E-Book - IX Congresso Bragança

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IX Congresso Internacional ASPESM

EDIÇÃO E PROPRIEDADE: A SOCIEDADE PORTUGUESA DE ENFERMAGEM DE SAÚDE MENTAL TÍTULO: E-book: IX Congresso Internacional da ASPESM Sub-Título: Saúde mental para todos COORDENAÇÃO DA EDIÇÃO: Carlos Sequeira José Carlos Carvalho Luís Sá Paulo Seabra Mafalda Silva Odete Araújo COMISSÃO EDITORIAL: Bruno Santos Francisco Sampaio Lia Sousa Luís Silva Divulgação: ASPESM Suporte: E-book (formato. pdf) ISBN: 978-989-20-9952

Nota: Todos os artigos publicados são propriedade d’ASPESM, pelo que não podem ser reproduzidos para fins comerciais, sem a devida autorização da Sociedade Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental. A responsabilidade pela idoneidade e conteúdo dos artigos é única e exclusiva dos seus autores. A opção do texto com o novo acordo ortográfico ficou a cargo de cada autor. Citação - APA Style: 1. Sequeira, C., Carvalho, J.C., Sá, L., Seabra, P., Silva, M. & Araujo, O. (Eds.) (2018). IX Congresso Internacional ASPESM: Saúde mental para todos. Porto: ASPESM.

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Conteúdos Enquadramento do congresso............................................................................................... 4 Resumos ............................................................................................................................... 8 Manejo de um aplicativo informático para adolescentes com transtorno alimentício ............. 8 Prevalência de Sobrecarga do Cuidador Informal do Idoso Dependente ..............................18 Treino de Assertividade na Enfermagem de Saúde Mental ..................................................32 Contribuições do mestrado na carreira do enfermeiro: análise auxiliada pelo software IRAMUTEQ ..........................................................................................................................42 Diagnósticos de Enfermagem para o alcoolismo: uma revisão integrativa............................51 Qualidade de vida e Empoderamento da Pessoa com Diabetes tipo 2: Resultados da Avaliação de um Programa de Educação Terapêutica .........................................................61 Qualidade de vida e bem-estar do profissional do pré-hospitalar: revisão integrativa ...........71 Imersão em saúde mental: relato de experiência .................................................................82 Atitudes de saúde, ansiedade, depressão e stress: estudantes portugueses e africanos .....91 Resiliência da pessoa com Doença Renal Crónica em Programa Regular de Hemodiálise – Revisão Sistemática da Literatura ......................................................................................100 Stress, anxiety and depression in Portuguese nursing students .........................................109 Efeitos da terapia cognitivo-comportamental realizada por enfermeiros com pessoas dependentes de substâncias: Scoping Review ...................................................................119 Efeito das Técnicas de Relaxamento na Ansiedade em Pessoas com Doença Mental: a scoping review ...................................................................................................................129 Cuidado de promoção à saúde mental na universidade: Experiência com a Terapia Comunitária Integrativa ......................................................................................................139 Metodologia de Estudo de Caso no planeamento de cuidados de enfermagem especializados no Transtorno Obsessivo Compulsivo ........................................................148 Desvelar de perspectivas de adolescentes em situação de vulnerabilidade social: experimentação sociopoética .............................................................................................155 A Qualidade de Vida em Idosos Institucionalizados ...........................................................163 Representação Social e o sentido do trabalho para enfermeiros no cotidiano hospitalar....174

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Enquadramento do congresso Neste e-book apresentam-se os trabalhos científicos que contribuíram para o sucesso do IX Congresso Internacional da Sociedade Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, que mais uma vez se destaca no panorama dos eventos científicos na área da enfermagem. Os enfermeiros com interesse na área da saúde mental anseiam anualmente por este evento onde se partilha, onde se discute, e que de forma crescente se torna o “golden event” destes enfermeiros que assumem na sua prática a defesa e promoção daquilo que este ano foi o mote do congresso, “Saúde mental para todos”. Temos como referencial fundamental que não há “saúde” sem “saúde mental” e, que nas fases em que a pessoas estão mais vulneráveis, podem contar com os enfermeiros de saúde mental. Anualmente verificamos cada vez mais a presença de enfermeiros que trabalham em áreas de cuidados que não as tradicionais dos serviços de psiquiatria e saúde mental e estamos a conseguir atrair profissionais de outras áreas disciplinares. Todos são estimulados pela ASPESM a estarem presentes, para apresentar os seus trabalhos e para contribuem para a construção do caminho para uma saúde mental para todos. Sentimos que o congresso cada vez mais contribui para uma integração segura dos enfermeiros nas suas equipas multidisplinares, assim como reforça a sua capacidade para intervenções autónomas. O programa iniciou-se com um conjunto de cursos precongresso, desde logo direcionados para a prática beseada na evidência e potenciadora de saúde mental com diferentes grupos populacionais e diferentes necessidades. Depois, e mais uma vez, o conjunto de oradores de excelência, permitiu a reflexão sobre temáticas fundamentais para a qualidade dos cuidados de enfermagem de saúde mental. Paralelamente, tivemos um conjunto de comunicações orais e apresentações de posters que por serem selecionados através de um processo de revisão por pares, desde logo garante a qualidade dos trabalhos e demostra o cuidado crescente dos enfermeiros de saúde mental em sustentar a sua prática baseada na evidência. Desta-se um número significativo de trabalhos apresentados por estudantes de diferentes níveis de ensino, que encontram aqui o espaço ideal de refletir a articulação entre a academia e a pratica clínica. Destaca-se naturalmente a participação de profissionais de outros paíese (Espanha, Brasil). Torna-se evidente, a partir dos trabalhos apersentados, que os enfermeiros trabalham e investigam em muitas e diferentes áreas. Tivemos trabalhos no domínio da educação de estudantes e o desencolviemento de competências dos profissionais, sobre a saúde e bemestar de estudantes do ensino superior e dos profissionais da saúde. Alguns trabalhos no

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âmbito das intervenções com diferentes populações incluído as inovações com a utilização das novas tecnologias e outros onde se permite aprofundar o conhecimento sobre as intervenções especializadas dos enfermeiros de saúde mental com diferentes populações. Submeteram e foram apresentadas algumas revisões de literatura que procuraram contribuir para aumentar o nosso conhecimento no âmbito das intervenções especificas psicoterêuticas e psicoeducativas. Outras reforçando a necessidade da acurácia do diagnóstico. Sobre modelos de intervenção houve também alguns trabalhos. A ASEPESM agradece a cada um dos palestrantes a sua disponibilidade para nos proporcionar momentos de grande reflexão através do seu saber e experiência. Esperamos contar convosco para o desenvolvimento da enfermagem de saúde mental. Para contribuir para a transferibilidade do conhecimento, editamos este ebook, onde se publica os resumos de um conjunto de comunicações orais e posters, que esperamos possam despertar nos leitores a curiosidade de querer saber sobre essa evidência e possam encontrar forma de procurar mais detalhes procurando os autores ou consultando a revista sa ASPESM (http://www.aspesm.org/). Esperamos que esta publicação estimule os enfermeiros a prosseguirem a sua investigação e que possa promover pontos de encontro para futuramente agregar investigadores. Agradecemos às instituições que deram o seu apoio a esta iniciativa da ASPESM, em Especial, ao Instituto Politécnico de Bragança e à Ordem dos Enfermeiros.

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TEMÁTICAS DO EVENTO: Curso Breve 1 – Modelo de Intervenção Psicoterapêutica em Enfermagem Moderadores: Leonel Fernandes & Graça Farelo Dinamizador: Francisco Sampaio Curso Breve 2 – Programa de Capacitação dos Cuidadores Familiares Moderadores: Helena Penaforte & Luís Silva Dinamizadores: Lia Sousa & Rita Costa Curso Breve 3 – Novos Comportamentos Aditivos Moderadores: Daniela Martins & Paula Reis Dinamizador: Paulo Seabra Curso Breve 4 – Promoção de Competências Parentais: Estratégias para Lidar com Crianças e Adolescentes com Alterações de Comportamento Moderador: Joana Coelho & Silvia Lima Dinamizador: Verónica Pereira I CICLO DE CONFERÊNCIAS
 Moderador: José Carlos Carvalho Desafios e prioridades em saúde mental | Miguel Xavier (Coordenador do Programa Nacional para a Saúde Mental) Hospitalização domiciliária em pessoas com doença mental aguda – resultados da experiência desde 2017 em Barcelona | Albert Granero (Gestor de Centro de Saúde Mental de Barcelona) Pré-bioticos, Psicobióticos e alimentação – Uma Nova estratégia de Intervenção em Saúde Mental | Claudia Marques (Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde - CINTESIS) Wellness coaching na promoção da saúde mental | Ana Galvão (Instituto Politécnico de Bragança) II CICLO DE CONFERÊNCIAS
 Moderador: Adília Fernandes Fragilidade e demências em idosos | José C. Millán Calenti (Universidade da Coruña)
 Sexualidade, Intimidade e Comportamento sexual na demência/velhice | Cláudia Feio (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia)

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Demência e funcionalidade familiar: impactos na saúde mental do cuidador | Célia Pereira Caldas (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) III CICLO DE CONFERÊNCIAS Moderador: Claúdia Mara Viver com a doença Mental | Pedro Pereira (Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Viana do Castelo)
 Curta-metragem de combate ao estigma da pessoa com doença mental “No limiar do pensamento” | António Sequeira – Realizador de Cinema (London Film School)
 Estratégias de capacitação da família da pessoa com esquizofrenia | Lara Pinho (Centro Hospitalar Baixo Vouga) IV CONFERÊNCIA DE ENCERRAMENTO
 Moderador: Helena Quaresma
 Padrão de Documentação em Enfermagem de Saúde Mental | Carlos Sequeira (Coordenador do grupo de criação do padrão de documentação para a área de especialidade de Enfermagem de Saúde Mental)

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Resumos Manejo de um aplicativo informático para adolescentes com transtorno alimentício Sergio Ladrón-Arana*; Rubén Maeztu-Ugarte**; María Rosario Orzanco-Garralda***; Blanca Marín-Fernández****; Edurne Rodríguez-Remiro***** & Paula EscaladaHernández****** *Enfermero especialista en salud mental; Doctorando en enfermería en Universidad Pública de Navarra; Jefe de Unidad de enfermería-Complejo Hospitalario de Navarra, Plaza Elobide nº1

4ºA,

C.P

31192

Pamplona

(Navarra)

España.

Tlf:(+34)653360142

E-mail:

sergio.ladron.arana@navarra.es **Enfermero especialista en salud mental; Centro de salud mental Ansoain,C/Ostoki 16, C.P 310013 Ansoain (Navarra). Email: ruben.maeztu.ugarte@navarra.es ***Enfermera, Doctora en Ciencias de la Salud. Profesora Asociada- Área de Enfermería. Departamento de Ciencias de la Salud. Universidad Pública de Navarra. Av. Barañain, s/n. 31008. Navarra (España). Email: mrosario.orzanco@unavarra.es ****Enfermera, Doctora en Antropología. Profesora Titular- Área de Enfermería. Departamento de Ciencias de la Salud. Universidad Pública de Navarra. Av. Barañain, s/n. 31008. Navarra (España). Email: blanca.marin@unavarra.es *****Enfermera especialista en pediatría; Unidad de hospitalización psiquiátrica infantilComplejo Hospitalario de Navarra, C/Irunlarrea nº3, C.P 31008 Pamplona (Navarra) España. E-mail: edurne.rodriguez.remiro@navarra.es ******Enfermera, Doctora en Ciencias de la Salud. Profesora Sustituta de la Docencia- Área de Enfermería. Departamento de Ciencias de la Salud. Universidad Pública de Navarra. Av. Barañain,

s/n.

31008.

Navarra

(España).

Tlf:(+34)645164080

Email:

paula.escalada@unavarra.es RESUMO CONTEXTO: Os transtornos alimentícios representam um grande problema nos países desenvolvidos, especialmente na população jovem. A educação desempenha um papel fundamental no seu tratamento, desenvolvendo-se para tal fim programas educativos. As novas tecnologias fazem que estes programas devam adaptar-se para ser mais atrativos a essa população específica e aumentar sua efetividade. Previamente a implementação dos programas é necessário conhecer as ferramentas utilizadas para produzir melhorias.

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OBJETIVO(S): Manejar um aplicativo Tablet de alimentação e hábitos saudáveis em uma população de 12 a 16 anos, diagnosticada com transtorno da conduta alimentaria e ingesta de alimentos e comprovar seu impacto. MÉTODOS: Estudo quase experimental longitudinal, prospectivo. Amostragem não probabilística (por conveniência), em que se recrutaram 5 participantes que realizaram o programa educativo grupal, baseado no aplicação informática desenhado ad hoc. Realizandose um pré/pós-teste, para avaliar conhecimentos, motivação e satisfação, bem como registros qualitativos e antropométricos. RESULTADOS: Se obtiveram bons resultados nos conhecimentos adquiridos e satisfação, coincidindo com os registros qualitativos. Não foram observadas variações significativas nos parâmetros antropométricos nem no estado motivacional. CONCLUSÕES: Os dados obtidos mostram boa aceitação do aplicativo. Os registros qualitativos e a realimentação dos pacientes e familiares foram uteis para adaptar as dinâmicas de grupo e os exercícios, conseguindo manejar o aplicativo. Para comprovar a efetividade da intervenção será necessário um tamanho amostral maior e poder comparar os resultados com um grupo controle de maneira aleatória. Palavras-Chave: Transtornos da Alimentação e da Ingestão de Alimentos; Adolescente; Tecnologia Educacional. ABSTRACT BACKGROUND: Eating disorders constitute a serious problem in developed countries, especially among young population. Education plays a fundamental role on its treatment, developing for that end educational programs. New technologies oblige to reconvert these programs to result more attractive to target population and to increase effectivity. Before the introduction of these improvements it is needed to validate the tools used. AIM: To validate a tablet application of nutrition and healthy habits in population from 12 to 16 years old diagnosed of feeding and eating disorders and to evaluate its impact. METHODS: A quasi-experimental, longitudinal and prospective study, non-probabilistic sampling, in which 5 participants were recruited, those made the group educational programe based on the app designed for that purpose. Making a pre-posttest, to evaluate knowledge, motivation and satisfaction as well as qualitative and anthropometric registers. RESULTS: Good results were obtained in acquired knowledge and satisfaction, corroborated by the qualitative registers. No significant variations were observed in anthropometric parameters nor motivational stages. CONCLUSIONS: Data obtained show a good acceptance of the app. Qualitative registers and the feedback with patients and relatives were useful to adapt group dynamics and exercises,

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attaining to pilot the application. To check the effectivity of the intervention a bigger sample size will be needed so to compare the results with a control group, randomly selected. Keywords: Feeding and Eating Disorders; Adolescent; Educational Technology RESUMEN CONTEXTO: Los trastornos alimentarios representan un grave problema en los países desarrollados, especialmente en población joven. En su tratamiento la educación desempeña un papel fundamental, desarrollándose para tal fin programas educativos. Las nuevas tecnologías hacen que estos programas deban adaptarse para ser más atractivos a la población diana y aumentar su efectividad. Previa a la implementación de los programas es necesario pilotar las herramientas empleadas para introducir mejoras. OBJETIVO(S): Pilotar una aplicación tablet de alimentación y hábitos saludables en población entre 12 y 16 años diagnosticada de trastornos de la conducta alimentaria e ingestión de los alimentos y comprobar su impacto. METODOLOGÍA: Ensayo cuasiexperimental longitudinal, prospectivo. Muestreo no probabilístico (por conveniencia), en el que se reclutaron 5 participantes que realizaron el programa educativo grupal basado en la aplicación tablet diseñada ad hoc. Realizándose un pre-post test, para evaluar conocimientos, motivación y satisfacción, así como registros cualitativos y antropométricos. RESULTADOS: Se obtuvieron buenos resultados en conocimientos adquiridos y satisfacción, corroborados con los registros cualitativos. No se observaron variaciones significativas en parámetros antropométricos ni en estadios motivacionales. CONCLUSIONES: Los datos obtenidos muestran buena aceptación de la aplicación. Los registros cualitativos y el feedback de pacientes y familiares fueron útiles para adaptar las dinámicas grupales y ejercicios, lográndose pilotar la aplicación. Para comprobar la efectividad de la intervención será preciso mayor tamaño muestral y poder comparar los resultados con un grupo control, seleccionado aleatoriamente. Palabras Clave: Trastornos de Alimentación y de la Ingestión de Alimentos; Adolescente; Tecnología Educativa. INTRODUCCIÓN Los trastornos alimentarios y de la ingestión de alimentos (TA) son definidos como “Alteración persistente en la alimentación o en el comportamiento alimentario, que lleva a una alteración en el consumo o en la absorción de los alimentos causando un deterioro significativo de la salud física o del funcionamiento psicosocial” entre ellos se clasifican la anorexia nerviosa, trastorno evitativo/restrictivo de ingesta de alimentos, bulimia nerviosa, PICA y trastornos rumiativos y por atracón (American Psychiatric Association, 2014).

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Estas patologías representan un importante reto para los profesionales sanitarios, tanto por su elevada comorbilidad (Brown & Mehler, 2015), como por su alta prevalencia, cifrándose en los países desarrollados entre el 4.1% y 6.41% de la población de mayor riesgo, es decir, entre mujeres entre 12 y 21 años (Keski-Rahkonen & Mustelin, 2016). En su tratamiento destaca la terapia cognitivo-conductual, la terapia familiar y la educación al paciente y familia (Kass, Kolko, & Wilfley, 2013). Dentro de la educación, los programas educativos son de vital importancia, habiendo sido demostrada su efectividad en los TA(Loria Kohen et al., 2009). Estos programas están evolucionando con la aparición de nuevas tecnologías, variando su formato y forma de realización (Treasure, Cardi, Leppanen, & Turton, 2015), haciéndolos de esta forma más atractivos para la población joven, considerados nativos digitales que han nacido y crecido con estas tecnologías. Este aspecto es de especial relevancia en los TA, dado que generalmente su inicio ocurre en edades tempranas.(Kessler et al., 2013). No obstante, simplemente el hecho de implementar programas no garantiza su éxito. Por ello resulta necesario un proceso dinámico de evaluación (tanto del desarrollo de las herramientas del programa como del impacto mismo), que permita conocer áreas de mejora y objetivos alcanzados (Anguera, Chacón, & Blanco, 2008). Por este motivo es imprescindible pilotar tanto las herramientas educativas como las dinámicas grupales y educativas empleadas con el fin de encontrar áreas de mejora, previa a la implementación del programa educativo. El objetivo del presente estudio es pilotar una intervención educativa aplicada mediante una aplicación Tablet (app) sobre alimentación y hábitos saludables en población, comprendida entre 12 y 16 años con diagnosticado de TA y comprobar el impacto producido en parámetros antropométricos, motivación al cambio, conocimientos adquiridos, satisfacción en pacientes y familiares, además de variables cualitativas. METODOLOGÍA Tipo de estudio: Ensayo cuasiexperimental longitudinal, prospectivo realizando una evaluación pre-post de las variables de interés. Se realizó un muestreo no probabilístico intencional en el que se reclutaron a los pacientes asignados a la primera edición del programa educativo grupal y que cumplían los criterios de inclusión. Participantes: En el estudio se incluyeron a los usuarios del Centro de Salud Mental Infanto Juvenil (CSMIJ) Natividad Zubieta con un rango de edad entre 12 y 16 años. El reclutamiento se realizó durante febrero de 2018. Los criterios de inclusión fueron: diagnóstico de TA según criterios del DSM-IV y DSM-V y cumplir rango de edad. En cuanto a los criterios de exclusión se

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establecieron el haber participado en un programa de características similares, presencia de deterioro cognitivo y desconocimiento de la lengua española que imposibilitasen seguir el programa. Para asegurar la confidencialidad y el tratamiento de los datos a los participantes se les asignó un código alfanumérico. Previa a la realización del programa se citó a pacientes y tutores legales donde se informó de los objetivos y el desarrollo del grupo educativo y se administraron la hoja informativa, el consentimiento informado y los cuestionarios previos. Se obtuvo la aprobación del Comité de ética de investigación Clínica CEIC (Resolución pyto 2015/63) así como la autorización de los centros implicados. Para el cálculo del tamaño muestral necesario, se tomó como modelo los resultados del estudio sobre un programa de mejora de hábitos saludables en población diabética utilizando Ipad® y con una metodología similar, en el que se establecía un número mínimo de 5 participantes para su pilotaje (Hunt, Sanderson, & Ellison, 2014). A través de un muestreo no probalístico se incluyeron a los 5 primeros participantes que cumplían los criterios de inclusión establecidos. Intervención educativa: La intervención está basada en un programa educativo desarrollado por el Ministerio de Sanidad estandarizado denominado PERSEO. La App se diseñó ad hoc para el estudio, siendo el contenido idéntico a este pero el desarrollo del programa se realizó grupalmente y en formato tablet. Instrumentos Para conocer en que estadio motivacional se encontraban los pacientes, previa y posteriormente a la realización del programa educativo, se administró el cuestionario Urica (McConnaughy, DiClemente, Prochaska, & Velicer, 1989). Para evaluar el grado de conocimientos pre-post, se administró el cuestionario C.A.P.A (Conocimientos de Alimentación de Personas Adolescentes) previamente desarrollado en el contexto de este estudio según los contenidos del programa PERSEO y tomando como base la adaptación para población adolescente portuguesa (Ferro-Lebres, Moreira, & Ribeiro, 2014) del cuestionario anglosajón General Nutrition Knowledge Questionnaire (GNKQ) (Parmenter & Wardle, 1999). De forma previa, se desarrolló la validación de contenido del cuestionario C.A.P.A por medio de la técnica de generación de consensos Delphi. De forma posterior a la intervención y con el fin de valorar la satisfacción en pacientes y familiares con la atención prestada, se administró el cuestionario CSQ-8 en su versión diseñada y validada para lengua española (José Fernández-Carbonell, Dasí, Luisa GarcíaMerita, & Fuentes, 2012).

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Del mismo modo, se registraron los parámetros antropométricos, principalmente IMC previos y posteriores a la intervención y sociodemográficos. Además, se registraron algunos comentarios en formato de texto libre para plasmar los posibles cambios o aprendizaje adquirido que verbalizaron los participantes y en algunos casos sus familiares. Todas las variables fueron registradas y analizadas por observadores externos. Análisis de los datos: Debido al reducido tamaño y la distribución normal de la muestra, para el análisis de los datos cuantitativos se aplicó estadística descriptiva, principalmente el análisis de frecuencias, medias y desviación estándar. Con el fin de detectar variaciones estadísticamente significativas antes y después de la intervención. Los comentarios en texto libre, se analizaron de forma cualitativa con un análisis de contenido. RESULTADOS En relación a las características sociodemográficas, en la muestra seleccionada predominaba el sexo femenino un 80% (n=). El rango de edad se situaba entre 12 y 16 años con una media de 14,4 años. Todos los participantes se encontraban escolarizados, el 40% cursaba estudios primarios y el 60 % secundarios. Toda la muestra era de nacionalidad española y una persona disponía de doble nacionalidad española/chilena; siendo en la totalidad de los casos la lengua materna el español. Exceptuando a una participante, el resto de las participantes sufrían varios diagnósticos psiquiátricos, aunque la totalidad de la muestra compartía algún subtipo de diagnóstico que se engloba en la categoría diagnóstica de los TA. En la tabla 1 se describen las características sociodemográficas y diagnóstico: Tabla 1. Características sociodemográficas y diagnóstico médico de la muestra CODIGO PACIENTE 1AT

EDAD

SEXO

NACIONALIDAD Española

NIVEL EDUCATIVO Primarios

12

M

F98.9 T. emociones, F50.9 TA inespecífica

2AT

15

F

Española/chilena

Secundarios

F.93.8 T. emociones, F50.4 Hiperfagía

3AT

16

F

Española

Secundarios

F.90 (TDAH) F50,9 TA (inespecífica)

4NT

13

F

Española

Primarios

F.50 TA F43.2(trastorno adaptación)

5AT

16

F

Española

Secundarios

F50.9 TA(inespecífica)

DIAGNOSTICO MÉDICO

En relación a los parámetros antropométricos, no se objetivaron cambios antes y después de la intervención (Tabla 2).

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Tabla 2. Parámetros antropométricos CÓDIGO

IMC PRE

IMC POST

PESO PRE

PESO POST

FECHA PRE

FECHA POST

1AT

33,56

33,39

73,20

72,80

07/03/2018

18/04/2018

2AT

34,00

33,91

80,40

80,20

07/03/2018

18/04/2018

3AT

27,90

27,93

72,40

72,50

07/03/2018

18/04/2018

4NT

31,59

31,47

79,00

78,70

07/03/2018

18/04/2018

5AT

19,54

19,97

54,50

55,10

07/03/2018

18/04/2018

En cuanto a la evaluación de la motivación, cuestionario URICA, como muestra la tabla 3 todos los participantes se mantuvieron en el estadio contemplativo exceptuando un paciente que se encontraba en mantenimiento y paso a contemplativo. Para la valoración de los conocimientos, en el cuestionario C.A.P.A, a cada pregunta acertada se le asigna el valor de 1 punto no descontando puntuación las preguntas erróneas, dando como resultado una variable semicuantitativa con un rango posible de 0 a 26 puntos. En la tabla 3, aparecen las puntuaciones obtenidas. En todos los casos se observa mejoría en las puntuaciones. Para la evaluación de la satisfacción, el cuestionario CSQ-8 se basa en 8 preguntas; cada pregunta se evalúa entre 1 y 4 puntos y la satisfacción está directamente relacionada con el número de puntos, de modo que la suma de lugar a una variable semicuantitativa que toma valores entre 8 (nada satisfecho) y 32 (muy satisfecho). Los resultados muestran un alto grado de satisfacción con la atención prestada en pacientes y familiares (Tabla 3). Tabla 3_Puntuaciones relacionadas con los conocimientos, satisfacción y motivación. Conocimientos

Satisfacción

1AT

PRE C.A.P.A 4

POST C.A.P.A 6

2AT

17

18

24

3AT

20

21

4NT

16

5AT

19

Paciente

Motivación

CSQ-8 CSQ-8 Motivación PACIENTE FAMILIAR 28 24

PRE (21/02/2018)

POST(07/03/2018)

Contemplativo (36)

Contemplativo(35)

29

Contemplativo (39)

Contemplativo (37)

31

28

Mantenimiento (38)

Contemplativo (35)

19

29

23

Contemplativo (36)

Contemplativo (37)

21

24

29

Contemplativo/mto(29) (29)

Contemplativo (32)

En la tabla 4, se resumen las frases más importantes, a juicio de los observadores, que expresaron pacientes y familiares una vez finalizado el programa o durante su realización. Tabla 4_Verbalizaciones de los participantes Código

Comentario

1AT

“Ha sido más divertido que las clases normales”

2AT

“Con el juego de alimentos saludables he descubierto que el agua no engorda”

3AT

“He aprendido que es muy importante desayunar”

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5AT

“El día que jugamos con la Tablet y alimentos reales fue la primera vez que probé naranja” “Me ha ayudado a diferenciar las cosas saludables y las no saludables”

1AT(familiar)

“Ha venido más contenta que a otros grupos”

4AT

2AT(familiar)

“Ha mejorado su actitud hacía la comida”

3AT(familiar)

“Hemos visto que desayuna más días que antes, incluso se prepara el desayuno”

4AT(familiar)

“Ha probado algún fruto seco, pero sigue evitando algunos alimentos”

5AT(familiar)

No consta

DISCUSIÓN Los datos obtenidos tras el pilotaje una intervención educativa aplicada mediante una App sobre alimentación y hábitos saludables parecen indicar que se trata de una herramienta útil para la realización de programas educativos en estos pacientes. Los resultados en conocimientos reflejaron que todos los pacientes aumentaron los mismos en mayor o menor medida (siendo la media: 1,8 puntos). Además, se obtuvieron puntuaciones muy elevadas en satisfacción percibida con la realización del programa corroborados por los comentarios cualitativos. Estos resultados son similares a los obtenidos en otros estudios sobre el uso nuevas tecnologías en educación. (Loucas et al.,2014). En las variables antropométricas no se observaron cambios significativos. Sin embargo, hay que tener en cuenta que al tratarse de recomendaciones sobre estilos de vida los cambios en estos y su reflejo en los parámetros, se dan en un plazo de tiempo mayor, por lo que sería recomendable realizar una medición posterior. Tampoco se observaron cambios en los estadios motivacionales. Este resultado por sí mismo carece de valor ya que la motivación al cambio y disposición para el mismo se asocia a cambios en otros parámetros, como ha sido demostrado en diferentes estudios (Pinto, Pinto, Neziroglu, & Yaryura-Tobias, 2007) pero es preciso conocerla para poder realizar un análisis de conjunto y tener una perspectiva global. El feedback proporcionado por los pacientes y familiares ha sido de utilidad para adaptar las dinámicas grupales y los ejercicios a realizar en la aplicación. La realización de este estudio ha permitido pilotar la aplicación tablet , pero para comprobar la efectividad de las intervenciones y de la herramienta docente será preciso un mayor tamaño muestral y poder comparar los resultados obtenidos con un grupo control, realizando la selección de pacientes aleatoriamente. Los datos obtenidos indican una buena aceptación de la herramienta docente, pero debido al reducido tamaño muestral, la generalización de éstos debe ser prudente y aplicarse únicamente para el pilotaje de la aplicación no pudiendo alcanzarse conclusiones sobre la efectividad de la intervención. CONCLUSIÓN La realización de este estudio ha permitido pilotar la aplicación Tablet.

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IMPLICACIONES PARA LA PRÁCTICA CLÍNICA En las enfermedades mentales en general y en los trastornos alimentarios en particular, la educación para la salud cobra especial importancia ya que ha quedado ampliamente evidenciado que evita recaídas y mejora el pronóstico (Bryant-Waugh & Watkins, 2015). Si bien existen numerosas guías que pueden ayudar a los profesionales a llevar a cabo la educación, frecuentemente nos encontramos con el problema de no contar con una herramienta que aporte uniformidad y que a la vez sea lo suficientemente versátil como para poder adaptarse a las necesidades de nuestros pacientes. La población objeto de este estudio ha nacido y crecido con las nuevas tecnologías por lo que estas pueden ayudar a mostrar la educación para la salud de forma más atractiva y aumentar su motivación al cambio. Una vez pilotada la aplicación será necesario comprobar si este tipo de educación es más efectiva que la educación tradicional, si se confirma esta hipótesis se abrirá la puerta para la utilización de estos programas a diferentes procesos tanto de salud mental como de otras especialidades. AGRADECIMIENTOS Este estudio forma parte de la Cátedra Francisco Ventosa de la Asociación Española de Enfermería de Salud Mental AEESME, con la financiación del Gobierno de Navarra y el apoyo del departamento de Ciencias de la Salud de la Universidad Pública de Navarra. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS American Psychiatric Association. (2014). DSM 5- Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders(5ª ed.). Washington: American Psychiatric Association. Anguera, M. T., Chacón, S., & Blanco, A. (2008). Evaluación de programas sociales y sanitarios. Un abordaje metodológico. Madrid: Síntesis. Brown, C., & Mehler, P. S. (2015). Medical complications of anorexia nervosa and their treatments: an update on some critical aspects. Eating and Weight Disorders : EWD, 20(4), 419–425. Bryant-Waugh, R., & Watkins, B. (2015). Feeding and eating disorders. In Rutter’s Child and Adolescent Psychiatry: Sixth Edition (pp. 1016–1034). Ferro-Lebres, V., Moreira, P., & Ribeiro, J. C. (2014). Adaptation, Update and Validation of the General Nutrition Questionnaire in a Portuguese Adolescent Sample. Ecology of Food and Nutrition, 53(5), 528–542. Hasler, G., Delsignore, A., Milos, G., Buddeberg, C., & Schnyder, U. (2004). Application of Prochaska’s transtheoretical model of change to patients with eating disorders. Journal of Psychosomatic Research, 57(1), 67–72.

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Prevalência de Sobrecarga do Cuidador Informal do Idoso Dependente Margarida Ferreira*; José Teixeira**; Teresa Moreira***; Carlos Ferreira**** *Prof. Doutora; Professora Auxiliar; Faculdade de Ciências da Saúde-Universidade Fernando Pessoa, Praça 9 de abril, 349, 4249-004 Porto, Portugal. E-mail: mmferreira@ufp.edu.pt **Licenciado; Professor; Faculdade de Ciências da Saúde-Universidade Fernando Pessoa, Praça 9 de abril, 349, 4249-004 Porto, Portugal. E-mail: joseteix@ufp.edu.pt ***Prof. Doutora; Professora Auxiliar; Faculdade de Ciências da Saúde-Universidade Fernando

Pessoa,

Praça

9

de

abril,

349,

4249-004

Porto,

Portugal.

E-mail:

tmoreira@ufp.edu.pt ****Mestre em Saúde Publica; Enfermeiro Chefe do Hospital Magalhães Lemos.R. Prof. Álvaro Rodrigues, 4149-0003 Porto, Portugal. E-mail: carlosm.monteiroferreira@gmail.com RESUMO CONTEXTO: O envelhecimento é um fenómeno pessoal e de variabilidade individual, associado a um conjunto de alterações biológicas, psicológicas e sociais que se acionam ao longo do ciclo vital, exigindo uma contínua adaptação e procura de equilíbrios (Martins, 2014). O Cuidador Informal (CI) é aquele que cuida mais proximamente, durante mais tempo colabora nas Atividades de Vida Diária em que a pessoa necessita de ajuda, sendo que a mesma é não renumerada, independentemente da sua formação ou experiência de vida (Almeida, 2015). São parceiros no desempenho dos cuidados de saúde ao idoso dependente sendo responsáveis pelo bem-estar físico, emocional e social dos idosos a seu cargo, pelo que deve constituir uma prioridade nas políticas de saúde (Grácio, 2014). A sobrecarga do cuidador refere-se ás consequências físicas, psicológicas e sociais que resultam do ato de cuidar de um individuo dependente e da prestação ininterrupta de cuidados OBJETIVOS: Estimar a prevalência de sobrecarga física, emocional e social, dos Cuidadores Informais, residentes num distrito da região Norte de Portugal. MATERIAL E MÉTODOS: Estudo descritivo quantitativo e transversal. Amostragem não probabilística por bola de neve, constituída por 90 CI de Idosos, da região Norte. Recolha de dados efetuada por questionário de Avaliação da Sobrecarga do Cuidador Informal (QASCI), Índice de Barthel e de Lawton. RESULTADOS: A amostra é constituída por 90 CI de idosos dependentes. 83,3% (75) dos CI são mulheres, casados (63%), com média de idades de 48 anos. A média de tempo de cuidados informais é de 4,5 anos. Quanto à escolaridade, 80,1% frequentaram o 1º, 2º ciclo e secundário, o 3º ciclo 10% e 6,7% completaram o ensino superior. Relativamente às

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caraterísticas familiares, 93% dos cuidadores têm relação de parentesco com a pessoa cuidada. Quanto ao perfil dos idosos dependentes maioritariamente são do sexo feminino, com uma média de idades de 86 anos. Pela avaliação do Índice de Lawton, podemos constatar que a maioria dos idosos ostenta dependência total e grave para as AIVD (62% e 20%). Da avaliação do Índice de Barthel, atesta-se que os idosos apresentam dependência total e severa para as ABVD em 47% e 17% dos casos, respetivamente, 30% ostenta dependência em grau moderado. Quanto à sobrecarga os fatores responsáveis pela sobrecarga física, emocional e social são o fator IVP (média=47,4) com valor mais elevado da sobrecarga, os fatores SE (média = 37,5) e SF (média =33,9) e RE (média =31, 8). Como fatores positivos identificaram-se o fator PMEC (média =69,8) e SupFam (média= 64,4). Estes cooperam para a sobrecarga moderada identificada do Cuidador Informal. Reconheceu-se o fator positivo SPF, satisfação com o papel de cuidador, situando-se na sobrecarga ligeira. No que concerne à Sobrecarga Total a amostra possuí sobrecarga moderada, com uma média de a média de 33,5. CONCLUSÕES: Os fatores que contribuem de forma significativa para a sobrecarga moderada do Cuidador Informal são o fator SE, IVP, SF, RE, MEC e SupFam. O fator SPF, neste estudo contribui para uma sobrecarga ligeira. No que concerne à Sobrecarga Total a amostra possuí sobrecarga moderada. Palavras-chave: Cuidador informal; Idoso dependente; Sobrecarga. ABSTRACT BACKGROUND: Ageing is a personal phenomenon and individual variability, associated to a set of biological, psychological and social changes that are triggered throughout the life cycle, requiring a continuous adaptation and search for equilibria (Martins, 2014). The Informal Caregiver (IC) is the one who cares more closely, the longer it collaborates in the Activities of Daily Living in which the person needs help, and the same is not renumbered, regardless of their formation or life experience (Almeida, 2015). They are partners in the health care delivery to the dependent elderly being responsible for the physical, emotional and social well-being of the elderly in their charge and should therefore be a priority in health policies (Grácio, 2014). Caregiver overload refers to the physical, psychological and social consequences that result from caring for a dependent individual and uninterrupted care. AIM: To estimate the prevalence of physical, emotional and social overload of Informal Caregivers residing in a district of the Northern region of Portugal. METHODS: Descriptive and cross-sectional descriptive study. Non-probabilistic sampling by snowball, constituted by 90 CI of Elderly, of the North region. Informal Caregiver Overload Assessment (QASCI), Barthel Index, and Lawton data collection.

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RESULTS: The sample consists of 90 IC of dependent elderly people. 83.3% (75) of the IC are women, married (63%), with a mean age of 48 years. The average length of informal care is 4.5 years. As for schooling, 80.1% attended the 1st, 2nd and 2nd cycle, the 3rd cycle 10% and 6.7% completed higher education. Relative to family characteristics, 93% of caregivers are related to the person cared for. As for the profile of the elderly dependents are mostly female, with a mean age of 86 years. By evaluating the Lawton Index, we can see that most of the elderly have total and severe addiction to the AIVD (62% and 20%). From the Barthel Index, it is confirmed that the elderly have a total and severe dependence for ABVD in 47% and 17% of the cases, respectively, 30% show moderate dependence. The factors responsible for physical, emotional and social overload are the factor IVP (mean = 47.4) with the highest value of the overload, the factors SE (mean = 37.5) and SF (mean = 33.9) and RE (mean = 31.8). As positive factors, the PMEC factor (mean = 69.8) and SupFam (mean = 64.4) were identified. These cooperate for the moderate overhead identified by the Informal Caregiver. The positive factor SPF, satisfaction with the role of caregiver, was found to be in light overload. Regarding Total Overload, the sample has moderate overload, with an average of 33.5. CONCLUSIONS: The factors that contribute significantly to the moderate overload of the Informal Caregiver are the factor SE, IVP, SF, RE, MEC and SupFam. The SPF factor in this study contributes to a slight overload. Regarding Total Overload the sample has moderate overload. Keywords: Informal caregiver; Dependent elderly; Overload. RESUMEN CONTEXTO: El envejecimiento es un fenómeno personal y de variabilidad individual, asociado a un conjunto de alteraciones biológicas, psicológicas y sociales que se accionan a lo largo del ciclo vital, exigiendo una continua adaptación y búsqueda de equilibrios (Martins, 2014). El Cuidador Informal (CI) es el que cuida más cerca, durante más tiempo colabora en las Actividades de Vida Diaria en que la persona necesita ayuda, siendo que la misma no es renumerada, independientemente de su formación o experiencia de vida (Almeida, 2015). En el caso de los ancianos dependientes son responsables del bienestar físico, emocional y social de los ancianos a su cargo, por lo que debe constituir una prioridad en las políticas de salud (Gráfico, 2014). La sobrecarga del cuidador se refiere a las consecuencias físicas, psicológicas y sociales que resultan del acto de cuidar de un individuo dependiente y de la prestación ininterrumpida de cuidados OBJETIVO(S): Estimar la prevalencia de la carga física, emocional y social, los cuidadores no profesionales, residentes en un distrito del norte de Portugal.

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METODOLOGÍA: Estudio descriptivo cuantitativo y transversal. Muestreo no probabilístico por bola de nieve, constituida por 90 CI de Ancianos, de la región Norte. Recogida de datos efectuada por cuestionario de Evaluación de la sobrecarga del Cuidador Informal (QASCI), Índice de Barthel y de Lawton. RESULTADOS: La muestra está constituida por 90 CI de ancianos dependientes. El 83,3% (75) de los CI son mujeres, casadas (63%), con una media de edades de 48 años. El promedio de tiempo de cuidados informales es de 4,5 años. En cuanto a la escolaridad, el 80,1% asistieron el 1º, 2º ciclo y secundario, el 3º ciclo 10% y el 6,7% completaron la enseñanza superior. En cuanto a las características familiares, el 93% de los cuidadores tienen relación de parentesco con la persona cuidada. En cuanto al perfil de los ancianos dependientes mayoritariamente son del sexo femenino, con una media de edades de 86 años. Por la evaluación del Índice de Lawton, podemos constatar que la mayoría de los ancianos ostenta dependencia total y grave para las AIVD (62% y 20%). De la evaluación del Índice de Barthel, se demuestra que los ancianos presentan una dependencia total y severa para las ABVD en un 47% y el 17% de los casos, respectivamente, el 30% ostenta dependencia en grado moderado. En cuanto a la sobrecarga, los factores responsables de la sobrecarga física, emocional y social son el factor IVP (promedio = 47,4) con un valor más alto de la sobrecarga, los factores SE (promedio = 37,5) y SF (promedio = 33,9) y RE (media = 31, 8). Como factores positivos se identificaron el factor PMEC (promedio = 69,8) y SupFam (promedio = 64,4). Estos cooperan para la sobrecarga moderada identificada del Cuidador Informal. Se reconoció el factor positivo SPF, satisfacción con el papel de cuidador, situándose en la sobrecarga ligera. En lo que concierne a la Sobrecarga Total la muestra posee sobrecarga moderada, con una media de la media de 33,5. CONCLUSIONES: Los factores que contribuyen de forma significativa a la sobrecarga moderada del Cuidador Informal son el factor SE, IVP, SF, RE, MEC y SupFam. El factor SPF, en este estudio contribuye a una sobrecarga ligera. En lo que concierne a la sobrecarga total, la muestra tiene una sobrecarga moderada. Palabras clave: Cuidador informal; Ancianos dependientes; Gastos generales. INTRODUÇÃO O envelhecimento é um fenómeno pessoal, de variabilidade individual, associado a alterações biológicas, psicológicas e sociais que se acionam ao longo do ciclo vital, exigindo uma contínua adaptação e procura de equilíbrios (Martins, 2014). A nível biológico, surge um conjunto de alterações orgânicas, morfológicas e funcionais, resultantes na perda gradativa da capacidade de funcionamento dos diferentes órgãos e sistemas, e consequente alteração progressiva da capacidade de adaptação do corpo,

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verificando-se aumento gradual do risco de comorbidades e probabilidade de morrer (Martins, 2014). Ao nível psicológico, surgem as repercussões psicológicas das alterações corporais, que se traduzem numa mudança de atitudes. Nesta dimensão, podem verificar-se perdas de memória ou maior dificuldade no raciocínio. Quanto ao nível social, ocorrem alterações nos papéis a desempenhar ao nível do seio familiar, laboral e ocupacional, resultando numa diminuição na participação social (Sequeira, 2010).

As mudanças na vida do idoso a nível físico, social e psicológico, levam a que enfrentem situações desfavoráveis que não consigam controlar como é o caso das perdas, do afastamento do mercado de trabalho e uma diminuição a nível de saúde. (Grácio, 2014). O aumento da longevidade pode trazer consigo maior prevalência das doenças crónicas e de dependências, o que leva o idoso a necessitar de ajuda parcial ou total no desempenho das suas atividades da vida diária (Cerqueira, 2010; Martins, 2014). O cuidar constitui uma dimensão inerente ao ser humano, que está presente em todas as culturas e apenas difere na sua forma de expressão e de realização. Cuidar é mais que um ato, é uma atitude. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, responsabilização e envolvimento afetivo com o outro (Boof, 2008). Presume uma relação entre duas pessoas, a qual pode ser estabelecida de diferentes formas, com uma desmedida diversidade de sentimentos. Transição para o Papel de Cuidador Informal O cuidado informal deriva da prestação de cuidados a pessoas dependentes por parte da família, amigos, vizinhos ou outros grupos de pessoas, não remuneradas economicamente pelos cuidados que prestam, assumindo assim o papel de cuidador informal. O Cuidador Informal (CI) é aquele que cuida mais proximamente, cooperando nas Atividades de Vida Diária (AVD’s) afetadas, para as quais a pessoa necessita de ajuda, independentemente da sua formação ou experiência de vida, sendo que esta atividade não é renumerada (Almeida, 2015). São parceiros no desempenho dos cuidados de saúde ao idoso dependente a curto e longo prazo, são responsáveis pelo bem-estar físico, emocional e social do idoso

dependente que esteja a seu cargo, pelo que deve constituir uma prioridade nas políticas de saúde (Sequeira, 2012; Grácio, 2014). Desempenham funções de acordo com as carências dos idosos, reconhecendo-se três domínios: (1) apoio em termos de informação e orientação abrangendo ajudar a pessoa a obter conhecimentos que facilitem a prestação de cuidados, orientar para a resolução de problemas e estratégias a adotar para “lidar com”. (2) Apoio emocional, que engloba estar e relacionar-se com o outro, proporcionar a partilha de emoções, de pontos de vista, elementar para a manutenção da autoestima da pessoa idosa. (3) Apoio instrumental, o qual consta da prestação de cuidados em situações problemáticas, para as quais a pessoa não consegue

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resolver por si. O cuidador ao assumir a agreste tarefa de cuidar, deve fortalecer algumas competências fundamentais, inerentes aos cuidados que passará a executar, particularmente a iniciativa, a responsabilidade e a autonomia. (Sequeira, 2010; Pereira, 2015). Cuidar não é uma tarefa fácil, delimita uma mudança na vida de quem cuida, impondo a realização de tarefas complexas, delicadas e sofredoras. Implica dedicar tempo ao idoso que carece de cuidados, decorrendo daí o desgaste físico, custos financeiros, sobrecarga emocional e psíquica. Meleis (2000) considera que assistir utentes em processos de transição constitui o papel mais relevante da disciplina de enfermagem. No que diz respeito ao tipo de transição que o cuidador informal atravessa trata-se de uma transição do tipo situacional, uma vez que está a assumir um novo papel na sua vida. (Meleis et al, 2000). Contudo a nomeação/transição para um novo papel de ser cuidador de uma pessoa idosa dependente, quase sempre acompanha uma crise na esfera familiar, pois verifica-se uma interrupção do previsto, do modo de vida anterior, altera a dinâmica familiar, provoca mudança de papéis, originando uma mudança imprevisível e não planeada, podendo causar um impacto negativo na economia e qualidade de vida familiar (Petronilho, 2010). Potenciar a construção, a adaptação, a capacitação do CI da pessoa idosa dependente, será o enfoque para ajudar na passagem de um estado para outro, considerando o acontecimento que levou à transição, a perceção da transição por parte dos envolvidos, as caraterísticas dos ambientes de pré e pós-transição e as caraterísticas do individuo. (Araújo, 2015) Sobrecarga do Cuidador Informal Cuidar de uma pessoa com dependência, obriga a “grande dispêndio de tempo, energia, novas tarefas, por vezes desagradáveis e desconfortáveis, por períodos de tempo imprevisíveis” (Cardoso, 2011). Com o tempo despendido nas atividades do cuidar, os cuidadores sentem-se ocupados e vivenciam a limitação do tempo livre para si e para os demais familiares, o que tem como consequência direta a sobrecarga física, emocional e social do cuidador (Cardoso, 2011). A sobrecarga deve ser vista como um conceito multidimensional, o qual abrange a esfera biopsicossocial, resultado da procura de equilíbrio entre as seguintes variáveis: tempo disponível para o cuidado, recursos financeiros, condições psicológicas, físicas e sociais, atribuições e distribuição de papéis. (Souza, 2015) O conceito de sobrecarga refere-se ás consequências físicas, psicológicas, sociais e financeiras, que resultam do ato de cuidar de um individuo dependente e da prestação ininterrupta de cuidados, estando associada à diminuição da qualidade de vida do cuidador e a uma maior morbilidade. (Sequeira, 2012)

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O cuidador enfrenta constantemente novas situações de sobrecarga física, psicológica e social, comprometendo o seu bem-estar físico e psicológico. Apresentam o pior julgamento sobre a sua saúde, que está identificada como um preditor significativo da sobrecarga. Os sintomas mais comuns são tensão, fadiga, stress, perda de peso, desgaste e tensão muscular, doenças cardiovasculares, cancro, diabetes, artrite, modificações no sistema imunológico, entre outros (Cardoso,2011). Face às alterações a que a sua vida é sujeita, o cuidador desenvolve estratégias inerentes para ultrapassar e se ajustar a estas da melhor maneira. As dificuldades percecionadas pelos cuidadores, as estratégias de coping por eles utilizadas são vistas como preditores de menor sobrecarga (Martins, 2014; Cardoso,2011). Torna-se importante dirigir esforços para conceber e desenvolver intervenções que promovam uma transição saudável para o papel de cuidador Informal e uma gestão eficaz desse mesmo papel ao longo do tempo. É fundamental responder as necessidades dos CI, nomeadamente com procedimentos preventivos e psicoeducativos que ajudem na antecipação das tarefas permitindo ainda, um maior domínio na compatibilização da atenção às exigências da doença e às suas vidas. (Martins, 2015) MÉTODOS Trata-se de um estudo descritivo, transversal de abordagem quantitativa, com vista a obter resultados válidos à questão colocada. Tem por objetivo estimar a prevalência de sobrecarga física, emocional e social, dos Cuidadores Informais, residentes num distrito da região Norte de Portugal. Constituíram a população alvo todos os cuidadores informais de idosos dependentes, ou seja, idosos com limitações ou incapacidades funcionais nas atividades de vida diária, residentes num distrito da região Norte do País. A amostra, não probabilística por bola de neve, foi constituída por 90 CI de Idosos, que aceitaram participar voluntariamente no estudo. O instrumento de recolha de dados utilizado foi o questionário de Avaliação da Sobrecarga do Cuidador Informal (QASCI) de Martins, Ribeiro & Garrett (2004), os Índice de Lawton e de Barthel. No que concerne ao QASCI, destina-se a avaliar a sobrecarga física, emocional e social dos CIs de idosos. Integra 32 itens, avaliados através de uma escala ordinal de frequência que varia de 1 a 5 (1- não/nunca; 2- raramente; 3- às vezes, 4- quase sempre; e 5- sempre). De acordo com Martins (2003), estes 32 itens distribuem-se por 7 fatores que constituem 7 subescalas, sendo elas: 1) Sobrecarga emocional relativa ao familiar – SE – (4 itens: 1-4); refere-se às emoções negativas evidenciadas no CI; 2) Implicações na vida pessoal do cuidador – IVP – (11 itens: 5-15); 3) Sobrecarga financeira – SF – (2 itens: 16-17); 4) Reações a exigências – RE – (5 itens: 18-22); 5) Perceção dos mecanismos de eficácia e controlo – PMEC – (3 itens: 23-25); 6) Suporte familiar – SupF – (2 itens: 26-27); 7) Satisfação com o papel e com o familiar – SPF – (5 itens: 28-32). Os últimos três fatores (PMEC, SupF e SPF)

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constituem forças positivas na dinâmica do estudo, ou seja, quanto maior o valor menor é o nível de sobrecarga. Para avaliar o nível de dependência do idoso na realização das atividades básicas de vida diária (ABVD), aplicou-se o Índice de Barthel. Este é composto por 10 ABVD, em que cada atividade apresenta entre 2 a 4 níveis de dependência, em que o score “0”, corresponde a dependência total e 100 a independência total (Sequeira, 2007). Utilizou-se o Índice de Lawton, que permite avaliar 8 atividades instrumentais de vida diária (AIVD). Este índice varia entre 8 e 30 pontos, correspondendo 8 pontos a independência e os 30 pontos a severamente dependente (Sequeira, 2007). Os dados obtidos foram tratados no programa informático de Estatística Package of the Social Science (SPSS 21.0), recorrendo-se à estatística descritiva. RESULTADOS A amostra é constituída por 90 CIs de idosos dependentes, dos quais 83,3% (75) são mulheres e 16,7 % (15) são homens. A média de idades dos CIs é de 48,2 anos

Tabela I - Idade do CI

(DP=11,4), apresentando o mais jovem 21 anos e Média

o mais velho 77 anos (Tabela I). No que diz respeito ao estado civil do CI, a maioria

48,2

Desvio padrão 11,4

Máximo

Mínimo

77

21

são casados (63%). Quanto à escolaridade dos CI 3,3% têm a escolaridade primaria, 36,7% frequentou o 1º ciclo, o 2º ciclo foi cursado por 26,7%, o secundário 16,7%, o 3º ciclo por 10% e 6,7% completaram o ensino superior. Ao nível da caraterização do cuidado, o grau de parentesco é um fator relevante, onde a responsabilidade de cuidar recai essencialmente num familiar em 93% dos casos (Gráfico 2). Verifica-se

que

13.3%

dos

cuidadores

são

cônjuges, 53,3% são filhos(as) e 26,7% são netos(as). Os CI desempenham esta tarefa em

Gráfico 1_Familiar da Pessoa Cuidada 7%

média há 4,5 anos, sendo que o máximo de tempo desempenhado é de 30 anos e o mínimo de 1 ano

Sim 93%

Não

(Tabela 2). Tabela 2_Tempo de CI Média

Desvio padrão

Máximo

Mínimo

4,5

2,6

30

1

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Relativamente ao perfil dos idosos dependentes, constatamos que maioritariamente são do sexo feminino (79%). No que concerne

à

pessoa

idosa

Tabela 3_Idade do idoso dependente

média de idades é de 86 anos, com um mínimo de 71 anos e um

Desvio

Média

dependente, verificámos que a 86,2

6,7anos

anos

Máximo

padrão 97

Mínimo

71 anos

anos

máximo de 97 anos (Tabela 3). O Índice de Lawton permite avaliar o grau de dependência nas AIVD. Desta análise resultou que 62,2% dos idosos são dependentes totais, 20 % ostenta dependência grave, 11,1% apresenta dependência moderada e 6,7% dos idosos são dependentes ligeiros (Gráfico 2). O Índice de Barthel avalia o nível de independência

do

sujeito

para

a

Gráfico 2_Indice de Lawton 70 60 50 40 30 20 10 0

62

20 11

7

Dependencia Dependencia Dependencia Dependencia total grave moderada ligeira

realização de dez ABVD: comer, higiene pessoal, uso de sanitário, tomar banho, vestir e despir, controlo de esfíncteres, deambular, transferência da cadeira para a cama, subir e descer escadas (Sequeira, 2007). Da observação do Gráfico 3, Índice de Barthel, podemos atestar que 47% dos idosos encontram-se

totalmente

dependentes,

17%

severamente

dependentes,

moderado de dependência e estão

ligeiramente

dependentes nas ABVD. Analisando

os

47

50 40

30% com um grau 6%

Gráfico 3_Índice de Barthel

%

diferentes

fatores do QUASCI para os CIs

30

30 17

20

6

10 0

Totalmente dependente

Severamente Moderadamente Ligeiramente dependente dependente dependente

em geral, verifica-se que a média de sobrecarga varia consoante os mesmos. Atendendo aos pontos de corte sugeridos pela autora do QASCI, e tendo em conta que os últimos 3 fatores (PMEC, SupF e SPF) são positivos, verifica-se no Gráfico 4, que a média de sobrecarga obtida pode ser categorizada em 2 níveis distintos: 1) com uma média entre os valores 50 a 75 correspondente a uma sobrecarga grave e 2) com uma média entre os valores 25 a 50 correspondente a uma sobrecarga moderada.

