marciomeirelles/CiadosComuns Rio,dez.2002/fev 2003
ABERTURA–IáMiOxorongá
Entram as Iá-mi. As Iá mi se reunem.
VOZES DE CHICA XAVIER,LÉA GARCIA,RUTH DE SOUZA E ZEZÉ MOTA–
OTempoéoSenhordashistórias
OTempoguardamuitashistóriasparasempre
AshistóriasficamguardadasparasemprenoreinodoTempoquandonãosãocontadas
As histórias não são contadas quando não existe voz que as conte;quandoasvozesnão são ouvidas; quando as vozes são caladas; quando ouvidos não conseguem escutá-las; quandoouvidosnãoentendemoqueescutam.
Temosmuitashistóriaspracontar
Temosentãoquerestaurarnossavoz.
Temosqueacostumarosouvidosaosomdessavozrestaurada.
TemosquetirarashistóriasdoreinodoTempo.
Entram os homens – luta. Homens caem. Mulheres vestem os homens
CORO –Iámixorô babalaôyê babalaô
COBRA - As Iá Mi Oxorongá são as nossas mães primeiras, raízes da raça humana, são feiticeiras. São velhas mães-feiticeiras as nossas mães ancestrais. As Iá Mi são o princípiodetudo,dobemedomal.Sãovidaemorteaomesmotempo,sãofeiticeiras. Um dia as Iá Mi vieram para a Terra e foram morar nas árvores. Sete árvores, sete moradas. Cada uma, um poder Elas vieram para a Terra. Eram duzentas e uma e cada qualtinhaoseupássaro.Seupodereragrandesobreoshomens. Eleslheeramsubmissos.Elaseramamãedetodos.Nossasmãesancestrais.
O homem dependeria da mulher sempre, Para fazer o que quer que fosse. Então os homens acharam que a mulher tinha poder demais na Terra. É pela mulher que todos vêmaomundo.Entãooshomenscomastúciaeforçatomaramdamulheroseupoder.1
TERRADEVASTADA/ESTRATÉGIASDELUTA
Nanã/Shanakdakete
DÉBORA–edimossócumomorodé
CORO FEMININO –edimoseô edimossocum omorodé edimoseô
TIA DAIÁ – Fala de velha. Andomuitopreocupadacomajuventudedehojeemdia.Naminha época, aspessoatinhamaisrespeitocomosoutro,principalmentecomosmaisvelho.Se eu tô viva e firme até hoje é pelos ensinamentos de minha mãe e da minha avó. Que passava pra gente histórias dos ancestrais. Pessoas mais velhasdoqueelas.Pessoasque
1 ApartirdePierreVerger(verreferênciabibliográfica)
viveram antes delas. Pessoas de outros tempo. Fala de candace. Éprecisoolharpratrás pra ir pra frente. Porque atrás de nós tem um espelho. Nesse espelho é que tá a nossa cara verdadeira. Nosso espelho é um espelho de rainhas. Rainhas mães, rainhas guerreiras. Candaces. Houve um tempo em que viveram as Candaces. Somos herdeiras dessas rainhas. Nossa cara está perdida em seu espelho. A gente tem queseolharnesse escudo de guerreira e, com nossas armas, enfrentar o inimigo. Ainda que ele tenha mil braços e muitas armas e muitas vozes. Nós temos uma só voz, uma só fala. A fala de nossos ancestrais. Fala de velha. Do povo dos outros tempo. Tenho muita preocupação comofuturodessemundo,porque ninguémseimportamaiscomopassado.
DÉBORA–Edimossócumomorodé
CORO FEMININO –Edimoseô edimossocum omorodé edimoseô
DONA ZIZI – Cai e se arrasta. Procura ajuda. Jussara!...Derci...Derci...ZéRoberto!... Jussara!...Temalguémemcasa?...
CORO FEMININO –Edimossócumomorodé edimoseô Edimossocum omorodé edimoseô
DONA ZIZI – Derci...Jussara!...Tôtodacagada!...Derci!...Escorregueinamerdaqueescorreu por minha perna. Jussara... Eu não sou merda não... cadê Derci? Não tem ninguém. A gente fica largado na própriamerda.Saiutodomundoeeufiqueisozinha.Vidadevelho é isso. Não serve pra nada. Acham que não tenho mais nada pra dizer? Pensam que só tem merda aqui. Que não sirvo pra nada? Ajudei a construir isto aqui, eu e seu pai, Jussara. Quando queimaram a Praia do Pinto, a gente saiu com uma mão na frente e outra atrás. Agora tá lá o Selva de Pedra, e a gente tá aqui. Aqui foi nós que construiu. Eu e seu pai. Só tinha aqui o terreiro da Mãe Terê. Agora o asfaltotácomendoobarro, mas foi eu e seu pai quecomeçou.QuandofuiprobarracodelenaPraiadoPinto,gostei e ele gostou. Largueiavida.Larguei deserputa,masmuitodeputadomecomeu.Seide muita coisa dessa história do Brasil: é uma história de putaria... e vai ter que mudar comoeumudei.Seupaimeganhouevireimãedefamília.Sousuamãe,Jussaraetunão é filha da puta,não.Nãovaimelargarassimsozinha,quenesseBrasilnãotemlugarpra velho, não. Tem é fila de previdência. Tem é fila de tudo nessa porra. A gente dá vida. Dá sangue. Dá buceta.Levantaomundocomolevantaopaudomachoequandoévelha ficanamerda.Metiradamerda,Jussara,quetunãoéfilhadaputa,não.
CORO FEMININO –edimossócumomorodé edimoseô edimossocum omorodé edimoseô
Juça se arruma e sai.
COBRA –Êikuléodô
CORO MASCULINO –Êikuléodôxalá
JUÇA – ...o futuro é tu que tem que fazer, Zé Roberto. Não é assim, não, meu filho. Não é playboy da Barra que vai te dar futuro, não. Olha tua cor, olha tua origem. Estudar no meio deles, não faz tu igual a eles, não, menino. Tu é diferente. Eu ralo pra te educar
Porque não quero que tu seja como teu pai, não, Zé Roberto. Teu pai, foi embora, me largou com tu na mão, porque não teve competência para manter o que tinha. Te criei sozinha prá tu ser homem. Pra ter uma mulher forte como eu e saber respeitar. Não te educopraseespelharempleiboizinhodeBarradaTijuca,não.
NÉIA – Ô, meu filho?... levanta. Ô, Calu, vem cá ajudar a levantar esse menino. Levanta, meufilhodessechãosujo.Todosujodecimento...
COBRA –Êikuléodô
CORO MASCULINO –Êikuléodôxalá
JUÇA –ZéRoberto,negroédiferentedebranco.Nãoadiantaelesficaremrepetindoqueétudo igual no Brasil, que somos mestiços. Na hora do vamo ver, a diferença aparece. No futebol e no sambódromo tudo bem, nêgo faz bonito, então é tudo igual. Ainda assim, olhe lá... isso tá até acabando. Você vê rainha de bateria? Quantas são negona de comunidade?
NÉIA – Ô, moço, ajuda aqui. Meu filho tá caído assim e sujo, mas ele não évagabundonão. Ele tá é cansado. A gente tá muito cansado de tudo isso... Ele cansou de procurar emprego. Outro emprego melhor do que o do pai... de pedreiro. Porque emprego de pedreiro nãoérespeitado,não.Trabalhacomodá...nãoconseguiuoutroempregoporque não tinha estudo. Mas a gente cansou de procurar estudo pra ele. Cansou de ir atrás de escola... Calu eramestredeobra,eeulavava...masodinheironãodavapratudo,não.A gentetinhaquecuidardopaideCalu,queeracegoenãotinhaprevidência.Edairmãde minha mãe quemoravacomagenteeerafracadojuízo.Aí,omeninotevequeajudaro pai. Eu mandei o pai ensinar o ofício. Perdeu interesse no estudo. Cansou. Cansou de chegar na porta da escola e voltar por que não tinha aula.Oprofessorfaltououtavaem greve. Cansou de não ter o seu pra comprar suas coisinhas... começou a trabalhar Aí não achou nada melhor, porque não tinha mais estudo. Agora tali, deitado. Parece criança. Levanta, meu filho. Parece que tá dormindo... Ele dormia bem. Não deu trabalho esse daí. E foi o único. O outro, eu mais Calu achou que não podia ter e não nasceu. O médico do posto, que me atendeu... que o aborto deu complicação... ligou as trompa, que disse que era melhor Que eu não devia ter mais filho mesmo... Levanta, menino... Quando nasceu, primeiro foi a confusão praarranjarleitonohospital.Masele era brabo e nasceu no corredor mesmo. Quase eu de pé. Eu gritava tá nascendo e não tinha nem enfermeira, nem médico pra aparar. Deitei no chão e ele começou a nascer. Foi assim. Agora taí deitado. Ele tava lá em cima no andaime... e agora aí dormindo. Cansou. Levanta, meu filho. Vamo pra casa deitar Amanhã tu acaba o serviço. Eu falo comteupai.
