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FICHA TÉCNICA

TÍTULO | TITLE Revista Portuguesa de Enfermagem em Saúde Mental | Portuguese Journal of Mental Health Nursing

PUBLICAÇÃO E PROPRIEDADE | PUBLISHING AND PROPERTY

A Sociedade Portuguesa de Enfermagem em Saúde Mental | The Portuguese Society of Mental Health Nursing

DIRETOR | MANAGING DIRECTOR

Carlos Sequeira, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal

COORDENADOR | COORDINATOR

Luís Sá, PhD - Instituto de Ciências da Saúde - Universidade Católica Portuguesa, Porto, Portugal

COORDENADOR DA COMISSÃO EDITORIAL | EDITORIAL BOARD COORDINATOR

Francisco Sampaio, MSc – Hospital de Braga, Portugal

COMISSÃO EDITORIAL | EDITORIAL BOARD

Amadeu Gonçalves, MSc - Escola Superior de Enfermagem, Instituto Politécnico de Viseu Analisa Candeias, MSc - Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho Bruno Santos, MSc – Casa de Sáude do Bom Jesus - Braga Carlos Vilela, MSc - Escola Superior de Enfermagem do Porto Lia Sousa, MSc - Centro Hospital de São João, Porto Lucília Vale de Nogueira, MSc – Centro Hospitalar do Porto Luís Silva, MSc - Hospital de Magalhães Lemos, Porto Odete Araújo, MSc - Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho Olga Cunha Rocha, MSc - Escola Superior de Enfermagem do Porto (Jubilada) Regina Pires, MSc – Escola Superior de Enfermagem do Porto Rita Costa, MSc - Unidade Local de Saúde de Matosinhos, Porto

COMISSÃO CIENTÍFICA | SCIENTIFIC REVIEWERS

Agustín Simónelli Muñoz, PhD - Universidad Católica San Antonio, Múrcia, Espanha Aida Mendes, PhD - Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Portugal Alexandre Marques Rodrigues, PhD - Escola Superior de Enfermagem da Cruz Vermelha Portuguesa de Oliveira de Azeméis Beatriz Araújo, PhD - Instituto de Ciências da Saúde - Universidade Católica Portuguesa, Porto, Portugal Carlos Sequeira, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal Carme Ferré Grau, PhD - Universitat Rovira i Virgili. Tarragona, Espanha Elaine Antunes Cortez, PhD - Escola de Enfermagem AAC - Universidade Federal Fluminense Elizabete Borges, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal Francisca Manso, PhD - Escola Superior de Enfermagem de Lisboa, Portugal Geilsa Cavalcanti Valente, PhD - Escola de Enfermagem AAC - Universidade Federal Fluminense Guilherme Correa Barbosa, PhD – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Brasil Graça Pimenta, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal Isilda Ribeiro, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal Joaquim Passos, PhD – Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Portugal José António Pinho, PhD – Centro Hospitalar do Porto, Portugal José Carlos Carvalho, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal José Carlos Gomes, PhD - Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Leiria, Portugal José Carlos Santos, PhD - Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Portugal Juan Roldan Merino, PhD - Escuela de Enfermería Sant Joan de Déu (adstrita a la UB), Espanha Júlia Martinho, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal Luís Sá, PhD - Instituto de Ciências da Saúde - Universidade Católica Portuguesa, Porto, Portugal Margarida Sotto Mayor, PhD - Hospital de Magalhães Lemos, Porto, Portugal Mar Lleixà-Fortuny, PhD - Universitat Rovira i Virgili. Tarragona, Espanha Marluce Miguel de Siqueira, PhD - Universidade Federal do Espírito Santo, Brasil Michell Araújo, PhD - Faculdade Católica Rainha do Sertão - Fortaleza e Hospital de M., Brasil Odete Pereira, PhD - Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, Brasil Raul Cordeiro, PhD – Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Portalegre, Portugal Teresa Barroso, PhD - Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Portugal Teresa Lluch-Canut, PhD – Escola Universitària d’Infermeria - Universitat de Barcelona, Espanha Zeyne Scherer, PhD – Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo, Brasil Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 2


Público-alvo:

Enfermeiros, médicos, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e outras pessoas com interesse na área da saúde mental.

Objectivo:

Divulgação de evidências científicas sobre a promoção da saúde, prevenção de doenças, tratamento, reabilitação e reintegração das pessoas com doença mental ao longo da vida.

Âmbito:

Políticas e design dos cuidados de saúde; Avaliação, diagnóstico, intervenções e resultados de enfermagem; Sistemas de informação e indicadores em saúde mental; Direitos e deveres dos doentes mentais; Formação e investigação em enfermagem em saúde mental.

SUBSCRIÇÃO | SUBSCRIPTIONS

A Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde mental é publicada duas vezes por ano, Junho e Dezembro O preço por número é: - para instituições € 10.00; - para particulares € 8.00 Portuguese Journal of Mental Nursing is published twice a year, June and December The price of each number is: - for institutions € 10.00; - for private subscribers € 8.00

SECRETARIADO | SECRETARIAT

Bruno Santos; Francisco Sampaio; António Carlos Amaral

ISSN:

1647-2160

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Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 3


Índice

EDITORIAL CONVIDADO

1

SUICIDE: CAN WE PREVENT THE MOST MYSTERIOUS ACT OF THE HUMAN BEING? .....

ARTIGOS DE INVESTIGAÇÃO

2

PERCEÇÃO DE AUTOEFICÁCIA DO FAMILIAR CUIDADOR APÓS O REGRESSO A CASA DO

DEPENDENTE: ESTUDO LONGITUDINAL ................................................................................. 9

3

AVALIAÇÃO DA EFICÁCIA DE UM PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS

EM ADOLESCENTES COM VISTA À PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL ............................... 15

4

FACTORES ASSOCIADOS À ADESÃO AO TRATAMENTO DA PERTURBAÇÃO DE STRESSE

PÓS-TRAUMÁTICO: ESTUDO QUALITATIVO EM EX-COMBATENTES PORTUGUESES ....... 21

5

CONCEÇÃO

COMPETÊNCIAS COM OS OUTROS’ ...................................................................................... 27

6

LITERACIA EM SAÚDE: RESULTADOS OBTIDOS A PARTIR DE UMA AMOSTRA DE PESSOAS

IDOSAS PORTUGUESAS .......................................................................................................... 33

7

O MANEJO DAS EMOÇÕES DOS COORDENADORES EM TRANSPLANTES NA REALIZAÇÃO

DA ENTREVISTA FAMILIAR PARA DOAÇÃO DE ÓRGÃOS ................................................... 39

8

QUALIDADE DE VIDA E ESPIRITUALIDADE EM PESSOAS IDOSAS INSTITUCIONALIZADAS .. 45

9

O CUIDADOR FAMILIAR NO OLHAR DA PESSOA COM DEPRESSÃO

10

VULNERABILIDADE AO STRESS E QUALIDADE DE VIDA EM FAMILIARES DE PESSOAS

COM ALCOOLISMO .................................................................................................................... 57

DO

PROGRAMA DE

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 4

INTERVENÇÃO

EM

ENFERMAGEM

7

‘MELHORAR

............................... 51


11

DETERMINANTES NA TRANSIÇÃO PARA A PARENTALIDADE ................................................ 63

12

O SOFRIMENTO DO REGRESSO AO TRABALHO APÓS A LICENÇA PARENTAL ............... 69

13

RITMOS SOCIAIS E VOLUME DE ATIVIDADE SOCIAL DE PESSOAS EM PROGRAMA DE

SUBSTITUIÇÃO COM METADONA ............................................................................................. 75

14

SAÚDE

PSICOPATOLOGIA AO BEM-ESTAR

15

COMORBIDADES EM USUÁRIOS DE UM SERVIÇO DE SAÚDE MENTAL ............................ 87

16

AVALIAÇÃO DO PADRÃO DE USO DO ÁLCOOL ENTRE MORADORES DE UMA REGIÃO

SOCIALMENTE VULNERÁVEL ................................................................................................ 93

17

IMPACTO DA LITERACIA EM SAÚDE NOS COMPORTAMENTOS PROMOTORES DE SAÚDE

EM GESTÃO DE STRESSE EM ADOLESCENTES

ARTIGOS DE REVISÃO

18

PRIORIDADES DE INVESTIGAÇÃO EM SAÚDE MENTAL E A TRANSFORMAÇÃO DO

MODELO ASSISTENCIAL

19

CONSUMO DE TABACO NA MULHER GRÁVIDA: REVISÃO SISTEMÁTICA DA LITERATURA ... 112

20

EFEITO DA MASSAGEM TERAPÊUTICA NA SAÚDE MENTAL DAS PESSOAS COM PATOLOGIA

MENTAL NUMA POPULAÇÃO

NÃO

CLÍNICA DE

JOVENS ADULTOS:

DA

....................................................................................... 81

................................................................ 99

..................................................................................................... 106

ONCOLÓGICA .......................................................................................................................... 118

ARTIGOS DE REFLEXÃO

21

A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO DOCENTE E OCORRÊNCIA DE ASSÉDIO MORAL NO

ENSINO PÚBLICO SUPERIOR DE ENFERMAGEM ................................................................ 124 Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 5


Revista Portuguesa de Enfermagem de SaĂşde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 6


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SUICIDE: CAN WE PREVENT THE MOST MYSTERIOUS ACT OF THE HUMAN BEING?

| José Carlos Santos1 |

Suicide was, is, and may continue to be the most mysterious act of the human being! Some attempts of explanation and clarification have helped understand the phenomenon, but we are still far from making it easily understood in the logics of human behavior. Recent advances in the field of neurobiology have given us some clues. Social psychiatry has identified some aspects. Other areas of anthropological, sociological, philosophical knowledge... have given their contributions. However, suicide persists as a complex and multidimensional phenomenon, regardless of the perspective or filter of analysis. Suicide prevention has become a public health priority (WHO, 2013, 2014). There is still no effective response to reduce suicide rates, despite all efforts made in this direction and the greater attention received in recent years. Every year, more than 800,000 people voluntarily put an end to their lives; more men than women; more older people than adolescents; more in developing countries than in developed countries. Today, we have a detailed knowledge of the profile of the suicidal person in the various contexts. However, with a few exceptions, the number of suicides continues to increase or at least not to decrease. Even taking into account the complexity of the phenomenon, we can identify some reasons for its existence. The first reason relates to the lack of prevention plans in some countries and specific contexts. Given the heterogeneity of this behavior, we must think globally, plan nationally, and act locally. Together with universal measures, selective and indicated prevention measures are also needed. Together with health measures, social, professional and educational measures are also needed. The second reason relates to identifying the need for help. Understanding when it is necessary to seek external help, either within family and friends, or with the nearest health care providers or mental health care services, is essential for prevention at the individual level. It is essential to fight against the standardization or vulgarization of the symptomatology experienced. Fighting against the internal and social stigma is another cornerstone of prevention. The third reason relates to the accessibility of services. Prevention does not benefit from economic barriers, such as user fees or decreased support; the lack of human resources, by concentrating them in major urban

centers and reducing them in inland areas; and the decreased support for proper intervention and follow-up after the suicidal crisis, thus hindering a systemic and ecological intervention. The fourth reason relates to the unpredictability of the act. Several studies have demonstrated the low capacity of health care professionals to foresee an imminent suicide, despite their knowledge of risk factors and careful assessment. However, the early diagnosis of mental suffering, hopelessness or mental illness contributes to its prevention. Suicide was, is, and may continue to be the most mysterious act of the human being! Despite its complexity, psychological pain, as defined by Edwin Shneidman, seems to be present throughout the suicidal process. Psychological pain is individual and personalized. It is often, but not always, verbally expressed using quite primary or more complex language where meta-communication is common. For this reason, it is not always clear or understandable. Closeness, empathy and availability seem to be important conditions to help someone in psychological pain and, possibly, with suicidal ideation. For this reason, the training of health care professionals during their undergraduate or post-graduate degrees and in-service training is essential for dealing with someone wanting to legitimize his/her psychological pain. In Portugal, around 1,000 suicides are committed every year. The National Plan for Suicide Prevention includes the principles of multiculturalism and multidisciplinarity, among others. We are all called to take suicide prevention as a priority. More vulnerable groups require specific attention. Adolescents and elderly people are traditionally groups with higher incidence of self-harm behaviors and completed suicides, respectively. Police forces, prisoners, lesbians, gays, bisexuals, transsexuals/ transgenders, prostitutes and the homeless have higher suicide rates than the rest of the population. Suicide was, is, and may continue to be the most mysterious act of the human being! However, the presence of ambivalence in the suicidal person gives us a window of opportunity to legitimize psychological suffering and help find alternatives, even though these may be invisible to the individual undergoing a crisis or difficult to identify by health care professionals.

1 PhD in Mental Health; Coordinator Professor at Nursing School of Coimbra, Rua 5 de Outubro / Avenida Bissaya Barreto, Apartado 7001, Coimbra, jcsantos@esenfc.pt Citação: Santos, J. C. (2015). Suicide: Can we prevent the most mysterious act of the human being?. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 07-08. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 7


Successful cases of reducing suicide rates help us believe that it is possible to reduce the overall rates of this phenomenon. However, to this end, greater political and social awareness, better access to health care services, and best practices are needed. In this context, nurses, particularly nurse specialists in mental health and psychiatric nursing, have increased responsibilities. Hence, an adequate training and knowledge, a less defensive practice and more training in psychosocial skills may help suicidal people move from a death-orientated place to a life-orientated place (Cutcliffe & Santos, 2012), i.e. make a difference between life and death.

Revista Portuguesa de Enfermagem de SaĂşde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 8

REFERENCES Cutcliffe, J., & Santos, J. (2012). Suicide and self-harm: An evidence-informed approach (1st ed.). London & New York: Quay Books. World Health Organization (2013). Mental health action plan 2013−2020. Geneva: World Health Organization. World Health Organization (2014). Preventing suicide: A global imperative. Geneva: World Health Organization.


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PERCEÇÃO DE AUTOEFICÁCIA DO FAMILIAR CUIDADOR APÓS O REGRESSO A CASA DO DEPENDENTE: ESTUDO LONGITUDINAL | Fernando Petronilho1; Filipe Pereira2; Abel de Paiva e Silva3 |

RESUMO CONTEXTO: No contexto das transições de vida potencialmente stressantes, como acontece na transição para o exercício do papel de cuidador, as crenças de autoeficácia, sendo um constructo psicológico individual, podem servir como recurso pessoal facilitador ou fator de vulnerabilidade. OBJETIVO: Conhecer a evolução da perceção de autoeficácia do familiar cuidador (FC) após o regresso a casa do dependente. METODOLOGIA: Estudo descritivo, exploratório, quantitativo e de perfil longitudinal. Amostra de conveniência constituída por 117, 115 e 123 FC avaliados, respetivamente, ao 1º, 2º e 3º mês após a alta hospitalar dos dependentes internados em seis hospitais da região norte de Portugal. Aplicado o formulário “Famílias que integram dependentes no autocuidado”, entre agosto de 2010 e março de 2011. O tratamento estatístico dos dados foi realizado com recurso ao programa SPSS, versão 18,0. RESULTADOS: Verificou-se uma evolução positiva na perceção de autoeficácia dos FC ao longo dos três meses após o regresso a casa do dependente. Os domínios do autocuidado onde os FC revelaram maior perceção de autoeficácia dizem respeito ao autocuidado “andar”, “vestir-se/despir-se”, “alimentar-se” e “tomar banho”. Relativamente aos domínios dos “processos de cuidar”, os FC revelaram maior perceção de autoeficácia para “agir”, “monitorizar” e “providenciar cuidados”. CONCLUSÕES: Deste estudo emerge a necessidade de definir modelos de intervenção de enfermagem com maior efetividade junto das famílias, traduzido por maior profissionalização dos cuidados de enfermagem, através de um acompanhamento ao longo do tempo mais sistemático e em tempo útil. PALAVRAS-CHAVE: Autoeficácia; Cuidadores; Cuidados de enfermagem

RESUMEN

ABSTRACT

“Percepción de autoeficacia del familiar cuidador tras el regreso a casa del dependiente: Un estudio longitudinal”

“Perception of self-efficacy of family caregivers after the dependent homecoming: A longitudinal study”

CONTEXTO: En el contexto de las transiciones de vida potencialmente estresantes, como la transición para el papel de cuidador, las creencias de autoeficacia, aún siendo un constructo psicológico individual, pueden servir como recurso personal facilitador o factor de vulnerabilidad. OBJETIVO: Conocer la evolución de la percepción de autoeficacia del familiar cuidador (FC) tras el regreso a casa del dependiente. METODOLOGÍA: Estudio descriptivo, exploratorio, cuantitativo y de perfil longitudinal. Muestra de conveniencia con 117, 115 e 123 FC evaluables al 1er, 2º y 3er mes tras el alta hospitalária del dependientes hospitalizados en seis hospitales de la región norte de Portugal. Aplicado el formulario “Familias que integran dependientes en el autocuidado”, entre agosto de 2010 y marzo de 2011. El análisis estadístico fue realizado utilizando el programa SPSS, versión 18,0. RESULTADOS: Verificamos una evolución positiva en la percepción de autoeficacia de los FC a lo largo de los tres meses tras el regreso a casa del dependiente. Los dominios del autocuidado donde los familiares cuidadores revelaron la mayor percepción de autoeficacia correspondían al autocuidado “andar”, “vestirse/desvestirse”, “alimentarse” y “bañarse”. Relativamente a los dominios de los “procesos de cuidar”, los familiares cuidadores revelaron mayor percepción de autoeficacia para “actuar”, “monitorizar” y “proveer cuidados”. CONCLUSIONES: De este estudio surge la necesidad de definir modelos de intervención en enfermería con mayor efectividad junto a las familias, traducida en una mayor profesionalización de los cuidados de enfermería, a través de un acompañamiento a lo largo del tiempo más sistemático y en tiempo útil.

BACKGROUND: In the context of potentially stressful life transitions as in the transition to the exercise of the caregiver role, the self-efficacy beliefs, being an individual psychological construct, can serve as a personal facilitator resource or a factor of vulnerability. AIM: Understand the evolution of the perception of self-efficacy of family caregivers (FC) after the dependent homecoming. METHODS: A descriptive, exploratory, quantitative study with a longitudinal profile. Convenience sample of 117, 115 e 123 FC evaluated, respectively, at the 1st, 2nd and 3rd month after discharge of dependents hospitalized in six hospitals in the northern region of Portugal. The form “Families that integrate self-care dependents” was applied between August 2010 and March 2011. Statistical analysis of data was performed using the SPSS software, version 18.0. RESULTS: There was a positive evolution in the self-efficacy perception of FC over the tree months after the dependent homecoming. The self-care domains where family caregivers showed higher self-efficacy perceptions were “walking”, “dressing/undressing”, “eating “ and “ bathing”. Relatively to the domains of “caring processes”, the family caregivers showed greater self-efficacy perception to “act”, “monitor” and “provide care”. CONCLUSIONS: From this study emerges the need to define nursing intervention models more effective with families, translated by greater professionalization of nursing care through a more systematic accompanying over time and in good time.

DESCRIPTORES: Autoeficacia; Cuidadores; Atención de enfermería

KEYWORDS: Self efficacy; Caregivers; Nursing care Submetido em 19-08-2014 Aceite em 10-12-2014

1 Doutor em Enfermagem; Enfermeiro especialista em Enfermagem de Reabilitação; Professor Adjunto na Universidade do Minho, fpetronilho@ese.uminho.pt 2 Doutor em Ciências de Enfermagem; Enfermeiro especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica; Professor Coordenador na ESEP, filipereira@esenf.pt 3 Doutor em Ciências de Enfermagem; Enfermeiro especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica; Professor Coordenador na ESEP, abel@esenf.pt Citação: Petronilho, F., Pereira, F., e Silva, A. (2015). Perceção de autoeficácia do familiar cuidador após o regresso a casa do dependente: Estudo longitudinal. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 09-13. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 9


INTRODUÇÃO Eficácia refere-se à capacidade dos indivíduos em desenvolver competências cognitivas, sociais, emocionais e comportamentais. Deve ser organizada e instrumentalizada de forma eficaz para servir inúmeros propósitos. A autoeficácia percebida preocupa-se, não com o conjunto de habilidades que os indivíduos possuem, mas com o que estes acreditam que são capazes de fazer com aquilo que possuem em diferentes circunstâncias (Bandura, 1997; Gilliam & Steffen, 2006). A autoeficácia é conceptualizada como uma crença do indivíduo na sua própria capacidade de realizar uma tarefa específica, onde é imperativo mobilizar a motivação, os recursos cognitivos e de ação, necessários para enfrentar e satisfazer as exigências específicas duma situação considerada desafiadora (Bandura, 1997). Portanto, a autoeficácia é um constructo psicológico individual e que se refere à confiança do indivíduo na realização de um determinado comportamento e ser capaz de superar os obstáculos na concretização desse comportamento. Sentimentos de autoeficácia resultam da interação dos comportamentos pessoais com os fatores ambientais necessários à realização desses mesmos comportamentos (Bandura, 1997; Weng, Dai, Wang, Huang, & Chiang, 2008). No contexto da prestação de cuidados, a autoeficácia percebida refere-se à crença de ser capaz de lidar, adequadamente, com problemas específicos de saúde/ desenvolvimento, problemas estes que podem surgir num determinado momento do ciclo de vida (Pinquart & Sorensen, 2006). No contexto das transições de vida potencialmente stressantes, como, por exemplo, a transição para o exercício do papel de cuidador, as crenças de autoeficácia podem servir como recurso pessoal ou um fator de vulnerabilidade (Bandura, 1997). A supervisão do papel exercido pelos familiares cuidadores (FC), após o regresso a casa do dependente, deve ser um aspeto central do exercício profissional dos enfermeiros. Assim, as terapêuticas de enfermagem visam facilitar o processo de aquisição do papel e passam por desenvolver a capacitação e dar suporte aos FC (Schumacher, Stewart, Archbold, Dodd, & Dibble, 2000; Shyu, 2000; Shyu, Chen, Chen, Wang, & Shao, 2008). Na transição para o exercício do papel de cuidador, é crucial que os enfermeiros sejam capazes de identificar as competências dos familiares acerca das necessidades de cada situação específica, às quais terão de dar resposta eficaz na assunção do papel. A natureza do envolvimento, os cuidados a assegurar, as mudanças a efetuar e o período de tempo de todo este processo, terão de ser foco de atenção dos enfermeiros. O elogio das competências dos FC reforça-lhes a autoeficácia e, assim, sentem-se mais competentes para poderem lidar com os desafios (Mok, Chan, Chan, & Yeung, 2002). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 10

A construção de autoeficácia por parte dos indivíduos na execução das tarefas tem apelado, consideravelmente, a uma organização teórica e de investigação que permita o desenvolvimento de instrumentos de medida nesta área (Crncec, Barnett, & Matthey, 2008). Schumacher et al. (2000), através da concretização de estudos, identificaram nove “processos de cuidar” (competências), associados há habilidade dos FC para assegurar os cuidados necessários ao dependente (Quadro 1). Assim, concetualmente, o papel de prestador de cuidados foi definido como a habilidade do familiar para se envolver eficaz e progressivamente nos nove “processos de cuidar” (Schumacher et al., 2000). Quadro 1 - “Processos de cuidar” (Schumacher et al., 2000) PROCESSOS DE CUIDAR 1. Monitorizar: processo de observação das atividades realizadas pela pessoa cuidada e garantir a deteção de possíveis mudanças na sua condição de saúde. 2. Interpretar: processo de raciocínio complexo, caraterizado pela capacidade de reconhecer e atribuir significado às mudanças no curso normal ou esperado da condição de saúde da pessoa cuidada e ser capaz de identificar as causas. 3. Decidir: processo de escolha de uma determinada ação baseado em observações e interpretação das situações. 4. Agir: processo de executar as decisões e as instruções recomendadas sobre os cuidados a prestar. 5. Providenciar cuidados: processo de realizar procedimentos de enfermagem e médicos, caracterizado pela atenção à segurança e ao conforto. 6. Ajustar: processo de refinar progressivamente as ações até encontrar a estratégia mais eficaz. 7. Aceder a recursos: processo de obter os recursos necessários para prestar cuidados, incluindo as informações, equipamentos e materiais para uso doméstico, assistência dos serviços da comunidade, ajuda nas tarefas domésticas e assistência nos cuidados pessoais. 8. Trabalhar com a pessoa cuidada: processo de partilha de cuidados sensíveis aos valores, crenças e desejos quer da pessoa cuidada, quer do cuidador. 9. Negociar com o sistema de saúde: processo de assegurar que as necessidades da pessoa cuidada foram cumpridas adequadamente.

O FC torna-se competente quando consegue obter os melhores resultados possíveis dos cuidados que presta, como uma adequada gestão dos sinais e sintomas, a prevenção de lesões, a identificação precoce de problemas, entre outros. Estudos referem a existência de diferentes fases na adaptação ao exercício do papel de prestador de cuidados ao longo do tempo, das quais, decorrem diferentes necessidades no processo de transição do hospital para o domicílio até o FC atingir um padrão estável de cuidar (Schumacher et al., 2000; Shyu, 2000).


O estudo apresentado neste artigo teve como objetivo conhecer a evolução da perceção de autoeficácia dos familiares cuidadores (PAE FC) para tomar conta, nos primeiros três meses após o regresso a casa do dependente. METODOLOGIA Tipo de estudo: utilizando uma metodologia de perfil quantitativo, foi desenvolvido um estudo descritivo e exploratório, numa perspetiva longitudinal. Amostra: partindo de uma população acessível de 273 pessoas dependentes internadas em seis hospitais da região norte de Portugal, a amostra deste estudo (de conveniência) é constituída por 117, 115 e 123 FC, avaliados, respetivamente, no 1º (M1), 2º (M2) e 3º (M3) mês após a alta hospitalar da pessoa dependente. Assim, apenas foram incluídos no presente estudo os FC dos dependentes que se encontravam no domicílio nos três momentos de avaliação, uma vez que o “destino” destes (273 casos) após a alta hospitalar ao longo dos três meses do estudo foram: 1) unidades de internamento da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, 2) domicílio, 3) lares, 4) famílias de acolhimento e, por último, 5) reinternamento hospitalar, quando se verificava o agravamento da sua condição de saúde. Instrumento de recolha de dados/Procedimento de recolha de dados: foi aplicado o formulário “Famílias que integram dependentes no autocuidado” nos três momentos de avaliação (M1, M2 e M3). Relativamente ao objeto de estudo reportado neste artigo, este instrumento de recolha de dados engloba subescalas de PAE FC, construídas por: • Domínios do autocuidado (International Council of Nursing [ICN], 2005), especificamente: “tomar banho”, “vestir-se/despir-se”, “alimentar-se”, “usar o sanitário”, “virar-se”, “transferir-se”, “andar” e “tomar a medicação” (oito subescalas); • Domínios dos “processos de cuidar” definidos por Schumacher et al. (2000), especificamente: “monitorizar/interpretar”, “decidir”, “agir”, “providenciar cuidados”, “ajustar”, “aceder a recursos”, “trabalhar com a pessoa cuidada” e “negociar com o sistema de saúde” (oito subescalas). Para cada momento de avaliação (M1, M2 e M3) foi computada uma variável intervalar para o cálculo da média de PAE FC para cada domínio de autocuidado e dos “processos de cuidar” da totalidade dos participantes. Após este cálculo esta variável intervalar foi reconvertida numa variável ordinal (PAE FC Global) de acordo com os quatro intervalos equidistantes definidos (1-1,75 = “incompetente”; de 1,75 a 2,5 = “pouco competente”; de 2,5 a 3,15 = “medianamente competente”; de 3,15 a 4 = “muito competente”).

A recolha dos dados foi efetuada entre agosto de 2010 e março de 2011. Em M1 e M2 a recolha de dados foi realizada por entrevista telefónica entre o investigador e o FC. Em M3, a entrevista foi efetuada por contacto presencial em contexto domiciliar. Relativamente à escala global da PAE FC para tomar conta utilizada ficou demonstrada a sua boa consistência interna. O valor do Coeficiente Alfa de Cronbach apurados em M1 foi (α=0,861); em M2 (α=0,894) e, por último; em M3 (α=0,895). O tratamento estatístico dos dados foi realizado com recurso ao programa SPSS, versão 18,0. Considerações éticas: foram acautelados os procedimentos éticos necessários com vista à proteção dos direitos, da confidencialidade e da dignidade dos participantes. RESULTADOS O Gráfico 1 mostra-nos a evolução positiva na PAE FC Global, situando-se esta média entre “medianamente competente” (M1=3,03; M2=3,05) e “muito competente” (M3=3,21). No entanto, verifica-se que este ganho de PAE FC é mais visível entre o 2º e o 3º momento de avaliação (M2 e M3). Gráfico 1 - PAE FC Global nos 3 momentos de avaliação

O Gráfico 2 mostra a evolução da média de PAE FC por domínios de autocuidado ao longo dos três momentos de avaliação. O domínio onde se constata uma evolução positiva mais acentuada na PAE FC entre M1 e M3 reporta-se ao “usar o sanitário” (M1=2,84 “medianamente competente” e M3=3,16 “muito competente”). Gráfico 2 - Evolução da PAE FC por domínio de autocuidado nos 3 momentos de avaliação

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No domínio “andar” os FC apresentam a média mais elevada de PAE nos três momentos de avaliação, acompanhado de “tomar banho”, “vestir-se/despir-se” e “alimentar-se”. Apesar de se verficar uma evolução positiva na PAE FC no autocuidado “virar-se”, “usar o sanitário”, “tomar a medicação” e “transferir-se”, entre M1 e M3, são os domínios que apresentam os scores mais baixos de PAE FC. Relativamente à média de PAE FC para tomar conta em função dos “processos de cuidar” (Gráfico 3), verificamos que aqueles em que se obteve uma evolução mais positiva ao longo dos três momentos de avaliação foram “negociar com o sistema de saúde” (M1=2,95 “medianamente competente”; M3=3,27 “muito competente”); e “trabalhar com a pessoa cuidada” (M1=2,53 e M3=2,94 “medianamente competente”). Gráfico 3 - Evolução da PAE FC por “processos de cuidar” nos 3 momentos de avaliação

A PAE FC para “agir”, “monitorizar” e “providenciar cuidados”, apresentam-se como os domínios em que os FC referem sentir-se, globalmente, mais competentes ao longo dos três meses em que ocorreu o estudo, comparando com os restantes “processos de cuidar”. Em paralelo, “trabalhar com a pessoa cuidada”, “ajustar” e “aceder a recursos”, são os domínios onde se verifica ao longo do estudo as médias de PAE FC mais baixas. DISCUSSÃO No global, a análise dos resultados deste estudo revela uma evolução positiva na PAE FC quer nos domínios do autocuidado, quer nos domínios dos “processos de cuidar”. Esta evolução positiva é mais acentuada entre M2 e M3.

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Vários estudos referem que após um período de maior indefinição e dificuldade na assunção do papel de cuidador, que coincide com o período imediato ao regresso a casa do dependente, segue-se uma fase de maior estabilidade, relacionado com maior aquisição de mestria por parte do FC, o que lhe permite percecionar maior sentido de competência para cuidar (Schumacher et al., 2000; Schumacher et al., 2008; Shyu, 2000; Shyu et al., 2008) Os familiares cuidadores, quando questionados sobre a sua perceção de competência acerca das atividades necessárias para o exercício do papel, parecem focalizar-se, sobretudo, nos cuidados que, na sua perspetiva, são mais importantes de assegurar. Daí, resulta que há uma construção mental da natureza do papel a exercer que determina a sua ação. Assim, parecenos evidente que a maior atribuição de importância a determinados cuidados está associada uma maior PAE FC. No presente estudo, parece-nos que os FC atribuem maior importância na assistência em atividades associadas a domínios do autocuidado como “andar”, “vertir-se/despir-se”, “alimentar-se” e “tomar banho”, considerando-as fundamentais para a vida dos dependentes, assim como, as atividades associadas a “agir”, “monitorizar” e “providenciar cuidados”. Em paralelo, os resultados evidenciam menor perceção de competência por parte dos FC em domínios do autocuidado como, “virar-se”, “usar o sanitário”, tomar a medicação” e “transferir-se”, assim como, em relação aos “processos de cuidar” nos domínios “aceder a recursos”, “ajustar” e “trabalhar com a pessoa cuidada”. Assim, questionamos: 1) implicarão estas áreas pela sua natureza, onde os FC revelam menor PAE, um conjunto de atividades de maior intensidade e complexidade para a sua execução, exigindo maior aprendizagem dos FC e maior suporte profissional por parte das equipas de enfermagem no domicílio? 2) estes resultados estarão relacionados com um menor grau de importância atribuído pelos FC a estas atividades e, deste modo, menores implicações percecionadas relativamente à segurança, saúde e bemestar dos dependentes, traduzindo-se, deste modo, num menor investimento da sua parte na aquisição de um nível mais elevado de competências? Neste sentido, Schumacher et al. (2000) referem-se ao “significado pessoal” atribuído ao cuidado por parte do FC, sendo determinante para a qualidade do exercício do papel.


Das médias mais baixas de PAE FC ao longo dos momentos de avaliação deste estudo, verifica-se no domínio “aceder a recursos”. Parece demonstrar as dificuldades dos familiares na obtenção de informação que lhes possa facilitar a aquisição dos recursos necessários para a prestação de cuidados, incluindo as informações, os equipamentos, a assistência dos serviços da comunidade, a ajuda nas tarefas domésticas e a assistência nos cuidados pessoais (Schumacher et al., 2000). Advogar o acesso e a utilização dos recursos necessários aos FC é uma intervenção crucial dos enfermeiros na transição para o exercício do papel de prestadores de cuidados por parte dos familiares.

Gilliam, C., & Steffen, A. (2006). The relationship between caregiving self-efficacy and depressive symptoms in dementia family caregivers. Aging & Mental Health, 10(2), 79-86.

CONCLUSÕES

Pinquart, M., & Sorensen, S. (2006). Gender differences in caregiver stressors, social resources and health: An updated meta-analysis. Journal of Gerontology: Psychological Sciences, 61(1), 33-45.

Apesar das dificuldades com que se deparam no exercício do papel, de um modo geral, os FC atribuem importância aos desafios que se vão colocando ao longo do tempo e vão desenvolvendo estratégias por forma a adaptarem-se com eficácia, demonstrando um sentido de competência positivo. Todavia, parte significativa dos cuidados que os dependentes necessitam e que são assegurados pelos FC revestem-se de grande complexidade e intensidade, apontando, deste modo, para a grande relevância do suporte em cuidados de enfermagem, facilitadores das transições saudáveis desta população-alvo. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Os resultados deste estudo apontam para a necessidade e os benefícios da definição e implementação de programas de educação e apoio efetivo aos FC, tendo em conta o “significado pessoal” atribuído ao cuidado, as suas expectativas, as suas necessidades e os recursos disponíveis, promovendo progressivamente a sua capacitação, com ênfase no período imediato à alta hospitalar. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Bandura, A. (1997). Self efficacy: The exercise of control. New York: W.H. Freeman and Company. Crncec, R., Barnett, B., & Matthey, S. (2008). Development of an Instrument to Assess Perceived Self Efficacy in the Parents of Infants. Research in Nursing & Health, 31, 442-453.

International Council of Nurses (2005). Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem: Versão 1.0 (CIPE® versão 1 – Tradução oficial Portuguesa). Lisboa: Ordem dos Enfermeiros. Mok, E., Chan, F., Chan, V., & Yeung, E. (2002). Perception of empowerment by family caregivers of patients with a terminal illness in Kong Kong. International Journal of Palliative Nursing, 8(3), 137-145.

Schumacher, K., Stewart, B., Archbold, P., Dodd, M., & Dibble, S. (2000). Family caregiving skill: Development of the concept. Research in Nursing & Health, 23, 191-203. Schumacher, K., Stewart, B., Archbold, P., Caparro, M., Mutale, F., & Agrawal, S. (2008). Effects of caregiving demand, mutuality, and preparedness on family caregiver outcomes during cancer treatment. Oncology Nursing Forum, 35(1), 49-56. Shyu, Y. (2000). The needs of family caregivers of frail elders during the transition from hospital to home: A Taiwanese sample. Journal of Advanced Nursing, 32(3), 619-625. Shyu, Y., Chen, M., Chen, S., Wang, H., & Shao, J. (2008). A family caregiver-oriented discharge planning program for older stroke patients and their family caregivers. Journal of Clinical Nursing, 17, 24972508. Weng, I., Dai, Y., Wang, Y., Huang, H., & Chiang, Y. (2008). Effects of self-efficacy, self-care behaviours on depressive symptom of Taiwanese kidney transplant recipients. Journal of Clinical Nursing, 17, 1786-1794.

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AVALIAÇÃO DA EFICÁCIA DE UM PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS EM ADOLESCENTES COM VISTA À PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL | Catarina Tomás 1; José Carlos Gomes2 |

RESUMO CONTEXTO: A prevenção em doença mental pretende habilitar os indivíduos de capacidades e competências necessárias para atingir positivamente as metas desenvolvimentais, bem como desenvolver uma adequada autoestima, mestria, bem-estar e inclusão social. OBJETIVO(S): Este estudo teve como objetivo avaliar a eficácia de um programa de desenvolvimento de competências (autoconceito e resiliência) em jovens dos 13 aos 15 anos. METODOLOGIA: Tratou-se de um estudo de carácter longitudinal, quase-experimental, com pré-teste, pós-teste e grupo de controlo, tendo sido aplicado um programa de 7 sessões de 45 minutos, de desenvolvimento das competências autoconceito e resiliência. A população era composta pelos alunos do 8.º ano de um Agrupamento de Escolas do distrito de Leiria - Portugal, sendo a amostra selecionada correspondente a metade dos alunos de duas turmas (grupo de teste e de controlo). Para avaliar os resultados, aplicou-se um questionário de autopreenchimento, antes e após a intervenção, com questões sociodemográficas, a PIERS-HARRIS Children’s Self-Concept Scale 2 e a California Healthy Kids Resilience Assessment Module. RESULTADOS: No final da intervenção apresentaram-se diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos nalguns fatores, sendo os valores encontrados superiores no grupo de teste. Foram também encontradas diferenças entre o momento pós-intervenção e préintervenção, sugerindo estes resultados a eficácia da intervenção realizada. CONCLUSÕES: A intervenção realizada, com foco na promoção de duas competências nos adolescentes promoveu o seu desenvolvimento de forma ténue, sugerindo-se a replicação da mesma em amostras semelhantes com vista à validação dos resultados encontrados. PALAVRAS-CHAVE: Promoção da saúde; Adolescente; Prevenção primária

RESUMEN

ABSTRACT

“Evaluación de la eficacia de un programa de desarrollo de habilidades en los adolescentes para promover la salud mental”

“Effectiveness evaluation of a program of skills development in adolescents in order to the promotion of mental health”

CONTEXTO: La prevención de la enfermedad mental quiere capacitar a las personas de las habilidades y competencias necesarias para lograr positivamente las metas de desarrollo y para el desarrollo de una adecuada autoestima, dominio, bienestar y inclusión social. OBJETIVO(S): Este estudio tuvo como objetivo evaluar la eficacia de un programa de desarrollo de habilidades (autoconcepto y resiliencia) entre los jóvenes de 13 a 15 años. METODOLOGÍA: Se tratara de un estudio de la naturaleza longitudinal, cuasi-experimental, con pre-test, post-test y grupo del control, donde se aplicara un programa de 7 sesiones de 45 minutos de desarrollo de las habilidades autoconcepto y resiliencia. La población se compone de los estudantes del octavo año de un grupo de escuelas en el distrito de Leiria, con la muestra seleccionada correspondiente a la mitad de los estudiantes de dos grupos (grupo de ensayo y de control). Para evaluar los resultados, se aplicó un cuestionario autoadministrado, antes y después de la intervención, con preguntas sociodemográficas, la PIERS-HARRIS Children’s Self-Concept Scale 2 y la California Healthy Kids Resilience Assessment Module. RESULTADOS: Al final de la intervención fueram presentadas diferencias estadísticamente significativas entre los dos grupos en algunos factores, y los valores que se encuentran en el grupo de ensayo fueram los superiores. También encontramos diferencias entre post-intervención y el tiempo previo a la intervención, y estos resultados sugieren la eficacia de la intervención realizada. CONCLUSIONES: La intervención realizada, centrándose en la promoción de dos habilidades en adolescentes tiene promovido su desarrollo tenuemente, lo que se sugiere la replicación de los mismos en muestras similares para la validación de los resultados.

DESCRIPTORES: Promoción de la salud; Adolescente; Prevención primaria

BACKGROUND: Prevention in mental illness aims to enable people with the skills and abilities necessary to achieve developmental goals positively, as well as develop appropriate self-esteem, mastery, welfare and social inclusion. AIM: The main goal for this study is to evaluate the efficacy of a skills development intervention (resilience and self-concept) in teenagers between 13 and 15 years old. METHODS: It was made a longitudinal, quasi-experimental pre-test post-test design with a control group study, applying a skills development program, with 7 sessions of 45 minutes. The population was composed by adolescent students in the 8th grade of a group of schools in Leiria, and the selected sample consists in half of the students in two classes (test and control groups). A self-administered questionnaire was used before and after the intervention to evaluate the results, with socio-demographic questions, the PIERS-HARRIS Children’s Self-Concept Scale 2 and the California Healthy Kids Resilience Assessment Module. RESULTS: After the intervention, it was found significant statistical differences between the two groups in some factors of the evaluated skills, being the values of the test group higher. There were also differences between the pre and post intervention moments, suggesting those results the success and efficacy of the applied intervention. CONCLUSIONS: The intervention performed, focusing on the evaluation of two skills in adolescents, promoted its development tenuously, being suggested the replication of the same intervention and study in similar samples in order to validate the results.

KEYWORDS: Health promotion; Adolescent; Primary prevention Submetido em 15-09-2014 Aceite em 27-12-2014

1 Licenciada em Enfermagem; Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria; Assistente do 2º Triénio no Instituto Politécnico de Leiria, Escola Superior de Saúde, Departamento de Ciências de Enfermagem, Campus 2 – Morro do Lena – Alto do Vieiro, Apartado 4137, 2411-901 Leiria, Portugal, catarina.tomas@ipleiria.pt 2 Doutor em Saúde Pública; Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Diretor no Instituto Politécnico de Leiria, Escola Superior de Saúde; Professor Coordenador no Instituto Politécnico de Leiria, Escola Superior de Saúde, Departamento de Ciências de Enfermagem, Leiria, Portugal, crgomes@ipleiria.pt Citação: Tomás, C., e Gomes, J. C. (2015). Avaliação da eficácia de um programa de desenvolvimento de competências em adolescentes com vista à promoção da saúde mental. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp 2), 15-20. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 15


INTRODUÇÃO A promoção de saúde mental refere-se a uma intervenção com vista ao aumento das capacidades pessoais para adotar comportamentos saudáveis. Promover intervenções de prevenção em crianças e jovens poderá reduzir 25 a 50% das desordens mentais na idade adulta (Kim-Cohen et al., 2003). O Instituto de Medicina (IOM) recomenda a inclusão da promoção da saúde mental nas estratégias de prevenção nos adolescentes, focando-se essencialmente no bem-estar, e não na prevenção da doença, embora estas estratégias possam por si só diminuir a incidência de doença mental. Os objetivos da prevenção da doença mental passam por capacitar os indivíduos de competências necessárias para atingir positivamente as metas desenvolvimentais, bem como para promover o desenvolvimento adequado de autoestima, mestria, bem-estar e inclusão social (Tusaie, 2008). Competência foi definida como sendo a “capacidade para operacionalizar um conjunto de conhecimentos, de atitudes e de aptidões, numa situação concreta, de modo a ser bem-sucedido”(Jardim, 2007, p. 79). Atualmente a promoção de competências e capacidades deve ser realizada a todas as crianças, para que, quando enfrentem a adversidade num momento posterior das suas vidas, tenham já desenvolvidas as competências necessárias para lidar com a situação (Tusaie, 2008). A evidência científica sugere que quanto mais reduzidos forem os riscos na adolescência, menos vulnerável fica a criança a uma saúde mental pobre e a problemas sociais e emocionais. As intervenções adequadas devem incluir atividades para ensinar conhecimentos, atitudes e competências às crianças (Blank et al., 2010). Perceção de si próprio positiva (autoconhecimento, locus de controlo e autoestima), autocontrole, capacidade de tomada de decisão (resiliência e autonomia, perspetiva e temperamento ou autocontrolo), sistema moral de crenças e capacidades de comunicação prósocial são as cinco principais competências para a promoção da capacidade de se desenvolver positivamente. As competências encontram-se interligadas, sendo possível desenvolvê-las de forma estrutural, a partir de programas de prevenção baseados na evidência, como os programas de treino de competências (Guerra & Bradshaw, 2008). Uma meta-análise acerca de programas de prevenção em sexualidade, alimentação e consumo de drogas, permitiu concluir que os programas focados apenas num só domínio comportamental são mais eficazes do Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 16

que os programas que discutem os temas de forma geral e os que são baseados em teoria também surtem mais efeito do que os não baseados em teoria. Constatou-se ainda que o treino de competências pessoais e sociais revelou surtir efeito (Peters, Kok, Dam, Buijs & Paulussen, 2009). Resiliência define-se como a capacidade do indivíduo em alcançar resultados positivos, partindo de situações adversas, como sejam situações de maior stresse, que aumentam por si só, a probabilidade de ocorrência de doença mental, doença física ou dificuldades de adaptação social (Wolchik, Schench & Sandler, 2009). O Programa “Strong Kids” foi aplicado e avaliado com vista ao desenvolvimento de resiliência nos adolescentes. Este programa engloba 12 sessões (de 45 a 50 minutos) de treino de competências em ambiente escolar. A intervenção decorreu em 139 estudantes do sexto ano de escolaridade, sendo a avaliação realizada com base num estudo quase-experimental com grupo de controlo. Para além de outros resultados, foi possível verificar que após a implementação da intervenção, existiam diferenças estatisticamente significativas em relação aos conhecimentos e competências acerca de comportamentos promotores de saúde social e emocional, sendo superior no grupo experimental (Gueldner & Merrell, 2011). Para Vaz Serra (1986), citado por Teixeira (2010, p. 7), o autoconceito consiste na “perceção que um indivíduo tem de si próprio nas mais variadas facetas, sejam elas de natureza social, emocional, física ou académica”. Um estudo quase experimental com 104 participantes de idades compreendidas entre os 14 e os 17 anos, com vista a promover o nível de autoestima, autoconceito, bem-estar psicológico e satisfação com a vida, com 8 sessões de 90 minutos cada, demonstrou ser eficaz, promovendo um aumento de autoconceito (a média aumentou 2,77) (Araújo, 2011). Quando se fala de fatores de risco, relativamente à capacidade de adaptação e de resiliência, perante situações adversas, entre as crianças e adolescentes, parecem existir diferenças, nomeadamente entre o sexo masculino e feminino, sendo que o processo de adaptação social parece variar entre sexos. Parecem também existir outros fatores contribuintes, tais como a estrutura monoparental e o nível socioeconómico, apesar de ser necessário, nestes casos, distinguir entre os efeitos reais do evento (Costa e Bigras, 2007).


METODOLOGIA Este estudo apresentou um caráter longitudinal, quaseexperimental, com pré-teste e pós-teste e com grupo de controlo. Pretendeu-se responder à questão de investigação: “Qual a eficácia de um programa de intervenção psicoterapêutica para o desenvolvimento de resiliência e autoconceito dos adolescentes?” A população deste estudo compreendeu os estudantes adolescentes do 8.º ano de escolaridade de um Agrupamento de Escolas do distrito de Leiria (194 alunos). A amostra foi constituída por metade dos alunos de duas turmas (21 estudantes), uma turma para o grupo de teste (10 alunos) e outra para o grupo de controlo (11 alunos), o que corresponde a 11,34% da população, tendo sido selecionada por amostragem não probabilística por conveniência, tendo em conta o critério de facilidade de acesso por parte do investigador. Como critérios de inclusão, definiram-se pertencer às turmas selecionadas nas quais será aplicado o programa de intervenção e aceitar participar no estudo. Para avaliar os resultados da intervenção foi utilizado um questionário de autopreenchimento aplicado aos estudantes da amostra antes e depois da intervenção. O questionário era constituído por duas partes: a primeira compreende questões de caracterização da amostra, e a segunda engloba duas escalas de avaliação de competências. Para avaliar o autoconceito, foi utilizada a PIERS-HARRIS Children’s Self- Concept Scale 2 (PHCSCS-2), elaborada por Piers & Herzberg (2002) traduzida e validada para a população portuguesa por Veiga (2006). A avaliação do autoconceito por esta escala é realizada com base em seis fatores: o aspeto comportamental, o estatuto intelectual, a aparência física, a ansiedade, a popularidade e a satisfação e felicidade, sendo que quanto mais elevada a pontuação, mais positivos os níveis de autoconceito. A escala Califórnia Healthy Kids Resilience Assement Module (Versão 6.0) (HKRAM-6), foi elaborada por Benard (1991, 1995), e traduzida e validada para a população portuguesa por Martins (2007). Avalia 11 fatores protetores (recursos externos), a partir de 3 grupos de itens: “Relações afetivas”, “Expectativas elevadas” e “Participação significativa”, com base nos recursos família/casa, envolvimento escolar, comunidade, e grupo de pares. Avalia também 8 traços de resiliência (recursos internos), reunidos em 3 grupos “Competência social”, “Autonomia e Sentido do Eu” e “Objetivos e Aspirações”. Para além dos recursos internos e externos, a escala avalia ainda 7 indicadores do desenvolvimento e promoção de resiliência. Quanto mais elevada a pontuação, maior o nível de resiliência.

A Intervenção realizada teve como objetivo o desenvolvimento destas competências e foi aplicado num total de 7 sessões semanais, com a duração de 45 minutos. Foi realizada em sala de aula, em horário definido de acordo com a disponibilidade da turma. As intervenções, baseadas em alguns programas já realizados (Araújo, 2011; Carvalho, 2012; Gueldner & Merrell, 2011), foram estruturadas por sessões, tendo sido dedicadas 4 sessões à promoção do autoconceito e 3 sessões à promoção da resiliência. Foram respeitados todos os procedimentos éticos inerentes a este tipo de estudo. RESULTADOS A amostra selecionada foi constituída por 10 alunos no grupo de teste e 11 alunos no grupo de controlo, sendo que todos apresentaram idades compreendidas entre os 13 e os 15 anos, tendo a maioria 13 anos (50% no grupo de teste e 63,6% no grupo de controlo). Em relação ao sexo, 70% dos alunos do grupo de teste é do sexo masculino, enquanto no grupo de controlo, a maioria é do sexo feminino (72,7%). Em relação à prática de atividades extracurriculares, apenas 40% dos alunos no grupo de teste e 54,5% no grupo de controlo praticavam, sendo a sua maioria desportos de competição (futebol, ténis, entre outros). 70% do grupo de teste e 72,7% do grupo de controlo referem ter um amigo ou grupo de amigos da mesma idade fora da escola, mencionando os restantes que não têm. Apenas 20% dos alunos no grupo de teste e 9,1% no grupo de controlo consideram não ter um melhor amigo, respondendo os restantes elementos de forma afirmativa. No grupo de teste, a maioria (60%) refere viver com ambos os pais e 80,5% refere ter irmãos a viver com eles, enquanto no grupo de controlo a maioria dos alunos (54,5%) refere viver apenas com a mãe e não ter irmãos a viver com eles (63,6%). Dos inquiridos, 90% dos alunos no grupo de teste e 72,7% no grupo de controlo referem ter irmãos, que são, na sua maioria, mais velhos (1 ou 2 irmãos). Considerando as diferenças entre as variáveis sociodemográficas e as diferenças entre os grupos, estas só são estatisticamente significativas (p=0,049) no facto de terem ou não irmãos a viver com eles. Tendo em consideração os resultados dos níveis de autoconceito e resiliência antes e depois da intervenção, foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos. Antes da intervenção foram encontradas diferenças estatisticamente significativas no autoconceito (bem como nos seus fatores aparência física e satisfação/felicidade), e no recurso externo participação significativa na escola da escala de resiliência (Tabela 1). Os valores mais elevados pertencem ao grupo de teste. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 17


Tabela 1 - Diferenças das médias dos fatores de autoconceito e resiliência entre o grupo teste e o grupo de controlo -x Grupo de teste

-x Grupo de Controlo

U

Z

p

Antes da intervenção Autoconceito Aparência Física

14,15

8,14

23,500

-2,242

0,025*

Satisfação/Felicidade

13,75

8,85

27,500

-2,003

0,045*

Total

13,85

8,41

26,500

-2,013

0,044*

Participação significativa: na escola

13,80

8,45

27,000

-1,998

0,046*

Elevadas expectativas: adultos em casa

12,75

9,41

37,500

-1,293

0,196

Aparência Física

15,05

7,32

14,500

-2,893

0,004**

Satisfação/Felicidade

13,85

8,41

26,500

-2,054

0,040*

Total

14,05

8,23

24,500

-2,153

0,031*

Participação significativa: na escola

13,95

8,32

25,500

-2,101

0,036*

Elevadas expectativas: adultos em casa

14,15

8,14

23,500

-2,323

0,020*

Resiliência

Depois da intervenção Autoconceito

Resiliência

Legenda: * p<0,05; ** p<0,01

Após a intervenção, verifica-se que os grupos apresentam diferenças estatisticamente significativas, nos fatores de aparência física e satisfação/felicidade do autoconceito, bem como no valor total de autoconceito. Os recursos externos de resiliência em que se encontraram diferenças estatisticamente significativas foram a participação significativa na escola e as elevadas expectativas dos adultos em casa. Também aqui os valores mais elevados pertencem ao grupo de teste. Comparando os dois momentos em cada grupo, antes (T1) e após (T2) a intervenção, foi considerado um p<0,10 para erro Tipo I e II, pois trata-se de grupos de pequenas dimensões. Desta forma, foram encontradas algumas diferenças estatisticamente significativas, sugerindo um efeito positivo da intervenção. Desta forma, no grupo de teste, encontraram-se diferenças estatisticamente significativas na perceção da aparência física (aumento) e nas elevadas expectativas pelos adultos na escola (redução). Já no grupo de controlo, as diferenças estatisticamente significativas encontradas foram na popularidade e nas elevadas expectativas dos adultos me casa e dos pares e pró-sociais, tendo em todos os casos ocorrido um decréscimo das pontuações (Tabela 2). Tabela 2 - Diferenças dos níveis dos fatores de autoconceito e resiliência entre o momento pré-intervenção e pós intervenção em ambos os grupos T2<T1

T2>T1

T2=T1

Z

p

Popularidade

5

2

3

-0,791

0,429

Aparência Física

1

5

4

-1,725

0,084***

Elevadas expectativas: adultos na escola

6

2

2

-1,725

0,084***

Elevadas expectativas: adultos em casa

2

3

5

-0,680

0,496

Elevadas expectativas: pares pró-sociais

6

2

2

-1,421

0,155

Popularidade

7

1

3

-2,257

0,024*

Aparência Física

4

7

0

-0,458

0,647

Elevadas expectativas: adultos na escola

5

4

2

-0,419

0,675

Elevadas expectativas: adultos em casa

5

1

5

-1,913

0,056***

Elevadas expectativas: pares pró-sociais

7

1

3

-2,157

0,031*

Grupo de Teste Autoconceito

Resiliência

Grupo de controlo Autoconceito

Resiliência

Legenda: * p<0,05; ** p<0,01; *** p<0,10; Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 18


DISCUSSÃO Selecionar um grupo de participantes, considerando o seu nível de autoconceito, pode tornar-se vantajoso pelo facto de que a intervenção foi aplicada nos alunos com valores mais baixos e portanto, com maior necessidade de trabalhar esta competência. No entanto, pode levar à constituição de grupos pouco homogéneos em relação a outros aspetos, o que poderá inviabilizar a comparação entre grupos. Em termos sociodemográficos, apesar de existirem algumas diferenças entre os grupos, apenas a diferença entre o facto de ter irmão a viver ou não com eles é significativa. O tamanho dos grupos para a intervenção era o adequado, de acordo com Yalom (2008), que preconiza que os grupos tenham 5 a 10 elementos. Diferenças estatisticamente significativas foram encontradas, nomeadamente entre o autoconceito e os seus fatores aparência física e satisfação/felicidade, bem como no recurso externo participação significativa na escola da escala de resiliência. Estes resultados demonstram haver algumas diferenças à partida entre os dois grupos, sendo os valores mais elevados pertencentes ao grupo de teste. No final, após a intervenção, as diferenças estatisticamente significativas em relação ao autoconceito mantiveram-se, embora em relação aos seus fatores, essas diferenças passassem a ser na aparência física e satisfação/felicidade. Também a diferença estatisticamente significativa se manteve em relação à participação significativa na escola, tendo-se encontrado também diferenças entre as elevadas expectativas dos adultos em casa, no que concerne aos recursos externos. Pode então perceber-se que poderá ter havido algum efeito da intervenção ao nível da aparência física e satisfação/felicidade, bem como ao nível das expectativas dos adultos em casa. Isto porque existem diferenças entre os grupos, sendo que no grupo de teste, os níveis destes fatores são significativamente superiores. Em relação às diferenças estatisticamente significativas entre os momentos pré e pós intervenção, o grupo de teste aumentou os seus níveis de perceção da aparência física, o que significa uma melhoria. No entanto, parece ter ocorrido um decréscimo nas elevadas expectativas pelos adultos na escola. No grupo de controlo, as diferenças estatisticamente significativas encontradas foram na popularidade e nas elevadas expectativas dos adultos em casa e dos pares e pró-sociais, havendo sempre um decréscimo dos seus valores.

