advogado Carlos Ari Sundfeld, pelo ator e diretor Odilon Wagner, pelo historiador Boris Fausto, pelos empresários Flávio Pansieri e Alencar Burti, este Presidente da Associação Comercial de São Paulo, pelo economista Antônio Correa de Lacerda e pelo cientista político Fábio Wanderley Reis. Audálio Dantas disse que “a censura prévia parecia ter acabado no País”, “mas integrantes do Judiciário estão a serviço do retrocesso”, enquanto o cientista político David Fleischer defendeu não só a revogação da censura, mas a também a punição do Desembargador Dácio Vieira. “Espero que a censura caia e o desembargador seja enquadrado. É uma pessoa tendenciosa e a censura é tremendamente prejudicial”, disse. O ator Odilon Wagner apontou essa censura como “uma coisa absolu-

tamente vergonhosa” e expôs seu desencanto: “Eu me sinto envergonhado de viver neste país depois de tantos anos de luta pela liberdade”. Nessa mesma edição o Estadão publicou a entrevista feita pelo repórter Roldão Arruda com o analista político Marco Antônio Vila, professor de Ciências Sociais da Universidade de São Carlos, SP, o qual apontou a censura judicial ao Estadão como “um precedente perigoso” às vésperas de um ano eleitoral. “Nesse ritmo, qualquer candidato interessado em barrar informações que considere prejudiciais à sua imagem poderá entrar na Justiça e ganhar ”, disse Marco Antônio Vila, que fez estas observações em resposta a uma questão suscitada por Roldão Arruda: “(...) Espantosamente, esse tipo de ação, destinada a restringir a ação da imprensa, está se multiplicando pelo País. Entre outros casos, podemos citar o da Juliana Paes, atriz da TV Globo, que obteve uma decisão judicial impedindo o José Simão de citar o nome dela na sua coluna na Folha de S. Pau-

lo, sob pena de pagar multa cada vez que o fizer. Antes tivemos a proibição da publicação do livro com a biografia do Roberto Carlos. Isso é censura. Não é uma censura truculenta, como a que se viu na ditadura do Estado Novo, quando o Estadão foi invadido e tomado, nem no regime militar, quando enviaram censores para a Redação, mas é censura. Apenas mais refinada.” Quando Arruda lhe perguntou se essas decisões de censura comprometem o sistema democrático, disse Marco Antônio Vila: “Sim, se você considerar que informações estão sendo sonegadas ao leitor. Outra coisa a considerar é que a liberdade de imprensa no Brasil é muito frágil fora dos grandes centros, como São Paulo e Rio. No Maranhão, a família Sarney controla boa parte dos meios de comunicação. Aliás, o Presidente do Senado parece padecer do vício da censura. Em 2006, durante as eleições para o Senado, ele censurou até a internet, quando percebeu que sua concorrente, uma vereadora (Maria Cristina Almeida, do PSB), ameaçava derrotá-lo. Ele não podia fazer o que fez.” “Acho inacreditável presenciarmos essas coisas. Acho terrível o Poder Judiciário ainda não ter se manifestado para suspender a decisão de censurar o jornal, principalmente se considerarmos o fato de que a decisão foi dada por um desembargador próximo da família Sarney. Aliás, isso também não constitui novidade para o Presidente do Senado. Veja-se o caso da cassação do Governador Jackson Lago (PDT), ocorrida neste ano. A Presidente do Tribunal Regional Eleitoral (DesembargadoJornal da ABI 344 Agosto de 2009

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Liberdade de imprensa ROOSEWELT PINHEIRO/ABR

Presidente Lula: Em suas mãos o protesto de duas instituições que reúnem 18 mil publicações, 15 mil sites e mais de 3 mil empresas em 120 países.

O MUNDO FAZ APELO A LULA E GILMAR MENDES Do exterior, importantes associações de jornais e de jornalistas dirigiram-se às autoridades brasileiras condenando a censura ao Estadão e reclamando a suspensão dessa medida, que gerou manifestação também da Organização dos Estados Americanos-OEA. Esta declarou que “é incompreensível que, enquanto os mais altos tribunais do Brasil tenham tomado decisões exemplares em matéria de liberdade de expressão, ainda exista a possibilidade de que alguns juízes locais possam usar seu poder para censurar e impedir a divulgação livre da informação a qual o público tem o direito de receber ”. Além da Sociedade Interamericana de Imprensa-Sip, da Federação Internacional de Jornalistas e das organizações Repórteres Sem Fronteiras e 30 Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

Artigo 19, sediada em Londres, e do Comitê de Proteção aos Jornalistas, com sede em Nova York, enviaram mensagem conjunta ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Gilmar Mendes, a Associação Mundial de Jornais e o Fórum Mundial de Editores, instituições que representam 18 mil publicações, 15 mil sites e mais de 3 mil empresas em mais de 120 países. Assinada por seus Presidentes, Gavin O’Reillly, da Associação Mundial de Jornais, e Xavier Vidal-Foch, do Fórum de Editores, a mensagem expressa ���profunda preocupação com a medida judicial que proibiu a mídia de publicar informações sobre uma investigação acerca de um servidor público envolvido em corrupção” e pede que Lula e Gilmar Mendes façam o que estiver ao seu alcance “para garantir que esta decisão seja anulada e que seja permitido à imprensa publicar livremente reportagens sobre todos os assuntos de interesse público”. Antes de formular esse apelo, dizem as duas entidades: “Gostaríamos de lembrar respeitosamente que a medida judicial de proibir as reportagens se constitui em um caso de censura prévia e é uma clara violação do direito de livre expressão, que é garantido por inúmeras convenções internacionais, incluindo a Declaração Mundial dos Direitos Humanos. O artigo 19 da Declaração diz: “Todos têm o direito de livre expressão e opinião, incluso o direito de ter opiniões sem interferência e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras”.

Também o Jornal Pequeno, de São Luís, sofre censura determinada pela Justiça, para não comentar ou nada informar acerca da Operação Boi Barrica. Em liminar concedida em 17 de julho, o Juiz Nemias Nunes Carvalho, da 2ª. Vara Civel da Comarca da Capital do Maranhão, determinou que o Jornal Pequeno retirasse de seu site a reportagem publicada em 8 de março com informações acerca da Operação e do envolvimento do empresário Fernando Sarney com o caso. Se desrespeitar a decisão, decidiu o magistrado, o Jornal Pequeno será multado em R$ 3 mil por dia em favor de Fernando Sarney, que requereu a proibição. “Nós já recorremos da medida”, disse o Editor do Jornal Pequeno, Osvaldo Viviani, ao repórter do Estadão Roberto Almeida. “Assim como no caso do Estadão, consideramos um atentado à liberdade de imprensa, que o Jornal Pequeno sofre há muito tempo.”

Fundado há 57 anos e com 44 deles dedicados à oposição ao chamado sarneysismo, o Jornal Pequeno enfrenta o clã Sarney desde 1968, quando o Senador, então Governador do Maranhão, processou o fundador do jornal, José Ribamar Bogéa, por publicar textos que considerou ofensivos à sua reputação. O processo chegou em 1970 ao Supremo Tribunal Federal, que absolveu Bogéa. No ano passado, o Diretor do Jornal, Lourival Bogéa, foi condenado a pagar R$ 50 mil ao Senador Sarney como indenização por danos morais. A ação foi motivada por uma série de reportagens e cartas de leitores com críticas ao Senador. Viviani declarou sua solidariedade ao Estadão. “A gente entende e se solidariza com o Estado porque está sentindo na pele esses métodos faz tempo. É uma repressão e uma espécie de coação judicial ao jornal, que sobrevive bravamente durante todos estes anos”, disse.

ROOSEWELT PINHEIRO/ABR

ra Nelma Celeste Sarney Costa), responsável pela casssação, é cunhada do Senador, casada com o irmão dele. Tudo indica que, da imprensa ao Judiciário, ele tem poder para pressionar os opositores, impor a censura, barbarizar.” Dois dias antes, em sua edição de 12 de agosto, o Estadão publicou declarações de condenação da censura feitas pela atriz Beatriz Segall, pelo ator Juca de Oliveira, pela chef Carla Pernambuco e pelo cientista político Marco Antônio Teixeira. Juca, autor de peças teatrais de forte conteúdo politico, considerou a censura ao Estadão como “um absurdo”. “Nunca podia supor – disse – que iríamos experimentar a censura mais uma vez. Do ponto de vista político é uma regressão brutal.”

Jornal de São Luís também arrolhado

Temer: Em sua ausência a administração da Câmara recusou cumprir liminar do STF.

Câmara não cumpre liminar do Supremo A Câmara dos Deputados negouse em 20 de agosto a dar cumprimento a liminar do Supremo Tribunal Federal que garantiu à Folha de S. Paulo o acesso às notas fiscais apresentadas pelos deputados para justificar gastos com a verba indenizatória. O jornal ingressou com mandado de segurança contra a Câmara depois de rejeitados dois pedidos que fez para acesso às notas fiscais. Ao justificar o descumprimento da decisão, a administração da Câmara alegou que a liminar estava sendo analisada

pelo departamento jurídico e que o Presidente da Casa, Deputado Michel Temer (PMDB-SP),viajara para São Paulo e não fora notificado. Informado da recusa da Câmara, o Ministro Marco Aurélio Melo, autor da liminar, disse que enquanto um recurso não for julgado a decisão tem de ser cumprida. “No dia que disserem que não vão cumprir uma decisão judicial nós podemos fechar o País para balanço”, disse o Ministro, que considera que “tudo o que diga a respeito à coisa pública deve estar na vitrine”.


Agravou-se o desrespeito à liberdade de expressão, diz relatório de Comissão da ABI

Em Miguel Pereira, RJ, Prefeitura e Câmara unem-se contra denúncias de corrupção

NOS ÚLTIMOS 13 MESES, SEGUNDO LEVANTAMENTO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE JORNAIS, REGISTRARAM-SE 31 CASOS DE CENSURA À IMPRENSA; 16 IMPOSTOS POR ORDEM JUDICIAL. SALVADOR SCOFANO/AGÊNCIA O GLOBO

Reunida no dia 18 de agosto para elaborar o Relatório que apresentaria no dia 31 na sessão de agosto do Conselho Deliberativo, a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI registrou mais uma vez o agravamento do desrespeito à liberdade de expressão em âmbito geral, e não só à imprensa, e aos direitos humanos. No próprio site da ABI, assinalou a Comissão, tornou-se rotineira a publicação de notícias acerca desse desrespeito. A reunião foi a primeira sob a presidência do Conselheiro Orpheu Santos Salles e contou com a presença de seus membros Arcírio Gouveia Neto, Germando de Oliveira Gonçalves, Mário Augusto Jakobskind e Wilson de Carvalho, seu Secretário, que elaborou extensa e minuciosa ata dos trabalhos, transformada no Relatório apresentado ao Conselho. Assinalou a Comissão que naquela semana, por exemplo, estava registrada a denúncia em texto sob o título À Opinião Pública, do jornalista Lúcio Flávio Pinto contra o Grupo Liberal, o maior complexo de comunicação do Norte do País, de tentar silenciar seu Jornal Pessoal, publicação artesanal que ele edita há 19 anos. A censura ao Jornal Pes-

Autor das denúncias pede proteção à ABI e à OAB.

O Bispo Macedo (à direita) e a direção da Igreja Universal precisam explicar as ameaças contra jornalistas e os inúmeros casos de cerceamento ao trabalho da imprensa.

soal foi determinada pelo Juiz da 4ª Vara Cível da Comarca de Belém, Raimundo das Chagas Filho. A Comissão considerou preocupante a relação apresentada pela Associa-

MANCHETES INDESEJADAS ANJ REPUDIA AGRESSÃO A JORNALISTAS NO AMAZONAS ESTADÃO RECORRE CONTRA CENSURA PRÉVIA PARA MINISTROS DO STF, LIMINAR DO JUIZ CONTRARIA A CONSTITUIÇÃO O ÚNICO PUNIDO FOI UM JORNAL A OPINIÃO PÚBLICA E A PUBLICADA A CULPA É DA LIBERDADE LIMINAR PROÍBE “ESTADO” DE NOTICIAR INVESTIGAÇÃO SOBRE FILHO DE SARNEY TJ CENSURA NOTÍCIAS SOBRE FERNANDO SARNEY EM JORNAL ANJ COMPLETA 30 ANOS DE LUTA CONTRA CENSURA SARNEY SE DEFENDE, ATACA JORNAL E DÁ RECADOS SARNEY ATACA “ESTADO” E DIZ QUE NÃO DEVE EXPLICAÇÕES SOBRE O QUE COMPRA ANJ ACUSA JUIZ DE CENSURA AO JORNAL A TARDE, DA BAHIA SARNEY SE DIZ VÍTIMA DE CAMPANHA “NAZISTA” E DISPARA CONTRA A IMPRENSA AFRONTA À DEMOCRACIA JORNAL ENTRA COM NOVO RECURSO SEM LIBERDADE NÃO HÁ POLÍTICA MENDES COBRA “CELERIDADE” DO TJ-DF SOBRE CENSURA AO “ESTADO”

ção Nacional de Jornais com 31 casos de censura à imprensa praticados nos últimos 13 meses no Brasil, 16 deles decorrentes de decisão judicial. “É como se estivesse virando moda”, salientou o Relatório. Outro motivo de indignação foi a série de recortes de edições recentes de jornais, trabalho realizado pelo próprio presidente da Comissão, Orpheu Santos Salles. Os títulos das matérias já seriam mais do que suficientes para comprovar o quanto está difícil exercer a profissão de jornalista (ver quadro). Mais uma vez, também, a Igreja Universal, mesmo sendo proprietária de jornais, rádios e emissoras de televisão, envolveu-se em nova denúncia de atentado à liberdade de imprensa, conforme denúncia do repórter Luis Carlos Gomes, da Folha de S. Paulo, impedido por seguranças de fotografar a frente da igreja de Santo Amaro sob a ameaça de “levar tiro”. A Comissão pediu que a ABI faça um protesto junto à direção da Igreja Universal, com relato inclusive, dos inúmeros casos de cerceamento e até com danos morais e constrangimento, caso da repórter Elvira Lobato, da Folha de S. Paulo.

Ofendido publicamente, quando do exercício democrático da profissão, por defender o bom uso do dinheiro público em Miguel Pereira, interior do Estado do Rio, o jornalista Paulo Alves encaminhou expediente à ABI e à Ordem dos Advogados do Brasil, comunicando sua apreensão, com o intuito de resguardar sua integridade pessoal e o direito de informar. Paulo Alves vem denunciando em seu jornal, Metrô Press, edições impressa e on line (www.jornalmetro press.jor.br), e pela emissora www.tv democratica.net, atos dos Poderes Executivo e Legislativo de Miguel Pereira nada compatíveis com a conduta da administração pública. Informou Paulo Alves que o Prefeito Roberto Daniel Campos de Almeida, popularmente conhecido por Macarrão (Partido Progressista), exerce o cargo graças a uma liminar, pois o registro de sua candidatura foi anulado por decisão da Justiça Eleitoral de Miguel Pereira e corroborado pelo Ministério Público (RE nº 6961 e AC nº 233). No editorial da edição de março de 2009 do jornal Metrô Press, Paulo Alves denunciou contratações feitas pela Câmara Municipal de Miguel Pereira, que estariam em desacordo com a Constituição Federal e também com a Lei de Contratos Administrativos (Lei nº 8.666/93 e suas atualizações). O jornalista, que grava as sessões e as retransmite sempre às sextas feiras às 17 horas em seu programa de rádio, foi ofendido pelo Presidente da Câmara, Cláudio Eduardo Alves de Moraes Soares, o Cuíca (PSDB), sem que qualquer dos demais oito vereadores se manifestassem. O fato repetiu-se recentemente. A Comissão, neste caso, também por unanimidade, recomenda que a ABI envie protesto por escrito ao prefeito de Miguel Pereira e à Câmara de Vereadores, a fim de evitar males maiores e preservar o pleno direito à liberdade de imprensa e, em última análise, ao exercício do regime democrático. (Mais notícias do Relatório da Comissão na página 33)

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Liberdade de imprensa Um apelo desesperado dos aposentados da Varig ao Advogado-Geral Toffoli Como representante da União, ele iniciou uma negociação que, prometeu, estaria concluída em 60 dias. Passaram-se 60 dias, outros 60 e muitos mais, e nada de sair o acordo anunciado.

