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Gabi Mendes Co-founder Strider

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OPINIÃO

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4 NOVIDADES NO MERCADO DE MÁQUINAS AGRÍCOLAS

STRIDER ENTREVISTA LUIMAR LUIZ GEMI Presidente do Sindicato Rural de Sorriso revela segredo de produtividade da região

MUDA PRÉ-BROTADA: O OCEANO AZUL DA CANA-DE-AÇÚCAR Técnica surge como alternativa para redução de custo e altera o sistema de plantio de cana

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AGRO EM PAUTA

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INTEGRAÇÃO LAVOURA-PECUÁRIA GARANTE RENTABILIDADE EM PROPRIEDADES RURAIS

APLICAÇÃO CALENDARIZADA: AUMENTO NO CUSTO DE PRODUÇÃO SEM GARANTIA DE EFICIÊNCIA Entenda porque a estratégia pode minar a rentabilidade do seu negócio

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Luiz Tângari: conversa sobre inovação no agro começa no Brasil

Confira algumas das principais inovações já disponíveis para os produtores

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ÍNDICE

EDITORIAL

O que aconteceu nos principais eventos do agronegócio pelo Brasil

Agricultores e pecuaristas usam estratégia para tornar negócios mais viáveis economicamente

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#PORDENTRODOAGRO

Do Instagram para as páginas da Revista

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COLUNISTA CONVIDADO

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LIDERANÇA NO AGRONEGÓCIO: EXISTE RECEITA MÁGICA PARA O SUCESSO?

Dib Nunes: geada, um problema para a cana-de-açúcar

Choque de gerações, sucessão e qualificação são alguns dos principais desafios para os líderes do agro

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MUNDO AFORA: O OURO DA AMAZÔNIA QUE CONQUISTOU O BRASIL

Uma palmeira nativa da Amazônia que ficou famosa por seus frutos dourados

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Vale do Piracicaba - o AgTech Valley, desponta no cenário de inovação para o agronegócio

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ESPECIALISTA CONVIDADO

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CULTURAS ENERGÉTICAS: GERAÇÃO DE BIOCOMBUSTÍVEL A PARTIR DE FONTES RENOVÁVEIS

PARA ONDE VAI A SOJA PRODUZIDA NO BRASIL Veja as principais finalidades do grão e como sua produção impacta nossa economia

QUAL A DIFERENÇA ENTRE GPS, RASTREADOR E SISTEMA DE MONITORAMENTO DE FROTAS?

Embora parecidas, soluções são bem diferentes na prática. Veja!

STRIDER NA ESTRADA: A CASA É SUA, PODE ENTRAR

Thais Andrade conta sua experiência ao visitar clientes e parceiros em São Gotardo/MG

ADOÇÃO DE TECNOLOGIAS GARANTEM PRODUTIVIDADE NO SETOR CAFEEIRO

Cafeicultores precisam driblar fatores que ameaçam sustentabilidade do setor

ESPECIAL AGTECH: CRESCEM AS APOSTAS NO ECOSSISTEMA DE STARTUPS NO BRASIL

3 investimentos essenciais para aumentar a produtividade na soja

Você sabe quais as principais matérias-primas utilizadas na produção do bioetanol?

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CARTA AO LEITOR Gabi Mendes Co-founder da Strider

Caros Leitores, Desde as primeiras idealizações do nosso sistema até os lançamentos mais sofisticados de hoje nunca tivemos dúvida: a resposta vem do campo. Um dos pontos-chaves para nosso crescimento e sucesso até aqui foi o entendimento de que no final das contas o que faz a diferença é um time comprometido com o sucesso do cliente. Estamos presentes no dia a dia das fazendas, nos grandes eventos do agronegócio, conversamos todos os dias com diretores, gerentes, consultores e técnicos. Nossa vivência nos faz entender muito bem o desafio que é fazer os ajustes necessários para a adesão da tecnologia, enquanto se corre atrás de uma safra de sucesso. Isso tudo ao mesmo tempo, e não há espaço para erros. Na Strider não queremos apenas ser o provedor de tecnologia das fazendas. Somos também o braço direito do nosso cliente para a grande mudança de cultura que a tecnologia promove nas propriedades rurais. Por aqui, estamos sempre pensando e construindo novas ferramentas com o objetivo de encurtar a distância entre o que acontece na lavoura e as decisões estratégicas da safra. Esta revista e cada novidade da Strider demonstram o papel central do produtor rural no desenvolvimento da empresa como um todo, seja produto, marketing, vendas ou pós-vendas. Estamos aqui para garantir que o produtor veja o benefício da tecnologia aplicada na sua rotina. Conte sempre conosco!

Abraços,

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E XPE D I E NT E DIRETORIA

DIREÇÃO GERAL PROJETO GRÁFICO E EDITORIAL COLUNISTAS CONVIDADOS

REDAÇÃO

Luiz Tângari Gabriela Mendes Carlos Neto Ana Attie Willian Tavares Dib Nunes Jr. José Antonio Rossato Jr. Osania Emerenciano Ferreira Luiz Tângari Marihus Altoé Baldotto Alexandre Riva de Miranda Marcos Paiva Del Giúdice Lílian Estrela Borges Baldotto Danielle Gláucia Thais Andrade Bárbara Caldeira

APOIO EDITORIAL

Rafael Malacco Flora Viana Mariana Morais Rafaela Botelho Patrícia Sales

REVISÃO

Danielle Gláucia

A REVISTA STRIDER Ano 1 - número 3. É uma publicação trimestral e de distribuição gratuita. Seu conteúdo foi desenvolvido com o apoio e colaboração de colunistas e especialistas. Os artigos de opinião não refletem, necessariamente, a opinião da Strider, sendo de inteira responsabilidade de seus autores. A reprodução do conteúdo publicado só poderá ser feita mediante autorização, previamente solicitada por escrito à revista, citando créditos e fonte. É vedada a venda desta publicação. IMPRESSÃO E ACABAMENTO GRÁFICA EDITORA CEDABLIO LTDA.

ANUNCIE revista@strider.ag Rua Inconfidentes, 1190, 7º andar - Belo Horizonte - MG Cep: 30140-120. Telefone: 0800 940 0020 @strideragro

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OPINIÃO DE SEGUIDOR À LÍDER: CONVERSA SOBRE INOVAÇÃO NO AGRO COMEÇA NO BRASIL por Luiz Tângari

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á alguns dias, a Forbes listou a Strider como uma das 25 AgTechs mais inovadoras do mundo. É claro que esse reconhecimento trouxe uma satisfação enorme, não só para quem faz parte da equipe e desenvolve as ferramentas da empresa, mas também para outros colegas que atuam no mercado de tecnologia para a agricultura no Brasil. Sabemos que é muito raro ver empresas do Brasil, e de outros países periféricos ganharem prêmios de destaque em “inovação”. Mas, no setor agro isso é possível porque ele está constantemente exposto à oportunidades. Nele, nasceu uma geração de empresas - as AgTechs - completamente focadas em explorar essas oportunidades. Uma maneira de mostrar e medir a velocidade e a forma de adoção de tecnologia é a chamada “curva de adoção”:

Os primeiros a adotar tecnologia são os inovadores e os primeiros adeptos, que gostam de testar protótipos e desenvolver ideias. Neste grupo está a maioria dos produtores que usam drones regularmente. À medida em que a oferta de tecnologia vai amadurecendo, e os primeiros produtos começam a ganhar escala entre os ‘usuários de vanguarda’, eles ficam mais abertos a assumir riscos de produtos ainda não usados largamente no mercado. Até 2015 a maioria dos clientes da Strider estava neste grupo. Depois vem a “primeira maioria”, que acompanha o uso dos primeiros e adotam a tecnologia depois de vê-la funcionando. A “segunda maioria” usa a tecnologia depois que ela se torna padrão e, finalmente, os “últimos” que retardam ao máximo a adoção.

34 % 13,5 % 2,5 %

Primeira Maioria

34 % Segunda Maioria

Primeiros Adeptos

16 % Últimos

Usuários de Vanguarda

Agora vem a parte mais interessante: na maior parte dos processos de inovação, o ciclo começa em países como os Estados Unidos, e outros da Europa ou Ásia, mas só chega no Brasil quando está no estágio “segunda maioria”. Como mercado, temos um papel exclusivamente de “seguidores” para vários tipos de inovação. Tecnologias como realidade virtual de empresas como a Rift e Oculus estão conquistando seus primeiros usuários (a vanguarda) mundo afora e são praticamente desconhecidas no Brasil. Quando chegarem aqui já terão vencido todo o ciclo em outros países. Mas, na agricultura é diferente. O Brasil sai do lugar de mero seguidor das novidades que chegam de fora. Esse é um dos poucos setores dos quais participamos ativamente na construção do cenário de inovação. Temos as maiores fazendas do mundo, que apresentam grandes desafios de gestão e precisam produzir com eficácia e isso faz com que a batalha de inovação para a agricultura aconteça aqui! Ed 3

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4 novidades

no mercado de máquinas agrícolas para você acompanhar

No primeiro trimestre do ano, o resultado para o Produto Interno Bruto (PIB) foi influenciado, principalmente, pelo expressivo resultado do setor agrícola. O agronegócio também foi o único setor da economia a apresentar saldo positivo na ocupação de postos de trabalho com carteira assinada. Os resultados positivos impulsionam ainda mais inovações para a área, na busca pela produtividade e maior rentabilidade do agricultor. O mercado de máquinas agrícolas, por exemplo, se desenvolve a uma velocidade recorde, no intuito de acompanhar as transformações do setor e prover aos produtores rurais ferramentas que supram suas necessidades em campo. Confirmando a importância do mercado, uma recente pesquisa divulgada pela ABMRA – Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio, revelou que os agricultores estão de olho nas novidades relacionadas a máquinas e implementos. Por isso, listamos algumas das inovações dos últimos meses para você acompanhar. Confira!

