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©Pepedelrey

THE LISBON STUDIO WEBMAG#05 Autores TLS

André Oliveira, Filipe Andrade, Filipe D. Pina, Joana Afonso, João Maio Pinto, Jorge Coelho, Nuno Duarte, Nuno Saraiva, Pedro Brito, Pedro Ribeiro Ferreira, Pepedelrey, Ricardo Drumond.

Autores Convidados

Pedro Moura, Sérgio Sequeira, Noémia Neres, Pedro Potier.

Coordenação

Pepedelrey, Pedro Brito, André Oliveira

Capa

Ricardo Cabral

Copyright © 2014 The Lisbon Studio Todos os trabalhos apresentados têm Copyright © dos seus respectivos autores. www.thelisbonstudio.com

Design e paginação Pedro Brito


(INTRO)

Pepedelrey

Another year, another turn to real life and imagination. Time has left its marks but the eagerness to make and invent other eras, other worlds, the restlessness pleasure of invention doesn’t stop. We can’t just stand still. We have to create. Even if the images that we deliver to you are not entirely new, it’s always a unique approach. It’s painful to attempt, only thinking about doing it’s already hurtful. Turning the sheet of the calendar and finding nothing really innovative. We are not a calendar but we keep a schedule, production and editing, to hand out to you a new edition of the TLS WebMag.

De novo, mais um ano, mais uma volta às vidas reais e às da imaginação. O tempo que passou deixou marcas mas o nervosismo de criar e inventar outros tempos, outras vidas, essa inquietação de prazer inventivo, não pára. Não conseguimos ficar parados a olhar. Criamos. Mesmo que os mundos que vos damos a ver e conhecer não sejam novos, são sempre uma abordagem original do que poderiam ser novos anos na vida de cada um. É tenebroso tentar, só o pensar em fazer já magoa, virar a folha do calendário e não encontrar nada de inovador. Não somos um calendário mas conseguimos manter o tempo certo, produção e edição, para fazer chegar até vocês mais um número da TLS WebMag.


ŠPepedelrey


JOANA AFONSO http://jusketching.blogspot.com/ http://www.joanaafonso.com/


SNEAK PEEK

André Oliveira e Joana Afonso

LIVING WILL#2 O segundo número da série de minicomics Living Will com argumento de André Oliveira e arte de Joana Afonso, editada pela Ave Rara, já está em produção. Terá como cor predominante o azul e apresenta algumas novidades relativamente à edição anterior. Além de ficarmos a conhecer uma nova personagem importante para a história, teremos a oportunidade de acompanhar o velho Will no início da missão auto-imposta: resolver todas as pontas soltas deixadas ao longo da vida. Muito em breve teremos mais novidades.


FILIPE ANDRADE

http://www.filipeandradeart.blogspot.com/


Esboços para “It must be something bigger”, com argumento de Bartosz Sztybor.


PEDRO BRITO http://cargocollective.com/pedrobrito/ http://margemsulcomic.blogspot.pt/


JORGE COELHO http://jcoelho.deviantart.com/ http://almirantefujimori.blogspot.com/


ŠPepedelrey

RICARDO Drumond

drumondart@gmail.com http://behance.net/drumond http://facebook.com/drumondart


ŠPepedelrey

NUNO DUARTE http://outronuno.blogspot.com/ http://mocifao.blogspot.com/ http://duartefolio.blogspot.com/


ŠPepedelrey

PEDRO R. FERREIRA http://somehowalongtheway.blogspot.pt/ http://www.pedroribeiroferreira.blogspot.pt/ http://www.arcodavelhanews.blogspot.pt/