Batã: Justiça condena os seqüestradores da equipe de O Dia No episódio de violência, ocorrido em maio do ano passado, uma equipe de reportagem e um motorista do jornal foram torturados e ameaçados de morte e tiveram seus equipamentos roubados. JOSE REINALDO MARQUES

lhes sofrimento físico e A penalização da vimental para obter inforolência, com a reafirmações”. mação da necessária liberdade de imprensa. Fez-se justiça Esse foi o tom principal A condenação dos da decisão que condemilicianos foi recebida nou a 31 anos de prisão com sentimento de juso ex-policial civil Oditiça no jornal. O Diretor nei Fernandes da Silva de Redação Alexandre e Davi Liberato de AraFreeland considerou a újo, julgados no dia 12 sentença uma vitória. de agosto, pelos crimes “Nós sempre tivemos de tortura, formação de a certeza que a justiça quadrilha armada e rouFreeland: decisão histórica. seria feita, principalbo, em sentença proferimente pela coragem que da pelo Juiz Alexandre a equipe demonstrou desde o primeiAbrahão, da 1ª Vara Criminal de Banro momento e a correção da Polícia gu. As vítimas de tais atos foram uma Civil e do Ministério Público, que reequipe de reportagem e o motorista do sultou em uma sentença exemplar. jornal O Dia. Trata-se de uma decisão histórica para Os condenados faziam parte do grua democracia e o livre exercício do jorpo de milicianos que torturou e roubou nalismo”, declarou o Freeland,, que equipamentos como celulares e máquidestacou o apoio recebido da ABI. na fotográfica da equipe do jornal, na “Desde o início desse processo a ABI noite do dia 14 de maio de 2008, na Fanos apoiou. Faço questão de reafirmar o vela do Batã, na Zona Oeste do Rio, nosso carinho e respeito pela entidade, durante intimidação do trabalho de repelo apoio e o suporte que demonstrou portagem. Levadas a uma casa em Geà equipe de O Dia naquele momento”. ricinó, as vítimas foram torturadas por O caso de seqüestro e tortura foi mais de sete horas com socos, chutes, amplamente divulgado no Site ABI Onpontapés, asfixia com saco plástico, line e tema da reportagem O Terror da empalação e ameaça de roleta-russa Milícia que Seqüestra e Tortura, do Jorcom revólver. nal da ABI, edição nº 330. Para o promotor que acompanhou o “Ficamos indignados com o relato da caso, o objetivo dos criminosos era situação vivida pela equipe. Estamos obter informações quanto ao materinos dirigindo ao governo do Estado al jornalístico. Na sentença, o Juiz Alepara pedir informações. E vamos cobrar xandre Abrahão afirmou que “o procesa apuração dos fatos e a prisão dos resso demonstra que os suspeitos consponsáveis”, declarou na época o Presitrangeram as vítimas com emprego de dente da ABI, Maurício Azêdo. violência e grave ameaça, causando32 Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

RENATO ARAÚJO/ABR

Dois momentos do jornal O Dia: A esquerda, com a denúncia da ação dos criminosos e acima, enfatizando a sentença da justiça.

Em e-mail repassado de emoção, o aposentado da Varig Jorge Wilson da Villarinho pediu ao AdvogadoGeral da União, José Antônio Dias Toffoli, que a AGU promova o acordo destinado à solução da questão Varig-Aerus, a fim de que sejam restabelecidos os benefícios dos inativos da extinta empresa. Toffoli admitia a conclusão do acordo dentro de 60 dias, mas esse prazo se esgotou. Decorreram mais 60 dias e, diz Villarinho, “nada mudou”: “pelo contrário, atrasou o que já estava em vias de conclusão”. Villarinho, que é radicado em Niterói, RJ, enviou o texto de seu e-mail a inúmeras autoridades, entre as quais a Ministra Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff; os Ministros do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes e Carmem Lúcia; os Senadores José Sarney, Marcelo Crivella, Paulo Paim e Mário Couto; à ABI e a jornalistas de vários veículos de comunicação. Sua mensagem, expedida em 26 de agosto, tem o seguinte teor: “Quando a Advocacia-Geral da União-AGU se propôs trazer para si a responsabilidade de dar um rumo definitivo à questão Varig/ Aerus, constituindo uma comissão que teoricamente se debruçaria sobre o assunto com esmero interesse, criou-se mais uma vez para os sofridos aposentados da Varig uma esperança. O pedido de 60 dias para estudar a viabilidade de um acordo foi um sinal convincente de que estávamos mais próximos de tudo aquilo que mais almejamos – a recuperação de nossos benefícios. Enfim, o reconhecimento, pensei. Triste engano, aliás, mais uma decepção. Decorridos os 60 dias vencidos, até o momento nenhum sinal de acordo. Toda a trama se repete, ou seja, nada de novo acontece. O desvio do processo do Supremo Tribunal Federal e o desenrolar das negociações indicam que nada mudou: pelo contrário, atrasou o que já estava em vias de conclusão. Exmo. Sr. Ministro José Antônio Dias Toffoli, Vossa Excelência ao se colocar como fiel defensor dos interesses da Pátria demonstra o porvir de uma brilhante carreira, o que considero admirável. Vossa demonstração de lealdade pode lhe conferir um futuro de grandes realizações, assim como para todos aqueles que iniciam

Toffoli: Compromisso com os aposentados da Varig não foi cumprido.

com seriedade suas carreiras procurando investir com lealdade e máxima dedicação naquilo que se propõem a fazer. Porém uma ressalva: gostaria de alertar a Vossa Excelência que nem tudo aquilo que planejamos, mesmo que tenhamos nos esforçado em procurar ser o melhor no desempenho de nossas funções, como o foi o nosso caso, significa que no final da vida sejamos recompensados. A nossa história comprova isso. Por mais cruel que pareça, hoje estamos lutando por um espaço digno na sociedade para que não terminemos a vida como indigentes, fato este que, definitivamente, não combina com o nosso histórico de vida. Vossa Excelência, por ter estudado, analisado e julgado esse grande golpe, sabe que os argumentos não são infundados. Fizemos da Varig um símbolo de um Brasil moderno e próspero, como podem comprovar todos aqueles que continuam na vida pública como políticos que usufruíram desta condição. Vossa Excelência, por estar a serviço da Nação, não pode deixar de lembrar que dela fazemos parte como filhos desta que se diz “Mãe Gentil”. Agradeço a compreensão e peço mais uma vez uma especial atenção para esse drama sem fim. O prazo se expira, assim como nossas vidas. Choro o descaso, choro a insensibilidade, choro a subtração dos meus direitos, mas choro principalmente o que a vida pode ficar a me dever. Jorge Wilson da Rocha Villarinho, aposentado Varig-Aerus.”


Direitos humanos

Sem-terra, pai de dois filhos, é morto pela Brigada Militar em desocupação violenta Policiais usaram pistolas que davam choque nas pessoas; elas desmaiavam de dor, relata Coordenadora do MST.

Milícias ameaçam Cidinha de morte Anotou o Relatório da Comissão que “a triste realidade é que a liberdade de expressão está cada vez mais difícil de ser exercida não apenas pelos profissionais de imprensa, mas por todos os segmentos”. “Por isso mesmo – acrescentou –, o Presidente da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, Deputado Jorge Picciani (PMDB), enviou ofícios ao Governador Sérgio Cabral e ao Secretário de Estado de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, solicitando proteção para a Deputada Cidinha Campos (PDT) e seu filho, Ricardo Campos Strauss, que estariam sendo ameaçados de morte pelo Vereador do Rio Cristiano Girão (PMN).” A solicitação foi motivada por denúncia feita em plenário pela Deputada, que recebeu a informação de que o Vereador, suspeito de pertencer à milícia, está tramando sua morte e a de seu filho

ALERJ

Na segunda parte de seu Relatório, a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos registrou que estes continuam sendo desrespeitados e, o que é pior, com a criminalização dos movimentos sociais e o uso do aparato policial às vezes com extrema violência até contra mulheres e crianças. Tal ocorreu no dia 12 de agosto, em São Gabriel, no Rio Grande do Sul. Além da morte do trabalhador rural Élton Brum da Silva, de 44 anos, pai de dois filhos, natural de Canguçu, com um tiro desferido no peito, por policiais da Brigada Militar que faziam o despejo da Fazenda Southall, 50 pessoas ficaram feridas, 15 com gravidade. A Coordenadora do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra-MST, Nina Tonin, contou que desde dezembro do ano passado cerca de 650 famílias foram assentadas no Município. “Até o momento – disse Nina Tonin – tivemos graves problemas de saúde. Três crianças morreram por falta de atendimento médico. Além disso, cerca de 400 crianças em idade escolar estão perdendo o ano letivo. A Polícia utilizou armas do tempo da ditadura militar. Usaram pistolas que davam choque em contato com o corpo das pessoas, fazendo-as desmaiar de dor. Tivemos que acionar o Comitê Contra a Tortura para pressionar o hospital da cidade a liberar os boletins de atendimento. E essa não é a primeira vez que acontece repressão no Rio Grande do Sul, conforme denunciam os próprios sindicatos, movimentos estudantis, indígenas e MST, numa clara criminalização dos movimentos sociais.”

Cidinha Campos, deputada e jornalista: Em represália à sua atuação na CPI das Milícias, vereador do Rio levantou informações sobre seu endereço, seus hábitos, seus horários.

quando ambos forem a Búzios. “Já existe um levantamento de que lá é mais fácil me matar. Aliás, já conhecem até minha casa. A pessoa que veio aqui descreveu minha casa, o lugar onde ela está, como é feito tudo”, relatou.

Disse a Deputada que o motivo do crime seria sua atuação na Comissão Parlamentar de Inquérito que apurou a atuação das milícias no Estado. “Ele acha que eu peguei muito pesado com ele na CPI”, disse Cidinha.

O Presidente da CPI das Milícias, Deputado Marcelo Freixo (PSol), ressaltou: “Essa ameaça é fruto de um trabalho feito aqui dentro com a maior seriedade, que também gerou uma série de ameaças à minha pessoa e a outras autoridades do Rio de Janeiro. Existem promotores e delegados também ameaçados por esse grupo criminoso, que precisa continuar a ser enfrentado no Rio de Janeiro”, disse o Deputado. Voto de aplauso a Miro Teixeira Um voto de solidariedade com o Deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) foi proposto pelo Presidente da Comissão, Orpheu Santos Salles, ressaltando que o parlamentar é um defensor incondicional da imprensa, em todas as suas lutas e necessidades. A proposta foi aprovada por unanimidade, assim como o elogio feito a Miro pelo Conselheiro Germando Gonçalves, que o apontou como o maior defensor do próprio Estado do Rio. “Trata-se de um político e jornalista da maior seriedade, de uma postura exemplar e de muita credibilidade”, disse Germando.

As ditaduras no Cone Sul nos anos 70 e quem as promoveu Mário Augusto Jakobskind, de imediato apoiado por Arcírio Gouveia Neto, propôs que a Comissão solicitasse ao Conselho Deliberativo e à Diretoria da ABI que se empenhem para que o Governo brasileiro se manifeste diante das graves revelações tornadas públicas de documentos do Departamento de Estado norte-americano que comprovam a participação, nos anos 70, de governos militares em questões internas de países da América do Sul. Segundo os documentos, disse Mário Augusto Jakobskind, dois anos antes da derrubada do presidente constitucional do Chile, Salvador Allende, o então presidente de fato do Brasil, Emilio Garrastazu Médici, se comprometeu com o Presidente Richard Nixon a se empenhar na derrubada de Allende. Em outro documento do Departamento de Estado comprovam-se denúncias já formuladas segundo as quais a ditadura brasileira ajudou o

Governo uruguaio a fraudar a eleição que deu a vitória ao Presidente Juan Maria Bordaberry, em 1971, dirigente que dois anos depois foi responsável por um golpe militar que instalou uma ditadura de mais de 10 anos. Mário Augusto solicitou também que a Comissão contribua para que o Governo brasileiro torne público todos os documentos daquele período, fato que é importante neste momento em que o Brasil está empenhado no projeto de integração dos países da América do Sul. A Comissão fez dois elogios a Mario Augusto Jackosbind. O primeiro por sua atuação fora da própria ABI, em palestra na Academia de Polícia do Estado do Rio de Janeiro, sobre o assassinato de Tim Lopes. O segundo elogio foi motivado pelo lançamento do seu livro A América que não está na mídia”, na Universidade Federal Fluminense, por ocasião da Conferência Municipal de Comunicação de Niterói.

Um desagravo 30 anos depois Em outubro, Jakobskind lançará no Uruguai o livro Apesar do Bloqueio – 50 anos da Revolução Cubana e receberá o título de Cidadão Ilustre de Montevidéu, concedido pela Prefeitura da capital uruguaia. A homenagem é um desagravo por sua expulsão do Uruguai em setembro de 1981, quando o país vizinho era assolado por uma ditadura. Jakobskind estava no Uruguai como enviado especial da revista Cadernos do Terceiro Mundo, então considerada pelos usurpadores do poder como “sediciosos”. A reunião foi encerrada pelo Presidente Orpheu Santos Salles com a exaltação do papel da Comissão e a exortação a todos os seus membros para que intensifiquem sua atuação, a fim de ajudar a restabelecer o pleno exercício da profissão. “A situação é grave e parece piorar a cada dia. Não podemos ter dúvida de que a nossa Comissão, lado a lado com a ABI e o Conselho Deliberativo, nunca foi tão importante na sua missão”, disse Orpheu.

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Direitos humanos

Revivendo com emoção a luta de 1979 pela anistia Vítimas da ditadura militar reúnem-se, agora em confraternização, para celebrar os 30 anos da lei que abriu caminho para a restauração do Estado de Direito. Um ato emocionante e prolongado, que se estendeu por cerca de cinco horas, marcou a celebração, na sede do Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, em 22 de agosto, do 30º aniversário de instituição da Lei da Anistia (Lei nº 6.683, de 29 de agosto de 1979), que libertou os presos políticos, assegurou a reintegração no serviço público de milhares de cidadãos punidos pela ditadura militar e o retorno ao País dos exilados, entre os quais alguns dos mais destacados líderes da esquerda, como Luís Carlos Prestes, Leonel Brizola e Miguel Arraes, entre outros. Presidido pelo Ministro da Justiça, Tarso Genro, e com participação da ABI, representada pelo Presidente de sua Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos, Conselheiro Orpheu Salles, o ato teve momentos especialmente comoventes, como o reencontro histórico de 37 expresos políticos que se encontravam encarcerados em agosto de 1979, quando a anistia foi aprovada e sancionada. Entre eles estavam, como maioria, alguns dos participantes da greve nacional de fome pela anistia, a qual durou 32 dias e só foi encerrada no dia em que o Congresso Nacional aprovou o projeto – 22 de agosto de 1979. Chamados um a um e sob aplausos das cerca de 500 pessoas presentes à cerimônia, os antigos presos receberam uma homenagem especial do Ministro da Jjustiça, que pediu desculpas a todos em nome do Estado nacional. Não à impunidade Como em outros atos oficiais abertos à cobertura da imprensa, o Ministro Tarso Genro reiterou a cobrança da punição dos torturadores, sob o fundamento – que ele tem exposto reiteradamente – de que a Lei da Anistia não beneficia aqueles que, contrariando a legislação da própria ditadura militar, torturaram e assassinaram presos políticos. Tarso invocou disposições e decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos, órgão da Organização dos Estados Americanos-OEA, que firmou a jurisprudência de que as leis de anistia ou de perdão dos torturadores, como as adotadas na Argentina, não beneficiam quem torturou e matou. Com base nesse entendimento, a Corte anulou efeitos de leis instituídas pelo Chile, 34 Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

FOTOS ISAAC AMORIM

O Presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, abre a cerimônia comemorativa dos 30 anos da anistia. Na mesa de honra os Ministros Tarso Genro, Carlos Minc e Orlando Silva, o Deputado Raul Jungmann (PPS-PE) e o representante da ABI, Orpheu Salles (último à direita, no alto). Tarso (abaixo) homenageou vários dos convidados.