MONITOR DE COLHEITA PARA COLHEDORAS DE CANA-DE-AÇÚCAR A novidade foi apresentada pela John Deere e serve para mensurar em tempo real a produtividade da colheita de cana. O monitor é composto por sensores ópticos, posicionados no elevador por onde passa a cana colhida, que captam imagens do material que está subindo. Dessa forma é possível identificar o que é cana e o que é impureza vegetal.

SEMEADORA PL6000 A New Holland Agriculture investiu recentemente em sua semeadora, uma máquina robusta capaz de plantar nas mais diversas condições de palhada, relevos e tipos de solos. Os dados de campo da PL6000 indicaram um aumento de 10% no seu rendimento operacional devido a economia de tempo na manutenção diária. E 30% devido a sua maior autonomia de plantio.

TRATOR AUTÔNOMO TRATOR 4233 Recentemente a Agrale lançou o trator 4233, primeiro modelo isodiamétrico (rodas do mesmo tamanho) produzido no Brasil. Com proposta inovadora, o novo trator possui dimensões reduzidas, tornando-se ideal para trabalhos em culturas baixas e estreitas, que exigem equipamentos de dimensões reduzidas, como na viticultura (uva latada), fruticultura e avicultura, entre outras.

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Essa é uma grande novidade lançada pela Case IH. Com mais de 300 cv de potência, a máquina tem visual futurista, sem cabine, e executa as mesmas tarefas de um trator convencional. A diferença é que ela é controlada remotamente por um tablet ou computador. Com o uso do radar LIDAR (tecnologia ótica de detecção a laser), sensores de proximidade e câmeras de vídeo a bordo, o veículo pode perceber os obstáculos parados ou em movimento no seu caminho e parar sozinho.


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SOJA

Aplicação calendarizada:

aumento no custo de produção sem garantia de eficiência A

aplicação calendarizada como estratégia de combate às pragas na soja ainda é muito utilizada por produtores do mundo inteiro. À primeira vista, o método pode até parecer mais prático em relação aos outros, por oferecer ao produtor certa facilidade de planejamento de safra. No entanto, a visão equivocada de que a “aplicação por calendário” é o método mais seguro provoca muito mais uma ilusão de ótica sobre vantagens, em vez de reais benefícios para a saúde, produtividade e rentabilidade de uma lavoura.

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Uma das alternativas ao uso do calendário é a adoção do Manejo Integrado de Pragas - MIP. O método trabalha o monitoramento e a amostragem para indicar ao produtor a hora certa de aplicar defensivos na lavoura. De acordo com Samuel Roggia, pesquisador e líder da equipe de entomologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa Soja, os produtores que aboliram o uso do calendário na tomada de decisão são aqueles que trabalham com foco em produtividade, de olho no rendimento e na lucratividade.

Uma das diferenças entre a aplicação com base em calendário e a com base em amostragem é a redução de gasto com produto, de tempo e de mão de obra”.

“Eles já perceberam que as operações precisam ser mais lucrativas. Por isso, têm mais facilidade de entender que a sustentabilidade das suas atividades agrícolas dependem daquelas vírgulas geradas por uma economia que pode parecer pequena, mas que no final de tudo faz grande diferença”, explica o pesquisador.

A adoção do calendário gera ainda muitas desvantagens, entre elas a falta de garantia de que a aplicação está sendo feita no melhor momento. Ela pode ser feita antes (o que ocorre comumente) ou pode ser tardia - depois do momento adequado. “Principalmente, se o produtor tem como critério apenas a experiência de safras anteriores, já que a cada ano a lavoura é diferente e as pragas também mudam”, esclarece Roggia, que também é Doutor em Entomologia. Além disso, o MIP proporciona aos profissionais em campo a oportunidade de trabalhar com mais assertividade. Pesquisadores das diferentes regiões produtoras de soja do país e técnicos parceiros da Embrapa e da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural - Emater, relatam que ao substituir o método calendarizado pelo MIP, com base em amostragem, é possível reduzir as aplicações pela metade. Por isso, ele conclui que pensar em aplicar no momento correto é o verdadeiro diferencial. “Às vezes, o agricultor tem dificuldade de aceitar que não vai perder em produtividade se aplicar menos produto. O grande ponto é aplicar no momento correto”, ressalta Samuel.

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Aplicação calendarizada: aumento no custo de produção sem garantia de eficiência

Tecnologia para aperfeiçoar o MIP A tecnologia é uma grande aliada não só do MIP, mas de toda a gestão de uma propriedade. Ela atua na racionalidade do uso da mão de obra, do maquinário e proporciona muitas vantagens quando trabalhada com visão estratégica. O pesquisador da Embrapa relata que quando o produtor tem o conhecimento de onde está ocorrendo maior intensidade de pragas, o lugar que está mais próximo do nível de controle ou onde esse nível já foi atingido, a gestão fica mais fácil. Sem essa informação, talvez o agricultor priorize o controle na área que é mais produtiva. “Ele vai pensar: nessa área eu já tenho um alto nível de investimento, então eu vou começar o controle por aqui”. O problema é que, às vezes, nem é preciso controlar aquele local. Já usando o MIP e a amostragem, ele pode dizer “vamos atender primeiro onde o problema está mais sério”, explica. Outro exemplo, citado por Roggia, está ligado à tecnologia de aplicação.

Algumas vantagens do Manejo Integrado de Pragas quando feito de forma adequada Proteção adequada da lavoura: aplica-se o produto certo e na hora certa; Conhecer a ameaça e saber com qual arma lutar: conhecer a praga e saber a ameaça que ela representa é fundamental. Se o produtor não faz monitoramento, nem sempre tem condição de identificar a praga que deve combater. Para cada praga existe um produto mais adequado e nem sempre o que funciona com uma, funciona para outra; 12

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Ele conta que se um produtor tiver mil hectares para trabalhar, provavelmente não irá priorizar os horários recomendados para realizar as aplicações. Já com informações dos níveis de infestação das pragas, ele poderá planejar uma aplicação de melhor qualidade, nos melhores horários e apenas nas áreas em que a praga preocupa mais - neste caso a regra também vale para o controle biológico. O agricultor ainda tem a opção de esperar, dar chance para que os inimigos naturais atuem ou que uma chuva reduza a pressão naquele local. Acontece também de o produtor deixar de investir em um produto mais eficaz contra determinado problema, usar um mais barato e não tão eficaz, porque vai aplicar em toda a lavoura. “Se você tem o conhecimento de que aquela praga está agindo de forma localizada, pode realizar uma operação mais cirúrgica, investindo em um produto mais caro ou até mesmo no controle biológico - se a situação permitir”, finaliza.

Redução de custos: gerado pela economia de combustível, horas trabalhadas e com o próprio produto. Uma economia que compensa o investimento com a técnica de amostragem; Preservação do meio-ambiente: se o produtor está aplicando menos produto, as chances de contaminação da natureza são menores. Menos produto vai para a água, é carregado para outras culturas próximas, ou fica suscetível à deriva; Evitar o desenvolvimento de pragas resistentes: usando menos produto (apenas o necessário), evita-se o desenvolvimento de pragas resistentes. É um benefício que volta para o próprio agricultor e para todo o sistema produtivo.


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STRIDER ENTREVISTA

Luimar Luiz Gemi é formado em Medicina Veterinária, é Presidente do Sindicato Rural de Sorriso/MT, Vice Presidente da COOAMI - Cooperativa

Luimar Luiz Gemi

Mercantil Industrial dos Produtores de Sorriso, e Sócio Administrador da Fazenda Santo Antonio/ Cadu Transportes/Nosso Armazém Gerais.

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estado do Mato Grosso é responsável por quase 30% de toda a soja produzida no país, além de ser a região em que mais se produz milho safrinha. Neste cenário, se destaca o município de Sorriso, conhecido também como Capital Nacional do Agronegócio. Ele é a quarta maior economia do estado, e fica atrás apenas da capital Cuiabá, de Várzea Grande e de Rondonópolis. Sorriso é um dos municípios com maior área dedicada à lavoura, e sua economia é alavancada pelo cultivo de soja - que não para de crescer. Para entender como o município desenvolveu todo esse potencial para o cultivo, conversamos com Luimar Luiz Gemi - Presidente do Sindicato Rural de Sorriso. Ele nos contou como a região se desenvolveu, com muita luta e persistência dos produtores, e como a cidade alcançou o posto de maior produtor de soja em grão do Brasil. Confira a entrevista!

Quais foram os principais investimentos feitos na região nos últimos anos para que o município chegasse a esse patamar? Nosso município é ainda muito novo, temos só 31 anos de emancipação, e todas as pessoas que chegaram de diversas regiões do Brasil, vieram muito determinadas e com objetivos bem definidos, sem medo de enfrentar as situações que aqui encontrariam. Inicialmente, realizaram abertura das áreas, para nelas produzir o sustento de suas famílias, e a cada dia surgiam novas necessidades, sempre desafiadoras. Trabalharam na correção de áreas, buscaram por variedades que seriam mais adaptadas a essa região, construíram estradas, pontes e armazéns. Lutaram pela vinda de energia elétrica, telefone, asfalto, centros de pesquisas agrícolas, de capacitação e treinamento dos colaboradores para hoje colher os frutos desses esforços.

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Outro ponto foi a aceitação dos agricultores para investimentos em tecnologias, máquinas modernas e eficientes”.

