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VERÃO

TAKE.COM.PT | ANO 8 | NÚMERO 40


CRÍTICAS

64 The Texas chainsaw massacre 65 Friday the 13th 66 Humanoids from the deep 67 Hausu 68 I know what you did last summer 68 Hostel 69 The burning 69 Wolf creek 70 Romances de Verão 72 Before sunshine, Before sunrise, Before Midnight 74 The graduate 76 Brokeback mountain 77 A swedish love story 78 Dirty dancing 79 Body heat 80 Le genou de Claire 80 A midsummer night's sex comedy 81 (500) Days of Summer 81 Viaggio in Italia

08 Verão Português 10 Aquele querido mês de Agosto 12 Guerra civil 13 À flor do mar 14 O primeiro Verão 15 Agosto 16 Comédias de Verão 18 Weekend at Bernie’s 20 National Lampoon’s Vacation 22 Little miss Sunshine 23 Adventureland 24 Les vacances de monsieur Hulot 25 The seven year itch 26 Vicky Cristina Barcelona 26 Breaking away 27 Le Skylab 27 Wet hot american summer 28 Aventuras debaixo do Sol 30 L'Avventura 32 Almost famous 34 Y tu mama tambien 35 My summer of love 36 Stand by me 37 Die hard: With a vengeance 38 The endless summer 38 Super 8 39 Deliverance 39 Woodstock 40 Lágrimas de Verão 42 Bakushû 44 Sommaren med Monika 46 Conte d’été 47 Le rayon vert 48 12 Angry men 49 The Descendants 50 American Graffiti 50 Le Mépris 51 L’heure d’été 51 Kohayagawa-Ke No Aki 52 Verão sangrento 54 Jaws I, II, III e IV - The revenge 62 Sleepaway camp

ARTIGOS 04 40 (de)graus à sombra . editorial 06 O amor e a palavra do senhor

Director José Soares. josesoares@take.com.pt Editor João Paulo Costa. joaopaulocosta@ take.com.pt Editora adjunta Sara Galvão. saragalvao@take.com.pt Colaboraram nesta edição Cátia Alexandre. Diana Martins. Hélder Almeida. João Paulo Costa. Pedro Miguel Fernandes. Pedro Cinemaxunga. Pedro Soares. Sandra Gaspar. Sara Galvão. Design José Soares. Ilustração Cristina Falcão. Imagens Arquivo Take. Alambique. Big Picture Films. Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema. Columbia TriStar Warner Portugal. Costa do Castelo Filmes. Fox Portugal. Films 4 You. iStock. LNK Audiovisuais. Lanterna de Pedra Filmes. Leopardo Filmes. ZON Lusomundo Audiovisuais. Midas Filmes. Nitrato Filmes. Pris Audiovisuais. Sony Pictures Portugal. Universal Pictures Portugal. Valentim de Carvalho Multimédia. Vendetta Filmes. Imagem de capa Ilustração do poster do filme ‘Jaws’ por Roger Kastel . © 2015 Take Cinema Magazine - Todos os direitos reservados. As imagens usadas têm direitos reservados e são propriedade dos seus respectivos donos.

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© Cristina Falcão - www.cabelo-e-lustre.blogspot.pt


40 (de)GRAUS À SOMBRA JOÃO PAULO COSTA

E são já 40 as edições da Take que preparámos, com maior ou menor dificuldade, para os nossos fieis leitores. Quatro dezenas de números que nos saíram do corpo mas que, falando em nome de toda a equipa, valeram cada gota de suor, cada minuto de tempo precioso que passámos a cozinhar mais um artigo para que a revista pudesse chegar a tempo e horas a quem nos lê – e por isso, fica também um agradecimento especial àqueles que nos são próximos e que, não participando na produção dos conteúdos, percebem o motivo pelo qual precisamos destas horas de escrita: porque a paixão e a vontade de dar Cinema ao leitor são enormes em nós, e a gratificação que sentimos e os elogios que recebemos assim que uma nova edição se encontra prontinha para ser lida, uma recompensa querida por todos. O objectivo é claro: continuar a dar Cinema, custe o que custar, a quem o quiser receber de braços abertos. Desta vez, para vos acompanhar nas idas à praia nas tardes quentes de Agosto, temos nada menos do que uma edição inteiramente dedicada ao Verão. Venha celebrar connosco o sol, o calor, a paixão e a aventura, com uma selecção de filmes que a nossa redacção decidiu destacar, de entre incontáveis outras escolhas possíveis, onde esses elementos são parte importante. De janela aberta ou ar condicionado ligado em frente ao monitor, num tablet enquanto se encosta, debaixo da sombra, na toalha pousada sobre a areia da praia, folheie as nossas páginas, perca-se connosco debaixo do sol.


O AMOR E A PALAVRA DO SENHOR PEDRO CINEMAXUNGA

1989, Agosto em Monte Gordo. Tinha acabado de recuperar a consciência daquilo que vim mais tarde a saber ser um black-out de 21 horas. Numa festa de Verão milhares de respeitosas donas de casa vibravam libidinosamente ao som de uma banda em palco. Demorei algum tempo a perceber o que se passava, o som enrolado em flanger e um forte sabor a laca Fiero que parecia escorrer em bica pelo esófago não ajudavam a melhorar a percepção. O Trio Odemira tocava o Anel de Noivado e fui apanhado desprotegido no meio das suas harmonias hipnóticas e na execução perfeita de uma música que já na altura era um velho clássico. “Inundada no seu pranto. O seu vestido vai molhando, ao chorar de amor por mim”, cantavam imperturbáveis pelos gritos histéricos, desmaios e apelos ao deboche adúltero. “Faz-me um filho”, gritava uma octogenária semi-nua estranhamente atraente que parecia acariciar-se ao meu lado. Não sei se foi do álcool, das drogas ou de uma cataplana de peixe que não me caiu nada bem, mas senti um capacete de eletricidade estática a massajar-me as têmporas, como tentáculos de ondas alfa e impulsos de telequinese, e os edifícios pareciam ondular ao ritmo dengoso dos baladeiros alentejanos. Tonico, no entanto, não parecia impressionado, estava de facto amuado porque o meteram a vender bebidas e petiscos numa noite em que passavam Delta Force 2 no Cinema Mariani.

Esta não é tanto a minha história mas a história de Tonico, um jovem de 14 anos que trabalhava numa esquina de Monte Gordo a vender fruta. O seu único objectivo de Verão era ganhar o suficiente para ir ao cinema todos os dias. O Cinema Mariani na praia de Monte Gordo funcionava com dois filmes diários só a partir do pôr do sol porque metade da sala era esplanada. As doubles features eram compostas por um filme novo e um do dia anterior. Tonico via-os sempre duas vezes. Ele preferia Bud Spencer, porrada, ninjas, comédias badalhocas e blockbusters de anos anteriores, mas não recusava um Fellini que por vezes aparecia por engano, emuscuido em lotes Giallo, Spaghetti Western, slashers americanos e eróticos europeus. Não era grande fã de terror, mas era menos fã ainda de ficar em casa. Em época de fervilhante animação, as noites animavam aquela zona obscura do vilarejo balnear com cinéfilos de todos os quadrantes. Se os turistas gostavam de comparecer a tempo e apreciar a experiência de imersão em cadeiras de madeira ao som da mastigação de sementes de girassol e gargarejar de Sucol e Frisumo, os locais tinham uma estratégia diferente na hora de comprar bilhete, dirigiam-se à bilheteira e perguntavam “Ouve lá mô, já mataram o mau?”. Em caso de resposta negativa compravam o bilhete e apreciavam o que restava da película ao balcão do bar com uma bela cervejinha. 6


Foram largas dezenas de filmes que vi com Tonico, que sendo pouco eloquente, se exprimia entre o “espectacular” e o “bué de fixe” (fichi, no dialeto local). Um jovem pouco exigente mas profundamente apaixonada pela sétima arte. Acabado o Verão, Mariani abria aos fins de semana e com chuva, sol, trovoada ou queixas dos vizinhos à PSP o cinema continuava forte. Uma comunidade fiel em sessões animadas, em que se gritava, ria e comentava à boca cheia. No dia em que lá revi o Rocky IV não se ouvia o som vindo das colunas com a multidão aos gritos a apoiar o Italian Stallion. Havia pessoas de pé em frente ao ecrã e no final homens de barba rija, queimados pelo sol do sul, choravam copiosamente com a vitória de Balboa, a sua vitória, a nossa vitória, carago! Foi difícil para mim ambientar-me ao Algarve, onde vivi 5 preciosos anos entre a adolescência e a juventude. Eu era do Norte, trocava os Vs pelos Bs, dizia “Queijo” em vez de “Quêjo”, tinha boas notas e não percebia uma palavra de espanhol. O cinema foi muito importante para me integrar com os locais que após uns meses de belas sessões de matança em cópias riscadas e bobines trocadas já não me davam surras nem me roubavam a carteira com tanta frequência.

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UM VERÃO PORTUGUÊS JOÃO PAULO COSTA

Portugal sempre foi um destino de eleição para turistas europeus e de outros continentes passarem umas semanas de férias, o clima mediterrâneo, as praias extensas, a comida, as paisagens naturais, o sol... tudo motivos de sobra para visitar o nosso país durante a época balnear. Como não podia deixar de ser, também o cinema nacional tem vindo a explorar o Verão como tema central dos seus filmes. Nestas páginas daremos a conhecer alguns exemplos que pretendemos que fossem o mais variados possível. Do documentário/ficção com que Miguel Gomes chamou as atenções do Mundo em 2008, Aquele Querido Mês de Agosto, passando por um mestre como João César Monteiro, e até uma estreia tão recente quanto O Primeiro Verão, a primeira longa-metragem de Adriano Mendes, temos exemplos variados de como é sentir esta época do ano aos olhos das particularidades do cinema que se faz no nosso país. Sabemos que muitas possibilidades ficaram por destacar, como a viagem que Rosa Maria e a sua filha fizeram pelas águas do Mediterrâneo em Um Filme Falado, de Manoel de Oliveira, ou esse romance conturbado entre Isabel e Diogo de Uma Rapariga no Verão, de Vítor Gonçalves, entre muitos outros exemplos de mérito. Muitos verões solarengos esperamos que se sigam para a produção nacional nos próximos anos, mesmo que o tempo pareça ser mais cinzentão do que esperaríamos. Ainda assim, esta não é altura para lamentos e sim para aproveitar o que de bom a vida tem oferecer, e já a seguir pode encontrar algumas dessas preciosidades feitas de Portugal, para o Mundo.


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AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO

Título nacional: Aquele Querido Mês de Agosto Realização: Miguel Gomes Elenco: Sónia Bandeira, Fábio Oliveira, Joaquim Carvalho, Manuel Soares

2008 PEDRO SOARES

Faz falta ao cinema nacional um cineasta verdadeiramente português, daqueles que consiga captar o espírito tuga genuíno, como as comédias pré-25 de Abril faziam. E não falo dos lugares-comuns, como o fado ou as paisagens de Lisboa, mas antes dos pastéis de bacalhau ou as mulheres com sete saias da Nazaré. Salvo raras excepções (alguém mencionou A Janela (Maryalva Mix)?), faltam filmes que que só possam ter sido feitos em Portugal, tal como os filmes do Kusturica só podem ser feitos nos balcãs ou os do Fellini em Itália.

transborda para o documentário, com as personagens a adquirirem vida e a desenvolver-se como um típico amor de verão de Agosto entre primos: Hélder (Fábio Oliveira) e Tânia (uma debutante Sónia Bandeira que, infelizmente, nunca mais fez nada). Isto já tinha acontecido no anterior filme de Miguel Gomes, A Cara Que Mereces: depois de uma primeira parte, o feelgood movie dava lugar a outro filme completamente diferente, surreal e abstracto. São dois filmes em um, mas sempre filmados da mesma maneira e de uma forma bem portuguesa: com planos fixos, bem parados, que só mudam quando têm mesmo a certeza que o espectador já absorveu todos os ínfimos pormenores da cena. A parte da ficção não é tão interessante quanto a do documentário, que leva a um certo cansaço do espectador, especialmente pela duração do próprio filme. Duas horas e meia é muito para bailaricos e música do Marante, se bem que na voz de gaiatas jeitosas a abanarem-se como se não houvesse amanhã a coisa ganhe outra dimensão.

Aquele Querido Mês De Agosto é um desses filmes genuinamente portugueses. Miguel Gomes foi para Arganil e retratou o Portugal profundo, dos bailes e da música pimba, dos emigrantes portugueses que regressam de França para as férias com os seus cordões de ouro a sair da camisa desabotoada e daqueles cromos mesmo grandes, que são sempre os mais difíceis da caderneta. Miguel Gomes capta tudo aquilo que nós, meninos da cidade, dizemos que é uma grande seca e evitamos como o diabo da cruz, mas depois vemos no cinema e ficamos com uma pinga de nostalgia e outra de orgulho.

E, no final, uma surpesa! Os genéricos finais valem quase o próprio filme, com Miguel Gomes num diálogo divertidíssimo com o técnico de som, Vasco Pimentel, e com a equipa de produção a fazerem de si mesmos. Aquele Querido Mês De Agosto marcou o início da conquista triunfal de Miguel Gomes pelo cinema internacional, que teve o episódio seguinte com Tabu (premiado em Berlim) e, já este ano, com a trilogia épica As Mil E Uma Noites (grande fenómeno desta edição de Cannes). Miguel Gomes é o mais estimulante realizador português da actualidade e, apesar deste não ter sido o seu primeiro trabalho, foi aqui que começou realmente a levantar voo.

O filme começa por ser um documentário do Portugal do interior, com as suas festas e as suas gentes. Estão lá todos: os grupos de baile que defendem que a música que fazem não é pimba, o emigrante que diz que não tem fé nenhuma mas que já foi curado a uma hérnia discal pela santinha da terra, ou o bêbado de estimação do sítio, conhecido por atirar-se da ponte(!). Aquele Querido Mês De Agosto é uma espécie de Liga Dos Últimos versão bailaricos e é excepcional. Pelo meio do documentário, Miguel Gomes vai-se inserindo a si próprio e à sua equipa, como se estivessem a fazer outro filme, numa estrutura metarreferencial de o filme dentro do filme. E, de súbito, a ficção

“Aquele Querido Mês De Agosto é um desses filmes genuinamente portugueses.” 11


Título nacional: Guerra Civil Realização: Pedro Caldas

GUERRA CIVIL

Elenco: Francisco Belard, Maria Leite, Catarina Wall

2010 JOÃO PAULO COSTA

Depois de um início de carreira a trabalhar como operador de som em algumas obras marcantes do cinema português, Pedro Caldas decidiu sentar-se na cadeira de realizador, tendo assinado uma série de curtasmetragens até se estrear na longa duração com Guerra Civil, filme que nos conta a história das férias de Verão de Rui, um jovem adolescente algo perdido no seu tempo (a acção decorre durante a década de 80, onde a música da época assume um papel importante, e cuja obtenção dos direitos estiveram na origem da proibição da sua estreia comercial em sala, tendo posteriormente sido exibido em televisão ou em sessões de cinema especiais), com uma relação distante com os pais, a quem apenas a proximidade de uma rapariga, Joana, parece iluminar a existência.

constante com a sua existência, fazendo dele um verdadeiro marginal, um ser demasiado fechado no seu próprio mundo. Guerra Civil é, portanto, um filme trágico, cujo cinzentismo não é disfarçado nem pela intensa luz do Verão, e o seu sentido de desespero existencial faz lembrar sobretudo o cinema de Antonioni. Não sendo propriamente fácil de ver, é ainda assim um excelente trabalho de Caldas, um intenso drama onde sentimos de forma clara o acumular da tensão nas suas personagens, como se de uma bomba relógio se tratasse, com destaque para as composições de Francisco Belard como Rui, e especialmente para Catarina Wall que, como a mãe do protagonista, consegue humanizar uma figura tão perdida no mundo quanto o seu filho adolescente.

A 'guerra civil' do título é, pois, uma guerra interior, seja no seio da família de Rui, seja interior à própria personagem, que parece em conflito

“(...)um intenso drama onde sentimos de forma clara o acumular da tensão (...)

