Crianças, professoras e famílias: olhares sobre a educação infantil

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Crianças, professoras e famílias:

ORGANIZADORAS:

ISABEL DE OLIVEIRA E SILVA IZA RODRIGUES DA LUZ MARIA INÊS MAFRA GOULART



Acervo da pesquisa umei Silva Lobo

introdução

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Introdução

.................................................................................................. 8

Primeira Seção UMEI Silva Lobo - Participação e aprendizagem de crianças da Educação Infantil .............................. 16 apresentação .................................................................................................. 18 capítulo 1

O contexto e a inspiração do nosso trabalho na UMEI Silva Lobo ......................................................... 28

capítulo 2

Rotina e participação: possibilidades e desafios na socialização das crianças da UMEI Silva Lobo................................................................. 38

capítulo 3

Participação e aprendizagem das crianças da UMEI Silva Lobo na exploração do mundo natural ............................................................ 50

capítulo 4

Formação compartilhada na UMEI Silva Lobo .... 64

Acervo umei Grajaú


segunda Seção UMEI Grajaú - Relações entre crianças, professoras e famílias na Educação Infantil ................................................. 74 apresentação ............................................................................................................... 76 capítulo 5

Da creche comunitária Tia Lucy à UMEI Grajaú: uma história da Educação Infantil no Morro das Pedras ..................................................................... 86

capítulo 6

Reflexões das professoras da UMEI Grajaú sobre a docência na Educação Infantil .................................................. 102

capítulo 7

Os bebês e as crianças na visão das professoras da UMEI Grajaú ................................................................................ 116

capítulo 8

Os bebês, suas famílias e suas professoras: delicadas relações no cotidiano da UMEI Grajaú ............... 130

capítulo 9

Construindo delicadezas: possibilidades de relações respeitosas entre as professoras e uma turma de crianças de 4 anos no cotidiano da UMEI Grajaú .............. 144

capítulo 10

O compartilhamento do cuidado e educação de bebês e crianças pequenas entre a UMEI Grajaú e as famílias: visões de pais e mães ....................................... 158

para finalizar ............................................................................................................... 181 referências ..................................................................................................................... 188 sobre as/os autoras/es ......................................................................................... 196 Agradecimentos ............................................................................................................ 200


Primeira seção


Acervo da pesquisa umei Silva Lobo


O contexto e a inspiração do nosso trabalho na UMEI Silva Lobo Maria Inês Mafra Goulart Márcia Cabral Martins O projeto desenvolvido na UMEI Silva Lobo contou com a colaboração de um grupo de pesquisadores, professoras e crianças, como dito na introdução desta seção. Buscava identificar o potencial educativo da instituição, captar as demandas das crianças acerca de suas experiências na escola e construir metodologias e estratégias, em colaboração com as professoras, que potencializassem a participação das crianças nos processos educativos. Este estudo é parte de um programa desenvolvido pela coordenadora da pesquisa, que há mais de dez anos vem apro­ fundando o olhar sobre a participação das crianças em processos educativos escolares, especialmente em atividades de exploração do mundo físico e natural. Entretanto, esta investigação ganhou novos contornos quando se deparou com um ambiente educativo inovador, proposto pela UMEI Silva Lobo. E é sobre a constituição deste ambiente que iremos discorrer neste capítulo.

2) Maria Montessori (1870éd-1ic95a, foi uma educadora, m cida he pedagoga e feminista. Conqu pelo método educativo e je desenvolveu e que ainda hoas e é usado em escolas públicbalho privadas. Iniciou seu traidades com crianças com necess odo, especiais. Em seu mét a dá ênfase à independêncis, e liberdade das criança com limites e respeito pelo desenvolvimento delas.

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Ambiente, espaço, ateliê. Três denominações que nos convidam a uma maior reflexão no âmbito das práticas desenvolvidas na Educação Infantil. Essa é uma discussão que tem sido realizada por filósofos e educadores desde meados do século XVIII. Froebel (1782-1852) e Montessori (1870-1952), por exemplo, foram os teóricos que mais discutiram e organizaram espaços voltados para as necessidades infantis.Nesse sentido, eles foram os primeiros a diferenciar espaço e ambiente educativo. A noção de espaço refere-se ao local físico onde acontecem as práticas educativas. O ambiente educativo, por sua vez, pressupõe a organização dos espaços, a disposição de seus materiais e as interações que se processam em seu interior (CARVALHO; RUBIANO, 1994). A UMEI Silva Lobo convidou-nos a aprofundar nosso olhar sobre os espaços e ambientes educativos.