ツゥPepedelrey

JOテグ

MAIO PINTO joaomaiopinto@gmail.com


ANDRÉ OLIVEIRA

http://andreoliveirabd.blogspot.pt/ http://horadosaguim.blogspot.pt/


Apresentação

HAWK

HAWK, álbum de banda desenhada escrito por André Oliveira, ilustrado por Osvaldo Medina e colorido por Inês Falcão Ferreira, está mesmo para muito breve. O livro que conta ainda com legendagem e edição de Mário Freitas pela sua Kingpin Books será apresentado já no dia 14 de Fevereiro às 18h na Sala Ogival do Castelo de São Jorge em Lisboa. O lançamento terá o apoio da EGEAC e da associação Ambifalco e, além dos autores, contará com a presença de convidados muito especiais. Para já, fica a sinopse da obra: Vicente percebe que está à beira do colapso. Sem emprego, sem uma família presente e com uma relação amorosa ainda por resolver, passa os dias em casa da sua recém-falecida avó cuja morte decidiu não enfrentar. Quando o pai anuncia que vai deixar de poder pagar-lhe as sessões de psicanálise, sente que está definitivamente entregue às fobias de sempre. Mas, à beira de mais um fim-de-semana de reclusão, algo de inesperado acontece... HAWK é uma história autêntica e emocionante que fala de prisão e de liberdade, onde uma pequena experiência pode significar grandes mudanças.


ŠPepedelrey

PEPE DELREY http://lifeofpepe.blogspot.com http://onfridays.tumblr.com http://imagesdelrey.tumblr.com


FILIPE

DUARTE PINA www.nerdmonkeys.pt/ www.caseandbot.com/


O PUTO, O SAPO E O DRAGÃO

Aqui fica uma apresentação sumária de um projecto que não chegou a ser desenvolvido por Filipe D. Pina e Filipa Andrade, dupla que realizou o álbum de BD BRK. Quem sabe, um dia ainda venha a ser… O Puto, o Sapo e o Dragão era para ser uma história contada em fascículos especialmente direccionada a crianças mas que deveria sempre ser acompanhada por adultos. Em cada fascículo abordar-se-iam temas como a sexualidade e a homossexualidade, as diferenças entre as pessoas, sentimentos como a inveja, a ganância e a ira entre muitas outras coisas. A ideia era não haver barreiras naquilo que se pode falar às crianças. O puto que viajava no balão seria uma espécie de interlocutor do mundo estranho que via à sua frente e a criança a ver o livro, e o dragão seria o mesmo para o pai ou mãe que o iriam ler ou acompanhar o filho a ler caso este já tivesse idade para tal. O sapo era suposto ser a carta solta do baralho, o personagem que colocaria sempre tudo em dúvida de forma a criar um contra-ponto ao que era perguntado pelo puto e explicado pelo dragão. Intro da história tal como ela estava escrita no argumento: “Numa terra muito distante, muito diferente da que nós conhecemos, vivia um rapaz que um dia se perdeu no caminho para casa. Nesta terra, as pessoas não podem ficar perdidas muito tempo, pois acabam também por perder o nome e, só quando alguém voltar a chamar por elas, é que elas se lembram outra vez dele. O rapaz tinha só ido dar uma volta para brincar no lago que não era muito longe da sua casa, mas como nesta terra as distâncias variam com o tempo, ao fim de umas horas o caminho para casa já ficava a dois dias de distância e continuava a aumentar. O rapaz ao sair do lago e aperceber-se que já não se lembrava do seu nome, começou a chorar com medo de não conseguir voltar para casa.”