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Título nacional: À Flor do Mar Realização: João César Monteiro

À FLOR DO MAR

Elenco: Laura Morante, Philip Spinelli, Manuela de Freitas

1986 JOÃO PAULO COSTA

Quando, em 1986, João César Monteiro assinou À Flor do Mar, era já um nome consagrado na cinematografia nacional, depois de obras tão peculiares e desafiadoras das convenções como Fragmentos de um Filme-Esmola: A Sagrada Família (1972) ou Veredas (1978). Daí que À Flor do Mar nos pareça à primeira vista como o mais convencional dos seus filmes – na verdade foi o último antes de se lançar nas aventuras de João de Deus com Recordações da Casa Amarela, mas é tudo menos convencional.

também a despertar o interesse dos restantes elementos femininos da casa. As coisas rapidamente se complicam ainda mais quando um grupo de homens armados e aparentemente violentos aparece à procura de Robert. Aquilo que mais parece interessar a César Monteiro não é tanto o mistério desta intriga propriamente dita, mas a relação entre este homem misterioso e bem parecido, e as mulheres de diferentes idades com que ele vai habitar. É dessa forma que se desenvolve o drama de À Flor do Mar, que o realizador português explora com o seu estilo muito próprio. À sua realização sempre elegante – os planos longos, abertos, em oposição à estética da telenovela – juntam-se uma série de óptimas interpretações, e César Monteiro ainda se permite a si próprio uma perninha como um dos rufias de serviço, que não podia deixar de ser um indivíduo “com idade para ter juízo”.

Quando Laura, uma italiana de férias no Algarve pelo Verão, encontra um desconhecido na praia a boiar num barco de borracha com um ferimento na cabeça, decide ajudá-lo e recolhê-lo na casa onde está instalada juntamente com uma família portuguesa. A viúva Laura e Robert, o desconhecido, sentem-se atraídos um pelo outro, mas este começa

“(...)é tudo menos convencional.”

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Título nacional: O Primeiro Verão Realização: Adriano Mendes

O PRIMEIRO VERÃO

Elenco: Adriano Mendes, Anabela Caetano

2014 CÁTIA ALEXANDRE

Vencedor de dois prémios no Festival IndieLisboa 2014, O Primeiro Verão é a estreia cinematográfica de Adriano Mendes, que para além de realizar, também é o argumentista, actor, editor e responsável pela banda sonora do filme. Isabel conhece Miguel numa aula de condução e desde então começam aos poucos a tornar-se mais próximos, começam a sair mais vezes e uma grande cumplicidade entre os dois nasce. Este é o coming-of-age que mostra como o primeiro Verão de Isabel e Miguel - aquele que realmente os faz crescer e descobrir sentimentos novos, responsabilidades novas - é um dos mais importantes das suas vidas, e será sempre aquele que facilmente irão lembrar pelas marcas que deixa. A ingenuidade e leveza dos personagens no início do filme, gradualmente se vai transformando em algo mais pesado e duro, sinal do crescimento dos próprios personagens ao longo da narrativa.

São bastante claras todas as limitações do filme, mas é notório que mesmo com pouco, Adriano Mendes tenha conseguido fazer algo interessante, longe de estar perfeito mas definitivamente aceitável. O ritmo pode por vezes não ser o melhor, e algumas das suas decisões podem não ter sido as mais correctas mas o filme consegue demonstrar bem qual é o seu propósito. É obrigatório ressalvar a magnifica prestação da actriz Anabela Caetano, que através de uma performance honesta e muito credível é capaz de passar à audiência todos os sentimentos e frustrações da personagem, mesmo quando não existe diálogo. Apesar de todos os seus problemas, para primeiro trabalho pode dizerse que não correu mal e devemos ficar de olho neste jovem realizador português. “(...)longe de estar perfeito mas definitivamente aceitável.”

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Título nacional: Agosto Realização: Jorge Silva Melo

AGOSTO

Elenco: Christian Patey, Olivier Cruveiller, Marie Carré

1988 PEDRO MIGUEL FERNANDES

Agosto é um daqueles misteriosos casos do cinema português, tão raro e quase desconhecido, que nem sequer teve direito a estreia comercial. Mas de misterioso nada tem o terceiro filme realizado por Jorge Silva Melo, passado num quente mês de Agosto de 1964 onde se ouvem os ecos da guerra do ultramar, entre o Minho e a Arrábida e centrado na personagem de um músico que aceita o convite de um amigo para passar as férias com ele e a sua companheira. Mas se este trio representa o centro de Agosto, o filme não é a história deste triângulo. Antes pelo contrário, pois tudo o que interessa é precisamente o que se passa à volta do trio, numas férias em que tudo e nada acontece. As personagens e histórias secundárias ganham tanto relevo que quase nos esquecemos de quem são os verdadeiros protagonistas.

E se o título já remete para a estação mais quente do ano, estas histórias cruzadas nunca se poderiam passar noutra altura. Desde os amores errantes do jovem Alberto (um dos primeiros papéis de Pedro Hestnes, actor que se tornou uma imagem de marca do cinema português dos anos 1980-1990), às aventuras amorosas de Nina, passando pela belíssima história da viúva do aviador, Agosto é um maravilhoso filme de Verão, completamente nos antípodas das típicas fitas de verão. Ou como resume a não menos fabulosa canção que todos trauteiam nessas férias: «Tu vais-te embora/eu vou-me embora/o Verão já se acabou.» E quando este Agosto acaba, ficamos com vontade de voltar uma e outra vez a estas personagens, como quem volta atrás para recordar um verão passado. Agosto é, sem sombra de dúvidas, uma jóia do cinema português que merece ser vista. “(...)é um maravilhoso filme de Verão(...)”

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COMÉDIAS DE VERÃO JOÃO PAULO COSTA

Se há coisa em que o Verão é fértil é em despertar a boa disposição das pessoas. Talvez haja algo nos raios de sol que o corpo recebe e que o estimule quimicamente e traga ao de cima aquela sensação de bem-estar e... o riso. Segue-se uma lista onde não faltam razões para rir a bandeiras despregadas, seja com as absurdas aventuras de um grupo de jovens num campo de férias americano, com umas semanas de descanso e (auto-)descoberta de duas turistas pelas ruas de Barcelona, com o humor quase mudo de um mestre francês absoluto, com um homem respeitável que tem a família de férias e uma nova vizinha demasiado atraente, com um adolescente a trabalhar num parque de diversões, uma família inteira de férias ou até, como não podia faltar, um morto tão activo que mesmo assim é capaz de organizar grandes festas na sua casa de praia. Algumas destas descrições podem soar familiares ao leitor, e acreditamos até que muitas das selecções que aqui apresentamos estejam longe de ser vistas como obras-primas essenciais do cinema, mas que raio, se aqui estão é porque acreditamos que possuem os condimentos essenciais capazes de arrancar umas boas gargalhadas aos seus espectadores – e com mestres nesse ramo como Woody Allen, Billy Wilder ou Jacques Tati, fica a certeza de que os leitores estarão em boa companhia. Porque rir é o melhor remédio, especialmente em tempos de crise, fazê-lo na companhia de um bom filme... bem, dificilmente conseguimos pensar em algo que nos traga mais prazer.


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Título nacional: Fim-de-Semana com o Morto Realização: Ted Kotcheff

WEEKEND AT BERNIE’S

Elenco: Andrew McCarthy, Jonathan Silverman, Terry Kisser

1989 SARA GALVÃO

Levante a mão quem nasceu nos anos 80 e nunca viu Fim de Semana com o Morto pelo menos três vezes. O filme de Ted Kotcheff (que, caso não se lembrem, é o mesmo realizador que nos deu Rambo oito anos antes) é tão fatal como o sarampo, e pertence à mesma categoria que Sozinho em Casa ou ET - vimo-los todos muitas vezes, sempre na televisão, e não conseguimos ter por eles mais do que um carinho nostálgico imenso, já que para sempre estarão associados à nossa infância.

Longe de ser um sucesso de bilheteira quando estreou - Roger Ebert deulhe uma infame classificação de uma estrela, dizendo que o filme “dá-nos uma anedota que não tem grande piada, e espera que essa anedota suporte o filme todo” - Fim de Semana com o Morto foi lentamente crescendo na estima de todos, tendo hoje o estatuto de referência cultural geracional. Nos dias que correm, temos uma sequela (que é melhor evitar como a lepra), petições online para criar um terceiro filme, uma dança e até uma técnica de sedução (sobre essa, perguntem ao Barney Stinson, nós também não percebemos quais são as mecânicas da mesma). E sobre o filme? Humor negro não é para todos, e um cadáver a ser movido de um lado para o outro - ou levado de lancha de um lado para o outro, ou deixado cair de varandas, ou a “acenar” a quem passa - é, como Ebert disse, uma única piada que é repetida ad nauseam durante todo o filme. Mas reduzir o filme de Kotcheff ao slapstick de Bernie é fazer-lhe grande injustiça. Afinal, o guião de Robert Klane está repleto de pequenas pérolas, incluindo o desespero estival de Larry e Richard no telhado de um prédio urbano (onde o alcatrão quente se cola às bebidas e às mãos) e as tentativas trapalhonas de sedução de Richard em relação à estagiária Gwen (interpretada por Catherine Mary Stewart), numa combinação agradável de comédia física e de situação. E é também ignorar a crítica contundente à sociedade novo-rica que, no meio das suas festas, nem repara que o anfitrião já não está entre eles, para usar a metáfora. De um lado, temos Richard, que acredita que trabalho árduo e dedicado lhe trará os mesmos tipos de benefícios que vê o patrão usufruir - carros, casas e mulheres. Por outro, o preguiçoso Larry, que tira o melhor partido das situações que se apresentam em frente dele, e sabe que a ideia que o trabalho honesto trará frutos é um mito. No final, o filme acabará por dar a razão a Larry e a rapariga a Richard. Bernie, no entretanto, recusa-se a deixar a festa para ir para a morgue...

Uma comédia negra por excelência, tudo começa quando Richard (Jonathan Silverman) e Larry (Andrew McCarthy) estão presos em Nova Iorque durante o Verão com um projecto informático para a firma de contabilidade para a qual trabalham. Eis senão quando, no meio dos papéis que têm de passar para o computador, descobrem uma falcatrua de dois milhões de dólares, que se apressam a contar ao patrão Bernie Lomax (Terry Kisser), na esperança de uma promoção. Bernie parece contente com a descoberta dos rapazes, e convida-os a passar o fim de semana com ele na sua casa de férias nos Hamptons. Mas a verdade é que Bernie é o responsável pela falcatrua, e o convite faz parte de um esquema para matar os dois rapazes. Felizmente para eles, os compinchas de Bernie estão fartos da sua companhia (e não ajuda que ele ande a dormir com a namorada de um deles), e resolvem usar o fim de semana para se livrarem dele. Quando Richard e Larry chegam aos Hamptons, deparam-se com um Bernie firme e hirto como uma tábua de ferro, e mais do que morto. Só que, à sua volta, ninguém parece reparar... um facto que os rapazes irão aproveitar ao máximo. Afinal, se há alguém que merece umas férias bem passadas são eles. Bem, pelo menos até se aperceberem do plano inicial de Bernie e de que, se calhar, há um assassino à espera de os apanhar distraídos...

“(...)tendo hoje o estatuto de referência cultural geracional.” 19


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Título nacional: Que Paródia de Férias Realização: Harold Ramis

NATIONAL LAMPOON’S VACATION

Elenco: Chevy Chase, Beverly D’Angelo, Randy Quaid

1983 HÉLDER ALMEIDA

Em 1978, a revista de comédia americana National Lampoon decidiu fazer a sua estreia no cinema ao adaptar uma história publicada nas suas páginas. Assim nasceu A República dos Cucos, comédia realizada por John Landis e que contava com o lendário John Belushi como um dos protagonistas. O filme foi um grande sucesso comercial e crítico, fazendo com que a revista tentasse a sua sorte em repetir o êxito. Depois de várias desilusões, chegamos a 1983, ano em que estreia este Que Paródia de Férias, comédia realizada por Harold Ramis, acabado de sair de três êxitos consecutivos: Almôndegas, O Clube dos Malandrecos e Um Pelotão Chanfrado. Como protagonista, encontramos Chevy Chase, um dos comediantes mais populares da altura. E assim surge aquela que é considerada uma das grandes comédias americanas de sempre. Clark Griswold é um homem de familia vulgar que, após meses de trabalho, decide passar algum tempo com a sua esposa, Ellen, e os dois filhos, Rusty e Audrey. Para tal, convence a família a afastar-se do dia-a-dia e embarcarem numa viajem para se dirigirem a Wally World, um parque de diversões localizado no lado oposto do país. Começa assim uma inesperada road trip recheada de peripécias que poderá afastar ainda mais a família Griswold.

como Audrey. Pelo meio ainda encontramos Randy Quaid e John Candy, este último num pequeno papel. O sucesso do filme de Ramis deu origem a uma popular saga cinematográfica, com mais três sequelas produzidas, sempre com Chase e D’Angelo como protagonistas. No entanto, apesar das suas aventuras pela Europa, na época de Natal e em Las Vegas, é esta viagem a Wally World, numas férias de Verão em formato road trip, que ficou na memória dos espectadores. Nasceu assim uma das comédias mais amadas e recordadas da década de 80, tornando-se ainda numa obra de culto, bastante referenciada em filmes e séries de televisão. Muito do seu sucesso deve-se à forma como os espectadores americanos se identificaram com a família Griswold, tornando-se numa das mais populares da comédia americana. Para além disso, o êxito que alcançou nas bilheteiras ajudou a consolidar a presença de Ramis como um dos grandes realizadores de comédia da altura, já para não falar nas portas que abriu a Hughes que, a partir daqui conseguiu construir uma grande carreira como um dos realizadores e escritores de comédia mais adorados dos anos 80, com obras como Dezasseis Primaveras, O Clube e Sozinho em Casa, para o qual apenas escreveu o argumento. Ainda este Verão, vamos ter direito a uma sequela/reboot protagonizada por Ed Helms (A Ressaca) como Rusty, que decide refazer a viajem até Wally World, desta vez em idade adulta. Chase e D’Angelo regressam como Clark e Ellen mas em dose mais reduzida. Com uma equipa de peso e boas doses de humor hilariante, Que Paródia de Férias é um dos melhores exemplos da comédia americana dos anos 80, onde tudo se conjuga na perfeição: o argumento de Hughes, a realização de Ramis e a interpretação de Chevy Chase. Assim nasce um dos grandes clássicos do género e uma das férias de Verão mais divertidas e memoráveis do cinema americano.

Que Paródia de Férias é escrito por John Hughes, adaptado duma pequena história que escreveu para a National Lampoon. Por sua vez, o seu conto é inspirado numa viajem à Disneyland que Hughes fez com a família quando era criança e que não correu nada bem. Cria-se assim uma comédia divertida, recheada de momentos memoráveis e que se tornou num êxito de bilheteira, encontrando ainda apoio por parte da crítica. Chase tem aqui um dos grandes momentos da sua carreira, com uma personagem que representa o típico pai de família americano, que se tornaria na mais popular da sua longa carreira. A seu lado temos Beverly D’Angelo como Ellen, Anthony Michael Hall como Rusty e Dana Barron

“(...)aquela que é considerada uma das grandes comédias americanas de sempre.” 21


Título nacional: Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos Realização: Jonathan Dayton e Valerie Faris

LITTLE MISS SUNSHINE

Elenco: Abigail Breslin, Alan Arkin, Steve Carell

2006 CÁTIA ALEXANDRE

Não há nada melhor que um filme onde o magnifico trabalho de um excelente elenco consegue fazer jus a uma boa história, repleta de interessantes personagens. Little Miss Sunshine não é nem mais nem menos que um estudo fascinante e divertido sobre um conjunto de pessoas bem peculiares, diferentes umas das outras que subtilmente (ou não) nos vão alertando sobre alguns aspectos importantes da vida.

Apesar de todas as diferenças e arrelias entre familiares, o amor que sentem uns pelos outros é mais forte que tudo, e uma longa viagem a bordo de uma velha VW, em busca de concretizar um sonho da pequena Olive, será algo que irá reafirmar isso mesmo. A dinâmica peculiar da família está cheia de mensagens e, de alguma forma, crítica social. O modo como o ser humano tem a tendência de julgar o outro, e a forma como por vezes é incompreendido, é analisado de forma engraçada sempre da maneira mais honesta possível.

De uma família claramente disfuncional fazem parte seis membros. Frank (Carell) o tio homossexual suicida, Sheryl (Toni Collette) a mãe que acredita nos valores da família, Richard (Greg Kinnear) o pai obcecado com sucesso, Dwayne (Paul Dano) o filho revoltado a fazer um voto de silêncio, Edwin (Arkin) o avô expulso de uma casa de repouso devido a comportamento impróprio, e por fim mas não menos importante, Olive (Breslin) a filha mais nova e aspirante a miss num concurso de beleza.