O facto de ter ocorrido um aumento num dos fatores do autoconceito no grupo de teste e uma diminuição dos níveis em três fatores no grupo de controlo pode indicar eficácia da intervenção, nomeadamente na promoção da perceção positiva da aparência física, na popularidade e nas elevadas expectativas dos adultos em casa e dos pares pró-sociais. Estudos semelhantes obtiveram resultados mais significativos, o que se poderá dever, quer ao tempo de intervenção ser demasiado curto, quer ao número de sessões não ter sido suficiente, não permitindo desenvolver determinados fatores das competências trabalhadas (Araújo, 2011; Gueldner & Merrell, 2011). Desta forma, seria pertinente, tal como nos estudos encontrados e que revelaram maior eficácia nas intervenções, prolongar as sessões para cerca de 90 minutos, bem como aumentar o número de sessões para cerca de 8 a 12 (Araújo, 2011; Costa e Bigras, 2007; Gueldner & Merrel, 2011; Teixeira, 2010). CONCLUSÃO Promover intervenções como a que foi desenvolvida mostra-se eficaz, considerando o desenvolvimento de determinadas competências específicas nesta população. Nos adolescentes, a necessidade de desenvolvimento de competências é importante para a realização de escolhas saudáveis no futuro. No entanto, afirmar que estes resultados se devem à intervenção exige uma aplicação da mesma numa amostra mais ampla, como forma de obter resultados estatisticamente mais significativos. Resultados mais significativos estatisticamente permitiriam demonstrar uma evolução entre os dois momentos no grupo de teste e uma efetiva eficácia da intervenção realizada. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Este estudo apresenta relevância na determinação de intervenções de enfermagem de saúde mental e psiquiatria eficazes. Percebendo-se a eficácia da intervenção realizada, poderá ser aplicada em amostras semelhantes, constituídas por adolescentes com necessidade de intervenção ao nível da promoção de competência. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Araújo, M. (2011). Implementação e avaliação de um programa de intervenção em grupo para o desenvolvimento positivo de adolescentes: “Desafio: Ser +”. Dissertação de Mestrado, Escola de Psicologia da Universidade do Minho, Braga, Portugal. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 19


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FACTORS RELATED TO ADHERENCE WITH POST-TRAUMATIC STRESS DISORDER TREATMENT: A QUALITATIVE STUDY AMONG PORTUGUESE WAR VETERANS | Paulo Correia Ferrajão1; Rui Aragão Oliveira 2 |

ABSTRACT BACKGROUND: Research found better Post-traumatic Stress Disorder treatment outcomes among war veterans with treatment adherence. Perception of lack of benefits from medication, medication side effects, and social stigma were related to treatment non-adherence. Insight about the disease promoted medication adherence. AIM: This study explored the coping strategies and perceived psychosocial resources involved in treatment adherence among traumatized patients. METHODS: Sample was composed of Portuguese war veterans (N=60): 30 participants had chronic Post-traumatic Stress Disorder (nonrecovered) and 30 had remission from Post-traumatic Stress Disorder (recovered). It was conducted a semi-structured interview. Content analysis was performed for interviews analysis. RESULTS: Recovered group showed higher frequencies of reported treatment adherence. Participants who reported treatment adherence showed higher frequencies of problem focused coping, self-integration of incongruent experiences in personal schemas, insight, and appraisal of good social support. Participants who reported treatment non-adherence mentioned more use of acting out strategies. CONCLUSIONS: Recovery from Post-traumatic Stress Disorder was facilitated by treatment adherence. Integration of discrepant experiences in personal schemas was a key process for developing higher insight about the disease. Patients’ perceived control over recovery was facilitated by more effective coping strategies in patients with inadequate social support. KEYWORDS: Trauma; Recovery; Patient’s adherence; Treatment

RESUMEN

RESUMO

“Factores asociados con la adhesión al tratamento del trastorno de estrés postraumático: Un estudio cualitativo con antíguos veteranos portugueses”

“Factores associados à adesão ao tratamento da perturbação de stresse pós-traumático: Estudo qualitativo em ex-combatentes portugueses”

CONTEXTO: La investigación encontró una mayor eficacia en el tratamiento del Transtorno de Estresse Pós-traumático en veteranos con adhesión al tratamiento. La percepción de falta de mejoría, los efectos secundarios de la medicación y el estigma social son factores de falta de adhesión. El insight de lo transtrono se asoció con una mayor adhesión al tratamiento. OBJETIVO(S): Fueron exploradas las estrategias de afrontamiento, y los recursos psicosociales implicados en la adhesión al tratamiento de pacientes traumatizados. METODOLOGÍA: La muestra consistió de veteranos Portugueses (N=60): 30 tenian Transtorno de Estresse Pós-traumático (no recuperados) y 30 con remisión del Transtorno de Estresse Pós-traumático (recuperados). Se realizó una entrevista semi-estructurada con cada participante que fueron analizadas por análisis de contenido. RESULTADOS: Fueron encontradas tasas más altas de adhesión al tratamiento en los recuperados. Los pacientes con adhesión al tratamiento tenían mayor frecuencia de afrontamiento centrado en el problema, integración de experiencias incongruentes en los esquemas personales, insight, y evaluación de apoyo social. Los participantes sin adhesión al tratamiento mencionaron mayor uso de estratégias de acting out. CONCLUSIONES: La recuperación del Transtorno de Estresse Póstraumático fue facilitada por la adhesión al tratamineto. La integración de las experiencias incongruentes en los esquemas personales fue un proceso nuclear en el desarrollo de insight acerca del transtorno. La percepción de control sobre la recuperación fue facilitada por el uso de estrategias de afrontamiento más eficaces en pacientes con insuficiente apoyo social.

DESCRIPTORES: Trauma; Recuperación; Adhesión del paciente; Tratamiento

CONTEXTO: A investigação encontrou maior eficácia no tratamento da Perturbação de Stresse Pós-traumático em ex-combatentes com adesão ao tratamento. A perceção de falta de melhoria com a medicação, efeitos secundários da medicação e estigma social eram fatores de não-adesão. O insight sobre a doença promovia a adesão ao tratamento. OBJETIVO(S): Este estudo explorou as estratégias de coping e os recursos psicossociais envolvidos na adesão ao tratamento em pacientes traumatizados. METODOLOGIA: A amostra era composta por ex-combatentes Portugueses (N=60): 30 sofriam de Perturbação de Stresse Pós-traumático crónica (não-recuperados) e 30 tinham remissão da Perturbação de Stresse Pós-traumático (recuperados). Foi efetuada uma entrevista semiestruturada que foi analisada através de análise de conteúdo. RESULTADOS: Os recuperados apresentaram frequências mais elevadas de adesão ao tratamento. Os participantes com adesão ao tratamento apresentaram frequências mais elevadas de coping focado no problema, integração de experiências incongruentes nos esquemas pessoais, insight, e avaliação de bom suporte social. Os participantes sem adesão ao tratamento mencionaram maior uso de estratégias de acting out. CONCLUSÕES: A recuperação da Perturbação de Stresse Pós-traumático foi facilitada pela adesão ao tratamento. A integração de experiências incongruentes nos esquemas pessoais foi um processo nuclear no desenvolvimento de insight sobre a doença. A perceção de controlo sobre a recuperação foi facilitada pelo uso de estratégias de coping mais eficazes em pacientes com suporte social inadequado.

PALAVRAS-PASSE: Trauma; Recuperação; Adesão do paciente; Tratamento Submetido em 17-09-2014 Aceite em 04-12-2014

1 Doutorando no Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida, Instituto Universitário, Rua Jardim do Tabaco, Lisboa, Portugal, pauloferrajao@gmail.com 2 Professor no Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida, Instituto Universitário, 1149-041 Lisboa, Portugal, raragao@clinipinel.com Citação: Ferrajão, P. C., e Oliveira, R. A. (2015). Factors related to adherence with post-traumatic stress disorder treatment: A qualitative study among Portuguese war veterans. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 21-26 Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 21


INTRODUCTION Treatment adherence refers to the degree to which a client participates in a specified treatment approach (Owen & Hilsenroth, 2014). Higher adherence to Posttraumatic Stress Disorder (PTSD) treatment relates to better treatment outcomes among war veterans (Owen & Hilsenroth, 2014). Treatment non-adherence compromises recovery from PTSD (Kanninen, Salo, & Punamäki, 2000), resulting in increased likelihood of hospital admission, longer duration of hospitalization, and elevated healthcare costs (Kanninen et al., 2000; Yen et al., 2005). Research found that veterans showed greater difficulty in remaining in treatment (Erbes, Curry, & Leskela, 2009; Fortney et al., 2011). This difficulty was related to the perception that medication was not helping and medication side effects (Fortney et al., 2011; Foster, Sheehan, & Johns, 2008), and social stigma related to psychotropic medication (Erbes et al., 2009; Owen & Hilsenroth, 2014). Medication side-effects and social stigma were associated with shame and self-blame feelings which compromised recovery from PTSD (Ajdukovic et al., 2013). These feelings may be aggravated by veterans’ inability to integrate traumatic events within previous personal schemas (Litz et al., 2009; Sendas, 2010). The gradual process of self-integration of traumatic experiences in personal schemas is achieved by placing violent behaviors committed in military duty in a specific context (Litz et al., 2009). This process promotes higher self-concept and identity coherence found in a sample of Portuguese veterans (Sendas, 2010). This may be a key achievement for the development of illness insight, i.e., the ability to re-label symptoms as being a consequence of mental illness, and recognition of the need for treatment (Yen et al., 2005). Insight was related to treatment adherence among traumatized veterans (Copeland et al., 2008; Foster et al., 2008), increased patient’s perceived control over recovery, and recovery from PTSD in adult traumatized survivors (Najdowski & Ullman, 2009). Maladaptive coping strategies compromised both perceived control over recovery and recovery from PTSD (Najdowski & Ullman, 2009). Substance abuse was a coping strategy used by veterans resulting in treatment non-adherence and PTSD relapse (Foster et al., 2008). Lower use of avoidant coping strategies was related to lower PTSD rate among a sample of Finnish veterans (Hautamäki & Coleman, 2001). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 22

Maladaptive coping strategies were also associated with appraisal of insufficient social support (Brenner et al., 2008). Perceived social support had a beneficial effect on treatment adherence (Foster et al., 2008) and recovery from PTSD by increasing self-efficacy perceptions (Smith, Benight, & Cieslak, 2013). Meanwhile, although all veterans with PTSD share the same diagnosis, the factors related to treatment adherence are as variable as the individuals themselves. Furthermore, no previous study has analyzed the factors related to treatment adherence in Portuguese war veterans. This study explored the factors attributed to treatment adherence among a group of Portuguese war veterans. We explored the coping strategies and perceived psychosocial resources involved in treatment adherence. Sample was composed of a group of veterans suffering from chronic PTSD and a group of veterans with remission from PTSD since negative diagnoses for current PTSD. New knowledge on the factors related to treatment adherence may enhance a better understanding of patient beliefs that lead to treatment preferences in order to optimize and better personalize PTSD patient care. METHODOLOGY Participants Sample was composed of Portuguese war veterans (N=60), all males, mostly Whites (93.3%), four Blacks, with a mean age of approximately 64 years (age range: 59-72). More than half (53.3%) had four years of schooling, 33.3% had between six and nine years of schooling, 10% had twelve years of schooling, and 3.4% had university education. According to medical files, participants had no history of brain injury, or neuropsychological disorders. Participants had no physical disability related to war and no history of psychiatric illness previous to military duty. All participants received a diagnosis of PTSD related to war when they started treatment, which was not discharged for at least 10 years. Non-recovered group included 30 participants with a current positive diagnosis for PTSD, as diagnosed by the Clinician-Administered PTSD Scale (CAPS). These participants were randomly selected among a group of outpatient receiving both psychiatric and psychological treatment (CognitiveBehavior Therapy) in two clinical centers specialized in the treatment of war psychological disorders for at least the last ten years.


Recovered participants were 30 veterans previously diagnosed with PTSD who had recovered since negative diagnoses for current PTSD. These participants were randomly selected among a group of former patients from the same two clinical centers who had received treatment for at least ten years, but did not receive any treatment during the past year since negative diagnoses for current PTSD. Participants had no deterioration on their clinical condition since they had completed treatment. This condition was verified by no observation of symptoms aggravation in a periodic assessment conducted every three months after treatment. This procedure assured that recovery from PTSD status was not temporary. Both groups showed no differences for both demographic and treatment variables. Procedure Participants were invited to participate in a study about the impact on their lives of their war experience. Next, one member of the research team (first author) explained the purpose of the study. There were no dropouts. Written informed consent was obtained. Data was collected between October 2012 and March 2013. One in-depth, semi-structured, individual interview was conducted with each participant. Interviews lasted between 60 and 90 minutes focusing on description of coping strategies, perceived psychosocial resources, and treatment adherence. Interviews were audio-taped and transcribed verbatim. Analysis of the interviews’ transcripts was conducted using the Thematic and Categorical Analysis proposed by Bardin (2009). In this method, it was used an inductive analysis modality with an open coding technique. The research team consisted of the first and second authors on this article, both clinician-researchers with training in both content analysis and treatment of psychological trauma. In a first stage, each team member separately conducted a content analysis by following these steps: transcriptions were read at least twice to ensure a holistic understanding of the data set; line-by-line analysis to infer global and specific meanings, and structure truly grounded and emerging from the data; each narrative’s specific meanings that generated open codes (semantic criteria) were identified and labelled by tracking language and themes. Next, the two coders convened to compare observations, sharing codes and rationales, and resolved discrepancies to reach a consensus on emerging themes.

The code lists were reviewed together and larger categories created by clustering codes that shared common themes. There was a high consensus between the two researchers, and disagreements were solved by returning to the transcripts. Following, thematic frequencies for treatment adherence were compared between recovered and non-recovered groups. Next, thematic frequencies for other categories were compared between participants who reported adherence and non-adherence to treatment. A statistical test for group differences was conducted using Fisher’s exact test. RESULTS The three core categories addressed by the interviews generated seven themes, each one with specific subthemes extracted from participants’ verbalizations. As can be seen in Figure 1, three themes were retrieved related to coping strategies. Three themes were retrieved from the category perceived psychosocial resources. Treatment adherence generated attributions on treatment adherence and its relation with recovery. Figure 1 - Categories, Themes and Subthemes emerged from interviews

As can be seen in Table 1, Fisher’s exact test showed that recovered and non-recovered participants differed in themes frequencies for treatment adherence. Results showed that observed frequencies were statistically significant higher than expected frequencies among recovered participants. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 23


Table 1 - Treatment adherence frequencies among recovered and non-recovered groups

Treatment adherence

Recovered (n=30) Observed frequencies (Expected)

Non-recovered (n=30) Observed frequencies χ2sig. (Expected)

28 (16)

4 (16)

38.57***

As can be seen in Table 2, participants who reported treatment adherence and participants who reported treatment non-adherence differed in frequencies for both problem focused coping and acting out. Participants who reported treatment adherence showed observed frequencies that were statistically significant higher than expected frequencies for problem focused coping strategies. Participants who reported treatment non-adherence showed observed frequencies that were statistically significant higher than expected frequencies for acting out strategies. No differences were found for emotion focused coping. Table 2 - Themes frequencies among participants with treatment adherence and participants with treatment non-adherence

Mental and coping strategies Problem focused coping Emotion focused coping Acting out Self-integration in personal schemas of traumatic experiences Integration In transition Severe discrepancy Illness insight Insight ability Perceived social support Good support

Adherence (n=32) Observed frequencies (Expected)

Non-adherence χ2sig. (n=28) Observed frequencies (Expected)

25 (18)

9 (16)

12.86***

29 (29)

26 (25)

.03

5 (10)

14 (9)

8.16**

11 (7.5) 17 (11) 4 (13)

3 (6.5) 4 (10) 21 (12)

4.67* 9.90** 24.00***

25 (16)

5 (14)

21.70***

16 (10)

3 (9)

10.65*

Participants who reported treatment adherence showed observed frequencies for both integration and process of transition in the integration of traumatic events within existing personal schemas that were statistically significant higher than expected frequencies. Participants who reported treatment non-adherence showed higher observed frequencies of severe discrepancy between personal schemas and the traumatic events than expected frequencies. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 24

Participants who reported treatment adherence and participants who reported treatment non-adherence differed in frequencies for illness insight. Participants who reported treatment adherence showed observed frequencies that were statistically significant higher than expected frequencies. Participants who reported treatment adherence and participants who reported treatment non-adherence differed in frequencies for perceived social support. Participants who reported treatment adherence showed observed frequencies for good support that were statistically significant higher than expected frequencies (Table 2). DISCUSSION Results showed that recovery from PTSD was related to treatment adherence among our sample (Owen & Hilsenroth, 2014). Treatment non-adherence compromised recovery from PTSD in non-recovered participants (Kanninen et al., 2000). High prevalence of participants who verbalized treatment non-adherence is in accordance with findings showing that veterans have difficulty in remaining in PTSD treatment (Erbes et al., 2009). Treatment non-afherence was attributed by our participants to appraisal of lack of benefits from medication, medication side effects, and social stigma related to use of psychotropic medication (Erbes et al., 2009; Fortney et al., 2011; Foster et al., 2008; Owen & Hilsenroth, 2014). From our results, the major differences between participants who reported treatment adherence and participants who reported treatment non-adherence were related to discrepancy between personal schemas and traumatic events. In terms of recovery process, as can be seen in Figure 2, we proposed that PTSD recovery was related to integration of discrepant experiences that appeared as potentially hard to overcome and to accept by participants. The gradual process of reconciliation of discrepant experiences in personal schemas (transition followed by integration) was a key process for treatment adherence (Litz et al., 2009). This process involves the attribution of meaning and significance to the event by placing the behavior occurrence in a specific context (Litz et al., 2009).


Figure 2 - Recovery Model

This process may be crucial to restore veterans’ sense of coherence (Sendas, 2010). Sense of coherence may be a key achievement for developing veterans’ insight about the disease. This ability involved the awareness of psychological states and its connection with the symptoms which may promote higher understanding of the impact of trauma-related experiences on current life situations, and the ability to understand their behaviors and feelings aroused by current stressful events. Insight about the disease was especially valuable for appraisal of medication benefits on overall illness outcome and specific symptoms among participants who reported treatment adherence, even when they were faced with medication side effects (Copeland et al., 2008). Additionally, insight increased patient’s perceived control over recovery (Najdowski & Ullman, 2009). This was related to use of more efficient coping strategies to cope with both posttraumatic symptoms and current life stressors among participants who reported treatment adherence (Najdowski & Ullman, 2009). Furthermore, more efficient coping strategies resulted in appraisal of social support as a good and a helpful resource (Hautamäki & Coleman, 2001). Perceived social support showed a beneficial effect on treatment adherence (Foster et al., 2008) related to veterans’ perception of increased self-efficacy (Smith et al., 2013). Meanwhile, use of more efficient coping strategies showed a beneficial effect on treatment adherence even in those participants who verbalized inadequate or insufficient social support.

CONCLUSION Recovery from PTSD was facilitated by treatment adherence. The gradual process of integration of incongruent experiences in personal schemas seems to be a key process for developing treatment adherence. This psychological achievement was related to development of insight about the disease related to appraisal of medication benefits and assimilation of medication side effects as personal losses involved in PTSD treatment. Development of insight may facilitate patient’s perceived control over recovery through the use of more effective coping strategies to cope with both posttraumatic symptoms and current stress triggers. Meanwhile, appraisal of insufficient social support seems to compromise treatment adherence. Use of more effective coping strategies may have a beneficial effect on treatment adherence in patients with inadequate social support. IMPLICATIONS FOR CLINICAL PRACTICE Assessment of patients’ beliefs about medication is crucial for predicting treatment adherence. Patients’ concerns about possible side effects may contribute to treatment non-adherence. Clinician’s ability to help patients to build insight about their illness is a valuable resource for promoting treatment adherence. Psychoeducation provided by therapists and support from nurse care coordinators about how treatment works and acknowledging preexisting biases against pharmacotherapy for PTSD should be addressed. This could be achieved by nurturing rapport, respecting patients’ explanatory models and involving them in the negotiation of treatment. Psychotherapists should focus on finding meaning to both traumatic experiences and violent behaviors committed during military duty. This process may help to restore a sense of coherence, resulting in better understanding of their symptoms, and identifying efficient strategies to cope with both posttraumatic symptoms and current stress triggers. REFERENCES Ajdukovic, D., Ajdukovic, D., Bogic, M., Franciskovic, T., Galeazzi, G., Kucukalic, A., Lecic-Tosevski, D., Schutzwohl, M., & Priebe, S. (2013). Recovery from posttraumatic stress symptoms: A qualitative study of attributions in survivors of war. Plos ONE, 8(8).

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CONCEÇÃO DO PROGRAMA DE INTERVENÇÃO EM ENFERMAGEM ‘MELHORAR COMPETÊNCIAS COM OS OUTROS’ | Cândida Loureiro1; Margarida Reis Santos2; Manuela Frederico-Ferreira3 |

RESUMO CONTEXTO: A literatura tem evidenciado os programas de treino como uma importante estratégia para o desenvolvimento das competências sociais. Apesar da educação para a saúde ser uma atividade francamente desenvolvida pelos enfermeiros, existem ainda poucos estudos que documentem a conceção de programas de treino de competências sociais como intervenção realizada por enfermeiros. OBJETIVO: Criar um programa de intervenção para adolescentes, de forma a modificar e/ou melhorar as competências sociais assertividade, autocontrolo, cooperação e empatia, dando resposta a dificuldades previamente identificadas. METODOLOGIA: Da presente investigação fizeram parte dois estudos preliminares e complementares, seguindo uma lógica sequencial temporal. O primeiro (quantitativo) permitiu a identificação de défices nas competências sociais dos adolescentes. O segundo (qualitativo) permitiu identificar quais os fatores que contribuem para a existência dos défices. Da análise e discussão desses resultados e de uma revisão teórica aprofundada construiu-se um programa de intervenção específico e adequado ao tipo de população definida como população alvo – adolescentes. RESULTADOS: O programa ‘Melhorar competências com os outros’. CONCLUSÕES: Pode afirmar-se que este estudo contribui para o aprofundamento teórico dos modelos cognitivo-comportamentais no âmbito da intervenção de enfermagem com adolescentes, baseado numa abordagem humanista e que permite a aplicação do conhecimento na ação. Estes programas têm elementos-chave para a sua elaboração e as competências pessoais/profissionais dos enfermeiros englobam as características relativas ao formador particularmente, os enfermeiros especialistas em Enfermagem de Saúde Mental.

PALAVRAS-CHAVE: Enfermagem; Adolescente; Saúde mental; Programas

RESUMEN

ABSTRACT

“Diseño del programa de intervención en enfermería ‘Mejorar las habilidades con los demás’”

“Design of the intervention program in nursing ‘Improve skills with others’”

ANTECEDENTES: La literatura ha demostrado la formación de los programas como una estrategia importante para el desarrollo de habilidades sociales. A pesar de educación para la salud sea una actividad llevada a cabo por las enfermeras, hay pocos estudios que investiguen el diseño de programas de formación tales como la intervención en habilidades sociales realizada por enfermeras. OBJETIVO: Crear un programa de intervención para adolescentes con el fin de modificar y/o mejorar la asertividad habilidades sociales, el autocontrol, la cooperación y la empatía, en respuesta a las dificultades anteriormente señaladas. METODOLOGÍA: El presente estudio forma parte de dos estudios primarios y complementarios, siguiendo una lógica secuencial temporal. El primero (enfoque cuantitativo) permitió la identificación de los déficits en las habilidades sociales de los adolescentes. El segundo (enfoque cualitativo) permitió identificar los factores que contribuyen a la existencia de déficit. Se construyó análisis y discusión de los resultados y una revisión exhaustiva de la literatura de un programa de intervención específico y adecuado para el tipo de población destinataria - adolescentes. RESULTADOS: El programa ‘Mejora de las habilidades con los demás’. CONCLUSIONES: Se puede decir que este estudio contribuye al desarrollo teórico de los modelos cognitivo-conductuales en el contexto de la intervención de enfermería con adolescentes, basado en un enfoque humanista y permite la aplicación de los conocimientos en acción. Estos programas son elementos clave para su desarrollo personal y competencias profesionales de las enfermeras incluyen características relacionadas sobre todo con el entrenador, enfermeras especialistas en Enfermería de Salud Mental.

BACKGROUND: The literature has shown training programs as an important strategy for the development of social skills. Despite health education be an activity undertaken by nurses frankly, there are few studies that investigate the design of training programs such as social skills intervention performed by nurses. AIM: Create an intervention program for adolescents in order to modify and / or improve social skills assertiveness, self-control, cooperation and empathy, responding to previously identified difficulties. METHODS: The present study formed part two primary and complementary studies, following a temporal sequential logic. The first (quantitative approach) allowed the identification of deficits in social skills of adolescents. The second (qualitative approach) allowed us to identify what factors contribute to the existence of deficits. Analysis and discussion of these results and a thorough literature review a program of specific intervention was constructed and appropriate for the type of population defined target population - teenagers. RESULTS: The program ‘Improving skills with others’. CONCLUSIONS: It can be said that this study contributes to the theoretical development of cognitive-behavioral models in the context of nursing intervention with adolescents, based on a humanistic approach and allows the application of knowledge in action. These programs are key elements for their development and personal / professional skills of nurses include characteristics relating particularly to the trainer, specialist nurses in Mental Health Nursing.

DESCRIPTORES: Enfermería; Adolescente; Salud mental; Programas

KEYWORDS: Nursing; Adolescent; Mental health; Programs Submetido em 26-09-2014 – Aceite em 10-12-2014

1 Doutora em Ciências de Enfermagem; Professora Adjunta na ESENFC, Unidade Cientifico-Pedagógica “Enfermagem de Saúde Mental”, Coimbra, candida@esenfc.pt 2 Doutora em Ciências de Enfermagem; Membro da Unidade de Investigação “CINTESIS”; Professora Coordenadora na Escola Superior de Enfermagem do Porto, Unidade Científico-Pedagógica “A infância, a adolescência, a experiência parental, a idade adulta e o envelhecimento”, 4200-072 Porto, Portugal, mrs@esenf.pt 3 Doutora em Ciências Empresariais; Professora Coordenadora na ESENFC, Unidade Científico-Pedagógica “Enfermagem Fundamental”, Coimbra, mfrederico@esenfc.pt Citação: Loureiro, C., Santos, M. R., e Frederico-Ferreira, M. (2015). Conceção do programa de intervenção em enfermagem ‘Melhorar competências com os outros’. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 27-32 Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 27


INTRODUÇÃO

METODOLOGIA

As competências sociais são consequência de uma aprendizagem comportamental e relacional positiva e um dos determinantes de trajetórias de vida. A adolescência é uma fase em que o relacionamento interpessoal sofre grandes modificações, em que se estabelecem novas relações e em que as relações com o grupo de pares se intensificam tornando-se mais relevantes. É esperado que os adolescentes, adquiram as habilidades, atitudes e comportamentos que lhes permitam crescer de forma saudável, a realizarem-se quando chegarem a adultos e a tornarem-se socialmente competentes. É consensual hoje em dia a importância da intervenção precoce na área da saúde mental da infância e adolescência através de estratégias de prevenção e promoção da saúde. As diretrizes internacionais e nacionais convergem no sentido de uma preocupação crescente acerca da promoção da saúde e de estilos de vida saudáveis. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2001) certos tipos de perturbações mentais e comportamentais, como a ansiedade e a depressão, podem ocorrer em consequência da incapacidade de fazer face adaptativamente a uma ocorrência vital stressante. Torna-se assim necessário que os profissionais de saúde adquiram novas competências ou competências complementares, que lhes permitam uma crescente capacitação para a promoção de estilos de vida saudáveis na escola (Loureiro, 2013). Por isso, deve ser dada prioridade a novas áreas de formação como as metodologias de intervenção ativasparticipativas, o trabalho interpares, e a promoção de competências pessoais e sociais, pelo potencial de comunicação interpessoal que promovem. Enquanto profissionais de saúde, cabe aos enfermeiros organizar, coordenar, executar e avaliar intervenções de enfermagem aos vários níveis de prevenção e sendo a enfermagem uma profissão que tem como objetivo prestar cuidados de enfermagem às pessoas, sãs ou doentes, ao longo do ciclo vital, entende-se que o desenvolvimento de programas de intervenção para a promoção/desenvolvimento das competências sociais dos adolescentes fará sentido. O principal objetivo desta investigação é a conceção de um programa de treino de competências sociais concetual e metodologicamente fundamentado, com o propósito de modificar e/ou melhorar competências dos adolescentes.

O programa de treino de competências sociais, denominado ‘Melhorar competências com os outros’, assenta numa abordagem preventiva e educacional em contexto escolar, colocando a ênfase na pessoa, enquanto agente ativo da sua aprendizagem e mudança. Considera-se o aspeto motivacional fundamental para o desenvolvimento e aprendizagem das competências sociais individuais e de grupo. Da presente investigação fizeram parte dois estudos prévios: o primeiro, com uma abordagem quantitativa, permitiu identificar que cerca de 50% dos adolescentes inquiridos apresentavam algum tipo de dificuldades ao nível das suas competências sociais; o segundo estudo, com uma abordagem qualitativa, permitiu perceber que as dificuldades identificadas no desenvolvimento das competências sociais estavam relacionadas com o défice no conhecimento sobre como ser socialmente competente e o défice no conhecimento sobre como fazer para ser socialmente competente (Loureiro, Frederico-Ferreira, & Santos, 2013).

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Referencial Teórico e Objetivos do Programa ‘Melhorar Competências com os Outros’ Relativamente à identificação das dificuldades/constrangimentos dos adolescentes ao nível das competências sociais que se pretendem modificar ou melhorar, os modelos teóricos explicativos escolhidos foram, o Modelo de Perceção Social de Argyle (1983), o Modelo Cognitivo (McFall, 1982), o Modelo do Condicionamento Operante de Skinner (1978), o Modelo da Assertividade (Wolpe & Lazarus, 1966) e o Modelo da Aprendizagem Social de Bandura (1977). Estes modelos têm uma explicação essencialmente fundamentada na área da psicologia do desenvolvimento cognitivo e psicossocial, e propõem estratégias de intervenção focalizadas para os défices identificados. Optou-se, portanto, por uma abordagem eclética, uma vez que é aquela que adota as técnicas e procedimentos que melhor respondem às dificuldades e défices identificados, consonante com uma intervenção mais efetiva (Del Prette & Del Prette, 1999). Utilizou-se o sistema de classificação das competências sociais de Gresham e Elliot (1990), que considera as quatro competências sociais empatia, assertividade, cooperação e autocontrolo. A Enfermagem, enquanto ciência e profissão fundamenta a sua prática num vasto leque de conhecimentos, onde se incluem os modelos e teorias de enfermagem.


Ao ponderar sobre o papel do enfermeiro enquanto terapeuta/formador em Treino de Competências, centrou-se esta abordagem em três teorias de enfermagem - Teoria da Relações Interpessoais, Teoria do Cuidar e Teoria das Transições por serem as mais relevantes para um quadro de referência estruturante de uma prática de cuidados num processo que se espera dinâmico, de desenvolvimento e de crescimento pessoal. Com a implementação do programa, pretendeu-se: ajudar os adolescentes a tomarem consciência dos comportamentos e atitudes que desenvolvem com os outros no dia-a-dia, diminuir as dificuldades de comunicação em aspetos particulares da interação social, desenvolver a comunicação interpessoal, praticar a assertividade, aprender habilidades sociais e ser capaz de resolver problemas sociais, em suma, aumentar o repertório de classes de resposta através do desenvolvimento e aprendizagem de novas competências sociais. Manter e generalizar os comportamentos aprendidos a outros contextos de interação social, permitirá aos adolescentes enfrentar e adaptar-se a novas situações de uma forma mais saudável. Metodologia do Programa ‘Melhorar Competências com os Outros’ O programa foi desenhado tendo por referência as orientações teóricas de Gresham e Elliot (1990), Del Prette e Del Prette (1999) e Caballo (2008) e existiu particular preocupação com as exigências metodológicas que uma intervenção deste tipo impõe, nomeadamente, os aspetos éticos e deontológicos, as características do grupo, o tipo de informação a transmitir, a estrutura, dinâmica, os conteúdos das sessões, as técnicas utilizadas, o local onde as sessões decorreram e os tipos de avaliação do programa. Relativamente aos princípios éticos e deontológicos assumiu-se como uma necessidade que todos os elementos do grupo, participantes e formador, conhecessem orientassem a sua conduta de forma a garantir a confiança de todos na participação no programa. Impôs-se o desenvolvimento de atitudes de respeito, compreensão e dos princípios éticos, dos quais se destacam, a responsabilidade (todos os elementos devem assumir a responsabilidade dos seus atos e manter uma relação autêntica com todos), a confidencialidade (toda a informação obtida no decorrer do programa só pode ser transmitida publicamente com autorização expressa da pessoa a quem a informação diz respeito), o relacionamento profissional (no decorrer do programa o formador deve manter com os participantes uma relação estritamente profissional), o compromisso por parte do formador de fornecer informação no final do programa, aos participantes que a solicitarem.

A escolha do grupo – estudantes que frequentavam o 12º ano de escolaridade e que não apresentavam perturbações graves do desenvolvimento. Optou-se pelo formato grupal misto dadas as vantagens inerentes. Considerou-se o grupo fechado, mantendo sempre os mesmos participantes de forma a manter um clima de amizade e confiança. A informação sobre o programa: objetivos e constituição do programa, competências sociais abordadas, conteúdos, metodologia de trabalho proposta, número de sessões, desenvolvimento de cada sessão, local onde vão decorrer, a importância da motivação pessoal e do envolvimento de cada um para o crescimento de todos, assunção de um compromisso de participação e de cumprimento do horário estabelecido para as sessões operacionalizado em documento assinado por cada participante na primeira sessão. Relativamente à dinâmica das sessões, existe alguma diferença consoante se trate da primeira, da última ou das sessões intermédias. Estas têm uma estrutura organizada em torno de uma determinada ordem sequencial de momentos que asseguram a coerência interna de cada sessão. A operacionalização do programa baseou-se numa abordagem cognitivo-comportamental, em que o roleplaying, o reforço, o feedback, e a modelação foram algumas das técnicas e procedimentos preconizados. A modelação pode ser maximizada em formato grupal, pois é transformada num processo contínuo, uma vez que os participantes ao observarem os comportamentos dos colegas e do formador a um nível mais molecular de intervenção têm a possibilidade de confrontar e reestruturar as suas ideias e expetativas (Olaz, 2009). Em termos documentais foi elaborado um conjunto de materiais necessários à operacionalização das sessões (lista de presenças, compromisso de participação, fichas para o trabalho de grupo, ficha de avaliação da sessão e certificado de participação) e criado um ficheiro pedagógico. Quanto à avaliação, seguiram-se as orientações teóricas que consideram a existência de quatro momentos sequenciais de avaliação deste tipo de programas (Caballo, 2008), a avaliação antes, durante e depois da implementação do programa e num período de acompanhamento pós-programa (folow-up). Quanto à forma de avaliação, foram utilizados escalas, questionários, guião de entrevista, fichas de registo e registo de observação de ocorrências (Lemos & Menezes, 2002; Spence, 2003). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 29


Conteúdos do Programa Os conteúdos temáticos que deram corpo ao programa inserem-se nas quatro competências sociais referidas. A partir dos resultados relativos aos dois estudos prévios foi possível identificar as situações consideradas pelos estudantes como mais difíceis em situação de interação social e que se relacionam, de um forma geral, com a falta de conhecimento para lidar com as situações do dia-a-dia de forma socialmente competente, com a incapacidade para gerir emoções, com o medo da avaliação negativa pelos outros e com uma baixa autoestima. Concretamente, as habilidades sociais referidas como mais deficitárias foram ‘responder apropriadamente a provocações’, ‘manifestar opinião’, ‘dizer não’, ‘lidar com as críticas’, ‘mediar conflitos’, ‘falar em público’, ‘encerrar relacionamento’ e ‘apresentar-se/iniciar/finalizar uma conversa’ que correspondem às competências assertividade e autocontrolo e por isso foram os conteúdos mais trabalhados no programa. Esta avaliação prévia foi um indicador importante para a intervenção. Programa de curta duração, integrou 12 sessões de 55 minutos, realizadas com uma frequência semanal. Constituído por quatro módulos, o número de sessões variou em cada módulo, sendo proporcional às dificuldades identificadas para cada competência. A conceção dos módulos baseou-se nas orientações de Jardim e Pereira (2006) e Rijo et al. (2006). RESULTADOS E DISCUSSÃO Módulo 1 – Comunicação Humana O início do programa realizou-se de uma forma mais lúdica no sentido de captar o interesse e motivação dos participantes facilitar a sua integração, quer no grupo quer na metodologia do programa. O programa progrediu trabalhando a importância de se prestar mais atenção ao outro, de desenvolver a escuta ativa e o respeito, de compreender a perspetiva das outras pessoas quando se encontram em situação de interação social. Discutiuse a importância de correção das crenças irracionais, de autoconhecer-se e de aprender a autovalorizar-se desenvolvendo uma autoestima saudável. Pretendeu-se levar os participantes a compreender a complexidade da comunicação humana, a necessidade de contar com o ponto de vista dos outros e a importância de interpretar corretamente as mensagens (Tabela 1).

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Tabela 1 - Sessões correspondentes ao Módulo 1 do programa ‘Melhorar competências com os outros’ Sessões

Conteúdos

Objetivos

Sessão 0 Apresentação do grupo Apresentação do programa

- Fornecer um ficheiro pedagógico - Preencher compromisso de participação e instrumentos de avaliação

Sessão 1 O processo comunicacional e a impossibilidade de não comunicar. Componentes da comunicação verbal, não verbal e para verbal

- Aprender a apresentar-se - Aprender os conceitos inerentes aos componentes da comunicação humana - Perceber a importância da comunicação nas relações interpessoais - Identificar barreiras comunicacionais

Sessão 2 Empatia Escuta ativa Expressão emocional

- Iniciar e finalizar uma conversa - Desenvolver a escuta ativa - Compreender a importância de ser empático - Perceber os juízos de valor como um obstáculo ultrapassável

Sessão 3 Autoestima Crenças irracionais Auto conhecimento Janela de Johary

- Perceber a importância de uma autoavaliação positiva - Desenvolver o auto conhecimento - Compreender a presença de crenças irracionais

Módulo 2 – Comportamento Assertivo Abordou-se a assertividade enquanto competência social, descreveram-se os vários estilos comunicacionais (assertivo, agressivo, passivo e manipulativo), aos diversos níveis (comportamental, padrões de pensamento, sentimentos e emoções, consequências para o próprio). O objetivo principal foi a aprendizagem de conteúdos e o treino de competências que permitisse aos participantes sentirem-se bem consigo próprios e com os outros, entender as vantagens da assertividade e conseguindo aderir a este estilo de comportamento em contextos interpessoais específicos (Tabela 2).


Tabela 2 - Sessões correspondentes ao Módulo 2 do programa ‘Melhorar competências com os outros’ Sessões

Conteúdos

Tabela 4 - Sessões correspondentes ao Módulo 4 do programa ‘Melhorar competências com os outros’

Objetivos

Sessões

Conteúdos

Objetivos

Sessão 4 Expressar elogios Congruência na comunicação verbal e não verbal

- Perceber a importância da congruência na comunicação - Identificar qualidades nos outros - Treinar dar e receber elogios e congruência verbal/ não verbal

Sessão 9

- Identificar a variedade de emoções vivenciadas - Compreender a sua função adaptativa - Identificar sintomas corporais

Sessão 5 Estilos comunicacionais Recusar pedidos Manifestar opinião

- Conhecer os vários estilos comunicacionais - Enfatizar as vantagens na utilização do estilo assertivo - Reconhecer as dificuldades inerentes à afirmação do ‘não’ - Aprender estratégias para recusar pedidos - Treinar competências autoafirmativas

Emoções básicas: Cólera, Vergonha, Ansiedade/Medo Repercussões biológicas

Sessão 6 Confronto assertivo Responder apropriadamente a provocações

- Conhecer os principais obstáculos ao confronto - Aprender estratégias para confrontar assertivamente - Treinar o confronto assertivo

Sessão 7 Crítica: facto ou opinião Lidar com as críticas

- Perceber a diferença entre críticas baseadas em factos/opiniões - Aprender a fazer e a receber críticas - Treinar competências autoafirmativas

Módulo 3 – Cooperação Focalizou-se essencialmente na mediação e resolução de conflitos e coordenação de grupo. O objetivo foi trabalhar em conjunto para um fim comum assumindo diferentes papéis no grupo, valorizaram-se as atitudes de partilha e de compromisso, o respeito pelas regras e normas e a expressão de apoio e solidariedade (Tabela 3). Tabela 3 - Sessão correspondente ao Módulo 3 do programa ‘Melhorar competências com os outros’ Sessões

Conteúdos

Sessão 8 Trabalho de grupo Papéis Resolução de problemas

Objetivos - Perceber as vantagens de trabalhar em grupo - Conhecer o papel de cada elemento no grupo - Desenvolver a capacidade de negociação - Trabalhar a partilha e o compromisso

Módulo 4 – Autocontrolo Emocional Este módulo visou uma breve contextualização acerca de algumas das emoções básicas e a aprendizagem/ treino de técnicas de relaxamento muscular que pudessem ser uma estratégia válida a utilizar em situações emocionalmente stressantes. O objetivo foi a consciencialização da vivência emocional, a compreensão da função adaptativa das emoções e o desenvolvimento de estratégias de autocontrolo (Tabela 4).

Sessão 10 Estratégias de controlo emocional Coping

- Promover a expressão emocional - Identificar estratégias individuais de controlo emocional - Responder apropriadamente a provocações - Ensaiar falar em público

Sessão 11 Técnicas de relaxamento muscular Despedida

- Aprender técnica de respiração abdominal - Treinar técnica de respiração abdominal - Preencher instrumentos de avaliação - Marcar entrevista para avaliar o impacto da intervenção - Finalizar o programa

CONCLUSÃO O treino de competências sociais nas escolas, através da implementação deste tipo de programas, contribui para o autoconhecimento dos adolescentes, para o estabelecimento de relações interpessoais positivas e para a valorização pessoal, aspetos que podem ajudar a levar a cabo as tarefas desta etapa da vida, como a construção da identidade pessoal, através do desenvolvimento de um autoconceito positivo e de uma autoestima saudável. O conhecimento acerca da relação entre os processos de aprendizagem, o desenvolvimento das competências sociais e fatores determinantes, nos adolescentes, ajuda os enfermeiros a compreenderem os mecanismos que podem influenciar o desenvolvimento adequado dessas competências. Neste sentido, as intervenções de enfermagem devem incluir a avaliação das competências e identificação de necessidades e posteriormente o planeamento e implementação de intervenções significativas de transmissão de conhecimentos e treino de competências, sustentadas em conhecimento cientificamente testado.

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IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA O exercício profissional dos enfermeiros insere-se num alargado contexto de atuação. Para além das intervenções de prevenção da doença e de promoção dos processos de readaptação da doença, o enfermeiro deve, assumir um papel inovador e empreendedor no sentido de criar oportunidades de intervenção, formação e investigação no contexto dos determinantes da saúde e em diversos setores de ação estratégica. Sabe-se que a adolescência é uma fase da vida em que a maioria dos jovens não procuram os serviços de saúde por terem uma perceção positiva acerca do seu estado de saúde e porque subestimam a necessidade de ajuda de outros pela convicção de serem capazes de lidar sozinhos com os seus problemas (WHO, 2010). Neste sentido, o programa de intervenção concetualizado pode colmatar esta necessidade conduzindo os profissionais numa prática que vai também de encontro a um dos valores definidos no Plano Nacional de Saúde Mental 2007/2016 (Resolução do Conselho de Ministros, n.º 47/2008) nomeadamente, a proteção dos grupos especialmente vulneráveis, onde se incluem as crianças e os adolescentes pela implementação de programas de desenvolvimento pessoal e social. Este estudo contribui para o conhecimento dos enfermeiros na área das competências sociais integrando os aspetos teóricos inerentes à sua própria formação sendo portanto um contributo inovador e complementar. Acresce que se apresenta uma ferramenta que os enfermeiros podem utilizar como suporte ao desenvolvimento de políticas promotoras da saúde dos adolescentes nas escolas. Contudo, porque o contexto escolar é complexo e dinâmico importa caraterizá-lo ao nível da identificação de necessidades específicas para a implementação deste tipo de programas, direcionando a intervenção aos problemas detetados. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Argyle, M. (1983). The Psychology of Interpersonal Behavior (4th ed.). Harmondsworth: Penguin. Bandura, A. (1977). Self-efficacy: Toward a unifying theory of behavioral change. Psychological Review (84), 191-215. Caballo, V. E. (2008). Manual de avaliação e treinamento das habilidades sociais. São Paulo: Editora Santos. Del Prette, Z. A. P., & Del Prette, A. (1999). Psicologia das habilidades sociais, terapia e educação. Petrópolis: Editora Vozes. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 32

Gresham, F. M., & Elliott, S. N. (1990). Social skills rating system: Manual. Circle Pines, MN: American Guidance Service. Jardim, J., & Pereira, A. (2006). Competências pessoais e sociais – guia prático para a mudança positiva. Porto: Edições ASA. Lemos, M. S., & Meneses, H. I. (2002). A avaliação da competência social: Versão portuguesa da forma para professores do SSRS. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 18(3), 267-274. Loureiro, C. (2013). Treino de competências sociais – uma estratégia em saúde mental: Técnicas e procedimentos para a intervenção. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, (9), 41-47. Loureiro, C., Frederico-Ferreira, M. M., & Santos, M. R. (2013). Identificação dos fatores determinantes no desenvolvimento das competências sociais dos adolescentes. Revista de Enfermagem Referência (10), 79-88. McFall, R. M. (1982). A review and a reformulation of the concept of social skills. Behavioral Assessment (4), 1-33. Olaz, F. O. (2009). Contribuições da teoria social-cognitiva de Bandura para o treinamento de habilidades sociais. In Z. A. P. Del Prette, & A. Del Prette (Eds.), Psicologia das habilidades sociais, diversidade teórica e suas implicações. (pp. 109-148). São Paulo: Vozes. Resolução do Conselho de Ministros nº 47/2008. Plano Nacional de Saúde Mental 2007-2016. Diário da República, 1ª Série, n.º 47, 6 de Março, 1395-1409. Rijo, D., Sousa, M. N., Lopes, J., Pereira, J., Vasconcelos, J., Mendonça, M. C., … & Massa, S. (2006). G. P. S. Gerar Percursos Sociais – programa de prevenção e reabilitação para jovens com comportamento social desviante. Ponta Delgada: Equal. Skinner, B. F. (1978). Ciência e comportamento humano (4ª ed.). São Paulo: Martins Fontes. Spence, S. H. (2003). Social skills training with children and young people: Theory, evidence and practice. Child and Adolescent Mental Health, 8(2), 84-96. Wolpe, J., & Lazarus, A. A. (1966). Behavior therapy techniques. New York: Pergamon Press. World Health Organization (2001). Mental health: New understanding, new hope. Geneva: WHO. World Health Organization (2010). Mental health promotion in young people - an investment for the future. Copenhagen: WHO Regional Office for Europe.


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LITERACIA EM SAÚDE: RESULTADOS OBTIDOS A PARTIR DE UMA AMOSTRA DE PESSOAS IDOSAS PORTUGUESAS | Carla Serrão1; Sofia Veiga2; Isabel Vieira3 |

RESUMO CONTEXTO: O presente estudo insere-se no Projeto Literacia em Saúde: um desafio na e para a terceira idade, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. OBJECTIVO(S): Tem como intuito avaliar o grau de literacia em saúde de uma amostra de pessoas idosas, bem como conhecer a associação entre o grau de literacia em saúde e algumas características sociodemográficas dos participantes. METOLODOGIA: Para tal foi realizada uma pesquisa de carácter quantitativo junto de 433 adultos com mais de 65 anos de idade, utilizando-se como instrumento o Newest Vital Sign (NVS). RESULTADOS: Os resultados indicam que a grande maioria dos sujeitos participantes (80%) evidenciou um nível de literacia em saúde baixo, o que significa que apenas 20% dos inquiridos serão capazes de interpretar e usar a informação escrita relacionada com a saúde de forma eficaz. O sexo, as habilitações literárias, a idade e o estado civil revelaram-se variáveis que afetam significativamente o grau de literacia em saúde dos participantes. CONCLUSÕES: Os resultados obtidos apontam para a necessidade urgente de se potenciar a literacia em saúde na população idosa, em geral, e junto dos grupos de maior vulnerabilidade, em particular. PALAVRAS-CHAVE: Alfabetização em saúde; Idoso; Sexo; Escolaridade

RESUMEN

ABSTRACT

“La alfabetización en salud: Resultados de una muestra de personas mayores Portugueses” CONTEXTO: Este estudio se inscribe en el Proyecto de Alfabetización en Salud: un reto en y para las personas mayores, financiado por la Fundación Calouste Gulbenkian. OBJETIVO: Tiene la intención de evaluar el grado alfabetización en salud de una muestra de personas mayores, así como conocer la asociación entre el grado de alfabetización en salud y las características sociodemográficas de los participantes. MATERIAL Y MÉTODOS: Se llevó a cabo una investigación de carácter cuantitativo con 433 adultos mayores de 65 años de edad, utilizando como instrumento el Newest Vital Sign (NVS). RESULTADOS: Los resultados indican que la gran mayoría de los sujetos participantes (80%) mostró un nivel de alfabetización en salud bajo, lo que significa que sólo el 20% de los encuestados será capaz de interpretar y utilizar información escrita relacionada con salud de manera eficaz. El sexo, el nivel educativo, la edad y el estado civil resultaron variables que afectan de manera significativa el nivel de alfabetización en salud de los participantes. CONCLUSIONES: Los resultados apuntan a la necesidad urgente de aumentar la alfabetización en salud en la población anciana en general, y entre los grupos más vulnerables, en particular.

“Health literacy: Results from a sample of Portuguese elderly people” BACKGROUND: The present study integrates the Health Literacy Project: a challenge in and for the elderly people, funded by the Calouste Gulbenkian Foundation. AIM: It has the intention to evaluate the degree of health literacy on a sample of elderly people, as well as knowing the association between this degree and sociodemographic characteristics of the participants. MATERIAL AND METHODS: It was conducted a quantitative study with 433 adults over 65 years of age, using as instrument the Newest Vital Sign (NVS). RESULTS: The results indicate that the majority of the participants (80%) showed a level of low health literacy, meaning that only 20% of respondents will be able to interpret and use effectively written information related with health. Sex, educational attainment, age and marital status proved to be variables that affect significantly the level of health literacy of participants. CONCLUSIONS: The results point to the urgent need to enhance health literacy in the elderly population, in general, and among the most vulnerable groups, in particular.