Conto

C r ó n i ca animal Filipe Duarte Pina

O livro. Abro o livro para ver se descontraio. Estou muito nervoso por estar aqui tanto tempo à espera mas felizmente este é um bom livro. É tão bom que já o li duas vezes antes. Ler a primeira página é como voltar a casa, um lugar seguro e familiar. Conheço os locais, os personagens e de certa forma o seu passado e o seu futuro. Fico de tal forma perdido na história que esqueço logo o nervosismo. Mas infelizmente tal como aconteceu das outras duas vezes este também não é o melhor local para se ler sem ser interrompido. Enfim. É que à minha frente por detrás de um balcão de atendimento encontra-se uma hipopótamo fêmea sentada numa cadeira. Ela veste uma bata branca de hospital que a notar pelo tecido esticado à volta dos botões deve ser de vários tamanhos abaixo daquilo que seria o ideal. Está a gritar numa voz que eu não compreendo mas pela forma como todos os outros animais na fila olham em seu redor diria que está a chamar alguém. E como ela grita. Como estou num hospital calculo que ela chame por um doente ou alguém que acompanha um doente, mas eu nunca irei saber pois não falo a sua língua. Para me sentir um pouco mais integrado ou talvez apenas por mera curiosidade para ver afinal se tenho razão, olho também em volto à procura deste desgraçado, com toda a certeza irá ser trucidado pela hipopótamo fêmea quando finalmente aparecer pois parece-me que alguém que grite daquela maneira não deve gostar que a façam esperar. Enquanto giro a cabeça de um lado para o outro do corredor passo os meus olhos pelo cavalo que se encontra sentado às minha esquerda, tem um ar muito respeitável e aparenta já ter uma certa idade, não fosse pela minha incapacidade


de perceber a idade exata de um cavalo diria que este terá para aí uns sessenta anos. Eu e a minha curiosidade levam-me sempre a melhor. Miro durante demasiado tempo o equídeo e ele repara que eu passo os olhos por ele. Com uma gentileza digna de um ser desta raça vira-se para mim com toda a sua calma e com um longo sorriso diz algo enquanto aponta para o balcão de atendimento. Esta deve ser a décima vez que hoje alguém tenta falar comigo e mais uma vez tento explicar que não o compreendo, gesticulo um pouco mais que o normal enquanto falo para ver se ele percebe e ouve com clareza que a minha língua é bastante diferente da dele. Ele parece compreender que sim e abana a cabeça de forma afirmativa enquanto aponta para o livro. O livro. O livro que tenho nas mãos está em português, é fácil perceber pelo título que esta não é a língua deles e como tal não devo ser de cá. Que boa ideia que o cavalo me deu. Para a próxima mostro e aponto logo para a capa de forma a perceberem imediatamente e não me fazerem perder tempo a tentar explicar algo que não consigo. Já me basta estar nervoso com toda esta espera, não preciso que me retirem constantemente da única distração que possuo. Desta vez inclino-me mais vigorosamente para a frente e enfio a cabeça nas páginas. Começo novamente a ler e ignoro tudo o resto, espero que desta forma ninguém mais tente falar comigo enquanto aguardo, aqui neste estranho hospital. Este é provavelmente um dos livros mais fascinantes que li nos últimos tempos, daí esta ser a terceira vez que o folheio. Infelizmente sou tantas vezes interrompido que me encontro sempre a voltar uma e outra página atrás para me conseguir situar e continuar a ler. Uns berros agudos retiram-me da posição desconfortável em que me coloquei. Levanto-me e aproveito para endireitar as costas. Olho em volta. Estou no aeroporto. Este livro é tão bom que me sinto às vezes um pouco perdido, ainda há pouco estava num sítio e agora já estou noutro.