Paraguai, Peru, Colômbia, Guatemala e Equador. “Anistia não é amnésia” Também o Presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão Pires Júnior, que organizou o ato, contestou a idéia de que os torturadores possam ser favorecidos pela Lei da Anistia. Em longa entrevista distribuída pela Agência Brasil, disse Abrão: “No Brasil tentou-se fazer da anistia amnésia. Cultivou-se uma idéia estranha, de que aqueles que tomaram o Estado num golpe estariam ‘perdoando’ aqueles que lutaram

contra o golpe e por isso foram perseguidos. Hoje nós temos um conceito diferente. A Anistia, para que produza reconciliação nacional verdadeira, pressupõe a lembrança e o perdão, mas quem pede perdão é o Estado, que perseguiu seus cidadãos, que promoveu prisões arbitrárias, torturas, morte. Com isso o Estado de Direito se efetiva, pois aqueles que tiveram seus direitos violados voltam a acreditar que o Direito vale mais do que a vontade dos detêm o poder. Restaura-se a dignidade do perseguido e do Estado. A anistia é, desta feita, uma via de duas mãos”

Um selo, uma revista As comemorações dos 30 anos da instituição da anistia incluíram, no ato no Arquivo Nacional, o lançamento de um selo criado pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos-ECT e da Revista Anistia e Justiça de Transição, editada pela Comissão de Anistia, que terá periodicidade semestral, e uma sessão de autógrafos de autores de livros sobre a história do período ditatorial, da anistia política e da resistência popular à ditadura. Entre esses autores figurou Pery Cotta, Presidente do Conselho Deliberativo da ABI, autor de Calandra: O Sufoco da Imprensa nos Anos de Chumbo. A estampa do selo, que será utilizado pela Comissão de Anistia em todas as suas correspondências oficiais até o fim do ano, tem as cores preto e vermelho, a primeira simbolizando as vozes caladas, o silêncio, a lembrança dos que morreram na luta contra a ditadura e o percurso na clandestinidade; a segunda, os sentimentos de esperança, solidariedade e justiça que levaram homens e mulheres à luta contra a ditadura. A criação do selo integra a política de divulgação da memória política do País e de resgate da luta pela democracia. Com esse fim a Comissão de Anistia firmou parceria com dois bancos públicos para a difusão do tema. A frase 1979-2009: Trinta anos de luta pela anistia no Brasil foi impressa nos extratos bancários do Banco do Brasil entre os dias 26 e 28 de agosto e da Caixa Econômica Federal entre os dias 24 e 30. Primeira publicação periódica em língua portuguesa dedicada exclusivamente ao tema, a Revista Anistia Política e Justiça de Transição publicará textos sobre questões relacionadas à justiça de transição, conceito aplicado pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, que reúne quatro práticas para lidar com o legado deixado por regimes de exceção, a reforma das instituições para a democracia, o direito à memória e à verdade, o direito à reparação e o adequado tratamento jurídico aos crimes cometidos no passado. A Revista será distribuída a bibliotecas e centros de pesquisa, tribunais e órgãos especializados do Estado. A partir de setembro estará disponível na internet.


Aconteceu Mensagens na ABI Governo RJ retoma o pagamento da reparação moral às vítimas da ditadura Além de 28 vítimas de prisões e torturas, foram indenizadas as famílias dos jovens Jailton Néri e Wallace de Almeida, assassinados por policiais militares nos anos 90. CARLOS MAGNO

A RELAÇÃO DOS INDENIZADOS Além das famílias de Jailton e Wallace, o Estado pagou a reparação moral a estas vítimas da ditadura ou seus herdeiros: sete delas morreram antes de se fazer justiça.

• JOÃO CLAIR CORTES • JONAS SOARES • JORGE GALVÃO DOS SANTOS • LINCOLN BICALHO ROQUE (FALECIDO)

• AMADEU PEREIRA DE LIMA (FALECIDO)

• LUÍS MIGUEL RAMOS AUDE (FALECIDO)

Herdeira:Tatiana Marins Roque Herdeiras: Alba Valéria Gonzaga de Lima, Maria da Glória Gonzaga de Lima • ANTONIO RAMIRO DA SILVA • CID DE QUEIROZ BENJAMIN • CRIMEIA ALICE SCHMIDT DE ALMEIDA • EUNÍCIO PRECILIO CAVALCANTE • ETUELEM ROQUE DE ASSIS (FALECIDO) Herdeiros: César Augusto Roque de Assis, Jorge Alberto Roque de Assis, Léa Maria Roque de Assis Telles, Maria Augusta Cardoso de Assis, Max Antônio Roque de Assis • HELIO DA SILVA • HENRIQUE JOÃO CORDEIRO FILHO • IVAIR CALDAS GIL • JESUS DA LUZ DOS REIS (FALECIDO) Herdeiros: André L. Soares dos Reis, Ângelo Ernesto dos Reis, Maria Efigênia de Jesus • JESUS SOARES ANTUNES

Herdeira: Edila Pinheiro Aude

• MANOEL EDIVALDO DA SILVA (FALECIDO) Herdeiros: Edilza Maria da Silva Cunha, Edilze Maria da Silva Malvar, Leonardo Lopes da Silva • MANOEL FRANCISCO DO PRADO • MANOEL PACHECO DOS SANTOS • MIRIAM MARREIRO MALINA • NARCISO JÚLIO GONÇALVES • ODILON DE SOUZA PACHECO • PEDRO ALVES FILHO • RENAN GOMES DE MENEZES • ROLAND PAULE FICHBERG • RUCIVAN CORDEIRO • RUIZDAEL DA SILVA FILHO (FALECIDO) Herdeira: Gisele Luzia da Silva Marques • TRISTÃO BRAGA SOBRINHO • WALTER HERMANN ROBERT LAUBERT

Em e-mail ao Jornal da ABI, o Diretor do Instituto Vladimir Herzog, Ivo Herzog, contestou a informação de que o jornalista Rodolfo Konder, atualmente Presidente da Representação da ABI em São Paulo, não fora convidado para participar da cerimônia de lançamento do Instituto Vladimir Herzog, como noticiado em nossa edição nº 342. Ivo Herzog apresenta sua versão acerca do episódio e diz que “seria oportuno uma nota de esclarecimento do equívoco”. Após ouvir Rodolfo Konder, para saber o que de fato ocorrera e se ha-

via fundamento na notícia publicada, a ABI respondeu em 24 de agosto à mensagem de Ivo Herzog, reafirmando a procedência do noticiado e esclarecendo que o convite chegado à ABI em São Paulo tinha um caráter impessoal, e não um convite dirigido expressamente a ele, Konder, que “merecia uma atenção especial, pela forte ligação afetiva que ele tinha com Vlado”. Além de enviar essa mensagem, o Jornal da ABI manteve contato pessoal com Ivo Herzog através do associado Francisco Ucha, um dos nossos editores.

A CARTA DE IVO HERZOG

INSTITUTO VLADIMIR HERZOG/DIVULGAÇÃO

O Governo do Estacaso pendente. Vamos do do Rio de Janeiro chamar o Secretário de promoveu no dia 25 de Fazenda porque isto é agosto, no Palácio Guauma questão moral e nabara, em Laranjeimenos financeira, do ras, cerimônia de repaponto de vista dos nosração simbólica a 30 sos compromissos com ex-presos políticos do a democracia plena. regime militar, e às faManuel Francisco mílias dos jovens Jaildo Prado, de 66 anos, ton Neri e Wallace de suboficial da Marinha, Almeida, assassinados um dos 30 ex-presos por policiais militares políticos indenizados, na década de 90. O prirecordou as dificuldameiro grupo receberá des impostas pelo regiindenizações no valor me autoritário e sublide R$ 20 mil, e as famíSérgio Cabral na cerimônia: uma nhou a importância do lias, R$ 50 mil. questão moral e menos financeira. ato de reparação: – São duas repara– As lembranças da ções importantes de atos cometidos por ditadura são muito difíceis. Se eu fosse brutalidade, de desrespeito completo ao relatar, levaria horas. Nós enfrentamos Estado Democrático de Direito. Nós temuita pressão do corpo militar. Eu, por mos um enorme orgulho de estarmos viexemplo, fui obrigado a ficar na casa de vendo um Brasil diferente, um Brasil parentes e amigos até o período das Dique conquistou a duras penas a demoretas Já e da anistia. Esta cerimônia de recracia– afirmou o Governador, que conparação é importante para o conjunto da duziu a cerimônia ao lado da Secretária sociedade e não apenas para nós que sode Estado de Assistência Social e Direifremos em 1964. tos Humanos, Benedita da Silva, o SeAo entregar os termos de reparação cretário da Casa Civil, Regis Fichtner, às mães de Jailton Neri e Wallace de Ale o Coronel Mário Sérgio, Comandanmeida, assassinados por membros da te-Geral da PM do Rio, entre outras auPM, Sérgio Cabral pediu desculpas em toridades. nome da corporação. Disse Sérgio Cabral que 45 famílias – Quero aqui também pedir desculjá foram reparadas em 2009 e até 2010 pas, em meu nome, como Governador o Estado pretende indenizar todas as deste Estado, a estas duas mães e lempessoas que requereram essa reparação. brar que a ordem pública é aliada da – Vou determinar isto à Secretaria de democracia desde que feita com respeiFazenda, pois não quero deixar nenhum to aos direitos.

Uma carta de Ivo Herzog

O e-mail de Ivo Herzog, expedido em São Paulo no dia 4 de agosto, estava assim redigido: “Prezado Presidente da ABI, Com muito espanto vi nota que credita a não presença do Sr. Rodolfo Konder na cerimônia de lançamento do Instituto Vladimir Herzog como sendo o resultado de um esquecimento da organização do Instituto e, conseqüente, não convite. Este fato não corresponde à verdade, uma vez que eu pessoalmente entrei em contato com a ABI-SP, falei com o secretário do Sr. Konder e foi enviado email para a ABI-SP (já que o Sr. Konder não possui email direcionado diretamente a ele) convidando não apenas para o evento, mas também para fazer parte do conselho do Instituto Vladimir Herzog, como consta e foi anunciado durante a cerimônia do dia 25 de junho de 2009 e reproduzido em nosso site. Rodolfo Konder faz parte da história da trágica morte de meu pai. Testemunha ocular daqueles dias terríveis, a ABI tem sido parte integrante do comitê organizador do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, que este ano entra na sua 31ª edição. O Instituto Vladimir Herzog surge como uma nova forma de unir pessoas e entidades que se preocupam com questões ligadas à justiça e o direito à vida. Infelizmente a nota equívoca publicada no jornal dessa instituição passa uma mensagem oposta. Seria oportuno uma nota de esclarecimento do equívoco. Coloco-me à sua disposição para eventuais explicações adicionais.

“Caro Ivo Herzog, Peço desculpas pelo atraso com que respondo ao seu e-mail do dia 4, no qual Você faz reparos à notícia do Jornal da ABI acerca da ausência de convite a Rodolfo Konder para participar do ato de lançamento do Instituto Vladimir Herzog. Vamos registrar sua contestação, na íntegra, na edição de agosto do Jornal da ABI, mas esclarecendo que houve no caso uma série de desencontros. Informou Rodolfo que teve notícia da chegada do convite à Representação da ABI em São Paulo, de que ele é Presidente, mas se tratava de uma comunicação impessoal, e não de um convite dirigido expressamente a ele, que merecia uma atenção especial, pela forte ligação afetiva que ele tinha com Vlado. Nosso companheiro Francisco Ucha, Editor do Jornal, informou que esteve com Você para desfazer o desconforto que esse acidente impôs a todos nós.

(a) Ivo Herzog, Diretor do Instituto Vladimir Herzog.”

Abraço cordial (a) Maurício Azêdo, Presidente da ABI.”

Ivo Herzog discursa durante a cerimônia de lançamento do Instituto Vladimir Herzog.

A RESPOSTA DA ABI

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RETROSPECTIVA FOTO E REPRODUÇÕES: DIVULGAÇÃO

E

le era incompreendido por muitos, adorado por outros e enigmático para quase todos. Mas quando entrava no pequeno quarto, ao mesmo tempo seu ateliê e refúgio, onde, iluminado por um pequeno foco de luz, cercava-se de goivas e de formões para trabalhar a madeira madrugadas a fio, ninguém podia negar: produzia verdadeira poesia na xilogravura. Agora, parte da obra de Osvaldo Goeldi (pronuncia-se “Güeldi”), o pai da gravura brasileira e um dos mais destacados nomes do expressionismo no País, pode ser apreciada em uma exposição itinerante que passará por algumas capitais nos Centros Culturais da Caixa Econômica Federal. Nos meses de agosto e setembro foi a vez de São Paulo receber a mostra Goeldi, Luz Noturna. A maior parte das obras já ilustrou livros, álbuns, e jornais e revistas, das quais o artista foi colaborador durante muito tempo. Mas algumas, do acervo do Museu Nacional de Belas-Artes do Rio de Janeiro, são inéditas para o grande público. Apesar de bastante variadas, as obras trazem dois dos temas preferidos do gravador: a vida na região da Amazônia, onde ele passou seus primeiros anos, e o cotidiano das pessoas simples nas grandes cidades. Andando pelas ruas ou passando horas sentado no cais, ele não desgrudava de seu bloco de anotações. Com traços firmes, nervosos e incisivos, enchia as páginas com croquis rápidos, que mais tarde transformava em xilogravuras reproduzindo cenas de mercado, animais, pescadores em plena labuta e homens de guarda-chuvas. – Para essa mostra, escolhemos obras selecionadas a partir de três coleções. O objetivo é expor um pouco mais da vida e de seu cotidiano. Osvaldo era um homem um tanto quanto solitário, mas com uma técnica bem peculiar, que não dava ênfase ao claro na gravura e, sim, ao escuro. Pela luz representada de forma incisiva em alguns traços, ele tornou-se capaz de trazer o cotidiano à reflexão pela arte silenciosa. Era pouca a luz com que trabalhava nas noites, mas muita a luz que trazia por suas obras. Foi isso que serviu de inspiração para a atual exposição. – explica a curadora Lani Goeldi, sobrinha de Osvaldo Goeldi. Publicitária, escritora, webdesign e artista plástica, como o tio, Lani preside a Associação Artístico-Cultural Osvaldo Goeldi, entidade responsável por preservar sua obra e memória, além de promover atividades culturais por meio de cursos, workshops e eventos. Atualmente, o Projeto Goeldi, iniciativa da instituição, já catalogou e cuida dos direitos autorais de mais de 2 mil

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Luz Noturna oferece ao grande público a oportunidade de recordar as obras de Osvaldo Goeldi, um dos precursores do modernismo, pai da gravura brasileira e importante ilustrador de livros e periódicos. POR MARCOS STEFANO

Um poeta das sombras e da luz


Chuva (de 1957), Urubus e Casa ao Fundo (de 1925), Perigos do Mar (de 1955) e Peixaria (de 1950) fazem parte da mostra que pretende tornar Goeldi conhecido do grande público.

peças, entre desenhos e gravuras, feitas pelo artista. Parte desse rico acervo pode ser conhecida pela internet, no Centro Virtual de Documentação e Referência Osvaldo Goeldi, site acadêmico de pesquisa, mantido pela associação para estudantes e professores. O portal conta com áreas educacionais e uma vasta documentação sobre o artista, tudo coordenado pela historiadora Noemi Ribeiro, que há mais de 20 anos pesquisa a obra de Goeldi: – Torná-lo conhecido do grande público não é somente acabar com a aura de mistério que envolve Goeldi, mas difundir a história da arte e da cultura nacionais. – acredita Lani. Dilemas do homem Gravador, desenhista, ilustrador e professor, Osvaldo Goeldi nasceu no Rio de Janeiro em 1895. Era filho do

cientista suíço Emílio Augusto Goeldi, que veio para o Brasil a convite do Imperador D. Pedro II para dirigir o Museu Nacional. Porém, quando o pequeno Osvaldo tinha apenas um ano, a família se mudou para Belém, no Pará, onde o pai fundou o Museu de História Natural e Etnografia, hoje Museu Emílio Goeldi. Os anos na cidade foram tempos que ficaram marcados de forma indelével na memória do menino, deixando lembranças e servindo como fonte de inspiração para a futura obra do artista. Mas não duraram muito. Quando tinha apenas seis anos, a família volta à Europa e vai morar em Berna, na Suíça. Em 1914, ele é admitido na Escola Politécnica, em Zurique, mas, logo em seguida, forçado a interromper os estudos por causa da I Guerra Mundial. Convocado para o serviço militar,