A que você atribui o sucesso da região na produção de grãos? À dedicação e à persistência dos agricultores em acreditar que seria possível transformar o solo do cerrado em fértil e produtivo. O clima, com duas estações bem definidas, um período seco e outro chuvoso, também foi essencial. Outro ponto foi a aceitação dos agricultores para investimentos em tecnologias, máquinas modernas e eficientes, variedades produtivas, produtos novos, e a busca constante por resultados melhores. Vimos que a safra de grãos foi histórica no país, mas a rentabilidade do produtor não foi tão boa quanto o esperado. O que foi determinante para isso? O excesso de produtos ofertados sempre vem acompanhado de uma queda de preço. As oscilações do dólar, visto que parte da matéria-prima que utilizamos é importada, foi um ponto de impacto. Por outro lado, as instabilidades políticas e a insegurança das indústrias em se instalarem ou ampliarem suas atividades no Brasil, contribuíram para a retração dos lucros na agricultura. Além, é claro, da distância dos portos, que sempre foi fator para diminuir nossa lucratividade.

O que é preciso fazer para mudar esse cenário e para que os produtores de soja comecem a lucrar mais? Precisamos de uma política agrícola bem definida, garantias de preços que permitam aos agricultores, em cada uma das regiões do país, saldarem seus custos de produção. É preciso ainda investir na logística de transporte - para os centros consumidores ou portos para exportação, visto que as fronteiras agrícolas estão distantes deles e temos pouca malha rodoviária e quase nenhuma malha ferroviária. Melhorar as estruturas dos portos existentes e construir novos portos logisticamente distribuídos, de forma a atender amplamente o país, é outro ponto fundamental. O Brasil está caminhando para se tornar o maior produtor de soja do mundo. Quais fatores são essenciais para alcançarmos essa meta? Uma política agrícola firme, que passe segurança aos agricultores. Linhas de créditos para custear agricultores que buscam recursos junto às instituições financeiras e taxas para custeios agrícolas de juros compatíveis. Precisamos ainda que os governos abram novos mercados de consumo para exportarmos os excedentes e que haja mais investimento em pesquisas para descoberta de variedades mais produtivas, resistentes e tolerantes às doenças e pragas já conhecidas. Em quais soluções e estratégias os sojicultores não podem deixar de investir para alcançar maior produtividade em sua lavoura? Plantar variedades compatíveis para a região e com bom potencial produtivo. É importante também ter o custo na ponta do lápis, travar custos, vender várias vezes para fazer boas médias. Outra dica é a rotação de culturas e investir o necessário para extrair o máximo possível, (quanto mais extrair de 1ha, menor será o custo). O cuidado e o investimento no solo são essenciais fatores que não podemos esquecer nunca. Ed 3

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CANA

Muda Pré-Brotada:

o oceano azul da cana-de-açúcar

por José Antonio Rossato Jr.

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ual o impacto de uma inovação na agricultura? Toda nova técnica a ser implementada traz consigo a oportunidade de produzir mais com menos, e desta forma, produzir alimentos, fibra e energia com sustentabilidade. Em alguns casos a inovação altera completamente um conceito tradicional. Se diferencia e abre espaço para um novo modelo estratégico, que recebe o nome de “oceano azul”.

José Antonio Rossato Jr. é docente e pesquisador de ensino superior do curso de Agronomia e da Pós-graduação na Faculdade “Dr. Francisco Maeda” - Fafram, em Ituverava-SP. Possui experiência internacional em pesquisa, por meio de estágio de graduação no Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) na University of California, doutorado sanduíche na University of Nebraska e Pós-Doutorado na University of Alberta.

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A cultura da cana-de-açúcar, certamente uma das atividades produtivas mais longevas no Brasil, possui um modelo tradicional de plantio, feito através de pedaços de colmos, conhecidos como “toletes”. O sistema tradicional de plantio, realizado desde 1532 quando os primeiros toletes de cana chegaram em território Brasileiro através da colonização Portuguesa, se esgotou. A técnica de MPB – Muda Pré-Brotada, surge como o “oceano azul” e tem alterado completamente o sistema de plantio de cana-de-açúcar. A utilização de MPB tem sido formatada e difundida através do Centro de Cana do IAC (Instituto Agronômico de Campinas) e está alicerçada no binômio: redução do volume de colmos utilizados para o plantio (diminuição do custo) e garantia da sanidade da muda (evitar a disseminação de formas biológicas de insetos-praga). Estes dois fatores têm interferido negativamente nos resultados do setor sucroenergético nas últimas safras. Em relação ao primeiro, a mecanização do plantio da cana-de-açúcar tem aumentado em média 100% o consumo de muda para o plantio, e chega a atingir cerca de 20 toneladas de colmos para cada hectare plantado. Ainda, este maior consumo de muda impacta diretamente no volume potencial de cana-de-açúcar disponível para a colheita (custo de oportunidade). Em relação ao aspecto fitossanitário, no período entre os anos 2006-2009 houve uma expansão mal planejada do plantio de cana-de-açúcar. Guiado por um possível aumento na demanda de etanol no mercado externo e estimulado por um aparente incentivo do governo federal (já conhecemos o desfecho desta história), o setor não respeitou bases importantes da agronomia e negligenciou a qualidade da muda de cana-de-açúcar a ser utilizada para o plantio. O resultado: houve a disseminação de mudas contaminadas por formas biológicas de pragas, principalmente do inseto-praga Sphenophorus levis, conhecido como “bicudo-da-cana”.

Essa praga, até então restrita geograficamente à região de Piracicaba-SP, foi disseminada nos principais polos de produção da região Centro-Sul e trouxe enorme prejuízo aos canaviais. Através da utilização de MPB no plantio do canavial, apenas 2 toneladas de mudas são consumidas para a produção de MPB suficiente para o plantio de 1 hectare. Se utilizada em sistema de meiosi (método inter-rotacional ocorrendo simultaneamente) essa quantia é reduzida à 5 a 10% deste montante. Neste sistema, há também a oportunidade de agregar, de forma planejada, o plantio de amendoim ou soja como culturas de rotação, o que traz benefícios agronômicos e econômicos. Ainda, em relação a qualidade fitossanitária, os mini-rebolos que originam as MPB recebem tratamento térmico para o controle da bactéria causadora do raquitismo, além de não disseminar formas biológicas de Sphenophorus. A decisão de incorporação da tecnologia de MPB está nas mãos dos fornecedores e das agroindústrias. Sua aquisição pode ser feita através das empresas multinacionais, em produtores com polo de produção ou no modelo de produção própria na propriedade rural (case Coplana, Socicana e IAC). A partir da instalação de um canavial com pureza genética, alta qualidade e menor volume de muda consumido, é dado um importante passo inicial para alcançar elevados níveis de TCH (tonelada de cana por hectare), alta longevidade e maior retorno sobre o investimento. De forma notável, a técnica de MPB se consolida como o oceano azul frente aos desafios do setor sucroenergético.

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EVENTOS INSECTSHOW 2017 A Strider marcou presença na 13º edição do INSECTSHOW, tradicional evento sobre controle de pragas da cana. Luiz Tângari, CEO da empresa, falou com os visitantes sobre “Como a tecnologia de monitoramento de pragas pode impactar no ATR”. Como um dos patrocinadores do evento e parceiro do Grupo IDEA, a Strider ofereceu ainda um espaço especial para orientação, troca de experiências e apresentação de nossas soluções aos participantes.

DIA DE CAMPO TERRENA Fomos à Patos de Minas participar do espaço de Inovação Tecnológica no Dia de Campo da Terrena Agronegócios. De acordo com Mateus Claver, gerente de consultoria de campo da Strider, o evento tem um formato interessante que faz com que seja muito dinâmico e focado em diversas soluções objetivas e inovadoras para o produtor. “Além disso, foi um marco importante na parceria entre a Strider e a Terrena. Agora, por meio do programa ‘Alia’, os produtores terão acesso a muitos benefícios e poderão realmente utilizar as informações geradas em campo para tomar decisões importantes para as próximas safras”, completa o gerente.

Dia de campo Terrena

AGOPA Em julho, estivemos em Cristalina (GO) para o Dia de Campo da Associação Goiana dos Produtores de Algodão - Agopa. O encontro aconteceu na Fazenda Pamplona, da SLC Agrícola, empresa cliente e parceira da Strider. Com o tema “Conhecimentos e Inovações que geram resultados”, o evento reuniu produtores, pesquisadores, agrônomos, técnicos e empresários.

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AMIPA A Associação Mineira dos Produtores de Algodão - Amipa - promoveu seu tradicional Dia de Campo no dia 05 de julho. Marcamos presença no evento com um espaço especial preparado para receber os visitantes. Thais Andrade, Sales Executive na Strider, participou da feira e contou como a experiência foi proveitosa. “Foi uma boa oportunidade de interação entre parceiros e produtores. As palestras foram excelentes, bem ricas e informativas. Para completar, participamos de uma visita ao campo nas áreas de alta produtividade. Enfim, foi tudo muito bom”, completou.


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ECONOMIA

Integração lavoura-pecuária garante rentabilidade em propriedades rurais U

m dos grandes desafios enfrentados pelo agricultor da atualidade é encontrar o ponto de viabilidade econômica para seu negócio. Cada produtor tem sua estratégia na busca por melhores resultados nessa equação. Sabendo que não basta produzir muito - mas é preciso produzir com qualidade, eficiência e rentabilidade - alguns encontraram no sistema de integração lavoura-pecuária (ILP) um ponto de equilíbrio.

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De acordo com Julio Cesar Salton, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, os benefícios da utilização dessa boa prática agrícola são integrados. Na soja, por exemplo, “a pastagem favorece a lavoura pelo funcionamento do sistema radicular que melhora a estrutura do solo, fornecendo ótima quantidade de palha para realizar o plantio direto. A pastagem, por sua vez, é beneficiada pelo fornecimento de nutrientes residuais da adubação e do nitrogênio fixado pela soja”, esclarece. Além disso, ocorre uma importante redução na ocorrência de pragas, doenças e plantas daninhas devido a diversificação dos cultivos.

Investimento

A pastagem favorece a lavoura pelo funcionamento do sistema radicular que melhora a estrutura do solo”.