DESCRIPTORES: Alfabetização em saúde; Idoso; Sexo; Escolaridade

Submetido em 29-09-2014 Aceite em 13-12-2014

KEYWORDS: Health literacy; Aged; Sex; Educational status

1 Psicóloga Clínica; Professora Adjunta no Instituto Politécnico do Porto, Escola Superior de Educação, Unidade Técnico Científica de Psicologia, carlaserrao@ese.ipp.pt 2 Psicóloga; Professora Adjunta no Instituto Politécnico do Porto, Escola Superior de Educação, Unidade Técnico Científica de Psicologia, Porto, sofiaveiga@ese.ipp.pt 3 Educadora Social; Assistente no Instituto Politécnico do Porto, Escola Superior de Educação, Unidade Técnico Científica de Ciências da Educação, isabelvieira@ese.ipp.pt

Citação: Serrão, C., Veiga, S., e Vieira, I. M. (2015). Literacia em saúde: Resultados obtidos a partir de uma amostra de pessoas idosas portuguesas. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 33-38. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 33


INTRODUÇÃO De acordo com a definição desenvolvida em 2012 pelo European Health Literacy Consortium (WHO, 2013), a literacia em saúde está ligada à literacia e capacita as pessoas de conhecimentos, motivação e competências para aceder, compreender, avaliar e mobilizar informações relativas à saúde, a fim de fazerem julgamentos e tomarem decisões na sua vida quotidiana relativos a cuidados de saúde, prevenção de doenças e promoção da saúde para manter ou melhorar a qualidade de vida ao longo do ciclo vital. Uma inadequada literacia em saúde tem, como é óbvio, implicações várias na receção de cuidados de saúde, na medida em que os pacientes necessitam de saber ler rótulos medicinais, receitas e apontamentos médicos, entender instruções de autocuidados de saúde, etc., o que é motivo suficiente para associar baixa literacia em saúde com um pior nível de saúde (Speros, 2005). Além disso, tem-se também verificado que uma inadequada literacia em saúde se relaciona com um pior estado de saúde geral, físico e mental (Speros, 2005; Wolf, Gazmararian, & Baker, 2005). Os estudos desenvolvidos apontam que a prevalência de baixa literacia em saúde parece ser maior na população idosa, em indivíduos com baixo status social, baixo nível educacional e baixos recursos financeiros, bem como em pacientes com doenças crónicas e em doentes que recorrem aos serviços de saúde públicos (Manafo, & Wong, 2012; Schillinger et al., 2002; Speros, 2005; Sudore et al., 2006; WHO, 2013). Relativamente às pessoas com mais de 65 anos, o estudo de Wolf et al. (2005) concluiu uma relação entre grau de literacia em saúde e função física e saúde mental. Ou seja, níveis mais baixos de literacia em saúde relacionam-se com uma pior função física e saúde mental; uma maior probabilidade de reportarem dificuldades em atividades instrumentais do quotidiano e atividades quotidianas; uma maior limitação na atividade devido a uma saúde física debilitada; menos realizações devido à frágil saúde física e um maior número de relatos de dor que interfere com a atividade quotidiana. Também Kim (2009) chegou a resultados semelhantes, concluindo que indivíduos com mais de 65 anos que apresentavam uma inadequada literacia em saúde evidenciavam níveis significativamente mais elevados de artrite e hipertensão, reportavam maiores limitações na atividade diária e uma pior saúde subjetiva, bem como níveis mais elevados de dor. Relativamente a algumas variáveis demográficas, diversos estudos concluíram que a literacia em saúde era marcadamente menor nos idosos com mais idade (Baker, Gazmararian, Sudano, & Patterson, 2000) e menos escolarizados (Bennett, Chen, Soroui, & White, 2009). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 34

Todavia, no que concerne ao sexo, não se verifica concordância nos resultados obtidos em diferentes investigações, revelando uns que os homens apresentam uma maior literacia em saúde (Jovic-Vranes, BjegovicMikanovic, & Marinkovic, 2009; Toçi et al., 2013), enquanto outros revelam o contrário (Sudore et al., 2006; Von Wagner, Knight, Steptoe, & Wardle, 2007). Não se encontraram estudos que investigassem a variável estado civil. No sentido de reverter esta situação, a Organização Mundial de Saúde (WHO, 2013) apela para a necessidade de se tomarem um conjunto de medidas sensíveis ao sexo, à idade e às diferenças e diversidades educacionais e culturais (e.g., etnia, religião, língua e cultura de origem) das pessoas idosas. METODOLOGIA O estudo, de carácter quantitativo, integrou uma amostra de 433 adultos com mais de 65 anos de idade. Os participantes responderam ao Newest Vital Sign (NVS, Copyright © Pfizer Inc.) instrumento desenvolvido por Weiss et al. (2005), que avalia o grau de literacia em saúde. Recorrendo a um rótulo nutricional de uma embalagem de gelado, o NVS contempla seis questões de resposta fechada que implicam competências de literacia variadas, incluindo competências de leitura e de matemática, nomeadamente a consulta e interpretação da informação disponibilizada (ex., “Suponha que é alérgico a (...). É seguro para si comer este gelado?”), assim como a realização de inferências e de cálculos mentais (ex. “Se habitualmente consumir 2500 calorias por dia, qua percentagem desse valor é que estará a consumir se comer uma porção de gelado?). As respostas são cotadas tendo por base critérios específicos e pré-definidos. O total é obtido através da soma das respostas corretas. A aplicação do NVS decorreu individualmente, sendo possível fazê-lo de três modos distintos: autoadministrado, em que, após a leitura das instruções, o participante lia e preenchia o questionário sem qualquer ajuda (n=198; 46.2%); assistido pelo observador, em que este lia as instruções e explicava o modo de preenchimento do questionário, mas era o sujeito idoso que lia as questões e assinalava as respostas (n=26; 6.1%); administrado pelo observador, em que este lia as instruções, as questões e assinalava as respostas dadas pelo participante (n=205; 47.8%).


A amostra integrou sujeitos caucasianos, com idades compreendidas entre os 65 e os 97 anos de idade (M=76 anos; DP=7.30), sendo que 66% dos sujeitos são do sexo feminino e 34% são do sexo masculino, oriundos do distrito do Porto. A maioria é casada (42%), sendo os restantes viúvos (38%). No que concerne às habilitações académicas, a maioria dos sujeitos tem, no máximo, o 4.º ano de escolaridade (55%). Não obstante, observa-se uma percentagem considerável de participantes com um curso superior (23%). As profissões dos sujeitos anteriores à sua reforma eram bastante diversificadas, compreendendo quadros superiores, técnicos e profissionais, assim como agricultores e trabalhadores não qualificados. As profissões mais referenciadas foram professor (10%), doméstica (9%), conserveira (3%), engenheiro (3%), costureira (3%), empregada de limpeza (3%), comercial (2%) e agricultor (2%). RESULTADOS Num primeiro momento apresentam-se os resultados descritivos no que concerne à literacia em saúde, seguindo-se os resultados decorrentes das características dos participantes. Literacia em Saúde: Resultados Descritivos As percentagens de respostas corretas são relativamente baixas, variando entre os 18% (item 6) e os 31% (item 5). É ainda de evidenciar que a maioria dos participantes elegeu não responder, oscilando as percentagens de não resposta entre os 51% (item 1) e os 62% (item 4). De modo análogo, a média foi de 1.36 (DP = 1.96), revelando que os participantes em média acertaram uma resposta em seis, pese embora o valor do desvio-padrão evidenciar bastante variabilidade. Adicionalmente, podemos constatar que uma elevada percentagem de participantes não conseguiu responder ou optou por não responder a nenhuma questão (58%), enquanto apenas 7% respondeu corretamente a todas as questões. Verificamos assim existirem níveis de literacia relativamente baixos entre os nossos participantes.

Diferenças nos Níveis de Literacia em Saúde de Acordo com o Sexo De seguida, procede-se à comparação entre os idosos do sexo feminino e do sexo masculino no que diz respeito aos níveis médios de literacia em saúde. Foram realizados testes t para amostras independentes a um nível de significância estatística de 5%. Para além da significância estatística dos resultados produzidos, recorremos à magnitude do tamanho do efeito verificado. Para tal, foi calculado o coeficiente d de Cohen, que é baseado nas diferenças estandardizadas de médias, sendo d = .20 considerado um efeito pequeno ou modesto, d = .50 um efeito moderado e d = .80 um efeito importante (Cohen, 1992). Os resultados obtidos podem ser visualizados no Quadro 1. Quadro 1 - Testes t para comparação dos resultados obtidos a nível da literacia em saúde nos dois sexos

N

Sexo Masculino

Sexo Feminino

M

M

t

gl

NVS Literacia em saúde (total)

433 1.66 2.06 1.21 1.91

DP

DP

2.18

277.09 .030

p

0.71

Literacia em saúde*

182 3.31 1.74 3.19 1.79

0.44

180

0.18

.664

d

*Sujeitos com pelo menos um sucesso (N = 182)

No que diz respeito aos níveis médios de literacia em saúde, verifica-se que os participantes do sexo masculino obtiveram notas médias mais elevadas do que os participantes do sexo feminino, t(277.09) = 2.18, p < .05. Esta diferença foi considerada estatisticamente significativa e o valor do coeficiente d de Cohen de .17 indica um efeito pequeno. Estas diferenças desaparecem, no entanto, quando excluímos os sujeitos com total insucesso na prova, que representam 58% da amostra. Para os 108 sujeitos do sexo feminino e 74 sujeitos do sexo masculino que têm pelo menos um sucesso no teste, as médias são próximas do valor médio de 3, respetivamente, 3.19 e 3.31, não sendo a diferença estatisticamente significativa, t(180) = 0.44, ns. De facto, as diferenças a nível do género parecem residir na proporção de homens e mulheres com total insucesso no teste: 50% nos primeiros e 62% nas segundas (cf. Figura 1). Um teste de qui-quadrado parece indicar que estas proporções são estatisticamente significativas, χ2(1) = 5.86, p =.016, pelo que se pode inferir que as mulheres têm maior probabilidade de não responderem corretamente a nenhum item no teste. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 35


Figura 1 - Percentagem de participantes de acordo com o número de respostas corretas no NVS relativamente ao género (N = 433)

Quadro 2 - Comparação dos resultados obtidos no NVS de acordo com o nível de escolaridade

Literacia em saúde

Associações entre os Níveis de Literacia em Saúde e a Idade De modo a conhecer a associação entre os níveis de literacia em saúde e a idade, foi calculada a correlação de Pearson a um nível de significância estatística de 5%. O coeficiente de correlação foi interpretado em termos do tamanho do efeito, de acordo com as convenções de Cohen (1992): um r de .10 é considerado pequeno (associação fraca), um r de .30 é considerado médio (associação moderada) e um r de .50 é considerado grande (associação forte). A associação encontrada foi negativa, média r = -.34, o que indica que os valores das duas variáveis tendem a variar em sentido inverso, ou seja, os níveis de literacia tendem a ser mais baixos com o avanço da idade. Diferenças nos Níveis de Literacia em Saúde de acordo com o Nível de Escolaridade Com o intuito de examinar o efeito do nível de escolaridade dos inquiridos nos níveis de literacia em saúde, tendo verificado que os dados não cumpriam os requisitos exigidos pela análise de variância, nomeadamente no que concerne à homogeneidade de variância, recorreu-se às análises não paramétricas, especificamente ao teste de Kruskal-Wallis, a um nível de significância estatística .05. Para identificar diferenças específicas entre os grupos, conduzimos testes de Mann-Whitney, a um nível de significância estatística .0083, após a correção de Bonferroni. Recorremos aos quatro níveis criados para descrever a escolaridade dos inquiridos (nível 1 = até ao 4.º ano de escolaridade; nível 2 = entre o 5.º e 9.º anos de escolaridade; nível 3 = ensino secundário e nível 4 = ensino superior). Os resultados obtidos podem ser visualizados no Quadro 2.

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1.º CEB (n = 235)

2.º/3.º CEB (n = 60)

Ensino Secundário (n = 34)

Ens. Universitário (n = 96)

M

DP

M

DP

M

DP

M

DP

0.35

0.86

1.13

1.60

2.82

1.88

3.48

2.20

G4 = G3 > G2 > G1

Como se pode constatar, foi encontrado um efeito estatisticamente significativo, indiciando existirem diferenças entre os vários grupos de sujeitos, H(3) = 175.22, p < .001. As análises Mann-Whitney permitiram verificar que os indivíduos com o 1.º CEB (até 4 anos de escolaridade) apresentaram resultados mais baixos do que todos os outros grupos, U = 5171.50, p < .001, U = 1184.00, p < .001, U = 2864.50, p < .001. Da mesma forma, os indivíduos com o 2.º ou 3.º CEB apresentaram resultados mais baixos do que os grupos de sujeitos com o ensino secundário e o ensino universitário, respetivamente, U = 520.00, p < .001 e U = 1212.50, p < .001. Não se verificaram diferenças nas médias entre os indivíduos com ensino secundário e ensino superior, U = 1292.50, p = .067. Assim, e como seria de esperar, verifica-se que o nível de escolaridade tem um papel determinante nos níveis médios de literacia em saúde. Diferenças nos Níveis de Literacia em Saúde de acordo com o Estado Civil De modo a analisar o efeito do estado civil nos níveis de literacia em saúde, consideraram-se as diferenças entre os indivíduos casados (n = 185) e os viúvos (n = 166). Os idosos solteiros (n = 37), em união de facto (n = 7), separados (n = 8) e divorciados (n = 29) foram excluídos das análises dado o número reduzido com que surgiram nesta amostra. Foram realizados testes t para amostras independentes a um nível de significância estatística de 5%. Os resultados obtidos podem ser visualizados no Quadro 3. Quadro 3 - Testes t para comparação dos resultados obtidos a nível da literacia em saúde de acordo com o estado civil Casados Viúvos (n = 185) (n = 166) M Literacia em saúde

DP

1.98 2.21

M

DP

t

0.70 1.43 6.49

gl

p

d

319.3

.000 0.51


Os indivíduos casados tendem a obter valores médios de literacia em saúde mais elevados do que os viúvos, t(319.3) = 6.49, p < .05. O valor do coeficiente d de Cohen de 0.68 indica um efeito moderado. Contudo, os grupos diferem também relativamente à idade, apresentando o grupo dos indivíduos viúvos uma média de idade mais elevada, M = 79.86 , DP = 6.23, quando comparados com os sujeitos casados, M = 73.77, DP = 6.80, t(349) = -8.74, p < .05. Assim, procedemos novamente à comparação entre os dois grupos, controlando a idade. Os resultados mostraram que as diferenças entre os grupos se mantinham, mesmo quando controlada a idade, F(1, 348) = 16.30, p < .05. Assim, o estado civil parece desempenhar um papel relevante nos níveis de literacia em saúde entre os sujeitos destes dois grupos. DISCUSSÃO Da análise dos resultados podemos referir que o grau de literacia em saúde obtido foi de 1.37±1.98, o que evidencia uma inadequada literacia em saúde dos sujeitos participantes neste estudo. Estes resultados são corroborados por vários estudos (Speros, 2005; Sudore et al., 2006), legitimando a urgência de um trabalho de investigação e de intervenção em profundidade. No que diz respeito às variáveis sociodemográficas estudadas, verificámos diferenças muito significativas de acordo com a idade, as habilitações literárias e o sexo. As pessoas que têm menos idade assim como as que têm um maior grau de escolaridade apresentam mais respostas certas, o que se assemelha aos resultados obtidos noutras pesquisas internacionais (Baker et al., 2000; Bennett et al., 2009). No que concerne ao sexo, os participantes do sexo masculino obtiveram notas médias mais altas quando comparados com os do sexo feminino. Nos estudos internacionais desenvolvidos, como referimos anteriormente, não há concordância nos resultados obtidos. Naqueles em que os homens apresentavam uma maior literacia em saúde, os autores associavam-na a uma maior escolaridade das pessoas do sexo masculino neste grupo etário (Jovic-Vranes et al., 2009); já naqueles em que as mulheres apresentavam resultados superiores, levantou-se como hipótese explicativa o facto de as mesmas serem mais capazes de prestarem cuidados e de cuidarem das pessoas doentes da sua família, tendo, por isso mesmo, maior contacto com os contextos de saúde (Sudore et al., 2006). Por fim, observou-se que os indivíduos casados tendem a obter valores médios de literacia em saúde mais elevados do que os viúvos. São, assim, necessários estudos, nacionais e internacionais, que estudem o impacte desta variável no nível da literacia em saúde.

CONCLUSÃO Os resultados indicam que a grande maioria dos sujeitos (80%) evidencia um nível de literacia em saúde baixo, o que significa que apenas 20% dos inquiridos serão capazes de interpretar e usar a informação escrita relacionada com a saúde de forma eficaz. As análises conduzidas apontam para um efeito notável de algumas variáveis demográficas nos valores médios obtidos no teste de literacia em saúde, especificamente, sexo, idade, habilitações literárias e estado civil. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Na senda dos resultados obtidos, neste e em outros estudos, urge potenciar a literacia em saúde na população idosa, e, dentro desta, junto dos grupos de maior vulnerabilidade. Como recomenda a WHO (2013), os políticos, os profissionais, a sociedade civil e o setor privado podem cooperar no sentido de promoverem e enfrentarem os desafios relativos à literacia em saúde. Destacamos, entre estes, os profissionais de saúde e de intervenção psicossocial, já que estes são profissionais de proximidade, inseridos em Organizações de saúde e de apoio à terceira idade, com os quais os idosos estabelecem uma relação privilegiada. Além de apelarem a uma participação ativa dos sujeitos no desenvolvimento de atitudes saudáveis e na prevenção e/ou resolução de problemas de saúde, podem e devem disponibilizar informações, pertinentes e claras, e um acompanhamento de maior proximidade de acordo com as características e necessidades singulares de cada idoso, potenciando a sua literacia em saúde e, consequentemente, a sua qualidade de vida. REFERÊNCIAS Baker, D. W., Gazmararian, J. A., Sudano J., & Patterson, M. (2000). The association between age and health literacy among elderly persons. The Journals of Gerontology, Series B: Psychological Sciences and Social Sciences, 55(6), 368-374. doi: 10.1093/gernb/55.6.S368 Bennett, I., Chen, J., Soroui, J., & White, S. (2009). The contribution of health literacy to disparities in selfrated health status and preventive health behaviors in older adults. Annals of Family Medicine, 7(3), 204-211. doi: 10.1370/afm.940

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Jovic-Vranes, A., Bjegovic-Mikanovic, V., & Marinkovic J. (2009). Functional health literacy among primary health-care patients: data from the Belgrade pilot study. Journal of Public Health (Oxford), 31(4), 490-495. doi: 10.1093/pubmed/fdp049 Kim, S. (2009). Health literacy and functional health status in Korean older adults. Journal of Clinical Nursing, 18, 2337-2343. doi: 10.1111/j.1365-2702.2008.02739.x. Manafo, E., & Wong, S. (2012). Health literacy programs for older adults: a systematic literature review. Health Education Research, 27(6), 947-960. doi: 10.1093/her/cys067 Schillinger, D., Grumbach, K., Piette, W. F., Osmond, D., Daher, C., Palacios, J., Sullivan, G. D., & Bindman, A. B. (2002). Association of health literacy with diabetes outcomes. JAMA, 288, 475-482. doi:10.1001/ jama.288.4.475 Speros, C. (2005). Health literacy: Concept analysis. Journal of Advanced Nursing, 50(6), 633-640. doi: 10.1111/j.1365-2648.2005.03448.x Sudore, R. L., Mehta, K. M., Simonsick, E. M., Harris, T. B., Newman, A. B., Satterfield, S., Rosano, C., Rooks, R. N., Rubin, S. N., Ayonayon, H. A., & Yaffe, K. (2006). Limited literacy in older people and disparities in health and healthcare access. Journal of the American Geriatrics Society, 54(5), 770-776. doi: 10.1111/j.15325415.2006.00691.x

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Toçi, E., Burazeri, G., Sorensen, Jerliu, N., Ramadani, N., Roshi, E., & Brand, H. (2013). Health literacy and socioeconomic characteristics among older people in transitional Kosovo. British Journal of Medicine & Medical Research, 3(4), 1646-1658. doi: 10.9734/ BJMMR/2013/3972 Von Wagner, C., Knight, K., Steptoe, A., & Wardle, J. (2007). Functional health literacy and health-promoting behaviour in a national sample of British adults. Journal of Epidemiology & Community Health, 61(12), 1086-90. doi: 10.1136/jech.2006.053967 Weiss, B. D., Mays, M. Z., Martz, W., Castro, K. M., DeWalt, D. A, Pignone, M. P., & Mockbee, J. (2005). Quick assessment of literacy in primary care: the newest vital sign. Annals of Family Medicine, 3(6), 514-22. doi: 10.1370/afm.405 Wolf, M., Gazmararian, J., & Baker, D. (2005). Health literacy and functional health status among older adults. Archives of Internal Medicine, 165, 1946-1952. doi: 10.1001/archinte.165.17.1946 World Health Organization (2013). Health literacy. The solid facts. Copenhagen: WHO Regional Office for Europe.


7

O MANEJO DAS EMOÇÕES DOS COORDENADORES EM TRANSPLANTES NA REALIZAÇÃO DA ENTREVISTA FAMILIAR PARA DOAÇÃO DE ÓRGÃOS | Paula Nunes da Fonseca1; Claudia Mara de Melo Tavares2 |

RESUMO CONTEXTO: A entrevista familiar é um momento delicado no processo de doação de órgãos, pois concretiza para a família a morte. Representa também momento que envolve grande carga emocional para os entrevistadores denominados coordenadores avançados de transplantes. OBJETIVO(S): Conhecer como os coordenadores avançados em transplantes manejam as emoções manifestas na entrevista familiar para doação de órgãos. METODOLOGIA: Estudo do tipo interpretativo. Participaram 24 coordenadores avançados em transplantes. Dados obtidos por entrevista semi-estruturada contendo oito questões abertas, no período de jan/mai 2012. Foi explorada a pergunta: “Como você lida com as emoções no ato da entrevista?”. Utilizada análise do discurso dos sujeitos com base na interpretação proposta na hermenêutica filosófica de Gadamer para organização e compreensão dos dados relatados que foram gravados e, em seguida, transcritos na íntegra. Estudo aprovado pelo Comitê de Ética UFF/HUAP nº 321/11. RESULTADOS: Os sujeitos estabelecem diferentes relações de envolvimento com as emoções, seja não misturando suas emoções com as dos familiares, estabelecendo desta forma uma relação “profissional”; seja se permitindo envolver/afetar com as emoções dos familiares do doador; ou mesmo não se envolvendo em momento algum com as emoções expressas na entrevista. CONCLUSÕES: A maioria dos manejos refletiu a busca pelo bloqueio/abafamento das emoções, evitando-as nesta etapa. Este movimento retrata a incompetência emocional dos sujeitos, uma vez que estes não permitem que aflorem naturalmente suas emoções. Tal movimento reflete de modo negativo na saúde mental destes profissionais.

PALAVRAS-CHAVE: Emoções manifestas; Pessoal de saúde; Transplantes; Enfermagem psiquiátrica

RESUMEN

ABSTRACT

“La gestión de las emociones de los coordinadores de trasplantes en la entrevista familiar para donación de órganos”

“The management of emotions of the coordinators in transplants in the family interview for organ donation”

CONTEXTO: La entrevista familiar es un momento delicado en lo proceso de donación de órganos porque materializa para la familia la muerte. Representa también momento que se tiene grande sobrecarga emocional para los entrevistadores llamados coordinadores avanzados de trasplantes. OBJETIVO(S): Aprender cómo los coordinadores avanzados de trasplantes manejan las emociones que se manifiestan en la entrevista familiar para la donación de órganos. METODOLOGÍA: Estudio del tipo interpretativo. Participaron 24 coordinadores avanzados en trasplantes. Datos obtenidos de las entrevistas semi-estructuradas con ocho preguntas abiertas en el período enero/ mayo 2012. Se exploró la pregunta: “¿Cómo lidiar con las emociones en el momento de la entrevista?”. Utilizada la análisis del discurso sobre la base de la interpretación propuesta en la hermenéutica filosófica de Gadamer para comprensión y organización de los datos presentados que fueron grabados y transcritos en su totalidad. Estudio aprobado por el Comité de Ética UFF/HUAP Nº 321/11. RESULTADOS: Los sujetos establecen diferentes relaciones involucradas con las emociones, sea no mezclando sus emociones con de los familiares, estableciendo así una relación “profesional”; sea permitindo participar/afectarse con las emociones de los familiares del donante; o mismo no se involucrando en algún momento con las emociones expresadas en la entrevista. CONCLUSIONES: La mayoría de las gestiones reflejan la búsqueda de la cerradura/de amortiguación de sus emociones, evitandolas en esta etapa. Este movimiento representa la incompetencia emocional del sujeto, ya que no le permiten que brota naturalmente las emociones. Esto movimiento se refleja negativamente en la salud mental de estos profesionales.

BACKGROUND: The family interview is in a delicate process in organ donation because materializes family death. Represents also the time it involves an emotional overload for interviewers called advanced transplant coordinators. AIM: To learn how the advanced transplant coordinators handle the emotions manifest in the family interview for organ donation. METHODS: Interpretative study. The 24 advanced transplants coordinators has participated. Data obtained from semi-structured interviews with eight open questions in the period Jan/May 2012. Was explored the question: “How do you deal with the emotions at the time of interview?”. Used discourse analysis of the subjects based on the proposed interpretation in Gadamer’s philosophical hermeneutics for understanding the organization and reported data that were recorded and transcribed in full accordingly. This study was approved by the Ethics Committee UFF/ HUAP No. 321/11. RESULTS: The subjects establish different relationships involved with emotions, not your emotions blending with the family, thereby establishing a ‘professional’ relationship; allowing it to engage/affect the emotions of the relatives of the donor; or even not getting involved at some point with the emotions expressed in the interview. CONCLUSIONS: Most managements reflected the search for the lock/ muffling of their emotions, avoid them at this stage. This movement portrays the emotional incompetence of the subject, since it does not allow you to naturally welling emotions. This movement reflects negatively on the mental health of those professionals.

DESCRIPTORES: Emoción expresada; Personal de salud; Trasplantes; Enfermería psiquiátrica

KEYWORDS: Expressed emotion; Health personnel; Transplants; Psychiatric nursing Submetido em 30-09-2014 Aceite em 19-12-2014

1 Enfermeira; Doutoranda no Programa de Ciências do Cuidado em Saúde na Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Psiquiátrica, Avenida Tenente Coronel Muniz de Aragão, Rio de Janeiro, Brasil, paulaisabellafonseca@yahoo.com.br 2 Enfermeira; Pós-Doutorada em Educação; Professora Titular na Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Departamento Enfermagem Materno Infantil e Psiquiátrica, 24020-091, Niterói, Brasil, claudiamarauff@gmail.com Citação: Fonseca, P., e Tavares, C. (2015). O manejo das emoções dos coordenadores em transplantes na realização da entrevista familiar para doação de órgãos. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 39-44. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 39


INTRODUÇÃO O número de transplantes no Brasil vem crescendo num contínuo desde 2007, com 6,2 doadores efetivos por milhão de habitantes (pmp) até os 12,8 doadores efetivos pmp no primeiro trimestre de 2014. O estado do Rio de Janeiro começou a seguir este mesmo ritmo somente a partir de 2009, quando saiu dos seus 4,9 pmp para os atuais 14,8 doadores efetivos pmp (Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos [ABTO], 2007, 2014). Tais informações traduzem que, para além do crescimento dos programas de transplantes, há uma maior carga de trabalho para profissionais que nela atuam, já que não houve uma ampliação concomitante do número de trabalhadores para atender as demandas laborais. Neste contexto, é importante compreender que o processo de doação de órgãos é composto por diferentes etapas, dentre as quais a entrevista familiar, realizada por coordenadores avançados em transplantes. Esta comporta grande complexidade emocional, pois nela se explica para os familiares o que é a morte encefálica e se coloca a possibilidade da doação. Portanto, a entrevista familiar é um momento delicado no processo de doação de órgãos, porque concretiza para a família a morte, a separação e a impotência (Santos e Massarolo, 2005; Rech e Filho, 2007). É também um momento que envolve grande carga emocional para os coordenadores avançados de transplantes, seja pelas circunstâncias da morte encefálica do potencial doador, seja por sua idade, ou pelas reações inesperadas dos parentes do doador ao saberem de seu quadro. Assim, tais sujeitos lidam com uma gama de significativa emoções expressas nesta etapa, que devem ser manejadas de modo que esta vivência laboral não injurie sua saúde mental. E, diante do crescimento contínuo e paulatino da área, com a conseqüente realização de cada vez mais entrevistas familiares pelos coordenadores em transplantes, justifica-se a realização deste estudo que se ocupa em saber como se lida com as emoções que estão envolvidas no momento da entrevista familiar para doação de órgãos, visto que a constante convivência com dilemas morais oferecidos pela situação, sem seu devido enfrentamento, pode afetar diretamente a saúde mental destes sujeitos. Constitui-se objeto deste estudo o manejo das emoções dos coordenadores avançados em transplantes. Já o objetivo é conhecer como os coordenadores avançados em transplantes manejam as emoções manifestas na entrevista familiar para doação de órgãos. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 40

Quanto ao referencial teórico, a complementariedade das ideias trazidas por Daniel Goleman (2007) com o conceito de Inteligência Emocional e por Juan Casassus (2009) com o de Educação Emocional, corroboram para assimilarmos o quanto são relevantes e presentes as questões emocionais em nosso cotidiano. E ainda, o quanto somos afetados por elas a ponto de adoecermos se não prestarmos atenção em como estamos lidando com nossas emoções. Ambos os autores destacam a centralidade das emoções enquanto forte instrumento de sociabilidade, e ainda, de equilíbrio do ser consigo mesmo e com o meio em que habita. Reiteram neste contexto que temos a possibilidade de conhecer nossas emoções e intervir nelas de maneira ativa, por meio também do autoconhecimento. Este exercício nos auxilia a conseguirmos ser inteligentes emocionalmente nos ajudando a lidar melhor com situações difícieis e nos educa no sentido de nos permitirmos nos emocionar, mas dentro do que cada um limita como possível a si mesmo. METODOLOGIA Estudo qualitativo de abordagem hermenêutica interpretativa, baseada na perspectiva de Hans-Georg Gadamer, que compreende que a interpretação leva a conhecer as condições em que se dá a compreensão; ou seja, procura compreender a própria linguagem e, através dela, o próprio homem, a sua história e existência, pois é através da linguagem que se dá o acesso ao mundo e às coisas (Gadamer, 2008). O enfoque metodológico da hermenêutica interpretativa possibilita conhecer a tradição do preparo emocional dos profissionais que realizam entrevista familiar para doação de órgãos que, mediante a linguagem utilizada pelos dos coordenadores avançados em transplantes, vem à tona. A tradição é a bagagem de conceitos repassados ao longo dos tempos e condicionam as ações presentes de forma inconsciente, manifestando-se através da linguagem. O Ser é linguagem, e nomeia o mundo. A linguagem caracteriza a relação do Ser com o mundo, diferenciando-o de todos os demais seres vivos. Com a linguagem, o Ser torna-se livre face ao mundo que o circunda, pois é aberta a possibilidade de interpretá-lo, o que lhe traz a dimensão ontológica (Gadamer, 2008). O cenário foi a Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDO) do estado do Rio de Janeiro. Coletou-se dados de janeiro a maio de 2012. Os sujeitos totalizaram vinte e quatro coordenadores de transplantes - 17 enfermeiras, 2 assistentes sociais, 2 médicos e 3 psicólogos - que compõem ou já compuseram a equipe que atua como coordenadora do processo de doação de órgãos.


Critério de inclusão utilizado: profissionais que realizaram ou realizam entrevistas familiares para doação de órgãos e que estavam trabalhando no período de coleta de dados na equipe da Central de Transplantes. Critérios de exclusão: profissionais que não realizam ou nunca realizaram entrevistas familiares, e ainda, aqueles que mesmo tendo realizado entrevistas familiares, não atuassem mais na CNCDO em questão, no período de coleta de dados. Os dados foram coletados por meio de entrevista individual semi-estruturada, baseada em instrumento composto por oito perguntas que tratavam sobre as emoções e seu manejo no momento da entrevista familiar para doação de órgãos. Para este recorte utilizou-se a seguinte pergunta: “Como você lida com as emoções no ato da entrevista familiar para doação de órgãos?” Foi utilizada a análise do discurso dos sujeitos com base na interpretação proposta na hermenêutica filosófica de Gadamer, para organização e compreensão dos dados que foram gravados, e em seguida, transcritos na íntegra. A partir de leituras sucessivas destes, buscou-se desvelar o sentido das falas e seu modo singular de construção de linguagem, sendo estas discutidas à luz das principais ideias formadoras da inteligência emocional, de Goleman (2007) e educação emocional, de Casassus (2009). Estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Antônio Pedro/UFF sob o nº 321/11, CAAE: 0336.0.258.000-11 em nov/2011. Respeita os princípios éticos da Resolução nº 466/2012 que trata de pesquisa com seres humanos no Brasil. RESULTADOS Os sujeitos estabelecem diferentes relações de envolvimento com as emoções, assim revelou-se das falas dos sujeitos três principais formas de manejos das emoções nomeadas em categorias. Na primeira categoria, intitulada “A relação com o envolvimento com as emoções”, foi possível desvelar dentro desta relação três principais diferenças, destacadas como subcategorias. A primeira subcategoria foi nomeada “Saber separar as emoções” e aqui foi possível observar que alguns sujeitos separam as emoções, ou seja, no momento da entrevista conseguem ter consciência de quais são as suas emoções que emergem naquele momento e quais são as emoções dos familiares. Referiram: estarem cientes o tempo todo de que aquela situação não é a situação deles; focarem no trabalho a ser realizado se permitindo emocionar; buscar

organizar as ideias no sentido de que seu papel naquele momento é também saber separar o que é emocional do que é profissional, compreendendo que existem limites até onde pode haver esta separação das próprias emoções e das emoções dos familiares. Neste sentido evidenciou-se a fala a seguir: As emoções pra mim pelo que eu estou entendo são as emoções com as pessoas que eu estou entrevistando. Zero de emoção. [...] A minha finalidade ali não é vivenciar aquela dor, porque aquela pessoa não é meu familiar. Aquela dor não é minha, a dor é daquela família. (Amarelo Ocre) Na subcategoria “Se permitir afetar/envolver com as emoções” os sujeitos desvelam consciente e inconscientemente o quanto se emocionam com as situações advindas da entrevista familiar para doação de órgãos. Algumas falas diretamente afloram o envolvimento emocional com a situação, enquanto outras não admitem ou não demonstram o envolvimento emocional, como podemos observar a seguir: Se eu me emocionasse eu deixava transparecer que aquela emoção estava me atingindo não a ponto de todo mundo ficar chorando, não é isso entendeu? Mas assim, eu sinalizava que era um momento emocionante também para a gente, porque é pura emoção você fazer uma entrevista de uma criança que está morta [...] então eu lidava com a emoção como uma coisa natural, porque a gente é ser humano, a gente não é uma máquina. (Verde Hooker) Eu tento conter as minhas emoções, eu tento não, eu contenho as minhas emoções [...] nunca chorei perto das famílias apesar dos olhos terem enchido de lágrimas porque hoje mesmo eu fiz uma entrevista e tinham cinco pessoas chorando na minha frente, uma criança, uma abordagem de sete anos então, assim, criança sempre mexe um pouco mais com as pessoas, as pessoas ficam um pouco mais sensibilizadas mas eu não, tento não me envolver emocionalmente até para me proteger [...]. (Carmin) A última subcategoria, “Não se permitir envolver”, envolveu sujeitos desvelando que tentam se segurar, mantendo-se frios emocionalmente, e ainda tentam conter suas emoções, represando o que sentem, não explicitando as emoções que surgem na entrevista familiar. A segunda categoria recebeu o título de “Focar/Se apoiar” no outro, e neste momento os sujeitos compreendem que pensar no receptor é o principal balizador das emoções. Este movimento remete a salvar uma vida, e estar fazendo o bem com o trabalho realizado na entrevista. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 41


Este “outro” ainda foi revelado como o familiar e a atenção a ele despertada para que não fique nenhuma dúvida quanto ao processo de doação dos órgãos; e também se marcou o apoio emocional que outro coordenador pode oferecer ao ser realizada a entrevista familiar em dupla, por exemplo. A última categoria foi nomeada como “Ações que envolvem a si mesmo” e, aqui foi compreendido, o quanto ações como: pensar em falar mais devagar para se acalmar, pedir a espiritualidade de crença força para conseguir seguir com o processo, respirar fundo, se calar e tentar se equilibrar mantendo a serenidade; são estratégias para serem utilizadas no manejo das emoções. DISCUSSÃO Na subcategoria “A relação com o envolvimento com as emoções” as falas dos sujeitos nos fazem refletir e questionar até onde esta “separação” da própria emoção, da emoção do familiar, se traduz em consciência emocional. Este termo significa para Casassus (2009) se autoconhecer para saber modular a emoção, assim como explica ao discorrer sobre as competências para conhecer e agir no mundo emocional. Quando não é traduzido como consciência emocional, a separação das próprias emoções das emoções dos outros, pode representar um mecanismo de defesa do ego para se afetar menos possível com a dor do outro, já que de maneira recorrente estes profissionais têm de lidar com momentos difíceis. Perceber uma situação do mundo externo ou interno pode representar ser algo constrangedor, doloroso e desorganizador para o sujeito. A fim de evitar este desprazer, a pessoa altera ou suprime a realidade, deixando de registrar suas percepções externas, e com isso, afasta determinados conteúdos psíquicos que interferem no pensamento. Vários são os mecanismos que o sujeito pode usar para realizar esta alteração da realidade, que são nominados de mecanismos de defesa. Estes representam processos inconscientes realizados pelo ego, ou seja, ocorrem independentemente da vontade do indivíduo (Bock, 2008). A manutenção de defesas do ego que buscam justificar os estados alterados de consciência não permitindo o sujeito vivenciar de modo total uma situação, mesmo que difícil, pois este procura evitá-la, só reitera seu status de ignorante emocional. Desta maneira, o sujeito torna-se incompetente em relação à própria experiência emocional ao não reconhecer o que lhe faz estar assim, não sabendo se é o tempo, a correria, algo que o outro fez, trechos da própria história (Casassus, 2009) como disposto na fala de Amarelo Ocre. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 42

Já na subcategoria “Se permitir afetar/envolver com as emoções” ficam claros dois exemplos de como faz a diferença ter conhecimento das próprias emoções. O primeiro trata da competência para conhecer e agir no mundo emocional onde o sujeito está ciente de que pode vivenciar suas emoções, mas com moderação, ou modulação, demonstrando competência emocional (Casassus, 2009), explicitado na fala de Verde Hooker. A autopermissão do sujeito em sentir as emoções é compreendida por Goleman (2007) como movimento de autocontrole, uma vez que este é o equilíbrio e não a supressão das emoções que sentimos, já que quando as emoções são abafadas, geram além de frieza, embotamento. A segunda fala segue a mesma lógica da subcategoria “Não se permitir envolver” em que o sujeito não admitindo que se afeta com as emoções na entrevista, não as assume. Sobre isso Casassus (2009) traz que uma maneira de ser incompetente emocional em relação à própria experiência emocional é não a aceitar, decidindo o que se “deveria” sentir e não sentir, pensando que se deveria ter outra emoção do que a que se tem. O “se manter”, “estar em equilíbrio” depende do autoconhecimento, ou seja, o conhecimento de si próprio e de como lidar com as próprias emoções como está disposto nos dois primeiros passos da construção da inteligência emocional que prevêem “Conhecer as próprias emoções” e “Lidar com as próprias emoções” (Goleman, 2007). Praticar estas ações não deve ser algo difícil ou usado como maneira de bloqueio para proteção de situações difíceis. Quando estão neste patamar traduzem mais incompetência emocional do que sabedoria dos limites de si. A permissão de deixar aflorar naturalmente a emoção, vivenciá-la, e deixar que aquele momento passe, se traduz como a capacidade de ligar o pensamento à emoção, como disposto na lista do que é reconhecido como competência emocional por Casassus (2009). Sobre a penúltima e última categorias, respectivamente, “Focar/se apoiar no outro” e “Ações que envolvem a si mesmo”, o ato dos sujeitos reconhecerem ações que trazem segurança e tranqüilidade emocionais indica que alguns deles encontraram em si mesmos, meios para educarem suas emoções, mesmo não nomeando estes mecanismos desta maneira.


CONCLUSÃO Foi possível observar diferentes manejos das emoções na entrevista familiar. A maioria deles refletiu a busca pelo bloqueio/abafamento destas, evitando-as nesta etapa. Este movimento retrata a incompetência emocional dos sujeitos, uma vez que permitir que se aflorarem naturalmente as emoções, faz com que elas sejam expressas de modo mais natural o que ajuda na ligação do pensamento à emoção, tornando o sujeito mais competente emocionalmente. Foi possível observar ainda que alguns sujeitos lançam mão de ações que auxiliam no manejo das situações difíceis, e estas representam estratégias de lidar com suas emoções, tais sujeitos demonstraram maior autoconhecimento quando comparados àqueles que não informaram fazer nada para manejar as emoções ou aqueles que desvelaram não sentir nenhuma emoção na entrevista familiar. Isto nos leva a compreender melhor a relevância do autoconhecimento como disparador de estratégias que corroborem na construção da inteligência e educação de nossas emoções.

Tais estratégias/ações ao serem utilizadas para enfrentamento de situações difíceis incidem diretamente na qualidade da saúde mental daqueles que lidam com dilemas morais frequentemente. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Pela aplicabilidade no âmbito assistencial o estudo possibilita aos profissionais que trabalham com entrevistas familiares fazerem o exercício de pensar como manejam suas emoções. Assim, com este movimento, alimentam seu processo de autoconhecimento, que lhes permite enfrentar melhor as situações que envolvem comunicações de notícias difíceis. Sugere-se que mais estudos sobre o tema sejam replicados, afim de que os profissionais sejam conscientizados sobre a importância do reconhecimento e manejo de suas próprias emoções como estratégia para manutenção de sua saúde mental.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (2007). Análise qualitativa. Edição comemorativa 10 anos. Registro Brasileiro de Transplantes, XIII(2). Acedido em http://www.abto.org.br/abtov03/Upload/file/RBT/ RBT_10_Anos/RBT_10Anos_2007.pdf Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (2014). Dados numéricos da doação de órgãos e transplantes realizados por estado e instituição no período de Jan/ Set. Registro Brasileiro de Transplantes, XX(3). Acedido em http://www.abto.org.br/abtov03/Upload/file/ RBT/2014/rbt3-trim-parc.pdf Bock, A. M. B. (2008). Psicologias - Uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo, Brasil: Saraiva.

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Casassus, J. (2009). Fundamentos da educação emocional. Brasília, Brasil: UNESCO, Liber Livro Editora. Gadamer, H. G. (2008). Verdade e método: Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica (10ª ed., Vol. 1). Petrópolis, Brasil: Vozes. Goleman, D. (2007). Inteligência emocional (15ª ed.). Rio de Janeiro, Brasil: Objetiva. Rech, T.H e Filho, E.M.R. (2007). Family aproach and consent for organdonation. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 19(1), 85-89. Santos, M. J., e Massarollo, M. C. K. B. (2005). Processo de doação de órgãos: Percepção de familiares de doadores cadáveres. Revista Latino-Americano de Enfermagem, 13(3), 382-387. Acedido em http://www.scielo.br/ pdf/rlae/v13n3/v13n3a13.pdf


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QUALIDADE DE VIDA E ESPIRITUALIDADE EM PESSOAS IDOSAS INSTITUCIONALIZADAS | Anabela de Sousa Soares 1; Maria Isabel Amorim2 |

RESUMO CONTEXTO: Associado ao envelhecimento da população está a deterioração progressiva das capacidades, principalmente das funcionais que levam frequentemente ao recurso institucional, podendo os idosos encarar esta situação como desencadeadora de stress. OBJETIVO(S): A Espiritualidade pode ver-se como um mecanismo de adaptação sendo importante avaliar a sua relação com a Qualidade de Vida, aspeto que se constitui como objetivo principal deste estudo. METODOLOGIA: Delineou-se um estudo descritivo-correlacional e transversal com uma amostra representativa de idosos residentes em lar no concelho de Viana do Castelo (n=47), utilizando um protocolo de investigação, que integrou a avaliação de aspetos sociodemográficos, Qualidade de Vida e Espiritualidade. CONCLUSÃO: Verificou-se que de um modo geral, os idosos percecionam uma Qualidade de Vida razoável e a esperança demonstrou ser uma variável importante pela sua ação moderadora, no domínio social da Qualidade de Vida. PALAVRAS-CHAVE: Envelhecimento; Institucionalização; Qualidade de vida; Espiritualidade

RESUMEN

ABSTRACT

“‘Calidad de vida e la espiritualidad en ancianos institucionalizados”

“‘Quality of life and spirituality in institutionalized senior citizens”

Asociado con el envejecimiento es el deterioro progresivo de las habilidades, especialmente la funcional que a menudo conducen a los recursos institucionales, esta situación puede disparar el estrés en las personas mayores. La Espiritualidad puede ser visto como un mecanismo de adaptación, es importante evaluar su relación con la Calidad de Vida, aspecto que constituye el objetivo principal de este estudio. Se realizó un estudio descriptivo-correlacional y transversal, con una muestra representativa de ancianos residentes en el condado de residencia de Viana do Castelo (n = 47) utilizando un protocolo de investigación, que integra la evaluación de los aspectos sociodemográficos, Calidad de Vida y la Espiritualidad. Se encontró que, en general, las personas mayores perciben una Calidad de Vida razonable y la esperanza demostraron ser una variable importante para su acción moderadora en el ámbito social de la Calidad de Vida.

Associated to the aging process of our population is a progressive deterioration of one’s main capabilities, especially the functional ones, which frequently result in the institutionalisation in residential care homes. This situation may viewed by the elderly as a cause for stress. Spirituality can be seen as an adaptation mechanism and it is important to evaluate its relationship to the Quality of Life, which is the main objective of this study. A correlational-descriptive and transversal study took place using a representative sample of senior citizens residents in a care home in the county of Viana do Castelo (n=47). Investigative protocol was used, comprising of an evaluation of the socio-demographics Quality of Life and Spirituality. Overall, the principal results of this study suggest that the elderly perceive to have a reasonable Quality of Life and, hope/faith, proved to be an important variable in the social domain of the Quality of Life.

DESCRIPTORES: Envejecimiento; Institucionalización; Calidad de vida; Espiritualidad

KEYWORDS: Aging; Institutionalisation; Quality of life; Spirituality Submetido em 30-09-2014 Aceite em 09-12-2014

1 Gerontóloga Social; Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Escola Superior de Educação, Rua da Povoença, Viana do Castelo, Portugal, anabelasoare@hotmail.com 2 Professora Coordenadora no Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Escola Superior de Saúde, 4900-795 Viana do Castelo, Portugal, isabelamorim@ess.ipvc.pt

Citação: Ferreira, A., e Amorim, I. (2015). Qualidade de vida e espiritualidade em pessoas idosas institucionalizadas. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 45-51 Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 45


INTRODUÇÃO Atualmente vivenciamos um processo acentuado do envelhecimento populacional, em que a diminuição da taxa de mortalidade, o aumento da esperança média de vida e a diminuição da taxa de natalidade, são apontados como os principais fatores que explicam o grande desequilíbrio populacional, traduzido na evolução demográfica verificada ao longo dos últimos tempos, nomeadamente na Europa (Rosa & Chitas, 2010). Para além de ser um fenómeno demográfico, o envelhecimento é também um fenómeno individual, uma experiência pessoal e profundamente existencial. Neste processo diferentes dimensões, biológica, psicológica e sociocultural interagem e influenciam-se entre si (Berger & Mailloux-Poirier, 1994). Assim sendo, nesta perspetiva de multidimensionalidade do envelhecimento, sublinha-se a necessidade de se ter em consideração modos individuais, idiossincráticos, de ser, de estar e envelhecer num objetivo de alcançar um envelhecimento bem-sucedido e com qualidade. Definir Qualidade de Vida de uma forma global não é fácil. É um conceito amplo. Incorpora de uma forma complexa a saúde física de uma pessoa, o seu estado psicológico, o seu nível de dependência, as suas relações sociais, as suas crenças e a sua relação com as características proeminentes no ambiente (Farenzena, Argimon, Mourugchi, & Portuguez, 2007). A perceção de Qualidade de Vida é sujeita a múltiplas influências que diferem qualitativamente e quantitativamente de indivíduo para indivíduo, e que até mesmo no próprio indivíduo pode variar ao longo do tempo (Joyce, 1990, como citado em Cavagli, Pires, & Arriga, 2001). Em 1998, o grupo de estudo da Qualidade de Vida da OMS (Organização Mundial de Saúde) define a Qualidade de Vida como “a perceção que o indivíduo tem da sua posição na vida dentro do contexto da cultura e do sistema de valores onde vive, e em relação aos seus objetivos, expetativas, padrões e preocupações” (como citado em Canavarro, Simões, Pereira, & Pintasilgo, 2005, p. 2).

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Importa salientar que, apesar da esperança média de vida se constituir como um aspeto positivo, o facto é que nem sempre a longevidade se faz acompanhar de uma vida salutar autónoma e com qualidade (Carvalho & Mota, 2012). Associado ao envelhecimento da população está também o conjunto de dificuldades da pessoa que envelhece, onde sobressaem a deterioração progressiva das capacidades, principalmente as funcionais, que levam frequentemente ao recurso institucional uma vez que as famílias tendem a ter menos tempo e disponibilidade para cuidar dos mais velhos, devido às alterações verificadas quer a nível organizacional, quer em termos de papéis desempenhados. Embora a institucionalização seja a resposta social mais procurada, é facto que a mesma se constitui como um processo complexo e muitas vezes doloroso, tanto para a família como para a pessoa idosa, até porque envolve o corte com os laços até então construídos e o confronto com uma nova etapa de vida, exigindo à pessoa idosa um constante ajustamento, que poderá de algum modo interferir com a sua perceção de Qualidade de Vida. Neste sentido, a Espiritualidade pode, eventualmente, ser vista como um mecanismo de adaptação, ajudando a pessoa idosa a gerir estas situações de certo modo stressantes, através da forma como ela utiliza a sua fé, as suas crenças, ou a sua relação com o transcendente ou com os outros, (Dalby, 2006; Pinto & Pais-Ribeiro, 2007), contribuindo para a redução da sensação de perda, bem como, para o aumento da esperança e da sensação de controlo da pessoa idosa, aumentando a sua perceção de bem-estar e a sua Qualidade de Vida (Crowther, Parker, Achenbaum, Larimore, & Koening, 2002). Partindo destes pressupostos, traçou-se como objetivo geral para este estudo: analisar a relação entre os aspetos sociodemográficos e a situação de institucionalização, e a Espiritualidade com a Qualidade de Vida em idosos institucionalizados.


METODOLOGIA

RESULTADOS

Trata-se de um estudo transversal e descritivo-correlacional, que conta com uma amostra não probabilística de 47 pessoas idosas residentes em dois lares do concelho de Viana do Castelo, que se encontravam presentes nas instituições em determinado momento e que obedeciam aos seguintes critérios de inclusão: idade igual ou superior a 65 anos; sem patologia mental grave e; aceitar participar no estudo. Foi aplicado um protocolo de investigação constituído por: 1) questionário de caraterização sociodemográfica e de variáveis relacionadas com a situação de institucionalização, estado de saúde e prática religiosa; 2) Escala de Avaliação da Qualidade de Vida – WHOQOL-Bref (WHOQOL-Group, 1995) na versão Portuguesa de Serra et al. (2006) que avalia a Qualidade de Vida de modo geral e os domínios: físico; psicológico; social; e meio ambiente; 3) Escala de Avaliação da Espiritualidade de Pinto e Pais-Ribeiro (2007), sendo esta constituída por duas subescalas: crenças e esperança, e de um modo geral apresenta uma perspetiva positiva da vida, envolvendo sentimentos de esperança, otimismo e satisfação/valorização da vida. Cada protocolo foi administrado num único momento de avaliação por dois estagiários das instituições devidamente instruídos e treinados para a recolha dos dados, através da entrevista que demorou cerca de 30 minutos. Foram salvaguardados os princípios éticos e os direitos fundamentais do anonimato, do sigilo e da confidencialidade. Recorreu-se ao consentimento livre e informado por parte dos residentes que foi obtido após ser fornecida toda a informação relativamente aos investigadores, à natureza da investigação e objetivos da mesma.

