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AdvertĂŞncia I

Para ler ao som das mĂşsicas Beijo no Asfalto e Mar ao Fundo, ambas de Ava Rocha


Advertência II Este conto integra o capítulo “Iracema”, da tese “Iracema, horizontes de memória do mito incessante“. Pode ser lido separadamente, mas é bom lembrar que há um contexto.


Advertência III Este conto contém fortes cenas de violência contra mulher.


PRÓLOGO O relato a seguir aconteceu. Eu imaginava que essa história era sobre Fortaleza, a cidade em que nasci. É tipo uma dessas narrativas fantásticas que a gente acha que só acontece por lá. Porque é isso, né? Mania de se achar o centro do mundo, que o mundo só existe mediado por nós, pela nossa percepção. Você ainda não entendeu? Mania besta. O mundo existe independente de você, querido! Deixe de onda. Deixe eu contar essa história. Ela aconteceu em Fortaleza, mas poderia ser em várias outras cidades. Tipo em Virgínia, nos Estados Unidos. Ou na Cidade do México, por exemplo. É a história de uma personagem que virou livro. Não, melhor. A história de um livro que virou personagem. Na verdade, na verdade, é a história de um livro que teve uma personagem que escapuliu. Não sei se foi raptada, não sei! O


povo diz que é lenda. Por isso, quase ninguém dá muito cabimento. Eu prefiro pensar que são os fantasmas. Mas o fato é que foi pela Praia dos Crush. Assim, não sei bem ao certo, mas acho que ali entre o Estoril e o Mincharia. Da forma como conto, tamanha a bizarrice, pode até dar vontade de rir. Mas, por favor, não ria. É uma história cruel. E a violência aqui não está nos olhos de quem vê. Esqueça isso. Apenas sinta, garoto. É na pele! Estou falando de sangue, de cheiro, de fedor de sangue estancado nas veias.


Havia uma revista. Na capa, estava ela. Os peitos cobertos pelos cabelos de graúna, uma chamada para desbravar as matas virgens da modelo global. Natália. Lá do Ceará. Antigamente Nara, hoje Prada. Natália Nara, o nome, não existe mais, ficaram as fotos. Não perderam o seu retrato. Ele sentou no banheiro e, guloso, nem reparou na legenda dizendo que o jantar estava pronto. Ele, na fantasia de português, na busca de alegria, pulou o making off, não leu nada, e não percebia que aquele pau duro, ereto, pronto para melar as páginas da revista era uma arma. Não deu tempo do luto. “Mas eu vi tua mão agir. Tua força sobre mim. Conheci teu caráter, e o mundo pra mim nunca mais foi o mesmo”, Natália Prada postou depois do Facebook. Essa é também uma história de choros. Choro inocentes sem muitas compreensões. O pau não chora. Em um requinte de crueldade, ele goza. E a porra branca, viscosa, engasga, tenta reter as lágrimas da vítima e das testemunhas. Estamos diante de um crime. Com a mão esquerda no pau e a direita pas-


sando as páginas, ele toma um susto. Na página seguinte, Natália sumiu, desapareceu. Era um desenho, uma pintura daquelas de antigamente. A mulher não deixa ver seu rosto, está ajoelhada, como se estivesse rezando. Chorando, talvez. Cabisbaixa, suas costas listas para o mar. Na areia, de cabelos negros, molhados. O mar ao fundo pesando na espuma com as lágrimas de uma mulher. Uma praia deserta, algumas poucas árvores, sem sombra, muita areia. No mar, num horizonte, uma jangada quase imperceptível. O mar é a grande testemunha dessa história. O mar e a Jandaia. O pau dele brochou. O suor aumentou. Não é exatamente uma página de revista. Ele pode penetrar a imagem. Como numa história de ficção científica, a imagem da mulher branca chorando vira um plasma penetrável. Tal areia movediça, a imagem suga aquilo que lhe toca, mas não prende. Ele toca com o dedo e entra num orifício infinito. Tira o dedo com medo, cutuca de novo. E de novo, de novo, e, aos pouco, vai pegando o movimento, excitante até.


Genty, que loucura! Pois é. Aí, ele enfiou o pau. Ela, de costa, sem olhar para o seu rosto. Ele enfia o pau nela. E continua, e continua, e vai mais rápido, e o pau dentro daquela imagem e ele já viajando muito, já quase gozando… Aí, pow. Um papoco medonho. A revista cai da sua mão, um filhote de guaiamum belisca a cabeça de seu cacete e vai subindo nos seus vastos pelos pubianos. Ele joga o bicho para o lado, pega de novo a revista e, no canto do banheiro, encontra uma flecha, uma flor do maracujá e um pequeno cartão.