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Na sobrecarga moderada, identificamse 4 fatores negativos (SE, IVP, SF e RE).

O

fator

IVP

(média

=47,4)

apresenta o valor mais elevado da sobrecarga moderada, seguido do fator SE (média = 37,5) e SF (média =33,9) e por último o fator RE (média =31, 8). Como fatores positivos identificaram-se 2 fatores: PMEC (média =69,8) e

Gráfico 4_Fatores de sobrecarga

% 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0

81,6 69,8

64,4

47,4 37,5

SE

33,9

IVP

SF

31,8

33,5

RE PMEC SupF SPF Stotal

SupFam (média = 64,4), por ordem decrescente, sendo que, quanto maior for o valor menor é o nível de sobrecarga que a prestação de cuidados acarreta par os CIs. Na sobrecarga ligeira, consideram-se as subescalas com médias entre 1 e 25, identificandose o fator positivo SPF (média = 81,6). À semelhança dos fatores anteriores, a sua leitura também é invertida. Tendo em conta os pontos de corte do QASCI, verifica-se que a média de 33,5 pode ser categorizada como sobrecarga moderada DISCUSSÃO O perfil sociodemográfico do CI do idoso dependente quanto ao género acompanhou a tendência de outros estudos similares, onde a maioria são mulheres (83,3%). Estudos, aludem que os cuidados informais são prestados essencialmente por mulheres, sendo que, em contexto europeu, as mulheres asseguram 2/3 dos cuidados à pessoa dependente (Sequeira, 2010; Araújo, 2015). A idade média dos cuidadores da amostra é de 48,2 anos. Podemos inferir que os resultados são conformes parcialmente com estudos realizados, os quais indicam que a maioria dos CIs apresenta uma faixa etária acima dos 50 anos. Outros estudos referenciam a existência de faixas etárias superiores aos 60 anos de idade (Pereira ,2015). No que diz respeito ao estado civil do CI, a maioria são casados (63%). Esta variável é consensual com outros estudos, que mostram que os cuidadores casados representam a maior proporção daqueles que prestam cuidados a um idoso dependente (Pereira, 2015) Quanto à escolaridade dos CIs, a amostra apresenta valores ligeiramente superiores aos apresentados por outros estudos, uma vez que apenas 3,3% têm a escolaridade primaria, enquanto 80% conclui o 1º, 2º ciclo e secundário, o 3º ciclo por 10% e 6,7% completaram o ensino superior. Ao nível da caraterização do cuidado, o grau de parentesco é um fator relevante, onde a responsabilidade de cuidar recai essencialmente num familiar em 93% dos casos. Cardoso (2011), afirma que o principal prestador de cuidados, é por norma alguém com maior proximidade física ou coabitante com a pessoa dependente nomeadamente conjugue, filha,

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neta ou outro. Araújo (2015), num estudo realizado refere como motivos para a assunção do papel de CI dois predominantes fatores, particularmente a afinidade e a obrigação. Na amostra estudada os cuidadores informais desempenham esta tarefa em média há 4,5 anos. Prestar cuidados durante longos períodos de tempo pode ser extremamente difícil e desgastante a nível físico, emocional, social, familiar e financeiro para os cuidadores informais, tornando-se numa sobrecarga desgastante, devido ao acumular de diversas situações que resultam da prestação de cuidados. (Almeida, 2015). Relativamente ao perfil dos idosos dependentes, podemos verificar que a média de idades dos idosos cuidados é de 86 anos. Estes resultados são semelhantes aos apresentados por (Araújo, 2015). Após análise dos dados do Índice de Lawton, podemos constatar que a maioria dos idosos ostenta dependência total e grave para as AIVD (62% e 20%). Da observação dos dados do Índice de Barthel, podemos atestar que os idosos apresentam dependência total e severa para as ABVD (47% e 17%), enquanto que 30% ostenta dependência moderada. Os resultados obtidos no nosso estudo vão de encontro aos de Araújo (2015). Cardoso (2011), menciona que os cuidados se dividem em expressivos e instrumentais, sendo que os expressivos se referem aos afetos como carinhos, conforto, companhia, enquanto os instrumentais salientam os cuidados físicos como alimentação e higiene, acompanhamento a consultas, gestão de medicação, entre outros. Pela análise descritiva realizada, no que se refere aos níveis de sobrecarga dos CI, constatase a existência de uma sobrecarga global moderada (media= 33,5). Na sobrecarga moderada, foram identificados os fatores negativos SE, IVP, SF e RE. Podemos verificar que o fator IVP (média =47,4) parece ser indicativo de um nível mais elevado da sobrecarga moderada. Esta pode estar relacionada com as repercussões sentidas pelo CI, com a diminuição de tempo disponível para si e com as restrições ao nível social. Os resultados são consensuais com outros estudos que narram que o CI, vê-se obrigado a interromper ou alterar os papeis que assumia e sente dificuldade em conjugar as atividades que detinha, ficando com pouco tempo para si, substituindo o tempo de lazer pelo tempo da prestação de cuidados. (Pereira 2015) A este fator sucede-se fator SE (média = 37,5), relacionado com a sobrecarga emocional, podendo ser explicado pelo facto do CI apresentar frequentemente sentimentos de revolta, raiva, medo, solidão, hostilidade, culpa. A estes somam-se ressentimento, impotência quanto á impossibilidade de resolver a doença. (Cardoso, 2011; Pereira 2015) Segue-se o fator SF (média =33,9) relacionado com a sobrecarga financeira e por último o fator RE (média =31, 8), reações a exigências. Também Sequeira (2012), a sobrecarga do CI, acarreta consequências físicas, psicológicas, sociais e financeiras, que resultam do ato de cuidar de um individuo dependente e da prestação ininterrupta de cuidados, estando associada à diminuição da qualidade de vida do cuidador e a uma maior morbilidade, sendo

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a sua caraterização fundamenta. Cardoso (2011), acrescenta que a Sobrecarga Financeira aumenta quando o cuidador abandona a sua profissão para cuidar. Para além dos aspetos negativos que causaram sobrecarga moderada do cuidador, foram identificados fatores positivos como a PMEC (média =69,8), perceção dos mecanismos de controlo e SupFam (média = 64,4), suporte familiar, com pontuações mais elevadas, que contribuíram para um menor nível de sobrecarga dos CI.Estes dados são reveladores da existência possível de mecanismos de coping mais ou menos eficazes para lidarem com o papel de CI, apresentando-se mais ou menos satisfeitos com o suporte familiar prestado, com o desempenho do seu papel e com a relação de proximidade estabelecida. Identificou-se também o fator positivo SPF (média = 81,6), satisfação com o papel de cuidador, situando-se na sobrecarga ligeira. Existem estudos que apontam aspetos positivos do cuidar como a manutenção da dignidade da pessoa idosa, ver a pessoa cuidada bem tratada e feliz, ter consciência de que dá o seu melhor, encarar os cuidados como uma oportunidade de expressar amor e afeto, afastar a possibilidade de institucionalização e desenvolvimento de novos conhecimentos e competências, são fatores de positivos, de satisfação (Pereira 2015) Cardoso (2011) enumera aspetos vivenciados pelos CI como o crescimento pessoal, sentimentos de realização e orgulho da capacidade para encarar desafios, progressos ao nível do relacionamento interpessoal, melhoria do significado de vida, prazer, satisfação, autoestima, proximidade, retribuição e bem-estar face à qualidade do cuidado prestado. CONCLUSÃO Com o aumento da esperança média de vida e, consequentemente, o envelhecimento da população, cada vez mais surgem pessoas dependentes a necessitar de cuidados. O apoio a pessoas idosas surge como prioritário na criação de políticas de saúde. Contudo, esta abordagem começa a ganhar importância junto dos cuidadores informais, principalmente, nos que assumem um papel determinante na prestação de cuidados ao idoso dependente. Os resultados deste estudo permitiram conhecer a realidade dos CI deste estudo, nomeadamente identificar a sobrecarga Geral, física, emocional e social dos CI numa amostra de cuidadores informais de idosos dependentes. De acordo com as caraterísticas sociodemográficas obtidas através da amostra de CI de idosos dependentes, foi possível estabelecer um perfil dos cuidadores. Estes são predominantemente do género feminino (83%), são casados (63%), com uma média de idades de 48 anos, que desempenham esta tarefa em média há 4,5 anos. No que se refere à escolaridade, 3,3% têm o primeiro ciclo do ensino básico, 80,1% frequentaram o 1º, 2º ciclo e secundário, o 3º ciclo por 10% e 6,7% completaram o ensino superior. Relativamente às caraterísticas familiares podemos asseverar que 93% dos cuidadores têm uma relação de parentesco com a pessoa que cuidam, sendo maioritariamente filho(a)

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(53,3%). Relativamente ao perfil dos idosos dependentes, verificou-se que, maioritariamente são do sexo feminino, com uma média de idades de 86 anos. Após análise dos dados do Índice de Lawton, podemos constatar que a maioria dos idosos ostenta dependência total e grave para as AIVD (62% e 20%). Da avaliação do Índice de Barthel, podemos atestar que os idosos na sua maioria apresentam dependência total e severa para as ABVD (47% e 17%), enquanto que 30% ostenta dependência em grau moderado. Apura-se que os fatores de maior peso responsáveis pela sobrecarga física, emocional e social são: IVP (implicação na vida pessoal), a SE (sobrecarga emocional), a SF (sobrecarga financeira) e a RE (reações a exigências). Foram ainda identificados fatores positivos como a PMEC (perceção dos mecanismos de controlo) e SupFam (suporte familiar), fatores que cooperam para a sobrecarga moderada identificada dos CI. Identificou-se também o fator positivo SPF, satisfação com o papel de cuidador, situando-se na sobrecarga ligeira. No que concerne à Sobrecarga Total a amostra possuí sobrecarga moderada. O impacto produzido na saúde pelo desempenho do papel de cuidador, permite inferir que os CI sofrem repercussões com manifestações ao nível físico, emocional, social que acabam por comprometer o bem-estar do CI e a qualidade dos cuidados, representando um desafio para os profissionais de saúde no que concerne à oferta de estratégias de intervenção facilitadoras do processo de adaptação do cuidador informal REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Almeida, A. (2015). Nível de sobrecarga e dificuldades do cuidador informal. Viseu: Instituto Politécnico de Viseu. Trabalho académico (Dissertação/Tese). Araújo, A. (2015). Sobrecarga e satisfação com o suporte social do Cuidador Informal do idoso no Concelho de Vila Nova de Famalicão. Porto: Escola Superior de Enfermagem do Porto. Trabalho académico (Dissertação/Tese). Cardoso, L., Vieira, M., Ricci, M. e Mazza, R. (2011). Perspectivas atuais sobre a Sobrecarga do

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Meleis, A. et al. (2000). Experiencing Transitions: An Emerging Middle-Range Theory. Advances in Nursing Science, vol. 23, nº 1, p. 12-28. Pereira, S. (2015). Cuidar de Idosos Dependentes – A Sobrecarga dos Cuidadores Familiares. Braga: Universidade Católica Portuguesa. Trabalho académico (Dissertação/Tese). Petronilho, F. (2010). A transição dos membros da família para o exercício do papel de revisão da literatura. Revista Investigação em Enfermagem, vol. 2, p. 43-58. Sequeira, C. (2007). Cuidar de Idosos Dependentes. Coimbra: Quarteto Editora. Sequeira, C. (2010). Cuidar de Idosos com dependência Física e Mental. Lisboa e Porto: LIDEL. Sequeira, C. (2012). Difficulties, coping strategies, satisfaction and burden in informal Portuguese caregivers. Journal of clinical Nursing. Oxford, vol. 22, p. 491-200. Souza, L.et al. (2015). Sobrecarga no cuidado, estresse e impacto na qualidade de vida 0de cuidadores domiciliares assistidos na atenção básica. Cad. Saúde Colet. 23 (2): 140-149.

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Treino de Assertividade na Enfermagem de Saúde Mental Isa Pereira*; Paulo Seabra**; Olga Valentim*** & Maria José Nogueira **** * Enfermeira no Centro Hospitalar de Lisboa Central; Mestranda do XI Curso de Mestrado e Especialização em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria da Universidade Católica Portuguesa; Lisboa, Portugal; Contato: irgpereira@hotmail.com. ** Doutor em Enfermagem; Professor adjunto na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa; Lisboa, Portugal; Investigador na Unidade de Investigação e Desenvolvimento de Enfermagem (UI&DE); Contato: pauloseabra@esel.pt. *** Doutora em Enfermagem; Enfermeira Especialista em ESMP; Professora adjunta na Escola Superior de Saúde Atlântica, Fábrica da Pólvora, 2730-036 Barcarena, Portugal; Investigadora no Centro de Pesquisa em Tecnologia e Serviços de Saúde (CINTESIS – NursID); Contato: ommvalentim2@gmail.com. **** PHD em Enfermagem; Mestre em Ecologia Humana; Enfermeira Especialista em ESMP; Professora adjunta na Escola Superior de Saúde Atlântica, Fábrica da Pólvora, 2730-036 Barcarena, Portugal; Investigadora no Centro de Pesquisa em Tecnologia e Serviços de Saúde (CINTESIS – NursID); Contato: nogueira.mjc@gmail.com. RESUMO CONTEXTO: o treino de assertividade é uma técnica que se engloba no âmbito da terapia cognitivo-comportamental, usada também no treino de habilidades sociais. Em múltiplos contextos internacionais pratica-se o assertive community treatment (tratamento comunitário de assertividade), programa em que o enfermeiro especialista em Saúde Mental e Psiquiatria se empenha de forma contínua e acompanha a pessoa nas suas atividades de vida diárias na comunidade. OBJETIVOS: mapear o efeito da intervenção psicoterapêutica do treino de assertividade e o estado da arte relativamente ao seu uso na prática clínica especializada. METODOLOGIA: plataforma EBSCO-host, durante os meses de abril a dezembro de 2018, com recurso às bases de dados CINHAL, Medline, Nursing & Allied Health Collection, Cochrane, LISTA e MedicLatina. Usando os descritores assertividade, saúde mental e habilidades sociais foram encontrados 25 artigos encontrados; após aplicação dos fatores de exclusão tempo (de 2008 a 2018), língua (inglesa e portuguesa) e texto integral gratuito, resultaram 7 artigos que foram analisados na íntegra – após esta análise foram excluídos 3 pelo tema não se relacionar com o objetivo da pesquisa, tendo resultado 4 artigos importantes para esta revisão.

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CONCLUSÕES: a pesquisa validou a importância do treino das habilidades sociais, como elemento integrante na recuperação da saúde mental e na promoção das relações interpessoais. Mostrou também que em Portugal ainda não está implementado o programa assertive community treatment, ao contrário do treino de habilidades sociais e do treino assertivo, sendo que as capacidades psicossociais são aprendidas e desenvolvidas em programas (em grupo ou individuais) de intervenções terapêuticas nos serviços comunitários, com enfermeiros especialistas em enfermagem de saúde mental. Palavras-Chave: assertividade; saúde mental: habilidades sociais. ABSTRACT BACKGROUND: Assertiveness training it’s a technique within the cognitive-behavior therapy, also used in social skills training. Assertive community treatment is a program used worldwide by mental health nurse specialists, in which nurses continuously attend the patients by helping them in their daily life activities in the community, enhancing their psychosocial skills. AIM: to demonstrate the nursing psychotherapeutic intervention of assertiveness training and to explore he state of the art related do its use in specialized nursing practice. METHODOLOGY: EBSCO-host platform, from April to December 2018, using the CINHAL, Medline, Nursing & Allied Health Collection, Cochrane, LISTA and MedicLatina databases. Using the descriptors assertiveness, mental health and social skills were found 25 articles found; after applying the time exclusion factors (from 2008 to 2018), language (English and Portuguese) and free text, resulted in 7 articles that were analyzed in full after this analysis were excluded 3 because the theme is not related to the research objective , resulting in 4 important articles for this review. CONCLUSIONS: results of the research validate the magnitude of social skills training, as an important element to restore mental health and to promote interpersonal relationships. They also showed that in Portugal assertive community treatment isn’t yet implemented, unlike social skills and assertiveness training, which means that psychosocial skills are learned through therapeutic programs (in group or individual) in the community services, with mental health nurses. Keywords: assertiveness; mental health; social skills. RESUMEN CONTEXTO: el entrenamiento de asertividad es una técnica que se engloba en el ámbito de la terapia cognitivo-conductual, usada también en el entrenamiento de habilidades sociales. En múltiples contextos internacionales se practica el assertive community treatment (tratamiento comunitario de asertividad), programa en que el enfermero

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especialista en Salud Mental y Psiquiatría está disponible de forma continua y auxilia a la persona en sus actividades de vida diarias en la comunidade. OBJETIVO(S): aclarar la intervención psicoterapéutica del entrenamiento de asertividad y el estado actual del arte en cuanto a su uso en la práctica clínica especializada. METODOLOGÍA: la plataforma EBSCO-host, durante los meses de abril a diciembre de 2018, utilizando las bases de datos CINHAL, Medline, Nursing & Allied Health Collection, Cochrane, LISTA y MedicLatina. Utilizando los descriptores asertividad, salud mental y habilidades sociales se encontraron 25 artículos encontrados; después de la aplicación de los factores de exclusión tiempo (2008-2018), el idioma (Inglés y portugués) y el texto completo libre dio siete artículos que fueron analizadas en su totalidad - después de este análisis se excluyeron 3 el tema no se relaciona con el objetivo de la investigación , que ha resultado 4 artículos importantes para esta revisión. CONCLUSIONES: la investigación validó la importancia del entrenamiento de las habilidades sociales, como elemento integrante en la recuperación de la salud mental y en la promoción de las relaciones interpersonales. También mostró que en Portugal no se ha implementado el programa de assertive community treatment, a diferencia del entrenamiento en habilidades sociales y asertividad y habilidades psicosociales se aprenden y programas (grupal o individual) de las intervenciones terapéuticas en servicios desarrollados comunitarios, con enfermeros especialistas en enfermería de salud mental. Palabras Clave: asertividad; salud mental; habilidades sociales. INTRODUÇÃO Pela sua essência, não se pode abordar assertividade sem abordar a comunicação; ela é, em si mesma, uma forma de a praticar, um estilo muito particular de ser, uma forma de encarar as situações de vida. A comunicação assertiva é uma arte que exige tempo e prática, sendo um trabalho de autodesenvolvimento contínuo (Riley, 2004). As pessoas com doença mental carecem ainda mais de ajuda para implementar esta forma de comunicar e de interagir, pelo seu défice de capacidades cognitivo-comportamentais e pelas características da sua personalidade, o que prejudica grandemente as suas relações interpessoais. O comportamento assertivo resulta num aumento do bem-estar pessoal e da autoestima, aumentando a nossa capacidade de desenvolver relações satisfatórias com outras pessoas (Townsend, 2011). É uma atividade que permite que, tanto o profissional como o utente, consigam transmitir a sua opinião, através da comunicação verbal e não verbal, sem invadir o espaço do outro. Permite que as pessoas sejam mais verdadeiras em relação aos seus interesses e necessidades, tendo em conta o contexto em que estão inseridas. “A assertividade é considerada um comportamento saudável para todas as

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pessoas que, usando-a, conseguem combater a sua impotência pessoal e que resulta em empowerment” (Pramilaa, 2013, p. 70). Para uma eficaz comunicação em saúde, não basta ao enfermeiro o emprego de estratégias simples e básicas de comunicação. Para fazer chegar a mensagem ao utente de quem cuida, aumentando a adesão terapêutica e melhorando os padrões de saúde, o enfermeiro deve fazer uso de uma comunicação positiva, assertiva e com linguagem adequada à pessoa alvo de cuidados (Belim & Almeida, 2018). O treino de assertividade e o treino de habilidades sociais (THS) “surgem na década de sessenta a partir dos trabalhos de Salter, Wolpe e Lazarus como uma evolução das terapias cognitivo-comportamentais” (Loureiro, 2013, p.42). As terapias cognitivas foram introduzidas por alguns autores nas terapias de habilidades sociais/comportamentais porque “os fundadores do treino assertivo constataram que apenas acreditar nos direitos pessoais ou aprender uma resposta assertiva específica poderia não ser suficiente para a emissão de comportamentos adequados” (Grilo, 2010, citado por Tomás & Carvalho, 2014, p.105). Desta forma entende-se que o treino de habilidades sociais se engloba dentro da terapia cognitivo-comportamental. Loureiro (2013), refere-se ao treino de assertividade como sendo das competências mais importantes do treino de competências sociais. O treino de assertividade é definido como a intervenção de enfermagem que dá “auxílio na efetiva expressão de sentimentos, necessidades e ideias, mas respeitando os direitos dos outros” (NIC, 2008, p.231). O treino de assertividade pode ser aplicado ao doente com patologia mental, sendo que este carece muitas vezes de capacidade de se autoafirmar e sofre consequências da sua falta de autoestima e de poder pessoal, sendo influenciado e manipulado por outras pessoas. Estas características estão com frequência ausentes em pessoas com perturbações emocionais. Tornar-se assertivo capacita para o aumento da sua própria autoestima, sem diminuir a autoestima dos outros (Townsend, 2011). Tendo em conta a dimensão do problema comportamental do utente ou das suas carências de personalidade – que podem levar à baixa autoestima, ao isolamento social, à comunicação prejudicada, entre outras – o treino de assertividade pode ter vários objetivos. Grilo 2010 citado por Sequeira (2016) refere os seguintes: autopromover a dignidade pessoal, expressar sentimentos, dizer não sem sentimento de culpa, não se culpar pelos erros se decidido a corrigi-los, pedir informação antes de responder, criticar sem sentimento de culpa, ser respeitado, aprender a gerir as suas atividades sem se exigir demasiado, aprender a pedir ajuda, refletir antes da tomada de decisão, ou mudar de opinião. Para executar o treino de assertividade existem várias técnicas, enumeradas por vários autores como Sequeira (2016) ou Townsend (2011), que podem fazer parte do plano de cuidados do enfermeiro especialista que o implementa. Todas essas técnicas

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ajudam o utente a: saber fazer e recusar pedidos, dizer “não”, fazer perguntas, autoafirmar-se e expressar sentimentos positivos e negativos. Após a pesquisa teórica sobre esta intervenção, procedeu-se então à pesquisa de artigos que demonstrassem a sua implementação na prática clínica mundial atualmente. Este artigo pretende dar a conhecer o estado da arte sobre o uso da intervenção psicoterapêutica – treino de assertividade, mapeando os seus efeitos principais. METODOLOGIA Para a realização deste artigo scoping review da literatura recorreu-se à plataforma EBSCO-host entre os meses de abril e dezembro de 2018, acedendo às bases de dados CINHAL, Medline, Nursing & Allied Health Collection, Cochrane, LISTA e MedicLatina. Elaborou-se a seguinte questão de investigação: quais os efeitos das técnicas de treino de assertividade em pessoas com doença mental? Para a seleção dos artigos de investigação usaram-se descritores, previamente verificados no MeSH, para que fosse possível encontrar consonância entre os artigos: assertiveness training, mental, health, social skills. Usou-se o descritor “saúde” em vez de “doença”, por não se encontrarem resultados relacionados especificamente com o treino de assertividade quando realizada a pesquisa dessa forma. Após aplicação dos descritores resultaram 25 artigos de investigação. Foram então aplicados fatores de exclusão: apenas artigos com texto integral, elaborados entre os anos 2008-2018, disponíveis para download gratuito, em idioma inglês ou português – o que resultou diretamente em 7 artigos de investigação. Destes 7 artigos excluíram-se 3 por não se relacionarem diretamente com a questão de investigação: um, por relacionar a importância da assertividade apenas com a prevenção do comportamento agressivo na adolescência; um, por abordar particularmente a terapia de stress pós-traumático numa doente com uma síndrome neurológica; e outro por abordar o nível de assertividade encontrado em pessoas num programa de tratamento anti-tabágico. Foram então analisados os quatro artigos na íntegra, por forma a aumentar conhecimento sobre o tema, dando resposta aos objetivos principais. RESULTADOS Os quatro artigos selecionados foram lidos na integra e posteriormente analisados para a compreensão da sua pertinência. O primeiro artigo analisado dos autores britânicos Almerie M.Q. et al (2015), Social skills Programmes for Schizophrenia, é referente a um estudo de revisão sistemática da literatura cujo objetivo foi investigar o efeito de programas de treino de habilidades sociais nas capacidades sociais, quando comparados com a implementação de tratamentos standard, em pessoas com o diagnóstico de esquizofrenia e perturbações relacionadas. Os autores definiram programas de treino de habilidades

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sociais como qualquer intervenção psicossocial estruturada, em grupo ou individual, com o objetivo de aumentar a performance social e reduzir o stress e a dificuldade perante situações sociais, com ênfase para: o treino da comunicação verbal e não-verbal, destacando as capacidades comportamentais e interacionais de cada pessoa; a capacidade da pessoa para receber e interpretar mensagens; e dar respostas adequadas. O objetivo seria construir comportamentos sociais cada vez mais complexos, com o objetivo último de melhorar a comunicação. Neste artigo, várias técnicas são usadas no grupo de teste, inclusivamente o treino de assertividade, resolução de problemas, roleplaying, modelagem, shapping, etc. Contrariamente, o grupo de controle recebeu apenas tratamento standard, que os autores definem como sendo constituído apenas pela abordagem farmacológica, sem as intervenções especializadas anteriormente referidas. A conclusão inicial foi que o programa de treino de habilidades sociais pode melhorar as capacidades sociais de pessoas com este tipo de perturbação mental, melhorar o seu estado mental e qualidade de vida e reduzir reinternamentos e recaídas; contudo, quando comparado com o grupo-controle (o que não recebeu tratamento diferenciado) as diferenças não foram significativas, pois a evidência atual é muito fraca e limitada – as diferenças culturais (a bibliografia era maioritariamente de estudos de população chinesa) poderão ser um dos fatores que limitam os resultados. Assim, a conclusão final dos autores é que esta associação – de que a aplicação do treino de habilidades sociais tem efeito positivo sobre as competências sociais – é pouco clara e que merece aprofundamento de investigação científica. O segundo artigo de múltiplos autores dinamarqueses Bertelsen, M. et al (2008), FiveYear Follow-up of a Randomized Multicenter Trial of Intensive Early Intervention vs Standard Treatment for Patients With a First Episode of Psychotic Illness, aborda a diferença entre a aplicação de um programa de intervenção precoce, em pessoas com vários tipos de doença mental, durante os primeiros 2 anos de recuperação e a aplicação do programa standard, num estudo de follow-up de 5 anos após uma primeira crise psicótica. Os autores definem o programa de intervenção precoce baseado em 3 terapias: o assertive community treatment, o tratamento psicoeducacional familiar e o treino de habilidades sociais – para fomentar as capacidades pessoais e sociais da pessoa, ajudando-a a lidar com a doença, a medicação e a reduzir o stress. Os doentes têm a possibilidade de receber visitas domiciliárias e têm o contacto permanente de uma equipa de enfermeiros, à distância de um telefonema (presencialmente em dias úteis). O programa de tratamento standard é baseado na inclusão do doente na consulta de saúde mental comunitária, com acesso a um médico, um enfermeiro (que tem 20 a 30 doentes, comparativamente ao enfermeiro da equipa do assertive community treatment que tem 68) e possivelmente uma assistente social; em caso de urgência teriam de recorrer ao

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serviço de urgência do hospital. Inicialmente, o estudo parecia demonstrar que o programa de intervenção precoce tinha resultados positivos na: diminuição dos sintomas psicóticos e negativos, no uso de substâncias, nas doses de terapêutica farmacológica; no aumento da adesão ao tratamento e na satisfação do doente. O resultado final deste estudo randomizado controlado comprova apenas parcialmente a tese inicial dos autores: se, por um lado, no follow-up de 5 anos – quando comparados com o programa tradicional – não se verificaram resultados do programa de intervenção precoce de 2 anos a nível dos sintomas psicóticos e negativos, por outro lado esse programa teve efeitos positivos a nível da vida social dos doentes, sendo que estes se mostraram mais independentes, tiverem menos recaídas hospitalares e mostraram melhor adaptação à vida social normal fora das instituições. O terceiro artigo de Loureiro, C., Treino de competências sociais - uma estratégia em saúde mental: técnicas e procedimentos para a intervenção, realizado em 2013, compila a consulta de obras de referência sobre a temática e pesquisa bibliográfica que recaiu sobre teses, artigos de revisão e artigos com resultados de estudos empíricos, nacionais e internacionais. Aborda o treino de habilidades/competências sociais como uma intervenção especializada que contribui para a qualidade de vida, dando relevo ao treino assertivo. A autora menciona que o treino de habilidades sociais vai para além da abordagem terapêutica e desenvolve-se numa abordagem preventiva e educacional, aplicando-se quer em situações de saúde ou de doença. Refere-se à assertividade como uma das competências de treino de habilidades socias mais importantes relativas à comunicação. Dos vários artigos encontrados pela autora, a maioria faz referência a estudos sobre a adolescência e estudantes universitários, sobretudo de enfermagem e medicina, abordando estas técnicas como medida preventiva de comportamentos de risco nas perturbações da ansiedade e na promoção do sucesso académico. A autora conclui, pela sua pesquisa, que o treino de competências sociais é uma estratégia eficaz e positiva ao nível da promoção da saúde mental e de comportamentos saudáveis. O quarto artigo realizado por Loureiro, C., Santos, M. R., & Frederico-Ferreira, M., Conceção do programa de intervenção em enfermagem "Melhorar competências com os outros", foi realizado em 2015 e consiste na implementação de uma intervenção estruturada em enfermagem: o treino de competências sociais. Neste treino especializado, as autoras englobam várias atividades com um grupo de adolescentes com o objetivo de se desenvolverem capacidades como a assertividade, empatia, autocontrolo e a cooperação. Este programa vem colmatar défices no desenvolvimento social dos adolescentes, sendo coadjuvante da educação em saúde. As autoras concluíram que através da implementação de um programa como este nas escolas, realizado pelo

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enfermeiro especialista, contribui para o autoconhecimento dos adolescentes, o estabelecimento de relações interpessoais positivas e a valorização pessoal. DISCUSSÃO A análise dos artigos selecionados revela que existe pouca evidência que relacione o treino de assertividade com a doença mental. Abordam-se, maioritariamente e de forma mais genérica, as técnicas e os programas de treino de habilidades/competências sociais, sendo que o treino de assertividade é mencionado em todos eles. O assertive community treatment é um programa implementado em vários países europeus, com vista ao seguimento dos doentes em ambulatório por uma equipa multidisciplinar que atua de forma quase permanente (Bertelesen, et al., 2008). Pela evidência científica encontrada, não foi possível constatar a sua implementação atualmente em Portugal, ao contrário do treino de habilidades sociais, que já faz parte do plano de intervenção ao nível da promoção da saúde mental (Loureiro, 2013; Loureiro, Santos & Frederico-Ferreira, 2015). Todos os artigos analisados mencionam o programa de treino de habilidades sociais como positivo e útil, fundamental na promoção da saúde mental. Uma

abordagem

diferenciada

precoce,

com

intervenção

especializada

de

acompanhamento contínuo, parece ter impacto positivo na vida social dos doentes e trazer menos reinternamentos no serviço de urgência, quando comparada com uma abordagem mais tradicional de terapêutica medicamentosa e acompanhamento mental apenas em consulta comunitária. Nos estudos analisados as conclusões finais levam a perceber que há ainda muita investigação a realizar na área da doença mental, sendo inconclusivos os seus resultados (Almerie, et al., 2015; Bertelsen, et al., 2008). Realça-se o treino de habilidades sociais como abordagem importante para a recuperação das capacidades psicossociais dos doentes (Almerie, et al., 2015). Na mesma perspetiva, realça-se a eficácia de um programa de intervenção precoce especializada com 3 terapias, comparativamente a um programa de tratamento tradicional (Bertelsen, et al., 2008). Os achados da revisão sustentam a pesquisa bibliográfica teórica, revelando várias abordagens na aplicação da terapia comportamental e do treino de habilidades sociais (Loureiro, 2013). Aborda os seus efeitos positivos na recuperação dos doentes, referindo que esta estratégia de intervenção psicoterapêutica pode ser usada tanto na saúde como na doença. Um programa estruturado de treino de competências sociais, no qual se inclui o treino de assertividade, pode ser aplicado em escolas com vista à promoção da saúde mental, percebendo-se a importância e o impacto que tem o treino deste tipo de competências desde cedo, relevando a necessidade da sua aplicação. Adquirir desde cedo competências sociais promove um autoconceito positivo e uma autoestima saudável,

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o que promove a saúde mental e poderá prevenir a doença (Loureiro, Santos & FredericoFerreira, 2015). CONCLUSÃO Analisando os quatro artigos é evidente a importância do treino de habilidades sociais na promoção da saúde mental, em várias fases da vida, seja em pessoas com doença mental ou não. Contudo sobretudo em pessoas acometidas com este tipo de problemas, programas de treino de competências sociais ganham relevo, dada a sua implicância na recuperação de capacidades sociais, como a comunicação interpessoal. A assertividade ganha importância pelos seus atributos que reforçam a personalidade e a atitude da pessoa face aos problemas de vida, dando-lhe empowerment e autoestima, ajudando-a a ultrapassar as tensões com mais tranquilidade e segurança. Os estudos apresentados neste artigo que evidenciam muito benefícios, carecem de resultados conclusivos quando comparados com as técnicas tradicionais, sobretudo a longo prazo. A ciência da enfermagem carece de mais investigação que relacione o treino de competências sociais e o treino de assertividade com patologias mentais e o impacto destas terapias na vida destas pessoas a médio-longo prazo. A enfermagem de saúde mental e psiquiátrica carece ainda de investigação na área do treino de habilidades sociais, mais especificamente do treino de assertividade, na prática clínica especializada e o efeito destas terapias na recuperação da saúde mental, em Portugal. Contudo, avanços já têm sido constatados, nomeadamente ao nível da promoção da saúde mental na infância e adolescência, com programas de aprendizagem de competências de vida e sociais. A implementação de um assertive community treatment poderá ser fundamental para combater reincidências de internamentos por agudização da doença mental, por manter o seguimento e o acompanhamento da pessoa de forma permanente e regular. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Almerie, M., Okba, A. M., Jawoosh, M., Alsabbagh, M., Matar, H., Maayan, N., & Bergman, H. (2015). Social Skills Programmes for Schizophrenia (Review). Cochrane Database of Systematic

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Literacy for Improved Clinical Practices (pp. 124-152). USA: IGI Global . doi:DOI: 10.4018/978-1-5225-4074-8.ch008 Bertelsen, M., Jeppesen, P., Petersen, L., Thorup, A., Ohlenshloeger, J., Quach, P. l., . . . Nordentoft, M. (2008). Five-Year Follow-up of a Randomized Multicenter Trial of Intensive Early Intervention vs Standard Treatment for Patients With a First Episode of Psychotic Illness. Arch Gen Psychiatry, 65(7), 762-771. doi:10.1001/archpsyc.65.7.762 Cabral, L. R. (2007). Consumo de bebidas alcoólicas em rituais/praxes académicas. Porto: ICBAS. Costa, D. G. (2014). Perceção da vulnerabilidade ao stress em função do estatuto laboral num contexto de crise ecónomica. Porto: Universidade Lusófona do Porto. Kathleen, B., & Sonne, S. (1999). The role of stresse in Alcohol use, Alcoholism treatment and Relapse. Alcohol Research and Health. Loureiro, C. (2013). Treino de Competências Socais - uma estratégia em saúde mental: técnicas e procedimentos para a intervenção. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental(9), 41-47. Loureiro, C., Santos, M. R., & Frederico-Ferreira, M. (2015). Conceção do programa de intervenção em enfermagem "Melhorar competências com os outros". Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, 27-32. Riley, J. (2004). Comunicação em Enfermagem (Vols. ISBN 972-8383-81-9). Loures: Lusociência. Rozin, L., & Zagonel, I. S. (2011). Fatores de risco para dependência de álcool em adolescentes. Sequeira, C. (2016). Comunicação Clínica (Vols. ISBN 978-989-752-168-3). Lisboa: LIDEL. Townsend, M. (2011). Enfermagem em Saúde Mental e Psiquiátrica (Vols. ISBN 978-9728930-61-5). Loures: Lusociência.

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Contribuições do mestrado na carreira do enfermeiro: análise auxiliada pelo software IRAMUTEQ Rejane Eleutério Ferreira*, Cláudia Mara de Melo Tavares**, Letycia Sardinha Peixoto Manhães*** & Gabriela Silva dos Santos**** *Enfermeira. Doutoranda em Enfermagem. Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa. Universidade Federal Fluminense.Niterói-RJ, Brasil. E-mail: Rejane_eleuterio@hotmail.com **Enfermeira. Professora Titular, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Universidade Federal Fluminense. Niterói-RJ, Brasil. E-mail: claudiamarauff@gmail.com ***Enfermeira. Doutoranda em Enfermagem. Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa. Universidade Federal Fluminense.Niterói-RJ, Brasil. E-mail: letyciasardinha@gmail.com ****Enfermeira. Doutoranda em Enfermagem. Escola de Enfermagem Anna Nery. Universidade

Federal

do

Rio

de

Janeiro.

Rio

de

Janeiro-RJ,

Brasil.

E-mail:

sisan.gabi@hotmail.com RESUMO CONTEXTO: O mestrado é considerado o primeiro acesso dos alunos a pós-graduação stricto sensu, sendo o curso que antecede o doutorado e é o título stricto sensu mais presente no cenário brasileiro. OBJETIVO: Analisar a importância do mestrado para os enfermeiros que realizam este curso. MÉTODOS: estudo exploratório descritivo, de abordagem qualitativa com enfermeiros que cursam o mestrado nas modalidades acadêmico e profissional na Universidade Federal Fluminense, no Brasil. A produção dos dados de inspiração sociopoética se deu em grupo por meio de experimentação estética com os cinco sentidos ao responder à questão: qual o sentido de realizar o mestrado? Os dados foram transcritos e a análise foi realizada a partir do software IRAMUTEQ. RESULTADOS: Cursar o mestrado é uma experiência muito significativa para os enfermeiros, possibilitando acesso a novos conhecimentos que trazem maior segurança para a vida profissional, empoderado-os para potencializar mudanças na prática profissional. CONCLUSÕES: No mestrado é possível aprofundar saberes e desenvolver competência científica ou técnico-profissional iniciadas na graduação, os quais irão refletir na qualidade de assistência prestada à população. Palavras chave: Educação de Pós-Graduação em Enfermagem; Motivação; Ensino; Enfermeiras; Prática Profissional. ABSTRACT BACKGROUND: The master's degree is considered the first access of students to postgraduation stricto sensu, being the course that precedes the doctorate and is the title stricto sensu more present in the Brazilian scenario. 42


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AIM: To analyze the importance of the master's degree to the nurses who carry out this course. METHODS: descriptive exploratory study, with a qualitative approach, with nurses who study the master's degree in academic and professional modalities at the Universidade Federal Fluminense, Brazil. The production of data of sociopoetic inspiration occurred in a group through aesthetic experimentation with the five senses to answer the question: what is the meaning of accomplishing the masters degree? The data were transcribed and the analysis was performed from the IRAMUTEQ software. RESULTS: Attending the master's degree is a very significant experience for nurses, allowing access to new knowledge that brings greater security to the professional life, empowering them to potentiate changes in professional practice. CONCLUSION: In the master's degree it is possible to deepen knowledge and develop scientific or technical-professional competence initiated in the undergraduate course, which will reflect in the quality of assistance provided to the population. Keywords: Education Nursing Graduate; Motivation; Teaching; Nurses; Professional practice. RESUMEN CONTEXTO: La maestría es considerada el primer acceso de los alumnos al postgrado stricto sensu, siendo el curso que antecede al doctorado y es el título stricto sensu más presente en el escenario brasileño. OBJETIVO: Analizar la importancia de la maestría para los enfermeros que realizan este curso. METODOLOGÍA: estudio exploratorio descriptivo, de abordaje cualitativo, con enfermeros que cursan el máster en las modalidades académico y profesional en la Universidad Federal Fluminense, en Brasil. La producción de los datos de inspiración sociopoética se dio en grupo por medio de experimentación estética con los cinco sentidos para responder a la pregunta: ¿cuál es el sentido de realizar el máster? Los datos fueron transcritos y el análisis se realizó a partir del software IRAMUTEQ. RESULTADOS: Cursar la maestría es una experiencia muy significativa para los enfermeros, posibilitando acceso a nuevos conocimientos que traen mayor seguridad para la vida profesional, empoderados para potenciar cambios en la práctica profesional. CONCLUSIONES: En el máster es posible profundizar conocimientos y desarrollar competencia científica o técnico-profesional iniciada en la graduación, los cuales reflejará en la calidad de asistencia prestada a la población. Palabras clave: Educación Graduado en Enfermería; Motivación; Enseñanza; Enfermeras; Práctica profesional.

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INTRODUÇÃO O mestrado é considerado o primeiro acesso dos alunos a pós-graduação stricto sensu, sendo o curso que antecede o doutorado e também o título stricto sensu mais presente no cenário brasileiro. No país existem duas modalidades de mestrado: acadêmico e profissional. Na enfermagem o mestrado acadêmico surgiu em 1972 na Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sendo a única modalidade de mestrado por 30 anos, até que em 2002, surgindo o primeiro mestrado profissional na universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) (Mendes, Aperibense, Almeida Filho &

Peres, 2015; Munari et al. 2014). O diploma das duas modalidades de mestrado tem idênticos grau e prerrogativas, inclusive para o exercício da docência. A principal diferença entre as duas modalidades esta na proposta do mestrado profissional, que esta voltada a profissionais inseridos no mercado de trabalho, que tem o compromisso de investigar problemas presentes no seu campo de atuação e propor novas soluções e caminhos a partir das bases científica, tecnológica e de inovação (Ferreira, Tavares, Santos & Fonseca, 2017). Atualmente existem 76 programas de pós-graduação stricto sensu (36 mestrados + doutorados, 02 doutorados, 15 mestrados acadêmicos e 23 profissionais). No Período de 2013 a 2016 foram realizadas 5.444 defesas, sendo 1309 doutores e 1077 mestres (3446 acadêmicos e 631 profissionais) (Brasil, 2017). A pós-graduação stricto sensu na área da enfermagem vem se expandindo ao longo da sua existência e sua expansão reflete diretamente na produção científica, onde a área de enfermagem brasileira encontra-se na 7ª posição no ranking mundial de publicações (Brasil, 2017). A expansão de cursos e programas de pós-graduação stricto sensu brasileiro vem exigindo novos saberes e a necessidade de maior conhecimento técnico-científico, com embasamento ético, social, político e cultural, como requisitos e atributos de qualificação profissional (Robazzi, Erdmann, Fernandes, Rodrigues & Lunardi, 2012) Diante do exposto, este estudo objetiva analisar a importância do mestrado para os enfermeiros que realizam este curso. MÉTODOS Trata-se de um estudo exploratório descritivo, de abordagem qualitativo, realizado em 2014, com um grupo constituído por 11 enfermeiros alunos do mestrado, sendo 4 do acadêmico e 7 do profissional, da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense (EEAAC-UFF). Os critérios de inclusão foram estar matriculado e cursando o mestrado, excluindo os alunos com matrícula trancada e alunos especiais. A escolha dos participantes ocorreu após um convite formal feito nas salas de aula dos alunos efetivos, com

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explicações sobre a pesquisa e seus objetivos, onde esses demonstraram interesse e disponibilidade. A produção de dados ocorreu em grupo de inspiração sociopoética, utilizando-se técnicas de experimentação estética com os cinco sentidos, onde os alunos refletiram a questão: Qual o sentido de estar realizando o mestrado? Os alunos foram convidados a elaborar uma mandala, expressando por meio de desenhos e em seguida a discussão grupal. Para manter o anonimato dos participantes, as falas foram identificadas, no texto por pseudônimos criado a partir de uma dinâmica de apresentação, realizada no início do encontro em grupo. Para auxiliar a análise desses discursos, foi utilizado o software IRAMUTEQ (Interface de R pour analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionneires) que permite fazer análises estatísticas sobre corpus textuais e sobre tabelas indivíduos/ palavras (Camargo & Justo, 2013). Para este estudo foi selecionado o tipos de analise: Classificação Hierárquica Descendente (CHD) (Camargo & Justo, 2013). O método CHD classifica os segmentos de texto em função dos seus respectivos vocabulários e o conjunto deles é repartido com base na frequência das formas reduzidas. Os aspectos éticos foram respeitados de acordo com as recomendações da Resolução do Conselho Nacional de Saúde n°466/2012 sendo o projeto de pesquisa aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob o nº 695.428. RESULTADOS Pela Classe Hierárquica Descendente, foram identificadas seis classes semânticas. O corpus analisado no estudo é composto de 11 Unidades de Contexto Inicial (UCI) e foi dividido em 123 Unidades de Contexto Elementar (UCE), sendo retido para análise 83.11% do corpus. A análise hierárquica descendente resultou a seguinte distribuição de classes ou contextos temáticos (Figura 1).

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Figura 1_Dendrograma da Classificação de classes IRAMUTEQ. Niterói-RJ, Brasil 2014 Classe 1: A contribuição do mestrado para a realização pessoal e profissional “Primeiramente o sentido de eu estar realizando o mestrado é pela minha realização profissional e pessoal”. (Sorriso) “O mestrado para mim é uma construção pessoal e profissional, pela realização de um sonho, enquanto aquariana e sonhadora, nas nuvens estou”. (Rainha) Classe 2 : A influência do mestrado na carreira profissional do enfermeiro “Eu já tinha me formado e estava perdida. Ou eu vou mudar de profissão, ou eu vou para o mestrado, assim eu cheguei nessa fase da vida. Não! Eu vou para o mestrado porque eu ainda tenho a esperança de conseguir construir uma enfermagem um pouco melhor”. (Nuvem). “Eu pelo menos quando entrei no mestrado foi pelo aumento de salário. O mestrado é um momento único em minha vida, algumas vezes indescritível.[...] tem sido tudo novo para mim”. (Arco-íris). Classe 3 : Possibilidades de realizações com o mestrado “O mestrado é uma parte que vai me levar a um sonho maior, que é realmente ser docente, poder dar aula”. (Rainha) “Inicialmente é a busca pelo o novo. Novos conhecimentos, novas metodologias, novos contatos, novas amizades. Novas maneiras de enxergar aquilo que a rotina não te permite perceber. Perceber as diversas nuances que o campo profissional possui, que o campo 46


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acadêmico pode demonstrar, "desnudar" para você. Contato com o desconhecido”. (Céu) Classe 4 : Oportunidades encontradas no mestrado “Através do mestrado eu consigo enxergar melhor a questão do cuidado. Eu no mestrado vou também poder transmitir isso de uma maneira mais correta, talvez utilizando até melhores metodologias do que as que aprendi”.(Peixe) “O mestrado é como uma abertura de um novo mundo. É um mundo que tá se abrindo diferente e eu quero investigar esse mundo”. (Bombeiro) Classe 5 : Processo de transformação “Necessitava de confiança em mim, acreditar que poderia, que não era impossível. [...]O mestrado me fez remover pedras (do meu conhecimento) e como uma raiz necessitava de mais água e de sol para florir”. (Coração) “Eu cruzei as informações, informações diferentes e isso eu tenho vivido no mestrado. Informações novas diferenciadas. Enfim, por enquanto está embaralhado um pouquinho”. (Bombeiro) Classe 6 : Experiências vividas no Mestrado “A colega ficou me perguntou: o porquê da tartaruga pensante? É parar e ver que você realmente não sai do lugar, parece que seus passos são curtos e você caminha e não sai. E você vai caminhando e parece que você não anda, mas, ao mesmo tempo, você não deixou de pensar, de idealizar, de sonhar e assim eu me vi”. (Sorriso) “Fazer o mestrado é se sentir algumas vezes em um barco no mar: Não é fácil, o tempo nem sempre está bom, mas o barco tem um destino que é chegar ao porto”. (Sol) DISCUSSÃO O estimulo precoce à programas de iniciação científica, grupo de pesquisa e monitoria motivam o profissional a ingressar no mestrado. Os programas stricto sensu geram habilidades como aprimoramento das condições de refletir, criticar e criar (Durso, Cunha, Neves & Teixeira, 2016). A participação e divulgação de conhecimento produzido em eventos científicos; e a possibilidade de participar do crescimento dos alunos na sua formação profissional, são alguns dos fatores que estão envolvidos na qualificação dos mestrandos (Lemos & Passos, 2012).

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O enorme desafio do mestrado na modalidade profissional está em integrar com rigor a pesquisa no seu processo de desenvolvimento e conseguir a aplicabilidade dos resultados para transformar a realidade estudada. Além disso, uma educação especializada como a pósgraduação tem grande importância na qualificação do enfermeiro, ultrapassa as fronteiras do ensino, pesquisa e proporciona formação de profissionais com perfil amplo (Ferreira et al., 2015). Ressalta-se que os profissionais da saúde que desenvolvem a assistência com a população possuem grande experiência, habilidades e conhecimentos que precisam ser cientificamente desenvolvidos na academia, para que possam compartilhar com outros profissionais, afim de aprimorar o atendimento aos usuários (Ferreira, Tavares, Santos & Fonseca, 2017). Por isso, o mestrado profissional está voltado para qualificação desses profissionais que estão atuando diretamente na assistência e pertencem a vários campos do conhecimento (Ferreira et al., 2017) Considera-se impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tampouco conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes. Sendo assim, é preciso efetivamente recompor o todo para conhecer as partes (Morin, 2000). O conhecimento especializado limita a visão da realidade, que pode ser inclusive mal interpretada devido à delimitação do objeto. Assim, a interdisciplinaridade muito presente no cenário da pós-graduação stricto sensu, tem grande importância na construção do conhecimento, pois estabelece conexões com outras áreas, por meio de uma ação dialógica na elaboração, (re)construção de novos conhecimentos com vista a uma melhor apropriação de suas práticas e de seus conhecimentos científicos (Morin, 2000). Não existe somente criação e inovação, existe também a destruição. Para construir é preciso desconstruir. Para aprender é necessário destruir o objeto pronto para lhe conhecer as particularidades (Morin, 2000). Então, no mestrado, muitos alunos passam por um processo de destruição de alguns conceitos, para reconstruir novos e poder viver conscientemente, admitindo as incertezas e o imprevisto da vida. CONCLUSÃO Verificou-se que o mestrado é um curso idealizado pelos alunos de ambos os cursos, que representa valorização e reconhecimento profissional. A principal motivação para ingressar no mestrado é a busca por novos conhecimentos, a fim de transformar sua prática profissional e intervir também em sua vida pessoal. Sendo assim, o mestrado para eles é considerado algo novo, devido a metodologia de contrução de conhecimento ser mais reflexiva e vertical com possibilidade de desenhar um novo futuro para si e para a profissão pautado em conhecimentos diferentes do tradicional.