Crianças, professorAs e famÍliaS: olhares sobre a Educação Infantil


Constituída com originalidade, aquela escola infantil provocou questões no grupo de pesquisadores, logo em nossas primeiras visitas. Ao entrarmos pela primeira vez na UMEI Silva Lobo, fomos impactados pela estética do espaço físico. Cores vivas, amplitude, materialidade à mostra num convite à exploração das crianças e dos adultos, e interferindo na forma como transitamos nele. Caminhar pelos corredores daquela escola não é o mesmo que caminhar pelos corredores de uma escola qualquer. Ali, não só as paredes contam histórias. Cartazes com fotos e síntese dos projetos, assim como objetos produzidos pelas crianças, pendurados no teto, flutuam pelos corredores e não nos deixam passar sem que paremos e nos encantemos. Tudo nos diz que, naquele espaço, algo curioso e interessante acontece.

Friedrich Froebel (1782-1852) foi um pedagogo e pedagogista alemão, fundador do primeiro jardim de infância, em 1837. Para ele, as crianças eram consideradas como plantinhas de um jardim onde o professor era considerado o jardineiro. Por meio das atividades de percepção sensorial, da linguagem e do brinquedo, as crianças se expressariam. Foi o primeiro educador a enfatizar a atividade lúdica e a brincadeira como uma linguagem.

São vários os cenários internos e externos, criados pelas professoras com a participação das crianças e que se constituem em ambientes intencionalmente organizados para o trabalho pedagógico da UMEI. A portaria da escola, o hall de entrada, o refeitório, os corredores, o parquinho, o bosque, um cantinho especial pensado para os bebês e as crianças bem pequenas e os ateliês. Com inspiração na experiência de Reggio Emilia, a escola rompeu com a forma tradicional de acolhimento das crianças em salas de aula e as transformou em ateliês. Foram criados com o propósito de escutar e provocar as crianças e os adultos, proporcionando variadas formas de relação com os materiais estruturados ou não. A intenção foi a de conduzir a escola por caminhos mais ricos, mais complexos, dando oportunidade às crianças de explorar materiais diversos e às professoras, de observar as estratégias criadas pelos pequenos na indagação e investigação do mundo ao seu redor.

primeira seção > cap. 1 > O Contex to e a Inspir ação do nosso tr abalho na UMEI Silva Lobo

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Rotina e participação: possibilidades e desafios na socialização das crianças da UMEI Silva Lobo

Acervo umei Silva Lobo

Maria Inês Mafra Goulart Júnia Silva da Costa Katiane dos Santos Oliveira

No capítulo anterior, descrevemos o contexto geral da escola e sua forma peculiar de organização da prática pedagógica por meio dos ateliês. Vimos que a maneira pela qual a prática é organizada inspirou-se no trabalho desenvolvido na Itália, especialmente em Reggio Emília, mas que foi apropriado e transformado pelo grupo de professoras da UMEI Silva Lobo. Neste capítulo, apresentaremos a dinâmica e os desdobramentos das rotinas que foram observadas na instituição, durante o trabalho da pesquisa. Nossa inser­ ção deu-se em três turmas, abrangendo crianças de 3, 4 e 5 anos do turno da manhã. Nosso intuito é mostrar a maneira pela qual as crianças participam des­sas rotinas e as transformam com o apoio das professoras e da própria instituição. As perguntas sempre são boas conselheiras e, neste início da pesquisa, esta nos pareceu oportuna: em que medida a rotina observada na UMEI Silva Lobo possibilita a participação das crianças nos processos de aprendizagem e socialização?

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Crianças, professorAs e famÍliaS: olhares sobre a Educação Infantil


Acervo umei Silva Lobo

Para compreendermos as práticas desenvolvidas nesta UMEI, inserimo-nos no cotidiano da instituição a fim de identificarmos as rotinas ali estabelecidas e o modo como as crianças e os adultos delas se apropriam. Assim, no período de março de 2014 a junho de 2015, realizamos a coleta de dados nas turmas pesquisadas. Como instrumento metodológico privilegiado, foram realizadas gravações em vídeo, em cada uma das turmas mencionadas. Esse material foi transcrito e também sistematizado em tabelas e gráficos. Dessa maneira, pudemos observar e analisar o modo pelo qual, nesta UMEI, a rotina é um agente socializador, que possibilita a participação das crianças sendo, ao mesmo tempo, por elas transformada. É sobre isso que discorremos nas seções a seguir.