Único, repleto de humor e importante relevância emocional. Um dos que vemos e não mais esquecemos, não só pela importância das mensagens, mas também pelo vínculo afectivo que cria connosco. Little Miss Sunshine é um daqueles filmes que nos apetece revisitar e não há nada melhor que isso.

“(...) um estudo fascinante e divertido sobre um conjunto de pessoas bem peculiares(...)”

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Título nacional: Adventureland Realização: Greg Mottola

ADVENTURELAND

Elenco: Jesse Eisenberg; Kristen Stewart; Ryan Reynolds

2009 HÉLDER ALMEIDA

O jovem James Brennan planeia viajar para a Europa durante o Verão e terminar os estudos, a fim de seguir uma carreira como jornalista. No entanto, quando a falta de dinheiro coloca um fim aos seus planos, vê-se forçado a procurar trabalho durante o Verão. E é assim que entra em Adventureland, um parque de diversões de segunda categoria, cheio de problemas e personagens insólitas. Pelo meio, conhece a jovem Emily, com quem cria uma forte ligação . Depois do sucesso comercial e crítico de Super Baldas, o realizador Greg Mottola decide partir para território mais pessoal com este Adventureland, comédia dramática que se insere dentro do sub-género que é o coming-of-age, histórias onde as personagens dão o passo definitivo para a sua vida adulta. Mottola traz-nos uma obra simpática e inteligente, passada no Verão de 1987, aspecto que nos proporciona um

toque nostálgico e divertido, inundado de referências à cultura popular da época, tudo ao som duma banda-sonora de luxo, onde encontramos nomes como David Bowie, The Cure e Lou Reed, cantor idolatrado pelo protagonista. A nível de elenco, temos um Jesse Eisenberg perfeito, formando um bom par com Kristen Stewart. Pelo meio temos Ryan Reynolds e comediantes como Bill Hader e Kristen Wiig. Apesar da boa recepção por parte da crítica, Adventureland foi um fracasso comercial. No entanto, com a junção de todos os seus ingredientes, a obra de Mottola conseguiu encontrar um público fiel, dando origem a um pequeno seguimento de culto. Para tal ajuda também o facto de ser um dos melhores filmes do género dos últimos tempos.

“(...)comédia dramática que se insere dentro do sub-género que é o coming-of-age(...)”

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LES VACANCES DE MONSIEUR HULOT

Título nacional: As Férias do Sr. Hulot Realização: Jacques Tati Elenco: Jacques Tati, Nathalie Pascaud, Louis Pérault

1953 PEDRO MIGUEL FERNANDES

Verão sem as aventuras de Jacques Tati, uma combinação tão deliciosa como bolas de Berlim e praia, não é bem verão. Presenças habituais nas salas de cinema portuguesas durante a estação quente, e este ano não é excepção, os filmes do cineasta francês caem sempre bem. Mas há um título da sua curta filmografia que se adequa como nenhum outro a esta época: As Férias do Sr. Hulot, a estreia da personagem mais icónica do realizador.

de gags, físicos e narrativos, que só termina quando todos regressam a casa. Longe da megalomania dos filmes seguintes de Tati, como O Meu Tio ou Play Time – Vida Moderna, onde a força dos cenários quase que seca tudo o resto à sua volta, As Férias do Sr. Hulot é mais um retrato peculiar de uma micro sociedade, tão ao gosto do realizador e sob o olhar atento, apesar da aparente distração, da personagem principal a quem Tati empresta os seus dotes de actor. São poucos os companheiros de férias que escapam ao olhar atento de Tati, desde a turista estrangeira com os seus comentários de maravilhamento em relação à estância, ao homem de negócios que está sempre agarrado ao telefone. No fundo, o Senhor Hulot apenas veio trazer um pouco de sal às férias deste grupo de veraneantes, que tal como nós, jamais as esquecerá.

Nesta primeira aventura do senhor Hulot, Tati leva o seu alter-ego a gozar umas férias de sonho numa pequena estância balnear à beiramar. E se tudo estava a correr de feição na pequena vila, o cenário muda radicalmente com a chegada deste hóspede inesperado, que nunca mais vai dar descanso a ninguém. O forte vendaval que traz o senhor Hulot é o indício que nada mais será o mesmo até ao final do filme, numa sucessão

“(...)a estreia da personagem mais icónica do realizador.”

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Título nacional: O Pecado Mora Ao Lado Realização: Billy Wilder

THE SEVEN YEAR ITCH

Elenco: : Marilyn Monroe, Tom Ewell, Evelyn Keyes

1955 SARA GALVÃO

Quando o calor aperta em Nova Iorque, mulheres e crianças viajam para o Norte, enquanto os maridos permanecem na cidade para trabalhar, “pescar” e “caçar”... todos excepto Richard (Tom Ewell), que conseguiu ser completamente fiel à esposa Helen durante os sete anos que estiveram casados, e isto apesar de todas as mulheres à sua volta se lançarem aos seus pés (bem, talvez este detalhe apenas exista na imaginação dele...) Mas quando uma modelo loura (Marilyn Monroe) se muda para o apartamento de cima, os calores de Richard sobem para temperaturas perigosas... Uma delícia de referências cinematográficas (inclusive uma metareferência a Monroe), O Pecado Mora ao Lado é muito mais do que o veículo para aquele momento icónico de ventilação do metro. A imaginação delirante de Richard - e a sua confiança cega no poder sedutor do segundo concerto para piano de Rachmaninoff - são o

recheio constante num filme que está cheio de pérolas de humor, desde a empregada pro-nudez que afirma veementemente que “roupas são o inimigo” e “sem roupas não haveria guerra”, até aos aspectos práticos de embrulhar um remo. Além de ter feito uma comédia sexual sem um único momento de sexo, Billy Wilder mostra aqui estar a “aquecer” para nos dar, uns anos mais tarde, o clássico Quanto Mais Quente Melhor, novamente com Monroe. E se vieram ao filme exclusivamente por ela, podem ter ficado surpreendidos por terem ficado por tantas outras coisas: O Pecado Mora ao Lado continua tão divertido como era nos anos 50. Pode é não ser o filme ideal para as noites quentes de Verão... a não ser que mantenham a roupa interior no congelador, claro.

“(...) filme que está cheio de pérolas de humor(...)”

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VICKY CRISTINA BARCELONA

BREAKING AWAY

CÁTIA ALEXANDRE

PEDRO MIGUEL FERNANDES

Repleto de locais bonitos e românticos, Barcelona em pleno Verão nunca pareceu tão fantástica! Os personagens neuróticos em busca de amor já são ponto de referência nos filmes de Woody Allen, ou não fosse esse o tipo de personagem que mais prazer lhe dá explorar. As performances descontraídas por parte do elenco fazem com que a química entre eles resulte de forma super natural. Javier Bardem é o perfeito sexy guy, que rouba corações, com a particularidade de andar com a maluca da exmulher atrás, brilhantemente interpretada por Penélope Cruz, naquele que é o papel mais divertido do filme, proporcionando momentos hilariantes. Para além destes dois, Scarlett Johansson e Rebecca Hall completam o elenco desta comédia muito charmosa, ideal para ser apreciada nesta época do ano.

Mais conhecido por Bullit, policial sombrio protagonizado por Steve McQueen, Peter Yates foi um realizador que experimentou vários géneros. Em Os Quatro da Vida Airada o cineasta britânico radicado em Hollywood aventurou-se no filme de juventude, com a história de um grupo de amigos de uma pequena cidade do Indiana que passam o último Verão juntos antes de entrarem definitivamente na idade adulta. Mais do que um simples ritual de passagem para uma nova fase da vida dos protagonistas, o filme acaba por ser um retrato social de uma certa América em mudança. A década dos hippies chegava ao fim, aproximavase a era Reagan e, à sua maneira, os heróis de Os Quatro da Vida Airada representam esta nova sociedade, capaz de se superar através do esforço colectivo.

Título nacional: Vicky Cristina Barcelona

Título nacional: Os Quatro da Vida Airada

Realização: Woody Allen

Realização: Peter Yates

Elenco: Javier Bardem, Penélope Cruz, Scarlett Johansson

Elenco: Dennis Christopher, Dennis Quaid, Daniel Stern

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LE SKYLAB

WET HOT AMERICAN SUMMER

DIANA MARTINS

JOÃO PAULO COSTA

Julie Delpy é-nos essencialmente familiar através da trilogia Before Sunrise, Sunset e Midnight. Esta apresenta, contudo, uma carreira em construção como realizadora, tendo já alguns títulos como 2 dias em Paris ou A Condessa. O Verão do Skylab afasta-se um pouco destes projetos e tem assim uma proposta simpática: juntar toda a família, um bom dia de Verão (ou assim o parecia) e as discussões típicas de uma família dita normal, dos anos 70. Destaque para Albertine, a jovem dramática de 11 anos, irremediável intelectual mas tão ingénua como qualquer jovem da sua idade. Não podemos negar que se vê bem, até sorrimos melancolicamente e temos saudades, isso sim, sem dúvida, dos tempos de Verão. Contudo, Le Skylab é um filme bonitinho, com algum “good-feeling”, mas não é nada mais do que isso.

Depois de uma estreia algo discreta pelas salas americanas e sem ter chegado a Portugal, Wet Hot American Summer atingiu um certo estatuto de culto entre os fãs da comédia adolescente. Paródia aos filmes sobre campos de Verão muito em voga na década de 1980, este projecto criado por David Wain e Michael Showalter reune toda uma trupe de comediantes, alguns em início de carreira, outros já consagrados, e, nos seus melhores momentos, consegue destruir com um absurdo incomparável os mais banais clichés do género – noutros, porém, acaba por falhar o alvo, embora valha sempre a pena ver gente como Paul Rudd, Elizabeth Berkeley ou Bradley Cooper com rédea solta e muita vontade de se divertir. Em 2015, estas personagens e actores preparam-se para regressar em formato de série para a Netflix.

Título nacional: O Verão de Skylab

Título nacional: Wet Hot American Summer

Realização: Julie Delpy

Realização: David Wain

Elenco: Julie Delpy, Bernadette Lafont, Emmanuelle Riva

Elenco: Michael Showalter, Janeane Garofalo, David Hyde Pierce

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AVENTURAS DEBAIXO DO SOL JOÃO PAULO COSTA

Um festival de Verão que entrou para a história e ajudou a revolucionar a música e a sociedade em que teve lugar. Um passeio de um grupo de amigos pela América profunda que transformou uma viagem de canoa num pesadelo absoluto. Um filme amador feito por crianças de grande imaginação que se confunde com uma invasão alienígena. A procura de um grupo de surfistas pela “onda perfeita”. Um terrorista que, no pico do Verão, ameaça destruir a cidade de Nova Iorque. Um grupo de jovens amigos pré-adolescentes e um cadáver. Dois amigos de infância e uma mulher mais velha que procuram uma praia de sonho por entre as paisagens e gentes únicas do México. Um jovem jornalista em digressão com uma banda de rock nos últimos dias de vida desse estilo musical. Uma mulher que desaparece misteriosamente e um casal que a procura em vão. Das muitas aventuras que o Verão e o Cinema nos trouxeram em conjunto, estas foram as que destacámos e vos iremos contar em pormenor nas páginas seguintes. Algumas das mais belas vistas do nosso planeta servem de palco a viagens, eventos marcantes e descobertas profundas. Se há quem diga que o Cinema nasceu para filmar as maiores aventuras do homem, estamos aqui para o confirmar, relatando experiências tão distintas mas igualmente fascinantes. Das cores mais fortes e vistosas ao preto-e-branco mais deslumbrante que alguma vez foi captado por uma objectiva, temos uma dezena de visões do Mundo que mais do que qualquer outra coisa servem para confirmar aquilo que no fundo todos sabemos: que vivemos num lugar com muito ainda por descobrir e explorar. A aventura pode ter começado há muito, mas está ainda bastante longe de estar acabada.


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Título nacional: A Aventura Realização: Michelangelo Antonioni

L’AVVENTURA

Elenco: Monica Vitti, Gabriele Ferzetti, Lea Massari

1960 JOÃO PAULO COSTA

O leitor que não conheça a obra de Michaelangelo Antonioni pode estar a pensar que selecionar um título como A Aventura para encabeçar a lista de “Aventuras de Verão” será a mais lógica das escolhas. Na verdade, tal como Antonioni fez ao dar este nome ao filme que o lançou internacionalmente, também nós estamos a baralhar as expectativas do leitor. Para sermos honestos, esta entrada poderia estar melhor enquadrada na secção de dramas ou de romances de Verão, mas insistimos em incluí-lo nesta porque de certa forma é aqui que verdadeiramente pertence.

boa verdade definiu de certa forma tudo aquilo que viria a ser o cinema do realizador italiano, que em filmes como História de um Fotografo ou Profissão: Repórter nos iria oferecer outras aventuras como esta: introspectivas, quase implosivas, mal disfarçadas de thrillers que na verdade são profundas reflexões sobre o lugar do homem no mundo que habita. E é precisamente aí que a sua obra se eleva a outro patamar, no enquadramento das suas personagens com os lugares, muitas vezes esmagadas dentro dos próprios planos, procurando elas próprias a transcendência.

Mas que aventura é esta afinal? Quando um grupo de amigos decide aproveitar o sol para fazer uma viagem de cruzeiro pelas águas do Mediterrâneo, Anna (Lea Massari), a bela jovem que vive uma relação turbulenta com Sandro (Gabrielle Ferzetti), desaparece sem deixar rasto. Sandro e a Claudia (Monica Vitti), uma amiga também presente no cruzeiro, depressa se lançam à sua procura, mas à medida que o fazem, nasce entre eles uma atracção que os irá juntar romanticamente, ao passo que Anna será progressivamente esquecida e a aventura da sua busca desvanece a pouco e pouco – se é que alguma vez chega verdadeiramente a começar, ficando estas duas pessoas também elas perdidas, emocionalmente, num Mundo ao qual parecem não pertencer.

A Aventura não será portanto, de todo, o filme que irá fazer o leitor refastelar-se no sofá de casa e divertir-se à grande com o ar condicionado ligado enquanto o sol bate forte lá fora. Irá, caso este se sinta preparado para tal, forçá-lo a olhar, e a tentar perceber o porquê da existência destas personagens, porque deve ou não preocupar-se com o que lhes acontece, se nem eles parecem particularmente preocupados em embarcar na aventura para a qual o próprio filme os convida. Ao longo das suas duas horas e trinta minutos de duração, o espectador será constantemente desafiado, e nunca receberá respostas óbvias – receberá isso sim uma série de planos de uma beleza plástica absolutamente incomparáveis, a um ritmo que o convida a reflectir sobre o que vê e, quem sabe, sobre si próprio. Um “tédio monumental” ou uma “obra-prima absoluta”? Essa é a descoberta que cabe ao leitor fazer, e por isso o convidamos também a entrar na aventura. Aos que já estão familiarizados com o filme, não precisamos de o dizer, pois certamente saberão que irão continuar a desvendar mistérios novos a cada visionamento que façam, na companhia do génio de Michelangelo Antonioni e dos seus actores pelas belas paisagens italianas onde algures Anna permanece até hoje escondida.