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Diagnósticos de Enfermagem para o alcoolismo: uma revisão integrativa Adriana Batista de Macena*, Lucas Queiroz Subrinho**, Tiago Filipe Oliveira Costa*** , Carlos Alberto da Cruz Sequeira****, Flávia Batista Portugal***** & Marluce Mechelli de Siqueira****** *Mestranda Enfermagem Profissional. Enfermeira do Núcleo Interno de Regulação do Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes, Universidade Federal do Espirito Santo, Vitória, 29047-105, Brasil. E-mail: enfadrianab@hotmail. ** Mestre em Ciências da Saúde; Enfermeiro do Programa de Atenção ao Alcoolista (PAA) do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes, Universidade Federal do Espirito Santo, 29047-105, Vitória-ES, Brasil. Email: lucas.q.subrinho@gmail.com *** Mestrando em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria. Enfermeiro de Cuidados Gerais pela Escola Superior de Enfermagem do Porto. Rua Drº António Bernardino de Almeida, S/nº 4200-072 Porto. Email: tiagofilipeoliveiracosta@gmail.com ****Doutor em Ciências de Enfermagem, Prof. Coordenador. Escola Superior de Enfermagem do

Porto.

Rua

Drº

António

Bernardino

de

Almeida,

S/nº 4200-072

Porto.

Email: carlossequeira@esenf.pt ***** Doutora em Saúde Coletiva; Professora Adjunta do Magistério Superior da Universidade Federal do Espirito Santo, 29047-105, Vitória-ES, Brasil. E-mail: flavia.portugal@ufes.br ****** Pós-Doutora em Psiquiatria; Professora Titular da Universidade Federal do Espirito Santo, 29047-105, Vitória-ES, Brasil. Email: marluce.siqueira@ufes.br. RESUMO CONTEXTO: O enfermeiro é um profissional essencial no cuidado da pessoa alcoolista, para exercer esse cuidado é imprescindível o Processo de Enfermagem, por meio do qual são elencados os diagnósticos de enfermagem que orientarão as intervenções. OBJETIVO: Identificar na literatura estudos sobre os principais Diagnósticos de Enfermagem utilizados no cuidado de pacientes alcoolistas. MÉTODOS: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada com os descritores Alcoolismo, Diagnósticos de Enfermagem e Processo de Enfermagem. As bases de dados foram SCIELO, BDENF, LILACS e MEDLINE. RESULTADOS: Foram direcionados para análise final um total de três estudos. Identificouse 19 diagnósticos de enfermagem. CONCLUSÕES: Conclui-se que existe fragilidade na literatura sobre a publicação de diagnósticos de enfermagem para alcoolistas, apontando assim para uma fragilidade da assistência de enfermagem mesmo com as evidências

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científicas da literatura nacional sobre os impactos desta doença para a saúde individual e coletiva. Palavras-Chave: Alcoolismo; Diagnósticos de Enfermagem; Processo de enfermagem. ABSTRACT CONTEXTO: The nurse is an essential professional in the care of the alcoholic person. To apply this care, the Nursing Process is essential when nursing diagnoses that guide the interventions are listed. OBJECTIVE (S): To identify in the literature studies about the main Nursing Diagnoses used in the care of alcoholic patients. METHODS: This is an integrative literature review produced with the descriptors Alcoholism, Nursing Diagnostics and Nursing Process. The databases were SCIELO, BDENF, LILACS and MEDLINE. RESULTS: A total of three studies were used in a full analysis. We identified 19 nursing diagnoses. CONCLUSIONS: There is a weakness in the literature about articles of nursing diagnoses for alcoholics that show us a fragility of the nursing care, although scientific evidence from the national literature on the impacts of this disease on individual and collective health. Keywords: Alcoholism; Nursing Diagnostics; Nursing process. RESUMEN CONTEXTO: El enfermero es un profesional esencial en el cuidado de la persona alcohólica, para ejercer ese cuidado es imprescindible el Proceso de Enfermería, por medio del cual se enumeran los diagnósticos de enfermería que orientarán las intervenciones. OBJETIVO (S): Identificar en la literatura estudios sobre los principales Diagnósticos de Enfermería utilizados en el cuidado de pacientes alcohólicos. MÉTODOS: Se trata de una revisión integrativa de la literatura, realizada con los descriptores Alcoolismo, Diagnósticos de Enfermería y Proceso de Enfermería. Las bases de datos fueron SCIELO, BDENF, LILACS y MEDLINE. RESULTADOS: Se dirigieron para el análisis final un total de tres estudios. Se identificaron 19 diagnósticos de enfermería. CONCLUSIONES: Se concluye que existe fragilidad en la literatura sobre la publicación de diagnósticos de enfermería para alcohólicos, apuntando así a una fragilidad de la asistencia de enfermería, mediante las evidencias científicas de la literatura nacional sobre los impactos de esta enfermedad para la salud individual y colectiva. Palabras clave: Alcoholismo; Diagnósticos de Enfermería; Proceso de enfermeira. INTRODUÇÃO O alcoolismo é considerado um grave problema de saúde pública. Trata-se de uma doença crônica que vai além de quem consome o álcool, pois repercute na família e na sociedade (Mangueira, Fernandes, Pinheiro e Lopes 2013). Além do alcoolismo ser considerado um

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fator de risco nas principais Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), também está relacionado aos acidentes, à incapacidade laboral e aos episódios de violência (Brasil, 2015). A abordagem ao indivíduo deve ser multiprofissional, ao se considerar todas as facetas atingidas. Frente ao exposto, o enfermeiro, inserido nos mais diversos serviços, torna-se um profissional essencial para o cuidado a esse usuário (Soares, Mêrces e Vargas, 2014). De forma, a garantir a pessoa a assistência integral e contínua e contribuir para o trabalho em equipe (Pillon e Luis, 2004). Para organizar esse cuidado, o enfermeiro utiliza a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) como fio condutor na organização do seu trabalho, com o propósito de operacionalizar o Processo de Enfermagem (PE) (Anziliero, Côrrea, Battassini, Soler, Silva e Begetto, 2017). Apesar de ter sido introduzido no Brasil em 1970 e contar com o apoio do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e de toda a classe profissional, ainda existe um distanciamento entre o PE e sua aplicabilidade na rotina do enfermeiro (Herdeman 2013). Dentre as mais recentes reafirmações do PE, encontra-se a Resolução n. 358, de 15 de outubro de 2009, do COFEN, que estabelece a implementação do PE em todas as unidades de atendimento de saúde que forneçam assistência de enfermagem, tendo as seguintes etapas: 1) coleta de dados; 2) Diagnóstico de Enfermagem (DE); 3) planejamento de enfermagem; 4) implementação; e 5) avaliação de enfermagem (Cofen, 2009). Sendo o Diagnóstico de Enfermagem a junção e interpretação dos dados coletados na primeira etapa que resultará na tomada de decisão profissional. Esses conceitos diagnósticos são a base para a seleção dos cuidados ou intervenções de enfermagem necessárias para a obtenção dos resultados esperados. Nesse contexto, observa-se a relevância dos DE para o cuidado aos alcoolistas visto que, além de alicerçar a prática clínica do enfermeiro nas instituições de saúde, também subsidia a sequência dos cuidados (Chaves, Carvalho e Rossi 2008). Assim, para contribuir com a prática clínica do enfermeiro e a luz das evidências científicas, o estudo buscou descrever os principais DE em alcoolistas publicados na literatura. MÉTODOS Trata-se de uma revisão de literatura sobre os principais DE utilizados para a pessoa alcoolista e foi realizada no período de 02 a 20 de janeiro de 2018 na qual adotou-se a proposta de Ganong (Ganong, 1987). A pergunta norteadora desta revisão foi: Quais os principais DE utilizados para o alcoolista? Foram analisados artigos publicados em inglês, português e espanhol que respondessem o objetivo do estudo. A partir de acesso online ao domínio público, utilizou-se as bases de dados: Scientific Electronic Library Online (SCIELO), Base de Dados da Enfermagem (BDENF), Lliteratura Latino-Americana e do Caribe em Ciências

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da Saúde (LILACS), Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos da América (MEDLINE). A busca foi atemporal e para direcionar o alcance das publicações para a questão norteadora foi utilizado os descritores “Alcoolismo/Alcoholism”, “Diagnósticos de Enfermagem/Nursing Diagnoses” e “Processo de Enfermagem/Nursing Process” Os critérios de inclusão foram: ser um estudo publicado nos idiomas português, inglês e espanhol; com o público investigado, pessoas acometidas pelo alcoolismo; que forneça dados sobre os principais DE utilizados e que tivesse texto completo disponível ao livre acesso. Os estudos que preenchiam os critérios, foram lidos na integra com a finalidade de análise crítica e tabulação com as seguintes informações: Título do artigo, autores, periódico de publicação, número de participantes, taxonomia/teoria utilizada, método, principais resultados e contribuições do estudo. RESULTADOS Os artigos selecionados para análise final dessa revisão integrativa usaram metodologia descritiva. Nesse tipo de pesquisa o pesquisador registra e descreve os fatos sem interferir neles, além de envolver uso de técnicas padronizadas de coleta de dados buscando descobrir a frequência com que um fato ocorre e suas características (Prodanov e Freitas, 2013). Seguindo os critérios estabelecidos obteve-se um retorno de 348 artigos completos. Após a leitura dos resumos dos artigos na íntegra, nove artigos atenderam os critérios de inclusão adotados no estudo. Desses, excluiu-se seis artigos por repetição, resultando em apenas três para análise final. Os artigos analisados estão descritos no Quadro 1 e foram organizados de acordo com o ano de publicação. O primeiro artigo trata-se de um estudo que discorreu sobre todas as etapas do PE, tendo como amostra um total de 17 usuários com diagnóstico de síndrome de dependência alcoólica (SDA) no qual especificou-se a avaliação clínica desenvolvida e a posterior elaboração dos DE propostos. O DE mais encontrado foi “Intolerância à atividade física” e “Dentição Alterada”. O segundo estudo refere-se à aplicação da SAE a um usuário com diagnóstico médico de cirrose hepática. Foram identificados 13 DE sendo descritos apenas 08 por serem mais específicos a doença (Quadro 1). O terceiro artigo, buscou identificar as características definidoras do DE “Autocontrole ineficaz da saúde em alcoolistas”. O estudo mostrou que esse diagnóstico esteve presente em 28,3% da amostra (Quadro1) tendo como característica definidora mais presente a “Expressão de desejo de controlar a doença” (73,9%). Destaca-se que os três artigos analisados nessa revisão utilizaram Taxonomia da North American Nursing Diagnosis Association (NANDA) embasados na Teoria das Necessidades Humanas Básicas, possivelmente, por ser a classificação mais divulgada no Brasil. Ela é composta de 13 domínios, 47 classes e 234 diagnósticos de enfermagem (Herdman 2013).

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DISCUSSÃO A utilização do PE estimula o pensamento crítico, o julgamento clínico sobre todas as informações acerca da situação de saúde do indivíduo para a tomada de decisão no alcance dos resultados de maneira que descrevam as ações do profissional de enfermagem nas diversas situações de sua prática (Alfaro-Lefere 2010). A segunda etapa do PE é a construção dos DEs mediante a identificação das necessidades básicas afetadas e do grau de dependência do atendimento (Horta, 1979). A Teoria de Enfermagem utilizada nos artigos analisados foi a “Teoria das Necessidades Humanas Básicas” de Wanda de Aguiar Horta. Horta prefere utilizar na enfermagem a denominação de João Mohana que classifica as necessidades humanas básicas do indivíduo em: Necessidades de nível Psicobiológico, Psicossocial e Psicoespiritual (Horta 1979). Dessa maneira, foram identificados 19 DEs para a pessoa alcoolista e as necessidades humanas básicas mais afetadas foram as classificadas de Necessidades Psicobiologias, entretanto, todas tendem a sofrer alterações quando qualquer uma se manifesta seja por desequilíbrio, falta ou excesso de atendimento (Horta, 1979). O primeiro e segundo artigo, de acordo como Quadro 1, tratam-se da aplicação do processo de enfermagem em pacientes acompanhados num programa terapêutico para o alcoolismo e a um portador de cirrose hepática, respectivamente. Foram identificados 18 DEs. Os diagnósticos de maior frequência pertencem ao Domínio 4 “Atividade e Repouso” que se refere a produção, conservação, gasto ou equilíbrio de recursos energéticos e ao Domínio 11 “Segurança e Proteção” em que se destaca que o sujeito deve estar livre de perigo, lesão física ou dano ao sistema imunológico, conservação contra perdas e proteção da segurança e da ausência de perigos (Cofen, 2009). A prevalência desses domínios pode ser justificada pelo fato do alcoolismo ser responsável por uma variedade de problemas físicos e comportamentais (Sena, Santana, Ribeiro, Matos, Reis e Carvalho 2017).

55


Periódico

Amostra

Método * Descritivo abordagem quantitativa;

com

* Utilizado roteiro de processo de enfermagem; * Realizada consulta de enfermagem; * Coleta de dados de forma prospectiva; * Estudo de caso * Aplicação da Sistematização da Assistência de Enfermagem em um paciente portador de cirrose hepática internado na unidade de Pronto Socorro.

IX Congresso Internacional ASPESM

NANDA/ Teoria Necessidades Humanas Básicas

Taxonomia / Teoria

Principais Resultados

NANDA, NIC e NOC / Teoria Necessidades Humanas Básicas

*Diagnósticos encontrados: Intolerância a atividade física (n=5); Dentição alterada (n=5); Relacionamento familiares alterados (n=4); Integridade da pele prejudicada (n=3); Padrão nutricional menor que as necessidades (n=3); Distúrbios do sono (n=2); Ansiedade (n=1); Interação Social Prejudicada (n=1); Eliminação urinária alterada (n=1); Dores corporais (n=1).

* Incentivo ao uso da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) para proporcionar melhor qualidade de vida a esse público.

* Contribuição para o enfermeiro realizar uma assistência planejada através do uso do PE.

* Desenvolvimento da assistência de enfermagem individualizada por meio do planejamento de enfermagem;

Contribuição

Quadro 1_Distribuição dos artigos segundo o título, autor\ano, amostra, método, taxonomia/teoria, principais resultados e contribuição dos

Autor/Ano

diagnósticos de enfermagem para o alcoolista Título 17

01

J Bras Psiquiatria

REBEN

Renata Santos de Souza; Marluce Miguel de Siqueira / 2005

Rosimeire da Silva Vargas; Fabiana Cláudia de Vasconcelos França / 2007

O processo de enfermagem na assistência a pacientes na dependência de álcool (Souza e Siqueira 2005)

Processo de enfermagem aplicado a um portador de cirrose hepática utilizando as terminologias padronizadas NANDA, NIC, NOC (Vargas e França 2007)

* Identificado 13 DE sendo descritos 8 por serem específicos da doença. São eles: 1) Volume de líquido excessivo relacionado ao mecanismo regulador comprometido, caracterizado por edema e ascite; 2) Padrão respiratório ineficaz relacionado à energia diminuída caracterizado por dispneia; 3) Confusão aguda relacionada ao abuso de álcool caracterizada por alucinações; 4) Risco de integridade da pele prejudicada relacionado à estado dos líquidos alterado e alterações no turgor da pele; 5) Perfusão tissular gastrointestinal ineficaz relacionada à redução mecânica do fluxo sanguíneo venoso caracterizado por sons intestinais diminuídos e distensão abdominal; 6) Conhecimento deficiente relacionado à falta de exposição, caracterizado por dificuldade em verbalizar conhecimentos sobre sua patologia; 7) Intolerância à atividade relacionada ao desconforto abdominal caracterizada por dispneia; 8) Constipação relacionada a motilidade diminuída do trato gastrointestinal caracterizado por frequência diminuída das evacuações.


Identificação do diagnóstico de enfermagem Autocontrole Ineficaz da Saúde em Alcoolistas: Um estudo descritivo (Silva, Perrelli, Guimarães, Cruz, Frazão 2013).

Título Alexciane Priscila da Silva; Jaqueline Galdino Albuquerque Perrelli; Fernanda Jorge Guimarães; Suzana de Oliveira Mangueira; Simara Lopes Cruz; Iracema da Silva Frazão / 2013

Autor/Ano elet

Periódico Rev enferm

46

Amostra * Descritivo; transversal com abordagem quantitativa; * Para coleta de dados realizou-se entrevista utilizando instrumento com informações sobre o diagnóstico em estudo.

Método

Taxonomia / Teoria NANDA / Teoria Necessidades Humanas Básicas

Principais Resultados

Contribuição

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* Identificou-se o autocontrole ineficaz em 28,3% dos pacientes * Apresentou como características definidoras: escolhas na vida diárias ineficazes para atingir a meta de saúde (58,7%), expressão de desejo de controlar a doença (73,9%), falha em agir para reduzir os fatores de risco 34,8%); * Os fatores relacionados ais frequentes foram suscetibilidade percebida e conflito familiar.

* Os achados sugerem a necessidade de reestruturação do cuidado de enfermagem de acordo com essas características; * A análise desses aspectos fornece ao enfermeiro possibilidade de identificar com maior precisão fenômeno em estudo e propor intervenções mais efetivas contribuindo para uma assistência ao alcoolista permeada pela ruptura de estigmas, fortalecimento de vínculos e respeito a singularidades.


Assim, dois diagnósticos que se destacaram e pertencem aos domínios citados foram: “Intolerância à atividade”, cuja definição refere-se à insuficiência de energia fisiológica em completar atividades diárias requeridas ou desejadas (Herdman e Kamitsuru, 2015). Esse diagnóstico apresentou como característica definidora o desconforto abdominal e foi evidenciado pela dispneia conforme descrito no artigo (Vargas & França, 2007). O consumo nocivo de álcool pode causar vários danos ao organismo dos quais podemos citar aqueles relacionados ao sistema digestivo, que vão desde dor e queimação de estômago à cirrose hepática além do risco aumentado para pancreatite e câncer do fígado e ao sistema cardiovascular que se constata o risco aumentado para hipertensão arterial, arteriosclerose, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e miocardiopatia além de interferir no tratamento medicamentoso para hipertensão arterial sistêmica (HAS), diabetes mellitus (DM) e doenças crônicas que alteram o risco cardiovascular (Brasil, 2016). O outro diagnóstico trata-se do “Risco de integridade da pele prejudicada” que corresponde ao julgamento clinico a respeito da vulnerabilidade do indivíduo em desenvolver uma resposta humana indesejável a condições de saúde/processos de vida (Bertoncello, Cavalcante, Ilha, e Nascimento, 2013). As características definidoras desse diagnóstico foram: estado de líquido alterados e alteração no turgor e elasticidade. Para diagnósticos de risco não há fatores relacionados uma vez que está sendo identificado uma vulnerabilidade em um paciente, ou seja, o problema ainda não está presente (Herdman, 2013). A identificação das características envolvidas nos diagnósticos de risco poderá instrumentalizar o enfermeiro na tomada de decisão das medidas preventivas para interromper esse ciclo, influenciando diretamente no bom prognóstico (Bertoncello, Cavalcante, Ilha, e Nascimento, 2013). Já o terceiro artigo procurou identificar as características definidoras do diagnóstico de enfermagem “Autocontrole Ineficaz da saúde em alcoolista”. Esse diagnóstico foi revisado na Taxonomia II da NANDA I, recebendo o título de “Controle Ineficaz da Saúde”, que pertence ao Domínio 1 “Promoção da Saúde”. Nesse artigo, foram avaliados 46 pacientes por meio de entrevista estruturada com instrumento contendo informações sobre o DE em estudo. O diagnóstico foi identificado em 28,3% dos pacientes estando associado as seguintes características definidoras: expressão de desejo de controle a doença (73,9%), escolhas na vida diária ineficazes para atingir as metas de saúde (58,7%), falha em agir para reduzir fatores de risco (34,8%), falha em incluir regimes de tratamento à vida diária (32,6%), expressão de dificuldade com os regimes prescritos (4,4%). Conhecer as características definidoras de cada diagnóstico é importante para a prática do enfermeiro uma vez que irá auxiliá-lo no julgamento clinico e, assim, poder realizar o DE com mais propriedade e direcionando o plano de cuidados contribuindo para a reabilitação do indivíduo (Mangueira, Fernandes, Pinheiro e Lopes, 2013).

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CONCLUSÃO Os resultados encontrados mostram a importância da caracterização diagnóstica de forma a possibilitar o enfermeiro uma assistência de enfermagem de maneira sistemática e organizada uma vez que constitui a base para a seleção das intervenções de enfermagem. O estudo demonstrou que existe fragilidade na literatura sobre a publicação de DEs para indivíduos alcoolistas, uma vez que, os achados são limitados, mediante as evidências científicas da literatura nacional sobre os impactos desta doença para a saúde individual e coletiva e dessa forma limitando a construção de um plano de cuidados sistematizado.

IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Os resultados apontam para necessidade de construção de trabalhos que avaliem a implementação do processo de enfermagem no campo da saúde mental. Essa revisão poderá subsidiar a construção de planos de cuidados de enfermagem ao alcoolista nas instituições de saúde tendo em vista a organização de uma assistência qualificada. Também poderá incentivar a realização de estudos que validem os DEs para esse público. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Alfaro-LeFevre, R. A. (2010). Aplicação do Processo de enfermagem-Uma ferramenta para o pensamento crítico (7ª ed.). Porto Alegre, Brasil: Artmed. Anziliero, F., Corrêa, A. P. A., Batassini, E., Soler, B.E.D., Silva, B. A. e Begetto, M. G. (2017). Implementation of nursing diagnoses and care after nasoenteral tube placement in na emergency service. Cogitare enfermagem, 22 (4), 1-9. Bertoncello, K. C. G., Cavalcanti, C. D. K., Ilha, P. e Nascimento, E. R. P. (2013). Diagnósticos de risco e propostas de intervenções de Enfermagem aos pacientes vítimas de múltiplos traumas. Revista Brasileira Pesquisa Saúde, 15 (2), 23-31. Brasil (2016). Guia de Referência Rápida Álcool e outras Drogas. 1ª Edição. SMS/RJ. Chaves, E. C. L., Carvalho, E. C. e Rossi, L. A. (2008). Validação de diagnósticos de enfermagem: tipos, modelos e componentes validados. Revista Eletrônica Enfermagem, 10(2), 513-515. Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). Resolução n. 358 de 15 de outubro de 2009. Dispõe sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem e a implementação do Processo de Enfermagem em ambientes, públicos ou privados, em que ocorre o cuidado profissional de Enfermagem, e dá outras providências. Brasília: COFEN; 2009. Ganong, L. H. (1987). Integrative reviews of nursing research. Res Nurs Health, 10(1), 1-11 Herdman, T. H. (Ed) (2013). Diagnósticos de Enfermagem da NANDA: definições e classificação 2012-2014. Porto Alegre, Brasil: Artmed.

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IX Congresso Internacional ASPESM

Herdman, T. H. e Kamitsuru, S. (Ed.). (2015). Diagnósticos de enfermagem da NANDA: Horta, W. A. (1979). Processo de Enfermagem. São Paulo, Brasil: EPU/EDUSP. Mangueira, S. O., Fernandes, A.F. C., Pinheiro, A. K.B. e Lopes, M. V. O. (2013). Indicadores clínicos do diagnóstico de enfermagem processos familiares disfuncionais em alcoolistas: revisão integrativa. Revista Eletrônica Enfermagem, 15(3), 819-28. Ministério da Saúde (BR). Saúde Mental em Dados. Brasília: Ministério da Saúde; 2015. Pillon, S. C. e Luís, M.A. V. (2004). Modelos explicativos para o uso de álcool e drogas e prática da enfermagem. Revista Latino-America Enfermagem, 12(4), 676-682. Prodanov, C. C. e Freitas, E. C. (2013). Metodologia do Trabalho Científico: Métodos e Técnicas da Pesquisa e do Trabalho Acadêmico (2 ed.). Novo Hamburgo, Brasil: Feevale. Sena, E., Santana, L., Ribeiro, B., Matos, D., Reis, M. e Carvalho, P. (2017). Rotarian’s perception on substances alcohol consumption. Revista de Pesquisa: Cuidado é Fundamental Online, 9(4), 1164-1169. Silva, A. P., Perrelli, J. G. A., Guimarães, F.J.; Mangueira, S. O.; Cruz, S. L. e Frazão, I. S. (2013). Identificação do diagnóstico autocontrole ineficaz da saúde em alcoolistas: um estudo descritivo. Revista Eletrônica Enfermagem, 15(4), 932-9. Soares, J., das-Mêrces, N. e Vargas, D. Strategies for nursing care of alcohol users with published in proceedings CBEn. (2014). Revista de Pesquisa: Cuidado é Fundamental Online, 6(3), 1256-1267. Souza, R.S. e Siqueira, M.M. (2005). O processo de enfermagem na assistência a pacientes com dependência de álcool. Jornal Brasileiro Psiquiatria, 54(3), 228-233. Vargas, R. S. e França, F. C. V. (2007). Processo de Enfermagem aplicado a um portador de Cirrose Hepática utilizando as terminologias padronizadas NANDA, NIC e NOC. Revista brasileira enfermagem, 60(3), 348-35

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Qualidade de vida e Empoderamento da Pessoa com Diabetes tipo 2: Resultados da Avaliação de um Programa de Educação Terapêutica Lídia Soares*, Carminda Morais**, & Filipe Leal*** *Licenciada em Enfermagem; Enfermeira; Mestranda em Enfermagem de Saúde Comunitária, Escola Superior de Saúde- Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Rua D. Moisés Alves de Pinho, 4900-314, Viana do Castelo, Portugal. E-mail: lidiasoares19@hotmail.com **Doutora em Ciências da Educação; Professora Coordenadora; Investigadora no CEISUC e colaboradora

na

UICISA-e,

4900-314,

Viana

do

Castelo,

Portugal.

Email:

carmindamorais@ess.ipvc.pt ***Mestre em Gestão das Organizações- ramo gestão de unidades de saúde; Enfermeiro; Gestor do processo da Diabetes, USF Terra da Nóbrega, 4980-633, Ponte da Barca, Portugal. E-mail: filipe.leal@ulsam.min-saude.pt RESUMO CONTEXTO: A Diabetes Mellitus (DM) é considerada uma emergência global de saúde, pelo elevado número de mortes prematuras, perda de qualidade de vida (QV) e incapacidade que gera. Urge investir na promoção da literacia na pessoa com DM/ família visando a maximização das competências para a (re)construção dos projetos de saúde e capacitação para a autonomia e autogestão da patologia. Trata-se de abordagens orientadas para a obtenção de ganhos em saúde, nomeadamente empoderamento e QV, assentes na evidência, numa lógica criativa e inovadora, com as pessoas com DM. OBJETIVO(S): Analisar os ganhos em saúde decorrentes da educação terapêutica em grupo, ao nível da capacidade de autocontrole da doença, QV e de indicadores clínicos, das pessoas com DM tipo 2. MÉTODOS: Estudo quasi experimental, longitudinal e prospetivo. A amostra constituída por 34 pessoas com DM tipo 2, alvo de um programa de educação psicoterapêutica. Foram utilizados 3 instrumentos: Questionário de caracterização sociodemográfica e clínica; DESSF- versão breve da Diabetes Empowerment Scale; Questionário de Avaliação de Ganhos em Saúde (EQ-5D- 5L). RESULTADOS: O empoderamento percebido apresenta uma média de 75,55±24,09 inicial e 78,31±18,50 após a intervenção. O índice de QV obteve uma pontuação média prévia de 83,8±15,7 e final de 85,0± 18,7. Verifica-se diferenças estatisticamente significativas no grupo experimental nas variáveis HbA1c e IMC.

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O grupo de controlo não revela diferenças estatisticamente significativas em nenhuma variável. CONCLUSÕES: A implementação de programas de educação terapêutica, com recurso a estratégias de intervenção psicoterapêutica, em grupo, numa lógica de (co)criação conduzem a ganhos em saúde. Palavras-Chave: Diabetes Mellitus tipo 2; Autocontrole; Poder (Psicologia); Qualidade de Vida. ABSTRACT BACKGROUND: Diabetes Mellitus (DM) is considered a global health emergency, due to the high number of premature deaths, loss of quality of life (QoL) and incapacity it generates. It is urgent to invest in the promotion of literacy in the person with DM / family aiming at maximizing the competences for (re) construction of the health projects and training for the autonomy and self-management of pathology. These are health-oriented approaches, such as empowerment and QoL, based on evidence, in a creative and innovative logic, with people with DM. AIM: To analyze the health gains derived from group therapeutic education, in terms of the self-control capacity of the disease, QoL and clinical indicators, of people with type 2 DM. METHODS: Quasi experimental, longitudinal and prospective study. A sample consisted of 34 people with Type 2 DM, target of a psychotherapeutic education program. Three instruments were used: Sociodemographic and clinical characterization questionnaire; DES-SF- brief version of the Diabetes Empowerment Scale; measure of health outcome questionnaire (EQ5D-5L). RESULTS: Perceived empowerment presents an initial average of 75.55 ± 24.09 and 78.31 ± 18.50 after the intervention. The QoL index obtained a prior average score of 83.8 ± 15.7 and a final score of 85.0 ± 18.7. There were statistically significant differences in the HbA1c and BMI variables in the experimental group. In the control group, no statistically significant differences were observed in any of the variables. CONCLUSIONS: The implementation of therapeutic education programs, using strategies of psychotherapeutic intervention, in groups, in a (co) creation logic lead to gains in health. Keywords: Diabetes Mellitus, Type 2; Self-Control; Power (Psychology); Quality of Life RESUMEN CONTEXTO: La diabetes mellitus (DM) es considerada una emergencia global de salud, por el elevado número de muertes prematuras, pérdida de calidad de vida (QV) e incapacidad que genera.

62


Es urgente invertir en la promoción de la alfabetización en la persona con DM / familia buscando la maximización de las competencias para la (re) construcción de los proyectos de salud y capacitación para la autonomía y autogestión de la patología. Se trata de enfoques orientados hacia la obtención de ganancias en salud, en particular empoderamiento y QV, basados en la evidencia, en una lógica creativa e innovadora, con las personas con DM. OBJETIVO(S): Analizar las ganancias en salud derivadas de la educación terapéutica en grupo, en el nivel de la capacidad de autocontrol de la enfermedad, QV y de indicadores clínicos, de las personas con DM tipo 2. METODOLOGÍA: Estudio casi experimental, longitudinal y prospectivo. La muestra consta de 34 personas con DM tipo 2, objetivo de un programa de educación psicoterapéutica. Se utilizaron 3 instrumentos: Cuestionario de Caracterización Sociodemográfica y clínica; DESSF-versión breve de la Diabetes Empowerment Scale; Cuestionario de Evaluación de Ganancias en Salud (EQ-5D- 5L). RESULTADOS: El empoderamiento percibido presenta una media de 75,55 ± 24,09 inicial y 78,31 ± 18,50 después de la intervención. El índice de QV obtuvo una puntuación media previa de 83,8 ± 15,7 y final de 85,0 ± 18,7. Se observan diferencias estadísticamente significativas en el grupo experimental en las variables HbA1c e IMC. En el grupo de control no se observaron diferencias estadísticamente significativas en ninguna de las variables. CONCLUSIONES: La implementación de programas de educación terapéutica, utilizando estrategias de intervención psicoterapéutica, en grupo, en una lógica de (co) creación conduce a ganancias en salud. Palabras Clave: Diabetes Mellitus Tipo; Autocontrol; Poder (Psicología); Calidad de Vida INTRODUÇÃO A Diabetes Mellitus (DM) é atualmente considerada uma pandemia, com uma prevalência crescente a nível mundial, atingindo cerca de 425 milhões de pessoas (Internacional Diabetes Federation [IDF], 2017). Segundo o Observatório Nacional da Diabetes (OND, 2016), em Portugal, a taxa de prevalência, em pessoas com idades compreendidas entre os 20 e 79 anos, é de cerca de 13,3%, situando-o entre os países da Europa com uma das taxas de prevalência de DM mais elevada. O aumento crescente da prevalência desta patologia pode ser explicado pelas rápidas mudanças culturais e sociais, alterações alimentares, envelhecimento da população, sedentarismo, estilos de vida não saudáveis e outros padrões comportamentais, associados à crescente urbanização (OND, 2016). A gravidade das complicações e meios necessários para o controlo da DM, assim como os elevados custos que a mesma implica aos vários níveis nomeadamente, pessoal e familiar, social, e dos serviços de saúde, colocam esta patologia nas agendas políticas a nível mundial, sendo prioritário o desacelerar das suas curvas 63


epidémicas e a redução dos fatores de risco que lhe estão associadas (World Health Organization [WHO], 2013). A DM tratando-se de uma doença crónica com implicações complexas no quotidiano da pessoa e família assume influência inegável na sua qualidade de vida (QV), nomeadamente ao nível do domínio psicológico. A evidência tem vindo demonstrar associação positiva entre o diagnóstico de DM e diminuição da QV (WHO, 2013), sendo este decréscimo potenciado pela existência de complicações ((We, Cheung, Li, Fong & Thumboo, 2005). Apesar da abordagem com pessoas diagnosticadas com DM estar integrada em programas prioritários, em vários países, a sua prevalência crescente tem vindo a apontar o quão complexo tem sido essa intervenção. Torna-se fundamental o envolvimento multissetorial tendo em vista a promoção da literacia em saúde e o empoderamento efetivo da pessoa com DM/ família para a autonomia e autogestão da sua patologia. Procura-se o desenvolvimento de novas abordagens, com (e não para) as pessoas com DM tipo 2,

implementando

programas sistematizados de educação psicoterapêutica, partindo da produção da evidência da comunidade em causa, em grupo, procurando a obtenção de ganhos em saúde a diferentes níveis, a saber: empoderamento efetivo da pessoa com DM e família para a autonomia e autogestão da patologia, reduzindo as co morbilidades pela adoção de estilos de vida saudáveis, promovendo uma utilização mais adequada dos recursos da comunidade, nomeadamente dos serviços de saúde; promoção da literacia tendo em vista um envolvimento qualificado e intencional da pessoa em todo o seu processo de saúde; e a melhoria da comunicação com os profissionais de saúde tendo em vista o desenvolvimento de uma parceria efetiva em todo o processo terapêutico, no qual a pessoa com DM/família se tornam promotoras de ganhos em saúde. MÉTODOS Em alinhamento com os pressupostos ideológicos e com os objetivos enunciados, desenhouse um estudo “quasi-experimental”. A amostra foi constituída através de um processo de referenciação interna integrando 34 pessoas com DM tipo 2, inscritas em 2 USF do ACES do Alto Minho. Para o efeito, a equipa da Unidade Funcional da Diabetes, endocrinologistas e investigadores definiram os seguintes critérios de inclusão: pessoas com DM tipo 2 a frequentar as consultas, idade igual ou inferior a 75 anos; hemoglobina HbA1c compreendida entre 6,6 e 9%; diagnóstico da patologia efetuado há mais de 1 e menos de 10 anos; falar, escrever e compreender a língua portuguesa; e disponibilidade para participar no estudo. Como critério de exclusão considerase a pessoa grávida com DM. Os participantes foram alocados aleatoriamente nos dois grupos: grupo experimental (GE, n=17) e no grupo de controlo (GC, n=17), diferindo entre si apenas em termos de intervenção. 64


Ambos os grupos foram alvo de uma caracterização sociodemográfica e clínica, com avaliação do empoderamento e qualidade de vida nos timings correspondentes a antes e depois do programa. O programa de intervenção psicoterapêutica desenvolvido tem por base o programa de alteração de estilos de vida da pessoa com DM “Juntos é mais fácil”. Fazendo recurso a uma metodologia dinâmica, assente na técnica de entrevista motivacional e no modelo de mudança comportamental, o programa tem uma duração de 6 meses com 6 sessões educacionais (com duração de cerca de 2 horas). A sua implementação exige formação específica no respetivo programa, que neste estudo foi realizado por enfermeiros, integrando durante o primeiro mês três sessões semanais intensivas, nas quais são abordadas a motivação, atividade física e alimentação saudável. Seguem-se três sessões mensais de manutenção terminando-se com mais sessão para avaliação final realizada durante o 6º mês. Para a recolha de dados foram utilizados 3 instrumentos: Questionário de Caracterização Sociodemográfica e clínica; DES-SF- versão breve da Diabetes Empowerment Scale; e Questionário de Qualidade de Vida, Avaliação de Ganhos em Saúde (EQ-5D-5L), traduzidos e validados para a população portuguesa pelo CEISUC. A Escala de Capacidade de Controlo da Diabetes - Versão Breve (DES-SF) possibilita uma breve avaliação global da autoeficácia psicossocial da pessoa com DM, através de oito itens, contruída a partir do questionário original DES- Diabetes Empowerment Scale (Anderson, Fitzgerald, Gruppen & Funnel, 2003), o qual contém 37 itens, representando oito dimensões conceptuais: avaliar a necessidade de mudança; desenvolver um plano; superar barreiras; pedir apoio; apoiar-se; motivar-se; lidar com a emoção; e fazer escolhas de cuidados para a diabetes apropriadas segundo a prioridade e circunstância De acordo com o Anderson et al. (2003), a fiabilidade deste instrumento, determinada pelo Alfa(α) de Cronbach, foi de 0.84 sugerindo uma boa consistência interna. O questionário de Avaliação de Ganhos em Saúde (EQ-5D-5L) foi desenvolvido pelo EuroQoL, tendo por base um sistema classificativo composto por cinco dimensões, a saber: mobilidade, cuidados pessoais, atividades habituais, dor/mal-estar e ansiedade/depressão. Este instrumento permite obter informação sobre a qualidade de vida relacionada com a saúde, ao qual acresce uma Escala Visual Analógica, o termómetro EQ-VAS, que permite um autopreenchimento da avaliação que a pessoa faz do seu estado de saúde atual, num valor entre 0 (zero) correspondente à pior saúde imaginável, e 100 (cem) que representa a melhor saúde imaginável (Ferreira, Ferreira e Pereira, 2013). RESULTADOS Caracterização sociodemográfica e clínica: Amostra (n=34) caracteriza-se por ser maioritariamente masculina (58,8%), com uma idade média ± desvio padrão (dp) de 61,9 ± 7,4 anos, com cerca de 94,1% a viverem 65


acompanhados, 55,9 % a exercerem de forma ativa uma atividade profissional, baixa escolaridade, com cerca de 82,4% a apresentam o ensino básico como o nível mais elevado de educação. Do ponto de vista clínico, os inquiridos apresentam um tempo de diagnóstico médio ± dp de 6,2 ± 3,3 anos, com cerca de 76,5% a utilizarem antidiabéticos orais como forma de tratamento, e cerca de 17,6% a referirem pelo menos uma complicação associada à DM. A amostra evidencia baixa adesão ao regime terapêutico não medicamentoso, com

uma

percentagem inicial de cerca de 67,6% de participantes que não cumpre/cumpre às vezes a dieta e cerca de 58,8% a referir não praticar exercício físico. Em termos de valor médio ± dp de HbA1c (%), o GE apresenta um valor prévio de 7,3±0,8 e de 6,8±0,9 à posteriori da intervenção terapêutica, sendo a diferença estatisticamente significativa (p= 0,002), visível na Tabela 1. No que concerne a esta variável, o GC não evidenciou uma diferença estatisticamente significativa (p= 0,864) entre o valor médio ± dp inicial (7,4±0,98) e final (7,5±1,6), tal como se pode verificar na Tabela 2. Em termos de IMC, o valor médio ± dp iniciais do GE e GC foram de 28,4±3,2 e 30,4±3,5 (kg/m2) respetivamente, com um valor final de 27,6±3,3 (kg/m2) no GE, e 30,2±4,0 (kg/m2) no GC. A análise inferencial demonstrou existir diferença estatisticamente significativa (p=0,009) apenas no GE (Tabela 1). Autoperceção de empoderamento e qualidade de vida: Relativamente ao empoderamento percebido, o instrumento DES- SF, em termos de fiabilidade avaliada pelo Alpha (α) de Cronbach obteve um valor de 0,876, no primeiro momento de recolha de dados, o que segundo Marôco e Garcia- Marques (2006) lhe atribuiu uma fiabilidade moderada a elevada. No segundo momento de recolha de dados o valor de Alpha de Cronbach foi de 0,928 conferindo-lhe de acordo com os mesmos autores uma fiabilidade elevada (Marôco e Garcia- Marques, 2006). O valor médio ± dp inicial deste construto foi de 75,55±24,09 no GE e 55,7±13,5 no GC, e após a intervenção de 78,31±18,50 (GE) e 57,5±16,2 (GC). Pese embora se constate um aumento da média do DES- SF após a intervenção terapêutica, quer no GE (p=0,684), quer no GC (p=0,377), esta diferença não é estatisticamente significativa como se pode verificar na Tabela 1 e 2. Quanto ao índice de QV, o GE evidenciou uma média ± dp prévia à intervenção de 83,8±15,7 e à posteriori de 85,0± 18,7. O GC obteve neste construto uma média ± dp inicial de 86,5±13,9 e final de 86,6±14,8. Não há diferenças estatisticamente significativas em nenhum dos grupos (GE: p=0,426; GC: p= 0,893) relativamente ao índice de QV (Tabelas 1 e 2).

66


Tabela 1_MÊdia, desvio padrão e valor de prova, do GE obtida no DES- SF, EQ-5D-5L, IMC e HbA1c prÊvia e posteriori à intervenção VARIà VEL

Ě… Âądp INICIAL đ?‘ż

Ě… Âądp FINAL đ?‘ż

Valor de prova

DES-SF

75,6Âą24,1

78,3Âą18,5

0,684*

EQ-5D-5L

83,8Âą15,7

85,0Âą18,7

0,426**

IMC

28,4Âą3,2

27,6Âą3,3

0,009**

HbA1c

7,3Âą0,8

6,8Âą0,9

0,002**

Legenda: *Teste t ** teste de Wilcoxon

Tabela 2_MÊdia, desvio padrão e valor de prova do GC obtida no DES- SF, EQ-5D-5L, IMC e HbA1c prÊvia e posteriori à intervenção VARIà VEL

Ě… Âądp INICIAL đ?‘ż

Ě… Âądp FINAL đ?‘ż

Valor de prova

DES-SF

55,7Âą13,5

57,5Âą16,2

0,377*

EQ-5D-5L

86,5Âą13,9

86,6Âą14,8

0,893**

IMC

30,4Âą3,5

30,2Âą4,0

0,433**

HbA1c

7,4Âą0,98

7,5Âą1,6

0,864**

Legenda: *Teste t ** teste de Wilcoxon

DISCUSSĂƒO Predominantemente

masculina,

a

amostra

revela-se

congruente

com

os

dados

(inter)nacionais, nos quais a prevalência da DM nos homens Ê superior à verificada nas mulheres (IDF, 2017, OND, 2016, Wu, Liang, Lee, Yu & Kao, 2013). Tal como em outros estudos realizados com pessoas com DM tipo 2 a escolaridade dos inquiridos Ê baixa (Lopes, 2014) e maioritariamente vivem em co-residência, o que demonstra a exigência de retaguarda familiar/ social em concordância com os resultados obtidos no estudo realizado na população portuguesa pelo Instituto Nacional de Estatística (INE, 2014). Em termos clínicos, verifica-se que o valor mÊdio ¹ desvio padrão de HbA1c apresentados são próximos de 7%, o que segundo a American Diabetes Association (ADA)corresponde ao valor ao qual estå associado uma redução das complicaçþes associadas à DM (ADA, 2018). Pese embora a intervenção terapêutica tenho apresentado ganhos em saúde ao nível do valor mÊdio ¹ desvio padrão do IMC, os valores apresentados correspondem a prÊ obesidade (Direção Geral da Saúde [DGS], 2004), o que associado à pråtica insuficiente de exercício físico constituem fatores de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares em

67


pessoas com DM (WHO, 2013), sendo fundamental para a efetividade do tratamento farmacológico a adoção de hábitos de vida saudáveis ( Costa, Balga, Alfenas & Cotta, 2011). Os ganhos em saúde obtidos, nomeadamente nas variáveis HbA1c e IMC, decorrentes da implementação da intervenção terapêutica corroboram os resultados obtidos em outros estudos (inter)nacionais (Martínez-Castañeda et al., 2016; Morais, Pimenta, Ferreira, Boavida e Amorim, 2015). Apesar dos resultados evidenciarem um aumento da autoperceção de empoderamento e da QV, o mesmo não é estatisticamente significativo, o que pode ser explicado quer pelo tamanho da amostra quer pela perceção de empoderamento e de QV relativamente elevados no primeiro momento de recolha de dados, o que associados a uma baixa adesão ao regime terapêutico não medicamentoso constituiu um importante momento de reflexão de todos os intervenientes deste estudo de investigação, tornando-se evidente a necessidade de promoção da conscientização da pessoa (Freire, 2018) com DM do seu estado de saúde e da auto perceção de empoderamento. CONCLUSÃO A implementação de programas de intervenção terapêutica, com recurso a estratégias individuais e de grupo, com recurso a entrevistas motivacionais e envolvimento dos pares numa lógica de (co)criação, tem revelado melhoria nos indicadores clínicos e nos construtos autoperceção de empoderamento e QV. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA A evidência produzida, neste estudo, corroborada por outras nacionais (Morais et al., 2015) e internacionais (Martínez-Castañeda et al., 2016), vem apontar para maior efetividade das abordagens psicoterapêuticas com programas sistematizados, em grupo, pelo menos no imediato. A interação e compromisso estabelecidos entre o grupo, em resultado da descoberta de sentidos entre quem cuida e quem é cuidado (Collière, 1986) numa lógica emancipatória e critica (Freire, 2018) abre caminhos a novas abordagens, que urge ampliar. Esta experiência tem vindo a ser liderada por enfermeiros integrados em equipas multidisciplinares, constituindo uma oportunidade de os mesmos assumirem um papel fundamental ao nível da gestão da doença crónica, com uma prática assente na evidência e nos ganhos que advém da sua intervenção. Sendo uma intervenção psicoterapêutica dirigida à pessoa com DM, permite melhorar os resultados obtidos ao nível desta patologia, melhorando o capital social e humano, com consequente redução dos custos associados à medicação, hospitalizações e incidentes de emergência (Wong et al., 2015; Gagliardino et al., 2013).

68


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Qualidade de vida e bem-estar do profissional do pré-hospitalar: revisão integrativa Ana Sá Fernandes*, & Sílvia Patrícia Coelho** *Enfermeira Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica; Doutoranda em Enfermagem, Instituto de Ciências da Saúde, Universidade Católica Portuguesa, Rua Diogo de Botello, 1327, 4169-005 Porto, Portugal, Tlm: 915602750. E-mail: sa.fernandes.na@gmail.com **Doutora em Enfermagem; Enfermeira Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica; Professora Auxiliar convidada da Universidade Católica Portuguesa - Instituto de Ciências da Saúde, Doutora em Enfermagem, Rua Diogo de Botello, 1327, 4169-005 Porto, Portugal, Tlf: 226916242. Email: sfcoelho@porto.ucp.pt RESUMO CONTEXTO: As transformações que surgem como consequência do trabalho por turnos afeta a qualidade de vida do profissional. OBJETIVO(S): Compreender a relação entre qualidade de vida e bem-estar do profissional do pré-hospitalar quanto à qualidade do sono, fadiga e os turnos rotativos. MÉTODOS: Revisão integrativa com pesquisa na base de dados b-ON em setembro de 2018. Elegível para análise 5 estudos. RESULTADOS: A falta de qualidade do sono e a fadiga afetam a maioria dos profissionais do pré-hospitalar. Turnos rotativos, excesso de trabalho, fadiga e dificuldade em dormir coloca em risco a segurança da vítima e o desempenho do profissional. CONCLUSÕES: Adotar hábitos saudáveis e ter um padrão de sono regular previne o desgaste que os turnos rotativos promovem. Um profissional com mente saudável evita riscos acrescidos para a vítima e para o próprio. Palavras-Chave: Técnico de emergência ou Paramédico; Fadiga; Trabalho por turnos; Privação de sono ou Transtorno do sono. ABSTRACT BACKGROUND: The transformations that arise as a consequence of shift work affect the quality of life of the professional. AIM: To understand the relationship between quality of life and the well-being of the prehospital professional regarding sleep quality, fatigue and rotational shifts. METHODS: Methodology: Integrative review with b-ON database research in September 2018. Eligible for analysis 5 studies.

71


RESULTS: Poor sleep quality and fatigue affect most prehospital professionals. Rotational shifts, overwork, fatigue, and difficulty in sleeping put the safety of the victim and the performance of the professional at risk. CONCLUSIONS: Adopting healthy habits and having a regular sleep pattern prevents the wear and tear that rotating shifts promote. A healthy-minded professional avoids increased risks for the victim and for the self. Keywords: Emergency or Paramedical Technician; Fatigue; Shift Work; Sleep Deprivation or Sleep Disorder. RESUMEN CONTEXTO: Las transformaciones que surgen como consecuencia del trabajo por turnos afecta la calidad de vida del profesional. OBJETIVO(S): Comprender la relación entre calidad de vida y bienestar del profesional del prehospitalario en cuanto a la calidad del sueño, fatiga y los turnos rotativos. METODOLOGÍA: Revisión integrativa con investigación en la base de datos b-ON en septiembre de 2018. Elegible para análisis 5 estudios. RESULTADOS: La falta de calidad del sueño y la fatiga afectan a la mayoría de los profesionales del prehospitalario. Los turnos rotativos, exceso de trabajo, fatiga y dificultad para dormir ponen en riesgo la seguridad de la víctima y el rendimiento del profesional. CONCLUSIONES: Adoptar hábitos saludables y tener un patrón de sueño regular previene el desgaste que los turnos rotativos promueven. Un profesional con mente sana evita mayores riesgos para la víctima y para el propio. Palabras Clave: Técnico de emergencia o Paramédico; Fatiga; Trabajo por turnos; Privación de sueño o Trastorno del sueño. INTRODUÇÃO A complexidade dos cuidados prestados no pré-hospitalar (PH), obrigam a que existam profissionais da emergência pré-hospitalar (PEPH) escalados ao longo das 24 horas (h) para socorrer, a qualquer hora, pessoas que carecem de cuidados. (Vandale, 2013). Os profissionais que prestam cuidados em situações de urgências-emergência e que asseguram turnos em horário rotativo, por vezes, em condições difíceis e com rápido desgaste físico-mental apresentam um padrão de sono irregular e repouso pouco saudável, o que pode colocar em causa, a segurança e a qualidade dos cuidados prestados. Uma boa qualidade do sono promove estabilidade ao organismo e permite manter bons níveis hormonais e energéticos porque um sono reparador é essencial para promover o bem-estar do ser humano a nível físico, psicológico e neurológico. A privação prolongada do sono provoca alterações nas células imunitárias especializadas e nas citocinas, o que implica uma redução da resposta imunitária e a capacidade de aprender tarefas simples (Vandale, 2013). Um fator que 72


influência a adaptação ao trabalho no período diurno/noturno depende da predisposição que o ser humano tem em se sentir mais revigorado com o nascer ou por do sol (Harrington, 2005). À medida que envelhecemos temos mais dificuldade em adormecer e em dormir por longos períodos, o que torna o período de sono mais curto e pouco reparador (Harrington, 2005; Vandale, 2013). Os horários rotativos, a falta de tempo para repouso devido ao tempo reduzido entre turnos ou o excesso de trabalho promovem um conjunto de alterações no organismo, o que pode ocasionar dificuldade em dormir e reduzir o período disponível para um sono tranquilo. Estes fatores favorecerem as insónias e a dificuldade em dormir, principalmente, antes do turno de trabalho (Patterson, Sofianopoulos & Williams, 2014). As interrupções do padrão do sono impulsionam as perturbações do sono e alteram de forma significativa o ciclo circadiano do organismo (Myers, Haney, Griffiths, Pierse & Powell, 2015; Patterson et al., 2014). O turno noturno é o turno mais complexo porque implica que o PEPH não pode dormir, tem de estar mais alerta e desperto para não adormecer (Harrington, 2005; Machi, et al., 2012; Patterson et al., 2014). A escolha pela PEPH recaiu pela importância que estes mantenham os seus sentidos totalmente operacionais, e cognitivamente alerta, para manterem e transmitirem segurança e calma na sua atuação porque precisam de dar o melhor desempenho num momento em que estão sozinhos, em que a vida de uma vítima depende unicamente da sua atuação, perspicácia, conhecimentos e competência, em locais por vezes, completamente desconhecidos e perigosos. O estado de vigília é afetado pelos efeitos neurocomportamentais e como consequência, pode comprometer o desempenho e influenciar a tomada de decisão (Sugden, Athanasiou & Darzi, 2012). Uma das causas de um descanso deficiente é a fadiga, que ainda que seja difícil de avaliar (Harrington, 2005), é um problema referido pelos profissionais e que apresenta níveis de insatisfação entre eles (Harrington, 2005; Patterson, Suffoletto, Kupas, Weaver & Hostler, 2010). O presente artigo de revisão integrativa da literatura tem como objetivo compreender a relação entre qualidade de vida e bem-estar do PEPH quanto à qualidade do sono, fadiga e os turnos rotativos. MÉTODOS Considerando o objetivo formulado, elaboramos a questão de partida segundo o método PICO: a qualidade do sono, a fadiga e o trabalho por turnos rotativos afeta a qualidade de vida e bem-estar do PEPH? Para fazer a diferença na assistência à saúde, é imprescindível vincular o conhecimento oriundo de pesquisas e da prática clínica. Para dar resposta à questão de investigação realizamos uma revisão integrativa com pesquisa avançada na base de dados b-ON, durante o mês de setembro de 2018. Os descritores DeSC e MeSH utilizados na pesquisa foram Emergency technician or Emergency responders; Fatigue; Shift work; Sleep deprivation or Sleep disorder. 73


A pesquisa foi conduzida de forma independente por dois investigadores para haver concordância na seleção. Os critérios de inclusão tiveram em consideração publicações científicas em periódicos/revistas científicas, em texto integral, artigos originais e revistos por especialistas publicados a partir do ano de 2008. Os critérios de exclusão foram artigos publicados com mais de 10 anos, duplicados e cujo título/resumo/corpo de texto não enquadrava no tema em estudo. Para melhor enquadrar a sequência de pesquisa realizada e apresentar a seleção dos artigos usamos como referência o Diagrama 1 segundo o Diagrama Prisma, 2009. A primeira etapa consistiu em eliminar os artigos duplicados. De seguida, com base na leitura do título e resumo excluímos os que não se enquadravam no

Incluídos

Elegibilidade Seleção Identificação

tema. Por último, foi feita a leitura integral dos artigos e permaneceram 5 para análise.

