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EDIÇÃO INFORMATIVA DO SISTEMA CNT

CNT

ANO XV NÚMERO 167 JULHO 2009

T R A N S P O RT E

AT UA L

SUA EMPRESA É VERDE? TRANSPORTADORAS ADOTAM MEDIDAS AMBIENTAIS E CONQUISTAM CONSUMIDORES E CLIENTES SEM ABRIR MÃO DO LUCRO

LEIA ENTREVISTA COM O CASAL GÉRARD E MARGI MOSS


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REPORTAGEM DE CAPA Iniciativas ambientais, como a reutilização de água colocada em prática pela Expresso Guanabara (foto), conquistam consumidores e clientes. Veja mais exemplos na reportagem Página 42

CNT TRANSPORTE ATUAL

ANO XV | NÚMERO 167 | JULHO 2009 ENTREVISTA

JOÃO BURACÃO

Casal Gérard e Margi Moss fala sobre o trabalho de conscientização ecológica

Boneco ganha fama ao apontar trechos cheios de buracos pelo Brasil

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ACESSO AOS PORTOS

A eliminação dos gargalos nas rodovias e ferrovias é essencial para o escoamento da produção agrícola e industrial do país

EDIÇÃO INFORMATIVA DO SISTEMA CNT CONSELHO EDITORIAL Almerindo Camilo Bernardino Rios Pim Etevaldo Dias Lucimar Coutinho Virgílio Coelho

FALE COM A REDAÇÃO (31) 2551-7797 • revistacnt@acsmidia.com.br Av. Dom Pedro 2º, 4050 • Salas 5 e 6 • Caiçara CEP 30720-460 • Belo Horizonte (MG) ESTA REVISTA PODE SER ACESSADA VIA INTERNET: www.cnt.org.br | www.sestsenat.org.br ATUALIZAÇÃO DE ENDEREÇO:

cnt@cnt.org.br REDAÇÃO AC&S Mídia [www.acsmidia.com.br] EDITOR RESPONSÁVEL

Almerindo Camilo [almerindo@acsmidia.com.br] EDITOR-EXECUTIVO Ricardo Ballarine [ricardo@acsmidia.com.br]

PUBLICIDADE Screenmedia: (11) 3451-0012 REPRESENTANTES

Celso Marino: cel/radio: (11) 9141-2938 Publicação da CNT (Confederação Nacional do Transporte), registrada no Cartório do 1º Ofício de Registro Civil das Pessoas Jurídicas do Distrito Federal sob o número 053. Edição sob responsabilidade da AC&S Mídia Ltda. Tiragem: 40 mil exemplares

Os conceitos emitidos nos artigos assinados não refletem necessariamente a opinião da CNT Transporte Atual

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CNT TRANSPORTE ATUAL

FERROVIA

DEPOLUIR

A 15ª Semana de tecnologia Metroferroviária mostrará as tendências do setor

O que o Fórum Econômico Mundial recomenda às empresas de transporte

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LEI SECA

Um ano após a sua implantação, taxistas contam que os clientes sumiram e que o movimento retornou à normalidade

ULTRALEVE

Aeronáutica cria rotas específicas para atender a demanda na cidade do Rio de Janeiro, que vão entrar em vigor a partir do final do mês de julho

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E MAIS Humor

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Mais Transporte

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Alexandre Garcia

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Congresso ABTC

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Universidade Corporativa do Transporte

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Oficina sobre inspeção veicular

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Sest/Senat

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Números do setor

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Debate

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Opinião

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Cartas

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CAPA ISTOCKPHOTO

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cnt.org.br JOÃO BURACÃO

SEST/SENAT

PARTICIPE DAS CAMPANHAS CN T/D IVU LG AÇ ÃO

O sistema Sest/Senat está com campanhas que visam à segurança e a saúde do trabalhador do transporte em todo o Brasil. O Comandos da Saúde nas Rodovias, em parceria com a Polícia Rodoviária Federal, realiza blitze nas estradas de todos os Estados - confira a cobertura no portal. Saiba também como participar da mobilização Sest/Senat Pela Vida nas Estradas, que trata da conscientização sobre o uso de álcool e de drogas, e do programa Voluntários do Transporte. Acesse o portal e clique em Sest/Senat.

CONFIRA CARTUM FEITO POR DUKE O cartunista da CNT Transporte Atual, Duke, preparou uma ilustração exclusiva para o portal sobre o boneco João Buracão, espécie de fiscal de ruas e estradas. Criado pelo borracheiro Irandi Pereira da Rocha, Buracão já tem “colegas” como Maria Buraquete e Zeca Valão.

E MAIS DESPOLUIR • Projetos do programas • Noticiário sobre meio ambiente

CANAL DE NOTÍCIAS MARGI MOSS/PROJETO BRASIL DAS ÁGUAS/DIVULGAÇÃO

ULTRALEVE

ENTREVISTA

VEJA CONTEÚDO EXCLUSIVO

MAIS FOTOS DO ENSAIO DOS RIOS

Para completar a reportagem sobre as novas regras de voo para o ultraleve no Rio de Janeiro, confira material extra no portal. Lá você vai encontrar entrevistas com usuários do equipamento, que falam sobre os diferentes modelos da aeronave. Veja também estatísticas sobre o ultraleve no Brasil, as condições para quem quer começar a voar, as regras da Anac e proibições.

Confira no portal mais imagens feitas pelo casal Gérard e Margi Moss na Amazônia. São fotografias que mostram o fenômeno dos rios voadores. Há também cenas da mata e do rio São Francisco.

O portal disponibiliza todas as edições da revista CNT Transporte Atual

• Premiações e Sala de Imprensa • Programas da TV Interativa

RÁDIO TRANSPORTE BRASIL • Noticiário do Sistema CNT • Campanhas educacionais

TV TRANSPORTE BRASIL • Noticiário do Sistema CNT • Campanhas educacionais

SEST/SENAT • Cursos e palestras • Colocação no mercado de trabalho


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DUKE

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“Queremos contribuir para frear o desmatamento da floresta amazô cientificamente que cada região tem seu papel para fornecer umidade ENTREVISTA

GÉRARD MOSS E MARGI MOSS

PELOS RIOS VOAD POR

les optaram por um estilo de vida que alia a paixão pelos ares e aventura a trabalhos de pesquisa e conscientização ambiental. Para acompanhar de perto a natureza, utilizam aeronaves de pequeno porte. A última empreitada foi “navegar”, no céu, em rios voadores - formados pelas correntes de ar que carregam vapor-d´água. Com o projeto, o casal Margi Moss e Gérard Moss quer sensibilizar o governo e a população sobre a importância da preservação da floresta amazônica. Desde 2001, eles desenvolvem estudos ambientais, em parceria com universidades e outros centros de pesquisa. Mas as inusitadas experiências aéreas começaram há mais tempo. Nascido na Inglaterra e criado

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CYNTHIA CASTRO

na Suíça, Gérard conheceu Margi, de Nairóbi (Quênia), na década de 80, no Brasil (em Búzios). De 1989 a 1992, deram uma volta ao mundo em um monomotor. Em 2001, outra façanha, num motoplanador. Foi a primeira volta ao mundo nesse tipo de aeronave. Naturalizados brasileiros, viveram mais de 20 anos no Rio de Janeiro e há três estão em Brasília, principalmente pela posição geográfica estratégica, no CentroOeste. Gérard é engenheiro e pilota há 30 anos. Margi, formada em Letras, fotografa as expedições, que têm patrocínio da Petrobras, apoio da ANA (Agência Nacional de Águas), entre outros parceiros. O casal já publicou seis livros e visitou mais de cem países. Depois da última viagem, os dois recebe-

ram a reportagem na casa onde moram. Como foi elaborada a última expedição, Rios Voadores, finalizada em março? Gérard: A iniciativa veio depois dos outros projetos dentro do Brasil das Águas. Fizemos trabalhos sobre a qualidade da água (de rios, lagos e represas) e de educação ambiental. Em 2007, começou a etapa Rios Voadores com a pergunta “de onde vem essa água toda?”. Temos muita água atmosférica, pouco conhecida pela população e pouco estudada. O rio voador é aquele rio que a gente não vê, mas é presente e muito importante. São “rios” que se formam no céu? Gérard: São rios atmosféri-

cos. A ideia é o transporte de vapor-d’água, a recirculação da água. Nos concentramos no transporte oriundo da Amazônia. Essa região recebe muita água do Atlântico, mas existe uma quantidade impressionante de vapor transpirado pela floresta, que recoloca essa umidade na atmosfera. Depois, pelos ventos, esse vapor se desloca. É responsável pelas chuvas em grande parte do país, inclusive no Sudeste. O que foi possível perceber? Gérard: Fizemos 12 voos em 15 meses. O mais representativo foi em fevereiro do ano passado. Durante oito dias, seguimos uma massa de ar do Atlântico, que entrou na região de Belém. Com o Inpe (Instituto Nacional


JÚLIO FERNANDES/ASCOM/CNT

nica, comprovando ao restante do país”

ORES de Pesquisas Espaciais), projetamos que esse ar ia se encontrar na região de São Paulo oito dias à frente. Esse foi o grande desafio e deu certo. Voamos oito dias seguindo essa massa, que passou por Belém (PA), Santarém (PA), Manicoré (AM), Porto Velho (RO), Cuiabá (MT), Campo Grande (MS), Londrina (PR) e Ribeirão Preto (SP) (quase 7.000 km). No Pantanal, descobrimos que uma quantidade enorme de evaporação se juntava com a da Amazônia e foi responsável por parte da umidade no Sudeste. Como se deu a coleta de material? Gérard: O estudo sobre transporte de massas úmidas de ar já existe há muito tempo, há fotos de satélites que demonstram esse movimento. A

grande inovação foi seguir o curso, navegar nesses rios, usando uma aeronave pequena - o Sertanejo da Embraer, um monomotor de seis lugares. O avião permite captar um pouco da umidade e separar uma gotinha. A umidade é condensada por meio de um sistema interno. E essa gota, analisada pelo Cena (Centro de Energia Nuclear na Agricultura), em Piracicaba (SP), para definir o que chamamos de assinatura isotópica - saber se a água vem do mar, do rio ou da transpiração das árvores. Falar de rios voadores é ajudar a preservar a Amazônia? Gérard: Valorizar esse processo de evaporação é uma maneira de valorizar mais a Ama-

zônia. E assim tentar frear o desmatamento, comprovando cientificamente que cada árvore é importante, que cada região da floresta tem o seu papel em termos de fornecimento de umidade para o restante do país. O desmatamento é mais real quando visto de uma aeronave a baixa altitude? Gerard: Se para alguns, desmatamento é estatística. Para nós, é realidade. Vemos o avanço a cada novo voo e isso é um agente motivador do nosso trabalho. O avião voa baixo, muitas vezes a 500 m. Podemos ver claramente o que está acontecendo e é uma tristeza. As fotos mostram bem, mas de perto é chocante. Se pudéssemos levar todos brasileiros em um aviãozinho e mostrar a Amazônia, o

desmatamento acabaria porque todos iriam se sensibilizar. No projeto Brasil das Águas, como era a coleta das amostras com o avião anfíbio? Gérard: Foi uma nova tecnologia. Tínhamos o hidroavião (avião anfíbio). É um avião que tem trem de pouso para pista convencional, mas é construído com casco, igual a uma lancha. Aproveitamos desse sistema para ter um captor na parte mais baixa. Ele permitia que, fazendo um voo rasante, tocando na água por 10 a 15 segundos, coletássemos um pouco de água. Foi feito um panorama hídrico? Gérard: Foram mais de mil pontos de amostragem. Fizemos


um panorama da qualidade das águas em todo o país. Conseguimos alcançar regiões remotas que não tinham dado nenhum. O que mais impressionou em relação à má qualidade? Margi: Fiquei mais desapontada com o rio Iguaçu. Todo mundo no Brasil tem a imagem de Foz do Iguaçu, de uma beleza extrema. A gente sempre ouve falar que Curitiba é uma cidade muito ecológica. Fiquei chocada de ver que a qualidade da água do rio Iguaçu é quase tão ruim como a do Tietê. As aeronaves de pequeno porte oferecem que tipo de vantagem? Gérard: São muito importantes, não agridem muito o ambiente e têm um consumo razoável. Permitem o acesso rápido a vários lugares, monitorando, fotografando e filmando. É necessária adaptação? Gérard: Os dois aviões que temos foram adaptados. Principalmente o hidroavião, que tem um equipamento interno de medição. O trabalho foi homologado pelo CTA (Centro Técnico Aeroespacial). É um avião diferente do original. Já o Sertanejo (monomotor) é convencional, simplesmente permite captar um pouco de ar ambiente.

Vocês começaram a ter projetos juntos nos anos 80. Como foi o início? Gérard: Nos anos 80, fizemos uma volta ao mundo e foi o início da atividade que temos hoje. Mas os projetos de cunho ambiental começaram em 2001, quando fiz uma volta ao mundo com um motoplanador. Fizemos um levantamento inédito do ozônio à baixa altitude. Foi uma entrada humilde neste mundo da ciência. Tinha o lado da tecnologia, de um recorde mundial. Era também um projeto com a televisão. Sentimos aí o potencial dos aviões pequenos nessas questões (de pesquisas). Qual situação de risco vocês citariam? Gérard: Voar na região amazônica com aviões de pequeno porte, por grandes distâncias, às vezes com tempestade, requer alguns cuidados. Mas estamos acostumados. O mais importante é ter disciplina, avaliar se dá para voar ou não naquele dia. Ter a coragem de dizer não. Ter grande respeito à natureza. Quais seriam as dificuldades? Gérard: No Brasil das Águas, por exemplo, normalmente voávamos seis a sete horas sem parar, em regiões remotas. Praticamente, sem apoio de ninguém. Se o motor para ali, felizmente com

RIO VOADOR Chuva na região amazônica impressiona

o hidroavião há muitos lugares de pousar. Mesmo assim, depois disso, estamos sozinhos. Viajávamos com o mínimo de alimentos a bordo, água potável, telefone por satélite. Tem que programar, pensar que tudo pode acontecer. Vocês citariam uma experiência de maior medo? Margi: Tenho a vantagem porque Gérard está pilotando e eu estou tirando as fotos. Quando passávamos por rios mais estreitos ou mais assustadores, com pedras, árvores, eu tirava fotos. Quando está atrás da lente, não parece real. Fico concentrada na foto, penso se o ângulo está legal e não penso onde estou nem o que estou fazendo. Nas situações mais delicadas, eu estava escondida atrás da lente. Gérard: A volta ao mundo no

motoplanador foi bem crítica. Esse tipo de aeronave não era projetada para fazer esses voos grandes, atravessar o Atlântico. E como foi atravessar o oceano? Gérard: Esse era o desafio. Atravessamos da Costa da África até Cabo Verde. Depois tem 2.600 km de água, de Cabo Verde até a ilha de Fernando de Noronha. Foi o mais complicado. Ninguém tinha feito volta ao mundo no motoplanador. Havia uma razão (risos). Foi um sufoco. Cheguei a ser preso no Vietnã, não consegui pousar no aeroporto correto. Fui interceptado por avião de caças no Japão. Teve turbulência grande, quase quebrei as asas no México. O tempo na Ásia e Tailândia estava péssimo, e voar na Sibéria não é fácil.


MARGI MOSS/PROJETO BRASIL DAS ÁGUAS/DIVULGAÇÃO

pela concentração diante da imensidão

E você se considera meio maluco? Gérard: Tem que deixar as pessoas julgarem (risos). Mas me sinto equilibrado. Fazemos de tudo para desempenhar essa atividade da forma mais segura possível. O elemento de risco existe, mas sou da opinião que a gente tem que aceitar um pouco de risco. Chamaria como uma doença da sociedade moderna imaginar que dá para viver sem risco nenhum. Os horizontes são muito maiores se você aceita de vez em quando um certo grau de risco, calculado. É melhor viver com intensidade, sabendo que um dia ou outro pode ter dificuldade. Mas, no mínimo, você aproveita a vida o máximo possível, em vez de ficar em casa dizendo que não vai sair porque pode acontecer alguma coisa.

Nessa viagem, havia o contato com uma base no Brasil? Gérard: A Margi foi a base aqui. Ela fez o mesmo percurso que eu, só que virtual. Acompanhava os voos, negociou as permissões de sobrevoos em cada país, a logística, onde ia ter combustível. Eu nunca sabia exatamente onde o avião ia chegar, onde ia pousar. Às vezes, você planeja um voo, mas o vento está contrário e tem que Vocês citariam uma cena pousar em um aeroporto que nem marcante em todos esses persabia que existia. cursos aéreos? Tudo foi filmado? Margi: Sinto-me privilegiada Gérard: Havia três ou quatro em ver as coisas de cima, mesmo câmeras acopladas na cauda e na o deserto ou águas transparenasa. Foi uma parceria interessan- tes. No Caribe, são belíssimos os te com a Rede Globo. Eles ajuda- bancos de areia embaixo da água, ram na questão das câmeras e na as cores, as sombras. Também transmissão das imagens. Apesar gostei muito de sobrevoar, na Inde termos feito vários projetos donésia, o monumento indu chadepois, até hoje as pessoas me mado Borobodu.

Há alguma imagem que você preferia não ter feito? Margi: Muitas. Quando vejo a construção de represa, como no rio Tocantins. Sobrevoamos todo o Tocantins há poucos anos e só havia duas represas. Era um rio belíssimo, com águas azuis, transparentes, bancos de areia. Agora, não é mais um rio, mas uma cascata de represas. Qual seria um lugar inóspito e marcante? Gérard: O grande privilégio de aviões anfíbios é conseguir pousar em lagos e regiões remotas da Amazônia. A impressão, que pode ser até errada, é de que você é a única pessoa que conseguiu chegar a esse ponto. Graças à tecnologia, parece uma máquina do tempo. Você sai de Manaus e duas a três horas depois está em um lugar que remete ao passado. É uma sensação muito agradável estar de frente da natureza, na Amazônia. Você sente que ela é muito poderosa e frágil ao mesmo tempo. Ser marido e mulher ajuda ou dificulta o trabalho a bordo? Margi: Trabalhar junto não é difícil porque não é um trabalho de rotina. Sempre há novidade. É verdade que, muitas vezes, ficar 24 horas com a mesma pessoa poderia acabar com um casamento. Mas quando se está em locais

diferentes, com novos desafios, é diferente. Qual e quando será o próximo projeto? Gérard: Isso é uma briga interna (risos). Margi: Eu pedi um tempo. Estamos executando um depois do outro, sem parar. Gérard: O projeto não é só a viagem. São vários trabalhos juntos. Tem a parte financeira, política e científica. Tem toda a logística de gerenciamento. Também tem de voar, testar novas tecnologias. São muitas horas de trabalho. Quando volta de uma semana na Amazônia, ainda tem outro trabalho grande, e-mails, relatórios, publicação de alguns resultados. Por isso, de vez em quando a Margi pede um tempo. Mas dá para ter ideia de qual será a nova empreitada? Gérard: Estamos avaliando, mas o assunto Rios Voadores é muito importante. Tocamos no momento certo num assunto que é primordial para tomar decisões corretas para o futuro do Brasil. Acredito que vamos trabalhar mais no Rios Voadores. 



reconhecem e dizem “Você é aquele maluco que deu a volta ao mundo no motoplanador?”

Mais fotos das expedições de Gérard e Margi Moss no site www.cnt.org.br


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MAIS TRANSPORTE INFRAESTRUTURA

Transporte tem sua Frente Parlamentar Congresso Nacional ganhou, no dia 16 de junho, mais uma Frente Parlamentar. Presidida pelo deputado mato-grossense Homero Pereira (PR), a Frente Parlamentar de Logística de Transporte e Armazenagem nasceu da adesão de 307 deputados e 25 senadores com a finalidade de assegurar uma legislação favorável ao bom desempenho da atividade transportadora brasileira. Dos efeitos esperados pela ação parlamentar da Frente, de acordo com o deputado, um é a redução do custo de produção e outro é a possibilidade de diminuição de preço dos produtos. “A logística de transporte e armazenagem é, talvez, um dos fatores que mais impactam o custo de nossa produção e elevam o chamado custo Brasil. A Frente vai provocar dentro do Congresso Nacional, por meio de ações legislativas pertinentes, a redução desse custo, com a melhoria do transporte e da armazenagem. Nós pretendemos ser um facilitador para o consu-

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midor brasileiro pagar mais barato e para quem produz no Brasil poder ter um pouco mais de rentabilidade em sua atividade”, afirmou. Para os transportadores, a Frente é mais um importante recurso para a concretização dos projetos do setor. Na visão do presidente da Seção de Transporte de Carga da CNT, Flávio Benatti, a Frente

representa uma boa alternativa para que se procurem soluções mais definitivas para os problemas de logística no país. “A infraestrutura para a logística que se deseja no Brasil ficou apenas em discurso; a intermodalidade também ficou apenas no discurso. Uma Frente como essa, tratando exclusivamente da questão da logística do

transporte, pode vir a contribuir de maneira efetiva para uma melhor integração dos modais,” declarou. Uma das primeiras ações da Frente é levantar informações sobre todos os projetos que tratam de transporte e armazenagem, identificar sua utilidade e viabilizar a tramitação. (Jorge Menezes) FRENLOG/DIVULGAÇÃO

CONGRESSO Deputado Homero Pereira discursa no lançamento da Frente Parlamentar


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“Desde seu lançamento, em dezembro de 2008, o programa já treinou quase 200 colaboradores que trabalham na Marcopolo”

ENTREVISTA MILTON SUSIN

NOVA PICAPE A Volkswagen divulgou o nome de sua nova picape para o mercado sul-americano. No primeiro trimestre de 2010, entrará em cena a Amarok. Com o novo veículo, a Volkswagen chega aos mercados mundiais de picapes, até então dominados por fabricantes japoneses. A Amarok, no segmento de picapes de uma tonelada, deverá competir, sobretudo,

com os modelos asiáticos. De acordo com a montadora, o nome Amarok vem da língua dos Inuit, um povo esquimó, que vive no norte do Canadá e na Groenlândia, e significa lobo. A picape será lançada, num primeiro momento, na versão com cabine dupla e tração nas quatro rodas. Posteriormente, será oferecida a versão de cabine simples. VOLKSWAGEN/DIVULGAÇÃO

AMAROK Modelo irá competir com os veículos asiáticos

TRANSPORTE URBANO A Secretaria de Transportes do Distrito Federal e o DFTrans (Transporte Urbano do Distrito Federal), em parceria com a revista “IstoÉ Dinheiro”, promovem, nos dias 4 e 5 de agosto, o evento "O Brasil em Debate, Ciclo de Seminários, Transporte Urbano". O encontro

será realizado no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília. Estão confirmadas as presenças de Carlos Azulgaray, presidente da Editora Três; José Roberto Arruda, governador do Distrito Federal, e Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil.

Atenção às questões sociais POR

JOSÉ MELGAÇO

A Marcopolo completa, em agosto, 60 anos de fundação, a maior parte deles dedicados aos trabalhos e programas sociais. Entre os projetos, destacam-se a EFPM (Escola de Formação Profissional Marcopolo), que oferece cursos profissionalizantes para jovens, e o Envolver, que visa a inclusão de portadores de necessidades especiais no quadro de funcionários da empresa. Em entrevista à CNT Transporte Atual, Milton Susin, diretor de administração da Marcopolo, comenta sobre os programas e como eles aproximam a empresa de seus colaboradores. Por que a Marcopolo decidiu investir em ações sociais? A Marcopolo sempre teve como um de seus focos o colaborador e a comunidade, por isso, sempre dedicou atenção às ações sociais. Outra razão é o fato do ônibus ser um produto feito por muita gente para transportar outros muitos. Assim, a comunidade está diretamente ligada aos produtos da empresa. Como a EFPM seleciona seus alunos e quantas unidades existem? Em seus 18 anos de existência, a escola já formou mais de 650 jovens, selecionados por meio da parceria com a FAS (Fundação de Assistência Social). Atualmente, há seis unidades da EFPM, sendo duas em Caxias do Sul (RS), uma em Duque de Caxias (RJ) e outras três no México, em Portugal e na África do Sul. Os beneficiados pelo Programa Envolver são direcionados para quais setores? Desde seu lançamento, em dezembro de 2008, o programa já treinou quase 200 colaboradores que trabalham na Marcopolo. Essas pessoas recebem treinamento e qualificação profissional para poderem exercer atividades, desde a área administrativa até a linha de produção. O objetivo desse programa é contribuir para a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, além de permitir a igualdade de oportunidades de qualificação e crescimento profissional para elas.