Conforme define a Embrapa, o ILP é uma estratégia de produção sustentável que integra atividades agrícolas, pecuárias e florestais realizadas na mesma área. Ele pode ser implantado de diversas formas, e a mais utilizada é a alternância da pastagem com lavouras, geralmente em ciclos de dois anos com pasto e dois anos com safras de grãos. A implantação baseia-se nos princípios de rotação ou consórcio entre culturas e grãos para produzir, na mesma área, grãos, carne, leite e outros produtos ao longo do ano.

Para implantação do sistema integrado, o produtor deve levar em conta a necessidade de infraestrutura específica para cada tipo de atividade, conforme relata o analista da Embrapa Agropecuária Oeste, Alceu Richetti. Para o produtor de grãos fazer pecuária, por exemplo, os investimentos estão voltados para a aquisição de animais, instalações (cercas, curral, água e outras) e mão de obra especializada. “Já para o pecuarista produzir grãos, fibras e energia, há a necessidade de investimento em máquinas, equipamentos, benfeitorias e mão de obra especializada no manejo de máquinas agrícolas”, completa. Ivan Konig, diretor comercial da El Tejar, conta que depois de adotar a integração lavoura-pecuária, a empresa passou a dispor de milho mais barato para ração animal e em grande quantidade. “Tínhamos a necessidade de melhorar a produtividade em algumas áreas de solo mais arenoso e com histórico de baixa produtividade de soja”, conta. A solução encontrada para melhorar a rentabilidade do cultivo foi plantar braquiária nessas áreas após a colheita da soja e investir em estrutura para pecuária. O diretor comercial explica que a empresa adotou o modelo de semi-confinamento com suplementação de até 2% do peso vivo do animal em regime de pasto, com lotação de cinco animais por hectare. “O plano é manter esse modelo de pecuária nestes solos por dois a três anos. Depois, voltar com a soja por duas safras e retornar à pecuária, fechando o ciclo”, explica. Ed 3

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Integração lavoura-pecuária garante rentabilidade em propriedades rurais

Primeiro passo Produtores que desejam dar o primeiro passo para a sustentabilidade de seus negócios, e veem na integração lavoura-pecuária uma estratégia, devem buscar informação e capacitação antes de tudo. Também é preciso estar consciente que o sistema exige maior dedicação e esforço por parte do agricultor-pecuarista. “Serão duas atividades (lavoura e pecuária) que ocorrerão simultaneamente em sua propriedade, exigindo um envolvimento muito maior do produtor em todas as fases do negócio, desde a compra de insumos à comercialização do produto”, reforça Salton.

Ter um bom diagnóstico da área, correções de deficiências, enfim, exige planejamento e acompanhamento para o sucesso da atividade”.

Além disso, o apoio técnico é essencial, já que o sistema é mais complexo do que uma atividade isolada. “Ter um bom diagnóstico da área, correções de deficiências, enfim, exige planejamento e acompanhamento para o sucesso da atividade”, finaliza o pesquisador da Embrapa Oeste, Júlio Salton.

Qual a diferença entre consórcio, sucessão e rotação de culturas? Quando duas ou mais espécies vegetais são cultivadas na mesma área simultaneamente, damos o nome de consórcio. Já quando duas espécies vegetais são semeadas, uma após a colheita da outra, dentro do mesmo ano agrícola, chamamos de sucessão de cultivos, a exemplo da sucessão soja-milho safrinha que acontece na região central do Brasil. A rotação acontece quando se alterna as espécies vegetais ocupando o mesmo espaço físico e período do ano. Esse sistema visa, principalmente o combate a problemas fitossanitários.

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COLUNISTA CONVIDADO

GEADA

UM PROBLEMA PARA A CANA-DE-AÇÚCAR por Dib Nunes Jr. Engº Agrº Grupo IDEA I dib@ideaonline.com.br

As geadas são comuns em muitas regiões produtivas de cana, como a Louisiana (EUA), Índia, Austrália, Argentina e ocasionais na Flórida, México, Irã e na região sudeste do Brasil. Segundo estatísticas, ocorrem em média 4 geadas a cada 20 anos nesta região brasileira. Os danos na cana são causados pela ruptura das células dos tecidos das partes afetadas como resultado do congelamento do suco celular. Os problemas dependem basicamente da intensidade da geada, das condições ambientais após a geada e do comportamento das variedades cultivadas.

A partir daí, podemos ter injúrias que vão desde uma simples queima de folha, até à morte da gema apical e das gemas laterais superiores e até mesmo, a morte de todas as gemas laterais. As partes afetadas adquirem, de início, uma aparência aquosa e em pouco tempo tornam-se focos de infecções por fungos e bactérias. Quando morre somente a gema apical, as gemas que não foram danificadas brotam e ocasionam uma cana com pontas múltiplas ou “envassouradas”. Após a geada (ao redor de 10 dias) deve-se realizar um levantamento dos danos e mapeamento do problema.

A intensidade da geada depende do tempo que a temperatura permanecer abaixo de zero.

Deve-se proceder da seguinte maneira:

1

Estabelecer um critério para levantamento, de modo a quantificar a intensidade da geada;

2

Quantificar os canaviais atingidos e suas respectivas tonelagens;

Nas áreas com danos leves, dependendo das condições climáticas, a perda de qualidade tecnológica demora mais a ocorrer, podendo manter teores de sacarose por 45-50 dias. Entretanto, nos locais onde os danos são severos, a deterioração dos colmos pode começar a ocorrer em menos de 10 dias. Não ocorrendo a morte das gemas laterais, a redução da qualidade ficará restrita aos primeiros entrenós do ponteiro. A altura correta do desponte no momento do corte pode minimizar este problema.

3

Monitorar, através das análises tecnológicas as áreas atingidas para iniciar a administração da cana geada.

Não se deve tomar decisão de cortar os canaviais sem um preciso levantamento da situação. As maiores preocupações estão com a cana de ano e com a cana que foi cortada, na safra anterior, de setembro em diante. Esses canaviais, além de interromperem o processo de desenvolvimento reduzindo a produção, se encontram com menor teor de sacarose por não terem ainda atingido a idade mínima para corte de 12 meses.

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CAPA

LIDERANÇA NO AGRONEGÓCIO EXISTE RECEITA MÁGICA PARA O SUCESSO?

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s produtores brasileiros Renato Neira Felcar e Fábio Sabó estão separados por mais de mil quilômetros de distância, mas suas histórias apresentam um ponto em comum: foram sucessores dos negócios que nasceram pelas mãos de seus pais. Felcar, agrônomo e gerente da Agrícola Felcar, que fica em Guararapes, São Paulo, conta que tudo que ele sempre quis desde “pequenininho” foi dar continuidade ao legado do pai e trabalhar junto com seus irmãos. Fábio, que é sócio proprietário da Fazenda Iberê, localizada em Primavera do Leste, no Mato Grosso, também seguiu os passos do pai, Alfredo Sabó, que adquiriu a propriedade em 1982 junto com seus dois irmãos.

Alfredo e Fábio Sabó Foto: Fabiano Nogueira

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À exemplo de Felcar e Sabó, que enfrentaram os desafios do campo, se qualificaram e se tornaram líderes de referência, vários produtores precisaram arregaçar as mangas e assumir a gestão da fazenda fundada pela família. O que muitos não sabiam é que a liderança no agronegócio apresenta seus próprios desafios. Por ser um setor peculiar, o agro requer habilidades diferentes daquelas exigidas aos profissionais no mercado de trabalho “tradicional”. Somado a isso, ainda tem o impacto pelo qual o setor passou nos últimos anos, com a mecanização, tecnificação e profissionalização da mão de obra, fatores que contribuíram para que as fazendas familiares, que nasceram tímidas e pequenas, progredissem e se tornassem grandes agroempresas. De acordo com João Paulo Prado, consultor e sócio da MPrado Consultoria Empresarial, não há uma receita mágica para formar líderes de sucesso no agronegócio. Mesmo que eles atuem no campo desde pequenos e cresçam observando os exemplos de seus pais, a forma como eles reagem aos desafios de gestão e carreira é que irá definir o futuro de seus negócios.

Sucessão De acordo com Prado, o processo de sucessão é um assunto delicado, mas que precisa ser tratado com seriedade. Ele explica que somente ⅓ das empresas conseguem seguir para a segunda geração - dessas, menos de 14% sobrevivem à terceira. O consultor cita alguns critérios importantes e que devem ser observados, quando um fundador decide passar a gestão da fazenda para seu sucessor. “O fator mais importante para que o processo ocorra com o máximo de tranquilidade é o comum acordo entre pai, mãe, irmãos, e sócios se houver. A sucessão deve ser harmônica, não pode ser imposta e nem dividir a família, caso contrário a performance do líder poderá ser prejudicada no futuro”, esclarece João Paulo. Prado ressalta ainda que os principais problemas no planejamento da sucessão são: a falta de transparência, conflito de interesses e a disputa pelo poder dentro da família; a ideia de que nada de ruim vai acontecer ao fundador da empresa, por isso, ele não vê a necessidade de se preparar para a sucessão; e o receio de magoar os membros da família ao escolher um filho em detrimento do outro.

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Liderança no agronegócio: existe receita mágica para o sucesso?

Comportamento Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio - ABMRA - revelou que a idade média do produtor está caindo no Brasil. Os números indicam que os sucessores estão se preparando para assumir cada vez mais cedo a gestão das fazendas - e neste cenário surgem os impasses causados por conflitos de gerações. Renato Felcar lembra que passou por algumas dificuldades quando começou a gerir a Agrícola Felcar. “A gente chega muito novo, cheio de novidades e quer fazer tudo do bom e do melhor para a empresa e, às vezes, o pai tem uma cabeça mais conservadora. Mas, depois acaba tudo se acertando. Os dois buscam juntos pela melhor forma de tocar o negócio”, relata. “É um choque de gestão. Antigamente, os fazendeiros prezavam muito pelas relações interpessoais. Os RTVs, que eram os vendedores que supriam as fazendas com insumos e sementes, por exemplo, faziam amizade com os fazendeiros antes de negociar. Hoje, esse relacionamento ficou para segundo plano. A nova geração de líderes é muito mais focada em resultados do que no relacionamento interpessoal”, destaca Prado. João Paulo salienta que os líderes atuais estão de olho nas ferramentas de inovação e em como agregar valor ao negócio. “Não que as relações não sejam mais importantes, mas eles estão buscando otimização. O novo líder do agro fez faculdade, se especializou, entende a importância da gestão para a fazenda”, pontua.