COBRA –Êikuléodô
CORO MASCULINO –Êikuléodôxalá
JUÇA – Tem que estudar muito, Zé Roberto. Se preparar. Você tá emescolaparticular,queeu pago com meu trabalho, pra você poder enfrentar o vestibular e entrar na Universidade porque é capaz e não por causa de cotas. Que agora inventaram isso.Cotas.Porque?A gente não é capaz, não? Não, Zé Roberto, porque o negro não é preparado numa boa escola pública. E ainda assim tem confusão. Agora, branco quer ser negro e ser beneficiado com cota. Agora tá todo mundo discutindo se raça existe mesmo ou se é invenção. Não, Zé Roberto, o negro tem que entrar onde for porque é competente. Eles têm é que melhorar o ensino público e preparar bem vocês, pretos ou brancos. Sabe o quê, Zé Roberto? Acho queelesquereméfazercomauniversidadeomesmoquecomo resto do ensino. O pago é bom, porque rico exige qualidade. Paga por ela e mantém as
coisas como estão. Deixa os outros sem preparo. Deixa os preto entrar e encher as faculdades públicas. Vão acabar com a qualidade delas também... Eu te eduquei e te educo.Vocêtemquesevirarefazersuaparte.
COBRA –Êikuléodô
CORO MASCULINO –Êikuléodôxalá
CIDO – Cândida, Candinha, Candace... Aterratomatudodagente,Candinha.Etomamaterra de nós. A terra dá no começo e toma de volta no fim. Os ôme não dão nada de volta. Não adianta lutar, isso não muda. A vida é dura que nem o chão do estradão que vou pegar pra cidade grande. Candace, Candinha. Vou largar a enxada... a foice. Larguei o facão. A luta era tua. Tu era a guerreira. Vou enterrar tudo contigo, Candinha, candace. Uma guerreira temquetáarmadainténamortetambém.Eutôarribano.Osmeninofica. Compadre Zé Duda vai cuidá. Mando dinheiro pro sustento. VouproRiodeJaneiro.Lá temserviço.
Aquinãotenhomaisnada. Tutáguardadanaterra. Candace.
Eu Nãotenhoterra. Nãotenhotu,minhaterra. Nãotenhoterra nãoficoaqui. nãotenhomaisnada.
COBRA –Êikuléodô
CORO MASCULINO –Êikuléodôxalá
JUÇA –Oqueéquetáesperando,ZéRoberto?Tusaidaminhafrenteevaitrabalhar.Voltapro morro e vai procurar seu Calu. Não quersermúsico?Vaiaprendercomeletambém.Ele éumgrandesambista...
ZÉ ROBERTO – Mãe. Eu não tô afim de ir pro morro, não. Nem quero sercomoseuCalu.Ser pedreiro e fazer música e nem música mais ele faz. Ele tá acabado. Só vive de porre. Não quero ser como ele, não. O morro não tem modelo nenhum pra eu seguir, não. Quero acabar de ensaiar na Barra e ir pro meu apê na Barra mesmo. Pegar meu carro e minha loira...Faculdadedemora.Eeuqueroéjá.Vouficarigualaopai,queagentenem sabe onde tá? Nem igual à senhora que não tem dia de descanso? Muito menos igual a seu Calu. Que modelo que o morro tem pra me dar? É ser traficante ou pagodeiro. Por enquanto quero ser pagodeiro. E vou formar banda é com os maluco daBarra.Nãovou ser pagodeiro de birosca, não. Quero é tocar conga importada e não atabaque de macumba.
NÉIA – Ô, meu filho?... levanta. Eu lutei a vida toda por tu. Luteitantoquefiqueiforte.Tu foi minhas arma. Quem vai cuidar de nós... eu mais teu pai, quando nós tiver velho? Levanta,meufilho.Tunãopodemorrernão.
CORO FEMININO –Aêaêaparapá
CORO MASCULINO –Aêaêaparapáô
Negret corre com um revólver na mão. Ameaça em várias direções. Joga o revólver na platéia. Volta. Empina uma pipa. Enrola a linha. Sai.
CORO MASCULINO –Daniamacumapaodê
CORO FEMININO –Oripodê
CORO FEMININO – Ênanãolwaiyê
CORO MASCULINO – Êpáêpá Ênanãolwaiyê Êpáêpá
CORO FEMININO – Ejilaôibisekôfumim bobôaêaêayrecê equesifôibisekôfumim bobôaêaêayrecê
TATIANA– Ibinanaióoluobó
Nanaió
CARMEM –VoudarumachanceproAnacleto,Naná.Ocaratásemnada,semondemorar...
NANÁ – Você é quem sabe, Carmem, o investimento é seu. Só lhe deiumaforçaenãoespero lucro desse bar. Mas esse negócio de ter que ajudar porque éprimo,porqueédafamília... negócioénegócio,minhairmã.Eumevireisozinha.
CARMEM –Pravocêfoifácilvencernavida.Casoucomhomemrico.
NANÁ – Comecei a vencer casando com um cara rico. Mas não fui pra Copacabana buscar gringopraisso,não.Caseicomnegro.Umnegãomedeuboavida.
CARMEM – A mulher tem sempre que depender de homem, não é, Naná? Por que será? Por que é que sempre é o homem que conduz o mundo e ajuda a mulher a vencer e isso não muda? Porque mulheres como você e minha mãe educam as filhas para servir eosfilhos pra comandar. Pra serem duros, pra não chorar, que macho não chora. Porque pra vencer não basta ser homem, tem que ser macho. E quanto maismacho,melhor Maischancede vencer
NANÁ – Ô, Carmem você fala assim porque não gosta de homem. Não sabe o que é bom. Nuncanamorouhomem.Sógostademulher
CARMEM – Eu já chorei muito por causa disso. Porque queria eachavaerrado.Omundotodo me dizia que era errado. Como a minha cor. Mas não é errado. Sou o que sou e gosto do que gosto. Não tenho a cor errada, não tenho o gosto errado. E não preciso trepar com homempravencernavida.
NANÁ – Você quer dizer o quê, com isso? Que venci na vida como uma puta? Pra você toda mulher é puta? Pode ser, depende do ponto de vista. Mas eu venci de verdade porque peguei aclínicaeosnegóciosdomeumarido,osnegóciosquasefalidos,eboteiprafrente, depois que ele morreu. Aumentei meu capital. Aumentei meu poder, consegui meu ingresso na sociedade. Podem virar o nariz pra mim, mas me recebem. Porque tenho status.Porquevistobem.Porquesouadvogada.Porquesouvencedora.
Carmem–Suavitóriaseacabaquandochegaumhomem,Naná.ComoJura.
CORO FEMININO – Nanãtobossiseregí
Nanãtobossiseregí
CORO MASCULINO – Mabewámabenã ikutorosê
Nanãtobossiseregí mabewálokô
VOZ DE ELZA SOARES – Canta. Sou preta sim, não nego a raça E até acho graça quando falam de mim. Quando falam de mim. Não é natural, neste Brasil
dizem que não há
Preconceito racial Eu trabalhei no progresso dessa nação Minha pele suei trabalhando de pés no chão
Acho que alcancei
Acho que alcancei
A liberdade de hoje em dia Eu sou irmã de leite da sinhá moça Maria Sou preta sim... Commuitoorgulho.
PRIMEIROLEVANTESEGUIDODERENDIÇÃO
Oxum/Amanirenas
COBRA– Asóbaimasólodê
CORO MASCULINO – Asólelé
ANACLETO –Fala,moleque...
ZÉ ROBERTO –Távindodeonde?
ANACLETO –Dobaile,aquidomorro.Umreal.Etu?
ZÉ ROBERTO –Dobaile?!Tôvindodadanceteria.
ANACLETO –Comospleiboi,né?
ZÉ ROBERTO –Pegoualgumahoje?
ANACLETO –Três.Evocê,ZéRoberto,pegoualguém?
ZÉ ROBERTO –Maisoumenos.Tôdesenrolandocomumamulherzinha,aí...
ANACLETO – Fala sério! Sabe a Lurdinha, aquela que era afimdevocê?Pegueiela,malandro. Tutinhaquetervistoelafalando:vai,Cletinho...gozanaminhacara...vai,vai...
ZÉ ROBERTO – Aí, Anacleto, põe uma coisa na tua cabeça: mulher preta não serve pra nada. Sópraserempregada...