Goeldi serviu como sentinela na fronteira com a Áustria e não esteve nos grandes combates. Ainda assim, aqueles tempos também deixaram marcas profundas em sua personalidade, fazendo aflorar uma personalidade melancólica. Juntou isso com mágoas e emoções mal-resolvidas da juventude, que incluíam falsos amigos, traições e rejeições familiares. Tornou-se um sujeito introspectivo, que veria a arte como uma catarse, capaz de expressar perfeitamente os dilemas do homem. As agruras da juventude se completaram com a morte do pai em 1917. Se já não sentia muito interesse pela engenharia, com o falecimento, encontra a justificativa perfeita para voltar a Genebra e dar vazão a seu verdadeiro interesse: o desenho. Entretanto, os seis meses na Ecole des Arts et Métiers (Escola de Artes e Ofícios) foram ou-

tra decepção. Somente o contato com os artistas Serge Pahnke e Henri van Muyden satisfará o jovem artista, que a partir daí começa a expor. Goeldi também conhece o autríaco Alfred Kubin, que se tornará seu mentor artístico, e o pintor Hermann Kümmerly. Com o primeiro, apreende o aspecto imaginativo e sombrio das cenas e incorpora ao seu trabalho temas mórbidos, ambientados em cenários aterradores. Com o último, faz suas primeiras litografias. A volta ao Brasil aconteceu em 1919 e Goeldi se estabeleceu no Rio de Janeiro. Foi por esse tempo que iniciou a carreira de ilustrador, colaborando com a revista Paratodos e com o jornal A Manhã. A primeira exposição por aqui se deu no saguão do Liceu de Artes e Ofícios, mas acabou muito criticada pela imprensa e foi mal recebida pelo meio artístico brasileiro, que

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RETROSPECTIVA UM POETA DAS SOMBRAS E DA LUZ

se opunha ferozmente aos avanços artísticos da Europa. Apesar de tamanha negatividade da crítica, a partir dela Goeldi acaba se aproximando de um grupo de artistas, escritores e intelectuais interessados na renovação criativa. Tornou-se amigo e parceiro para toda a vida de gente como Beatrix Reynal, Aníbal Machado, Álvaro Moreira, Di Cavalcânti, Otto Maria Carpeaux, Ronald de Carvalho, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Raquel de Queiroz e Ferreira Gullar. – Gravando, imponho uma disciplina às divagações a que o desenho me leva. –, dizia ele, referindo-se a sua incursão na xilogravura, o que aconteceu a partir de 1923, quando veio a conhecer a técnica com Ricardo Bandi. Ao final da década, Goeldi a ilustração era sua principal atividade profissional. Dedicava-se ainda às xilos e aos desenhos. Por esse tempo, colaborou com o periódico O Malho e fez imagens para o romance Canaã, de Graça Aranha, e O Mangue, de Benjamin Constallat. Em 1930, é a vez dele lançar seu próprio álbum, Dez Gravuras em Madeira, prefaciado por Manuel Bandeira. Foi com os recursos obtidos com a venda do álbum que pôde retornar à Europa, onde, durante dois anos, fez uma série de trabalhos, retomou contatos e inspirações e expôs suas obras duas vezes, uma em Berna e outra em Berlim. Realizações e não experiências É inegável o caráter inovador que Goeldi trouxe com sua obra. Em meio a superfícies predominantemente negras, as figuras aparecem vazadas na tinta, como ocorre com Abandono, de 1930. Ao abrir poucos traços na madeira, a luz, em suas xilos, parece lutar para conquistar presença em meio às superfícies escuras. Apesar disso, enfaticamente rejeitou ser comparado com outros artistas e as “experiências”, que afirmavam fazer: – Eles dizem que suas obras são “experiências” e passam a vida inteira “experimentando”. Mas nunca chegam a realizar a obra propriamente dita. Arte não é experimento, é realização. – contestava o gravador. Outra implicação do artista era em relação ao uso da cor nas obras. Em fins dos anos 1940 e começo dos 50, por exemplo, a gravura brasileira sofreu grande influência de artistas estrangeiros, principalmente europeus e norteamericanos, que se voltavam para a renovação técnica e temática. Fiel à valorização dos meios genuínos de gravar, Goeldi era irônico: – Isso não é gravura, é estampagem. Referia-se a um tipo de gravura, que usava grandes placas de madeira, im38 Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

Três Mulheres (acima) e Pescador e Cabeça de Peixe: muitas das gravuras expressionistas de Goeldi se caracterizavam pelo forte apelo social.

pressas em cores. Para ele, o uso da cor fora uma conquista difícil, que custou anos de trabalho e apuro. Também o levou a se afastar de suas principais referências, consolidando uma linguagem própria e singular: – A cor na xilogravura – ensinava ele – deve ter um caráter próprio, diferente da cor na pintura ou na estampagem. Cor, na gravura, só pode ser “gravada”. – De fato, quando se observam as gravuras dele em que aparece a cor, esta possui caráter especial que lhe empresta expressão própria. Basta lembrar a célebre xilo Guarda-Chuva Vermelho, na qual a cor vermelha do guarda-chuva, ao mesmo tempo em que fulge como um relâmpago na composição de formas negras, integra-se na linguagem xilográfica do mesmo modo que as demais formas. Está ali efetivamente gravada, como um sulco em meio ao ambiente escuro. A verdade é que Goeldi era, no fundo, um expressionis-

ta. E digo isso por conta da entrega passional que fazia à expressividade intensa da obra criada e às exigências éticas do trabalho: usar a placa de madeira mal-lixada, a palma da mão, para calcar o papel sobre a chapa entintada. Ele rejeitava todo e qualquer recurso técnico sofisticado que o afastasse da relação direta que o artesão estabelecia com sua linguagem genuína. – escreveu certa vez Ferreira Gullar, analisando a obra do artista. Reconhecimento Na década de 1940, Goeldi consolidou-se como um dos principais ilustradores brasileiros. Colaborava com o jornal Correio da Manhã, com a revista Clima e fazia imagens para livros, como os de Dostoievski, Villegas Lopes e Cassiano Ricardo. O reconhecimento surge a partir de 1950, ano em que Goeldi expôs na 25ª Bienal de Veneza. Um ano depois, o artista é premiado na

1ª Bienal Internacional de São Paulo. Já renomado, sua presença em bienais e exposições individuais, dentro e fora do Brasil, passa a ser constante. Em 1956, teve suas duas primeiras retrospectivas organizadas: uma no Museu de Arte Moderna de São Paulo e outra no do Rio. Paralelamente, iniciou a carreira de professor, lecionando em escolas e promovendo cursos. – Apesar de ter consolidado a carreira como gravador, ele nunca abandonou os desenhos e ilustrações. Conciliou tudo. Quando entrava em seu ateliê, ninguém o perturbava e nem o distraía de sua criação. Goeldi não se casou nem teve filhos, mas tratou a vastíssima produção cultural como grande legado de sua vida. Tanto é que mesmo depois de sua morte, numa Quarta-Feira de Cinzas, 15 de fevereiro de 1961, por causa de um ataque cardíaco em seu apartamento, suas obras continuaram sendo expostas em sucessivas mostras, bienais e eventos sobre arte moderna. – conta Lani Goeldi. A mais recente delas é a exposição Goeldi, Luz Noturna, que, depois de passar por São Paulo, já tem presença confirmada em janeiro de 2010, em Brasília, e em março, na cidade de Curitiba. A curadora ainda negocia projetos para levar a mostra para o Rio, Salvador e Belém. De qualquer forma, no ano que vem, segundo Lani, o público poderá conferir uma grande parte do trabalho em gravuras, desenhos e ilustrações na maior exposição já realizada sobre o artista, programada para acontecer a partir do dia 27 de julho, nos Correios, também no Rio de Janeiro. Em vida, Osvaldo Goeldi era um homem simples. A despeito da vasta cultura herdada dos pais e de freqüentar as melhores escolas do Exterior, preferiu se aproximar da vida simples e dos excluídos e levar uma vida, por vezes, boêmia. Para ele, as cenas do dia-a-dia, o homem simples e os trabalhadores, assim como bêbados, vagabundos, idosos, prostitutas, com todas suas emoções e desventuras, representavam inspiração quase inesgotável. Em geral, suas obras e personagens não possuíam originalmente títulos. Receberam quando começaram a ser catalogadas e organizadas. O que não significa que não pudessem ser facilmente reconhecidas por quem via as gravuras, ilustrações e desenhos. Apesar de não trabalhar com mundos fantásticos, como vários de seus contemporâneos, Goeldi também era um visionário, mas da crua realidade. Como disse em uma ocasião Carlos Drummond de Andrade, ele lidava com a “irrealidade do real”. Talvez, por isso, seja tão importante lembrá-lo: o assombro de sua arte continua sendo parte inexorável de nosso cotidiano.


ACERVO ACERVO INSTITUTO MOREIRA SALLES

Uma nova vitrine para as artes Livraria Cultura e Instituto Moreira Salles abrem loja na Avenida Paulista, em São Paulo, para tornar acervo de fotos, artes plásticas, músicas e publicações mais conhecido do grande público. POR MARCOS STEFANO

ferencia por atuar principalmente em iniciativas concebidas e executadas por ele próprio e não no mecenato tradicional, que privilegia o apadrinhamento de projetos já existentes. Essas ações normalmente são de médio e longo prazos, sem a data de validade que condena grande parte dos programas culturais no País. No Rio, em um prédio de 600 metros

quadrados e três andares, ainda funciona a Reserva Técnica Fotográfica do IMS, com o maior acervo privado do Brasil e uma ênfase para a iconografia urbana das grandes capitais brasileiras nos dois últimos séculos. Lá é feita a recepção, restauração, guarda e divulgação de milhares de imagens de grande importância estética e histórica. Já a Reserva TécniACERVO INSTITUTO MOREIRA SALLES

A Avenida Paulista, em São Paulo, coração financeiro do Brasil, já não bate no mesmo compasso. Cada vez mais, o que pulsa forte por lá são as artes. Depois dos museus, das exposições temáticas e temporais, das feiras-livres, dos centros culturais, dos institutos e das fundações, a novidade agora são as lojas. É dessa forma que, desde junho, o rico acervo de um dos maiores complexos privados dedicados à cultura e às artes está mais perto do grande público. Em parceria, a Livraria Cultura e o Instituto Moreira Salles abriram no Conjunto Nacional uma loja para comercializar mais de 150 produtos do IMS, entre livros, catálogos, postais, cds e publicações como os Cadernos de Literatura Brasileira, os Cadernos de Fotografia Brasileira e a Revista Serrote. A grande novidade, no entanto, é a oportunidade de ver mais de perto parte das imagens da mais importante fototeca do Brasil, com 550 mil itens, dentre eles, as coleções de mestres dos séculos XIX e XX, como Marc Ferrez (1843 – 1923) e o francês Marcel Gautherot (1910 – 1996). Criado em 1990, o IMS atua em cinco áreas principais: fotografia, literatura, biblioteca, artes plásticas e música brasileira. Com centros culturais no Rio de Janeiro, São Paulo e Poços de Caldas (MG), o instituto se di-

A cena bucólica da modelo fotografada por Otto Stupakoff nos Jardins de Boulogne, em Paris, tem tiragem limitada a nove exemplares, mas o Corcovado visto pela lente de outro mestre da fotografia, Marc Ferrez, está disponível em arquivo digital.

ca Musical, também no Rio, conta com o mais importante complexo do gênero dedicado à preservação e divulgação da memória da mpb. No espaço funcionam terminais de consulta para o público, auditório para palestras e exposições, sala de pesquisas especiais, a área de guarda e um estúdio de gravação. A reserva abriga ainda o Centro Petrobras de Referência da Música Brasileira, formado pela coleção Humberto Franceschi. – Todo esse acervo é de grande importância não apenas para entender as transformações da fotografia e da música, mas do próprio País ao longo do tempo. Principalmente o fotográfico estava disponível apenas para consulta interna e ganhava visibilidade apenas quando alguma das coleções era exposta ou chegava às páginas de um catálogo ou de um livro. Isso limitava a quatro ou cinco eventos por ano. Aumentamos nossa produção editorial, mas era preciso dar mais visibilidade ao acervo e aos produtos do instituto. Essa parceria com a Livraria Cultura permitirá isso. – explica Samuel Titan Junior, Coordenador Executivo-cultural do IMS. Com apenas três meses de funcionamento, Titan Junior já comemora o sucesso da empreitada. Segundo ele, desde o primeiro mês a loja já se paga, sem contar a grande visitação que recebe: – A sinergia com o público é maravilhosa. As pessoas vão ao centro cultural motivadas por novas exposições. Mas precisávamos de algo que tivesse mais apelo popular. E conseguimos com a loja num lugar de passagem de grande número de pessoas. Tendência mundial

Além de expor e comercializar produtos com a marca IMS, a nova loja conta com um mezanino onde são expostas as fotografias. Isso dá à loja ares de uma verdadeira galeria de arte. Apesar de levar a marca do Instituto e comercializar apenas seu material, o espaço é operado pela Livraria Cultura. Em outras palavras, é Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

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ACERVO UMA NOVA VITRINE PARA AS ARTES

uma loja da livraria montada para disponibilizar 100% dos títulos do Moreira Salles, que envia o material e paga um valor para divulgar sua marca. A novidade foi possível depois que a Cultura abriu sua nova loja no espaço onde funcionava o Cine Astor, em 2007. A abertura da nova livraria, a maior do País, com 4.300 metros quadrados e três pisos, fez com que suas outras quatro lojas fossem momentaneamente fechadas. Um dos antigos pontos foi reformado e, em dezembro de 2007, reaberto para abrigar o setor de artes. Em setembro de 2008, mais um ponto voltou a funcionar. Pela primeira vez em parceria com outra empresa, a Editora Companhia das Letras. Apesar de vender apenas o catálogo da editora, com 2.500 títulos, a administração, atendimento e comercialização continuaram a ser feitos pela Cultura. – Trata-se de um conceito novo para o Brasil, mas que em outros países é uma tendência: o varejo customizado. Normalmente, as editoras têm pouco espaço para exibir seu material. Ele fica misturado no meio de diferentes produtos nas lojas tradicionais e consegue maior visibilidade apenas nas bienais, bastante localizadas e restritas. Essa ação é inovadora, pois a marca tem grande exposição. No caso do IMS, a proposta é realmente fascinante, já que as características do acervo conferem tons artísticos

Cultura não só no nome Enquanto boa parte dos cadernos de cultura dos jornais se rende aos releases e às agendas prontas e as revistas tornam-se cada vez mais seletas e especializadas, a Livraria Cultura decidiu assumir de vez a vocação de ser mais que uma loja e produzir informação de qualidade. Para isso, reformulou sua revista mensal, transformando uma publicação que começou como um catálogo para divulgar lançamentos em um veículo moderno de provocantes reportagens e entrevistas. Desde abril, quando estreou seu novo projeto gráfico, reagrupando seções e adotando um visual mais moderno e despojado, a Revista da Cultura vem mostrando que é possível fazer jornalismo cultural de qualidade, mesmo sendo uma publicação gratuita e distribuída apenas para os clientes das lojas. Seguindo uma tendência adotada por outros veículos como a Serafina, revista especial do jornal Folha de S. Paulo, e Rolling Stones, a Revista da Cultura passou a ter um formato mais quadrado, elaborado pela Sax Editorial, e ficou dividida em quatro seções prin-

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Na livraria o público pode adquirir imagens digitais antes inacessíveis, como Flora, do francês Marcel Gautherot, ou pôsteres fotográficos, como a Chegada dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira, vindos da Europa que José Medeiros clicou em 1946.

ao espaço. – avalia Fabio Herz, Diretor Comercial da Cultura. Atualmente com oito unidades, a livraria pretende abrir mais duas filiais, em Fortaleza e uma nova em Brasília. Uma nova loja customizada deve ser aberta no Conjunto Nacional até outubro, dessa vez, em parceria com a Editora Record. Enquanto isso, a loja do IMS faz su-

cesso entre os mais diferentes públicos e bolsos. Quem passa lá pode tanto adquirir um bloco de anotações personalizado por R$ 10, quanto uma imagem do pioneiro fotógrafo de moda Otto Stupakoff, recentemente falecido. Não que o Instituto esteja vendendo seu acervo. A loja comercializa três linhas de produtos ligadas à fotografia. O interes-

sado pode adquirir tiragens limitadas e numeradas, com limite de nove cópias, produzidas a partir dos negativos do autor. Os preços variam de R$ 1.000 a R$ 10.500. Quem preferir uma opção mais em conta pode optar pelas imagens digitais, sem limite de cópias, vendidas por R$ 320 ou ainda por uma linha de pôsteres, que custam R$ 80 cada.

cipais: a Culturando, com textos curtos e notas voltados para o público jovem; as matérias de miolo, com reportagens mais densas, entrevistas no formato pingue-pongue e artigos; um gráfico chamado 10+, concebido pelo jornalista Matinas Suzuki Junior, pelo qual é possível acompanhar semana a semana o desempenho das dez obras mais vendidas nas lojas do grupo; e a Vitrine, com anúncios publicitários. A grande novidade, no entanto, é que agora a revista não é mais terceirizada, mas feita por uma equipe própria de sete jornalistas, com redação funcionando nas dependências da própria Livraria Cultura. No comando da equipe está a Diretora de Redação Thaís Arruda. Na revista desde 2007, a jornalista começou no rádio, passou por publicações impressas como os jornais Estado de S. Paulo e o Le Monde, e fez assessoria de imprensa: – Ao trazermos a produção aqui para dentro, isso facilitou a produção de conteúdo. A Cultura realiza muitos eventos, lança livros toda hora, recebe personalidades. Podemos acompanhar tudo de perto. A revista gira em torno dos negócios da livraria, mas é de informação. Nem é um house organ nem um catálogo. Temos liberdade para falar sobre literatura, cinema e música, pois não estamos atrelados ao comercial. – afirma ela.