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Uma boa relação entre funcionários e sócios, aliado a um bom ambiente de trabalho é um diferencial da nossa empresa hoje”.

Para Fábio Sabó, o líder de sucesso é aquele que nunca se cansa de aprender, que está sempre aberto a novas tecnologias e à informação. Ele acredita que um bom líder no mundo agro é aquele que consegue tomar decisões centralizadas, motivar as pessoas e indicar o caminho para sua equipe de forma clara. “Uma dica que eu dou para gestores interessados no sucesso, como eu, é procurar focar nas pessoas”, conta o produtor.


Para Fábio Sabó, o maior desafio da liderança hoje é a qualificação de pessoal, já que o agro exige conhecimento e habilidades específicas dos trabalhadores, “para que eles estejam preparados para tomar decisões sozinhos quando for preciso”, frisa. Renato Felcar comenta que seu pai fez questão que ele estudasse e se formasse. O gerente fez agronomia e voltou para a propriedade, onde atua até hoje. “É preciso ter formação para poder acompanhar o ritmo das coisas, hoje tudo muda muito rápido”, conta. O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR) atua há anos promovendo qualificação e conhecimento no meio agro. No departamento de Educação Profissional e Promoção Social a instituição mantém um projeto - o CNA Jovem - completamente voltado para a capacitação de jovens líderes do agronegócio.

Entendemos que só jovens qualificados e cada vez mais preparados poderão ocupar posição de liderança e fazer a diferença”.

A coordenadora do programa, Andréa Barbosa Alves, explica que o desenvolvimento de lideranças jovens, que buscam soluções para os desafios do setor rural, é uma das prioridades do SENAR. “Entendemos que só jovens qualificados e cada vez mais preparados poderão ocupar posição de liderança e fazer a diferença”, acrescenta Alves.

Mercado No primeiro trimestre do ano, o agronegócio foi o principal responsável por garantir o crescimento da economia brasileira. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE -, o Produto Interno Bruto - PIB - da agropecuária brasileira cresceu 13,4%. Esse resultado fez com que a economia brasileira crescesse 1%, em relação ao último trimestre de 2016, e ele não poderia ter sido alcançado sem investimentos do setor. Aos líderes e gestores coube a missão de apostar em ferramentas, tecnologias e inovação para garantir a capacidade de produção nas propriedades. João Paulo Prado relata que ser líder no agro é um pouco complexo, mas “ele deve ser focado em tecnologias que otimizem e rentabilizem o negócio; estar sempre antenado com as tendências do mercado para saber reconhecer oportunidades; ter um nível de gestão que possibilite a tomada de decisão por meio de estudos e indicadores (extinguindo a gestão pelo feeling ou achismo)”, enumera. Essas são habilidades indispensáveis para que o gestor encontre o ponto de equilíbrio da empresa.

Pedro e Renato Felcar Foto: Jean Borges

“Porque se ele erra uma vez, isso poderá comprometer outras safras e até mesmo toda a fazenda”, finaliza o consultor.

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Liderança no agronegócio: existe receita mágica para o sucesso?

6 Não deixar que o legado se perca O legado da propriedade deve ser preservado e não pode se perder durante a sucessão. Nele estão os valores e princípios do negócio. Manter a essência da família também é primordial.

de pessoas e 5 Gestão foco nos resultados Além disso, ele precisa saber liderar as pessoas - que vão auxiliá-lo para alcançar os resultados esperados.

4

Apostar em desenvolvimento Nem todos os profissionais estão prontos para assumir a gestão. O sucessor tem que fazer valer à pena sua escolha pelo cargo, e apostar em desenvolvimento e qualificação.

a diferença 3 Entender entre herdeiro e sucessor O sucessor será o executivo responsável pela geração de rendimentos para ele e para a empresa. Ele pode desenvolver o papel de herdeiro e também de CEO da empresa, sempre focado em resultados. Não se pode confundir esses dois papéis dentro do negócio.

A escolha do

deve 2 sucessor ser estudada A eleição deve ser baseada nas habilidades, virtudes e no potencial que o sucessor apresenta. Isso deve estar bem alinhado entre a família.

fundador deve estar 1 Odisposto a ser sucedido É comum que o dono veja seu negócio como um filho e não queira se desapegar dele.

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MUNDO AFORA

O OURO DA AMAZÔNIA que conquistou o Brasil por Bárbara Caldeira

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ssim como o açaí é cercado por uma lenda indígena — que você conheceu na edição passada da Revista Strider —, a pupunha também tem uma história nativa amazônica para chamar de sua. Pouco conhecida, a narrativa conta que a pupunha era uma linda criança de cabelos cor de ouro e estranha à sua tribo, formada por pessoas de pele morena e cabelos negros. Pela inadequação, a pequena foi entregue ao cacique para ser sacrificada. Enterrada em solo fértil, deu origem a uma imponente palmeira de frutos dourados e saborosos. Já predestinada a esse fim, a criança que se tornou a pupunheira seria um presente da Deusa da Floresta à tribo, que sofria com a fome em tempos de inverno. A pupunha é, sem dúvida, uma dádiva tal qual prevista pelos indígenas. Versátil, pode ser consumida de diversas maneiras, sendo um alimento altamente nutritivo. Na região norte do Brasil, o costume de comer o fruto da pupunha é patrimônio cultural e atravessa gerações. “Há uma ampla variabilidade entre os frutos da pupunheira refletida nos diferentes tamanhos e cores, mas há uma tendência para coloração amarelo-alaranjada devido à forte presença de caroteno”, explica a nutricionista paraense Thayana Moreira. 32

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De acordo com a nutricionista, apesar de ser utilizado no preparo de sopas, tortas, cremes e bolos, o fruto da pupunheira é consumido geralmente cozido em água com sal e é protagonista de um bom café da manhã ou da tarde. “Aqui, a pupunha é consumida a qualquer hora, especialmente acompanhada de café com leite ou café preto”, relata Thayana. O mineiro Fernando Gomes, que morou em Manaus por 15 anos, conta que no começo estranhou o hábito, mas se apaixonou pela iguaria. “Quando cheguei na cidade, não foi tão fácil me acostumar com as peculiaridades da culinária amazonense. Mas, já no primeiro mês, tive o prazer de conhecer o gosto inigualável da pupunha”, relembra. Desde então, passou a comprar, nas feiras populares, cachos do fruto para comer em casa e a procurar por bancas de lanche nas ruas que servissem pupunha cozida. Atualmente morando em Recife, ele diz sentir falta do sabor. Letícia Lima Gomes, estudante de 17 anos e filha de Fernando, é manauara autêntica e conta que come pupunha desde que se entende por gente. “Eu fui criada comendo o fruto, aqui no Amazonas é assim. É algo que envolve todo mundo da casa. Quando criança, eu adorava sentar para descascar a pupunha que minha mãe tinha colocado para cozinhar”, narra. É um alimento essencial, servido até mesmo no lanche das escolas, principalmente com picadinho de peixe e farinha”.

Ela ressalta que a substância atua na saúde da pele, olhos e cabelos. Ainda, o fruto possui minerais como potássio e selênio — anticancerígeno e antioxidante —, teores elevados de fósforo, cálcio, ferro, vitamina A e quantidades razoáveis de vitamina C. Ingrediente obrigatório na mesa dos nortistas, o fruto é um alimento barato e de fácil acesso, mas pode encarecer bastante fora do período de safra, dobrando de valor.

Palmito saboroso e sustentável Joel Penteado Jr., analista da Embrapa Florestas, afirma que a produção de frutos de pupunha no norte do Brasil é praticamente exclusiva do extrativismo de plantas nativas e suficiente para atender à demanda local, sendo o estado do Amazonas o maior consumidor. Com o palmito de pupunha é bem diferente, já que a produção mundial de palmitos movimenta R$ 350 milhões anualmente, sendo o Brasil responsável por 74,3% do montante.

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O ouro da Amazônia que conquistou o Brasil

“É um cultivo de caráter conservacionista, uma vez que, adequadamente manejado, diminui os impactos da erosão do solo podendo, inclusive, contribuir para a manutenção das características físico-químicas e da fertilidade da terra por meio do manejo dos resíduos da colheita”, defende Joel Penteado.