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MAIS TRANSPORTE VALE/DIVULGAÇÃO

INTELIGÊNCIA ECOLÓGICA O autor investiga como as decisões dos consumidores afetam o meio ambiente e o motivo pelo qual essas consequências não são consideradas no momento das compras. De Daniel Goleman. Campus, 264 págs, R$ 67

OLHO POR OLHO O jornalista desvenda a história de dois livros da época da ditadura, “Brasil Nunca Mais”, sobre a tortura do Exército, e “Orvil - A Resposta das Forças Armadas”. De Lucas Figueiredo. Record, 210 págs, R$ 38

TANQUE COM GÁS A Vale anunciou que, a partir de 2011, usará gás natural como combustível em toda a frota de trens que faz o percurso da Estrada de Ferro Vitória-Minas. Com o combustível limpo, 73 mil toneladas de gás carbônico deixarão de ser emitidos pelas locomotivas da empresa.

TURBOS A Honeywell lançou em junho uma nova linha de turbos Garrett para o mercado de reposição. As peças foram produzidas exclusivamente para caminhões Volkswagen e Hyundai, ônibus Ford e van Ford Transit. O turbo Garrett

702154-50075 é destinado aos motores MWMInternational dos caminhões Volkswagen CO 16.180 e CO 16.210 e o Garrett modelo 715924-5004S para o motor de 2,4 litros do Hyundai HR. Para a Ford Transit, o turbo é o modelo 752610-5025S, do

motor Duratorq TDCI, de 2,4 litros. A Honeywell divulgou que os lançamentos estão alinhados com a estratégia da empresa de ampliar a presença da marca no mercado de reposição, que tem apresentado gradativo crescimento nos últimos anos.

TESTEMUNHAS DA CHINA Idosos da época da Revolução Cultural chinesa são entrevistados pela escritora para mostrar como essa geração entende a nova China, aberta e de alto crescimento econômico. De Xinran. Companhia das Letras, 482 págs, R$ 52


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EMBRAER/DIVULGAÇÃO

ELETROPOSTO A Petrobras inaugurou, em junho, no Rio de Janeiro (RJ), seu primeiro eletroposto a oferecer recarga de veículos elétricos a partir de energia solar. O projeto foi desenvolvido com tecnologia brasileira. A energia é captada por um conjunto de 28 módulos reunidos em painéis fotovoltaicos que gera 184 volts em corrente contínua, cuja potência é conver-

tida por um inversor em energia trifásica alternada de 220 volts. A energia resultante desse processo é oferecida nos pontos de recarga de motos e carros em tomadas de 110 ou 220 volts. Segundo a Petrobras, em caso de ausência de luz solar ou demanda de recarga maior do que a projetada, o inversor capta energia da rede externa. PETROBRAS/DIVULGAÇÃO

PETROBRAS Eletroposto inaugurado no Rio de Janeiro

PNEUS ESPORTIVOS A BFGoodrich apresentou, em junho, uma nova linha de pneus para utilitários esportivos: a Long Trail T/A Tour. Foi aplicado em toda a linha o sistema Etec System™ (estrutura com equilíbrio de tensões), permitindo que o pneu mantenha a área de contato constante com o solo durante todo o trajeto,

resultando em mais estabilidade para o veículo, inclusive, em altas velocidades. A nova gama de pneus tem estética moderna e design esportivo na banda de rodagem e no flanco. O Long Trail é indicado para veículos como Chevrolet S10, Hyundai Santa Fé, Jeep Wrangler, Nissan Frontier e Pathfinder e Ford Explorer.

INVESTIMENTO Caprioli recebe os aviões da Embraer

AMPLIAÇÃO A Trip Linhas Aéreas ampliou suas operações em junho. A companhia adquiriu duas novas aeronaves Embraer 175, para 86 passageiros, de um total de cinco que serão entregues até o final deste ano. Com o aumento da frota, a Trip passa a atender 73 cidades com voos regionais a partir do

Aeroporto Santos Dumont (RJ). Os voos interligam o Rio de Janeiro a 42 municípios em todas as regiões do país, sendo 13 destinos com voos diretos. “Nossa expectativa é que as operações no Rio transportem 50 mil passageiros por mês”, diz José Mario Caprioli, presidente da Trip.

LOGÍSTICA Uma nova empresa especializada em soluções logísticas chegou ao mercado brasileiro em junho. A Trafit, resultado da fusão das empresas Ajofer, Fantinati, Trans-Postes, Transvec e Mestralog, terá presença em diversos pontos do território nacional por meio de 20 unidades de atendimento nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina. A nova empresa já tem planos de expansão para

as regiões Norte e Nordeste e para outros países, como Argentina, Chile, Colômbia e Uruguai. A Trafit dispõe de uma frota com mais de mil equipamentos e uma equipe de mais de mil funcionários. Segundo Antonio Wrobleski Filho, executivo da Trafit, a nova empresa conta com movimento anual de R$ 250 milhões e tem perspectiva de aumentar essa receita para R$ 400 milhões em cinco anos.


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MAIS TRANSPORTE TRAVESSEIRO PARA VIAGEM

CASE SUSTENTÁVEL

Em junho, chegou ao mercado um travesseiro especial, desenvolvido exclusivamente para viagens. O Travel Pillow, produzido pela Copespuma, adapta-se à cabeça e ao pescoço, deixando o corpo relaxado e confortável. Ele foi fabricado com materiais que inibem a proliferação de

A Randon apresentou em junho seu case de inovação tecnológica com foco na sustentabilidade, durante a 9ª Conferência da Anpei (Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras) realizada na sede da Fiergs (Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul), em Porto Alegre. O case é um dos 48 selecionados pelo Comitê Técnico da Fiergs para destacar os projetos inovadores desenvolvidos no

ácaros e que mantêm temperatura agradável nos dias mais quentes. O Travel Pillow é compacto, dobrável e possui capa removível, podendo ser usado em hotéis, já que, quando desenrolado, pode ser acoplado ao travesseiro tradicional. COPESPUMA/DIVU;GAÇÃO

Brasil, por empresas e instituições que investem em pesquisa e desenvolvimento, levando em conta sua responsabilidade com a preservação ambiental. A Randon desenvolveu e aplicou aços de alta resistência, com tensões de escoamento maiores e de fácil conformação, nos bitrens basculantes para transporte de açúcar e grãos por estradas pavimentadas e em boas condições. RANDON/DIVULGAÇÃO

CONFORTO Produto promete deixar o corpo relaxado

PRÊMIO ANTF A ANTF (Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários) abriu, em junho, as inscrições para o 5º Prêmio ANTF de Jornalismo. As matérias jornalísticas inscritas serão classificadas nas seguintes categorias: jornal impresso, revista impressa, telejornalismo e radiojornalismo. Podem concorrer profissionais atuantes em veículos jornalísticos de todo

o território nacional, com trabalhos em língua portuguesa que tiverem como foco o setor ferroviário de carga, publicados por veículos de comunicação com sede no país, no período de 1/9/2008 a 30/8/2009. As inscrições serão encerradas no dia 1º de outubro. O vencedor de cada categoria receberá R$ 3.000. Mais informações: www.antf.org.br.

RANDON Case mostra aplicacão de aço em bitrens basculantes


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ASSESSORIA RÁPIDO 900/DIVULGAÇÃO

SÉTIMA GERAÇÃO A Marcopolo lançou a sétima geração de veículos. A novidade estará nas concessionárias a partir de agosto, mês do aniversário de 60 anos da empresa. A fabricante tentou acoplar conforto, segurança, robustez e economia em seus dois novos modelos: o Paradiso 1050 e o Viaggio 900. O foco dos engenheiros foi satisfazer as

necessidades dos passageiros e motoristas dos ônibus. O interior dos veículos possui um desenho arrojado que lembra o visual de um avião. O design externo traz linhas em formato de gota que, além da perspectiva moderna, proporciona uma aerodinâmica semelhante a dos veículos de passeio. MARCOPOLO/DIVULGAÇÃO

CONSCIENTIZAÇÃO Ação da ONG Reflorestar é Viver no ano passado

BLITZ AMBIENTAL A transportadora Rápido 900 patrocina a campanha “Blitz Ambientais” realizada pela ONG Reflorestar é Viver. A ação prevê a distribuição de 2.000 mudas de árvores nativas e exóticas em diversas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Durante o evento, os voluntários da ONG vão ensinar como plantar as mudas e abordarão assuntos

relacionados à preservação ambiental. A ação acontece em julho e agosto. A Reflorestar é Viver realiza, há cinco anos, diversos trabalhos ambientais, totalizando mais de 60 mil mudas distribuídas, com o objetivo de conscientizar o maior número possível de pessoas para que a cultura da preservação ambiental seja difundida.

PARADISO Modelo apresentado pela Marcopolo


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MAIS TRANSPORTE VOO EXECUTIVO A Helibras entregou o primeiro helicóptero EC 145 do mercado brasileiro, no dia 16 de junho, durante a International Paris Air Show - Le Bourget, na França, considerada uma das maiores feiras da indústria aeroespacial. A versão Stylence do EC 145 será utilizada no mercado executivo brasileiro,

FETCEMG/DIVUGAÇÃO

concentrando suas operações entre São Paulo e Rio de Janeiro. O modelo entregue é equipado com radar meteorológico, navegador com mapas eletrônicos de ruas, GPS integrado e tem capacidade para um piloto e nove passageiros ou dois pilotos mais oito passageiros. HELIBRAS/DIVULGAÇÃO

ECOLOGIA Fetcemg promove aferição no Mineirão MERCADO Helicóptero será usado no Rio e em São Paulo

CENTRO DE TECNOLOGIA A Umicore, fabricante da tecnologia do catalisador automotivo, implantou seu novo Centro de Tecnologia de Emissões Veiculares para motores diesel. A empresa investiu R$ 10 milhões no seu centro tecnológico, instalado na unidade da empresa em Americana (SP). Segundo a Umicore, o local conta

com os melhores recursos disponíveis no mundo para atender às montadoras no desenvolvimento de sistemas de pós-tratamento para caminhões e ônibus. Ainda de acordo com a empresa, o laboratório possui o maior dinamômetro transiente da América do Sul, com capacidade para motores diesel de até 14 litros.

MEIO AMBIENTE A Fetcemg (Federação das Empresas de Transportes de Carga do Estado de Minas Gerais) preparou uma programação especial para comemorar o Dia do Meio Ambiente, celebrado oficialmente em 5 de junho. A Semana do Meio Ambiente Fetcemg “Transportando com Consciência Ambiental” foi aberta com uma blitz

ecológica do Despoluir, realizada no estacionamento do estádio Mineirão, em Belo Horizonte, no dia 15 de junho. A blitz aprovou 80% dos caminhões aferidos. O evento foi encerrado no dia 22, com palestras sobre as legislações referentes ao transporte e meio ambiente, com a presença de mais de cem participantes.


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“A lei que obriga o motorista a parar, além de ser impraticável, não resolve a questão. Até induz a piorar a estafa dos que dirigem” ALEXANDRE GARCIA

A parada das quatro

B

rasília (Alô) - O agente da CET se aproximou da cabina da carreta parada na Marginal Pinheiros, agravando ainda mais o interminável congestionamento. O motorista dormia. “O que você está fazendo? Está louco ou está bêbado? Está passando mal?” “Nada disso”, respondeu o caminhoneiro. Estou cumprindo a lei. Dirigi por quatro horas; já estou há mais de uma hora no congestionamento das marginais, e agora sou obrigado a obedecer à lei e fazer um descanso de meia hora. “Já botei o despertador e quando der 30 minutos de descanso, eu ligo o motor de novo.” O episódio é uma ficção, mas bem poderia ser realidade. Serve para mostrar como leis criadas com a melhor das intenções podem se tornar impraticáveis. O motorista de caminhão está agora obrigado a parar por meia hora, depois de quatro horas na direção. E os caminhões ficam obrigados a ter tacógrafos para controlar o “para-eanda”. Tudo muito bonitinho. Grande preocupação com a fadiga à direção. Mas quem vai fiscalizar isso? É o que todos perguntam. E se a lei for levada ao pé da letra, como fez o nosso caminhoneiro na Marginal Pinheiros? A lei, além de ser impraticável, não resolve a questão. Até induz a piorar a estafa dos que dirigem. Todo manual de veículo recomenda que se faça uma pausa depois de duas horas de direção. Que se pare uns dez minutos para dar uma caminhada, tomar água, espairecer. Depois, retoma-se o volante renovado. Em apenas dez minutos. Os especialistas fazem a mesma recomendação. Meu carro avisa quando já passei do limite de duas horas contínuas na direção e recomenda descanso. A lei estabelece

quatro horas contínuas! O dobro do recomendado por especialistas e pelas montadoras. E determina 30 minutos de descanso - três vezes mais do que seria suficiente, se o tempo contínuo de volante fosse de duas horas. É boa a intenção do legislador de tentar evitar as anfetaminas, o “rebite” para se manter acordado. O café só funciona por pouco tempo, como estimulante. Um prato feito com uma montanha de comida e uma cerveja funcionam como um terrível sonífero no meio do dia. E um motorista com sono é igual a um motorista bêbado. Os reflexos se retardam, os movimentos ficam lentos, a freada chega tarde, a vista fica prejudicada, aparecem visões na estrada, principalmente à noite. O legislador quer evitar fadiga com longas jornadas para cumprir compromissos de entrega, nas nossas estradas congestionadas, esburacadas, bloqueadas. São inundações, pontes que caem, barreiras que despencam, greves de fiscais, MST. Acontece de tudo e o motorista tem que recuperar o tempo que lhe foi roubado pela estrutura falha do sistema. Não teríamos esses problemas se os governos tivessem tido a inteligência de investir em ferrovias, hidrovias e portos. O transporte seria mais barato, mais rápido, mais racional e mais eficiente. O caminhão ficaria para os percursos médios e as entregas. A navegação de cabotagem aliviaria a BR-101, por exemplo. O trem poderia aliviar a BR-153 ou a BR-262. Mas isso é sonho que vai demorar. Um sonho que já deveria ter se tornado realidade há décadas. O Brasil estaria bem mais capacitado para circular a riqueza. Sem hora para parar.


“Eu quis fazer um protesto bem-humorado” IRANDI PEREIRA DA ROCHA, BORRACHEIRO

SENTINELA

CELEBRIDADE

DOASFALTO BONECO JOÃO BURACÃO, CRIADO POR BORRACHEIRO, DENUNCIA PRECARIEDADE DAS VIAS E SENSIBILIZA AS AUTORIDADES POR

uando ele foi criado, no início do ano, ninguém imaginava que se tornaria uma celebridade nacional, com fama até no exterior. Surgiu em uma rua simples, em Marechal Hermes, subúrbio do Rio de Janeiro, e foi parar nas avenidas de Nova York, nos Estados Unidos. Desde fevereiro, o boneco João Buracão tem executado bem sua tarefa de denunciar buracos nas vias públicas e exigir providências das autoridades.

Q

CYNTHIA CASTRO

Com 1,55 m de altura e 15 kg, transformou-se em alento para alguns pedestres e motoristas que desejam denunciar o descaso do poder público. Quem quer providência contra buraco e cratera apela aos seus serviços. O boneco é levado para o ponto onde está o problema, causando constrangimento aos governantes. O resultado tem sido, muitas vezes, a providência do órgão executivo para tapar o buraco. Por enquanto, a área

mais forte de atuação do guardião do asfalto é a sua cidade natal, Rio de Janeiro, e região metropolitana. Mas João Buracão já passeou por vários Estados brasileiros, como Minas Gerais, Pernambuco, Ceará e Bahia, e o Distrito Federal. Seu trabalho é fruto da indignação, criatividade e bom humor de um morador do Rio de Janeiro e do olho atento de um repórter. Em fevereiro, cansado de conviver com uma

cratera perto de casa, o borracheiro Irandi Pereira da Rocha decidiu fazer o boneco. Roupas e sapatos usados, jornal, espuma de colchão e até papel higiênico foram matérias-primas para a confecção. João Buracão foi colocado então ao lado do buraco, com uma vara de pescar na água suja da cratera. “Sempre gostei de arte e quis fazer um protesto bemhumorado. Esse buraco estava na minha rua, perto da ofi-


CLÉBER JÚNIOR/JORNAL EXTRA/AGÊNCIA O GLOBO/DIVULGAÇÃO

PELO MENOS

20 BONECOS FORAM CRIADOS APÓS SUCESSO DO JOÃO BURACÃO

CRATERA João Buracão faz protesto em São João de Meriti, no Estado do Rio de Janeiro

cina onde trabalho, há muito tempo, e nenhuma providência era tomada de fato”, diz Rocha. Segundo ele, vários moradores ligavam sempre para a prefeitura e registravam a reclamação. Em fevereiro, a cratera estava com 20 cm de profundidade, conforme o borracheiro. “Sempre que chove, esse buraco aparece.” A crítica chamou a atenção de quem passava pelo bairro, inclusive do repórter Fernando Torres, do

jornal “Extra”. Torres tinha acabado de fazer a cobertura do enterro de vítimas de um assassinato no Rio de Janeiro e ia para outra pauta no carro da reportagem. Ao enxergar de longe o boneco, pensou, a princípio, que fosse uma pessoa, mas logo percebeu que era um protesto e decidiu fazer a matéria. As lentes do fotógrafo Luiz Alvarenga guardaram a cena. No dia 13 de fevereiro, a notícia foi publicada com o título “Nome e sobrenome

para descaso público”. Virou destaque na primeira página. No mesmo dia, a prefeitura fechou a cratera. “A repercussão foi muito grande. Quando voltei ao local para fazer a matéria dizendo que o buraco tinha sido tapado, muitas pessoas começaram a pedir para o boneco ir à rua delas também”, diz Fernando Torres. A partir daí, o Serviço de Atendimento ao Leitor do “Extra” começou a receber centenas de pedidos de visita do

João Buracão, e o boneco passou a constar na pauta diária do jornal. Ganhou até blog, em que as denúncias também podem ser feitas. Essa mobilização criada em torno de João Buracão tem surtido efeitos positivos concretos, segundo o pai adotivo. Estimativas do jornal “Extra” apontam que pelo menos 150 buracos foram consertados no Estado do Rio de Janeiro, especialmente na região metropolitana, sob influência direta do boneco. São buracos visitados por João Buracão, com divulgação de matérias cobrando solução. Mas há também uma estimativa de ganho indireto no Estado, de acordo com Torres, devido à pressão que João Buracão tem feito nas autoridades fluminenses. “Desde fevereiro, foram cerca de 150 mil buracos tapados, conforme levantamento feito com prefeituras e distribuidoras


PARCEIROS DO JOÃO BURACÃO LÚCIO MAURO/DIVULGAÇÃO

Zé Duplicação Boneco foi usado em protesto em Caeté (MG) pela duplicação da BR-381

GUILHERME PINTO/JORNAL EXTRA/AGÊNCIA O GLOBO/DIVULGAÇÃO

Maria Buraquete Boneca é usada para denunciar buraco da rua Ouro Fino, bairro Jardim Catarina, no município de São Gonçalo, Estado do Rio

FOTO DO LEITOR/JORNAL EXTRA/AGÊNCIA O GLOBO/DIVULGAÇÃO

Zeca Valão Boneco é colocado em buraco na rua Contono, via de acesso ao bairro Santa Terezinha, em Mesquita, Estado do Rio

FOTO DO LEITOR/DURVAL GOULART//JORNAL EXTRA/AG. O GLOBO/DIVULGAÇÃO

Hilda Futrica Buracão Moradores instalam boneca na avenida Rio Douro, em mutirão realizado na Vila Cláudia, em Belford Roxo, Estado do Rio


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A PREFEITURA DE NOVA YORK TAPOU

de asfalto”, afirma. Por um mês e meio, Torres assumiu as matérias, depois outros repórteres começaram a levar o boneco para pontos onde há buracos e escrever a reportagem sobre o problema. “Com as centenas de denúncias que recebemos, percebemos ainda mais a dimensão desse problema de ruas esburacadas. É um serviço básico (o asfaltamento das vias), pessimamente prestado”, diz o repórter. Em maio, o “Fantástico”, programa dominical da TV Globo, começou a veicular matérias com o João Buracão, e as denúncias contra buracos ganharam abrangência ainda maior. A demanda tem sido tão grande que João Buracão ganhou sete irmãos gêmeos. Um deles fica na borracharia onde Irandi trabalha, em Marechal Hermes. Virou sensação no local. Todo mundo que passa por lá quer ver o boneco e tirar uma foto. Outros três ficam com o jornal “Extra” para as coberturas diárias e quatro viajam com o “Fantástico”. Em Nova York, João Buracão visitou pontos turísticos famosos mundialmente, como a Times Square. Ele foi ver de perto

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257 MIL BURACOS EM UM ANO

FAMOSOS

Rotina da família é alterada A rotina da família de Irandi Pereira da Rocha mudou desde a criação do boneco em fevereiro. Casado e pai de três filhos (de 4, 12 e 15 anos), ele, além do trabalho diário na borracharia perto da casa onde mora, agora precisa arranjar tempo para outros compromissos - dar entrevistas, ir a programas de televisão, receber homenagens e tirar fotos com os fãs do boneco criado por ele. “O patrão tem sido compreensivo”, diz. A mulher, Cláudia Oliveira, trabalha em um salão de festa e conta que, no bairro, ela, o marido e os filhos ficaram conhecidos como Família Buracão. Sempre que pode, Cláudia acompanha Irandi na agenda criada em torno do boneco. “Quando ele foi à Câmara receber homenagem, até minhas amigas foram. Todo mun-

do vai para onde o João Buracão está.” A borracharia onde Irandi trabalha passou a receber visitas de dezenas de pessoas diariamente. E as crianças adoram abraçar, beijar e cumprimentar o João Buracão. Para confeccionar os irmãos gêmeos do boneco, a mulher e os filhos tiveram de ajudar. “Foi um trabalho intenso pela madrugada. Meu marido passava a noite em claro. Trabalhava de dia na borracharia e tinha de dar conta de concluir os bonecos.” Cláudia espera que, além de resolver os problemas dos buracos, o sucesso do João Buracão seja uma oportunidade para o marido mostrar sua arte. “Tenho grande orgulho do meu marido. Ele é uma pessoa simples, disposta a ajudar e tem muito talento. Sempre gostou de pintar, de criar.”

como os buracos são tratados nos Estados Unidos. Passeou com um taxista brasileiro que lhe contou que lá não há grandes crateras como no Brasil, apenas buracos menores. Em uma rápida apuração, João Buracão descobriu que 770 mil carros circulam diariamente na cidade. A prefeitura de Nova York informou que em um ano tapou 257 mil buracos, todos em no máximo 30 dias, conforme a reportagem veiculada pelo “Fantástico”. No Brasil, o boneco chamou a atenção de uma rede de TV da Alemanha que estava no Rio de Janeiro. Voou de helicóptero com uma rádio carioca, participou de programas da televisão brasileira e teve minutos de fama até em novela. João Buracão instigou a criatividade de moradores do Rio e ganhou adeptos. Pelo menos outros 20 bonecos foram criados para fazer companhia a ele em alguns locais e ajudaram nas denúncias dos problemas da cidade, como o Zeca Valão e a Maria Buraquê. Tamanha popularidade tem causado reação em alguns prefeitos. Um deles, Eduardo Paes, do Rio de Janeiro, che-


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“Com as centenas de denúncias, perceb FERNANDO TORRES, REPÓRTER DO JORNAL “EXTRA”