Fantástico. Volto a ouvir mais uns berros. Mesmo à minha frente está um cão muito alto e esguio, veste um fato azul escuro com uma gravata vermelha e segura um cartaz que muito provavelmente tem escrito o nome de alguém. Ele levanta o cartaz bem alto e continua a berrar o que eu calculo que seja o nome que está lá escrito. A voz dele é tão aguda que eu vejo-me obrigado a afastar, não devo ser o único a ficar com os ouvidos doridos pois todos os outros cães que aguardavam com cartazes na mão também se afastam. Aproveito esta deixa para caminhar um pouco para trás e coloco-me novamente a jeito de forma a que consigo observar o quadro gigante de chegadas e partidas. Não que eu precise de olhar para lá novamente mas o nervosismo dá nestas coisas, damos por nós a andar de um lado para o outro sem razão nenhuma e aproveitamos todas as desculpas para fazermos alguma coisa. Confirmo então pela terceira vez que o avião da minha mulher já aterrou mas tal como eu já sabia, ainda vai demorar algum tempo até que ela chegue ao local de espera de passageiros pois falta levantar a mala. Volto a procurar uma cadeira para me sentar. Sento-me na única cadeira livre de dois conjuntos de cinco, as restantes nove estão ocupadas pelo que aparenta ser uma família de marmotas. Poiso o casaco, o cachecol e as flores no meu colo e fico com o livro na mão. Mal me sento o miúdo que estava ao meu lado salta assustado para fora da cadeira dele e corre para ao pé das outras pequenas marmotas, todos se riem dele enquanto apontam para mim. Uma das duas marmotas maiores levantase e discute qualquer coisa com eles, provavelmente uma lição de moral ou talvez apenas uma valente repreensão, nunca saberei. O que é certo é que todos se calam muito rapidamente. A marmota que discursa com os jovens de dedo em riste deve ser a mãe, não fosse pelo vestido comprido eu nunca conseguiria adivinhar pois sinceramente as marmotas parecem-me todas iguais. Tento ignorar esta confusão mas já vou tarde, a mãe marmota vem ter comigo e com um sorriso muito simpático diz umas palavras. Eu tento lhe explicar que não compreendo a sua língua mas é em vão, ela prossegue com o que eu posso calcular que sejam umas muito sinceras desculpas e eu tento retorquir de volta esboçando um sorriso e abanando a minha mão como que a dizer que não tem importância. Ao fim do que deve ter sido um bom minuto de pedido de desculpas absolutamente fantástico envolvendo gestos, vénias e sorrisos rasgados a mãe marmota volta ao seu lugar. Momentaneamente o nervosismo desaparece e eu aproveito para pegar novamente no livro que tenho comigo. Desta vez com a coluna direita pois não quero chegar a velho todo torcido e com uma corcunda feia nas costas. Passam uns bons minutos quando uma mão me toca de leve no cabelo, paro de ler e preparo-me para mostrar a capa do livro quando reparo que é a minha mulher, estava tão absorto com a história que não reparo que ela está ali, mesmo à minha frente, e que já saiu do consultório onde esteve quase uma hora. Do


consultório? Estou de volta ao hospital! O meu coração dispara e levanto-me muito rapidamente, pergunto como correu, se está tudo bem e se é preciso mais alguma coisa. − Como correu? Está tudo bem? É preciso mais alguma coisa? − Sim, está. E sim é preciso irmos ali ao lado. − Ali ao lado? Então? − O médico recomendou uns exames com o seu colega do consultório que também trabalha hoje, e já que estamos hoje por cá mais vale despachar tudo de uma vez. Não tenho tempo para dizer mais nada, ela começa logo a andar de volta para o balcão onde está a hipopótamo fêmea de forma a marcar já a outra consulta. Eu tento seguir mas infelizmente não consigo, desde que entrámos que fiquei automaticamente encarregue de carregar aquilo que não faz falta dentro de um consultório: o seu casaco, a sua mala, um saco com prendas e, visto que faz bastante calor dentro do hospital, o meu casaco, luvas, cachecol e claro está, o livro, tudo aquilo que no meu colo enquanto sentado não fazia diferença nenhuma agora em pé torna-se bastante mais difícil de segurar. Tenho alguma dificuldade em a seguir pelo corredor pois este é muito estreito, como não existe sala de espera a administração deve ter decidido colocar as cadeiras para os pacientes esperarem neste corredor que também dá acesso direto a todos estes consultórios, o problema é que só dá para passar uma pessoa numa direção pelo que convém sempre olhar até lá ao fundo para ver se vem alguém antes de pensar em o atravessar. Isto não seria tão problemático se as cadeiras encostadas na parede oposta estivessem vazias pois bastaria sentarem-se ou encostarem-se a uma delas para deixar passar quem quer que viesse na direção oposta, o problema é que como o hospital está cheio normalmente as cadeiras estão quase sempre todas ocupadas. Ainda por cima há muitos idosos que, com a ânsia de entrarem para a sua consulta porque está a chegar a sua vez, levantam-se e ficam parados lá, à espera, como se isso fosse ajudar em alguma coisa. Eu tento segui-la e passo pela porta aberta do consultório de onde ela acabou de sair, lá dentro ao fundo da sala um enorme leão está sentado a uma secretária a escrever qualquer coisa num caderno muito pequenino, veste uma bata branca também ela muito pequena, tão pequena que ele provavelmente nunca a irá conseguir abotoar à frente. Bom, sempre é melhor não abotoar à frente do que ficar com o aspeto com que ficou a hipopótamo fêmea. Já o estetoscópio pendurado ao pescoço deve provavelmente ter sido feito à medida pois é também ele enorme. Tal como sucede com o cavalo, eu não consigo perceber a idade deste leão mas calculo que seja bastante velho pois tem umas falhas na juba e também à frente na cabeça, usa uns óculos com um estilo muito antigo e possui no focinho uma barba bastante branca e farfalhuda, além disso carrega uma barriga