Em igual medida aplaudido e vaiado aquando da sua estreia oficial no Festival de Cannes em 1960, A Aventura depressa se tornou num baluarte da cinematografia europeia da época, com os seus defensores a destacálo como uma obra-prima que relançou, a par de Godard, o cinema da era moderna, e os seus detractores a destruí-lo como uma ode ao tédio. Realmente, pouco parece acontecer no filme de Antonioni, que com este título inaugurou aquela que viria a ficar conhecida como uma espécie de trilogia temática (em conjunto com A Noite e O Eclipse), mas em

“(...)baluarte da cinematografia europeia da época(...).” 31


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Título nacional: Quase Famosos Realização: Cameron Crowe

ALMOST FAMOUS

Elenco: : Patrick Fugit; Frances McDormansond; Kate Hudson

2000 HÉLDER ALMEIDA

O cinema de Cameron Crowe foi sempre centrado em comédias românticas, servidas de bandas-sonoras de qualidade que apenas demonstram o enorme conhecimento e paixão que o realizador possui pela música. Assim foi com a sua obra de estreia, o fabuloso Não Digas Nada, e com o sucesso de Jerry Maguire, por exemplo. Em 2000, Crowe dá-nos a conhecer a sua obra mais pessoal, onde a música tem um papel tão importante quanto as personagens. Falamos de Quase Famosos. Na década de 70, William Miller, um adolescente fanático por música, decide tentar a sua sorte ao enviar um artigo para a revista Rolling Stone. Ao ser contactado pelos editores, ganha a “missão” de acompanhar uma nova banda de rock durante a sua tour. Aproveitando as férias de Verão e os conselhos de Lester Bangs, considerado uma lenda da crítica de música, aceita o trabalho, apesar da relutância da mãe e de mentir sobre a sua idade. E assim conhece os Stillwater e as suas fãs, apesar de ser sempre visto como uma espécie de inimigo por alguns membros da banda. No entanto, consegue estabelecer uma forte ligação com o vocalista, Russell Hammond, e com a sua maior fã, Penny Lane.

tem para o realizador. Crowe cria um conto de perda de inocência e passagem à idade adulta como poucos conseguiram fazer até então, fazendo o espectador embarcar numa viajem ao lado do seu Miller, sempre acompanhado de música e personagens realistas e imperfeitas. E é aí que encontramos outro dos grandes trunfos da obra: é uma viagem que dura um Verão inteiro, viajem para a qual temos porta aberta. Como espectadores, somos parte do grupo que segue os Stillwater, tudo através dos olhos de um fã que tem como missão contar a verdade e que, muito possivelmente, irá desfazer o grupo que admira, por causa de Hammond e da sua relação destrutiva com Penny, personagem por quem Miller nutre grande paixão e que recebe um cuidado especial por parte de Crowe, muito devido ao aparente carinho que sente por quem serviu de inspiração à personagem. O estreante Patrick Fugit é o jovem William Miller e, a seu lado, encontramos nomes como Jason Lee, Anna Paquin, Fairuza Balk, Noah Taylor, Zoey Deschanel, Jimmy Fallon e o falecido Philip Seymour Hoffman. No entanto, quem rouba as cenas são três actores: Frances McDormand, fabulosa como a mãe de Miller; Billy Crudup, como o problemático Hammond; e Kate Hudson como Penny Lane, personagem baseada numa pessoa real e que valeu à actriz uma nomeação para os Óscares.

Crowe tem aqui uma obra semi-autobiográfica inspirada nos seus tempos de adolescência, como escritor para a Rolling Stone, onde acompanhou bandas como os Led Zepellin e os Eagles. Mais do que nunca, a música tem aqui um papel importante no cinema de Crowe: é a música que inicia a acção, é a musica que une as personagens e é a música que, eventualmente, as separa.

Quase Famosos é tocante, divertido, inteligente, cheio de boa música, e uma carta de amor ao Rock’n’Roll. É também o maior exemplo do cinema do realizador, aqui com o seu melhor trabalho, e um dos grandes filmes da década passada, onde temos a oportunidade de entrar numa viagem que representa não só o melhor Verão da vida do jovem Miller como também o melhor Verão da vida de Crowe. Todos os Verões deviam ser assim.

Para além das excelentes bandas-sonoras que o cineasta nos apresenta nos seus filmes, Crowe é também autor de excelentes argumentos, recheados de diálogos inteligentes e personagens cativantes. Quase Famosos não foge à regra. Aliás, é aqui que encontramos a sua arte no expoente máximo, muito devido à natureza pessoal que a história

“(...)uma obra semi-autobiográfica inspirada nos seus tempos de adolescência(...)” 33


Título nacional: E a Tua Mãe Também Realização: Alfonso Cuarón

Y TU MAMA TAMBIEN

Elenco: Maribel Verdú, Gael García Bernal, Diego Luna

2001 SARA GALVÃO

O filme que deu Cuarón à cinefilia internacional e Bernal às paredes do quarto de muitas adolescentes é um fascinante road movie que segue a frágil amizade adolescente entre dois rapazes muito diferentes, metidos dentro de um carro com uma mulher adulta e cheia de segredos.

partilhando histórias de vida, sexo e momentos inesquecíveis, tendo como pano de fundo os acontecimentos políticos e sociais do México nos finais do século XX. Um hino à adolescência e à Vida, E a Tua Mãe Também, que estreou no meio de polémica devido às suas francas cenas sexuais, cria um bichinho de wanderlust nos seus espectadores, ao dar-nos paisagens magníficas juntamente com pequenas, casuais notas de rodapé sobre as pessoas e lugares pelos quais os seus protagonistas passam. No final, cada um deles encontra o que procura, mesmo que a amizade de Julio e Tenoch tenha de morrer ali, na mítica praia da Boca do Paraíso...

Tenoch (Luna) e Julio (Bernal) são dois rapazes normais, se bem que de classes distintas. Assim que ambas as namoradas vão de férias para Itália, os dois amigos apressam-se a comportar-se como homens livres, tentando seduzir todas as fêmeas da região, convidando mesmo uma delas, Luisa (Verdú), casada com o primo de Tinoch, para ir à praia da Boca do Paraíso com eles. Ela inicialmente recusa, mas depois de receber certos resultados médicos e de o marido lhe ter confessado mais uma traição, Luisa volta atrás e pede aos moços para a levarem com eles. E apesar da praia ser uma invenção dos rapazes, os três fazem-se à estrada,

“Um hino à adolescência e à Vida(...)

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Título nacional: Amor de Verão Realização: Pawel Pawlikowski

MY SUMMER OF LOVE

Elenco: Natalie Press, Emily Blunt, Paddy Considine

2004 PEDRO SOARES

Nos últimos anos tem-se assistindo à fabricação de uma espécie de falso cinema independente, que o tornou acessível às massas, obedecendo quase a uma fórmula e tornando-se mais um rótulo nas prateleiras das lojas de DVD. Amor De Verão, filme do polaco Pawel Pawlikowski que este ano passou pelas bocas do mundo depois de vencer o Oscar por Ida, é um back to basics em que o cinema independente volta a ser um cinema de autor livre feito por gente estranha. Mona (Nathalie Press) é uma rapariga do interior que já descobriu o que a vida tem de pior à custa da própria pele, o que lhe conferiu uma certa dose de rebeldia. Tamsin (a então debutante Emily Blunt) é a filha mimada de dois pais ricos concentrados mais nas carreiras profissionais e nos amantes do que na filha, que cultiva também uma certa dose de rebeldia. O que têm as duas em comum? Ambas vão passar o Verão juntas no meio de nenhures, num lugar perdido do Yorkshire inglês, combatendo o

marasmo, o tédio e o aborrecimento com o tabaco, as drogas, o álcool e o sexo. Filmado na sua totalidade em suporte digital, apenas com handycam e sem tripé, Amor De Verão é uma espécie de versão feminina de E A Tua Mãe Também, no sentido que é uma jornada adolescente com um prazo de duração marcado - o final do Verão. Até lá tudo conta; e no final não terá sido apenas mais um Verão, terá sido o Verão, o Verão de todas as descobertas, tristezas e revelações. Mona e Tamsin vão tornar-se amigas, irmãs, amantes e confidentes, vão fundir-se uma na outra, carnal e psicologicamente. Mona ocupa o lugar do namorado que acabara de deixar Tamsin (no final de relação mais seco e machista de sempre no cinema) e esta ocupa o lugar da irmã anoréxica falecida de Mona. Sincero e artsy, Amor de Verão serve para descobrir o que faziam Pawel Pawlikowski ou Emily Blunt há dez anos atrás. “(...)volta a ser um cinema de autor livre feito por gente estranha.”

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Título nacional: Conta Comigo Realização: Rob Reiner

STAND BY ME

Elenco: : River Phoenix, Corey Feldman, Will Wheaton

1986 HÉLDER ALMEIDA

Baseado na novella The Body, de Stephen King, o realizador Rob Reiner tem aqui um dos melhores contos de perda de inocência e de amizade de sempre.

da melhor forma possível. River Phoenix, Will Wheaton, Jerry O’Connell e Corey Feldman têm um trabalho e química fenomenais, com personagens complexas e bem desenvolvidas, caminhando para um desfecho que deixa os seus tempos de criança para trás, passando para uma maturidade necessária. Pelo meio, ainda somos servidos de um argumento bem construído, sempre acompanhado por uma excelente banda-sonora. Rob Reiner poderá muito bem ter aqui o melhor momento da sua carreira, com um drama que se tornou num clássico intemporal e também num dos melhores contos de amizade de sempre. Conta Comigo tornou-se no exemplo a seguir no que diz respeito a coming of age stories, contos passados durante as férias do Verão onde a inocência fica no passado. Um caso único que deu origem a tantos outros filmes do género, apesar de nunca conseguir ser superado.

Um grupo de quatro amigos descobre o paradeiro do cadáver de um rapaz que está desaparecido há dias. Decidem então partir em direcção ao local, de forma a poderem ficar com os louros da descoberta. Começa assim uma aventura onde os quatro rapazes fortalecem ainda mais os seus laços de amizade enquanto enfrentam os seus medos e traumas. Conta Comigo é um conto sobre a perda da inocência e a passagem para a vida adulta, situado na pequena cidade fictícia de Castle Rock, durante o final dos anos 50, nas últimas férias de Verão que estes quatro amigos vão passar juntos, antes de cada um seguir as suas vidas escolares. Reiner tem nas suas mãos um elenco de jovens actores e utiliza os seus talentos

“(...)um dos melhores contos de perda de inocência e de amizade de sempre.”

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Título nacional: Die Hard: A Vingança Realização: John McTiernan

DIE HARD: WITH A VENGEANCE

Elenco: Bruce Willis, Jeremy Irons, Samuel L. Jackson

1995 PEDRO MIGUEL FERNANDES

E ao terceiro capítulo a série Die Hard adapta o espírito de um buddy movie. Nesta nova aventura John McClane, o polícia nova-iorquino que consegue a proeza de estar sempre no local errado à hora errada a cada novo filme da saga, ganha um companheiro de armas para defrontar mais um terrorista. Mas esta não é a única novidade de Die Hard: A Vingança em relação aos anteriores títulos do franchise. Os cenários fechados e claustrofóbicos dos primeiros filmes (um arranha-céus e um aeroporto), ambos passados no Natal, dão lugar a uma cidade enorme transformada em tabuleiro de jogo por um terrorista que cria missões à dupla enquanto manobras de diversão para pôr em prática um assalto à Reserva Federal de Nova Iorque, em plena Wall Street.

acaba por dar um novo fôlego à série. Ao optar por não repetir a fórmula de sucesso do primeiro filme, como aconteceu de certa forma em Assalto ao Aeroporto, assinado por Renny Harlin, John McTiernan regressa ao universo de Die Hard em grande forma, com um argumento inteligente, sem pontas soltas, e com as cenas de acção a sucederem-se a um ritmo que não nos dá tempo para respirar entre os vários enigmas propostos por Simon, o terrorista de serviço. Tudo isto são excelentes ingredientes para um bom filme de acção, como raramente se vê por estes dias. A juntar a uma boa intriga, talvez um pouco datada, Die Hard: A Vingança reúne três óptimas interpretações: a dupla protagonista, composta por Bruce Willis e Samuel L. Jackson, e um vilão de antologia, interpretado por um Jeremy Irons no seu melhor.

É este autêntico jogo de caça entre gato e rato durante um dia quente no período americano equivalente ao nosso verão de São Martinho que

“(...)um argumento inteligente, sem pontas soltas(...)”

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THE ENDLESS SUMMER

SUPER 8

PEDRO MIGUEL FERNANDES

CÁTIA ALEXANDRE

Se o surf é ‘o’ desporto de Verão, The Endless Summer é um daqueles filmes que melhor capta o seu espírito. Realizado por Bruce Brown, que se especializou em documentários sobre surf, o filme segue a viagem de dois amigos que atravessam o mundo em busca das melhores ondas. De África ao Hawai, The Endless Summer é um diário de viagem dessa aventura, onde Bruce Brown nos apresenta as ‘personagens’ com quem os surfistas travam conhecimento e as características de cada um dos destinos visitados. Apesar de ligeiramente datado, este documentário é uma autêntica cápsula do tempo, vinda de uma altura em que o surf ainda era um desporto praticamente desconhecido fora dos EUA. E é sobretudo por esse lado que The Endless Summer continua a ser bastante interessante.

No Verão de 1979, um grupo de amigos decide juntar-se e fazer um filme sobre zombies para um festival de cinema. Uma noite reúnem-se junto de uma estação de comboios local, e mal sabiam eles a repercussão que o seu pequeno filme iria gerar, algo que os leva a uma misteriosa descoberta que poderá meter não só a eles, mas à inteira cidade um apuros. Realizado e escrito por J. J. Abrams e produzido por Steven Spielberg, o filme consegue reavivar o espírito dos velhos clássicos de aventura para a actualidade, onde percebemos claramente a inspiração que Abrams coloca no filme, sendo este uma clara homenagem ao que Spielberg fez dentro do género Sci-Fi no início da sua carreira. O divertido elenco e a dinâmica existente ao longo do filme trazem de volta a magia e nostalgia de outros tempos.

Título nacional: The Endless Summer

Título nacional: Super 8

Realização: George Lucas

Realização: J. J. Abrams

Elenco: Robert August, Michael Hynson, Lord ‘Tally Ho’ Blears

Elenco: Elle Fanning, Joel Courtney, Kyle Chandler

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DELIVERANCE

WOODSTOCK

JOÃO PAULO COSTA

PEDRO MIGUEL FERNANDES

Decididos em aproveitar as maravilhas da Natureza e as paisagens do Rio Cahulawassee antes que a construção de uma nova barragem inunde o local para sempre, um grupo de amigos parte numa aventura de fim-de-semana com o objectivo de viajar de canoa nesta área remota e isolada da civilização. O que se segue é um perturbador encontro com a América profunda e uma jornada de sobrevivência dentro de um autêntico pesadelo. Fim-de-Semana Alucinante é um dos grandes thrillers não só do seu tempo mas de toda a história do cinema americano, que influenciou inúmeras obras e cineastas posteriores, seja pela tensão asfixiante que consegue criar em algumas cenas ou pela coragem de se deixar emergir na sua atmosfera negra e de levar aos limites o seu estudo sombrio da masculinidade.

Hoje em dia os festivais de Verão surgem como cogumelos, mas na história da cultura popular do século XX houve um que que de destacou entre uma geração e ainda hoje é recordado como um dos mais marcantes de sempre: Woodstock. Durante o mítico festival o realizador Michael Wadleigh juntou um grupo de jovens, entre os quais Martin Scorsese e Thelma Schoonmaker, para filmar o evento e o resultado é o documentário homónimo que captou a essência de Woodstock, ao acompanhar a par e passo tudo o que aconteceu naqueles três dias mágicos. Desde a preparação e montagem do palco aos acontecimentos que levaram a organização a abrir portas à enxurrada de gente que se dirigiu ao festival sem bilhete, acabando nas excelentes interpretações que passaram por Woodstock. Obrigatório para todos os fãs de música.

Título nacional: Fim-de-Semana Alucinante

Título nacional: Woodstock - 3 Dias de Paz, Música e Amor

Realização: John Boorman

Realização: Michael Wadleigh

Elenco: Burt Reynolds, John Voight, Ned Beatty

Elenco: Joan Baez, Richie Havens, Roger Daltrey

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LÁGRIMAS DE VERÃO JOÃO PAULO COSTA

A próxima secção de críticas, curiosamente, começa e acaba com referência a dois títulos de um dos maiores nomes da História do Cinema: o mestre japonês Yasujirô Ozu que, entre outras coisas, soube captar de forma única a essência da vida. As suas histórias aparentemente simples escondem na realidade toda a complexidade das relações humanas que, mesmo tendo lugar numa sociedade tão específica como a japonesa, trata de questões familiares a qualquer um de nós. O drama da vida captado de forma exemplar por uma câmara de cinema, neste caso sob a luz do Verão. Tal como o fazem, de resto, outros mestres do ofício como Jean-Luc Godard, Sidney Lumet, Ingmar Bergman ou Éric Rohmer. São páginas também marcadas por rostos femininos inesquecíveis, desde Brigitte Bardot, Harriet Andersson ou Setsuko Hata, entre outras, que os seus realizadores souberam captar na perfeição e pelas quais conseguiram fazer-nos, enquanto espectadores, suspirar. São dramas de Verão também marcados por fantasmas de guerra, a Segunda Guerra Mundial de que algumas personagens se tentam refazer, ou do Vietname para o qual algumas outras se preparam para ser lançadas em missão. O amor, a morte, o desejo, a responsabilidade são conceitos que fazem a tragédia Humana e sem os quais a vida seria também ela impossível. E por isso mesmo é que os convidamos a recordar algumas destas poderosas histórias em que nem a presença intensa do sol consegue disfarçar as nuvens cinzentas que pairam no ar e que só o cinema, e gente tão talentosa como a que realiza e protagoniza estes filmes, poderiam transformar em arte absoluta.