IRANDI PEREIRA DA ROCHA

“A indignação pode ajudar a mudar” A ideia de confeccionar o João Buracão surgiu do cansaço em esperar uma atitude do poder público para resolver os problemas vividos na rua Piraí, em Marechal Hermes. Na opinião de Irandi Pereira da Rocha, os cidadãos brasileiros deveriam se indignar e fazer algo para mudar situações que incomodam. “Muita gente cruza os braços diante dos problemas, enquanto podia fazer muita coisa.” Leia trechos da entrevista com o criador do João Buracão. Essa crítica bem-humorada partiu de uma grande indignação. Como foi? Em frente à borracharia, perto de onde moro, tinha um buraco que incomodava havia anos. Meus filhos brincavam na calçada e todo carro que passava jogava água suja. Outro problema era que os carros e motos quebravam a roda no buraco. Como trabalho na borracharia, os motoristas jogavam a culpa em mim. E como surgiu a ideia do boneco? As crianças estavam na calçada e acharam um peixinho, com lantejoula, de uma fantasia (encontrada na rua). Joguei no buraco, mas ninguém via o peixinho. Veio a ideia de amarrar

em um cabo de vassoura, mas os carros passavam por cima. Fiz o boneco em tamanho natural, pescando no buraco. Os motoristas enxergavam e desviavam do buraco. Por que João Buracão? O nome ia ser Zé do Buraco, Severino ou João Buracão. Eu tive um Chevete que se chamava Severino. No dia que o repórter do “Extra” fez a primeira matéria, ele perguntou qual era o nome. Batizei de João Buracão. João é o nome de um irmão. Como foi a reação inicial das pessoas? Tem gente que criticou, dizendo que ia causar acidente. Outros apoiaram, gostaram da ironia. O boneco não tinha rosto, só um saco enrolado. O pessoal ria, batia foto. Minha mulher sugeriu que eu fizesse um rosto, com essa cara sarcástica que ele tem. Você imaginava que essa atitude ganharia tamanha repercussão? Não. Era só um protesto bem-humorado, a imprensa veio e a prefeitura começou a tapar esse e outros buracos. Muita gente pediu para levar o boneco para outros locais. Se cada um fizer um pouco, é

aquela história do beija-flor apagando o fogo. Muita gente cruza os braços diante dos problemas, enquanto podia fazer muita coisa. A indignação pode ajudar a mudar. Minha intenção não era criar esse rebu, mas aconteceu e graças a Deus está resolvendo alguns problemas. Como é a sua relação com a arte? Você já fazia bonecos? Eu desenho desde criança, pinto quadro, faço maquete. É de família. Também já fazia bonecos em tamanho natural. No borracheiro, fiz um só com as pernas. Ficava em um canto. Parecia que era alguém dormindo e ajudava na segurança. Também já fiz para a queima de Judas, mas tinha pena porque eles destroem o boneco. O que você sente ao pensar que o João Buracão chegou a Nova York? É uma realização. Além de ajudar a tapar buracos, ele fez tudo que eu queria fazer e não fiz. Eu não pude ir lá e em outros lugares, mas ele foi. Voou de helicóptero junto com uma rádio, que era um grande sonho meu. Não pude ir porque estava trabalhando.Viajou pelo Brasil. Foi até próximo da minha terra, em Mossoró, no Rio Grande do Norte.

gou a convidar o boneco para uma “conversa”, para apresentar o que tem feito contra os buracos. O vigilante do asfalto esteve também na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde Irandi recebeu duas moções, de parabenização e de congratulação. Para incentivar ainda mais a atitude das autoridades em relação ao estado precário de conservação das vias, o “Extra” criou algumas iniciativas, des-


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emos ainda mais a dimensão desse problema de ruas esburacadas” GUILHERME PINTO/JORNAL EXTRA/AGÊNCIA O GLOBO/DIVULGAÇÃO

ROTA DE VIAGEM Confira por onde João Buracão andou Belo Horizonte (MG) Brasília (DF) Canoa Quebrada (CE) Cuiabá (MT) Formosa (GO) Guaratinguetá (SP) Recife (PE) Rio de Janeiro, Macaé, Niterói, Nova Iguaçu, São João de Meriti, São Gonçalo (RJ) Salvador (BA)

de fevereiro, como promover o concurso Prefeito Buracão. Esse concurso consiste na publicação de listas de locais de buracos na região metropolitana do Rio de Janeiro indicados pelos leitores, com prazos para que os problemas sejam resolvidos. Quem tapar menos buracos é eleito o Prefeito Buracão. Algumas pessoas que já receberam o João Buracão na rua onde moram aprovam a iniciativa. O motorista Harley

da Silva Cardoso afirma que, se não fosse a criação do boneco e a divulgação na imprensa e televisão, os problemas demorariam muito mais para serem resolvidos. Cardoso mora em São João de Meriti (RJ) e chamou o João Buracão em maio para ajudar a tapar o buraco em duas ruas. “Um deles era perto de minha casa. Meu filho de 7 anos passava lá perto todo dia para ir à aula. Os moradores já tinham

feito a solicitação para a prefeitura dois meses antes, mas precisou o boneco chegar para o problema ser resolvido.” Para o repórter que descobriu e adotou o boneco, é “muito gratificante” perceber a repercussão de todo o trabalho. Ele diz que quando fez a primeira matéria, sabia que aquele fato era notícia, mas não tinha noção do impacto que causaria. “Tenho grande orgulho por-



REPERCUSSÃO Irandi Pereira da Rocha afirma que não esperava a fama que o boneco alcançou

que está dando certo. Denunciamos o buraco e muitos são tapados no mesmo dia”, diz Torres, ao ressaltar que o boneco não é uma invenção do jornal, mas uma iniciativa popular descoberta pela reportagem. “Talvez uma campanha de marketing muito bem-elaborada não tivesse o mesmo impacto. É que esse boneco foi feito por uma pessoa que sentiu o problema.” Para o pai de João Buracão, o pedido é que o boneco continue firme em seu trabalho. “Espero que ele não se aposente tão cedo, que continue ajudando a tapar os buracos. E que passe para outros patamares, que possa ajudar na questão da moradia, da segurança”, diz. 

Confira o blog do João Buracão: http://extra.globo.com/ blogs/joaoburacao


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MARCELLO LOBO/ARQUIVO AC&S MÍDIA

INFRAESTRUTURA

GARGALO NOSACESSOS DEFICIÊNCIAS NO SISTEMA LOGÍSTICO TERRESTRE - FERROVIÁRIO E RODOVIÁRIO - COMPROMETEM QUALIDADE DA ATIVIDADE PORTUÁRIA POR

CYNTHIA CASTRO

ara que o Brasil consiga o escoamento eficaz de sua produção agrícola e industrial e se torne mais competitivo no mercado internacional, há um ponto crucial que precisa ser atacado com extrema urgência em todas as regiões: a melhoria dos acessos terrestres aos portos. Os gargalos nas rodovias e ferrovias atrasam o processo de escoamento e congestionam os centros urbanos. A necessidade de intervenções é apontada por especialistas e reconhecida por quem administra portos e até mesmo pelo governo federal. Há anos a ineficiência logística compromete as atividades portuárias. E a necessidade de investimentos já foi apon-

P

tada pela Pesquisa Aquaviária CNT 2006 - Portos Marítimos e Cabotagem. Em relação aos acessos rodoviários, os maiores problemas constatados foram o estado de conservação (29,9%), travessia por áreas urbanas (27,8%) e engarrafamento dos veículos de carga (25,7%). Outras deficiências foram a falta de segurança (que proporciona o roubo de carga), a falta de duplicação das vias de acesso principal, poucas opções de acessos, estacionamentos insuficientes para espera, sinalização precária, pedágios e burocracia excessiva. Na avaliação dos acessos ferroviários, o principal problema foi o precário estado de conservação da malha e terminais ferroviá-


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“Investir em infraestrutura de acesso aos portos significa desone FABRIZIO PIERDOMENICO, SUBSECRETÁRIO DE PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO PORTUÁRIO DA SEP

RODRIGO SENA/TRIBUNA DO NORTE

DEMORA

Lentidão no PAC para logística

PAC Obras no Terminal Salineiro de Areia Branca estão prontas

rios (38,1%), em segundo lugar estão as travessias por áreas urbanas (25%). Também foram identificadas carência de linhas, falta de ramais para os portos, falta de equipamentos. A pesquisa foi realizada com os agentes marítimos mais representativos que atuam nos principais portos do país. “Investir em infraestrutura terrestre de acesso aos portos significa desonerar de custos o produtor, aquele que exporta, produz e coloca o seu produto lá fora. Quanto mais investimento em infraestrutura, melhor será o escoamento da produção, mais barato será esse escoamento e mais competitiva a mercadoria chegará ao mercado exterior”, diz o subsecretário de Planejamento e Desenvolvimento Portuário da SEP (Se-

cretaria Especial de Portos), Fabrizio Pierdomenico. O subsecretário reconhece a necessidade urgente de melhorar os acessos no Brasil e afirma que tem sido feito um trabalho nesse sentido. “O governo tenta recuperar a partir do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) a capacidade de investimento, mas essa recuperação não acontece de um dia para o outro”, diz Pierdomenico, ao citar que o país ficou muito tempo sem ações para infraestrutura. Um dos graves problemas de acesso terrestre no Brasil acontece no Porto de Santos, o maior da América Latina. O conflito entre dois modais de transporte que dividem o mesmo espaço de passagem é a rotina. As manobras fer-

Quando se cobra do governo federal a necessidade de infraestrutura em qualquer setor do Brasil, inclusive nos acessos terrestres aos portos, a resposta costuma vir sempre acompanhada das obras previstas no PAC. Mas a demora na execução dos projetos compromete ainda mais a eficácia das medidas, que já são insuficientes diante de toda a necessidade de infraestrutura no Brasil. No mês passado, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, divulgou o sétimo balanço do PAC. Segundo o governo federal, depois de dois anos e meio de programa, 15,1% das obras foram concluídas, o correspondente a R$ 62,9 bilhões. Esse índice tem sido contestado. O site Contas Abertas, por exemplo, divulgou na época do balanço oficial que só 3% das obras foram concluídas. A ministra rebateu. Desses R$ 62,9 bilhões

que o governo afirma já terem sido destinados ao PAC, R$ 10,2 bilhões se referem à área de logística - incluindo rodovias, ferrovias, portos, hidrovias e aeroportos. Na área de portos, pelo balanço oficial, só estão concluídas as intervenções no Terminal Salineiro de Areia Branca, no Rio Grande do Norte (R$ 12,7 milhões). O valor previsto no PAC especificamente para portos é de R$ 2,7 bilhões. As obras que incluem os acessos terrestres estão dentro das previstas para rodovias e ferrovias. “Todos os investimentos do PAC em ferrovia, por exemplo, têm como ponto final o porto. Tirando o trem de alta velocidade, todos os outros estarão ligando os centros produtivos, industrial e agrícolas a portos estratégicos da costa brasileira”, diz o subsecretário de Planejamento e Desenvolvimento Portuário da Secretaria Especial de Portos, Fabrizio Pierdomenico.


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ZEKA/AG. A TARDE/FUTURA PRESS

rar o produtor”

roviárias interrompem o fluxo rodoviário devido às passagens de nível e os “pontos de cruzamento entre os dois modais”. Em épocas de pico de movimentação, o número de caminhões nessa área do porto que sofrem com o problema chega a 15 mil por dia. E a espera do rodoviário pela passagem do ferroviário pode ser de 40 minutos, segundo o diretor-presidente da Codesp (Companhia Docas do Estado de São Paulo), José Roberto Corrêa Serra. Se um caminhão tem algum problema mecânico sobre o trilho, o fluxo ferroviário também fica prejudicado. “São gargalos que comprometem há anos a atividade. Temos indicadores que demonstram que, se não fizermos as obras, que já estamos fazendo, nos próximos dois anos teremos uma hora e meia de espera do trecho rodoviário, por exemplo, para o ferroviário. Teríamos um engarrafamento impraticável dentro do porto”, afirma Serra. Entre as principais intervenções que estão sendo feitas atualmente no país para a melhoria dos acessos portuários terrestres, estão as de Santos, segundo Pierdomenico. As duas grandes áreas operacionais do porto, a avenida perimetral margem direita (em Santos) e a avenida perimetral margem esquerda (em Guarujá) serão recuperadas. Cruzamentos com a

ILHÉUS Intervenções previstas na BR-415 devem minimizar problemas dos acessos

linha férrea serão eliminados por meio de viadutos e outras intervenções. Esses dois projetos estão contemplados no PAC, e o valor a ser investido será R$ 173 milhões. As intervenções têm previsão de estarem concluídas até o final do ano que vem, mas alguns trabalhos podem ficar para 2011, conforme a Codesp. As obras na perimetral margem direita, que são mais complexas, começaram em 2008. Essa via tem maior fluxo e os cinco grandes cruzamentos serão eliminados. As intervenções na perimetral margem esquerda estão em fase de licitação e a execução pode se estender até 2011. Além dessas obras do PAC, o diretor-presidente da Codesp diz que a companhia está investindo R$ 800 mil em um grande estudo,

em parceria com a USP (Universidade de São Paulo), para que seja feita uma readequação dos acessos logísticos. Esse estudo vai revisar os acessos rodoviário, ferroviário, dutoviário e hidroviário. E um novo grande projeto, com previsão de dobrar a capacidade do porto, torna ainda mais urgente a necessidade de se começar agora um forte investimento em acessos terrestres. Até o final deste ano, deve estar concluído um estudo sobre a possibilidade de implantação do complexo portuário conhecido como Barnabé-Bagres e sobre outros potenciais de expansão do Porto de Santos. Segundo a SEP, é o maior projeto de expansão do setor portuário do Brasil. O estudo so-

DOIS PROJETOS PARA MELHORAR O ACESSO EM SANTOS TEM

R$ 173 MI PREVISTOS NO PAC


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“Os acessos precisam ser exclusi PAULO RESENDE, ESPECIALISTA DA FUNDAÇÃO DOM CABRAL

SEST/SENAT

Curso prepara trabalhadores Na unidade do Sest/Senat São Vicente, na Baixada Santista, há 11 treinamentos diferentes voltados para o trabalhador da área portuária. A procura tem sido grande, tanto por pessoas que querem começar a trabalhar no porto como por quem já atua na área, mas não tem capacitação. A unidade começou a funcionar há quatro anos, perto do Porto de Santos. De março de 2005 a julho de 2009, 11 mil profissionais passaram por treinamento. No total, são 24 cursos. “O mercado portuário tem exigido profissionais capacitados”, afirma o coordenador de Desenvolvimento Profissional da unidade, Ricardo Alves Rocha. Entre os cursos voltados para a operação portuária e terminais transportadores, o mais procurado é o de operador de empilhadeira. Foram 95 turmas desde a inauguração. O treinamento dura 24 horas, e em cada turma pode haver, no máximo, 12 alunos, para que a parte prática possa ser contemplada da melhor forma. “Além da parte teórica, que são de 16 horas, os alunos operam uma empilhadeira na unidade. São propostos exercícios como se eles estivessem em uma operação normal”, diz Rocha. Segundo ele, esse treinamento prioriza a segurança. O segundo curso mais

procurado na área de porto é o de arrumação e conferência de cargas. Já foram concluídas 68 turmas. Esse treinamento também tem duração de 24 horas. De acordo com o coordenador de Desenvolvimento Profissional, há muitas empresas que contratam o Sest/Senat para fazer o treinamento. A Fassina - Soluções Logísticas em Comércio Exterior, localizada em Santos, desenvolve uma parceria com o Sest/Senat há dez anos, antes mesmo da inauguração da unidade São Vicente. Pelo menos 600 funcionários já passaram por treinamentos em várias áreas, especialmente os ligados à atividade em portos. Na opinião do analista de recursos humanos Fabiano Sampaio, os cursos são importantes para ajudar na qualificação do profissional. “A instituição ligada ao transporte tem uma linguagem mais próxima do trabalhador. E o Sest/Senat, com os instrutores da área de transporte, conhece bem as dificuldades e as necessidades do profissional que atua na região portuária de Santos”, avalia. De acordo com Sampaio, a Fassina cede o espaço da empresa para as aulas práticas do Sest/Senat em alguns cursos, como, por exemplo, o de vistoriador de contêiner.

bre a viabilidade está sendo feito com recursos do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e da SEP. Por enquanto, o projeto é conceitual, mas há expectativa de que a expansão agregue ao complexo santista uma capacidade de movimentação de mais de 120 milhões de toneladas por ano - atualmente, a capacidade é de 100 milhões por ano. Outros portos do Brasil também amargam os prejuízos da precariedade dos acessos terrestres. No mês passado, o Comitê de Planejamento da ANTF (Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários) concluiu um levantamento sobre as dificuldades de acessibilidade das ferrovias aos portos. Entre os problemas citados estão a limitada capacidade de escoamento dos portos, em função de invasões de faixas de domínio (área próxima ao trilho em zona urbana) e o excesso de passagem de nível. A ANTF cita também a ausência de retroáreas em portos capazes de atender à demanda atual e futura. O diretor-executivo da ANTF, Rodrigo Vilaça, considera que as obras propostas no PAC contemplam a demanda de integrar as malhas ferroviárias. Entretanto, uma ressalva, segundo ele, é em relação à malha já existente que

FLUXO Obras na perimetral

CIDADE DO RIO E PORTO FIRMAM CONVÊNIO DE

R$ 3,4 MI PARA MELHORAR ACESSOS


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vos, não podem se misturar com outros movimentos da cidade” SÉRGIO COELHO/CODESP/DIVULGAÇÃO

margem direita, em Santos, tiveram início em 2008 e eliminarão cinco cruzamentos, melhorando o acesso ao porto

tem vários problemas como das passagens de nível e invasões. O estudo da ANTF mostra, por exemplo, casas invadindo a faixa de domínio no Ceará, quase impedindo a circulação do trem, no acesso ao Porto de Mucuripe. O coordenador do Núcleo de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral, Paulo Resende, exemplifica a deficiência dos acessos portuários citando os exemplos dos portos do Rio de Janeiro e de Ilhéus (BA). Ele afirma que no Brasil nunca se deu a devida importância que os acessos terrestres merecem. No Porto do Rio de Janeiro, a área de retroporto e o acesso rodoviário coincidem com o centro da cidade. Os movimentos por-

tuários, de chegada e saída de caminhões, misturam-se ao movimento urbano. “A velocidade de acesso ao porto fica comprometida. É reduzida por causa do conflito”, diz. Outra situação grave e relativamente comum no Brasil, conforme Resende, acontece em portos com forte perfil de embarque de granéis agrícolas, mas com uma estrutura de acesso na qual o caminhão precisa passar dentro da cidade. Além de congestionar os centros urbanos, há queda de grãos nas vias da cidade. Segundo Resende, pode haver uma contaminação da água, por exemplo. “O granel agrícola, em estado natural, pode contaminar os aquíferos”, afirma. Como exemplo de lo-

cal onde o problema acontece, o engenheiro cita o Porto de Ilhéus. Construído em local de mar aberto, Ilhéus tem bons acessos marítimos. O coordenador de gestão portuária, Eduardo Melquíades, entretanto, reconhece os problemas nos acessos terrestres e cita o projeto da ferrovia de integração Oeste-Leste, que está em andamento no PAC, como uma das ações que beneficiarão o porto. O acesso terrestre da carga se dá pelas BRs 101, 415, 116 e 001. Conforme Melquíades, há uma expectativa de que as obras previstas pelo governo do Estado na BR-415, em um trecho próximo ao porto, minimizem os problemas dos acessos. A Companhia Docas do Rio de

Janeiro informa, por meio da Superintendência do Porto do Rio de Janeiro, que para melhorar os acessos terrestres ferroviários foi firmado um convênio de apoio técnico e financeiro com o município, no valor de R$ 3,4 milhões. Entre as ações concluídas, estão a remoção e o reassentamento e pagamento de indenização às famílias que possuíam residências na faixa de domínio do ramal ferroviário Acari/Jacarezinho. Em relação aos acessos rodoviários, a assessoria de comunicação informa que o projeto em execução visa implantar um novo acesso ao porto, por meio de uma via de acesso ao bairro do Caju. Na avaliação de Paulo Resende, da Fundação Dom Cabral, o caminho para melhorar os acessos terrestres aos portos no Brasil é investir em obras de engenharia. “Os acessos precisam ser exclusivos e não podem se misturar com outros movimentos da cidade. Na prática, o Brasil precisa de engenharia, construção de vias exclusivas, investimento em infraestrutura pra valer.” Resende diz que o PAC prevê obras importantes em relação a rodovias e ferrovias, como a do Porto de Santos. Mas ele faz questão de ressaltar a necessidade de haver muito mais do que o PAC oferece para que os problemas possam de fato ser resolvidos. 


TRANSPORTE PÚBLICO

POR

EDSON CRUZ

s inovações e tendências do setor de transporte metroferroviário serão apresentadas na 15ª Semana de Tecnologia Metroferroviária, que vai ser realizada pela Aeamesp (Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Metrô), entre os dias 25 a 28 de agosto, no Centro de Convenções Frei Caneca, em São Paulo. O evento irá expor trabalhos técnicos, painéis de discussão sobre novas tecnologias, políticas de investimento, mobilidade, urbanismo e meio ambiente. Paralelamente ao evento, acontece ainda a Metroferr 2009, uma exposição de produtos e serviços, com a participação de diversas empresas parceiras ligadas ao setor metroferroviário. A Aeamesp é uma ONG constituída por profissionais que atuam no setor metroferroviário. Desde a sua fundação, em 1990, a entidade objetiva valorizar e difundir a tecnologia metroferroviária nacional e internacionalmente. Além disso, tem realizado ações visando expandir, modernizar e consolidar os sistemas de transporte sobre trilhos no Brasil e, com isso, contribuir para o desenvolvimento econômico e social no setor e promover mais qualidade de vida nas cidades.

A

DEBATE Semana de Tecnologia Metroferroviária irá expor trabalhos técnicos,

TECNOLOGIA EVENTO EM SÃO PAULO VAI DIVULGAR AS Desde que foi criada em 1995, a Semana de Tecnologia Metroferroviária tem se tornado uma referência nacional no setor, principalmente, por congregar profissionais, empresas, dirigentes e autoridades governamentais do país. “O nosso objetivo é criar uma sinergia entre os participantes e contribuir para o desenvolvimento planejado e sustentado das cidades e integrar o transporte sobre trilhos a outros modais”, diz o presidente da Aeamesp, engenheiro José Geraldo Baião. Anualmente, esse evento atrai 1.800 pessoas de diversos segmentos do setor metroferroviário.

Este ano, o tema principal vai ser Transporte Público - Assegurando o Desenvolvimento Econômico e Social. “Durante o encontro, vão ser apresentados mais de 35 trabalhos técnicos desenvolvidos por profissionais de empresas do setor e painéis que vão abordar vários temas da atualidade”, diz o engenheiro e vice-presidente da Aeamesp, Jayme Domingo Filho, que também é o coordenador-técnico do evento. Entre os temas que serão debatidos nesse encontro estão a implantação do TAV (Trem de Alta Velocidade), previsto para ligar Rio de Janeiro a São Paulo até a Copa

do Mundo de 2014 e sua integração com as cidades, sistemas de arrecadação, sistemas alternativos de transporte de média capacidade, a importância do RH no setor metroferroviário, expansão e modernização do transporte metroferroviário nas regiões metropolitanas. Além de um painel denominado Construindo a Cidade, que aponta uma oportunidade para realização de parcerias entre Estados, municípios e o setor imobiliário. Também está prevista para o primeiro dia do encontro uma palestra do australiano Jeffrey Kenworthy. Especialista em cidades sustentáveis, ele vai apresentar


AEAMESP/DIVULGAÇÃO

SERVIÇO 15ª Semana de Tecnologia Metroferroviária e Metroferr 2009

painéis de discussão sobre novas tecnologias, políticas de investimento, mobilidade, urbanismo e meio ambiente

Quando: 25 a 28 de agosto Onde: Centro de Convenções Frei Caneca, São Paulo (SP) Mais informações: www.aeamesp.org.br/15semana

SOBRE TRILHOS INOVAÇÕES E TENDÊNCIAS DO SETOR METROFERROVIÁRIO estudos sobre o domínio do transporte e o planejamento urbano, com o uso do solo nas cidades e sua sustentabilidade. “Os assuntos abordados durante esses eventos e as conclusões têm servido de rico subsídio, orientação e guia para o desenvolvimento da área de transporte público e urbano. Isso tem sido bem-aproveitado no trabalho técnico do dia a dia das concessionárias de carga, de passageiros e de indústrias do setor”, diz Francisco Petrini, diretorexecutivo do Simefre (Sindicato Interestadual da Indústria de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários).