de cerveja que deve ter demorado muitos anos a crescer. Mais uma vez demoro mais tempo do que devia e ele olha para mim e repara que o estou a observar. Dada a distância que vai desde a porta até à sua secretária, qualquer tentativa de comunicação normal provavelmente não funcionaria pelo que ele simplesmente sorri, faz um gesto e aponta para a porta. Eu sorrio de volta e fecho a porta com muito cuidado. Chego com os saco das prendas, os casacos, a mala, o cachecol e o livro ao pé dela numa fila que se estende uns bons dez metros até ao balcão de atendimento. Este local não está de forma alguma preparado para filas com mais de duas pessoas pelo que toda a gente tenta acomodar-se e encostar-se o mais possível à parede de forma a que seja possível a fácil passagem de enfermeiros, médicos e pacientes. Ela já está com gente atrás e à frente, nomeadamente uma ursa muito velhinha e muito mirrada logo atrás que mal me vê começa a mirar com jeito de quem conhece logo de gema um penetra numa fila de hospital, pelo que eu, numa tentativa bem conseguida de dar a entender que nos conhecemos e que não estou a furar a fila coisa nenhuma, começo logo a falar. − ...então mas se está tudo bem que exames são estes? − Uns exames, nada de mais. É só para ter a certeza. − E depois vamos embora? − Sim, claro... Mas o que fazes aqui na fila? Podes aguardar sentado ali nas cadeiras em vez de estares aqui em pé, ainda por cima a segurar nisso tudo. − Sim, tens razão, vou continuar a ler o livro. Regresso à cadeira onde antes estava e volto a sentar-me. Continuo nervoso e incomodado com todo este reboliço. Coloco o saco das prendas debaixo da cadeira e arrumo tudo novamente no meu colo com muito cuidado de forma a conseguir abrir o livro e ler com o máximo de conforto possível. Evito olhar para seja