ANACLETO –Empregadanãotembuceta,não?
ZÉ ROBERTO – É porque tu nunca viu uma buceta branca,quandoelavaiabrindo,assim,toda rosadinha...
ANACLETO –Etu,jáviu,ZéRoberto?Já comeuuma?
ZÉ ROBERTO –Combrancaémaisdifícil,temquedesenrolar
ANACLETO –Ficaaí,desenrolando,quevoucomendominhaspretinhas...
ZÉ ROBERTO – Aí que tá, meu irmão, se for só pra dar uma foda, pega essas neguinha aí mesmo. Mas pega “no sapato”, sem deixarninguémsaber Nahoradenamorar,temque sercombranca,porquepretanãodá.Pretanãotemestilopróprio.Pretafede.
CORO –Taladêomitaladêerwmalé omitaladê
CALU –Ô,Anacleto,medáumabrancaaí,queeuqueromeinspirar.
ANACLETO –Aí,seuCalu,émelhorosenhoriracabaraobradobanheiro,queaCarmemdisse quequandoacabaracota,nãoépraeuservirmaisfiado,não.
CALU – Cala a boca, moleque, vai pegaraporra.Querolásaberdeobra?Queroéinspiração. Temunstrêsanosquenãoconsigofazerumsamba.
ANACLETO –Tuquesabe,seuCalu...
CALU – Esse ano a escola entra pro segundo grupo. O enredo é forte. “Candace de Méroe, a força da mulher negra”. Preciso de tua ajuda,Rumpí,onegóciotáaqui...tánagarganta. Ainspiraçãoéminhanega.Muléfortetali.Minharainha,Rumpi.
ANACLETO –SeuCalu,émelhoracabarobanheiro.
CALU – Que porra, Anacleto! Parece papagaio! O enredo é o seguinte... tinha um povo que morava vizinho do Egito... aí vai ter a ala dos egípcios e romanos, que dominava eles. Teve um tempo que esse povo, que chamavacushi...daítemqueacharrima,pracushie Méroe, que era a capital...atéaítudobem,porquecushitemrimaeMéroe,agentepuxa pra Meroéééééé... O pior éonomedasrainhas.Queaívaiterumcarropracadaumaeo que o carnavalesco quer é isso: dizer que as negona é tudo rainha, e forte como elas. Eram guerreira, as fia da puta! Candaces... e lutaram com os romanos várias vezes. Perderam, tomaram um bocado de porrada, que quem se mete com maisforteéassim... mas as mulé não deram o braço a torcer. As mulé era indigesta,deramtestaatégarantir que o povo dela vivesse tranqüilo... Agora, Rumpi, era cada nome desgraçado: Amanirenas... morenas... Não dá, que era tudo negona, não fica bem chamar de morenas.Amanishakete... Se falar boquete dou um soco em sua boca, seu filho daputa! Merespeite.Respeiteminhanega,quevoudedicarosambaaela!
CORO –Taladêomitaladêerwmalé omitaladê
CIDO – MeunomeéPlácidoSerenodeSantana,cordelistadevocação,assinoCidodeNazaré. Ó esseaqui:“Apelejadomacumbeirocomocrente”...eesse:“Oromancedo malandro queperdeuoseuamor
JURA –Issopareceminhahistória
CIDO –Tuperdeuteuamor,poeta?Tambémperdiomeu
JURA –Porissoquevolteiàcomunidade.Queroachareladenovo.
CIDO –Tu aindapodeacharatua,poeta.Aminhaperdiprasempre.
JURA –Quepena...
CIDO – Esse cordel aqui fala dela: “Vida e morte de Cândida, Candace, ni sua luta pela terra”. Mulher de luta, a gente perde na luta. E foi assim: confusão tremenda.Milesde gente querendo terra pro sustento. Candinha, na frente.Eu,cádetráscosminino.Sema coragem que ela tinhadepeitargrileiro,polícia...Oshometudonoresguardodaordedo juiz que tava num pedaço de papel que num me dizia nada. Eu dizendo pa Candinha: “Mulé vem cá, fica co eu e os minino”. Mas mulé é bicho brabo. Encasquetou, vai buscar.
Ebuscáelaveioamorte naformadumcaminhão. Veidescendoláderiba, semfreio,semcondução. Semninguémpradáguarida Atropelandoamultidão. Marvadeza do coroné. Largaro bicho e foi a morte de um muntoado de gente. Foi a morte de Candinha e foi a minha também. Enterrei ela e ficou sendo minha sina. Continuo a enterrar gente. Aqui no Rio sou coveiro. Os folheto são pra aumentar o ganhoepraajudaralevaravida.Compraíuns...éumreal.Mastrêsémenos...
CORO –Taladêomitaladêerwmalé omitaladê
NÉIA –Ô,Calu,vamopracasa,ôme.
CALU –Oqueéquevocêqueraqui,mulé?
NÉIA – Eu quero é que você vá pra casa! Quero é que você cuide da vida,emvezdeficaraí, embar,enchendoacaracomvagabundo!
CALU –Respeitemeusamigoemerespeite!Nãoquerovocênomeuambientedetrabalho!
NÉIA –Queambientedetrabalho?Vocêtáaquiénacachaça!
CALU –Tôfazendoaobradaporradobanheiro!Ounãotô,Anacleto?
ANACLETO –Táquaseacabando,donaNéia...
NÉIA – Tá encobertando vagabundo? Carmem me dissequetátudoatrasado,fuipedirqueela desseorestododinheiropramimeela...
CALU –Tufoipedirodinheiro?!Meusalário,suavagabunda?!Tufoipedirmeusalário?!Saia daqui! Tu quer me desonrar!...Nãobastaquematoumeusdoisfilho?Matoumeusfilho! Um tu botounaobrapradespencardoandaimeeooutrobotounasmãodaaborteira!Tu matoumeusfilho!Saidaquisuafilhadaputa!
Néia sai.
CORO –Taladêomitaladêerwmalé omitaladê
JUÇA –Queroupaéessa,ZéRoberto?
Dona Zizi fala sem parar e é ignorada pelos outros dois personagens que continuam seu diálogo, com o discurso ininterrupto dela de fundo.
DONA ZIZI – Cruzes, mas que roupas são essa, Zé Roberto? Bemquejáseviuquesópodiam ser doadas. Tá me lembrando aquelasmeninaqueveiodePetrópolis,que perdeu tudo na enchente de 89 e ficaram vivendo da bondade dos outro. Depois elas voltaram paraPetrópolisporqueaquitavapiordoqueláefoi morar em Vila São José. Elas morava em um barraco móvel, dentro do cemitério, em cima de uma fossa e quando chovia, elas tinha que andar com o barraco porque a fossa enchia. Tadinhas, quando elas passava, o povodaruaapontava,porquequandopobrequersacaneiaatépobre.Mas, cavalo dado a gente num olha os dente. Mas você não tá precisando ganhar cavalo de ninguém, porque tá trabalhando e ganhando o seu dinhyeiro. Devia é tomar vergonha na cara e colocar dinheiro dentro de casa. Comprar um quilo de café, fubá... porque tu já é um ôme ejátána hora de parar de levar essa vida mansa porque tua mãe não pariu nenhumamoça.
ZE ROBERTO –Eradeummalucodabanda.Nãodavamaisnele,elemedeu.Voutiraromaior ondãoaínafavela.
JUÇA – Só se for aqui na favela, porque lá no meio deles. Eles vão dizer. Á lá, a blusinha de fulaninho,acalçadesicraninho,ocintodebeltraninho...
ZE ROBERTO –Queéisso,mãe?
JUÇA –Tunãoprecisadisso,ZéRoberto.Tunãotrabalha?Nãoganhaoteu?Compratuas roupa.
ZE ROBERTO –Ih,aí...Issoéroupademarca,mãe.Vouprecisartrabalharumanoprapoder comprarumadessa.Ouentãoroubar Tuquesabe
JUÇA –Sevocênãopodecomprar,nãoprecisausar.
ZE ROBERTO –Aí,mãe,seliga,roupademarcaénecessário.
JUÇA –Praquempodecomprar Necessáriopratuéestudo,pratuumdiatercondiçãode comprarsuascoisas.
ZE ROBERTO –Aí,mãe,sabecomoéqueoscaraaquidaáreacompraasdele?Sabecomoé queneguinhoaquidaáreaconsegueandarnospano?Comtênisdemarcaetudo?
JUÇA –Sei,etearrebentosetutápensandoemsertraficante!
CORO –Taladêomitaladêerwmalé omitaladê
TIA DAIÁ –Ô,Mateusinho.Voltou,meufilho?