Rotina, socialização e participação: aportes teóricos na Educação Infantil O currículo da educação infantil tem, de acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, um papel central na promoção do desenvolvimento das crianças de 0 a 5 anos. No artigo 4º, o documento reconhece a criança como sujeito de direitos e ratifica que “é nas interações, nas relações e nas práticas cotidianas que vivencia, que a criança constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a

Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil são princípios, fundamen­­tos e procedimentos man­dató­rios orga­nizados pelo Minis­tério da Educação com o objetivo de orientar as políticas públicas e a elaboração, o planejamento e a execução de propostas pedagógicas e curriculares para a Educação Infantil.

primeira seção > cap. 2 > Rotina e participação: possibilidades e desafios na socialização das crianças da UMEI Silva Lobo

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1° semestre de 2014

2° semestre de 2014

1° semestre e 2° semestre de 2015

Turma de 3 anos

Turma de 4 anos

Turma de 5 anos

19.03.2015 >>

Planejamento das atividades do projeto

26.03.2015 >>

1 10 2

Porque as estrelas brilham

11

09.04.2015 >>

3

Fases da Lua/ar

12

15.04.2015 >>

4

Pra onde vai o ar

13

23.04.2015 >>

5

Construindo cata-ventos

14

30.04.2015 >>

Decomposição da luz - Fazendo arco-íris

07.05.2015 >>

Decomposição da luz - Bolhas de sabão

14.05.2015 >>

Sombras - Contando histórias na mesa de luz 21.05.2015 >>

Aprendendo a ver com instrumentos

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6 15 7 16 8 17

Figura 2:

Linha do tempo

Atividades realizadas no projeto “O que tem no céu?”.

28.05.2015 >>

Seminário das crianças - Contando o que sabemos 02.06.2015 >>

Noite na escola

25.06.2015 >>

Visita planetário - Espaço UFMG do conhecimento 20.08.2015 >>

Construção do foguete I - Projetando o foguete no papel 10.09.2015 >>

Construção do foguete II - Projetando o foguete com o brinquedo de montar 17.09.2015 >>

Construção do foguete III - montagem/ viagem 23.10.2015 >>

Observação noturna - Observando a lua

05.11.2015 >>

Despedida da turma

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Acervo da pesquisa umei Silva Lobo Acervo da pesquisa umei Silva Lobo

Acervo da pesquisa umei Silva Lobo

Uma noite na escola. Participação da família na atividade das crianças.

Considerações finais Neste capítulo, apresentamos alguns aspectos dos projetos desenvolvidos nas turmas de 4 e 5 anos durante um ano e meio de trabalho semanal conjunto com as professoras na escola. A riqueza que emergiu deste encontro entre professoras, pesquisadores e crianças possibilitou aprendizagens para todos os envolvidos. Aprendemos quando mergulhamos em nossa prática, problematizamos o que fazemos e refletimos sobre os resultados de nossas ações em diálogo com o conhecimento já produzido. Essa forma de pensar afasta-se muito daquela ideia de que o ato de aprender pressupõe um conhecimento que vem de fora e aloja-se em nossas cabeças. Pudemos ver como toda a dinâmica de planejar, de colocar nosso planejamento em prática com as crianças que mudaram, a todo momento, o curso daquilo que ia acontecendo, fez com que todos nós ensinássemos e aprendêssemos coletivamente.