quem for e enterro a cara no texto. Tento manter as costas direitas. O nervosismo já tinha passado quando recebo uma mensagem no telemóvel. O coração volta a disparar. Fecho o livro, visto o casaco, ponho o cachecol, agarro nas flores e levanto-me muito rapidamente. Tiro o telemóvel do bolso enquanto me estou a afastar da cadeira e leio a mensagem. - “ainda aguardo pela bagagem amor, espero que eles não a tenham perdido :( ” - “não te preocupes querida, às vezes estas coisas demoram. Beijos” Ah! Estou novamente no aeroporto! Acabo de enviar a mensagem e reparo que já estou de volta ao pé dos cães com os cartazes, virome novamente para trás para me ir sentar e continuar a espera quando reparo que um dos miúdos da família das marmotas ocupou-me o lugar. Faz-me uma careta. Viro-lhe as costas e fico voltado para a saída de passageiros de onde teoricamente sairá a minha mulher, digo teoricamente porque com este nervosismo todo espero não me ter enganado na porta de saída. Aproveito este pensamento como uma desculpa para voltar a olhar para o quadro de partidas e chegadas e confirmar que estou realmente onde devo estar. Olho à volta à procura de um novo lugar para me sentar, desta vez um que de preferência não tenho ninguém ao pé. Enquanto procuro volto a tirar o casaco e o cachecol pois faz muito calor neste aeroporto. Felizmente vejo um lugar noutro conjunto de dez cadeiras que fica mesmo no meio de um grupo de antílopes muito velhinhos, quer dizer, parecem ser velhinhos pois consigo reparar em duas bengalas, um cachimbo e pelo menos quatro conjuntos de agulhas de tricô a fazerem camisolas e meias. Eu não sei dizer exatamente que idade terão estes antílopes mas com tanto entretém de certeza que não me chateiam. Sento-me, arrumo as minhas coisas no meu colo e abro novamente o livro. O livro. Este


livro é tão bom que um dia destes ainda escrevo uma carta ao autor com os meus parabéns. Alguns minutos passam, mais do que tempo suficiente para me esquecer de manter as costas direitas e ficar distraído com o livro. Demoro algum tempo a reparar que mesmo à minha frente está uma girafa muito velhinha com as pernas a tremer e que provavelmente precisa do lugar mais do que eu. Agarro no saco das prendas, na mala, nos casacos, no cachecol e no livro e muito gentilmente levanto-me e ofereço o lugar. Ela recusa. Enquanto seguro com uma mão toda a tralha que ainda há poucos segundos estava toda bem arrumada no meu colo, com a outra aponto para a cadeira e digo umas palavras em português. Deduzo que a girafa não fale a minha língua mas de certeza que compreende que lhe quero oferecer o lugar. Sem eu saber muito bem porquê assim que ouve as minhas palavras vira-me as costas e começa a caminhar a passos largos e tremelicantes ao longo do estreito corredor até que vira a esquina e desaparece! Mas que raio. Não me terei feito entender? Será que o gesto foi de alguma forma um insulto? Olho para as pessoas sentadas nas outras cadeiras para ver se reparo nalgum sinal que me dê a entender se procedi bem ou mal mas é difícil perceber o que vai na cabeça desta gente. Olho ainda com mais atenção e reparo que o corredor por onde a girafa fugiu é o do hospital. O hospital! Enfim. Volto a sentar-me e arrumo novamente o saco das prendas, os casacos, o cachecol a mala e finalmente o livro em cima disto tudo, agora sempre com a capa com o rótulo bem virado para cima de forma a que todos vejam. Ainda sem perceber se insultei alguém, olho para a esquerda e vejo que o cavalo com o sorriso simpático continua à espera de ser chamado para alguma consulta, ele ignora-me e olha para um papel que tem nas mãos. À minha direita um jovem pinguim levanta-se com alguma dificuldade. De cima destas cadeiras e dada a sua estatura baixa a única forma que ele tem de sair de lá é a de saltar para o chão, coisa que ele faz meio desajeitado. Ele aterra de lado e depois começa a caminhar meio coxo pelo corredor fora entrando depois para um consultório um pouco mais à frente. Eu volto a tentar concentrar-me no meu livro e tento ignorar a enorme elefanta que acaba de se sentar à minha direita. Mas como ela é grande! Ocupa sem exagero quase três cadeiras. O seu vestido é tão largo que com algum jeito poderia facilmente ser usado como tenda para quatro pessoas. Eu e a minha curiosidade. Fiquei novamente a mirar durante demasiado tempo. Ela vira-se para mim e pergunta na sua linguagem de antílope qualquer coisa que eu mais uma vez não compreendo. Antílope? Pois, estou de volta ao aeroporto, ou estou no hospital? Já nem sei. Aponto para o livro e digo muito devagarinho e de forma acentuada em português que não a compreendo, como se isso fosse ajudar de alguma forma a que ela percebesse melhor. Infelizmente ela persiste, aponta para as flores e continua a falar, provavelmente a contar alguma história sobre