MATEUSINHO –DonaMaria,bomdia.Volteienãovoltei.
TIA DAIÁ – Que foi, Mateusinho, nem me chama mais Tia Daiá... Tem alguma coisa lhe atrapalhando,meufilho.
MATEUSINHO –Agoranãotemmais,DonaMaria,agoraestátudobem.
TIA DAIÁ –Éoquevaisever,Mateusinho,Éoquevaisever.
CORO –Taladêomitaladêerwmalé omitaladê
MATEUSINHO –DonaMaria,descobriemSãoPauloquetudoestavaerradoemminhavida.
TIA DAIÁ –Oque,Mateusinho?Vocêsaiudaquitãobem,pratrabalharnaquelafirma...
MATEUSINHO – Pois então, Dona Maria, encontrei pessoas que me mostraram comoeuestava iludido. Por isso as coisas não andavam bem. Sempre estava com dificuldades financeiras...
TIA DAIÁ –Masvocênãotavatrabalhando,meufilho?
MATEUSINHO – Memetiemconfusão,DonaMaria,minhavidaandavaparatrás.
TIA DAIÁ – Mateusinho, você saiu daqui com os caminhos aberto e o corpo fechado, com a proteçãodosorixá.
CORO –Taladêomitaladêerwmalé omitaladê
MATEUSINHO – Este era o engano. Isto é obra de encosto! O que se fazaquiofendeaDeus.É obra de Satanás. Vocês estão iludidas. Estão com o encosto e não percebem porque Satanásnãodeixaver Masaindahátempo...
TIA DAIÁ –Oquê,Mateusinho?!Vocêestáperturbado,meufilho.Oquefoi?...
MATEUSINHO – Não, Dona Maria, vocês estão perturbados por obra de Satanás. Mas estou aqui.Cristoestácomigo.Vocêspodemsesalvar.Abramseucoração.
TIA DAIÁ – Não estou entendendo. Você passou praessasigrejaquetomaodízimo?Foi,meu filho?
MATEUSINHO –DonaMaria,devolverodízimoécomoentregaraalmaaoSenhor.Eleretribui.
TIA DAIÁ – Mateusinho, fico pensando se mãe Terê ainda fosse viva e visse o neto dela assim...achoqueelamorriadedesgostoporessatraição.Tuéumingrato.
CORO –Taladêomitaladêerwmalé omitaladê
MATEUSINHO – Quero conversar comtodasvocês,mostraroverdadeirocaminhoqueoSenhor memostrou.
TIA DAIÁ – Que caminho é esse, Mateusinho, que leva você pra longe de suas raíz? Uma árvoresemraiz,estámorta,meufilho.
MATEUSINHO – Mortos estão vocês, para o Senhor. Voltei porque tenho uma missão. Transformar esta casa de encosto, numa congregação para honrar o Senhor Doar este meuterrenoàIgreja,paraqueseergaaqui,nestacomunidade,umacasadoSenhor.
TIA DAIÁ – Você tá perturbado! Esse terreiro sua avó consagrou aos orixás, aqui foi feito os assentamento.Esseterrenonãoeramaisdela,não.
MATEUSINHO – Era, sim, Dona Maria, tudo isto já foi vistonocartório.Ejáforamtomadasas medidas legais, corretas e justas para, de acordo com a vontade do Senhor, tirar daqui aquelesquenãoquiseremsegui-lo,derrubarestesbarracõeseentregar...
TIA DAIÁ – Mateusinho, você não vai entregar nada a ninguém, que você não tem nadaaqui. Aqui você tinha uma história. Agora já não tem mais. Isto que você tá dizendo não vai acontecer, não. Ninguém vai sair daqui.Porqueomundotemoutraslei.Quevocêcegou e não reconhece mais. Se você quiser construir seu templo vá, meu filho. Mas lá, em outrolugar Porqueaquinão.
CORO –Taladêomitaladêerwmalé omitaladê
PUAN –Oniaberêoniaberêô oniaberêoniaberêkum maimãosunk’nicojáderê
CORO - Kilofosinatodêkilofosinatodê ewereewereewerekilofosinatodê
CORO - Ewereomioparáewereomiopará ewereewereewere Ewereomiopará
TIA DAIÁ –Ô,Néia!...
Néia chega e faz reverência. Como se faz diante de uma mãe de santo.
CORO –Oparáilewíoparáilewí oparáilewíoparailewí
TIA DAIÁ –Mateusinhovoltouenãovoltou.
NÉIA – Ô, minha mãe, como assim? Vi elepassando,aindachamei.Maselenãomeouviu...e seguiu.
TIA DAIÁ – É isso: ele não támaisouvindo.Táseguindooscaminhoavessodele.Mateusinho tá perturbado, Néia. É o dinheiro, a ganância... Mas os orixávãobotartudonocaminho certo.Vocêvaiver Ô,Juça.
Juça vem e beija as mãos de Tia Daiá.
CORO –Oparáilewíoparáilewí oparáilewíoparailewí
TIA DAIÁ – Minha filha, preciso de sua força, das mulheres da comunidade, você tem que juntarelas,minhafilha.Osantomandou.Cadêteufilho?
JUÇA –Táporaí,pelomundo.Maspodedeixarquenessedaíeudouumjeito
TIA DAIÁ –Carmem,minhafilha...
CORO –Oparáilewíoparáilewí oparáilewíoparailewí
CARMEM – Minha irmã vai cuidar do problema. Ela é advogada, né?... Tá bem, na zona sul, mas se criou aqui, né, Tia Daiá? O terreiro éimportantepragente.Nossamãeensinoua
gente assim. A gente aprendeu muita coisa aí. Com as senhoras. Quem tratou dela, quando ela quase morreu? Quem foi que segurou a barra e ajudou quando ela teve aqueles problemas com aquele namorado que quase acaba com a vida dela? Ela vai resolveressenegócio,TiaDaiá.EsseMateusinhopirou.
NÉIA –Asenhoranãotásozinha,não,minhamãe.
CORO FEMININO –oparáilewíoparáilewí
CORO MASCULINO – oparáilewíoparailewí
CALU – nãoseisevouconseguir
CIDO –Cuméquenãovai,seuCalu?Tu,umsambistadagota?...
ANACLETO – ...a mina engravidou e quer que eu assuma. Só dei umas duas socadas com ela. Souotário?
JURA – Rapaz, saí aqui da área e caí na estrada por isso. Mas agora, voltei.Tôafimdesaber sesoupai.Bateuisso,malandro...
CALU – ...ela não vai me perdoar, Cido.Euesculacheimuitoanega...nãopodia...elaéminha rainha,minhainspiração.Semelanãofaçonada.
CIDO –Vaipracasa,poeta,epedeperdão.Levaosamba...
CALU –Nãoconsigoacabar sótemunsversoeorefrão.
CIDO –Eaperreadoassimtunumacaba,né?...
JURA – Carmem é a dona do bar? E é sua prima? Isso parece novela das seis... E Naná vem aqui?
ANACLETO – A Naná nunca vem aqui. Ela tem escritório na Zona Sul... Ela é madame, malandro.Táviúvaecheiadodinheiro.
CIDO – Recita.
QuandoDeuscriouavida Amorteapazeaguerra Ospeixeriosemares Asplanta,osômeeasfera Começoupeloprincípio Juntandotudonaterra.
Aterradámoradia Depau-à-piqueesapê Edáocumêdagente Dámilhocanaecafé Masprapovoaraterra ModelouDeusamulher. Começaassim,ofolhetodeCândida,poeta.Ajudôatuseinspirá?
CALU – Não, Cido. Só adianta minha nega. Perdendo ela, perco a inspiração. Não consigo acharrimaprosnomedessascandace...Anacleto,trazumacachaça.
ANACLETO – Aí, seu Calu, a Carmem disse que acabou sua cota. O senhor não acaba esse banheiro!Fiadonãosaimaisnão.
CALU –Cido,pagaaí.Napróximaeupago.
CIDO –Boteaí,Anacleto...
CALU –Pegalá,seumoleque.
ANACLETO –Vamolá...vamolá.
Calu e Anacleto saem
JURA –Ovelhocaiunapingamesmo...
CIDO –SeuCalutemocoraçãomuitogrande...Agentetemquecuidardele.
CORO MASCULINO –Eréwmaléiyámocuabó omitauesê
SEGUNDOLEVANTESEGUIDODENEGOCIAÇÃO
–Yemanjá/Amanishakete
VOZ DE TIA ZILDA – Canta.
Se foi bom pra você, pra mim não valeu
Nada posso fazer, o erro foi seu
Chegou a hora da refrecção
Precura entender meu coração.