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Acervo umei Grajaú

Segunda seção



Da creche comunitária Tia Lucy à UMEI Grajaú: uma história da Educação Infantil no Morro das Pedras Isabel de Oliveira e Silva Maria Lúcia de Resende Lomba Júnia Michele de Oliveira Kelly Aparecida de Sousa Queiroz A Unidade Municipal de Educação Infantil – UMEI Grajaú, criada no início do ano de 2008, é resultado do processo de encerramento das atividades da Creche Comunitária Tia Lucy, cujo prédio e demais aspectos de seu funcionamento encontravam-se em condições precárias. Mediante acordo com a comunidade, a UMEI Grajaú foi instalada no mesmo local, dando continuidade, assim, ao atendimento às crianças do bairro. Neste capítulo, procuramos refletir sobre os caminhos que famílias, crianças, professoras e poder público, bem como outras pessoas da Comunidade do Morro das Pedras, percorreram até que se chegasse ao que hoje conhecemos como UMEI Grajaú. Ao nos aproximarmos desse ambiente rico que é uma instituição de Educação Infantil, fomos progressivamente envolvidas pelas narrativas de pessoas – presentes e também das já ausentes – que contam a história do compartilhamento do cuidado e da educação de bebês e crianças pequenas dessa comunidade. Nos primeiros encontros, uma coisa ficou clara: uma instituição de Educação Infantil representa o entrelaçamento de muitas histórias: histórias de adultos – mulheres e homens – e de crianças. Histórias poucas vezes presentes nos livros ou nos jornais. Essa é uma das razões pelas quais pensamos em começar nossa conversa contando a história dessa instituição. A outra razão é porque acreditamos que a memória – de cada pessoa, de um bairro, de uma instituição educacional – é parte importante da realidade em que vivemos. As imagens da comunidade, os “casos” que uma mãe conta a outra, que uma antiga professora conta a uma novata e tantos outros, vão-se tornando referências, muitas vezes normas que orientam as ações de quem se encontra nesse ambiente. Também por essa razão, em muitas situações, é difícil entender por que as mães ou pais de crianças da UMEI demandam certas coisas que, por vezes, estranhamos. Os dois relatos a seguir são exemplos de situações em que as famílias mobilizaram referências da história do atendimento de suas crianças para compreender ou explicar situações cotidianas e, mesmo, projetar sua participação na UMEI.

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Acervo umei Grajaú

A professora Noeme em uma conversa com algumas mães, falou que está pensando em montar um projeto para o ano seguinte e quer envolver as famílias. Noeme desejava fazer um clube de mães para que as mães viessem para dentro da UMEI ensinar o que sabem fazer. Nesse momento, uma das mães presentes olhou, deu um sorriso e falou: “é muito bom Noeme, assim nós podemos arrecadar um bom dinheiro para ajudar a creche, nunca é demais e a gente sabe que a creche vive de doações” (Diário de campo, 2014).

Uma jovem mãe estava subindo o morro com o filho no colo, conversando com uma amiga. A mãe falou com o bebê que estava comendo um pedaço de pão: - Come tudo bem depressa, se não você vai chegar lá e vai ser aquela briga. A amiga pergunta: - Por que ele não pode comer? A mãe respondeu: - Não pode comer, quando ele estava no berçário podia, mas agora ele está na sala de [crianças] de 1 a 2 anos. Lá não pode nem levar brinquedo, se ele leva os outros meninos batem nele. A amiga falou: - Mas não é creche? A mãe respondeu: - Não, parece que não, no começo até que era, mas agora... (Diário de campo, 2014).

segunda seção > cap. 5 > Da creche comunitária Tia Lucy à UMEI Grajaú: uma história da ei no Morro das Pedras

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Creche Comunitária Tia Lucy (Anos 1980) Fonte: Alves et al. (2008)

Creche Comunitária Tia Lucy (Anos 1990) Fonte: Arquivo pessoal de Lucinda Rosa

Acervo da pesquisa umei Grajaú

Acervo da pesquisa umei Grajaú

UMEI Grajaú (2016) Fonte: Acervo da pesquisa

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Vemos assim, que se trata da história das famílias e, também, da história de crianças: das crianças do Morro das Pedras! Elas, que são os sujeitos para os quais direcionamos a ação educativa, também possuem história. Tanto uma história pessoal, ainda curta, de cada uma nos seus primeiros anos de vida, quanto uma história coletiva, que se refere às histórias de todas as crianças dessa comunidade, inclusive das que já se tornaram adultas. Elas viveram como crianças no mesmo espaço que aquelas que hoje frequentam a UMEI, percorreram as mesmas ruas, foram crianças de famílias que ainda residem no bairro. Algumas crianças da UMEI são filhas de mães ou pais que foram atendidos pela Creche Comunitária Tia Lucy, que funcionou durante quase 30 anos no mesmo espaço.