Artigos com critérios de inclusão/exclusão: n= 1045

Noutras fontes: n=0

Artigos duplicados eliminados: n= 239

Artigos vistos: n= 806

Artigos com texto completo elegível para avaliação: n= 390

Artigos excluídos por título e resumo diferentes do tema: n= 416

Artigos com texto integral excluídos por conteúdo não se enquadrar no estudo: n= 385

Artigos com síntese qualitativa incluídos: n= 5

Diagrama 1_Sequência dos artigos – Prisma 2009 Dos estudos previamente publicados e dos estudos analisados identificamos que algumas das limitações foram: amostras pouco representativas da população (Caputo et al., 2015; Courtney, Francis & Paxton, 2010; Guyette, Morley, Weaver, Patterson & Hostler, 2013; Myers et al., 2015; Patterson et al., 2010; Sofianopoulos, Williams, Archer & Thompson, 2011), pouco número de saídas (Guyette et al., 2013), poucos estudos sobre a fadiga nos profissionais (Myers et al., 2015; Patterson et al., 2010). RESULTADOS Para a análise dos 5 artigos selecionados, foi construída a Tabela de evidências 1 que apresenta uma síntese dos artigos.

74


Tabela 1_Resumo dos artigos analisados Ano

Título do Artigo

Autores

2010

Caring for the Country: Fatigue, Sleep and Mental Health in Australian Rural Paramedic Shiftworkers The exploration of physical fatigue, sleep and depression in paramedics: a pilot study Association between poor sleep, fatigue, and safety outcomes in emergency medical services providers

Courtney, Francis, & Paxton.

2011

2012

2013

2015

The effect of shift length on fatigue and cognitive performance in air medical providers The impact of changing work schedules on American firefighters’ sleep patterns and well-being

Amostra Tipo de estudo Estudo quantitativo transversal. 342 paramédicos

Conclusões do estudo Houve uma redução no exercicio físico e risco elevado de niveis de fadiga, fraca qualidade do sono e depressão

Sofianopoulos, Williams, Archer, & Thompson.

Estudo quantitativo, amostragem por conveniência. 60 paramédicos

A fraca qualidade de sono se reflete em cansaço, fadiga e baixo rendimento no trabalho.

Patterson, Weaver, Frank, Warner, Martin-Gill, Guyette, Fairbanks, Hubble, Songer, Callaway, Kelsey, & Hostler. Guyette, Morley, Weaver, Patterson, & Hostler.

Estudo quantitativo, amostragem por conveniência e corte transversal. 2 253 Serviço de emergência médica Estudo quantitativo, amostragem por conveniência. 34 enfermeiras e paramédicos Estudo quantitativo. 269 Bombeiros

Um sono deficitário e a fadiga são comuns entre os profissionais do serviço de emergência médica.

Caputo, Hawkes, Gosche, Vellman, Lange, Salottolo, Coniglio, & Mains.

No meio helicoptero não houve diferença entre turnos de 12h ou 24h com casuistica baixa a moderada. Nos turnos de 24h/96h, o descanso é benéfico porque melhorou a qualidade do sono, o bem-estar, as relações e funções sociais.

No estudo de Caputo et al. (2015), nos turnos rotativos com a duração de 48h de trabalho intercaladas com 96h de descanso, o PEPH sentiu-se mais revigorado e exprimiu sentimentos de satisfação por ter mais tempo disponível, tinha a perceção de que houve uma redução da interferência do horário de trabalho nas atividades domésticas e de lazer. Ao associar a satisfação sentida, houve uma diminuição do risco de fadiga e dos efeitos adversos, o que deu origem a uma tendência para a redução da síndrome de burnout. No estudo de Courtney et al. (2010), em 70% da amostra, trabalhar por turnos foi apontado como a principal causa para a má qualidade de sono. Mais de metade dos PEPH referiu exibir fadiga severa o que teve repercussões negativas tais como, predisposição para o stress, depressão e ansiedade. Os níveis de atividade física eram baixos porque os PEPH tinham dificuldade em conciliar horários para praticar exercício regular e não conseguiam comprometer-se com atividades desportivas, como resultado dos horários rotativos e como consequência, da baixa atividade física tinha uma influência negativa, na saúde e bem-estar do PEPH, o que poderia comprometer o desempenho de um bom trabalho. No estudo de Guyette et al. (2013), a falta de descanso afetou o PEPH porque levou à sensação de fadiga e esta, teve um aumento nos turnos longos, à medida que o mesmo ia avançado. No estudo de Patterson et al. (2012), as alterações no padrão do sono levaram a que o PEPH não conseguisse ter um repouso adequado e surgisse a sensação de fadiga.

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Não estar mentalmente apto a 100% levou ao comprometimento do desempenho profissional porque influenciou negativamente o PEPH, aumentou o risco de segurança para si e para a vítima, e aumentou a probabilidade de se ver envolvido num evento adverso. No estudo de Sofianopoulos et al. (2011), a fadiga esteve associada aos turnos rotativos, a trabalhar no período noturno, a dificuldade em conseguir dormir e a incapacidade de descanso suficiente que levou à má qualidade do sono do PEPH. A garantia de bons cuidados de saúde implicou que existisse segurança nos cuidados prestados e que se elimine e/ou minimize a probabilidade de eventos adversos e do erro clínico. DISCUSSÃO Em estudos prévios, trabalhar por turnos levou à disfunção familiar e a períodos solitários porque a dificuldade em conciliar o horário com eventos sociais e familiares leva à perda de eventos sociais, desportivos e reuniões, encontros familiares e de amigos porque está a dormir ou a trabalhar, o que implica efeitos devastadores nas relações familiares e sociais (Harrington, 2005; Vandale, 2013). A vida do casal acaba por sofrer um impacto negativo, em particular, quando o profissional faz muitos turnos no período noturno. A ausência de um dos conjugues origina uma quebra na rotina e afasta o casal e poderá alterar o seu papel parenteral junto dos filhos, com ausências na educação ou em situações que deveriam ser dirigidas pelo casal, o que poderá promover conflitos (Harrington, 2005). Em 95% dos PEPH a má qualidade de sono era mais significativa quando os turnos tinham a duração igual ou superior 12h. A relação que a duração das h de trabalho tem com a fadiga foi variável. Por norma, nos turnos de 24h, os profissionais sentiam pouca fadiga, mas aumentava ao longo do turno (Guyette et al., 2013). Os profissionais com um horário rotativo de 48h ininterruptas de trabalho referiram sentir-se com fadiga nas primeiras 24h pós-turno, mas depois sentiamse revigorados porque conseguiam orientar a vida pessoal, estar mais tempo em casa, participar em atividades de lazer, desfrutar de momentos com a família e amigos, ter outras atividades e reduzir, a transição entre turnos de trabalho (Caputo et al., 2015). Os turnos longos têm a vantagem de permitir ao PEPH descansar ao longo do turno, enquanto não houver nenhuma ativação e reduzir a fadiga (Patterson et al., 2012). Em estudos prévios, cerca de metade dos PEPH mostraram fadiga física e mental (Fass, 2015; Harrington, 2005; Machi et al., 2012; Patterson et al., 2014; Patterson et al., 2010; Vandale, 2013) que foi um achado consensual entre os estudos analisados. O trabalho por turnos foi considerado pelos PEPH como a principal causa da fadiga (Courtney et al., 2010) e foi encontrada uma correlação negativa entre fadiga e qualidade do sono (Sofianopoulos et al., 2011). Estudos referiram que a maioria dos PEPH referia que a sensação de fadiga era sentida à medida que as h no turno aumentavam (Myers et al., 2015), atingia o seu pico no final do turno e estava presente nos momentos seguintes pós-turno (Machi et al., 2012; Myers 76


et al., 2015). O volume de saídas no PH é variável, imprevisível e depende de vários fatores (Vandale, 2013) e.g., a sazonalidade e a concentração populacional. Quando o número de saídas aumenta, também aumenta a probabilidade de estarem perante situações emocionalmente difíceis, o que pode originar desgaste físico e mental (Patterson et al., 2012). O turno da noite foi o turno em que a fadiga era mais comum entre os PEPH, mas o descanso insuficiente, a má qualidade do sono (Sofianopoulos et al., 2011) e os turnos prolongados (Courtney et al., 2010) também foram apontados como causas. Machi et al. (2012) verificou que 38,4% dos PEPH de estudo apresentavam fadiga severa, o que coincidiu com Patterson et al. (2010) que apurou que a fadiga se tornou severa durante o período de trabalho. Outros estudos apuraram que a maioria dos PEPH referiram que a qualidade do sono era insatisfatória (Harrington, 2005; Patterson et al., 2010; Patterson et al., 2014) porque sofriam interrupção do padrão do sono (Harrington, 2005; Myers et al., 2015; Patterson et al., 2014). As causas mais comuns eram a falta de tempo entre turnos para descansar ou o excesso de trabalho (Patterson et al., 2014) que aumentava os riscos na segurança dos profissionais e da vítima (Harrington, 2005; Myers et al., 2015; Patterson et al., 2010; Sugden et al., 2012) e a probabilidade de acontecer um acidente (Patterson et al., 2010). A sonolência é um problema que afeta o profissional, mesmo nos dias de folga, que tem um impacto variável (Caputo et al., 2015; Sofianopoulos et al., 2011) e pode surgir devido à fadiga e à privação do sono, o que torna importante que os PEPH façam pausas no período noturno (Dembe, Erickson, Delbos & Banks, 2005). Sofianopoulos et al. (2011), concluiu que os PEPH sofriam de sonolência diurna mesmo quando executavam tarefas, tais como, manusear/administrar medicação ou conduzir em emergência, com 48% dos PEPH a referirem já ter adormecido ou “dormitado” durante a condução o que constitui um risco para o próprio, para a vítima e para terceiros. O grau de sonolência varia entre PEPH, 41% apresentavam sonolência ligeira (Caputo et al., 2015), 60% referiam ter muito sono, 30% relataram que tinham sonolência excessiva, em especial, no período diurno e 10% sentiam-se perigosamente sonolentos (Sofianopoulos et al., 2011). Seja na condução ou a executar outras atividades, os PEPH apresentaram um risco de erro e de lesão/acidente 2,3 vezes maior que os profissionais que apresentavam uma boa qualidade do sono (Patterson et al., 2012). De estudos com médicos, paramédicos, bombeiros (Harrington, 2005; Machi et al., 2012; Myers et al., 2015; Patterson et al., 2010; Sugden et al., 2012; Vandale, 2013), fica a perceção que a fadiga e o distúrbio do sono estão relacionados com o erro e comprometeram o desempenho profissional, a tomada de decisão, a segurança e aumentaram o risco de erro clínico ou acidente para o profissional e para a vítima. Nos artigos analisados (Patterson et al., 2012; Sofianopoulos et al., 2011), observamos que os PEPH que trabalharam por turnos longos tinham uma maior perceção de que a segurança estava comprometida devido à probabilidade de cometer um erro ou de estar envolvido num evento adverso. No estudo de 77


Patterson et al. (2012), os PEPH consideraram ter a perceção de que a sua segurança e a segurança da vítima estavam comprometidas 2,7 vezes mais, do que os profissionais que consideravam ter uma boa qualidade de sono. Os PEPH que apresentavam fadiga tinham 2,9 vezes maior probabilidade de lesão que os que não apresentavam sinais de fadiga. Quando questionados sobre a sensação de comprometimento da segurança, 90% dos PEPH referiram que nos 3 meses prévios tinham sentido que a segurança da vítima tinha estado em risco como consequência da fadiga e da privação de um sono. Os PEPH com fadiga consideraram que a sua segurança e a da vítima esteve comprometida 4,9 vezes mais, que os profissionais sem sinais de fadiga. O que aumentou a probabilidade 2,3 vezes mais, de o PEPH cometer um erro clínico ou de se ver envolvido num evento adverso em comparação com os profissionais que não apresentaram sinais de fadiga. No estudo de Guyette et al. (2013), os investigadores deduziram que os profissionais apresentavam pouca fadiga porque podiam descansar ao longo do turno de trabalho e tinham uma baixa casuística, o que era benéfico. Em outros estudos, trabalhar por turnos no préhospitalar predispôs o PEPH a uma alimentação pouco saudável (Harrington, 2005; Patterson et al., 2014) e comprovaram que fazer exercício físico podia reduzir a sensação de fadiga e os efeitos negativos dos turnos rotativos (Fass, 2015; Harrington, 2005; Vandale, 2013) o que permitiu reduzir o risco de desenvolver a síndrome de burnout (Patterson et al., 2014). Courtney et al. (2010), observou que os PEPH tinham dificuldade em praticar exercício regular porque não conseguiam comprometer-se com atividades desportivas, devido aos horários, o que implicava uma influência negativa na saúde e bem-estar do profissional. Em vários estudos consultados, a privação do sono, as longas horas de trabalho e o estilo de vida a que o profissional está sujeito, aumentou o risco dos PEPH sofrerem vários problemas de saúde (Fass, 2015; Harrington, 2005; Myers et al., 2015; Patterson et al., 2014; Patterson et al., 2010), tais como, alterações hormonais e de humor, problemas cardiovasculares, gastrointestinais, de saúde mental. Estes últimos podendo manifestar-se como ansiedade, depressão, perda de prazer ou desinteresse nas atividades diárias, baixa autoestima, isolamento social, dificuldade na concentração, alterações do apetite com tendência a apresentar aumento de peso, em que, segundo Patterson et al. (2010), 84,6% da sua amostra tinha apresentado peso acima da média. A depressão apresentou valores na região rural que rondou os 42,9% e na região urbana os 36,1% com o realce para a depressão leve a moderada foi a mais prevalente no meio rural, a afetar 30,8%. O stress não saudável que é aquele que causa efeitos negativas afetou cerca de 39% dos PEPH do meio rural/urbano e oscilou entre o stress ligeiro a muito severo. A ansiedade moderada rondou os 12%. Ambos os fatores surgiram como consequência do trabalho por turnos com a duração de 24h. Assim como, a ansiedade e o stress (Courtney et al., 2010) e diferentes níveis de depressão e síndrome de burnout (Courtney et al., 2010; 78


Sofianopoulos, Williams, Archer & Thompson, 2011). O estudo de Patterson et al. (2014) suportou o estudo de Caputo et al. (2015) que concluiu que quando o PEPH conseguiu reduzir a fadiga e promover o descanso houve tendência para a redução da síndrome de burnout. Quando comparados os profissionais que não faziam h extras com os que trabalhavam h extras em excesso, Dembe et al. (2005) concluiu que ocorreu um aumento substancial no risco de lesão física, o que sustenta o estudo de Patterson et al. (2012) que concluiu que o aumento da probabilidade de risco de lesão estava presente nos profissionais que apresentavam sinais de fadiga como consequência dos turnos e h extras em excesso. Está descrito que a fadiga aumenta o risco ergonômico porque aumenta os níveis de cortisol e diminui o consumo da água o que origina desidratação. Com o alongar deste processo, os profissionais perdem volume e como consequência, a sua flexibilidade o que origina lesões físicas (Fass, 2015). Concluímos que na sequência da análise dos estudos observamos que a falta de qualidade do sono foi um problema que afetou mais de metade dos PEPH (Courtney et al., 2010; Guyette et al., 2013; Patterson et al., 2012; Sofianopoulos et al., 2011) e a sensação de fadiga foi um ponto consensual entre os PEPH que trabalham por turnos (Caputo et al., 2015; Courtney et al., 2010; Guyette et al., 2013; Patterson et al., 2012; Sofianopoulos et al., 2011). A fadiga foi um problema que afetou o PEPH e que surgiu associada aos turnos longos. Outra causa, que levou a surgir fadiga foi o insuficiente descanso que em alguns casos colocaram em causa o desempenho e a segurança do profissional e da vítima (Courtney et al., 2010). Com o aumento da duração do turno houve uma maior perceção de que a segurança do próprio e da vítima esteve comprometida (Patterson et al., 2012; Sofianopoulos et al., 2011) porque os turnos mais longos contribuíram para o cansaço físico, mental e para um desempenho insatisfatório (Courtney et al., 2010; Sofianopoulos et al., 2011). A maioria dos profissionais acreditavam que a fadiga tinha uma relação direta e negativa, no seu desempenho porque predispunha ao erro na prestação de cuidados (Sofianopoulos et al., 2011). CONCLUSÃO Os PEPH são confrontados com a privação e má qualidade de sono, o que influência a sua capacidade de concentração, promove a fadiga e interfere num bom desempenho profissional. Trabalhar por turnos, afeta o profissional a diferentes níveis, o que provoca alterações a nível da sua saúde, do humor e do bem-estar. Não há um sistema de turnos ideal porque qualquer pessoa tem associado a si, a predisposição de um conjunto de características fisiológicos e psicossociais que poderá permitir, uma melhor adaptação, a diferentes turnos e cargas horárias. Como limitação do estudo destacamos que são necessários mais estudos para ser possível conhecer a profundidade da problemática, com amostras maiores e abrangentes que permitam ser representativas da população que trabalha no pré-hospitalar. 79


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Caputo, L., Hawkes, A., Gosche, E., Vellman, P., Lange, N., Salottolo, K., Coniglio, R. & Mains, C. (2015). The impact of changing work schedules on American firefighters’sleep patterns and well-being. Signa Vitae, 10(1), 25-37. Courtney, J., Francis, A. & Paxton, S. (2010). Caring for the Country: Fatigue, Sleep and Mental Health in Australian Rural Paramedic Shiftworkers. Journal Community Health, 38, 178–186. Dembe, A., Erickson, J., Delbos, R. & Banks, S. (2005). The impact of overtime and long work hours on occupational injuries and illness: New evidence from the United States. Occupational and Environmental Medicine, 62, 588–597. Fass, B. (2015). Workplace Fatigue Creats Dangerous Risks for EMS Employees. Recuperado em: http://www.jems.com/articles/print/volume-40/issue-1/features/workplace-fatigue-createsdangerous-risk.html Guyette, F., Morley, J., Weaver, M., Patterson, P. & Hostler, D. (2013). The effect of shift length on fatigue and cognitive performance in air medical providers. Prehospital Emergency Care, 17, 23-28. Harrington, J. (2005). Health effects of shift work and extended hours of work. Occupational Environmental Medicine, 58, 68–72. Machi, M., Staum, M., Callaway, C., Moore, C., Jeong, K., Suyama, J., Patterson, D. & Hostler, D. (2012). The Relationship Between Shift Work, Sleep, and Cognition in Career Emergency Physicians. Academic Emergency Medicine, 19, 85–91. Myers, J., Haney, M., Griffiths, R., Pierse, N. & Powell, D. (2015). Fatigue in Air Medical Clinicians Undertaking High-Acuity Patient Transports. Prehospital Emergency Care, 19, 3643. Patterson, J., Sofianopoulos, S. & Williams, B. (2014). What paramedics think about when they think about fatigue: Contributing factors. Emergency Medicine Australasia, 26, 139-144. Patterson, P., Suffoletto, B., Kupas, D., Weaver, M. & Hostler, D. (2010). Sleep Quality and Fatigue among Prehospital Providers. Prehospital Emergency Care, 14, 187-193. Patterson, P., Weaver, M., Frank, R., Warner, C., Martin-Gill, C., Guyette, F., Fairbanks, R., Hubble, M., Songer, T., Callaway, C., Kelsey, S. & Hostler, D. (2012). Association between poor sleep, fatigue, and safety outcomes in emergency medical services providers. Prehospital Emergency Care, 16, 86–97. Sofianopoulos, S., Williams, B., Archer, F. & Thompson, B. (2011). The exploration of physical fatigue, sleep and depression in paramedics: a pilot study. Journal of Emergency Primary Health Care, 9(1). Sugden, C., Athanasiou, T. & Darzi, A. (2012). What Are the Effects of Sleep Deprivation and Fatigue in Surgical Practice?. Seminars in Thoracic and Cardiovascular Surgery, 24(3). 80


Vandale, K. (2013). Sleep Deprivation in EMS. Fire Engineering, 166(1).

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Imersão em saúde mental: relato de experiência Lucas Rodrigo Batista Leite*, Kaique Saimon Lemes Farias Rodrigues**, Daniela Sanches Couto***, Érika Aparecida Oliveira**** *Graduando em Saúde Coletiva; Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Cuiabá; Avenida Fernando Corrêa da Costa, nº 2367 - Bairro Boa Esperança. Cuiabá - Mato Grosso – Brasil - CEP: 78060-900, Telefone/PABX: +55 (65) 36158000, E-mail: batistaleitelucas@gmail.com ** Graduando de Enfermagem; Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Universitário do Araguaia; Avenida Valdon Varjão, nº 6.390. Barra do Garças - Mato Grosso – Brasil - CEP: 78600-000, Telefone: +55 66) 3402-0700; Email: kaiquesaimon@gmail.com *** Enfermeira; Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Universitário do Araguaia; Avenida Valdon Varjão, nº 6.390. Barra do Garças - Mato Grosso – Brasil -

CEP: 78600-000, Telefone: +55 (66) 3402-0700; E-mail:

dsanchescouto@gmail.com **** Psicóloga; Instituto de Educação, Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Cuiabá; Avenida Fernando Corrêa da Costa, nº 2367 - Bairro Boa Esperança. Cuiabá - Mato Grosso –

Brasil

-

CEP:

78060-900,

Telefone/PABX:

+55

(65)

3615-8000,

E-mail:

erikaapoliver@gmail.com RESUMO Estágios-vivéncias

funcionam

como

importantes

dispositivos

que

possibilitam

a

experimentação de um novo espaço de aprendizagem, sobretudo no cotidiano dos serviços de saúde. Nesta perspetiva, objetivou-se relatar sob a óptica dos membros da comissão organizadora, os impactos de curto e longo prazo da implementação do Projeto VER-SUS Região Metropolitana de Cuiabá, no Centro Oeste brasileiro. Com imersão de 10 dias no mês de janeiro de 2016, foi possível descrever o processo em seus três momentos de realização: a pré-vivéncia, a vivéncia e, a pós-vivéncia, bem como as dificuldades encontradas durante a aplicação do mesmo. A curto prazo, foi possível detetar que o processo de imersão, despertou o senso crítico durante a provocação de reflexões acerca do papel dos viventes como transformadores da realidade social a partir da construção coletiva do conhecimento numa abordagem transdisciplinar. Já a longo prazo, o Projeto VER-SUS/ RMC se mostrou uma emergente estratégia de sensibilização quanto à percepção da saúde como fator resultante da produção social, além de ter se constituído como ferramenta de inquietação aos estudantes do ensino superior, aos profissionais de saúde atuantes e aos membros das comunidades em que houveram a presença dos viventes, revelando a necessidade de se construir novos

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compromissos entre o Sistema único de Saúde brasileiro e as instituições de ensino, especialmente as de formação na área da saúde. Palavras-Chave: Estágios; Aprendizagem Baseada em Problemas; Sistema Único de Saúde (SUS); Saúde Mental. ABSTRACT Life stages work as important devices that allow the experimentation of a new learning space, especially in the daily life of health services. In this perspective, the objective was to report, from the perspective of the members of the organizing committee, the short and long term impacts of the implementation of the VER-SUS Metropolitan Region of Cuiabá Project in the Brazilian Midwest. With a 10-day immersion in the month of January 2016, it was possible to describe the process in its three moments of realization: the pre-experience, the experience and the post-experience, as well as the difficulties encountered during the application of the same. In the short term, it was possible to detect that the process of immersion aroused the critical sense during the provocation of reflections on the role of living as transformers of social reality from the collective construction of knowledge in a transdisciplinary approach. In the long term, the VER-SUS / RMC Project was an emerging strategy to raise awareness about health perception as a result of social production, as well as being a tool of concern for students of higher education, health professionals and to the members of the communities in which the living beings were present, revealing the need to build new commitments between the Brazilian Health System and institutions of education, especially health education. Keywords: Traineeships; Problem-Based Learning; Unified Health System; Mental Health. RESUMEN Las

etapas-vivencias

funcionan

como importantes

dispositivos

que

posibilitan

la

experimentación de un nuevo espacio de aprendizaje, sobre todo en el cotidiano de los servicios de salud. En esta perspectiva, se objetivó relatar desde la óptica de los miembros de la comisión organizadora, los impactos de corto y largo plazo de la implementación del Proyecto VER-SUS Región Metropolitana de Cuiabá, en el Centro Oeste brasileño. Con inmersión de 10 días en el mes de enero de 2016, fue posible describir el proceso en sus tres momentos de realización: la pre-vivencia, la vivencia y la post-vivencia, así como las dificultades encontradas durante la aplicación del mismo. A corto plazo, fue posible detectar que el proceso de inmersión, despertó el sentido crítico durante la provocación de reflexiones acerca del papel de los vivientes como transformadores de la realidad social a partir de la construcción colectiva del conocimiento en un abordaje transdisciplinario. A largo plazo, el Proyecto VER-SUS / RMC se mostró una emergente estrategia de sensibilización en cuanto a la percepción de la salud como factor resultante de la producción social, además de haberse constituido como herramienta de inquietud a los estudiantes de la enseñanza superior, a los 83


profesionales de salud y los miembros de las comunidades en que hubo la presencia de los vivos, revelando la necesidad de construir nuevos compromisos entre el Sistema único de Salud brasileño y las instituciones de enseñanza, especialmente las de formación en el área de la salud. Palabras Clave: Pasantías; Aprendizaje Basado en Problemas; Sistema Único de Salud; Salud Mental. INTRODUÇÃO VER-SUS/Brasil Desde 2003, o Ministério da Saúde brasileiro realiza anualmente o Projeto Vivéncias e Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde – VER-SUS/Brasil, que tem o intuito de inserir estudantes na realidade dos serviços de saúde pública, na intenção de estimular a formação de trabalhadores para o SUS que sejam comprometidos ética e politicamente com seus princípios e diretrizes e que se entendam como sujeitos capazes de promover transformações. Assim, os estágios-vivências funcionam como importantes dispositivos que possibilitam aos participantes experimentarem um novo espaço de aprendizagem – o cotidiano dos serviços de saúde (Ferla, Ramos, Leal, & Carvalho, 2013). A vivência consiste em um processo de imersão (que varia de 7 a 15 dias) no sistema de saúde do território vivenciado, em que os participantes ficam juntos e se dedicam ao projeto vinte e quatro horas por dia, durante a vigéncia do mesmo, fortalecendo a construção de uma visão mais ampliada do conceito de saúde e oportunizando um trabalho de forma interdisciplinar. É constituída por momentos de discussões teóricas e por atividades de observação nos serviços (OTICS, 2018). Possui como eixos: a aprendizagem significativa, que pressupõe o encontro com o novo e a partir desse encontro, produz sentidos para a atuação dos participantes; a pedagogia problematizadora, que impulsiona questionamentos do cenário encontrado, analisando-os de acordo com o contexto histórico-social-cultural e propondo estratégias compatíveis; a multi, inter e transdisciplinaridade, que possibilita o trabalho entre participantes de diversificadas áreas, com diferentes saberes e que podem construir um novo saber ao final da vivência, a partir da partilha de cada um; e respeito e defesa radical dos princípios e diretrizes do SUS (Ferla et al., 2013). A participação no VER-SUS é possível de três formas: como vivente – estudantes ou integrantes de movimentos sociais, que participam do projeto pela primeira vez, a fim de conhecerem o SUS; como facilitador/a – geralmente indivíduos que já foram viventes do projeto, participantes de movimentos sociais/estudantis, de projetos de pesquisa ou extensão, que têm o SUS como foco, e que retornam ao VER-SUS no intuito de conduzir os viventes durante toda a realização da vivência; ou como comissão organizadora, que normalmente é constituída por ex-viventes e ex-facilitadores, por professores, integrantes de movimentos sociais, que se responsabilizam por coordenar o projeto (OTICS, 2018). 84


Sendo assim, diante das possibilidades para a realização de um projeto com esta estrutura nas cidades de Cuiabá e Várzea Grande, Estado de Mato Grosso, Centro Oeste brasileiro, iniciaram-se as ações para implementação do idealizado, no ano de 2016 em que o objeto de imersão, fora a Rede de Atenção Psicossocial das localidades citadas. Neste sentido, objetivou-se com esta atitude, emergir reflexões acerca do impacto de curto e longo prazo desta experiência, sob a óptica dos membros da Comissão Organizadora (CO). Com intenção de manter-se uma ordem descritivo-reflexiva acerca da edificação de uma vivência, estruturou-se este trabalho conforme os processos de elaboração do VERSUS/Brasil, Região Metropolitana de Cuiabá em que se constam as percepções dos autores no discorrer do texto. VER-SUS Região Metropolitana de Cuiabá O Projeto VER-SUS – Região Metropolitana de Cuiabá (RMC), foi realizado de a 09 a 19 de janeiro de 2016, nas cidades de Cuiabá (capital do estado) e Várzea Grande (cidade satélite), situadas na região metropolitana do estado de Mato Grosso e teve duração de 10 dias. Foi organizado por estudantes e professores ligados ao Programa de Educação Tutorial (PET) Conexões de Saberes “Universidade, Saúde e Cidadania” e a Faculdade de Enfermagem, da Universidade Federal de Mato Grosso. O PET é um programa composto por estudantes de origem popular, que articula ensino, pesquisa e extensão, tendo como foco a atuação com comunidades populares/periféricas. Uma de suas atuações é no estudo e defesa da saúde pública e isto, justificou a realização da vivência. E, na intenção de se aproximar os estudantes à Saúde Mental, a comissão organizadora (CO) elegeu trabalhar a imersão na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) em todos os seus níveis de atuação. Instituída no âmbito do SUS, pela portaria Nº- 3.088, DE 23 DE DEZEMBRO de 2011, A RAPS se direciona à pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas. Desta forma, a mesma encontra-se subdividida em esferas que se inter relacionam, sendo assim, a partir da atenção básica em saúde, já se inicia o processo de implementação desta rede (Medeiros, Garcia, Kinoshita, Santos, & Hayashida, 2016). Ademais, a RAPS é formada pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que se subdividem em 6 modalidades: 1 - CAPS I: Atendimento a todas as faixas etárias, para transtornos mentais graves e persistentes, inclusive pelo uso de substâncias psicoativas, atende cidades e ou regiões com pelo menos 15 mil habitantes.; 2 - CAPS II: Atendimento a todas as faixas etárias, para transtornos mentais graves e persistentes, inclusive pelo uso de substâncias psicoativas, atende cidades e ou regiões com pelo menos 70 mil habitantes; 3 CAPS i: Atendimento a crianças e adolescentes, para transtornos mentais graves e persistentes, inclusive pelo uso de substâncias psicoativas, atende cidades e ou regiões com 85


pelo menos 70 mil habitantes; 4 - CAPS ad Álcool e Drogas: Atendimento a todas faixas etárias, especializado em transtornos pelo uso de álcool e outras drogas, atende cidades e ou regiões com pelo menos 70 mil habitantes; 5 - CAPS III: Atendimento com até 5 vagas de acolhimento noturno e observação; todas faixas etárias; transtornos mentais graves e persistentes inclusive pelo uso de substâncias psicoativas, atende cidades e ou regiões com pelo menos 150 mil habitantes; 6 - CAPS ad III Álcool e Drogas: Atendimento e 8 a 12 vagas de acolhimento noturno e observação; funcionamento 24h; todas faixas etárias; transtornos pelo uso de álcool e outras drogas, atende cidades e ou regiões com pelo menos 150 mil habitantes. Ressalta-se que se o município não possuir nenhum CAPS, o atendimento de saúde mental é feito pela Atenção Básica, principal porta de entrada para o SUS, por meio das Unidades Básicas de Saúde ou Postos de Saúde (Brasil, 2013). Diante do explicitado sobre a RAPS e partindo da premissa de que o projeto se realizaria num processo de imersão, elaboraram-se objetivos para efetivar a aplicação do mesmo. Eles foram: Reafirmar a saúde como direito social; Inscrever/situar a luta pelo direito à saúde no debate ampliado do fortalecimento da cidadania; Compreender a relação Estado/Sociedade no contexto do Direito à saúde e o conceito ampliado de saúde; Promover discussão a respeito da lógica de funcionamento do SUS, seus princípios e diretrizes; Referenciar as práticas pedagógicas e as lutas sociais do campo da saúde e de populações historicamente excluídas como um instrumento de apoio à formação includente, democrática e plural; Provocar o compromisso ético-político nos processos de transformação do setor saúde; Estimular a inserção dos estudantes no Movimento Estudantil e em outros Movimentos Sociais; Sensibilizar individualmente cada ator social, de forma que possa incrementar os processos de transformação quando de volta ao seu local de inserção social; Estimular a atuação no controle social em saúde e discussões relativas à integração entre educação e trabalho na saúde; Contribuir para o amadurecimento da prática multiprofissional e interdisciplinar; Favorecer a discussão de campo e núcleo de saberes e da integralidade da atenção em saúde. Ainda sobre esta atividade, esperou-se que a mesma pudesse contribuir para o fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial nos municípios além de identificar e conhecer o funcionamento da Atenção Primária e Secundária dos municípios de Cuiabá e Várzea Grande, no contexto de assisténcia, promoção, prevenção e reabilitação de saúde. Vale ressaltar que a vivência deveria ser capaz de promover o contato e identificação do ambiente social e dos acessos aos espaços de saúde da população assistida Quilombola e assentados do Movimento Sem Terra (MST) em Mato Grosso. Para o devido cumprimento dos propósitos idealizados o projeto foi executado em trés fases, sendo estas: pré-vivéncia, vivéncia e pós-vivéncia. Que para uma melhor apreciação será descrita no decorrer da explanação. 86


Fases de implementação do projeto Pré-vivência As principais atividades na pré-vivéncia consistiram na divulgação do projeto, no gerenciamento das candidaturas às vagas de viventes e facilitadores e, na seleção dos participantes. Sendo assim, a divulgação ocorreu por meio de aplicativos de comunicação instantânea, redes sociais, sites oficiais de universidades e jornais, de circulação regional. Nesse momento compartilhavam-se informações sobre datas (inscrição, seleção), bem como informações sobre o projeto. A principal dificuldade experimentada pela CO, foi o tempo para difundir uma divulgação de maior alcance no que tange às mídias televisivas e radialistas e, portanto, gerou-se uma leve angústia nos membros da comissão, visto que os esforços poderiam não ser capazes de chamar a atenção do público-alvo. Mesmo assim, foram disponibilizadas 36 vagas para participação na vivência, sendo 30 para viventes e 06 para facilitadores.O período de inscrição foi de 04 a 12 de dezembro de 2015 (9 dias) e neste aspeto o gerenciamento deste processo foi realizado pela plataforma virtual do Observatório de Tecnologias de Informação e Comunicação em Sistemas e Serviços de Saúde (OTICS), em que só ao final do período mencionado, iniciou-se a seleção (Figura 1) dos participantes já que o número de inscritos foi superior ao ofertado.

Figura 1. Fluxo de seleção de candidatos para o VER-SUS/ RMC. Vivência Com programação de dez dias, a vivéncia foi dividida em dois momentos (Figura 2).

Figura 2. Dinámica dos momentos da vivéncia do VER-SUS/RMC.

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Todos os participantes ficaram alojados em uma escola pública, localizada no centro de Cuiabá. Foram organizadas duas salas de aula como dormitório e uma terceira como cozinha e sala de coordenação. Haviam casas de banho de uso coletivo. A manutenção da limpeza, bem como o preparo do pequeno almoço e organização do almoço e janta, eram de responsabilidade dos viventes e facilitadores. E para facilitar a divisão de tarefas, a CO preparou uma escala, de modo que todos os participantes colaborassem. No primeiro dia foi realizado a dinâmica da teia, como forma de apresentação e posteriormente, a divisão dos participantes em grupos de cinco pessoas, denominados Núcleo de Base (NB). Os NB durariam até o final da vivência e era coordenado por um facilitador, cabendo ao grupo desenvolver todas as atividades juntos, seja de organização do alojamento e/ou de formação teórica. Neste percurso as principais atividades foram: Alvorada (acordar os participantes); preparo do pequeno almoço; organização do refeitório; limpeza das casas de banho; agitação (música), organização do almoço e janta; e tempo para leitura-reflexão (caso houvessem textos para ler ou algo para discutir). Do segundo ao quarto dia ocorreram formações sobre o processo de construção do sistema de saúde e da saúde pública no Brasil; sobre o processo de construção da saúde mental e da Rede de Atenção Psicossocial; sobre o funcionamento da sociedade brasileira; sobre a relação das opressões (racismo, machismo, lgbtfobia, entre outros) com a saúde (mental). Todos os espaços ocorreram no formato Roda de Conversa (RC) e foram facilitados por especialistas – professores universitários ou profissionais de saúde ou integrantes de movimentos sociais. Do quinto ao oitavo dia ocorreram visitas nas unidades de saúde da atenção primária (Estratégia de Saúde da Família – ESF, Unidades Básicas de Saúde – UBS, Núcleo de Apoio a Saúde da Família - NASF), da atenção secundária (Centro de Especialidades Médicas – CEM, Pronto Socorro, Centro de Atenção Psicossocial – CAPS) e atenção terciária (Hospital geral e hospital psiquiátrico). Antes de saírem para as visitas, os NB foram desmembrados e Grupos de Vivência (GV) foram formados. Os GV tinham como objetivo misturar os participantes em novos grupos, de modo que todos pudessem interagir durante as atividades externas que eram coordenadas pelos facilitadores. Ao voltarem para o alojamento, os GV se reuniam, discutiam e se desintegravam na intenção de voltar à formação inicial dos NB, de forma a exporem globalmente, as considerações acerca das visitas. No nono dia houve uma vivência com o Movimento Popular de Saúde (MOPS) e Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde (ANEPS), por meio do Corredor do Cuidado, técnica de cuidado coletivo criada por terapeutas holísticos do nordeste do Brasil, onde cada pessoa pode cuidar da outra. O MOPS e ANEPS falaram também das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PIC´s). 88


No décimo e último dia houve visita a um acampamento do MST, na cidade de Jaciara – MT, e, este é um movimento que reivindica reforma agrária, a ocupação de terras que não estão a cumprir seu papel social – como a produção de alimentos. A visita objetivou compreender como o movimento pensa e faz saúde. No alojamento houve a dinámica de encerramento e os informes para a finalização da vivéncia. A CO nesta fase, enfrentou algumas dificuldades. A escolha, por exemplo, de uma estrutura que pudesse acolher 36 pessoas não foi das melhores, pois, houveram muitas reclamações dos viventes em relação ao ambiente em que estavam inseridos. O relacionamento entre CO e facilitadores foi também um pouco conturbado, uma vez que houveram facilitadores que desrespeitaram as regras de saída do alojamento e interromperam o processo de imersão de alguns dos viventes ao levá-los para outros lugares que não foram programados na elaboração do projeto. Pós-vivência Após a vivéncia, como critério para emissão de certificado de participação, todos os viventes e facilitadores, tiveram que elaborar um portfólio reflexivo sobre suas participações. Ressaltando-se que esses documentos são de acesso público e estão disponíveis na página do VER-SUS/Brasil, no OTICS. A CO teve que realizar a prestação de contas com a Coordenação Nacional do VER-SUS, uma vez que o dinheiro utilizado era público. Junto a prestação de contas (recibos), foi enviado o relatório de avaliação da vivência. CONCLUSÃO O processo de elaboração e aplicação de um projeto com esta magnitude é capaz de fazer emergir reflexões acerca do impacto destas atividades no cotidiano social, profissional e, acadêmico, na intenção de promover o contacto com a complexidade das dimensões do mundo do trabalho no contexto da saúde humana. A curto prazo, foi oportunizado despertar o senso crítico durante a provocação de reflexões acerca do papel dos viventes como transformadores da realidade social a partir da construção coletiva do conhecimento numa abordagem transdisciplinar. Já a longo prazo, o Projeto VERSUS/ RMC se consolidou como uma estratégia de sensibilização quanto à percepção da saúde como fator resultante da produção social, além de se constituir como ferramenta de inquietação aos estudantes do ensino superior, aos profissionais de saúde atuantes e aos membros das comunidades em que houveram a presença dos viventes. Enquanto CO, conclui-se que no decorrer das vivéncias, desconstruiu-se e reconstruiu-se novas concepções do SUS, o que revelou a necessidade diante daquele cenário, de se construir novos compromissos entre este sistema e as instituições de ensino, especialmente as de formação para a área da saúde. Sendo assim a formação académica deve ir muito além 89


dos bancos universitários e livros para que se fortaleça o conhecimento, na intenção de se lapidarem seres críticos, pensantes e plausíveis de mudanças no contexto da saúde mental. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Brasil, Ministério da Saúde (2013). Saúde Mental: o que é, doenças, tratamentos e direitos. Disponível em: < http://portalms.saude.gov.br/saude-de-a-z/saude-mental>. Acesso: 27 de dezembro de 2018. Ferla, A. A., Alba, R. D., Andres, B., Leal, M. B., Barnart, F., Assimos, R., … Alberti, G. F. (2013). Vivências e Estágios na Realidade do SUS: educação permanente em saúde e aprendizagem de uma saúde que requer integralidade e trabalho em redes colaborativas. Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação Em Saúde, 7(4), 11. https://doi.org/10.3395/reciis.v7i4.892pt Ferla, A. A., Ramos, A. S., Leal, M. B., & Carvalho, M. S. de. (2013). Caderno de Textos do VER-SUS/Brasil (1st ed.). Porto Alegre: Rede Unida. Medeiros, P. F. P. de, Garcia, L. de S. L., Kinoshita, R. T., Santos, P. S., & Hayashida, G. (2016). Rede de Atenção Psicossocial no Sistema Único de Saúde (SUS). Retrieved December 27, 2018, from http://www.aberta.senad.gov.br/medias/original/201704/20170424094953-001.pdf OTICS, O. de T. em I. e C. em S. e S. de S. (2018). VER-SUS/Brasil. Retrieved December 27, 2018, from http://www.otics.org.br/estacoes-de-observacao/versus/versus/apresentacao

90


Atitudes de saúde, ansiedade, depressão e stress: estudantes portugueses e africanos Ana Galvão*, Marco Pinheiro**, Eugénia Anes***, & Maria José Gomes**** *Doutora; Psicóloga, Investigadora do Núcleo UICISA:E da ESSa; Professora Coordenadora, Instituto Politécnico de Bragança, Campus de Santa Apolónia, 5300-253 Bragança, Portugal. anagalvao@ipb.pt **Licenciado; Especialista em Gestão Empresarial; Docente Especialmente Convidado, Instituto Politécnico de Bragança, Campus de Santa Apolónia, 5300-253 Bragança, Portugal. mpinheiro@ipb.pt ***Doutora; Especialista em Enfermagem Comunitária, Investigadora do Núcleo UICISA:E da ESSa; Professora Adjunta, Instituto Politécnico de Bragança, Campus de Santa Apolónia, 5300-253 Bragança, Portugal. eugenia@ipb.pt ****Doutora; Especialista em Enfermagem de Reabilitação, Investigadora do Núcleo UICISA:E da ESSa; Professora Adjunta, Instituto Politécnico de Bragança, Campus de Santa Apolónia, 5300-253 Bragança, Portugal. mgomes@ipb.pt RESUMO CONTEXTO: O Instituto Politécnico de Bragança (IPB) é a instituição de ensino superior em Portugal com maior percentagem de alunos estrangeiros. O grupo com maior representatividade são os estudantes oriundos de países africanos de expressão portuguesa. Estes alunos caraterizam-se, em geral, por uma situação económica frágil e um afastamento do seu contexto cultural e familiar e famílias por períodos consideráveis de tempo. OBJETIVO(S): Objetivou-se estudar eventuais diferenças entre os estudantes portugueses e africanos das licenciaturas do IPB a nível das atitudes e comportamentos de saúde e da ansiedade, depressão e stress. MÉTODOS: A amostra, por conveniência, é composta por 374 estudantes, dos quais 142 são portugueses e 232 africanos. Utilizou-se um questionário composto por três partes. A primeira com questões sociodemográficas, a segunda composta pela Escala de Ansiedade, Depressão e Stresse (EADS-21), e a terceira pelo Questionário de Atitudes e Comportamentos de Saúde (QACS). Realizou-se um estudo quantitativo, transversal, descritivo, correlacional e inferencial. RESULTADOS: Verificou-se que os estudantes portugueses apresentam pontuações estatisticamente significativas superiores aos seus colegas africanos, nas dimensões stress, Nutrição, Autocuidado, Segurança Motorizada e Uso de Drogas ou Similares. Somente na

91


dimensão Exercício Físico são os estudantes africanos a pontuar mais alto, sendo as diferenças com os portugueses, estatisticamente significativas. CONCLUSÕES: Conclui-se que os estudantes africanos apresentam níveis de atitudes e comportamentos de saúde preocupantes, sendo que os estudantes portugueses apresentam níveis de stress, também preocupantes. Estes resultados vêm demonstrar que a intervenção implementada pelo gabinete clínico do IPB, na vertente das consultas de psicologia, está devidamente justificada. Palavras-Chave: saúde mental; comportamentos de saúde; estudantes do ensino superior; africanos. ABSTRACT BACKGROUND: The Polytechnic Institute of Bragança (IPB) is the higher education institution in Portugal with a higher percentage of foreign students. The most representative group are students from Portuguese-speaking African countries. These students are generally characterized by a fragile economic situation and a departure from their cultural and family context and families for considerable periods of time. AIM: The objective of this study was to study possible differences between Portuguese and African students in IPB degrees in health attitudes and behaviours and in anxiety, depression and stress. METHODS: The sample, for convenience, is composed of 374 students, of which 142 Portuguese and 232 Africans. A three-part questionnaire was used, the first one with sociodemographic questions, the second one composed by the Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS-21), and the third by the Health Attitudes and Behaviours Questionnaire (QACS). A quantitative, cross-sectional, descriptive, correlational and inferential study was performed. RESULTS: It was verified that Portuguese students present statistically significant scores superior to their African counterparts in the dimensions of stress, Nutrition, Self-care, Motorized Safety and Drug Use or Similar. Only in the Physical Exercise dimension are the African students scoring higher, and the differences with the Portuguese are statistically significant. CONCLUSIONS: It is concluded that African students present levels of attitudes and health behaviours of concern, and Portuguese students present worrying levels of stress. These results show that the intervention implemented by the clinical office of the IPB, in the field of psychology consultations, is duly justified. Keywords: mental health; health behaviours; higher education students; Africans.

92


RESUMEN CONTEXTO: El Instituto Politécnico de Bragança (IPB) es la institución de educación superior en Portugal con el mayor porcentaje de estudiantes extranjeros. El grupo con mayor representación son los estudiantes de los países africanos de habla portuguesa. Estos alumnos se caracterizan, en general, por una situación económica frágil y un alejamiento de su contexto cultural y familiar y familias por períodos considerables de tiempo. OBJETIVO(S): El objetivo fue estudiar las diferencias entre los estudiantes portugueses y africanos de la Licenciatura en IPB a nivel de las actitudes y los comportamientos de salud y la ansiedad, la depresión y el estrés. METODOLOGÍA: La muestra, por conveniencia, se compone de 374 estudiantes, de los cuales 142 (232 son el portugués y africano utilizó un cuestionario compuesto de tres partes: la primera con preguntas demográficas, el segundo compuesto de la Escala de Ansiedad, Depresión y .. (EADS-21), y la tercera por el Cuestionario de Actitudes y Comportamientos de Salud (QACS). Se realizó un estudio cuantitativo, transversal, descriptivo, correlacional e inferencial. Resultados:

Se

encontró que

los

estudiantes

portugueses

tienen

puntuaciones

estadísticamente significativas mayores que sus homólogos africanos, el estrés dimensiones, la nutrición, el cuidado personal, seguridad de la motocicleta y el uso de drogas o de otro tipo. Sólo la dimensión ejercicio físico son estudiantes africanos a mayor puntuación, y las diferencias con el portugués, estadísticamente significativos. Conclusiones: Se concluye que los estudiantes africanos niveles actuales de las actitudes y los comportamientos de salud preocupantes, y los estudiantes portugueses tienen niveles de estrés también preocupante. Estos resultados demuestran que la intervención implementada por el gabinete clínico del IPB, en la vertiente de las consultas de psicología, está debidamente justificada. Palabras clave: salud mental; conductas de salud; estudiantes de enseñanza superior; Los africanos. INTRODUÇÃO Comportamentos de saúde adequados afetam vários aspetos da vida dos estudantes e derivam de uma plenitude de fatores tais como a alimentação e nutrição, o exercício físico, uma relação responsável com o álcool e as drogas, entre outros, ou seja, o estilo de vida que cada indivíduo pratica. O estilo de vida, por sua vez, é definido, em grande parte, pelas caraterísticas individuais, interações sociais, condições socioeconómicas e ambientais. Há um número crescente de evidências de que os estudantes de ensino superior têm vários comportamentos considerados de risco (Galvão, Pinheiro, Gomes, & Ala, 2017; Mullins, Widdice, Rosenthal, Zimet, & Kahn, 2016).

93


Vários estudos concluem também que a ansiedade, depressão e stress, afetam o bem-estar geral do jovem estudante, exercendo efeitos sobre o seu funcionamento geral, podendo despoletar comportamentos de risco, em particular naqueles relacionados com os hábitos sexuais e a relação com o álcool e drogas (Galvão, Noné, & Gomes, 2016). Existe, no entanto, uma escassez de estudos sobre diferenças de comportamentos de saúde entre grupos de estudantes de nacionalidades diferentes, sendo possível encontrar alguns, mas poucos, exemplos nos Estados Unidos da América de estudos sobre as diferenças entre etnias (afro-americanos, hispano-americanos, etc.), mas não necessariamente de países diferentes (Cook, Purdie-Vaughns, Meyer, & Busch, 2014). Esta escassez de informação e, em particular aquela relacionada com estudos sobre estudantes africanos a estudar no estrangeiro, motivaram o interesse em desenvolver este trabalho de investigação com o intuito de conhecer as Atitudes e Comportamentos de Saúde e o nível de saúde mental (Ansiedade, Depressão e Stress) dos estudantes do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), fazendo, uma comparação entre os estudantes portugueses e africanos de língua oficial portuguesa. MÉTODOS Objetivou-se estudar eventuais diferenças entre os estudantes portugueses e africanos de países de língua oficial portuguesa, a frequentar cursos de licenciatura no IPB a nível das atitudes e comportamentos de saúde e da ansiedade, depressão e stress. Além dos objetivos aqui formulados, colocaram-se também as seguintes hipóteses de investigação: Hipótese 1: existem diferenças em termos de ansiedade, depressão e stress entre os estudantes portugueses e africanos; Hipótese 2: existem diferenças nos comportamentos de saúde entre os estudantes portugueses e africanos. A amostra, selecionada por conveniência, é composta por 374 estudantes, dos quais 142 (38.0%) são portugueses e 232 (62.0%) de países africanos de língua oficial portuguesa, em termos de sexo este divide-se exatamente em metade (n=187; %=50.0) e a larga maioria vive com alguém (n=339; %=90.6), conforme pode ser observado na Tabela 1. Tabela 1_Caraterização sociodemográfica da amostra

Origem

Género

n

%

Portugal

142

38.0%

África

232

62.0%

Total

374

100.0%

Masculino

187

50.0%

Feminino

187

50.0%

94


Idade

Mora com alguém?