Representada no Brasil pela Vibranihil (Comércio e Indústria de Amortecedores de Vibração Ltda), a empresa italiana Salvas Tecno vai expor no evento o sistema “massa-mola” para atenuação de ruídos e vibrações à beira dos trilhos. Sem esses atenuantes, geralmente casas e outras construções instaladas à margem da malha ferroviária costumam apresentar rachaduras. Além disso, pessoas e animais sofrem incômodos com os ruídos estridentes dos trens e metrôs. Instalado sob os trilhos, o sistema “massa-mola” possui uma grande durabilidade, é re-

sistente a variações de temperatura e não é inflamável. “Não se pode dizer que se trata de uma inovação, mas é um produto que tem um grande diferencial com relação aos concorrentes”, diz o diretor-técnico da Vibranihil, Mário Cardoso Pimentel. De acordo com o fabricante, o produto tem sido exposto à prova em ambientes agressivos durante muitos anos, sem apresentar quaisquer alterações em suas características. Durante o evento, representantes da empresa Adelco Sistemas de Energia também vão apresentar uma palestra sobre baterias al-

calinas. Essas baterias são usadas como sistema alternativo de energia para os vagões de metrôs e trens, principalmente, em caso de pane do sistema principal de fornecimento de energia. Nessa situação, elas mantêm, por um razoável prazo, o sistema da composição em funcionamento, o que permite a abertura de portas e janelas e a iluminação interna dos vagões. “Grosso modo, o funcionamento é o mesmo de pilhas vendidas, por exemplo, num supermercado. A alcalina dura bem mais, é mais confiável e menos pesada”, diz o gerente-comercial da Adelco, Alfonso Fiorino Neto. 


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CONGRESSO ABTC

TRANSPORTE E A CRISE EVENTO ACONTECE EM AGOSTO E VAI DISCUTIR OS REFLEXOS E AS ALTERNATIVAS PARA O SETOR POR

setor de cargas brasileiro estará reunido, em agosto, para um dos maiores eventos dedicados a esse segmento. De 18 a 20 de agosto, acontece o 10º Congresso Nacional Intermodal dos Transportadores de Cargas, organizado pela ABTC (Associação Brasileira de Logística e Transporte de Carga), no Hotel Intercontinental Rio, na capital fluminense. Nesta edição, um dos principais pontos de discussão será a crise mundial, como ela afetou o setor e como esse pode encontrar alternativas para superá-la. O presidente da ABTC, Newton Gibson, também vice-presidente da CNT, afirma que a tensão eco-

O

ABALO Newton Gibson,

LETÍCIA SIMÕES

nômica atingiu “fortemente” o transporte de cargas brasileiro, o que justifica o debate. “O segmento, enquanto fator de integração entre os demais setores da economia, assumiu uma posição extremamente desfavorável, sendo alcançado pelos reveses da indústria e responsabilizado pelas perdas de ganhos do comércio e da agricultura. O setor sofreu duplamente nesta crise financeira, que, felizmente, está passando, mas deixa marcas profundas e difíceis de serem esquecidas. Uma delas, a queda de faturamento das empresas, da ordem de 25%. Isso será objeto de apreciação no congresso.” Um dos participantes do pai-

nel dedicado à crise é o economista e consultor Raul Velloso. Ele já esteve presente em outras edições do congresso e, desta vez, dedicará a palestra aos impactos que a crise internacional teve no Brasil, sobretudo para o transporte. Velloso é otimista quanto às oportunidades de superação para a cadeia econômica nacional. “O mundo está vivendo doloroso processo de ajuste à crise do mercado imobiliário norte-americano. Diante de sua forte integração com a economia internacional, o Brasil foi igualmente atingido. Como estamos mais bem preparados que outros emergentes e como a crise não se iniciou aqui, são

maiores as nossas chances de superá-la com menores efeitos dolorosos”, diz Velloso. Especialmente sobre o setor de transportes, Velloso acredita que a eficácia no serviço oferecido pode ser uma alternativa para sair do atual cenário sem grandes impactos. “O setor transportador pode sempre reivindicar medidas de alívio, a exemplo do que têm feito outros setores. No mais, é lutar pelas velhas bandeiras e buscar, ao máximo, o aumento de eficiência nas suas próprias operações.” Outro tema de destaque do 10º Congresso da ABTC será discutido no painel Desempenho Logístico no Transporte Rodoviário de Car-


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ABTC/DIVULGAÇÃO

SERVIÇO 10º Congresso Nacional Intermodal dos Transportadores de Cargas Quando: 18 a 20 de agosto Local: Hotel Intercontinental Rio, no Rio de Janeiro Mais informações e inscrições: www.abtc.org.br

presidentre da ABTC (em pé), diz que uma das consequências da crise é a queda de 25% no faturamento das empresas

gas: Gargalos e Projetos de Integração. Uma das presenças confirmadas é do diretor-geral da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), Bernardo Figueiredo. Ele também participou de edições anteriores do evento, como vicepresidente da ABTC para o setor ferroviário, e conhece os problemas enfrentados quando o assunto é infraestrutura. “Acredito que não temos uma infraestrutura que permita a otimização da cadeia logística. Precisamos de uma articulação adequada entre as modalidades do transporte.” Figueiredo revela que a ANTT tem trabalhado para mitigar os gargalos do setor. “No que se refere à infraestrutura ferroviária, te-

mos uma rediscussão do contrato de concessão das ferrovias. Vamos corrigir falhas que não permitem que a estrutura atual atenda às necessidades de que o país precisa. Neste momento, também estudamos os contratos de concessão rodoviária que não resultam em operações eficientes das rodovias concedidas. Esses investimentos foram ultrapassados pela dinâmica da economia ou não preveem as intervenções necessárias.” O diretorgeral da ANTT diz que há um prazo estipulado para que os dados sejam levantados e as providências iniciadas. “Até a metade do ano que vem teremos os contratos computados.” Gibson destaca que a infraes-

trutura é tema obrigatório no congresso da ABTC. “Discutimos essa questão em todos os eventos tendo em vista seu estado geral de degradação. A malha rodoviária encontra-se com, aproximadamente, 74% de sua extensão em estado de ruínas. A malha ferroviária, que possui uma extensão de 28.500 km, basicamente inexiste, com participação de pequena monta.” Além das discussões e debates, o congresso da ABTC terá outras atrações, como o troféu O Transportador, homenagem oferecida pela ABTC às personalidades que se destacaram em relevantes serviços prestados ao setor, e a Feira Automotiva, realizada paralela-

mente ao congresso, com expositores de grandes empresas e apresentação de novos produtos, serviços e tecnologias. Este ano, a ABTC conta com a colaboração da Fetranscarga (Federação do Transporte de Cargas do Estado do Rio de Janeiro) e da Fenavega (Federação Nacional das Empresas de Navegação Marítima, Fluvial, Lacustre e de Tráfego Portuário). A expectativa é superar os números da última edição, que contou com a participação de mais de mil congressistas. O Congresso da ABTC é aberto à cadeia transportadora, técnicos, estudantes, lideranças e empresários. Para Gibson, o Congresso da ABTC chega à décima edição com a mesma força do primeiro evento. “A ABTC, ciente das necessidades do setor, empenha todos seus esforços para continuar oferecendo aos transportadores brasileiros uma valiosa oportunidade para debater experiências positivas, bem como buscar soluções para os problemas e gargalos do segmento, com a inserção da intermodalidade, de forma a contribuir com o tão almejado crescimento social e econômico do país. Os debates, ao longo das edições realizadas, têm mostrado que os investimentos no setor de transporte constituem o mais importante elo para alcançar o crescimento econômico regional e nacional.” 


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DESPOLUIR

COMO REDUZIR

EMISSÕES DE CARBONO FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL LISTA RECOMENDAÇÕES A SEREM SEGUIDAS PELAS EMPRESAS DE LOGÍSTICA E TRANSPORTES POR LIVIA CEREZOLI

praticamente impossível movimentar toda a cadeia de abastecimento, que compreende desde a produção da matéria-prima até a chegada do produto nas mãos do consumidor, sem causar danos ao meio ambiente. Todo tipo de extração dos recursos naturais é prejudicial ao meio, mas existem formas de reduzir esses impactos e até mesmo de compensar as perdas. Um documento elaborado pela Comunidade de Logística e Transporte do Fórum Econômico Mundial mostra como o setor pode reduzir as emissões de gases luentes ao longo da trajetória

É

produtiva. Intitulado “A Descarbonização da Cadeia de Abastecimento”, o estudo analisa o papel do setor de logística e transportes na redução de emissões em suas operações, influenciando transportadoras e compradores a implementar melhorias mais abrangentes durante o processo de produção, compra e entrega dos materiais. O relatório foi divulgado em janeiro deste ano durante o encontro das maiores lideranças econômicas mundiais, realizado em Davos, na Suíça. O trabalho de pesquisa teve a parceria da Accenture, uma empresa global de consulto-

ria de gestão, serviços de tecnologia e terceirização. De acordo com o levantamento, as atividades de transportes e logística contribuem com 2.800 Mt (megatons, unidade de massa correspondente a 1 milhão de toneladas) de dióxido de carbono ao ano, ou seja, 5% dos 50 mil Mt de gases poluentes emitidos por todas as atividades humanas. No Brasil, dados do Ministério da Ciência e Tecnologia apontam que o setor transportador é responsável por 9% de todo o gás carbônico jogado na atmosfera anualmente. O maior volume de emissões

“O que falta no Brasil é pensar, projetar e implantar uma infraestrutura multimodal” ADALBERTO PANZAN, PRESIDENTE DA ASLOG


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MARCELLO LOBO/ARQUIVO AC&S MÍDIA

(75%) é referente ao manuseio de terras e florestas. O setor industrial responde por 7% da emissão. Com base nas recomendações do documento, cinco ações têm maior potencial de redução do chamado gás de efeito estufa. A utilização de fontes de abastecimento com baixa produção de carbono, como os combustíveis não fósseis, pode apresentar queda de 150 Mt a 320 Mt, e o uso de tecnologias de veículos limpos deixa de emitir 175 Mt por ano. Outras ações citadas são a redução da velocidade da cadeia de abastecimento

(menos 171 Mt), utilização de novas formas de embalagens (132 Mt) e redes otimizadas (124 Mt), como a integração dos modais rodoviário, aquaviário e ferroviário no transporte de produtos e matériaprima. Todas essas iniciativas representam 60% dos 1.440 Mt do total de CO2 a serem reduzidos no mundo ao ano. Algumas dessas medidas já foram adotadas e colocadas em prática pelo Despoluir - Programa Ambiental do Transporte, implantado pelo Sistema CNT, em 2007, com o objetivo de promover o engajamento de empresários, trabalhadores em transpor-

te e sociedade em geral na construção de um desenvolvimento sustentável. O principal projeto executado pelo programa é o de Redução da Emissão de Poluentes pelos Veículos, com a aferição da fumaça liberada por ônibus e caminhões. Já foram aferidos mais de 150 mil veículos a diesel com a participação de 3.000 empresas e quase 3.200 caminhoneiros autônomos. O Despoluir também apoia outros projetos, como o desenvolvimento de novos combustíveis e de novas tecnologias limpas e ações voltadas para o aprimoramento da gestão ambiental nas empresas, garagens

e terminais de transporte, transformando o cuidado com o meio ambiente e a responsabilidade socioambiental em estratégias das empresas do setor. Para Marilei Menezes, coordenadora do programa, o tema carbono começa, aos poucos, a fazer parte das discussões do setor transportador. “O assunto é novo, mas toda a cadeia produtiva está cada vez mais consciente da necessidade de mudança para reduzir o ritmo dos impactos ambientais. Só assim vamos sofrer menos os efeitos das mudanças climáticas, já que a situação do aquecimento global é irreversível”, diz. De acordo com ela, para que o plano de descarbonização seja colocado em prática de forma eficiente, ainda há algumas barreiras a serem derrubadas. O relatório cita a necessidade de intervenções substanciais de reguladores internacionais, governos e autoridades para apoiar as reduções de emissões necessárias no setor, afirmando que os formadores de políticas têm um papel essencial em descarbonizar as cadeias de abastecimento. De acordo com Luis Antonio Lindau, diretor-presidente da CTS-Brasil (Centro de Transporte Sustentável), a conscientização ambiental talvez seja o maior


O CAMINHO DA DESCARBONIZAÇÃO Confira algumas medidas para reduzir o índice de poluição



PROVEDORES DE TRANSPORTES E LOGÍSTICA

1 Acelerar a adoção em grande escala de novos combustíveis, tecnologias e processos associados aos veículos limpos 2 Buscar esforços de integração otimizada por meio de redes múltiplas 3 Facilitar a colaboração entre transportadores diversos para um carregamento compartilhado 4 Usar tecnologias na construção de prédios verdes 5 Estabelecer orçamentos para sustentabilidade e engajar os funcionários em programas dentro da organização 6 Realizar reciclagem e tratamento de resíduos 7 Desenvolver novo sistema de entrega ao consumidor, independente do local onde ele estiver. O trabalho deve ser realizado em colaboração com os clientes 8 Trabalhar na compensação de carbono emitido



TRANSPORTADORES E COMPRADORES

1 Pensar em novos designs do produto e da embalagem gerando economia e reduzindo emissões 2 Utilizar fontes de baixa emissão de carbono 3 Incentivar o carregador, construindo indicadores de performance no processo de contratação, particularmente em torno das emissões de carbono 4 Apoiar uma maior compreensão da emissão de carbono e sua rotulagem 5 Trabalhar com os consumidores para fazer reciclagem mais fácil e mais eficiente 6 Trabalhar no desenvolvimento de tecnologias e técnicas para ajudar a sincronizar as cadeias de abastecimento * Em negrito: ações já adotadas pelo Programa Despoluir Fontes: Relatório “A Descarbonização da Cadeia de Abastecimento”/Despoluir

“Precisamos pensar em não apenas substituir o caminhão, mas no que fazer com o antigo” NEWTON GIBSON, VICE-PRESIDENTE DA CNT

desafio a ser superado pela sociedade brasileira, que ainda define suas ações de compra pelo preço e não pelos benefícios ambientais gerados pelo produto. “Quem no Brasil compraria um veículo com aparência externa igual ao do vizinho, porém dotado de uma motorização mais eficiente em termos de emissões de carbono e custando 20% a mais?”, diz. Por outro lado, acredita-se que a consciência ambiental pode passar a definir os rumos econômicos da atualidade. Para

CRÍTICA A falta da integração entre os modais precisa ser superada

o diretor-presidente da CTS-Brasil, dentro de um curto período, a competitividade de um país diante dos demais passará a ser medida pela postura que o seu setor produtivo assume frente a questões de ordem de sobrevivência do nosso planeta. “Os produtos brasileiros serão tão mais competitivos no mercado internacional quanto menor for a marca ecológica deixada por suas cadeias produtivas e menos poluidor for o nosso setor transportador”, diz Lindau. Embora o conteúdo do relató-

rio mencione a experiência dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, composta por 30 países, em sua maioria do hemisfério Norte), um bloco de nações altamente industrializadas, com características demográficas, sociais, estruturais e econômicas diferentes das brasileiras, a discussão é pertinente nos países em desenvolvimento. “Creio que temos a responsabilidade de, primeiramente, compreender as informações que são veiculadas, a começar por


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MRS/DIVULGAÇÃO

A REDUÇÃO EM NÚMEROS

suas motivações, passando pelos contextos socioeconômicos em que elas são geradas e chegando aos interesses despertados em sua aplicação. A discussão do tema tem, sim, que acontecer no Brasil”, afirma Adalberto Panzan, presidente da Aslog (Associação Brasileira de Logística). A idade elevada da frota e a dificuldade da integração entre os modais ainda são pontos a serem superados para tornar a descarbonização do setor possível. Panzan levanta o principal problema existente quando se

* Megatons, unidade de massa equivalente a 1 milhão de toneladas Fonte: Relatório “A Descarbonização da Cadeia de Abastecimento”

que circulam pelo país têm mais de 20 anos. Ele afirma que cada veículo desses polui o equivalente a dez dos modelos novos que respeitam as regras da Euro3 (norma europeia que define as emissões para veículos pesados a diesel e tem equivalência aqui no Brasil à P5, de acordo com a resolução 315/02 do Conselho Nacional do Meio Ambiente). Reis ressalta as dificuldades enfrentadas pelas empresas transportadoras e, principalmente, pelos autônomos para a renovação da frota. “O valor de mercado desses caminhões antigos ainda é alto (cerca de R$ 30 mil). Os baixos ganhos com o frete impedem o caminhoneiro de efetuar a troca”, diz. O coordenador técnico da NTC defende a criação de um programa de governo que bonifique o transportador autônomo na hora de reciclar seu veículo. Newton Gibson, vice-presidente da CNT e presidente da

ABTC (Associação Brasileira de Logística e Transporte de Carga) também é a favor da criação de incentivos para a substituição da frota. De acordo com ele, que também é presidente da Fetracan (Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Nordeste), pelo menos 70% dos caminhões existentes hoje estão nas mãos dos autônomos, e o custo operacional do transporte impede que os mesmos abandonem o veículo antigo para adquirir um novo. “Além disso, precisamos pensar em não apenas substituir o caminhão, mas no que fazer com o antigo. Virar sucata é ainda mais danoso”, diz. 



para tornar possível a descarbonização

fala no uso de outros modais em conjunto com o rodoviário. “Aqui, tem-se uma sugestão de atacar a consequência e não a causa. O que falta no Brasil é pensar, projetar e implantar uma infraestrutura multimodal. Os veículos, de caminhões e trens a navios e aviões, já existem. Pecamos pela inexistência de um viário projetado para a intermodalidade.” Segundo o presidente da Aslog, é insuficiente o setor de transportes sentar-se à mesa sozinho com o governo e não trazer junto o seu maior aliado, o cliente. Panzan acredita na necessidade de se avaliar que quem contrata o modal quer um serviço de qualidade por um custo adequado, ou seja, enquanto for mais competitiva a utilização de um modal dentro do contexto daquele mercado particular, não haverá migração intermodal simplesmente porque as emissões podem ser reduzidas ou porque o modelo brasileiro é diferente daqueles usados comumente nas comparações internacionais. Além disso, um dos maiores problemas enfrentados pelo setor transportador no combate à poluição é a idade atual da frota. Segundo Neuto Gonçalves dos Reis, coordenador técnico da NTC&Logística (Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística), 44% dos caminhões

Ação Volume de redução (em Mt*) Fontes de abastecimento com baixa produção de carbono Entre 150 e 320 Tecnologias de veículos limpos 175 Redução da velocidade da cadeia de abastecimento 171 Iniciativas para redesenhar embalagens 132 Redes otimizadas 124

A íntegra do relatório “A Descarbonização da Cadeia de Abastecimento”, em inglês, pode ser acessada no site do Despoluir: www.cntdespoluir.org.br


REPORTAGEM DE CAPA

UNIテグ PE

TRANSPORTADORAS BRASILEIRAS ADOTAM MEDID CLIENTES E CONTABILIZAM LUCROS FINANC


ISTCKPHOTO

LO VERDE

AS AMBIENTAIS, CONQUISTAM A CONFIANÇA DOS EIROS. VEJA EXEMPLOS A SEREM SEGUIDOS


“Nos dias de hoje, as empresas têm papel preponderante na cons GESIELLE MIRANDA, COORDENADORA DO SISTEMA DE GESTÃO INTEGRADA DA TRANSILVA

VIX LOGÍSTICA/DIVULGAÇÃO

POR

LIVIA CEREZOLI

capitalismo exagerado e a regra do lucro a qualquer custo estão com os dias contados. Em época de escassez de recursos naturais, cada vez mais empresas investem em ações ambientais. É bom para o planeta, é bom para o marketing e, na maioria dos casos, é retorno garantido em dinheiro no final do mês. No setor transportador, diversas empresas já se atentaram para a necessidade de mudança e assumiram posturas ecologicamente corretas. As ações vão desde o reaproveitamento do papel do escritório até preocupações com as emissões de CO2 (dióxido de carbono) geradas em suas atividades. Algumas dessas são obrigações previstas em lei, como o recolhimento de óleos lubrificantes (resolução Conama 362/05), a coleta e descarte correto de pneus (258/99) e de baterias (401/08). Outras, porém, são iniciativas próprias de transportadoras que vêm somando lucros e colecionando prêmios. A superintendente de relações corporativas e marketing da WWF Brasil (ONG ligada à questão ambiental em todo o

O

DIA VERDE Vix Logística estimula funcionários a participarem de ações ambientais

mundo), Heloisa Helena de Oliveira, afirma que antes de fazer campanhas de reciclagem vale um olhar direcionado para dentro da empresa. “É preciso conhecer o negócio e avaliar os impactos que ele causa ao meio ambiente dentro de toda a cadeia produtiva, desde os fornecedores até os clientes”, diz. Diante disso, Heloisa ressalta que é possível direcionar as ações em duas frentes: a de redução da “pegada ecológica” (impactos ambientais causados ao meio ambiente) e a de compensação de danos. De acordo com ela, o uso do recurso natural de forma exaustiva gera um

custo e alguém precisa pagar essa conta. Nada mais justo que seja o próprio causador do prejuízo. E foi exatamente essa a postura adotada por seis empresas de transporte rodoviário de cargas e passageiros ouvidas pela CNT Transporte Atual. Na linha da redução dos impactos, as companhias adotaram medidas como manutenção preventiva dos veículos, evitando altas emissões de CO2, filtragem da água usada na lavagem de caminhões, ônibus e garagens, impedindo a contaminação dos rios com os resíduos de óleos lubrificantes, descarte correto de baterias e pneus e a

utilização de biodiesel no abastecimento da frota. Entre as iniciativas para compensar os problemas causados ao meio ambiente estão a coleta seletiva, a captação de água da chuva e o reuso da mesma para lavagem de veículos, o plantio de árvores e programas de educação ambiental que envolvem toda a comunidade em que a empresa está inserida. Na Vix Logística, empresa que atua no mercado desde 1970 e tem cem bases entre Brasil e Argentina, o programa de reciclagem de baterias garante economia de até R$ 70 na com-


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cientização de seus colaboradores e da sociedade como um todo”

VANTAGENS

Ações “verdes” impactam na imagem da empresa Consultores de mercado são unânimes em afirmar que adotar medidas ecologicamente corretas pode ser o diferencial para uma empresa no mercado atual. No entanto, a falta de conscientização ainda é uma grande barreira para o desenvolvimento desse conceito no Brasil. Rosângela Bacima, consultora da Associação ECR Brasil, afirma que, de forma geral, a empresa que aposta em soluções verdes é vista com mais credibilidade e respeito pelos clientes e até mesmo pelas suas concorrentes. Mas ainda falta capacidade para que a avaliação do consumi-

dor sobre as ações adotadas pela empresa seja feita com profundidade. “Infelizmente, a opção de compra ainda não recai exclusivamente sobre a empresa ecologicamente correta. O preço fala mais alto.” A consultora acredita que trabalhar a imagem é necessário, já que o impacto negativo causado por ações ambientalmente incorretas é muito maior do que o impacto positivo causado pelas iniciativas corretas. A solução para minimizar esse problema é apresentada pelo diretor-executivo do Prac (Programa de Responsabilidade Ambiental Com-

partilhada), André Saraiva. Para ele, a melhor forma para vencer o grande desafio de despertar no consumidor a atenção para as ações verdes é usar instrumentos de divulgação. “Você precisa provar para o consumidor que dentro do valor cobrado pelo seu produto estão embutidos investimentos em meio ambiente também”, diz. O Prac, desde 2007, tornou-se uma empresa que trabalha com a gestão de baterias usadas. Foi criado em 2000, juntamente com a publicação de uma resolução do Conama que definiu procedimentos para

o descarte desse material no final da vida útil. Saraiva ressalta que, no exterior, a imagem das empresas ambientalmente corretas tem muito mais valor, e as medidas adotadas são condições implícitas para a manutenção das mesmas na competição do mercado. “Aqui no Brasil, falta entender que as empresas verdes funcionam como amortecedores de gastos do governo. Quando elas emitem menos, deixam de causar problemas à saúde e danos ao ambiente e, consequentemente, o governo tem menos despesas.”