“Somos o maior produtor e consumidor de palmito do mundo. No entanto, os maiores exportadores são Equador e Costa Rica, devido, principalmente, aos plantios comerciais de pupunheira, que proporcionam controle de qualidade dos produtos, ganhos de escala e, consequentemente, preços mais baixos”, avalia o especialista. Segundo Penteado, a área de plantio de pupunheiras destinadas à produção de palmito no Brasil é de 20 mil hectares. “Os estados de São Paulo e Bahia são os produtores mais expressivos, com mais de 5 mil hectares cada”, expõe. Ele acrescenta que o cultivo da pupunha para produção de palmito cresceu consideravelmente no Brasil especialmente por conta de características como perfilhamento e precocidade do corte, que representam vantagens para o produtor rural. “Além disso, o palmito da pupunheira não escurece rapidamente após o corte”, salienta. Há, também, importantes questões ligadas à sustentabilidade que favorecem o palmito de pupunha. Por muito tempo, a produção nacional se deu a partir da exploração extrativista predatória da juçara. Nos anos 1970, esgotadas as reservas da espécie típica da Mata Atlântica, uma vez que a planta morre após o corte, o palmito brasileiro passou a ser extraído do açaizeiro. Nesse contexto, a cultura da pupunheira surgiu como alternativa viável para suprir o mercado. 34

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O analista sublinha, ainda, que o alto rendimento do cultivo da pupunha por unidade de área permite a adoção e a viabilidade econômica mesmo para pequenos produtores, com características típicas de agricultura familiar, sem a obrigatoriedade de ampliação e cultivos em grandes áreas, auxiliando na conservação dos recursos naturais da região. A nutricionista mineira Sabrina Finelli acredita que a substituição dos palmitos de açaí e juçara pelo de pupunha, mais do que positiva do ponto de vista ecológico, não deixa a desejar em outros aspectos. “Além de ter valores nutricionais muito semelhantes aos dos outros palmitos, o de pupunha tem uma textura mais macia, o que agrada os consumidores”, revela. A profissional lembra que o palmito de pupunha tem poucas calorias, ao contrário do fruto. “Para se ter uma ideia do valor calórico, 100 gramas do palmito equivalem em média a ¼ de uma banana prata”, compara, elencando como benefícios para o corpo a prevenção de doenças degenerativas e o fortalecimento do sistema imunológico. Sabrina acredita que o palmito pode ser consumido sem moderação em saladas, tortas, sopas e outras receitas, mas faz um alerta quanto ao consumo da pupunha para quem ficou com vontade de experimentar o hábito amazonense e desconhece os truques: o fruto jamais deve ser consumido cru. “Devido à presença de cristais de oxalato de cálcio, também chamado de ácido oxálico, o fruto pode causar a sensação de ferroadas na língua e, ainda, inibir a digestão, especialmente em crianças”, conclui.


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CAFÉ

Adoção de tecnologias garantem

PRODUTIVIDADE NO SETOR CAFEEIRO por Bárbara Caldeira

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e existe uma cultura agrícola que faz com que o Brasil se destaque no cenário internacional é a cafeicultura. De acordo com estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento - Conab -, o país deve produzir cerca de 46 milhões de sacas de 60 kg de café em 2017. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - Mapa - projeta que o valor bruto da produção brasileira de café alcance a casa dos R$ 21,9 bilhões este ano.

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O produtor rural deve ter atenção com as especificidades do cultivo, combate à pragas e doenças e investimento em tecnologia”.

O diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café - ABIC -, Nathan Herszkowicz, confirma o bom desempenho e perspectivas promissoras também no consumo do grão. “Nosso país registrou, em 2016, um consumo per capita de 84 litros de café por habitante/ano. O item está presente, atualmente, em 98,5% dos lares brasileiros”, expõe. Mesmo com previsões favoráveis, especialistas reforçam que o produtor rural deve ter atenção constante com aspectos decisivos para o sucesso da lavoura - como as especificidades do cultivo, combate à pragas e doenças e investimento em tecnologia. Silas Brasileiro, presidente executivo do Conselho Nacional do Café - CNC -, ressalta que a cafeicultura é uma cultura perene, com ciclo de longa duração, o que demanda visão estratégica por parte do cafeicultor. “O produtor que ingressar na atividade deve se planejar, no mínimo, para os próximos vinte anos, pois nesse período a produtividade das plantas está em seus maiores níveis”, argumenta.

De acordo com Anísio José Diniz, pesquisador da Embrapa Café - uma das unidades descentralizadas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária -, para alcançar o bom desempenho da lavoura é preciso ter em conta as condições de solo e clima ideais para o crescimento e desenvolvimento das plantas, garantindo produtividade e qualidade. O engenheiro agrônomo defende que, para que bons resultados sejam alcançados e que a projeção favorável ao setor cafeeiro se confirme, a equipe envolvida na cultura deve se manter atualizada quanto às tecnologias envolvidas, por exemplo, na avaliação da fertilidade do solo para correção da acidez e nutrição da cultura. Assim, a adoção de soluções tecnológicas para o campo, deve acompanhar um diagnóstico e ser supervisionada por engenheiros agrônomos e outros profissionais conforme o objetivo da produção. O entendimento profundo do ciclo do café também é necessário e um grande diferencial de uma lavoura competitiva. “No plantio realizado no início das chuvas, há um melhor desenvolvimento das plantas, tanto pela maior disponibilidade hídrica como pela ocorrência de temperaturas mais elevadas. Já no plantio de março, as plantas tendem a um menor desenvolvimento inicial pela redução de temperatura”, pontua Anísio, que é doutor em Agronomia. Dessa forma, o sucesso da safra também passa pela precisão na determinação dos momentos de plantio e colheita. “Os cuidados nas fases após a colheita, especialmente no processamento, beneficiamento e armazenamento dos grãos de café, também são decisivos e podem ser auxiliados pelas empresas desenvolvedoras de tecnologias agro”, frisa.

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Adoção de tecnologias garantem produtividade no setor cafeeiro

Os nematoides também causam dor de cabeça aos produtores e são extremamente danosos às plantas. “Para a renovação das lavouras, é importante evitar as áreas sabidamente infestadas. Sempre que o técnico ou produtor tiver dúvidas, deve encaminhar amostras de solo e raízes para o laboratório analisar”, recomenda o pesquisador da Embrapa Café.

Secagem de café em Sto. Antônio do Amparo/MG Foto: Rafael Souza

Saúde da lavoura segue desafiando o cafeicultor O cotidiano dos cafeicultores é cercado por desafios. Uma questão que tira o sono dos produtores e afeta diretamente a produtividade e lucratividade da lavoura é a presença de pragas e outras doenças. Anísio destaca a ferrugem, que é uma doença de origem fúngica recorrente nas lavouras de arábica e canephora. Ela ocorre principalmente em lavouras mais comprometidas pela desnutrição ou nas que tiveram produtividade muito elevada nas safras anteriores. A ferrugem provoca intensa desfolha da planta, que tem seu potencial comprometido sobretudo na safra seguinte. “Há variedades e cultivares com resistência à raça de maior ocorrência no Brasil, e os métodos de controle químico existentes são bastante eficientes se aplicados da forma correta”, avalia, ressaltando a importância, assim, do melhoramento genético na cafeicultura. 38

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Entre as pragas, Anísio elenca como grandes vilões o “bicho mineiro”, que assola as lavouras de café arábica, e a “broca dos frutos”, que ameaça as culturas de café conilon, embora ambas ocorram nas duas espécies. Ácaros, cochonilhas, cigarras e a “broca das hastes” são outras pragas preocupantes. “De forma semelhante às doenças, o controle integrado, utilizando-se de diferentes meios, como a escolha por variedades e cultivares mais resistentes aliada ao controle cultural e químico, é sempre o mais sustentável”, finaliza. Plantação de café em Santo Antônio do Amparo/MG


VOCÊ SABIA Para onde vai a soja produzida no

BRASIL

Produção de Soja no Brasil 2º maior produtor mundial do grão Produção: 113,923 milhões de toneladas Consumo interno de soja em grão: 47,281 milhões de toneladas Exportação de soja em grão: 51,6 milhões de toneladas U$ 19,3 bilhões 3 principais destinos: China, União Europeia, Ásia (exceto China) Exportação de farelo: 14,4 milhões de toneladas - U$ 5,2 bilhões Exportação de óleo: 1,2 milhões de toneladas - U$ 0,9 bilhões Fontes: Embrapa Soja; Conab - Companhia Nacional de Abastecimento; Agrostat - Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; MDIC/Secex

O

grão de soja possui grande variedade de uso. Na indústria de alimentos, por exemplo, é utilizada como matéria-prima para a produção de chocolates, temperos e massas. O óleo é processado e utilizado para cozimento, fabricação de margarina e maionese. Um de seus componentes extraídos, a lecitina, é uma substância emulsificante utilizada na fabricação de salsichas, sorvetes, barras de cereais, e outros. Na indústria química, a soja serve como base para produção de vernizes, tintas, plásticos, cosméticos, adesivos, fibras e revestimento. O grão ainda é utilizado na produção de biodiesel e, embora não apresente o maior teor de óleo para combustível, a cadeia produtiva de soja é capaz de tornar viável a sua aplicação neste segmento.

Dados referentes a Maio e Junho/2017

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TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

VOCÊ SABE QUAL É A DIFERENÇA entre GPS, rastreador e sistema de monitoramento de frotas?

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xiste uma série de equipamentos disponíveis no mercado para quem procura por monitoramento de máquinas agrícolas. Embora as soluções sejam bem parecidas na teoria, na prática não é bem assim. Por isso, produtores que pensam em investir nessa área precisam se atentar para o que as soluções podem oferecer na prática para seus negócios, caso contrário, poderão adquirir uma ferramenta que se tornará obsoleta e não facilitará a gestão de sua fazenda.

Rastreador De acordo com o desenvolvedor do setor de Pesquisa da Strider, Eduardo de Carvalho, há muita coisa no mercado hoje em dia. Carvalho explica que uma das opções que se tem visto são as empresas que fornecem rastreamento veicular. Neste sistema o agricultor adquire um GPS (Sistema de Posicionamento Global, em inglês, Global Positioning System) e conecta em sua máquina, usando o sistema de rastreamento de veículo para “monitorar” a frota. 40

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“O sistema vai informar a posição do trator, mostrar por onde ele passou e em qual velocidade, se ele está ligado ou não, entre outras coisas. Mas, o que ele não vai fazer é compilar esses dados de uma forma que te dê informação útil de produtividade, por exemplo”, relata. Um dos grandes problemas deste tipo de sistema é que o GPS utilizado pode não ser muito preciso, já que foi projetado para rastreamento de veículos que trafegam na cidade. Aí que mora o perigo, relata Carvalho. “Se você usa um sistema de rastreamento de veículos em uma área rural, pode resultar em imprecisão do trator”, afirma. Outro ponto a se considerar é que, de forma geral, os rastreadores funcionam via celular. Eles acessam a internet, jogam os dados e o produtor consegue recebê-los no computador. O problema é que o produtor nem sempre tem internet - ou pelo menos não na fazenda inteira.