Chegou a hora de você se redimir
Não faça chorar quem lhe faz sorrir
Chegou a hora da refrecção...
Eu lhe dei a mão, fiz você sorrir. Porque me enganar?
Porque me iludir?
E era tão bonito, eu era feliz
Vamos apagar esta cicatriz
Calu chega em casa. Durante toda a música, Néia olha firme pra ele
CALU – Perdão, nega... Tu me desculpa, nega?... Mais uma vez?... Tu sabe porque bebo, tu sabe que não agüento... não agüento essa vida sem o menino... e bebo pra esquecer Aí esqueço que tem tu... e tu vai no bar me buscar... isso é uma desmoralização pra um ôme, nega. Num vai mais não... Eu fico louco e num sei o que falo... Aí falo coisa que sei que não é verdade... Tu mandou eu ensinar o ofício pra ele, pensando no bem dele. Num foipraele... Eoaborto,tunemqueria...masagentenãopodiater...tuficavacom negóciodereligião...queospadredizqueépecado.Tenhonadacompadre?Tunãoédo terreiro? Padre sabe nada deterfilho?Elesnumfode,nãosabeoqueé...comoéquevai dizer nada sobre aborto?... Bebo pra esquecer, nega. Eu falei pro filho da puta do engenheiro que o andaime não tava seguro. Ele disse que tava e eu não briguei... Aí o meninosubiu...Subiu,nega...perdão...
NÉIA –Quefoiqueoadvogadodisse?
CALU –Queadvogado?
NÉIA –Doprocesso,domenino...
CALU – Ah... que o processo mudou devara.Agoraéoutrojuiz.Vaiterquevertudodenovo. Um bocado de assinatura, um bocado de carimbo. Tem hora que tenho vontade de desistir Isso...
NÉIA – Não desiste não, Calu. A gente tem, que lutar até o fim. Meu pai Xangô, vai fazer justiça. A gente não pode parar delutar,não,meuvelho.Senãoseacaba.Meufilhonão foi irresponsável,não.Aconstrutoratemquereconhecerissoepagaraindenização.Não é pelo dinheiro não, que não traz omeninodevolta,maspelajustiça.Elenãopodeficar mortocomessepeso.Nãofoiculpadelemorrer,não...
CALU –Meperdoa,nega...porhojeeporontemeporamanhãeporsempre...
NÉIA –Quefoi,meunego?...
CALU – O menino, foi embora muito cedo. Nasceu outro diaejáfoi...Elesaiudaí,nega...De suaxereca...Xerecabonita...
NÉIA –Tutádeporre,Calu.
CALU –Temqueficar...Dápracáessaxereca,nega... Abucetademinhanega
NÉIA –Para,Calu,osvizinho...
Embaixodaluaprateada Pareceumafloraberta Maravilhaarroxeada
Abucetademinhanega Temcheirodemaresia Lembratardesdetempestade Enoitesdecalmaria
Abucetademinhanega Temgostodecaviar Quenuncaproveinaterra, Masdocéuveiosealojar Entreaspernasdeminhanega Eéláquevoumeesbaldar
CALU –Nega,deixaeufazerumacoisa?
NÉIA –Jáseiatéoqueé...
CALU –Deixaeucheirarsuaxereca?
CORO -Aranitobôaranitobôsilê Aiaaranitobôsilê
JURA –...easenhorapodeveraíseeuperdielaousetenhochance?
TIA DAIÁ –Meufilho,setuperdeuéporquetunãosoubesegurar mulherprecisadetrato...e achoquecoisaquevocênãosoubedar.
JURA –Asenhorasabequeseeupudesseeutinhaficado.
TIA DAIÁ –Euseiqueagenteficaondequer,meufilho.
JURA –Emeufilho?Eutenhoumfilho?
TIA DAIÁ –Nãovejofilho,nemnumtemcriançaaqui,não...
JURA –Asenhorapodefazerumtrabalho,praelavoltar?Praprenderela?
TIA DAIÁ –Aquiagentenãoprendeninguém,não,meufilho...
JURA –Asenhoranãopodeabrirmeuscaminhos?
TIA DAIÁ – Isso se pode fazer. Mas com o caminho aberto, tu é que tem de andar. Tem que andar até ela. Como ôme, não como moleque, até porque ela é umamulhermuitoforte. NoentantoquetáatéajudandoagentenabrigacomMateusinho.
JURA –Mateusinhotábrigandocomasenhora?
TIA DAIÁ –Eelenãovoltoudizendoqueoterrenodoterreiroédeleequerendobotarnóstudo prafora?...
JURA –OMateusinhoquertomaroterreno?
CORO -Aranitobôaranitobôsilê Aiaaranitobôsilê
CARMEM – Não faça eu me arrepender, Anacleto. Até briguei com minha irmãpratedaressa forçaeteconseguiressebicoaquinobar
ANACLETO –Aí,Carmém,tuéresponsa.
CARMEM – Não fode, Anacleto. Tu não toma conta do bar direito, nem da obra!... Seu Calu nãoacabaessenegócio.
ANACLETO –Pô,Carmem,seuCaluégentefina.Ocoroatemproblema...
CARMEM – Todo mundo tem, mas ele tem que acabar essa merda desse banheiro. Nem isso vocêresolve?
ANACLETO –Eeusougerente?
CARMEM – Podia ser, se trabalhasse direito. E serespeitasseolugar.Pô,cara,tuémeuprimo, eudeixeivocêficarmorandoaí...
ANACLETO –Vaijogarnacara,éCarmem?Possosairfora.
CARMEM – E ir pra onde? Pára de merda cara! Outro dia achei camisinha usada. Aí, atrás do balcão...
ANACLETO –Eunemusocamisinha!
CARMEM –Equemusa,aqui?Eu?...
ANACLETO –Nãousomesmo...
CARMEM –Bonito!
ANACLETO –Camisinhaémormancada.Équenemchuparbalacompapel.
CARMEM – Tu não usa porque tu é idiota! Tu não usa e engravidou a Laurinha. Eu que te apresenteiamina,cara...Eunãotavamaiscomelamastenhoconsideraçãoeamizade.E tunãorespeitou.Agoraelatágravidaeenchendomeuouvido...
ANACLETO – Desculpe aí a consideração que tu temporela,maselanãodeusópramim,não. Enãoquerosaberdefilhonenhum.
CORO -Aranitobôaranitobôsilê Aiaaranitobôsilê
CIDO –D.Zizi,saidomeidarua.Táandanosozinhatéessahora.Vaipracasa.
DONA ZIZI – Tô indo no terreiro de mãe Terê, meu filho. Juça tá lá. Tá a maior putaria. É Mateusinho a dizer que lá tá cheio de demônio... cheio de demônio tá o rabo dele, cutucandoelepordentro.Dizquevaiderrubartudoebotarsal.
CIDO –Eé?Masospovodaquitudovaimuitolá,nénão?
DONA ZIZI –Enãofoiporcausadesseterreiroqueessacomunidadetáaqui,seucoveiro?Mas é sempre assim. Na Praia do Pinto, quando os sacana quiseram vender o terreno, queimaram os barraco e botaram todo mundo pra fora. Tudo é dinheiro, meu filho. E putaria.Tudoédinheiroeputaria.
CIDO –Masniminhaterratevecoisaparecida.Sóqueláeraascercaqueandava.
DONA ZIZI –Comoassim?Eracoisadodiabotambém?
CIDO – Era coisa do diabo dos ôme rico que andava por lá. Fazendeiro chei de terra, que a gente perdia de vista. Mas a cerca as vez dava pra andar, etoque-lhefazendaaaumentar. Cadadiaquepassavaeraacercamaispertodaminhaeeuestranhano.
DONA ZIZI –Seucoveiro,issopareceatéessashistóriasaí,quetuescreve.
CIDO – Recita.
Qualnãofoiomeuespanto, quandoindanemeradia, eojuizmemandacarta. Assuntesóoquedizia: preuarribardeládepressa queminhacercaéquemexia.
DONA ZIZI –Hum!Távendo?Eunãodisse.
CIDO – Recita.
Cândida,abóia-fria, C’oorvalhodamadrugada, Partiac’oferroa cana, Batiafirmecomaenxada, Naroçadocoroné. Nadela,nãotinhanada.
Porcausodessesucedido CandinhaentrouproMST. Ela,agrandeguerreira,
Tinhabemoquecombater... Fica em silêncio um tempo. Essesversoquevemagoraeuficoaperreadodefalar Conta comoelamorreu,eeunãogostodealembrá.
DONA ZIZI –Rimou.Percebeu?
CIDO –Recita.
Peladerradeiravez Eupiseiemnossochão Buteiseucorponaterra Comchagasnocoração Erafeitoumasemente Prantadanomeusertão.