A amostra constitui-se por 47 idosos com idades compreendidas entre 72 e 96 anos, sendo que 80,9% (n=38) são do sexo feminino. A grande maioria encontra-se na faixa etária acima dos 80 anos (n=34), enquanto os restantes 27,7% (n= 13) têm idades compreendidas entre os 65 e 79 anos. Apresentam uma média (M) de idades de 83,23 anos, com um desvio padrão (DP) de 6,55 anos. São maioritariamente viúvas (53,2%), com frequência de escolaridade básica (53,2%), reformadas, mas que em tempos desenvolviam atividades domésticas ou então estavam desempregadas (39,1%), que corresponde ao setor não classificado. A esmagadora maioria dos idosos é crente (95,7%) e 88,89% dos crentes são seguidores da religião católica. Quanto à situação de institucionalização, verifica-se que em média os idosos encontram-se institucionalizados há 5,49 anos e a maioria referiu que o seu ingresso no lar se deveu a uma opção pessoal (46,8%), seguido de 17,0% dos idosos que referiu perda de autonomia e 14,9% com problemas de saúde, e com valores menores morte do conjugue, isolamento, problemas familiares ou falta de rede social. Para, além disto, também foi referido que realizam várias saídas do lar, entre elas algumas para se dedicarem à prática religiosa. No que se refere ao estudo da Qualidade de Vida, é possível constatar que, de um modo geral estes idosos percecionam uma Qualidade de Vida razoável. No entanto, o domínio ambiental apresenta os valores mais baixos, o que poderá estar relacionado com a dificuldade de adaptação ao ambiente no lar (Tabela 1). Tabela 1 - Estatística descritiva obtidas na faceta geral e nos quatro domínios do WHOQOL-Bref M (DP)

Min-Máx

Faceta geral

60,90 (17,98)

12,50-100

Domínio físico

62,69 (17,95)

21,43-96,43

Domínio psicológico

64,89 (14,50)

25-100

Domínio ambiental

59,40 (19,08)

16,67-100

Domínio relações sociais

63,76 (15,50)

21,88-93,75

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A Espiritualidade dos idosos participantes é bastante significativa, uma vez que apresentam um valor médio de 3,18. No entanto, são indivíduos com mais crenças do que esperança, ou seja, as crenças religiosas/espirituais, a relação com a fé e com o transcendente são mais valorizadas por este grupo de idosos (Tabela 2). Tabela 2 - Estatística descritiva obtida na escala da espiritualidade M (DP) Min-Máx Subescala 1(crenças)

3,51 (0,76)

1,00-4,00

Subescala 2 (esperança)

2,96 (0,82)

1,00-4,00

Espiritualidade

3,18 (0,70)

1,00-4,00

Tanto a Qualidade de Vida como a Espiritualidade podem estar relacionadas com as caraterísticas sociodemográficas do indivíduo, bem como, com aspetos relacionados com a situação de institucionalização, estado de saúde e prática religiosa. Assim, a partir da análise bivariada, os resultados indicam que as variáveis sociodemográficas e a prática religiosa parecem não ser determinantes na Qualidade de Vida dos indivíduos. O mesmo não acontece em relação ao estado de saúde, uma vez que os resultados mostram melhor Qualidade de Vida percecionada pelos idosos saudáveis em relação aos doentes, em relação ao domínio global, ao domínio físico, domínio psicológico e domínio social. Por sua vez, a Espiritualidade parece ser diferenciada tanto pelo género e escolaridade, assim como pela prática religiosa. As mulheres apresentam valores médios de espiritualidade global e crenças superiores comparativamente aos homens. Também os indivíduos sem escolaridade são os que têm mais crenças quando comparados com os outros. O mesmo não acontece em relação à prática religiosa, sendo os indivíduos com mais frequência semanal de práticas, aqueles que têm mais crenças (Tabela 3). Tabela 3 - Qualidade de vida e espiritualidade Género Masculino/ Femininoa)

Escolaridade Estado de Saúde 0a)/1-4/5+ Saudávela)/ Doente

Prática Religiosa 0-1/2+a)

U

P

H

P

U

P

U

D. Global

-

-

-

-

-

0,001 -

-

D. Físico

P

QV -

-

-

-

-

0,000 -

-

D. Psicológico -

-

-

-

-

0,024 -

-

D. Ambiental

-

-

-

-

-

-

-

-

D. Social

-

-

-

-

-

0,005 -

-

Crenças

-

0,004 -

0,044

-

-

-

0,033

Esperança

-

-

-

-

-

-

-

-

Esp. Global

-

0,026 -

-

-

-

-

-

Espiritualidade

a)

Valor mais elevado

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Embora seja moderada, a partir do cálculo do coeficiente de correlação de Spearman, foi possível verificar uma correlação positiva e estatísticamente significativa entre o domínio social da Qualidade de Vida e a esperança, o que indica que quanto maior esperança melhor é a perceção de Qualidade de Vida no domínio social (Tabela 4). Tabela 4 - Correlação de Spearman entre as subescalas em estudo Domínio global

Domínio Domínio físico psicológico

Domínio Domínio ambiental social

Crenças

-0,092

0,044

0,180

0,248

0,000

Esperança

0,157

0,261

0,283

0,120

0,340*

Espirituali- 0,079 dade

0,191

0,263

0,187

0,248

*Correlação significativa a 0,05

DISCUSSÃO Quanto à Qualidade de Vida, os domínios físico, psicológico, ambiental e das relações sociais são índices importantes para a perceção de Qualidade de Vida da pessoa idosa. Todos eles apresentam valores aproximados, sugerindo os resultados, de um modo geral, que estes idosos percecionam uma Qualidade de Vida razoável, sendo o domínio psicológico aquele que apresenta o valor mais elevado e o domínio ambiental o valor mais baixo. Alguns estudos efetuados neste âmbito (Netuveli & David, 2008; Irigary & Trentini, 2009; Lima, Lima, & Ribeiro, 2010; Cimirro, Rigon, Vieira, Pereira, & Creutzberg, 2011) também fazem referência à importância destes domínios para a Qualidade de Vida dos mais velhos. No presente estudo, o domínio ambiental obteve a pontuação mais baixa da Qualidade de Vida. Este domínio engloba questões de segurança física, ambiente no lar, recursos económicos, cuidados de saúde e sociais, oportunidades de adquirir novas informações e competências, participação e/ou oportunidades de recreio e lazer, ambiente físico e transporte. O facto de o domínio ambiental apresentar o valor mais baixo pode estar relacionado com o facto de a instituição assumir, em muitos casos o controlo de diversos aspetos da vida da pessoa idosa, entre eles, os cuidados de que necessita de uma forma competente, humana e atempada, e o direito à liberdade religiosa e espiritual (Ferreira, 2009). Com os resultados obtidos neste estudo foi possível conhecer a importância da dimensão espiritual para estes idosos, com a subescala crenças a apresentar um valor médio total (3,51) um pouco superior à da subescala esperança (2,96), o que indica que estes idosos têm mais crença que esperança, sendo então as crenças religiosas/espirituais, a relação com a fé e o transcendente mais valorizadas por este grupo de idosos.


Este facto vai ao encontro dos pressupostos que estiveram na base da construção do instrumento de avaliação da espiritualidade utilizado neste estudo, referindo Pinto e Pais-Ribeiro (2007) que uma grande parte das pessoas atribui o conceito de Espiritualidade à fé religiosa. A importância da dimensão espiritual/religiosa pode ter na sua génese razões de ordem cultural. Numa sociedade com raízes judaico-cristã é notória a marcada prática religiosa (Pinto & Pais-Ribeiro, 2007). No entanto, este dado pode indicar que as crenças religiosas/espirituais se assumem como um mecanismo de adaptação a circunstâncias adversas da vida. Acreditar num ser superior, que escapa à perceção dos sentidos, numa entidade protetora auxiliadora de momentos que podem gerar algum tipo de stress, pode constituir-se como uma experiência adaptativa (Silva, 2005). Também para Pinto e Pais-Ribeiro (2007), a espiritualidade apresenta-se como uma estratégia de coping, a forma como as pessoas utilizam a sua fé e as suas crenças pode ajudá-las a superar diversas situações, entre elas as menos positivas. Estas situações podem emergir de alterações que vão surgindo no decorrer do processo de envelhecimento, como os sentimentos proporcionados pela mudança para uma nova situação de vida ou ainda perante um estado de doença, entre outros. Perante os resultados encontrados torna-se evidente a importância da dimensão espiritual no ser humano. Embora seja moderada, é verificada uma correlação positiva e estatisticamente significativa entre o domínio social da Qualidade de Vida e a subescala esperança, o que indica que quanto maior a esperança melhor é a perceção de Qualidade de Vida no domínio social. A capacidade de esperança e otimismo perante a vida parece relacionar-se com a perceção de Qualidade de Vida, até porque a Espiritualidade se apresenta como uma dimensão capaz de mobilizar energias e iniciativas extremamente positivas, com potencial cientificamente reconhecido para melhorar a Qualidade de Vida dos indivíduos (Saad, Masiero, & Batistela, 2001).

CONCLUSÃO Parece fundamental considerar que em idades avançadas a inquietude desencadeada pelo confronto com a possibilidade de finitude, faz com que haja um maior desenvolvimento da Espiritualidade, que por sua vez tende a envolver sentimentos de gratidão pela vida, bem como esperança que facilita o confronto com os desafios impostos pelo processo de envelhecimento. Os idosos estudados apresentam de um modo geral uma Qualidade de Vida razoável, não se demostrando relações com aspetos sociodemográficos, nomeadamente o género, grupo etário, escolaridade e também a prática religiosa. O mesmo não acontece em relação aos aspetos relacionados com o estado de saúde, verificando-se que os idosos saudáveis apresentam valores médios de Qualidade de Vida superiores. Pelo contrário, os idosos doentes parecem apresentar valores médios de Espiritualidade e crenças superiores. A esperança demostrou ser uma variável importante pela sua ação moderadora, no domínio social da Qualidade de Vida do idoso residente em lar, observando-se uma correlação positiva e estatísticamente significativa entre a dimensão social da Qualidade de Vida e a dimensão horizontal (esperança) da Espiritualidade. Assim sendo, torna-se pertinente considerar a dimensão espiritual como um aspeto relevante para a Qualidade de Vida dos idosos, uma vez que as pessoas que perspetivam uma melhor Qualidade de Vida são aquelas que também têm mais esperança no futuro e o encaram com mais otimismo. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA É fundamental que se contemple na prestação de cuidados aos mais velhos que se encontram a residir em lar, a dimensão espiritual como parte integrante do processo desenvolvimental, tão importante como as dimensões biológica, psicológica e social. A Espiritualidade poderá ajudar a pessoa idosa a gerir o seu processo de envelhecimento, muitas vezes acompanhado de situações desencadeadoras de stress, reduzindo a sensação de controlo e esperança que muitas vezes uma situação de institucionalização pode causar, contribuindo de forma positiva para o percurso de um envelhecimento bemsucedido.

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O CUIDADOR FAMILIAR NO OLHAR DA PESSOA COM DEPRESSÃO | Maria de Fátima Marques 1; Manuel José Lopes2 |

RESUMO CONTEXTO: O papel de cuidador assumido pelo familiar nem sempre é bem aceite pela pessoa que vive depressão, o que tem repercussões na vida familiar, principalmente nas relações interpessoais. OBJETIVOS: Caraterizar a depressão na perspetiva de quem a vive; Caraterizar o papel de cuidador familiar na perspetiva do doente; Descrever reações do doente na relação com os cuidadores familiares. METODOLOGIA: Desenho de natureza qualitativa e indutiva com recurso à Grounded Theory. Seleção de participantes, não probabilística intencional. Realização de entrevista semiestruturada. RESULTADOS: A pessoa deprimida identifica o início, causas, caraterísticas e manifestações da doença. A depressão é vivida de forma intimista pelo doente, desenvolvendo estratégias de enfrentamento e de gestão da sua situação clinica. Na perspetiva do doente, o familiar falha o papel de cuidador por controlo excessivo, falta de compreensão, incapacidade para escutar, chantagem emocional e por vezes agressividade verbal. A pessoa deprimida não reconhece capacidade ao familiar para o ajudar, não o aceita como cuidador, ignora as suas intervenções e conselhos, e o seu sentimento de solidão aumenta. CONCLUSÕES: Quando há uma pessoa com depressão na família, os familiares constroem o papel de cuidador na interação quotidiana e as estratégias de cuidados desenvolvem-se de modo reativo em função do comportamento do doente, adquirindo contornos particulares de conteúdo nem sempre adequado à situação de saúde vivida pela pessoa. O doente não se sente cuidado e não reconhece o familiar como parceiro ativo no seu processo de recuperação. PALAVRAS-CHAVE: Pessoa deprimida; Cuidador familiar; Depressão

RESUMEN

ABSTRACT

“‘El cuidador familiar visto por la persona con depresión”

“‘The family caregiver in the eyes of the person with depression ”

CONTEXTO: El papel de cuidador asumido por la familia no siempre es bien aceptado por la persona que vive la depresión, lo que tiene un impacto en la vida familiar, especialmente en las relaciones interpersonales. OBJETIVOS: Caracterizar la depresión en la perspectiva de quien la vive; Caracterizar el papel del cuidador familiar en la perspectiva del paciente; Describir las reacciones del paciente en la relación con los cuidadores familiares. METODOLOGÍA: Investigación de naturaleza cualitativa y inductiva, usando la Teoría Fundamentada. Selección de participantes por muestra no probabilista intencional. Entrevistas semiestructuradas. RESULTADOS: La persona deprimida identifica el comienzo, causas, características y manifestaciones de la enfermedad. La depresión es vivida de forma muy íntima por el paciente, desarrollando estrategias para hacer frente a la enfermedad. En la perspectiva del paciente, el familiar falla el rol de cuidador por falta de comprensión, incapacidad para escuchar, chantaje emocional y a veces agresión verbal. El paciente no reconoce capacidad al familiar para ayudar, no lo acepta como cuidador, ignora sus intervenciones y consejos y por eso su sentimento de soledad aumenta. CONCLUSIONES: Cuando hay una persona con depresión en la família, los familiares construyem el rol de cuidador en la interacción diaria. Las estrategias de cuidados se desarrollan de modo reactivo en función del comportamiento del paciente y el cuidado adquiere características particulares. El paciente no se siente cuidado y no reconoce el familiar como un compañero activo en su proceso de recuperación.

BACKGROUND: The caregiver role, taken by the relative, is not always welcomed by the person who suffers from depression, what has an impact in family life, mainly in interpersonal relations. AIM: To characterize depression in the eyes of those who live it; to characterize the family caregiver role in patient’s eyes; to describe patient’s reactions in his relation with family caregivers. METHODS: Qualitative and inductive nature investigation with the use of Grounded Theory. Intentional non-probability selection of participants. Carry out of a semi-structured interview. RESULTS: The depressed person identifies the beginning of the disease, its causes, characteristics and manifestations. The patient experiences depression in an intimate way, developing tackling and management of his clinical situation strategies. In his eyes, the relative fails its caregiver role due to excessive control, lack of understanding, incapacity to listen, emotional blackmail and, sometimes, verbal aggression. The depressed person does not believe his relative is capable of helping him, does not accept him as a caregiver, ignores all his advices and interventions and his feeling of loneliness increases. CONCLUSIONS: When there is someone in family who suffers from depression, relatives build the role of caregiver in everyday interaction, and caregiving strategies get developed in a reactive way, according to patient’s behavior, acquiring particular outlines of content that, sometimes, does not fit patient’s health condition. The patient feels uncared-for and does not recognize his relative as an active partner in his recovery process.

DESCRIPTORES: Persona deprimida; Cuidador familiar; Depresión

Submetido em 30-09-2014 Aceite em 14-01-2015

KEYWORDS: Depressed person; Family caregiver; Depression

1 Mestre em Ecologia Humana; Professora Adjunta na Universidade de Évora, Escola Superior de Enfermagem S. João de Deus, Departamento de Enfermagem, mfm@uevora.pt 2 Doutor em Enfermagem; Professor Coordenador na Universidade de Évora, Escola Superior de Enfermagem de S. João de Deus, 7000 Évora, Portugal, mjl@uevora.pt Citação: Marques, M. & Lopes, M. (2015). O cuidador familiar no olhar da pessoa com depressão. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 51-56 Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 51


INTRODUÇÃO De acordo com algumas publicações, (Organización Mundial de la Salud [OMS], 2013; World Health Organization [WHO], 2004), as doenças mentais representam 13% do total de todas as doenças no mundo, sendo previsível que alcancem os 15% em 2020; na Europa, representam cerca de 26,6% (Xavier, Baptista, Mendes, Magalhães e Almeida, 2013) e, em Portugal, 22,9% da população teve uma perturbação psiquiátrica ao longo do ano (Programa Nacional Saúde Mental [PNSM] e Direção de Serviços Informação e Análise [DSIA], 2013; Observatório Português dos Sistemas de Saúde [OPSS], 2014), representando o segundo valor de prevalência anual mais elevado de entre um conjunto de 10 países europeus (Faculdade de Ciências Médicas/Universidade Nova de Lisboa [FCM/UNL], 2013). Olhando os dados disponíveis nos diversos documentos, é possível constatar que, de entre as perturbações psiquiátricas, a depressão representa 4,3% da carga mundial de morbilidade e encontra-se entre as principais causas mundiais de incapacidade, representando 11% do total mundial de anos vividos nessa condição (OMS, 2013). Em Portugal, as perturbações do humor ocupam o segundo lugar de prevalência anual mais elevada com 7,9%, e, dentro destas, a perturbação depressiva major lidera com 6,8%, sendo a terceira mais elevada no universo de 10 países europeus (FCM/UNL, 2013; Miguel e Sá, 2010; OPSS, 2014; PNSM e DSIA, 2013). Atualmente classificada como uma perturbação do humor, pela American Psychiatric Association (APA, 2002) e pela WHO (2010), a depressão é suficientemente heterogénea para ser dividida em subtipos, de acordo com a intensidade, número, tempo e especificidade dos sintomas (Hegadoren, Norris, Lasiuk, Silva, & Chivers-Wilson, 2009), tornando-se assim multifacetada e abrangente. Fenómeno de caráter universal, a depressão pode afetar indivíduos de ambos os sexos, de qualquer idade, classe social, nível de instrução, nível cultural, religião e ideologia (Silva et al.,2012), afetando não só a pessoa doente mas todo o seu contexto relacional, originando alterações na dinâmica pessoal, familiar e social (Marques, 2009). Com a publicação da Lei de Saúde Mental (Lei 36/98 de 24 de julho), verificou-se uma alteração do modelo assistencial de referência (PNSM e DSIA, 2013), priorizando a promoção da prestação de cuidados de saúde mental a nível da comunidade, de forma a manter o doente no seu meio habitual e a facilitar a sua reabilitação e inserção social, de modo a que os cuidados sejam prestados no meio menos restrito possível. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 52

Assim sendo, o internamento é considerado um recurso de última linha e como tal, é no contexto familiar e social que a pessoa vive a sua depressão. Consequência desta realidade, surgem mudanças na dinâmica familiar que obrigam a redefinir funções, papeis e tarefas entre os seus membros, e os familiares são confrontados com a necessidade de proporcionar apoio físico e psicológico, suportando juntamente com o doente, o impacto da depressão (Silva, Hoga & Stefanelli, 2004). De modo quase natural, o papel de cuidador é assumido pelo familiar, que muitas vezes se confronta com uma situação desconhecida e para a qual não está preparado. Esse papel não é passivo e tem consequências importantes na vida da família, nomeadamente nas relações que se estabelecem entre o familiar cuidador e a pessoa que vive a depressão (Ballester, 2006; Marshall & Harper-Jaques, 2008; Silva, Hoga, & Stefanelli, 2004). Com a finalidade de compreender um pouco melhor o que anteriormente dissemos, formulámos a questão: - Como é que a pessoa com depressão vê o cuidador familiar? Como objetivos da pesquisa, pretendemos caraterizar a depressão na perspetiva de quem a vive; Caraterizar o papel de cuidador familiar na perspetiva do doente e descrever as reações do doente na relação com os cuidadores familiares. METODOLOGIA O desenho de investigação é de natureza qualitativa, a qual é adequada para compreender os detalhes de fenómenos como sentimentos, processos de pensamento e emoções difíceis de mensurar (Strauss & Corbin, 2002). De acordo com o desenho de investigação utilizámos a Grounded Theory como método estruturante da pesquisa, na medida em que, a partir dos dados recolhidos em campo, propõe gerar conhecimento, aumentar a compreensão da realidade estudada e proporcionar um guia significativo para a ação (Strauss & Corbin, 2002), não privilegiando a análise dos dados em função de teorias pré-existentes (Fortin, 1999). Tendo por finalidade a teorização do não conhecido, ou a teorização do já conhecido mas que requere novas abordagens, a Grounded Theory carateriza-se por três elementos básicos, nomeadamente, os conceitos, as categorias e as preposições (Lopes, 2003). Através da análise dos dados são descobertas as categorias e as suas caraterísticas, bem como a relação destas com as subcategorias e com a categoria central (Lopes, 2003, p. 68), recorrendo para tal ao processo de codificação.


O processo de codificação é de três tipos, codificação aberta, axial e seletiva. Na codificação aberta, os conceitos são identificados nos dados através de um processo analítico, para posteriormente serem agrupados em categorias (Lopes, 2003). Na codificação axial, as categorias, de acordo com as suas propriedades e dimensões, relacionam-se entre si e com as suas subcategorias através de afirmações (preposições), que demonstram as conexões entre elas e a forma como estão relacionadas (Lopes, 2003). Por fim, a codificação seletiva permite agregar e refinar a teoria gerada. Este processo ocorre à volta da categoria central, a qual representa o tema principal de toda a investigação (Strauss & Corbin, 2002). O trabalho de campo decorreu durante os meses de fevereiro e julho de 2009, em 2 polos das consultas externas do departamento de psiquiatria e saúde mental do Hospital do Espírito Santo E.P.E. de Évora, localizados em duas cidades distintas do mesmo distrito. A seleção dos participantes foi feita por amostragem não probabilística intencional obedecendo aos seguintes critérios: ser adulto e/ou idoso com diagnóstico clinico de depressão; residir com familiares; ter capacidade cognitiva que permitisse a recolha coerente de informação e aderir à participação voluntária no estudo. Assim, aquando da ida à consulta, e após verificação do diagnóstico médico (critério de seleção), foram abordados e convidados a participar no estudo treze doentes, dos quais, somente oito (um homem e sete mulheres) acederam a participar. Foi revelado a cada um a finalidade e objetivos da pesquisa, foram respeitados todos os procedimentos éticos que a mesma exigia e os participantes preencheram o consentimento informado. A recolha de informação foi feita através de entrevistas narrativas semiestruturadas, as quais foram gravadas em formato áudio com recurso ao gravador e transcritas integralmente. Por opção dos participantes, todas as entrevistas ocorreram em contexto domiciliário em dia e hora por eles definidos, tendo em conta as suas disponibilidades. Salientamos o facto de que os resultados apresentados se referem unicamente à codificação aberta e axial. RESULTADOS

Quadro 1 - Categorias e subcategorias Categorias

Subcategorias

Vivência da depressão Narrativa do processo de adoecer A depressão e eu Experiência de ser cuidado pelo familiar

Ler o familiar que cuida Eu na relação com o familiar que cuida

A categoria Vivência da Depressão é caraterizada pela narrativa de todo o processo de adoecer e pela relação que se estabelece entre a pessoa doente e a depressão. Narrativa do processo de adoecer. Para o doente, a depressão é considerada uma doença multifacetada que domina todo o quotidiano. O seu início é claramente identificado em determinado momento do seu percurso de vida, embora seja descrita como algo que se impõe de forma progressiva e não repentina. O tempo de doença varia entre os 4 e 20 anos, sendo que a maioria dos participantes vive uma situação de depressão há mais de 15 anos, intervalados por períodos de crise graves, algumas das quais com necessidade de internamento. Na origem da depressão estão acontecimentos de vida traumáticos, relacionados maioritariamente com perdas de familiares por morte e consequente luto mal vivido. Os conflitos familiares por divórcio, partilha de bens, mau relacionamento com os filhos ou outros familiares de primeira linha, são aspetos também referidos, bem como os conflitos laborais e a ausência de trabalho remunerado. A depressão é referida como “uma doença da cabeça” (Dt 2, Dt 6), que não se vê mas sente-se. É inconstante e imprevisível, e muda de tal modo a pessoa, que por vezes ela deixa de saber quem é. As suas manifestações são variadíssimas mas convergem em torno das alterações somáticas, de comportamento e de gestão das atividades de vida. Cefaleias, anorexia, perturbações do sono, tristeza, choro fácil, irritabilidade, agressividade, medos, anedonia, adinamia, incapacidade para gerir o quotidiano e perda do sentido de viver, caraterizam as narrativas dos participantes revelando o sofrimento de viver uma depressão.

Após a codificação aberta, de acordo com os procedimentos da Grounded Theory e com recurso ao programa informático NVivo 8, chegamos à codificação axial a qual permitiu identificar duas categorias, cada uma das quais com duas subcategorias como expresso no Quadro 1.

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A depressão e eu. Entre o doente e a depressão estabelece-se uma relação profundamente intimista e fechada, o que justifica o comportamento solitário da pessoa deprimida e a recusa em partilhar com os outros os seus sentimentos e emoções. A situação de saúde é vivida a dois (depressão e doente), impedindo a entrada de quem quer ajudar, “porque só compreende a depressão, quem já a teve”(Dt 4). Durante a vivência desta relação, o doente desenvolve estratégias de enfrentamento, através da autoaprendizagem com recurso a enciclopédias ou informação disponível na internet, procurando conhecer os sintomas e o prognóstico. Também este processo de busca de conhecimento é solitário, não procurando numa fase inicial, a ajuda dos técnicos de saúde. Quando sente que perdeu o controle total sobre a sua situação de saúde, fase em que pode surgir a tentativa de suicídio, permite a intervenção da família no encaminhamento, ou procura ajuda especializada por si próprio - “bati no fundo de mim mesmo, tive que pedir socorro a quem podia e sabia ajudar” (Dt 5). Uma vez medicado, é frequente o doente fazer uma gestão inadequada da prescrição, alterando as dosagens devido à ausência de resultados imediatos na sua situação de saúde, ou devido aos efeitos secundários sentidos. A medicação indutora do sono é muito apreciada gerando habitualmente situações de dependência – “sem aqueles é que eu não posso passar. Se os deixo…, nem fecho os olhos” (Dt 1); “os comprimidos para dormir vão ser para sempre, não posso passar sem eles” (Dt 8). À medida que a relação entre o doente e a depressão se torna mais aberta e permeável aos outros, os sentimentos surgem, revelando desalento e tristeza pela situação a que chegou, mas também confiança e esperança, manifestando desejo em melhorar e acreditando que é capaz de retomar a sua atividade diária. A categoria Experiência de Ser Cuidado pelo Familiar é caraterizada pela leitura que o doente faz do comportamento do familiar, procurando interpretá-lo na maioria das vezes de forma negativa, bem como da descrição que faz da relação que se estabelece entre ambos. Ler o familiar que cuida. Ao ser cuidado pelo familiar, o doente interpreta e atribui um significado à sua forma de agir. Faz leituras do seu comportamento e posiciona-se de forma crítica avaliando o seu desempenho. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 54

De acordo com a sua conceção de cuidado, sente que o familiar não consegue desempenhar o papel de cuidador. Para fundamentar o seu sentimento de não se sentir cuidado, acusa o familiar de não compreender a sua inatividade e a sua tristeza – “não me deixa estar deitada, não percebe que não sou capaz de nada?” (Dt 4); “não sou senhora de dormir até ao meio dia” (Dt 5). Na leitura do doente, o familiar faz chantagem emocional obrigando-o a realizar atividades quotidianas, sobre a ameaça de abandonar o lar ou levar os filhos para casa de familiares – “disse-me que a próxima vez que chegar a casa e não houver almoço, vai para casa da mãe dele e leva os miúdos. É pra me assustar” (Dt 3). O diálogo é escasso, e, quando existe, termina frequentemente em discussões, nas quais o doente sente que é culpabilizado pela sua situação clinica e pela perturbação do ambiente familiar. A indiferença, a incapacidade para escutar e a falta de paciência são referidos pelo doente como habituais no comportamento do familiar, bem como o controle excessivo sobre algumas das atividades diárias do doente, como é o caso da higiene, alimentação e repouso – “obriga-me a comer, que às vezes até tenho vómitos” (Dt 1); “ a semana passada ficou na casa de banho, para ver se eu me lavava” (Dt 3). O doente reconhece que o familiar faz um esforço para cuidar, mas considera que todas as tentativas são fracassadas – “eu acho que ele até tenta ajudar, mas depois atira-me isso à cara” (Dt 7); “às vezes arruma a cozinha… mas vê-se que está a fazer frete” (Dt 6). Eu na relação com o familiar que cuida. A relação entre o doente e o familiar cuidador é pautada por distanciamento e falta de confiança uma vez que o doente não reconhece capacidade ao familiar para ajudar. Ignora as suas intervenções e os seus conselhos, considerando que o seu comportamento é autoritário e só agrava o seu estado de saúde – “não sei quem é que ele pensa que é para me dar ordens. Qualquer dia ainda faz com que eu perca a cabeça” (Dt 6). O doente sente-se perdido e sem saber o que fazer nem em quem confiar – “os de casa são os piores, em vez de ajudar só fazem mal” (Dt 7). O relacionamento entre eles degrada-se e o doente isola-se evitando o diálogo, sendo o silêncio a estratégia de comunicação mais utilizada. O doente não compreende o familiar nem sabe o que ele pensa sobre a sua situação de saúde. Assume uma posição defensiva e fecha-se sobre si mesmo, incapaz de confiar no familiar, que tenta desenvolver estratégias (as que consegue) para cuidar.


DISCUSSÃO Conhecida desde tempos remotos, embora com denominações diferentes, a depressão, como hoje é designada, tem estado sempre ligada à condição humana e à sua história, exercendo um impacto negativo na vida do sujeito, favorecendo o relacionamento familiar problemático, o comprometimento social e a perda de autoconfiança e autoestima (Parker, Paterson, Fletcher, Hyett & Blanch, 2012). Confirmando os dados apresentados que estruturam a vivência da depressão, Alonso-Fernandez (2010), afirma que a depressão não é uma doença súbita, mas surge de forma insidiosa e progressiva, invadindo o quotidiano do individuo e apropriando-se da sua energia vital de tal modo que o início da doença é vivido de forma solitária, ensimesmada, sem que a pessoa consiga descrever, de forma clara, o sofrimento ocasionado pelas primeiras manifestações sintomáticas. Refém de uma patologia que ainda desconhece, a pessoa pode viver meses ou anos num estado de tristeza e adinamia oscilante que vai atribuindo aos contextos de vida, esperando que passe com o tempo, camuflando assim a procura de ajuda técnica e/ou especializada, enquanto contamina toda a sua vida de relação familiar, social e laboral. Algumas pessoas com depressão sentem que podem lidar sozinhas com o problema ou acreditam que na realidade não precisam de ajuda (Clement et al., 2014). Quando a doença surge, é no seio da família que a alteração do comportamento da pessoa com depressão se faz sentir de modo mais intenso, pelo abandono das tarefas e papéis que tinha a seu cargo, pela inércia de atitude, e principalmente, pela marcada transformação das relações que acontecem no ambiente intrafamiliar (Silva, Hoga & Stefanelli, 2004; Marshall & HarperJaques, 2008). De toda esta problemática, emerge o papel de cuidador familiar procurando dar resposta às necessidades da pessoa com depressão. No entanto, para Feitosa, Bohry, & Machado (2011), a maior parte dos familiares não tem conhecimento suficiente para fornecer assistência necessária ao doente, causando sofrimento em ambas as partes, o que está de acordo com os dados referidos na experiência de ser cuidado pelo familiar. Tendo em conta o caráter insidioso da depressão (Alonso-Fernandez, 2010), coadjuvar no processo de cuidados, implica que o familiar se torne cuidador através de um processo que se vai adotando ao longo da vida, muitas vezes de forma inconsciente, progressiva, resultante na maioria das vezes, de uma adaptação à situação familiar (Parker, Paterson, Fletcher, Hyett & Blanch, 2012).

Para Borba et al. (2011), viver com uma pessoa com depressão representa um verdadeiro desafio, que envolve sentimentos inerentes à vivência de um acontecimento não esperado, bem como o confronto com os próprios preconceitos relacionados com a doença e as suas exigências. A transformação que ocorre na pessoa que vive uma situação de depressão impede-a de considerar os que a rodeiam, assumindo uma postura de predominância egocêntrica, não porque queira, mas porque está doente e é incapaz de agir de outro modo, Alonso-Fernandez (2010). Assim sendo, a forma como ela vê o cuidador familiar é profundamente influenciada por essa postura, impossibilitando a compreensão do comportamento do familiar e a consequente rejeição das suas atitudes de índole cuidativas. Deste modo, e uma vez que a depressão é na maioria dos casos vivida em contexto domiciliário, tal circunstância poderá constituir uma sobrecarga que compromete a estabilidade e vida familiar, bem como significar um fator não abonatório da recuperação do doente CONCLUSÃO Quando há uma pessoa com depressão na família tudo se altera e os familiares mudam, construindo o papel de cuidador na interação quotidiana. As estratégias de cuidados desenvolvem-se de modo reativo em função do comportamento do doente, adquirindo contornos particulares de conteúdo nem sempre adequado à situação de saúde vivida. A relação entre o doente e a depressão é muito intimista e o familiar não faz parte ela. O doente não se sente cuidado, nem reconhece o familiar como parceiro ativo no seu processo de recuperação. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Da análise dos dados apresentados, é possível verificar que na relação entre o familiar que cuida e a pessoa com depressão, existe um fosso relacional, marcado pelo não reconhecimento do familiar pelo doente, como elemento importante no seu processo de recuperação. Tendo em conta a função de ajuda e de educação, inerente à prática clinica de enfermagem, o enfermeiro tem um papel fundamental como mediador, não só no conflito, mas também no ensino de estratégias de comunicação e no ensino do que é a depressão, as suas manifestações, tratamento e prognóstico. Se o enfermeiro conhecer as dificuldades do doente e os seus sentimentos face ao familiar cuidador, poderá intervir e planear conjuntamente com o doente e o seu familiar, intervenções psicoeducacionais, que contribuam para o bem-estar da família, de modo a que o lar seja um espaço terapêutico. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 55


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10 VULNERABILIDADE AO STRESS E QUALIDADE DE VIDA EM

FAMILIARES DE PESSOAS COM ALCOOLISMO | Olga de Sousa Valentim1 ; Célia de Brito Santos2; José Luís Ribeiro3 |

RESUMO CONTEXTO: A convivência dos familiares com uma pessoa com alcoolismo pode ser vista como uma situação de stress, devido à imprevisibilidade do seu comportamento e às dificuldades económicas e às situações de abuso verbal e físico que coocorrem. Aborda-se o conceito de Vulnerabilidade ao Stress (VS), pois cada pessoa reage de forma diferente ao mesmo problema e o enfermeiro, ao conhecer essa vulnerabilidade, poderá intervir de forma mais eficiente, contribuindo para uma melhor Qualidade de Vida (QV). OBJETIVO(S): Descrever a VS e a sua relação com a QV em familiares de pessoas com alcoolismo. Pretendemos identificar algumas intervenções de enfermagem que permitam uma melhoria da QV desses familiares. METODOLOGIA: Estudo transversal, descritivo e correlacional. Aplicámos os questionários de Vulnerabilidade ao Stress (23QVS) e de Estado de Saúde (SF-36V2) a 200 familiares de pessoas com dependência alcoólica, diagnosticada há, pelo menos, um ano. RESULTADOS: A amostra foi essencialmente composta por mulheres, casadas e empregadas. Os familiares mostraram-se, de uma forma geral, pouco vulneráveis ao stress (M=39,92; DP=13,15). A VS estava associada a uma maior idade e a uma menor escolaridade. Nos diferentes domínios da escala de QV, o maior comprometimento ocorreu na Vitalidade (M=50,30; DP=21,51) e na Saúde Mental (M=56,78; DP=22,94). CONCLUSÕES: Os dados sugerem que a VS está associada a uma pior perceção da QV, mostrando, portanto, a necessidade das intervenções de enfermagem terem como objetivo ajudar os familiares a gerir o stress e promoverem uma maior resiliência. PALAVRAS-CHAVE: Vulnerabilidade em saúde; Qualidade de vida; Família; Alcoolismo

RESUMEN

ABSTRACT

“Vulnerabilidad al estrés y calidad de vida de los familiares de personas con alcoholismo”

“Vulnerability to stress and quality of life in relatives of people with alcoholism”

La convivencia de los familiares con una persona con alcoholismo puede vivirse como una situación estresante, debido al carácter imprevisible del comportamiento Y a las dificultades económicas. Abordamos el concepto de vulnerabilidad al estrés (VE), ya que cada persona reacciona de formas diferentes ante el mismo problema. El personal de enfermería, al conocer esa vulnerabilidad, podrá intervenir de una forma más eficiente, lo que contribuirá a mejorar la calidad de vida (CV). OBJETIVOS: Conocer la VE y su relación con la CV en familiares de personas con alcoholismo. Pretendemos identificar intervenciones del personal de enfermería que permitan mejorar la CV de los familiares. METODOLOGÍA: Estudio de carácter transversal, descriptivo y correlacional. Se presentaron los cuestionarios de vulnerabilidad al estrés (23 QVS) y del estado de salud (SF-36V2) a 200 familiares de personas con dependencia alcohólica diagnosticada como mínimo hace un año. RESULTADOS: La muestra estaba fundamentalmente integrada por mujeres casadas y en activo. Por lo general, los familiares se mostraron poco vulnerables al estrés (M=39,92; DP=13,15). Se observó que la VE estaba asociada a personas de más edad y con menor formación académica. En la escala CV, los aspectos más afectados fueron la vitalidad (M=50,30; DP=21,51) y la salud mental (M=56,78; DP=22,94). CONCLUSIONES: Los datos obtenidos indican que la VE está asociada a una peor percepción de la CV, con la necesidad de las intervenciones del personal de enfermería para ayudar a los familiares a gestionar el estrés y una mayor recuperación.

The coexistence of relatives with a person with alcoholism may be seen as a situation of stress due to the unpredictability of their behaviour, economic difficulties and concurrent situations of verbal and physical abuse. This study addresses the concept of Vulnerability to Stress (VS), as each person reacts differently to the same problem and, where nursing staff become aware of this vulnerability, they may be able to intervene more efficiently, contributing to a better Quality of Life (QoL). OBJECTIVE(S): To find out about VS and its relationship with QoL in relatives of people with alcoholism. We intend to identify some nursing interventions that may improve the relatives’ QoL. METHODOLOGY: Cross-sectional, descriptive and correlational study. We applied the Vulnerability to Stress (23QVS) and Health Status (SF36V2) questionnaires to 200 relatives of people with alcohol dependence who were diagnosed at least one year ago. RESULTS: The sample was composed primarily of married and employed women. In general, the relatives showed little vulnerability to stress (M=39.92; SD=13.15). VS was associated with greater age and lower level of education. In the different domains of the QoL scale, vitality (M=50.30, SD=21.51) and mental health (M=56.78, SD=22.94) were most compromised. CONCLUSIONS: The data suggest that VS is associated with a worse perception of QoL, therefore showing the need for nursing interventions to be directed towards helping relatives to manage stress and promote greater resilience.

DESCRIPTORES: Vulnerabilidad en salud; Calidad de vida; Familia; Alcoholismo

KEYWORDS: Health vulnerability; Quality of life; Family; Alcoholism

1 MsC em Terapias Cognitivas e Comportamentais; Doutoranda em Enfermagem na UCP; Enferm. Espec. no ACES Lisboa Norte, UCSP de Benfica, ommvalentim@gmail.com 2 Professora Coordenadora na Escola Superior de Enfermagem do Porto, 4200-072 Porto, Portugal, celiasantos@esenf.pt 3 Professor Associado na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, Departamento de Psicologia, Porto, Portugal, jlpr@fpce.up.pt Submetido em 30-09-2014 – Aceite em 20-01-2015 Citação: Valentim, O., Santos, C., e Ribeiro, J. L. P. (2015). Vulnerabilidade ao stress e qualidade de vida em familiares de pessoas com alcoolismo. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 57-62. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 57


INTRODUÇÃO Portugal apresenta, entre os países da União Europeia, um dos maiores consumos de bebidas alcoólicas e uma maior prevalência de problemas ligados ao álcool (Balsa, Vital, Urbano e Pascueiro, 2011). O alcoolismo, também denominado Síndrome de Dependência do Álcool (SDA), é considerado uma doença crónica, multifatorial, que se deteta quase sempre numa fase já tardia, devido ao seu curso insidioso e prolongado. Além disso, tem implicações físicas, psicológicas, sociais, profissionais e familiares (Kiritzé-Topor & Bénard, 2007). Um conjunto de pesquisas tem documentado o impacto da SDA na vida dos familiares, em que a Qualidade de Vida (QV) diminui quando estes têm de enfrentar as consequências da SDA (Fleck, 2008). Porém, o impacto do álcool sobre as pessoas que convivem com alguém com SDA é uma área considerada ainda como pouco estudada (Casswell, You & Huckle, 2011). A QV é descrita como um conceito dinâmico, multidimensional e a forma como é percebida não é a mesma para todas as pessoas (Fayers & Machin, 2007), sendo reconhecida em alguns estudos como uma medição de resultados que é importante para tomadas de decisões respeitantes aos recursos e à criação de programas, nomeadamente no tratamento de dependência do álcool (Luquiens, Reynaud, Falissard & Aubin, 2012). O alcoolismo, sendo uma situação de stress, coloca exigências significativas no que se refere aos recursos e capacidades de todos os membros da família ao lidarem com o problema. A qualidade da adaptação familiar a essa situação está dependente das estratégias pessoais que cada um tem para lidar com o stress, as quais, por sua vez, dependem da VS (Vaz-Serra, 2007). A vulnerabilidade do indivíduo é determinada não apenas pelo deficit de recursos, mas também pela sua perceção do acontecimento e pela importância que ele lhe atribui. A VS, no nosso estudo, é definida como o risco aumentado de se reagir de uma forma negativa perante um dado acontecimento de vida (Vaz-Serra, 2007). Os conceitos de vulnerabilidade e resiliência, embora distintos, encontram-se interligados. Segundo Assis, Avanci e Pesce (2006), quanto mais se desenvolver a resiliência, menor será a vulnerabilidade e vice-versa. No caso da família, a vulnerabilidade poderá ser explicada pela fraca capacidade desta se adaptar a novas situações, mostrando uma menor resistência a fatores de risco (biológicos, económicos, sociais ou psicossociais) (McCubbin, McCubbin, Thompson, Han, & Allen, 1997). Famílias resilientes são aquelas que evitam não apenas os efeitos negativos associados aos fatores de risco, mas que conseguem desenvolver também, muitas Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 58

vezes, competências específicas para lidar com os problemas (McCubbin & McCubbin, 1993). Assim, o presente estudo teve como objetivo descrever a VS e a sua relação com a QV, com a finalidade de identificar intervenções de enfermagem promotoras da resiliência com vista a melhorar a perceção de QV dos familiares de pessoas com SDA. METODOLOGIA Estudo transversal, descritivo e correlacional. Participantes: 200 familiares de pessoas com Síndrome de Dependência Alcoólica (SDA), tratando-se de uma amostra não probabilística, de conveniência. A amostra foi selecionada em serviços e/ou consulta de alcoologia em diferentes sub-regiões do País (Norte, Centro, e Lisboa e Vale do Tejo) e grupos de autoajuda. Considerámos como critérios de inclusão: idade igual ou superior a 18 anos; serem familiares de pessoas com diagnóstico clínico de SDA há, pelo menos, um ano; com capacidade de leitura e compreensão de português e que não apresentassem dependência alcoólica. Instrumentos: Questionário de caracterização sociodemográfica (idade, sexo, anos de escolaridade, situação profissional e conjugal, se tem e/ou vive com um familiar com SDA e se frequenta grupos de autoajuda) e informação clínica relativa ao familiar com SDA (inicio do consumo de álcool, tempo de diagnóstico de SDA e de abstinência, número de internamentos e de recaídas); Questionário de Vulnerabilidade ao Stress – 23QVS (Vaz-Serra, 2000), composto por uma escala tipo likert, com cinco possibilidades de escolha (de 0 a 4). Quanto mais alto for o valor da nota global, maior é a VS. Uma classificação de 43 representa o ponto de corte acima do qual uma pessoa se encontra vulnerável ao stress. No estudo de validação para a população portuguesa foi obtido um Alfa de Cronbach da escala global de 0,82 (Vaz-Serra, 2000) e, no presente estudo, de 0,86; Questionário de Estado de Saúde SF-36V2, validado para a população portuguesa por Ferreira (2000a, 2000b). É um questionário de autoadministração, constituído por 36 itens que avaliam a QV em oito dimensões do estado de saúde: Função Física, Desempenho Físico, Dor Corporal, Saúde em Geral, Vitalidade, Função Social, Desempenho Emocional e Saúde Mental. Os resultados das subescalas e componentes variam entre 0 e 100, sendo que os resultados mais elevados representam uma melhor QV.


Nos estudos de validação para a população portuguesa, o Alfa de Cronbach das subescalas situou-se entre α=0,60 e α=0,87, sendo que, no presente estudo, esses valores se situaram entre α=0,70 e α=0,94. Procedimentos: Respeitaram-se as normas éticas constantes da declaração de Helsínquia. Depois de obtida a autorização, por parte das Unidades de Alcoologia, dos grupos de autoajuda, dos autores das respetivas escalas e recolhido o consentimento informado dos participantes neste estudo, foram colhidos os dados entre outubro de 2008 e janeiro de 2010. Utilizámos a análise exploratória e descritiva dos dados, recorrendo ao Statistical Program for Social Sciences (SPSS), versão 20.0. Para a comparação de dois grupos independentes recorreu-se ao teste U de Mann-Whitney ou ao teste de Kruskal-Wallis sempre que, pelo menos, um grupo não apresentava distribuição normal (Marôco, 2011). Para o estudo da forma e intensidade da relação entre duas variáveis contínuas, recorreu-se ao coeficiente de correlação de Pearson. Os resultados são considerados significativos para um nível de significância de p≤0,05. RESULTADOS A amostra era maioritariamente do sexo feminino (72%, n=144), casados/união de facto (71%, n=142), trabalhadores, com uma média de 47 anos de idade (DP=14,66) e 8 anos de escolaridade (DP=4,32). Além disso, 61,5% (n=123) vivia com pessoas com alcoolismo e 60,0% (n=120) tinha, como antecedente familiar, uma pessoa com alcoolismo. A maioria dos inquiridos não frequentava grupos de autoajuda (57,5%, n=115). Relativamente à pessoa com SDA, os familiares responderam desconhecer a idade em que iniciou o consumo de álcool, que o diagnóstico da SDA tinha sido realizado há cerca de 14 anos (M=14,10; DP=10,07; ampl.=1-35), e que em média tinham tido um internamento (M=1,49; DP= 2,85; ampl.=0-24) e duas recaídas (M=2,08; DP=1,99; ampl.=0-10). Da análise da Tabela 1, verificamos que os familiares que constituíram a amostra são pouco vulneráveis ao stress (escala global) (M=39,92; DP=13,13), embora sejam vulneráveis relativamente ao Perfecionismo e Intolerância à Frustração, Subjugação e Dramatização da Existência. Quanto à QV, pode dizer-se que, em média, os familiares demonstraram uma perceção de QV positiva em todas as suas dimensões do SF-36. As subescalas, em que apresentam valores mais elevados, foram a Função Física (M=78,39; DP=23,43) e o Desempenho Físico (M=71,89; DP=25,85). Em contrapartida, as subescalas com maior comprometimento (embora ainda positivas) foram a Vitalidade (M=50,30; DP=21,51) e a Saúde Mental (M=56,78; DP=22,94).

Tabela 1 - Medidas descritivas da escala global e das subescalas do 23QVS e das subescalas do SF-36 Escalas e subescalas

N.º Mínimo/ M Itens Máximo

DP

23QVS Perfecionismo e intolerância à frustração Inibição e dependência funcional Carência de apoio social Condições de vida adversas Dramatização da existência Subjugação Deprivação de afeto e rejeição Escala global

6

0-24

14,06 4,60

5

0-20

6,59

3,83

2 2 3 3 3 23

0-8 0-8 0-12 0-12 0-12 0-92

2,61 3,73 6,32 7,19 4,04 39,92

1,92 2,42 2,34 3,19 2,56 13,13

10 4 2 5 4 2 3 5

0-100 0-100 0-100 0-100 0-100 0-100 0-100 0-100

78,39 71,89 65,49 61,04 50,30 66,99 70,79 56,78

23,43 25,85 28,75 20,90 21,51 25,82 27,46 22,94

SF-36 Função física Desempenho físico Dor corporal Saúde geral Vitalidade Função social Desempenho emocional Saúde Mental

Na comparação dos resultados da VS, de acordo com as várias categorias do estado civil, detetaram-se diferenças estatisticamente significativas na subescala Condições de Vida Adversas (χ2kw(3)=8,62, (p=0,035), verificando-se que os divorciados diferem dos solteiros (p=0,010) e dos casados (p=0,021), apresentando os divorciados uma menor capacidade para lidar com as adversidades da vida (Md=6,00) do que os casados (Md=3,50) e os solteiros (Md=3,00). A situação profissional influencia a VS dos familiares, pois observaram-se diferenças estatisticamente significativas relativamente à VS global (χ2kw(3)=12,52, p=0,006), ao Perfecionismo e Intolerância à Frustração (χ2kw(3)=24,19, p<0,0001), às Condições de Vida Adversas (χ2kw(3)=22,28, p<0,0001) e à Subjugação (χ2kw(3)=11,12, p=0,011) (Tabela 2). Entre as várias situações profissionais, destacam-se os familiares desempregados, apresentando estes valores mais elevados de VS relativamente às outras categorias profissionais.

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 59


Tabela 2 - Resultados do teste de Kruskal-Wallis, para comparação da vulnerabilidade ao stress entre as categorias da situação profissional 23QVS

Situação profissional

n

Md

Mínimo/ Máximo

Trabalhador Estudante Perfecionismo e intolerância Desempregado à frustração Reformado Total

109 13 22 38 182

13,00 11,00 17,00 15,00

2-23 6-17 13-24 5-24

Condições de vida adversas

Trabalhador Estudante Desempregado Reformado Total

111 13 24 39 187

3,50 2,50 6,00 3,00

0-8 0-6 0-8 0-8

Subjugação

Trabalhador Estudante Desempregado Reformado Total

116 13 24 39 192

7,00 5,00 7,50 8,00

1-16 1-8 0-16 1-14

Escala global

Trabalhador Estudante Desempregado Reformado Total

100 12 20 36 168

38,00 34,00 47,00 42,00

11-79 17-43 30-69 17-62

χ2

24,19

g.l.

p

Comparações múltiplas de Kruskal-Wallis

3

Trabalhador ≠ Desempregado (p<0,0001) <0,0001 Estudante ≠ Desempregado (p<0,0001) e ≠ Reformado (p=0,031) Desempregado ≠ Trabalhador (p<0,0001), <0,0001 ≠ Estudante (p<0,0001) e ≠ Reformados (p=0,002)

22,28

3

11,12

3

0,011

Estudante ≠ Trabalhador (p=0,020) e ≠ Desempregado (p=0,006)

12,52

3

0,006

Desempregado ≠ Estudante (p=0,004) e ≠ Trabalhador (p=0,043)

Os resultados da Tabela 3 demonstram que quanto maior a idade dos familiares, maior é a Subjugação. Também os familiares com maior escolaridade são menos vulneráveis ao stress em geral, menos submissos, sentem uma menor necessidade de perfecionismo e maior tolerância à frustração e referem ainda menos condições de vida adversa. Ainda quanto maior o tempo de dependência alcoólica do familiar, menor é o Perfecionismo e a Intolerância à Frustração. 23QVS

Tabela 3 - Correlação de Pearson, entre 23QVS, idade, anos de escolaridade e tempo de dependência alcoólica Idade Anos de escolaridade Tempo de diagnóstico (anos)

Perfecionismo e intolerância à frustração 0,12 -0,16* Inibição e dependência funcional -0,11 -0,12 Carência de apoio social -0,01 -0,10 Condições de vida adversas -0,07 -0,21** Dramatização da existência -0,01 -0,09 Subjugação 0,19** -0,23** Deprivação de afeto e rejeição -0,09 -0,10 Escala global 0,01 -0,21** *Correlações significativas ao nível de significância de 5%. ** Correlações significativa ao nível de significância de 1%.

-0,19* 0,04 -0,07 -0,15 -0,02 -0,04 -0,06 -0,10

Na avaliação das várias subescalas da VS e a escala global, entre os sexos e entre quem frequentava e quem não frequentava grupos de autoajuda, não se detetaram diferenças estatisticamente significativas (p>0,05). Face ao exposto na matriz de correlações apresentada na Tabela 4, de uma forma geral, encontramos correlações negativas entre as todas as dimensões da QV (SF-36) e as da VS e escala global (23QVS), indicando que os familiares das pessoas com SDA menos vulneráveis ao stress apresentam melhor perceção de QV em todas as suas dimensões. Tabela 4 - Correlação de Pearson entre SF-36 e 23QVS SF-36 Função física Desempenho físico Dor corporal Saúde geral Vitalidade Função social Desempenho emocional Saúde mental

23QVS PIF

IDF

CAS

CVA

DEx

Sub

DAR

Global

-0,26** -0,37** -0,32** -0,27** -0,27** -0,28** -0,28** -0,41**

-0,16* -0,32** -0,17* -0,35** -0,21** -0,14 -0,36** -0,32**

-0,15* -0,27** -0,04 -0,23** -0,16* -0,15* -0,15* -0,09

-0,25** -0,36** -0,23** -0,20** -0,35** -0,31** -0,23** -0,27**

-0,14 -0,21** -0,23** -0,25** -0,38** -0,26** -0,26** -0,45**

-0,38** -0,43** -0,26** -0,34** -0,28** -0,24** -0,28** -0,23**

-0,24** -0,46** -0,17* -0,30** -0,26** -0,26** -0,30** -0,24**

-0,34** -0,51** -0,30** -0,42** -0,41** -0,34** -0,38** -0,45**

*Correlações significativas ao nível de significância de 5%. ** Correlações significativas ao nível de significância de 1%. Legenda: global - Vulnerabilidade ao Stress global, PIF - Perfecionismo e Intolerância à Frustração, IDF - Inibição e Dependência Funcional, CAS - Carência de Apoio Social, CVA - Condições de Vida Adversas, DEx - Dramatização da Existência, Sub – Subjugação, DAR - Deprivação de Afeto e Rejeição Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 60


DISCUSSÃO O alcoolismo de um membro da família condiciona e limita, muitas vezes, a vida familiar, embora também possa funcionar como um organizador existencial para a família (Roussaux, Faoro-Kreit & Hers, 2002). Ao contrário do que se verificou no estudo de Valentim, Santos e Pais-Ribeiro (2014), sobre a VS em pessoas com alcoolismo, os familiares, em geral, são pouco vulneráveis ao stress e, apesar das consequências associadas à doença alcoólica, têm uma razoável perceção sobre a sua QV. Parece-nos que estes familiares desenvolveram alguma resiliência, que os capacitou a responderem de forma efetiva às exigências da vida quotidiana, ou, então, adaptaram-se e organizaram-se de acordo com a problemática da SDA. Contudo, sentem-se pior quando não são perfeitos naquilo que fazem e dedicam mais tempo às solicitações das outras pessoas do que às suas próprias necessidades (Perfecionismo e Subjugação). Os familiares apresentaram valores mais elevados de QV relativamente à Função e Desempenho Físico, o que significa que não apresentam problemas físicos graves, realizam todos os tipos de atividade física, sem quaisquer limitações por motivos de saúde. De notar que a maioria destas pessoas estão profissionalmente ativas. Porém, como era esperado, percecionam pior Vitalidade (menos energia) e menos Saúde Mental. Esta perceção pode estar relacionada com as tensões e a insegurança ocasionadas pelo comportamento da pessoa com SDA, que é, muitas vezes, negligente no que diz respeito às responsabilidades familiares (Roussaux et al., 2002). Tal como no estudo de Valentim e colaboradores (2014), também no presente estudo, o estar casado/união de facto e o estar empregado ou a estudar, poderão ser fatores protetores e promotores de resiliência. O domínio escolar é considerado importante para o desenvolvimento da resiliência (Assis et al., 2006). Os familiares com menos instrução parecem ser mais vulneráveis ao stress (escala global), os mais velhos poderão não pensar tanto nas suas necessidades, dedicando-se mais às solicitações das outras pessoas (Subjugação), e quanto maior é o tempo de dependência alcoólica, menor é a necessidade de aprovação por parte dos outros e maior a tolerância à frustração. Parece que, à medida que o tempo passa, os familiares vão-se adaptando ao problema do alcoolismo e vão sendo capazes de proporcionar o apoio necessário para desenvolver e sustentar os sentimentos de autoestima e autoconfiança dos seus membros, ou seja, tornando-se resilientes (McCubbin & McCubbin, 1993).