Utilizou-se

um

questionário

18-22

260

69.5%

23-27

96

25.7%

28-32

13

3.5%

>32

5

1.3%

Sim

339

90.6%

Não

35

9.4%

constituído

por

uma

primeira

parte

com

questões

sociodemográficas e uma segunda parte composta pela Escala de Ansiedade, Depressão e Stresse (EADS-21), uma escala de autorrelato composto por 21 itens medindo as dimensões Ansiedade, Depressão e Stress, cada uma com sete itens, sendo os itens respondidos numa escala de Likert de 4 pontos onde cotação de cada dimensão é dada pela soma dos resultados dos sete itens, obtendo-se uma pontuação entre 0 e 21 (Lovibond & Lovibond, 1995; Ribeiro, Honrado, & Leal, 2004). A terceira e última parte era composta pelo Questionário de Atitudes e Comportamentos de Saúde (QACS), um questionário de autorrelato de 28 itens medindo as dimensões Exercício Físico, Nutrição, Autocuidado, Segurança motorizada e Uso de drogas ou similares. Os itens no QACS são respondidos numa escala de Likert de 5 pontos e a classificação final varia entre 28 e 140 pontos e quanto maior a pontuação, maiores os comportamentos protetores de saúde (Hettler, 1982; Ribeiro, 2004). Realizou-se um estudo quantitativo, transversal, descritivo e inferencial. A recolha de dados foi efetuada em 2017. RESULTADOS A primeira fase da análise de dados, foi de caráter descritivo. Para a EADS-21 verifica-se, conforme apresentado na Tabela 2, que os estudantes portugueses apresentam pontuações superiores do que os seus colegas africanos, nas três dimensões desta escala. Tabela 2_Pontuação Média e Desvio Padrão, EADS-21, Portugueses versus Africanos Origem? Portugal

África

Ansiedade

Depressão

Stress

M

3.95

4.42

6.30

DP

4.210

4.503

5.240

n

142

142

142

M

3.66

3.90

4.67

DP

3.746

3.774

4.179

232

232

232

n

95


Total

M

3.77

4.10

5.29

DP

3.926

4.068

4.672

374

374

374

n

No que diz respeito aos comportamentos de saúde, conforme medido pela QACS, podemos observar, através dos dados apresentados na Tabela 3, que os estudantes portugueses apresentam pontuações médias superiores, ou seja, comportamentos mais protetores da saúde, em quatro das cinco dimensões sob estudo, sendo somente na dimensão Exercício Físico que os estudantes africanos, pontuam superiormente aos colegas portugueses. Tabela 3_Pontuação Média e Desvio Padrão, QACS, Portugueses versus Africanos Exercício Físico

Nutrição

Auto cuidado

Segurança motorizada

Uso de drogas ou similares

M

7.85

15.18

41.51

11.77

21.71

DP

4.176

4.882

8.825

2.938

4.979

n

142

142

142

142

142

M

8.68

13.52

34.91

9.66

19.57

DP

3.520

5.839

9.276

4.209

6.271

n

232

232

232

232

232

M

8.36

14.15

37.41

10.46

20.39

DP

3.799

5.547

9.645

3.910

5.899

374

374

374

374

374

Origem? Portugal

África

Total

n

Com base nestes primeiros dados para responder às hipóteses formuladas, procedeu-se a uma análise inferencial. Aplicando os testes de normalidade – Kolgomorov-Smirnov e ShapiroWilk – bem como através de observação visual da distribuição dos dados, concluiu-se que os dados de todas as oito dimensões sob estudo, apresentavam dados com uma distribuição não-normal. Assim, por forma a testar a existência de diferenças entre os grupos, aplicaramse os testes de Mann-Whitney, sendo que os resultados das dimensões Ansiedade, Depressão e Stress são apresentados na Tabela 4. Tabela 4_Resultados dos testes de Mann-Whitney, EADS-21, Portugueses versus Africanos Origem Ansiedade

Português

M

p

3.95

.777

96


Africano

3.66

Português

4.42

Africano

3.90

Português

6.30

Africano

4.67

Depressão

Stress

.595

.006

Conforme pode ser observado na Tabela 4, não obstante os estudantes portugueses pontuarem mais alto nas três dimensões apresentadas, a diferença só é estatisticamente significativa para a dimensão stress e mesmo nesse caso, a pontuação obtida pelos estudantes portugueses (M=6.30), é considerado “normal”, uma vez que só para uma pontuação acima de “7”, começa o nível de stress ligeiro (Lovibond & Lovibond, 1995). Com estes resultados, pôde-se aferir que em relação à primeira hipótese formulada “existem diferenças em termos de ansiedade, depressão e stress entre os estudantes portugueses e africanos”, tal apenas se verifica para a dimensão stress. No que diz respeito à segunda hipótese “existem diferenças nos comportamentos de saúde entre os estudantes portugueses e africanos”, e para aferir a existência ou não dessas diferenças, procedeu-se, novamente, à aplicação de testes de Mann-Whitney, desta feita, sobre os dados do QACS, sendo que os resultados são apresentados na Tabela 5. Tabela 5_Resultados dos testes de Mann-Whitney, QACS, Portugueses versus Africanos Origem

M

Português

7.85

Africano

8.68

Português

15.18

Africano

13.52

Português

41.51

Africano

34.91

Português

11.77

Africano

9.66

Português

21.71

Africano

19.57

Exercício Físico

p .007

Nutrição

.001

Auto cuidado

.000

Segurança motorizada

.000

Uso de drogas ou similares

.002

Assim, observa-se que pontuações superiores nos estudantes portugueses, em praticamente todas as dimensões, à exceção da dimensão Exercício Físico, onde o nível de pontuação é

97


mais elevado nos estudantes africanos, são estatisticamente significativas em todas as dimensões. DISCUSSÃO O presente estudo permite-nos ter uma visão mais clara sobre as diferenças em atitutdes e comportamentos de saúde e fatores de saúde mental que distinguem os estudantes africanos de língua portuguesa do IPB e os seus colegas portugueses. A falta de literatura sobre esta matéria em Portugal e internacionalmente, torna difícil confrontar os dados encontrados, com outros estudos. Contudo, podemos afirmar, com base nos dados das consultas do Gabinete Clínico do IPB, que os estudantes africanos a viver em Portugal, em média, vivem em condições mais precárias, tanto em termos económicos, como em termos afetivos, sociais e emocionais, do que os seus colegas portugueses. Partindo deste pressuposto, observável em muitos casos, e sabendo que os comportamentos de saúde são influenciados pelos estilos de vida e que por sua vez, estes são definidos em grande parte, pelas caraterísticas individuais, interações sociais, condições socioeconómicas e ambientais (Mullins et al., 2016), podemos afirmar que os resultados do nosso estudo estão em sintonia com a maioria das evidências nesta temática. CONCLUSÃO Conclui-se que os estudantes africanos apresentam níveis de atitudes e comportamentos de saúde preocupantes, sendo que os estudantes portugueses apresentam níveis de stress também preocupantes. As diferenças identificadas no presente estudo evidenciam claras diferenças entre os estudantes, dependendo da sua origem geográfica. Estes diferenças vêm demonstrar que a intervenção implementada pelo gabinete clínico do IPB, na vertente das consultas de psicologia, está devidamente justificada, havendo ainda necessidade de implementação de programas de intervenção psicossocial e literacia em saúde, específicos para os diferentes grupos de estudantes, e em diferentes áreas específicas, uma vez que estão em causa atitudes e comportamentos modificáveis. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Com os resultados obtidos no presente estudo ficamos com uma noção clara das áreas de saúde e saúde mental onde será necessário criar programas de intervenção específicos para estes estudantes, em especial para a população estudantil africana de língua oficial portuguesa que estuda em Bragança, nomeadamente no que diz respeito à literacia em comportamentos promotores de saúde mental positiva. Por outro lado, o facto do presente estudo, ser realizado no estabelecimento de ensino superior mais internacional de Portugal, poderá contribuir para a sensibilização de outras instituições de forma a proporcionar serviços

98


mais personalizados tendo em conta as reais necessidades desta população e com vista ao alcance de ganhos efetivos em saúde. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Cook, J. E., Purdie-Vaughns, V., Meyer, I. H., & Busch, J. T. A. (2014). Intervening within and across levels: A multilevel approach to stigma and public health. Social Science and Medicine, 103, 101–109. https://doi.org/10.1016/j.socscimed.2013.09.023 Galvão, A., Noné, A. R., & Gomes, M. J. (2016). Alcoholism and coping strategies among IPB students. Em Proceedings of the International Congress on Interdisciplinarity in Social and Human Sciences (pp. 165–171). Galvão, A., Pinheiro, M., Gomes, M. J., & Ala, S. (2017). Ansiedade, Stress e Depressão relacionados com Perturbações do Sono-Vigília e Consumo de Álcool em Alunos do Ensino Superior. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, (Spe 5), 8–12. https://doi.org/10.19131/rpesm.0160 Gilbert, P., McEwan, K., Catarino, F., Baião, R., & Palmeira, L. (2014). Fears of happiness and compassion in relationship with depression, alexithymia, and attachment security in a depressed

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https://doi.org/10.1016/0005-7967(94)00075-U Mullins, T. L. K., Widdice, L. E., Rosenthal, S. L., Zimet, G. D., & Kahn, J. A. (2016). Risk Perceptions, Sexual Attitudes, and Sexual Behavior after HPV Vaccination in 11–12 Year-Old Girls, 33(32), 3907–3912. Reeve, K., Shumaker, C., Yearwood, E., Crowell, N., & Riley, J. (2013). Perceived stress and social support in undergraduate nursing students’ educational experiences. Nurse Education Today, 33(4), 419–424. Ribeiro, J. L. P. (2004). Avaliação das intenções comportamentais relacionadas com a promoção e protecção da saúde e com a prevenção das doenças. Análise Psicológica, 2(22), 387–397. Ribeiro, J. L. P., Honrado, A., & Leal, I. (2004). Contribuição para o estudo da adaptação portuguesa das Escalas de Ansiedade, Depressão e Dtress (EADS) de 21 itens de Lovibond e

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Resiliência da pessoa com Doença Renal Crónica em Programa Regular de Hemodiálise – Revisão Sistemática da Literatura Marta Cunha*; Carminda Morais**; Joaquim Pinheiro***& ****Manuela Fonseca *Pós-Graduada em Enfermagem de Saúde Comunitária; Enfermeira na NephroCare Fafe, Praceta

José

Florêncio

Soares,

4820-148,

Fafe,

Portugal.

E-mail:

marta_cunha05@hotmail.com, 253490870 **Doutora em Ciências da Educação; Professora Coordenadora; Investigadora no CEISUC e colaboradora

na

UICISA-e,

4900-314,

Viana

do

Castelo

País.

Email:

carmindamorais@ess.ipvc.pt , 937300016 ***Doutorado em Bioética; Diretor Clínico e Médico Nefrologista na NephroCare Fafe, 4820148, Fafe, Portugal. E-mail: joaquim.pinheiro@fmc-ag.com, 253490870 ****Mestre em Gestão de Recursos Humanos; Enfermeira Chefe na NephroCare Fafe, 4820148, Fafe, Portugal. E-mail: manula.fonseca@fmc-ag.com, 253490870 RESUMO CONTEXTO: A transição de um estado de bem-estar para uma condição crónica é uma etapa complexa do ciclo de vida da pessoa com Doença Renal Crónica (DRC) em estadio 5d, agravada pelo facto de existir uma série de restrições, perdas físicas e emocionais ao longo da nova condição de saúde. Todas estas circunstâncias exigem que a pessoa doente seja capaz de enfrentar tais adversidades através dos recursos pessoais que tem disponíveis, a chamada resiliência. OBJETIVO(S): Analisar o estado do conhecimento acerca do nível de resiliência da pessoa com DRC em Programa Regular de Hemodiálise (PRHD). Estudar as relações entre a resiliência da pessoa com DRC em PRHD e o perfil sociodemográfico e clínico. MÉTODOS: Revisão sistemática realizada de acordo com um conjunto de critérios de seleção estabelecido utilizando o método PI[C]OD (Participantes, Intervenções, Comparações, Resultados, Desenho). A pesquisa bibliográfica, realizada entre novembro e dezembro de 2017, teve como bases de dados a Biblioteca de Conhecimento On-line (B-On) e o Google Académico e utilizaram-se os seguintes termos: Doença Renal Crónica; Hemodiálise; Resiliência. RESULTADOS: De um total de 409 artigos (publicados entre 2013 e 2017), 11 foram selecionados por meio da leitura dos títulos e resumos e, após a leitura integral, passaram a constituir o corpus de análise 8.

100


CONCLUSÕES: A maioria dos estudos concluiu que as pessoas em PRHD têm tendência à resiliência. Os determinantes facilitadores de resiliência mais proferidos foram: sexo (masculino), prática religiosa e suporte familiar. Palavras-Chave: Doença Renal Crónica; Unidades Hospitalares de Hemodiálise; Resiliência Psicológica. ABSTRACT BACKGROUND: A Regular Haemodialysis Program (RHDP) causes numerous changes in the life of Chronic Kidney Disease (CKD) patients. Some people go through these situations and can overcome them and get stronger while others cannot. Resilience is what sets the way people deal with the same problems. AIM: To analyze the state of knowledge about the level of resilience of the person with CKD in Regular Hemodialysis Program (PRHD) and its association with the sociodemographic and clinical profile. METHODS: Systematic revision performed using a set of selection criteria, established by using the PICOD (Participants, Interventions, Comparisons, Outcomes, Design) elements. The bibliographic research was carried out between November and December 2017 using the Online Knowledge Library (B-On) and Google Scholar and the following terms were used: Chronic Renal Disease; Hemodialysis; Resilience. RESULTS: From a total of 409 articles (published between 2013 and 2017), 11 were selected on the basis of the titles and abstracts and, after full reading, 8 were selected. CONCLUSIONS: Most studies have concluded that people with PRHD tend to resilience. The most important determinants of resilience were: sex (male), religious practice, and family support. Keywords:

Chronic

Renal

Insufficiency;

Hospital

Hemodialysis

Units;

Psychological Resilience. RESUMEN CONTEXTO: La transición de un estado de bienestar a una condición crónica es una etapa compleja del ciclo de vida de la persona con enfermedad renal crónica en estadio 5d agravada por el hecho de que existe una serie de restricciones y pérdidas físicas y emocionales a lo largo de la nueva condición salud. Todas estas circunstancias exigen que la persona enferma sea capaz de enfrentar tales adversidades a través de los recursos personales que tiene disponibles, la llamada resiliencia del individuo. OBJETIVO(S): Analizar el estado del conocimiento acerca del nivel de resiliencia de la persona con ERC en Programa Regular de Hemodiálisis (PRHD) y su asociación con el perfil sociodemográfico y clínico. METODOLOGÍA: La investigación bibliográfica, realizada entre noviembre y diciembre de 2017, tuvo como bases de datos la Biblioteca de Conocimiento en línea (B-On) y el Google 101


Académico y se utilizaron los siguientes términos: Enfermedad Renal Crónica; hemodiálisis; Resiliencia Psicológica. RESULTADOS: De un total de 409 artículos (publicados entre 2013 y 2017), 11 fueron seleccionados por medio de la lectura de los títulos y resúmenes y, después de la lectura integral, 8 fueron seleccionados. CONCLUSIONES: La mayoría de los estudios concluyó que las personas en PRHD tienden a la resiliencia. Los determinantes facilitadores de resiliencia más proferidos fueron: sexo (masculino), práctica religiosa y soporte familiar. Palabras Clave: Insuficiencia Renal Crónica; Unidades de Hemodiálise en Hospital; Resiliencia Psicológica. INTRODUÇÃO A maior longevidade da população e a melhoria contínua dos cuidados de saúde tem permitido uma maior sobrevida das pessoas com doenças crónicas e propiciado o aparecimento de complicações tardias de patologias como a Doença Renal Crónica. O diagnóstico desta doença constitui uma transição de vida difícil para a pessoa que o recebe e para os familiares que a acompanham. Com a patologia surgem alterações significativas no dia a dia destas pessoas que, inevitavelmente terão de se adaptar a uma nova realidade. Uma das adaptações mais difíceis é a frequência dos tratamentos dialíticos, que podem variar entre 3 a 4 vezes semanais, sendo o tempo mínimo de tratamento por sessão de 4 horas. A necessidade de modificar o estilo de vida da pessoa com Doença Renal Crónica é emergente para que não haja um agravamento do seu estado de saúde e a fim de prevenir possíveis complicações. Entre todas elas a sede é muitas vezes referida como a restrição mais difícil de controlar. Contudo, toda a sintomatologia que envolve a doença afeta inquestionavelmente a qualidade de vida destas pessoas. No caso concreto da pessoa em PRHD, apesar da possibilidade deste tratamento, existem inúmeras limitações que são impostas à pessoa com Doença Renal Crónica, tais como: alterações no seu bem-estar físico e psicológico, mudanças comportamentais, restrições sociais, dependência do tratamento dialítico, conflito de imagem corporal, entre outras. Por vezes, têm de enfrentar dificuldades de natureza variada, designadamente, económicas no seio familiar, fruto da sua limitação laboral, dependência de outras pessoas. Estas alterações abruptas na vida da pessoa doente poderão levar a uma alteração de papéis na sociedade, provocando maior stress. Diante destes eventos adversos no decorrer do tratamento dialítico, podem surgir inúmeros comprometimentos de saúde. Algumas pessoas passam por estas situações stressantes e são capazes de superar e saírem fortalecidas, outras não conseguem recuperar. O que diferencia a forma como as pessoas lidam com os mesmos problemas é a resiliência (Santos e Costa, 2016). 102


Enquanto algumas pessoas conseguem superar e construir caminhos positivos diante de situações e factos difíceis, outras acabam por se resignar diante dos obstáculos, fazendo com que a sua vida se desenrole à volta da situação traumática. O estudo da resiliência representa uma mudança paradigmática na área da saúde, na medida em que prioriza o potencial para a produção de saúde em vez de apenas se focar nos transtornos, nas disfunções, na doença (Santos e Costa, 2016). Em Portugal, são poucos os estudos que procuram avaliar o nível de resiliência da pessoa com Doença Renal Crónica em PRHD. Deste modo, propusemo-nos a realizar uma revisão sistemática da literatura, com o objetivo de analisar a evidência científica respeitante ao nível de resiliência das pessoas com DRC em PRHD e as condicionantes que a influenciam. MÉTODOS A presente revisão sistemática de literatura teve por base as seguintes questões de investigação: que evidência científica se tem produzido a nível de resiliência da pessoa com DRC em PRHD? Quais as determinantes sociais e clínicas da resiliência da pessoa com DRC em PRHD? De forma a responder às questões de investigação e aos objetivos da mesma, efetuou-se uma pesquisa bibliográfica tendo sido adotada a seguinte metodologia: estabelecimento de critérios de inclusão; seleção dos estudos e respetiva análise; sistematização e interpretação dos resultados e, por fim, elaboração do relatório da revisão. Para tal foram utilizados como motores de busca a Biblioteca do Conhecimento Online (B-On) e o Google Académico, tendo sido a pesquisa realizada no mês de dezembro, de 2017, e delimitada no período compreendido entre 2013 e 2017. Para procurar os estudos foi efetuada uma pesquisa boleana utilizando os seguintes termos: Doença Renal Crónica AND Hemodiálise AND Resiliência; Chronic Kidney Disease AND Hemodialysis AND Resilience. No que diz respeito aos critérios de inclusão, a fim de selecionar os estudos, estes foram definidos tendo como recurso o método PI[C]OD (Participantes, Intervenções, Comparações, Resultados e Desenho). Deste modo foram selecionados os estudos que tinham como participantes as pessoas doentes, adultas, em PRHD cuja intervenção fosse a avaliação do nível de resiliência tendo como propósito encontrar os resultados obtidos quanto aos fatores determinantes de resiliência na pessoa em PRHD. Relativamente ao desenho de estudo foram considerados todos os estudos primários quantitativos e qualitativos. As comparações efetuadas serão objeto de discussão à posteriori. No sentido de sistematizar os dados obtidos elaborou-se uma matriz de análise com os seguintes pontos: autores; ano; país; título; amostra; instrumento de recolha de dados; objetivos; resultados; tipo de estudo e observações. 103


RESULTADOS Os resultados obtidos através da pesquisa boleana levaram a um total de 409 trabalhos, dos quais 11 foram selecionados após exclusão dos estudos repetidos e da leitura dos títulos e resumos. Depois de uma leitura integral, a amostra ficou reduzida a 8 estudos para análise, constituindo estes o corpus de análise (ver Diagrama 1). Pesquisa Inicial (n=409) Excluídos título/ resumo (n=398) Leitura Integral (n=11) Excluídos (n=3) Seleção Final (n=8)

Diagrama 1 Processo de seleção dos estudos Os artigos que foram utilizados nesta revisão sistemática da literatura são apresentados, de seguida, na Tabela 1. Tabela 6 - Artigos seleccionados Autores/ Ano/ País

Participantes/ Tipo de Estudo

Principais Resultados

Santos, R. e Costa, O. (2016), Brasil.

61 pessoas submetidas a tratamento de hemodiálise. Estudo prospetivo, descritivo,quantitativo.

Foi constatado que 61% dos pacientes apresentaram tendência à resiliência. Os fatores que podem ter influenciado a tendência à resiliência são: sexo masculino, prática religiosa, estado civil.

Silva, R., Neto, V., Oliveira, G., Silva, B., Rocha, C. e Holanda, J. (2016), Brasil.

30 pessoas com Doença Renal Crónica, em tratamento numa unidade de hemodiálise. Estudo descritivo, qualitativo.

As categorias que emergiram dos discursos dos entrevistados foram: apoio familiar; apego à religião/crença; negação e esquiva; e resiliência.

Böell, J., Silva, D, e Hegadoren, K. (2016), Brasil.

603 pessoas das quais, 191 com diagnóstico de doença renal crónica e 412 com diabetes mellitus tipo 2. Estudo observacional, transversal, quantitativo.

Os participantes com doença renal apresentaram menor resiliência do que as pessoas com diabetes. O tempo de doença (pessoas com 6 a 10 anos de doença, ou mais de 16 anos) apresentou uma correlação negativa com o nível de resiliência. O índice de massa corporal (obesidade grau I), bem como, a crença religiosa apresentaram uma correlação positiva com o nível a resiliência dos participantes.

104


Gomes, I., Lanzoti, R. e Orlandi, F. (2017), Brasil.

Li-Ching, M., HongJer, C., Yueh-Min, L., Hsiang-Li, H., Lan, L., Mei-Yu, L., & KuoCheng, L. (2013), Taiwan.

Cho, H. & Yoo, E. (2014), Coreia.

Lindsay,H., MacGregor, C., & Fry, M. (2014)., Austrália.

Bertolin, Brasil

D.

(2016),

100 pessoas em tratamento dialítico. Estudo descritivocorrelacional, transversal, quantitativo.

150 pessoas com Doença Renal Crónica, em ambulatório. Estudo transversal, descritivo e quantitativo.

83 pessoas em tratamento dialítico. Estudo descritivocorrelacional, quantitativo.

7 pessoas em hemodiálise. Entrevista semi-estruturada. Estudo qualitativo.

61 pessoas submetidas a tratamento de hemodiálise. Estudo descritivo-correlacional, quantitativo.

O nível médio de resiliência apurado foi de 131.38 (variação de score total: 25-175) tendo-se verificado uma correlação moderada e negativa quanto à idade; fraca e positiva quanto ao nível de educação; moderada e negativa quanto ao tempo em diálise e uma correlação moderada e negativa quanto ao uso de medicação e o nível de resiliência. A média de resiliência de foi 139.0 (variação de score total: 25-175), sendo que, as pessoas em pré-diálise apresentaram menores scores. Este estudo demonstrou que a resiliência apresentava uma correlação positiva face ao nível educacional, à situação laboral e ao diagnóstico ou não de Diabetes Mellitus. A resiliência apresentou diferenças estatisticamente significativas quanto ao sexo, situação ocupacional, Diabetes Mellitus, Nutrição, realização pessoal, suporte interpessoal, desporto/ lazer e níveis de gestão de stress. A resiliência apresentou diferenças estatísticas significativas quanto ao sexo, à situação laboral, ao estado económico, à pessoa mais solidária e à condição de doença recente. A auto-estima teve correlação positiva, enquanto a depressão apresentou correlação negativa moderada face à resiliência. Da análise de conteúdo surgiram 3 categorias: Os desafios de viver com a doença renal crónica; Mudanças corporais; a experiência de doença e as relações sociais. As estratégias de coping mais reportadas centraram-se na emoção. As pessoas com diabetes mellitus, com atividades de lazer/ tempo livre e os que praticavam uma religião, obtiveram melhores scores. As pessoas que praticavam exercício físico e que já tinham sido transplantadas possuem estratégias de coping mais positivas.

Dos artigos, publicados entre 2013 e 2017, dos 8 que constituem o corpus de análise, verificou-se que a maioria era proveniente do Brasil (5), sendo que os restantes pertenciam à Austrália (1), Taiwan (1) e à Coreia (1). No que diz respeito à metodologia adotada, dois deles situavam-se no paradigma qualitativo e seis no quantitativo. A maior parte dos estudos (n= 4) foi publicada em 2016. A maioria dos estudos concluiu que as pessoas em PRHD têm tendência à resiliência. Os determinantes facilitadores de resiliência mais referidos foram: sexo (masculino), prática religiosa e suporte familiar. Também foi encontrada correlação negativa com a idade, o tempo de tratamento, a depressão, o uso de medicamentos e uma correlação positiva com o nível educacional e a autoestima. DISCUSSÃO Da análise dos resultados obtidos podemos afirmar que a resiliência da pessoa em PRHD poderá ser influenciada por determinados fatores, maioritariamente referidos como a prática religiosa e o suporte familiar. 105


Santos e Costa (2016) demonstraram que 61% das pessoas apresentaram tendência à resiliência, com uma pontuação acima da média, sendo que 40% desses eram do sexo masculino e 32% estavam já reformados. Também neste estudo ficou evidente que a prática religiosa está associada a melhores níveis de resiliência. Por outro, lado Silva et al. (2016) conduziram um estudo em que a amostra era constituída maioritariamente por pessoas do sexo masculino (57,14%). Da análise de conteúdo emergiu uma temática central denominada “Estratégias de Enfrentamento” a qual se subdividiu em quatro categorias distintas: apoio familiar; apego à religião/ crença; negação e esquiva e resiliência. Também estes autores verificaram que o apoio familiar é fundamental para ultrapassar as adversidades na DRC uma vez que a família constitui um pilar fundamental no que concerne às dificuldades vivenciadas ao longo destas transições de saúde-doença. Relativamente à subcategoria negação e esquiva, esta surgiu dos relatos das pessoas que não conseguiam lidar com o tratamento de diálise, posicionando-se à margem do seu estado de saúde. A negação da doença, acreditando que se trataria de uma condição temporária, levou a que, em alguns casos, as pessoas conseguissem suportar esta nova transição através da fuga à realidade. A par do estudo anterior, a religião/ crença estão associadas a melhores níveis de resiliência, já que muitas pessoas, em situações adversas recorrem à sua fé para tentar superar as dificuldades e encontrar algum conforto espiritual para as suas preocupações. Böell, Silva e Hegadoren (2016) realizaram um estudo onde compararam dois grupos de pessoas com DRC e Diabetes Mellitus (DM) tipo 2 tendo-se concluído que as pessoas com DRC apresentaram menor resiliência que as pessoas diabéticas. Vários fatores influenciaram a resiliência das pessoas, a saber: religião, Índice de Massa Corporal e tempo de doença. Um outro trabalho publicado em 2017 por Gomes, Lanzotti e Orlandi apurou um nível médio de resiliência de 131.38, tendo-se aferido uma correlação moderada e negativa quanto à idade; fraca e positiva quanto ao nível de educação; moderada e negativa quanto ao tempo em diálise e uma correlação moderada e negativa quanto ao uso de medicação e o nível de resiliência. Cho & Yoo (2017) demonstraram que a autoestima apresenta uma correlação positiva com a resiliência. Pessoas com uma melhor autoestima, estão mais satisfeitas, apresentam atitudes otimistas e autoeficazes o que pode levar a que estejam mais despertas para a resolução das adversidades em vez de se focarem no problema. CONCLUSÃO Atualmente, é consensual entre os profissionais de saúde que trabalham na área da hemodiálise que a grande maioria das pessoas em PRHD enfrentam diversas adversidades 106


na gestão do seu regime terapêutico. Uma parte substancial destas pessoas não consegue lidar com os constrangimentos com que se confrontam nas variadas dimensões das suas vidas e das suas famílias, acabando por levar a um desgaste físico e psicológico. Importa potenciar, de forma intencional e crítica, os recursos internos e externos para fazer face a tais exigências. Neste contexto, urge que a prática clínica, designadamente dos enfermeiros, se estribe na evidência científica com estas pessoas, numa lógica potenciadora da co-criação do processo de cuidados. Contudo, os estudos que procuram avaliar o nível de resiliência da pessoa com DRC estadio 5d são escassos, designadamente em Portugal. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Tendo por base as reflexões partilhadas, assume-se que o estudo da resiliência, com enfoque nas pessoas que cuidamos, é estruturante de uma prática clínica assente na descoberta de sentidos entre quem cuida e quem é cuidado e, deste modo, prestar cuidados personalizados à pessoa doente, facilitando a adaptação à sua condição clínica. Dito de outro modo, trata-se de potenciar a literacia das pessoas em PRHD e famílias, não só ao nível funcional, mas também interativa e crítica, através de renovadas abordagens, nos termos de Nutbeam (2000). Na sua prática, o Enfermeiro deve ajustar as suas intervenções com base em evidência científica de modo a otimizar os cuidados prestados, procurando a excelência e o rigor inerentes à profissão. Assim, o escrutínio da resiliência na pessoa em PRHD irá conduzir, indubitavelmente, a ganhos em saúde no que diz respeito à forma como a pessoa enfrenta e supera o dia a dia da Doença Renal Crónica numa clínica de hemodiálise. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Bertolin, D. (2016). Clinical variables, lifestyle and coping in hemodialysis. Investigacion & Educacion en Enfermeria, 34(3), 483-491. doi:10.17533/udea.iee.v34n3a07 Böell, J., Silva, D, e Hegadoren, K. (2016). Sociodemographic factors and health conditions associated with the resilience of people with chronic diseases: a cross sectional study. Revista Latino-Americana de Enfermagem, (0), doi:10.1590/1518-8345.1205.2786 Cho, H. & Yoo, E. (2014). The Factors Influencing the Resilience among Hemodialysis Patients. Korean Journal of Adult Nursing, 26(6), 614-620. doi:10.7475/kjan.2014.26.6.614 Gomes, I., Lanzoti, R. e Orlandi, F. (2017). Resilience in Patients with Chronic Kidney Disease in Hemodialysis. International Journal of Medical, World Academy of Science, Engineering and Technology, International Science Index 125, International Journal of Medical, Health,

107


Biomedical,

Bioengineering

and

Pharmaceutical

Engineering

11(5),

227-

231.doi.org/10.5281/zenodo.1130415 Li-Ching, M., Hong-Jer, C., Yueh-Min, L., Hsiang-Li,H., Lan, L., Mei-Yu, L., & Kuo-Cheng, L. (2013). The Relationship between Health-Promoting Behaviors and Resilience in Patients with Chronic

Kidney

Disease.

The

Scientific

World

Journal,

Vol

2013

(2013),

doi:10.1155/2013/124973 Lindsay, H., MacGregor, C., & Fry, M. (2014). The experience of living with chronic illness for the haemodialysis patient: an interpretative phenomenological analysis. Health Sociology Review, 23(3), 232–241. doi:10.5172/hesr.2014.23.3.232 Nutbeam, D. (2000). Health literacy as a public health goal: a challenge for comtemporary health education and communication strategies into the 21 st century. Health promotion international, 15 (3), 259-267. doi:10.1093/heapro/15.3.259 Santos, R. e Costa, O. (2016). Avaliação da Resiliência em Pacientes com Insuficiência Renal Crônica Submetidos à Hemodiálise. Revista Ciências em Saúde, Vol 6, Iss 1, Pp 5-13 (2016), (1), 5. doi:10.21876/rcsfmit.v6i1.461 Silva, R., Neto, V., Oliveira, G., Silva, B., Rocha, C. & Holanda, J. (2016). Coping strategies used by chronic renal failure patients on hemodialysis. Escola Anna Nery, (1), 147. doi:10.5935/1414-8145.20160020

108


Stress, anxiety and depression in Portuguese nursing students Cristiana Firmino*, Olga Valentim**, Luís Sousa***, Ana Vanessa Antunes****, Fátima Marques***** & Celeste Simões****** * Mestre em Enfermagem; Enfermeira Especialista; Professora; Adjunta Escola Superior de Saúde Atlântica, Rua Fabrica da Pólvora, Portugal. CEEPS; Email: furtado.cristy@gmail.com **Doutoramento em Enfermagem; Professora Adjunta; Escola Superior de Saúde Atlântica, Rua Fabrica da Pólvora, Portugal. CINTESIS; E-mail: ommvalentim2@gmail.com *** Doutoramento em enfermagem; Enfermeiro Especialista; Professor Adjunto Escola Superior de Saúde Atlântica, Rua Fabrica da Pólvora, E-mail: luismmsousa@gmail.com ****Doutoramento em Saúde Pública; Professora Auxiliar; Cargo Atual e Instituição (Docente na Escola Superior de Saúde Egas Moniz, Campus Universitário, Quinta da Granja, Monte da Caparica, 2829-511 Caparica, Portugal. E-mail: vanessa2em@gmail.com ***** Doutoramento em Educação; Enfermeira Especialista; Professora Adjunta da Escola Superior de Enfermagem de Lisboa; Departamento de Enfermagem de Reabilitação; Av. Dom João II MB, 1990-096 Lisboa, Portugal. E-mail: fmarques@esel.pt ******Doutoramento; Professora Auxiliar com Agregação; Docente na Universidade de Lisboa, Faculdade de Motricidade Humana, Departamento de Educação, Ciências Sociais e Humanidades, 1499-002, Cruz Quebrada, Portugal. CEEPS; E-mail: csimoes@fmh.ulisboa.pt RESUMO CONTEXTO: As exigências do curso de enfermagem e a experiência de estudantes de enfermagem levam à ocorrência de stresse, ansiedade e depressão. OBJETIVO(S): Determinar a prevalência de stresse, ansiedade e depressão entre estudantes de licenciatura em enfermagem. MÉTODOS: Estudo transversal e descritivo. Duzentos e cinquenta e três estudantes de enfermagem de duas escolas privadas e duas públicas participaram neste estudo. O instrumento

de

colheita

de

dados

consistiu

em

variáveis

sociodemográficas

e

comportamentais de saúde e a Escala de Ansiedade, Stresse e Depressão (DASS-21) - ShortForm (Pais-Ribeiro, Honrado, & Leal, 2004). Os scores de corte foram desenvolvidos para definir os scores leve / moderado / severo / extremamente grave para cada escala DASS-21. As variáveis sociodemográficas foram analisadas pela análise qui-quadrado de Pearson para dados dicotómicos. Este estudo foi aprovado pela Comissão de Ética de duas escolas de enfermagem. RESULTADOS: A prevalência de depressão é de 43,1%, ansiedade de 54,2% e stresse de 45,1%. A depressão foi classificada como leve em 12,3% da amostra, moderada em 13,8%,

109


severa em 7,5% e extremamente severa em 9,5%. A ansiedade foi leve em 18,2%, moderada em 12,3%, severa em 9,5% e extremamente severa em 14,2%. O stresse foi classificado como leve em 14,2%, moderado em 11,5%, severo em 13% e extremamente severo em 6,3%. A análise pelo qui-quadrado de Pearson revelou uma associação estatisticamente significativa entre a variável depressão e trabalhador estudante; a ansiedade mostrou associações significativas com o tipo de escolaridade, estudante, estado civil e idade; o stresse revelou associações significativas com as variáveis trabalhadores estudantes e estado civil. CONCLUSÕES: Depressão, ansiedade e stresse são muito prevalentes nos estudantes de enfermagem portugueses. De acordo com nossos resultados, sugere-se a realização de intervenções de apoio aos estudantes de enfermagem que promovam uma melhor saúde mental. Palavras-Chave: Estudantes de Enfermagem; Depressão; Ansiedade; Stresse ABSTRACT BACKGROUND: The demands of the Nursing degree and the experience of undergraduate nursing students lead to the occurrence of stress, anxiety and depression AIM: To determine the prevalence of stress, anxiety and depression amongst Portuguese undergraduate nursing students. METHODS: A cross-sectional and descriptive study. Two hundred and fifty-three nursing students from two private schools and two public schools participated in this study. The data collection instrument consisted of sociodemographic and health behavior variables as well as, the Depression Anxiety and Stress Scale (DASS-21)-Short Form. The cut-off scores have been developed for defining mild/moderate/severe/extremely severe scores for each DASS21

scale.

The

sociodemographic

variables

were

analyzed

using Pearson

chi-

square analysis for dichotomous data. This study was approved by the Ethics Committee of the two Nursing schools. RESULTS: The prevalence of depression is 43.2%, anxiety 54.2% and stress 45.1%. Depression was classified as mild in 12.3% of the sample, moderate in 13.8%, severe in 7.5% and extremely severe in 9.5%. Anxiety was mild in 18.2%, moderate in 12.3%, severe in 9.5% and extremely severe in 14.2%. Stress was classified as mild in 14.2%, moderate in 11.5%, severe in 13% and extremely severe in 6.3%. A Pearson Chi-Square's analysis revealed a significant relationship between depression and working students; anxiety showed significant relationships with the type of education, working students, marital status and age; stress revealed a significant relation between working students and marital status. CONCLUSIONS: Depression, anxiety and stress are highly prevalent in Portuguese nursing students. It is suggested the use of some interventions that can improve the mental health of nursing students. 110


Keywords: Nursing Students; Depression; Anxiety; Stress. RESUMEN CONTEXTO: Las exigencias del curso de enfermería y la experiencia de estudiantes de enfermería llevan a la ocurrencia de estrés, ansiedad y depresión. OBJETIVO(S): Determinar la prevalencia de estrés, ansiedad y depresión entre estudiantes de licenciatura en enfermería METODOLOGÍA: Estudio transversal y descriptivo. Doscientos cincuenta y tres estudiantes de enfermería de dos escuelas privadas y dos públicas participaron en este estudio. El instrumento de recolección de datos consistió en variables sociodemográficas y comportamentales de salud y la Escala de Ansiedad, Estrés y Depresión (DASS-21) - ShortForm (Pais-Ribeiro, Honrado, & Leal, 2004). Las puntuaciones de corte se han desarrollado para definir las puntuaciones ligeras / moderado / severo / extremadamente grave para cada escala DASS-21. Las variables sociodemográficas fueron analizadas por el análisis quicuadrado de Pearson para datos dicotómicos. Este estudio fue aprobado por la Comisión de Ética de dos escuelas de enfermería. RESULTADOS: La prevalencia de depresión es de 43,31%, ansiedad de 54,12% y estrés del 45,1%. La depresión fue clasificada como leve en el 12,43% de la muestra, moderada en el 13,78%, severa en el 7,75% y extremadamente severa en el 9,45%. La ansiedad fue leve en el 18,2%, moderada en el 12,43%, severa en 9,45% y extremadamente severa en el 14,2%. El estrés fue clasificado como leve en el 14,2%, moderado en el 11,5%, severo en el 12,93% y extremadamente severo en el 6,43%. El análisis de Pearson qui-cuadrado reveló una asociación estadísticamente significativa entre la variable depresión y el estudiante trabajador; la ansiedad mostró diferencias significativas con el tipo de escolaridad, estudiante, estado civil y edad; el estrés reveló asociaciones significativas con las variables trabajadores estudiantes y el estado civil. CONCLUSIONES: La depresión, la ansiedad y el estrés son muy frecuentes en los estudiantes de enfermería portuguesas. De acuerdo con nuestros resultados, se sugiere la realización de intervenciones de apoyo a los estudiantes de enfermería que promuevan una mejor salud mental. Palabras Clave: Estudiantes de Enfermería; depresión; ansiedad; estrés INTRODUCTION Mental health disorders differ between social classes, sex and life stages. Stress is considered a determinant for these disorders as it is understood as an experience of tension, in which the individual faces situations that go beyond their ability to deal with them. According to Vaz-Serra (2007), a person in under stress when they realize that they have no control over an event that 111


is relevant to them and before feeling that the demands of the event exceed their personal and social capacities and resources. Therefore, there is the feeling that they cannot control the situation, leaving themselves vulnerable. This perception of having no control over the situation can be authentic (the person does not really have the skills and resources to do so) or simply a belief (the person believes that they do not have those capabilities or resources). According to the same author (2007), stress factors can trigger different types of response in the human being. Examples of physical reactions can be: increased sweating, muscle tension, tachycardia, hypertension, nausea, among others. Regarding psychological reactions, the individual may have manifestations of depression, anxiety, anguish, tension, insomnia, dissatisfaction, irritability and difficulty concentrating (Camelo & Angerami, 2004). Anxiety and depression are affective dimensions considered relevant from a mental health point of view, and anxiety is usually associated with the symptoms of depression. Anxiety is a normal state in the individual that results from an ordinary reaction to something specific such as an alarm system. The difference between the normal from the pathological state is the intensity of the anxiety (Bauer, 2002). Depression is one of the most disabling mental disorders for an individual either at the personal, professional or social level (Fonseca, Fialho, Matos, & Figueira, 2013). Admission to higher education usually occurs in a specific period of physical, cognitive, psychological and social development of the individual and may be one of the best periods of life. It is time for discoveries, freedom, choices and friendships. Nevertheless, students face the demands of academic and social life (Valadas & Gonçalves, 2002), which can lead to a homeostatic imbalance, influencing their performance. A constant psychological and physical adaptation to situations of pressure, experienced in several moments, whether personal, social, professional or academic life is fundamental. According to Porta-Nova (2010), the process of adaptation to higher education requires the adoption of strategies that help reduce students’ suffering, whether it is physical or psychological. Santos (2011) states that students' mental health is worse than that of the general population. Also, Rathnayake and Ekanayaka, (2016) consider that stress, anxiety and depression are highly prevalent in nursing students. This study arises from our concerns as nursing professors which are, per se, research questions, such as: how is the mental health of nursing students (more specifically, from four higher education institutions, two private and two public Nursing schools)?; what is the association between stress, anxiety and depression with sociodemographic and health behavior variables?; what is the prevalence of stress, anxiety and depression amongst undergraduate nursing students? Our target population is nursing students from two public nursing schools and two private nursing schools because, it is known that the nursing degree requirements and the experience 112


in Clinical Teaching can lead to situations of stress, anxiety and depression (Cestari, Barbosa, Florêncio, Pessoa & Moreira, 2017; Claudino & Cordeiro, 2016; Viegas, Cruz, Pinto, Almeida & Aleluia, 2016). Therefore, this study aims to determine the prevalence of stress, anxiety and depression amongst undergraduate Nursing students. METHODS This is a cross-sectional and descriptive study. Two hundred and thirty-three nursing students from two private nursing schools and two public nursing schools participated in the research. Inclusion criteria were as following: attending the Nursing Degree in the 2017/2018 academic year; belong to the selected nursing schools and accept to participate in the study by completing the questionnaire sent by e-mail. The data collection instrument consisted of sociodemographic and health behavior variables and the Depression Anxiety and Stress Scale (DASS-21)-Short Form (Lovibond & Lovibond,1995; Pais-Ribeiro, Honrado, & Leal, 2004). The DASS 21 consists of 21 items distributed in equal numbers by three subscales, Depression, Anxiety and Stress. The depression subscale evaluates the following concepts: depression and dysphoria (one item); discouragement, (one item); devaluation of life (one item); self-depreciation (one item); lack of interest or involvement (one item); anedonia (one item); inertia (one item); the anxiety subscale consists in the following concepts: anxiety and excitation of the autonomous system (three items); musculoskeletal effects (one item); situational anxiety (one item); subjective experiences of anxiety (two items); lastly, the stress subscale refers to the concepts: difficulty in relaxing two items); nervous excitement (one item); easily shaken / upset (one item); irritable / exaggerated reaction (two items); and impatience (one item). The three scales consist of seven items each, out of a total of 21 items. Respondents should assess the extent to which they have experienced each symptom during the last week on a Likert scale of four points of severity or frequency: "1=Did not apply" until "3=applied most of the time". The results of each subscale are obtained by adding the results of the seven items. Each subscale provides three classifications, which can range from zero to 21. The highest scores on each scale refer to more negative affective states (Lovibond & Lovibond,1995; Pais-Ribeiro et al., 2004). The internal reliability in this study for each subscale was: Depression (α=0.92), Anxiety (α=0.80) and Stress (α=0.87). The cut-off scores have been developed for defining mild/moderate/severe/extremely severe scores for each DASS scale (Lovibond & Lovibond,1995).

113


Table 1 - Scores for DASS-21 DEPRESSION

ANXIETY

STRESS

NORMAL

0-4

0-3

0-7

MILD

5-6

4-5

8-9

MODERATE

7-10

6-7

10-12

SEVERE

11-13

8-9

13-16

EXTREMELY SEVERE

14+

10+

17+

Source: Lovibond e Lovibond (1995)

A Pearson Chi-Square analysis for dichotomous data was conducted to test the associations between DASS subscales and the sociodemographic variables. This study was approved by the Ethics Committee of two nursing’s schools. RESULTS The sample consisted of 253 students from four polytechnic schools (two public and two private), of which the majority were female (83.23%), single (96.4%) attending public schools (80%). Concerning their working context, 80.2% claim to be students in ordinary situation and 19.8% claim to be working students. As for the year of attendance, students distribute themselves as following: 23.3% in 1st year; 20.2% in 2nd year; 25.3% in 3rd year and 31.2% in 4th year. Concerning risk behaviours, the majority do not smoke (85%) and do not usually consume alcoholic drinks (85.4%). Of the total sample, depression prevalence is 43.1%, anxiety 54.2% and stress 45.1%. In order to rate the sample in function of the cut-off points of depression, anxiety and stress, the frequencies and percentages for each classification are presented in Table 2. Table 2 - Sample rating in terms of depression, anxiety and stress DASS-21 Depression Normal Mild Moderate Severe Extremely Severe Anxiety Normal Mild Moderate Severe Extremely Severe Stress Normal Mild Moderate Severe Extremely Severe

N

%

144 31 35 19 24,

56.9 12.3 13.8 7.5 9.5

116 46 31 24 36

45.8 18.2 12.3 9.5 14.2

139 36 29 33 16

54.9 14.2 11.5 13.0 6.3

114


Depression was classified as mild in 12.3% of the sample, moderate in 13.8%, severe in 7.5% and extremely severe in 9.5%. Anxiety was mild in 18.2%, moderate in 12.3%, severe in 9.5% and extremely severe in 14.2%. Stress was classified as mild in 14.2%, moderate in 11.5%, severe in 13% and extremely severe in 6.3%. Pearson Chi-Square's analysis revealed a significant relationship between depression and working students; anxiety showed significant relationships with the type of education, working students, marital status and age; stress revealed a significant relation between working students and marital status. Statistically significant differences were found between working and non-working students for depression (X2=5.517; p=0.019), anxiety (X2=11.468; p=0.001) and stress (X2=3.861; p=0.049). Results show that working students have fewer depressive symptoms, less anxiety and less stress. Regarding age, statistically significant differences were found for anxiety (X2=5.370; p=0.020) and stress (X2=6.796; p=0.009). Data show that younger people have higher scores on anxiety and stress. When analysing anxiety, statistically significant differences were also found between marital status and the type of public or private school. The results show that single participants (X2=5.767; p=0.016) and those who study in public schools (X2=9.388; p=0.002) have higher scores for anxiety. DISCUSSION The results show that there is a prevalence of depression, anxiety and stress among nursing students. This is in line with other studies performed on higher education students with depressive symptoms and high levels of stress (Santos, 2011; Williams et al., 2014). Concerning age, Santos (2011) states that the few existing studies show that there is some relationship between the young adult period and depressive symptomatology. In our study we found statistically significant differences where the youngest students present higher values of anxiety and stress. Working students have fewer depressive symptoms, less anxiety and less stress. Some studies on higher education students have shown that the symptoms of depressive disorders increase as the socio-economic status declines (Bostanci et al., 2005; Santos, 2011). Other variables such as employment status or financial pressures can be involved (Steptoe et al., 2007). Can we speculate that if these students have less time to devote to the course, they are more resilient, or do they have lower expectations? Public school students show higher levels of anxiety than students in private schools, which may explain the displacement of public-school students. According to Antunes (2015) displaced students are more depressed and anxious than non-displaced students. This 115


situation may be related to social and emotional support factors, since displaced students may not receive the support they need, namely for being away from the family (Claudino & Cordeiro, 2006). CONCLUSION The results obtained allow us to know the levels of stress, anxiety and depression in this sample of students. There are some protective factors, such as attending private schools, being a working student and already belonging to an older age group, as well as, being married. It is known that the admission into higher education is a demanding process of adaptation to a new reality. This period of life transition associated with the choice of such a specific and complex course such as the nursing degree, can trigger symptoms of depression, anxiety and academic stress. This also makes nursing students a vulnerable group, presenting the need for early mental health intervention in all its dimensions, in order to promote healthy behaviours. One of the limitations of this study is the non-probabilistic convenience sample, which may raise some reservations concerning the representativeness of the population studied. IMPLICATIONS FOR PRACTICE A higher education institution must not only consider the scientific training of their students, but also, their ability to empower them towards the healthy development of the psychological dimension and its associated dimensions (biological, environmental, cultural and socioeconomic), all in the perspective of global health. Studies carried out in nursing students in mental health point out the existence of tension, anxiety and depression, and the need for early action and implementation of programs of mental health promotion (Sequeira, Carvalho, Borges, & Sousa, 2013). Scientific evidence suggests that these interventions should be initiated during the undergraduate nursing degree, through the development of tools that enable students to prevent and reduce these types of symptoms. Health promotion and education programs, student participation in the promotion and prevention of healthy behaviours and mental health literacy are also suggested. REFERENCES Bauer, S. (2002). Da Ansiedade à Depressão - da psicofarmacologia à psicoterapia. São Paulo: Livro Pleno. Camelo, S., & Angerami, E. (2004). Sintomas de estresse nos trabalhadores atuantes em cinco núcleos de saúde da família. Revista Latino Americana de Enfermagem, 12 (1), 14-21. Available from: http://www.scielo.br/pdf/rlae/v12n1/v12n1a03 Cestari, V. R. F., Barbosa, I. V., Florêncio, R. S., Pessoa, V. L. M. D. P., & Moreira, T. M. M. (2017). Stress in nursing students: study on sociodemographic and academic vulnerabilities.

116


Acta

Paulista

de

Enfermagem,

30(2),

190-196.