Para aprofundar as reflexões sobre a compreensão das crianças como sujeitos da história e da vida social, sugerimos a leitura do livro Estudos da infância, organizado por Manuel Sarmento e Maria Cristina Gouvêa, publicado pela Editora Vozes.

Desfile de 7 de setembro. Fonte: ALVES et al. (2008) Ao lado, brincadeira com familiares na Creche Tia Lucy . Fonte: Acervo pessoal de Lucinda Rosa

As imagens acima, possivelmente dos anos 1980, permitem-nos ver experiências vivenciadas por adultos e crianças da comunidade: o desfile de 7 de setembro parecia ser um momento importante de afirmação da presença da creche no bairro, bem como revela a adoção de práticas comuns nas escolas públicas. Na outra imagem, visualizamos brincadeiras que a creche realizava com os adultos no interior da instituição. Podemos ver que, na história de um grupo social, encontramos elementos que não mais existem ou se transformaram e também aqueles que expressam permanências.

segunda seção > cap. 5 > Da creche comunitária Tia Lucy à UMEI Grajaú: uma história da ei no Morro das Pedras

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Reflexões das professoras da UMEI Grajaú sobre a docência na Educação Infantil Iza Rodrigues da Luz Bárbara Souza Teixeira Noeme Rosa de Carvalho Simone Aparecida Neves

Apresentamos neste capítulo as percepções das professoras da UMEI Grajaú sobre o próprio trabalho, tendo como finalidade refletir sobre as especificidades da docência na Educação Infantil, destacando o que as professoras compreendem como características marcantes da ação educativa que desenvolvem. Para tanto, a principal fonte de informação foram as entrevistas semiestruturadas realizadas nos anos de 2014 e 2015 com quatro professoras que trabalhavam com os bebês e quatro professoras que trabalhavam com as crianças de 4 anos. Como não havia condições de entrevistar todas as 29 professoras da UMEI, optamos por ter representadas as duas etapas da Educação Infantil, a creche e a pré-escola, acreditando que as percepções das professoras que trabalhavam com esses dois agrupamentos de crianças auxiliariam a refletir sobre as semelhanças e diferenças no trabalho desenvolvido nestas duas etapas. Utilizamos ainda como material complementar as atas dos encontros de formação com as professoras da UMEI, realizados no segundo semestre de 2015 como descrito na apresentação desta Seção. Este texto é uma síntese dessas informações agrupadas em três grandes questões que consideramos reunir os principais aspectos do que as professoras da UMEI Grajaú compreendem sobre a docência na Educação Infantil:

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Acervo umei Grajaú

1. O que significa educar bebês e crianças pequenas em escolas na visão das professoras da UMEI Grajaú? 2. Como as professoras da UMEI Grajaú descrevem o próprio trabalho? 3. Para as professoras da UMEI Grajaú, como o trabalho que desenvolvem se diferencia da educação feita em casa e nas escolas de crianças maiores? Em cada uma dessas questões, apresentamos o que foi comum nas falas das professoras do berçário e da turma de crianças de 4 anos, assim como as especificidades destacadas por cada subgrupo.

O que significa educar bebês e crianças pequenas em escolas na visão das professoras da UMEI Grajaú? As professoras enfatizaram a ação de auxiliarem o desenvolvimento dos bebês e crianças destacando a importância do cuidar e do educar. A afetividade foi outro aspecto destacado como algo importante na disposição para atuar na Educação Infantil, ganhando centralidade na relação que estabelecem com os bebês e as crianças. É muito lindo a gente ver desde o berçário que eles já têm sua individualidade. E se a gente conhecesse e se a mãe conhecesse isso podia ajudar muito essas crianças; respeitando a individualidade, trabalhando as áreas que precisasse trabalhar e conhecer e respeitar essas crianças. Porque eu, além de ser professora, eu amo criança. [...] (Entrevista com professora Leda - berçário, 2015)

segunda seção > cap.6 > Reflexões das professoras da UMEI Grajaú sobre a docência na Educação Infantil

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Acervo da umei GrajaĂş


Alexandre Fagundes Pereira

Licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente é mestrando em Educação pela Faculdade de Educação da UFMG, desenvolvendo projeto acerca da aprendizagem em ciências de crianças pequenas em instituições de Educação Infantil.