No que diz respeito ao estudo da relação entre a VS e a QV, verificámos que os familiares, que percecionavam de forma mais negativa a sua QV, eram mais vulneráveis ao stress, o que parece confirmar os resultados encontrados por alguns autores (Shyu, 2006; Valentim et al., 2014). CONCLUSÃO A SDA tornou-se um dos mais complexos problemas de saúde pública, pela progressão lenta e, por vezes, silenciosa da doença. No decorrer da doença, o impacto do diagnóstico, a convivência com a doença e o início do tratamento, constituem situações de stress que poderão afetar a QV, dependendo da vulnerabilidade de cada um. As pessoas mais vulneráveis apresentam uma menor capacidade de resolução de problemas e de adaptação, quer seja porque avaliam a situação como ameaçadora, quer porque sentem que não têm à sua disposição recursos suficientes para a enfrentar (Vaz-Serra, 2007). Apesar dos valores baixos de VS e de valores moderados de perceção de QV, os resultados apontam para uma associação entre as variáveis estudadas, confirmando-se a importância da VS para a perceção de QV. Mostram ainda que, em geral, a VS deve ser tida em consideração no desenho de estratégias de intervenção em enfermagem, com o objetivo fundamental de manter ou melhorar a QV. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Segundo Pereira (2001, p. 87-88), “Uma das grandes apostas para o próximo milénio será tornar as pessoas mais resilientes e prepará-las para uma certa invulnerabilidade que lhes permita resistir a situações adversas que a vida proporciona…”. Resiliência não é algo inato ou genético, é uma competência pessoal e social que poderá ser apreendida e desenvolvida (Sória, Souza, Moreira, Santoro, e Menezes, 2006). Assim, na prática, a intervenção do enfermeiro deverá centrar-se em aumentar a resistência ao stress e capacitar a família para lidar adequadamente com os fatores indutores de stress, através de programas de gestão de stress (técnicas de relaxamento, entre outras), e estimular atitudes positivas que permitam enfrentar problemas, resolvê-los e prever consequências (resolução de problemas). Estas intervenções devem dar uma atenção especial às pessoas divorciadas, desempregadas, mais velhas, com menos escolaridade e que têm um familiar com SDA diagnosticado à pouco tempo. Estas intervenções deverão integrar-se, principalmente, num trabalho em equipa multidisciplinar. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 61


Torna-se importante salientar que este tema precisa de ser mais explorado, permitindo aos profissionais de saúde refletirem sobre intervenções que permitam promover a resiliência e melhorar a perceção de QV, pois parece-nos ser este um dos caminhos mais adequados para se obterem ganhos em saúde. Sugerimos alguns estudos futuros, entre eles a continuação do presente estudo, estudos longitudinais em que se investigue a VS e a sua relação com a QV, em utentes e familiares, em momentos diferentes da SDA e estudos de caráter quasi-experimental, em que seja analisada a eficácia de um conjunto de intervenções de enfermagem específicas e pré-selecionadas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Assis, S. G., Avanci, J. Q., e Pesce, R. P. (2006). Resiliência. Enfatizando a proteção dos adolescentes. Porto Alegre: Artmed. Balsa, C., Vital, C., Urbano, C., e Pascueiro, L. (2011). O Consumo de Bebidas Alcoólicas em Portugal. Prevalências e Consumos, 2001-2007. Lisboa: Instituto da Droga e da Toxicodependência, I. P. Casswell, S., You, R. Q., & Huckle T., (2011). Alcohol’s harm to others: Reduced wellbeing and health status for those with heavy drinkers in their lives. Addiction, 106(6), 1087–1094. doi: 10.1111/j.13600443.2011.03361.x Fayers, P. M., & Machin, D. (2007). Quality of life: The assessment, analysis and interpretation of patient-reported outcomes (2nd ed.). West Sussex, England: Wiley. Ferreira P. L. (2000a). Criação da versão portuguesa do MOS SF-36. Parte I – Adaptação cultural e linguística. Acta Médica Portuguesa, 13, 55-66. Ferreira P. L. (2000b). Criação da versão portuguesa do MOS SF-36. Parte II – Testes de validação. Acta Médica Portuguesa, 13, 119-127. Fleck, M. P. A. (2008). A avaliação de qualidade de vida: Guia para profissionais da saúde. Porto Alegre: Artmed. Kiritzé-Topor, P., & Bénard, J. (2007). Guia prático climepsi de alcoologia. Lisboa: Climepsi Editores.

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11 DETERMINANTES NA TRANSIÇÃO PARA A PARENTALIDADE | Carolina Henriques1 ; Maria dos Santos2; Elisa Caceiro3; Sónia Ramalho4 |

RESUMO CONTEXTO: A transição para a parentalidade requer mudanças cognitivas, afetivas e comportamentais. A puérpera está dependente de vários fatores que poderão facilitar ou dificultar a transição para a maternidade, uma vez que o puerpério é um período bastante propício à existência de alterações psicoemocionais. OBJETIVO(S): Neste estudo, os objetivos passaram por procurar conhecer as características sociodemográficas e obstétricas das puérperas internadas em serviços de Obstetrícia; Determinar o nível de alterações psicoemocionais percecionado pelas puérperas internadas em serviços de obstetrícia e Verificar a relação entre o nível de alterações psicoemocionais e algumas caraterísticas sociodemográficas e obstétricas das puérperas internadas em serviços de obstetrícia. METODOLOGIA: Estudo descritivo – correlacional. Aplicação de um questionário relativo aos dados sociodemográficos e obstétricos, e Escala de Avaliação de Alterações Psicoemocionais do Puerpério (EAPP) a uma amostra não probabilística de 194 mulheres puérperas internadas. RESULTADOS: A média de idades das participantes foi de 29 anos, maioritariamente eram casadas e possuíam o ensino secundário. A maioria destas puérperas desejaram e planearam a sua gravidez, tendo realizado um parto eutócico. O nível de alterações psicoemocionais nestas mulheres revelou-se baixo. Evidenciou-se que fatores como a frequência de aulas de preparação para o parto, o tipo de parto e o número de partos anteriores influenciam o nível de alterações psicoemocionais. CONCLUSÕES: Ao estudarmos as alterações psicoemocionais que se podem desenvolver durante o período puerperal, concluímos que a grande maioria das mulheres puérperas revelou níveis de alterações psicoemocionais baixos, no entanto, pensamos ser fundamental debruçarmo-nos sobre os fatores que parecem influenciar o mesmo, nomeadamente a frequência de cursos de preparação para o parto. PALAVRAS-CHAVE: Saúde materna; Transtornos de adaptação

RESUMEN

ABSTRACT

“Determinantes en la Transición a la Maternidad”

“Determinants in the Transition to Parenthood”

CONTEXTO: La transición a la paternidad requiere cambios cognitivos, afectivos y conductuales. El posparto depende de varios factores que pueden facilitar o dificultar la transición a la maternidad, ya que el puerperio es bastante propicio para la existencia del psico-emocional período de cambios. OBJETIVO(S): En este estudio, los objetivos iniciadas por tratar de conocer las características socio demográficas y obstétricas de las mujeres internadas en los servicios de obstetricia; determinar el nivel de los cambios psico-emocionales y conocer la relación entre el nivel de los cambios psico-emocionales y algunas características socio-demográficas y obstétricas de las mujeres internadas en los servicios de obstetricia. METODOLOGÍA: Estudio descriptivo - correlaciónale. Aplicado cuestionario sobre datos socio demográficos y obstétricos, y ‘Escala de Alterações Psicoemocionais do Puerpério (EAPP)’ a una muestra de 194 mujeres. RESULTADOS: La edad de las participantes fue de 29 años, se casaron, tenía educación secundaria y tenía deseado y el previsto su embarazo y lograron un parto normal. El nivel de cambios psico-emocionales en estas mujeres resultó ser bajo. Factores tales como la frecuencia de las clases de preparación para el parto, tipo de parto y el número de partos previos, influí en el nivel de los cambios psico-emocionales. CONCLUSIONES: Se concluye que la mayoría de las mujeres después del parto mostraron niveles más bajos de los cambios psico-emocionales, sin embargo creemos que es esencial más estudios sobre los factores que parecen influir en la misma, incluyendo la frecuencia de los cursos de preparación para el parto.

BACKGROUND: The transition to parenthood requires cognitive, affective and behavioral changes. The postpartum is dependent on several factors that may facilitate or impede the transition to motherhood, since the puerperium is quite conducive to the existence of psycho-emotional changes period. AIM: In this study, the objectives started by seeking to know the socio-demographic and obstetric characteristics of women interned in Obstetrics services; determine the level of psycho-emotional changes percecionado by women interned in Obstetrics services and know the relationship between the level of psycho-emotional changes and some socio-demographic and obstetric characteristics of women interned in Obstetrics services. METHODS: A descriptive study - correlational. A questionnaire concerning sociodemographic and obstetric data, and ‘Scale Changes the psychoemotional Puerperium (EAPP)’ to a non-probabilistic sample of 194 postpartum women hospitalized. RESULTS: The mean age of participants was 29 years, were mostly married, had secondary education and wanted and planned her pregnancy and achieved a normal delivery. The level of psycho-emotional changes in these women proved to be low. Became evident that factors such as frequency of classes preparing for childbirth, type of delivery and the number of previous births, influence the level of psycho-emotional changes. CONCLUSIONS: As we study the psycho-emotional changes that may develop during the postpartum period, we conclude that the vast majority of postpartum women showed lower levels of psycho-emotional changes, however, we think it essential to further studies in this field with a longitudinal character, still leaning on the factors that seem to influence the same, including the frequency of courses in preparation for childbirth.

DESCRIPTORES: Salud materna; Trastornos de adaptación

KEYWORDS: Maternal health; Adjustment disorders

1 Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Leiria, Escola Superior de Saúde, Unidade de Investigação em Saúde, Campus 2, Leiria, carolina.henriques@ipleiria.pt 2 Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Leiria, Escola Superior de Saúde, Unidade de Investigação em Saúde, 2411-901 Leiria, Portugal, lsantos@ipleiria.pt 3 Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Leiria, Escola Superior de Saúde, Unidade de Investigação em Saúde, 2411-901 Leiria, Portugal, elisa.caceiro@ipleiria.pt 4 Assistente do 2º Triénio no Instituto Politécnico de Leiria, Escola Superior de Saúde, Unidade de Investigação em Saúde, 2411-901 Leiria, sonia.ramalho@ipleiria.pt Submetido em 30-09-2014 – Aceite em 05-12-2014 Citação: Henriques, C., Santos, L., Caceiro, E., e Ramalho, S. (2015). Determinantes na transição para a parentalidade. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 63-xx. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 63


INTRODUÇÃO A transição para a parentalidade, classificada como transição desenvolvimental, é um fenómeno complexo, que envolve diferentes estádios de crescimento, físico e psicológico. Este tipo de transição, inclui mudanças na vida das pessoas que podem influenciar a sua saúde (Hattar-Pollara, 2010) e que podem ser afetadas por certas condições, como o significado do acontecimento, as expetativas, o nível de conhecimento ou competência, o ambiente, o nível de planeamento e ainda o bem-estar físico e emocional. A transição para a parentalidade é um dos maiores eventos desenvolvimentais a que a mulher pode vivenciar. Para Conde, Figueiredo, Costa, Pacheco e Pais (2007, p. 15), “a transição para a parentalidade requer mudanças cognitivas, afetivas e comportamentais”. A puérpera está dependente de vários fatores que poderão facilitar ou dificultar a transição para a maternidade, uma vez que o puerpério é um período bastante propício à existência de crises psicológicas, devido às profundas modificações desencadeadas pelo parto. Segundo Figueiredo (2001), existe um conjunto de variáveis, consideradas como fatores de risco para o desenvolvimento de perturbações psicológicas no puerpério, onde se incluem a idade, a paridade ou o tipo de parto. De acordo com Figueiredo (2001) as principais perturbações psicopatológicas do pós-parto são o blues pós-parto, a depressão pós-parto e a psicose puerperal. O objetivo dos cuidados de enfermagem no período pós-parto é assistir a mulher e companheiro durante a transição para a parentalidade. De acordo com Meleis (2007) o enfermeiro interage com o ser humano, o qual faz parte de um contexto sociocultural, numa condição de saúde/doença e vive, de alguma maneira, uma transição real ou por antecipação. A interação enfermeiro/ doente organiza-se em torno de uma intenção que conduz a ação para promover, restaurar ou facilitar a saúde. METODOLOGIA A estratégia de investigação utilizada para este estudo visou a metodologia de investigação exploratória - descritiva, transversal e correlacional, inserida num paradigma quantitativo, desenvolvido em ambiente natural (Fortin, 2009). Assim, os objetivos do nosso trabalho foram: Conhecer as características sociodemográficas e obstétricas das puérperas internadas nos serviços de Obstetrícia do Centro Hospitalar Leiria-Pombal, do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa - Penafiel, do Centro Hospitalar Gaia/Espinho – Gaia e Centro Hospitalar do Médio Tejo – Abrantes; Avaliar o nível de Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 1 (ABR.,2014) | 64

alterações psicoemocionais percecionado pelas puérperas internadas nos serviços de Obstetrícia do Centro Hospitalar Leiria-Pombal, do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa - Penafiel, do Centro Hospitalar Gaia/ Espinho – Gaia e Centro Hospitalar do Médio Tejo – Abrantes e Verificar a relação entre o nível de alterações psicoemocionais e algumas caraterísticas sociodemográficas e obstétricas das puérperas internadas nos serviços de Obstetrícia do Centro Hospitalar Leiria-Pombal, do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa - Penafiel, do Centro Hospitalar Gaia/Espinho – Gaia e Centro Hospitalar do Médio Tejo – Abrantes. Desta forma, foi definida uma única hipótese para esta investigação, nomeadamente: Existe relação estatisticamente significativa entre o nível de alterações psicoemocionais e algumas caraterísticas sociodemográficas e obstétricas (frequência de aulas de preparação para o parto; numero de partos anteriores e tipo de parto) das puérperas internadas nos serviços de Obstetrícia do Centro Hospitalar Leiria-Pombal, do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa - Penafiel, do Centro Hospitalar Gaia/Espinho – Gaia e Centro Hospitalar do Médio Tejo – Abrantes. A população alvo desta investigação foi constituída pelas puérperas internadas nos serviços de Obstetrícia do Centro Hospitalar Leiria-Pombal, do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa - Penafiel, do Centro Hospitalar Gaia/Espinho – Gaia e Centro Hospitalar do Médio Tejo – Abrantes. A amostra definida para este estudo resultou de um processo de amostragem acidental. Os critérios de inclusão correspondem às características essenciais dos elementos da amostra, nomeadamente: Puérperas internadas nos serviços de Obstetrícia; Puérperas sem possuir antecedentes ou patologia psiquiátrica diagnosticada; Puérperas e recém-nascidos deverão estar em alojamento conjunto no internamento; Puérperas e recém-nascidos deverão ser saudáveis; Puérperas entre os 21 e 45 anos de idade; Puérperas que saibam ler e escrever em português e Puérperas que concordem em participar no estudo e assinem o consentimento informado. Nesta investigação, o instrumento de colheita de dados utilizado foi o questionário. Optou-se por estruturar o questionário em cinco partes, sendo que na primeira parte constavam os dados sociodemográficos, na segunda parte os dados obstétricos, na terceira parte dados relativos à intervenção dos profissionais de saúde no contexto de bloco de partos e internamento e, por último, na quarta parte, os dados relativamente ao recémnascido. Utilizámos ainda, no fim do questionário, a escala de avaliação das alterações psico - emocionais do puerpério de Sousa e Leal (2010).


Construída pelas autoras Sousa e Leal (2010), a escala é constituída por 16 questões acerca dos sentimentos das puérperas após o parto. Estas questões são cotadas através de uma escala de resposta tipo Likert (de 1 a 6 pontos), com uma escala de intensidade (nunca a sempre), com uma variação total entre 16 e 96 pontos. Todas as participantes neste estudo foram informadas dos seus direitos e dos objetivos da investigação, decidindo livremente a sua participação na investigação e assinando o seu consentimento livre e esclarecido. Os questionários foram aplicados no momento da alta hospitalar, obtido parecer favorável das referidas instituições e após aprovação da comissão de ética das mesmas, garantindo a confidencialidade dos dados e o anonimato das participantes. No que diz respeito ao tratamento estatístico utilizou-se a estatística descritiva e a estatística inferencial, sendo que nesta última, foi testada a hipótese formulada. Procedemos ainda à revalidação psicométrica da escala, calculando o Alfa de Cronbach e o teste de esfericidade. Para testarmos as hipóteses formuladas verificámos a normalidade das diversas dimensões da variável dependente, pelo que recorremos ao teste de KolmogorovSmirnov (Ks), e face aos dados obtidos aplicámos testes estatísticos não paramétricos. RESULTADOS

Em relação ao facto da gravidez ter sido planeada, 80,0% das mulheres puérperas referiu que a mesma foi planeada, ao contrário de 18,2%. Das gravidezes planeadas, 80,0% referiu que a mesma foi desejada ao contrário de 4,5%. Pelos dados obtidos, relativamente à frequência das mulheres puérperas em algum programa de preparação para o parto, 52,93% frequentaram o programa e 40,45% não frequentaram nenhum programa de preparação para o parto. Quando questionadas sobre o tipo de parto, 54,5% das mulheres puérperas responderam que o seu tipo de parto foi eutócico; 13,6% foi distócico por fórceps e ventosa e em 30,9% houve necessidade de um parto distócico por cesariana. No que diz respeito à pessoa que acompanhou a mulher durante o trabalho de parto, em 72,7% foi o pai do bebé; 2,7% refere que foi a mãe, sogra, amiga ou irmã e 8,2% responderam a opção “outro”. Em relação à classificação que as mulheres puérperas atribuíram à prestação de cuidados de enfermagem durante o trabalho de parto e parto, 57,3% consideraram os cuidados de enfermagem como muito suficientes. Contudo, 3,6% referem os cuidados como pouco suficientes e 1,8% classificam os cuidados de enfermagem como insuficientes (Figura 2). Figura 2 - Distribuição das puérperas em função da prestação de cuidados de enfermagem durante o trabalho de parto e parto

Observamos que, numa amostra de 194 puérperas que participaram no nosso estudo, a média (X) de idades foi de 29,89 anos (σ=5,395), com um valor mínimo (Xmín) de 22 anos e um valor máximo (Xmáx) de 42 anos de idade. Relativamente ao estado civil das participantes no nosso estudo, pudemos verificar que 18,2% eram solteiras, 78,2% casadas/ união de facto, e 1,8% referiam estar separadas ou divorciadas (Figura 1). Figura 1 - Distribuição das puérperas em função do estado civil

Ao analisar o nível de escolaridade das mulheres puérperas que participaram no presente estudo, apurámos que 2,0% concluíram o 1ºciclo de escolaridade, 9,0% o 2º ciclo de escolaridade, 22,0% o 3ºciclo de escolaridade, 32,0% o ensino secundário, e 30,0% o grau de licenciatura.

Em relação aos aspetos mais significativos durante a prestação de cuidados pelos enfermeiros no trabalho de parto e parto às mulheres puérperas, estas referem o profissionalismo e desempenho técnico na realização do parto, o apoio na primeira mamada, a simpatia, carinho e prontidão dos cuidados. No que concerne à prestação de cuidados de enfermagem durante o internamento à mulher puérpera, 38,2% das mesmas classificam os cuidados como suficientes e 58,2% consideram os cuidados muito suficientes. Relativamente aos aspetos a que os enfermeiros devem dar mais importância, as puérperas enfatizam o apoio e compreensão face à adaptação a uma nova realidade/ situação de vida (19,1%), e o apoio relativo à amamentação (7,3%). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 65


Pela análise dos dados obtidos, observamos que a média do peso dos recém-nascidos à nascença filhos das mulheres puérperas que participaram no nosso estudo é de 3238,29 gramas (σ=438,89 gramas). No que concerne à EAPP esta apresenta um Alfa de Cronbach de 0,884, sendo a correlação dos 16 itens com o total da escala superior a 0,200, e um teste de esfericidade de 0,000 (amplamente significativo – KMO=0,823). Através dos dados obtidos pela análise da EAPP constata-se que a média das pontuações totais da escala é de 30,7 (σ=10,8), com um valor mínimo (Xmin.) de 16 e um valor máximo (Xmáx.) de 61. Deste modo, atendendo ao valor mínimo (Xmin) da EAPP de 16, ao valor máximo (Xmáx) de 96, e ao valor médio (Xmed) da escala de 56, conclui-se que o nível de alterações psicoemocionais das mulheres puérperas da nossa amostra é baixo. Face às hipóteses formuladas evidenciou-se que número de partos anteriores (p≤0,05; rs= -0,187) influencia o nível de alterações psicoemocionais, sendo a correlação estatisticamente significativa e negativa. No que concerne ao tipo de parto, analisa-se que o tipo de parto influencia o nível de alterações psicoemocionais (p≤0,05; χ2=9,513), em que as mulheres que sofreram um parto distócico por ventosa ou fórceps (média de ordens=116,76) ou por cesariana (média de ordens=101,67) apresentam um maior nível de alterações psicoemocionais (Tabela 1). Tabela 1 - Resultados da aplicação do teste de Kruskal-Wallis para comparar o nível de alterações psicoemocionais em função do tipo de parto Alterações Psicoemonº Média χ2 p cionais na Mulher de Puérpera Ordens Eutócico 99 Tipo de Distócico (forceps e 25 Parto ventosa) Distócico por cesariana 63 Total

83,37 116,76

9,513 0,009

101,67

187

Verificou-se ainda, uma relação estatisticamente significativa entre o nível de alterações psicoemocionais em função da frequência de preparação para o parto (p≤0,05; U=3215,000), em que as mulheres que frequentaram programas de preparação para o parto apresentam um maior nível de alterações psicoemocionais (Tabela 2).

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Tabela 2 - Resultados da aplicação do teste U de Mann-Whitney para comparar o nível de alterações psicoemocionais em função da frequência de aulas de preparação para o parto Frequência de Aulas de Preparação para o Parto

Média de Ordens

Alterações Não Psicoemo- Sim cionais na Mulher Puérpera

81 106

80,69 104,17

Total

187

U

Z

p

3215,000 -2,941 0,003

DISCUSSÃO Pelos dados obtidos na nossa investigação em relação aos dados sociodemográficos, verificamos que os mesmos vão ao encontro dos estudos de Almeida (2011), Klier et al. (2008), Monteiro (2005), Silva (2011), e Veríssimo (2010), em que a média de idades das puérperas ronda os trinta anos, maioritariamente são casadas e possuem o ensino secundário completo. Tendo as mulheres que participaram no estudo desejado e planeado a sua gravidez, um número significativo destas, frequentou programas de preparação para o parto durante a gravidez. Maioritariamente, as mulheres participantes no estudo foram acompanhadas pelo pai do bebé durante o trabalho de parto e no momento do parto, tendo classificado os cuidados de enfermagem neste período como muito suficientes. Durante o período de internamento a maioria das puérperas classificou os cuidados prestados pelos enfermeiros como muito suficientes, salientando que os enfermeiros devem enfatizar o apoio e compreensão face à adaptação a uma nova realidade/situação de vida que estas estão a experienciar, e o apoio relativo à amamentação. Face a estes resultados, não nos foi possível confrontar os mesmos com os resultados de outros estudos. Face ao nível de alterações psicoemocionais das puérperas que participaram no estudo conclui-se que o mesmo é baixo, o que vai ao encontro dos resultados obtidos por Sousa e Leal (2010), em que 92% das puérperas não revelaram níveis de alterações psicoemocionais significativos e 8% revelaram níveis de alterações psicoemocionais moderados.


A nossa investigação evidencia que número de partos anteriores influencia o nível de alterações psicoemocionais, tal como o tipo de parto, em que as mulheres que sofreram um parto distócico por ventosa ou fórceps ou por cesariana apresentam um maior nível de alterações psicoemocionais. Os dados por nós encontrados corroboram com os estudos de Conde, Figueiredo, Costa, Pacheco e Pais (2007), Silva (2011), e Veríssimo (2010). Analisou-se uma relação estatisticamente significativa entre o nível de alterações psicoemocionais em função da frequência de preparação para o parto, em que as mulheres que frequentaram programas de preparação para o parto apresentam um maior nível de alterações psicoemocionais. Estes dados não vão ao encontro dos estudos de Almeida (2011) e Silva (2011) em que os programas de preparação para o parto parecem ser protetores do nível de alterações psicoemocionais sentidos pelas puérperas. CONCLUSÃO Conclui-se que a maioria das mulheres puérperas revelou níveis de alterações psicoemocionais baixos, facto que pode ter sido influenciado pelo momento de aplicação da referida escala. O facto das mulheres puérperas se encontrarem ainda em meio hospitalar, onde tinham todo o apoio dos profissionais de saúde, nomeadamente dos enfermeiros, poderá ter sido um dos motivos para que não tenhamos encontrado níveis de alterações psicoemocionais tão significativos. Um dos achados mais relevantes desta investigação prende-se com alguns fatores que parecem influenciar o nível de alterações psicoemocionais, nomeadamente, a frequência de aulas de preparação para o parto, o tipo de parto e o número de partos anteriores, sendo que os mesmos devam ser explorados em investigações futuras.

IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Pelos resultados do estudo, consideramos pertinente identificar os focos específicos de atenção de enfermagem a ter em conta durante o processo de transição para a parentalidade. Por outro, pensamos que os programas de preparação para o parto e parentalidade desenvolvidos pelos enfermeiros obstetras devam ser objeto de análise, reflexão e reestruturação, com vista a empoderarem a mulher para o trabalho de parto e parto, mas também para promoverem uma transição saudável e adaptativa para o papel maternal, com o contributo dos enfermeiros especialistas em saúde mental, no sentido de prevenirem alterações psicoemocionais nas gravidas e puérperas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Almeida, E. A. G. (2011). Visita domiciliária no pósparto. Viseu: Instituto Politécnico de Viseu. Conde, A., & Figueiredo, B. (2007). Preocupações de mães e pais, na gravidez, parto e pós-parto. Análise Psicológica, 3(XXV), 381-398. Conde, A., Figueiredo, B., Costa, R., Pacheco, A., & Pais, A. (2007). Perceção da experiência de parto: Continuidade e mudança ao longo do pós-parto. Psicologia, Saúde & Doenças, 8(1), 49-66. Figueiredo, B. (2001). Perturbações psicopatológicas do puerpério. In M. C. Canavarro (Ed.), Psicologia da gravidez e da maternidade (pp. 161-180). Coimbra: Quarteto Editora.

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Fortin, M. F. (2009). O processo de investigação da concepção à realização (5ª ed.). Loures: Lusociência.

Monteiro, R. (2005). O que dizem as mães. Coimbra: Livraria Quarteto.

Hattar-Pollara, M. (2010). Developmental transitions. In A. I. Meleis, Transitions theory: Middle-range and situation-specific theories in nursing research and practice (pp. 87-94). Nova Iorque: Springer.

Silva, A. C. S. (2011). Vivências da maternidade: Expectativas e satisfação das mães no parto. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal.

Klier, C. M., Rosenblum, K. L., Zeller, M., Steinhardt, K., Bergemann, N., & Muzik, M. (2008). A multirisk approach to predicting chronicity of postpartum depression symptoms. Depression and Anxiety, 25, 718-724. Meleis, A. I. (2007). Theoretical Nursing: Development and progress (4ª ed.). Philadelphia: Lippincott William & Wilkins.

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Sousa, E. V., & Leal, I. (2010). Avaliação em sexualidade e parentalidade. Porto: LivPsic. Verissímo, S. M. A. C. (2010). Relações entre ansiedadeestado e ansiedade-traço, sintomas depressivos e sensibilidade ao stress em puérperas. Universidade Lusófona e Humanidades e Tecnologias, Lisboa, Portugal.


12 O SOFRIMENTO DO REGRESSO AO TRABALHO APÓS A LICENÇA PARENTAL

| Cristina Martins1; Wilson Pinto de Abreu2 ; Maria Figueiredo3 |

RESUMO CONTEXTO: A crescente participação feminina no mercado de trabalho levanta questões relacionadas com a gestão dos tempos entre responsabilidades profissionais e familiares, com particular relevância quando as mulheres se tornam mães. OBJETIVO: Este estudo procurou compreender as experiências das mães que regressam ao trabalho após o término da licença parental. METODOLOGIA: Grounded Theory, com a participação de cinco pais e cinco mães (casais). Recolha de dados a partir de entrevistas semiestruturadas, antes e após o reinício da atividade laboral materna (total de 30 entrevistas). Recolha, codificação e análise dos dados realizadas de modo simultâneo e recursivo, num processo evolutivo constante. RESULTADOS: Explicitam a difícil e desafiadora coexistência de papéis desempenhados pela mulher trabalhadora quando se torna mãe. Descrevem a categoria sofrendo com o regresso ao trabalho, que reflete a experiência da mãe ao se ver sujeita a afastar-se do filho para retomar a atividade laboral, finda a licença parental. Integram as subcategorias: angustiando-se com o regresso ao trabalho que se avizinha, percebendo a esposa perturbada com o regresso ao trabalho, tendo necessidade de confortar a esposa em sofrimento, vivendo conflitos no papel parental, deparando-se com dificuldades para continuar amamentando e sofrendo menos por ter condições laborais facilitadas. CONCLUSÕES: O timing do regresso ao trabalho é especialmente crítico na transição para a parentalidade, causando sofrimento nas mães e perturbando toda a dinâmica familiar. Constitui-se, por isso, um desafio para a resiliência das mulheres e suas famílias, e deve ser objeto de intervenção de enfermagem. PALAVRAS-CHAVE: Ansiedade; Emprego; Licença parental

RESUMEN

ABSTRACT

“El sufrimiento del regreso al trabajo después del permiso parental”

“Suffering from returning to work after parental leave”

CONTEXTO: El aumento de la participación femenina en el mercado laboral plantea cuestiones relacionadas con la gestión del tiempo entre las responsabilidades laborales y familiares, especialmente cuando las mujeres se convierten en madres. OBJETIVO: Este estudio tuvo como objetivo comprender las experiencias de las madres que regresan al trabajo después de transcurrido el permiso parental. METODOLOGÍA: Teoría Fundamentada, con la participación de cinco padres y cinco madres (parejas). Recogida de datos a partir de entrevistas semiestructuradas, antes y después de la madre reanudar la actividad laboral (total: 30 entrevistas). Colección, codificación y análisis de datos realizados de forma simultánea y recursiva, en un proceso evolutivo constante. RESULTADOS: Explican la difícil y desafiadora coexistencia de los papeles desempeñados por la mujer trabajadora cuando se convierte en madre. Describen la categoría sufriendo con el regreso al trabajo, que refleja la experiencia de la madre al verse obligada a apartarse del hijo para retomar la actividad laboral una vez terminado el permiso parental. Integran las subcategorías: angustiándose con el regreso al trabajo que se avecina, percibiendo la esposa perturbada con el regreso al trabajo, teniendo la necesidad de reconfortar a la esposa en sufrimiento, viviendo conflictos en el papel parental, deparándose con dificultades para continuar amamantando y sufriendo menos por tener condiciones laborales facilitadas. CONCLUSIONES: El timing del retorno al trabajo es especialmente crítico en la transición a la parentalidad, causando sufrimiento en las madres y perturbando toda la dinámica familiar. Se constituye, por eso, un desafío para la resiliencia de las mujeres y sus familias, y debe ser objeto de intervenciones de enfermería.

DESCRIPTORES: Ansiedad; Empleo; Permiso parental

BACKGROUND: The increasing female participation in the labor market raises issues related to the management of time between work and family responsibilities, with particular relevance when women become mothers. OBJECTIVE: This study aimed to understand the experiences of mothers who returned to work after paid maternity leave. METHODOLOGY: Grounded Theory, with the participation of five fathers and five mothers (couples). Data collection used a semi-structured interview, before and after the mother’s return to work (total of 30 interviews). Data collection, codification and analysis were undertaken in a simultaneous and recursive manner, in a constantly evolutive process. RESULTS: Explain the difficult and challenging coexistence of roles played by the working woman when she becomes a mother. Describe the category suffering with the return to work, which reflects the experience of the mother perceiving herself withdrawn from the child in order to return to work, once parental leave expires. Integrate the subcategories: distress over the impending return to work, perceiving the wife upset over the return to work, having the need to comfort the distressed wife, experiencing conflict within the role of parent, stumbling upon breastfeeding difficulties and suffering less when having easier work conditions. CONCLUSIONS: The timing of the return to work is especially critical in the transition to parenthood, causing suffering in mothers and disturbing the whole family dynamic. It constitutes, therefore, a challenge to the resilience of women and their families and should be object of nursing intervention.

KEYWORDS: Anxiety; Employment; Parental leave Submetido em 30-09-2014 Aceite em 27-01-2015

1 Doutora em Enfermagem; Assistente do 2º Triénio na Universidade do Minho, Escola Superior de Enfermagem, Braga, Portugal, cmartins@ese.uminho.pt 2 Doutor em Ciências da Educação; Professor Coordenador Principal na Escola Superior de Enfermagem do Porto, 4200-072 Porto, Portugal, wjabreu@esenf.pt 3 Doutora em Ciências de Enfermagem; Professora Coordenadora na Escola Superior de Enfermagem do Porto, 4200-072 Porto, Portugal, ceu@esenf.pt Citação: Martins, C., Abreu, W., e Figueiredo, M. (2015). O sofrimento do regresso ao trabalho após a licença parental. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 69-77. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 69


INTRODUÇÃO A transição para a parentalidade marca um período de reorganização do ciclo de vida das famílias, que representa intenso stress na vida dos indivíduos e acarreta inúmeras aprendizagens. Pode constituir-se como um dos mais exigentes e desafiadores papéis sociais que os indivíduos encontram nas suas vidas (Janisse, Barnett, & Nies, 2009), dado que invoca um conjunto de respostas (comportamentais, cognitivas e emocionais) que vulgarmente não integram o seu repertório cognitivo, exigindo, por isso, a implementação de esforços adaptativos suscetíveis de produzir descompensação e aquisição de vulnerabilidades. Apesar de ser tradicionalmente associada a sentimentos positivos de alegria e satisfação, através da qual se atinge a realização pessoal e se completa a pessoa enquanto ser humano (Relvas, 2004), e ser encarada, por muitos, como uma oportunidade de desenvolvimento, esta vivência transicional é também considerada como um momento de crise, devido às muitas alterações ocorridas e à possibilidade de, no decurso deste processo, estar alterada a capacidade de autodeterminação dos pais, de gestão das suas necessidades e de construção de respostas adaptativas, representando um risco para a sua saúde e bem-estar, assim como para o saudável desenvolvimento físico e emocional da criança (Brazelton, 2007; Gage, Everett, & Bullock, 2006). Com a forte presença feminina no mercado de trabalho, a transição para a parentalidade é também o momento de se aprender a equilibrar trabalho e família. Se tornarse pai ou mãe é um período stressante e desafiador das suas vidas (Cooper, McLanahan, Meadows, & BrooksGunn, 2009; Feldman, Sussman, & Ziegler, 2004; Janisse, Barnett, & Nies, 2009), para as mulheres, ter de regressar ao trabalho alguns meses após o nascimento da criança poderá não o ser menos. A participação feminina no mercado de trabalho e as dificuldades em compatibilizar trabalho e família têm sido apontadas como alguns dos principais fatores responsáveis pelo decréscimo da natalidade em Portugal (Cunha, 2005). Porque as mulheres continuam a ser as principais cuidadoras (Martins, Abreu, e Figueiredo, 2014; Pinquart & Teubert, 2010), são geralmente as mulheres que mais desinvestem profissionalmente para gerir os múltiplos papéis e é também consensual em Portugal que, em caso de incompatibilidade ou dificuldades na conciliação, a abdicação da carreira seja feminina (Aboim, 2010).

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O corpo de conhecimento que descreve a experiência vivida pelas mães no regresso ao trabalho após a licença parental é, no entanto, escasso (Nichols & Roux, 2004; Spiteri & Xuereb, 2012). Este estudo pretende explorar sentimentos e experiências de mães que regressam ao trabalho durante os primeiros seis meses de vida da criança e surge em complementaridade a um outro artigo que desocultou as estratégias utlizadas na conciliação do papel parental com o de trabalhador (Martins, 2012). Constitui um recorte transversal de uma investigação ampla, realizada em profundidade, com o propósito de compreender como se desenvolve a transição para o exercício da parentalidade durante o primeiro ano de vida da criança. METODOLOGIA Sendo o regresso ao trabalho, que ocorre durante a transição para a parentalidade, um fenómeno relacional, subjetivo e complexo, optámos pelo paradigma qualitativo de investigação e pela metodologia Grounded Theory, por ser uma abordagem apropriada em situações de natureza psicossocial, que carecem de teorização e desenvolvimento de conhecimento acerca do seu processo e estrutura, sem desprezarmos a sua potencialidade para desocultar emaranhados detalhes dos fenómenos, como sejam sentimentos, processos de pensamento e emoções, difíceis de extrair ou compreender através dos métodos de investigação mais convencionais (Corbin & Strauss, 2008). A recolha de dados decorreu no domicílio dos participantes, entre setembro de 2009 e março de 2010, antes e após o reinício da atividade laboral materna, tendo sido realizada através de entrevistas semiestruturadas, orientadas por um guião de questões abertas, que permitiu fazer as adaptações necessárias na exploração dos conceitos emergentes. Realizámos um total de 30 entrevistas, cumprindo uma sequência de entrevistas em separado ao pai e à mãe sobre a experiência vivida, seguida de uma breve entrevista em conjunto. Todas as entrevistas foram gravadas e subsequentemente transcritas, após obtenção do consentimento informado, livre e esclarecido dos participantes e assegurando a confidencialidade dos dados e o anonimato, recorrendo à utilização de nomes fictícios. Participaram no estudo 5 homens e 5 mulheres (casais), profissionalmente ativos, com idades compreendidas entre os 26 e 33 anos e com filho nascido de termo e saudável (4 do sexo masculino e 1 do sexo feminino). O número de participantes não foi pré-determinado, mas o resultado da saturação teórica definida pela análise de dados.


O acesso aos participantes foi facilitado pela prévia participação no curso de preparação para a parentalidade que estes se encontravam a frequentar num centro de saúde da região norte de Portugal, a quem solicitámos autorização. O tratamento e a análise dos dados cumpriram as etapas de codificação do corpus – codificação aberta, axial e seletiva – até à formulação de proposições teóricas, resultantes da análise das relações entre categorias, tendo sido realizados com recurso ao programa NVivo 8.0. Durante a codificação aberta, os dados foram decompostos em segmentos discretos, com o desígnio de os conceptualizar e categorizar. A codificação axial implicou o questionamento do fenómeno em estudo, o porquê do fenómeno ter ocorrido (causas), o contexto em que o fenómeno ocorreu, o que foi feito pelos participantes quando esse fenómeno ocorreu (estratégias), o que facilitou ou dificultou as ações sobre esse fenómeno e quais as consequências dessa interação (Corbin & Strauss, 2008), permitindo selecionar as categorias mais significativas, tendo como foco o paradigma de codificação, que possibilitou identificar as características (propriedades e dimensões) do fenómeno em estudo. A codificação seletiva, como processo de integração e refinamento da teoria, foi a base para a obtenção da categoria central ser pai, ser mãe: um processo em construção na interação, onde todas as categorias se relacionaram e emergiu a teoria concernente aos dados obtidos, formando um todo com capacidade explicativa. A recolha, codificação e análise dos dados decorreram de modo simultâneo e recursivo, num processo evolutivo constante. RESULTADOS Apresentamos, como resultados, a categoria sofrendo com o regresso ao trabalho, que reflete a experiência da mãe ao se ver sujeita a afastar-se do filho para retomar a atividade laboral, finda a licença parental. De entre outras que compõem o fenómeno em estudo, a opção por apresentar esta categoria justifica-se por explicitar a difícil e desafiadora coexistência de papéis desempenhados pela mulher trabalhadora quando se torna mãe, constituindo-se numa das consequências presentes na transição para a parentalidade identificada no Paradigm Model (Corbin & Strauss, 2008) do estudo mais alargado. Integra as subcategorias: i) angustiando-se com o regresso ao trabalho que se avizinha, ii) percebendo a esposa perturbada com o regresso ao trabalho, iii) tendo necessidade de confortar a esposa em sofrimento, iv) vivendo conflitos no papel parental, v) deparando-se com dificuldades para continuar amamentando, e vi) sofrendo menos por ter condições laborais facilitadas.

Com a aproximação do fim da licença parental, muitas mães começam a sentir-se profundamente amarguradas e culpadas por terem de deixar o seu bebé, como se o estivessem a abandonar, angustiando-se com o regresso ao trabalho que se avizinha. São invadidas por preocupações e medos, receando influências no aleitamento materno e perda do estatuto de mãe (receio de ser dispensável se não perpetuar a amamentação, receio de que o bebé passe a gostar mais da ama do que de si ou de que se esqueça de si como mãe), que as entristece. Testemunham que o “difícil está para vir, está… em saber que vou quatro ou cinco horas, venho e depois tenho que ir outra vez quatro ou cinco horas, aí é… é mais difícil” (Clara), prevendo dificuldades de separação do bebé por estarem tanto tempo sem ele, por o deixarem e por sentirem saudades, sentirem a sua falta quando fisicamente separados. Até aos 4/5 meses, as situações de separação foram ocasionais e breves, “deixo-o vinte minutos, uma hora, não vai ser o… o tempo todo como vou trabalhar, é isso…, é aí” (Sofia), e as mães nunca deixaram de se sentir muito próximas do filho, de modo que se veem sem saber se o bebé sentirá a sua falta ou se estará bem, ainda que depositem confiança nos cuidadores substitutos: “eu sei que o pai que é capaz de tomar conta, mas… mas o menino também é capaz de sentir a minha falta, não é?!, está… está habituado a estar comigo” (Sofia); “vou sentir essa… essa falta de estar com ele, e de saber se ele está bem.” (Sílvia). No discurso das mães é percetível o quanto o regresso ao trabalho e o medo do que pode acontecer nessa nova condição de mãe trabalhadora são questões conflituosas que geram vários questionamentos e dúvidas. Para além de estarem conscientes que vão ter menos tempo para estar com o bebé, anteveem menos tempo para fazer tudo e que não deve ser fácil conciliar os dois papéis: “eu vou ter menos tempo, não é?!, porque tenho a lida da casa e… são… poucas horas, (…) enquanto que dantes tinha uma manhã e a tarde, não é?!, era diferente, (...) vai começar a ser mais… mais cansativo, prontos, porque agora… tinha tempo para fazer tudo” (Sofia). Por ser trabalhadora em atividade intelectual e científica, Clara interroga-se, ainda, sobre a eventual prorrogação do horário de trabalho para dar resposta aos compromissos laborais, que colide com o desempenho do papel maternal ao limitar a disponibilidade de tempo para estar com o filho, “porque no fundo é assim, uma pessoa quando trabalha eu tinha a perceção que às vezes eram sete e meia, oito horas, uma pessoa quando vinha era como o meu marido hoje, quer dizer, se tem que acabar alguma coisa não vem embora sem a ter acabado, e depois é um bocadinho assim, ahm… depende Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 71


também das profissões que tem, alguns chegam lá vêm embora, o fim é à seis, às seis vem embora, eu não é assim, feliz ou infelizmente” (Clara). “Já começo a pensar, já falta pouquinho!” evidencia como esta progenitora vai ficando perturbada com o aproximar da hora do regresso ao trabalho. O relato seguinte é, ainda, mais expressivo desta consciencialização da separação do filho, que apenas se torna real e credível nos dias que antecedem o evento, deixando a mãe sem dormir na véspera: “não dormi nadinha, prontos, ou era por pensar que ia deixar o meu filho, que ia trabalhar” (Sofia). Sílvia, pese embora pense no regresso ao trabalho porque está para acontecer, receia, em acréscimo, não ser capaz de superar a readaptação profissional devido ao grande afluxo de trabalho previsto, chegando a equacionar recorrer a soluções farmacológicas por temer não aguentar a pressão. Testemunha ter pesadelos a respeito: “vão querer que eu faça tudo de uma vez e… e eu não vou conseguir, e a pensar nele e a pensar no trabalho, vai ser… eu já sei que vai ser muito difícil para mim…, (...) que até tenho medo de voltar a… a ter uma depressão. (...) tenho pesadelos em que me esqueço dele e que me esqueço de alguma coisa. (...) ele acorda comigo a chorar, mas eu estou a sonhar, que… que vou trabalhar e que me esqueço de o levar para a avó, que… que me esqueço, que suponhamos que eu não tinha leite e que esquecia-me de comprar o leite, coisas assim.” (Sílvia). As mães acabam conformando-se com a inevitabilidade do regresso ao trabalho porque tem de ser ou porque a alternativa de trabalhar em casa, sem que tenham de separar-se do filho, não garante segurança futura: “Preocupa-me, mas tem que ser, não é?! (...), já estou mentalizada que tem que ser, não é?!, que não… não posso estar toda a vida com o meu filho em casa (...), tenho que ir trabalhar.” (Sofia). “há mulheres que preferem… que estão ansiosas por ir trabalhar, eu já não, antes preferia ficar em casa, eu já comentei com o meu marido que se eu arranjasse uma máquina se o patrão dele me arranjava trabalho, que eu trabalhava aqui em casa, mas isso é… é muito perigoso e que… e que nem sempre pode dar certo, não é?!, enquanto que enquanto estou lá no emprego estou garantida.” (Sílvia). Toda esta inquietude materna é sentida pelos respetivos cônjuges, prevendo que o regresso ao trabalho vai ser difícil. Apercebem-se de esposas stressadas, preocupadas e tristes por irem trabalhar e acreditam que vão chorar por terem de deixar o filho: “ela está é mais agora mais um bocado stressada por ir trabalhar e por deixar o filho (...) não sei se é bem stressada, está um bocado assim meia… (...) um bocado preocupada, não é?!, sei lá… (...), prontos, um bocado triste, não é?!” (Vasco). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 72

“vai ser chegar no domingo e chorar… a noite toda, saber que na segunda-feira vai ter de o deixar e ter de ir trabalhar” (Anselmo). As previsões acabam mesmo sendo confirmadas, percebendo a esposa perturbada com o regresso ao trabalho. As primeiras semanas de reinício laboral deixam a mulher/mãe abalada, especialmente triste e chorosa, insegura e preocupada por deixar o filho, sentimentos de perda, culpa e insegurança que são constantes no testemunho de Anselmo: “ela chorava, ia-se embora a chorar, e… e sentia que ela que estava… ficava em baixo por causa disso, (...), sentia-a… insegura, ansiosa, stressada, preocupada, sentia-a tudo, sentia-a… assim, a ela, primeiro insegura porque não… não sabia como é que ia correr o… a separação, entre aspas, preocupada porque não sabia se o menino ia ficar bem, como é que ele estava, como é que não estava, stressada porque… o leite… podia-lhe desaparecer e ela não tinha como dar leite ao menino, ahm… tinha… medo de, prontos, ficar sem leite de repente e…”. Também Vasco dá conta de uma esposa mais impertinente e stressada neste período, num estado de agitação difícil de definir e de elencar a uma só causa: “Com tudo, com o trabalho, com o menino, com tudo” (Vasco). Com o passar dos dias, ambos os pais assistem a uma mulher/ mãe a reagir cada vez melhor, “pelo menos ela já não… já não se vai embora a chorar.” (Anselmo), porque “o que custa sempre é… os… os…, pelo menos penso eu, as primeiras semanas, depois de se habituar…” (Vasco), discursos proferidos com convicção diminuta. Esta não é uma situação à qual os maridos/pais podem ficar indiferentes, tendo necessidade de confortar a esposa em sofrimento com palavras de encorajamento e desdramatização, que colocam a tónica na inevitabilidade do regresso ao trabalho e na determinação em superar o desafio. “Não há nada a fazer”, “não podia durar para sempre”, “tem de ir trabalhar porque não somos ricos”, são razões evocadas por Vasco que tenta, desta forma, apelar a alguma racionalidade na esposa, sem deixar de acalentar possíveis estratégias de superação e assegurar que não precisa de estar preocupada com o bebé porque “está em boas mãos” (Vasco). Percebendo que o sofrimento está intrinsecamente ligado à dificuldade em conciliar a vida do trabalho com a vida familiar, Lucas, por seu lado, procura “baixar o ritmo” da esposa, “tentar chamá-la à atenção para abrandar um bocado, não é?!, não se preocupar tanto com as coisas de casa ou começar a..., esses pormenores que não tem... para mim não tem importância nenhuma, não é?!, eu, basicamente, eu digo-lhe isso, mas também... meter isso às mulheres às vezes é... é complicado”.


Para as mães, a separação física do filho é percebida com grande impacto, como uma vivência perpassada por conflitos relacionados ao papel maternal. Durante todo o período de licença parental entregaramse quase que exclusivamente ao cuidado do bebé, o que permitiu ter um pleno controlo de tudo o que ocorria, presenciar o seu desenvolvimento e cimentar um relacionamento fraterno com ele, mas agora veem-se perante a premência de o confiar aos cuidados de outrem e de trasladar o papel de cuidadora, até então apanágio seu, como mãe, para a pessoa que dele se vai responsabilizar. Vivendo conflitos no papel parental retrata a experiência da mãe-trabalhadora quando passa a não operar a totalidade de práticas de cuidar e prover as necessidades do filho. Enquanto cumprem as tarefas profissionais, veem-se não conseguindo desligar-se do filho, sem deixar de o ter presente no pensamento, “está-se sempre a lembrar, não… uma pessoa pode estar distraída no trabalho, mas… aquilo está ali sempre na cabeça.” (Sofia). Estão preocupadas com o seu bem-estar e procuram manter-se informadas sobre as suas rotinas e necessidades, não com o propósito de avaliar a forma como é cuidado, mas para se sentirem a velar por ele. Tentam, na medida do possível, telefonar para saber do filho, contendo-se na frequência com que o fazem para não demonstrar desconfiança no cuidador substituto: “estou a trabalhar e lembro-me “ai, será que ela está a dormir, será que ela está acordada?” e telefono à minha irmã (...), mesmo sabendo que ela está com as pessoas e que está super bem e que… e que as pessoas ahm… fazem quase as coisas como se fosse eu ou preocupamse tanto como eu, é inevitável, (...), e às vezes estive com ela há meia hora atrás ou há uma hora atrás, mas… mas tenho que ligar a perguntar!” (Daniela). Sofia não esquece o quanto falou do filho no seu primeiro dia de trabalho e de como essa oportunidade foi deveras importante. Sílvia destaca a transição do 4º para o 6º mês de maternidade como o período mais difícil de superar, especialmente nos momentos em que se encontrava mais sozinha no emprego: “estava sempre a falar do menino “ai, será que ele está a dormir? Será que ele está acordado?” (...) fui trabalhar mesmo ao lado da minha mãe, eu assim “olha, prontos, adivinharam!”, senão tinha, não tinha, não me sentia tão à-vontade para estar...” (Sofia). “Acho que foi o mais difícil desde que ele nasceu! Custou-me muito ir trabalhar e deixá-lo ficar porque… além de sentir a falta dele, não sabia se ele sentia a minha e, então…, não sabia se ele estava bem, apesar de saber que com quem ele estava, estava bem, mas ao mesmo

tempo… “será que está ou não está?!” e… (...) custava muito passar… o dia, porque só pensava nele, se estivesse alguém a falar para mim e… e se estivesse mais distraída a fazer com… com o que estava a fazer, passava melhor, quando estava mais sozinha é que… custava mais, porque só pensava nele” (Sílvia). Sentindo-se divididas entre serem mães e trabalhadoras evidencia a perceção materna ao assumirem as atividades profissionais e se confrontarem com uma quebra no vínculo que estabeleceram com o filho. A rutura que precisam fazer com o papel materno, que as caracterizou ao longo dos últimos meses e que as tornou como que indissociáveis do bebé, é difícil de ser encetada, tende a ser refutada e é concretizada com mágoa, sofrendo por estarem longe do filho. Sentem muito a sua falta, sentem saudades e nunca mais veem a hora de regressar a casa para estarem de novo juntos, “e o dia não era assim muito, só trabalhava três horas de manhã e três de tarde, mas parecia uma eternidade!” (Sílvia); “Quando cheguei a casa eu… ao fim de lhe dar a mama, abracei-o, abracei-o, abracei-o, ai que saudades que eu tinha deles, ui! (...) É capaz de me começar a passar, mas fogo… que saudades de uma pessoa estar com ele todos os dias ali e todas as horas…” (Sofia). Embora estivesse de sobreaviso para o sofrimento da separação, esta mãe testemunha que não imaginava que custasse tanto e que custa muito deixar um filho, sobretudo se aos cuidados de alguém menos próximo: “Elas “ai, quando…!”, quando eu estava com alguém que já tinha filhos, “quando tu fores trabalhar vai-te custar tanto, tu vais ver!”, eu era assim “ó, não, não”, eu dizia, eu cá para mim eu assim “oh, não deve custar tanto como elas diz!”, ai mas custa, custa, fogo! Custou-me muito deixá-lo na ama!” (Sofia). O sofrimento materno está bem patente no testemunho de Sílvia, ao fazer a analogia da despedida que antecede uma longa viagem. A intensidade experienciada é menor com o decorrer dos dias, custando cada vez menos deixar o filho, mas volta a ser reacendida quando, por doença ou férias, é reassumido o papel de principal cuidadora: “O primeiro dia?! Ai, chorei tanto! Pensei que o meu filho ia viajar! Pus o pai, pus a sogra, pus tudo a chorar! Não, chorei muito, custou-me muito ir. (...) agora… agora vai melhor um bocado…, quando…, agora depois, quando ele ficou doente, também já me voltou a custar outra vez mais um bocadinho, mas…” (Sílvia). Todas as mães sentem desagrado por não poderem estar tanto tempo com o bebé. Não obstante, estão conscientes que a conjuntura político-laboral atual não permite desinvestimento profissional, sob pena de desencadear desemprego: Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 73


“Gostava de ter mais tempo para ele, mas a vida… a vida às vezes não permite, não é?!, e hoje em dia cada vez pior, com os empregos como está...” (Clara). A mãe trabalhadora em atividades intelectuais e científicas vive o drama de se ver sem conseguir estar tanto tempo com o bebé e sem conseguir dedicar o tempo que gostaria ao trabalho; a que é operária na indústria, confirma as mesmas dificuldades de convivência materna e vê-se sem conseguir ter uma atitude diferente perante o trabalho, uma atitude de maior distanciamento, a que acresce o desespero pela atividade laboral comprometer a prestação de cuidados, pelo grau de esforço físico exigido: “fico assim um bocado stressada porque quero… quero estar no trabalho e quero fazer mais coisas, não é?!, e, por vezes, às vezes é complicado, e às vezes preciso de ficar um bocadinho até mais tarde, mas sei que também não posso porque… a Mariana, não é?!, (...) o tempo parece que nunca dá para nada e…” (Daniela). “puseram-me nesse trabalho e eu ui, eu desesperavame! Eu… eu… começava… de noite, queria-lhe mudar a fralda e não conseguia, adormecia-me as mãos, ia para de manhã para levá-lo para a ama a conduzir… e eu depois falei com elas lá no trabalho, (...) é assim, não estou tão mole, mas… não..., (...), mas stresso na mesma, ai se… quando está a chegar a hora de ir embora e o trabalho está lá à beira e não vai para a frente, uma pessoa enerva-se na mesma.” (Sofia). Para Sílvia, o retorno laboral é, ainda, permeado pelo conflito de ter de partilhar a alimentação do bebé com outras pessoas e pelo ciúme de não usufruir da sua atenção em exclusivo: “Fico mais triste porque… ele para a mama era só a mãe, agora sem ser mama pode ser qualquer pessoa! (...) Não é sentir-me menos mãe, é… aquilo era tão… era assim um momento só nosso, e agora já… já não, agora já qualquer pessoa lhe pode dar o leite, já não sou só eu (...), eu sou muito ciumenta! (...) eu queria a atenção do menino para mim, mas ela estava ali “ti, ti, ti”, a falar para ele, eu nem… eu quase que nem conseguia falar com ele, e… como estava a começar… essa fase de eu ir trabalhar, ainda me sentia mais triste porque “quer dizer, nem ao meio-dia eu posso estar um bocadinho com ele?!”. Além do afastamento do filho que o reingresso profissional implica, as mães veem-se condicionadas a alterar a forma como se relacionam com o bebé e como suprem as suas necessidades. Para as que amamentam e desejam continuar a fazê-lo, exige que extraiam e deixem leite para ser administrado pelo cuidador substituto durante a sua ausência, o que confirmam não ser fácil, deparando-se com dificuldades para continuar amamentando.