Available

from:

https://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201700029 Claudino, J., & Cordeiro, R. (2006). Níveis de ansiedade e depressão nos alunos do curso de licenciatura em enfermagem. O caso particular dos alunos da Escola Superior de Saúde de Portalegre. Millenium-Journal of Education, Technologies, and Health, 32, 197-210. Available from: https://core.ac.uk/download/pdf/70642925.pdf Fonseca, A.B.; Fialho, T.; Matos, M.G.; Figueira, M. L. (2013). Caracterização da população que recorre a uma consulta de psicoterapia hospitalar. Psicologia, Saúde e Doenças, 14(3), 405–419. Available from: http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S164500862013000300004 Lovibond, S.H. & Lovibond, P.F. (1995). Manual for the Depression Anxiety Stress Scales. (2nd. Ed.) Sydney: Psychology Foundation. Available from: www.psy.unsw.edu.au/dass/ Pais-Ribeiro, J. L., Honrado, A., & Leal, I. (2004). Contribuição para o estudo da adaptação portuguesa das escalas de ansiedade, depressão e stress (EADS) de 21 itens de Lovibond e Lovibond. Psicologia,

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http://www.internationaljournalofcaringsciences.org/docs/31_rathnayaky_originial_9_3.pdf Antunes, A. B. V. (2015). Estilo de Vida, Stresse, Ansiedade, Depressão e Adaptação Académica em Estudantes Universitários do 1ºano. Tese apresentada à Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias para obtenção do grau de mestre em Psicologia Clínica

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117


Sequeira, C., Carvalho, J., Borges, E., & Sousa, C. (2013). Mental Vulnerability of nursing degree students in higher education: exploratory study. Journal of Nursing and Health, 3(2), 170–181. Available from: http://dx.doi.org/10.15210/jonah.v3i2.3551 Valadas, S.C., Gonçalves, F. R. (2002). As abordagens à aprendizagem de estudantes da Universidade do Algarve. In Quarteto Editora (Ed.), Pedagogia e apoio psicológico no ensino superior. Coimbra. Available from: http://hdl.handle.net/10400.1/3020 Vaz-Serra, A. (2007). O stress na vida de todos os dias (3.ª ed.). Coimbra: Gráfica de Coimbra. Viegas, C. M., Cruz, M., Pinto, J. R., Almeida, M., & Aleluia, S. (2016). Ansiedade nos estudantes do ensino superior. Um Estudo com Estudantes do 4º Ano do Curso de Licenciatura em Enfermagem da Escola Superior de Saúde de Viseu. Millenium-Journal of Education,

Technologies,

and

Health, 38,

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https://revistas.rcaap.pt/millenium/article/view/8259

118


Efeitos da terapia cognitivo-comportamental realizada por enfermeiros com pessoas dependentes de substâncias: Scoping Review Ana Rita Calixto Cardeira *, Maria José Nogueira**, Olga Valentim*** & Paulo Seabra**** *Licenciada em Enfermagem, Enfermeira, Estudante de Mestrado na Universidade Católica Portuguesa, Palma de Cima, 1649-023 Lisboa, Portugal E-mail: rita.bg@hotmail.com ** PHD em Enfermagem, Mestre em Ecologia Humana, Enfermeira especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica, Professora Adjunta na Escola Superior de Saúde Atlântica, Fábrica da Pólvora de Barcarena, 2730-036 Barcarena, Portugal; Investigadora no Centro de Pesquisa em Tecnologia e Serviços de Saúde (CINTESIS NursID) E-mail: nogueira.mjc@gmail.com *** *** Doutora em Enfermagem; Enfermeira Especialista em ESMP, Professora Adjunta; Escola Superior de Saúde Atlântica, Fabrica da Pólvora, 2730-036 Barcarena, Portugal; Investigadora no Centro de Pesquisa em Tecnologia e Serviços de Saúde (CINTESIS NursID); E-mail: ommvalentim2@gmail.com **** Doutor em Enfermagem; Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria; Professor Adjunto na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa. Investigador na Unidade

de

Investigação

e

Desenvolvimento

em

Enfermagem

(UI&DE);

Email:

pauloseabra@esel.pt RESUMO Contexto: Tendo em conta as competências do enfermeiro especialista em saúde mental, torna-se imprescindível o seu desenvolvimento em intervenções psicoterapêuticas e socioterapêuticas. Neste sentido, pretende-se verificar a utilização da terapia cognitivocomportamental (TCC) por enfermeiros. Sendo o consumo de substâncias um problema atual da nossa sociedade, torna-se importante intervir nesta área. A TCC pode intervir ao nível dos pensamentos disfuncionais das pessoas ajudando-as a modificar o seu comportamento. Objetivo: Identificar a eficácia da TCC, realizada por enfermeiros, com pessoas dependentes do consumo de substâncias. Metodologia: Com o objetivo de responder à questão de investigação “Qual a eficácia da TCC, realizada por enfermeiros, com pessoas dependentes do consumo de substâncias?”, realizou-se uma scoping review entre maio e Dezembro de 2018, recorrendo às plataformas B-On, EBSCOhost e base de dados SciELO. Utilizaram-se descritores Decs com operadores

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booleanos. Foram incluídos estudos primários, revisões da literatura e literatura cinzenta, disponíveis integralmente em português e inglês. Resultados: Esta revisão, que resulta da análise final de um artigo, comprova que a utilização da TCC em pessoas dependentes do consumo de substâncias aumenta a sua qualidade de vida. Conclusão: Pelos resultados obtidos nesta revisão, é possível afirmar que a TCC realizada por enfermeiros com pessoas dependentes de substâncias deve ser alvo de mais estudos. Contudo, é necessário ter em consideração que podem ter sido omitidas fontes de informação relevantes pelos critérios estabelecidos para a realização da pesquisa. Palavras-Chave: terapia cognitivo-comportamental; enfermagem; pessoas dependentes do consumo de substâncias. ABSTRACT Background: Taking into account master nurse in mental health and psychiatry skills, it is essential to develop psychotherapeutic and sociotherapeutic interventions. In this sense, it was intend to verify the use of cognitive-behavioral therapy (CBT) by nurses. Since substance addicton is a current problem in our society, it becomes important to intervene in this area. CBT can intervene on dysfunctional throughts by helping people to modifu their behavior. Aim: To identify the effectiveness of CBT, performed by nurses, with substance dependent people. Methodology: In order to answer the research question "How effective is CBT performed by nurses with people dependent on substance use?” was realized a scoping review, between May and December 2018, using plataforms B-On, EBSCOhost and databases SciELO. Decs descriptors with Boolean operators were used. Primary studies, literature reviews and gray literature were included, available in Portuguese and English. Outcomes: This review, which results from the final analysis of one article, proves that the use of CBT in people dependent on substance use increases their quality of life. Conclusion: By the outcomes obtained in this review, it is possible to state that CBT performed by nurses with substance dependent individuals should be the subject of further research studies. However, it must be taken into consideration that relevant sources of information Keywords: Cognitive-behavioral therapy; nursing; substance dependent people. RESUMEN Contexto: Teniendo en cuenta las competencias del enfermero especialista en salud mental, se hace imprescindible su desarrollo en intervenciones psicoterapéuticas y socioterapéuticas. 120


En este sentido, se pretende verificar la utilización de la terapia cognitivo-conductual (TCC) por enfermeros. Siendo el consumo de sustancias un problema actual de nuestra sociedad, es importante intervenir en esta área. La TCC puede intervenir al nivel de los pensamientos disfuncionales de las personas ayudándoles a modificar su comportamiento. Objetivo: Identificar la eficacia de la TCC, realizada por enfermeros, con personas dependientes del consumo de sustancias. Metodología: Con el objetivo de responder a la pregunta de investigación "¿Cuál es la eficacia de la TCC, realizada por enfermeros, con personas dependientes del consumo de sustancias?" se realizó una scoping review, entre mayo y diciembre de 2018, recurriendo a las plataformas B-On, EBSCOhost y base de datos SciELO. Se utilizaron descriptores Decs con operadores booleanos. Se incluyeron los estudios primarios, revisión de la literatura y literatura gris disponibles totalmente en portugués y en Inglés. Resultados: Esta revisión, que resulta del análisis final de un artículo, demuestra que la utilización de la TCC en las personas dependientes del consumo de sustancias aumenta su calidad de vida. Conclusiones: Por los resultados obtenidos en esta revisión, es posible afirmar que la TCC realizada por enfermeros con personas dependientes de sustancias debe ser objeto de más estudios. Sin embargo, es necesario tener en cuenta que se han omitido fuentes de información relevantes por los criterios establecidos para la realización de la investigación. Palabras Clave: terapia cognitivo-conductual; enfermeira; dependientes del consumo de sustâncias. INTRODUÇÃO A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma psicoterapia com evidência científica do seu uso em diversas áreas da saúde mental. Teve início nos anos 60 com o trabalho de Aaron Beck (1967) e consiste em oferecer aos indivíduos as ferramentas necessárias para lidarem com os seus pensamentos disfuncionais, em vez de se concentrarem em mudar as condições ambientais em que o problema se desenvolve. Caracteriza-se por ser uma abordagem estruturada, de participação ativa entre o terapeuta e o cliente e voltada para o presente (Araújo & Shinohara, 2002). A TCC assenta em três premissas (Dobson & Dozois, 2010): (1) A atividade cognitiva afeta o comportamento; (2) A atividade cognitiva pode ser monitorizada e alterada; (3) As mudanças de comportamento desejadas podem ocorrer através de modificação da cognição. Para além das suas premissas, a TCC tem como objetivos a atingir pelo cliente: (1) Tomar consciência dos seus processos cognitivos disfuncionais; (2) Detetar, captar, monitorizar e interromper ciclos cognitivo-emocionais disfuncionais; (3) Produzir respostas de confronto mais adaptativas; (4) Identificar situações de risco que poderá encontrar no futuro; e (5) Preparar-se para lidar com fracassos (Leal, 2018). 121


A TCC tem sido utilizada no tratamento de depressão, ansiedade, perturbações da personalidade, esquizofrenia, doença dipolar, doenças do comportamento alimentar, dependência do tabaco e álcool (Zhuang & Zhao, 2013). Segundo dados do Serviço de Intervenções nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) referentes ao ano 2016, o consumo de substâncias ilícitas duplicou na população portuguesa desde 2012. Este aumento do consumo substâncias verifica-se, principalmente, na população entre os 25 e os 34 anos e os 34 e os 44 anos. Estando já comprovada a utilização da TCC na melhoria destes sintomas, pretende-se trazer esses benefícios para a melhoria da qualidade de vida das pessoas dependentes do consumo de substâncias. Os cuidados convencionais para este tipo de população são sobretudo focados na desintoxicação, não estando a TCC muito estuda para a reabilitação cognitiva e mudança de comportamento dos indivíduos dependentes de substâncias (Zhuang & Zhao, 2013). Uma das competências que o enfermeiro especialista em saúde mental e psiquiatria deve desenvolver, relaciona-se com os processos psicoterapêuticos e socioterapêuticos, utilizados para restaurar a saúde mental do cliente e prevenir a incapacidade, mobilizando os processos que melhor se adaptam ao cliente e à situação (Ordem dos Enfermeiros, 2010). Neste sentido, torna-se importante que o enfermeiro se desenvolva numa intervenção específica através da investigação realizada, com o fim de dominar a utilização dessa intervenção para diagnósticos e situações específicas da sua prática profissional. Neste sentido, o objetivo desta scoping review é identificar a eficácia da TCC, realizada por enfermeiros, com pessoas dependentes do consumo de substâncias. Para tal, foi definida uma questão de investigação através da utilização da metodologia PCC: “Qual a eficácia da TCC, realizada por enfermeiros, com pessoas dependentes do consumo de substâncias?”. MÉTODOS Foi utilizada a metodologia de scoping review, com base nas orientações definidas pelo Joanna Briggs Institute (JBI) (2015) de acordo com cinco etapas: (1) identificar a pergunta de pesquisa; (2) identificar estudos relevantes; (3) selecionar estudos; (4) mapear os dados e (5) recolher, sumariar os dados e reportar resultados, visando mapear as evidências disponíveis (JBI, 2015). Definiu-se a pergunta de pesquisa de acordo com o acrónimo PCC: Participantes/ população (P) - pessoas adultas dependentes do consumo de substâncias; Conceito (C) terapia cognitivo-comportamental; Contexto (C) – por enfermeiros em qualquer contexto. Após definir a pergunta de pesquisa, para a segunda etapa foram realizadas pesquisas entre dia 22 de maio e 16 dezembro de 2018, nas plataformas B-on (com acesso a Science Citation Index, Social Sciences Citation Index, CINAHL Plus with full Text (limite do usuário)), acedida através da biblioteca online da Universidade Católica Portuguesa, EBSCOhost (nas bases de dados CINAHL, MEDLINE, Cochrane central register of controlled trials, Cochrane database 122


of Systematic reviews, MedicLatina) acedido através do portal da Ordem dos Enfermeiros Portugueses, e SciELO. Foram utilizados descritores Decs com os seguintes operadores booleanos: (cognitive therapy OR cognitive behavioral therapies OR cognitive behavior therapies OR cbt) AND (substance-related disorders OR drug abuse OR drug addicton OR substance dependence) AND nursing. Todos os descritores foram pesquisados nos termos do assunto de forma a tornar a pesquisa mais abrangente. Foram incluídos estudos primários, revisões da literatura e literatura cinzenta, disponíveis integralmente em português e inglês. A pesquisa não foi limitada no tempo, dada a escassez de artigos. Contudo, foi testada para 5 e 10 anos previamente. Pretendia-se perceber a utilização da TCC por enfermeiros e perceber a eficácia desta terapia em pessoas dependentes do consumo de substâncias. Pelo que, os critérios de inclusão deste estudo são: pessoas adultas dependentes do consumo de substâncias, ser aplicada a terapia cognitivocomportamental nessas pessoas e a sua aplicação ter sido realizada por enfermeiros. Após estabelecida a metodologia utilizada, procedeu-se às etapas 2 e 3 para a identificação dos estudos relevantes e a seleção dos mesmos, respetivamente. De um total inicial de 32 artigos, foram removidos os artigos duplicados e realizada uma primeira análise através da leitura do título e resumo dos artigos que levou à exclusão de 13 artigos por não cumprirem com os critérios de inclusão: não se encontrava disponível o texto integral e não respeitava a população referida. Após esta seleção foram recuperados sete artigos, após a sua leitura integral, seis foram excluídos por não respeitarem os critérios de inclusão: o tipo de participantes a que se referiam não dependiam de substâncias, não falavam da utilização da TCC e não faziam referência à enfermagem. Após esta seleção foi incluído um artigo para análise. Como forma de completar a quarta etapa, procedeu-se ao mapeamento dos dados, permitindo a identificação dos elementos essenciais, neste caso, do único estudo. Desta forma, foi possível analisar e sintetizar a informação e dados fornecidos pelos estudos recolhidos. No capítulo seguinte será apresentada a quinta etapa, que permite divulgar os resultados obtidos.

123


Identificação Seleção Elegibilidade Incluídos

EBSCO (n=15)

B-On(n=17)

TOTAL (n=32)

Total de artigos duplicados (n=12)

Total após retirados artigos duplicados (n=20)

Excluídos pelo título e resumo (n=13)

Total de artigos completamente recuperados (n=7)

Excluídos após leitura integral (n=6)

Artigos incluídos (n=1)

Figura 1- Fluxograma da seleção de artigos (The Joanna Briggs Institute, 2015) RESULTADOS O artigo incluído nesta revisão foi publicado em 2013 no Journal of Clinical Nursing, por Zhuang e Zhao, tem como objetivo determinar se as intervenções cognitivo-comportamentais melhoram a qualidade de vida dos consumidores de heroína chineses. Foram selecionados 240 participantes através de critérios de exclusão: (1) ter outros problemas de saúde que possam influenciar a sua qualidade de vida, como rinite alérgica, tumores malignos, insuficiências cardíacas; (2) ter problemas mentais não tratados; (3) ter doenças cognitivas; (4) ter menos de seis meses de tratamento de desintoxicação. Os participantes foram abordados no seu quarto particular nas instalações hospitalares e foi-lhes explicado o objetivo, os riscos, os benefícios e a duração do estudo. Para assegurar o rigor do estudo, os enfermeiros foram submetidos a um curso de intervenções de enfermagem numa perspetiva baseada na TCC. Essas intervenções envolveram cursos de educação interativa e treino cognitivo-comportamental para uma correta cognição, especialização em técnicas para complicações do uso da heroína e formação sobre o comportamento positivo em saúde. Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos iguais (120 participantes em cada grupo): um grupo de controlo e um grupo experimental. O grupo de controlo recebeu os cuidados de enfermagem que eram habituais no hospital.

O grupo experimental foi submetido a um programa de 24 sessões (um por semana) com objetivos diferentes a cada quatro sessões, contudo sempre na sequência da

124


sessão anterior. No final de cada sessão era atribuído um trabalho de casa, que era discutido no início da sessão seguinte. Tendo em conta os instrumentos de estudo referidos na tabela 1, relativamente às características dos participantes, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas nas características demográficas e clínicas entre os indivíduos do grupo controlo e do grupo experimental. Relativamente ao questionário da qualidade de vida das pessoas, também não se verificaram diferenças estatisticamente significativas, quando avaliado na sua globalidade. Contudo, analisando todas as componentes do questionário individualmente, verifica-se que as intervenções cognitivo-comportamentais têm efeito na qualidade de vida dos utentes, na componente física, sintomática e social. Tabela 1_Estudo de Zhuang & Zhao (2013) Realizado Estudo de controlo aleatório experimental: 240 pessoas dependentes de heroína, divididas aleatoriamente em 2 grupos: Grupo de controlo (n=120) e grupo experimental Participantes/

(n=120). Com o grupo experimental foram utilizadas intervenções de terapia cognitivo-

Intervenção

comportamental e o grupo de controlo recebeu cuidados hospitalares de rotina durante 6 meses. Com o objetivo de Determinar se a terapia cognitivo-comportamental melhora a qualidade de vida em dependentes de heroína chineses

Instrumentos utilizados

Questionário da qualidade de vida de pessoas com problemas de adição; Dados demográficos e clínicos; Análise estatística com a utilização do programa SPSS. Houve melhorias significativas na qualidade de vida do grupo experimental após a intervenção

Resultados

cognitivo-comportamental dos enfermeiros. Permitiu também melhorar ao nível da saúde física e mental dos indivíduos em estudo, melhorar os sintomas e a sociabilização. Os participantes são indivíduos chineses dependentes de heroína, não sendo claro se os achados deste estudo se podem aplicar a diferentes grupos, como por exemplo, a população de outros países.

Limitações

Devido aos recursos limitados só foi possível seguir os participantes durante 6 meses. Embora tenha sido claro de que o estudo mostrou que as intervenções cognitivo-comportamentais têm efeito na qualidade de vida dos utentes, não foi possível verificar os seus benefícios a longo prazo.

DISCUSSÃO Os resultados encontrados evidenciam a necessidade de juntar intervenções cognitivocomportamentais à prática de enfermagem tendo em vista a melhoria da qualidade de vida dos nossos clientes (Zhuang & Zhao, 2013; Sampaio, Sequeira & Canut, 2014). Para que tal possa ser implementado, identifica-se a necessidade de formar os enfermeiros nas intervenções específicas da TCC (Zhuang & Zhao, 2013) e, também, a necessidade de estudos nesta área de forma a ser possível ter mais dados sobre os efeitos da TCC nesta população. Segundo Zhuang & Zhao (2013), este foi o primeiro teste de controlo aleatório que explora o efeito das intervenções cognitivo-comportamentais na melhoria da qualidade de vida 125


dos indivíduos dependentes de heroína chineses. Com a realização desta revisão da literatura, pode-se considerar que este foi o único estudo realizado no âmbito da TCC utilizada para tratamento de pessoas dependentes de substâncias e realizada por enfermeiros. Vários estudos (Rangé & Marlatt, 2008; Silva, Brando & Miccione, 2015) comprovam a eficácia desta terapia na melhoria da qualidade de vida dos indivíduos dependentes de substâncias, contudo esses estudos não foram realizados no âmbito da enfermagem. Para que tal possa ser implementado, identifica-se a necessidade de formar os enfermeiros em intervenções cognitivo-comportamentais (Zhuang & Zhao, 2013). E, também, a necessidade de estudos nesta área de forma a ser possível ter mais dados sobre os efeitos da TCC nesta população. Segundo Zhuang & Zhao (2013), este foi o primeiro teste de controlo aleatório que explora o efeito das intervenções cognitivo-comportamentais na melhoria da qualidade de vida dos indivíduos dependentes de heroína chineses. Vários estudos (Rangé & Marlatt, 2008; Silva, Brando & Miccione, 2015) comprovam a eficácia desta terapia na melhoria da qualidade de vida dos indivíduos dependentes de substâncias, contudo esses estudos não foram realizados no âmbito da enfermagem. Apenas foi encontrado um artigo na realização desta revisão, demonstrando a necessidade de investigação na área da enfermagem. O estudo de Zhuang e Zhao (2013) demonstra a necessidade de alargar este estudo a outras populações, visto que foi realizado junto da população chinesa que apresenta características culturais e políticas bastante diferentes das características da população ocidental. Por outro lado, a análise estatística realizada sobre os consumos de substâncias em Portugal difere daquela que se verifica no oriente, bem como os meios e políticas de saúde (SICAD, 2016; Zhuang & Zhao, 2013).De referir também que este estudo só foi possível realizar durante 6 meses. Embora tenha sido claro que as intervenções cognitivo-comportamentais têm efeito na qualidade de vida dos utentes, não foi possível verificar os seus benefícios a longo prazo. Por exemplo, não foi possível verificar o número de recaídas após o programa. Como possível justificação para os resultados encontrados nesta revisão da literatura, é necessário ter em consideração que podem ter sido omitidas fontes de informação relevantes pelas estratégias de pesquisa estabelecidas, como as bases de dados e os idiomas selecionados. Com os resultados obtidos nesta revisão é possível afirmar que a terapia cognitivo-comportamental realizada por enfermeiros com pessoas dependentes de substâncias deve ser alvo de mais estudos de investigação. Desta revisão fica também a questão se é importante a categoria profissional de quem executa a terapia ou se o importante é a formação para a executar. Sendo que os enfermeiros têm um papel fundamental na observação direta dos resultados das intervenções realizadas, visto que, em caso de pessoas internadas, o acompanhamento por enfermeiros é realizado 24 horas por dia. Será importante investir mais na formação de profissionais nesta área em Portugal, para que possa perceber realmente a sua eficácia na melhoria da qualidade

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de vida das pessoas com problemas de saúde mental e, em particular, tal como é o foco deste estudo, em pessoas dependentes do consumo de substâncias. CONCLUSÃO Tendo em conta a questão de investigação colocada inicialmente: “Qual a eficácia da TCC, realizada por enfermeiros, com pessoas dependentes do consumo de substâncias?” só foi possível verificar o seu efeito em pessoas dependentes de heroína, verificando-se a necessidade de alargar o estudo a dependência de outras substâncias. Também apenas se pode verificar o efeito desta terapia na qualidade de vida dos indivíduos chineses, havendo a necessidade de alargar o estudo para verificar outros indicadores como, por exemplo, o seu efeito na prevenção de recaídas. Percebe-se a necessidade de mais investigação nesta área, especialmente, tendo em conta as necessidades de saúde da população ocidental. Seria interessante e pertinente a realização de estudos na população portuguesa, em contexto de ambulatório e/ou de internamento, durante um período semelhante ao do estudo apresentado ou por um período mais alargado permitindo avaliar outros dados. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA As intervenções psicoterapêuticas realizadas pelos enfermeiros ainda não são uma prática recorrente. Contudo, este estudo comprova a utilização da TCC por enfermeiros, no tratamento de pessoas dependentes de heroína. O estudo utilizou intervenções de enfermagem, do âmbito psicoterapêutico, para ajudar dependentes de heroína a compreenderem as consequências e os danos provocados pela dependência, através de capacidades cognitivas e comportamentais corretas, com o objetivo de melhorar a sua qualidade de vida. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Leal, I. (2018). Psicoterapias. (1ª ed.) Lisboa: Pactor – Edições de Ciências Sociais, Forenses e da Educação. ISBN 978-989-693-075-2 Sampaio, F., Sequeira, C. & Lluch-Canut, T. (2014). A intervenção psicoterapêutica em enfermagem de Saúde Mental: Conceitos e Desafios. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, 1, 103-108 Ordem dos Enfermeiros (2010). Regulamento das competências específicas do enfermeiro especialista em enfermagem de saúde mental. Recuperado em 2018, Maio 6, de <https://iconline.ipleiria.pt/bitstream/10400.8/2735/3/ANEXO%20II%20%20Regulamento%20n.%C2%BA%20129%202011%20de%2018%20de%20fevereiro.pdf>

127


Silva, L., Branco, M., & Miccione, M. (2015). Eficácia Da Terapia Cognitivo-Comportamental No Tratamento Da Dependência Química: Uma Revisão De Literatura. Revista Estação Científica, 13, 1-17 Dobson, K., & Dozois, D. (2010). Historical and Philosophical Bases of the CognitiveBehavioral Therapies. Em Division of Guilford Publications (Ed.), Hanbook of Cognitivebehavioral Therapies. Nova Iorque: The Guilford Press SICAD (2016). Sinopse Estatística 2016–Substâncias Ilícitas. Recuperado em 2018, junho 17, de <http://www.sicad.pt/PT/EstatisticaInvestigacao/Documents/2018/SinopseEstatistica16_subs tanciasIlicitas_PT.pdf> Zhuang, S., & Zhao, S. (2013). Effect of cognitive behavioural interventions on the quality of life in chinese heroin-dependent individual in detoxication: a randomized controlled trial. Journal of Clinical Nursing, 23, 1239-1248. https://doi.org/10.1111/jocn.12287 Rangé, B., & Marlatt, G. (2008). Terapia cognitivo-comportamental de transtornos de abuso de álcool e drogas. Revista Brasileira de Psiquiatria, 30(2), 88-95 Araújo, C., & Shinohara, H. (2002). Avaliação e diagnóstico em terapia cognitivocomportamental. Interação em Psicologia, 6(1), 37-43. Joanna Briggs Institute Reviewers [JBI] (2015). Joanna Briggs Institute Reviewers’ Manual: 2015

edition/Supplement.

Recuperado

de

2018,

junho

11,

de

http://joannabriggs.org/assets/docs/sumari/Reviewers-Manual_Methodology-for-JBI-ScopingReviews_2015_v2.pdf

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Efeito das Técnicas de Relaxamento na Ansiedade em Pessoas com Doença Mental: a scoping review Sara Costa*. Olga Vatentim**, Paulo Seabra***, Maria José Nogueira**** *Enfermeira, Mestranda em Enfermagem com Especialização em Saúde Mental e Psiquiátrica na Universidade Católica Portuguesa. Lisboa, Portugal. Email: enf.sc92@gmail.com **Doutora em Enfermagem; Enfermeira Especialista em ESMP, Professora Adjunta na Escola Superior de Saúde Atlântica, Fabrica da Pólvora, 2730-036 Barcarena, Portugal; Investigadora no Centro de Pesquisa em Tecnologia e Serviços de Saúde (CINTESIS - NursID); E-mail: ommvalentim2@gmail.com ***Doutor em Enfermagem; Enfermeiro Especialista em ESMP; Professor Adjunto na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa. Portugal. Investigador na Unidade de Investigação & Desenvolvimento de Enfermagem (UI&DE); Email: pauloseabra@esel.pt ****Doutora em Enfermagem; Enfermeira Especialista em ESMP, Professora Adjunta na ESSATLA, Fabrica da Pólvora, 2730-036 Barcarena, Portugal; Investigadora no Centro de Pesquisa

em

Tecnologia

e

Serviços

de

Saúde

(CINTESIS

-

NursID)

Email:

nogueira.mjc@gmail.com RESUMO INTRODUÇÃO: Na atualidade, a ansiedade está presente no quotidiano de grande parte da população, sendo que se torna imprescindível atuar na diminuição da mesma. As técnicas de relaxamento são um dos recursos recomendados como uma alternativa às medidas farmacológicas, na gestão da ansiedade. OBJETIVO: Mapear o efeito das técnicas de relaxamento na gestão da ansiedade em pessoas com doença mental. MÉTODO: Realizada uma scoping review, seguindo os critérios do Joanna Briggs Institute. Os critérios de inclusão utilizados foram definidos através do método PCC. Foram incluídos estudos primários, revisões de literatura e literatura cinzenta. A pesquisa foi realizada nas plataformas B-On e EBSCO e nas bases de dados Pub-Med e Scielo durante o mês de junho de 2018. Foram utilizados descritores Decs e Mesh e recorremos ainda à conjugação com operadores booleanos. RESULTADOS: Foram identificados três estudos que aplicaram diferentes técnicas de relaxamento a amostras de indivíduos com o diagnóstico de ansiedade. CONCLUSÕES: Existe eficácia na aplicação das técnicas de relaxamento na ansiedade em indivíduos com perturbação/doença mental. Contudo, aconselha-se a interpretação cautelosa destes resultados. Um dos fatores a ter em atenção é a duração dos programas

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experimentais, que foi considerada curta. Outro fator a ponderar é verificar se os benefícios destas técnicas são influenciados pela crenças pessoais e/ou autossugestão. Assim, existe a necessidade de se realizarem mais estudos. Palavras chave: Ansiedade; Técnicas de Relaxamento; Saúde Mental ABSTRACT INTRODUCTION: Currently, anxiety is present in the daily life of a large part of the population and it is essential to act in its reduction. Relaxation techniques are one of the recommended resources as an alternative to pharmacological measures in anxiety management. OBJECTIVE: To map the effect of relaxation techniques on anxiety management in people with mental illness. METHOD: A scoping review was carried out, following the criteria of the Joanna Briggs Institute. The inclusion criteria used were defined using the PCC method. Primary studies, literature reviews, and gray literature were included. The research was carried out on the BOn and EBSCO platforms and the Pub-Med and Scielo databases during the month of June 2018. Decs and Mesh descriptors were used and we also used Boolean operators. RESULTS: Three studies were applied different relaxation techniques to samples from individuals with anxiety diagnosis. CONCLUSIONS: There is efficacy in the application of relaxation techniques in anxiety in individuals with mental illness / disorder. However, cautious interpretation of these results is warranted. One of the factors to be considered is the duration of the experimental programs, which was considered short. Second factor to be considered is whether the benefits of these techniques are influenced by the personal beliefs or self-suggestion. Therefore, more studies are needed. Keywords: Anxiety; Relaxation Techniques; Mental Health RESUMEN INTRODUCCIÓN: En la actualidad, la ansiedad está presente en el cotidiano de gran parte de la población, siendo que se vuelve imprescindible actuar en la disminución de la misma. Las técnicas de relajación son uno de los recursos recomendados como una alternativa a las medidas farmacológicas, en la gestión de la ansiedad. OBJETIVO: Mapear el efecto de las técnicas de relajación en la gestión de la ansiedad en personas con enfermedad mental. METODOLOGÍA: Realizada una scoping review, siguiendo los criterios del Joanna Briggs Institute. Los criterios de inclusión utilizados se definieron mediante el método PCC. Se incluyeron estudios primarios, revisiones de literatura y literatura gris. La investigación se realizó en las plataformas B-On y EBSCO y en las bases de datos Pub-Med y Scielo durante 130


el mes de junio de 2018.Fueron utilizados descriptores Decs y Mesh y recurrimos a la conjugación con operadores booleanos. RESULTADOS: Se identificaron tres estudios que aplicaron diferentes técnicas de relajación a muestras de individuos con el diagnóstico de ansiedad. CONCLUSIONES: Existe eficacia en la aplicación de las técnicas de relajación en la ansiedad en individuos con trastorno/enfermedad mental. Pero, se aconseja la interpretación cautelosa de estos resultados. Uno de los factores a tener en cuenta es la duración de los programas experimentales, que se consideró corta. Otro factor a considerar es verificar si los beneficios de estas técnicas son influenciados por la existencia de creencias personales y/o autosuficiente. Así, existe la necesidad de realizar más estudios. Palabras clave: Ansiedad; Técnicas de Relajación; Salud mental INTRODUÇÃO O termo “Relaxamento” significa o alívio da tensão e alongamento das fibras musculares. No entanto, o relaxamento apresenta também uma dimensão mental. Assim, o termo “relaxado” engloba tanto o relaxamento muscular, como pensamentos de tranquilidade e serenidade. O estado geral aparente de relaxamento pode ser induzido através da utilização de métodos físicos ou psicológicos (Payne, 2003). Existe dois tipos de relaxamento, o superficial e o profundo. O relaxamento superficial engloba técnicas que produzem um efeito imediato, pelo que podem ser utilizadas quando o indivíduo se depara com situações stressantes e tem como objetivo a libertação rápida do excesso de tensão, sendo que se aplica no quotidiano (Payne, 2003) Assim, a técnica de respiração profunda é exemplo disso. O relaxamento profundo engloba procedimentos que provocam um efeito de grande amplitude, sendo, habitualmente, realizados num ambiente calmo, em posições específicas. Como exemplo existe o relaxamento progressivo de Jacobson e a meditação (Payne, 2003). Na atualidade, a ansiedade está presente no quotidiano de grande parte da população, foi associada a um sofrimento considerável e a deficiência funcional, tendo elevados custos para a sociedade. Segundo a Organização Mundial de Saúde (2017) “a proporção da população global com perturbações de ansiedade em 2015 foi estimada em 3,6%” (p.10), tornando-se imprescindível atuar na diminuição da mesma As estratégias mais comuns de tratamento da ansiedade englobam a terapia farmacológica e a psicoterapia. No entanto, 30 a 60% dos utentes não atinge a remissão dos sintomas (Hoge et al., 2013). A intervenção farmacológica produz efeito na diminuição da ansiedade, contudo é importante conhecer o alcance que as medidas não farmacológicas podem ter, nomeadamente as técnicas de relaxamento.

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O objetivo desta revisão é mapear o efeito das técnicas de relaxamento na ansiedade em pessoas com doença mental. Partiu-se da pergunta de investigação: Qual o efeito das técnicas de relaxamento na ansiedade em pessoas com doença mental? METODOLOGIA A metodologia desta scoping review foi orientada pelas recomendações do Joanna Briggs Institute [JBI] (2015), que recomenda seguir cindo etapas metodológicas: identificar uma questão de investigação, identificar estudos relevantes, selecionar os estudos, mapear a informação e compilar, resumir e relatar os resultados. A questão de pesquisa foi baseada no PCC (População, Conceito e Contexto), bem como os critérios de inclusão. Assim, definiu-se como critérios de inclusão: Tipo de participantes: pessoas adultas portadoras de doença mental, com idades compreendidas entre os 18 e os 65 anos; Conceito: Intervenção – Técnicas de Relaxamento utilizadas no tratamento da ansiedade; Contexto: em qualquer contexto onde as pessoas são submetidas a essas técnicas; Tipos de Fontes: Estudos primários, Revisões de Literatura e Literatura cinzenta. Como estratégias de pesquisa, utilizou-se os descritores Decs e Mesh. com pesquisa nas plataformas B-On e EBSCO e nas bases de dados CINAHL® with Full Text, Nursing & Allied Health Collection, Cochrane Plus Collection, MedicLatina e MEDLINE ® with Full Text, PubMed e Scielo. Através das palavras-chave identificadas na pergunta de revisão realizou-se uma primeira pesquisa com os descritores Decs para as plataformas B-on, e EBSCO e na base de dados Scielo; com os descritores Mesh na Pub-Med, para nos ajudar a clarificar os descritores efetivos para a revisão. O protocolo de pesquisa incluiu os termos e os operadores booleanos- DECS: Anxiety AND Relaxation Therapy AND Mental health or mental disorders. MESH: Anxiety AND Relaxation Therapy AND Mental health or Mental disorders. Também foi utilizado o descritor Relaxation Techniques ao invés de Relaxation Therapy. Selecionaram-se artigos de 2008 a 2018; a artigos exclusivamente em língua portuguesa, inglesa e espanhola; e artigos integralmente disponíveis de forma gratuita (Free Full Text). A pesquisa decorreu no mês de junho de 2018. De seguida, pode-se observar o Fluxograma na Figura 1, onde consta o processo de seleção dos artigos. Recorremos a revisão por pelo menos dois dos investigadores para decisão de elegibilidade e inclusão dos artigos. Ressalva-se que foi adicionado para elegibilidade um artigo completo a partir de fontes das referências.

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Identificação

EBSCO (n= 7)

Seleção Elegibilidade

Scielo (n=3)

B-on (n=15)

Registos duplicados nos cruzamentos entre as bases de dados- removidos (n=3)

EBSCO (n= 4)

Incluídos

Pub-Med (n=41)

Excluídos na avaliação de títulos e resumos (n=53)

Pub-Med (n=41)

Scielo (n=3)

B-on (n=15)

Conteúdos impertinentes: os manuscritos tratavam de outros assuntos como comparações entre outras terapias e fora da faixa etária considerada nos critérios de inclusão

Artigos completos recuperados (n=10) EBSCO (n=0) Pub-med (n=7) B-on (n=2) Scielo (n=1)

Artigos completos excluídos-inelegíveis (n= 8)

Motivos: Conteúdos impertinentesnão se referem especificamente à temática ansiedade; não têm critérios compatíveis com os definidos para inclusão.

Amostra final (n=3) EBSCO (n=0) Pub-med (n=1) B-on (n=0) Scielo (n=1)

Artigo completo adicionado para elegibilidade através de fontes de referências (n=1)

Outras fontes (n=1)

Figura 1- Fluxograma de seleção dos artigos, adaptado de Prisma

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RESULTADOS Do processo de seleção dos artigos foram selecionados três que cumpriam todos os critérios de inclusão. O primeiro artigo (Chen, Y., Huang, X., Chien, C. & Cheng, J., 2016) é um estudo de controlo aleatório, que tem como objetivo avaliar a efetividade da aplicação da técnica /treino Diaphragmatic Breathing Relaxation (DBR) na redução da ansiedade. O estudo teve como critérios de inclusão pessoas com ansiedade durante 1 mês; usaram como medida 4 indicadores fisiológicos para realizar o pré-teste e o pós-teste. O total de 46 participantes (n=46) foram divididos de forma aleatória em dois grupos, o de DBR (n=24) e o grupo de controlo (n=22). Apenas 30 dos participantes completaram o curso, 15 em cada grupo, uma vez que 16 participantes não continuaram o tratamento de acompanhamento até completar o pós-teste. Todos os participantes foram requeridos para participar no curso com uma duração de 8 semanas, 2 vezes por semana nas 4 primeiras semanas e 1 vez por semana nas últimas 4 semanas. O grupo de controlo mantinha apenas as rotinas dos exercícios de respiração. Este treino decorreu num gabinete de terapia ocupacional no China Medical University Hospital, e o terapeuta tinha experiência e realizou formação em DBR durante vários meses. Para aumentar o efeito da DBR os participantes tinham que, no domicílio, treinar 2 vezes/dia e executar pelo menos 10 exercícios de BDR por sessão. Deveriam ainda realizar um registo diário sobre os exercícios realizados e as dificuldades encontradas nas sessões. O terapeuta usou as informações nos diários para compreender melhor a resposta dos participantes ao programa de exercícios. Os participantes não sabiam se se encontravam no grupo experimental ou no de controlo. Embora apenas o grupo experimental recebesse treino em DBR, tanto o grupo experimental como o de controlo participaram na prática de respiração de relaxamento com monitorização através de biofeedback (a condutividade da pele, o fluxo sanguíneo periférico, a frequência cardíaca e a frequência respiratória). Todos os participantes realizaram as atividades em horários diferentes, de modo a receberem atenção individual e a evitar o contacto com outros participantes. Os participantes foram avaliados através de testes padronizados e validados, como por exemplo os relatórios dos próprios participantes, a observação e o biofeedback, que foram aplicados antes e imediatamente após o treino de DBR. Neste estudo concluiu-se que o treino DBR foi eficaz na redução dos níveis de ansiedade (em contexto comunitário e clínico), contudo os resultados deveriam ser considerados preliminares até serem replicados em amostras maiores e até os efeitos a longo prazo serem investigados. Enquanto os participantes do grupo experimental tiveram o treino DBR, os participantes do grupo de controlo realizaram apenas as atividades respiratórias de rotina, sendo que esta discrepância pode ter criado um viés de atenção. O segundo artigo (Chen et al., 2012) é uma revisão sistemática com meta-análise sobre estudos de controlo aleatório e teve como objetivo investigar todas as terapias com a palavra 134


chave “Meditativo”, que engloba diferentes terapias gigong ou terapia meditativa na China (como yoga, MM- Mindfullness meditation-, TM- Meditação transcendental, Gigong, Tai chi ou Taiji, e Imagens guiadas) para examinar os seus efeitos na ansiedade, utilizando critérios mais adequados para aumentar a qualidade da avaliação. O objetivo desta revisão foi investigar, sistematicamente, através de RCT (randomized controlled trials) as evidências sobre a eficácia geral, a dimensão do efeito e segurança de todas as terapias meditativas para reduzir sintomas de ansiedade em vários tipos de participantes e condições de saúde. Este estudo foi realizado durante o mês de dezembro de. Identificaram-se mais de 1000 resumos, 40 artigos, e a maioria desses estudos (28) foram aplicados em utentes que tinham outras patologias, mas que também apresentavam sintomas de ansiedade, 8 estudos foram com indivíduos saudáveis e 4 estudos com utentes que sofrem de distúrbio de ansiedade. As escalas mais utilizadas para avaliar os níveis de ansiedade foram o STAI (Spielberg State- Trast Anxiety Inventory) e a HADS (Hospital Anxiety and Depression scale). As amostras variaram entre 20 a 298 indivíduos, sendo que 36 estudos tinham dados suficientes para serem incluídos na meta-análise para comparação quantitativa. A amostra combinada foi composta de 2466 indivíduos, na qual 1151 se encontravam nos grupos de meditação e 1315 estavam em grupos de controlo/ comparação. Esta revisão mostrou algumas evidências consistentes que as terapias meditativas podem ser um tratamento eficaz para indivíduos com sintomas de ansiedade. Os efeitos das terapias meditativas para a ansiedade foram clinicamente relevantes quando comparados com os grupos de controlo, porém não tão robustos quando comparados com outras terapias ativas ou alternativas. Relativamente às limitações deste estudo, destaca-se a diversidade de modalidades de meditação e designs de estudos, que tornam difícil retirar uma conclusão geral baseada em evidência, uma vez que os efeitos das terapias meditativas para a ansiedade diferem consoante o tipo de terapia com que são comparados. Existe ainda outra limitação deste estudo, que é o facto de existir possível efeito placebo (como por exemplo as crenças que cada indivíduo tem sobre as terapias meditativas, ou a música que é utilizada em cada terapia). O tradicional design double-blind placebo-controlled utilizado em ensaios clínicos farmacêuticos não é aplicável a este tipo de terapia, sendo que estes estudos de terapias e meditacionais envolvem mais elementos de participação ativa e prática diária dos participantes do estudo, de modo que se torna mais difícil aplicar os procedimentos standard para controlo de qualidade e conformidade terapêutica. Assim sendo, os resultados deste tipo de RCT podem ser mais influenciados por potenciais efeitos placebo e sugerir a necessidade de identificar designs de investigação mais inovadores e condições de controlo comparáveis que permitam a real avaliação da efetividade/eficácia nos resultados de redução de ansiedade.

135


O terceiro estudo selecionado (Javier Gonzalez, 2012) é um estudo quantitativo, quaseexperimental, longitudinal e prospetivo que tem como objetivo apurar se as terapias de relaxamento beneficiam os utentes com ansiedade. O estudo foi realizado no Centro de Saúde Mental do Infante em Múrcia durante os meses de dezembro de 2009 até março de 2010. A população alvo foram 70 utentes que tinham o diagnóstico de ansiedade. O critério de inclusão utilizado foi utentes que aceitassem receber o treino através do relaxamento progressivo de Jacobson. A amostra final foi de 39 pessoas numa amostragem de conveniência não probabilística. A técnica de relaxamento foi a variável independente escolhida e foi definida como variável qualitativa nominal. A variável dependente foi a ansiedade, como variável quantitativa discreta. A técnica de relaxamento não foi realizada pelo investigador, mas sim pelos enfermeiros com especialização em saúde mental e psiquiátrica do Centro de Saúde Mental do Infante. O procedimento foi o seguinte: dois grupos com um total de 20 pessoas cada, sendo que foi realizado o mesmo procedimento nos dois grupos, existindo assim igualdade de condições. Cada grupo de, aproximadamente, 20 pessoas realizaram 8 sessões de relaxamento, conforme o modelo de relaxamento progressivo de Jacobson. Foi utilizado o STAI antes de iniciarem este programa e no fim das oito sessões. O estudo envolveu o dobro das mulheres em relação aos homens, sendo que 30 utentes se encontravam a realizar medicação para reduzir a ansiedade e 9 não se encontravam medicados. Observou-se que a ansiedade antes-depois nos utentes que se encontravam a realizar medicação para tratar a ansiedade diminuiu em 4 pontos, enquanto que os utentes que não realizavam medicação diminuíram, aproximadamente, 19 pontos. Em relação aos utentes com o diagnóstico de ansiedade que não tomam medicação, os resultados foram significativos. Quanto às limitações do estudo, a amostra dos utentes que não tomam medicação deveria ter sido maior e deveria ter sido analisada separadamente, de modo a permitir uma melhor visualização dos efeitos. A inexistência de grupo controlo também se traduz numa menor possibilidade de atribuir a melhoria psicológica especificamente à intervenção, uma vez que também há a influência do tratamento farmacológico. DISCUSSÃO Nos três artigos analisados todos se referem às técnicas de relaxamento como eficazes na ansiedade, contudo existem alguns fatores a considerar. Um fatore é relativo à duração dos programas experimentais, que foi considerada curta, (Chen et al., 2016) tornando-se necessário realizar um acompanhamento mais prolongado, para melhor monitorização dos resultados. Um segundo fator a considerar é que na aplicação das técnicas de relaxamento os indivíduos têm uma participação ativa, tornando-se difícil, os clientes não saberem em que grupo se encontram, e conseguir ter um grupo de controlo significativo em que se ocupe a mesma proporção de tempo e esforço em tratamentos que se ocupa com o grupo 136


experimental, sendo que sem benefícios consideráveis para a condição de saúde estudada (Chen et al., 2012). Além disso, é necessário ter em conta que muitos participantes tomam medicação para diminuir a ansiedade (González, J, 2012), tornando-se difícil perceber qual o efeito real das técnicas de relaxamento. CONCLUSÃO Através desta scoping review pretendeu-se compreender o efeito das técnicas de relaxamento na ansiedade em doentes que sofrem de doença mental. Existe uma grande variedade de técnicas de relaxamento, e nos estudos selecionados foram usadas: a Diaphragmatic Breathing Relaxation; as terapias meditativas (englobam desde a meditação a imagens guiadas) e o relaxamento progressivo de Jacobson. Os estudos selecionados, evidenciam que existe eficácia na aplicação das técnicas de relaxamento na ansiedade em indivíduos com perturbação/doença mental, tendo a ansiedade diminuído. LIMITAÇÕES DO ESTUDO Os autores consideram como limitações o fato de terem sido excluídos artigos/estudos sobre outras técnicas de relaxamento por não preencherem os critérios de inclusão, exclusão de artigos em outras línguas não selecionadas e existência de artigos de interesse em bases de dados que não foram usadas. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA DE ENFERMAGEM A técnica de relaxamento é extremamente relevante para a prática de Enfermagem, uma vez que o número total estimado de pessoas que vivem com distúrbios de ansiedade no mundo é de 264 milhões. Este total para 2015 representa um aumento de 14,9% desde 2005 (Organização Mundial de Saúde, 2017). O desenvolvimento de competências no âmbito das técnicas de relaxamento deve ser uma prioridade para os Enfermeiros com especialização em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica, dado que é possível diminuir os níveis de ansiedade dos indivíduos, promovendo assim a saúde mental. A mudança de paradigma, que visa apostar na prevenção da doença mental e na promoção da saúde, promovendo os cuidados especializados de saúde mental na comunidade é importante para que possamos desenvolver e implementar programas que envolvam técnicas de relaxamento. Nesta pesquisa não foi encontrado nenhum estudo neste âmbito realizado em Portugal, pelo que seria pertinente serem realizados estudos neste sentido.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Chen, K.; Berger, C.; Manheimer, E.; Forde, M.; Magidson, J.; Dachman, L. & Lejuez, C. (2012). Meditative therapies for reducing anxiety: A systematic review and meta-analysis of Randomized controlled trials. Depression and anxiety 29, 545–562. Doi: 10.1002/da.21964 Chen, Y., Huang, X., Chien, C., & Cheng, J. (2016). The Effectiveness of Diaphragmatic Breathing Relaxation Training for Reducing Anxiety. Perspectives in Psychiatric Care. 53, 329336. ISSN 0031-5990. Doi: 10.1111/ppc.12184 González, J. (2012). Estudio cuasi-experimental sobre las terapias de relajación en pacientes con ansiedade. Enfermeria Global, 26, 39-53. Doi: http://dx.doi.org/10.4321/S169561412012000200004 Hoge, E.; Bui, E.; Marques, L.; Metcalf, C.; Morris, L.; Robinaugh, D.; Worthington, J.; Pollack, M.; Simon, N. (2013) Randomized Controlled Trial of Mindfulness Meditation for Generalized Anxiety Disorder: Effects on Anxiety and Stress Reactivity. Journal of Clinical Psychiatry, 74(8), 786–792. Doi: 10.4088/JCP.12m08083. Joanna Briggs Institute (2015). Joanna Briggs Institute Reviewers’ Manual: 2015. Austrália. ISBN: 978-1-920684-11-2 Jonsson, K. & Kjellgren, A. (2016). Promising effects of treatment with flotation-REST (restricted environmental stimulation technique) as an intervention for generalized anxiety disorder (GAD): a randomized controlled pilot trial. BMC Complementary and Alternative Medicine, 16(108), 2.Doi: https://doi.org/10.1186/s12906-016-1089-x Payne, R. (2003). Técnicas de Relaxamento: Um Guia Prático para Profissionais de Saúde. Loures. Lusociência. ISBN: 972-8383-41- X (Trabalho original em inglês publicado em 2000) Townsend, M. (2011). Enfermagem em Saúde Mental e Psiquiátrica. 6.ª edição. Loures: Lusociência. ISBN: 978-972-8930-61-5 (Trabalho original em inglês publicado em 2009). World Health Organization (2017) Depression and Other Common Mental disorders: Global Health Estimates. Geneva. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO.