EMPRESA VITÓRIA/DIVULGAÇÃO

ILHAS ECOLÓGICAS Empresa Vitória doa lixeiras para a separação do lixo reciclável em escolas

pra dos produtos novos. “Quando trocamos a bateria antiga pela nova, conseguimos descontos significativos e evitamos descarte errado do material”, diz Giovana Bissoli, supervisora de qualidade do meio ambiente da transportadora. A empresa possui frota de 391 ônibus e 2.250 caminhões e equipamento florestal abastecidos com biodiesel e 3.553 veículos leves para aluguel. As estratégias verdes adotadas pela Vix também englobam ações de conscientização dos funcionários realizadas por programas como o Carona Amiga, que incentiva os colaboradores


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PLANALTO TRANSPORTES/DIVULGAÇÃO

ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

União oferece programa ambiental

ECONOMIA Planalto adota equipamento de refrigeração de motor

a darem carona para os colegas de trabalho, e o Dia Verde, quando toda a comunidade da empresa participa de uma ação de limpeza, reflorestamento de determinada área ou aulas de educação ambiental nas escolas das cidades-sedes. Segundo Giovana, os programas de reaproveitamento de materiais, ao mesmo tempo em que contribuem para a redução dos impactos ambientais, garantem lucro no final do mês. Desde 2005, a coleta seletiva trouxe redução de 30% do lixo gerado pelas atividades da empresa e o reaproveitamento do papel chegou a 87% em algumas unidades. Na base de Guaíba (RS), o sistema de captação

de água de chuva garante abastecimento em quase 100%. Todos esses trabalhos garantiram à transportadora a certificação ISO 14.001 em 2007. Experiências semelhantes são vividas por outras empresas. Há dois anos, o processo de reutilização de água da Expresso Guanabara permite o uso a custo zero de 36 mil litros por dia, segundo informações do gerente de patrimônio e manutenção predial, Laércio Rolim. A empresa trabalha desde 1992 com o transporte rodoviário de passageiros nas regiões Norte, Nordeste e CentroOeste. A idade média da frota é de 1 ano e 7 meses. Na Empresa Vitória, que há

Na esfera pública, um programa do Ministério do Meio Ambiente também visa levar a ideia do verde aos órgãos federais, estaduais e municipais. A A3P (Agenda Ambiental na Administração Pública), criada em 1999, trabalha em cinco áreas de atuação: gestão de resíduos (destino correto para o lixo, reciclagem de papel, coleta de pilhas e baterias), licitações sustentáveis, uso racional de resíduos naturais, sensibilização e capacitação dos funcionários e qualidade de vida no trabalho. “Procuramos desenvolver projetos que tenham a preservação ambiental como foco principal. No caso das licitações, por exemplo, nem sempre a aquisição de um produto mais barato é mais viável. Procuramos ensinar isso aos funcionários públicos. É necessário analisar o custobenefício de toda compra”, diz Luiz Augusto Vitali, analista ambiental da A3P. Qualquer instituição pública pode aderir ao programa. O contrato de trabalho tem validade por dois anos, podendo ser prorrogado pelo mesmo período. Até o início de junho, 65 parcerias estavam formalizadas e outras 16 aguardavam assinatura. No termo de adesão, estão estabelecidas metas a serem cumpridas durante a execução do trabalho para minimizar os impactos ambientais negativos gerados durante a jornada de trabalho. Na sede do ministério, em Brasília, estão sendo adotadas soluções práticas para reduzir o consumo de energia elétrica e a água. Foram instalados espelhos próximos às lâmpadas para refletir a luz e, assim, reduzir a quantidade de energia consumida a cada mês. Além disso, desde o início deste ano, um sistema de captação da água da chuva garante o abastecimento dos vasos sanitários nos banheiros do prédio. “Esse projeto é novo e ainda não temos o balanço exato da economia de água, mas com certeza o número vai ser considerável”, diz Vitali.


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PATRUS/DIVULGAÇÃO

CAMPANHAS Patrus desenvolve iniciativas de conscientização ambiental

52 anos trabalha com o transporte urbano de passageiros na região metropolitana de Fortaleza (CE), o consumo de água foi reduzido em 30% depois da instalação do mesmo sistema, afirma Maria das Graças Bezerra Moreira, gerente de desenvolvimento humano da companhia. Em parceria com a comunidade, a Vitória coloca em prática outras ações ambientalmente corretas e assim ganha respeito e confiança dos clientes. Em 2008, 8.000 kg de pneus foram utilizados na construção de hortas medicinais ou enviados para queima em cimenteiras. De acordo com Maria das Graças, a empresa também passou a doar ilhas ecológicas com lixeiras

próprias para a separação do lixo reciclável para escolas da cidade. “As ilhas já existem na nossa sede, na área do projeto social que desenvolvemos, e agora, com a colaboração das escolas, estamos ampliando esse serviço”, diz. A transportadora, que tem 195 ônibus, também conquistou o prêmio Melhoria da Qualidade do Ar da Cepimar (Federação das Empresas de Transportes Rodoviários dos Estados do Ceará, Piauí e Maranhão) em todos os anos da sua edição, desde 2002. Transportadora certificada pela ISO 14.001, a Transilva, com sede em Cariacica (ES), também foi premiada pelos baixos índices de poluição emitidos pelos

“Procuramos desenvolver projetos que tenham a preservação ambiental como foco principal” LUIZ AUGUSTO VITALI, ANALISTA AMBIENTAL DA A3P

seus 384 veículos com idade média de três anos. O Qualiar (Qualidade do Ar e Eficiência Energética) vai ser entregue em agosto pela Fetransportes (Federação das Empresas de Transportes do Estado do Espírito Santo). A aferição da fumaça expelida pelos veículos de todas as empresas é realizada pelo Despoluir - Programa Ambiental do Transporte, lançado em 2007 pelo Sistema CNT. Com auxílio de opacímetros, técnicos avaliam se caminhões e ônibus mantêm o nível de emissão previsto em lei. A conscientização dos funcionários é mais um passo importante dado pela Transilva. Nos primeiros quatro meses do ano passado, houve queda de 18% no consumo de energia elétrica em relação ao mesmo período de 2007, segundo Gesielle Miranda, coordenadora do sistema de gestão integrada da companhia. “Nos dias de hoje, as empresas têm papel preponderante na conscientização de seus colaboradores e da sociedade como um todo quando a questão se refere ao meio ambiente. Dessa forma, os clientes também apoiam as empresas que possuem boas práticas na gestão ambiental”, afirma. Para Heloisa Helena, da WWF Brasil, a empresa “verde” passa a percepção de um determinado grau de preparo e sofisticação


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QUALIFICAÇÃO

Empresas buscam certificação As certificações ISO (Organização Internacional de Normatização na sigla em inglês, organismo que engloba uma rede de institutos de 157 países, com sede na Suíça) têm como objetivo estabelecer normas técnicas no âmbito internacional que garantem maior credibilidade aos produtos e serviços de uma determinada empresa. A ISO 14.001 define os requisitos para estabelecer e operar um sistema de gestão ambiental. A norma reconhece que organizações podem estar preocupadas tanto com a sua lucratividade como com a gestão de impactos ambientais. No Brasil, o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial) é o órgão gestor da acreditação das empresas que fornecem a tradução das normas internacionais e prestam serviços de certificação. A ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) é uma das empresas acreditadas para esse serviço. De acordo com Guy Ladvocat, gerente de certificação de sistemas da associação, cada norma estabelece suas exigências, mas o modo como isso vai ser colocado em prática cabe a cada uma das em-

presas. “Nós verificamos se as ações estão cumprindo as exigências para depois emitir a certificação.” O processo dura em média de 30 a 45 dias e tem um custo mínimo de R$ 10 mil para um período de três anos. Anualmente é realizada uma auditoria na empresa para a verificação das condições e a manutenção das exigências estabelecidas na regra. Constavam no site do Inmetro até o dia 22 de junho 543 empresas certificadas de acordo com as suas ações ambientais, 56 na área de transporte, armazenagem e telecomunicações. Segundo Ladvocat, a empresa que se preocupa com o meio ambiente e torna isso público por meio da certificação tende a ganhar destaque no mercado, além de outros benefícios. “A implantação da gestão ambiental traz economia, melhora nas condições de trabalho e visibilidade para a imagem da empresa”, diz. Outras certificações também garantem mais credibilidade, como a ISO 9.001, que atesta sobre a qualidade dos serviços, a ISO 27.001, sobre segurança da informação, e a ISO 16.001, sobre responsabilidade social.

EXEMPLO Transilva foi premiada pelos baixos índices de

para atuar no mercado, carregando com ela competências nas áreas de segurança, honestidade para com os funcionários e cobrança justa pelo serviço prestado. “Isso garante lucro mesmo que o consumidor ainda não esteja tão preparado para definir suas escolhas apenas pela questão ambiental”, diz. E foi a exigência dos clientes que fez com que a Patrus Transporte ampliasse as suas ações ambientais. Com sede em Belo Horizonte (MG) e filiais em outras 56 cidades das regiões Sul e Sudeste e Estados da Bahia e do Sergipe, a transportadora conseguiu reduzir as emissões de CO2 dos seus 381 caminhões próprios. “Quando começamos a fazer a medição da fumaça há nove anos, tínhamos muitos

problemas. Este ano, na aferição do Despoluir, apenas um veículo estava fora dos padrões. Nosso objetivo agora é fazer com que todos os nossos agregados (550 caminhões) também passem pela inspeção”, diz Júlio Delfim, gerente de manutenção da empresa. O descarte correto do óleo usado nos caminhões é outra preocupação da Patrus. A cada duas semanas são recolhidos 600 litros na oficina própria que a empresa mantém. Segundo Delfim, o material é vendido para uma indústria que cuida do rerrefino do produto antes que ele volte a ser usado, e a renda obtida (R$ 45) é transferida para os dois funcionários responsáveis pela troca de óleo dos caminhões.


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TRANSILVA/DIVULGAÇÃO

MANUAL DA EMPRESA VERDE 

PASSO A PASSO

1. Conhecer profundamente o negócio e avaliar os impactos que são gerados por ele no meio ambiente. É importante avaliar toda a cadeia produtiva, desde fornecedores até clientes 2. Reduzir a “pegada ecológica” (rastro deixado pelas operações). Trabalhar para que o impacto causado seja menor 3. Compensar a “pegada ecológica”. Como praticamente é impossível consumir sem gerar danos ao meio ambiente, o ideal é compensar o estrago



PARA REDUZIR OS IMPACTOS

• Manter o veículo sempre regulado e com a manutenção em dia • Realizar aferições das emissões veiculares, que podem ser feitas pelo Despoluir • Trocar os combustíveis fósseis (gasolina e diesel) por biocombustíveis (etanol ou biodiesel, por exemplo) • Enviar pneus para reciclagem

• Participar de ações de rerrefino de óleos lubrificantes • Fazer filtragem da água antes do descarte total • Dar destinação correta às baterias • Utilizar concreto no piso dos pátios de abastecimento para evitar a contaminação do solo



PARA COMPENSAR OS IMPACTOS

• Utilizar água da chuva e promover o reuso da água para lavagem dos veículos, garagens e armazéns de estocagem • Economizar papel. Evitar a impressão de documentos desnecessários e usar o verso das folhas para rascunho • Economizar energia elétrica, incentivando a abertura de janelas e a redução do uso do ar-condicionado. Se possível, dar preferência para as energias solares ou eólicas • Promover a coleta seletiva na empresa • Plantar árvores para compensar o CO2 emitido na atividade de transporte • Conscientizar clientes, no caso do transporte de passageiros, durante a viagem Fontes: WWF Brasil/Despoluir/consultores

poluição emitidos pelos seus veículos

A empresa ainda investe mensalmente R$ 500 para incinerar os resíduos de graxa e areia coletados na lavagem dos veículos e desenvolve campanhas de reciclagem de materiais como papel, metal, plástico, vidro e madeira dentro de suas unidades. Uma campanha iniciada em junho prevê a redução no consumo de copos plásticos. A transportadora criou canecas personalizadas que serão vendidas para os seus funcionários e o dinheiro arrecadado será convertido em novas campanhas ambientais. Do sul do país, a experiência vem da Planalto Transportes. Jean de Dieu Minsongui Mveh, gerente do departamento técnico da empresa, revela que quando as ações tiveram início há cin-

“É preciso conhecer o negócio e avaliar os impactos em toda a cadeia produtiva”

HELOISA HELENA DE OLIVEIRA, SUPERINTENDENTE DE MARKETING DA WWF BRASIL

co anos, houve certa resistência dos funcionários em separar corretamente os materiais para a reciclagem. “Hoje, tudo isso já está incorporado ao trabalho deles. Treinamos nossos novos funcionários para essas práticas. Aliás, no processo de contratação, já buscamos colaboradores que tenham esse perfil”, diz. Um sistema de premiação garante a integração de todo o quadro funcional. Mensalmente são avaliados produtividade, segurança e cuidados ambientais nas operações. A recompensa pode chegar a até 20% de um salário mínimo (R$ 93). A empresa também instalou um sistema de reaproveitamento dos gases usados na refrigeração dos ônibus. De acordo com Mveh, durante a manuten-

ção dos aparelhos, os gases ficam retidos em um recipiente próprio e depois são novamente colocados nos sistema de arcondicionado dos veículos. “Temos uma economia de R$ 400 em cada operação e evitamos a eliminação desses gases poluentes na atmosfera”, conta ele. A Planalto ainda conseguiu reduzir o consumo mensal de água de 7.000 m3 para 1.000 m3 com a captação da chuva e o reaproveitamento na lavagem de veículos, ter descontos de 10% na troca de baterias novas pelas usadas e de 3% na devolução das embalagens vazias de óleos, além de arrecadar fundos com a venda de alumínio, pneus, tecidos usados nas poltronas, plásticos e  papéis dos escritórios.


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FOTOS UCT/DIVULGAÇÃO

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EDUCAÇÃO

POR

LETÍCIA SIMÕES

ma universidade com características próprias, fruto de objetivos comuns, com uma metodologia exclusivamente voltada para a melhora dos serviços prestados pelas empresas de transporte de passageiros do Rio de Janeiro. Essa é a UCT (Universidade Corporativa do Transporte), projeto implantado pela Fetranspor (Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro) que completará um ano de atividades em agosto. Os dez sindicatos filiados à Fetranspor, que congregam 232 empresas do transporte de passageiros, são parceiros da UCT. O presidente da Fetranspor, Lélis Marcos Teixeira, afirma que a metodologia da universidade é definida por meio de uma ação unificada entre esses parceiros. “A UCT foi concebida para servir ao conjunto de organizações do setor. É em parceria com os sindicatos e empresas do setor de transportes que são

U

definidas as estratégias educacionais da UCT.” A universidade, segundo Teixeira, conta com um conselho consultivo, que define as prioridades. “Esse conselho conta com minha participação direta na condução dos trabalhos. Assim, com os sindicatos, que também representam as empresas de ônibus, e representantes das principais universidades do Estado, são construídas as principais linhas de trabalho.” A pedagoga Ana Rosa Bonilauri coordena os projetos educacionais da UCT e está à frente dos trabalhos desde a sua implantação. O projeto da UCT, de acordo com Ana, foi desenvolvido pelos representantes do setor transportador do Rio de Janeiro, sob orientação da Fundação Getúlio Vargas. “Em junho de 2008 foi definida a programação de atividades para o lançamento da Universidade Corporativa. Até então, o que se tinha era o projeto com toda a filosofia, princípios, modelos para gerenciamento e linhas de desenvolvimento, entre outras especificações. O que fizemos

PROJET UNIVERSIDADE CORPORATIVA DO TRANS foi definir as ações práticas que dariam visibilidade à universidade.” As ações educacionais da UCT contam com o apoio do sistema Sest/Senat. “As nossas tarefas são complementares e sinérgicas, uma vez que o Sest/Senat desenvolve uma ação educacional de qualificação profissional e a UCT complementa esse trabalho”, diz Ana. Neste momento, es-

tão sendo realizados programas de especialização (MBA) em gestão de pessoas e logística, os cursos Como Lidar com o Cliente em Situação de Conflitos, Media Training para Executivos e Planejamento Estratégico para Empresários. “Em breve”, conta a diretora, “em parceria com o Coppe (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia) da UFRJ


A UCT TEM

232 EMPRESAS PARCEIRAS

O INOVADOR PORTE, INICIATIVA DA FETRANSPOR, MOSTRA RESULTADOS (Universidade Federal do Rio de Janeiro), vamos oferecer o programa de especialização em gestão empresarial de transporte de passageiros.” Martius Vicente Rodriguez y Rodriguez, professor adjunto da UFF (Universidade Federal Fluminense), é membro do Conselho Educacional da UCT. Ele atuou como gerente de desenvolvimento de executivos da Universidade Corpora-

tiva da Petrobras e agregou essa experiência à equipe da UCT. Para Rodriguez, o que diferencia a UCT é seu papel de qualificar e oferecer ao público profissionais mais bem preparados. “As pessoas são o diferencial, hoje, de qualquer setor, e a UCT tem um papel fundamental de criar uma cultura de serviço cada vez mais forte na área de transporte. Isso é mais rapidamente im-

plementado via educação.” Flávia João Flamínio, diretora-geral da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) do Rio de Janeiro, leciona na UCT para o curso Extensão e Gestão Estratégica em Marketing. “A UCT convidou a ESPM para a realização de um curso com o intuito de transmitir aos participantes conhecimentos fundamentais de marketing que in-

cluísse uma abordagem operacional”, conta Flávia. Os alunos foram selecionados pela ESPM, que aplicou um questionário e avaliou a formação, experiência profissional e o tipo de interesse do profissional pelo programa. Flávia acredita que a iniciativa da Fetranspor vai além de uma simples reciclagem profissional. “O objetivo maior é oferecer educação aos participantes, promovendo uma real transformação para eles. A UCT oferece a inovação por meio da educação, em um setor que passa por diferentes necessidades, que sofreu transformações tecnológicas, mas é ainda carente no desenvolvimento das pessoas.” O gerente de planejamento, Arthur César Amaral Pinto, concluiu o curso Como Lidar com Clientes em Situação de Conflito em maio deste ano. Ele foi selecionado pelo departamento de recursos humanos da empresa em que trabalha. “Achei o curso muito interessante, pois utiliza técnicas de fácil entendimento e que estimulam a absorção do conteúdo, já que falam a nos-


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CURSO Aula inaugural de marketing e transporte na UCT

”A UCT foi concebida para servir ao conjunto de organições do setor” LÉLIS MARCOS TEIXEIRA, PRESIDENTE DA FETRANSPOR

sa linguagem e a do sistema.” Antes, ele havia feito o curso Princípios de Pesquisa Operacional e Modelagem em Transportes. Outros profissionais que atuam na mesma empresa de Amaral Pinto também se interessaram pela UCT. “O curso despertou interesse não só de colegas de trabalho, como forma de enriquecimento profissional, como também da diretoria, que acredita ser de grande valia para o dia a dia dos colaboradores.” Para ele, a UCT já possui uma identidade entre os profissionais do setor transportador fluminense. “Ficou claro que a UCT está focada em aprimorar e

melhorar a qualidade dos serviços prestados pelas empresas de transportes de passageiros do Estado. Estou mais motivado e menos resistente às mudanças impostas. Além disso, considero-me mais preparado para solucionar eventuais dificuldades que venham surgir no trabalho.” De acordo com Ana Bonilauri, as inscrições aos cursos são realizadas por meio do site da UCT, “por iniciativa do próprio empregado ou por sugestão da empresa.” Para que a inscrição seja efetivada, é necessário utilizar um código fornecido pelo gerente de recursos humanos das empresas filiadas. “Assim, temos um

acolhimento institucional dessa inscrição.” A sede da UCT está em construção. A universidade funcionará no mesmo endereço da Fetranspor. Atualmente, as aulas presenciais são realizadas em locais negociados com as empresas, sindicatos, parceiros e com o Sest/Senat. “A sede será um espaço com todas as características de um centro educacional moderno, flexível e muito agradável para acolher os empregados”, diz Ana. Segundo Lélis Teixeira, o investimento para a construção da sede é de, aproximadamente, R$ 1,5 milhão. O presidente da Fetranspor afirma que a impressão da UCT, entre empresas e colaboradores, não poderia ser mais positiva. “A avaliação entre os profissionais do setor de transporte por ônibus do Estado e das empresas é a melhor possível. Há também uma boa receptividade entre o meio acadêmico, setores governamentais e da sociedade em geral.” 



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Para informações sobre os cursos oferecidos pela UCT acesse www.uct-fetranspor.com.br


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OFICINA

PROJETO

SEM CONSENSO PROPOSTA SOBRE PROGRAMAS DE INSPEÇÃO VEICULAR LEVANTA DISCUSSÃO SOBRE RENOVAÇÃO DA FROTA POR SUELI

abertura à discussão pública da proposta de regulamentação dos programas de inspeção veicular no Brasil mostrou que empresários, agentes públicos e especialistas estão divididos em relação ao tempo necessário e às condições para a implantação desses programas, 12 anos após a entrada em vigor da lei que instituiu o CTB (Código de Trânsito Brasileiro). A falta de consenso ficou clara em evento realizado em junho na sede da CNT, quando representantes do se-

A

MONTENEGRO

tor reforçaram o apelo pelo aprofundamento dos debates e reivindicaram o alinhamento do tema a uma política oficial de renovação de frota. A proposta de regulamentação dos Programas de Inspeção e Manutenção dos Veículos em Uso, elaborada pelo Ministério do Meio Ambiente, foi apresentada durante oficina sobre o programa de inspeção, realizada por iniciativa do próprio ministério. O encontro teve apoio da CNT e da CTCQA (Câmara Técnica de Controle e Qualidade Ambiental) do Conama (Conselho Na-

cional do Meio Ambiente) “Temos uma frota com idade média de 23 anos para o caminhoneiro autônomo e de aproximadamente 11 anos para as empresas de transporte. Se nós não discutirmos, aliada a uma norma como essa, uma política de renovação de frota com sucateamento dessa frota, não vamos resolver o problema ambiental”, ponderou, durante o evento, o presidente da Seção de Transporte de Cargas da CNT, Flávio Benatti. Além do dirigente da CNT, participaram da oficina autoridades e

técnicos do ministério, empresários, integrantes da Câmara Técnica do Conama, secretários de Meio Ambiente, parlamentares e representantes do meio acadêmico e de órgãos ambientais de Estados e municípios. A proposta final de resolução será consolidada pela CTCQA, com base nas conclusões de um grupo de trabalho criado pela Câmara Técnica no início de julho para elaborar nova versão do texto. Esse grupo será formado por representantes dos governos federal, estadual e municipal,


JÚLIO FERNADES/ASCOM/CNT

entidades ambientalistas e técnicos da CNT e da CNI (Confederação Nacional da Indústria), que terão 60 dias para apresentar a nova proposta. Caso aprovada, ela será submetida ao Conama. O documento atual estabelece prazo de 12 meses, a partir da publicação da resolução, para que os órgãos ambientais criem os respectivos programas de inspeção e manutenção, conforme previsto na Lei nº 9.503, de 1997, que instituiu o CTB. “Não vejo problema maior em se aprovar, visto que a resolução trata

exclusivamente de questões técnicas”, argumenta a secretária nacional de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, Suzana Kahn Ribeiro. A secretária admite que a implementação da inspeção veicular é uma questão complexa por envolver a adoção de uma série de medidas por Estados, Distrito Federal e por alguns municípios, que terão de administrar programas próprios em razão do tamanho da frota. Suzana Kahn lembra que essas ações in-

cluem compra de equipamentos e treinamento de pessoal, o que torna necessário um grande esforço por parte dos órgãos ambientais para iniciar o processo no período de um ano. A prioridade da resolução são as regiões metropolitanas e os municípios que não atendem aos padrões de qualidade do ar exigidos pela legislação. O coordenador da Câmara Técnica do Conama, Volney Zanardi, explica que o processo de regulação em curso é, na verdade, a atualização de um marco regulatório já exis-

tente. “São normas de dez anos atrá, e algumas de mais tempo.” Para Zanardi, as novas regras criam também “uma referência no sentido de facilitar a estratégia de implementação (dos programas de inspeção) pelos Estados”, e o sucesso da regulamentação do Conama é uma questão de coordenação, de planejamento e de definição clara de papéis. Voltada para os ganhos ambientais que a norma pode trazer com a redução do nível de emissões de poluentes e a melhora na qualidade do ar


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SAIBA MAIS O que diz a proposta de resolução sobre os Programas de Inspeção e Manutenção para Veículos Automotores em Uso:

• Atribui aos órgãos estaduais e municipais do meio ambiente a responsabilidade pela implementação dos programas de medição e manutenção veicular. • Estabelece prazo de 12 meses, a partir da publicação das regras, para a implantação dos programas, para fins de licenciamento de veículos. • Dá prioridade às regiões metropolitanas das grandes cidades e aos municípios que não atendam os padrões de qualidade do ar. • Atribui ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) a responsabilidade pelo apoio técnico aos órgãos ambientais na implantação dos programas. • Determina que os órgãos do meio ambiente deverão enviar aos Detrans informações sobre a situação dos veículos vistoriados. • Estabelece limites e procedimentos de avaliação das emissões de poluentes, inclusive para motocicletas. • Prevê a certificação dos programas locais por organismos credenciados. • Determina a informatização das atividades de coleta de dados, registro de informações e outros procedimentos. Essas informações estarão disponíveis ao público. • Permite a celebração de convênio dos órgãos ambientais com o Denatran para a delegação da inspeção de poluentes e de ruídos a empresas indicadas pelo órgão e contratadas por licitação.