Thaís explica que um terço das 60 páginas da revista costuma ser voltado para o conteúdo editorial e trazer matérias provocativas, falando sobre temas como o trabalho dos profissionais que traduzem obras estrangeiras para o português, o processo de produção de capas de livros que precisam disputar a atenção do leitor em concorridas prateleiras ou o curioso dia-a-dia das principais orquestras sinfônicas brasileiras. Entre tantos textos marcantes nesse período em que edita a revista, Thaís garante que sempre há pautas novas e que surpreendem: – Tanto para quem lê, quanto para quem faz, é uma experiência nova e muito legal. Reportagens como a Literatura 2.0, sobre o trabalho dos grandes escritores com a internet, em sites ou blogs; e entrevistas como a do Sebastião Salgado, que cedeu uma imagem inédita de seu novo livro África, para usarmos na capa, ou mais recentemente a do maestro Zubin Mehta são marcantes e mostram a qualidade do trabalho produzido. A publicação tem agradado tanto que, quando chegam nas livrarias da rede, os

25 mil exemplares da Revista Cultura não duram mais do que dez dias. Quem não tem acesso às lojas da rede, pode ler o conteúdo na internet. As principais matérias de todas as 25 edições publicadas até agosto estão lá: – Temos um mailing com mais de 1 milhão de contatos, que agora também podem acompanhar a versão digital e folhear a revista on-line. – explica Thaís, que, apesar do sucesso, garante que não chances de a publicação ir às bancas. – É mais um serviço para o cliente da livraria. O que não significa que melhorias não estejam para acontecer. Seguindo a mesma filosofia da empresa, que pretende inaugurar nos próximos meses filiais em Fortaleza, Salvador e Brasília, a proposta é ampliar o conteúdo da revista, que deve ter um aumento em sua tiragem, pular para 80 páginas e lombada quadrada e ganhar nova versão on line, recheada com materiais exclusivos para os internautas. Definitivamente, as letras não produzem somente encanto. Na Revista da Cultura elas rendem grandes pautas. (Marcos Stefano)


EDITORA LAZULI/DIVULGAÇÃO

BIOGRAFIA

Na cadência de

Ataulfo Biografia lançada por Sérgio Cabral resgata a história de um dos mais célebres cantores e compositores de samba, autor de clássicos como Ai, Que Saudades da Amélia.

O

s versos de uma de suas composições mais famosas destacam que, diz o dito popular, morre o homem, fica a fama. A canção é a já clássica Na Cadência do Samba, feita em parceria com Paulo Gesta, e regravada nos anos 90 com grande sucesso por Cássia Eller. O autor e compositor em questão, claro, é Ataulfo Alves, morto em 1969 e que deixou como legado uma das obras mais ricas do

universo da samba. A história do artista pode, enfim, ser melhor conhecida, graças ao lançamento da biografia Ataulfo Alves: Vida e Obra, do jornalista, escritor e pesquisador Sérgio Cabral. O livro foi lançado na noite de 31 de agosto, na Livraria da Travessa, em Ipanema, Zona Sul do Rio, como parte importante das celebrações pelos 100 anos de nascimento de cantor e compositor – em 2 de maio de 1909 na Fa-

zenda Cachoeira, propriedade dos Alves Pereira, no município de Miraí/MG. Editado pela Lazuli – Companhia Editora Nacional, a obra de 176 páginas tem preço sugerido de R$30,00. Por falar em fama, o autor menciona curiosidades como a eleição do cantor, em 1961, como um dos dez homens mais elegantes do Brasil, em um famoso concurso promovido pelo colunista Ibrahim Sued. Além do talento natural

e da elegância ao vestir, era de uma simplicidade ímpar. Outro fato curioso é que Amélia, a mulher de verdade, personagem da música feita em parceria com Mário Lago, existiu mesmo. A homenageada trabalhava como empregada na casa da cantora Aracy de Almeida, a predileta de Noel Rosa. Seu nome completo era Amélia dos Santos Ferreira. Morreu em julho de 2001, aos 91 anos. A homenagem a Amélia, na opinião do Governador do Rio, Sérgio Cabral Filho, que esteve presente no lançamento da biografia, é mesmo a canção mais significativa do extenso repertório de Ataulfo Alves. “Ele era grande compositor. Para os dias atuais, esta música é muito contraditória, pois as mulheres dizem que não têm vocação para Amélia. Na verdade, a canção revela o lado da mulher que é solidária, amiga, parceira, e também moderna, emancipada, e não uma Amélia submissa. Acima de tudo, a música é muito bacana. Além disso, Os Meninos da Mangueira, samba de meu pai, em parceria com Rildo Hora, gravado por Ataulfo Alves Júnior, foi a música mais executada nas rádios brasileiras no ano de 1977. As nossas famílias têm uma ligação muito estreita”. Ataulfo Alves Júnior também falou da amizade entre o biógrafo e seu pai. “Sérgio Cabral é um grande escritor e meu amigo há muitos anos. Ele produziu grandes shows de meu pai no Teatro Casa Grande. Em função desta forte ligação, pedi ao Sérgio que escrevesse o livro, aproveitando o gancho do centenário. Eu me sinto muito orgulhoso por meu pai ter sido maravilhosamente biografado pelo Sérgio Cabral”, destacou, lembrando que o artista será alvo de outras homenagens, como o lançamento, em setembro, de um CD pela gravadora Lua Music, com sucessos de Ataulfo nas vozes de Elba Ramalho, Elza Soares, Beth Carvalho, Amelinha, Alaíde Costa, Fafá de Belém, Ângela RoRo e Simoninha, entre outros. Também está previsto um espetáculo a cargo de Zezé Motta. Além da biografia, Cabral assinará o roteiro de um documentário sobre a vida de Ataulfo, com lançamento previsto para 2010. “O conheci em 1961, quando comecei a escrever sobre música popular para o Jornal do Brasil, e ele me convidou para acompanhá-lo para um fim de semana em Miraí. Eu não puder ir, em função do trabalho. Depois disso, trabalhamos juntos muitas vezes, pois comecei a escrever programas para TV e sempre o convidava para participar. Como diretor-artístico do Café Concerto Casa Grande, hoje Teatro, o chamei para apresentações”, conta o jornalista que, com mais de cinco décadas dedicadas à MPB, é autor de biografias de personalidades como Pixinguinha, Tom Jobim, Eliseth Cardoso, Ari Barroso e Grande Otelo. Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

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BIOGRAFIA NA CADÊNCIA DE ATAULFO

FOTOS: BERNARDO COSTA

UMA NOITE FAZ BEM AO CORAÇÃO - Sérgio Cabral passou horas na Livraria da Travessa para atender aos amigos que esperaram com paciência o momento de obter seu autógrafo. Retido em Brasília, desde a tarde ao começo da noite, na cerimônia de lançamento do projeto do marco regulatório do présal, o Governador Sérgio Cabral e a esposa, Adriana, chegaram a tempo de encontrar o pai e sogro. Maurício e Marilka Azêdo (ao centro) e Geraldo Azevedo (à direita) já haviam cumprimentado Cabral e recebido seus autógrafos. Na fila, a esta altura, ainda se encontravam amigos queridos do escritor, como a atriz Rosamaria Murtinho e seu marido, o ator Mauro Mendonça, que não invocaram nenhum privilégio, como o da amizade, para diminuir a prolongada espera.

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tinha apenas um ano de idade quando da sua morte. Contudo, aos 42 anos, estou tendo a oportunidade de ver o resgate desta trajetória, lembrando que o maior legado que ele nos deixou, além da obra musical, foi o seu caráter, a responsabilidade social”. Júnior Parente, coordenador dos eventos comemorativos do centenário de Ataulfo Alves, ressaltou a preocupação da família com a preservação da obra do artista. “Buscamos não apenas o recorte musical, mas todo o contexto re-

presentativo de sua história. Todos os membros da família estão envolvidos nos projetos. Pretendemos organizar um calendário anual de eventos para que essa memória não fique restrita ao centenário. Vamos criar também a Fundação Ataulfo Alves, cujo objetivo é perpetuar e regar a semente plantada por Ataulfo, com a realização de oficinas de arte, literatura, dança, música, teatro, entre outras atividades”. “O que mais me lembro dele é o sorriso. Era um homem muito amoroso. As AGENCIA NACIONAL RIO

No mais recente trabalho, o biógrafo resgata a trajetória de vida, curiosidades e as grandes obras que consagraram um dos maiores expoentes da música brasileira. O livro apresenta a musicografia do artista, que ultrapassa 320 composições, com grande número de sucessos. Também são de Ataulfo clássicos Você Passa, Eu Acho Graça; Mulata Assanhada; Tempo Perdido; Leva Meu Samba; Saudade da Professorinha; Laranja Madura e Errei, Sim. “Naquela época, dei maior importância a Cartola, Ismael Silva, Nélson Cavaquinho, Zé Ketti... Eles não tinham dinheiro, precisavam ser conhecidos. Agora, todos morreram. Cartola é sempre lembrado, com justiça. Mas Ataulfo ficou meio esquecido”, analisa Sérgio Cabral, destacando mais um fator que o levou a dedicar-se ao sambista mineiro. O lançamento da biografia de Ataulfo Alvez reuniu mais de uma centena de pessoas entre jornalistas, escritores, pesquisadores, artistas e o público em geral. A ABI (Associação Brasileira de Imprensa) foi representada pelo Presidente Maurício Azêdo e pelos Conselheiros Zilmar Borges Basílio e Milton Coelho da Graça. “Este é um encontro fantástico e alvissareiro de um extraordinário compositor e poeta admirável, que foi Ataulfo Alves, com um grande escritor e pesquisador como Sérgio Cabral, que prossegue em sua trajetória fecunda de escrever a história da música popular brasileira através da biografia de suas personalidades, suas grandes expressões, como vem fazendo ao longo dos últimos anos”, ressaltou o Presidente da ABI. O mesmo tom de resgate histórico foi percebido na declaração de Adelcir Alves, neto do artista homenageado. “Precisamos de escritores, biógrafos brilhantes como Sérgio Cabral, para que a história não morra. A obra de meu avô está sendo eternizada hoje, a partir do lançamento deste livro. Infelizmente, não convivi com ele, pois eu

suas músicas apresentam alta qualidade melódica e a mesma elegância e categoria com que se vestia. Ele sempre foi moderno. Confraternizava com os mais jovens como Chico Buarque e Edu Lobo, e também com os mais antigos, como Pixinguinha e Donga, funcionando como uma ponte entre essas duas gerações. Foi ainda responsável pela introdução do coro vivo, presente, e não apenas funcionando como coadjuvante, ao lançar o conjunto Ataulfo Alves e Suas Pastoras”, recordou o jornalista Jorge Roberto Martins, apresentador do programa Sala de Música, da Rádio MEC. Também presente ao lançamento da biografia, o ator, produtor e pesquisador musical Haroldo Costa disse que, apesar do grande talento, Ataulfo só alcançou a popularidade na década de 40, quando passou a interpretar as suas próprias canções. “Em parceria com Mário Lago, escreveu sambas que embalaram a cidade nos meses de fevereiro. Gravou vários compositores do Salgueiro, escola de samba da qual foi compositor e Presidente de honra da Ala dos Compositores. Além disso, teve uma relação amorosa com a grande passista Paula do Salgueiro. Foi um pioneiro na fundação da Associação Defensora de Direitos Autorais Fonomecânicos (Adaf) e da Ataulfo Alves Edições (ATA), tornando-se editor de suas próprias músicas”. Na avaliação do cantor e compositor Geraldo Azevedo, o gênero samba deve boa parte de sua notoriedade a Ataulfo Alves. “Desde que aprendi a tocar violão, aos 15 anos, sempre cantei esse repertório, o que me influenciou muito. Ele foi o grande responsável pela abrangência nacional conquistada pelo samba”. Para o pesquisador Jairo Severiano, o fato de ser mineiro, e filho de um violeiro, determinou toda a originalidade do samba executado por Ataulfo. “Ele trouxe para o samba um certo jeito dolente, melancólico, muito típico de tradicional toada sertaneja”, afirma.


FOTOS: EDITORA LAZULI/DIVULGAÇÃO

Os álbuns do acervo de Ataulfo Alves, preservados com carinho por sua família, registram momentos da fase áurea de música popular brasileira, como no encontro (acima) de Ciro Monteiro, Nilo Chagas, um dos integrantes do famoso Trio de Ouro, Humberto Teixeira, o verdadeiro pai do baião, e Lamartine Babo. Abaixo, um time da pesada, nesta ordem: Donga, João da Baiana, Zilco Ribeiro (sentado), Pixinguinha, Ataulfo e Alfredinho do Flautim. Zilco mostra o projeto O Samba Nasce no Coração, um arraso na época.

Ícone do samba, Ataulfo Alves de Souza não nasceu no ambiente da malandragem carioca, mas sim na cidade mineira de Miraí, próximo a Cataguases e Muriaé. Era um dos sete filhos do Capitão Severino, violeiro, sanfoneiro e repentista da Zona da Mata. Aos oito anos, já fazia versos, respondendo aos improvisos do pai. Com a morte deste, a família teve que se mudar da zona rural para a cidade, onde aos dez anos começou a ajudar a mãe no sustento da casa: foi leiteiro, condutor de bois, carregador de malas na estação, menino de recados, marceneiro, engraxate e lavrador, ao mesmo tempo em que estudava no Grupo Escolar Dr. Justino Pereira. Aos 18 anos, aceitou o convite do Dr. Afrânio Moreira Resende, médico de Miraí, para acompanhá-lo ao Rio, onde logo fixaria residência. Trabalhava no consultório, com o serviço de entrega de recados e receitas. À noite, fazia limpeza na casa do médico. Insatisfeito com a situação, conseguiu uma vaga de lavador de vidros na Farmácia e Drogaria do Povo. Rapidamente aprendeu a lidar com as drogas e tornou-se prático de farmácia. Morava no bairro de Rio Comprido, onde costumava freqüentar as rodas de samba. Já sabia tocar violão, cavaquinho e bandolim, e logo organizou um conjunto que animava as festas do bairro. Em 1928, com apenas 19 anos, casou-se com Judite. Nessa época, em que já começara a compor, tornou-se diretor de harmonia de Fale Quem Quiser, bloco organizado pelo pessoal do bairro. Em 1933, Alcebíades Barcelos, o Bide, ouviu algumas de suas composições e resolveu apresentá-lo a Mr. Evans, diretor americano da Victor. Foi então que Almirante gravou o samba Sexta-feira, sua primeira composição a ser lançada em disco. Dias depois, Carmen Miranda, que ele havia conhecido antes de ser cantora, gravou Tempo perdido, garantindo sua entrada em definitivo no mundo artístico. Em 1935, através de Almirante e Bide, conseguiu seu primeiro sucesso com Saudade do Meu Barracão, gravado por Floriano Belham.