E num é que, dia desse, meu cumpade me mandou uma carta dizeno que no lugaronde eu enterrei Cândida nasceu um pé-de-cajazeira!? Árvore grande, bonita. Cresceu numa ligeirez medonha. Os povo tudo se espantô. E quando ela dá, os minino passa e óia de longe, de tardinha, o sol se pono... Sente até o cheiro do perfume.Elesdizqueéamãe, danoabençaedizeno:boanoite.
CORO -Aranitobôaranitobôsilê
Aiaaranitobôsilê
JUÇA – Bom dia (...) Sim, Jussara dos Prazeres, muito prazer (...) Não, não. Deve ser pra vizinha do lado(...)Ih,comcertezaépraela.Todoanoelasecadastranaassociação(...) Não, isso é impossível, minha senhora. Se eu nunca me cadastrei pra ganhar cesta básica, como é que eu posso ter ganho? (...) Então. Isso é comida e de comida eu não preciso, porque eu mesma posso comprar com o fruto de meu trabalho. Eporfavornão insista que eu aindatôtentandosereducada.(...)Minhasenhora,comidaeucomohojee cago amanhã. O que eu preciso mesmo a senhora não tem pra me dar, que é respeito. Isso pra mim é que é básico: dignidade, que eu consigo através de meu trabalho. Tem isso aí? Ou quem sabe uma boa quantidade de assistência médica, educação, moradia, saneamento básico. Tem? E previdência? Tem? Se não tem nada disso, minha senhora, não me interessa. Não me interessa essa cesta, esse assistencialismo, essa solidariedade de merda. Só refletem o chicote do passado. A gente tá querendoacabarcomasenzala. Agora, se a senhora ainda nãopercebeuisso,sabeoqueasenhorafazcomessequilode feijão? A senhora pega e enfia. Sabe o que senhora faz com esse quilo de arroz e essa lata de leite em pó? Enfia no cu. Sabe o que senhora faz com esse fubá, essalatinhade ervilha, essa farinha... E tem carne seca aí? Pega também. Junta tudo isso, a cesta toda, sua moral,suaboaintençãoesuaconsciênciatranqüilaeenfiatudonocentrodoolhodo seucu.
CORO –Lodofioluodôiyá iyákekerê awájaláawájalá iyákekerê
NANÁ – Eu era uma menina estudiosa e batalhadora. Tinha quatorzeanoseconheciessecara. Aos dezesseis me entreguei de corpo e alma. Aí começou o inferno. Ele se envolveu comdrogasecomeçouameenvolvertambém.
JURA –Meperguntaoqueeuvimfazeraqui.
NANÁ – Minhas amigas me fizeram ver a realidade. Então larguei as drogasdemão.Pramim a felicidade se tornou outra coisa: fiquei grávida e pensava somente no meu filho. Fui totalmente desprezada por ele. Vivia rodeado de mulheres. Até aí a dor foi suportável. Masquandoperdimeufilhodetrêsmeses,meviemcompletodesespero.
JURA –Volteiporquetusemprefoiamulherdaminhavida.
NANÁ – Contei com o apoio dos familiares e amigos. Ele só veio me ver uma vez e pude perceber como ele tinha se tornado insensível. Nos separamos, mas quando nos encontrávamos,meucoraçãopalpitavacommuitaforça.Entãovoltamosasair.
JURA – Tá vendo? Você mente que nemsente.Táolhandopramimdecimaabaixoeparando nomeio,porquê?
NANÁ – Fiquei novamente grávida. Queria tirar, ele não deixou. Passei a pensar então só na minhagravidez.Tivequeenfrentaratodos.Noquartomêsdegestaçãoelemeabandona. Viaja, vai pra Europa com uma alemã. Disse aos amigosqueeraaoportunidadedavida dele,quemeconsolassemedissessemqueeutinhaqueentender
JURA –Aí,Naná,entrequatroparedes,tubotaasainhaesambapramim.
NANÁ – Os amigos vieram e me consolaram. Eles sabiam que eu precisava e vinham. Eu, de vingança, deixava, me consolava com todos. Depois a barriga cresceumuito.Fuiparao hospital ganhar minha neném. Era uma menina. Mais uma mulher. Foi aí que conheci meu marido. Ele era médico e cuidou de mim. Ao ser examinada, recebi a notícia: “o coraçãodonenémdeixoudebater”.
JURA – Aí, Naná, gosto de você, sou amarradão e não estou interessadonodinheiroquevocê levantou. Meu interesse é você. Mas já que a sua é me esculachar, tô dando um fora eternopratu,falou?
NANÁ – Agora,. Não sei por quê, meu coração é que bate. Bate muito. Muito forte. O que é que esse homem tem? Nada. Euéquetenho.Euéqueacreditoqueéassim.Quepreciso desse homem. Porque meu corpo se lembra. Porque ele foi meu herói. Era o cara da aventura. O que ia me tirar da favela. O queiasempremeenlouquecerdeprazer Oque ia me engravidar muitas vezes. O que ia me fazer sentir mulher.Masnãoé.Soumulher porquesou.Eeleéumpersonagem.
CORO –Marelêmalevodumsarenã marelêmalevodumsarenã oniaaraê marelêmalevodumsarenã
MATEUSINHO –Aamizadepodeiratéondeesbarraeminteressesmaisfortes.Emeuinteresse maioréserviraoSenhor.Assimcomoodesuairmãéaprofissãodela.
CARMEM –QualéMateusinho?ANanánãopodedeixardeajudaropessoaldoterreiro. Ninguémdaquipodevirarascostaspraeles.Essepessoalsempredáforçapra comunidade.Sempreajudademuitasformas.Nãoentendovocê.Criadolá...Éincrível quevocêestejanessa.
MATEUSINHO –VocêtambémdeviavirparaaIgreja,Carmem.Vocênãoéfeliz,agindocontra anaturezadivina.VenhaparaaCorrentedaLibertação.OSenhorvaitecurar
CARMEM –Mecurardeque?
MATEUSINHO –Vocêsabe,Carmem.Nãoénormalpessoasdomesmosexoseserviremdos seuscorposparaoprazer.Esseprazerédoente,éobradeencosto,Carmem.
CARMEM –Eunãosoudoentenão,meuvelho.Qualéasua?Doenteéquemdesejaenão atende.Doenteévocê...
MATEUSINHO –NoSenhormecurodetodasasdoenças.
CARMEM –OSenhorsónãocuravocêsdaganânciaesónãosalvaosfiéisdaexploraçãodos bispos.
MATEUSINHO –Vejoquetememvocêumencostomuitoforte.Masnãotãofortequanto...
CARMEM –Vocêvaisefoder,Mateusinho.
MATEUSINHO –Éoquevaisever.Éoquevaise...
CORO –ArabôlayôôôYemanjá ArabôlayôYemanjá
NANÁ – Diz aqui que a propriedade é mesmo de Mateusinho. Ele é herdeiro e tem direito à posse.
JUÇA –Eagentenãopodefazernada?
NANÁ – A gente não pode tirar a propriedade. Mas como se trata de um patrimônio que tem uso religioso. Como faz parte da tradição e da história da comunidade, ele também não podeimpediroseuuso.
DONA ZIZI – Eu sou testemunha, desde que euchegueiaqui,sótinhaoterreiro.Tudofoifeito aoredor,eueofinado,paideJuça...
NÉIA –Pára,DonaZizi...Elafalademais.MasoMateusinhodissequetátodocercado....
TIA DAIÁ –Chegoudizendoquejáganhoutudo,minhafilha...
CARMEM – É por causa da Igreja, não é, Naná. Você sabequeessescaraselegemgovernador, quantomais...
NANÁ – Mas tem jeito. Que é isso? Não é assim, não. Tem justiça, tem regras, tem mecanismos. O Brasil não é uma esculhambação, não. O que a gente tem que fazer é saberusarosmecanismoslegaiseagirrápido.Ascoisastemjeitonessepaís...
JUÇA –Mascomoéquefaz?Elenãovaipoderbotaropessoal prafora?
NANÁ – O que a gente tem que fazeréiraoIPHANedarentradanumpedidodetombamento oquevaigarantirqueoterreirocontinue aocuparoterrenoeafuncionarnormalmente.
NÉIA –Masatéquando?Depoiselesvoltaequertomardenovo.
NANÁ – O tombamento tem caráter definitivo, dona Néia. A comunidade temquedemonstrar seuinteressedeveraquelepatrimoniotombado...
TIA DAIÁ –Tombado?...