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Estarem a trabalhar impede as mães lactantes de amamentarem e esvaziarem as mamas sempre que pretendem ou sentem a mama repleta de leite, causando desconforto mamário. Acabam percebendo as mamas ingurgitadas e doridas, assim como, por vezes, a drenagem espontânea de leite quando a mamada tarda em acontecer, sentindo o leite vazar. O incómodo é agravado se o último esvaziamento mamário não tiver sido realizado de forma eficaz, dado que nem sempre o bebé está predisposto a mamar na hora de saírem para o trabalho, apesar da insistência e desejo materno: “se me calhava de encostar a algum lado eu “ai, meu Deus!” já não conseguia…, (…), ao fazer seis horas, sete, ai! Que eu estou sete horas, porque eu dou o peito em antes de sair, mas ainda tenho… ainda dá… tem que dar o tempo para chegar ao trabalho, não é?!, depois o tempo para vir, quando eu chego aqui a casa venho mesmo… à rasca! (...), ele acordou duas horas em antes de eu ter que ir para o trabalho e… e depois até nem me queria a… nem me queria a mama nem nada de manhã, pouco mamou, (...), prontos, estava assim à rasca e depois até se soltou o leite, não sei, pronto” (Sofia). Em pouco tempo constatam que as suas mamas já não enchem como enchiam e veem-se sem conseguir extrair a mesma quantidade de leite, percebendo uma redução na quantidade de leite produzida. A satisfação das necessidades nutricionais do bebé pode mesmo chegar a estar comprometida, quando a lactente trabalhadora se vê detentora de leite em quantidade insuficiente, apreciação que realiza pelo volume de leite produzido e extraído para acondicionamento, assim como pela conduta de choro e agitação do filho durante a mamada, percebendo que rejeita a mama sem leite e não fica satisfeito: “passando duas semanas de começar a trabalhar, depois eu comecei a ficar muito nervosa e não tinha leite, e então eu comecei a entrar em… em paranoia porque não conseguia… não conseguia tirar leite e não…, (…) a minha alegria era dar-lhe só peito até aos seis e como já não estava a conseguir ter… ter… ter, ainda ficava mais nervosa ainda, então, ainda menos tinha, (...) e depois já… havia alturas que ele estava a mamar e parecia que estava a mamar em seco, parecia que eu não… tinha leite para lhe dar, que ele chorava mais, não… não ficava satisfeito, (...), parecia que queria mais, e parece que… que dava… empurrava com a mão o peito, como quem diz “já não tem leite”, e… e eu comecei a ficar mais… fiquei toda preocupada” (Sílvia). A angústia desta mãe é grande e é agravada porque se vai sentindo pressionada pela sogra para extrair mais leite, “depois a minha sogra dizia-me “olha que o menino mamava mais! Olha que o menino mamava mais!”, eu ficava mais nervosa, eu assim “eu tenho que tirar mais,


tenho que conseguir tirar mais do que o que tiro!” e não conseguia!” (Sílvia). Estas circunstâncias e a confirmação de um aumento ponderal insuficiente leva-a a reconhecer a necessidade de complementar a alimentação do filho com leite artificial, tendo de o introduzir quando não consegue extrair leite e a situação se torna insustentável. Percebendo o bebé preferindo o biberão à mama é outra das dificuldades com que esta trabalhadora se debate para perpetuar a amamentação: “eu acho que ele agora já prefere o biberão do que mama, mas pronto, ele de noite gosta bem da mama, quando está a dormir, não sabe que é o biberão (risos), não, tem fases que parece… parece que não quer a mama, mas... ainda mama.” (Sílvia). Sofrendo menos por ter condições laborais facilitadas é uma subcategoria que evidencia como o abalo do regresso ao trabalho parece ser minimizado por algumas circunstâncias que já antes, durante o período de licença parental, tinham sido previstas e planeadas pelas mães, permitindo-lhes continuar a estarem com o filho, “o facto de ter… de não ter horários para entrar nem para sair também me facilitou estar mais com ele” (Clara), e a vê-lo quando sentem vontade ou têm necessidade de o fazer, “se eu quiser vê-la a qualquer momento eu… vou… meia dúzia de passos e estou ao pé dela e vejo-a, percebe?!” (Daniela), razões que concorrem para mais facilmente se verem acomodadas à condição de mãetrabalhadora. DISCUSSÃO A categoria sofrendo com o regresso ao trabalho, revelada neste estudo, retrata o sofrimento vivido pela mãe por não poder estar constantemente com o filho, evidenciado pelos conflitos que projeta e experiencia no papel parental. Finda a licença parental, as ações relativas ao seu papel de mãe não poderão permanecer no plano do idealizado, precisam ser reformuladas sob o risco de viver sentimentos ambíguos ou negativos em relação ao seu desempenho como mãe. O retorno à atividade profissional, para algumas mulheres, inaugurou a primeira experiência de separação do filho, a qual provocou, além de culpa (Nichols & Roux, 2004), uma sensação de perda e preocupação com o bem-estar do bebé. Os primeiros dias de trabalho foram particularmente difíceis de serem superados, sendo acompanhados de uma carga emocional muito forte. As intensas reações emocionais manifestadas podem ser interpretadas como indicadores de como as mães estavam dedicadas e próximas ao bebé (Stern, 1997; Winnicott, 2013) e envolveram, como defendido por Hock, McBrid e Gnezda (1989), três dimensões: sentimentos

de aflição ao separarem-se do filho, perceções sobre a aflição do bebé como resultado da separação e conceções sobre a capacidade do outro para cuidar do seu filho. A culpa foi ainda maior e mais difícil de ser superada nas mães que se depararam com dificuldades para continuar amamentando, o que patenteia uma significação simbólica de vinculação com o filho pela amamentação, tarefa única e singular que nenhum outro cuidador pode substituir. Amamentar era, assim, um modo de perceber-se vital para o filho e, ao mesmo tempo, de diferenciar-se e dar singularidade ao seu papel de mãe. O turbilhão de emoções que as mães experienciam no regresso ao trabalho foi também descrito por Spiteri e Xuereb (2012), num espectro de sentimentos que inclui preocupação, tristeza, pânico, medo, mau humor, incerteza, culpa e falta de controlo sobre a situação, emoções complexas que têm dificuldade em articular. Ter de deixar a criança para trás foi considerado como o aspeto mais negativo da experiência, gerador de um profundo sentimento de perda, como se as tornassem menos dignas como mães. No presente estudo, vivendo conflitos no papel parental desocultou como as mães sentem que gostariam de dar primazia ao bebé e de lhe dedicar mais tempo e atenção, mas também não subestimam o trabalho. Percebemos que a escolha entre trabalhar ou cuidar dos filhos não é simples de ser realizada. As mulheres tentam lidar com este conflito, conciliando, na medida do possível, os dois mundos, facto que nos remete à questão da realização da mulher a partir da vivência de múltiplas facetas e fatores de subjetividade, que não apenas a maternidade. Apesar de inevitavelmente condicionadas e mesmo limitadas pelas obrigações maternais, as mulheres parecem ter atribuído ao trabalho um significado mais amplo do que poderia supor-se. Na perspetiva de Monteiro (2005), o trabalho entrou decididamente no léxico identitário feminino, não como componente secundário e complementar, mas como componente estruturante da constituição do self das mulheres. A sua relevância ultrapassa a instrumentalidade monetária, sendo visto como um agente de emancipação, autonomização e inserção social, bem como de realização identitária. Esta é uma visão que converge, em parte, com a perspetiva apresentada no presente estudo, ao percebermos, nas trabalhadoras em atividades intelectuais e científicas, o valor implícito da realização profissional e o conflito latente inscrito no desejo de terem mais tempo para dedicarem ao investimento na carreira. Nas operárias da indústria, ainda que o desejo de terem mais tempo para o filho seja comum, o trabalho é percecionado como uma fonte de recursos e sustento para a família, do qual não podem abrir mão. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 75


Se as suas famílias fossem financeiramente mais abastadas teriam optado por ficar em casa com o bebé, aspiração igualmente partilhada por muitas outras mães trabalhadoras (Nichols & Roux, 2004; Spiteri & Xuereb, 2012). A articulação entre estes dois polos identitários fez também emergir a tensão característica dessa conciliação (Lipovetsky, 2007; Martins, 2012). Quando as mães conseguem manter-se próximas do filho durante o período de trabalho, com possibilidades de o amamentar, e usufruir de flexibilidade e redução do horário laboral, os sentimentos de frustração e culpa são menores, assim como é menos dramático o acumular de obrigações, amenizando o seu sofrimento. CONCLUSÕES A licença parental constitui-se fundamental no apoio às mães enquanto se adaptam à sua nova condição de vida como mães. Mas ao retornarem ao trabalho, muitas passam por uma nova e desafiadora transição. Enquanto ainda estão a explorar as suas novas funções e adaptação à parentalidade, e procuram dar continuidade aos seus papéis de esposa, deparam-se com um novo papel, o de mãe trabalhadora. O emprego materno no pós-parto constitui-se um desafio para a resiliência das mulheres e suas famílias. Pese embora todas as mulheres necessitem de suporte na transição para a parentalidade, as mães trabalhadoras requerem apoio e recursos singulares e específicos, nomeadamente apoio social e organizacional para manter o equilíbrio pessoal e familiar. A preparação para o regresso ao trabalho necessita de ser mais explorada como objeto de pesquisa, tendo em vista a estabilidade emocional e uma construção consistente da relação parental. São necessários mais estudos nesta área, tendo em vista a identificação de recursos e intervenções que ajudem as mulheres a ultrapassar dificuldades emocionais associadas ao emprego no pósparto. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Os enfermeiros, no exercício do papel clínico e de educador, são fundamentais para facilitar e promover a saúde das mães trabalhadoras. Uma vez que o trabalho familiar representa, ainda nos dias de hoje, um domínio tradicional de género para as mulheres (Martins, 2012; Martins, Abreu, e Figueiredo, 2014; Katz-Wise, Priess, & Hyde, 2010), a avaliação da dinâmica familiar e do stress associado com o emprego e as respostas de enfrentamento exigidas são, neste contexto, indispensáveis. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 76

Permitem identificar níveis de stress e disfunção familiar, e subsequente encaminhamento para serviços especializados que ajudem as mães trabalhadoras a incrementar estratégias de coping e de redução de stress. O foco da intervenção de enfermagem deve centrar-se nesta avaliação, assim como no ensino e orientação antecipatória sobre as realidades do retorno ao trabalho no pós-parto. Ouvir as preocupações e os medos das mães que planeiam e regressam ao trabalho ajuda-as a melhor lidarem com os seus novos modos de vida. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Aboim, S. (2010). Género, família e mudança em Portugal. In K. Wall, S. Aboim, e V. Cunha (Coords.), A vida familiar no masculino - negociando velhas e novas masculinidades (pp. 39-66). Lisboa: Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego. Brazelton, T. B. (2007). O grande livro da criança: O desenvolvimento emocional e do comportamento durante os primeiros anos (10ª ed.). Lisboa: Editorial Presença. Cooper, C. E., McLanahan, S. S., Meadows, S. O., & Brooks-Gunn, J. (2009). Family structure transitions and maternal parenting stress. Journal of Marriage and Family, 71(3), 558-574. doi: 10.1111/j.17413737.2009.00619.x Corbin, J., & Strauss, A. (2008). Basics of qualitative research. Techniques and procedures for developing grounded theory (3ª ed.). London, England: Sage Publications. Cunha, V. (2005). A fecundidade nas famílias. In K. Wall (Org.), Famílias em Portugal: Percursos, interacções, redes sociais (pp. 395-464). Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais. Feldman, R., Sussman, A., & Zigler, E. (2004). Parental leave and work adaptation at the transition to parenthood: Individual, marital, and social correlates. Applied Developmental Psychology, 25, 459-479. doi: 10.1016/j. appdev.2004.06.004 Gage, J. D., Everett, K. D., & Bullock, L. (2006). Integrative review of parenting in nursing research. Journal of Nursing Scholarship, 38(1), 56-62.


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13 RITMOS SOCIAIS E VOLUME DE ATIVIDADE SOCIAL DE PESSOAS

EM PROGRAMA DE SUBSTITUIÇÃO COM METADONA | Ermelinda Macedo1; Carlos Fernandes da Silva2 |

RESUMO CONTEXTO: Os ritmos circadianos no ser humano, para além de serem alinhados ou sincronizados por zeitgebers de natureza física, também são sincronizados por zeitgebers de natureza social. A alteração do zeitgebers expõe a pessoa a grandes possibilidades de adoecer. Diversas opiniões sugerem que pessoas dependentes de substâncias psicoativas ilícitas têm ritmos próprios que não se sincronizam com os ritmos da sociedade, nem com os ritmos biológicos. OBJETIVO: Descrever os ritmos sociais (MRS) e o nível de atividade social (INA) de pessoas em programa de substituição com metadona. METODOLOGIA: Participaram 47 sujeitos com dependência opiácea a frequentar um programa de substituição com metadona. Instrumentos: Métrica dos Ritmos Sociais; Índice de Graffar e Questionário de Dados Sociodemográficos e Clínicos. Todos os procedimentos éticos foram respeitados. Para a análise estatística recorreu-se ao IBM SPSS Statistics, versão 19.0. Foi considerado estatisticamente significativo um valor de p <.05.

RESULTADOS: Os separados/divorciados possuíam maior INA, seguidos dos solteiros e casados. Os desempregados possuíam maior lNA que os empregados. Os empregados revelaram valores inferiores de MRS. Os sujeitos com filhos apresentaram menor INA e MRS. Os sujeitos revelaram regularidade dos ritmos sociais, embora apresentassem muito baixo nível de atividade social. CONCLUSÕES: Para além das relações significativas com algumas variáveis sociodemográficas, os dados também dizem que os sujeitos apresentam ritmicidade social, embora com relações sociais pobres, o que indica uma diminuição da interação social, com as implícitas consequências negativas na saúde. PALAVRAS-CHAVE: Transtornos cronobiológicos; Metadona; Transtornos relacionados ao uso de substâncias; Participação social

RESUMEN

ABSTRACT

“Ritmos sociales y volumen de la actividad social de las personas en programa de sustitución con metadona”

“Social rhythms and volume of social activity of people on methadone substitution program”

CONTEXTO: Los ritmos circadianos en los seres humanos, así como estar alineados o sincronizados por zeitgebers de la naturaleza física (por ejemplo, ciclo de luz/oscuridad), también están sincronizados por zeitgebers naturaleza social. El alteración los zeitgebers expone la persona a las grandes posibilidades de enfermarse. Opiniones diversas sugieren que las personas dependientes de las drogas ilegales tienen sus propios ritmos que no se sincronizan con los ritmos de la sociedad y los ritmos biológicos OBJETIVO: Describir los ritmos sociales (MRS) y el nivel de actividad social (INA) de las personas en el programa de sustitución con metadona. METODOLOGÍA: 47 sujetos con dependencia de opiáceos integrados en un programa de sustitución con metadona. Instrumentos: Métrica de los Ritmos Sociales; Índice de Graffar e Cuestionario de Datos Socio Demográficos y Clínicos. Todos los procedimientos éticos fueron respetados. Para el análisis estadístico se utilizó el IBM SPSS Statistics, versión 19.0. Se consideró estadísticamente significativo un valor de p < .05. RESULTADOS: Los separados/divorciados tuvieron mayor INA, seguido de solteros y casados. Los desempleados tenían una mayor actividad social que los empleados. Los empleados mostraron valores inferiores de MRS. Las personas con hijos tuvieron menor INA y MRS. Los sujetos mostraron regularidad de los ritmos sociales, aunque con muy bajo nivel de actividad social. CONCLUSIONES: Además de las relaciones significativas con las variables sociodemográficas, los datos también decir que los individuos tienen la ritmicidad social, aunque con pobres relaciones sociales, lo que indica una disminución de la interacción social, con consecuencias negativas para la salud.

BACKGROUND: Circadian rhythms in humans, as well as being aligned or synchronized by zeitgebers of physical nature, are also synchronized by zeitgebers of social nature. Changing the zeitgebers exposes the person to great possibilities of becoming ill. Several opinions suggest that people addicted to illicit psychoactive substances have their own rhythms that do not synchronize with the rhythms of society, nor with biological rhythms. AIM: To describe the Social Rhythms (SMR) and the social Activity Level Index (ALI) of people in methadone substitution program. METHODS: 47 subjects with opioid dependence attending a methadone substitution program. Instruments: Social Rhythms Metric; Graffar Index and Socio-Demographic and Clinical Data Questionnaire. All ethical procedures were respected. For statistical analysis we used the IBM SPSS Statistics, version 19.0. Was considered statistically significant a p value < .05. RESULTS: The separated/divorced had higher ALI, followed by single and married. The unemployed had higher ALI than employees. Employees showed lower values of SMR. Individuals with children had lower ALI and SMR. The subjects showed regularity of social rhythms, although showing very low level of social activity. CONCLUSIONS: In addition to the significant relationships to sociodemographic variables, the data also show that individuals have social rhythmicity, although with poor social relationships, which indicates a decrease in social interaction, with implicit negative health consequences.

DESCRIPTORES: Trastornos cronobiológicos; Metadona; Trastornos relacionados con sustancias; Participación social

Submetido em 25-07-2014 Aceite em 30-01-2015

KEYWORDS: Chronobiology disorders; Methadone; Substance-related disorders; Social participation

1 Doutora em Psicologia; Enfermeira especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Professora Adjunta na Universidade do Minho, Escola Superior de Enfermagem, Edifício da Biblioteca, 3º Piso, Campus de Gualtar, 4710-057 Braga, Portugal, emacedo@ese.uminho.pt 2 Doutor em Psicologia; Psicólogo Clínico; Professor Catedrático na Universidade de Aveiro, Departamento de Educação, 3810-193 Aveiro, Portugal,csilva@ua.pt Citação: Macedo, E., e Silva, C. F. (2015). Ritmos sociais e volume de atividade social de pessoas em programa de substituição com metadona. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 78-82. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 78


INTRODUÇÃO A cronobiologia (do grego, crono = tempo + bio = vida + logo = ciência) salienta o estudo do quando (ritmos), sendo a disciplina que estuda os ritmos biológicos, a sua origem, os processos de sincronização com os ritmos ambientais, as alterações da estrutura temporal dos organismos e a aplicação destes conhecimentos na promoção da saúde e bem-estar. Os ritmos biológicos são funções do nosso organismo que variam no tempo de forma cíclica. A unidade do ritmo que se repete chama-se “ciclo” (Silva, 2000). Existem diversos ritmos biológicos: os ritmos ultradianos, cuja frequência é superior a um ciclo por dia (ex., ritmo cardíaco), ritmos infradianos, quando a sua frequência é inferior a um ciclo por dia (ex., ritmo menstrual) e ritmos circadianos, cuja frequência é de cerca de 1 dia (ex., ritmo sono-vigília) (Silva et al., 1996; Silva, 2000). Para os ritmos em que não se comprovou o caráter endógeno fala-se em ritmos ultradiais, infradiais e circadiais (Silva et al., 1996). Os ritmos circadianos no ser humano, para além de serem alinhados ou sincronizados por zeitgebers (do alemão zeit = tempo, geber = dar) de natureza física (ex., ciclo claro/escuro), também são sincronizados por zeitgebers de natureza social (ex., horários de trabalho, atividades de lazer, rotinas pessoais e sociais). O comportamento humano diário é também influenciado pelas exigências quotidianas da vida social. O padrão de rotinas sociais diário para a maior parte das pessoas desenrola-se segundo uma sequência específica, ou seja, sono (durante a noite); trabalho (compreendido entre a manhã e a tarde) e; tempo livre (desde o fim do trabalho até à hora de um novo período de descanso). A forma como as atividades estão estruturadas na sociedade também reforça esta sequência (Silva, Rodrigues, Klein, & Macedo, 2000). A alteração do zeitgebers expõe a pessoa a grandes possibilidades de adoecer em várias dimensões apenas porque desalinha os ritmos biológicos (ex., ritmo sono/vigília, alimentação, ritmo cardíaco, ritmos menstrual, entre outros). A cronobiologia provoca, desta forma, reflexão sobre a organização temporal da sociedade e traz para o mundo académico questões ligadas à qualidade de vida, seja no sentido estrito do mundo do trabalho, seja no sentido amplo do enriquecimento dos conceitos de qualidade do ambiente (Rotenberg, Marques, & Menna-Barreto, 1997).

Diversas opiniões sugerem que pessoas dependentes de substâncias psicoativas ilícitas têm um estilo de vida próprio, isto é, ritmos próprios que não se sincronizam com os ritmos da sociedade, nem com os ritmos biológicos. Frequentemente o mundo é dividido em duas partes distintas: em “Nós” – “endogrupo” e “Eles” – “exogrupo” (Neto, 1998). O mesmo autor acrescenta que “O mero facto de categorizar as pessoas em dois grupos, um ao qual se pertence (endogrupo) e o outro a que não se pertence (exogrupo) tem influência sobre o comportamento e a perceção do indivíduo” (p. 543). Frequentemente, chega-nos informação sobre pessoas que usam no seu quotidiano substâncias psicoativas ilícitas, que nos induz a pensar que vivem à margem das normas sociais instituídas, sem horários determinados para as atividades diárias, sem interesses (interesses da sociedade ou aquilo que a sociedade espera do cidadão), às quais são também atribuídos os furtos na cidade, a maioria das perturbações da ordem pública e até a disseminação de algumas doenças. Importa referir que, como afirma Cabral (1998), «Quer se queira quer não a palavra “droga” tem ligada a si uma carga “moral” no sentido mais geral deste último conceito, isto é, referente a hábitos de vida relacionados com condutas consideradas correctas e incorrectas» (p. 4). Apesar de não se conhecer investigação sobre os ritmos sociais dos toxicodependentes, parece haver um elevado grau de concordância entre a opinião pública e a de profissionais de saúde que trabalham de perto com toxicodependentes, no que respeita à dessincronização do estilo de vida desse grupo – “exogrupo”. Tendo por base a apreciação dos ritmos sociais do toxicodependente e a literatura que sugere que este tem uma forma de se relacionar com o tempo muito própria e exclusiva, alterando o bem-estar físico, psicológico e social, pretende-se, com este estudo, identificar os ritmos sociais de sujeitos que consomem substâncias psicoativas ilícitas integrados num programa de substituição com metadona. METODOLOGIA Participantes: participaram no estudo 47 sujeitos toxicodependentes integrados no programa de substituição com metadona de um centro de atendimento a toxicodependentes da zona norte de Portugal. A seleção dos sujeitos foi efetuada de forma aleatória de entre o total de utentes inseridos nesse programa terapêutico. Foram tidos em consideração todos os procedimentos éticos de acordo com os padrões estabelecidos na Declaração de Helsínquia. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 79


Instrumentos: O Instrumento utilizado para a identificação dos ritmos sociais foi a Métrica de Ritmos Sociais desenvolvida por Monk, Flaherty, Frank, Hoskinson, & Krupfer (1990). no âmbito de uma investigação sobre a possível ação de alteração dos zeitgebers sociais na etiologia da depressão e traduzida e adaptada à população portuguesa por Silva e Silvério (1997). Este instrumento foi preenchido pelos sujeitos durante duas semanas (14 dias consecutivos). Para caracterização da amostra foi elaborado um questionário de dados sociodemográficos e clínicos. Para a caracterização socioeconómica foi aplicado o Índice de Graffar do qual resultam cinco níveis de classes sociais: baixa; média/baixa; média; média/alta e alta. Análise dos dados: Na análise estatística foram determinadas médias, medianas e desvios-padrão; efetuadas correlações utilizando o coeficiente de correlação de Pearson e, ainda, realizadas estatísticas não paramétricas com os testes de Kruskal-Wallis e Mann-Whitney. Para calcular o índice de ritmicidade social foi aplicado o algoritmo desenvolvido pelos autores (Monk et al., 1990, Monk, Kupfer, Frank, & Ritenour, 1991) na versão informática de cotação automática do Laboratório de Psicologia da Universidade do Minho. Em termos de cotação, os dados relativos a cada semana foram analisados como uma unidade, de modo a chegar-se a um score que pode variar entre 0 (mínimo) e 7 (máximo). A um maior valor na cotação corresponde uma maior regularidade dos ritmos sociais. Para a medição da quantidade ou volume das atividades sociais, foi desenvolvido o Índice do Nível de Atividade Social (INA), independentemente da regularidade com que foram executadas. Este índice tem sempre uma referência temporal semanal variando entre 0 e 119. O tratamento estatístico para o teste das hipóteses foi efetuado com o programa Statistical Package for Social Sciences – IBM SPSS versão 19.0. Em todas as análises foi considerado estatisticamente significativo um valor de p <.05. RESULTADOS A ritmicidade social e o volume de atividade social foram avaliados em 47 sujeitos integrados num programa de substituição com metadona, os quais preencheram durante 14 dias consecutivos (2 semanas) a métrica dos ritmos sociais (Tabela 1).

Tabela 1 - Características sociodemográficas da amostra N=48

N(%)

Idade Mediana 35 Média 34.6 Moda 40 SD 5.3 Sexo Feminino Masculino Grau de Instrução 1º Ciclo 2º Ciclo 3º Ciclo Bacharelato Licenciatura Estado Civil Casado/união de facto Separado/divorciado Solteiro Filhos Não Sim Situação Profissional Desempregado Profissões do Grupo 3 Profissões do Grupo 4 Profissões do Grupo 5 Profissões do Grupo 7 Profissões do Grupo 9 Estudante Nível socioeconómico Classificação de Graffar Classe Alta Classe Média/Alta Classe Média Classe Média/Baixa Classe Baixa N=47 INA Média SD MRS Média SD

9 (18.8%) 39 (81.2%) 17 (35.4%) 24 (50.0%) 5 (10.4%) 1 (2.1%) 1 (2.1%) 18 (37.5%) 5 (10.4%) 25 (52.1%) 28 (58.3%) 20 (41.7%) 24 (50.0%) 4 (8.2%) 1 (2.1%) 1 (2.1%) 8 (16.7%) 9 (18.8%) 1 (2.1%) 2 (4.2%) 4 (8.2%) 13 (27.1%) 27 (56.3%) 2 (4.2%)

1ª Semana

2ª Semana

Média*

38.1 12.3

37.7 14.8

38.2 12.2

4.1 1.43

4.3 1.26

4.16 0.99

Verificámos que os indivíduos da nossa amostra revelam regularidade dos ritmos sociais (M= 4.16; SD= 0.99), embora apresentem muito baixo nível de atividade social (M= 38.2; SD= 12.2) (Tabela 2). N=47 INA Média SD MRS Média SD

Tabela 2 -Análises descritivas do INA e MRS 1ª Semana 2ª Semana Média* 38.1 12.3

37.7 14.8

38.2 12.2

4.1 1.43

4.3 1.26

4.16 0.99

*Média dos valores estatísticos obtidos nas duas semanas Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 80


A análise de Kruskal-Wallis revelou que os solteiros, casados e separados/divorciados só se distinguem entre si relativamente ao nível médio de atividade social (χ2=12.00, p=.002), sendo os sujeitos casados ou a viverem em união de facto que apresentam valores mais baixos (Tabela 3). Tabela 3 - Comparação dos indicadores do INA em função do estado civil INA médio MR Solteiros Casados/união de facto Divorciados/Separados

28.22 15.03 33.40 χ2= 12.00 p=.002**

** p<.01

Relativamente à comparação dos sujeitos empregados e desempregados com o INA e o MRS, pelos postos médios, verificou-se que os desempregados possuíam maior nível de atividade social (MR= 26.85) e maior ritmicidade social (MR= 25.42), apresentando um significado estatístico residual no que diz respeito ao INA (U= 183.5, p= .077) . Pela análise de Mann-Whitney, e pelos postos médios, verificámos que os sujeitos que têm filhos possuíam menor INA (MR= 19.74) e menor MRS (MR= 21.76), encontrando-se também um significado estatístico marginal para o INA (U = 185, p =.079). DISCUSSÃO Pela pesquisa realizada, deteta-se que a cronobiologia não tem sido alvo de análise no que diz respeito aos comportamentos sociais das pessoas que consomem substâncias psicoativas ilícitas. Neste sentido, os resultados deste estudo são difíceis de comparar devido à inexistência de investigação do fenómeno em estudo. Assim, a discussão destes resultados baseia-se, essencialmente, na experiência que os investigadores possuem com este grupo clínico. Neste estudo, os sujeitos que têm uma ocupação, comparados com os que não têm, possuem valores de INA mais baixos, provavelmente pela indisponibilidade de tempo para se envolverem na realização de atividades sociais. Por outro lado, a ritmicidade social dos sujeitos que têm uma ocupação é mais baixa do que a dos desempregados, talvez porque os horários de trabalho não são cumpridos rigorosamente, o que altera as horas do diário das atividades medidas pela MRS. Também, a experiência que possuímos com pessoas toxicodependentes, diz-nos que, frequentemente, não se vinculam o suficiente à atividade profissional e que o absentismo é frequente.

Por outro lado, os dados confirmam maiores valores de INA e de MRS para os desempregados. Arriscamos afirmar que, frequentemente, se observa que os toxicodependentes dependem de outrem (normalmente da família ou de instituições que lhes oferecem abrigo) durante muito tempo e até muito tarde. Este facto poderá ajudar a interpretar este resultado na medida em que os horários destes sujeitos estão dependentes, a maior parte das vezes, do agregado familiar ou das instituições que os recebem. O volume de atividades sociais é mais elevado também nos sujeitos desempregados, provavelmente pela disponibilidade de tempo que lhe permite aumentar a interação social. Os dados sugerem, ainda, que os sujeitos que têm filhos apresentam um valor de INA mais baixo do que os que não têm filhos, provavelmente pela dificuldade que ainda mantêm de socialização e de integração social. CONCLUSÃO Os dados apontam para que os sujeitos da nossa amostra estejam sincronizados com os horários que a sociedade estruturou para a vida diária e apresentem relações sociais pobres em termos de quantidade, isto é, revelam regularidade dos ritmos sociais (MRS) embora apresentem muito baixo nível de atividade social (INA). Desta forma, constatamos que, no que diz respeito à ritmicidade social, atendendo ao indicador de índice de atividade social (INA), a nossa amostra está empobrecida em termos de “volume” de atividades, o que nos indica uma diminuição da interação social, com todas consequências negativas que este facto tem para a saúde. No que diz respeito aos sujeitos desta amostra torna-se necessário ter atenção redobrada relativamente à vida social. A reinserção social traz consigo alterações positivas na interação social e, portanto, deve ser pensada logo desde o início de qualquer processo terapêutico. Tal como Patrício (2002) afirma, “Promover a inserção social, profissional ou escolar, sem socializar é promover um equívoco” (p.168). IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Atendendo ao encontrado, o tratamento das pessoas dependentes de substâncias psicoativas deve proporcionar-lhes relações sociais de qualidade e ajuda na criação de meios pessoais e humanos para conseguirem, para eles próprios, interações sociais satisfatórias. Parece-nos que a promoção da saúde neste campo deve ser mais enfatizada, devendo também ter como objetivo preencher essa carência de socialização. A reinserção social deve fazer parte de qualquer projeto terapêutico nesta área de intervenção. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 81


Para além da frequência das consultas, da administração, neste contexto, da substância agonista, do apoio social, os toxicodependentes podem necessitar de outras estruturas de suporte, e alguns precisam, com os técnicos de saúde, de fazer grandes esforços para atingir um nível adequado de socialização. Os centros de dia ou unidades socio-ocupacionais são recursos que permitem promover a socialização e, ainda, potencializar o processo terapêutico desenvolvido em regime ambulatório. O indivíduo mantém, regularmente, a frequência das consultas e frequenta estas estruturas com as suas atividades de dinâmica de grupo. Aqui, os toxicodependentes (re)aprendem a fazer a gestão das atividades diárias, atendendo ao tempo disponível, do espaço e dos limites, desenvolvendo competências de socialização e o treino da autonomia. Parece-nos que o indivíduo poderá ultrapassar dificuldades internas e relacionais através de atividades lúdicas, ocupacionais, pedagógicas e pré-profissionais, possibilitando o reencontro do sujeito consigo mesmo e com os outros. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Cabral, J. (1998). 1º Seminário de Investigação em Ciências Sociais e Humanas Sobre o Consumo de Drogas. A droga vista de fora: Algumas considerações gerais. Toxicodependências, 2, 3-4. Monk, T., Flaherty, J., Frank, E., Hoskinson, K., & Krupfer, D. (1990). The social rhythm metric: an instrument to quantity the daily rhythms of life. The Jounal of Nervous and Mental Disease, 178(2), 120-126.

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 82

Monk, T., Kupfer, D., Frank, E., & Ritenour, A. (1991). The social rhythm metric (SRM): Measuring daily social rhythms over 12 weeks. Psychiatry Research, 36, 195207. Neto, F. (1998). Psicologia Social. 1º vol. Lisboa: Universidade Aberta. Patrício, L. (2002). Droga – para que se saiba (1ª ed.). Lisboa: Figueirinhas. Rotenberg, L., Marques, N., & Menna-Barreto, L. (1997). Desenvolvimento da cronobiologia. In N. Marques, & L. Menna-Barreto (Eds.), Cronobiologia: Princípios e aplicações (pp 23-44). São Paulo: EDUSP, Editora Fiocruz. Silva, C., Pereira, A., Matos, P., Silvério, J., Parente, S., Domingos, M.,…& Azevedo, M. (1996). Manual Sinais Vitais: Introdução às cronociências: Coimbra: Formasau – Formação e Saúde Lda. Silva, C., e Silvério, J. (1997). Métrica dos Ritmos Sociais. Braga: Unidade Laboratorial de Neuropsicofisiologia da Universidade do Minho. Silva, C. (2000). Fundamentos teóricos e aplicações da cronobiologia. Psicologia – teoria, investigação e prática, 5(2), Braga: Universidade do Minho. Silva, C., Rodrigues, P., Klein, J., & Macedo, F. (2000). Investigação em Cronobiologia. Psicologia – teoria, investigação e prática, 5(2), Braga: Universidade do Minho.


14 SAÚDE MENTAL NUMA POPULAÇÃO NÃO CLÍNICA DE JOVENS

ADULTOS: DA PSICOPATOLOGIA AO BEM-ESTAR | Kelly Monte1; Carla Fonte2; Sónia Alves3 |

RESUMO CONTEXTO: Em termos históricos, a investigação da saúde mental alicerçou-se nos pressupostos teóricos do modelo médico, que a define como a ausência de doença mental ou psicopatologia. Atualmente, a saúde mental para além da ausência de doença mental, envolve o bem-estar, designado por alguns autores de saúde mental positiva (Keyes, 2005). OBJETIVO(S): Neste sentido, apresenta-se um estudo, que tem como objetivo caraterizar a saúde mental de jovens adultos relativamente à doença mental/psicopatologia e à saúde mental positiva/bem-estar. METODOLOGIA: Neste estudo, participaram 157 jovens adultos com idades compreendidas entre os 18 e os 30 anos, residentes na ilha de São Miguel, Açores. Os dados foram recolhidos com recurso a um Questionário Sócio-Demográfico, à Versão Portuguesa da Escala de Bem-Estar Mental de Warwick-Edinburgh (WEMWBS), à Escala Continuum de Saúde Mental – Versão Reduzida (Adultos) (MHC-SF) e à Escala de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS-21). Os dados foram tratados com recurso ao programa estatístico SPSS, versão 22. RESULTADOS: No que respeita aos resultados, são apresentados os níveis de psicopatologia e os níveis de saúde mental positiva, bem como as diferenças nestes de acordo com variáveis sociodemográficas. CONCLUSÕES: Em termos gerais, a população em estudo apresenta baixos níveis de psicopatologia, nomeadamente ansiedade, depressão e stress, e níveis elevados de saúde mental positiva, encontrando-se em flourishing. PALAVRAS-CHAVE: Saúde mental positiva; Depressão, Ansiedade; Stress

RESUMEN

ABSTRACT

“La salud mental en una población no-clínica de los adultos jóvenes: Del bienestar a la psicopatologia”

“Mental health in a non-clinical population of young adults: From psychopathology to well-being” BACKGROUND: In historical terms, the investigation of mental health based it’s foundations on the teorical assumptions of the medical model, which defines it as the absence of mental disease or psychopathology. Nowadays, beside the absence of mental disease, mental health involves well-being, designated by some authors of positive mental health (Keyes, 2005). AIM: In this way, we present a study that have as an objective, characterize young Azorean adults mental health relatively to mental disease/psychopathology and to well-being/positive mental health. METHODS: In this study, participated 157 young adults aged between 18 and 30 years old, living in São Miguel’s Island, Azores. Data was collected with resource to a Socio-Demographic Quiz, to the Portuguese version of Warwick-Edinburgh mental well-being scale (WEMWBS), to Mental Health Continuum scale – reduced version (Adults) (MHC-SF) and to Stress, anxiety and depression scale (EADS-21). Data was treated with resource to the statistical program SPSS, version 22. RESULTS: Regarding the results, psychopathology levels and positive mental health levels present themselves as well as the differences in these according with socio-demographic variables. CONCLUSIONS: Generally, the population in study presents low levels of psychopathology, namely anxiety, depression and stress, and high levels of well-being/positive mental health, lying in flourishing.

CONTEXTO: Históricamente, la investigación de la salud mental de sus fundamentos en los supuestos teóricos del modelo médico, que lo define como la ausencia de enfermedad o psicopatología mental. Actualmente, la salud mental más allá de la ausencia de la enfermedad mental, consiste en bienestar, designado por algunos autores de la salud mental positiva (Keyes, 2005). OBJETIVO(S): En este sentido, se presenta un estudio que tiene como objetivo caracterizar la salud mental de los jóvenes en relación con la enfermedad mental/la psicopatologia y la salud mental positiva/bienestar mental. METODOLOGÍA: Este estudio incluyó a 157 adultos jóvenes de entre 18 y 30 años, residentes en la isla de São Miguel, Azores. Los datos fueron recolectados a través de un cuestionario sociodemográfico, la versión en Portugués de la Escala de Bienestar Mental Warwick-Edimburgh (WEMWBS), la Escala Continuo de Salud Mental - Versión reducida (adultos) (MHC-SF), y la Escala de Ansiedad, Depresión y Estrés (EADS-21). Los datos fueron procesados mediante el programa estatístico SPSS, versión 22. RESULTADOS: En cuanto a los resultados, se presentan niveles de psicopatología y los niveles de la salud mental positiva, así como las diferencias en estos de acuerdo a las variables sociodemográficas. CONCLUSIONES: En términos generales, la población del estudio tiene bajos niveles de psicopatología, incluyendo la ansiedad, la depresión y el estrés, y los altos niveles de salud mental positiva, acostado en el florecimiento.

DESCRIPTORES: Salud mental positiva; Depresión; Ansiedad; Estrés

KEYWORDS: Positive mental health; Depression; Anxiety; Stress Submetido em 30-09-2014 Aceite em 30-01-2015

1 Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde; Universidade Fernando Pessoa, Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Porto, Portugal, kpm_1278@hotmail.com 2 Doutora; Professora Auxiliar na Universidade Fernando Pessoa, Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, 4249-004 Porto, Portugal, cfonte@ufp.edu.pt 3 Mestre em Psicologia; Assistente na Universidade Fernando Pessoa, Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, 4249-004 Porto, Portugal. E-mail: salves@ufp.edu.pt Citação: Monte, K., Fonte, C., e Alves, S. (2015). Saúde mental numa população não clínica de jovens adultos: Da psicopatologia ao bem-estar. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 83-87. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 83


INTRODUÇÃO Até há pouco tempo, a saúde e o bem-estar encontravam-se relacionados com a ausência de doença (Lamers, Westerhof, Bohlmeijer, Klooster & Keyes, 2011) e a saúde mental permanecia indefinida e não mensurável (Keyes, 2007). Esta leitura concetual tem vindo a ser transformada com os contributos trazidos às ciências da saúde pela psicologia positiva (Matos et al., 2010). Deste modo, a investigação na área tem demonstrado que a saúde mental não inclui apenas a ausência de doença mental, mas também a presença de algo positivo, designado de saúde mental positiva (Keyes, 2002; 2007). Assim, inúmeros autores definem a saúde mental positiva como uma síndrome de sintomas de sentimentos e funcionamento positivos, operacionalizada através de medidas de bem-estar, no qual o indivíduo realiza as suas próprias capacidades, lida com o stress normal da vida, trabalha de forma produtiva (Keyes, 2002; 2007) e frutífera (WHO, 2005), estabelece relações positivas com outros indivíduos (Keyes, 2002; 2007) e é capaz de dar um contributo a si ou à sua comunidade (WHO, 2005). Esta definição assenta em três componentes principais, o bem-estar emocional (BEE), o bem-estar psicológico (BEP) e o bem-estar social (BESo) que, em conjunto, compõem a definição de saúde mental positiva (Lamers et al., 2011). Assim, os indivíduos podem caraterizados como languishing (ausência de saúde mental positiva), saúde mental moderada e flourishing (saúde mental positiva) (Keyes, 2002). Neste sentido, este estudo apresenta como objetivo geral a caraterização da saúde mental de uma população jovem, focada na análise dos níveis de psicopatologia, bem como nos níveis de saúde mental positiva. METODOLOGIA Neste estudo participaram 157 indivíduos, 79 de sexo feminino e 78 do sexo masculino, com idades compreendidas entre os 18 e os 30 anos de idade, residentes na ilha de São Miguel, nos Açores. Os instrumentos de recolha de dados foram: o questionário sociodemográfico construído para o efeito; a Versão Portuguesa da Escala de Bem-estar mental de Warwick-Edinburgh (WEMWBS); a Escala Continuum de Saúde Mental – versão reduzida (Adultos) (MHC-SF) e a Escala de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS-21). No que respeita ao procedimento realizado, primeiramente procedeu-se ao pedido de autorização aos autores dos instrumentos supracitados. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 84

Após as respetivas autorizações, o projeto desta investigação foi submetido à comissão de ética da Universidade Fernando Pessoa. O seu parecer positivo conduziu ao início da recolha de dados, sendo contatadas algumas juntas de freguesia do Concelho de Ponta Delgada, nos Açores, por forma a identificarem os grupos juvenis das mesmas, bem como os respetivos responsáveis. Posteriormente foram apresentados os objetivos do estudo bem como os procedimentos éticos inerentes, visando proteger os possíveis participantes. A análise dos resultados foi realizada com recurso ao programa estatístico SPSS (versão 22). RESULTADOS No que respeita à caraterização da saúde mental dos participantes relativamente à doença mental e à saúde mental positiva constatou-se que os participantes apresentaram níveis relativamente baixos de psicopatologia (depressão, ansiedade e stress) e níveis relativamente elevados de saúde mental positiva, tendo em conta as pontuações mínimas e máximas possíveis dos instrumentos (cf. Tabela 1). Tabela 1 -Caraterização da saúde mental dos participantes em relação à depressão, à ansiedade, ao stress, ao bem-estar mental em geral (WEMWBS), ao BEE, ao BESo e ao BEP Amostra (N=157)

Depressão Ansiedade Stress WEMWBS Bem-estar Emocional Bem-estar Social Bem-estar Psicológico

Mínimo Máximo Média

Desvio Padrão

.00 .00 .00 14.00 3.00 5.00 6.00

5.19 5.51 5.16 7.81 2.20 4.83 4.38

21.00 21.00 21.00 70.00 18.00 30.00 36.00

5.06 4.87 6.92 52.64 14.62 18.46 29.08

Relativamente aos estados de saúde mental positiva, verificou-se que a maioria dos indivíduos se encontrava em flourishing (58.6%), evidenciando, assim, saúde mental positiva, seguindo-se os indivíduos com saúde mental moderada (38.2%) e os indivíduos em languishing (3.2%). Foram também analisadas as diferenças na saúde mental positiva e nos níveis de doença mental de acordo com variáveis sociodemográficas. No que respeita à idade, constataram-se diferenças significativas, ao nível da ansiedade, (t (155) = -2.22, p = .03), do bem-estar mental em geral, (t (155) = -2.78, p = .006), do BESo, (t (155) = -3.38, p = .001), e do BEP, (t (155) = -2.62, p = .01), verificando-se que os jovens entre os 26 e os 30 anos de idade pontuam mais elevado nestas dimensões.


Também ao nível do estado de flourishing (t (155) = 2.36, p =.02) se verificou que os jovens entre os 18 e os 25 anos de idade apresentaram níveis mais elevados de saúde mental positiva. Quanto ao sexo, identificaram-se diferenças significativas entre o sexo masculino e o sexo feminino ao nível da depressão, (t (155) = -2.23, p =.03), da ansiedade, (t (155) = -2.69, p =.008), do stress, (t (155) = -2.996, p =.003), e do BEE, (t (155) = 2.29, p =.02), verificando-se que o sexo feminino pontua mais elevado na ansiedade, depressão e stress, ao passo que os homens apresentam níveis mais elevados de BEE. No que concerne ao estado civil, foram encontradas diferenças significativas entre os indivíduos solteiros e os indivíduos casados ao nível da depressão, (t (153) = -3.18, p =.002), ansiedade, (t (153) = -3.82, p =.000), stress, (t (153) = -2.69, p =.008) e BESo, (t (153) = -2.97, p =.003), sendo os indivíduos casados quem apresenta níveis mais elevados nestas dimensões. No respeitante às habilitações académicas, encontraram-se diferenças significativas ao nível da depressão, (F (2.150) = 3.66, p =.028), sendo que o Teste Post-Hoc de Gabriel revelou que os alunos do ensino básico relatavam níveis mais elevados de depressão do que os indivíduos com licenciatura. Quanto à descendência, os indivíduos com filhos relataram níveis significativamente superiores de depressão, (t (155) = 3.68, p =.000), ansiedade, (t (155) = 4.10, p =.000), e stress, (t (155) = 3.71, p =.000), em relação aos indivíduos que não têm filhos. E os indivíduos sem filhos revelam níveis significativamente superiores de languishing (t (155) = -2.46, p =.02). Relativamente ao desejo em sair da ilha, os indivíduos que não desejam sair da mesma relataram níveis significativamente superiores de depressão, (t (154) = -1.95, p =.05), de ansiedade, (t (154) = -2.08, p = .04), de BESo, (t (154) = -3.94, p = .000), e de languishing (t (154) = -2.42, p = .02) do que os indivíduos que pretendem sair. No que respeita à participação em atividades não remuneradas, como voluntariado, os indivíduos que não participam nas mesmas relataram níveis significativamente superiores de depressão, (t (152) = -3.34, p =.003), ansiedade, (t (152) = -3.46, p =.001), e stress, (t (152) = -3.01, p =.003), do que os indivíduos que participam. Quanto à utilização da rede de cuidados de saúde, constataram-se diferenças relativamente aos indivíduos que frequentam e os indivíduos que não frequentam a mesma, ao nível da depressão, (t (154) = -3.60, p =.000), ansiedade, (t (154) = -3.32, p =.001), stress, (t (154) = -3.02, p =.003), e BESo, (t (154) = -3.61, p =.000).

Foram os indivíduos que não frequentam as redes de cuidados de saúde que apresentaram níveis mais elevados de depressão, ansiedade, stress e BESo. Por fim, no que concerne ao acompanhamento psicológico no passado ou atualmente, à satisfação com a rede de cuidados de saúde, à situação profissional e ao concelho de residência, não foram encontradas diferenças significativas em nenhuma das variáveis consideradas. DISCUSSÃO O presente estudo teve como objetivo geral caraterizar a saúde mental de jovens adultos relativamente à saúde mental, numa perspetiva positiva e psicopatológica. Foi possível verificar que os participantes apresentam baixos níveis de psicopatologia e níveis elevados de saúde mental positiva, sendo que a maioria dos participantes se encontra em flourishing, seguindo-se os indivíduos com saúde mental moderada e, por fim, os indivíduos com languishing, sendo estes resultados também verificados por Keyes e colaboradores (2012), constatandose ainda, tal como no presente estudo, que a psicopatologia mais frequentemente referida era a depressão. Foram encontradas diferenças na saúde mental positiva e nos níveis de doença mental de acordo com variáveis sociodemográficas. Deste modo, pudemos constatar que são as mulheres que apresentam níveis mais elevados de psicopatologia (depressão, ansiedade e stress), o vai de encontro à literatura (Hamilton & Meston, 2013). Estes valores de ansiedade, depressão e stress são também mais elevados nos indivíduos com filhos podendo este fato dever-se à reorganização familiar inerente à parentalidade (Widarsson et al., 2012). No entanto, a associação entre parentalidade e saúde mental é complexa e depende fortemente de fatores contextuais (Rimehaug & Wallander, 2010).Em relação ao estado civil, os indivíduos casados relatam também níveis mais elevados de depressão, ansiedade e stress, o que segundo Bischoff (2004) se pode dever ao facto de esta se encontrar associada a conflitos conjugais e à diminuição da satisfação conjugal. Os indivíduos que não pretendem sair da ilha também manifestam níveis mais elevados de depressão e ansiedade, o que não seria espectável, uma vez que a migração influencia de forma negativa a saúde mental (Familiar, Borges, Orozco & Medina-Mora, 2011). Consideramos assim pertinente aprofundar o estudo deste fenómeno.

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Os indivíduos que não participam em atividades não remuneradas também expressam níveis mais elevados de depressão, ansiedade e stress, resultado compreensível já que as atividades de voluntariado geram cognições e afetos positivos que evitam a depressão e promovem o altruísmo (Musick & Wilson, 2003). Contrariamente ao verificado na literatura (Keyes, 2007) os indivíduos que não frequentam a rede de cuidados de saúde são os que relatam níveis mais elevados de depressão, ansiedade e stress, podendo este resultado dever-se ao facto de os participantes, tendo em conta as pontuações mínimas e máximas possíveis do instrumento utilizado, apresentarem níveis relativamente baixos de depressão. Os indivíduos com o ensino básico revelam níveis mais elevados de depressão, o que vai de encontro ao estudo de Molina et al., (2012), que defendem que a baixa escolaridade, entre outros fatores, pode estar associada a níveis mais elevados de depressão, devido às condições de vida e ao maior número de stressores ambientais. Os jovens mais velhos também relatam níveis mais elevados de depressão sendo que Bayram e Bilgel (2008) referem que a transição para a idade adulta representa um período de risco para o aparecimento de ansiedade. No que concerne aos níveis de bem-estar mental em geral (WEMWBS), os jovens mais velhos expressam níveis superiores. Relativamente aos níveis de BEE, o sexo masculino relata níveis mais elevados, o que vai de encontro à literatura (Keyes, 2002) sendo o género um importante preditor de BEE (Haring, Stock & Okun, 1984). Quanto aos níveis de BESo, os jovens mais velhos manifestam níveis mais elevados, sendo que o aumento da idade pode influenciar o aumento de algumas facetas do BESo (Keyes, 1998). Os indivíduos que não desejam sair da ilha também apresentam níveis mais elevados, podendo estar associado o facto de se sentirem integrados e confortáveis com a sua realidade social (Keyes, 1998). Os indivíduos que não frequentam as redes de cuidados de saúde também relatam níveis mais elevados de BESo. Ainda se verificou que os indivíduos casados apresentam níveis mais elevados de BESo, o que vai de encontro à literatura (Shapiro & Keyes, 2008). Quanto aos níveis de BEP, os jovens mais velhos relatam níveis mais elevados, o que vai de encontro ao estudo de Keyes, Shmotkin & Ryff (2002, citados por Siqueira & Padovam, 2008), que constataram que o BEP tende a aumentar com a idade. Por fim, no que concerne aos estados de saúde mental positiva, os jovens com menos idade apresentam níveis mais elevados de flourishing, corroborando o estudo de Matos et al. (2010). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 86

Os indivíduos sem filhos apresentam níveis mais elevados de languishing, o que comprova que a ausência de doença mental não implica a presença de saúde mental positiva/bem-estar (Keyes, et al., 2012). Por fim, os indivíduos que não desejam sair da ilha apresentam níveis mais elevados de languishing, corroborando a perspetiva de Keyes (2002) de que a ausência de saúde mental positiva aumenta a probabilidade de uma perturbação mental. CONCLUSÃO A saúde mental para além da presença ou ausência de doença mental envolve ainda aspetos emocionais, psicológicos e sociais, que permitem observar a saúde como um estado completo. Com este estudo verificouse que as mulheres, os indivíduos casados, com filhos, com o ensino básico, que não desejam sair da ilha, que não praticam atividades não remuneradas e não frequentam a rede de cuidados de saúde apresentaram níveis mais elevados de depressão, ansiedade e stress. Por seu turno, os níveis de depressão são também mais elevados nos indivíduos com o ensino básico e os de ansiedade surgem em jovens mais velhos. No que respeita aos níveis de bem-estar mental em geral, os jovens mais velhos são quem apresenta níveis mais elevados. No que concerne ao BEE, o género masculino é o que apresenta níveis mais elevados. Quanto ao BEP, os jovens mais velhos são quem relata níveis mais elevados. Por fim, os jovens mais velhos, os indivíduos casados, com mais do que um filho, que não desejam sair da ilha e que não frequentam a rede de cuidados de saúde são quem apresenta níveis mais elevados de BESo. Quanto aos estados de saúde mental positiva, os jovens mais velhos manifestam níveis mais elevados de flourishing (saúde mental positiva), sendo que os indivíduos sem filhos e que não querem sair da ilha revelam níveis mais elevados de languishing (ausência de saúde mental positiva). No entanto, a maioria dos participantes encontrase em flourishing, enquanto a minoria se encontra em languishing. Em suma, apesar da maioria desta população se encontrar em flourishing, uma percentagem considerável dos participantes encontra-se com saúde mental moderada, seguindo-se os indivíduos em languishing, apresentando, assim, maior probabilidade de desenvolvimento de uma perturbação mental como a depressão (Keyes, 2002). Para além disso, uma das perturbações mais frequentemente relatada pelos participantes consiste na depressão, emergindo a importância de intervenção nesta área.


IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA A realização deste estudo afigura-se pertinente na área da saúde mental, fornecendo importantes contributos para a compreensão da saúde mental numa perspetiva holística e positiva, que permitirá o aprimoramento das estratégias de intervenção psicológica. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Bayram, N., & Bilgel, N. (2008). The prevalence and socio-demographic correlations of depression, anxiety and stress among a group of university students. Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, 43, 667-672. Bischoff, R. (2004). Depression. Journal of Couple & Relationship Therapy: Innovations in Clinical and Educational Interventions, 3(4), 81-88. Familiar, I., Borges, G., Orozco, R., & Medina-Mora, M. (2011). Mexican migration experiences to the US and risk for anxiety and depressive symptoms. Journal of Affective Disorders, 130(1-2), 83-91. Hamilton, L., & Meston, C. (2013). Chronic stress and sexual function in women. Journal of Sexual Medicine, 10, 2443-2454. Haring, M., Stock, W., & Okun, M. (1984). A research synthesis of gender and social class as correlates of subjective well-being. Human Relations, 37, 645-657. Keyes, C. (1998). Social well-being. Social Psychology Quarterly, 61(2), 121-140. Keyes, C. (2002). The mental health continuum: From languishing to flourishing in life. Journal of Health and Social Research, 43, 207-222. Keyes, C. (2005). Mental illness and/or mental health? Investigating axioms of the complete state model of health. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 73(3), 539-548. Keyes, C. L. M. (2007). Promoting and protecting mental health as flourishing - a complementary strategy for improving national mental health. American Psychologist, 62(2), 95-108.

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15 COMORBIDADES EM USUÁRIOS DE UM SERVIÇO DE SAÚDE MENTAL1 | Luisa De Sordi2; Karen Bigatto3; Sara Santos4; Ana Machado5 |

RESUMO CONTEXTO: O cuidado biopsicossocial em saúde mental engloba diversos conhecimentos e tem como objetivo intervir nos três eixos da reabilitação psicossocial: habitar/morar, trabalho e rede social. Nesta perspectiva, é salutar perceber a ocorrência de comorbidades. A comorbidade psiquiátrica é a ocorrência simultânea de dois ou mais transtornos mentais na mesma pessoa. Já a comorbidade física em doentes mentais, ocorre quando há coexistência de patologias físicas e mentais. OBJETIVO: Investigar a ocorrência de comorbidades em usuários de um Centro de Atenção Psicossocial da cidade de São Paulo Brasil. METODOLOGIA: Trata-se de um estudo qualitativo em que foram entrevistados 15 usuários de um Centro de Atenção Psicossocial. Foram observados sinais e sintomas de outras doenças em todos os sujeitos entrevistados. RESULTADOS: Como diagnóstico psiquiátrico considerou-se a esquizofrenia, como o mais frequente. As principais alterações físicas foram em relação ao excesso de peso, obesidade abdominal, tabagismo e etilismo. Outros sintomas observados podem estar associados ao uso de psicofármacos e seus efeitos colaterais. CONCLUSÕES: A comorbidade está presente em usuários do serviço de saúde mental. Para um cuidado integral é necessário conhecer o sujeito como um todo, construindo em conjunto, equipe e usuário, através de diálogo em que o sujeito é colocado no centro de seu cuidado. PALAVRAS-CHAVE: Saúde mental; Comorbidade; Serviços de saúde mental

RESUMEN

ABSTRACT

“Comorbilidades en los usuarios de un servicio de salud mental” CONTEXTO: El cuidado biopsicosocial en la salud mental engloba diversos conocimientos y tiene como objetivo intervenir en las tres áreas de la rehabilitación psicosocial: habitar, trabajo y red social. En esta perspectiva, es saludable notar la ocurrencia de comorbilidades. La comorbilidad psiquiátrica es la ocurrencia simultánea de dos o más trastornos mentales en la misma persona. La comorbilidad física en personas con trastornos mentales ocurre cuando coexisten patologías física y mental. OBJETIVO: Investigar la ocurrencia de las comorbilidades en los usuarios de un Servicio de Salud Mental de la ciudad de Sao Paulo, Brasil. METODOLOGÍA: Se trata de un estudio cualitativo en que fueron entrevistados 15 usuarios de un Centro de Atención Psicosocial. Han sido observados señales y síntomas de otras enfermedades en todos los individuos entrevistados. RESULTADOS: Como diagnóstico psiquiátrico se considera la esquizofrenia, como lo más frecuente. Las principales alteraciones físicas fueron con relación al exceso de peso, obesidad abdominal, tabaquismo y etilismo. Otros síntomas observados pueden estar asociados al uso de psicofármacos y sus efectos colaterales. CONCLUSIÓNES: La comorbilidad está presente en usuarios del servicio de salud mental. Para un cuidado integral es necesario conocer al individuo como un todo, construyendo en conjunto, equipo y usuario, a través de diálogos en que el individuo es puesto en el centro de su cuidado.

“Comorbidities in users of a mental health service” BACKGROUND: Bio-psycho-social care in mental health involves different types of knowledge, and the objective is the intervention in the three areas of psychosocial rehabilitation: living, working and the social net. On this perspective, it is healthy to notice the occurrence of comorbidities. Psychiatric comorbidity is the simultaneous occurrence of two or more mental disorder in the same person. Whereas, physical comorbidity in a person with mental disorder happens when physical and mental pathologies coexist. AIM: investigate the occurrence of comorbidities among the patients of a Mental Health Service in the city of Sao Paulo, Brazil. METHODS: this article is a qualitative study, in which 15 patients of a Mental Health Service were interviewed. It was observed signs and symptoms for other diseases in all the subjects. RESULTS: Schizophrenia appeared as the most frequent psychiatric diagnosis. The main physical alterations were related to overweight, obesity, consumption of tobacco and alcohol. Other symptoms were observed that can be associated to the use of psychopharmacological drugs and its side effects. CONCLUSIONS: Comorbidity is present among psychiatric patients. In order to offer a comprehensive health care, it is required to have a planned care by health team and patient together, through dialog, having the subject at the center of his/her own care.

DESCRIPTORES: Adolescente; Literacía de la salud; Salud mental; Promoción de la salud

Submetido em 30-09-2014 Aceite em 02-02-2015

KEYWORDS: Mental health; Comorbidity; Mental health services

1 Artigo resultado de trabalho de Iniciação Científica da primeira autora “Comorbidades em usuários de um serviço de saúde mental” financiado pela Reitoria da Universidade de São Paulo. Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, Brasil. 2013. 2 Enfermeira; Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem, Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica, São Paulo, Brasil, luisa.sordi@usp.br 3 Doutoranda em Enfermagem; Enfermeira especialista em Saúde da Família; Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem, São Paulo, Brasil, karen.bigatto@usp.br 4 Doutoranda em Enfermagem; Enfermeira especialista em Saúde da Família; Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem, São Paulo, Brasil, sarags@usp.br 5 Doutora em Enfermagem; Professora Associada na Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem, São Paulo, Brasil, almachad@usp.br Citação: De Sordi, L. P., Bigatto, K. R. S., Santos, S. G., e Machado, A. L. (2015). Comorbidades em usuários de um serviço de saúde mental. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 89-94 Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 89


INTRODUÇÃO No bojo da Reforma Psiquiátrica Brasileira, surge a necessidade de novos serviços de saúde mental desinstitucionalizados, substituindo o modelo hospitalocêntrico, destinados a pessoas com transtornos mentais. Através de forte movimento social é criado, em 1986, o primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) no Brasil, iniciativa esta que se consolidou e espalhou por todo o país como modelo assistencial à saúde mental (Brasil, 2004). A Portaria nº336/02 de 19 de Fevereiro regulamenta este serviço e o divide em: CAPS I (atende um território de até 70.000 habitantes); CAPS II (atende a um território de até 200.000 habitantes); CAPS III (atende a um território de mais de 200.000 habitantes e possui horário de funcionamento 24 horas); CAPS ad (destinando ao tratamento de álcool e droga) e; CAPS infantil. O CAPS oferece atendimento ambulatorial diário a pessoas que sofrem de transtornos mentais severos e persistentes por meio da reabilitação psicossocial (Brasil, 2004). Acredita-se hoje em cuidado biopsicossocial em saúde mental, pois trata-se de um campo de fronteiras, englobando conhecimentos das áreas biológicas, humanas, sociais e até das artes. Segundo Saraceno, Asioli e Tognoni (2001), os objetivos gerais da intervenção em saúde mental devem ser: 1. levar o usuário a adquirir consciência a respeito dos seus problemas: pessoais, familiares, de trabalho, econômicos, sociais e culturais; 2. desenvolver a autonomia afetiva-material-social do usuário; 3. aumentar a incorporação do usuário na vida de relação social e política. Para cuidar da pessoa nesta perspectiva do processo saúde-doença mental, é salutar perceber a ocorrência de comorbidades. Tivemos como objetivo deste estudo investigar a ocorrência de comorbidades psiquiátricas e físicas nos usuários de um Centro de Atenção Psicossocial. O termo comorbidade foi introduzido em medicina com a seguinte definição: “qualquer entidade adicional distinta que existiu ou pode acontecer durante o curso clínico de um paciente que tem a doença índice em estudo” (Fortin, Lapointe, Hudon, Vanasse, Ntetu & Maltais, 2004). Doença índice entendida como a principal ou primária. A comorbidade psiquiátrica é a ocorrência simultânea de dois ou mais transtornos mentais na mesma pessoa. Já a comorbidade física em doentes mentais, ocorre quando há coexistência de patologias físicas e mentais (Kaplan, Sadock & Gregg, 2007; Louzã Neto, Motta, Wang & Elkis, 2007; Organização Mundial de Saúde, 1993). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 90

Acredita-se que a presença de comorbidades tem repercussões na prática clínica, na identificação, nos cuidados gerais e específicos, na família ou cuidadores, nos gestores de saúde e na reabilitação dos usuários, uma vez que estes pacientes são cada vez mais prevalentes nos serviços de saúde . Sabe-se que a presença de comorbidades nos usuários de saúde mental é bastante considerável. Este fato causa uma elevação na taxa de mortalidade nestes pacientes e na maneira com que se implicam em seu tratamento, como por exemplo o uso de medicamentos que causam outras queixas ou a desatenção dos profissionais de saúde com outros sintomas apresentados, o que pode agravar o quadro psiquiátrico (Gomes, 2012). Devido a maior prevalência de comorbidades, os profissionais precisam estar atentos a esta demanda, que vai além do cuidado básico em saúde mental. METODOLOGIA Trata-se de uma pesquisa quantitativa e qualitativa, em que foram realizadas entrevistas cuidadosas tendo como norte o instrumental da enfermagem em saúde mental: comunicação terapêutica, relacionamento interpessoal profissional, medidas terapêuticas, dentre outros (Taylor, 1992; Townsend, 2002). Esta pesquisa ocorreu em dois anos e foram entrevistados quinze (15) usuários de um CAPS-II da cidade de São Paulo - Brasil. Estes usuários, sujeitos da pesquisa, foram escolhidos juntamente com a equipe de profissionais do serviço, através de conversas e reuniões. Foram incluídos os usuários que apresentaram interesse, tiveram disponibilidade e condições gerais e clínicas para participar. Já os usuários que não se interessaram e não tiveram disponibilidade de participar, foram excluídos da pesquisa. A coleta de dados foi iniciada com a construção do relacionamento interpessoal profissional respeitando o tempo, a disponibilidade e o interesse do usuário (Taylor, 1992; Townsend, 2002; Saraceno, Asioli & Tognoni, 2001). Durante os encontros aplicou-se um instrumento que avalia questões objetivas e subjetivas divido em campos onde é possível: investigar e listar possíveis patologias e alterações do processo saúde-doença e saúdedoença mental; descrever histórica de adoecimento psiquiátrico e físico; registrar condições clínicas gerais: queixas, sintomas e sinais de injúria ou alterações significativas; registrar o uso de medicamentos para tratamento; registrar o apoio familiar ou de rede social no cuidado da saúde física e mental do usuário, dentre outras questões.


Além da entrevista com os usuários foram realizadas conversas com os profissionais do serviço, a fim de completar as informações necessárias. Esta pesquisa foi aprovada nos Comitês de Ética da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo e da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, conforme CAAE: 24675013.0.0000.5392. Neste artigo daremos destaque para as questões objetivas avaliadas ao longo das entrevistas.

Figura 1 - Principais alterações encontradas na presente amostra (instrumento utilizado na coleta de dados de De Sordi & Machado, 2014)

RESULTADOS De acordo com os dados coletados, 86,6% dos entrevistados possuíam como diagnóstico médico a esquizofrenia. Está informação já era esperada pois o campo de pesquisa se trava de um CAPS-II, serviço que oferece atendimento a pacientes com transtornos mentais severos e persistentes. As alterações físicas que mais se destacaram entre os sujeitos foram: a) sobrepeso: 46,6% dos sujeitos apresentavam Índice de Massa Corporal (IMC) > 25,0 e < 30, segundo índices e pontos de corte para adultos entre 20 anos e < 60 anos pelo Ministério da Saúde, Brasil (2006); b) medida da circunferência da cintura (CC) elevada: 73,3% dos entrevistados apresentavam aumento desta medida, considerou-se como ponto de corte: 94 cm para o sexo masculino e 80 cm para o sexo feminino (Ferreira, Valente, Gonçalves-Sila & Sichieri, 2006). Na avaliação clínica feita observaram-se sinais, sintomas e queixas, que foram: obstipação, tontura, desconforto respiratório, acatisia, tremor, cefaleia. O tabagismo foi citado por 40% dos usuários e o uso de álcool foi observado em alguns sujeitos. Foi analisado o uso de psicofármacos e percebeu-se que 100% dos sujeitos faziam uso destes medicamentos. Os antipsicóticos e anticolinérgicos/antiparkinsonianos foram os que mais apareceram. Em relação ao apoio social e familiar, todos possuem o CAPS como uma rede de apoio e a maioria dos sujeitos podem contar com o apoio de familiares. Os resultados encontrados foram apresentados na figura a seguir (Figura 1) onde estão esquematizadas as alterações encontradas e as categorias que estas compuseram. Nesta figura está demonstrado também a implicação dos psicofármacos junto a outras alterações, como a obesidade abdominal e o sobrepeso.

DISCUSSÃO Para uma melhor análise dos dados coletados, foram agrupadas informações similares e mais relevantes e estão apresentadas em três categorias: distúrbios do peso e metabólico junto ao transtorno mental; psicofármacos e seus efeitos colaterais e; álcool e tabaco. Distúrbios do Peso e Metabólicos junto ao Transtorno Mental Dieta hipercalórica e estilo de vida sedentário é visto em todas as populações nos dias de hoje e em pacientes psiquiátricos merece uma atenção maior devido a alta taxa de mortalidade desta população em relação a população em geral (Sampaio & Caetano, 2006; Gomes, 2012). O sobrepeso e obesidade abdominal acomete estes indivíduos, que geralmente já consomem uma dieta rica em gorduras, pobre em fibras e praticam menos exercício físico. O aumento da ingestão de alimentos calóricos, ricos em carboidratos pode ser explicado devido a seu efeito ansiolítico pela redução de níveis hormonais (Gomes, 2012). Uma epidemia de obesidade é observada na população atual e existe uma alta prevalência em pacientes com transtornos mental. O ganho de peso leva a outras complicações clínicas e comorbidades, como a síndrome metabólica, hipertensão, cardiopatias (Gomes, 2012). A síndrome metabólica consiste em pelo menos três das alterações: obesidade abdominal, triglicerídeos elevados, elevação da pressão arterial e resistência a insulina (Gomes, 2012). Outra alteração importante foi a obesidade abdominal (aumento da CC) a qual é utilizada pois aponta a gordura visceral do sujeito e é considerada como fator de risco para diversas morbidades, principalmente hipertensão, diabetes, dislipidemia e síndrome metabólica (Olinto, Nácul, Dias-da-Costa, Gigante, Menezes & Macedo, 2006). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 91


Os usuários estão sujeitos a desenvolver (ou já possuem) a síndrome metabólica. Esta doença tem grande relação com os antipsicóticos, pois estes podem aumentar o peso e trazer outros efeitos adversos, conforme figura (Figura 1) apresentada em Resultados, demonstrando a implicação dos psicofármacos no distúrbio do peso e metabólicos. Psicofármacos e seus Efeitos Colaterais Os psicofármacos mais utilizados foram os antipsicóticos e os antiparkinsonianos/anticolinérgicos seguido dos ansiolíticos. Os antipsicóticos causam efeitos extrapiramidais como efeito colateral mais frequente. Esses efeitos aumentam com elevadas doses de antipsicóticos. Dentre os principais tipos de efeitos extrapiramidais estão: acatisia e síndrome parkinsonóide, os quais foram citados pelos sujeitos entrevistados. Esta síndrome é caracterizada por tremor fino, rigidez muscular, marcha em bloco e para o tratamento é utilizado um medicamento anticolinérgico, fármaco em uso pela metade dos sujeitos entrevistados (Louzã Neto, Motta, Wang & Elkis, 2007). O ganho de peso é um efeito colateral dos antipsicóticos de primeira e segunda geração e é comumente visto em pacientes com transtorno mental (Louzã Neto, Motta, Wang & Elkis, 2007). Os ansiolíticos apresentam como efeito colateral a sonolência, cansaço e redução da atenção, porém também podem ocorrer ganho de peso. Outros sintomas apresentados pelos sujeitos podem ser relacionados a efeitos colaterais de medicamentos, como por exemplo a obstipação e tontura.

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Álcool e Tabaco O tabagismo e o etilismo foram citados por alguns sujeitos. A dependência de nicotina apresenta alta prevalência em pacientes com transtornos psiquiátricos, o que pode interferir no humor, ansiedade e a cognição. O tabagismo pode também interferir no mecanismo de ação de medicamentos, especialmente, os psicotrópicos (Malbergier & Oliveira, 2005). Em sua maioria, pacientes esquizofrênicos (maioria dos sujeitos entrevistados) fazem uso do tabaco. Esta substância está relacionada a diminuição dos efeitos extrapiramidais causados pelos antipsicóticos, este efeito é provavelmente relacionado com a ação da nicotina no sistema dopaminérgico (Malbergier & Oliveira, 2005). O uso de álcool pode trazer sinais e sintomas que podem confundir com os dos transtornos mentais, como alucinações, ansiedade e depressão. O tratamento costuma ser mais difícil com esta comorbidade devido a dificuldade de permanecer em abstinência e também devido as interações com os psicofármacos (Alves, Kessler & Ratto, 2004).


CONCLUSÕES Em suma, observamos que a comorbidade está presente em todos os pacientes entrevistados, mesmo que de forma discreta, com apenas sinais e sintomas. Sabese que são altas as taxas de comorbidades em pessoas com transtorno mental (Júnior & Cordás, 2002). Estes pacientes já possuem expectativa de vida baixa devido ao diagnóstico principal do transtorno mental e ainda apresentam maior predisposição para desenvolver outras doenças. As comorbidades apresentadas neste trabalho (obesidade, obesidade abdominal, tabagismo e etilismo) podem ser justificadas devido à vários fatores como estilo de vida, medicamentos e o próprio transtorno mental. O uso de medicamento por longos períodos e altas doses aumentam a chance de desenvolver efeitos colaterais e, consequentemente, comorbidades. A prática de atividade física e a alimentação saudável, são ações de difícil investimento para estes usuários. O incentivo à promoção da saúde para estes pacientes deve ser maior, devido também a sua maior taxa de morbimortalidade. Incentivo à pratica de exercícios físicos, dieta saudável e acesso a conhecimentos sobre saúde e doença devem ser feitos por todos os profissionais que trabalham na área de saúde mental. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Para o cuidado de pacientes psiquiátricos é primordial o conhecimento a fundo do histórico de saúde e das condições de vida deles para que se possa desenvolver um planejamento terapêutico adequado, visando não só o transtorno mental, mas sim o paciente como um todo. Juntos, usuário e equipe de saúde, são capazes de planejar cuidados pensando na integralidade do indivíduo, estipulando ações que contemplem o biopsicossocial. Os resultados deste estudo e a literatura utilizada apontam a prevalência de comorbidades em pacientes psiquiátricos. O conhecimento destas doenças é importante para o planejamento de um projeto terapêutico efetivo. O cuidado e a prevenção são atividades do trabalho dos profissionais da saúde mental e podem estar diretamente relacionados à algumas comorbidades apresentadas pelos usuários. Por isto da importância do estudo sobre comorbidades em usuários de serviços de saúde mental.

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16 AVALIAÇÃO DO PADRÃO DE USO DO ÁLCOOL ENTRE MORADORES

DE UMA REGIÃO SOCIALMENTE VULNERÁVEL

| Alda Gonçalves1; Andréia de Oliveira2; Helen Gandra3; Paula Assunção4; Thaís Oliveira5; Thales da Silva6 |

RESUMO CONTEXTO: O álcool, entre as drogas de abuso, é a substância psicoativa mais largamente consumida no mundo. O II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, feito no Brasil e publicado em 2013 aponta que a taxa de dependência e/ou abuso de álcool na população é de 6,8% sendo 10,5% homens e 3,6% mulheres. OBJETIVO(S): Neste artigo tem-se por objetivo apresentar o padrão de consumo de álcool e as intervenções realizadas em uma comunidade socialmente vulnerável, do município de Belo Horizonte, Minas Gerais. METODOLOGIA: Realizou-se um rastreamento do consumo de álcool entre 47 participantes, com idades superiores a 18 anos, por meio do Alcohol Use Disorders Identification Test. Foi feito um estudo transversal para a análise quantitativa dos dados. Diante do cenário pesquisado, adotou-se a pesquisa ação como uma estratégia metodológica, para fazer as intervenções a partir da classificação do padrão de consumo da população estudada. As intervenções realizadas foram norteadas pelos resultados do referido teste. RESULTADOS: Os escores do teste foram obtidos conforme as zonas de classificação do padrão de consumo de álcool, resultando: zona I, 61,7%; zona II, 6,4; zona III, 14,9% e zona IV, 17,0%. Dentre as pessoas classificadas nas zonas III e IV 25,9% residiam com crianças e adolescentes. CONCLUSÕES: Ressalta-se a importância da manutenção de atividades de promoção à saúde e prevenção ao uso e abuso de álcool como parte do cuidado de saúde prestado pela equipe que assiste a população estudada. PALAVRAS-CHAVE: Alcoolismo; Enfermagem em saúde pública; Promoção da saúde

RESUMEN

ABSTRACT

“Evaluación del nivel de consumo de alcohol entre los residentes de una región con vulnerabilidad social”

“Evaluation of standard of use alcohol among residents of a region socially vulnerable”

CONTEXTO: El alcohol de las drogas de abuso son las drogas psicoactivas más consumidas en el mundo. Lo II Nacional de Alcohol y Drogas de Encuesta, realizada en Brasil y publicado en 2013 muestra que la tasa de dependencia y / o abuso de alcohol entre la población es de 6,8% y 10,5% hombres y 3,6% mujeres. OBJETIVO(S): Este artículo tiene como objetivo presentar el patrón de consumo de alcohol y las intervenciones llevadas a cabo en una comunidad socialmente vulnerables, la ciudad de Belo Horizonte, Minas Gerais. METODOLOGÍA: Había un rastro de consumo de alcohol entre los 47 participantes, mayores de 18 años, a través del Alcohol Use Disorders Identification Test (AUDIT). Un estudio transversal se llevó a cabo para el análisis cuantitativo de los datos. En el contexto investigado, se adoptó la investigación-acción como metodología para realizar intervenciones de la clasificación del patrón de consumo de la población de estudio. Las intervenciones fueron guiados por los resultados de esa prueba. RESULTADOS: Los resultados del test se obtuvieron de acuerdo a las zonas de clasificación estándar de alcohol, lo que resulta en: zona I, el 61,7%; la zona II, 6,4; Zona III, 14,9% y la zona IV, 17,0%. Entre las personas clasificadas en las zonas III y IV 25,9% vivían con niños y adolescentes. CONCLUSIONES: Hacemos hincapié en la importancia de mantener las actividades para promover la salud y prevenir el uso y abuso de alcohol como parte de la asistencia grupo prestada por el personal de atención a la población estudiada.

BACKGROUND: The alcohol, between drug abuse, is the most widely consumed psychoactive substance in the world. The II National Alcohol and Drug Survey, conducted in Brazil and published in 2013 shows that the rate of addiction and / or abuse of alcohol in the population is 6.8% and 10.5% men and 3.6% women. AIM: This paper aims to present the pattern of alcohol consumption and their interventions in a socially vulnerable community, the city of Belo Horizonte, Minas Gerais. METHODS: We conducted a trace of alcohol consumption among 47 participants, aged over 18 years, through the Alcohol Use Disorders Identification Test. A cross-sectional study was done for the quantitative analysis of the data. Against the backdrop researched, action research was adopted as a methodology to make interventions from the classification of the study population consumption pattern. RESULTS: The test scores were obtained depending on the zone classification of the pattern of alcohol consumption, resulting in: zone I, 61,7%, zone II, 6,4%, zone III,14,9%, zone IV, 17,0%. Among persons classified in zones III and IV 25,9% lived with children and adolescents. CONCLUSIONS: It emphasizes the importance of maintaining health promotion and prevention of alcohol use and abuse as part of the health care provided by thes team that assists the population studied.

DESCRIPTORES: Alcoholismo; Enfermería en salud pública; Promoción de la Salud

KEYWORDS: Alcoholism; Health promotion; Public health nursing Submetido em 30-09-2014 Aceite em 03-02-2015

1 Doutora em Enfermagem Psiquiátrica; Enfermeira; Professora Associada na Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Enfermagem, Brasil, alda@enf.ufmg.br 2 Discente de Enfermagem; Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Enfermagem 30130-100 Belo Horizonte, Brasil, andreiafelipe5@gmail.com 3 Discente de Enfermagem; Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Enfermagem 30130-100 Belo Horizonte, Brasil, helen.gandra@hotmail.com 4 Discente de Enfermagem; Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Enfermagem 30130-100 Belo Horizonte, Brasil, paula.g_assuncao@hotmail.com 5 Discente de Enfermagem; Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Enfermagem 30130-100 Belo Horizonte, Brasil, thaismo18@gmail.com 6 Discente de Enfermagem; Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Enfermagem 30130-100 Belo Horizonte, Brasil, thaismo18@gmail.com Citação: Gonçalves, A. M, Oliveira, A. F., Gandra, H. M., Assunção, P. G., Oliveira, T. M., e Silva, T. P. R. (2015). Avaliação do padrão de uso do álcool entre moradores de uma região socialmente vulnerável. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 95-100. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 95


INTRODUÇÃO

METODOLOGIA

As substâncias psicoativas possuem, atualmente, caráter de mercadoria, visto que estão inseridas em uma sociedade capitalista e configuram-se como mais um produto para consumo. Esse problema é complexo e exige enfoque multidisciplinar de saúde pública, pois o consumo destas substâncias ultrapassa os aspectos legais, jurídicos e sociais (Ministério da Justiça, 2013). O consumo de álcool apresenta grande influência nos índices de morbimortalidade mundial, pois quando consumido em um padrão nocivo pode ocasionar comorbidades clínicas como: cirrose hepática, intoxicações, câncer hepático, entre outras doenças. Além disso, pode influenciar em acidentes, quedas e homicídios (Meloni e Laranjeira, 2004). A maior porcentagem de pessoas que consomem álcool no Brasil concentra-se nas classes “A” e “B”, entretanto, segundo Laranjeira, Pinsky, Zaleski,e Caetano, (2007) a classe “E” consome um maior número de doses a cada vez que se bebe. O beber excessivamente todos os dias ou a ocorrência de repetidos episódios de intoxicação pelo álcool são padrões de uso que causam prejuízos físicos, mentais e sociais para o indivíduo (Minto, Corradi-Webste, Gorayeb, Laprega, e Furtado, 2007). O álcool, entre as drogas de abuso, é a substância psicoativa mais largamente consumida no mundo. O II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (II LENAD) feito no Brasil e publicado em 2013 aponta que a taxa de dependência e/ou abuso de álcool na população é de 6,8%, sendo 10,5% homens e 3,6% mulheres (Laranjeira, Madruga, Ribeiro, Pinsky, Caetano,e Mitsuhiro, 2013). O perfil de consumo apresentado pelo II LENAD, anteriormente citado, é a realidade de uma comunidade socialmente vulnerável, do município de Belo Horizonte, Minas Gerais. Tendo em vista essa problemática, os profissionais da equipe de Atenção Básica responsáveis pelo atendimento de saúde dessa população, buscaram uma parceria com professores da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais para a realização de medidas de intervenção naquela realidade. Desta parceria, surgiu um projeto de pesquisa e de extensão denominado “Alcoolismo em região de risco e vulnerabilidade social: diagnóstico e intervenção”. Neste artigo, tem-se por objetivo apresentar o padrão de consumo de álcool e as intervenções realizadas em uma comunidade socialmente vulnerável do município de Belo Horizonte, Minas Gerais.

Para a análise quantitativa dos dados utilizou-se um estudo transversal cuja amostra foi composta por 47 participantes maiores de 18 anos. Diante do cenário pesquisado, adotou-se a pesquisa ação como uma estratégia metodológica, pois permite conhecer a realidade e ao mesmo tempo fazer intervenções sobre ela. Segundo Tripp (2005), a pesquisa ação inicia-se com o reconhecimento do contexto onde o estudo é realizado, identificando as situações passíveis de intervenção, a fim de planejar uma mudança adequada. Utilizou-se o Alcohol Use Disorders Identification Test (AUDIT) como instrumento para identificar o padrão de consumo de álcool e realizar as intervenções de acordo com os resultados obtidos. Valeu-se, também de um questionário sóciodemográfico para conhecer as seguintes variáveis: nome, idade, sexo, nível de escolaridade, número de crianças, adolescentes e adultos, por domicílio. Por meio desse questionário, identificou-se os adultos consumidores de álcool que convivem com crianças e adolescentes. O AUDIT é constituído por 10 questões de múltipla escolha que avaliam o uso individual de álcool nos últimos 12 meses, problemas relacionados ao álcool e sintomas de dependência. As alternativas de respostas são pontuadas em ordem crescente de zero a quatro. Ao fim do teste, os pontos obtidos em cada questão são somados obtendo-se a pontuação final. Os escores finais determinam a classificação de cada participante em uma das quatro zonas, resumidas no Quadro 1 (Ministério da Justiça, 2014).

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Quadro 1 - Zonas do AUDIT, pontuação e classificação Zonas do AUDIT e pontuação

Classificação

Zona I (até 7 pontos)

Geralmente fazem uso de baixo risco de álcool ou são abstêmias.

Zona II (8 a 15 pontos)

Usuários de risco, porém não apresentam nenhum problema atual relacionado a esse consumo.

Zona III (16 a 19 pontos)

Padrão de uso nocivo. São pessoas que consomem álcool e já apresentam problemas decorrentes do uso de álcool.

Zona IV (acima de 20 pontos)

Apresentam grande chance de ter um diagnóstico de dependência de álcool. Fonte: Adaptado de Ministério da Justiça (2014)


O AUDIT foi desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde como um método simples de investigação de uso excessivo de álcool e de ajuda na realização de intervenções (Jomar, Paixão e Abreu, 2012), publicado pela primeira vez em 1989. É considerado eficiente para a detecção do uso nocivo de álcool, devido a sua alta sensibilidade e especificidade (Magnabosco, Formigoni e Ronzani, 2007). Trata-se de um instrumento de fácil aplicação que permite resultado imediato e intervenções direcionadas a partir da zona de classificação identificada. Foram realizadas reuniões prévias com a equipe de saúde da Atenção Básica que assiste aos moradores da região estudada, com o objetivo de planejar a entrada dos pesquisadores no cenário da pesquisa. O primeiro contato dos pesquisadores com a comunidade aconteceu em um evento no qual se comemorou o dia Mundial da Saúde. Durante esse evento, desenvolveram-se atividades educativas de promoção da saúde e iniciou-se a coleta de dados. Posteriormente deu-se continuidade à coleta dos dados em visitas domiciliares, reuniões realizadas em grupos de educação em saúde e salas de espera para atendimento médico. Por se tratar de uma pesquisa envolvendo seres humanos, cumpriu-se as exigências formais da Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde. RESULTADOS Os resultados do questionário sociodemográfico e do AUDIT, permitiram gerar dados percentuais quantitativos sobre o padrão de consumo de álcool entre os sujeitos da pesquisa. Esses dados foram dispostos em tabelas de modo a possibilitar uma análise da relação entre as características sociodemográficas, o padrão de consumo de álcool e o número de crianças e adolescentes que conviviam com adultos consumidores de álcool. A Tabela 1 apresenta os principais dados sociodemográficos da amostra. Os resultados da análise de dados mostraram equilíbrio em relação ao sexo: sendo 48,9% mulheres e 51,1% homens distribuídos em todas as faixas etárias. A maioria dos participantes,83,0%, afirmou ter como escolaridade o 1º grau incompleto. Dos sujeitos da pesquisa, 65,9% convivem com crianças e adolescentes.

Tabela 1 - Dados sociodemográficos da amostra – valores expressos em porcentagem (n=47) Belo Horizonte, 2013 Sexo

Feminino Masculino

48,9 51,1

Faixas etárias

18 - 30 anos 31 - 50 anos 51 anos ou mais

14,9 36,2 48,9

Escolaridade

1˚ Grau Incompleto 1˚ Grau Completo 2˚ Grau Incompleto 2˚ Grau Completo

83,0 10,6 2,1 4,3

Pessoas que convivem com crianças e adolescentes

Sim Não

65,9 34,1

Fonte: Dados da pesquisa: Alcoolismo em região de risco e vulnerabilidade social: diagnóstico e intervenção, 2013.

Observa-se que a maior parte da amostra total, 61,7%, classificada na zona I, fazia uso de baixo risco ou era abstêmia. Entretanto, 21,3% classificada na zona II e III apresentaram padrão de consumo considerado de risco ou nocivo, respectivamente, e 17,0% classificada na zona IV em níveis sugestivos de dependência. Como demonstrado na Tabela 2, os homens foram classificados nos padrões de uso de risco ou uso nocivo, ou seja, localizaram-se nas zonas II e III, em frequência significativamente maior do que as mulheres. O mesmo foi observado em relação a zona IV que sugere possível diagnóstico de dependência de álcool. Em todas as faixas etárias houve maior concentração de pessoas com uso de baixo risco de álcool ou abstêmias. A faixa etária entre 31-50 anos apresentou 29,4% dos participantes com uso nocivo de álcool ou propensão a dependência. Em relação a escolaridade, destaca-se que todos os classificados na zona IV afirmaram ter como escolaridade o 1˚ grau incompleto.

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Tabela 2 - Distribuição dos participantes por Zonas do teste AUDIT de acordo com sexo, faixa etária, escolaridade e convívio com crianças. Belo Horizonte, 2013 (n=47) Zonas de classificação

Zona I (0 - 7 pontos) %

Zona II (8 - 15 pontos) %

Zona III (16 - 19 pontos) %

Zona IV (> 20 pontos) %

TOTAL

61,7

6,4

14,9

17,0

Sexo

Feminino Masculino

91,6 30,4

0,0 13,1

Faixa etária

18 - 30 anos 31 - 50 anos 51 anos ou mais

71,4 52,9 65,2

Escolaridade

1˚ Grau Incompleto 1˚ Grau Completo 2˚ Grau Incompleto 2˚ Grau Completo

59,0

Pessoas que Sim convivem Não com crianças e adolescentes

80,0 100,0 50,0 70,9 43,7

Fonte: Dados da pesquisa: Alcoolismo em região de risco e vulnerabilidade social: diagnóstico e intervenção, 2013.

Ao final da aplicação, os pesquisadores informaram aos participantes os resultados do teste orientando-os sobre a classificação no AUDIT e fizeram abordagens educativas por meio de intervenções. O Quadro 2 demonstra orientações que auxiliaram os pesquisadores no direcionamento de intervenções. Os pesquisadores executaram as intervenções considerando as zonas de classificação e as especificidades apresentadas por cada participante. Quadro 2 - Zonas do AUDIT e suas respectivas intervenções Zonas do AUDIT Intervenções Zona I

Ações de educação em saúde, para manutenção do uso atual de álcool.

Zona II

Orientação básica sobre o uso de baixo risco e sobre os possíveis riscos orgânicos, psicológicos ou sociais, que o usuário pode apresentar se mantiver esse padrão de consumo.

Zona III

Utilização da técnica de Intervenção Breve e o monitoramento.

Zona IV

Motivar o usuário a procurar atendimento especializado para acompanhamento do caso e encaminhar para o serviço adequado. Fonte: Adaptado de Ministério da Justiça (2014).

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Dos adultos que convivem com crianças e adolescentes, 25,9% situaram-se nas zonas III e IV. A convivência de crianças e adolescentes com usuários de álcool, tanto nas famílias quanto na comunidade, requer intervenção. Diante dessa realidade criou-se a ação de extensão Oficina de Arte, Saúde e Paz. Direcionada a pré-escolares de uma creche da comunidade, a ação abordou aspectos relacionados à educação em saúde com foco na prevenção ao uso de álcool e outras drogas, promoção de saúde e cultura de paz. Foram realizadas oficinas lúdico-pedagógicas de contação de histórias e o uso de desenhos, fantoches, músicas, brincadeiras e rodas de conversas. Os temas trabalhados foram escolhidos levando em consideração os resultados evidenciados pela pesquisa, a vulnerabilidade das crianças para o consumo de substâncias psicoativas, bem como as demandas apresentadas pelas educadoras da creche. O trabalho preventivo desenvolvido na comunidade tornou-se relevante pois, possibilitou a troca de saberes entre os envolvidos nas atividades, além de ter incentivado a realização de estratégias de prevenção ao uso de drogas, especialmente do álcool. DISCUSSÃO A partir dos resultados apresentados, verificou-se que a maioria dos entrevistados foi classificada na zona I, ou seja, faziam uso de baixo risco ou eram abstêmios. As intervenções em saúde para estes indivíduos visaram orientá-los quanto à importância de manter-se como consumidores de baixo risco, tendo em vista os malefícios do uso de álcool em grande escala. Além disso, é indispensável que esses indivíduos sejam incentivados a divulgar as vantagens do consumo de baixo risco, valendo-se desses como agentes precursores de boas práticas de saúde, tanto na família como na comunidade (Ministério da Justiça, 2014). Observou-se também na zona I o maior número de mulheres, o que indica que estas fazem uso de baixo risco. Esse achado também é evidenciado por dados apresentados por Laranjeira et al. (2007), que aponta o uso de álcool pelas mulheres como de menor frequência e quantidade. As orientações fornecidas aos indivíduos na zona II objetivaram a redução do uso de álcool e o esclarecimento sobre os riscos à saúde, potencializados por esse padrão de consumo. Para Jomar et al. (2012) são muitos os fatores contribuintes para o desenvolvimento de problemas relacionados ao álcool.


Entre esses, a falta de conhecimento sobre os limites do uso do álcool e sobre os riscos associados ao seu uso excessivo, as influências sociais e ambientais, assim como hábitos e atitudes que favorecem o beber excessivo. Com os classificados na zona III utilizou-se a técnica de Intervenção Breve, que consiste em, de maneira empática e por meio de uma escuta reflexiva, avaliar o consumo de álcool e os problemas relacionados a ele e encorajar o indivíduo a eleger fatores pessoais que o auxiliem na redução do consumo de álcool ou abstinência. Deve-se realizar também, com esses usuários, o monitoramento, que oportuniza momentos de trocas entre participantes e equipe de saúde, a fim de verificar as metas que já foram alcançadas e aquelas que ainda precisam ser aperfeiçoadas (Ministério da Justiça, 2014). Durante a pesquisa, esse monitoramento foi realizado em encontros de terapia comunitária que ocorriam na comunidade, direcionados pelos profissionais da Atenção Básica. Esses profissionais ofereceram apoio para o enfrentamento dos problemas relacionados ao uso do álcool. Dos classificados como padrão de uso nocivo e chance de diagnóstico de dependência de álcool, o sexo masculino está em maior número quando comparado ao sexo feminino. Esses resultados corroboram com Levantamento realizado por Laranjeira et al. (2007), o qual demonstrou que de cada quatro pessoas do sexo masculino que fazem uso de álcool na vida, no Brasil, uma se tornará dependente. Para o sexo feminino, essa proporção é dez para uma. Na zona IV foram incluídos aqueles que possuem aumento na possibilidade do diagnóstico de dependência. Segundo Jomar et al. (2012), o AUDIT não diagnostica dependência. Sendo assim, as pessoas classificadas nas zonas IV precisaram de uma avaliação adicional sobre a dependência alcoólica. Desse modo, foi necessário encaminhar os usuários classificados na zona IV a serviços de saúde. Os serviços indicados abrangem desde a consulta clínica com o médico da equipe de saúde da Atenção Básica até serviços especializados para alcoolistas existentes na área de abrangência da comunidade. Considerando o convívio de adultos consumidores de álcool com crianças e adolescentes, Schenker e Minayo (2005), apontam que o consumo de bebidas alcoólicas pelos pais ou responsáveis faz com que o público infanto-juvenil crie uma ideia de permissão e naturalidade.

Considera-se que uma fragilidade dos resultados deste estudo, dada a impossibilidade dos pesquisadores, foi o não acompanhamento dos participantes classificados na zona IV, depois de encaminhados para a equipe da Atenção Básica ou serviços especializados para alcoolistas. Sugere-se que outros estudos dessa natureza incluam esse acompanhamento. CONCLUSÃO A realização desta pesquisa evidenciou o desconhecimento dos participantes em relação ao próprio padrão de consumo de álcool e consequências que o abuso de álcool pode acarretar na vida pessoal e social do indivíduo. Notou-se também que entre os participantes da pesquisa, havia pouco conhecimento das informações quanto às possibilidades de prevenção e tratamento dos problemas relacionados ao uso de álcool. Ressalta-se a importância da manutenção de atividades de promoção à saúde e prevenção ao uso e abuso de álcool como parte do cuidado de saúde prestado pela equipe que assiste a população estudada. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA O AUDIT é um instrumento utilizado na identificação dos problemas relacionados ao álcool visto que sua aplicação possibilita detectar problemas associados a diferentes padrões de uso do álcool. Permite também fornecer orientações, intervenções, e quando preciso direcionamentos a serviços de saúde especializados. A utilização do AUDIT nos serviços de Atenção Básica, configura-se como um instrumento para a realização de ações de educação em saúde, podendo ser utilizado por toda a equipe de saúde. A prática de enfermeiros pode ser potencializada com a aplicação de instrumentos dessa natureza, realização de atividades educativas de promoção de saúde, bem como, ações no âmbito da prevenção do uso de álcool e outras drogas, especialmente, em comunidades socialmente vulneráveis como a deste estudo.

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17 IMPACTO DA LITERACIA EM SAÚDE NOS COMPORTAMENTOS PRO

MOTORES DE SAÚDE EM GESTÃO DE STRESSE EM ADOLESCENTES | Catarina Tomás1; Paulo Queirós2; Teresa Rodrigues3 |

RESUMO CONTEXTO: Apesar de não demonstrada a relação causal entre uma limitada literacia em saúde e comportamentos promotores de saúde, resultados de investigação permitem afirmar que o desenvolvimento de literacia em saúde permite a promoção deste tipo de comportamentos. OBJETIVO(S): Pretendeu-se conhecer os níveis de literacia em saúde e comportamentos promotores de saúde em gestão de stresse numa amostra de adolescentes portugueses, bem como conhecer o impacto da literacia em saúde nos comportamentos promotores de saúde em gestão de stresse, nessa mesma amostra. METODOLOGIA: Realizou-se um estudo quantitativo, descritivo-correlacional, transversal. A amostra selecionada compreendeu 1215 adolescentes, com idade entre os 14 e os 20 anos, de ambos os sexos, a frequentar o ensino secundário no distrito de Leiria. Os dados foram recolhidos através de um questionário de autopreenchimento, constituído por questões sociodemográficas, a Adolescent Health Promotion Scale e o Instrumento de Avaliação da Literacia em Saúde. RESULTADOS: Encontraram-se bons níveis de literacia em saúde e comportamentos promotores de saúde em gestão de stresse na amostra. Encontraram-se correlações estatisticamente significativas entre os dois conceitos, sendo parte da variância dos comportamentos promotores de saúde em gestão de stresse explicada pelos níveis de literacia em saúde nesta área. CONCLUSÕES: A amostra apresenta bons níveis de literacia em saúde e de comportamentos promotores de saúde em gestão do stresse, tendo sido encontrada uma relação de causalidade entre os conceitos no grupo estudado. PALAVRAS-CHAVE: Literacia em saúde; Comportamento de saúde; Stresse; Adolescente

RESUMEN

ABSTRACT

“Impacto de la literacia en salud en los comportamientos promotores de salud en el manejo de estrés en los adolescentes”

“Impact of health literacy on health-promoting behaviors in managing stress in adolescents”

CONTEXTO: Aunque no demostrado la relación causal entre una limitada literacia en salud y comportamientos promotores de salud, algunos resultados de investigación permiten afirmar que el desarrollo de literacia en salud permite la promoción de este tipo de comportamiento. OBJETIVO(S): Fue pensado para conocer los niveles de literacia en salud y comportamientos promotores de salud en gestión de estrés en una muestra de adolescentes portugueses, así como el impacto de la literacia en salud en los comportamientos promotores de salud en la gestión de estrés, en esa misma muestra. METODOLOGÍA: Un estudio cuantitativo, descriptivo correlacional, transversal. La muestra seleccionada incluye a 1215 adolescentes, de edades comprendidos entre 14 y 20 años, de ambos sexos, que asisten a la escuela secundaria en la provincia de Leiria. Los datos se han recogido através de una auto-encuesta, consistiendo en cuestiones demográficas, de la Adolescent Health Promotion Scale e del Instrumiento de Evaluación de Literacia en Salud. RESULTADOS: Se han encontrado en la muestra buenos niveles de salud y comportamiento promotoras de la salud en la gestión del estrés. Se han encontrado correlaciones estadísticamente significativas entre los dos conceptos, siendo parte de la varianción de los promotores de salud de comportamientos en manejo del estrés es explicada por los niveles de literacia de salud en esta área. CONCLUSIONES: La muestra presenta buenos niveles de literacia de salud y de comportamientos en gestión de estrés, siendo que se encontró una relación de causalidad entre los distintos conceptos en el grupo estudiado.

BACKGROUND: Although as not been demonstrated a causal relationship between a limited health literacy and health-promoting behaviors, results of research allows to affirm that the development of health literacy acknowledge the promotion of this type of behavior. AIM: It was intended to know the levels of health literacy and healthpromoting behaviour in stress management on a sample of Portuguese adolescents, as well as the impact of health literacy on health-promoting behaviors in stress management, on the same sample. METHODS: It was held a quantitative study, descriptive-corelational and transversal. The sample selected included 1215 adolescents, aged between 14 and 20 years, of both sexes, attending secondary school in the District of Leiria. The data was collected through a self-fill questionnaire, consisting of demographic questions, the Adolescent Health Promotion Scale and the assessment tool of health literacy. RESULTS: It has been discovered good levels of health literacy and healthpromoting behaviour in stress management in the sample. Statistically significant correlations have been found between the two concepts, being part of the variance of the behaviors health promoters in stress management explained by health literacy levels in this area. CONCLUSIONS: The sample presents good levels of health literacy and health-promoting behaviors in managing stress, having been found a causal link between the concepts in the studied group.

DESCRIPTORES: Literacia en salud; Comportamiento de salud; Estrés; Adolescente

Submetido em 22-09-2014 Aceite em 23-01-2015

KEYWORDS: Health literacy; health behavior; Stress; Adolescent

1 Doutoranda em Ciências de Enfermagem na Universidade do Porto, Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar; Enfermeira especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Assistente do 2º Triénio no Instituto Politécnico de Leiria, Escola Superior de Saúde, Departamento de Ciências de Enfermagem, catarina.tomas@ipleiria.pt 2 Pós-Doutorando em Ciências de Enfermagem na Universidade do Porto, Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar; Enfermeiro especialista em Enfermagem de Reabilitação; Professor Coordenador na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, 3046-851 Coimbra, Portugal, pauloqueiros@esenfc.pt 3 Doutora em Psicologia; Enfermeira especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Professora Adjunta na ESENF, Porto, Portugal, teresarodrigues@esenf.pt Citação: Tomás, C., Queirós, P., e Rodrigues, T. (2015). Impacto da literacia em saúde nos comportamentos promotores de saúde em gestão de stresse em adolescentes. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 101-106. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 101


INTRODUÇÃO A literacia em saúde define-se como as competências pessoais, cognitivas e sociais que determinam a capacidade dos indivíduos para aceder, compreender e utilizar informação com vista à promoção e manutenção de bons níveis de saúde. Esta definição implica resultados como melhoria do conhecimento e compreensão dos determinantes de saúde, alteração das atitudes e motivações relacionadas com os comportamentos em saúde, bem como uma autoeficácia melhorada na definição de tarefas (Nutbeam, 2000). Um jovem que possua competências de literacia em saúde deverá ser capaz de cuidar de si a nível físico, emocional, social, mental e espiritual (Fetro, 2010). Uma revisão sistemática da literatura realizada por Sanders, Federico, Klass, Abrams, & Dreyer (2009) revela que, de acordo com os estudos analisados, a prevalência de níveis baixo de literacia em saúde de adolescentes e jovens adultos varia de 10 a 40%. Wu, et al. (2010) avaliaram a literacia de 275 adolescentes canadianos, de ambos os sexos, concluindo que os jovens rapazes apresentaram resultados inferiores em relação às raparigas. O European Health Literacy Survey (HLS-EU) Consortium realizou um estudo europeu de literacia em saúde, onde inclui 8 países: Áustria, Bulgária, Alemanha, Grécia, Irlanda, Holanda, Polónia e Espanha. Da população questionada (cerca de 1000 cidadãos por país com idade igual ou superior a 15 anos), 12,4% apresentou níveis de literacia em saúde inadequados (variando de 1,8% a 26,9%), 35,2% uma literacia em saúde problemática, 36,0% apresentou um nível de literacia em saúde suficiente e os restantes 16,5%, um nível excelente de literacia em saúde. Valores mais elevados foram encontrados nos indivíduos que reportam um status de saúde mais elevado, bem como no sexo feminino (HLS-EU Consortium, 2012). Também o estudo dos estilos de vida saudáveis na adolescência se tem tornado um foco importante na área da investigação (Wang, Ou, Chen, & Duan, 2009). Os comportamentos adolescentes são fenómenos complexos e multidimensionais, influenciados por fatores importantes (Spear & Kulbok, 2001), sendo comportamentos que partilham antecedentes psicológicos, ambientais e biológicos semelhantes (Igra & Irwin, 1996). Na China, aplicou-se a AHP Scale a 407 estudantes universitários, com idade entre os 16 e os 25 anos, de ambos os sexos. Os valores mais elevados foram observados nas subescalas de apreciar a vida, suporte social e gestão de stresse (x=67,59; σ=16,29). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 102

O sexo feminino apresenta valores mais elevados de comportamento promotores de saúde em gestão de stresse do que o sexo masculino (Wang, et al., 2009). Existem fatores ou ações protetoras que facilitam os resultados positivos, ou que reduzem ou evitam os resultados negativos na presença de fatores de risco para comportamentos não promotores de saúde na adolescência: fatores individuais (autoestima, autoeficácia, regulação emocional) e ambientais (oportunidades positivas providenciadas pelos adultos na família, escola e comunidade alargada), sendo os primeiros os mais importantes na prevenção de comportamentos de risco (Wang, Hsu, Lin, Cheng, & Lee, 2009). A relação entre a estrutura familiar (famílias monoparentais ou biparentais) e os comportamentos de risco é influenciada pela interação conjunta de outros fatores protetores e de risco, como o stresse diário, os comportamentos de risco adotados pela figura materna e os comportamentos de risco realizados pelos pares (Wang, et al., 2009). Apesar da relação causal entre uma limitada literacia em saúde e comportamentos promotores de saúde não ter ainda sido provada (Committee on Health Literacy, 2004; Nutbeam, 2008), existem resultados de investigação cumulativos e consistentes que permitem afirmar que o desenvolvimento de literacia em saúde permite a promoção deste tipo de comportamentos (Borzekowski, 2009; Committee on Health Literacy, 2004). Os comportamentos de saúde dos adolescentes estão fortemente associados às suas competências em literacia (Sanders, et al., 2009). Adolescentes com níveis mais elevados de literacia em saúde, apresentam comportamentos e relações interpessoais mais saudáveis entre pares (Chang, 2010). Um estudo realizado na China, com uma amostra de 8008 adolescentes a frequentar escolas primárias e secundárias do país, permitiu perceber que existe uma correlação positiva entre os conhecimentos em saúde e as práticas e atitudes promotoras de saúde (Yu, Yang, Wang, & Zhang, 2012). Também Chang (2010) realizou um estudo na Tailândia, utilizando uma amostra de 1601 adolescentes estudantes do ensino secundário, de ambos os sexos, com uma idade média de 17 anos (σ=1,02), concluindo que os rapazes apresentaram níveis mais baixos de literacia em saúde. Os comportamentos promotores de saúde foram menores em adolescentes que apresentaram níveis mais baixos de literacia em saúde, demonstrando-se que a literacia em saúde é um preditor independente dos comportamentos promotores de saúde. Não foram no entanto encontradas relações estatisticamente significativas entre os níveis de literacia em saúde e os comportamentos promotores de saúde na subescala gestão de stresse.