GPS Uma segunda alternativa para o agricultor é comprar e instalar o GPS na máquina, sem contratar uma empresa que faça o sistema de rastreamento veicular. Eles geram dados de tráfego crus e o produtor tem que decidir o que fazer com eles. “O problema é transformar esses dados em informação útil. Para alguém que tem uma fazenda inteira para gerir, não dá para ficar criando planilha para saber onde é que está o trator. Esses dispositivos também se comunicam via celular, então voltamos ao problema da conectividade”, pontua. Algumas empresas estão criando sistemas que apenas leem os dados gerados pelo GPS que está acoplado na máquina. Ele disponibiliza as informações para criar os relatórios de tráfego. O problema é que não são soluções focadas. Os relatórios são os mesmos para qualquer tipo de veículo - e não um relatório específico para um trator.

Vantagens do sistema de monitoramento de frota Armazenamento de um grande volume de dados; Conectividade por meio de uma rede prioritária - sem ficar refém de sinal de internet. A rede proporciona ainda visualização das informações em tempo real e estabelece a comunicação entre o escritório e o campo; Informação de forma útil e inteligente para análise e tomada de decisão; Sistema personalizável de acordo com as necessidades do produtor; Permite cadastro de funções relacionadas à gestão da propriedade, como delegação de tarefas; GPS com melhor precisão - projetado para atender as especificidades do trabalho no campo; Facilidade de gestão. Os produtores querem e precisam dos relatórios otimizados, com informações inteligentes.

Sistema de monitoramento de frotas De olho nas necessidades dos produtores no campo, a Strider desenvolveu um sistema completo de gestão de frota. Além de possuir todas as funcionalidades de rastreamento, ele entrega soluções pensadas especialmente para sanar alguns problemas enfrentados no campo. O primeiro passo essencial é a entrega da conectividade e o segundo é o armazenamento. “Nosso sistema armazena alguns meses de informação. Às vezes o produtor manda o trator para longe, para outra fazenda em um lugar remoto e que não tem internet e ele armazena toda a informação. Na hora que o trator volta a se conectar, a informação estará disponível para ser contabilizada em relatório”, conta Eduardo. O grande plus é que o sistema entrega as informações de forma inteligente. Ele gera relatórios de eficiência das máquinas, que indicam se o trator estava no talhão certo ou não e o tempo que ficou ocioso. Ainda há a possibilidade de criar relatórios personalizados por máquina, por executor, por tarefa e outros. Outra vantagem é a possibilidade de agregar várias tarefas em uma mesma plataforma e ter, ao final do dia, um relatório informando se as tarefas programadas foram executadas e em quanto tempo. “Isso dá métrica para que o empregador avalie e até premie seus colaboradores por tarefas executadas dentro do tempo ideal”, pontua Carvalho. Em outro módulo do sistema, o agricultor pode acompanhar o rendimento de alguma máquina e saber se há algum problema com ela. Com essa funcionalidade cria-se manutenções programadas, acompanha-se troca de peças, de óleo, entre outros.

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ESPECIAL AG TECH

CRESCEM AS APOSTAS NO ECOSSISTEMA DE STARTUPS AGTECH NO BRASIL por Bárbara Caldeira

É

comum que, diante de termos como inovação científica e alta tecnologia, especialmente para o agronegócio, o Vale

Para Heygler de Paula, COO da AgriHub, a con-

do Silício, na Califórnia (EUA), ganhe destaque. A região

ecossistema de startups agtech é essencial es-

se destaca por ditar tendências tecnológicas para o mundo,

pecialmente para enfrentar os diversos desafios

mas se depender do empenho de empresários envolvidos no

do setor, inclusive geográficos e de contato. “As

ecossistema de startups agtech no Brasil, o polo inspirador

fazendas estão espalhadas e os produtores mo-

de seus negócios ainda vai ouvir falar muito dos brasileiros.

ram em cidades que estão longe de grandes con-

De acordo com o 1º Censo AgTech Startups Brasil, realizado a partir de uma parceria entre a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo - ESALQ-USP - e a AgTech Garage, o setor é promissor: 17% das startups mapeadas registraram taxa de crescimento de mais de 50% ao ano. José Tomé, co-fundador e CEO da AgTech Garage, acredita que o ecossistema de startups voltadas para o agronegócio no Brasil ainda está na sua infância, mas o potencial é notório. A iniciativa que o engenheiro químico comanda é decisiva para que o ecossistema de inovação do Vale do Piracicaba, em São Paulo, conhecido como AgTech Valley, amadureça e se expanda. Tomé conta que a AgTech Garage, ao longo dos últimos dois anos, catalogou startups de todo o Brasil que desenvolvem algum tipo de serviço ou produto inovador para a agricultura. “Nossa ação consiste em atrair produtores, corporações e fundos de investimento para nos aproximar de startups e fomentar a geração de parcerias e negócios”, comenta.

solidação de uma rede e o fortalecimento do

centrações urbanas, o que dificulta a logística e o entendimento dos problemas do campo por parte das empresas de tecnologia”, pondera. O empresário londrinense George Hiraiwa é presidente do Instituto Sicoob, atua como voluntário e é um dos coordenadores da SRP Valley, iniciativa de peso no cenário paranaense. Ele explica que a SRP Valley é o centro do ecossistema agro de Londrina, sendo parte integrante da Sociedade Rural do Paraná - SRP, entidade de produtores do agronegócio da região, que conta ainda com a SRP Go, uma aceleradora de startups. Otimista com as perspectivas do setor no Brasil, George diz ver com muita alegria o surgimento de vários ecossistemas agro, como as iniciativas de Piracicaba e Cuiabá. “É importante termos um networking produtivo para que, com a maturidade, surjam startups mais estruturadas, com maior capital de conhecimento e que pos-

Outra iniciativa de destaque é a AgriHub, rede de inovação

sam contribuir para a sustentabilidade do agro-

em agricultura que identifica as necessidades dos produto-

negócio brasileiro”, opina.

res e os conecta a startups, mentores, empresas, pesquisadores e investidores, promovendo melhor ajuste das tecnologias ao campo. Com raízes em Cuiabá, a AgriHub faz parte do Sistema Famato, que é composto pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso - Famato, Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária - Imea, e Serviço Nacional de Aprendizagem Rural - SENAR-MT.

Tomé, no mesmo sentido, ressalta a necessidade de que os novos empreendedores do ramo estejam mais preparados. “Em setembro, a AgTech Garage vai lançar o primeiro curso de empreendedorismo focado em agtech no Brasil. Serão dez módulos, que cobrem todas as fases de desenvolvimento de uma startup. Acreditamos que esse será mais um marco no ecossistema de inovação do nosso país”, finaliza.

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STRIDER NA ESTRADA

A CASA É SUA, PODE ENTRAR por Thais Andrade, Sales Executive na Strider

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empre me animo quando planejamos uma visita em campo. Conversar com o cliente, entender sua rotina e perceber de perto a diferença que nossa ferramenta faz no seu dia a dia é a parte mais gratificante do trabalho. Para melhorar ainda mais essa experiência, no último mês, tivemos a satisfação de contar com a companhia de Felix Valentin Moser, um consultor austríaco de Hortifruti (HF) que veio ao Brasil para nos conhecer. Ele atende algumas fazendas no Brasil e queria entender melhor nossas soluções tecnológicas para agricultura. E existe lugar melhor para mostrar os resultados do nosso trabalho do que o campo? Por isso, eu, a Vanessa Nogueira, Diretora Comercial da Strider, e o Felix fomos para São Gotardo visitar dois grandes clientes. Chegando lá, passamos pelo Grupo Tsuge, um dos maiores produtores de abacate do Brasil. Fomos recebidos muito bem pelo Paulo Tsuge, seu pai Naohito, seu tio Masahito e o Sérgio Gontijo, gerente da fazenda.

Da Ed 3 Sergio 2017 Gontijo, Vanessa Nogueira, Thais Andrade, Felix Moser, Hugo Shimada e Paulo Tsuge 44esquerda:


Viveiro de mudas - Fazenda Tsuge

Hugo Shimada, outro grande produtor da região se juntou a nós para selar a visita em um maravilhoso almoço típico mineiro! Uma comida caseira da melhor qualidade, toda feita com óleo de abacate da própria produção da fazenda Tsuge! Shimada produz café, abacate, HF e soja em sua fazenda e não poderíamos deixar de passar pela propriedade! Lá, conhecemos um piscinão de irrigação, as áreas de packing house de cenoura, repolho e o processo de armazenagem na câmera fria. Nosso amigo Felix ficou bem impressionado com a organização dos nossos clientes e mais ainda com a satisfação demonstrada por eles em relação às tecnologias da Strider! Essa foi uma visita muito bem-sucedida e que demonstra o quanto prezamos pelo bom relacionamento com nossos clientes. Esse tipo de relação comprova que trabalhamos em verdadeira parceria (bem uma sintonia) e que é fortalecida a cada safra. Ficamos extremamente gratos pela atenção e pelo cuidado com que fomos tratados, e esperamos ansiosos por novas oportunidades como essa!

Tanta hospitalidade fez com que nos sentíssemos em casa! No decorrer do primeiro dia nos explicaram como funciona a operação e pudemos visitar as áreas, que além de abacate também produzem café e lichia. No segundo dia de visita, depois de rodar a propriedade com os técnicos e gerente da fazenda, conhecemos uma reserva e uma área de lazer.