NANÁ – Preservado. Otombamentogarantequeoterreironãovaisermexido,nemobarracão pode ser derrubado, nada em sua arquitetura e funcionamento pode ser alterado: as árvores, as plantas sagradas,afonte...nada.Ointeressedacomunidadeémaiordoqueo interessepessoal.
TIA DAIÁ –AJuçajárecolheuassinatura...
NANÁ –Ótimo.
CARMEM –Elapassouumbaixoassinadoqueeuescrevi.
DONA ZIZI –AJuçaémuitoboanisso.Elachamatodomundo...
JUÇA –Easpessoasquemoramlá.Vãopodercontinuarlá?
NANÁ –Otombamentogarante,aliás,exige–jáqueéumpatrimônioreligiosoecultural–que o seu funcionamento não seja alterado. Em outras palavras: pra continuar acontecendo os rituais, é preciso que as pessoas que fazem com que ele aconteça continuem a fazer. Querdizer:vocêstêmquecontinuarlápraqueoterreirofuncione.
NÉIA – Tô gostando,minhafilha.MeupaiXangôvaiteajudar.Temquepermaneceroqueera antes...
NANÁ –Oterreiro,comotemploépropriedadedetodos,nãodeumoudedois.
TIA DAIÁ –Eleédetodomundo.
DONA ZIZI –Elenãopode.Quandoeuvimpraqui,nãotinhanada.Euvim...
NÉIA –Continue,Naná.
NANÁ – O pedido de tombamento vai bloquear o interesse pessoal. Vocês não recolheram as assinaturas?
CARMEM –ComonúmerodoCPFedacarteiradeidentidade.
NANÁ – Então... Já redigi o documento. Vocês assinam, a gente junta o baixo assinado, e dá entrada.Comoprotocoloemmãos,aaçãodeMateusinhoéinterrompida.
TIA DAIÁ –Eseapolíciachegarlá,comoantigamente,dizendoqueocandomblééilegal?Ele jáfoiláameaçandoetáfalandopratodomundo...
NANÁ – Esse tipo de coação é ilegal, ele não pode fazer vocês passarem nenhum constrangimento.
CARMEM –Eagentepodeprocessareleporisso?
TIA DAIÁ –Minhafilha,deixadisso.EntregaaTempo,queédeusquetudopode.
NANÁ – Uma cunhada minha, trabalha no IPHAN. Marquei com ela pra gente ir lá agora de manhã. Ela vai ajudaragarantiragilidadenisso.Porqueostécnicostemquedaropinião. Tem que serfeitoumestudo.MasaaçãodeMateusinhovaiserimpedida.Vamosjuntas. Dona Néia, depois a senhora vai comigo no Forum, que eu vi o do caso de seu filho. Temosqueabriroutroprocesso,masasenhoraganhaessacausa.
CORO – Yemanjáogumogumpajarêaoyô padêlogé Yemanjáogumaoyôoiéé
CIDO –Poeta,tôarribano.
MATEUSINHO – Minhavidamudou,Jurandir Agoratenhoumaestabilidadeeconômica.Graças aoSenhor.Glória!
JURA –Jáquetábem,mearrumaumdinheiroaí,quetôprecisado.
CALU –Tuvaifazeroqueláhomem?
MATEUSINHO – Vamos ter que tirar toda essa gente daqui. Eles não querem ver. Recusam a salvação.
JURA – Não trata essa gente assim, não, que essa gente é tua gente. Pra que tu quer oterreno deles?Tunãojátemumnocéu?Semataevaipralá.
CIDO –Osmeninotãolá...Querovêelescrescê,poeta.
MATEUSINHO –Estãotodoscegospelodemônio,Jurandir.Salve-sevocê.Venhaparaasfileiras doSenhor Vamostrabalharemsuaobra.
JURA – Aí, tô precisando de trabalho, sim. Mas nessa obra, só se for de engenheiro, de peão nãoquero,não.
CALU –Trazosmeninopracá.EumaisNéiacriaeles.
MATEUSINHO – Naná está perdida. Não vaiconseguirnadanestacausa.Porqueanossaéqueé justa: é a causa do Senhor E o braço do Senhor é forte em nossa Igreja. Tão forte que temfeitodeseusfiéisdeputados,governantes...
JURA –...safados,corruptos,traidores,covardes...
CALU –Tuvaipraonde?Tunãotemterra,nãotemmulher,nãotemmaisnada.
CIDO –MinhaterraéCandinha,poeta.Elatámechamandodevolta.
CALU –Mastujánãoenterrouela?Aquitutemtrabalho,tuécoveiro.
CIDO – Candinha até isso me ensinou: a ser coveiro, mas não quero mais não, poeta. Lá, em riba da cova de Cândida, nasceu um pé de cajazeira. Aqui não nasce nada em riba das covaquecavo.
MATEUSINHO – O Senhor há de iluminar essas almas etiraroencostodaqui.Oprimeiropasso jáfoidado.OSenhortemservidoresnaJustiçaetudovaiandarrápido.
JURA –Mateus,setuquertiraroencostodaqui...rala!
CALU –Anacleto!Trazumacachaça!
CIDO – Dispois, poeta, tô vendo que aqui tem os mesmo probrema que lá. Tiram as terra de vocês, queimam favela e tomamolugar.Queremtiraragoraoterrenodoterreirodemãe Terê, que Deusatenha,quefoieuqueenterrei.Vouficarmaisumpouco,poeta,eajudar o pessoal lá, que Tia Daiá me pediu. Depois vou arribar, poeta, pra brigar por minha terra.Lá,deondeeunãodeviadetersaído.
ANACLETO –SeuMateus,depoisquerocontinuaralevaro papocomosenhor Papomaneiro essedesalvação.Tavaprecisandoouviressasidéia.Fazsentido.
. JUÇA –ZéRoberto...oquêqueéisso?
DONA ZIZI – Durante toda a cena não para de falar. Como na anterior, ninguém dá atenção a ela e o diálogo segue independente de seu discurso. Menino, se explica direito pra sua mãe. Eu sabia que isso um dia ia acontecer Só que ninguém meouvenessacasa.Parecequeeunãosirvopranada.Massetu nunca ouviu sua mãe, como é que quer que seu filho te ouça? Criado
naquela escola de grã-finos, onde nào ensinam nada sobre a gente. Saiu de lá piordoqueentrou.Vocêfaledireitocomasuamãe,ZéRoberto.Na minha época, se um filho falasse assim, levava um tapa na boca que ia ficar sem dente... oucoisapior Eutinhaumaprima,queamãebotouovo quente na boca. Ela aprendeu. Nunca mais respondeumalàmãe.Masno meu tempo as pessoa educava direito. Eu mesma, tive educação. Fui ser puta por necessidade, mas tinha educação, por isso tinha bons clientes. Gente fina gostava de mim. Não era só por causa do fogo que eu tinha. Que eu tinha fogo e sabia fazer coisa.... mas era também pelo trato. Eu erabemeducada.
ZÉ ROBERTO –Mãe!Medevolveissoquenãoémeu,mãe!
JUÇA –Eoqueissotáfazendoaqui,dentrodeminhacasa?
ZÉ ROBERTO – É de uns camarada meu lá da Barra, mãe! Pediram pra eu pegar, já que moro aqui,ficamaisfáciletal...ésóumfavor,mãe.
JUÇA – Favor, Zé Roberto?Aqui,nacomunidade,issotemoutronome:aviãozinho.Épraisso que eles te querem no meio deles, menino.Prafazerotrabalhosujoqueelesnãotemcu prasubiraquiefazer.Eeunãocrieifilhomeupraissonão,ZéRoberto.
ZÉ ROBERTO – Cê tá exagerando, mãe. Me devolve isso aquiqueeutôatrasadoproensaioda banda.Eutenhoqueir
JUÇA – Como é que você tem coragem de me dizer isso, com a cara mais lavada do mundo, menino? Quando eu disse que teu futuro tava na tua mão, eu não imaginava que seria esse o caminho que tu ia escolher, Zé Roberto! Se eu soubesse não tinha ralado tanto pradartudoquetedei.
ZÉ ROBERTO – Que que você me deu, mãe?Lá,comosmalucodaBarraéquetáofuturoque euquero.Oscarasãomaneiro,mãe...
JUÇA – Eles é que são maneiro, seu filho da puta? E o negão que tu é? Não é porque sou maneira, não? E a escola que tu estuda? Não é porque sou maneira, não? E o que você tem e vive hoje, seu filho da puta? Não é porque sou maneira, não? Eles é que são maneiro, né, seu filho da puta? Então olha o que que faço com o favor que tu ia fazer proscaramaneiro. Rasga e joga no vaso sanitário o pacote de maconha.