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Cuidado de promoção à saúde mental na universidade: Experiência com a Terapia Comunitária Integrativa Lucas Rodrigo Batista Leite*, Rosa Lúcia Rocha Ribeiro**, & Heloisa de Carvalho Lima*** *Terapeuta Comunitario em formaçao; Graduando em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Mato Grosso, Instituto de Saúde Coletiva; Avenida Fernando Corrêa da Costa, nº 2367, Boa Esperança, Código Postal 78060-900, Cuiabá – MT, Brasil. E-mail: batistaleitelucas@gmail.com **Terapeuta comunitário; Doutora em Enfermagem em Saúde Pública; Professora Assistente da Universidade Federal de Mato Grosso, Faculdade de Enfermagem; Avenida Fernando Corrêa da Costa, nº 2367, Boa Esperança, Código Postal 78060-900, Cuiabá – MT, Brasil. Email: rosalucia@gmail.com ***Terapeuta Comunitária em formação; Mestra em Estudos de Cultura Contemporânea; Psicóloga da Universidade Federal de Mato Grosso, Pro-reitoria de Assistência Estudantil; Avenida Fernando Corrêa da Costa, nº 2367, Boa Esperança, Código Postal 78060-900, Cuiabá – MT, Brasil. E-mail: limadecarvalhoheloisa@gmail.com RESUMO a Terapia Comunitária Integrativa (TCI) é um procedimento terapêutico de caráter preventivo em saúde mental, que se configura-se como um espaço de encontros interpessoais, onde as pessoas podem partilhar problemas pessoais que geram sofrimento cotidiano, buscando soluções para os mesmos por meio da troca de experiências. O objetivo deste trabalho é descrever a utilização da TCI no cuidado em saúde mental na universidade. Trata-se de um relato de experiência da participação dos autores no Projeto Aconchega, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil, no período de maio a dezembro de 2017, que oferecia cuidado em saúde mental por meio de rodas de TCI à alunos, docentes e demais profissionais. As rodas ocorriam às terças-feiras e tinham duração de uma hora. Utilizou-se nesse recorte registros de 16 encontros ocorridos nesse período. A maioria dos participantes eram estudantes e consequentemente, os problemas partilhados advinham de suas vivências acadêmicas. Considera-se que a TCI tem funcionado como um suporte complementar de apoio na promoção da saúde mental de estudantes universitários. Palavras-Chave: promoção de saúde; saúde mental; Terapia Comunitária Integrativa; universidade;

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ABSTRACT Integrative Community Therapy (TCI) is a therapeutic procedure of preventive character in mental health, which is configured as a space for interpersonal encounters, where people can share personal problems that generate daily suffering, seeking solutions to them through exchange of experiences. The purpose of this paper is to describe the use of ICT in mental health care at university. This is an experience report of the authors' participation in the Aconchega Project, from the Federal University of Mato Grosso (UFMT), Brazil, from May to December 2017, which offered mental health care through TCI students, teachers and other professionals. The wheels took place on Tuesdays and lasted for an hour. We used 16 records in this period. Most of the participants were students and consequently, the shared problems stemmed from their academic experiences. TCI is considered to have acted as a complementary supportive support in promoting the mental health of university students. Keywords: health promotion; mental health; Integrative Community Therapy; university; RESUMEN La Terapia Comunitaria Integrativa (TCI) es un procedimiento terapéutico de carácter preventivo en salud mental, que se configura como un espacio de encuentros interpersonales, donde las personas pueden compartir problemas personales que generan sufrimiento cotidiano, buscando soluciones para los mismos por medio intercambio de experiencias. El objetivo de este trabajo es describir la utilización de la TCI en el cuidado en salud mental en la universidad. Se trata de un relato de experiencia de la participación de los autores en el Proyecto Aconchega, de la Universidad Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil, en el período de mayo a diciembre de 2017, que ofrecía cuidado en salud mental por medio de ruedas de TCI alumnos, docentes y demás profesionales. Las ruedas ocurrían los martes y tenían una duración de una hora. Se utilizó en ese recorte registros de 16 encuentros ocurridos en ese período. La mayoría de los participantes eran estudiantes y, consecuentemente, los problemas compartidos venían de sus vivencias académicas. Se considera que la TCI ha funcionado como un soporte complementario de apoyo en la promoción de la salud mental de estudiantes universitarios. Palabras Clave: promoción de la salud; salud mental; Terapia Comunitaria Integrativa; universidad. INTRODUÇÃO A Terapia Comunitária Integrativa (TCI) é um procedimento terapêutico de caráter preventivo em saúde mental e que permite a construção de redes solidárias. É um espaço de convivência cultural e social, onde as pessoas se reúnem para ouvir, acolher e compartilhar seus problemas e que geram sofrimento cotidiano. Neste espaço uma pessoa pode apoiar a outra,

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buscando soluções para os problemas apresentados (PET Conexões de Saberes, 2018). A TCI é um espaço de acolhimento do sofrimento, (Barreto & Lazarte, 2013). Foi criada em 1987 na Favela de Pirambu, Fortaleza, Brasil, sob a coordenação do médico psiquiatra, antropólogo e teólogo Adalberto de Paula Barreto, professor do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará (Barreto & Lazarte, 2013). É terapia por que vem do grego, Therapeia, que significa acolher, atender, ser caloroso. Comunitária, pois, deriva de comunidade (junção de duas outras palavras Comum+Unidade), ou seja, o que as pessoas têm em comum. Integrativa, pois, integra saberes diversos, de variados contextos socioculturais; a cultura deve ser valorizada e articulada de modo complementar com outros conhecimentos (Barreto, 2008). Assim, a Terapia Comunitária Integrativa é o espaço onde um terapeuta devidamente capacitado, acolhe e cuida do outro, explorando sentimentos que causam sofrimento e buscando encontrar os pontos em comum com os demais participantes, sempre, de forma integrada com os conhecimentos que cada um já traz. A TCI não é um processo psicoterapêutico, mas sim um ato terapêutico de grupo, que pode ser realizado com qualquer número de pessoas, de qualquer nível socioeconómico (Barreto, 2008). De acordo com Barreto (2008), a TCI apresenta três características básicas: Primeiro, a reflexão-ação de um trabalho de saúde mental, preventiva e curativa. Segundo, a ênfase no trabalho coletivo, do grupo, para que juntos busquem soluções/superação para seus problemas. Terceiro, promoção gradual de uma consciência social, para que as pessoas percebam as mazelas sociais e descubram suas potencialidades transformadora. E tem com objetivos, entre outros: estimular a autonomia do indivíduo; reforçar a autoestima individual e coletiva; reforçar a autoconfiança de cada indivíduo; favorecer o desenvolvimento comunitário, restaurando e fortalecendo os laços sociais; valorizar e promover as práticas tradicionais e culturais. A Terapia Comunitária tem se sustentando em cinco eixos teóricos: pensamento sistêmico, teoria da comunicação, antropologia cultural, pedagogia de Paulo Freire e resiliência. Pelo pensamento sistêmico observamos que só é possivel compreender os problemas e resolvelos se o considerarmos como parte de uma rede complexa, com ramificações, que articula o social, o biologico e o psiquico. Pela antropologia cultural, identificamos a cultura como elemento construtor da identidade pessoal e grupal, e que interfere na construção do Eu. Pela teoria da comunicação, temos que a comunicação é o que une as pessoas, as famílias, a sociedade. Pela Pedagogia de Paulo Freire, percemos que ensinar não é transferir conhecimento, mas sim diálogo, troca, reciprocidade; que há um tempo para falar, e outro para escutar, um para ensinar e outro para aprender. Entendendo que o ser humano é inacabado. Pela resiliência, que as crises e vitórias de cada um são materias-prima para o 141


trabalho de construção de consciencia social.; o enfrentamento dos problemas permite a sobrevivência (Barreto, 2008). Segundo Barreto (2008) as experiências, na TCI, são partilhadas de forma circular e horizontal, de modo que cada participante se torne terapeuta de si mesmo, transformando o KAOS (sofrimento), em KYROS (espaço sagrado, espaço organizado). A TCI tem uma dinâmica simples de realização, de duração máxima de uma hora, com regras que respeitam a vontade das pessoas falarem ou não, de suas vivências e sentimentos (Ribeiro, Nogueira, Lopes & Lima., 2014). Segundo Ribeiro et al. (2014), a TCI tem sido desenvolvida na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), desde 2010, pela Faculdade de Enfermagem (FAEN) e pelo Programa de Educação Tutorial (PET) Conexões de Saberes “Universidade, Saúde e Cidadania”, enquanto projeto de extensão, com diferentes grupos: estudantes, pessoas hospitalizadas, familias e utentes de ambulatórios, entre outros. Como desdobramento dessa trajetória, em 2017 foi iniciado, na UFMT, o projeto de extensão Aconchega, cujo objetivo é oferecer espaço de acolhimento aos estudantes, por meio da TCI. Este trabalho tem o objetivo de relatar a forma como a TCI é desenvolvida pelo Aconchega, fazendo uma reflexão a repercussão do projeto entre seus participantes. MÉTODOS Trata-se de um relato de experiência e reflexão a partir da atuação dos autores no projeto de extensão Aconchega, integrante do Programa de Extensão (PBEX) Ações Afirmativas, da Próreitoria de Cultura, Extensão e Vivência (PROCEV), da UFMT, Brasil, que oferece cuidado em saúde mental por meio de rodas de TCI à alunos, docentes e demais profissionais. Para o relato, utilizou-se as rodas de TCI ocorridas no período de maio a dezembro de 2017, totalizando 16 rodas, que contaram com a facilitação dos autores. Essas rodas aconteciam todas as terças-feiras e tinham duração de aproximadamente uma hora. Inicialmente apresenta-se como o Aconchega se desenvolve na universidade, e posteriormente, faz-se uma reflexão da repercussão do mesmo entre os participantes. As informações foram extraidas das fichas de registro das rodas de TCI, dos autores. Projeto Aconchega O Projeto Aconchega nasceu como desdobramento de um curso de formação de terapeutas comunitários, realizado pelo curso de enfermagem/UFMT Sinop, em parceria com a FAEN/UFMT e com o Grupo de Pesquisa Saúde Mental Comunitária, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em setembro de 2016. Como o curso estava sendo custeado pela UFMT, foi solicitado que os participantes dessem alguma contrapartida para a universidade e, assim, foi iniciado o Aconchega, na UFMT Cuiabá, em maio de 2017, como projeto de extensão, afim 142


de oferecer um espaço de acolhimento e cuidado em saúde (mental) a estudantes, docentes, técnicos administraticos, profissionais tercerizados e outros interessados. O Projeto era realizado no prédio do Sindicato dos Trabalhadores Técnicos Administrativos em Educação da UFMT (SINTUF), por ser um espaço aberto, coberto e de pouca circulação de pessoas (o que deixava os participantes mais confortaveis). Lá, com as cadeiras organizadas de forma circular, pelos bolsistas e voluntários do projeto, todas as terças-feiras, das 17:30 as 18:30 horas, e sempre facilitada por um terapeuta e um co-terapeuta, ocorriam as rodas de TCI. O tepeuta é quem de fato conduz a roda de TCI e o co-terapeuta dá suporte a este, geralmente apresentando a terapia, suas regras e fazendo as dinâmicas de aquecimento.

Figura 1 - Roda de TCI, Projeto Aconchega, 2017 Fonte: arquivo dos autores

A terapia ocorria seguindo um protocolo de desenvolvimento, que era composto pelas seguintes fases: acolhimento, escolha do tema, contextualização, problematização e enceramento. O acolhimento iniciava com a recepção das pessoas, com abraço e palavras de boas-vindas, ao som de alguma música escolhida pelos bolsistas. Logo em seguida, o co-terapeuta convidava as pessoas para entraem na roda. Nessa fase ele fazia uma dinâmica de apresentação e quebra gelo, dava as boas-vindas e a falava da TCI das suas regras, quais são: fazer silêncio enquanto a/as pessoa/s estiverem a falar; falar utilizando o eu (eu penso, eu acredito, eu vivo); não dar conselho; não fazer sermão ou discurso; e propor uma música, ditado ou poesia, desde que tenha haver com o tema (Barreto, 2008). Findado o acolhimento, o co-terapeuta passava a palavra ao terapeuta, que iniciava a escolha do tema. Nesse momento, dizendo que na TCI se partilham sentimentos que causam 143


sofrimento cotidiado (como mágoas, angústias, medos e etc.) e fazendo apelo ao provérbio “quando a boca cala o corpo fala; quando a boca fala, o corpo sara”, o terapeuta perguntava quem dos participantes gostaria de partilhar seu sentimento com a roda. Caso houvesse resistência, o terapeuta apelava a outro provérbio: “a vida as vezes é como leite, quando a gente guarda, pode azedar e criar bolhas e se as bolhas estorarem, pode feder”. As pessoas que se manifestavam, falavam brevemente sobre seus sentimentos, o terapeuta anotava para que, posteriormente, a roda votasse (caso houvesse mais de um sentimento partilhado) o sentimento de interesse coletivo, para aprofundamento na respectiva roda. A votação funcionava por identificação (ou porque tocou ou porque ja vivenciou) e não por relação (porque é meu amigo, irmão e etc.) (Barreto, 2008). Com o tema escolhido pela roda, dava-se inicio a contextualização. Nessa altura, a pessoa que partilhou o sentimento mais votado trazia mais elementos, na sua fala, e tanto os terapeutas, quanto os demais participantes podiam fazer perguntas, no intuito de compreender melhor o sentimento. Nesse momento, procurava-se compreender o sentimento em todo seu contexto (Barreto, 2008). Já bem informados sobre o sentimento, pela sua contextualização, o terapeuta passava para a problematização, perguntando “quem já passou por uma situação parecida e como fez para superar?”. Nesse momento apenas os demais participantes falavam; a pessoa do sentimento escolhido só ouvia. A função dessa fase da TCI era promover a resiliência (Barreto, 2008). Por fim, ocorria o encerramento. Todos em pé, de mãos dadas ou abraçados, começavam a balançar lentamente, ao som da música “estou balançando, mas não vou cair”, na intenção de mostrar aos participantes a importância da construção de redes e a TCI enquanto espaço de acolhimento. Nesse momento também se fazia a conotação positiva, ou seja, em uma palavra as pessoas diziam o que levavam daquela roda. E para que todos saíssem alegres, a roda terminava com agradecimentos e uma dinâmica, que geralmente tivesse abraço ou outro gesto afetivo (Barreto, 2008). Repercussão entre os participantes Da participação no Projeto Aconchega, foi possível vivenciar a TCI como importante instrumento de cuidado e promoção de saúde mental, principalmente pela destreza na escuta atenta e qualificada e pelo acolhimento, de forma calorosa e afetiva. Os sentimentos trabalhados, bem como as conotações positivas levadas pelos participantes, nas 16 rodas analisadas aqui, podem ser observados no quadro 1, a seguir.

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Roda 1 2 3 4 5

Sentimento trabalhado Ansiedade com o futuro

profissional

alegria

Perca do sentido das coisas

Coragem, força, reflexão, mudança, apoio

Sentimento de impotência por viver

Força, superação, reflexão, coragem, amor e

longe da família

aprendizagem

Sufocamento pelo companheiro não ajudar com os afazeres domésticos

7

Decepção por ter ido mal na prova

8

Angustia pela ausência da família

11 12

13

coragem Superação, força, apoio, novidade, valorização,

Medo de está sufocando o amigo

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Amor, fraternidade, força, paz, superação,

Ansiedade pensando no futuro

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9

Conotação positiva

Preocupação e sobrecarga com o final do semestre Impotência de não saber como ajudar a mãe que se sente abandonada.

Força, história, pensamentos, alivio Leveza, o pensar que falou, amizade, cumplicidade, gratidão Reciprocidade, apoio, alegria, juízo, confiança Valorização, superação, reflexão, alegria, apoio, amor, solidariedade Superação, esperança, alegria, sabedoria, trabalho, aprendizagem, alegria, coragem, solidariedade Coragem, reflexão, amor, amor de mãe, força

Incapacidade pelo tratamento dado

Força, história, atravessamento, abraços,

pelas pessoas

experiencia

Insatisfação consigo mesmo Tristeza pelo termino de relacionamento

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Tristeza pela morte de amiga

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Medo de professor

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Medo por ser transexual

Superação, aprendizagem, positivismo, solidariedade, resiliência, amor, fé, força Superação, aprendizagem, valorização, possibilidades, novos caminhos, resiliência, solidariedade, amor próprio, sabedoria, Tombamento, amor, reconhecimento, conhecimento, gratidão, medo, força Força de um leão, coragem, diálogo, força Garra, superação, coragem, valor, força, resiliência, apoio

Quadro 1 – sentimentos trabalhados e conotações positivas, maio a dezembro, Projeto Aconchega, 2017 Como a maioria dos participantes eram estudantes, os sentimentos partilhados, geralmente advinham de suas vivências na universidade ou desencadeados a partir dela, seja por estarem distantes de suas relações habituais (família, amigos), seja pela nova rotina (aulas, atividades e etc.). As estratégias de enfrentamento narradas, vinham de experiências anteriores, em diferentes momentos da vida.

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A experiência narrada aqui, vai de encontro ao estudo de Buzelli, Costa & Ribeiro (2012), que analisando a execução de projeto de extenção de 2010 a 2011, na UFMT, evidenciram que as rodas de TCI sinalizaram efetividade em questões de promoção de saúde e de construção de redes de solidariedade entre os estudantes, funcionando também com suporte de amparo do universitário na valorização da vida e de suas potencialdiades. Conforme as autoras, participantes, por exemplo, que estavam com feição entristecida, preocupada, angustiada ou chorosa, eram as primeiras a partilharem seus problemas quando a TCI iniciava, demostrando que de alguma forma, buscavam ajuda no/com o grupo. Entre os sentimentos partilhados estavam, saudade de casa, dos pais, solidão, morte de pessoa querida, insatisfação com o corpo, problemas financeiros, preocupação com a carreira profissional, medo de não dar conta das tarefas curriculares e obter notas baixas, entre outras. Refletindo o mesmo projeto, todavia no período de 2012 a 2014, Ribeiro et al. (2014), apontam que os sentimentos trazidos pelos participantes diziam respeito, principalmente, a sua rotina universitária e pessoal. Nesse período, foram trabalhados temas como impotência diante da violência, tristeza por traição no namoro, preocupação com drogas, angústia pela sobtrecarca de atividades na universidade, tristeza pela falta de companheirismo entre os colegas, angústia com Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), entre outros. Abordando os significados atribuidos pelos estudantes, à participação nas rodas de TCI, Silva, Buzeli, Maruyama & Ribeiro (2012) constatou que a TCI ajudou não apenas a pessoa que teve seu sentimento escolhido, mas também os demais participantes. Que no momento da problematização, esses podiam partilhar suas vivências, bem como suas estratégias de superação. De acordo com o estudo, a TCI era significada por esse público como lugar de acolhimento, apoio, cuidado e solidariedade, pois, permitia a criação de laços de amizade e ajuda mútua. Assim, pode-se dizer que a realização de TCI na universidade torna-se uma ação importante para minimizar o sofrimento vivenciado no período acadêmico e seus efeitos vão repercutir não apenas na trajetória acadêmico-científica, mas também na vida profissional e pessoal (Nunes, Saraiva, Moura, Silva, Correio & Correio, 2015). CONCLUSÃO Pela experiência na construção e execução do Aconhega, considera-se que a TCI tem funcionado como um instrumento efetivo de cuidado à saúde mental de estudantes universitários e de construção de redes de solidariedade entre esse público. Nesse sentido, recomenda-se a ampliação de projetos que tenham a TCI como base. Além de ser eficaz, a TCI é uma ferramenta de baixo custo.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Barreto, A. P. & Lazarte, R. (2013). Uma Introdução à Terapia Comunitária Integrativa: Conceito, bases teóricas e método. In. M. O. Ferreira Filha, M. O., R. Lazarte & M. D. Dias. Terapia comunitária integrativa: Uma construção coletiva do conhecimento. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 346p. ISBN: 978-85-237-0691-3. Barreto, A. P. (2008). Terapia Comunitária: Passo a passo. 3ª ed. Revista e Ampliada. Fortaleza: Gráfica LCR. ISBN: 85-86627-87-3. Buzeli, C. P., Costa, A. L. R. C. & Ribeiro, R. L. R (2012). Promoção da saúde de estudantes universitários: Contribuições da Terapia Comunitária. Revista Eletrônica Gestão & Saúde; Vol.03, Nº. 01, Ano 2012, p. 332-342 Nunes, P. C., Saraiva, A. M., Moura, S. G., Silva, P. M. C., Correio, M. O. F. F., Correio, S. T. T. B. Coração de estudante: A terapia comunitária integrativa no contexto universitário. Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental Online, vol. 7, núm. 3, julio-septiembre, 2015, pp. 2919-2929. PET

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de

Saberes

(2018).

Terapia

Comunitária

Integrativa.

https://sites.google.com/site/petconexoesdesaberesufmt/terapia-comunitaria Ribeiro, R. L. R., Nogueira, L. P. T., Lopes, E. G. & Lima, A. L. (2014). A Terapia Comunitária Integrativa como prática de cuidado para estudantes universitários. Corixo - Revista de Extensão Universitária. Semestral/2014. Silva, G. T., A. L. R. C., Buzeli, C. P., Maruyama, S. A. & Ribeiro, R. L. R. (2012). Significados da participação em roda de terapia comunitária para os estudantes de uma universidade pública. Revista Cienc Cuid Saude 2012 Jul/Set; 11(3):445-453

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Metodologia de Estudo de Caso no planeamento de cuidados de enfermagem especializados no Transtorno Obsessivo Compulsivo Ângela Elias*, Ana Moreira**, Sónia Silva***, & Raul Cordeiro****

*Mestranda em Enfermagem de Saúde mental e Psiquiátrica; Enfermeira no Centro Hospitalar Universitário do Algarve, Departamento de Saúde Mental e Psiquiatria, Unidade de Portimão, Sitio do Poço Seco, 8500-338 Portimão, Portugal. angela.elias@chalgarve.min-saude.pt **Mestranda em Enfermagem de Saúde mental e Psiquiátrica; Enfermeira no Centro Hospitalar Universitário do Algarve, Departamento de Saúde Mental e Psiquiatria, Unidade de Faro, Rua Luís de Camões nº 26, 8000-510 Faro, Portugal. afmoreira@chalgarve.minsaude.pt ***Mestranda em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Enfermeira na Unidade de Cuidados na Comunidade Al-Buhera - Centro de Saúde de Albufeira (Urbanização Alto dos Caliços, 8200-004 Albufeira, Portugal. sissilva@arsalgarve.min-saude.pt ****Doutor em Ciências e Tecnologias da Saúde; Professor Adjunto; Polytechnic Institute of Portalegre, Portugal; UIESI – Nursing Research Unit for South and Islands, Portugal; CINTESIS - Center for Health Technology and Services Research, Portugal; VALORIZA – Research Center for Endogenous Resource Valorization, Portugal (Praça do Município,11, 7300-110 Portalegre, Portugal. raulcordeiro@ipportalegre.pt RESUMO CONTEXTO: O estudo de caso visa a realização de um estudo aprofundado dos problemas e necessidades dos utentes, família e comunidade, permitindo aos enfermeiros planear a melhor estratégia para a resolução dos problemas identificados. O Transtorno Obsessivo Compulsivo é uma perturbação mental, de caracter incapacitante a nível do funcionamento psicossocial, familiar, profissional e social, estimando-se que a sua prevalência na população em geral seja entre 1,1 e 1,8%, com distribuição análoga entre os sexos feminino e masculino, embora com início mais precoce nos homens. OBJETIVO(S): realizar a metodologia de ensino estudo de caso sobre a patologia Transtorno Obsessivo Compulsivo. MÉTODOS: Estudo de caso. RESULTADOS: O estudo permitiu realizar um plano de cuidados individualizado, identificando diagnósticos de enfermagem de acordo com a Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem, com base em instrumentos de avaliação e assente nas competências do Enfermeiro Especialista em Saúde Mental e Psiquiátrica.

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CONCLUSÕES: O estudo de caso é um método completo que permite ser executado a uma grande variedade de problemas e contribui para o desenvolvimento do saber próprio de enfermagem. Alicerça as ações de enfermagem e promove uma prestação de cuidados individualizada. Possibilita uma familiarização do enfermeiro com a literatura científica. Palavras-Chave: estudo de caso; transtorno obsessivo compulsivo; enfermagem psiquiátrica. ABSTRACT CONTEXT: The case study aims to carry out an in-depth study of the problems and needs of the users, family and community, allowing nurses to plan the best strategy for solving the problems identified. Obsessive Compulsive Disorder is a mental disorder that is incapacitating in terms of psychosocial, family, professional and social functioning. It is estimated that its prevalence in the general population is between 1.1 and 1.8%, with a similar distribution between male and female, although with earlier onset in men. OBJECTIVE (S): to carry out the teaching methodology case study on the pathology Obsessive Compulsive Disorder. METHODS: Case study. RESULTS: The study allowed to carry out an individualized care plan, identifying nursing diagnoses according to CIPE standardized terminology, based on assessment tools and based on the competencies of the Specialist Nurse in Mental and Psychiatric Health. CONCLUSIONS: The case study is a complete method that allows to be executed to a great variety of problems and contributes to the development of the own knowledge of nursing. It strengthens the nursing actions and promotes an individualized care delivery. It enables nurses to become familiar with the scientific literature. Keywords: case study; obsessive-compulsive disorder; psychiatric nursing. RESUMEN CONTEXTO: El estudio de caso busca la realización de un estudio en profundidad de los problemas y necesidades de los usuarios, familia y comunidad, permitiendo a los enfermeros planificar la mejor estrategia para la resolución de los problemas identificados. El trastorno obsesivo compulsivo es un trastorno mental, de carácter incapacitante en el funcionamiento psicosocial, familiar, profesional y social, estimándose que su prevalencia en la población en general sea entre 1,1 y 1,8%, con distribución análoga entre los sexos femenino y masculino, aunque con inicio más temprano en los hombres. OBJETIVO(s): realizar la metodología de enseñanza estudio de caso sobre la patología Trastorno Obsesivo Compulsivo. MÉTODOS: Estudio de caso.

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RESULTADOS: El estudio permitió realizar un plan de cuidados individualizado, identificando diagnósticos de enfermería de acuerdo con la terminología estandarizada CIPE, con base en instrumentos de evaluación y asentada en las competencias del Enfermero Especialista en Salud Mental y Psiquiátrica. CONCLUSIONES: El estudio de caso es un método completo que permite ser ejecutado a una gran variedad de problemas y contribuye al desarrollo del saber propio de enfermería. Alienta las acciones de enfermería y promueve una prestación de cuidados individualizada. Posibilita una familiarización del enfermero con la literatura científica. DESCRIPTORES: estudio de caso; trastorno obsesivo compulsivo; enfermería psiquiátrica. INTRODUÇÃO O estudo de caso é considerado um dos mais antigos métodos de ensino em enfermagem, refletindo o interesse da profissão na organização do seu trabalho, em que as ações delineadas tinham como suporte a análise da história do utente (Galdeano, Rossi & Zago, 2003).Os autores defendem que os estudos de casos clínicos visam a realização de um estudo aprofundado dos problemas e necessidades dos utentes, família e comunidade, permitindo aos enfermeiros estudar a melhor estratégia para a resolução dos problemas identificados. O estudo de caso clínico fundamenta as ações de enfermagem, proporciona um cuidado individual e personalizado ao utente que é visto de forma holística e não como um conjunto de sinais e sintomas. Robbert Yin (2015) faz referência ao estudo de caso como método de pesquisa comum, em várias áreas, nomeadamente em psicologia, sociologia, educação e enfermagem, surgindo o interesse de entender fenómenos sociais complexos e permitindo ao investigador o foco num “caso” e a detenção de uma perspetiva holística e de um mundo real. Na área da saúde mental e psiquiatria, o estudo sistemático das vivências, cognições e comportamentos que são produto de uma doença mental torna-se fulcral para uma prática de cuidados de excelência (Correia, 2016). O TOC é uma perturbação mental que foi vista de diferentes formas ao longo do tempo, sendo que nas classificações das doenças mentais foi adquirindo diversas classificações. No DSM IV este transtorno estava englobado nos transtornos de ansiedade, no entanto, no DSM V já se encontra como categoria independente (Afonso, 2015). O TOC inicia-se, comumente, na adolescência ou no início da idade adulta. Existem dados que revelam que o primeiro episódio ocorre entre os 10 e os 15 anos de idade (31%) e, aos 30 anos de idade, acabam por progredir para transtorno obsessivo compulsivo (75%) (Hales, Yudofsky & Gabbard, 2012). A etiologia é pouco esclarecida, tendo como ponto de partida vários fatores: genéticos, ambientais, neurobiológicos ou compreensão psicológica, tendo

150


destaque a teoria cognitiva, a teoria comportamental e a teoria psicanalítica (Saraiva & Cerejeira, 2017). Desta forma torna-se pertinente a execução deste estudo, tendo como objetivo realizar a metodologia de ensino estudo de caso; aprofundar conhecimentos sobre a patologia em estudo; identificar escalas de avaliação que possibilitem a elaboração de diagnósticos de enfermagem; planificar um plano de cuidados individualizado, adequado ao caso em estudo, de acordo com a Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem (CIPE) e assente nas competências do Enfermeiro Especialista em Saúde Mental e Psiquiátrica (EEESMP). MÉTODOS O estudo foi realizado a partir da análise de um caso com a seguinte informação clínica: Utente do sexo feminino, 30 anos, solteira, com equivalência ao 12º ano. Secretária de administração, residindo em Elvas com os pais. Desde há seis meses que evidencia um agravamento do comportamento, ao ponto de não conseguir trabalhar, durante alguns dias, devido a uma reestruturação do escritório, por ter que mexer na sua organização. Apresenta repetição do comportamento verificando, vezes sem conta, o processamento de um texto, importando-se com detalhes insignificantes o que originou conflitos com a entidade patronal por gasto de tempo útil. Não apresenta iniciativa, tem dificuldade em tomar decisões e não aceita o auxílio dos colegas. Guarda todos os papéis e as suas revistas estão dispostas por ordem alfabética e por datas. Tem conflitos com amigas e incapacidade em expressar sentimentos de ternura. Há uma semana, tem consumido exageradamente toalhetes de papel e papel higiénico, relacionando com lavagem contínua das mãos. É preocupada com pormenores, as dificuldades tornam-se obsessões e o medo de não conseguir causa-lhe angústia. Apresenta insight acerca da sua situação, com um sofrimento crescente, apesar de reconhecer o exagero do seu comportamento que, atualmente, a torna incapaz de trabalhar. Aceita internamento para instituição de esquema terapêutico. O EEESMP deve realizar avaliação diagnóstica de enfermagem que compreende tanto a avaliação física como a avaliação do estado mental (AEM) (Ordem dos Enfermeiros OE, 2017). Esta última é realizada através de entrevista onde é possível recolher dados acerca da cognição, pensamento, consciência de si, emoções, assim como “informações acerca das atividades de vida diárias e a forma como o utente gere a sua problemática de saúde também devem ser recolhidas pela mesma forma” (OE, 2017, p. 3). Em saúde mental os cuidados de enfermagem para além de ajudarem o utente a manter, melhorar e recuperar a saúde, visam também a compreensão dos processos de sofrimento decorrentes das perturbações mentais.

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A família é considerada a primeira prestadora de cuidados, podendo ser fonte de stresse ou de apoio, pelo que está intrinsecamente envolvida no processo de saúde/doença como uma importante fonte de suporte (Oliveira, 2009). Para a compreensão da dinâmica familiar podem ser usados o genograma e o ecomapa como ferramentas de colheita de dados (Nascimento, Dantas, Andrade & Mello, 2014). A psiquiatria é uma ciência cada vez mais centrada em dados objetivos (Ribeiro, 2007). Atualmente, as escalas de avaliação são instrumentos fundamentais para a apreciação da pessoa, identificação de problemas e elaboração de diagnósticos de enfermagem que requer um pedido de autorização e/ou pagamento, e estarem validadas para a população portuguesa. Para o caso em estudo considerou-se que os instrumentos de avaliação mais adequados à sintomatologia da utente seriam: escala de sintomas obsessivo-compulsivos de yale-brown 8 (Y- BOCKS),escala de qualidade de vida WHOQOL – BREF, escala de ansiedade de hamilton (HAS), inventário de avaliação clinica da depressão (IACLIDE), avaliação global do funcionamento (AGF), escala de avaliação de risco suicídio, escala de avaliação da autoestima de rosenberg, escala do bem-estar subjetivo (EBES), escala perfis de estados de humor (POMS), índice de qualidade do sono de pittsburgh (IQSP), escala de acomodação Familiar para o TOC pontuada pelo entrevistador (FAS-IR), escala de avaliação do APGAR Familiar. RESULTADOS Os diagnósticos de enfermagem são entendidos como a atribuição efetuada pelo enfermeiro acerca de uma decisão de um fenómeno que é o foco das intervenções de enfermagem. A intervenção de enfermagem é considerada a ação para a resposta de um diagnóstico de enfermagem, tendo como finalidade a obtenção de um resultado de enfermagem (OE, 2016) De acordo com os dados disponíveis para este estudo de caso, identificou-se os seguintes diagnósticos: sono comprometido; processo de pensamento (pensar) comprometido; obsessão demonstrada; humor comprometido; ansiedade presente; força de vontade comprometida; adaptação comprometida; coping comprometido; impulso comprometido; comportamento compulsivo presente; interação social comprometida; comprometida;

angústia

presente;

autocuidado

atividade

recreativa

comunicação comprometida;

autoestima não demonstrada; tomada de decisão comprometida; bem-estar emocional comprometido; emoção comprometida; papel de prestador de cuidados comprometido. O plano de cuidados é uma ferramenta usada pelos enfermeiros para que, juntamente com o utente, identifiquem diagnósticos de enfermagem, planeiem as intervenções e estabeleçam os resultados esperados. Segundo o regulamento nº 515/2018 das Competências Específicas do EEESMP, da OE, publicado em Diário da República, 2a série, nº 151, de 7 de agosto de 2018, vem descrito que este profissional, durante a prestação de cuidados estabelece um 152


plano de cuidados individualizado em saúde mental, com base nos diagnósticos de enfermagem, executa as intervenções para atingir os resultados esperados. DISCUSSÃO A doença mental é identificada, maioritariamente, através da avaliação e observação do comportamento da pessoa, sendo fundamental a realização de entrevista à pessoa cuidada para que se possam colher dados acerca da sua história de vida e da sua situação atual (Correia, 2016). Para a elaboração dos diagnósticos de enfermagem apresentados foi essencial o conhecimento de alguma informação pessoal, laboral, familiar e social da utente o que vai ao encontro do referido por Mackinnon, Michels & Buckley (2018) em que a entrevista em psiquiatria assume grande importância pois tem o objetivo de compreender as pessoas e orientar o seu tratamento; é uma entrevista que difere das outras áreas clinicas pois deve ser baseada nas relações interpessoais. O conhecimento acerca da sintomatologia é fundamental para a identificação dos instrumentos mais adequados à situação e, embora não se tenham aplicado as escalas de avaliação apresentadas, reconhece-se a sua relevância para uma prestação de cuidados de enfermagem especializada. Isto e fundamentado por Correia (2016) ao mencionar que na área da saúde mental e psiquiatria, o estudo sistemático das vivências, cognições e comportamentos que são produto de uma doença mental torna-se fulcral para uma prática de cuidados de excelência. CONCLUSÃO O estudo de caso é considerado um dos métodos utilizados para a definição e sistematização dos cuidados prestados em enfermagem, onde se reflete a relevância da profissão, baseandose estabelecimento de ações na análise da história do utente, obtendo-se uma detalhada colheita de dados, para que se possa efetuar diagnósticos de enfermagem. Ao ser realizado um estudo intenso dos problemas e necessidades da utente possibilita a adoção de uma a melhor estratégia para a resolução dos problemas identificados no processo saúde-doença e atuar, de forma intervencionista, nos problemas detetados. Os enfermeiros especialistas em saúde mental e psiquiatria promovem uma intervenção especializada no diagnóstico, intervenção e avaliação da utente com TOC. Assim, através do raciocínio clinico, estes profissionais de saúde devem capacitar a mesma para que alcance estratégias, identifique forças, aptidões e a volição necessária para melhoria do seu estado de saúde. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLINICA Os enfermeiros especialistas em saúde mental e psiquiatria promovem uma intervenção especializada no diagnóstico, intervenção e avaliação da utente com TOC. Assim, através do raciocínio clinico, estes profissionais de saúde devem capacitar a mesma para que alcance 153


estratégias, identifique forças, aptidões e a volição necessária para melhoria do seu estado de saúde. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Afonso, P. (2015). Quando a Mente Adoece- Uma Introdução à Psicopatologia e à Saúde Mental. Cascais: Principia. Correia, D. (2016). Manual de Psicopatologia. Loures: Lidel (2ª ed.) Galdeano, L., Rossi, L. & Zago, M. (2003). Roteiro instrucional para a elaboração de um estudo de caso clínico. Revista Latino-Americana de Enfermagem. Vol.11 no.3. Ribeirão Preto.

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Desvelar de perspectivas de adolescentes em situação de vulnerabilidade social: experimentação sociopoética Rejane Eleutério Ferreira*, Cláudia Mara de Melo Tavares**, Gabriela Silva dos Santos***, Maria José da Silva Ribeiro **** &, Lara Mariana Monteiro de Santa Rosa***** *Enfermeira. Doutoranda em Enfermagem. Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa. Universidade Federal Fluminense. Niterói-RJ, Brasil. E-mail: Rejane_eleuterio@hotmail.com **Enfermeira. Professora Titular, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Universidade Federal Fluminense. Niterói-RJ, Brasil. E-mail: claudiamarauff@gmail.com *** Enfermeira. Doutoranda em Enfermagem. Escola de Enfermagem Anna Nery. Universidade

Federal

do

Rio

de

Janeiro.

Rio

de

Janeiro-RJ,

Brasil.

E-mail:

sisan.gabi@hotmail.com ****Administradora. Especialista em psicologia organizacional. Rio de Janeiro-RJ, Brasil. Email: maryjribeiro2015@gmail.com ***** Acadêmica em enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro-RJ, Brasil. E-mail: laradesantarosa@gmail.com RESUMO CONTEXTO: O adolescente vivencia mudanças na área biopsicossocial que são inerentes ao seu desenvolvimento. Elas são capazes de causar sofrimento na saúde mental do indivíduo e nas suas relações sociais, por isso são exigidos cuidados tendo em vista evitar outros problemas na fase adulta. OBJETIVO: conhecer as perspectivas de adolescentes que vivem em situação de vulnerabilidade social quanto sua importância no mundo por meio da experimentação sociopoética. MÉTODOS: relato de experiência de uma experimentação estética, inspirada na sociopoética, realizada com 5 adolescentes com idades entre 12 e 13 anos, que vivem em situação de vulnerabilidade social no estado do Rio de Janeiro, Brasil. A experimentação trabalhou os sentidos a partir do tema-gerador - "Qual sua importância no mundo? Os dados foram produzidos por meio de mandala individual e discussão grupal. Feito análise de conteúdo temático dos dados. RESULTADOS: A oficina despertou emoções e sentimentos como: amor, alegria, paz, esperança, ansiedade e medo. Os dois últimos, ansiedade e medo, predominaram na discussão e estavam atrelados a morte de entes queridos. Os adolescentes expressaram que sua importância no mundo é aprender a amar o próximo como a si mesmo, corrigir erros pretéritos e realizar caridade, apesar de não se enxergarem nesses propósitos, ainda.

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CONCLUSÕES: A oficina mostrou que a violência urbana e a desigualdade social interferem nos sonhos, desejos e perspectivas desses adolescentes que estão em situação de vulnerabilidade social. Palavras chave: Saúde do adolescente. Vulnerabilidade social; Emoções. ABSTRACT BACKGROUND: adolescents experience changes in the biopsychosocial area that are inherent to their development. They are capable of causing suffering in the mental health of the individual and in their social relations, so care is required in order to avoid other problems in adulthood. AIM: to get to know the perspectives of adolescents living in situations of social vulnerability and their importance in the world through socio-poetic experimentation. METHODS: experience report of an aesthetic experimentation, inspired by sociopoetics, carried out with five adolescents between 12 and 13 years of age, living in situations of social vulnerability in the state of Rio de Janeiro, Brazil. Experimentation worked on the senses from the theme generator - "What is its importance in the world?" The data was produced by means of individual mandala and group discussion. RESULTS: The workshop aroused emotions and feelings such as: love, joy, peace, hope, anxiety and fear. The last two, anxiety and fear, prevailed in the discussion and were tied to the death of loved ones. The adolescents expressed that their importance in the world is to learn to love their neighbor as themselves, to correct past mistakes and to perform charity, although they do not see themselves in these. CONCLUSION: The workshop showed that urban violence and social inequality interfere with the dreams, desires and perspectives of these adolescents who are in situations of social vulnerability. Keywords: Adolescent Health; Social Vulnerability; Emotions. RESUMEN CONTEXTO: El adolescente vive cambios en el área biopsicosocial que son inherentes a su desarrollo. Ellas son capaces de causar sufrimiento en la salud mental del individuo y en sus relaciones sociales, por lo que se requieren cuidados para evitar otros problemas en la fase adulta. OBJETIVO: conocer las perspectivas de adolescentes que viven en situación de vulnerabilidad social como su importancia en el mundo por medio de la experimentación sociopoética. METODOLOGÍA: relato de experiencia de una experimentación estética, inspirada en la sociopoética, realizada con 5 adolescentes con edades entre 12 y 13 años, que viven en 156


situación de vulnerabilidad social en el estado de Río de Janeiro, Brasil. La experimentación trabajó los sentidos a partir del tema-generador - "¿Cuál es su importancia en el mundo? Los datos fueron producidos por medio de mandala individual y discusión grupal. Hecho análisis de contenido temático de los datos. RESULTADOS: El taller despertó emociones y sentimientos como: amor, alegría, paz, esperanza, ansiedad y miedo. Los dos últimos, ansiedad y miedo, predominaron en la discusión y estaban enganchados a la muerte de seres queridos. Los adolescentes expresaron que su importancia en el mundo es aprender a amar al prójimo como a sí mismo, corregir errores pretéritos y realizar caridad, a pesar de aún no verse en esos propósitos. CONCLUSIONES: El taller mostró que la violencia urbana y la desigualdad social interfieren en los sueños, deseos y perspectivas de esos adolescentes que están en situación de vulnerabilidad social. Palabras clave: Salud del Adolescente; Vulnerabilidad Social; Emociones. INTRODUÇÃO Saúde mental é considerada pela Organização Mundial de Saúde um estado de bem-estar no qual o indivíduo é capaz de usar suas próprias habilidades, recuperar-se do estresse rotineiro, ser produtivo e contribuir com a sua comunidade (Brasil, 2017). A vida humana em suas diversas etapas é influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais que exercem grande influência sobre a saúde mental, sendo esta um aspecto fundamental para um desenvolvimento eficaz direcionado ao bem-estar e ao bom convívio social. Em cada fase do desenvolvimento pessoal a saúde mental é afetada de modos singulares em aspectos específicos, articulada com as transformações físicas e sociais que incorporam-se a determinado contexto individual, o adolescente vivencia mudanças na área biopsicossocial que são inerentes ao seu desenvolvimento, elas são capazes de causar sofrimento na saúde mental do indivíduo e nas suas relações sociais, por isso são exigidos cuidados tendo/em vista evitar outros problemas na fase adulta (Sirotheau & Almeida 2017). Além das mudanças que afetam a saúde mental dos adolescentes, fatores de riscos internos e externos podem prejudicar o desenvolvimento dos adolescentes e ampliar a vulnerabilidade desse grupo populacional, por exemplo, indivíduos que apresentam ausência de possibilidades e expectativas positivas para superar desafios e obstáculos podem sinalizar um agravante para a vulnerabilidade. Vale lembrar que qualquer pessoa pode estar em situação desfavorável em consequência do outro, bem como do meio em que está inserido, no entanto, há pessoas que estão mais suscetíveis à vulnerabilidade social do que outras (Cunico & Oka-fiori, 2014). Nesse sentido, esse estudo relata a experiência de uma experimentação sociopoética feita com adolescentes em situação de vulnerabilidade social

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que frequentam aulas de reforço escolar voluntário em uma associação espírita no estado do Rio de Janeiro/Brasil. Nessa Associação são desenvolvidos trabalhos sociais por voluntários para públicos diversos. Nas manhãs de sábados, crianças e adolescentes participam de atividades de reforço escolar e na parte da tarde as aulas de evangelização. Ao longo do dia elas recebem alimentações como café da manhã, almoço e lanche da tarde. A associação está localizada na zona norte do Rio de Janeiro, Brasil, em uma área com baixa condição econômica e de segurança. As atividades desenvolvidas nesse espaço são um diferencial para a população dessa região, em especial as crianças e adolescentes que estão em processo de formação de sua identidade. A atividade de reforço escolar tem por finalidade oferecer apoio às disciplinas que os adolescentes estão estudando na escola, aguçar o interesse pela leitura e a incentivar a busca de novos conhecimentos por meio da pesquisa, com a utopia de fazer com que esse jovens consigam se equiparar a outros jovens que tem formação de qualidade. Durante a atividade de reforço escolar realizada pelas voluntárias, foi percebido a partir de discursos recorrentes dos adolescentes sobre desmotivação para continuar os estudos, falta de interesse em conhecer assuntos sobre arte e cultura de outros estados e países, desconhecimento de assunto relacionados a politica e conhecimento gerais e que eles apresentavam além do pouco rendimento escolar, baixa auto-estima, descrença quanto a sua própria capacidade de sucesso as tarefas e pouca perspectiva em melhoria da qualidade de vida que influencia no seu aprendizado. Esperava-se que o estudo do evangelho fortalecesse a fé e a esperança desses jovens, bem como suas as perspectivas para o futuro. No entanto, as atividades religiosas desenvolvidas de maneira isoladas não têm força suficiente quando comparadas ao contexto, nível e tempo de risco que essas crianças e adolescentes ficam expostas aos inúmeros conflitos sociais. Nesse sentido, as voluntarias desenvolveram uma atividade que objetivou conhecer as perspectivas de adolescentes que vivem em situação de vulnerabilidade social quanto sua importância no mundo por meio da experimentação sociopoética. A riqueza dos dados produzidos, revelam temas silenciados e pouco explorado no campo da ciência o que possibilitou o compartilhamento dessa experiência em forma de artigo científico. MÉTODOS A sociopoética é uma abordagem ou método de pesquisa que compreende o homem como ser político, social com igualdade de direitos e que considera o corpo como fonte de conhecimentos, explora o potencial cognitivo das sensações, das emoções e da gestualidade, além da imaginação, intuição e razão. Por essa razão, promove a criatividade artística no aprender, no conhecer, pesquisar e no cuidar humano. (Santos & Gauthier, 2013). 158


Inspirada nos princípios da sociopoética, este estudo apresenta o relato de experiência de uma experimentação estética, termos específicos do método para produção de conhecimento em grupo e de forma criativa, realizada com 5 adolescentes com idade entre 12 a 13 anos que vivem em situação de vulnerabilidade social e frequentam aula de reforço escolar voluntário em uma associação espírita no estado do Rio de Janeiro/Brasil. A atividade ocorreu no mês de maio de 2017, com duração de uma hora e trinta minutos por meio de uma oficina que explorou os cinco sentidos. O tema gerador negociado com o grupopesquisador foi - "Qual sua importância no mundo? A atividade iniciou com relaxamento ao som de uma música instrumental. Os adolescentes estavam sentados e foram conduzidos aos exercícios respiratórios e imaginativos. Eles deveriam inspirar o ar pelo nariz e simultaneamente mentalizar coisas boas para sua vida. Ao expirar o ar pela boca deveriam mentalizar coisas ruim que eles gostariam de eliminar de suas vidas. Na sequência, foram conduzidos a uma respiração mais lenta e a relaxar o corpo com movimentos suaves com a cabeça, braços, mãos, pernas e pés. Próximo ao término do relaxamento os adolescentes refletiram o tema gerador do grupo-pesquisador. Na experimentação estética os adolescentes trabalharam os sentidos através da música clássica e de alguns objetos que aguçaram os sentidos na seguinte ordem: audição, olfato, paladar, tato e visão. Durante toda a experimentação eles se mantiveram com os olhos vendados, retirando apenas no último sentido trabalhado, a visão. A cada sentido trabalhado os adolescentes refletiam o tema gerador do grupo-pesquisador. Após a experimentação, os adolescentes foram orientados a construir uma mandala individual para isso, o material disponível foi folha A4 branca e lápis coloridos. Em seguida, ocorreu a discussão em grupo. Foi realizada análise de conteúdo temático dos dados produzidos. RESULTADOS E DISCUSSÃO A oficina provocou emoções e sentimentos como: amor, alegria, paz, esperança, ansiedade e medo. Os primeiros sentimentos tiveram muita relação com o ambiente (associação espírita), com a experimentação e com o vínculo de amizade e confiança com as voluntárias. Os dois últimos, ansiedade e medo, predominaram na discussão e estavam atrelados a morte de entes queridos. A morte surgiu no início da discussão, quando uma adolescente relatou que durante a experimentação ela se recordou de um amigo que morreu próximo a sua casa por espancamento. Tal comentário despertou memórias similares de perda nos demais participantes, alguns por motivo de doenças e outros que foram vítimas da violência urbana. As lembranças relacionadas a morte provocam sentimentos de angústia e medo de perder mais um ente querido, principalmente seus cuidadores (pais, avós e ou tios), irmãos e primos. 159


Nesse sentido, diversos fatores podem colocar em risco a saúde mental dos indivíduos; por exemplo, rápidas mudanças sociais, condições de trabalho estressantes, discriminação de gênero, exclusão social, estilo de vida não saudável, violência e violação dos direitos humanos. Esses 3 últimos fatores estão presentes no cotidiano desses adolescentes, sendo um alerta de que a saúde mental desses jovens pode estar comprometida (Brasil, 2016). A violência comunitária está cada vez mais presente na vida das pessoas que vivem nas localidades de menor poder aquisitivo onde faltam recursos institucionais provedores da saúde, educação, habitação e segurança pública. Crianças e adolescentes que residem em comunidades carentes de condições básicas de manutenção de uma vida digna apresentam mais problemas relativos à saúde mental do que aquelas que residem em outras áreas (Assis, 2018). Muitas são as famílias vivem em situação de risco com o direito de ir e vir cerceados a qualquer hora do dia e da noite, em função dos roubos, assaltos, furtos, assassinatos ou do tráfico de drogas. A elevada exposição de adolescentes à violência comunitária como tiroteios, agressões físicas e verbais, observação de pessoas feridas ou mortas nas ruas pode tornalas vítimas ou testemunhas dessa situação (Pinto & Assis, 2013). A incerteza quanto ao futuro dos adolescentes foi notada com facilidade durante a experimentação estética, pois os discursos dos participantes narravam experiências vivenciadas por outros adolescentes que perderam a vida devido à violência urbana. Para eles, dedicar-se aos estudos na fase presente não é garantia de sucesso na fase adulta. Todavia a motivação e a aprendizagem estão intrinsecamente ligadas. Os problemas relacionados a motivação podem ser vistos como precursores da dificuldade em aprender, tendo em vista que a disfunção motivacional pode estar presente até mesmo em alunos muito inteligentes. O contexto nos quais os adolescentes estão inseridos deve ser levado em consideração quando se pretende motivá-los para obter uma aprendizagem significativa (Coutinho, Cuconato & Alcantara, 2017). Cabe ressaltar o quanto foi difícil para esses adolescentes responderem e discutirem o temagerador, pois os facilitadores tentaram retornar ao tema, mas o medo da morte predominou na discussão. Os adolescentes expressaram que sua importância no mundo é aprender a amar o próximo como a si mesmo, corrigir erros pretéritos e realizar caridade, apesar de não se enxergarem nesses propósitos, ainda. Essa descrição de sua importância no mundo tem forte influência do estudo do evangelho que esses adolescentes recebem na associação espírita, porém se torna uma utopia quando se contextualiza na realidade em que vivem. Contudo, não se poder deixar de acreditar que a

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qualidade da relação que os voluntários tem com os adolescentes e a atenção que lhe dão, são decisivas para a edificação da sua identidade (Costa, Matos & Costa, 2018). Esses resultados revelam a necessidade de um investimento em políticas públicas não só no combate a violência, mas em ações terapêuticas para desenvolvimento saudável desses adolescentes. CONCLUSÃO A violência urbana é um dos principais problemas sociais presentes no Brasil. Embora não seja o tema principal desse estudo, a oficina mostrou o quanto que a violência urbana e a desigualdade social interferem nos sonhos, desejos e perspectivas dos adolescentes em situação de vulnerabilidade social, necessitando de um investimento em políticas públicas não só no combate a violência, mas em ações terapêuticas para desenvolvimento saudável desses adolescentes. A experimentação estética fundamentada na sociopoética favoreceu o desvelar de sentimentos relacionados a situações do passado e de perspectivas sobre o futuro dos adolescentes. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSIS,

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162


A Qualidade de Vida em Idosos Institucionalizados José Teixeira*, Teresa Moreira** & Margarida Ferreira*** *

Doutorando; Professor; Faculdade de Ciências da Saúde-Universidade Fernando Pessoa,

Praça 9 de abril, 349, 4249-004 Porto, Portugal. E-mail: joseteix@ufp.edu.pt **

Prof. Doutora; Professora Auxiliar; Faculdade de Ciências da Saúde-Universidade Fernando

Pessoa, Praça 9 de abril, 349, 4249-004 Porto, Portugal. E-mail: tmoreira@ufp.edu.pt ***

Prof. Doutora; Professora Auxiliar; Faculdade de Ciências da Saúde-Universidade Fernando

Pessoa, Praça 9 de abril, 349, 4249-004 Porto, Portugal. E-mail: mmferreira@ufp.edu.pt RESUMO CONTEXTO: O envelhecimento da população é um dos maiores triunfos da humanidade, mas é também um dos maiores desafios deste século, sendo atualmente a população que mais cresce (Araújo e Melo, 2011). O conceito de qualidade de vida tem a ver com a perceção de indivíduos ou grupos de que suas necessidades são atendidas e não lhes são negadas oportunidades de alcançar o estado de felicidade e realização pessoal na busca de uma qualidade de existência acima da mera sobrevivência (Ferreira, 2009 e OMS, 2001). OBJECTIVOS: Avaliar a qualidade de vida nos campos físico, psicológico, social e ambiental em idosos institucionalizados. MATERIAL E MÉTODOS: Descritivo-exploratório, quantitativo e transversal em uma amostra de 60 idosos. Foi utilizado o WHOQOL-Bref. RESULTADOS: Uma amostra de 30 indivíduos, composta por 57% mulheres e 43% homens, com idade média de 79 anos, 37% são viúvos. Podemos inferir que os idosos apresentam uma perceção de qualidade de vida para o domínio físico de 62%, domínio psicológico e domínio ambiental de 67%, no domínio das relações pessoais de 74%. É evidente que a qualidade de vida percebida pelos idosos está acima de 50%. CONCLUSÕES: Os idosos apresentaram níveis satisfatórios de QV, sendo essencial que as equipes multidisciplinares que atuam nas instituições estejam atentas às necessidades dos idosos, a fim de melhorar sua qualidade de vida. Palavras-chave: Qualidade de vida, Idoso; Envelhecimento; Institucionalização.

RESUMEN CONTEXTO: El envejecimiento de la población es uno de los mayores triunfos de la humanidad, pero también es uno de los mayores desafíos de este siglo, siendo actualmente la población de más rápido crecimiento (Melo, 2009).

163


El concepto de calidad de vida tiene que ver con la percepción de los individuos o grupos de que se satisfacen sus necesidades y no se les niegan oportunidades para alcanzar el estado de felicidad y satisfacción personal en la búsqueda de una calidad de existencia por encima de la mera supervivencia (Ferreira, 2009 y OMS, 2001). OBJECTIVOS: Evaluar la calidad de vida en los campos, físico, psicológico, social y ambiental

en personas mayores institucionalizadas. METODOLOGÍA: descriptivo-exploratorio, cuantitativo y transversal en una muestra de 60 ancianos. Se utilizó WHOQOL-Bref. RESULTADOS: Muestra de 30 individuos, compuesta por un 57% de mujeres y un 43% de hombres, con una edad media de 79 años, 37% viuda. Podemos inferir que los ancianos presentan una percepción de calidad de vida para el dominio físico del 62%, dominio psicológico y el dominio ambiental del 67%, en el dominio de las relaciones personales del 74%. Es evidente que la calidad de vida percibida por los ancianos es superior al 50%. CONCLUSIONES: Los mayores tenían niveles satisfactorios de calidad de vida, y es esencial que los equipos multidisciplinarios que trabajan en las instituciones estén atentos a las necesidades de los ancianos para mejorar su calidad de vida. Palabras clave: Calidad de vida, Ancianos; Envejecimiento; Institucionalización. ABSTRACT BACKGROUND: The aging population is one of the greatest triumphs of mankind, but it is also one of the biggest challenges of this century, being currently the fastest growing population (Melo, 2009). The concept of quality of life has to do with the perception of individuals or groups that your needs are met and they are not denied opportunities to achieve the state of happiness and personal fulfillment in the search for a quality of existence above the mere survival (Ferreira, 2009 & WHO, 2001). AIM: Evaluate the quality of life in the fields, physical, psychological, social and environmental in elderly institutionalized people. METHODS: Descriptive-exploratory, quantitative and transversal in a sample 60 elderly. WHOQOL-Bref was used. RESULTS: A sample of 30 individuals, comprised of 57% women and 43% men, mean age of 79 years, 37% are widowed. We can infer that the elderly present a perception of quality of life for the physical domain of 62%, psychological domain and the environmental domain of 67%, in the domain of personal relationships of 74%. It is evident that the quality of life perceived by the elderly is above 50%.