Bárbara Souza Teixeira

Pedagoga graduada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação/UFMG na linha de pesquisa “Infância e Educação Infantil”. Integra o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Infância e Educação Infantil (NEPEI) e o Grupo de Estudos Integrados (GEI).

Bruno Pontes

Mestre em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor de artes na rede estadual de educação e oficineiro de teatro para crianças de 1 a 5 anos em UMEIs em Belo Horizonte. Integra o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Infância e Educação Infantil (NEPEI) e o Grupo de Estudos Integrados (GEI).

Débora Barbosa dos Reis

Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Participa de projetos de pesquisa na Faculdade de Educação/UFMG, é voluntária no PET-Saúde/GraduaSUS e estagiária no TJMG pelo PAI-PJ. Tem experiência em educação, saúde pública, saúde mental, estudos de gênero e clínica de crianças e adultos.

Eleone Olinda da Silva

Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), cursando pós-graduação em Psicopedagogia na Universidade Católica Dom Bosco. Atuou como bolsista em dois projetos na UFMG. Tem interesse na área de Educação Infantil.

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Érica Dumont-Pena

Doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Saúde Pública (EEnf – UFMG). Pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Infância e Educação Infantil NEPEI/FaE/UFMG).

Fernanda Pedrosa Coutinho Marques

Pedagoga pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Bolsista de Apoio Técnico da pesquisa “Conhecendo e enriquecendo as relações entre criança e adultos na Educação Infantil”. Integra o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Infância e Educação Infantil (NEPEI) e o Grupo de Estudos Integrados (GEI).

Isabel de Oliveira e Silva

Doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professora Adjunta da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFMG. Pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Infância e Educação Infantil (NEPEI/FaE/UFMG).

Iza Rodrigues da Luz

Doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professora Adjunta da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFMG. Pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Infância e Educação Infantil (NEPEI/FaE/UFMG).

Júnia Michele de Oliveira

Graduanda em Pedagogia pela Universidade Norte do Paraná (UNOPAR). Professora da rede municipal de Belo Horizonte. Professora bolsista da pesquisa “Relação escola-família na Educação Infantil: a questão do compartilhamento do cuidado e educação das crianças pequenas”. Integrante do Grupo de Estudos Integrados (GEI).

SOBRE AS/OS AUTOR AS/ES

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Júnia Silva da Costa

Graduanda em Pedagogia pela FaE/UFMG. Pesquisadora bolsista na FaE/UFMG. Mestre em Educação pela Universidade Católica de Petrópolis (UCP/RJ). Ex-bolsista Ford Foundation International Fellowships Program (2009-2011). Graduada em Letras pela PUC Minas (campus BH).

Katiane dos Santos Oliveira

Graduanda em Pedagogia pela Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Bolsista de Iniciação Científica CAPES/FAPEMIG (2013-2016) e do Programa de Monitoria para a disciplina Psicologia da Educação no Departamento de Ciências Aplicadas à Educação (DECAE/FaE/UFMG).

Kelly Aparecida de Sousa Queiroz

Mãe do Pedro. Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente é professora da Educação Infantil na Rede Municipal de Belo Horizonte e pesquisadora voluntária na FaE/UFMG.

Márcia Cabral Martins

Coordenadora da Educação Infantil na UMEI Silva Lobo (BH). Graduada em Psicologia pela Faculdade Newton Paiva. Pós-graduada em Psicopedagogia pela Fumec. Cursos de Extensão em Fotografia e Artes Visuais. Pesquisadora bolsista pela UFMG. Formação em Educação Infantil em escolas de Reggio Emilia – Itália.

Maria Inês Mafra Goulart

Doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professora Associada da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFMG. Pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Infância e Educação Infantil (NEPEI/FaE/UFMG).

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Crianças, professorAs e famÍliaS: olhares sobre a Educação Infantil


Maria Lúcia de Resende Lomba

Doutoranda em educação, na linha de pesquisa Infância e Educação Infantil (UFMG). Mestra em Educação (UFES). Licenciada em Filosofia e em Pedagogia (UEMG) e em História (Simonsen/RJ). Membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Infância e Educação Infantil (NEPEI/ FaE/UFMG).

Natália Almeida Ribeiro

Doutoranda em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre em Educação pela FaE/UFMG. Licenciada e bacharel em Ciências Biológicas pelo Instituto de Ciências Biológicas da UFMG.