ZÉ ROBERTO – Mãe! Me devolve isso que não é meu, mãe! Eu vou Ter que pagar do meu dinheiroproscara!
Dona Zizi chega perto. Fala sem parar. Zé Roberto empurra Dona Zizi. Ela cai.
JUÇA –Vocêbateuemsuaavó,seufilhodaputa?!
Juça bate em Zé Roberto, que se defende. Ela dá um tapa na cara dele. Zé Roberto levanta a mão para bater nela.
JUÇA – Você ainda tem que comer muito arroz com feijão pra relar a mão em mim, seufilho daputa!
ZÉ ROBERTO – Quer saber? Eu tenho vergonha de vocês! Eu não vou ficar aqui pra ser o mesmo fracasso, não! Agora entendo meu pai! Eu vou embora. E quando eu ficar famoso, vou esquecer que você é minha mãe. Vou inventar outra história. Digo que minhamãemorreu!
CORO – Êcamarônirumbáorisárelodê Êcamarônirumbáorisárelodê
CORO – Oyádeairô Oyácarálocijocoló
NÉIA –Calu,seufilhodaputa!Vemcá!
CORO – Oyábaléleiô ikibalélé Oyágamade Oyájambelê Oyábalélêiô
CALU –Quefoi,nega?
Néia olha fixo para ele.
CALU –Sabia,nega,queeutôquaseacabandoosamba?
Néia olha fixo para ele.
CALU –Éhomenagematu,minhajabuticabinha.
NÉIA –Ôôme,oqueéqueoadvogadofaloudoprocessodomenino.
CALU –Foipraoutravara,nãojálhedisse.Táprocurandoencrenca?
NÉIA –Quandoéquevcfaloucomele?
CALU –Semanapassada,masaindahojeeutivenofórumdenovo.
NÉIA –Eutambémtivelá
CALU –Ahteve?Engraçado,nãolhevi..
NÉIA –Nãoviuporqueháquasedoisanosquetunãovailá,seufilhodaputa.Oprocessofoi arquivadoporquecorreuàrevelia.Sabeoqueéisso,Calu?
CALU –Eunão.
NÉIA – É que tu não foi na audiência. Tu não foi, Calu. Deixouqueelesfalasseoquisessede nosso filho. Já lhe disse, seufilhodaputa,queeunãoquerodinheiro,masquerojustiça. E tu deixou, Calu? Tu não foi, Calu. Tu nunca foi, Calu. Tu não é ôme, Calu.Ômenão deixa falarem dos filho assim. Ôme defende os filho, vivo ou morto. Tu não fez nada, Calu.Tuéummerda,nãoprestapranada.Tuéumnada,Calu.Tunuménada.
ANACLETO –DonaNéia.
NÉIA –Quefoi,menino?!
ANACLETO – Carmem mandou chamar a senhora. A polícia tá lá... Com ordem do juiz. Mandoufecharoterreiroetodomundosair.
NÉIA –Oterreiro,não!
CORO –Oyácorôunlé Ogueregue
CALU –Anacleto,vemcá,moleque.Fiquecomigo,quenãotôpassandobem.
CORO –Oyácorôunlá Ogaraga Omoberimsalacorôunlê Ogueregue Oyácomuréió
NÉIA – Meu filho já foi e não vi justiça. Mas Xangô tá aí.Ésóesperar Queremdizerqueele foi irresponsável. Irresponsável é vocês. Acabaram co meu filho. Não vou ter neto,não tem mais futuro pra mim. Mas não acabam co passado não. E os neguinho? Cumé que fica? Tá tudo aí, sem escola, sem atenção, sem nada. Mas tem tudohistóriaeraça.Tem só escravidão, não. Tem mais pra trás também. A história é muito grande. Tá aqui também nesse terreiro. Não vão acabar com tudo, não. Daqui, desse terreiro, vocês não
tira uma pedra. Volta e diz a quem mandou que aqui foi feito por mulher. E o que mulherfez,nãosedesfazassim,não.Feitodemulherébemfeito.
CORO –Iyabalodôô omunhãnhã
Na coreografia, as mulheres dominam Mateusinho.
TIA DAIÁ –Oterrenopodeserteu,Mateusinho,masoterreiroépatrimôniodacomunidade.Ó aqui. Mostra um papel a Mateusinho.
CORO –Daniabakelá doOyáôomunhanhã
Na coreografia, Tia Daiá vence Mateusinho.
Na coreografia, as mulheres, uma a uma, alternadamente, conduzem o grupo numa marcha.
CORO –Coroléinim Oyáatacoroléinim jamjam
Todos param.
VOZ DE LÉLIA GONZALES -
CORO FEMININO –Yabamixorô mixorôgam oniacaráloci fumayiê bomimboiamim laorô Oyámaláogé Oyámaláogé ocamtantanajaleô
PRIMEIROFINAL
SEGUNDOFINAL
JUÇA/TATIANA –Souumaatriz. Comosepodeverfacilmente Negra Tenhoquemostraragoraadordeumamãequeperdeofilho. Devorepresentarumamãenegra. Aindaprecisamoscarregaroadjetivoracial emtudoquefazemosnessepaís.
Nãopossorepresentarumamãequalquer, masumamãenegra, quesentecomonegra.
Porque minha peleemeucorpo,comquemostroadordessamãe,sãonegrosetêmuma história.
Precisamosaindacontarestahistória.
Portanto,agoradevomostraradordeumamãenegraqueperdeofilho.
Equandoumamãenegraperdeumfilho perdequasetudoporquenãotemmuitomais. Umamãenegranãoperdeofilhosomentequandoelemorre. Pode-sepensarqueéassimcomtodasasmães. Maseusouumaatriznegra.
Juça repete a cena do início, em que se arruma. O mundo tem muitos caminhos. E Zé Roberto tentou pegar um atalho. Não sei praque caminho leva esse atalho. Não sei por onde ele anda. Agora a vida dele é dele. É do mundo. Não está mais em meu colo o filho que mamou meu leite. Não seimaisdeque se alimenta meu filho. Imagino que seja da vontade de ser alguém. Pra ser alguém ele pensa que tem que deixar de ser o que é. Não está mais comigo o filho que levei pela mão até onde pude. Quem leva ele agora é quem lhe diz que a vida de um neguinho como ele é muito curta, não tem futuro, que o mundo nãotemjeito,queascoisassãoo que são e vão ser sempre, então é preciso se dar bem e logo. Não pude mostrar pra ele que outros caminhos podiam mudar tudo. Falar só que as coisas mudam não bastou. Tinha que ter mostrado como as coisas mudam fazendo as coisas mudar. Mas não tive tempo. Trabalhava demais pra gente sobreviver. Agora não sei onde ele anda pra lhe mostrar qualquer coisa. Não sei mais sobre meu filho. Mas meucoraçãodemãemediz queelenãovolta.
CORO –Yabamixorô mixorôgam oniacaráloci fumayiê bomimboiamim laorô
Oyámaláogé Oyámaláogé ocamtantanajaleô
Solo de Zé Roberto. Funk. Sai de casa. No mundão. Liberdade. A barra pesa. Perseguição e morte.
CORO FEMININO – Erôoyáôobásirê
Obasarélojaerôoyáô
Juça olha o filho deitado. Néia se aproxima.
CIDO – Entra. DonaNéia...
TERCEIROFINAL
NÉIA –Oqueé?Nãotávendoasituação?...
CIDO –Tenhoumanotícia...
NÉIA –Boaouruim?
CIDO –Ruim...eboa...
Néia faz sinal para que ele prossiga.
CIDO –SeuCalu... Silêncio.
CORO – Toribalétorio
Néia olha para Cido.
CIDO –Maseleacabouosamba...mandouentregarprasenhora.
Néia faz sinal para que ele prossiga. Cido entrega um papel a ela. Néia toma o papel. Faz sinal para Cido, ele sai. Ela lê.
NÉIA – Começa lendo, depois larga o papel e fala como se já soubesse.
Meu samba exalta você, Mulher negra brasileira
Mulher negra mãe do mundo
Mulher rainha guerreira
Todos entram com instrumentos de percussão. Tocam um samba lento, no ritmo dos antigos sambas enredo Parados.
Você que é Néia, Zizi, Carmem, Juça ou Naná
Ou talvez não esteja aqui
Ou talvez é Tia Daiá.
Coro começa a cantar em surdina. Enquanto Néia continua a falar
Quem governou Meroé – é – é
Mulher, Rainha, Candace Que viveu em muitos tempos
Vem pra que eu te abrace
Primeiro, Shanakdakete
E Amanirenas, a seguir
Veio Amanishakete
A revolta construir
Amanitere com elas
E com quatorze iguais
Governaram o Império
Dominadas nunca mais