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Título nacional: Bakushû Realização: Yasujirô Ozu

BAKUSHÛ

Elenco: Setsuko Hara, Chishû Ryû, Chikage Awashima

1951 JOÃO PAULO COSTA

Noriko (Setsuko Hara), de 28 anos, trabalha num escritório em Tóquio, e vive em casa com a sua família composta pelos pais, o irmão mais velho e a mulher e os dois filhos deste, que insistem que ela se encontra na idade ideal para casar. Uma proposta do patrão de Noriko, decidido a juntá-la a um amigo empresário mais velho, e a pressão familiar vãose acumulando, mas ela parece desinteressada num casamento por obrigação da idade, preferindo a companhia das amigas – algumas já casadas, e por isso com menos tempo do que antes para a acompanhar, e outras solteiras como Aya, a sua mais próxima confidente – com quem se diverte regularmente. Tal como habitualmente na filmografia de Yasujirô Ozu, Bakushû é um típico drama familiar do realizador japonês que, passado em Tóquio poucos anos depois do fim da Segunda Grande Guerra, põe em confronto a tradição da cultura nipónica com a modernidade. Nesse aspecto, podemos dizer que estamos perante um dos mais radicais filmes feministas da sua época, mas o trabalho maravilhoso de um mestre como Ozu não merece ser reduzido a uma posição dessas, de filme-mensagem. Aliás, se há coisa que não vemos em Bakushû é qualquer espécie de vitimização que hoje parece estar tão em voga em títulos semelhantes, onde algumas personagens têm de ser colocadas em sofrimento extremo para no final saírem por cima com uma lição moralizadora. Não parece sequer haver qualquer espécie de lição moral preparada por parte de Ozu, mas sim grande vontade em deixar fluir o drama de forma natural, sem manipulações dramáticas baratas. Ou seja, a simplicidade com que as coisas verdadeiramente importantes merecem ser tratadas. Setsuko Hara, presença constante na filmografia de Ozu (e muitas vezes a interpretar personagens chamadas Noriko) que terminou a carreira praticamente depois da morte do realizador em 1963 e desapareceu da vida pública, é absolutamente adorável aqui, conferindo à sua personagem uma humanidade absolutamente indispensável para o

sucesso do filme, especialmente pela aura que passa diante das câmaras, uma luminosidade única que brilha de forma tão natural nos momentos mais dramáticos comonos mais cómicos. Porque Bakushû é, tal como a vida, uma sucessão de momentos tristes, felizes e nostálgicos. Apesar do título original ser uma referência à época do princípio do Verão, muitas das suas cenas são passadas em interiores, concentrando-se na interacção entre personagens, mas ao mesmo tempo é transmitida uma ideia clara, através dos diálogos, do espaço exterior que elas ocupam – as comparações entre Tóquio e as zonas mais provinciais são constantes, por exemplo – e, quando finalmente vemos esses espaços, seja a grande metrópole através da janela de um prédio de escritórios, sejam os campos de cevada ou as praias que vemos mais próximos do final, o efeito é particularmente forte, como se as paisagens nos dissessem elas próprias aquilo que as personagens sentem. Fiel ao seu estilo, Ozu construiu o filme com um cunho pessoal bem evidente. Os planos, na sua maioria imóveis e a um ângulo um pouco mais baixo do que o habitual, são cuidadosamente enquadrados e iluminados de forma a que sejam os actores a imprimir movimento a cada cena. Quando a câmara se move, algumas vezes curiosamente apenas depois de as personagens abandonarem os cenários, existe um sentido por trás que a torna também numa parte importante da narrativa – pensemos, por exemplo, no momento em que Noriko se prepara para finalmente espreitar um dos homens com quem lhe propuseram casar, e a câmara começa por acompanhar o movimento desta e da sua amiga, havendo depois um corte para o que se supõe ser um ponto de vista delas e, outro corte depois, estamos já num plano estático onde a família de Noriko se debruça, preocupada, sobre o seu futuro, se que nós como espectadores nunca chegamos a ver esse homem. Do princípio ao fim, a única coisa que nos apetece fazer é agradecer a existência de tal obraprima no cinema.

“(...)a simplicidade com que as coisas verdadeiramente importantes merecem ser tratadas.” 43


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Título nacional: Mónica e o Desejo Realização: Ingmar Bergman

SOMMAREN MED MONIKA

Elenco: Harriet Andersson, Lars Ekborg, John Harryson

1953 SARA GALVÃO

Ah, o amor adolescente! Largar tudo e viver dentro de um barco, vivendo do que a Natureza dá, vendo o pôr-do-sol abraçados a outra pessoa, o ideal romântico a que qualquer jovem (e alguns adultos) aspiram! Mas como todos os ideais, a pintura é sempre melhor que a realidade. Há uma razão muito forte porque Romeu e Julieta é a perfeita história de amor - eles morrem antes que a paixão desvaneça, antes da primeira discussão sobre de quem é a vez de pôr o lixo na rua, ou como arranjar o dinheiro para a renda. O amor adolescente é muito bonito porque não pressupõe responsabilidades adultas. E é um retrato do amor adolescente que Bergman nos dá aqui, em Mónica e o Desejo, com todos os seus sonhos e pesadelos. Harry (Ekborg) conhece Mónica (Andersson) num café, no intervalo de almoço. Os dois começam a sair, indo juntos ao cinema ver os filmes americanos de que Mónica tanto gosta, ou passando bons momentos no sofá da casa de Harry. Mas quando Mónica entra em conflito com o pai, e sai de casa, e Harry perde o emprego, os dois jovens decidem largar tudo e passar o Verão no barco do pai de Harry, navegando ao longo da costa de Estocolmo. Claro que ao início tudo são rosas, mas quando um antigo namorado de Mónica tenta queimar o barco, e esta descobre que está grávida, e que, bem, comer cogumelos todos os dias não é a sua ideia de idílio romântico, Harry resolve voltar com ela à cidade e fazer dela uma mulher honesta, arranjando um emprego e estudando à noite para a sustentar mais à bebé. Só que Mónica, sozinha em casa, sem qualquer vocação maternal, não está disposta a tornar-se numa fada do lar, e rapidamente as suas constantes traições são descobertas por Harry. O sonho adolescente terminou - Mónica desaparece, e Harry fica com uma filha nos braços para criar. Mónica e o Desejo pode não ser o melhor filme de Bergman, mas é decerto um dos que mais mitologia reuniu à sua volta, desde as supostamente escandalosas cenas de nudez (que iriam dar à Suécia a

reputação liberal que ainda hoje permanece), até ao caso amoroso do realizador com Harriet Andersson, pelo qual largaria a mulher e filhos, e que inspiraria muito do seu trabalho posterior. Baseado num conto homónimo de Per Anders Fogelström, o filme seria louvado pela Nouvelle Vague cinco anos mais tarde, com Godard a comparar a sua influência no cinema do seu tempo com a de Nascimento de Uma Nação no cinema clássico. Alguns críticos vão ainda mais longe ao dizer que, de certo modo, Mónica e o Desejo abre as portas de um certo cinema italiano e americano, associado ao neo-realismo. Mas se tal faz algum sentido quando consideramos a segunda parte do filme - quando Harry e Mónica navegam, felizes e despreocupados, belos e jovens sob a belíssima e suave cinematografia de Gunnar Fischer - a terceira e última parte têm muito mais a ver com a estilização e claustrofobia do expressionismo alemão. Dois momentos fulcrais se destacam no filme - o primeiro, mais badalado, são as nádegas nuas de Andersson, despreocupadamente exibidas para Harry e para a audiência, numa candura até ali nunca vista na sétima arte. O segundo, e mais intenso, é quando Mónica, aproveitando uma viagem de trabalho de Harry, vai para os bares e acende o seu cigarro com outro na boca de um homem, após o que olha directamente para a câmara (e para nós) com desdém. Esta quebra da quarta parede é o único momento no filme onde sentimos todo o poder de Mónica, a mulher. Até aí, ela mais não é que uma menina extremamente mimada, impulsiva e sedutora, com carisma erótico para dar e vender mas sem uma verdadeira personalidade. Talvez seja essa a grande falha - ou o especial encanto - de Mónica e o Desejo. A protagonista é feita da matéria dos sonhos, e nada sólido fica dela quando se acorda para a realidade.

“(...)é decerto um dos (filmes) que mais mitologia reuniu à sua volta(...)” 45


Título nacional: Conto de Verão Realização: Eric Rohmer

CONTE D’ÉTÉ

Elenco: Melvile Poupaud, Amanda Langlet, Genaëlle Simon

1996 SARA GALVÃO

Gaspard, um rapaz tímido, recentemente saído de um curso de Matemática, vai passar férias a Dinard na esperança de encontrar Lena, a sua pseudo-namorada, que lhe prometera algum tempo juntos. Só que à medida que os dias passam, Gaspard vai perdendo a esperança que ela chegue, e vai-se aproximando de Margot, uma rapariga que trabalha num restaurante local. Por sua vez, esta apresenta-lhe Solene, uma morena com pouca paciência para indecisos. Quando Lena finalmente aparece, Gaspard dá por si metido num quadrado amoroso com as três raparigas, cada uma bastante diferente da outra, e sem sequer ter a certeza de gostar de nenhuma delas.

dúvidas e passeios com as diferentes raparigas dificilmente poderiam ser considerados interessantes se descritos, mas Rohmer consegue tornar esses momentos dignos de nota, hipnotizantes até. Para isso contribui sobretudo a performance de Langlet como Margot, a verdadeira musa do filme, e sem dúvida a melhor escolha para Gaspard, tornado Don Juan amador por acidente. A grande arte de Conto de Verão é que nunca em momento algum somos levados a questionar as escolhas de Gaspard (ou a ausência das mesmas); Rohmer coloca o rapaz acima da moralidade simplista, e assim podemos regozijar quando a sua arte o salva de uma trama amorosa para a qual claramente não está talhado.

Sem banda sonora ou grandes artifícios, Rohmer faz mais uma vez a iconografia do banal, elevando o quotidiano ao nível do sublime. A repetição dos dias de Gaspard, os seus esforços musicais, e as suas

“(...)elevando o quotidiano ao nível do sublime.(...)

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Título nacional: O Raio Verde Realização: Eric Rohmer

LE RAYON VERT

Elenco: Marie Rivière, Vincent Gauthier, Amira Chamakhi

1986 SARA GALVÃO

Desiluda-se quem espera do filme de Rohmer uma adaptação fiel do romance homónimo de Jules Verne - O Raio Verde, quinto filme da série “Comédias e Provérbios” do realizador francês, pouco ou nada tem de sobrenatural ou de ficção científica. Delphine (Rivière) está a passar um mau bocado - após ter acabado com o namorado, a amiga com quem tencionava ir para a Grécia de férias larga-a para ir com o seu novo beau; Delphine vê-se assim sozinha em Paris durante o Verão. Várias pessoas a tentam ajudar - quer convidando-a a passar uns tempos em casas de família, quer emprestando apartamentos junto a estâncias balneares ou à montanha. Mas para Delphine, que encontra cartas de jogar agoirentas em todo o lado, nada resulta. O ennui de viver, junto com uma desconfiança acerca das relações emocionais que vê serem jogadas à sua volta, deixam-na desconsolada e cada vez mais isolada...

No estilo episódico que é também característico de Rohmer, o realizador filmou os diálogos quase exclusivamente improvisados dos actores naquilo que é talvez melhor descrito como um ensaio existencialista, próximo de uma ficção documental. Delphine parece, à primeira vista, a personagem mais irritante do mundo, mas à medida que nos é dado tempo para reflectir sobre o seu desespero e raiva com o que vê à sua volta - desde ser a única solteira no meio de um grupo de casais, ou os jogos de sedução da amiga de praia escandinava, - somos obrigados a reconhecer que de Delphine todos temos um pouco. E como ela, diria o caro Variações, estamos além.

“(...)melhor descrito como um ensaio existencialista(...)”

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Título nacional: 12 Homens em Fúria Realização: Sidney Lumet

12 ANGRY MEN

Elenco: Henry Fonda, E.G. Marshall, Jack Warden

1957 JOÃO PAULO COSTA

Nada melhor do que passar um muito quente dia de Verão do que fechado num tribunal a discutir o destino de um homem, certo? Essa não é a opinião dos 12 homens que compõem o júri que tem de dar o veredicto de um caso de homicídio em que um outro homem – negro, de origens humildes – parece claramente culpado. Mas a dúvida do Jurado # 8 (Fonda) em atribuir-lhe as culpas de forma tão clara deixa todos os outros elementos em polvorosa.

personagens – seja fisicamente, através do suor, seja pela forma como a realização e o argumento irrepreensíveis o usam para, aos poucos, destruir as suas defesas e ir revelando as verdadeiras personalidades de cada jurado, que nos são apresentados apenas pelo seu número na composição do júri mas se revelam pessoas de carne e osso, com ideias e preconceitos como qualquer outra. Sem rodeios, 12 Homens em Fúria é uma obra-prima, ainda mais admirável por ser o primeiro filme do realizador. Na verdade Lumet possuía já vasta experiência como realizador de televisão e teatro, mas revela aqui um controlo absoluto da linguagem específica do cinema, que junta a um argumento muito inteligente na forma como expõe o seu tema – é claramente um filme-mensagem, mas nunca a tenta impor à martelada, pedindo uma reflexão séria por parte do espectador.

12 Homens em Fúria parece o oposto de um filme de Verão, pois passase exclusivamente no interior de uma sala, acompanhando as tensões crescentes em torno de uma decisão de vida ou de morte. Mas mais do que qualquer outro título presente nestas páginas, este é aquele em que as suas consequências físicas se fazem sentir com maior relevância. O calor que supostamente emana lá fora reflete-se de forma clara nas

“(...)12 Homens em Fúria é uma obra-prima(...)”

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Título nacional: Os Descendentes Realização: Alexander Payne

THE DESCENDANTS

Elenco: George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller

2011 CÁTIA ALEXANDRE

O Havai costuma ser o cenário perfeito para aventuras de Verão, onde o clima quente e afectuoso cai bem, onde coisas harmoniosas e aprazíveis estão sempre a acontecer. O que é certo é que este pensamento é totalmente contrariado em Os Descendentes de Alexander Payne.

uma série de coisas complicadas a acontecer, Matt vê-se perante uma quantidade de decisões e resoluções que o farão repensar na sua vida enquanto homem, marido e pai, naquela que será uma bonita jornada sobre crescimento interior e conexão entre pai e filhas perante a pior das situações.

O advogado Matt King (George Clooney), descendente de uma das mais importantes famílias do Havai encontra-se naquela que será provavelmente a pior altura da sua vida. Com a esposa em coma, depois de ter tido um acidente de barco, Matt terá agora de lidar sozinho com as suas duas filhas (Shailene Woodley e Amara Miller), uma ainda pequena e outra adolescente em constante rebeldia. Para piorar ainda mais as coisas, os primos pressionam-no a vender terras da família sob ameaça de penas futuras por parte do estado, e já depois do acidente da esposa descobre que esta mantinha um caso amoroso com outro homem. Com

George Clooney tem uma química incrível com Shailene Woodley e Amara Miller algo que torna o filme ainda mais especial. As performances de todos são fantásticas e o facto de os vermos numa situação tão vulnerável, faz com que nos preocupemos com os personagens a cada passo, como se de pessoas reais se tratassem. Autêntico e emocionalmente poderoso, o filme aborda temas e situações dolorosas, mas também divertidas onde os personagens estabelecem empatia com o espectador desde o primeiro minuto. “(...)uma bonita jornada sobre crescimento interior(...)”

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AMERICAN GRAFFITI

LE MÉPRIS

JOÃO PAULO COSTA

DIANA MARTINS

Antes de se lançar na aventura que iria literalmente definir a sua carreira na realização, George Lucas ofereceu ao Mundo American Graffiti, esta deliciosa história pessoal sobre o fim do último Verão de um grupo de adolescentes no início da década de 1960 antes de entrarem na idade adulta, com o Vietname, a faculdade e todas as outras responsabilidades a espreitarem mesmo ao virar da esquina. Filme-mosaico com um grupo de excelentes jovens actores num promissor início de carreira (Richard Dreyfuss, Harrison Ford e Ron Howard, prestes a mudar-se da frente para trás das câmaras), este é um conto clássico sobre a perda da inocência da América, polvilhado com uma banda sonora impecável e um sentido de genuína humanidade que a obra recente de Lucas parece ter definitivamente abandonado.