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ESPECIALISTA CONVIDADO

3 investimentos essenciais para

aumentar a produtividade na soja

A

cultura da soja apresenta grandes desafios para a pesquisa científica, entre eles a busca por soluções para problemas como a resistência de plantas espontâneas, insetos-praga, nematoides e ferrugem. Além disso, a minimização das perdas no pós-colheita, estratégias para enfrentamento das variações climáticas e disponibilidade de área. No intuito de atender a crescente demanda mundial por grãos, tecnologias desenvolvidas no âmbito do melhoramento genético foram lançadas, priorizando a seleção de cultivares resistentes, seja à fungos, nematoides ou insetos - um exemplo é a Seleção Assistida por Marcadores Moleculares (S.A.M.). No Brasil, a maior parte das cultivares comerciais de soja são suscetíveis ao nematoide de cisto da soja (NCS), e diante deste mecanismo tecnológico, o Instituto de Biotecnologia Aplicada à Agropecuária (BIOAGRO) e a Embrapa Soja, desenvolvem trabalhos de pesquisa, que buscam inserir genes resistentes nestas cultivares como resposta à necessidade de adequar a cultura às regiões contaminadas por NCS (Alzate-Marin, 2005). Outra tecnologia marcante na cultura da soja é o Manejo Integrado de Pragas (MIP-Soja), que passou por vários processos de evolução desde a década de 1970, quando começou a ser difundida. O MIP refere-se aos processos de amostragem de pragas, cujos resultados auxiliam técnicos na tomada de decisão quanto ao controle. 46

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Plantação de soja em Minas Gerais

A crescente demanda pelo produto também levou as empresas produtoras de sementes, adubos, herbicidas e defensivos a desenvolver pacotes tecnológicos que reduzem grandemente o risco de perdas nas lavouras. Entretanto, mesmo aumentando a produtividade, há uma grande demanda por soluções mais sustentáveis, dentre elas, produtos que incrementam significativamente maior volume e peso de grãos produzidos, sem, contudo, expandir a área cultivada. Nesse sentido, reforça-se a necessidade de busca por insumos com base em recursos naturais renováveis, tais como as substâncias húmicas produzidas a partir de compostagem.

O monitoramento se baseia nas características do inseto, número de indivíduos estimados na população, o estádio fenológico da cultura, a presença de inimigos naturais, além da capacidade de suportar a ação da praga.

Em Minas Gerais, nosso grupo de pesquisa vem testando possibilidades tecnológicas a base de substâncias húmicas isoladas de resíduos orgânicos reciclados por compostagem e de simbiontes para a cultura da soja. Se confirmado seu potencial em outros ensaios, o uso de ácidos húmicos poderá resultar em impacto positivo para o cultivo do grão no estado.

A pesquisa na área de entomologia trouxe maiores avanços nesta técnica, com a identificação de predadores, parasitóides e entomopatógenos (vírus e fungos), considerados armas potenciais contra as pragas, visto que, além de eficientes, reduzem consideravelmente o uso de agroquímicos e não beneficia o surgimento de indivíduos resistentes.

Isso permitirá aos produtores planejar seu manejo com base em redução dos insumos produzidos a partir de recursos naturais não renováveis e, ainda, vislumbrar mercados de produção orgânica. Posteriormente, as informações e produtos gerados poderão ser difundidos para outras espécies vegetais de interesse comercial.

A cultura da soja conduzida no sistema de monocultura continua enfrentando limitações básicas impostas pelo ineficiente manejo do solo. A técnica do Sistema de Plantio Direto (SPD) tem sido uma tecnologia considerada eficiente, quando bem conduzida, para o aumento do teor de matéria orgânica no solo, com consequente melhoria de vários atributos como CTC, porosidade, infiltração e drenagem de água, manutenção da umidade, dentre outros. (Broch et al., 2009).

Especialistas autores do artigo: Autor: Marihus Altoé Baldotto (Professor Permanente/UFV). Co-autores: Alexandre Riva de Miranda (Formando em Engenharia Agronômica/UFV), Marcos Paiva del Giúdice (Professor Permanente/UFV), Lílian Estrela Borges Baldotto (Professora Permanente/UFV).

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SUSTENTABILIDADE

CULTURAS ENERGÉTICAS: geração de biocombustível a partir de fontes renováveis

por Osania Emerenciano Ferreira

O

petróleo continua sendo a fonte de energia

primária mundial. Por ser uma fonte não renovável, à medida que a demanda por combustíveis aumenta, intensificam-se as discussões sobre temas ambientais e a busca por fontes renováveis de energia. Este cenário traz a perspectiva de aumento na demanda por etanol, tanto no mercado nacional quanto no internacional, impulsionado pelo uso de veículos automotivos leves flex-fuel.

Prof. Dra. Osania Emerenciano Ferreira - Graduada em Ciências Biológicas, Doutora e Mestre em Microbiologia Agropecuária pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2015). Atualmente é Coordenadora do Curso Superior de Tecnologia em Produção Sucroalcooleira da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG/Unidade de Frutal), onde atua como docente e pesquisadora.

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A produção de biocombustíveis, especialmente o etanol, pode ser dividida atualmente em 4 gerações. São considerados os de 1ª geração (1G) os que utilizam açúcares ou amidos, de 2ª e 3ª Geração (2G e 3G) que utilizam biomassa lignocelulósica, inclusive resíduos agrícolas e industriais, árvores e determinadas espécies de gramíneas. A 4ª geração é a integração dos processos de produção das demais gerações, que utiliza de alterações genéticas da cultura a ser empregada e de microrganismos industriais, contribuindo para aumentar a eficiência dos processos de 2ª e 3ª gerações para produção de etanol.

Diferentes fontes de biomassa na produção de etanol A produção de etanol no mundo é crescente, empregando-se diferentes fontes de biomassa como: amido (milho e grãos de cereais), sacarose (cana-de-açúcar, beterraba açucareira e sorgo sacarino) e culturas celulósicas (resíduos vegetais e madeira). No Brasil, a grande diversidade edafoclimática (combinação de fatores como o clima, o relevo, a temperatura, a humidade do ar, tipos de solos, chuvas e outros) possibilita a exploração de várias culturas energéticas para completar e descentralizar a produção de etanol - com destaque para a cana-de-açúcar, a matéria-prima mais utilizada para produção do combustível atualmente e que garante a maior produtividade com menor custo de produção. Já dentre as matérias amiláceas e feculentas, que contêm carboidratos mais complexos como o amido, podemos citar a araruta, milho, mandioca, e batata-doce. Para se produzir etanol por meio dessas matérias-primas é necessário que elas passem por um processo de hidrólise, denominada sacarificação.

Mesmo com todo o processo de melhoramento das novas variedades de mandioca e batata-doce, com altos teores de amido e carboidratos por exemplo, a produtividade agrícola destas matérias-primas não compete com a da cana-de-açúcar, além da falta de resíduo combustível. Podemos citar ainda o sorgo sacarino, uma gramínea que há anos vem sendo estudada e melhorada no Brasil. É uma matéria-prima mista, composta por grande quantidade de sacarose nos colmos e também de matéria amilácea. O sorgo produz panículas com grãos ricos em amido. As pesquisas atuais estudam o aumento no Período Útil de Industrialização (PUI) e tecnologias que possibilitem a utilização de toda a planta. Ed 3

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Culturas energéticas: geração de biocombustível a partir de fontes renováveis

No Brasil já existem unidades industriais com planta “Flex”, com opção de produzir etanol, ora com cana, ora com milho”.

Outra gramínea que também vem ganhando espaço é o milho. Além de ser uma alternativa para a produção de etanol, ainda pode ser empregada na produção de ração animal de alto valor proteico. Outro fator de destaque é que quando os grãos de milho são armazenados corretamente, a indústria pode operar durante todo o ano. No Brasil já existem unidades industriais com planta “Flex”, com opção de produzir etanol, ora com cana, ora com milho.

Alternativas competitivas Um importante passo no país foi a viabilização da produção de etanol a partir da celulose proveniente de resíduos agrícolas, do bagaço e palha da cana-de-açúcar, além de culturas energéticas que têm surgido como a cana energia, o sorgo energia, capim-elefante, braquiárias (Brachiaria), panicuns e árvores de crescimento rápido. Elas podem ser alternativas competitivas e eficientes para regiões em que as condições climáticas inviabilizam o cultivo de cana-de-açúcar. O chamado etanol 2G e 3G já possui unidades industriais implantadas no Brasil. A aplicação de algas para produção de etanol também tem sido estudada. A vantagem é que as algas podem ser cultivadas em terras não agricultáveis - em água salgada, salobra e até mesmo águas residuais como, por exemplo, a vinhaça da indústria sucroalcooleira. 50

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Essa via de produção evita a competição pelo uso da terra para a geração de energia e produção de alimentos, e é mais sustentável do ponto de vista ambiental, mas até o momento a viabilidade econômica ainda é um gargalo para utilização de fonte de biomassa. Para finalizar, é importante ressaltar a produção de biocombustíveis de quarta geração, que vem para melhorar a eficiência dos processos de produção de etanol 2G e 3G. Tendo como foco modificações genéticas que alteram a parede celular e fisiologia na própria espécie vegetal e de microrganismos a serem utilizados no processo industrial. Juntas, estas alternativas podem reduzir o custo da produção de etanol. Nesta área, ainda em estudo, temos a modificação da cana, a transgênica, que pode contribuir muito para a viabilização de um novo modelo para produção de biocombustível. Independente do processo industrial a ser empregado para produção de etanol, todas as matérias-primas listadas são importantes para se criar um programa brasileiro de energia renovável, com ampliação da produtividade e otimização do uso da terra. Esses fatores consolidarão o país do ponto de vista de autossuficiência na geração de biocombustível a partir de fontes renováveis, criando um dos maiores programas de energia renovável do mundo.

CURIOSIDADE No Havaí (University of Hawaii at Hilo) foi patenteada uma tecnologia que utiliza cianobactérias geneticamente modificadas para obtenção de combustível em sistema de biofotorreator, tendo como produto do seu metabolismo o etanol que é recuperado através de uma membrana especialmente desenvolvida para o processo.


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Revista Strider Ed 3 - 2017  
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