DÚVIDAS Empresários e especialistas estão divididos em relação

nas grandes cidades, a posição do ministério recebeu questionamentos que vão desde o prazo para a implantação do regulamento até a adequação das regras à realidade da frota brasileira de veículos automotores. A revisão da metodologia de aferição dos veículos, a definição de competências entre unidades da federação e órgãos públicos responsáveis pela execução das diretrizes e a atenção com a qualidade do diesel vendido no país também foram citadas pelos presentes à oficina. Para o coordenador do Programa de Inspeção Veicular da Prefeitura de São Paulo, Marcio Schettino, as reso-

luções atuais do Conama que tratam da questão estão voltadas para o processo de homologação com base em ensaios feitos em laboratório, o que dificulta a aplicação quando o processo de inspeção é aplicado para um grande número de veículos. “A intenção do processo de inspeção veicular é garantir que os veículos estejam em estágio de manutenção adequada e mantendo as regulagens estabelecidas pelo fabricante. É possível acertar essa metodologia de ensaio de uma forma mais rápida, mais eficiente e que se concentre estritamente naquilo que precisa ser medido”, afirmou Schettino, ao apresentar a experiên-


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ROBERTO VAZQUEZ/FUTURA PRESS

ao tempo necessário e às condições para a implantação da inspeção

cia da capital paulista com a inspeção veicular. Além da Prefeitura de São Paulo, apenas o Estado do Rio de Janeiro mantém programa semelhante no país. Luiz Martins Heckmaier, diretor de Informação e Monitoramento Ambiental do Inea (Instituto Estadual do Meio Ambiente), também defende o aprimoramento da metodologia de medição como forma de acompanhar a evolução tecnológica dos veículos ao longo do tempo. “Precisamos fazer uma atualização. Avaliar tudo o que foi feito e aperfeiçoar esses processos de medição, que são fundamentais para a gente operar bem o sistema de inspeção e manutenção”,

“Precisamos fazer uma atualização. Avaliar tudo o que foi feito e aperfeiçoar os processos de medição” LUIZ MARTINS HECKMAIER, DIRETOR DO INEA

disse, ao lembrar a evolução do programa implantado pelo governo estadual em 1997. Um das sugestões do setor de transportes apresentada por Flávio Benatti é de que todas as questões pontuais levantadas pelos participantes da oficina sejam tratadas por um grupo de trabalho dentro da Câmara Técnica do Conama. “Às vezes vale muito mais a pena esperar ou discutir melhor a implantação de uma norma do que colocar uma norma que se torne inócua no seu cumprimento. Então, se acaba muitas vezes incentivando a ilegalidade porque você não tem condições de cumpri-la.” Outra liderança a se manifestar pela ampliação das discussões foi o presidente da Abcam (Associação Brasileira dos Caminhoneiros), José da Fonseca Lopes. Ele pediu cautela em relação aos programas de inspeção e manutenção e defendeu a aplicação de medidas paralelas que mantenham os caminhoneiros na legalidade, por meio da criação de mecanismos que permitam a substituição da frota antiga de caminhões nas mãos dos trabalhadores autônomos. “Acho que tem de ser uma coisa bem dosada para que se atinjam os objetivos. E não é em

12 meses que se vai conseguir isso.” O presidente da Fetransportes (Federação das Empresas de Transportes do Estado do Espírito Santo), Luiz Wagner Chieppe, acredita que existe uma pressão natural na regulamentação da inspeção veicular pelo próprio contexto e pelo atraso no processo de normatização. Mas alerta que é preciso aprimorar uma série de detalhes e avaliar os impactos socioeconômicos da norma. “Acho que estamos diante da oportunidade de desenvolver uma norma que venha a dar uma grande contribuição ambiental, mas não podemos também, por algumas pressões de uma coisa que demorou tanto a resolver, querer fazer isso de forma muito rápida.” Também defensor de um programa de renovação e de reciclagem da frota antiga de caminhões em circulação, Chieppe afirma que a questão não pode estar desassociada dos programas de inspeção e manutenção veicular. “Fazer a inspeção só na frota nova vai gastar muito para pouca coisa. Fazer inspeção na frota velha pode parar uma boa parte da nossa economia. Então, para mim, essa é a solução que temos de achar”. 


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HÁ NO BRASIL

2.925

ULTRALEVE

CORREDOR s ultraleves que decolam e aterrissam na cidade do Rio de Janeiro terão de obedecer, a partir de 30 de julho, os corredores especiais de tráfego, definidos pelo Comando da Aeronáutica. Nos últimos cinco anos, houve aumento de pelo menos 50% no fluxo de voos desse tipo de aeronave na capital fluminense, conforme estimativas do CEU Clube Esportivo de Voo. O fato motivou a criação oficial da Reul (Rota Especial de Ultraleve) na cidade. Na última semana de julho, a carta de navegação para orientar os pilotos deverá ser publicada. Até o dia 30, estará em vigor a AIC (Circulaç��o de Informação Aeronáutica, na sigla em inglês) com essas rotas. Qualquer piloto, inclusive de avião e helicóptero, terá obrigação de respeitar os quatro corredores de ultraleve, na região de Jacarepaguá, Barra da Tijuca e Recreio. O estudo para a implantação do projeto começou a ser elaborado no segundo semes-

O

OBRIGATÓRIO AERONÁUTICA CRIA ROTAS ESPECÍFICAS PARA A CIDADE DO RIO DE JANEIRO QUE ENTRARÃO EM VIGOR NO FINAL DO MÊS DE JULHO POR CYNTHIA

tre de 2008 pelo SRPV (Serviço Regional de Proteção ao Voo) de São Paulo, responsável também pela área do Rio de Janeiro. Com a definição oficial dessas espécies de avenidas aéreas, a proposta é disciplinar o fluxo de ultraleves, garantindo maior segurança. “A Força Aérea Brasileira gerencia o aumento da demanda. Como foi detectado o crescimento desses voos, houve a necessidade de canalizar esse fluxo”, diz o capitão Ubiraci da Silva Pereira, comandante do DTCEA-MT (Destacamento de Controle do Es-

CASTRO

paço Aéreo Campo de Marte), em São Paulo. No espaço aéreo brasileiro, há os corredores chamados de REA (Rota Especial de Avião) e REH (Rota Especial de Helicóptero). Os ultraleves podem trafegar nas rotas de avião, obedecendo as regras de tráfego aéreo. Em algumas cidades, como o Rio de Janeiro, já há rotas de ultraleve extraoficiais definidas em cartas de acordos operacionais. Mas a principal diferença em relação à Reul que está sendo criada, conforme o capitão Pereira, é que esses acordos até agora são locais,

desconhecidos por pilotos de fora. “Quando uma cidade tem um acordo, o piloto que vem de fora pode não saber disso. Com a AIC, a rota de ultraleve no Rio terá de ser respeitada por qualquer piloto que passar pela cidade”, diz. O documento propõe o detalhamento mais eficaz de três rotas previstas no acordo local e cria uma quarta, segundo o comandante do DTCEA-MT. A definição desses corredores, que estabelecem altitudes diferenciadas no uso do espaço aéreo, vai contribuir para que não haja conflito, especialmente com os helicópteros.


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ULTRALEVES, SEGUNDO DADOS OFICIAIS DA ANAC FOTOS CEZAR NEPOMUCENO/CLUBE CEU/DIVULGAÇÃO

Em finais de semana movimentados, de tempo bom, são 300 operações de decolagem e aterrissagem no clube CEU. Sobre a implantação da Reul oficial em outros municípios brasileiros, o capitão Pereira diz que, por enquanto, foi detectada a necessidade apenas no Rio de Janeiro. O Estado de São Paulo tem um número de ultraleves bem maior do que o do Rio de Janeiro. Os dois Estados ocupam o primeiro e o segundo lugar no ranking desse tipo de aeronave no país. Conforme os registros da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), são 943 em São Paulo e 277 no Rio de Janeiro. Mas o que justifica a implantação da Reul no Rio de Janeiro é que a concentração de voos no clube CEU, em Jacarepaguá, é maior. Em São Paulo e nos outros Estados, os voos de ultraleve são bem mais diluídos, de acordo com o capitão. Para o diretor de operações do clube CEU, Cezar Luiz Nepomuceno, a oficialização da Reul vai contribuir para que haja mais segurança. “Os


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“Agora, com a CEZAR LUIZ NEPOMUCENO, DIRETOR DE OPERAÇÕES DO

SEGURANÇA

Piloto garante estabilidade de voo Quem é piloto de ultraleve afirma que esse tipo de aeronave é segura. Algumas características fazem dele um avião fácil de voar, conforme o instrutor José Luiz Macedo Faraco, da escola Flyer. Ele explica que, como a velocidade de stall (mínima) é baixa, 45 nós (corresponde a 83 km/h), se ocorrer algum problema, o ultraleve consegue pousar com velocidade menor que o monomotor convencional. “Se o motor falhar, ele plana melhor.” Segundo Faraco, a falta de gasolina é uma causa presente em muitos acidentes com ultraleves. “É comum o piloto começar a voar, cada hora com uma pessoa da família, por exemplo, e esquecer que tem que abastecer. Isso não só no ultraleve, mas em outras aeronaves.” O instrutor explica que, em um pouso de emergência, o ultraleve pode chegar ao chão a 60 km/h, enquanto o monomotor convencional chega com mais de 100 km/h. Segundo os representantes da Apub e do CEU Clube Esportivo de Voo, no Rio de Janeiro, os acidentes não são constantes e, geralmente, não são graves. Na Apub, foi registrada uma morte em 1987. No início das atividades no aeroclube, quando havia uma pre-

sença maior de ultraleves básicos, o índice de acidentes era de dois ou três por ano, diz Faraco. Hoje, a média é de um ou dois a cada dois anos e meio. No clube CEU, foram seis ocorrências em 2008 e 2009, sem mortes. De acordo com o diretor de operações, Cezar Luiz Nepomuceno, as aeronaves eram de visitantes. Os pilotos não estavam acostumados a operar em pistas curtas como as do CEU e os principais problemas aconteceram no pouso. A última morte, conforme Nepomuceno, foi há mais de dez anos. Para evitar acidentes, é fundamental que o piloto saiba exatamente como operar o modelo que está conduzindo, diz Carlos Jeronymo, do conselho operacional do clube CEU. Além da manutenção correta, o piloto precisa estar bem preparado e conhecer a performance da aeronave, porque há muitas diferenças de um modelo para o outro. Na opinião de Jeronymo, geralmente, os acidentes acontecem por alguma falha humana em consequência do desconhecimento da máquina. Para incentivar a segurança, o diretor de operações, Cezar Nepomuceno, diz que será criado um selo de qualidade para os pilotos afiliados à Abul.

acordos que existiam não eram oficiais. Agora, com a determinação da autoridade (Aeronáutica), todos terão de respeitar e isso é fundamental para a segurança.” O conflito no espaço aéreo entre ultraleves e helicópteros é apontado como um dos principais problemas que deve ser resolvido com a Reul. “Às vezes, por desconhecimento, um helicóptero entra em uma área que não devia. Agora, com a oficialização dessas rotas, reduzirão os riscos”, diz. Nepomuceno observa que, nos próximos anos, com a exploração de petróleo nas camadas pré-sal, vai aumentar muito o movimento de helicópteros na região do aeroporto de Jacarepaguá. Segundo ele, no ano passado, 60 mil pessoas foram transportadas para plataformas de petróleo em helicópteros que decolaram de Jacarepaguá. “Esses corredores vieram no momento certo.” Pelos números oficiais da Anac, há no Brasil 2.925 ultraleves. De acordo com as estimativas da Abul (Associação Brasileira de Ultraleves), são 5.000 pilotos em todo o país. O representante da Abul na

DEMANDA Rio de

“Com o crescimento desses voos, houve a necessidade de canalizar esse fluxo” UBIRACI DA SILVA PEREIRA, COMANDANTE DO DTCEA-MT


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oficialização dessas rotas, reduzirão os riscos” CLUBE CEU

Janeiro concentra a maior quantidade voos de ultraleves do país, o que motivou a criação de rota especial

regional São José dos Campos (SP), Luiz Marcelo Terdulino de Brito, também considera importante a oficialização desses corredores. “O Rio estava precisando disso, mas acredito que, por enquanto, não há mesmo necessidade de expandir para outras regiões do país.” Para que uma aeronave seja classificada como ultraleve, é necessário preencher alguns requisitos. O primeiro, que justifica o próprio nome, é ser bem leve. O peso máximo de decolagem não pode

ultrapassar 750 kg (incluindo ocupantes e bagagem). Além disso, é necessário ter apenas dois lugares, ser monomotor e ter velocidade de stall (mínima) de até 45 nós. Esse pequeno avião leve é caracterizado como experimental e é proibido, portanto, para o uso com fins comerciais. As operações têm de ser privadas, durante o dia e sempre em boas condições visuais. Os modelos se dividem em básicos e avançados. Mas quando se fala em ultraleve, geralmente, vem à ca-

beça aquela imagem de uma aeronave toda aberta, de asas coloridas, que deixa o corpo livre contra o vento. Esse modelo básico ainda existe. Entretanto, é minoria. No Clube CEU do Rio, há 110 ultraleves, apenas 20 do modelo básico. Na Apub (Associação dos Pilotos de Ultraleve de Brasília), dos cem cadastrados, cinco são básicos. E no aeroclube de São José dos Campos, os dez em operação estão na categoria avançada, que mais se parecem monomotores convencionais.

Quando foi criado, na década de 80, o ultraleve tinha uso exclusivamente para o lazer. Na cidade do Rio de Janeiro, há uma concentração de adeptos que usam a aeronave também para esse fim. É comum o passeio chamado de revoada aérea, quando um grupo de pilotos passa o dia em alguma cidade de praia do litoral fluminense e retorna à capital antes do pôr-do-sol. Mas esse uso recreativo e esportivo do ultraleve tem perdido espaço nos últimos anos para outra finalidade. “O foco mudou. O ultraleve básico nasceu ligado ao esporte radical e o avançado virou transporte privado. Um não tem nada a ver com o outro. O básico é brinquedo e o avançado é um avião”, diz o instrutor José Luiz Macedo Faraco, da escola Flyer, que funciona na Apub. Segundo ele, atualmente, a maioria das pessoas que chega ao aeroclube em Brasília não está à procura de um esporte de aventura, mas de um meio de transporte eficiente e barato. São fazendeiros, médicos, dentistas, empresários, entre outros profissionais, que buscam uma forma de ganhar tempo. O instrutor Anderson de Oliveira e


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SAIBA MAIS Veja o que é necessário para pilotar ultraleve  CERTIFICADOS Piloto desportivo (CPD) • É aquele que quer fazer voos perto do aeródromo de decolagem, devendo se manter próximo a esse aeródromo. Essa licença normalmente é a preferida por quem quer fazer voos em aeronaves básicas, que não atendem a grandes distâncias Piloto de recreio (CPR) • Pode operar ultraleves sem restrição de distância, desde que a aeronave esteja equipada para realizar voo em rota. A licença permite o voo em qualquer lugar dentro do território nacional  PASSOS PARA APRENDER • Fazer inspeção de saúde com médico credenciado pela Anac/Abul • Na inspeção, obter atestado que comprova a capacidade física para o voo aerodesportivo • Escolher escola autorizada pela Anac • O preço médio do treinamento é entre R$ 5.000 e R$ 6.000 • Para iniciar o voo, deverá ter um CPD de piloto aluno, expedido pela Abul a pedido da escola do treinamento  CURSO • Aulas teóricas: 30 horas/aula para CPD e 180 horas para CPR • Aulas práticas: Para ter o certificado de piloto desportivo, são necessárias pelo menos 15 horas de voo e para piloto de recreio, 30 horas. Esse treinamento inclui duplo comando (instrutor e aluno), e voos solo

Silva, da Apub, comenta que a faixa etária é, geralmente, a partir dos 30 anos. Com tecnologia moderna, os ultraleves avançados permitem que sejam percorridas grandes distâncias, com alta velocidade. “É possível, por exemplo, ir de Brasília para Belo Horizonte em duas horas. Se considerarmos todo o tempo de espera em aeroportos, é bem mais rápido”, diz Faraco. Ele também cita que o pre-

ço e a tecnologia de um ultraleve avançado oferecem mais vantagens que um monomotor, o que contribui para o aumento dos adeptos dos aviões mais leves. Um ultraleve avançado top de linha, por exemplo, pode custar US$ 125 mil, enquanto o preço de um monomotor de dois lugares pode ser de US$ 180 mil, segundo Faraco. Os modelos mais simples de avançado custam a partir de US$ 60 mil.

PREÇO Modelo avançado pode custar R$ 125 mil

Como é mais pesado, o monomotor convencional gasta mais combustível. A velocidade de um ultraleve avançado pode chegar a 300 km/h, com autonomia de cinco horas de voo. A média gira em torno de 250 km/h. O modelo básico, usado, pode ser adquirido por R$ 25 mil ou menos. As primeiras versões do básico voavam a 60 km/h e hoje chegam a 120 km/h. “Desde 1996, a indústria mun-

dial começou a produzir pequenos aviões que se enquadram na categoria ultraleve. O consumidor quer velocidade e a tendência é que essa aeronave seja cada vez mais usada para o transporte privado pessoal”, diz Faraco. 



Fontes: Abul e instrutor Faraco

Confira reportagem com usuários de ultraleve no portal CNT: www.cnt.org.br


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LEI SECA

RETORNO À NORMALIDADE PASSADO UM ANO, PROCURA POR TÁXI DIMINUI E ATÉ PROGRAMAS DE INCENTIVO AO USO DO SERVIÇO FORAM DESATIVADOS POR

EDSON CRUZ

o ponto em frente à porta do bar Rey Castro, localizado na Vila Olímpia (zona sul), uma tradicional região noturna de São Paulo, os taxistas comemoraram, em julho do ano passado, o aumento das corridas. Era época dos primeiros dias da Lei Seca. Situações semelhantes ocorreram em todo o país. A nova legislação proporcionava melhores ganhos e, pelo menos financeiramente, projetava dias melhores para os taxistas. Passado o primeiro aniversário da lei 11.705/2008, em 20 de junho, a constatação das associações de taxistas de todo o país é que o movimento voltou à normalidade. “No início houve uma demanda explosiva.

N

Temendo serem flagradas nas blitze, presas e perderem as carteiras, as pessoas migraram para o táxi. Depois, com o relaxamento da fiscalização, o movimento voltou ao normal. Só que, no balanço geral, os lucros foram maiores”, diz o presidente da Adetax (Associação das Empresas de Táxi de Frota do Município de São Paulo), Ricardo Auriemma. Os números da Adetax indicam que taxistas associados à empresa e que rodam à noite na capital paulista embolsaram 20% a mais no início da Lei Seca. A Adetax representa 54 empresas de frotas e possui 3.500 veículos. De acordo com o Sindicato dos Taxistas Autônomos de São Paulo, atualmente, 35 mil rodam na capital. Des-


OSLAIM BRITO

ses, entre 8.000 e 10 mil transitam à noite, numa das capitais que possuem uma das vidas noturnas mais agitadas do país. Nos primeiros dias da Lei Seca, há um ano, alguns bares paulistas chegaram a oferecer parcerias com empresas de táxi e inovaram no atendimento. Um deles, o Santa Cecília, localizado em Pinheiros (zona oeste), colocou à disposição dos clientes um serviço que proporcionava descontos de até 30% nas corridas. O Rey Castro instituiu o serviço Vim de Táxi. Na época, quem apresentava o recibo do táxi economizava no valor da entrada. Além disso, motoristas do ponto em frente ao bar davam descontos de 10% para os clientes que preferissem voltar para a casa de táxi. Depois de um ano, nenhum desses dois serviços continuam ativos. “A verdade é que esses serviços ficaram em desuso por causa da pouca procura dos usuários”, diz o presidente da Fencavir (Federação Nacional dos Taxistas e Transportadores autônomos de Passageiros) e vice-presidente da Seção de Transportadores Autônomos de Pessoas e de Bens da CNT, Edgar Ferreira de Sousa. Também localizado na Vila Olímpia, o Bar do Arnesto é um dos poucos que mantém uma promoção envolvendo táxi. Para voltar para a casa


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CAMPANHA

Governo faz alerta em bares Na noite da sexta-feira 17 de junho, frequentadores do Peixe Frito, bar localizado no bairro Santo Agostinho (zona sul) de Belo Horizonte, ficaram atentos para saber o desfecho de uma discussão de um casal. Sentado numa das mesas, o casal teve uma briga acalorada. Bastante alterada, a mulher tentava impedir a todo custo que o marido deixasse o bar e dirigisse alcoolizado de volta para a casa. Depois, os clientes foram informados de que se tratava de uma encenação. Depois da cena, um cadeirante, vítima de acidente de trânsito, rodou as mesas distribuindo folhetos alertando para o perigo da combinação álcool e direção. Outros cinco bares de Belo Horizonte, na mesma noite, foram visitados pelo grupo. Ações idênticas ocorreram em Brasília, Florianópolis e São Paulo. A campanha Não Deixe a Bebida Mudar o seu Destino, Dirigir Alcoolizado é Crime e Pode dar Cadeia está sendo realizada pelo Ministério da Justiça em parceria com a Polícia Rodoviária Federal e o Ministério da Saúde. Nessas mesmas cidades, carros reais fortemente batidos dentro de grandes garrafas de bebi-

da foram colocados em locais de grande movimento. Frequentadores do bar aprovaram a ideia. “Valeu pelo recado, mas a verdade é que a Lei Seca não pegou em Belo Horizonte, principalmente pela falta de fiscalização”, diz a secretária Maria (nome fictício), que admitia ter ingerido quatro copos de cerveja e, mesmo assim, pretendia retornar para a casa dirigindo. Essa quantidade de álcool está acima do permitido pela Sei Seca, que prevê que o motorista flagrado com nível de álcool de 6 decigramas por litro de sangue, o equivalente a dois copos de cerveja, responda criminalmente. A pena prevista é de seis meses a três anos de prisão. O cantor e compositor Tadeu Franco e sua mulher, Solange, que também se encontravam no bar Peixe Frito, elogiaram a encenação, mas disseram que seria uma medida ineficaz. “É até inocente achar que uma encenação como essa vai mudar a atitude de uma pessoa. É preciso mais ação do governo, principalmente com maior fiscalização e realização de mais blitze”, diz Tadeu Franco, que toda vez que sai para beber troca o veículo particular pelo táxi.

CONSCIENTIZAÇÃ0 Campanha educativa dos ministérios da Justiça e da

depois da balada, o cliente tem até 50% da corrida bancada pelo bar se deixar o veículo passar a noite no estacionamento do Arnesto. O estabelecimento cobra uma taxa de R$ 13 para guardar os carros até as 12h do dia seguinte. “Esse serviço diminuiu, mas ainda há uma procura, por isso o mantivemos”, afirma o analista-financeiro do Bar do Arnesto, Paulo Rodrigues. Uma das causas da diminuição do movimento é a adesão de alguns clientes a programas lançados por companhias de cerveja, como o Motorista da

Vez e o Motorista da Rodada. O nome de batismo é diferente, mas o procedimento usado é o mesmo. Um grupo de amigos elege um motorista que tem que ficar abstêmio durante o encontro e levar todos para a casa durante a madrugada. Em São Paulo, uma outra prática tem sido verificada por donos de bares. Os amigos se unem e chegam a pé em grupos entre 20 e 30 pessoas. Geralmente, vizinhos dos bares, eles optam por deixar o carro na garagem. Para Rodrigues, a Lei Seca ainda preocupa os motoristas, mas já não assusta tanto como há um ano.