flores ou a falar do tempo. Ao fim de uns bons cinco minutos lá para e continua a tricotar. Eu leio. Ou pelo menos tento. Não leio nem uma página quando a hipopótamo do balcão de atendimento começa novamente a gritar, o desgraçado pelos vistos continua desaparecido. Já não a posso ouvir berrar. A minha mulher para mesmo à minha frente. − Já tenho tudo despachado, vamos. − Embora? − Não. Para os exames tonto, fica no outro piso. Agarro nos casacos, no cachecol, no saco das prendas e no livro e sigo-a pelo estreito corredor. Subimos umas escadas. Apanhamos um elevador. Passamos por mais outros tantos corredores e finalmente paramos no que parece ser uma sala de espera. Até que enfim uma sala de espera como deve ser. Estranhamente está vazia e não tem ninguém, provavelmente hoje ninguém precisa de fazer este tipo de exames. Uma porta abre-se e um jovem leão chama a minha mulher para entrar. Ela entra e fecha a porta. Passa algum tempo. Todo este silêncio nesta sala vazia não me ajuda em nada a acalmar mas eu sento-me novamente e respiro fundo. Arrumo o saco com as compras debaixo da cadeira, coloco os casacos, a mala e o cachecol ao meu colo e preparo-me para mais uma sessão de espera. Abro o livro e tento continuar a ler mas uma sombra enorme abate-se sobre mim e fico sem luz. Levanto a cabeça e oiço uma voz forte e rouca. − O senhor levante-se e siga-me por favor. A sua mulher espera-o. Um rinoceronte polícia de tamanho bastante respeitável está à minha frente. Não fosse o facto de ele ser absolutamente gigante eu teria tido a coragem de lhe perguntar onde tinha aprendido a falar português. Ou melhor ainda, como é que ele sabia quem eu era. Mas uma autoridade deste gabarito não se questiona


e eu pego no casaco, no cachecol, no ramo de flores e no livro e levanto-me para o seguir. Toda a gente à minha volta olha para mim. Os antílopes começaram logo a falar baixinho entre si, provavelmente irei ser matéria de conversa por bastante tempo. As jovens marmotas estão todas a fazer caretas. Já os cães olham com um sorriso mafioso nos lábios como que a afirmar que eu tinha aprontado alguma e que agora estava feito ao bife. Após nos distanciarmos da zona de espera de passageiros e entrarmos num corredor lá ganho alguma coragem e pergunto a pergunta mais inocente possível. − Onde vamos? − A sua mulher pediu-me para o vir buscar. Siga-me por favor. Ainda insatisfeito com a resposta e com medo de perguntar mais, continuo a segui-lo. Estou bastante nervoso agora. Sigo-o por umas escadas. Passamos por um corredor. Subimos num elevador. Saímos para um corredor vazio onde andamos até chegar a uma sala de espera também ela vazia. O rinoceronte aponta para a sala. − Pode esperar aqui. Eu entro. Só depois do polícia se ter ido embora é que me sento, poiso as flores na cadeira do lado. Já não consigo ler mais nada. Levanto-me e começo a caminhar de um lado para o outro do corredor, só me apetece sair dali para fora. Se antes estava nervoso agora já nem sei o que sentir ou fazer. Dispo o casaco e poiso-o na cadeira. Sento-me. Levanto-me. Tiro um copo de água da máquina de água e bebo. Sento-me. Levanto-me. Bebo mais um café, deve ser o terceiro hoje. Olho para o relógio na parede por cima da porta, são três e um quarto da manhã e não está aqui mais ninguém. Percebo agora que já aqui estou desde as seis da tarde. Estou a suar com tanta incerteza e nervosismo que o meu coração quase que me salta pela boca fora. Sento-me novamente. Involuntariamente tiro o telemóvel para ver sabe-se lá o quê. Já não aguento mais isto. Finalmente a porta abre e eu salto da cadeira. A abrir a porta está uma mulher vestida de branco que me informa com um sorriso que tudo correu bem. Esqueço-me completamente das flores que estavam poisadas ao meu lado e do saco com as prendas debaixo da cadeira. Corro para a porta. Eu nem ligo para o que ela me diz e entro na sala. Lá dentro está um homem também vestido de branco que sorri para mim mas eu ignoro-o. Ao lado está a minha mulher deitada numa cama de lençóis brancos. O mundo parece abrandar e tudo o resto deixa de ter importância. Ela tem nos braços o nosso futuro, uma surpresa, algo que nós decidimos que nunca se iria saber, até este momento. Eu sento-me à sua beira e olho para o seu enorme sorriso. Ela olha para mim e diz com toda a calma... − É um rapaz.