Ganhou fama com as gravações do samba Saudade Dela, em 1936, por Silvio Caldas, e da valsa A Você, por Aldo Cabral. Passou a compor com Bide, Claudionor Cruz, João Bastos Filho e Wilson Batista, com quem venceu os Carnavais de 1940 e 1941, com Oh!, seu Oscar e O Bonde de São Januário. Foi um dos fundadores da União Brasileira de Compositores-UBC, e criou a própria editora, a Ata Edições Musicais, que ainda hoje administra parte de sua obra. Em 1938, Orlando Silva, outro grande intérprete de suas músicas, gravou Errei, Erramos. Em 1941, fez sua primeira experiência como intérprete, gravando seus sambas Leva, Meu Samba e Alegria na Casa de Pobre. Em 1942 a situação financeira difícil e a hesitação dos cantores em gravar sua recente composição fizeram com que ele próprio lançasse, para o Carnaval daquele ano, Ai, Que Saudades da Amélia; parceria com Mário Lago que resultou em grande sucesso popular. Juntou-se a um grupo de cantoras, organizando um conjunto que, por sugestão de Pedro Caetano, foi chamado de Ataulfo Alves e suas Pastoras. Na década de 1950, quando faziam sucesso músicas de fossa e de amores infelizes, destacam-se suas composições Fim de Comédia e Errei, Sim, gravadas por Dalva de Oliveira. Em 1954 participou do show O Samba Nasce no Coração, realizado na boate Casablanca, quando lançou o samba Pois É. Convidado por Humberto Teixeira, em 1961 participou de uma caravana de divulgação da MPB na Europa, para onde levou Mulata Assanhada e Na Cadência do Samba. Em decorrência do agravamento de uma úlcera, morreu após uma intervenção cirúrgica, no Rio de Janeiro, em 20 de abril de 1969.

ACERVO UH/ARQUIVO DO ESTADO

Elegante e fino no trato, Ataulfo Alves dialogava numa boa com as grandes autoridades, como o Presidente Getúlio Vargas e o Ministro do Trabalho João Goulart e o Presidente JK, que o recebeu num encontro histórico com Louis Armstrong (à esquerda).

O sambista que veio de Minas

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FOTOGRAFIA ATENAS, 1953 - © HENRI CARTIER-BRESSON

Para curtir Cartier-Bresson Exposição e livro luxuoso mostram como forma e conteúdo atingem o limite da expressão nas imagens capturadas pela lente do lendário fotógrafo. POR PAULO CHICO

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SNIRAGAR, CACHEMIRE, 1948. © HENRI CARTIER-BRESSON/ MAGNUM PHOTOS

Considerado por muitos o melhor fotógrafo do século 20, Henri CartierBresson pode ser contemplado em sua melhor forma em São Paulo. Seus cliques fazem parte de exposição em cartaz no Sesc Pinheiros de 17 de setembro a 20 de dezembro com entrada franca. E quem, além de visitar a mostra, quiser levar Cartier-Bresson para casa também poderá fazê-lo. Juntamente com a mostra, está sendo lançado um livro, fruto de uma parceria das Edições SescSP com a editora Cosac Naify, com 155 imagens feitas entre 1929 e 1978, todas escolhidas pelo fotógrafo como as mais representativas de sua trajetória. Para a exposição foram selecionadas 133 fotos. No térreo, estão agrupadas 40 imagens em estilo street photography, com flagrantes de rua que mostram a poesia dos gestos cotidianos. No segundo andar da mostra estão 93 fotos divididas em dois núcleos: Conflitos, no qual são apreciados fatos jornalísticos de relevância, e Retratos, onde suas lentes registraram diversas personalidades. Exposição e livro atendem pelo mesmo nome, Henri Cartier-Bresson: Fotógrafo, e têm o mesmo objetivo: levar ao público os registros feitos por um fotógrafo cuja produção técnica é tão impressionante quanto sua própria história. Nascido em 1908 e morto em 2004, o francês Cartier-Bresson testemunhou a revolução de Mao Tsé-tung na China e apreendeu em sua máquina a imagem de um Mahatma Gandhi cansado, pouco antes de ser assassinado. Ele foi protagonista de episódios inusitados. Em 1943, fugiu de um campo de concentração nazista, e logo foi dado como morto. Em 1946, surpreendeu a todos ao aparecer em uma retrospectiva no Museu de Arte Moderna de Nova York, até então anunciada como exposição póstuma. A mostra nos Estados Unidos foi importante não apenas por conta desse episódio. Ela atestava o prestígio que a fotografia alcançava aos poucos. Sua coroação definitiva veio com a agência Magnum, criada por CartierBresson em 1947. “Depois disso, a assinatura dos fotógrafos passou a ser respeitada. Eles deixaram de ser os caras que acompanhavam os repórteres de texto para se-

rem autores de grandes reportagens visuais”, explica Eder Chiodetto, responsável pela montagem da individual em São Paulo e também por uma mostra paralela, Bressonianas, montada no mesmo local e que reúne as fotos de sete brasileiros influenciados pelo mestre. Nela, é possível conferir o trabalho de profissionais como Cristiano Mascaro, Flávio Damm e Marcelo Buainain. Cartier-Bresson começou a fotografar como profissional em 1931, influenciado pelos surrealistas. De câmera em punho, deixava-se levar pelo instinto, clicando cenas simples nas ruas, flagrantes das belezas do cotidiano, e construiu um legado considerado o ápice da fotografia humanista e documental. “Tirar fotos é prender a respiração quando todas as faculdades convergem para a realidade fugaz. É pôr numa mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração”, costumava dizer. “Cartier exercitava a percepção do subconsciente. Ele fotografava com o instinto de um caçador que persegue obstinadamente a sua presa, com um faro particular para capturar flagrantes”, afirma Chiodetto. “Sua busca in-


HYÈRES, FRANCE, 1932 - © HENRI CARTIER-BRESSON/ MAGNUM PHOTOS

AQUILA DEGLI ABRUZZI, ITÁLIA-1952 © HENRI CARTIER-BRESSON

HENRI MATISSE, VENCE, FRANCE, 1944 - © HENRI CARTIER-BRESSON/ MAGNUM PHOTOS

cansável era pelo momento em que o universo em harmonia conspira a favor do artista. Uma fração mínima de tempo em que forma e conteúdo atingem o limite da expressão entre as quatro linhas do retângulo do visor da câmera”, descreve o coordenador da exposição. Na visão de críticos, Cartier-Bresson era, sim, um apóstolo da fotografia clássica, aquela que sintetiza a realidade. Era, ainda, um fotógrafo atento aos jogos de linhas, planos e perspectivas. Tinha uma consciência voltada para a composição geométrica. Ao mesmo tempo, no entanto, buscava nas ruas os cenários fantásticos, loucos, anárquicos. Os dois pensamentos, aparentemente antagônicos, combinam-se em sua obra. Isso de um jeito nada bruto, e sim natural. Cartier-Bresson revelou a fantasia, o lado onírico da vida real. Foi dessa capacidade de reunir sonho e realidade que vieram cliques como o das árvores enfileiradas na beira de uma estrada em Brie, na França, que, de determinado ângulo, formavam um coração. “As fotos de Cartier-Bresson exigem do público uma postura contemplativa. Sua essência não combina em nada com a pressa contemporânea. Devemos levar em consideração que ele se tormou budista, meditava todos os dias, e talvez essa sua prática tenha

GARE SAINT-LAZARE, PARIS - © HENRI CARTIER-BRESSON

O olhar preciso de Cartier-Bresson retrata momentos mágicos, muitas vezes irônicos e matematicamente geométricos.

colaborado no treino do olhar para o inesperado. Cartier-Bresson tinha percepção apurada das coisas. Ele antecipava os fatos, quase previa as cenas”, analisa o pesquisador Rubens Fernandes Júnior. A mostra integra o calendário oficial de eventos do Ano da França no Brasil. “Cartier-Bresson é um dos maiores e mais importantes artistas do século 20 porque registrou o ser humano integrado a diversos movimentos de uma forma absolutamente expressiva e verdadeira”, diz o Presidente do Comissariado Brasileiro do Ano da França no Brasil, Danilo Santos de Miranda. “Seu legado é extraordinário. Por isso, merece uma exposição completa neste ano. É uma das exposições que alcançaram a maior repercussão até agora no ponto de vista de adesão do público e repercussão na mídia.” Além da exposição e do livro, também estão previstos na programação o lançamento de uma outra obra literária que compila o trabalho de CartierBresson, oficinas, debates e um ciclo de filmes, como o curta A Aventura Moderna: Henri Cartier-Bresson, em que o diretor Roger Kahane entrevista o fotógrafo e o mostra trabalhando incólume em meio a uma multidão em Paris. Henri Cartier-Bresson: Fotógrafo. Exposição no Sesc Pinheiros (Rua Paes Leme, nº 195, Pinheiros, São Paulo, SP, telefone 11 3095-9400). De 17 de setembro a 20 de dezembro. De 3ª a 6ª, das 10h30min às 21h30min; sábados, domingos e feriados, das 10h30min às 18h30min. Entrada franca. Livro: co-edição editora Cosac Naify e Edições SescSP, 344 páginas, preço médio R$ 170

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TV GLOBO/JOÃO MIGUEL JÚNIOR

TELEVISÃO

POR PAULO CHICO

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MARIZILDA CRUPPE/AGÊNCIA O GLOBO

Talvez muitos não saibam, mas a canção The Fuzz é uma das mais executadas e conhecidas dos brasileiros. Você mesmo, caro leitor, muito provavelmente a escuta quase todos os dias. Composta originalmente por Frank De Vol para o filme The Happening (O Acontecimento, em tradução literal), estrelado por Anthony Quinn em 1967, o tema foi escolhido para dar o tom dinâmico da abertura do Jornal Nacional. Em 40 anos ininterruptos no ar, a música já teve várias versões. Mas, ainda que ganhe novos arranjos, é facilmente reconhecida pelos telespectadores como um chamado para o mais importante telejornal do País. O JN, como é carinhosamente chamado pela equipe da TV Globo, foi ao ar pela primeira vez no dia 1º de setembro de 1969, com Cid Moreira e Hilton Gomes na apresentação. Naquele momento, deixava a sua marca na história da televisão: foi o primeiro telejornal a ser transmitido simultaneamente para várias cidades de um Brasil ainda muito pouco integrado pelas telecomunicações. Por isso mesmo, um dos desafios, desde o seu início, foi veicular as diferenças regionais em torno de um sentimento de nação. Diversa, sim, mas que começava a ganhar um único corpo e destino. Sob a coordenação de Armando Nogueira e Alice-Maria, ganhava forma uma idéia que praticamente desde o início da emissora vinha sendo amadurecida nos bastidores do Jardim Botânico. O objetivo era fazer um jornal nacional nos moldes dos telejornais americanos. Novidade absoluta por aqui, onde ainda reinava a era das “faixas”,

ron Domingues. Os slogans mais famocom a transmissão de parte da progratro anos de vida e em fase de consolidasos eram: “O primeiro a dar as últimas” mação via Embratel. O que, de alguma ção, apostou no novo sistema de microe “testemunha ocular da História”. forma, já representava grande evoluondas da Embratel, colocando no ar um Com os recursos tecnológicos da ção em relação à era do “tráfego”, quanprograma simultaneamente transmitiépoca, o Repórter Esso deixava a desejar do os programas gravados em fitas de do para várias cidades brasileiras. Até sob o ponto de vista da integração navídeo-tape viajavam pelo Brasil para seentão, cada capital tinha sua própria cional. Era um noticiário técnico e frio, rem distribuídos. grade, e programas gravados em São no qual os apresentadores não expresO Jornal Nacional promovia o conPaulo ou no Rio eram exibidos com dias savam emoções faciais. Bastante prejuceito de rede e instaurava uma nova era de atraso em outras praças – tempo dicado pela censura, no final dos anos na televisão e na publicidade. Os branecessário para o deslocamento das fi60 e início dos 70, o telejornal só mossileiros ganhavam a exibição de um tetas. Com o tempo, e apesar do sucesso trava desfiles de modas e matérias solejornal em tempo real, através de um estrondoso do noticiário em rede nacibre amenidades. Com o sucesso de um precário sistema de links terrestres, onal, percebeu-se que haveria espaço e ano do Jornal Nacional, e diante do crestambém via Embratel. Em relação ao necessidade de geração de programas cimento da Rede Globo, a Rede Tupi conteúdo, foi eliminada da pauta a colocais, tal como no tempo do Repórter tirou-o do ar, em todas as emissoras bertura dos acontecimentos sociais, Esso – o que levou à criação dos telejorassociadas, em 31 de dezembro de 1970, bem como o interesse dos diretores dos nais locais, como o RJ-TV, logo expanum ano depois de sair do rádio. veículos e dos anunciantes, padrão sedidos para todos os Estados do País. Com o JN, a Rede Globo, com quaguido por outros telejornais, incluinO surgimento e o crescimento verdo o antecessor do JN na tiginoso do Jornal Nacional própria Globo, chamado de ocorreram no período da diJornal da Globo. tadura militar. Tempos difíA missão do informativo ceis de censura e repressão estreante não era das mais política, como lembrou Arfáceis. Cabia à nova emissomando Nogueira, Diretor da ra e ao seu ainda incipiente Central Globo de Jornalismo telejornal competir em crenos anos 60, 70 e 80, em dedibilidade e audiência com o poimento ao especial TV 50 histórico Repórter Esso, proAnos, apresentado pela Glograma radiofônico que esbo em 2000. treou em 28 de agosto de “A cobertura tinha que 1941, transmitido pela Rápassar pelo crivo dos militadio Nacional do Rio de Janeires, que tinham aqui dentro ro, iniciando a cobertura do da Redação do jornal um reBrasil na Segunda Guerra presentante. A gente recebia Mundial. Na televisão, o um telex: é proibido noticinoticiário, que inicialmente ar a morte do Capitão Lateve o nome O Seu Repórter marca. Daí, a gente ficava saEsso, foi ao ar pela primeira bendo pelo telex da Polícia vez em 10 de abril de 1952. Federal que tinha morrido o Os locutores que fizeram Em muitos casos a Redação do Jornal Nacional não tinha a Lamarca. Mas também não maior sucesso foram Gonti- informação mas a Censura a revelava ao proibir sua divulgação. Foi podíamos noticiar ”, conta assim com a morte de Carlos Lamarca, contou Armando Nogueira. Armando Nogueira. jo Teodoro, Luís Jatobá e He-


FOTOS: TV GLOBO/DIVULGAÇÃO

O Jornal Nacional ao longo dos anos

Inicialmente comandada por Hilton Gomes (Foto de baixo) e Cid Moreira, a bancada do JN recebeu inúmeros apresentadores e comentaristas, como João Saldanha (ao lado). Mas foi a dupla Cid Moreira e Sérgio Chapelin (abaixo à esquerda) que se manteve mais tempo no ar. Abaixo à direita, uma das inúmeras coberturas ao vivo de Fátima Bernardes.

1969 Em 1º de setembro foi ao ar, pela primeira vez, o Jornal Nacional, primeiro programa em rede nacional gerado no Rio e retransmitido para todas as emissoras da rede. A equipe de jornalistas do JN conseguiu, em pouco tempo, transformá-lo no mais importante noticiário brasileiro, alcançando altos índices de audiência. Hilton Gomes, ao lado de Cid Moreira, abriu a primeira edição do JN anunciando: “O Jornal Nacional, da Rede Globo, um serviço de notícias integrando o Brasil novo, inaugura-se neste momento: imagem e som de todo o País”. Cid Moreira encerrou: “É o Brasil ao vivo aí na sua casa. Boa noite”.

1972 Sérgio Chapelin substitui Hilton Gomes na apresentação, passando a dividir a bancada do JN com Cid Moreira. Cid e Sérgio formam a dupla que por mais tempo apresentou o Jornal Nacional até hoje. Apenas nessa primeira fase, foram 11 anos consecutivos no ar.

1977 Glória Maria é a primeira repórter a entrar no ar, ao vivo. Mostrando o movimento de saída de carros do Rio de Janeiro, no fim de semana, ela estreia os equipamentos portáteis de geração de imagens.

1978 O Jornal Nacional promove mudanças com a utilização de novas tecnologias: o filme 16 mm começa a ser substituído com a instalação da ENG (Eletronic News Gathering), que permite a edição eletrônica de vídeo-tape. E a edição em vt dá muito mais rapidez à operação do telejornalismo, que, até então, perdia muito tempo com a revelação do filme.