164


CONCLUSIONS: The elderly people had satisfactory levels of QoL, and it is essential that the multidisciplinary teams that work in the institutions are attentive to the needs of the elderly in order to improve their quality of life. Keywords: Quality of life, Elderly; Aging; Institutionalization. INTRODUÇÃO O envelhecimento da população é um dos maiores triunfos da humanidade, mas é também um dos maiores desafios deste século, constatando-se que é a população que mais cresce atualmente. Sabe-se que a população idosa cresceu consideravelmente nos últimos anos, e que a tendência é de que em 2025 tenhamos no país cerca de 34 milhões de idosos. Na atualidade outro problema também tem sido os das famílias que não conseguem cuidar de seus idosos por falta de tempo, e que muitas vezes então são encaminhados para as instituições de longa permanência para idosos (Freitas e Scheicher, 2010). Emerge uma maior necessidade de serviços e instituições focadas nos cuidados a esta população. Envelhecer é uma experiência comum a todos aqueles que conseguem ter o apanágio de viver longas vidas, sendo o processo de envelhecimento diferenciado de pessoa para pessoa, uma vez que é assinalado por diferentes experiências das vivências pelas quais passam (Paúl e Fonseca ,2008). Não se envelhece do mesmo modo em função do género, da cultura ou até região ou país onde se vive. O envelhecimento humano consiste num processo de mudança progressiva da estrutura biológica, psicológica e social das pessoas que, se inicia antes do nascimento e se desenvolve ao longo da vida. O envelhecimento não é entendido, nem vivido por parte das pessoas seniores da mesma maneira, existindo um grande número de fatores que influenciam o processo de envelhecimento (Marques, 2017). A partir de determinada idade, a pessoa torna-se mais vulnerável às agressões do meio envolvente, constatando com o avançar da idade que as agressões são causadoras de uma debilidade física generalizada. Os problemas de saúde que surgem durante o envelhecimento são na maior parte, representantes de um declínio ao nível das funções físicas e mentais (Marrachinho, 2014). A fragilidade é uma síndrome decorrente da diminuição da reserva energética e uma facilitação aos stressores, que resulta num declínio fisiológico e um aumento na vulnerabilidade. São três as mudanças relacionadas com a idade: as alterações neuromusculares, alterações no sistema neuroendócrino e no sistema imunológico (Nunes, 2011). O envelhecimento é considerado um processo multifatorial, no qual as perdas no envelhecimento poderão ser compensadas por meios de reservas e de capacidade de resiliência e de ganhos que poderão ser obtidos com a seleção e otimização das

165


competências geradas no envelhecimento. Refere ainda que o envelhecimento é normal, patológico e saudável (Marrachino, 2014). Com o rápido processo de envelhecimento, a mudança da estrutura familiar, as debilidades daí decorrentes causam fragilidades, que levam à diminuição da qualidade de Vida do idoso e à necessidade de um apoio/acompanhamento de proximidade (Fonseca, 2014). O conceito de Qualidade de Vida (QV) está relacionado com a perceção por parte dos indivíduos ou grupos, uma vez que as suas necessidades são satisfeitas e não lhes são negadas oportunidades para alcançar o estado de felicidade e de realização pessoal na procura de uma qualidade de existência acima da mera sobrevivência (Canavarro, 2010). A QV, reporta-se a uma expressão de diferentes usos e interpretações, apresentando diferentes significados tanto de senso comum como nas disciplinas mais académica, sendo utilizada nos domínios da avaliação, intervenção clínica, em tomadas de decisões políticas e em saúde (Canavarro, 2010 & Quartilho, 2010). A QV difere de pessoa para pessoa, consoante o contexto social, as experiências de vida e outros determinantes pessoais, nomeadamente, o estilo de vida, os apoios sociais e de saúde, a disposição, a espiritualidade, as redes sociais, o desempenho de atividades, o bem-estar físico, emocional, cognitivo e social. O contexto e as circunstâncias em que as pessoas vivem são dois fatores importantes para determinarem uma boa ou má qualidade de vida às pessoas idosas (Gonçalves, 2015). É também entendida como a duração ou extensão da vida, existindo alguns que associam-na a um estilo de vida de um determinado grupo, com nível económico mais elevado, podendo também estar associada à satisfação com atributos físicos e emocionais, bem como relacionada com o conceito de bem-estar pessoal e social, e ainda a aspetos económicos. A QV de um idoso deve estar alicerçada no conceito de envelhecimento bem-sucedido, ou seja, no modo como a pessoa envelhece através de fatores eficazes ao nível mental e físico (Nunes e Menezes, 2014). Atualmente, cada vez mais as famílias, recorrem á institucionalização, pois não têm tempo ou disponibilidade para tratar/cuidar do seu idoso pelo seu grau de independência, viuvez e idade. A institucionalização do idoso é definida como o período no qual o idoso se encontra durante todo o dia, entregue aos cuidados de uma instituição que não à sua família. Nos lares ou residências geriátricas os idosos institucionalizados residentes são aqueles que vivem 24 horas por dia numa instituição (Gonçalves, 2015). Os idosos que se encontram institucionalizados devem ter

QV

no

seu

dia-a-dia,

dependendo esta das relações sociais próximas, tais como amigos, familiares ou vizinhos, para que não ocorra isolamento social do idoso (Carvalho e Dias, 2011). Os idosos têm necessidade de sentir afeto, pelo que todas as relações dentro da instituição são importantes. Carvalho e Dias (2011), referem que as relações sociais não influenciam a 166


satisfação com a vida, mas interferem com a mesma. Referem ainda que os idosos valorizam alguns aspetos ao estar inserido numa comunidade: boas relações familiares e com amigos, ter papéis sociais, boa saúde e funcionalidade, viver numa boa casa numa zona agradável, ter uma visão positiva da vida, e manter o controlo e independência. OBJETIVOS Avaliar a qualidade de vida nos domínios, físico, psicológico, social e ambiental em pessoas idosas institucionalizadas. MATERIAL E MÉTODOS Foi realizado um estudo descritivo-exploratório de metodologia quantitativa e de caráter transversal, em 60 idosos que obedeciam aos critérios de inclusão definidos. O instrumento de recolha de dados usado foi o questionário WHOQOL-Bref validado pela Organização Mundial de Saúde. Trata-se de um estudo quantitativo do tipo descritivo simples, amostragem probabilístico do tipo acidental. A questão quantitativa examina conceitos precisos e as suas relações são mútuas, com vista a uma eventual verificação da teoria e da generalização dos resultados (Fortin, 2009). A população escolhida foram os idosos institucionalizados de uma freguesia do Concelho de Viana do Castelo. A amostra deste estudo é constituída por 60 idosos de Centros Paroquiais e Sociais do concelho de Viana do Castelo. As variáveis atributo do estudo são o sexo, a idade, o estado civil, as habilitações literárias e a profissão atual. As variáveis em estudo são o idoso institucionalizado e a qualidade de vida. Relativamente aos critérios de inclusão, tem como objetivo descrever as características necessárias ao sujeito para ser incluído na pesquisa (Sales, 2010). Para este estudo é um dos critérios é apresentar mais de 65 anos de idade e estar institucionalizado. O instrumento de colheita de dados escolhido para a realização deste estudo foi um questionário de aplicação direta acordo com a escala da qualidade de vida da Organização Mundial de Saúde. O WHOQOL-BREF é constituído por 26 perguntas, sendo duas mais gerais, relativas à perceção geral de qualidade de vida e à perceção geral de saúde, e as restantes 24 representam cada uma das 24 facetas específicas que constituem o instrumento original. Neste sentido, no WHOQOL-BREF cada uma das 24 facetas é avaliada por apenas uma pergunta (WHOQOL Group, 1998). Foi feita a seleção dos participantes com características compatíveis ao estudo, e quando selecionado, foi lido e assinado o Consentimento informado, mediante esclarecimento da proposta.

167


RESULTADOS Amostra constituída por 60 indivíduos, 57 % do sexo feminino e 43% do sexo masculino, com uma média de idades de 79 anos de idade, maioritariamente por indivíduos que se encontram viúvos (37%). Domínio 1

Domínio 2

Domínio 3

Domínio 4

Média

62%

67%

74%

67%

Moda

43%

75%

83%

72%

Mediana

61%

69%

75%

68%

Tabela 1_Resultados dos 4 domínios do WHOQOL-BREF Os resultados obtidos permitem inferir que as pessoas idosas, no nosso estudo apresentam uma perceção de qualidade de vida para o domínio físico de 62%, domínio psicológico e o domínio do meio ambiental de 67%, no domínio das relações pessoais de 74%. Neste sentido, evidencia-se que a qualidade de vida percecionada pelos idosos se situa acima de 50%. O domínio físico é o que tem menor valor médio pelo que é o domínio que traduz menos satisfação com a qualidade de vida. O domínio das relações sociais é o que apresenta valores mais elevados, seguindo-se o domínio psicológico e do meio ambiente, aspeto que pode levar-nos a refletir na importância das relações sociais e apoio social assim como outros aspetos mais íntimos e individuais em desfavor dos aspetos mais relacionados com as perdas físicas (domínio físico). Até que ponto está satisfeito(a) com a sua saúde? Frequência

Percentagem

Muito Insatisfeito

2

3,3 %

Insatisfeito

10

16,7 %

Nem satisfeito nem insatisfeito

16

26,7 %

Satisfeito

22

36,7 %

Muito satisfeito

10

16,7 %

Total

60

100 %

Tabela 2_Resultados questão “Até que ponto está satisfeito(a) com a sua saúde?”

168


Relativamente ao domínio 1, o domínio físico, os indivíduos apresentam uma perceção de qualidade de vida na ordem dos 62%. Destacamos neste domínio as respostas dos sujeitos da amostra de 53,4%, que apresentam-se satisfeitos ou muito satisfeitos em relação à sua saúde.

Até que ponto está satisfeito(a) consigo próprio(a)? Frequência

Percentagem

Insatisfeito

4

6,7 %

Nem satisfeito nem insatisfeito

4

6,7 %

Satisfeito

34

56,7 %

Muito satisfeito

18

30,0 %

Total

60

100 %

Tabela 3_Resultados questão “Até que ponto está satisfeito(a) consigo próprio(a)?” Em relação ao domínio 2, o domínio psicológico, os indivíduos apresentam uma perceção de qualidade de vida de 67%. Realçamos neste domínio, onde 86,7 % apresentam-se satisfeitos ou muito satisfeitos em relação a si próprios. Até que ponto está satisfeito(a) com as suas relações pessoais? Frequência

Percentagem

Nem satisfeito nem insatisfeito

6

10,0 %

Satisfeito

22

36,7 %

Muito satisfeito

32

53,3 %

Total

60

100 %

Tabela 4_Resultados questão “Até que ponto está satisfeito(a) com as suas relações pessoais? Relativamente ao domínio 3, o domínio das relações pessoais, os elementos do estudo apresentam 83%. Na questão “Até que ponto está satisfeito(a) com as suas relações pessoais?”, verifica-se ausência de respostas de insatisfação, destacando-se 90% da amostra que responde estar satisfeita ou muito satisfeita.

169


Até que ponto está satisfeito(a) com as condições do lugar em que vive? Frequência

Percentagem

Insatisfeito

2

3,3%

Nem satisfeito nem insatisfeito

2

3,3 %

Satisfeito

26

43,3 %

Muito satisfeito

30

50 %

Total

60

100 %

Tabela 5_Resultados questão “Até que ponto está satisfeito(a) com as condições do lugar em que vive?” Por último, o domínio 4, domínio do meio ambiente, os indivíduos apresentam uma perceção de qualidade de vida na ordem dos 67%. Sendo de destacar, no que concerne às condições do lugar em que vive, 93,3% respondeu estar satisfeita ou muito satisfeita. DISCUSSÃO Os resultados deste estudo indicam que os idosos apresentaram bons índices de qualidade de vida para todos os domínios apresentados. A média de idades situa-se nos 79 anos uma possível hipótese explicativa para o fato da existência de uma perceção positiva na qualidade de vida pode ser o fato da maioria dos idosos não apresentar idades mais avançadas. Nesse sentido, destaca-se a importância de se reconhecer a heterogeneidade da população idosa no que diz respeito às faixas etárias e ao sexo, além da variância individual, quando se avalia a qualidade de vida. Ao analisarmos a contribuição dos diferentes domínios, observou-se que o domínio físico é o que tem menor valor médio pelo que é o domínio que traduz menos satisfação com a qualidade de vida. O domínio das relações pessoais é o que apresenta valores mais elevados, seguindo-se o domínio psicológico e do meio ambiente, aspeto que pode levar-nos a refletir na importância das relações sociais e apoio social assim como outros aspetos mais íntimos e individuais em desfavor dos aspetos mais relacionados com as perdas físicas (domínio físico). A maior influência do domínio das relações sociais na qualidade de vida global desses idosos ressalta a importância de se considerar a capacidade social como importante fator de impacto na qualidade de vida em idosos. A convivência oferece benefícios, no sentido do apoio nas condições debilitantes e de dependência, reduzindo o isolamento, que acabam por aumentar a sua a autoestima e melhoram o estado emocional do idoso, afetando de forma positiva a sua qualidade de vida.

170


Outra dimensão a ser considerada deve ser o meio ambiente em que o idoso está inserido, segundo a OMS (2001) o ambiente físico em que o idoso está inserido pode determinar a dependência ou não do indivíduo. Dessa forma, é mais provável que um idoso esteja física e socialmente ativo se puder movimentar-se com segurança. Idosos que vivem em ambientes inseguros são menos propensos a saírem sozinhos e, portanto, estão mais suscetíveis ao isolamento e à depressão, bem como a ter mais problemas de mobilidade e pior estado físico, o que vem a influenciar a qualidade de vida. Pino (2003) ressalta que os idosos com limitações em seu ambiente físico têm cinco vezes mais chances de sofrer depressão, e, de acordo com O'Shea (2003), onde o idoso habita e o ambiente físico adequados têm influência positiva na qualidade de vida do idoso. Quanto mais ativo o idoso, maior sua satisfação com a vida e, consequentemente, melhor sua qualidade de vida. De acordo com Pereira (2002), as avaliações subjetivas da qualidade de vida em idosos devem ter em conta o que acontece ao indivíduo nas diferentes etapas do envelhecimento, desde mudanças físicas até a desvalorização social consequente da reforma, tendo em conta os seus sentimentos e compreensão dessas situações, ganhos e perdas psicológicas, frustrações e aspirações. Dessa forma, o presente estudo mostrou que os quatro domínios analisados não explicam a variância do domínio global da qualidade de vida. Estudos longitudinais seriam importantes para investigar se a contribuição dos domínios na qualidade de vida global pode modificar-se ao longo do tempo e/ou em relação ao estado de saúde do indivíduo. CONCLUSÃO/ IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Podemos concluir que as pessoas idosas estudadas apresentaram níveis satisfatórios de QV, sendo, imprescindível que as equipas multidisciplinares que exercem funções nas instituições estejam atentas às necessidades dos idosos em prol da melhoria de cuidados. A assistência direcionada poderá permitir uma relação de confiança entre o profissional de saúde e o idoso, além de auxiliá-los a resolver os problemas/barreiras que estão afetando sua qualidade de vida. Avaliar a QV é algo que se tornou importante nas últimas décadas. Tradicionalmente, a medida de QV teve início em outras áreas do conhecimento. Depois foi incorporada à saúde, denominando-se qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS), devido à necessidade de transformar a medida, antes subjetiva, em quantitativa, e que a mesma pudesse ser usada em pesquisas e modelos económicos, e também que os resultados pudessem ser utilizados em populações diversas e mesmo em diferentes doenças. Tendo em vista a variabilidade do conceito de QV e sua subjetividade, com o propósito de orientarem-se políticas para um envelhecimento bem-sucedido, parece imprescindível conhecer o que para a maioria dos

171


idosos, está relacionado ao bem estar, à felicidade, à realização pessoal, enfim, à qualidade de vida nesta faixa etária. A análise descritiva proposta no estudo foi considerada satisfatória, pois foi possível evidenciar os fatores significativamente associados à qualidade de vida do idoso. Foi demonstrado que os idosos apresentam melhor qualidade de vida no domínio “relações sociais”, seguido do “psicológico”, “meio ambiente” e por último, “físico”. Os fatores identificados neste estudo podem permitir aos profissionais de saúde repensar estratégias de saúde adoptadas, principalmente, para os domínios afetados na qualidade de vida do idoso, sobretudo aqueles que trabalham em unidades de saúde que desenvolvem atividades preventivas, assistenciais, educativas e de atenção à saúde do idoso. A assistência direcionada poderá permitir uma relação de confiança entre o profissional de saúde e o idoso, além de auxiliá-los a resolver os problemas/barreiras que estão afetando sua qualidade de vida. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Araújo, L. e Melo, S. (2011). Relacione-se com os outros. In Ribeiro, O. & Paúl, C. (Coord), Manual de Envelhecimento Activo (pp. 141-167). Lisboa: LIDEL. Caldas, C.P. (2003). Envelhecimento com dependência: responsabilidades e demandas da família. Caderno Saúde Pública;19(3):773-81. Canavarro, M.C., Pereira, M., Moreira, H., Paredes, T (2010). Qualidade de vida e saúde: aplicações do WHOQOL. Alicerces. III (3):243-68. Carvalho, P. e Dias, O. (2011). Adaptação dos Idosos Institucionalizados. Millenium, 40:161‐ 184. Ferreira; A. (2009). Qualidade de Vida em idosos em diferentes contextos habitacionais: perspectiva do próprio e do cuidador. Lisboa: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa. Trabalho académico (Dissertação/Tese). Fonseca, A. (2014). Envelhecimento, saúde e bem-estar psicológico. In Fonseca, A. (Ed). Envelhecimento, saúde e doença - Novos desafios para a prestação de cuidados a idosos (pp. 153-179). Lisboa: Coisas de Ler. Fortin, M. F. (2009). Fundamentos e étapas do processo de investigação. Loures: Lusodidacta. Freitas, M. e Scheicher, M. (2010). Qualidade de vida de idosos institucionalizados. Revista Brasileira de Geriatria Gerontologia. Rio de Janeiro, v. 13. n. 3. P. 395-401. Gonçalves, C. (2015). Qualidade de vida em Idoso Institucionalizados. Bragança: Instituto Politécnico de Bragança. Trabalho académico (Dissertação/Tese). Marques, A. (2017). Bem-estar subjetivo e qualidade de vida dos idosos institucionalizados. Braga: Universidade Católica Portuguesa. Trabalho académico (Dissertação/Tese).

172


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de

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173


Representação Social e o sentido do trabalho para enfermeiros no cotidiano hospitalar Marilei de Melo Tavares*, Mara de Melo Tavares** & Antonio Marcos Tosoli Gomes*** * Pós-Doutorado em Enfermagem em andamento pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ; Doutora em Ciências pelo Programa de Pós-graduação em Enfermagem e Biociências da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO; Professora do Curso de Graduação em Enfermagem – USS, Brasil. Boulevard 28 de Setembro, 157/7º andar, Vila Isabel, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, marileimts@hotmail.com ** Professora Titular na Universidade Federal Fluminense – UFF, Programa de Pósgraduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Niterói/RJ, Brasil, claudiamarauff@gmail.com *** Professor Titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica e do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Faculdade de Enfermagem, Rio de Janeiro, Brasil, mtosoli@gmail.com RESUMO CONTEXTO: O trabalho em enfermagem é mediado pela interação e comunicação em seu exercício cotidiano, constituindo-se como processo humano essencialmente intersubjetivo. OBJETIVO(S): Analisar movimentos dialógicos presentes nas atividades desenvolvidas pelos enfermeiros pelos no cotidiano de trabalho hospitalar e o prazer proporcionado. MÉTODOS: Pesquisa de abordagem qualitativa, baseada na perspectiva da Clínica da Atividade, desenvolvida por Yves Clot. Os dados foram produzidos por meio de oficina dirigida a oito enfermeiros que atuam em hospital universitário. RESULTADOS: Os resultados indicam que o prazer no cotidiano hospitalar está relacionado principalmente à interação direta com pacientes e a valorização social da profissão. A espiritualidade através da relação com pacientes em sofrimento. O trabalho também propicia oportunidades sociais e afetivas; a convivência contínua fortalece os vínculos de amizade, confiança e alegria. CONCLUSÕES: O trabalho do enfermeiro no contexto hospitalar é fonte de produção de subjetividade. Apesar dos muitos anos de prática profissional dos participantes do estudo, os enfermeiros encontram prazer naquilo que fazem, apresentando-se potentes para agir diante aos desafios profissionais e organizacionais encontrados. Palavras-Chave: Enfermagem; Representação Social; Saúde do Trabalhador; Hospital.

174


ABSTRACT BACKGROUND: Nursing work is mediated through interaction and communication in its daily exercise, constituting itself as an essentially intersubjective human process. AIM: To analyze the dialogical movements present in the activities developed by the nurses by the daily hospital work and the pleasure provided. METHODS: Qualitative approach research, based on the perspective of the Clinic of Activity, developed by Yves Clot. The data were produced through a workshop addressed to eight nurses who work in a university hospital. RESULTS: The results indicate that pleasure in the hospital routine is mainly related to the direct interaction with patients and the social valorization of the profession. Spirituality through relationship with suffering patients. Work also provides social and affective opportunities; the continuous coexistence strengthens the bonds of friendship, trust and joy. CONCLUSIONS: The work of the nurse in the hospital context is a source of production of subjectivity. Despite the many years of professional practice of the study participants, nurses find pleasure in what they do, and are potent in responding to the organizational and professional challenges encountered. Keywords: Nursing; Social Representation; Worker's health; Hospital.

RESUMEN CONTEXTO: El trabajo en enfermería es mediado por la interacción y comunicación en su ejercicio cotidiano, constituyéndose como proceso humano esencialmente intersubjetivo. OBJETIVO(S): Analizar movimientos dialógicos presentes en las actividades desarrolladas por los enfermeros por los cotidianos de trabajo hospitalario y el placer proporcionado. METODOLOGÍA: Investigación de enfoque cualitativo, basada en la perspectiva de la Clínica de la Actividad, desarrollada por Yves Clot. Los datos fueron producidos por medio de un taller dirigido a ocho enfermeros que actúan en un hospital universitario. RESULTADOS: Los resultados indican que el placer en el cotidiano hospitalario está relacionado principalmente a la interacción directa con pacientes y la valorización social de la profesión. La espiritualidad a través de la relación con los pacientes en sufrimiento. El trabajo también propicia oportunidades sociales y afectivas; la convivencia continua fortalece los vínculos de amistad, confianza y alegría. CONCLUSIONES: El trabajo del enfermero en el contexto hospitalario es fuente de producción de subjetividad. A pesar de los muchos años de práctica profesional de los participantes del estudio, los enfermeros encuentran placer en lo que hacen, presentándose potentes para actuar ante los desafíos profesionales y organizacionales encontrados. Palabras Clave: Enfermería; Representación Social; Salud del Trabajador; Hospital.

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INTRODUÇÃO O trabalho em enfermagem é mediado pela interação e comunicação em seu exercício cotidiano, constituindo-se como processo humano essencialmente intersubjetivo. Em que se destacada a importância de se empreender esforços para compreender estas relações engendrando formas de as potencializar. A noção de Representação Social, sujeito ativo, construtor do mundo a partir dos materiais que a sociedade lhe fornece, do que na própria estrutura social. De uma representação social, de uma psicologia social, noção de atividade organizadora sobre o duplo plano cognitivo e simbólico, ou seja, da atividade organizadora de um grupo, ou de um indivíduo enquanto membro de um grupo, que orienta a resposta (Moscovici, 1976). Neste estudo buscou-se compreender o sentido do trabalho para os enfermeiros de um hospital universitário na perspectiva da Clínica da Atividade (Clot, 2010). Que propõe estudar e experimentar através dessa clínica a função psicológica do coletivo em situação de trabalho. Em que procura manter ou restaurar a vitalidade dialógica do social pela análise do trabalho, propondo uma subjetividade potencial. Um sinal de que é preciso implementar mudanças no cenário de prática, contudo essas mudanças ocasionam impactos na vida do trabalhador. Isso inclui valorizar a dimensão subjetiva e social em todas as práticas de atenção (Souza, Passos & Tavares, 2015). A literatura aponta que sentimentos e percepções podem emergir no cotidiano do trabalho, ao realizar atividades no espaço coletivo, com compartilhamento de responsabilidades, podem levar os enfermeiros a pensar soluções para problemas reais (Mota, Silva & Souza, 2016). O trabalho em enfermagem é mediado pela interação e comunicação em seu exercício cotidiano, constituindo-se como processo humano essencialmente intersubjetivo. Nesta perspectiva é destacada a importância de se empreender esforços para compreender estas relações engendrando formas de as potencializar. A dimensão do trabalho do enfermeiro tem repercussões para a saúde mental dos trabalhadores de enfermagem que lutam por um trabalho significativo e ético, em um contexto de reestruturação e precarização do trabalho. Para Dejours (1992, p.96), o sofrimento mental aparece como intermediário necessário à submissão do corpo. Ainda, a desorganização dos investimentos afetivos provocada pela organização do trabalho pode colocar em perigo o equilíbrio mental dos trabalhadores. O trabalho repetitivo cria a insatisfação, não se limitando apenas a um desgosto particular. De certa forma, é uma porta de entrada para a doença, descompensações mentais (Dejours, 2000, p.77). Um sinal de que é preciso implementar mudanças no cenário de prática, contudo essas mudanças ocasionam impactos na vida do trabalhador. Isso inclui valorizar a dimensão subjetiva e social em todas as práticas de atenção (Souza, Passos & Tavares, 2015).

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Em sua análise ergonômica e psicológica do trabalho feitas a partir da “clínica da atividade”, Yves Clot (2007a) propõe estudar e experimentar a função psicológica do coletivo em situação de trabalho. Busca manter ou restaurar a vitalidade dialógica do social pela análise do trabalho, propondo uma subjetividade potencial. Para o autor, o desenvolvimento do poder de agir em situação de trabalho corresponde a atividade, é heterogêneo, aumenta ou diminui em função da alternância da ação que se opera no dinamismo da atividade, eficácia. É também criatividade o que se chama na linguagem cuidado e realização de trabalho bem feito, possível de “[...] reconhecer-se individual e coletivamente, sintonizado com uma história profissional que se persegue e pela qual cada um se sente responsável (Clot, 2010, p.15)". No decorrer do tempo, o desenvolvimento do poder de agir modifica, pois nunca está sozinho diante o mundo de objetos que o rodeia. O sujeito constrói seus instrumentos, na atividade mediatizada fonte de ligações renováveis, se reconstrói produzindo um mundo para viver. O poder de agir do trabalhador se conquista na coletividade, junto aos objetos que os reúnem ou os dividem. Neste processo, cada sujeito desata e volta a atar, de maneira única, vínculos estabelecidos nas atividades. A subjetividade é “poder de ser afetado, em maior ou menor grau, está à disposição de cada um em função de sua história singular” (Clot, 2010, p.31). A literatura aponta que sentimentos e percepções podem emergir no cotidiano do trabalho, ao realizar atividades no espaço coletivo, com compartilhamento de responsabilidades, podem levar os enfermeiros a pensar soluções para problemas reais (Mota, Silva, & Souza, 2016). O presente estudo pretende não só revelar como ocorre o processo de trabalho do enfermeiro que atua em hospital universitário, mas ajudar a enriquecer as atividades cotidianas do trabalho, maximizando o desenvolvimento do potencial criativo dos enfermeiros. Compreende-se que, estando os profissionais de saúde mais satisfeitos em seu ambiente de trabalho, produzirão melhores cuidados de si, contribuindo para qualidade dos cuidados. Para compreender a “atividade” como estratégia de escuta crítico-sensível para reorientação da gestão do trabalho dos enfermeiros, recorreu-se a uma perspectiva metodológica de pesquisa que articula investigação e intervenção na direção do diálogo com enfermeiros, a partir do relato em grupo de situações cotidianas de trabalho que permitem delinear a subjetividade – produto da atividade, capaz de ser afetado em função de sua história singular, transformação que se dá através de expressão das emoções e representações mentais, entre intelecto e sentimento –, visando à sua potencialização por meio da confrontação grupal, conforme pressupõe a metodologia da Clínica da Atividade (Clot, 2006; Clot, 2010). O estudo tem por objetivo analisar movimentos dialógicos presentes nas atividades desenvolvidas pelos enfermeiros pelos no cotidiano de trabalho

hospitalar e o prazer

proporcionado.

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METODOLOGIA Pesquisa exploratória de natureza qualitativa, que propõe desde o ponto de partida da pesquisa - um deslocamento do papel de protagonista da investigação do pesquisador para o trabalhador – sujeito do estudo. A técnica ou dispositivo principal utilizado como forma de intervenção/produção de dados na pesquisa é denominado autoconfrontação (Clot, 2007a; Clot, 2007b). O método integra diferentes fases, em que os trabalhadores protagonistas das situações em análise, em princípio, seriam, sucessivamente, confrontados com a sua atividade e posteriormente com a atividade dos outros (Teixeira & Barros, 2009). Participaram do estudo oito enfermeiros em exercício profissional no hospital universitário em seus diferentes setores - Gestão; UTI Neonatal; CTI; Clínica Médica Masculina; Hematologia e Hemodiálise. O cenário de realização da pesquisa foi o Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP) da Universidade Federal Fluminense (UFF), situado na cidade de Niterói, RJ. Oficinas constituíram dispositivos para produção e análise de dados no presente estudo. Uma a partir de objetos inusitados, outra a partir da autoconfrontação coletiva dos dados. A 1ª oficina: objetos inusitados – deu-se em etapas, a saber: apresentação e acolhimento; relaxamento e enunciação do tema gerador; dinâmica dos objetos; formação de subgrupos por padrão – atividade; trabalho em grupo; socialização; avaliação; explicação da encomenda para a 2ª oficina: autoconfrontação – nas seguintes etapas: acolhimento; devolutiva; dinâmica das fotos – autoconfrontação mosaico coletivo, o poder de agir; avaliação. A metodologia da clínica da atividade busca, dar maior intensidade à controvérsia por meio do diálogo produzido em grupo. Desta forma, as oficinas se constituem lugar de diálogo, confrontação, produção de subjetividade e transformação (Souto, Lima & Osório, 2015), Os dados foram analisados com base no Método e Teoria da “Clínica da Atividade” (Clot, 2007a; Clot, 2007b), o qual evidencia a importância de se dar atenção à subjetividade no trabalho, meio fundamental para levar a uma revisão do conceito de atividade. Em respeito aos aspectos éticos da pesquisa, atendendo aos requisitos das Resoluções 466/12 e 510/16 do CNS/MS, o projeto de pesquisa que originou o estudo (Souza, 2017), teve sua aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UNIRIO - CAAE: 52869316.0.0000.5285/ Número do Parecer: 1.520.821 e Comitê de Ética em Pesquisa da UFF - CAAE: 52869316.0.3001.5243 / Número do Parecer: 1.603.307. A análise foi realizada por meio da técnica de impregnação e da identificação de núcleos temáticos interpretados com base em fluxos analíticos do quadro teórico. Para leitura da atividade de trabalho como processo de produção de subjetividades, foi necessário recorrer a uma ferramenta teórica que nos ajudasse a apontar caminhos relacionados ao processo de trabalho de enfermagem hospitalar, mas enquanto um processo coletivo, singular e criativo.

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RESULTADOS Caracterização da Amostra Através dos resultados apresentados o grupo participante dessa pesquisa foi constituído de oito enfermeiros que atuam no Hospital Universitário Antônio Pedro. Há predominância do sexo feminino (seis) em relação ao sexo masculino (dois). A maioria está acima de cinquenta anos de idade (seis), sendo, portanto um grupo maduro. Todos têm mais de 10 anos de formado e cinco mais de 30 anos. O tempo de atuação na área hospitalar varia de 10 a 30 anos, sugerindo uma correlação entre faixa etária, tempo de formado e tempo de experiência na área hospitalar. O tempo de trabalho na instituição em estudo varia de 5 a 30 anos e o setor de atuação profissional é diversificado. Quanto à escolaridade, possuem especialização (seis) e mestrado (quatro), o que demonstra alto nível de capacitação dos participantes do estudo. A maioria (seis) trabalha em outra instituição. Grupo agindo em muitas direções Visando favorecer o conhecimento das potencias individuais presentes no grupo, solicitou-se que os enfermeiros buscassem um símbolo de identificação para sua apresentação no grupo. Símbolos e seus sentidos apresentados pelos participantes no primeiro momento em que houve o favorecimento para estimular a relação dialógica entre o grupo. Alvo – [...] no sentido de ser objetivo, a simbologia escolhida visa demonstrar o quanto busco ser objetivo na minha vida [...] Espiral 1 – Não sei, eu acho que a vida segue uma questão de continuidade, a gente acaba voltando para alguns pontos. Pomba – [...] significa paz e amor. Tem a ver comigo por resolver as coisas pelo lado emocional. Natureza – Terra firme, [...] a gente tem que ter firmeza na vida. [...] natureza num morrinho com as plantações, tudo o que eu gosto na vida. Espiral 2 – [...] tem a ver com o infinito, é um espiral tem o sentido aparente de retornar sempre ao mesmo ponto. Sol – [...]como centro do acolhimento e entendo também que o outro precisa do calor humano, de compreender também a deficiência do outro, a necessidade que o outro busca em mim. Coração – [...]é assim que eu me vejo, uma pessoa de coração grande, que mergulho apaixonadamente em tudo que faço. Plantinha – [...] uma árvore à medida que ela vai se desenvolvendo, vai ganhando força e se modificando com o meio que é proposto. Importante observar que cada membro do grupo, ao apresentar sua potência, revela um aspecto comum – a direção ou perspectiva profissional.

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Uma visão estética do agir profissional O trabalho no cenário hospitalar é representado pelos enfermeiros a partir de alguns objetos escolhidos aleatoriamente, mas que revelam em conjunto uma perspectiva estética. Recorrermos a uma dinâmica utilizando objetos aleatórios buscamos provocar o imaginário dos enfermeiros abordando questões sobre o trabalho, a partir de objetos lúdicos. Busca-se, assim, entender o que mobiliza o enfermeiro a realizar seu trabalho no hospital, mas do jeito que faz, a partir do que vive e sente naquele momento, para então correlacionar à sua prática cotidiana.

Figura 1_Objetos selecionados pelos participantes. Fonte: pesquisa do autor, 2017.

O cotidiano do trabalho do enfermeiro hospitalar contém riquezas de elementos criativos e imaginativos, que ultrapassam os limites da rotina. Modifica-se e cria-se algo novo cotidianamente, o que favorece a constante transformação do seu agir profissional. A própria combinação de riqueza de elementos presentes no cenário de prática, representa algo novo. O enfermeiro não é um simples reprodutor, ou realizador de tarefas, ao contrário. Suas ações da prática cotidiana é potencializadora e favorecedora ao surgimento de pequenas invenções. A partir do dispositivo “objetos inusitados”, buscou-se disparar e potencializar o diálogo sobre a atividade, como é proposto pela clínica da atividade. Desta forma, ao participarem da oficina com os objetos inusitados, os enfermeiros foram convidados, levados a fazerem uma identificação utilizando outro sentido que não a visão, o tato. Recorrendo, para tanto, a um recurso disponível, a imaginação, vendo o mundo dos objetos em uma outra dimensão. Apreendendo sentidos – entre as atividades realizadas pelos enfermeiros Autoconfrontação Diferentes sentidos de atividade apreendidos pelos enfermeiros no seu cotidiano de trabalho a partir da autoconfrontação cruzada realizada durante a Segunda Oficina. Observa-se a 180


ampliação de sentido da atividade profissional por meio da autoconfrontação. Em alguns casos, o grupo reafirma o sentido elaborado pelo sujeito, em outros se constata uma oposição de sentidos entre os participantes, mostrando que por meio da experimentação realizada os participantes se afetam mutuamente. De acordo com as discussões realizadas durante a segunda oficina, momento em que o grupo atingiu maior maturidade relativa à temática em estudo, foi possível observar um eixo principal que operara como analisador do grupo: o prazer no trabalho do enfermeiro no contexto hospitalar. O prazer no cotidiano de trabalho do enfermeiro hospitalar Para os enfermeiros participantes desse estudo, o prazer no trabalho está relacionado a interação direta com o paciente. Os enfermeiros relatam que “não desejo” é tudo que são impelidos a fazer por exigência do funcionamento organizacional, referem como “burocracia”. Afetam-se negativamente quando estão “cuidando de coisas” que não seja o paciente. O que não quero mais fazer, faço sem desejar fazer - é a burocracia. Ela me afasta muito do que eu acho que é mais importante - cuidar mais do paciente. (Espiral 1) Resolver problemas muitas vezes significa atraso nas atividades, causando dificuldades com avaliação, invisibilidade de suas atividades e sensação de peso, ainda nas múltiplas interações que ocorrem com auxiliares, colegas, pacientes e famílias e outros profissionais. Desta forma, o cuidado e a carga podem gerar desmotivação, preocupante, pois constitui ameaça para qualidade do atendimento. Gostaria que o tempo que gasto com solicitação continua de manutenção de equipamentos fosse direcionado para o paciente, isso tornaria o meu trabalho mais prazeroso. O meu serviço como enfermeira é prazeroso - eu me divirto, eu vivo, eu me sinto alegre, eu tenho prazer fazendo o que eu faço, mas esse prazer é cortado no momento que eu não consigo realizar o que planejo devido falhas organizacionais. Isso tem sido fator de ansiedade para mim. (Natureza) Meu desejo é ajudar o paciente para além da técnica. Gostaria de acolhê-lo melhor. (Coração) Os enfermeiros, embora façam menos do que desejam, valorizam mais a relação direta de cuidado com o paciente do que a indireta através da gestão dos meios para o desenvolvimento do cuidado. O prazer de agir depende da valorização social de cada atividade. Chamou-me atenção a primeira imagem - existe ali todo um processo de acolhimento – essa é a grande verdade da nossa profissão - saber acolher, assim a gente transmite segurança paro o paciente e se conforta, porque quando a gente realiza o acolhimento facilita o nosso próprio processo de trabalho, adquire confiança e credibilidade do paciente e da sociedade. (Autoconfrontação cruzada)

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As muitas artimanhas do desejo presente no processo de trabalho do enfermeiro podem ser observadas no relato a seguir. Há aqui também um bom exemplo do que o método da autoconfrontação possibilita - ver sua atividade pelos olhos das atividades dos outros, permitindo o coletivo confrontar-se: O que você faz para não fazer o que tem que ser feito. (risos) É uma frase que dá margem a várias interpretações, então tem uma interpretação pessoal nessa frase, né, entre outras coisas é esse caos, aí é a Clínica Médica Masculina, e num determinado momento eu passei pro plantonista, passei pro coordenador e toda essa angústia que os coordenadores de um modo geral, tá, vivem e relatam e todo dia a gente e em várias reuniões o tema se repete. [...] priorizando o que eu vou fazer em termos de atividade pra que isso não me desgaste pra que isso não me despotencialize, então eu estou o tempo inteiro dentro da enfermaria e ali eu não preciso planejar o que eu vou fazer no dia, na hora que eu chego é que as coisas vão acontecendo, não é normalmente... Na verdade, um Coordenador da Clínica Médica ele não deixa de ser um Coordenador de Assistência também, só que a gente faz parcerias no sentido de que o trabalho não me desgasta. (Espiral 2) A oportunidade de criar e recriar o trabalho permite expressar a subjetividade por meio da atividade realizada, gerando evolução profissional e crescimento pessoal. A imagem que ele traz retrata exatamente o profissional que ele vem se apresentando no decorrer dos anos. Tive uma função diante à coordenação dele e sempre pedia assim: Você me dá um suporte na parte burocrática para deixar um pouco mais livre na parte assistencial, então era sempre uma necessidade, uma solicitação dele. (Autoconfrontação cruzada) Um fator de prazer é a espiritualidade – através da relação com o paciente em sofrimento, o enfermeiro tem a oportunidade de trabalhar o silêncio interior como forma de auto-cura, à medida que entra em sintonia com o paciente se auto-transforma para ter mais saúde, potencializando-se, como observado na fala a seguir: Então foi no sentido de chocar mesmo, mas tem uma dimensão de potencialidade nessa relação com o paciente e tem uma dimensão de potencialidade na doença em que esse lado que eu vou chamar de espiritual é que entra mais em relação de movimento e de sintonia pra que você possa levar fora da sua prática mais objetiva ao que no fundo tem que ser trabalhado de forma extremamente silenciosa porque se não for em silêncio, isso pode transbordar pra um lado mais egóico e aí eu saio da minha potência e caminho com uma relação de poder que eu já venho criando válvula de escape já algum tempo pra sair dela. (Espiral 2) O relato abaixo fala das oportunidades sociais e afetivas que o trabalho proporciona, mas que são deixadas em segundo plano em face de demandas emergenciais que ocorrem no serviço em função da gestão organizacional.

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Assim, para que o trabalho possa proporcionar vivências de prazer, é necessário que as atividades correspondam às aspirações do trabalhador, em consonância com as necessidades do serviço real, propiciando maneiras de expressar a subjetividade e podendo modificar o trabalho. A convivência contínua com os mesmos colegas ao longo da vida fortalece os vínculos de amizade, confiança e alegria. A Realização de atividades científicas e de ensino, por permitir ao trabalhador de enfermagem expandir-se e ampliar as possibilidades de socialização do conhecimento produzido no cotidiano do trabalho no ambiente hospitalar: Tem coisas que eu fazia antes e que me davam muito prazer e não faço mais – preparar trabalhos científicos relacionados à minha prática em UTI; levar trabalho para apresentar em congresso; ensinar; reunir com a equipe para treinamento e confraternização. [...] aqui no nosso grupo as nossas atribuições que estão me esmagando. A falta de tempo acaba com meu prazer.(Pomba) A expressão da subjetividade e do desejo é muitas vezes um pensamento incômodo para o grupo, sobretudo, quando é capaz de desmontar todo um cenário de idealidades presente na profissão: Eu tenho um sonho para o futuro – fazer Faculdade de Direito, sempre pensei nisso, mas ainda não tive oportunidade de parar para fazer. Estou quase me aposentando e mesmo assim quero fazer isso. Também quero morar fora do país, fazer doutorado na Universidade de Coimbra. Para mim essa é uma forma de construção de poder. (Plantinha) Eu também quero ir para lá! [Risos]. Mas meu sonho está totalmente fora do contexto. Nunca é tarde para recomeçar! E o que você sonha de realizar enquanto a sua atividade enquanto enfermeira aqui do hospital? Está parecendo que você sonha sumir! [risos]. (Autoconfrontação Cruzada) Além de todo embasamento legal - que é uma coisa que sempre tive comigo, acho que isso acompanha muito a gente em relação às questões dos direitos da enfermagem. Até escrevi trabalho sobre isso. A Universidade de Coimbra é um sonho meu, entendeu? (Plantinha) Pode ter certeza que você não é a única pessoa aqui que tem vontade de sumir! Essa chave que está no seu mosaico de imagens representa para mim um instrumento de fuga. Eu me sinto assim, eu preciso de uma chave para sair e outra para entrar, mas não no mesmo lugar da qual eu saí. (Autoconfrontação Cruzada) A porta está aberta, mas ela quer abrir outra porta, mais um campo, eu vejo que é como abrir outros horizontes. (Autoconfrontação Cruzada)

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Estou perplexa, pois trabalho com ela há anos e nunca podia imaginar que essa emoção e desejo estavam dentro dela. Isso me preocupa o quanto ela está insatisfeita como que faz! Mas como assim, se ela é tão boa enfermeira [risos]. Estou falando como amiga, e não como chefe - Isso me preocupa! Se for pra Coimbra espero que faça doutorado em enfermagem e não o curso de direito. Agora fiquei preocupada com estado emocional dela. Como pode trabalhar horas e horas de plantão num lugar desejando ir para outro? (Autoconfrontação Cruzada) Calma! Ela só está falando de um sonho – o que ela pretende fazer em outro momento, ou seja, é um plano, um planejamento. (Autoconfrontação Cruzada) Os depoimentos acima permitem confirmar o valor sobre o método da autoconfrontação prposto pela “Clinica da Atividade”. O jogo de discordâncias entre os contextos propostos, o da atividade realizada e o da atividade segunda sobre essa atividade realizada, permite, muitas vezes, relançar a repetição de um funcionamento além de sua repetição, a fim de que a atividade de cada um e do coletivo retome seu curso. DISCUSSÃO A análise empreendida buscou compreender os sentidos mais gerais atribuídos pelo enfermeiro ao seu agir profissional/gênero no cotidiano hospitalar. Buscou-se por meio de objetos inusitados promover a expressão de conteúdos silenciados e subjetivamente vivenciados no cotidiano do trabalho hospitalar. Como refere Clot (2010), em vez de se criarem artificialmente situações experimentais para neutralizar o máximo as variáveis indesejáveis, propôs-se abrir a porta para emergência dos possíveis. Sobre provocar o imaginário dos enfermeiros a partir de objetos lúdicos. De acordo com Yves Clot, a prática do sujeito não é apenas um efeito das condições externas, muito menos uma resposta apenas a essas condições, nem tampouco a atividade psíquica é a reprodução interna de tais condições. Para tanto, a atividade dos sujeitos no trabalho implica a metamorfose desse contexto, subordinando a si o contexto. Desta forma, o objeto da atividade do sujeito é essa subordinação, que transforma qualquer coisa não só em um objeto social, mas simultaneamente em um objeto psicológico. Assim, a existência da atividade em um contexto só é possível ao produzir um contexto para existir. A atividade está submetida a prova prática de objetos ou de relações com o outro que lhe resistem que a desviam e a afetam de um modo ou de outro (Clot, 2010, p.8). Para que pudéssemos identificar e compreender o trabalho, que dá sentido e orienta a ação do enfermeiro – sujeito da situação, considerando-o também como criativo, onde esta ação do trabalhador não está diretamente relacionada ao objeto, mas nas contradições na estrutura de atividades que respondem umas às outras através dele e que ele trai. (Clot, 2007a, p.100).

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O dispositivo “objetos inusitados”, potencializa diálogo sobre a atividade, como referido pela clínica da atividade. O desconhecido e escondido desperta sua curiosidade e capacidade imaginativa, para tentar reconhecer, aquilo que lhe é tão familiar – os objetos e as cores. Castoriadis (1982) diz que é justamente a imaginação que permite criar e recriar, pois sem ela não poderíamos nada dizer e, não poderíamos também nada saber. Criatividade e inovação são essenciais no aprimoramento da enfermagem, se constituindo elemento crucial para solucionar problemas presentes no cotidiano (Tavares et al, 2016). Na atividade criadora – imaginação, há um sentido que permite aprender as formas da realidade, e gravar as variadas imagens existentes; a isso acrescenta-se uma memória capaz de conservar a lembrança do colorido mundo das imagens multiformes. À imaginação criadora nomeada de ‘fantasia’, o homem retém aquilo que lhe interessa (Hegel,1996, p.316). A relação que o sujeito estabelece com o objeto nunca é um monólogo, o próprio objeto é transbordante da vitalidade dialógica do social, incluindo os antagonismos de interesse. Para Clot (2010.p.26) isso por que o objeto é um objeto-vínculo, desde sempre ligado ou desligado. Os enfermeiros representaram sua imaginação, a partir dos objetos entraram em contato com realidades existentes. A própria matéria de análise do trabalho são as metamorfoses da atividade, com o tempo incluindo as metamorfoses que essa análise provoca (2007a,129). No que se referere a artimanhas do desejo presente no trabalho do enfermeiro. O método da autoconfrontação possibilita - ver sua atividade pelos olhos das atividades dos outros, permitindo o coletivo confrontar-se com outras experiências, potencias e possibilidades para aumentar seu poder de agir, ampliando seu domínio sobre seu ofício (Clot, 2008). Ao desempenhar uma atividade, conflitos reais entre o que se faz e tudo aquilo que não se faz vêm à tona, conforme podemos observar nos depoimentos que se seguem. Aqui, as atividades analisadas são narradas pelo próprio enfermeiro, que se confronta por meio do registro fotográfico com o cotidiano da atividade e por meio da autoconfrontação. O prazer no cotidiano do enfermeiro hospitlar relaciona-se a interação direta com o paciente. A essência do cuidado reside na dimensão comunicativa, mas a execução de um conjunto de atividades de enfermagem é que dá a plenitude de cuidar (Peduzzi, 2002). Assim, o cuidado desterritorializado, ou seja, fora do corpo do paciente, é o próprio princípio da criação, desafiado por ele é que o enfermeiro reinventa e/ou amplia o agir profissional. Ao descrever sobre o fazer cotidiano da enfermagem e na gestão dos serviços, Betancur (2016) explica que muitas vezes ao executarem tarefas que não são de sua competência, mas impostas pelo serviço, o enfermeiro se afasta do cuidado direto do paciente e dedicar menos tempo ao cuidado leva o enfermeiro a sentimento de culpa, esgotamento e estresse. Aplicar a técnica na medida justa da especificidade da necessidade do paciente, e fazê-lo por meio de relações de continência, acolhimento e vínculo e para tanto é preciso desenvolver uma interação efetiva com o paciente (Peduzzi, 2002). 185


O método da autoconfrontação possibilita ver sua atividade pelos olhos das atividades dos outros, permitindo o coletivo confrontar-se com outras experiências, potencias e possibilidades aumentando seu poder de agir, ampliando o domínio sobre o ofício (Clot, 2008). Martins, Robazzi & Bobroff (2010) descrevem que a forma de organização do trabalho deve estar pautada no princípio da flexibilidade - permitindo a evolução e as transformações e o crescimento dos trabalhadores, caso contrário produz sofrimento. O trabalho proporcia vivências de prazer, mas para que aconteça é fundamental, as atividades correspondam às aspirações do trabalhador. Para Deleuze & Guattari (2011), desejar é construir um agenciamento, um conjunto, uma nova possibilidade de existência coletiva. Desejo não é falta, aparecendo na autoconfrontação; é vontade de potência, é produção. Os depoimentos apresentados pelos enfermeiros, participantes do estudo confirmaram o valor apresentado sobre o método da autoconfrontação na “Clinica da Atividade”. Ou seja, o desenvolvimento pode se efetuar então por rearranjos dos conflitos do real da atividade, mas também pelo desenvolvimento de uma ação mais eficaz, graças ao acesso a maneiras de fazer, técnicas e simbólicas, dos outros, por meio do exame e da transformação dos seus próprios modos de fazer (Roger, 2013, p.114). CONCLUSÃO O trabalho do enfermeiro no contexto hospitalar é compreendido como fonte de produção de subjetividade. Os dados revelam investimento dos enfermeiros para fortalecer sua identidade profissional visando o cuidado de qualidade. A despeito dos muitos anos de prática profissional dos enfermeiros participantes do estudo, demonstram encontrar prazer naquilo que fazem, apresentando-se potentes para agir diante aos desafios profissionais e organizacionais encontrados. Apesar dos muitos relatos sobre o desgaste produzido no cotidiano do trabalho de enfermagem e dos muitos anos de prática profissional, os enfermeiros demonstram motivação e potência para agir. O prazer no cotidiano do enfermeiro hospitalar está relacionado a interação direta com o paciente. O cuidado tem múltiplos componentes, e quando se está resolvendo algum problema organizacional, cabam indo atrás das coisas por causa do paciente, ou seja, porque estão afetados pelos pacientes. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA No que se refere ao prazer no cotidiano de trabalho do enfermeiro hospitalar, o estudo demonstrou relevância em abordar questões que se referem ao trabalho como uma atividade que mobiliza o sujeito e suas potencialidades. Para o enfermeiro o prazer no cotidiano hospitalar está relacionado principalmente à interação direta com o paciente e a valorização

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social da profissão. Sendo preciso articular os desafios do cotidiano de trabalho a questão da saúde do enfermeiro, protagonistas das atividades. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Castoriadis, C. (1982). A instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Clot, Y. (2006). Curso sobre Clínica da Atividade. Ministrado por Yves Clot, Unicamp, Maio. Clot, Y. (2007a). A função psicológica do trabalho. Tradução Adail Sobral. Petrópolis: Vozes. Clot, Y. (2007b). A Clínica da Atividade: uma metodologia de intervenção no trabalho como atividade coletiva e dialógica. Notas de Aula - Curso. Niterói: UFF. Clot, Y. (2008). La recherche fondamentale de terrain: une troisième voie. Éducation Permanente,

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http://dx.doi.org/10.9789/2175-5361.2015.v7i1.2072-2082 Tavares, C., Gama, L., Souza, M., Paiva, L., Silveira, P., & Mattos, M. (2016). Competências Específicas do Enfermeiro de Saúde Mental Enfatizadas no Ensino de Graduação em Enfermagem. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 25-32. doi: http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0137

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