“Why don't you love me anymore? - That's life.” Numa Itália bela e remota, Camille (Brigitte Bardot) e Paul (Michel Piccoli) fazem parte da equipa de filmagens do novo filme de Fritz Lang, baseado na Odisseia de Homero. Numa série de momentos de tensão, a vida do casal vai-se desfragmentando, numa das cenas mais memoráveis do filme, na ilha de Capri. O Desprezo é uma obra única, pautada por um exímio exercício de luz – a claridade, a clarividência - e de cores – as primárias, os instintos básicos. Tudo nele é algo simbólico, mitológico, algo etereamente belo. Jean-Luc Godard, crítico da revista Cahiers du Cinéma e um dos principais cineastas do movimento da nouvelle vague francesa, apresenta assim uma das suas obras mais icónicas, num misto reflexão e contemplação sobre a arte e o seu conceito.

Título nacional: American Graffiti: Nova Geração

Título nacional: O Desprezo

Realização: George Lucas

Realização: Jean-Luc Godard

Elenco: Richard Dreyfuss, Ron Howard, Candy Clark

Elenco: Brigitte Bardot, Jack Palance, Michel Piccoli

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L’HEURE D’ÉTÉ

KOHAYAGAWA-KE NO AKI

DIANA MARTINS

JOÃO PAULO COSTA

Tempos de Verão fala-nos do Verão de uma família, na sua casa de campo. É aqui que Frédéric, Jérémie, Adriene e as crianças festejam alegremente os 75 anos da mãe, Hélène. Contudo esta está mais preocupada em deixar o seu legado, a obra do seu tio, o pintor Paul Berthier, que toda a vida preservou. Mais do que um filme sobre família e reunião, esta é uma narrativa sobre como lidar com o passado, conciliando lembranças obscuras e ausentes com um presente tão real e próximo. Num trabalho co-financiado pelo Museu de Orsay, por ocasião do seu 20ª aniversário, Assayas faz um trabalho de direção competente, marcado por uma delicadeza emocional e pessoal, incentivando o espetador a uma vida de beleza e de real presença. Porque, no fim, nada é mais belo do que o a simplicidade que nos rodeia.

Percebendo que o fim da vida pode estar próximo, o velho Manbei procura arranjar noivos para a sua filha solteira e para a sua nora viúva, ao mesmo tempo que se reaproxima de uma paixão do passado, isto enquanto procura salvaguardar o futuro do seu negócio. Como sempre acontece com o cinema de Ozu, as suas premissas simples são suficientes para fazer cinema do mais alto quilate, e O Fim do Verão não é excepção. Fiel ao seu estilo, o realizador nipónico encena cada cena com uma calma e um cuidado na composição impecáveis, deixando o drama e a comédia familiares fluir naturalmente, sem imposições artificiais, qualidades que parecem ter desaparecido juntamente com o próprio cineasta, e nos fazem sentir cada vez mais a sua falta.

Título nacional: Tempos de Verão

Título nacional: O Fim do Verão

Realização: Olivier Assayas

Realização: Yasujirô Ozu

Elenco: Juliette Binoche, Charles Berling, Jérémie Renier

Elenco: Ganjirô Nakamura, Setsuko Hara, Yôko Tsukasa

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VERÃO SANGRENTO PEDRO SOARES

Desde que o Tubarão de Steven Spielberg inaugurou o blockbuster moderno que o filme de verão tem ganho cada vez mais espaço. São filmes lançados estrategicamente durante as férias, embrulhados em campanhas de marketing, apontando às massas e ao consumismo desenfreado. E quanto maiores, mais barulhentos e com mais luzes a brilhar melhor. Por isso, o cinema de terror tem sido um dos sub-géneros de excelência dos filmes de verão. Este cinema passa-se essencialmente em dois territórios: na praia, como Tubarão; ou no campo, como Sexta-Feira 13, os dois exemplos maiores destes filmes, que inspiraram outras mil e uma variações. Em 1980, quando Jason Voorhees começou a chacinar jovens à bruta no Camp Crystal Lake, era difícil imaginar que o teen-slasher - filmes em que um serial killer vai despachando um a um jovens desprevenidos (e, de preferência, com as hormonas a mil) - se tornaria tão popular. De O Massacre no Texas a Jeepeers Creepers e, claro, terminando em Sei o que Fizeste o Verão Passado, são incontáveis os filmes em que um grupo de jovens vão de férias algures e acabam perseguidos por um monstro. O que muda nestes slashers é a) a criatura perseguidora e b) o destino de férias. Neste último, o local favorito vai para as cabanas no meio do nada. Estar isolado é sempre muito conveniente. No entanto, esse destino pode também ser uma cratera, por exemplo, como no australiano Wolf Creek. Ou pode ser uma viagem à Europa, como Hostel. A praia é o outro destino de eleição dos filmes de verão de terror. No entanto, apesar de ter sido o percursor dos blockbusters, Tubarão não foi o primeiro do género. Procurem The Horror of Party Beach, pérola de série-b de 1965, com monstros em fatos de borracha que atacam ao som da surf music dos Del-Aires. No entanto, não podemos deixar de dar destaque ao recente remake de Piranha, que leva ao extremo tudo o que este sub-género deve ter: mortes parvas ao pontapé e quanto mais sangrentas melhor; e muita pele à mostra, claro.


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JAWS I, II, III E IV - THE REVENGE 1975, 1978, 1983 E 1987 PEDRO SOARES

Título nacional: Tubarão I, II, III e IV Realização: Steven Spielberg, Jeannot Szwarc, Joe Alves e Joseph Sargent Elenco: Roy Scheider, Lorraine Gary, Dennis Quaid e Lance Guest

TUBARÃO I - COMEÇAVA O BLOCKBUSTER DE VERÃO Em 1975, Steven Spielberg era ainda um jovem realizador que, com Tubarão, criou o conceito de blockbuster como o conhecemos hoje e começou a sua escalada triunfal até ao topo. O filme é a história de Amity, uma localidade veraneante que, em vésperas do 4 de Julho, se vê a braços com o ataque de um terrível tubarão branco. Apesar do assassinato brutal de dois jovens, o presidente da câmara (Murray Hamilton) decide contrariar o chefe da polícia local (Roy Scheider) e mantém as praias abertas para não prejudicar o negócio. O que é certo é que o tubarão volta a atacar e é o próprio chefe da polícia, que com a ajuda de um especialista marinho (Richard Dreyfuss) e de um marinheiro experiente (Robert Shaw), vai tentar matar o animal. Estamos a falar de um filme de monstros, influenciado pelos filmes de monstros da Universal, mas não há aqui violência gratuita. Há mortes violentas, sangue e até explosões (estamos a falar de um blockbuster, que raio!), mas nunca de forma gratuita, sempre com um guião a sério por trás. Aliás, Spielberg trabalha as personagens e o núcleo familiar, personagem central da maioria dos seus trabalhos, volta a estar ameaçado - é a sua costela capriana. No entanto, ao contrário deste, em Tubarão não são as cenas aquáticas que fazem as delícias visuais, mas sim as cenas em terra, primeiro na praia e depois no barco. Se Spielberg filma uma ambiguidade paz e caos entre o mar e a praia, isso é graças ao terror e ao pânico que as cenas de público geram no espectador. E durante a empresa no barco de Quint na caça ao tubarão a tensão sobe, tornando-se quase insuportável e o terror torna-se verdadeiramente assustador. Tubarão é um thriller de terror, cheio de cenas clássicas, onde as cenas em terra são sempre mais tensas do que as subaquáticas. Aliás, Spielberg quase que nem mostra o monstro para nos meter medo, jogando antes com o suspense e a sugestão e com uma ambiguidade entre paz e caos, mar e praia. Depois veio o pior: as sequelas.

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TUBARÃO II - A SEQUELA INEVITÁVEL Depois do mega-sucesso de Tubarão era apenas uma questão de tempo até à sequela. E mesmo que Spielberg estivesse indisponível, isso não era problema desde que houvesse um tubarão branco sanguinário. Assim, convocou-se novamente Roy Scheider, obrigado contratualmente a aceitar, e estava composto o ramalhete. Toda a gente sabe que se deve sempre desconfiar das sequelas. E quando estas, ainda por cima, despedem o realizador a meio, não é de agoirar um grande futuro. Mas Jeannot Szwarc tentou manter-se o mais fiel possível ao espírito antecessor, abandonando a abordagem mais carniceira. Repetindo o que fizera Spielberg, Szwarc tentou adiar o encontro da câmara com o tubarão o mais possível e rejuvenesceu a história, trasnformando Tubarão II num teen movie, em que dezenas de adolescentes com as hormonas aos saltos vão passar as férias de verão a Amity. Mas enquanto o primeiro jogava a ausência do animal com mestria, aumentando a tensão e a claustrofobia do espectador, este é completamente desastrado. Jeannot Szwarc tem a elegância de um elefante num morangal, editando aborrecidas cenas de desportos aquáticos com cenas subaquáticas aleatórias e vislumbres fugazes do tubarão, com a theme song a tocar todos os cinco minutos até desaparecer por completo do filme, inexplicavelmente.E depois lá anda o pobre do Roy Scheider, paranóico com o surgir de um novo caçador dos mares e com a aparente despreocupação dos maiorais da cidade, que parecem ter esquecido que aconteceu o mesmo no filme anterior. É vê-lo a correr pela praia como uma histérica, aos tiros para a água(!), perante o olhar incrédulo dos banhistas que questionam os próprios botões de como é possível alguém estar mesmo a filmar aquilo. Depois chega o grande clímax. Montes de miúdos vão dar um passeio de barco, o tubarão cerca-os e Schneider vem salvar o dia. É aqui que, em desespero, Tubarão II tenta tudo, com o animal a atacar tudo o que mexa, incluindo uma baleia assassina(!) Mas, mesmo assim, o bodycount do filme conta-se pelos dedos de uma mão... O tubarão é inofensivo, assim como o filme. 57


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TUBARÃO III - OH NÃO, MAIS UMA SEQUELA Mesmo com o desastre de Tubarão II, como é que alguém pode pensar em fazer uma terceira sequela? A resposta é simples e tem apenas uma letrinha e um número: 3D! Recuperado da gaveta das antiguidades, graças aos novos óculos vermelhos e azuis, a tecnologia a três dimensões era anunciada como a nova big thing, prometendo mundos e fundos a todos os possíveis compradores da banha da cobra. E assim surgia mais uma cagada chamada Tubarão III. Renovou-se o elenco e tentou-se trazer uma lufada de ar fresco ao filme que, verdade seja dita, é o mais ambicioso de todos. Agora já não estamos em Amity, mas no parque temático Sea World, financiado pelo badass Louis Gossett Jr., um esteriótipo ambulante dos blaxploitation movies que debita oneliners memoráveis com a cadência de uma metralhadora. E não há um tubarão, há... dois! Escusado era manterem a ligação com os anteriores. É que encontramos os filhos(!) de Scheider a trabalhar no Sea World. O filme recupera ainda o tom negro do original, sem recorrer aos banhos de sangue do segundo. Para isso, apostou tudo num tubarão maior e mais mau; e é certo que esta máquina já abana a cauda. Mas enquanto o primeiro robot abria e fechava a boca, este só a mantém aberta. Então para que serve um tubarão estático a abanar a barbatana? Serve apenas para que as cenas em que ataca sejam uma bodega: flashes muito rápidos da cara do bicho e da vítima, intercalados com outros da cauda a abanar. Mas o pior são mesmo os efeitos-especiais. E nem estou a falar daqueles que, supostamente, funcionavam com os óculos de celofane. Estou a falar de uns animatronics feitos em spectrum e uns blue screens tão amadores que relegam Tubarão III directamente para a série z. Fujam!

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TUBARÃO IV - A VINGANÇA - O QUÊ? A SÉRIO? HÁ UMA QUARTA SEQUELA?? Pois é, parece que foi mesmo necessário escavar mais fundo. Tubarão IV - A Vingança faz tábua rasa de Tubarão III, como se não tivesse acontecido, e mete outros actores a fazer de filhos de Roy Scheider. E até as suas profissões são diferentes(!). Mas agora regressa a mãe(!!), Lorraine Gary, agora como protagonista, a dar a última machadada na pseudo-carreira que teve. Voltamos então a Amity, onde Sean, o filho mais novo, é agora o polícia de serviço. E, na véspera de Natal, um novo tubarão branco fá-lo em pedacinhos. Ora, a mãe fica chateada, claro que fica; já lhe havia morrido o marido por causa do raio dos bichos, agora também tinha que morrer o filho? Mas que grande coincidência: a mesma família quatro vezes atacada por tubarões brancos. Mas desta vez o caso é diferente, desta vez é pessoal. Esqueçam o filme de monstros; este é um filme de vingança, em que um tubarão branco viaja dos Estados Unidos às Bahamas em dois dias para se vingar. Agora tentem ler isto sem sorrir. E como o filme é uma semvergonhice pegada, o realizador não tem problema em imitar a cena mais famosa do filme de Spielberg (aquela em que Roy Scheider brinca com o filho à mesa da cozinha) e em colar umas cenas de Tubarão em flashback. Desonesto, muito desonesto. Foi este o filme que fez a ponte decisiva para as toneladas de filmes de tubarões que o SyFy produz. Isso será bom ou mau? Não sei, mas quem se safou com tudo isto foi Michael Caine, que entrou neste acidente cinematográfico. Mais tarde justificou-se em entrevista: o filme foi uma valente merda, mas a casa que construiu com o dinheiro que recebeu é fabulosa, garante.

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Título nacional: Acampamento Sangrento Realização: Robert Hiltzik

SLEEPAWAY CAMP

Elenco: Felissa Rose, Jonathan Tiersten, Paul DeAngelo

1983 HÉLDER ALMEIDA

No Verão de 1975, dois irmãos, Peter e Angela, acompanham o pai e a sua amante numa viajem de barco. A tarde que deveria ser divertida e memorável torna-se fatídica quando o pai e Peter morrem atropelados por um outro barco desgovernado. Oito anos mais tarde, Angela vive com a sua tia e o primo, Ricky. Os dois jovens estão prestes a ir para um campo de férias passar o Verão. Quando lá chegam, Angela começa a ser mal tratada devido à sua natureza introvertida, resultado da tragédia que viveu. É após a sua chegada ao campo de férias que mortes violentas começam a acontecer.

final conseguiu ainda tornar-se num dos mais inesperados e bizarros de sempre, difícil de ser esquecido por quem viu e que ficou para a história do Cinema de Terror. O filme estreou de forma limitada no mercado americano, mas conseguiu, ainda assim, ser um pequeno sucesso comercial. No entanto, o seu grande descobrimento foi através do mercado de video, na altura do VHS, que tantas obras de culto criou. Assim nasceu um pequeno seguimento à volta de Acampamento Sangrento, apesar de ser sempre algo fora do radar do grande público. Com o sucesso comercial e o culto criado, várias sequelas começaram a ser produzidas, trocando o humor negro por um tom mais goofy, nunca conseguindo atingir a qualidade do original e sem ter o impacto final que encontramos aqui. O próprio Hiltzik voltaria à saga anos mais tarde com Return to Sleepaway Camp, cuja produção terminou em 2003 mas que só conseguiu encontrar distribuição em 2008. Hiltzik ignora todas as sequelas, criando uma continuação directa ao seu clássico de culto. O realizador pretendia fazer uma trilogia com o último filme a intitular-se Sleepaway Camp Reunion. No entanto, decidiu mudar de rumo e começar a trabalhar num reboot, mantendo as personagens e o estilo da obra original, dando-lhe um toque mais moderno. O argumento deste novo começo está a ser trabalhado. O filme original acabou ainda por ser bastante referenciado em músicas e filmes, sendo uma grande inspiração para a comédia de culto Wet Hot American Summer. Filme de culto absoluto, Acampamento Sangrento não é bastante conhecido do grande público, muito devido ao seu tom exploitation, fazendo desta uma obra algo mais alternativa do que muitas outras do género. No entanto, dentro do cinema de terror, é um dos mais conhecidos ambientados na época de Verão, seguindo os passos do seu pai mais velho, o já referido Sexta-Feira 13.