1983 Celso Freitas assume a apresentação do Jornal Nacional, substituindo Chapelin na dupla com Cid Moreira.

1989 Em maio deste ano, sai o apresentador Celso Freitas e retorna Sergio Chapelin, refazendo a dupla com Cid Moreira. O Jornal Nacional estréia nova abertura e novo cenário. Os “selos” deixam de ter moldura e passam a tomar todo o fundo do cenário.

1991 Pela primeira vez na história, uma guerra é transmitida ao vivo pela TV. O Jornal Nacional mostra, em tempo real, as imagens do conflito no Golfo.

1994 Pela primeira vez, uma cobertura de Copa do Mundo é ancorada ao vivo do país-sede, os Estados Unidos. Carlos Nascimento apresentou as reportagens e informações sobre a Seleção Brasileira direto das cidades onde ela jogava. Também em 1994, o Jornal Nacional completa 25 anos e Cid Moreira encerra a edição com texto comemorando o aniversário.

1996 O diretor da Central Globo de Jornalismo, Evandro Carlos de Andrade, que tinha assumido o cargo em julho do ano anterior, promove uma grande mudança no JN: Cid Moreira e Sérgio Chapelin passam a bancada para William Bonner e Lillian Witte Fibe.

1998 Nova mudança na bancada do JN: Fátima Bernardes substitui Lilian Witte Fibe e

forma a dupla que está no ar hoje, com William Bonner.

2000 O jornal sai do estúdio e passa a ser apresentado de dentro da Redação. O telespectador pode ver a equipe envolvida na realização do telejornal, tanto na abertura quanto no início e fim de cada bloco.

2001 O Jornal Nacional é indicado para o Prêmio Emmy com a cobertura dos atentados de 11 de Setembro nos EUA. Naquele dia, sete em cada dez famílias brasileiras estavam sintonizadas no JN. Também em 2001, o programa conquista o Prêmio Esso de Jornalismo, na estréia da categoria telejornalismo, com o trabalho Feira de Drogas. É, ainda, o ano da estréia do site do Jornal Nacional.

2002 Na cobertura da Copa do Mundo, Fátima Bernardes apresenta o Jornal Nacional ao vivo da Coréia do Sul e do Japão, longe de cenários de televisão e sempre perto da seleção. Na cobertura das Eleições 2002, o JN promove, pela primeira vez na história, rodadas de entrevistas, ao vivo, no próprio cenário, com os quatro principais candidatos à presidência da República. No dia 28 de novembro, o Presidente Lula fica ao lado de William Bonner durante todo o Jornal Nacional. No dia em que se confirma a

morte do jornalista Tim Lopes, assassinado brutalmente em pleno exercício da profissão, o JN encerra sua edição com uma imagem inédita: os profissionais do Jornalismo, reunidos numa salva de palmas a Tim Lopes, na Redação da TV Globo, no Rio de Janeiro.

2006 No Brasil, no mundo, no espaço. Assim como na Copa do Mundo de 2002, Fátima Bernardes repete o formato de sucesso e apresenta o Jornal Nacional do país do Mundial, a Alemanha, trazendo os destaques da Seleção Brasileira e do tetracampeonato da Itália. Num dos maiores projetos da história do JN, Pedro Bial percorre o Brasil durante dois meses, trazendo os anseios dos eleitores brasileiros de todas as regiões.

2007 A visita do Papa Bento XVI ao Brasil foi em maio, mas desde abril o JN já mostrava reportagens com os preparativos para receber o Pontífice. Durante a visita, Fátima Bernardes apresentou o jornal nos locais em que o Papa esteve. Em julho, aconteceu a tragédia com o Airbus da TAM, em Congonhas. William Bonner apresentou o jornal de São Paulo, com participação ao vivo dos repórteres no local do acidente. O JN revelou também que o avião pousou com um dos reversos, que ajuda a frear a aeronave, travado. Em setembro, foi realizado o Pan do Rio de Janeiro. Fátima Bernardes apresentou o jornal de alguns locais de competição. Reportagens mostraram também ao longo do ano exemplos do poder do esporte como instrumento de inclusão social. Fonte: TV Globo

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FOTOS: TV GLOBO/DIVULGAÇÃO

TELEVISÃO HÁ 40 ANOS, O JORNAL DOS BRASILEIROS

Livro de Bonner revela bastidores e segredos da produção Há quase quatro décadas, ele é líder absoluto de audiência. Ao longo desse período, construiu uma legião de fiéis telespectadores – cerca de 40 milhões de brasileiros o vêem a cada noite. Ao completar 40 anos, parte para a conquista de milhares, talvez milhões, de leitores, com o livro Jornal Nacional, Modo de Fazer, de autoria de seu EditorChefe, William Bonner. O mais importante telejornal do Brasil chega à maturidade em forma enxuta, e com uma aparência mais jovem do que nunca. Como presente de aniversário, o Jornal Nacional ganhou na edição do dia 31 de agosto novo cenário e programação visual surpreendentes. No alto da tela, ocupando toda a largura do cenário, surge a figura de um globo terrestre em um constante movimento rotatório, como que a explicitar o dinamismo da notícia, que faz girar o motor da História. Ao fundo do cenário, um telão exibe as imagens que variam de acordo com as notícias que são apresentadas. Há dez anos Editor-Chefe do JN, William Bonner conta, em 244 páginas, a dinâmica de produção do telejornal mais importante do País. “O livro tenta mostrar quais são os critérios que aplicamos para selecionar os assuntos publicados, como tentamos organizar esses assuntos e por que organizá-los. Acho que a maior mensagem que o livro pode levar a um curioso sobre os bastidores é de que o

Jornal Nacional é produto de uma equipe muito, muito grande”, afirma. Esposa e colega da bancada, Fátima Bernardes explica o que motivou a confecção de um livro tão didático sobre o JN. “Nós sempre ouvimos perguntas sobre os bastidores. E essa é uma oportunidade de as pessoas entenderem melhor o que a gente faz”, disse ela, que também é uma das editoras do jornal e escreveu o prefácio da obra. A opção de Bonner foi por abrir ao leitor o modo de produção do telejornal, em um exercício atual que os teóricos de comunicação classificariam como newsmaking. Estão lá no livro o fazer jornalístico durante as 24 horas do dia, a coordenação de mais de uma centena de afiliadas que captam notícias nos cantos mais remotos do País, o trabalho dos produtores e dos repórteres, uma estrutura gigantesca que deve funcionar em perfeita sincronia sem se tornar maquinal. A escolha das pautas, das notícias e os critérios de edição são, afinal de contas, a alma do jornalismo, que utiliza cada vez mais as ferramentas da tecnologia, mas que é e continuará sendo profundamente uma tarefa humana em seus erros e acertos. O leitor de Jornal Nacional – Modo de Fazer é convidado a partilhar esta vivência. O texto direto e fluido transmite a sensação de estar dentro de uma grande Redação enquanto as notícias vão sendo apuradas, produzidas, e chegam de todas as partes – e onde as

“Boa noite!”, 8 mil vezes

* No dia 20 de julho de 1969, o apresentador Hilton Gomes narrou direto do estúdio da TV Globo no Jardim Botânico a chegada na Lua da nave espacial americana Apolo II. Eram 23h56min, horário de Brasília, quando Neil Armstrong, comandante da missão, anunciou o pouso. A nitidez das

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decisões devem ser tomadas com rapidez sem que se perca o rigor criterioso do valor de cada notícia. “Eu nunca tinha registrado, em um livro, a ordem em que aplico a avaliação de determinados critérios para decidir se um assunto deve ou não ser

Cid Moreira esteve à frente do Jornal Nacional durante 27 anos.

* O ‘boa noite’ do Jornal Nacional foi repetido mais de oito mil vezes por Cid Moreira ao longo dos 27 anos em que esteve à frente do telejornal. * Em 1987, uma das coberturas mais marcantes foi a morte de Carlos Drummond de Andrade, em 17 de agosto. Nesse dia, o Jornal Nacional prestou homenagem ao poeta quebrando uma de suas mais fortes convenções. Em lugar do habitual ‘boa noite’, Cid Moreira encerrou o telejornal de pé, declamando o poema José (“E agora, José? E agora você...”)

Graças às novas tecnologias, uma cena cada vez mais comum: em meio a uma multidão de pessoas, William Bonner transmite o JN ao vivo de Juazeiro do Norte.

imagens geradas via satélite era tanta que muitos telespectadores duvidaram da chegada do homem à Lua. * Nem tudo são flores na história do JN. Em 1984, o Jornal Nacional foi acusado de omitir informações sobre a campanha das Diretas Já, porque deu a notícia do grande comício na Praça da Sé em São Paulo na mesma matéria em que noticiou as comemorações do

aniversário da cidade. Em 1989, a polêmica ficou por conta da edição do debate presidencial apresentado pelo telejornal dias antes das eleições, que teria favorecido o candidato Fernando Collor de Mello na disputa do segundo turno com Luiz Inácio Lula da Silva. * Na década de 1990, o Jornal Nacional passou a apresentar grandes furos de reportagem, como a violência policial na

publicado. Esta é uma oportunidade de dividir – com estudantes, colegas e leigos – a dinâmica de um jornal que é patrimônio dos cidadãos brasileiros”, diz Bonner, que diariamente dá voz ao ‘boa noite’ mais aguardado e visto do Brasil.

Favela Naval em Diadema, a entrevista com Paulo César Farias, no período em que se encontrava foragido, a apuração de casos de fraudes na Previdência Social com a prisão de Jorgina de Freitas, principal autora dos crimes apurados. * Outros nomes que já passaram pela bancada do JN, em períodos curtos ou cobrindo férias ou folgas dos apresentadores titulares: Ronaldo Rosas, Léo Batista, Marcos Hummel, Eliakim Araújo, Valéria Monteiro, Carlos Nascimento, Mônica Waldvogel, Ana Paula Padrão, Márcio Gomes, Chico Pinheiro, Renato Machado, Carlos Tramontina, Heraldo Pereira, Alexandre Garcia, Sandra Annenberg e William Waack. * William Bonner já encerrou o jornal dando ‘boa noite’ antes da hora, no meio de uma edição. A imagem desapareceu e, em seguida, ele voltou dizendo que se enganara e que, sim, desejava a todos os telespectadores uma ‘boa noite’, mas não naquela hora, pois ainda “havia muitos assuntos a tratar”. Fonte: TV Globo


Vidas NASA/BILL INGALLS

O modelo de telejornalismo que ele criou e consolidou espalhou-se pelas emissoras de televisão do mundo inteiro, mesmo nos países refratários à influência norte-americana, mas não foi esta a maior glória de Walter Cronkite, e sim a de ter sido considerado “o homem mais confiável da América” – isto é, dos Estados Unidos – pela seriedade e pela solidez de opiniões que apresentava no The CBS Evening News, que foi durante muitos anos o telejornal da maior audiência dos Estados Unidos, no qual ele trabalhou de 1962 a 1981. Cronkite, que morreu aos 92 anos, em 17 de julho, era um faz-tudo em seu telejornal: concebia ou aprovava as pautas, apresentava e comentava as notícias mais importantes e dirigia, REPRODUÇÃO

Em 1968, num programa de grande repercussão, Cronkite defendeu a retirada das tropas dos Estados Unidos do Vietnã.

como Editor-Chefe, todo o jornalismo da poderosa emissora, comandando repórteres e equipes que chegavam aos pontos do mundo onde houvesse uma informação que pudesse interessar ao público norte-americano. Essa preeminência profissional era devidamente avaliada pela CBS, que lhe pagava salários milionários. Além de comandar as equipes da CBS, Cronkite entrava no fogo da busca da notícia: esteve no Vietnã em 1968, para acompanhar a guerra mantida pelos Estados Unidos e seus títeres do Vietnã do Sul contra o Vietnã do Norte e os guerrilheiros de Ho Chi Minh. Na volta fez um programa de larga repercussão e que se tornou histórico, no qual declarava que os Estados Unidos se encontravam num beco sem saída e defendia um acordo para retirada das tropas norte-americanas do atoleiro em que mergulharam. Entre suas reportagens famosas figuraram as entrevistas que fez com o Presidente do Egito Anwar Sadat e com o Primeiro Ministro israelense Menachem Begin, as quais abriram caminho para uma visita de surpresa de Sadat a Jerusalém e para a conclusão de um acordo de paz entre os dois países, que reataram relações. Crítico da guerra do Vietnã, sereno apresentador e analista do escândalo do Watergate, que culminaria com a renúncia do Presidente Richard Nikon, coordenador da cobertura da chegada do homem à Lua em 20 de julho de 1969, Cronkite trabalhou até quase 80 anos. Em 1996 escreveu suas memórias, na qual registrou uma confissão do Presidente Lyndon Johnson, um desastrado continuador da guerra do Vietnã, em relação às opiniões que Cronkite apresentava a dezenas de milhões de espectadores da CBS: “Se eu perdi Cronkite, perdi metade da América”.

Um jornalismo executado com personalidade. Redigido muito além da simples narrativa dos fatos, repleto de questionamentos de quem sabia ler as coisas além da profundidade da superfície. Tudo envolto em texto costurado com a ironia mais fina, fugindo à tentação do politicamente correto, com doses exatas de coerência e bom humor. Assim pode ser descrito o perfil de Geraldo Mayrink, jornalista e escritor morto no dia 27 de agosto, aos 67 anos, em São Paulo, de problemas decorrentes de câncer no pulmão e na boca. Natural de Juiz de Fora, Geraldo Flávio Dutra Mayrink iniciou a carreira ainda na cidade mineira, no jornal Binômio. Depois rumou para a capital Belo Horizonte, onde trabalhou no Diário de Minas. Em quase quatro décadas de profícua atividade profissional, passou pelo Rio de Janeiro, onde atuou em O Globo e Jornal do Brasil, além da Revista da Rio Gráfica Editora. Também deixou sua marca em revistas, como Manchete, Veja (da qual foi diretor), Isto É, Afinal e Revista da Goodyear. Em São Paulo, fez parte dos quadros do Diário do Comércio, do Estado e do Jornal da Tarde, do qual foi também colunista. O texto refinado e o olhar particular sobre os fatos dominaram suas reportagens, e podem ser lidos em Obrigado pela Lembrança (Editora Unimarco, 2000), livro que traz a seleção de reportagens, memórias e ensaios, alguns deles inéditos. No universo literário, seu principal interesse era a relação humana, tema de Escuridão ao Meio-Dia (Record), publicado em 2005 sobre as condições masculina e feminina. Já a paixão pelo cinema originou o ensaio O Cinema e a Crítica Paulista (Nova Stella, 1986). Mayrink também escreveu a biografia do ex-presidente Juscelino Kubitschek, Memorando (teatro, em parceria com Fernando Moreira Salles, Companhia das Letras, 1993) e Travessia, Uma Reportagem Sobre a Agricultura Brasileira (Grifo, 1995). Alegria de escrever “O bom jornalismo ficou mais pobre com a morte de Geraldo Mayrink. Ele foi um desses mestres indispensáveis ao progresso da profissão. Tinha perfeito domínio do artesanato da escrita e deixou textos que são uma expressão competente da alegria de escrever. É impossível conhecer e debater a cultura brasileira entre os anos 1970 e 1990 sem ler suas críticas, reportagens