Não é sonho, não é uma história do Saramago, muito menos do Gabriel García Márquez. Tem coisas que não adianta muito enquadrar. Mas já que você precisa tanto de uma categoria, coloque aí: relato de um crime. Ele sai do banheiro, agora sabemos que sua casa tem uma biblioteca com muitos livros. Capítulo XXVI, tá lá escrito, pode conferir, pra depois num dizer que tô inventando. “Seus olhos viram a seta do esposo fincada no chão, o goiamum trespassado, o ramo partido, e encheram-se de pranto. — Ele manda que Iracema ande para trás, como o goiamum, e guarde sua lembrança, como o maracujá guarda sua flor todo o tempo, até morrer. A filha dos tabajaras retraiu os passos lentamente, sem volver o corpo, nem tirar os olhos da seta de seu esposo, e tornou à cabana. Aí sentada à soleira, com a fronte nos joelhos esperou, até que o sono acalentou a dor em seu peito”. Termina de ler o capítulo. É um homem


letrado, mas ainda não gozou. Volta para o banheiro. O guaiamum está preso dentro do box. A revista parece intacta, nada aconteceu. A imagem do quadro penetrável sumiu. Não ficou nenhum registro. Ele desiste da punheta. Sai de casa. Chega num bar e pede uma coca-cola. Poderia ser uma cerveja, uma caipirinha, ou até mesmo uma peixada no leite de coco. Mas ele pediu uma coca-cola. Senta numa mesa e olha para a garota ali perto, a mais nova. Ela coloca a mão no peito, olha para ele e passa a língua pelos lábios. Empurra a língua por dentro da bochecha simulando um boquete e rir. Ele já está de pau duro, armado. Ele pisca o olho, levanta a latinha do refrigerante oferecendo. Ela chega junto e se senta. Deixa eu ver se seu peito é durinho, já enfiando a mão no decote dela. Vai chover. Melhor sairmos daqui. Eu moro aqui perto. Ela geme, grita! Geme, grita! E, deitada, ela coloca o braço sobre a cabeça, tampa os olhos. E ele lá, metendo, metendo, metendo. O buraco entupiu. Não consegue mais enfiar nada. Acen-


de a luz, ela continua a gritar, gemer. Há muito sangue no lençol. Um choro sai de dentro dela. Uma cabeça de criança saindo de seu priquito. Puta que pariu. A criança vai saindo, saindo, saiu. Chora muito, muita dor. O choro aumenta. Uma outra criança começa a nascer. Nasceu a segunda, e veio a terceira, veio a quarta, veio a quinta, não parava mais de sair crianças, era uma máquina parideira. Tava perdendo as contas, quando uma criança explodiu. E a cada criança que nascia uma outra explodia. Pedaços dos corpos dos bebês escorrendo sangue se espalham pelo quarto. Na parede, onde o sangue triscava, surgiam rostos de homens usando estetoscópios rindo sarcasticamente. Era muita risada, pareciam umas hienas. A garota continua a parir, as crianças a explodir. Ela geme, fala alguma coisa, e ele não escuta. Tenta levantar da cama, aí cai no chão. Morta. Ele sai do quarto. Fecha a porta. Saiu de casa e nunca mais voltou. Acontece que depois que a garota saiu do bar, Jandaia, a amiga dela, travesti, conhecida de geral, não conseguiu dormir direito. Sen-


tiu aquela coisa no peito, que só quem sente entende. É como aquele vento que anuncia a chuva. E choveu muito. No dia seguinte, a amiga ainda não tinha voltado, foi até a delegacia. Ela saiu ontem com aquele professor gostoso que mora ali na rua dos Tabajaras. A galera não deu nenhuma confiança pra Jandaia. Os polícias riam da cara dela. Se preocupasse não, ela devia tá dando expediente duplo, ia voltar com uma feira grande. Se ela não trouxer o de comer, aí sim, você vem aqui e faz uma denúncia contra essa vadia. Os risos daqueles machos forçavam Jandaia a rir, melhor do que apanhar. O delegado só veio escutar o que Jandaia disse uns três dias depois, quando um colega da universidade prestou a queixa do desaparecimento do professor. Eles arrombam a porta da casa. A televisão ligada. Vão até o quarto e abrem a porta. Só sei do cheiro podre e silencioso. Tava pôde demais. Durou uns três segundos e é impossível de descrever o estado do quarto. No banheiro, o guaiamum estava morto. A revista aberta na última página do ensaio fotográfico de Natália. O policial não leu o que


naquela página estava escrito. “Em 1500, eles chegaram aqui e encontraram nossas belezas naturais como vieram ao mundo. Agora chegou a vez: espie Natália Nara, a Iracema do BBB5, brincando de índia”. Mas ele gostou da brincadeira, dobrou a revista e colocou debaixo do braço. Não reparou na flecha, nem na flor do maracujá com o roxo ainda mais roxo, como se tivesse sido pintada há pouco. Não havia nenhum rastro dele. Na mesa da sala, um maço de cigarro pela metade, uma latinha de coca-cola aberta e sem gás. Na televisão, um historiador se indignava com a falta de memória e o desrespeito da cidade com os seus símbolos. O jornal tava fazendo um alarde danado porque, na madrugada anterior, debaixo de chuva, alguém foi lá na estátua de Iracema e pixou “matas virgens, virgens mortas”.


Aconteceu na praia dos crush  
Aconteceu na praia dos crush  
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