LILIAN MIRANDA

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MANUAL DO TAXISTA PRECAVIDO Confira dicas para os imprevistos da noite  SITUAÇÃO: O ESQUECIDO Fato: Usuário esquece celulares, roupas e outros objetos no táxi O que fazer: Levar para a empresa (em caso de cooperativa) ou voltar ao local de destino dos passageiros. O melhor mesmo é se precaver e, antes do desembarque do passageiro alcoolizado, vistoriar todo o veículo  SITUAÇÃO: O DESMEMORIADO Fato: Passageiro sofre uma amnésia momentânea e se esquece do endereço de seu destino O que fazer: Pedir ao passageiro que lhe forneça algum telefone de parente próximo

Saúde e a Polícia Rodoviária Federal percorreu bares de Belo Horionte em junho

Logo no início da Lei Seca, o Sincavir (Sindicato dos Taxistas de Minas Gerais) recebeu uma proposta da seção mineira da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) para a implantação do Transbebum, um serviço em que os usuários poderiam utilizar um táxi lotação na rota da região da Savassi, que concentra um grande número de bares de Belo Horizonte, mas a ideia não emplacou. “Eles queriam que déssemos descontos, o que tornaria o serviço inviável. Além disso, não haveria passageiros em número suficiente para uma

rota alternativa de táxi”, afirma Ricardo Faedda, diretortesoureiro do Sincavir, entidade que reúne 6.028 taxistas, de aproximadamente 10 mil que rodam em Belo Horizonte. Na capital mineira, o taxista João Evangelista Miranda Ramalho, que costuma rodar na madrugada a partir das quintas-feiras na região da Savassi, reclama da falta de fiscalização. “Desde o início da Lei Seca, no ano passado, nunca fui parado em blitz nem nunca vi alguém soprando o bafômetro na noite de Belo Horizonte”, afirma o taxista, que começou na atividade há

 SITUAÇÃO: O INCONVENIENTE Fato: Cliente vomita no veículo O que fazer: Cobrar uma taxa extra para lavar o veículo num posto de combustíveis ou, se achar melhor, arcar com os custos da limpeza. Em caso de coma alcoólico, chame uma unidade do Samu (Serviço de Atendimento Médico de Urgência)  SITUAÇÃO: O SONECA Fato: Passageiro dorme no banco traseiro O que fazer: Acione uma viatura e explique a situação para a polícia para evitar maiores constrangimentos  SITUAÇÃO: O CALOTEIRO Fato: Cliente se recusa a pagar a corrida O que fazer: Se é um cliente assíduo, deixe-o ir embora e depois o procure para cobrar a conta. Se for um passageiro estranho, tente negociar a corrida ou, simplesmente, assuma o prejuízo  SITUAÇÃO: O PACIENTE Fatos: Durante o percurso, o cliente resolve externar a sua a vida amorosa para o taxista O que fazer: Ouça com atenção o que ele diz, mas evite se aventurar como conselheiro amoroso

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“No início houve uma demanda explosiva. Depois, RICARDO AURIEMMA, PRESIDENTE DA ADETAX

BALANÇO

Pesquisa mostra redução de óbitos O primeiro ano da Lei Seca reduziu o número de internações e óbitos em mais de 20%, segundo o Ministério da Saúde. O número de internações provocadas por acidentes de trânsito nas capitais brasileiras caiu de 105.904, no segundo semestre de 2007, para 81.359 no segundo semestre de 2008. Segundo o Ministério da Saúde, o impacto positivo da Lei Seca foi percebido também com a redução das mortes. No segundo semestre de 2008, foram registrados 2.773 óbitos relacionados a acidentes de trânsito, contra 3.519, no segundo semestre de 2007. Para chegar a esses resultados, o ministério usou como base os dados do SIM (Sistemas de Informações sobre Mortalidade), do SIH (Sistemas de Informações sobre Internações Hospitalares) e do Vigitel (Inquérito Nacional de fatores de Risco e Proteção para Doenças e Agravos não Transmissíveis). Um outro balanço, divulgado pela Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego), apontou que 55 mil vítimas de acidentes foram hospitalizadas no primeiro semestre de 2008. No segundo semestre daquele ano, já com a Lei Seca em vigor, houve 39,4 mil interna-

ções. Entre os ocupantes de carros, as internações caíram 36,6%; entre motociclistas, 23,3%; e entre caminhoneiros e motoristas de ônibus, 26,4%. A PRF (Polícia Rodoviária Federal) constatou a redução de 3% no total de acidentes com vítimas fatais. Os acidentes e os feridos, no entanto, aumentaram em 7% e 4%, respectivamente. De acordo com a PRF, a fiscalização também aumentou e, até junho deste ano, 320 mil motoristas já haviam soprado o bafômetro. Ao longo do primeiro ano da vigência da Lei Seca, a PRF reprovou mais de 14 mil motoristas embriagados, dos quais 9.000 foram presos em flagrante. Para a área técnica da PRF, a Lei Seca representa um avanço e abre caminho para outras iniciativas. “Hoje, os resultados são aferidos exclusivamente por meio dos testes de bafômetro, mas um perfil real sobre a eficácia da lei só seria possível mediante uma perícia médica, sobretudo com relação a motoristas que se envolveram em acidentes com mortes”, diz o inspetor Álvares Simões, coordenador-geral de operações da PRF.

CORRIDAS Taxista João Evangelista

15 anos. No início da Lei Seca, Ramalho viu suas corridas crescerem até 50%. As 17 corridas diárias nos fins de semana passaram para 25. Atualmente, ele diz que o movimento voltou à normalidade. Taxista em Belo Horizonte há 25 anos, Leônidas Fidélis da Silva, também concorda com a queda do movimento, mas reclama mais do comportamento de alguns passageiros. Durante a madrugada de

um fim de semana de maio, ele enfrentou uma verdadeira “saia justa”. Pegou uma cliente alcoolizada na porta de um bar na Savassi e, pouco tempo depois, teve o seu carro varrido por ondas de vômitos. “Não cobrei uma taxa extra de limpeza, mas passei por uma situação constrangedora”, diz o taxista. Precavido, atualmente, ele guarda panos descartáveis e desinfetantes no porta-malas.


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com o relaxamento da fiscalização, o movimento voltou ao normal” LILIAN MIRANDA

Miranda Ramalho afirma que no início da Lei Seca seus lucros cresceram 50%

Os lucros continuam em alta e a fiscalização está ostensiva na capital carioca, de acordo com o taxista Lincoln Vilabela Silva. “Rodo diariamente entre as 23h e as 8h e só tenho motivo para festejar. Primeiramente, é muito bom rodar à noite porque o trânsito flui mais rápido e o custo de manutenção diminui consideravelmente. Com a Lei Seca, melhorou porque realmente os cariocas estão trocando o

veículo particular pelo táxi”, diz Silva. Sobre a fiscalização, ele diz que passa todos os dias por vários corredores importantes de trânsito e sempre vê muitas blitze. Esse aumento de fiscalização na capital carioca é confirmado pelo governo do Rio de Janeiro. Desde 19 de março, está em vigor a Operação Lei Seca. O projeto tem dois focos: fiscalizatório e educacional. Diariamente, as blitze estão

sendo realizadas nos principais locais onde ocorre um maior número de acidentes. No aspecto educacional, com a participação de cadeirantes que foram vítimas de acidentes, na conscientização dos motoristas. “Essa operação não é episódica, é uma política pública, de caráter permanente, que vai durar até o último dia do atual governo”, afirma o subsecretário de Estado do Governo do Rio de Janeiro e coordenador-geral do Projeto Lei Seca, Carlos Alberto Lopes. As bltize estão sendo realizadas nas avenidas Brasil, das Américas e Presidente Vargas, na Barra da Tijuca e no centro da cidade. Antes delas, cadeirantes explicam nos bares, restaurantes e boates como foram acidentados. “Os cadeirantes são exemplos vivos da violência no trânsito”, diz o subsecretário. De acordo com o GSE (Grupamento de Serviços de Emergência da Secretaria de Estado de Saúde e Defesa Civil), desde que a campanha foi instituída, houve uma redução de 23,6% do número de acidentes. Somente na madrugada de 6 de junho, as quatro pistas da avenida Brasil, uma das principais da capital fluminense, foram interditadas. Nessa operação foram abordados 1.069 veículos, desses, 244 foram mul-

tados e outros 82 foram rebocados, 115 carteiras de habilitação foram apreendidas e 978 testes de bafômetro foram realizados. No final, cinco motoristas responderam por infrações criminais e 29 tiveram infrações administrativas, mas 944 foram liberados após os testes de bafômetro. A Operação Lei Seca também envolve taxistas. “Eles têm um papel fundamental na conscientização dos passageiros, já que ao longo do percurso tem um bom tempo para conversar com os usuários. Pedimos para que os taxistas digam para os passageiros não combinar álcool com direção”, diz o subsecretário. Além disso, os taxistas estão usando nos vidros os adesivos da campanha com os dizeres: “Operação Lei Seca - nunca dirija depois de beber, vá de táxi.” O presidente da Fetacesp (Federação dos Taxistas Autônomos do Estado de São Paulo) e vice-presidente de Transportadores Autônomos de Pessoas e de Bens da CNT, José Fioravanti, afirma que ações como essas que estão acontecendo no Rio de Janeiro são de extrema importância. “As blitze periódicas não contribuem muito. Realmente, é preciso uma fiscalização mais séria e permanente.” 


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“Pude conhecer um pouco mais do pa KÉSIA BARROS, FUNFIONÁRIA DA PROFORTE S.A. TRANSPORTE DE VALORES

SEST/SENAT

CAMPANHA

PELA VIDA MOBILIZAÇÃO PROMOVIDA PELO SISTEMA BUSCA CONSCIENTIZAR SOBRE OS PERIGOS DO USO DE ÁLCOOL E DROGAS AO VOLANTE POR

LÍLIAN MIRANDA

s acidentes de trânsito configuram uma das principais causas de mortes violentas no Brasil. O estudo “Morte no Trânsito: Tragédia Rodoviária”, realizado pelo SOS Estradas, programa de redução de acidentes do portal estradas.com.br, dá números à tragédia. Todos os dias, ocorrem, pelo menos, 723 acidentes nas rodovias pavimentadas brasileiras, que provocam a morte de 35 pessoas e deixam 417 feridos, dos quais 30 morrem em

O

decorrência do acidente. E o consumo de álcool e drogas está presente na maior parte dessas ocorrências de trânsito. Com base nessa estatística, o Sest/Senat está lançando uma mobilização intitulada Sest/Senat Pela Vida nas Estradas, que tem como objetivo principal conscientizar os motoristas, as empresas e em geral a sociedade sobre os principais efeitos e consequências do uso do álcool e de qualquer tipo de droga na direção de veículos automotores. De acordo com Cláudia Moreno, coordenadora de Promo-

ção Social e Desenvolvimento Profissional do Sest/Senat, o mote que chamou a atenção para o tema foram as estatísticas. “No Brasil, as mortes por causas externas (homicídios, quedas, acidentes de trânsito etc) são a primeira causa de morte de pessoas entre 1 e 39 anos, atingindo surpreendentes 71,3% das mortes para as pessoas entre 20 e 29 anos. Nesses casos, resultam em mais de 35 mil mortes por ano no trânsito brasileiro, de acordo com dados da USP (Universidade de São Paulo)”, diz. Somam-se ainda a essa si-

tuação os elevados custos sociais e suas consequências para os acidentados, o que acaba por gerar prejuízos financeiros, materiais, médicos e perda de produtividade, o que afeta toda a sociedade. Por ano, são gastos no Brasil R$ 29,9 bilhões somente em acidentes de trânsito e seus resultados. “Como o Sest/Senat trabalha diretamente para um público que vive nas estradas, surgiu a ideia de criar uma campanha de conscientização voltada para o uso de álcool, drogas e ‘rebites’ associados à condução de veículos, visto que em muitos dos aci-


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pel do RH na prevenção e no tratamento da dependência” SEST/SENAT/PALMAS/DIVULGAÇÃO

CALENDÁRIO Cidade Natal (RN) Simões Filho (BA) Fortaleza (CE) Recife (PE) Manaus (AM) Contagem (MG) Curitiba (PR) Cariacica (ES) Rio de Janeiro (RJ) Porto Alegre (RS)

Data 12/8 26/8 10/9 30/9 7/10 15/10 21/10 5/11 18/11 2/12

Prazo para inscrições: 30 dias antes da data de cada seminário Programação: Estará disponível no site durante o período de inscrição para cada cidade

PARTICIPAÇÃO Palmas (TO) recebeu em junho o seminário Sest/Senat Pela Vida nas Estradas

dentes com vítimas havia o uso de alguma dessas substâncias”, diz Cláudia. O álcool, medicamentos (como os tranquilizantes), derivados anfetamínicos (“rebites”) e as drogas de abuso, como a maconha, a cocaína e o ecstasy causam prejuízos nas funções psicomotoras e podem, além de provocar sérios danos à saúde, aumentar o risco de envolvimento do motorista em acidentes de trânsito, muitas vezes com vítimas fatais. “Acreditamos que somente por meio da educação no trânsito e de medidas preventivas

contra o consumo dessas substâncias por motoristas é que será possível mudar a triste realidade que vivemos atualmente nas estradas brasileiras”, diz a coordenadora. O projeto prevê a realização de diferentes ações. Articulando com empresas do setor e outras entidades de interesse a temática álcool e drogas, o Sest/Senat estará desenvolvendo iniciativas que enfatizem uma comunicação eficaz na abordagem do assunto. Será realizada uma pesquisa nas empresas para avaliar o uso do álcool e outras drogas no setor

de transporte. Posteriormente, um vídeo será produzido com depoimentos de vítimas de acidentes de trânsito e entrevistas com especialistas no tema levantado pela campanha. Uma das ações que já esta em andamento é a realização de palestras para os motoristas profissionais e comunidade. Além de seminários em 14 cidades voltados para empresas e empresários com o tema O Desafio das Empresas: Álcool, Drogas e Trabalho, para informar gestores das empresas do transporte quanto à problemática do uso de drogas e consu-

mo de álcool pelos trabalhadores e as possíveis consequências relacionadas à saúde, formas de prevenção, empregabilidade e legislação. Até o final do ano, dez unidades receberão os seminários - em junho, as cidades de Palmas (TO), Santo André (SP), Campo Grande (MS) e Florianópolis (SC) foram sede da mobilização (confira a programação no quadro). No dia 3 de junho o seminário foi realizado em Palmas, no Tocantins, e contou com 200 inscritos. O coordenador da unidade no município, Leandro Nunes Mello, aprovou a iniciativa. “O Sest/Senat mais uma vez se mostrou atento a ser um elo na busca da solução desse problema, encarando esse grande desafio, não somente às empresas, mas a toda sociedade.” Késia Barros, que trabalha no setor de Recursos Humanos


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SEST/SENAT/SANTO ANDRÉ/DIVULGAÇÃO

da Proforte S/A Transporte de Valores, participou do evento. Ela afirma que o ambiente de trabalho deve ser saudável e propício para o desenvolvimento das tarefas, e a utilização de substâncias ilícitas caminha em sentido contrário. “Com o uso de drogas, a dificuldade de controlar o consumo acaba prejudicando o desempenho do colaborador na empresa. Diante disso, aumentam os afastamentos, atrasos, faltas, dificuldades nos relacionamentos, diminuição na qualidade dos serviços, bem como o risco de acidentes de trabalho, sem falar das implicações previdenciárias e trabalhistas.” Mas ela frisa que “é preciso que a empresa se envolva para a prevenção e o tra-

tamento caso isso já ocorra ou não”. Ela acredita ser válida a iniciativa do Sest/Senat, principalmente para o seu setor na empresa. “O Sest/Senat está de parabéns, quanto à organização e ao assunto abordado. O seminário foi de grande valia, de enorme aprendizado. Pude conhecer um pouco mais do papel do RH na prevenção e no tratamento da dependência química”, declara. O Sest/Senat de Santo André (Grande São Paulo) realizou o evento em junho e atraiu 120 participantes, que puderam trocar experiências, atualizarse e aprender sobre os aspectos que envolvem o álcool e as drogas no trabalho. De acordo com o diretor da unidade, Luis Rafael Cardieri

Marchesi, “é importante frisar que, segundo especialistas, cerca de 15% dos profissionais brasileiros são dependentes de álcool e drogas no trabalho”. De acordo com o Ministério do Trabalho, os profissionais que são dependentes químicos faltam cerca de 26 dias por ano sem justificativa, o que representa três vezes mais que um funcionário comum. “Em setores como o de transporte, por exemplo, devido à pressão psicológica e física, o número de dependentes aumenta, com todos os riscos inerentes ao problema de dirigir sobre o efeito de drogas”, diz. Marchesi analisa que questões como o despreparo das empresas e de seus gestores, bem como das equipes de re-



PROCURA Santo André (SP) abrigou 120 participantes durante o evento

cursos humanos, levaram o seminário a atrair um grande número de empresas de transporte e sindicatos de trabalhadores e patronais, além da Delegacia Regional do Trabalho em Santo André. Durante o evento foram realizadas cinco palestras, com os temas O Papel do RH na Prevenção e Tratamento da Dependência Química no Ambiente de Trabalho, Procedimentos Trabalhistas Legais em Relação ao Dependente Químico, Alcoolismo, Drogas e Medicina do Trabalho - Diagnóstico e Prognóstico, Dependência Química e a Rede Pública de Tratamento e Alternativas de Tratamento. A campanha Sest/Senat Pela Vida das Estradas tem como meta envolver aproximadamente 155 mil pessoas, entre empresários, empregados do setor de transportes, motoristas autônomos e comunidade nas atividades sociais, de saúde e educacionais. 

As inscrições para o seminário O Desafio das Empresas: Álcool, Drogas e Trabalho podem ser feitas, gratuitamente, no portal www.cnt.org.br. Clique em Sest/Senat para obter mais informações das unidades que receberão o evento


CNT TRANSPORTE ATUAL

73

JULHO 2009

IDET

TRANSPORTE DE PASSAGEIROS RESISTE CRISE, ENTRETANTO, AINDA AFETA O SETOR DE CARGAS TRANSPORTE RODOVIÁRIO DE CARGAS INDUSTRIAIS POR TERCEIROS 55 Milhões de Toneladas

O

constatou-se crescimentos de 3,6% no transporte rodoviário coletivo urbano e de 3,1% no intermunicipal, enquanto ocorreu uma queda de 0,7% no interestadual. Na comparação do acumulado no ano até maio com o mesmo período de 2008, observa-se redução de 0,5% para o coletivo urbano e elevações de 5,4% para o intermunicipal e de 2,7% para o interestadual. No modal ferroviário de cargas, em abril de 2009 ocorreu uma queda de 2,8% em relação ao mês anterior. No acumulado do primeiro quadrimestre do ano, observou-se queda de 20,1% em relação ao mesmo período de 2008. Cabe, contudo, a ressalva de que os dados de abril de 2009 ainda não contam com

50

45

40 jan

fev

mar

abr

mai

jun

Fonte: IDET CNT/FIPE-USP

jul

ago

2007

set

out

2008

nov

dez

nov

dez

2009

TRANSPORTE RODOVIÁRIO DE OUTRAS CARGAS 60 55 Milhões de Toneladas

transporte rodoviário de cargas apresentou queda na movimentação no mês de maio. Contudo, como as variações foram pequenas (queda de 0,3% na movimentação total), pode-se considerar certa estabilidade em relação ao mês anterior. No acumulado do ano, a movimentação rodoviária total de cargas está 6,2% menor do que a ocorrida no mesmo período de 2008. Observa-se que, no acumulado do ano, em 2009 a movimentação de cargas industriais por terceiros está abaixo do observada em 2007 e em 2008. Enquanto isso, a movimentação de outras cargas em 2009 tem superado os anos de 2007 e de 2008. Quanto ao transporte de passageiros, no mês de maio

50 45 40 35 30 jan

fev

mar

Fonte: IDET CNT/FIPE-USP

abr

mai

jun

jul 2007

ago

set 2008

out 2009


74

CNT TRANSPORTE ATUAL

JULHO 2009 TRANSPORTE RODOVIÁRIO INTERESTADUAL DE PASSAGEIROS

Milhões de Passageiros

7,5

IDET

7 6,5 6 5,5 5 jan

fev

mar

abr

mai

jun

Fonte: IDET CNT/FIPE-USP

jul

ago

2007

set

out

2008

nov

dez

nov

dez

2009

TRANSPORTE RODOVIÁRIO DE CARGAS - TOTAL TRANSPORTE FERROVIÁRIO DE CARGAS 110 50 45 100

Milhões de Toneladas

Milhões de Toneladas

105

95 90 85

40 35 30 25

80 jan

fev

mar

abr

mai

jun

jul

ago

set

out

nov

dez

20 jan

Fonte: IDET CNT/FIPE-USP

2007

2008

fev

mar

*abr

mai

jun

jul

ago

set

out

2009

Fonte: IDET CNT/FIPE-USP / *dados da ALL não fornecidos

2007

2008

*2009

TRANSPORTE AQUAVIÁRIO DE CARGAS

TRANSPORTE DE PASSAGEIROS - COLETIVO URBANO

65

1.010 960 Milhões de Toneladas

910 90 860

45 40 35 30 25

810 jan

fev

mar

abr

mai

jun

Fonte: IDET CNT/FIPE-USP

jul

ago

2007

set

out

2008

nov

dez

60 57 54 51 48 45 jan

fev

mar

Fonte: IDET CNT/FIPE-USP

abr

mai

jun

jul 2007

ago

set 2008

out

nov 2009

jan

fev

mar

abr

mai

Fonte: IDET CNT/FIPE-USP

2009

TRANSPORTE RODOVIÁRIO INTERMUNICIPAL DE PASSAGEIROS

Milhões de Passageiros

55 50

dez

as estatísticas da empresa AAL (América Latina Logística), que não disponibilizou seus dados. A tendência é de que em 2009 a movimentação de cargas ferroviárias não ultrapasse a verificada em 2007 e 2008. Já o transporte aquaviário de cargas em março deste ano foi 31,4% maior do que o do mês anterior, fato impor-

jun

jul 2007

ago

set 2008

out

nov

dez

2009

tante após as quedas dos meses anteriores. O Idet CNT/Fipe-USP é um indicador mensal do nível de atividade econômica do setor de transporte no Brasil. 



Milhões de Passageiros

60

Para a versão completa da análise, acesse www.cnt.org.br. Para o download dos dados, www.fipe.org.br


FERROVIÁRIO MALHA FERROVIÁRIA - EXTENSÃO EM KM Total Nacional Total Concedido Concessionárias Malhas concedidas* Fonte: ANTT(relatório 2007)

BOLETIM ESTATÍSTICO

MALHA RODOVIÁRIA - EXTENSÃO EM KM PAVIMENTADA

TOTAL

13.636 74.940 6.365 23.421 113.451 219.999 1.288.941 1.315.711 1.422.393 1.634.071

Fonte: PNV-2008 - DNIT

Malha Rodoviária Concessionada Adminstrada por concessionárias privadas* Administrada por Operadoras Estaduais

13.810 12.746 1.064

Fonte: ABCR(2009)* e ANTT (jul/06)

FROTA DE VEÍCULOS - UNIDADES Caminhão Cavalo mecânico Reboque Semi-reboque Ônibus interestaduais* Ônibus intermunicipais Ônibus fretamento* Ônibus urbanos**

1.939.276 339.865 624.917 549.643 13.907 40.000 25.120 105.000

Fonte: Denatran (jan/2009), *ANTT (2007) e **NTU (regiões metropolitanas)

Nº de terminais rodoviários

9.863 1.674 7.304 9.473 28.314

Fonte: ANTT(relatório 2007)

NÃO PAVIMENTADA

61.304 17.056 106.548 26.770 211.678

*VALEC é operacionalizada pela Vale do Rio Doce

MALHA POR CONCESSIONÁRIA - EXTENSÃO EM KM Companhia Vale do Rio Doce/FCA MRS Logística S.A. ALL do Brasil S.A. Outras Total

RODOVIÁRIO

Federal Estadual Coincidente Estadual Municipal Total

29.817 28.314 11 12

173

MATERIAL RODANTE - UNIDADES Vagões Locomotivas Carros (passageiros urbanos)

87.150 2.624 1.670

Fonte: ANTF(2007) e Min. Cidades 2003

PASSAGENS DE NÍVEL - UNIDADES Total Críticas

12.273 2.611

Fonte: ANTF 2007

VELOCIDADE MÉDIA OPERACIONAL Brasil EUA

25 km/h 80 km/h

Fonte: AAR - Association of American Railroads

AEROVIÁRIO AEROPORTOS - UNIDADES Internacionais Domésticos Pequenos e aeródromos

33 33 2.498

Fonte: INFRAERO(2008) e ANAC (2006)

AERONAVES - UNIDADES A jato Turbo Hélice Pistão Total

Fonte: ANTT 2006

AQUAVIÁRIO

778 1.638 9.204 11.620

Fonte: ANAC (2009)

INFRAESTRUTURA - UNIDADES Terminais de uso privativo Portos FROTA MERCANTE - UNIDADES Embarcações de cabotagem e longo curso

42 40

MODAL

141

Fonte: ANTAQ (2009)

HIDROVIA - EXTENSÃO EM KM E FROTA Rede fluvial nacional Vias navegáveis Navegação comercial Embarcações próprias Fonte: ANTAQ (2009)

MATRIZ DO TRANSPORTE DE CARGAS

44.000 29.000 13.000 1.148

Rodoviário Ferroviário Aquaviário Dutoviário Aéreo Total Fonte: *TKU - tonelada quilômetro útil ANTT(relatório 2007)

MILHÕES

(TKU)* 485.625 164.809 108.000 33.300 3.169 794.903

PARTICIPAÇÃO

(%) 61,1 20,7 13,6 4,2 0,4 100


76

CNT TRANSPORTE ATUAL

JULHO 2009

BOLETIM ECONÔMICO

INVESTIMENTOS FEDERAIS EM INFRAESTRUTURA DE TRANSPORTES

R$ bilhões

Investimentos Federais em Transportes (janeiro a maio/2009)

12000 10000 8000 6000

Investimentos Liquidados por Modal (R$ 524,9 milhões) - Governo Federal (janeiro a maio/2009)

12.002,1

R$ 46,6 mi (9%)

4000 2000 0

R$ 262,1 mi (50%)

2.569,1

524,9

R$ 216,1 (41%)

Autorizado Investimento liquidado Total pago Obs.: O Total Pago inclui valores pagos do exercício atual e restos a pagar pagos do ano anterior.