UCHA

Cronkite, o inventor do telejornal da noite

A imprensa perde Mayrink e um dos seus textos mais brilhantes

e entrevistas. Sua principal lição profissional era acreditar na própria sensibilidade e não valorizar demais o prestígio já estabelecido de autores e estrelas consagrados. Foi meu editor por um longo período. Tinha uma generosidade rara para dar explicações, argumentar e discutir idéias. Sua mente era realmente aberta a contribuições alheias”, descreve Paulo Moreira Leite, Diretor da Sucursal de Brasília, da Época, em sua coluna publicada na internet. Em seu blog, Luis Nassif recordou seu início de profissão, ao lado do colega. “Mayrink foi um dos grandes textos da imprensa brasileira. Quando entrei na Veja, foquíssimo, em setembro de 1970, a revista já tinha se embrenhado em um texto rococó terrível, com uma adjetivação pesada praticada por quase todos os redatores e editores. Havia quatro textos que escapavam desse estilão: os do Geraldo, Tão Gomes Pinto, Renato Pompeu e Elio Gaspari. Mas Geraldo era o mais admirado. Como crítico de cinema, ele conseguia produzir análises saborosíssimas, recheadas de ironia, no espaço exíguo de uma revista semanal”, destacou ele, lembrando ainda de outras facetas, não menos importantes. “Ele não era apenas o grande texto da Veja. Era também o grande caráter. Na greve de 1978, três editores foram à assembléia, no Sindicato, com falsa pose de vítimas. Diziam que editor tinha cargo de confiança. Se a Redação quisesse, eles também fariam greve. Mas apenas eles pagariam o pato. Foi algo tão sem-vergonha que provocou um grito do Juca Kfoury, chamando a um deles de ‘canalha’, se eu me recordo bem. Solidário com a turma, embora sem nenhuma ligação com política, Mayrink foi na frente e logo explicou: ‘ Pessoal, a capa desta semana é minha. Guardei na gaveta e tranquei. Se sair a greve, não entrego’. Essa lealdade para com o grupo, mesmo detestando política, marcou toda a sua vida”, descreve Luis Nassif. Geraldo Mayrink deixou mulher, Maria do Carmo, e os filhos Marieta e Gustavo. Seu corpo foi cremado em 28 de agosto em Vila Alpina. Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

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Vidas

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Papi, o poeta-jornalista

em mim até que provei que sabia apurar. Pouco depois passei a repórter. E, na escala de promoções, virei rapidamente assistente de editor para logo em seguida ser indicado como repórter especial de investigação. Depois fiz diversas reportagens internacionais. Todas exclusivas e a maioria perigosa. – E como foi mesmo que você chegou à chefia de Reportagem? – pergunto. – Eu era sempre o substituto eventual do chefe de Reportagem toda vez que nessa área se instalava uma crise. Depois terminei confirmado no cargo. Trabalhamos juntos quando você era editor e eu chefe de Reportagem. Não se lembra? Eu me lembro. E como me lembro. Mas como ele nunca gostou da “cozinha” da Redação e o consideravam indisciplinado e aventureiro demais, voltou à função “que mais gostava, a de repórter especial de investigação”. Fez concurso na Universidade Federal Fluminense e foi admitido como comunicólogo – cargo de nível superior que engloba jornalismo, publicidade e relações públicas. Por último quis “ser dono de jornal”, fundando e mantendo a duras penas o Repórter Geral. Veio a doença e ele se pôs a escrever afanosamente enquanto tinha tempo. E assim escreveu até virar a última página da própria vida. Admirador incondicional de Jorge Luís Borges, poderia ter dito como o conterrâneo com o qual se esbarrava na Calle Florida: “Publicamos para não passar a vida a corrigir rascunhos. Quer dizer, a gente publica um livro para livrarse dele”.

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Plena década de 1950, JK já governando, a poesia podia explodir livremente em cada canto de jornal, de revista e até de rádio. Eram tempos de Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Morais e Adalgisa Nery. Transmitiam esses grandes poetas e outros talvez nem tanto – que eram também repórteres, redatores e editores de

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também a incumbência de levar as meninas profissionais do amor para jantar depois de a casa fechar as atividades da noite: – Era só para protegê-las dos gaviões – garante naquele seu portunhol nunca traído mesmo quando já no Brasil passou a escrever a tolerável algaravia das reportagens policiais. Antes de chegar ao Rio, perambulou por vários paises da Europa. Fez parte daquela turma de sul-americanos que descobrira como falar de graça em orelhões de Paris: – Terminei voltando para a América do Sul três anos depois do exílio. Mas parou no Brasil “porque ir direto para a Argentina era impossível”. Em Porto Alegre, sua primeira escala, lutou com Valdemar Santana. E lembra contrafeito que “el fuerte y maravilhoso negón” o massacrou. Mesmo “quebrado e alquebrado” foi ensinar defesa pessoal para oficiais da Brigada gaúcha... – ...que és la PM del sur. E,

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50 Jornal da ABI 344 Agosto de 2009

UCHA

“A vida de Victor Alberto Abdalla Combothanassis – o Victor Combo – por si só é um livro de aventuras. Que ele escreveu e titulou como Na Boca do Lobo (editora Corifeu) para ser uma trilogia, “meio ficção, meio verdade”, do que viu e viveu como repórter. Mas a morte que o espreitou ao longo dos últimos anos obrigou-o a um indesejado epílogo na madrugada do dia 19 de agosto, no Hospital de Clínicas de Niterói, aos 73 anos, mais de meio século de jornalismo profissional. Nascido orgulhosamente em Buenos Aires – “lá tudo é Europa, Pinheiro!” –, o pai queria que ele fosse advogado. A mãe sonhava em “me ver um médico”, contou-me ele no último encontro que tivemos na sede da Auracom, Assessoria de Comunicação: – Terminei seduzido pelo jornalismo aos 17 anos – enfatizou algo triste, algo jactancioso. Repórter do Democracia, jornal editado pela Aliança Libertadora Nacionalista – braço nada pacífico do peronismo –, “cai em desgraça junto com toda a Redação quando o General Aramburu e o Almirante Rojas derrubaram Juan Perón”. – Com a ajuda do Partido Comunista consegui me pôr a salvo no Uruguai. Ele que nada tinha de comunista. E de Montevidéu, “com identidade falsa providenciada pelo já clandestino Partidão argentino”, foi parar em Amsterdã. – Primeiro lavando banheiros de uma boate, depois promovido por merecimento a leão-de-chácara. Trazia de Buenos Aires os títulos de campeão metropolitano de luta greco-romana e campeão nacional de luta-livre. Como leão de boate em Amsterdã, confessa que tinha

Argentino de Buenos Aires, jornalista desde os 17 anos, o repórter Victor Combo foi um aventureiro, no bom sentido do termo: saiu fugido de sua terra depois que os militares derrubaram o Presidente Juan Perón, fez coberturas não só no Brasil, mas também no Oriente Médio, na Europa, na África e nas Américas. É dele o perfil traçado a seguir pelo jornalista Pinheiro Júnior, que foi seu editor em O Globo e deu à sua evocação este título: Victor Combo: Assim viveu (e morrem) os aventureiros. Combo morreu no dia 20 de agosto, em Niterói, RJ.

Victor Combo, o aventureiro

adespues vim passar fome no Rio morando numa república de estudantes que descobri no morro da Glória. Problemas com “una novia, hija do senador Mem de Sá, então ministro”, catapultou-o para Niterói. Diz ele que já sabia falar pelo menos umas 20 palavras em português: – O que me habilitava a ser repórter bilíngüe no niteroiense Diário do Comércio dirigido por Dalton Feliciano Pinto, um oficial da Aeronáutica que havia se exilado em Buenos Aires tempos atrás, quando nos conhecemos. E até ficamos “muy amigos”. Na cobertura do incêndio da Gran Circo Norte-americano conseguiu a proeza de descobrir que o sinistro fora criminoso: – E enquanto os repórteres dos melhores jornais nacionais e correspondentes estrangeiros se acotovelavam na porta da Secretaria de Segurança do antigo Estado do Rio, aguardando notícias oficiais, eu e companheiros do Diário do Comércio saímos distribuindo de graça os exemplares da nossa edição extra não apenas confirmando ter sido criminoso o incêndio, como estampando na primeira página a foto dos dois suspeitos, Bigode e Dequinha. No dia seguinte já estava em O Globo. Foi admitido na condição de “repórter-de-setor-estagiário”: – Nomenclatura essa que não existia em jornal nenhum e que certamente foi criada por Moacir Padilha, então diretor de Jornalismo, só para poder me contratar. Eu não passava de um rapazola com cabeleira até os ombros e até meu portunhol era ruim. O Padilha não levou muita fé

PINHEIRO JÚNIOR DÁ UM ADEUS EMOCIONADO A DOIS COMPANHEIROS

tarefas triviais ou não – uma dourada e por vezes alegre conotação à informação do dia-a-dia. Porque a poesia era então reconhecida necessidade jornalística. E manifestava-se com desenvolta naturalidade na prática do bem informar (e protestar) sem a discriminação debochada que viria a cercar e cercear a inesperada


José Alves Pinheiro Júnior é jornalista, Conselheiro da ABI, foi diretor e editor de jornais e revistas, entre os quais A Crítica de Manaus, O Globo e Ultima Hora. É editor atual da Auracom Livros e autor de romances e contos, como Esquadrão da Morte, Mefibosete, Aventuras e Bombom Ladrão.

Bob Nélson, um pioneiro da publicidade Ao ser lançada no Brasil, a Coca-Cola o escolheu para garotopropaganda, assim como a primeira calça jean brasileira, a Far West. Conhecido pela jovialidade que preservou até os 91 anos, a idade que tinha ao falecer, em 28 de agosto, o radialista Nélson Roberto Perez, o Bob Nélson, deixou sua marca no rádio, na música poopular e na história da publicidade no País, como um dos primeiros artistas a estrelar a campanha de lançamento de um produto – a Coca-Cola. Nélson sofreu uma parada cardíaca, após complicações pulmonares. Ele estava internado há dois meses em um hospital no Centro do Rio. Ídolo de Roberto e Erasmo Carlos, Nélson Roberto Perez, antes de iniciar a carreira na Rádio Tupi de São Paulo, em 1943, quando adotou o nome artístico de Bob Nélson, trabalhou como caixeiro-viajante, percorrendo todo o território nacional, e na farmácia de propriedade de seu irmão. Vindo para o Rio de Janeiro, passou a trabalhar na Rádio Tupi e a cantar na

Com seu traje típico, Bob Nélson se tornou pioneiro na fusão da música caipira brasileira com a country dos Estados Unidos.

MARCO ANTÔNIO CAVALCANTI/AGÊNCIA O GLOBO

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declarada – “e descarada!” – subversão em prol de camponeses sem-terra. Camponês, aliás, passou a ser palavra obscena. Nunca pronunciada em público sob pena de indicar aos ouvidos da ditadura que o autor do palavrão era perigoso subversivo aliado das ligas de Chico Julião. Subversivo realmente era o Papi, por confissão ideológica, como companheiro de Graciliano Ramos incluído no mesmo inquérito do Dops que incriminou o Velho Graça ao tempo de uma ditadura mais antiga – a do Estado Novo. Nascido no ano tenentista de 1922, de esplêndido berço mineiro, Papi vinha de Governador Valadares. De tradicionalista e conformado não tinha nada, porém. Tanto assim que pareceu estimulado pelo golpe contra sua poesia após o 1º. de abril e desandou a publicar livros. É de fins de 1964 o seu Poemas do ofício: dos homens, dos deuses, das armas. Os Artífices saiu logo depois, em 1967. E Este Ofício: seleção poética chegou às livrarias em 1976. Os inovadores poluemas de Desarvorárvore, com estranha capa escultural, pois Papi também cometia esculturas “em momentos de desespero criador”, saiu em 1982 antecipando a luta ecológica e as necessidades de se reciclarem os “infames e infamantes consumos burgueses”. Poesia dos pés à cabeça, em 1979 fez uma pausa rapidíssima para publicar Cartilha anticrítica, com artigos literários que julgou oportunos enquanto traduzia e revisava os russos Konstantin Fédin e Mikhail Cholokov. São dele também as traduções brasileiras de romances do equatoriano Jorge Icaza e do mexicano Juan José Arreola. Foi então que veio o fim da ditadura. Mas Papi não descansou. Reacendeu seus recados literários lançando O Aleijadinho: Anjo e Bruxo do Barroco (1983), Os Olhos Potáveis da Noite (1999), Parlapedra: Poesia/Escultura (2000), Ipanema la Douce: Sonetos (2002), Enciclopédia Mínima: Sonetos de Almanaque (2004), O Circo: Poemas Malabares (2005) e, por fim, Irreparabile Tempus: Sonetos (2006). Sem dúvida, irreparáveis tempos... Dos puros poetasjornalistas. “Que os anos não trazem mais”, como dizia Casimiro de Abreu (lembram-se dele?).

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Esse poema reproduzido ao sabor da memória tinha por título Guarapari. Era um protesto contra a alienação das areias monazíticas pirateadas na “praia negra que sangrava corpo inteiro”. Nacionalista e contra as guerras da Coréia e do Vietnã, seu autor assinava-se Luiz F. Papi. Era jornalista, escritor, tradutor e crítico... Viveu de escrever, versejar e protestar por mais de meio século. Morreu como o mais puro dos poetas neste último 20 de agosto – uma fria quinta-feira. Haveria de ser perseguido não apenas pela intolerância intelectual pós-1964, mas também por outra longa doença. Que lhe roubaria a vida sem porém o impedir de publicar os sonetos de Irreparabile tempus dados à luz em 2006. Por isso não é demais perguntar: Teria morrido com ele “neste agosto ceifador de vidas” a era dos poetas mais puros?... Por longos anos Papi foi redator de O Globo e da United Press. Trabalhava de manhã naquele vetusto edifício da Avenida Rio Branco que reunia, além da UPI, o JB e a Rádio Jornal do Brasil. Assim o conhecemos transitando ágil por andares diferentes, comentando guerras, políticas e poesias. Até que em 1964, quando a censura golpeou o País, seu livro Arado branco foi uma das primeiras, senão a primeira obra literária apreendida pela repressão. Os militares teriam encontrado na beleza simples destes poemas a mais

– ... brancas velas, por que tardam? Não acendem a madrugada nas praias luzes do dia. Ah! Velhas fimbrias das arribações corsárias... O duro punho dos filhos livrou-te no passado. Mas nova era chegou, a das areias que dão minério para a guerra suja...

espontaneidade do cotidiano poético. Delírio lírico? Exagero de jornalista cansado da submissão à esterilidade e inocuidade da neutra e pretensamente objetiva mídia moderna? Não apenas isso como também porque os poetas da era dourada do jornalismo mais livre e menos cartelizado levantavam a cabeça, a voz – e os versos!– até nos primeiros cadernos dos diários. Nas chamadas de primeira página podia haver um toque de poesia sem que ninguém achasse piegas, cafona ou ridícula uma eventual adjetivação. Nos cadernos de literatura, então – como naquele célebre Suplemento Literário do JB, no Jornal de Letras (como não poderia deixar de ser) e na revista Para Todos, dirigida pelo indelével Álvaro Moreyra – aparecia cada poema de arrepiar. Um deles, por exemplo, dizia:

noite carioca. Na então Capital Federal, participou de programas vespertinos de grande audiência na televisão nas décadas de 50 e 60 voltados para o público infantil, como O Mundo é da Criança, no qual atuava ao lado de Aérton Perlingeiro, na extinta TV Tupi. No Rio, ainda assinou contrato de exclusividade com a Rádio Nacional, emissora de maior audiência na época, onde permaneceu até os anos 70, e para a qual levou o então desconhecido sanfoneiro pernambucano Luiz Gonzaga, que deslanchou a partir de então e se tornou conhecido como O Rei do Baião. Pioneiro na fusão entre a música caipira brasileira e o country norteamericano, no início dos anos 40, inspirado nos filmes de Gene Autry, ele passou a se caracterizar como “tirolêscaubói”, interpretando canções do Oeste americano com adaptações e versões em português para as letras. Em 1943, foi premiado pela Rádio Cultura de São Paulo por sua versão de Oh, Susana, de Stephen Foster, um dos maiores sucessos da carreira do “vaqueiro alegre”. Ele também atuou no cinema em filmes como Segura Esta Mulher, de 1946, e Este Mundo é um Pandeiro, de 1947, ambos dirigidos por Watson Macedo, para a Atlântida. Com a introdução da Coca-Cola no Brasil, nos anos 40, Bob Nélson participou da primeira campanha publicitária do refrigerante, ao lado de Emilinha Borba e Francisco Alves, trajando roupa e chapéu de vaqueiro, e com um lenço amarrado no pescoço, seu visual típico. A primeira calça jeans brasileira, a Far West, também o teve como garoto-propaganda. Em 1974, foi homenageado por Roberto e Erasmo Carlos com a canção A lenda de Bob Nélson, gravada pelo Tremendão. Bob Nélson, nascido em 1918, na cidade paulista de Campinas, morava há 60 anos em Copacabana, na Rua Paula Freitas, na qual era reconhecido como um dos últimos integrantes de época de ouro do rádio brasileiro e, também, como destacado membro da Escola de Samba Império Serrano, pela qual desfilou enquanto a saúde permitiu.

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