Pedro Moura em colaboração

com Noémia Neres e Sérgio Sequeira

http://lerbd.blogspot.pt/


“Old Man Soares vs Cavakulk Constitutional War” por Sérgio Sequeira, segundo ideia obtida em conjunto com Pedro Moura


NUNO SARAIVA

http://nunosaraivaillustration.blogspot.pt/ http://naterracomonoceu.blogspot.pt/


ex-tls

Pedro potier

http://www.ricardopereiracabral.blogspot.pt/


Entrevista

PEDRO POTIER


- O teu registo gráfico, tanto na BD como na ilustração, aproxima-se muito do imaginário épico dos jogos. Consideras que esses três géneros de produção se cruzam naturalmente ou defendes que devem manter uma identidade sempre própria e nunca se misturarem? Eu não sou purista, acho óptimo as influências de um género passarem para outro. Na minha vertente como ilustrador, o meu trabalho é muito semelhante em qualquer um desses registos e na animação, por onde passei, também. Hoje, cada vez mais os conceitos são multidisciplinares. Da BD adapta-se a televisão, dos jogos ao cinema e por aí a fora. Por isso, é natural que surja uma linguagem comum a todos eles. Isto enquanto profissional. Como consumidor, apesar de tudo aprecio as diferenças e as identidades próprias de cada área.


- A tua actual actividade está virada profissionalmente para a produção de material para jogos. Estás mais afastado da BD, nos dias que correm. Uma opção de mercado ou uma desmotivação face ao actual panorama bedéfilo? Ah, curiosamente estou neste momento a fazer um comic para uma pequena editora norte americana, por isso nunca deixei completamente de parte a BD. A minha carreira profissional foi-se vocacionado mais para outras áreas de produção, como os videojogos. Na realidade, em termos nacionais, acho que estamos a viver tempos interessantes na produção profissional de banda desenhada, nomeadamente com a quantidade simpática de autores portugueses que trabalham para o mercado americano com regularidade. E quer parecer-me que mais já estão na calha. Mesmo entre os autores que optam por tentar a sorte por cá, tem-se visto alguns com produções regulares e reconhecidas pelo público. - Estiveste ligado ao The Lisbon Studio desde a sua criação. Quais as mais valias ou as menos valias que queres mencionar, relacionado com a existência deste colectivo? As vantagens são muitas! O trabalho de ilustrador freelance é tradicionalmente um ofício solitário e conseguir dividir o espaço com outras pessoas que partilham os mesmos gostos que eu foi óptimo. Julgo incomparável a quantidade de profissionais de grande qualidade que o estúdio foi reunindo ao longo destes anos e ainda mais fantástico é os projectos em comum que parecem sempre surgir entre as pessoas! Além das sinergias que surgiram em termos profissionais, fiz amigos para a vida no TLS.


ŠPepedelrey


TLS WEBMAG #5 Fevereiro/Março  

Revista digital do colectivo The Lisbon Studio.

TLS WEBMAG #5 Fevereiro/Março  

Revista digital do colectivo The Lisbon Studio.

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