Arrecadação no mês (maio) Arrecadação no ano (2009) Total acumulado desde 2002 Investimentos em transportes pagos com CIDE (desde 2002) CIDE não utilizada em transportes (desde 2002)

359 815 52.598 20.450,3 (38,9%) 32.147,7 (61,1%)

* Obs.: vide maiores detalhes no site http://sistemacnt.cnt.org.br/rd/boletim_economico.htm

R$ bilhões

Arrecadação X Investimentos Pagos: Recursos da CIDE

60 50 40 30

52,6

20,5

20 10 0 2 200

Ferroviário

(R$ MILHÕES)

3 200

Arrecadação Acumulada

4 200

5 200

6 200

7 200

8 200

Investimento Pago Acumulado

CIDE - Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, Lei 10.336 de 19/12/2001. Atualmente é cobrada sobre a comercialização de gasolina (R$ 0,18/liltro) e diesel (R$ 0,03/litro) e a destinação dos recursos engloba o subsídio e transporte de combustíveis, projetos ambientais na indústria de combustíveis e investimentos em transportes.

Aquaviário

CONJUNTURA MACROECONÔMICA - MAIO/2009 2008 Inflação IPCA (%) Câmbio (R$/US$) Selic (%a.a.) PIB (% cresc. ao ano) Balança Comercial (US$ bilhões)

5,9

2009 Acumunlado 12 meses 1,71(1)

5,20(1) 1,97(2)

2,34 13,75

10,25 (4)

5,08

-1,8

24,7

9,4(5)

Expectativa para 2009 4,33 2,04

(3)

9 (4)

3,1

-0,73

25,6(5)

20

Observações: 1 - Inflação acumulada no ano e em 12 meses até maio/2009. 2 - Câmbio de fim de período maio/2009, média entre compra e venda. 3 - Meta Taxa Selic conforme Copom 29/04/2009. 4 - PIB acumulado em 12 meses, até março/2009. 5 - Balança Comercial acumulada no ano e em 12 meses até maio/2009. Fontes: Receita Federal, COFF - Câmara dos Deputados (acumulado até 02/06/2009), IBGE e Focus - Relatório de Mercado (29/05/09), Banco Central do Brasil.



CIDE

Rodoviário

* Para saber mais: http://sistemacnt.cnt.org.br/rd/boletim_economico.htm

NECESSIDADES DE INVESTIMENTOS DO SETOR DE TRANSPORTES BRASILEIRO: R$ 280 BILHÕES (PLANO CNT DE LOGÍSTICA BRASIL - 2008)


EMISSÕES DE CO2 NO BRASIL (EM MILHÕES DE TONELADAS - INCLUÍDO MUDANÇA NO USO DA TERRA) EMISSÕES DE CO2 POR SETOR CO2 t/ANO 776,33 94,32 74,07 42,51 25,60 16,87 1.029,71

SETOR

Mudança no uso da terra Transporte Industrial Outros setores Energia Processos industriais Total

BOLETIM AMBIENTAL DO DESPOLUIR

RESULTADOS DO PROJETO DE REDUÇÃO DAS EMISSÕES DE POLUENTES PELOS VEÍCULOS NÚMEROS DE AFERIÇÕES JANEIRO A ABRIL 2007 E 2008 DE 2009 100.800 Aprovação no período 83,87 %

EMISSÕES DE CO2 POR MODAL DE TRANSPORTE CO2 t/ANO 83,30 6,20 3,56 1,26 94,32

MODAL

MAIO TOTAL

36.150

2009 8.034

144.984

84,44 %

86,62 %

-

DE

(%) 75,4% 9,2% 7,2% 4,1% 2,5% 1,6% 100%

PARTICIPAÇÃO

Rodoviário Aéreo Marítimo Ferroviário Total

EMISSÕES DE CO2 NO TRANSPORTE RODOVIÁRIO POR TIPO DE VEÍCULO CO2 t/ANO 36,65 32,49 8,33 5,83 83,30

VEÍCULO

ESTRUTURA DO DESPOLUIR Federações participantes Unidades de atendimento Empresas atendidas Caminhoneiros autônomos atendidos

21 56 2.879 3.128

Fonte: Sistema de Informações do Despoluir, Confederação Nacional do Transporte - CNT, 2009.

(%) 88,3% 6,6% 3,8% 1,3% 100%

PARTICIPAÇÃO

Caminhões Veículos leves Comerciais leves - Diesel Ônibus Total

(%) 44% 39% 10% 7% 100%

PARTICIPAÇÃO

Fonte: Inventário de Emissões, Ministério da Ciência e Tecnologia - MCT, 2006.

CONSUMO DE COMBUSTÍVEL NO BRASIL

EMISSÕES DE CO2 NO MUNDO

CONSUMO DE ÓLEO DIESEL POR SETOR

(EM MILHÕES DE TONELADAS - EXCLUÍDO MUDANÇA NO USO DA TERRA) 3

m 33,88 6,01 1,70 0,85 0,33 42,78

SETOR

MILHÕES DE

Transporte Agropecuário Transformação * Industrial Outros Total

(%) 79,2% 14% 4% 2% 0,8% 100%

PARTICIPAÇÃO

CONSUMO DE ÓLEO DIESEL POR MODAL DE TRANSPORTE 3 MODAL MILHÕES DE m PARTICIPAÇÃO (%) Rodoviário 32,71 96,6% Ferroviário 0,69 2% Hidroviário 0,48 1,4% Total 33,88 100%

PAÍS

1 - EUA 2 - China 3 - União Européia (25) 4 - Rússia 5 - Japão 6 - Índia 7 - Alemanha 8 - Reino Unido 9 - Canadá 10 - Coréia do Sul 19 - Brasil

CO2 t/ANO 5.888,7 5.204,8 4.017,1 1.575,3 1.304,2 1.199 856,6 551,3 549,1 507 346,2

PARTICIPAÇÃO (%) 19,8% 17,5% 13,5% 5,3% 4,4% 4% 2,9% 1,8% 1,8% 1,7% 1,2%

Fonte: Climate Analysis Indicators Tool - CAIT, World Resources Institute, 2008.

* Geração de eletricidade. Fonte: Balanço Energético Nacional - BEN, Ministério de Minas e Energia - MME, 2008.

TEOR MÁXIMO DE ENXOFRE (S) NO DIESEL*

CONSUMO POR TIPO DE COMBUSTÍVEL (EM MILHÕES m3) TIPO 2006 2007 2008 2009 (ATÉ ABRIL)

Japão EUA Europa

Diesel

39,01

41,56

44,76

13,46

Gasolina

24,01

24,32

25,17

8,10

6,19

9,37

13,29

4,99

Álcool

Fonte: Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis - ANP, 2009.

10 ppm de S 15 ppm de S 50 ppm de S

frotas cativas de ônibus urbanos das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro e regiões metropolitanas de 50 ppm de S Brasil Belém, Fortaleza e Recife Diesel metropolitano (grandes centros urbanos) 500 ppm de S Diesel interiorano 1.800 ppm de S * Em partes por milhão de S - ppm de S Fonte: International Fuel Quality Center - IFQC, 2008.


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CNT TRANSPORTE ATUAL

JULHO 2009

“EM POUCAS CIDADES SERÁ JUSTIFICÁVEL A IMPLANTAÇÃO DE SERVIÇOS METROFERROVIÁRIOS DE MAIOR CAPACIDADE CUJOS CUSTOS SÃO MAIORES”

TENDÊNCIAS

CORREDOR DE ÔNIBUS É A MELHOR ALTERNATIVA PARA

Construção de corredores de ônibus ocupa papel estratégico MARCOS PIMENTEL BICALHO

s congestionamentos são endêmicos nas grandes cidades e já aparecem como problema, ainda que de forma localizada, em cidades pequenas e médias, causando perdas econômicas e deterioração progressiva da qualidade da vida urbana. Urbanistas e especialistas em transporte constatam o esgotamento de um modelo de mobilidade urbana baseado no transporte individual e apontam a necessidade de sua substituição por sistemas de transporte coletivo eficientes e atraentes para a população, inclusive para os segmentos de maior renda. Evidentemente, não há uma solução única para todas as cidades, mas o cardápio de medidas a serem adotadas não varia muito: planejamento de transporte integrado ao planejamento urbano; organização dos serviços de transporte coletivo em redes multimodais e integradas (operacional e tarifariamente); prioridade aos meios de transporte coletivo no uso do sistema viário; restrição ao uso dos meios de trans-

O

MARCOS PIMENTEL BICALHO Superintendente da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos)

porte individual; investimento significativo na expansão e na melhoria da infraestrutura dedicada ao transporte coletivo urbano; uso intenso da tecnologia para dar qualidade e regularidade à operação, entre outras. Nesse conjunto de medidas, a construção de corredores de ônibus ocupa papel estratégico. Os ônibus são - e continuarão sendo - o principal modo de transporte nas cidades brasileiras. Em poucas cidades e, nelas, em poucas situações, será justificável a implantação de serviços metroferroviários de maior capacidade - como metrôs e VLTs - cujos custos e tempos de implantação são muito maiores. Sem desconsiderar a essencialidade desses modos em alguns casos, os ônibus continuarão a responder pela maior parcela das viagens urbanas, pela flexibilidade operacional, relativos baixos custos de construção e operação e pelo domínio da tecnologia pelos operadores. A experiência nacional (Curitiba com destaque) e internacional (Bogotá em particular) demons-

trou que, com operação em via segregada do transporte individual e explorando bem os recursos de projeto e de operação, os ônibus melhorarm muito o seu desempenho e atendem, com qualidade, a demandas significativamente altas. Por outro lado, também no Brasil (São Paulo) foi comprovado que soluções de baixo impacto, como as faixas exclusivas à esquerda, com simples controle eletrônico, apesar de limitadas, podem ser rapidamente implantadas, e em larga escala, obtendo resultados significativos na redução dos tempos de viagem, na regularidade da operação e na melhoria da qualidade do serviço. Os corredores de ônibus oferecem uma resposta rápida para a melhoria da eficiência e da qualidade (portanto, da atratividade) dos serviços de transporte coletivo, com investimentos em uma escala viável para a realidade brasileira, dependendo apenas da decisão política de, efetivamente, priorizar os meios de transporte coletivo no uso do espaço público viário.


CNT TRANSPORTE ATUAL

JULHO 2009

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“A QUANTIDADE DE CARROS EM MUITAS CIDADES MOSTRA QUE AS PESSOAS JÁ NÃO CONSEGUEM SE DESLOCAR COM SEUS MEIOS PARTICULARES”

FACILITAR O TRÁFEGO NAS GRANDES CIDADES?

Prioridade do transporte coletivo sobre o individual LUIZ FILLA

uando falamos de corredor de ônibus, na prática estamos tratando da prioridade do transporte coletivo sobre o individual, que, quando aplicada nas cidades de forma adequada, torna o transporte coletivo atrativo, absorvendo demanda do automóvel, diminuindo sua utilização e, no efeito cascata, melhora a utilização do sistema viário compartilhado. Para sua eficiência, os corredores de ônibus requerem outros atributos, como a integração com o uso do solo e o sistema viário do entorno, a garantia da velocidade média operacional dos ônibus almejada, a inteligência semafórica, a organização local do transporte com ônibus de maior capacidade nas linhas troncais, infraestrutura apropriada, o atendimento aos desejos de destino, segurança, conforto e a possibilidade de ultrapassagem para deslocamentos diretos. A simples comparação dos espaços ocupados nos deslocamentos individualizados pelas

Q

pessoas em seus automóveis, quantitativamente com a capacidade e tamanho dos ônibus, indicam claramente que estabelecer a prioridade no espaço viário para o transporte coletivo está se garantindo, pelo menos, a mobilidade urbana de uma quantidade maior de pessoas na ocupação do espaço a ser utilizado. A espiral da mobilidade vai buscando caminhos para ir-e-vir. A quantidade de automóveis em muitas cidades mostra que as pessoas já não conseguem se deslocar com seus meios particulares. O coletivo, se priorizado, ainda se movimenta. Neste momento, o cidadão deixa seu sonho de consumo em casa e passa a utilizar o modal de maior capacidade. Na espiral teremos menos um automóvel nas ruas. E se o modal de maior capacidade for ágil, seguro, com oferta adequada, custo acessível, em espaços de circulação exclusiva e padrão de qualidade atrativa, certamente não será apenas um, e sim muitos automóveis fora das ruas, permitindo para aqueles

que ainda se mantém no individual também consigam, mesmo que de forma lenta, ainda se movimentar. Curitiba vem investindo nesse processo desde a década de 70. A integração do transporte coletivo com o uso do solo no denominado sistema trinário, composto de canaletas exclusivas com vias lentas para acesso local e vias paralelas de sentido único para a circulação de veículos privado, com uma ocupação diferenciada. O sistema de transporte coletivo, nesse conjunto, compõe a estrutura principal de mobilidade da cidade. A RIT (Rede Integrada de Transporte) está caracterizada atualmente com 82 km de canaletas exclusivas em seis grandes corredores, sendo que, o sexto, com 9 km, inaugurado em maio deste ano, será estendido em mais 9 km, brevemente. Se há 35 anos as diretrizes já indicavam o caminho da prioridade do transporte coletivo, hoje, certamente, é a garantia da mobilidade dos ônibus e seus milhares de usuários.

LUIZ FILLA Engenheiro civil, gestor da Área de Operação do Transporte Coletivo de Curitiba e Região Metropolitana


CNT TRANSPORTE ATUAL

JULHO 2009

81

“Nossa meta é qualificar 400 mil taxistas num período de 34 meses, usando 71 unidades do Sest/Senat espalhadas por todo o país” CLÉSIO ANDRADE

OPINIÃO

Os taxistas e a Copa de 2014

T

radicionalmente identificados como grandes difusores de ideias e multiplicadores de boas práticas, os taxistas serão alvo de uma importante ação da Confederação Nacional do Transporte, por meio do Sest /Senat, com vista à Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Afinal, os profissionais desse transporte são o primeiro contato dos turistas na cidade ou no país e devem dar o tom de boas vindas necessário ao viajante que chega. Como estão em contato direto com os turistas, a qualidade de seu atendimento tem impacto direto na imagem que o usuário passa a ter da cidade ou mesmo do país que está visitando. Uma percepção que vai além da simples simpatia. É o taxista o primeiro a ajudar o turista a formar uma opinião sobre o povo que o recebe e, não raro, é a primeira fonte de informações sobre o país ou a cidade e a primeira porta de avaliação do turista, quanto à honestidade e hospitalidade do povo e sobre as condições de vida e segurança do lugar que visita. O evento mundial de futebol de 2014 fará com que nosso país receba um grande número de turistas estrangeiros, o que vai exigir um maior nível de qualificação do profissional de praça, especialmente os das 12 cidades-sede dos jogos - Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Mas, certamente, haverá também uma demanda especialmente maior nas cidades consideradas portas de entrada do turismo internacional, polos turísticos e cidades fron-

teiriças, como Florianópolis, Foz do Iguaçu, Uruguaiana, Maceió, São Luís, Belém e Vitória. Pensando nisso, o Sest/Senat elaborou o projeto Taxista Bandeira 10, que será oferecido proximamente aos profissionais de todas as cidades onde haverá jogos da Copa do Mundo de 2014. Nossa meta é qualificar 400 mil taxistas num período de 34 meses, usando 71 das quase 130 unidades do Sest/Senat espalhadas por todo o país. Entre outros, ofereceremos cursos básicos de línguas - inglês e espanhol -, além de treinamento em “Excelência no Atendimento ao Turista” e “Segurança e Economia no Transporte por Táxi”. O objetivo principal é melhorar o atendimento ao turista estrangeiro, oferecendo condições para que o taxista se comunique de forma clara e forneça informações turísticas e essenciais para o dia a dia dos estrangeiros em visita no nosso país. Temos certeza de que com nosso trabalho estaremos ajudando o Brasil a ampliar sua atratividade nesse disputado ramo da indústria do turismo. É certo que o aumento dos visitantes no Brasil no período dos jogos da Copa do Mundo refletirá também no fluxo turístico mesmo após a Copa, intensificando a divulgação no exterior por meio da nossa cultura e riqueza patrimonial. Vemos, portanto, no projeto Taxista Bandeira 10 a oportunidade de mostrar, mais uma vez, o quanto a CNT se preocupa com os profissionais que representa, oferecendo-lhes sempre melhores condições de trabalho e de aprimoramento dos serviços que prestam à sociedade.


82

CNT TRANSPORTE ATUAL

CNT CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO TRANSPORTE PRESIDENTE Clésio Soares de Andrade PRESIDENTE DE HONRA DA CNT Thiers Fattori Costa VICE-PRESIDENTES DA CNT

JULHO 2009

Marcus Vinícius Gravina Tarcísio Schettino Ribeiro José Severiano Chaves Eudo Laranjeiras Costa Antônio Carlos Melgaço Knitell Abrão Abdo Izacc Francisco Saldanha Bezerra Jerson Antonio Picoli José Nolar Schedler Mário Martins

Escreva para CNT TRANSPORTE ATUAL As cartas devem conter nome completo, endereço e telefone dos remetentes

DOS LEITORES revistacnt@acsmidia.com.br

TRANSPORTE DE CARGAS

Newton Jerônimo Gibson Duarte Rodrigues TRANSPORTE AQUAVIÁRIO, FERROVIÁRIO E AÉREO

Meton Soares Júnior TRANSPORTE DE PASSAGEIROS

Marco Antonio Gulin TRANSPORTADORES AUTÔNOMOS, DE PESSOAS E DE BENS

José Fioravanti PRESIDENTES DE SEÇÃO E VICE-PRESIDENTES DE SEÇÃO TRANSPORTE DE PASSAGEIROS

Otávio Vieira da Cunha Filho Ilso Pedro Menta TRANSPORTE DE CARGAS

Flávio Benatti Antônio Pereira de Siqueira

TRANSPORTE RODOVIÁRIO DE CARGAS

Luiz Anselmo Trombini Eduardo Ferreira Rebuzzi Paulo Brondani Irani Bertolini Pedro José de Oliveira Lopes Oswaldo Dias de Castro Daniel Luís Carvalho Augusto Emílio Dalçóquio Geraldo Aguiar Brito Viana Augusto Dalçóquio Neto Euclides Haiss Paulo Vicente Caleffi Francisco Pelúcio

TRANSPORTADORES AUTÔNOMOS, DE PESSOAS E DE BENS TRANSPORTADORES AUTÔNOMOS, DE PESSOAS E DE BENS

José da Fonseca Lopes Edgar Ferreira de Sousa TRANSPORTE AQUAVIÁRIO

Glen Gordon Findlay Hernani Goulart Fortuna TRANSPORTE FERROVIÁRIO

Rodrigo Vilaça TRANSPORTE AÉREO

Urubatan Helou José Afonso Assumpção CONSELHO FISCAL (TITULARES) David Lopes de Oliveira Éder Dal’lago Luiz Maldonado Marthos José Hélio Fernandes CONSELHO FISCAL (SUPLENTES) Waldemar Araújo André Luiz Zanin de Oliveira José Veronez DIRETORIA TRANSPORTE RODOVIÁRIO DE PASSAGEIROS

Luiz Wagner Chieppe Alfredo José Bezerra Leite Jacob Barata Filho José Augusto Pinheiro

Edgar Ferreira de Sousa José Alexandrino Ferreira Neto José Percides Rodrigues Luiz Maldonado Marthos Sandoval Geraldino dos Santos Dirceu Efigenio Reis Éder Dal’ Lago André Luiz Costa José da Fonseca Lopes Claudinei Natal Pelegrini Getúlio Vargas de Moura Braatz Nilton Noel da Rocha Neirman Moreira da Silva TRANSPORTE AQUAVIÁRIO, FERROVIÁRIO E AÉREO

Luiz Rebelo Neto Paulo Duarte Alecrim André Luiz Zanin de Oliveira Moacyr Bonelli José Carlos Ribeiro Gomes Paulo Sergio de Mello Cotta Marcelino José Lobato Nascimento Ronaldo Mattos de Oliveira Lima José Eduardo Lopes Fernando Ferreira Becker Pedro Henrique Garcia de Jesus Jorge Afonso Quagliani Pereira Eclésio da Silva

VICINAIS A reportagem veiculada na edição 166 da CNT Transporte Atual referente à infraestrutura, que abordou as estradas vicinais, foi muito pertinente e interessante. O tema merece destaque sempre. O descaso das autoridades para com essas vias é absurdo. Parabenizo a publicação pelo alerta e sugiro que a equipe da revista acompanhe com acuidade os assuntos acerca das estradas vicinais que, junto a toda malha rodoviária do país, é de extrema importância para a economia nacional. Fábio Chaves Chapecó/SC VEÍCULOS ELÉTRICOS A última edição da CNT Transporte Atual, que destacou os veículos elétricos, agradou-me bastante. A reportagem “O desafio está lançado” abordou muito bem o tema. A energia limpa e iniciativas em prol do meio ambiente devem ter sempre espaço em uma publicação de alcance como essa revista. Foi bom saber que o transporte coletivo foi o pioneiro no Brasil na iniciativa de colocar nas

ruas veículos híbridos. Resta ao setor continuar as pesquisas e ter iniciativa para seguir adiante com projetos sustentáveis para o transporte. Lucas Tadeu Oliveira São Paulo/SP DOCUMENTÁRIO Muitas cidades brasileiras nasceram à beira dos trilhos. A Estrada de Ferro de Araraquara viveu momentos de apogeu no século passado e possui uma trajetória recheada de muitas histórias e curiosidades. Pena que, desde 2007, a prefeitura começou o processo de retirada dos trilhos por causa de uma das obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Por meio desta revista, fiquei sabendo que tudo isso agora vai ser contado no filme “O Apito do Trem”, que, tenho certeza, vai resgatar, com fidelidade, a memória dessa ferrovia e, pela relevância do tema, ser um sucesso de bilheteria. Humberto Messias Bauru (SP) CARTAS PARA ESTA SEÇÃO

Av. Dom Pedro 2º, 4050 Salas 5 e 6 • Caiçara 30720-460 - Belo Horizonte (MG) Fax: (31) 2551-7797 E-mail: revistacnt@acsmidia.com.br Por motivo de espaço, as mensagens serão selecionadas e poderão sofrer cortes



Revista CNT Transporte Atual - Jul/2009