Escrito e realizado por Robert Hiltzik, Acampamento Sangrento é um filme exploitation estreado no auge do slasher, mais precisamente em 1983. No final da década de 70 e no início dos anos 80, surgiram vários filmes do género, muito influenciados pelos êxitos de Massacre no Texas, de Tobe Hooper, e de Halloween, o clássico de John Carpenter. No entanto, aquele que serviu de grande inspiração para o filme de Hiltzik foi um outro clássico: Sexta-Feira 13, estreado três anos antes. As semelhanças entre ambos os filmes são várias: tratam-se ambos de slashers, cuja acção tem lugar num campo de férias, onde as vitímas são mortas de formas violentas por um assassino cuja identidade permanece escondida até aos segundos finais. Apesar destas semelhanças, Acampamento Sangrento conseguiu ganhar um lugar especial dentro do género, devido às suas mortes violentas e relativamente criativas, ao seu humor negro e, muito particularmente, ao seu desfecho. A revelação final consegue ser uma reviravolta inesperada e chocante, apanhando quase toda a gente de surpresa, com um toque algo macabro por parte de Hiltzik, para além da forte componente sexual, componente essa sempre presente ao longo do filme mas que, apenas nos segundos finais, demonstra toda a sua força. O seu twist

“Filme de culto absoluto(...)” 63


THE TEXAS CHAINSAW MASSACRE

Título nacional: O Massacre no Texas Realização: Tobe Hooper Elenco: Gunnar Hansen, Marilyn Burns, Edwin Neal

1974 CÁTIA ALEXANDRE

Clássico intemporal do género de Terror, O Massacre no Texas, de Tobe Hooper, é um marco na história do cinema, continuando ainda nos dias de hoje a ser fonte de inspiração para muitos outros realizadores devido ao impacto que sempre causou.

de uma velha família de canibais loucos que usam dos recursos mais macabros e sinistros para capturar e depois transformar as suas vítimas em banquete. Com uma atmosfera absolutamente assustadora, não é preciso muito para causar o pânico ao espectador. Um ruido apenas será o suficiente para que também nós comecemos a sentir o medo e pavor, com o forte calor do Texas como pano de fundo, contendo também já por si só uma sensação de tamanha claustrofobia e maior ansiedade, onde a violência tem a meu ver, um papel muito mais psicológico, que mexe connosco, do que propriamente a componente visual. Se quiserem saber o que é um excelente filme de terror e ainda não tiveram oportunidade de ver este, esta é definitivamente a escolha certa. Prometo que não se vão arrepender!

Dois irmãos decidem viajar até ao Texas para se certificarem que o túmulo do seu avô se encontra em plenas condições, depois de terem ouvido no rádio que o cemitério da região andava a ser alvo de actos de vandalismo. Na viagem levam consigo mais três amigos, o namorado da irmã e um casal amigo. Enquanto preparam tudo para se instalar ao chegar à propriedade da família, o casal entra numa casa nas proximidades para pedir combustível, e logo se depara com a crueldade do famoso e emblemático Leatherface. O que se segue podemos de imediato imaginar. O pesadelo estava prestes a começar, quando afinal se tratava da casa

“(...)é um marco na história do cinema(...)

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Título nacional: Sexta-Feira 13 Realização: Sean S. Cunningham

FRIDAY THE 13TH

Elenco: Betsy Palmer, Adrienne King, Kevin Bacon

1980 HÉLDER ALMEIDA

Depois do êxito de Halloween, o sub-género do slasher tornou-se bastante popular, surgindo vários exemplos em muito pouco tempo. Em 1980, o realizador Sean S. Cunningham estreia Sexta-Feira 13, obra de terror que estava destinada a ser um clássico do género.

Cada morte é acompanhada de momentos de suspense e sangue... muito sangue! Tudo termina numa cena final idílica e surreal, momento que ficaria para a História do Cinema de Terror. Temos assim todos os elementos obrigatórios de um slasher, criando assim uma das melhores e mais populares obras deste tipo de cinema.

Estamos no campo de férias de Crystal Lake. O jovem Jason Vorhees morre afogado no extenso lago, devido à falta de atenção dos monitores. Anos mais tarde, um pequeno grupo de adolescentes decide passar as férias de Verão no campo. Pelo caminho ignoram todos os avisos dos locais sobre a presença de Jason no local, à procura de vingança pela sua morte. Um pouco depois de chegarem, os jovens começam a ser mortos um a um. Sexta-Feira 13 usa todos os ingredientes de um slasher: um grupo de adolescentes famintos por drogas e sexo que começam a ser mortos.

Cunningham realiza um filme que resulta num inesperado sucesso comercial, apesar das fortes críticas ao seu nível de violência. Começa assim uma das mais longas sagas cinematográficas do género, com mais de 10 sequelas, onde nos é ainda apresentado um dos mais icónicos vilões do cinema: Jason Vorhees, cujo poder assassino surge apenas na segunda parte. Sexta-Feira 13 é um dos melhores exemplos de Terror dos anos 80, levando ao grande ecrã um dos Verões mais aterradores de sempre. “(...)estava destinada a ser um clássico do género.”

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Título nacional: O Monstro Realização: Barbara Peeters, Jimmy T. Murakami

HUMANOIDS FROM THE DEEP

Elenco: Doug McClure, Ann Turkel, Vic Morrow

1980 PEDRO CINEMAXUNGA

Quando as festas começam a morrer, a música desaparece e o dia começa a nascer, dou comigo a defender de modo violento a minha teoria de que os filmes de terror dos anos 80 que tivessem nudez ou sexo no primeiro acto, eram uma merda em termos de valores de produção e de satisfação reduzida. E nestas alturas levanta-se sempre um bêbedo do fundo da sala e pergunta “Então e o Humanoids from the Deep ?”. Paro para repensar e reflectir na minha vida, nas minhas escolhas e a questionar todas as decisões, resoluções e juízos que fiz até então. “Será a minha vida uma ilusão? Um engano?”. E respondo “Ah, Ya!” num ataque fulminante de adolescentite, mas sem a erecção. Ora, a ideia inicial seria um monstro vindo do fundo dos mares para aterrorizar incautos adolescentes que, cegos por tesão, se encontravam a copular nas praias incapazes de perceber a chegada de um monstro que rapidamente lhes levaria metade do torso para as profundezas.

Roger Corman logo após a primeira versão do filme decidiu que o produto que tinha em frente não servia sequer para limpar o rabo. A marca da sua produção foi a ideia de refilmar todas as mortes de maneira a introduzir mais gore, sangue e tripas, e fazer com que em todos os ataques o monstro arrancasse a roupa à meninas, as deixasse correr nuas de mamas a bambolear e a gritar em overacting e no fim lhe enfiar o pirilau pelos virginais entrefolhos adentro. Um filme fortemente marcado pela nudez e o excesso de violência. Alguns pontos de excelência a moldar a posteridade. O uso do mecanismo narrativo de criaturas com mutações provocadas por engenharia genética que correu mal foi uma lufada de ar fresco num género povoado por criaturas e mostrengos criados por radiação. “(...) gore, sangue e tripas(...)”

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Título nacional: House Realização: Nobuhiko Ôbayashi

HAUSU

Elenco: Kimiko Ikegami, Eriko Tanaka, Miki Jinbo

1977 JOÃO PAULO COSTA

Desengane-se o leitor que julga já ter visto de tudo no cinema. Se nunca viu House, bizarria nipónica extrema realizada por Nobuhiko Ôbayashi em 1977, então não viu tudo certamente.

popular japonesa a correr em grande estilo – e “correr” é mesmo o termo certo, pois tudo se passa a intensa velocidade. Visto hoje, quase 40 anos volvidos da sua produção, House já é mais um fenómeno kitsch do que propriamente um produto de terror, com os seus efeitos especiais ingénuos e toda a decoração e cenários excessivamente coloridos a tornarem-no num objecto datado. Com cabeças voadoras e pianos mortíferos, passando por um gato sinistro e bruxas famintas, tudo acompanhado por doses generosas de gore, não admira portanto que este se tenha tornado num filme de culto que faz as delícias de cinéfilos alternativos, tenham eles estômago para aguentar todos os seus delírios exorbitantes.

Esta versão alucinogénia do clássico conto das casas assombradas misturada com a sensibilidade manga é tão indescritível que nem vale a pena antecipar muito do enredo: podemos resumi-lo a um grupo de amorosas adolescentes que vai passar as férias de Verão em casa da tia de uma delas, mas mesmo isso será rapidamente esquecido pelo espectador assim que rolarem os créditos finais e este permanecer imóvel na sua cadeira a tentar perceber o que raio acabou de ver. Claro que classificar este título como um “filme de terror” é, apesar de apropriado, bastante redutor. Isto porque ao longo dos seus inenarráveis 90 minutos, temos drama familiar, acção, artes marciais, comédia, melancias e cultura

“(...)bizarria nipónica extrema (...)”

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I KNOW WHAT YOU DID LAST SUMMER

HOSTEL

PEDRO MIGUEL FERNANDES

JOÃO PAULO COSTA

O sucesso de Gritos, estreado em 1996, foi responsável pelo relançamento do género de terror adolescente. Um ano depois era adaptado um novo argumento assinado por Kevin Williamson, o argumentista do filme de Wes Craven, onde os acontecimentos de um determinado verão eram a chave para o desenrolar da trama. O próprio título do filme diz logo ao que vamos. Com a acção localizada numa pequena cidade, Sei o que Fizeste no Verão Passado não foge muito ao cânone do género e os clichés abundam, a começar no grupo de amigos em perigo e terminando nos twists incontáveis que tornam qualquer um o provável assassino, sendo que no final nunca é quem esperamos. Ou seja, sangue, jovens e um serial killer desenfreado: a santíssima trindade do género ao serviço dos fãs.

Se o Verão é sinónimo de férias, nada melhor do que Hostel para incentivar os nossos leitores a pegarem nas malas e lançarem-se à aventura pela Europa. Ou talvez não, porque essa foi a ideia dos protagonistas deste filme e, bem, o resultado não foi muito famoso, visto que acabaram presos num negócio internacional de contornos muito particulares... Escrito e realizado por Eli Roth, Hostel tornou-se num dos mais famosos espécimes do género classificado como torture porn, e algumas das suas cenas mais intensas de tortura são, efectivamente, muito difíceis de ver. Mas o filme consegue misturar de forma eficaz o suspense, o horror e até o humor mordaz, muitas vezes baralhando as expectativas dos espectadores, levando-os a um limite onde só os mais fortes de estômago aguentarão até ao fim.

Título nacional: Sei o que Fizeste no Verão Passado

Título nacional: Hostel

Realização: Jim Gillespie

Realização: Eli Roth

Elenco: Jennifer Love Hewitt, Sarah Michelle Gellar, Anne Heche

Elenco: Jay Hernandez, Derek Richardson, Eythor Gudjonsson

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THE BURNING

WOLF CREEK

JOÃO PAULO COSTA

JOÃO PAULO COSTA

Na linha dos inúmeros slasher movies que se foram multiplicando que nem vírus após o sucesso estrondoso de Halloween – O Regresso do Mal, A Vingança coloca um grupo de miúdos em perigo num acampamento de Verão, às mãos do antigo zelador sedento de vingança, ele que há 5 anos atrás foi vítima de uma brincadeira que acabou mal, com este a ficar completamente desfigurado num incêndio. Tendo-se tornado com o tempo num pequeno fenómeno de culto, A Vingança é um exemplo claro de exploitation movie, com a história a servir de pretexto para cenas de nudez e violência, umas melhor conseguidas do que outras. Hoje em dia há também a curiosidade acrescida de encontrarmos gente como Jason Alexander (Seinfeld) ou Holly Hunter (O Piano) em pequenos papéis secundários.

Duas turistas britânicas lançam-se à descoberta da Austrália juntamente com um amigo local, explorando alguns sítios remotos que abundam no país. Quando numa dessas visitas o seu veículo avaria, eis que um estranho os encontra e oferece boleia... Sucesso do género aquando da sua estreia em 2005, Wolf Creek explora de forma eficaz as vastas paisagens desertas autralianas onde o calor abunda bem distante da civilização. Baseando-se livremente num caso real, Greg McLean constrói um filme simultaneamente assustador e violento, com alguns momentos bastante duros para o espectador, mas mantém sempre uma atmosfera tenebrosa até final. Essa receita já lhe valeu a produção de uma sequela lançada em 2013, havendo uma outra em preparação, bem como a possibilidade de uma série televisiva a caminho.

Título nacional: A Vingança

Título nacional: Wolf Creek

Realização: Tony Maylam

Realização: Greg McLean

Elenco: Brian Matthews, Brian Backer, Leah Ayres

Elenco: Cassandra Magrath, Kestie Morassi, Nathan Phillips

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ROMANCES DE VERÃO JOÃO PAULO COSTA

Ah... os romances de Verão... Quem nunca viveu um que atire a primeira pedra! Se essa é quase como que uma inevitabilidade no ser humano, seria impossível não se tornar também no tema de muitos filmes ao longo das décadas. Nada como o calor para fazer subir as temperaturas e deixar os químicos corporais ao rubro, seja em que parte do Mundo for. Estejamos a falar simplesmente de um maroto joelho francês, ou de algo mais complexo como o encontro fortuito entre dois jovens adultos num comboio, que se viria a tornar numa das mais adoradas histórias de amor do cinema recente. Do romance platónico ao carnal, da solidão entre duas pessoas que se descobrem perdidas no meio de vastas montanhas, a uma teia de três pares de amantes misturados numa casa de campo, do final feliz ao infeliz, da comédia ao drama, do musical ao thriller, tudo debaixo do sol. Nomes como Mike Nichols, Richard Linklater, Woody Allen, Éric Rohmer ou Roberto Rossellini, cada um à sua maneira, abordam de forma apaixonada e apaixonante um dos temas mais universais, aquele que se diz ser impossível de explicar racionalmente mas cuja necessidade se torna evidente para cada um de nós: a conexão com alguém, uma relação íntima especial, com quem nos imaginamos a viver para sempre, e cuja separação pode provocar a mais profunda das dores. A diferença entre um sol radiante e um dia enublado é tão ténue e pode fazer tanta diferença. Veja então a colecção de romances de Verão que preparámos para si nas próximas páginas, e descubra ou redescubra alguns destes títulos pelos quais, acreditamos nós, terá grandes possibilidades de se apaixonar.


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BEFORE SUNRISE BEFORE SUNSET BEFORE MIDNIGHT

Título nacional: Antes do Amanhecer/ Antes do Anoitecer/ Antes da Meia-Noite Realização: Richard Linklater Elenco: Ethan Hawke; Julie Delpy

1995/ 2004/ 2013

HÉLDER ALMEIDA

Por vezes no Cinema encontramos romances que se tornam em objectos especiais, onde o par de protagonistas tem uma química inacreditável e a sua história conquista corações. Apesar de vários exemplos no cinema contemporâneo, o caso mais evidente é esta trilogia de Richard Linklater, que hoje em dia é conhecida como a “Trilogia Before”. Tudo começa em 1995. Jesse é um jovem americano que viaja de comboio para Viena com o intuito de apanhar um avião de volta aos Estados Unidos. A bordo conhece Céline, uma jovem francesa que regressa à universidade em Paris após visitar a avó. Depois de alguma insistência por parte de Jesse, ambos decidem passear por Viena para conhecerem a cidade e um ao outro. Com cada um ciente de que na manhã seguinte irão seguir caminhos diferentes, têm apenas esta noite para falarem de tudo o que lhes importa. Inspirado numa história de vida de Linklater, Antes do Amanhecer é hoje considerado um dos maiores romances de sempre e o início de uma das mais aclamadas e inesperadas trilogias do Cinema. Linklater cria uma obra romântica, inteligente e madura, sempre com o auxílio dos seus dois protagonistas, os excelentes Ethan Hawke e Julie Delpy. Aqui seguimos as duas personagens principais, Jesse e Céline, enquanto passeiam por Viena (outra personagem do filme), tudo ao som de diálogos que exploram vários temas como a vida, a auto-descoberta e o futuro incerto. Para além da química entre os dois actores, as belas imagens de Viena e a suave realização de Linklater, temos ainda direito a diálogos saborosos e realistas, chegando a um ponto que se torna quase viciante observar estes dois jovens a falarem sobre tudo o que os rodeia. Depois de um final em aberto, onde o espectador pode imaginar o que aconteceu a Jesse e a Céline, temos a inesperada sequela: Antes do Anoitecer. Nove anos mais tarde, descobrimos que o par nunca se encontrou como planeado. Ele está agora de passagem por Paris a promover o seu livro e ela mora na cidade. Ambos encontram-se e

decidem confrontar o facto de como nunca se chegaram a encontrar. Numa viajem por uma Paris solarenga, tudo em tempo real, Jesse e Céline demonstram como envelheceram nestes nove anos. Antes do Anoitecer volta a trazer Linklater para a realização, escrevendo o argumento juntamente com Hawke e Delpy, inspirados pelas suas vidas pessoais e pelas suas relações. O resultado é uma obra de qualidade semelhante ao original, uma sequela inesperada e romântica, novamente recheada de diálogos suculentos e interpretações memoráveis. Uns anos mais tarde, reencontramos Jesse e Céline. Descobrimos que estão casados e com filhos e que se encontram a passar férias na Grécia. Conhecemos alguns dos seus amigos e, quando vão passear, uma vez mais, falam sobre todo o tipo de temas, entrando o espectador na vida destas duas personagens. Um casamento com problemas, longe da noite romântica de Viena em que se conheceram, enfrentam agora dificuldades profissionais e de fidelidade. Tudo culmina num quarto de hotel onde, no mais íntimo dos cenários, poderemos estar perante o fim duma bela história de amor que já acompanhamos há 18 anos. Antes da Meia-Noite é o capítulo final (?) desta trilogia, uma vez mais com Linklater, Hawke e Delpy a escreverem o argumento, talvez num registo ainda mais pessoal e adulto. Tudo o que encontrámos antes está aqui presente, num filme mais maduro, representando muitos casais dentro da casa dos 40, onde as nossas personagens agora estão. A trilogia de Linklater começa por ter aquele cheiro a romance de Verão, mesmo com as personagens complexas de Jesse e Céline, e passa a uma maturidade necessária, à medida que os anos passam. Sempre inteligente e com momentos fabulosos, o cineasta tem aqui alguns dos melhores momentos da sua já excelente carreira, sempre com a cumplicidade de Hawke e Delpy, um dos melhores pares românticos de sempre. “(...)é hoje considerado um dos maiores romances de sempre(...).” 73