Noeme Rosa de Carvalho

Graduada em Pedagogia. Professora da Educação Infantil da rede municipal de Belo Horizonte. Professora bolsista da pesquisa “Conhecendo e enriquecendo as relações entre crianças e adultos na Educação Infantil”. Professora por escolha e não por falta de opção.

Rubia da Conceição Camilo

Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestranda em Educação pela FaE/UFMG. Professora do Ensino Fundamental da rede municipal de Belo Horizonte. Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Infância e Educação Infantil (NEPEI/FaE/ UFMG).

Simone Aparecida Neves

Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestranda em Educação pela FAE/UFMG. Atualmente é professora para a Educação Infantil da rede municipal de Belo Horizonte.

SOBRE AS/OS AUTOR AS/ES

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CRIANÇAS, PROFESSORAS E FAMÍLIAS: olhares sobre a educação infantil Copyright © 2016 Isabel de Oliveira e Silva, Iza Rodrigues da Luz e Maria Inês Mafra Goulart Todos os direitos reservados.

Todos os desenhos foram elaborados por crianças das UMEIs: Grajaú e Silva Lobo. A identificação das professoras, neste livro, foi por elas autorizada. Para desenvolvimento da pesquisa contamos com autorização dos familiares das crianças para divulgação de imagens e de desenhos produzidos por elas, conforme o comitê de Ética da UFMG.

Edição e produção gráfica: Mazza Edições Projeto gráfico e diagramação: Sylvia Vartuli Capa: Sylvia Vartuli sobre ilustração de acervo UMEI Silva Lobo Fotos da Seção 1: Márcia Cabral Ilustrações e fotografias: acervos UMEI Grajaú e UMEI Silva Lobo Revisão: Lourdes Nascimento

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Crianças, professoras e famílias: olhares sobre a Educação Infantil / Isabel de Oliveira e Silva , Iza Rodrigues da Luz , Maria Inês Mafra Goulart , (organizadoras).- Belo Horizonte: Mazza Edições, 2016. 200p.: 18X26cm. ISBN: 978-85-7160-675-3

1. Educação infantil 2. Educação de crianças - família. 3. Professores de educação pré-escolar. I. Silva, Isabel de Oliveira e. II. Luz, Iza Rodrigues da. III. Goulart, Maria Inês Mafra..

CDD: 372.21 CDU: 37


Acervo umei GrajaĂş


Crianças, professoras e famílias: olhares sobre a Eduacação Infantil Quando se quer apresentar uma obra ao leitor, diz-se leitura obrigatória, um recurso retórico no convite à leitura. Pois bem, este livro é, de fato, leitura obrigatória para os envolvidos na educação da infância no Brasil. O livro apresenta os sólidos resultados de projetos de pesquisa/intervenção que aliam a densidade da reflexão teórica ao caráter inovador da perspectiva metodológica, tendo como tema os sujeitos da educação da infância (crianças, professoras e famílias) em suas práticas de cuidado e educação. Ao atuarem em espaços de educação da infância, autoras e autores buscam refletir com as professoras sobre suas práticas, efetivamente pondo em diálogo os saberes da experiência e da reflexão teórica, no que denominam pesquisa colaborativa (em que a palavra colaboração expressa uma perspectiva horizontal e democrática de intervenção e produção do conhecimento). Além disso, entendem a escola como um dos espaços de educação, trazendo à cena as famílias, com suas expectativas e projetos de formação da criança. Ressalta-se que, na crescente e significativa produção contemporânea sobre a Educação Infantil no Brasil, a escuta das famílias tem sido ainda pouco contemplada nas pesquisas, reduzindo-se a educação das crianças à sua escolarização. Por fim, destaca-se a escuta arguta e sensível das crianças, ancorada em sólida reflexão teórica que permite apreender como se apropriam das ricas experiências educativas desenvolvidas, produzindo conhecimento sobre o mundo, no recurso a diferentes linguagens. Tal apropriação é descrita em seu processo, no qual o diálogo entre pesquisadores(as) e professoras sobre o vivido viabiliza a progressiva complexificação dos saberes produzidos por crianças e adultos, na compreensão do mundo.

Maria Cristina Soares de Gouvêa Núcleo de Estudos e Pesquisas em Infância e Educação Infantil / UFMG

ISBN 978-85-7160-675-3

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788571 606753