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Título nacional: A Primeira Noite Realização: Mike Nichols

THE GRADUATE

Elenco: Dustin Hoffman, Anne Bancroft, Katharine Ross

1967 JOÃO PAULO COSTA

Depois de terminado o curso na faculdade, Benjamin (Dustin Hoffman) regressa à casa dos seus pais abastados para passar o Verão, enquanto estes esperam que o filho se decida por dar início a uma carreira profissional. Mas Ben parece estar completamente perdido, sem a mínima ideia daquilo que pretende fazer agora que chegou se “tornou um homem”. Inseguro, incapaz de se rever na vida que os adultos levam, ele é completamente alheio aos amigos dos pais que lhe oferecem oportunidades profissionais em ramos tão artificiais como a indústria do plástico. Uma vida aparentemente destinada à gestão de grandes corporações parece ser aquilo que lhe está reservado, mas é aparentemente tudo o que ele não quer, embora o próprio pareça não saber para que lado se virar. Até que o encontro fortuito com a senhora Robinson (Anne Bancroft), uma amiga da família muito atraente mas bastante mais velha, lhe irá dar uma nova perspectiva sobre a vida: os avanços desta culminam numa relação sexual que manterão às escondidas durante o Verão, que será de descoberta para ele, e de escape a um casamento austero e frio para ela. Mas tudo se altera quando um terceiro elemento se junta a este par, nada menos do que Elaine (Katharine Ross), a filha de Mrs. Robinson, por quem o protagonista começa a nutrir sentimentos. Enorme êxito crítico e comercial à data da sua estreia em 1967, A Primeira Noite permanece como um marco do cinema americano, este que foi um dos maiores primeiros produtos da “Nova Hollywood” liderada por um grupo de jovens realizadores inspirados pelas novas tendências europeias (principalmente a nouvelle vague francesa, de onde Mike Nichols, o realizador, retirou muitas ideias formais) prestes a ocupar o topo da hierarquia da grande máquina de produção cinematográfica, numa altura em que o poder dos grandes estúdios se ia desmoronando. Com uma banda sonora também ela verdadeiramente marcante a cargo de Simon & Garfunkel – onde pontificam especialmente temas como

“The Sound of Silence” e, claro, “Mrs. Robinson” - tudo no filme faz hoje parte da cultura popular, incluindo algumas cenas inesquecíveis como um resgate numa igreja ou o momento da sedução de Mrs. Robinson ao inocente Ben, enquadrado ao fundo entre as pernas de Bancroft em primeiro plano – Dustin Hoffman e Anne Bancroft são particularmente maravilhosos nos respectivos papéis. Mas afinal o que nos diz A Primeira Noite, baseada num romance de Charles Webb, sobre as suas personagens ou o contexto em que elas existem? Basicamente pode ser visto como um olhar da contra-cultura da época sobre sociedade capitalista e imperialista americana (recordemos a guerra do Vietname e o movimento hippie tão presentes nessa altura), mas o olhar habitualmente mordaz de Mike Nichols, que sempre gostou de brincar com coisas sérias, não permite uma análise tão fácil sobre a sua obra-prima: se Ben começa por ser visto como uma reacção ao poder instalado na sociedade e Mrs. Robinson como uma face desse poder (que seduz o jovem inocente, tentando enredá-lo na sua teia), o também famoso plano final, onde Benjamin parece ter finalmente conseguido o que realmente queria, é suficientemente aberto para levantar todo o tipo de interrogações, como por exemplo: “e agora?”. O futuro que o espectador teria de formar para o seu protagonista assim que corriam os créditos finais espelhava-se certamente no sentimento dos espectadores que o viam nas salas de cinema da época, e permanecem ainda hoje, quase 50 anos passados da sua estreia, como fundamentais interrogações sociais: haverá realmente espaço no Mundo para um caminho singular, ou teremos nós, como seres humanos, de nos juntar à engrenagem para dela podermos tirar o proveito que desejamos? Conseguirá Benjamin ser feliz e independente sem finalmente ter de acabar por aceitar uma das ofertas de trabalho que lhe chegaram pelos amigos abastados dos seus abastados pais? “(...)A Primeira Noite permanece como um marco do cinema americano(...)” 75


Título nacional: O Segredo de Brokeback Mountain Realização: Ang Lee

BROKEBACK MOUNTAIN

Elenco: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams

2005 CÁTIA ALEXANDRE

Dotado de uma grande sensibilidade e emoção O Segredo de Brokeback Mountain surpreendeu a crítica e o público em 2005, quando retratou o drama romântico sobre um amor impossível entre dois homens cowboys da região do Oeste Americano, entre 1963 e 1981. O realizador Ang Lee, vencia assim o seu primeiro Oscar de Melhor Realizador com o romance que ainda hoje mantém lugar no top 10 dos dramas românticos de melhor bilheteira de todos os tempos.

conservadoras e as memórias que os atormentam não serão fáceis de lidar, vivendo em constante ansiedade, divididos entre o que os faz serem felizes e o que a sociedade é capaz de aceitar. As alegrias e as tristezas destes dois homens são representadas com grande honestidade, quase que de forma lírica e é impossível não ficar comovido com as suas histórias. O grande e saudoso Heath Ledger e o fantástico Jake Gyllenhaal dão aqui duas das suas melhores performances de sempre em filmes do género, algo por que serão certamente lembrados. Em papéis secundários Michelle Williams e Anne Hathaway também contribuem muito para o sucesso da história. Este é um bom exemplo do poder que o cinema pode ter, sendo capaz de nos proporcionar uma grande experiência, quase como se estivéssemos lado a lado com os personagens durante toda a sua jornada.

Jack e Ennis conhecem-se em 1963, enquanto trabalham juntos durante o Verão na vigia de ovelhas, na fictícia montanha de Brokeback, no estado de Wyoming. Entre eles nasce de imediato um forte e complexo relacionamento emocional e sexual que se mantém ao longo de 18 anos. Ambos vivem um intenso amor proibido, e visto que têm outras vidas para além dos bons momentos que passam em Brokeback, as famílias

“(...)ainda hoje mantém lugar no top 10 dos dramas românticos(...)

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Título nacional: Uma história de amor sueca Realização: Roy Andersson

A SWEDISH LOVE STORY

Elenco: Ann-Sofie Kylin, Rolf Sohlman, Anita Lindblom

1970 DIANA MARTINS

Ao som de “Thieves like us” temos pretexto para conhecer a história de amor de Pär (Rolf Sohlman) e Annika (Ann-Sofie Kylin), dois jovens de quinze anos que começam por se cruzar silenciosamente em várias ocasiões, num ambiente de Verão. Nestas várias trocas de olhares, contrastante com uma inércia de palavras, começa a desenvolver-se uma bela história de amor adolescente. Com tudo de perene, como todos os primeiros amores. Com tudo de belo, como todos os amores de Verão. Mas se por um lado temos estes dois jovens - frágeis e simultaneamente invencíveis - depois temos todo o outro subconjunto do mundo. As famílias burguesas de ambos com status quo infundados, os princípios ou paradigmas de uma sociedade, os amigos adolescentes intolerantes, as rivalidades. Um pragmatismo e uma objetividade de um mundo de adultos eleva-se contra todo um mundo de inocência e sonhos.

Realizador de poucas obras (apenas 5 filmes em 44 anos, de onde se destaca o mais recente Um Pombo pousou num ramo a reflectir na existência ou o Canções do segundo andar), Roy Andersson tem aqui a sua grande estreia nas longas-metragens, captando com uma delicadeza terna este amor adolescente, com um excelente trabalho de cores e ritmo da narrativa. É assim com enorme ingenuidade e ternura que, no fim, acreditamos que estes jovens serão capazes de ser tudo o que quiserem, sem cairem num estado de mediocridade e descrença. E que o amor é isto. É tudo isto e nada mais.

“Shyness, let it go, never have to be alone, shyness, let it go, never have to feel so lonely.”

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Título nacional: Dança Comigo Realização: Emile Ardolino

DIRTY DANCING

Elenco: Patrick Swayze, Jennifer Grey, Cynthia Rhodes

1987 SARA GALVÃO

Dança Comigo é o melhor filme de sempre, e não, isto não está aberto a discussão. Não só levou toda uma geração ao magnífico mundo da dança, er, “aporcalhada”, como justificou para sempre a eterna atracção feminina pelo bad boy. Sim, é suposto ser um filme passado nos anos 60 onde há mulheres com permanentes e a música tem órgãos eléctricos, mas e depois? É impossível negar que o filme de Ardolino (que passou os anos 70 a alcançar fama com os seus documentários sobre dança) marcou uma era.

situação complicada, e dispondo-se a substituí-la numa importante competição, Johnny começa a engraçar com a rapariga, e os dois acabam por dançar vertical e horizontalmente. Mas forças superiores aos dois amantes preparam-se para pôr a relação deles em causa... Com tantos momentos, citações, e canções memoráveis, é fácil perceber porque é que o filme continua a partir corações. Seja pela forma genial como Ardolino filma os números de dança (uma clara inspiração para Baz Luhrmann nos anos 90), pelo tema do primeiro amor (todos juntos: ohhhhh), ou pela química incrível entre os dois protagonistas (algumas das cenas mais famosas são, efectivamente, bloopers que o realizador decidiu incluir no filme), ninguém põe Dança Comigo no canto. Agora deixem-nos chorar na nossa almofada porque ninguém dança tão bem como o Johnny Castle.

Baby (Grey) está com a irmã e os pais num campo de férias, onde conhece o dramático, intenso e oh-deuses-que-jogo-de-cintura Johnny Castle (Swayze). Johnny ao início não parece estar muito disposto a passar tempo com Baby, que vê como uma menina do papá. Mas quando ela resolve ajudar Penny, a parceira de dança de Johnny, a sair de uma

“Dança Comigo é o melhor filme de sempre(...)”

78


Título nacional: Noites Escaldantes Realização: Lawrence Kasdan

BODY HEAT

Elenco: William Hurt, Kathleen Turner, Ted Danson

1981 JOÃO PAULO COSTA

Durante uma vaga de calor numa pequena cidade da Florida, o advogado Ned Racine (William Hurt) conhece Matty (Kathleen Turner), uma mulher muito atraente mas casada com um rico empresário local. O estado civil de Matty não a impede de iniciar um romance tórrido com Ned, mas depressa se torna evidente que para viver a vida que pretendem, o marido de Matty tem de morrer... Estão lançados os dados para um extraordinário film noir, produzido décadas depois da morte do género clássico como o conhecíamos.

Além de jogar de forma impecável com as convenções do noir, Kasdan é exímio a passar a atmosfera de calor em que se passa a sua narrativa para os corpos das personagens e, consequentemente, para o espectador, que sente esse bafo quente quase como se o estivesse a viver na realidade. Para isso é também fundamental a direcção de fotografia de Richard Kline, que tanto esconde de forma estilizada os seus actores atrás de sombras duras como nos mostra os raios de sol da Florida em todo o seu esplendor. Com um argumento inteligente e um par de actores em grande forma – diga-se, não só pelas suas qualidades dramáticas mas também físicas – Noites Escaldantes é o título ideal para quem quiser aumentar ainda mais as temperaturas nesta estação do ano.

Lawrence Kasdan estreava-se assim em alta na realização, depois de ter sido um dos homens de confiança de George Lucas e responsável pelos argumentos de O Império Contra-Ataca e Os Salteadores da Arca Perdida, conseguindo pegar na excitante química do seu par protagonista e transformá-la num filme maior.

“(...)um extraordinário film noir(...)”

79


LE GENOU DE CLAIRE

A MIDSUMMER NIGHT’S SEX COMEDY

DIANA MARTINS

JOÃO PAULO COSTA

É Verão e Jerome (Jean-Claude Brialy) está a passar as suas últimas férias enquanto solteiro, numa enorme mansão junto ao lago Annecy. Lá conhece Claire (Laurence de Monaghan), uma jovem filha de uma amiga, que lhe desperta uma desejo obsessivo. Éric Rohmer assina assim o penúltimo filme da sua série “Seis Contos Morais”, um verdadeiro elogio às relações amorosas e ao entendimento de Pascal de que, no fim do dia, “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Em paralelo com toda a sua obra, Rohmer imprime um tom entre o doce e o melancólico, sempre com um aspeto muito naturalista. Exímio nos diálogos e mantendo um rigor formal na construção da narrativa, O Joelho de Claire é como um conjunto de atos que se desenrola para bel-prazer do espetador. E é, de facto, um prazer.

Em partes iguais inspirado em Shakespeare e em Ingmar Bergman, Uma Comédia Sexual Numa Noite de Verão foi a resposta em tons mais ligeiros de Woody Allen ao seu sombrio título anterior, o depressivo e extremamente pessoal Recordações. Foi também a primeira colaboração entre Allen e Mia Farrow, que iria ser a partir daqui e durante uma década a musa do cineasta no cinema e na vida privada. Em resumo, o filme junta três casais numa casa de campo para uma escapadela de Verão, e depressa se instalam diversas tensões sexuais entre todos eles, onde além dos desejos presentes se vão também revelando segredos passados. Mesmo não sendo dos melhores trabalhos do realizador, esta comédia em tons fantásticos consegue divertir e sacar sorrisos ao espectador sem precisar de grandes esforços.

Título nacional: O Joelho de Claire

Título nacional: Uma Comédia Sexual Numa Noite de Verão

Realização: Éric Rohmer

Realização: Woody Allen

Elenco: Jean-Claude Brialy, Aurora Cornu, Béatrice Romand

Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, José Ferrer

80


(500) DAYS OF SUMMER

VIAGGIO IN ITALIA

JOÃO PAULO COSTA

JOÃO PAULO COSTA

Filme de estreias para os principais elementos atrás da câmara, o realizador Marc Webb e os seus argumentistas, e de confirmações para os seus dois protagonistas, Gordon-Levitt e Zooey Deschanel (a Summer do título original, que na verdade não é o Verão, embora a acção decorra na quase sempre solarenga Los Angeles), (500) Dias Com Summer é uma comédia romântico-dramática indie que foi vista por muitos como uma lufada de ar fresco no género e, pese embora alguns excessos e bizarrias que já vimos vezes sem conta no cinema independente americano, acaba por se posicionar uns degraus acima da mediania. A química entre os protagonistas é boa e a abordagem do realizador, com diversas piscadelas de olho ao cinema de Woody Allen, funciona perfeitamente.

Já depois de muito criticado no seu país por ter abandonado o neorealismo e se ter dedicado a filmar uma estrela de Hollywood (Ingrid Bergman, que entretanto se tornou na sua mulher), Roberto Rossellini acrescentou em Viagem em Itália mais um fantástico título à sua filmografia. Esta história sobre um casal inglês que se desloca a Nápoles para vender uma propriedade, e que aos poucos vai percebendo que o seu casamento se aproxima do fim, é de uma força dramática incomparável. Sob as paisagens maravilhosas onde bate forte o sol Mediterrâneo, os protagonistas descobrem-se e percebem que talvez esse amor que julgavam ter um pelo outro não seja tão forte assim. A simplicidade do olhar de Rossellini esconde, como sempre, toda a complexidade dos seres humanos.

Título nacional: (500) Dias Com Summer

Título nacional: Viagem em Itália

Realização: Marc Webb

Realização: Roberto Rossellini

Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Chloë Grace Moretz

Elenco: Ingrid Bergman, George Sanders

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Take 40  

Verão

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