METODOLOGIA

RESULTADOS

Com os objetivos de conhecer os níveis de literacia em saúde e comportamentos promotores de saúde em gestão de stresse numa amostra de adolescentes portugueses, considerando o seu sexo, idade e ano de escolaridade, e conhecer o impacto da literacia em saúde nos comportamentos promotores de saúde em gestão de stresse, foi realizado um estudo quantitativo, descritivocorrelacional e transversal. A população selecionada compreendeu os adolescentes a frequentar o ensino secundário no distrito de Leiria, e a amostra, selecionada por um método de amostragem não probabilístico por conveniência, englobou 1215 adolescentes, com idade entre os 14 e os 20 anos, de ambos os sexos, a frequentar duas destas escolas do distrito de Leiria. Como critérios de inclusão definiram-se ter idade compreendida entre 14 e 20 anos, frequentar o ensino secundário numa escola do distrito de Leiria e aceitar participar no estudo, e como critérios de exclusão, não pertencer às escolas selecionadas para a amostra e não ter autorização dos encarregados de educação para participar no estudo (jovens com idade inferior a 18 anos). Os dados foram recolhidos através de um questionário de autopreenchimento, constituído por questões sociodemográficas, a Adolescent Health Promotion Scale (elaborada por Chen, Wang, Yang & Liou, 2003) e o Instrumento de Avaliação da Literacia em Saúde. A Adolescent Health Promotion Scale, traduzida e validada para a população portuguesa por nós, permite avaliar seis categorias ou dimensões de um estilo de vida saudável na população adolescente (nutrição, exercício físico, suporte social, responsabilidade pela saúde, gestão do stresse e apreciação da vida), sendo constituída por 40 itens de resposta tipo Likert e com 5 opções de resposta, sendo que pontuações mais elevadas (sendo possível pontuar de 1 a 5) correspondem a comportamentos promotores de saúde mais frequentes. O Instrumento de Avaliação da Literacia em Saúde, por nós elaborado, pretende avaliar as competências em literacia em saúde, partindo de 9 temáticas em saúde e 7 parâmetros de desempenho. É constituída por 11 cenários e 60 questões de escolha múltipla. Quanto mais elevada a pontuação, maiores os níveis de literacia em saúde, sendo possível pontuar de 0 a 1. Consideraram-se todos os procedimentos formais e éticos inerentes a este tipo de estudo, tendo os dados sido tratados com recurso a testes paramétricos.

A amostra selecionada foi constituída por 1215 jovens, de ambos os sexos, sendo 47,24% do sexo feminino e 52,76% do sexo masculino, com idades entre os 14 e os 20 anos, com uma média de 16,31 anos e a moda 16 anos (34,40%). A maioria frequentava o 11º ano de escolaridade (38,68%), no curso científico-humanístico de ciências socioeconómicas, sendo que os jovens frequentavam cursos científico-humanísticos (76,05%) e cursos profissionais (23,95%). Dos participantes, 96,13% eram de nacionalidade portuguesa e 93,99% de naturalidade portuguesa, tendo sempre vivido em Portugal. A maioria (98,11%) considera pertencer à cultura portuguesa, sendo que 97,78%, 97,45% e 99,01% afirma dominar a língua portuguesa para ler e escrever, comunicar com a família e comunicar com os amigos e nas relações sociais, respetivamente. Considerando os níveis de literacia em saúde em gestão de stresse, como se observa na Tabela 1, foi encontrada uma média de 0,68 (σ=0,228) na amostra total, sendo este valor mais elevado no sexo feminino (x=0,74; σ=0,190; p=0,000) e nos adolescentes a frequentar o 12º ano de escolaridade (x=0,73; σ=0,205). Os níveis de literacia em saúde diminuem com a idade (R=-0,092; p=0,002), sendo mais elevados no grupo de adolescentes até aos 18 anos (x=0,69; σ=0,220; p=0,063), não sendo, esta diferença estatisticamente significativas.

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Tabela 1 - Níveis de literacia em saúde em gestão de stresse

TOTAL Sexo

Feminino Masculino Idade 14 a 18 anos 19 a 20 anos Ano de escolaridade 10º ano 11º ano 12º ano

-x

σ

Mínimo

Máximo

Q1

Q2

Q3

0,68 0,74 0,62 0,69 0,66 0,66 0,66 0,73

0,228 0,190 0,244 0,220 0,238 0,235 0,231 0,205

0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00

1,00 1,00 1,00 1,00 1,00 1,00 1,00 1,00

0,57 0,57 0,43 0,57 0,57 0,57 0,43 0,57

0,71 0,71 0,71 0,71 0,71 0,71 0,71 0,71

0,86 0,86 0,86 0,86 0,86 0,86 0,86 0,86

p

0,000** 0,063 0,000** 10º/11º=0,999 10º/12º=0,000** 11º/12º=0,999

Legenda: * p<0,05; ** p<0,01

Na Tabela 2 apresentam-se os níveis de comportamentos promotores de saúde em gestão de stresse obtidos na amostra, percebendo-se que o valor médio é de 3,58 (σ=0,660). Também aqui o sexo feminino apresenta os valores mais elevados (x=3,59; σ=0,640; p=0,370), apesar da diferença entre sexos não ser estatisticamente significativa. Os jovens a frequentar o 11º ano de escolaridade, apresentam a menor frequência deste tipo de comportamentos (x=3,50; σ=0,627). Os adolescentes mais novos apresentam níveis de comportamentos promotores de saúde mais elevados, apesar de ser uma diferença estatisticamente não significativa, e de não ter sido encontrada qualquer correlação entre este conceito e a idade dos participantes (R=-0,037; p=0,198). Tabela 2 - Níveis de comportamentos promotores de saúde em gestão de stresse

TOTAL Sexo

Feminino Masculino Idade 14 a 18 anos 19 a 20 anos Ano de escolaridade 10º ano 11º ano 12º ano

-x

σ

Mínimo

Máximo

Q1

Q2

Q3

3,58 3,59 3,56 3,58 3,57 3,64 3,50 3,61

0,660 0,640 0,673 0,649 0,675 0,675 0,627 0,674

1,00 1,83 1,00 1,50 1,00 1,50 1,00 2,00

5,00 5,00 5,00 5,00 5,00 5,00 5,00 5,00

3,17 3,17 3,17 3,17 3,17 3,17 3,17 3,17

3,67 3,67 3,67 3,67 3,50 3,67 3,50 3,67

4,00 4,00 4,12 4,00 4,17 4,17 4,00 4,17

p

0,370 0,225 0,002** 10º/11º=0,003** 10º/12º=0,784 11º/12º=0,046*

Legenda: * p<0,05; ** p<0,01

Relativamente à relação entre ambos os conceitos (Tabela 3), encontraram-se correlações estatisticamente significativas positivas entre os dois conceitos na amostra total (R=0,066; p=0,027), no grupo de adolescentes mais novos (R=0,091; p=0,019), e nos adolescentes a frequentar o 11º ano de escolaridade (R=0,155; p=0,001). Uma pequena percentagem da variância dos comportamentos promotores de saúde em gestão de stresse é explicada pelos níveis de literacia em saúde nesta área, de forma positiva, na amostra total (R2=0,004; p=0,027), nos adolescentes mais novos (R2=0,008; p=0,019) e nos adolescentes a frequentar o 11º ano de escolaridades (R2=0,024; p=0,001).

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Tabela 3 - Análise da regressão linear da literacia em saúde como preditor dos comportamentos promotores de saúde em gestão de stresse R

R2

F

p

0,066

0,004

4,880

0,027*

Feminino

0,063

0,004

2,133

0,145

Masculino

0,060

0,004

2,124

0,146

14 a 18 anos

0,091

0,008

5,546

0,019*

19 a 20 anos

0,033

0,001

0,507

0,477

10º ano

0,012

0,000

0,052

0,820

11º ano

0,155

0,024

10,925

0,001**

12º ano

-0,002

0,000

0,001

0,975

TOTAL Sexo Idade Ano de escolaridade

Legenda: * p<0,05; ** p<0,01


DISCUSSÃO Considerando as características amostrais, a utilização da língua portuguesa de forma dominante na quase totalidade da amostra, bem como quase todos os adolescentes questionados considerarem pertencer à cultura portuguesa, revelam-se características importantes neste tipo de estudo, uma vez que a literacia em saúde implica, não apenas competências pessoais e cognitivas, mas também sociais, permitindo aos jovens aceder, compreender e utilizar a informação acerca de saúde (Nutbeam, 2000). Desta foram, estas características são importante, como vista a uma compreensão linguística e cultural das questões utilizadas para avaliação deste conceito. Também as questões culturais são importantes de atender nas questões que pretendem avaliar os comportamentos promotores de saúde, dado que determinados hábitos em determinadas culturas poderão enviesar os resultados. Os adolescentes da amostra selecionada apresentaram níveis de literacia em saúde, considerados bons, com 25% a amostra a apresentar resultados menos satisfatórios, inferiores a 0,57. Sanders, Federico, Klass, Abrams, & Dreyer (2009) referem resultados semelhantes de acordo com a revisão sistemática de literatura que realizaram, apontando para percentagens de níveis baixos de literacia em saúde nos adolescentes entre 10 e 40%. 25% dos jovens inquiridos apresentam níveis de literacia em saúde elevados, acima de 0,86, sendo que o HLS-EU Consortium (2012) encontrou valores de 16,5% para níveis excelentes de literacia em saúde, numa amostra de adultos europeus. Níveis de literacia em saúde mais elevados foram encontrados nos adolescentes do sexo feminino, confirmando os resultados encontrados por Wu, et al. (2010), Chang (2010) e pelo HLS-EU Consortium (2012), bem como nos adolescentes a frequentar o 12º ano de escolaridade. Foi encontrada uma relação estatisticamente significativa entre este conceito e a idade, sendo que os níveis de literacia em saúde diminuem com esta, e embora sem diferenças estatisticamente significativas, valores mais elevados foram encontrados nos adolescentes com idades entre os 14 e os 18 anos. Percebe-se assim, uma tendência de aumento da literacia em saúde nos adolescentes a frequentar o ensino secundário ao longo dos anos, decrescendo nos jovens que permanecem neste nível de ensino após os 18 anos. Os níveis de comportamentos promotores de saúde encontrados são considerados bons, sendo que apenas 25% dos jovens apresentam níveis abaixo de 3,17, tal como no estudo de Wang, et al. (2009).

Níveis mais elevados foram encontrados no sexo feminino, e nos adolescentes a frequentar o 10 e o 12º ano de escolaridade, não tendo sido encontrada relação entre este conceito e a idade dos jovens. Uma correlação positiva entre os conceitos, bem como a explicação de uma percentagem dos comportamentos promotores de saúde pela literacia em saúde em gestão de stresse foram encontrados na amostra total, nos adolescentes até aos 18 anos de idade e nos adolescentes a frequentar o 11º ano de escolaridade, tal como nos estudos realizados por Yu, Yang, Wang, & Zhang (2012) e contrariamente ao estudo realizado por Chang (2010) que não encontrou esta predição na temática gestão de stresse, apesar de a ter encontrado nos comportamentos de saúde em geral. O facto de apenas uma pequena percentagem dos comportamentos promotores de saúde ser explicada pela literacia em saúde em gestão de stresse, permite perceber que, tal como referem Wang, Hsu, Lin, Cheng, & Lee (2009) e Wang, et al. (2009), outros fatores ajudarão a explicar este tipo de comportamentos, como os fatores ambientais, sociais (associados à influencia familiar e de pares) e outros fatores pessoais. No entanto, parte destes comportamentos é explicada pela literacia em saúde, na amostra estudada, confirmando que, apesar de não ser uma associação forte como refere Sanders, et al. (2009), é estatisticamente significativa, podendo concluir-se que este tipo de competências influenciam os comportamentos adolescentes (Borzekowski, 2009; Chang, 2010; Committee on Health Literacy, 2004) CONCLUSÃO A amostra apresenta bons níveis de literacia em saúde e de comportamentos promotores de saúde em gestão do stresse. Os valores mais elevados de literacia em saúde encontram-se em adolescentes do sexo feminino e a frequentar o 12º ano de escolaridades, diminuindo com a idade, o que indica que os valores mais baixos são encontrados nos adolescentes a frequentar o ensino secundário e com mais de 18 anos. Já os comportamentos promotores de saúde em gestão de stresse, são mais baixos no ano intermédio de escolaridade e no sexo masculino. Encontrou-se uma relação de causalidade, apesar de fraca entre os níveis de literacia em saúde e comportamentos promotores de saúde em gestão de stresse no grupo estudado, percebendo-se assim a importância da enfermagem investir em intervenção promotoras de literacia em saúde nesta faixa etária, com vista à melhoria da saúde mental dos adolescentes.

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IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Compreender os fatores que potenciam os comportamentos promotores de saúde torna-se útil na medida em que o enfermeiro passa a conhecer os fatores que deverá considerar na sua intervenção, com vista a melhorá-la e torna-la mais eficaz. Conhecer o impacto da literacia da saúde nos comportamentos, permite ao enfermeiro atuar enquanto educador e promotor dessa literacia, de forma indicada para as necessidades educacionais da população alvo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Borzekowski, D. L. (2009). Considering children and health literacy: A theoretical approach. Pediatrics, 124, S282-S288. doi: 10.1542/peds.2009-1162D Chang, L.-C. (2010). Health literacy, self-reported status and health promoting behaviours for adolescents in Taiwan. Journal of Clinical Nursing, 20, 190-196. doi: 10.1111/j.1365-2702.2009.03181.x Chen, M.-Y., Wang, E., Yang, R.-J., & Liou, Y.-M. (2003). Adolescent health promotion scale: Development and psychometric testing. Public Health Nursing, 20(2), 104-110.

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18 PRIORIDADES DE INVESTIGAÇÃO EM SAÚDE MENTAL E A

TRANSFORMAÇÃO DO MODELO ASSISTENCIAL | Claudia de Melo Tavares1; Marcela Muniz2; Thiago Silva3 |

RESUMO CONTEXTO: Nas duas últimas décadas o Brasil passou por um processo de transformação do seu modelo de atenção em saúde mental, caracterizado pelo redirecionamento de um cuidado antes centrado na internação hospitalar para uma lógica de atenção focada em serviços de base comunitária. OBJETIVO(S): Este estudo teve como objetivo analisar a produção de conhecimento em Saúde Mental por parte dos enfermeiros do Brasil no que se refere às temáticas prioritárias da Agenda de Saúde Mental. METODOLOGIA: Buscou-se informações contidas em artigos, em língua portuguesa indexados nas bases de dados científicos. Para contextualizar o tema, foi feito um levantamento também a respeito da distribuição dos serviços de saúde mental no Brasil. RESULTADOS: A partir de uma busca na base de dados, foram encontrados 54 artigos. Dentre eles, pôde-se notar que há no Brasil uma produção desigual no que diz respeito ao volume de pesquisas em enfermagem de Saúde Mental para cada região do país. Propõe-se que os enfermeiros busquem sintonizar suas pesquisas às temáticas priorizadas na Agenda de Saúde Mental. A articulação em torno da Agenda é a ação mais importante na legitimação deste instrumento na Política Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde no Brasil, e permitirá que prioridades de pesquisa em saúde estejam em consonância com os princípios do Sistema Único de Saúde. CONCLUSÕES: Há uma necessidade de mais estudos de avaliação para comparar o custo-benefício dos modelos de cuidados alternativos, de modo a melhorar a cobertura, pois a pesquisa pode tornar-se um instrumento para a mudança. PALAVRAS-CHAVE: Enfermagem; Saúde mental; Pesquisa

RESUMEN

ABSTRACT

“Prioridades de investigación en salud mental y la transformación del modelo de atención”

“Priorities for research on mental health and the transformation of care model”

CONTEXTO: En las dos últimas décadas, Brasil ha experimentado un proceso de transformación de su modelo de atención de salud mental, que se caracteriza por una reorientación de la atención centrada antes de la hospitalización por una lógica de la atención centrada en los servicios basados en la comunidad. OBJETIVO(S): Este estudio tuvo como objetivo analizar la producción del conocimiento en Salud Mental por enfermeras de Brasil en relación con la prioridad temática de la Agenda de Salud Mental. METODOLOGÍA: Los datos se buscaran en artículos en idioma portugués en las bases de datos científicas indexadas. Para contextualizar el tema, una encuesta también se realizó sobre la distribución de los servicios de salud mental en Brasil. RESULTADOS: De una búsqueda de la base de datos se encontraron 54 artículos. Entre ellos, cabe señalar que en Brasil existe una producción desigual con respecto al volumen de la investigación en enfermería de salud mental para cada región del país. Se propone que las enfermeras tratan de ajustar sus líneas de investigación priorizadas en la Agenda de Salud Mental. La articulación en torno a la Agenda es la acción más importante en la legitimación de este instrumento en la Política Nacional de Ciencia, Tecnología e Innovación en Salud en Brasil, y permitir que las prioridades de investigación en salud están en línea con los principios del Sistema de Salud. CONCLUSIONES: Hay una necesidad de más estudios con el fin de comparar el costo-efectividad de los modelos alternativos de atención, para mejorar la cobertura, porque la investigación puede convertirse en un instrumento para el cambio.

BACKGROUND: In the last two decades, Brazil has undergone a transformation of its model of mental health care, characterized by a redirection of care focused on hospitalization for a logic of attention focused on community-based services. AIM: This study aimed to analyze the production of knowledge in Mental Health by Brazilian nurses in relation to the thematic priorities of the Mental Health Agenda. METHODS: Data was sought in articles in Portuguese language in indexed scientific databases. To contextualize the issue, a survey was also made about the distribution of mental health services in Brazil. RESULTS: From a search of the database 54 articles were found. Among them, it might be noted that in Brazil there is an uneven production with respect to the volume of research in nursing Mental Health for each region of the country. It is proposed that nurses seek to tune their research topics prioritized in the Mental Health Agenda. The linkage on the Agenda is the most important action in the legitimation of this instrument in National Policy for Science, Technology and Innovation in Health in Brazil, and will allow health research priorities that will be in line with the principles of the Public Health System. CONCLUSIONS: We need more evaluation research to compare the cost-benefit of the models of alternative care, seeking the quality of coverage, because research may become crucial for a change.

DESCRIPTORES: Enfermería; Salud mental; Investigación

KEYWORDS: Nursing; Mental health; Research Submetido em 29-09-2014 Aceite em 22-12-2014

1 Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Psiquiátrica, claudiamarauff@gmail.com 2 Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Psiquiátrica, Rua Dr. Celestino, nº 74, 5º andar, 24020-091 Niterói, Brasil, marcelapimentamuniz@gmail.com 3 Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, 24020-091 Niterói, Brasil, tns.thiago@hotmail.com Citação: Tavares, C., Muniz, M., e Silva, T. (2015). Prioridades de investigação em saúde mental e a transformação do modelo assistencial. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 107-112. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 107


INTRODUÇÃO

METODOLOGIA

Nas duas últimas décadas o Brasil passou por um processo de transformação do seu modelo de atenção em saúde mental, caracterizado pelo redirecionamento de um cuidado antes centrado na internação hospitalar para uma lógica de atenção focada em serviços de base comunitária. Esse processo de mudança de modelo implica um conjunto de desafios para investigação científica, reforçando a importância da inclusão do tema saúde mental na Agenda de Prioridades de Pesquisa para o Sistema Único de Saúde (SUS). A Política Nacional de Saúde Mental no Brasil é essencialmente baseada na Declaração de Caracas (OMS, 1991), e prevê, sobretudo: o processo de desinstitucionalização do portador de transtorno psíquico, a reorientação da assistência na saúde mental para um modelo descentralizado e de base comunitária, a partir da redução gradual dos leitos psiquiátricos e com a progressiva ampliação da rede extra-hospitalar. Neste sentido, os novos dispositivos de saúde mental que vêm sendo utilizados no Brasil são: os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS); ações da saúde mental na Atenção Básica; os Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT); os Centros de Convivência e Cultura; alguns Leitos de atenção integral em Hospitais Gerais e nos CAPS III (que funcionam 24 horas); o auxílio financeiro do Programa de Volta para Casa; e os Consultórios de Rua. Dentre os dispositivos disponíveis, o principal deles tem sido o CAPS, o qual constitui a principal estratégia do processo de Reforma Psiquiátrica no Brasil. De acordo com a Portaria nº 336/GM de 2002, os CAPS são instituições destinadas a acolher os pacientes com transtornos mentais, estimular sua integração social e familiar, apoiá-los em suas iniciativas de busca da autonomia, oferecer-lhes atendimento médico e psicológico. Sua característica principal é a de buscar integrar o portador de sofrimento psíquico a um ambiente social e cultural concreto, designado como seu “território”, o espaço da cidade onde se desenvolve a vida cotidiana desses usuários e de seus familiares (Brasil, 2002). Os principais objetivos destes serviços tem sido: oferecer cuidados intermediários (entre o regime ambulatorial e a internação hospitalar) com ênfase na abordagem compreensiva e com suporte educacional, social, recreacional, reabilitação psicossocial e reinserção profissional; estimular a melhoria da qualidade de vida dos usuários e seus familiares através do autocuidado; e intervir junto à comunidade com ações educativas em saúde como forma de reduzir os danos sociais, psíquicos e físicos conseqüentes do uso de drogas.

Buscou-se informações contidas em artigos, em língua portuguesa indexados em, bases de dados e Bibliotecas Virtuais em Saúde (BVS) como BIREME, SCIELO, MEDLINE, LILACS e BDENF a partir do descritor “Enfermagem Psiquiátrica”. Usou-se como critérios de seleção os artigos estarem disponíveis na íntegra, escritos por brasileiros e cujos resumos evidenciassem concretamente que o foco principal de abordagem do artigo fosse relacionado à enfermagem psiquiátrica. O período considerado para a busca foi de janeiro de 2009 a julho de 2014. Realizou-se uma análise dos 54 artigos científicos encontrados, levando-se em consideração as prioridades propostas pela agenda para pesquisas em saúde mental no Brasil. Dos artigos encontrados destacam-se os estudos desenvolvidos por Camatta (2009), Filizola, Teixeira, Milioni e Brechesi (2011), Mari, Bressan, Almeida-Filho, Gerolin, Sharan e Saxena (2006), Miranda, Clementino, Santos, Silva e Costa (2010), Moreira e Loyola (2010), Muniz, Tavares, Souza, Pacheco e Figueiredo (2014), Oliveira, Silva e Silva (2009), e Oliveira, Kestenberg e Silva (2013). Para contextualizar o tema, realizou-se um levantamento da distribuição dos serviços de saúde mental no Brasil, comparando-se regiões do país, serviços hospitalares e extra-hospitalares e desenvolvimento de pesquisas em enfermagem.

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RESULTADOS E DISCUSSÃO O atual cenário da saúde mental no Brasil tem apresentado como tendências: a reversão do modelo hospitalar para uma ampliação significativa da rede de atenção extra-hospitalar, de base comunitária; o entendimento das questões de álcool e outras drogas como problema de saúde pública e como prioridade no atual governo; e a ratificação das diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) nas ações de saúde mental através da Lei Federal 10.216/01 e da III Conferência Nacional de Saúde Mental. Atualmente, 12% da população necessitam de algum atendimento em saúde mental, seja ele contínuo ou eventual, e 2,3% do orçamento anual do SUS são destinados para a Saúde Mental (Ministério da Saúde, 2012). Neste sentido, alguns desafios precisam ser enfrentados, sobretudo no sentido de fortalecer às políticas de saúde voltadas para grupos de pessoas com transtornos mentais de alta prevalência e baixa cobertura assistencial, bem como implementar uma política de saúde mental mais eficaz no atendimento às pessoas que sofrem com a crise social, a violência e desemprego - determinantes sociais da saúde impactantes atualmente no Brasil.


Para isto, o país tem apontado para a necessidade de consolidação e ampliação da rede de atenção de base comunitária e territorial (Gráfico 1) visando à promoção da reintegração social e cidadania. Portanto, o aumento dos recursos do orçamento anual do SUS para a Saúde Mental também deve ser encarado como importante desafio, a fim de se tornar factível o alcance das metas estabelecidas. Gráfico 1 - Série histórica da expansão dos CAPS no Brasil no período de 1998 a 2011

Os SRT também apresentaram um movimento de expansão considerável no país, havendo um crescimento acentuado em 2011 devido ao processo de fechamento de grandes hospitais neste período (gráfico 3). O mesmo ocorreu com o Programa de Volta para Casa. O Ministério da Saúde aponta que em 2012 o Programa havia alcançado mais de 4 mil beneficiários em folha de pagamento (gráfico 4). Porém, tanto os SRT quanto o Programa de Volta para Casa precisam ampliar significativamente sua curva de crescimento, pois ainda há muitos usuários que não têm acesso a essas estratégias para a Reabilitação Psicossocial. Gráfico 3 - Serviços Residenciais Terapêuticos por ano no Brasil (2002 a 2011)

Fonte: Coordenação de saúde mental, álcool e outras drogas/DAPES/MS

As regiões do Brasil não demonstraram um equilíbrio na distribuição deste crescimento no número de CAPS. É mais expressivo o indicador da cobertura assistencial nas regiões Sul e Nordeste, que vêm apresentando os maiores indicadores de cobertura. A expansão do número de CAPS nas regiões Centro-oeste e Norte permanece como desafio a ser enfrentado nos próximos anos. Com relação à questão específica da expansão destes serviços na região Norte, o Ministério da Saúde (2012) aponta que, para melhor compreensão do problema é necessário que se ajuste o indicador CAPS/100.000 habitantes, devido às peculiaridades demográficas desta região. Já a região Sudeste, tem apresentado um ritmo de crescimento semelhante ao das regiões Centro-oeste e Norte, apesar de ter apresentado um patamar mais alto de cobertura no início do recorte histórico. Este recorte pode ser melhor compreendido a partir da interpretação do gráfico 2, que mostra em seu comportamento a expansão dos CAPS em cada região do país. Gráfico 2 - Série histórica de cobertura CAPS/100.000 habitantes por região no Brasil (2002 a 2011)

Fonte: Coordenação de saúde mental, álcool e outras drogas/DAPES/MS

Fonte: Coordenação de saúde mental, álcool e outras drogas/DAPES/MS Gráfico 4 - Beneficiários do Programa de Volta para casa por ano no Brasil (2003 a 2011)

Fonte: Coordenação de saúde mental, álcool e outras drogas/DAPES/MS

Neste sentido, pode-se destacar a inversão que houve dos investimentos na atenção Psicossocial por parte do Ministério da Saúde. Se em 2002 aplicava-se apenas 24% dos gastos na saúde mental em serviços extra-hospitalares, em 2011 essa porcentagem atingiu 71%, contra 29% investidos em serviços hospitalares (Brasil, 2012). No entanto, verifica-se a partir da interpretação dos gráficos, que as novas modalidades terapêuticas apresentaram um ritmo de crescimento importante de 2002 a 2006. E de lá pra cá passaram a atingir ritmo de crescimento mais lento.

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Este fato relaciona-se com o próprio processo de discussão em torno da Reforma Psiquiátrica no Brasil que precisa ser reaquecido, retomando o debate a respeito da importância da ampliação de novas modalidades terapêuticas. Nesse contexto a presença da universidade é também requerida. É consenso que existe a necessidade de produção de conhecimentos que gerem mais saúde mental para a população, que auxiliem nas ações de expansão da rede de serviços, na melhora na qualidade da atenção e na redução da lacuna assistencial com ênfase na atenção primária, levando em conta os determinantes sociais e o enfrentamento do estigma na sociedade. Neste sentido, propõe-se que os enfermeiros busquem sintonizar suas pesquisas às temáticas priorizadas na agenda de Saúde Mental. A articulação em torno da Agenda é a ação mais importante na legitimação deste instrumento na Política Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde no Brasil, e permitirá que prioridades de pesquisa em saúde estejam em consonância com os princípios do SUS. Para isto, tem-se como pressuposto que as pesquisas visem respeitar as necessidades nacionais e regionais de saúde e estimular a produção de conhecimentos e bens materiais e processuais, sobretudo, nas áreas prioritárias, para o desenvolvimento das políticas sociais. Destacam-se como tópicos a serem contemplados nas pesquisas que apresentam um potencial para suprir as lacunas de conhecimento identificadas na área de saúde mental: intervenções que possam reduzir a carga global da doença mental; estratégias mais eficientes de ampliar a oferta de serviços em saúde mental; atenção primária; bioética e direitos humanos das pessoas com transtornos mentais. A produção de pesquisa em enfermagem de saúde mental no Brasil é marcada por uma produção desigual nas diferentes regiões do país, acompanhando o grau de desenvolvimento ecônomico e social dessas regiões. O gráfico 5 apresenta o total de artigos produzidos pelos pesquisadores em enfermagem do Brasil, exemplificando as disparidades regionais já mencionadas. Gráfico 5 - Total de artigos publicados na área de enfermagem de saúde mental por região do Brasil (2010-2014)

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O foco das pesquisas realizadas por enfermeiros, segundo análise do material encontrado nas bases de dados investigadas, relaciona-se de um modo geral à agenda de pesquisa prioritárias em saúde mental no Brasil, predominando as pesquisas sobre as demandas de cuidado de enfermagem em saúde mental. A abordagem metodológica predominante é a qualitativa, desenvolvida em 74,1% dos estudos, seguida da quantitativa 24,1% e da quanti-qualitativa 1,8% (Quadro 1). Quadro 1 - Relação entre itens da agenda e foco da pesquisa realizada por enfermeiros no período de 2009 a 2014 Itens da agenda Foco da pesquisa em enfermagem % Enfoque teóricometodológico

Família e inclusão, internação e cuidados de enfermagem; representações sociais, profissionais e de familiares sobre a doença mental; cuidar em enfermagem psiquiátrica hospitalar; vivência dos usuários com a doença mental.

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Magnitude, dinâmica e compreensão dos agravos em saúde mental

Assistência psiquiátrica; internação psiquiátrica involuntária; demandas de atendimento; depressão em idosos; ensino do cuidado de saúde mental; sofrimento psíquico da equipe de enfermagem; conhecimento de enfermeiros sobre a reforma psiquiátrica; diagnóstico de enfermagem.

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Organização e avaliação de políticas, programas e serviços

Reforma psiquiátrica, implantação, percepção de alunos e profissionais; cuidado de enfermagem ao paciente com co-morbidade clínicopsiquiátrica, família, autocuidado; internação, acolhimento, alta; consumo de psicofármacos.

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Avaliação, desenvolvimento e aplicação de tecnologias

Interconsulta psiquiátrica; serviços psiquiátricos; cuidado em saúde mental na estratégia saúde da família; desinstitucionalização; papel do enfermeiro, interação, intervenção em crise; abuso de álcool e drogas; projeto terapêutico.

27

O Quadro 2 apresenta os itens de prioridade da agenda para pesquisa em saúde mental pesquisados em menor número pelos enfermeiros.


Quadro 2 - Temas da agenda que não têm sido pesquisados pelos enfermeiros de saúde mental no período de 2009 a 2014 Itens da agenda

A pesquisa em enfermagem não tem contemplado

Enfoque teórico-metodológico

Gênero e etnia; violência e implicações psicossociais; ecologia social, urbana e rural; saúde mental e religião.

Magnitude, dinâmica e compreensão dos agravos em saúde mental

Indicadores de saúde mental; carga global da doença mental; fatores de risco e de proteção; perfil epidemiológico; levantamento exploratório de aspectos demográficos e socioeconômicos; fatores predisponentes; transtornos mentais pós-parto; saúde mental na infância.

Organização e avaliação de políticas, programas e serviços

Saúde mental, assédio moral e/ ou sexual, trabalho e educação.

Avaliação, desenvolvimento e aplicação de tecnologias

Novos métodos e técnicas de investigação; pesquisas sobre medicamentos para transtornos mentais.

CONCLUSÃO A mudança do modelo assistencial em saúde mental no Brasil desencadeou um conjunto de desafios para investigação científica, culminando com a inclusão do tema saúde mental na Agenda de Prioridades de Pesquisa para o SUS. Até o momento, a despeito dos enfermeiros desenvolverem pesquisas coadunadas com a agenda nacional de prioridades, persiste a necessidade de novos estudos serem realizados de forma mais equanime em todas as regiões do país. Ressalta-se a necessidade de mais estudos de avaliação, para comparar o custo-benefício dos modelos de cuidados alternativos – uma forma de melhorar a cobertura pelo uso da própria pesquisa como um instrumento para a mudança. Os estudos analisados indicam importantes avanços nos cuidados desenvolvidos com a pessoa portadora de sofrimento mental, o significado que assume a doença mental junto à família e a relação com os novos dispositivos assistenciais em saúde. Contudo, é necessário que a sociedade, o governo e a universidade ampliem o debate em torno de novas estratégias de atenção em saúde mental e também possa investigar sua eficácia. Tangente a isto, concluiu-se a relevância dos enfermeiros contemplarem a temática dos desafios enfrentados na clínica e na política de saúde mental.

Por isto, recomenda-se que os serviços de saúde e as universidades intensifiquem parcerias para que conjuguem formas de cuidar que atendam ao imperativo ético da Reforma Psiquiátrica, e que se qualifique a infra-estrutura para apoio à pesquisa no país. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Camatta, M (2009). The life experience of families concerning the work of the mental health professionals: A phenomenological study. Online Brazilian Journal of Nursing, 8(2), 16-28. doi: 10.5935/1676-4285.20092183 Filizola, C. L. A, Teixeira, I. M. C., Milioni, D., e Brechesi, P. S. C. (2011). Saúde mental e economia solidária: A família na inclusão pelo trabalho. Revista da Escola de Enfermagem da USP, 45(2), 418-425. doi: 10.1590/ S0080-62342011000200017 Mari, J. J., Bressan, R. A., Almeida-Filho, N., Gerolin, J., Sharan, P., e Saxena, S. (2006). Pesquisa em saúde mental no Brasil: Políticas, infra-estrutura, financiamento e recursos humanos. Revista de Saúde Pública, 40(1), 161-169. Ministério da Saúde (2002). Portaria nº 336. Brasília: Ministério da Saúde. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas Coordenação Geral de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (2012). Saúde Mental em Dados. Brasília: Ministério da Saúde. Ministério da Saúde (2008). Informes técnicos institucionais. Saúde define prioridades de pesquisa. Revista de Saúde Pública, 42(5), 974-977. Miranda, F. A. N., Clementino, F. S., Santos, R. C. A., Silva, M. B., e Costa, T. S. (2010). Percepção de alunos de graduação em enfermagem sobre o processo da reforma psiquiátrica no Brasil. Revista Enfermagem UERJ, 18(2), 235-240. Moreira, L. H. O., e Loyola, C. M. D. (2010). Internação psiquiátrica involuntária: Implicações para a relação enfermagem/paciente. Revista Enfermagem UERJ, 18(4), 632-637.

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19 CONSUMO DE TABACO NA MULHER GRÁVIDA: REVISÃO

SISTEMÁTICA DA LITERATURA

| Maria André1; Anabela Cândido2; Conceição Santiago3; Olimpia Cruz4; Teresa Carreira5; José Amendoeira6 |

RESUMO CONTEXTO: O tabagismo durante a gravidez é considerado fator de risco quer para a mulher quer para o feto. O Programa Nacional de Prevenção e Controlo do Tabagismo – PNPCT, Direção Geral da Saúde - DGS (2013) contempla nos objetivos operacionais: Caracterizar o consumo de tabaco e a exposição ao fumo ambiental, na mulher grávida, até 2015. Enquanto Escola Promotora de Saúde (EPS) estamos sensíveis a esta temática, e no âmbito da Unidade de Monitorização de Indicadores em Saúde (UMIS) pretendemos continuar a intervir ao nível da comunidade. Esta revisão sistemática da literatura (RSL) surge como forma de conhecer o estado da arte da problemática e de referenciar instrumentos que permitam a caracterização do consumo de tabaco na mulher grávida. OBJETIVO(S): Identificar instrumentos para a caracterização do consumo de tabaco na mulher grávida. METODOLOGIA: RSL pelo método PI[C]OD com a questão: Que instrumentos permitem a caracterização do consumo de tabaco na mulher grávida? Com artigos publicados nas bases de dados da interface-EBSCOhost, de 2003-2013. Dos 59 artigos identificados e com a aplicação dos critérios (inclusão/exclusão), resultaram 11 artigos. RESULTADOS: Da análise dos artigos foram identificados diferentes instrumentos de colheita de dados que permitem a caracterização do consumo de tabaco nas mulheres grávidas, nomeadamente escalas, questionários e testes bioquímicos de avaliação da cotinina. CONCLUSÕES: Os instrumentos identificados e as estratégias utilizadas para a aplicação dos mesmos dão contributos consistentes para a elaboração de um instrumento de colheita de dados que permita a caracterização do consumo de tabaco na mulher grávida e futura intervenção na comunidade. PALAVRAS-CHAVE: Mulher grávida; Tabaco; Escalas; Enfermagem

RESUMEN

ABSTRACT

“El consumo de tabaco en las mujeres embarazadas: Revisión sistemática de la literatura”

“Tobacco consumption in pregnant women: Systematic literature review”

CONTEXTO: Fumar durante el embarazo es considerado un factor de riesgo, ya sea para la mujer y el feto. El Programa Nacional de Prevención y Control del Consumo de Tabaco - PNPCT Direção Geral da Saúde – DGS (2013) considera en sus objetivos operativos: Caracterizar el consumo de tabaco y la exposición al humo ambiental en las mujeres embarazadas hasta 2015. Mientras que la Escuela Promotora de Salud (EPS) que son sensibles a esta temática, y la Unidade de Monitorização de Indicadores em Saúde (UMIS) tenemos intención de seguir interviniendo a nivel comunitario. Esta revisión sistemática de la literatura (RSL) surge como una forma de conocer el estado del arte en cuanto a caracterización del consumo de tabaco en las mujeres embarazadas. OBJETIVO(S): Identificar los instrumentos para la caracterización del consumo de tabaco en las mujeres embarazadas. METODOLOGÍA: RSL método PI[C]OD con la pregunta: ¿Qué instrumentos permiten la caracterización del consumo de tabaco en la mujer embarazada? Con artículos publicados en las bases de datos EBSCOhost, de 2003-2013. De los 59 artículos identificados con aplicación de criterios (inclusión/exclusión), dio como resultado 11 artículos. RESULTADOS: El análisis de los artículos, se identificaron diferentes instrumentos de recogida de datos que permitan la caracterización del consumo de tabaco en las mujeres embarazadas, incluyendo las escalas, cuestionarios y pruebas bioquímicas de cotinina. CONCLUSIONES: Las herramientas y estrategias identificadas utilizados para su ejecución dan contribuciones constantes para el desarrollo de un instrumento de recolección de datos que permite la caracterización de fumar en las mujeres embarazadas y futura intervención comunitaria.

BACKGROUND: Smoking during pregnancy is considered a risk factor for either the woman and the fetus. The National Programme for Prevention and Control of Tobacco Use - PNPCT Direção Geral da Saúde - DGS (2013) considers in their operational objectives: To characterize tobacco use and exposure to environmental smoke in pregnant women until 2015. While Health Promoter School (HPS) we are sensitive to this thematic, and related to the Unidade de Monitorização de Indicadores em Saúde (UMIS) we intend to continue intervening at the community level. This systematic literature review (SLR) emerges as a way of knowing the state of art regarding the problematic as well as referencing tools that allow the characterization of tobacco use in pregnant women. AIM: Identify instruments for characterization of smoking in pregnant women. METHODS: SLR by PI[C]OD method with the question: Which instruments allow the characterization of smoking in pregnant woman? With articles published in the databases of the interface-EBSCOhost from 2003 to 2013. From the 59 articles identified and the application of criteria (inclusion / exclusion), resulted 11 articles. RESULTS: Analyzing the articles, different data collection instruments that allow the characterization of tobacco use in pregnant women, including scales, questionnaires and biochemical tests of cotinine were identified. CONCLUSIONS: The identified tools and strategies used to implement them give consistent contributions to the development of an instrument of data collection that allows the characterization of smoking in pregnant women and future community intervention.

DESCRIPTORES: Mujeres embarazadas; Tabaco; Escalas; Enfermería

KEYWORDS: Pregnant woman; Tobacco; Scales; Nursing Submetido em 30-09-2014 Aceite em 20-01-2015

1 Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Santarém, Escola Superior de Saúde de Santarém, Santarém, Portugal, clara.andre@essaude.ipsantarem.pt 2 Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Santarém, Escola Superior de Saúde de Santarém, Santarém, Portugal, anabela.candido@essaude.ipsantarem.pt 3 Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Santarém, Escola Superior de Saúde de Santarém, Santarém, Portugal, mconceicao.santiago@essaude.ipsantarem.pt 4 Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Santarém, Escola Superior de Saúde de Santarém, Santarém, Portugal, olimpia.fonseca@essaude.ipsantarem.pt 5 Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Santarém, Escola Superior de Saúde de Santarém, Santarém, Portugal, teresa.carreira@essaude.ipsantarem.pt 6 Investigador integrado na Universidade Católica Portuguesa, Centro Interdisciplinar em Saúde; Professor Coordenador no Instituto Politécnico de Santarém, Escola Superior de Saúde de Santarém, Unidade de Monitorização de Indicadores em Saúde, Unidade de Investigação, 2005-075 Santarém, Portugal, umis.projetos@essaude.ipsantarem.pt Citação: André, M., Cândido, A., Santiago, C., Cruz, O., Carreira, T., e Amendoeira, J. (2015). Consumo de tabaco na mulher grávida: Revisão sistemática da literatura. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 113-118. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 113


INTRODUÇÃO O tabagismo, entendido como um fenómeno social e global, atingindo todas as regiões do mundo e todos os estratos sociais representa, atualmente, o mais importante problema evitável de saúde pública. Dados epidemiológicos recentes revelam que a nível mundial, morrem por ano cerca de 5,4 milhões de pessoas fumadoras e ex-fumadoras e que a exposição ao fumo ambiental foi responsável pela morte de 46% de mulheres, 28% de crianças e 26% de homens (OMS, 2008; European Comission, 2012, citados por DGS, 2013). Se nos situarmos no nosso país, Portugal apresenta uma das prevalências mais baixas de fumadores e ex-fumadores, comparativamente à média europeia (21%) (DGS, 2013). Contudo, em relação à intensidade do consumo, apresenta valores próximos da média europeia 14,4 cigarros por dia (DGS, 2013) dado a considerar para a intervenção na comunidade. Assim, perante a tendência crescente e globalização deste fenómeno social, a OMS em 2003, criou a Convenção Quadro, importante instrumento jurídico internacional no domínio da saúde pública, adotado por Portugal, como Estado-Membro da OMS, em 2006 (DGS, 2013). No contexto do Plano Nacional de Saúde, foi criado, com carater prioritário, o PNPCT perspetivando-se a redução da incidência e prevalência do tabagismo nas diferentes idades do ciclo vital. Este programa está estruturado em função de 3 eixos estratégicos nucleares sendo estes: prevenção da iniciação do consumo, promoção da cessação tabágica e proteção da exposição ao fumo ambiental; e 2 eixos de intervenção transversal, orientados para a informação, educação, avaliação, formação e investigação (DGS, 2013, p.19). No quadro da implementação de estratégias de prevenção que permitam maximizar o potencial de bem estar materno-fetal, coloca-se o grande desafio de diminuir e/ ou cessar o consumo de tabaco na mulher grávida. Tal como a literatura refere, fumar durante a gravidez ou a exposição continuada a ambientes de fumo (fumador passivo) compromete gravemente a saúde da mãe e do feto. Em particular, a alta prevalência de fumar durante a gravidez, associada a uma diminuição da perfusão placentar contribui para o aumento de abortos espontâneos, prematuridade, restrição de crescimento fetal (Cnattingius, 2004) e aumento das taxas de morbilidade e mortalidade perinatal e infantil (Corbett, 2006).

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A Escola Superior de Saúde de Santarém (ESSS) como EPS e, no âmbito da UMIS, com o trabalho que tem vindo a desenvolver na comunidade, valoriza a temática do consumo de tabaco na mulher grávida contribuindo deste modo para a operacionalização do objetivo do PNPCT da DGS (2013): Caracterizar o consumo de tabaco e a exposição ao fumo ambiental, na mulher grávida, até 2015, estando este integrado no eixo estratégico: “Monitorizar, avaliar e promover a formação profissional, a investigação e o conhecimento”. Perante o exposto, surge a necessidade de identificar instrumentos para a caracterização do consumo de tabaco na mulher grávida e propusemo-nos a realizar uma revisão sistemática da literatura. METODOLOGIA Realizámos a RSL tendo por base a estratégia PI[C]OD, formulámos a seguinte pergunta de pesquisa: Que instrumentos permitem a caracterização do consumo de tabaco na mulher grávida? Com o objetivo de identificar instrumentos para a caracterização do consumo de tabaco na mulher grávida. A pesquisa foi efetuada, com o recurso aos descritores MeSH Browser de pesquisa, após combinação das componentes da estratégia PI[C]OD, na seguinte expressão de pesquisa: “Pregnant Women or Pregnancy or Gestation AND Smoking or Tobacco or “Smoking during pregnancy” AND Epidemiologic methods or Scales or Measures. Recorremos às bases de dados da Interface – EBSCOhost MEDLINE with full text, CINAHL Plus with full text, Nursing & AHC: Comp., Cochrane CRCT, MedicLatina, Database of ARE, HTA, Library IS&TA, Cochrane MR, Cochrane DSR e NHS. Como limitadores de pesquisa consideramos: Texto completo; Resumo disponível; Analisado por especialista; Prática baseada na evidência; Pelo menos um autor enfermeiro; Friso Cronológico:01/01/2003 a 31/07/2013. A pesquisa foi realizada no dia 1 de Agosto de 2013.


Dando continuidade aos aspetos metodológicos do processo de revisão, e tendo em atenção que cada um dos acrónimos são considerados os elementos fundamentais da questão de pesquisa, possibilitando deste modo a recuperação da melhor informação científica disponível (Higgins & Green, 2009; Santos, Pimenta e Nobre, 2007), consideramos como critérios de inclusão para os participantes: Estudos que se reportem a mulheres fumadoras durante a gravidez; em relação à intervenção: Caracterização do consumo de tabaco/história do tabagismo das mulheres grávidas; com Comparação ou não; E tendo como resultados: Instrumentos que permitam a caracterização do consumo de tabaco na mulher grávida; e no Desenho todos os tipos de estudo. Dos 59 artigos identificados após leitura do resumo, do texto completo e da aplicação dos critérios resultaram 11 artigos, sendo 6 quantitativos, 4 mistos e 1 qualitativo, com níveis de evidência entre I e VI (Melnyk & Fineout-overholt, 2005). Como estratégia de análise utilizamos a análise estruturante (Flick, 2005). RESULTADOS Numa visão global e caracterizadora dos 11 artigos analisados consideramos como estruturante as seguintes dimensões: identificação, participantes, metodologia, intervenções e principais resultados. Assim, no que diz respeito à Identificação dos estudos considerámos pertinente referenciar o país de origem, ano de publicação e objetivos. A sua maioria, 7, são oriundos dos EUA e os restantes 4 são provenientes do Canadá, Alemanha, Austrália e Equador, quanto ao ano de publicação situa-se entre 2005 e 2012, sendo que a maioria se reporta aos anos 2010 e 2012; em relação aos objetivos constatámos que todos os estudos efetuam uma caracterização do consumo de tabaco durante a gravidez, sendo que 4 deles ainda caracterizam este consumo no período pré-concecional. O foco de interesse da maioria dos estudos, 8, centra-se no período pré-natal, 3 remetem-se para os efeitos nocivos no recém-nascido e 1 direciona-se para o risco do reinício dos hábitos tabágicos após a gravidez. Em relação ao período pré-natal salientamos, ainda, a preocupação em relacionar os hábitos tabágicos com outras variáveis nomeadamente: fatores psicossociais (humor pré-natal, sintomas depressivos e a violência contra a mulher grávida), sociodemográficos (idade gestacional e coabitantes), fatores ambientais (exposição ao fumo ambiental), fatores culturais e consumo de outras substâncias (álcool e substâncias ilícitas).

Quanto às Participantes a maioria dos estudos, 10, reportam-se às mulheres grávidas e 1 a mulheres no pós-parto; quanto à idade, não emerge nenhum grupo etário, estando assim contemplado todo o período fértil; no que se refere à etnia encontram-se participantes afro-americanas, hispânicas, indígenas canadianas e algumas sem etnia definida. No que se refere às mulheres grávidas, os estudos reportam-se a todos os trimestres da gravidez, no entanto, realçam a primeira consulta pré-natal como o momento de seleção das participantes. Quanto ao estudo das mulheres no pós-parto, constatámos que os dados se reportam ao período da gravidez. Quanto à Metodologia, e no que se refere ao desenho (D) da pergunta de pesquisa 6 dos estudos utilizam o método quantitativo,4 o tipo misto e 1 o qualitativo. Em relação às Intervenções todos os estudos utilizam instrumentos que caracterizam o consumo do tabaco durante a gravidez, nomeadamente questionário, escalas e testes bioquímicos de avaliação da cotinina conforme se explícita no Quadro 1. Estes instrumentos são utilizados em diferentes momentos contemplando a fase pré-concecional, ciclo gravídico e pós-parto. Todos os estudos utilizam instrumentos na triagem para caracterização do grupo e ao longo do período de intervenção para caracterização e avaliação dos hábitos tabágicos, relacionando-os com diferentes variáveis; Ressalva-se 1 estudo que utiliza instrumentos para avaliação do impacto das intervenções implementadas.

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Quadro 1 - Artigos que integram a RSL/Instrumentos identificados Nº

Artigo

Instrumentos /Referências

2

Título: An Integrated Randomized Intervention to Reduce Behavioral and Psychosocial Risks: Pregnancy and Neonatal Outcomes Autores; Subramanian, Katz, Rodan, Gantz, El-Khorazaty, Johnson, & Joseph. Ano/País: 2012/EUA

Smoke-Free Families - SFF (Melvin, & Tucker, 2000).

7

Título: Consumo y exposición al humo de tabaco en mujeres embarazadas de Ecuador Autores; Poletta, López-Camelo, Gili, Montalvo, & Castilla. Ano/País: 2010/Equador

Questionário dicotómico

16

Título: Identifying Women at-Risk for Smoking Resumption after Pregnancy Autores: Merzel, English, & Moon-Howard. Ano/País: 2010/EUA

Smoking Assessment Instruments – SAI (English, Merzel, Moon-Howard, Forthcoming, sd.). Smoke-Free Families - SFF (Melvin, & Tucker, 2000; Melvin, & Gaffney, 2004).

19

Título: Independent and Interactive Associations of Prenatal Mood and Substance Use With Infant Birth Outcomes Autores: Gyllstrom, Hellerstedt, & McGovern

Pregnancy Risk Assessment Monitoring System PRAMS http://www.cdc.gov/PRAMS/methodology.htm.

24

Título:Maternal Prenatal Depressive Symptoms, Nicotine Addiction, and Smoking-Related Knowledge, Attitudes, Beliefs, and Behaviors Autores: Orr, Blazer, & Orr. Ano/País: 2012/ EUA

Smoke-Free Families - SFF (Melvin, & Tucker, 2000; Melvin, & Gaffney, 2004). Teste bioquímico - cotinina (Klebanoff, Levine, Clemens, DerSimonian, & Wilkins, 1998). Questionário - Crenças e conhecimentos sobre tabagismo; Fatores ambientais

34

Título: Prevalence and Correlates of Smoking During Pregnancy: A Comparison of Aboriginal and Non-Aboriginal Women in Manitoba Autores;Heaman, & Chalmers. Ano/País:2005/Canadá

Questionário estruturado

42

Título: Risk Factors for Prenatal Depressive Symptoms Among Hispanic Women Autores: Fortner, Pekow, Dole, Markenson & Chasan-taber Ano/País:2011/EUA

Pregnancy Risk Assessment Monitoring System PRAMS (Williams, Morrow, Lansky, et al. (2003).

44

Título: Smoking Among Pregnant Women with Medicaid Insurance: Are Mental Health Factors Related? Autores; Holtrop, Meghea, Raffo, Biery, Chartkoff, & Roman. Ano/País: 2010/EUA – Michigan

Multiple Choice Question - MCQ (Mullen, Carbonari, Tabak, & Glenday, 1991). Pregnancy Risk Assessment Monitoring System PRAMS (Tong, Jones, Dietz, D’Angelo, & Bombard, 2009). Fagerstrom Test for Nicotine Dependence - FTND (Heatherton, Kozlowski, Frecker, & Fagerstrom, 1991).

46

Título:Smoking During Pregnancy and Postpartum: Smoking Rates and Intention to Quit Smoking or Resume After Pregnancy Autores:Hannover, Thyrian, Ebner, Roske, Grempler, Kuhl, Hapke, Fusch, & John. Ano/País: 2008/Alemanha

Fagerström Test for Nicotine Dependence - FTND (Heatherton, Kozlowski, Frecker, & Fagerstrom, 1991).

49

Título:The association between depresive symptoms and smoking in pregnant adolescents Autores; Bottomleya, & Lancaster. Ano/País:2008/Austrália - Melbourne

Smoking Questionnaire - SQ (Lawson’s, 1994; Bottomley, & Lancaster, in preparation).

50

Título:Use and Smoking in Early Pregnancy and Congenital Cardiac Defects Autores; Mateja, Nelson, Kroelinger, Ruzek, & Segal. Ano/País: 2012/EUA

Pregnancy Risk Assessment Monitoring System – PRAMS (Adams, Shulman Bruce, & Brogan, 1991; Colley-Gilbert, Shulman, Fischer, & Rogers, 1999)

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Como principais resultados verificámos que o consumo de tabaco durante a gravidez é tendencialmente mais frequente quando associado às variáveis sociodemográficas (baixo nível de escolaridade e/ou elevados níveis de escolaridade, baixos níveis socioeconómicos e coabitação com fumadores); demonstram os estudos que existe uma associação entre os sintomas depressivos pré-natais e/ou durante a gravidez e a dependência da nicotina. As mulheres que fumavam e consumiam álcool apresentavam scores mais elevados de sintomas depressivos. Verificámos, assim, que embora exista um enfase na avaliação de algumas dimensões da saúde mental, os estudos são díspares nas variáveis estudadas, não permitindo obter uma visão clara sobre quais as variáveis que melhor caraterizam a temática em estudo. No que diz respeito aos efeitos nocivos do consumo do tabaco durante a gravidez para o recém-nascido, os estudos são consistentes com a literatura ao revelarem que os hábitos tabágicos influenciam o baixo peso ao nascer, especialmente durante o terceiro trimestre; por sua vez, um dos estudos mostra que o consumo de tabaco parece melhorar o mau humor da mulher durante a gestação. Outro dos resultados relevantes é a diminuição do consumo de tabaco após o conhecimento da gravidez, estando este facto associado à crença de que o tabaco prejudica o bebé, no entanto, tendencialmente estas mulheres reiniciam os seus hábitos tabágicos após o parto. DISCUSSÃO Os instrumentos identificados nos diferentes estudos que constituíram esta RSL permitem caracterizar o consumo de tabaco na mulher grávida. Relativamente aos questionários mobilizados, estes centram-se nos conhecimentos e crenças sobre os efeitos nocivos do consumo de tabaco na mulher grávida e no bebé, no consumo ativo de tabaco na mulher grávida e na exposição ao fumo ambiental do tabaco. A avaliação bioquímica da cotinina foi determinada na saliva e na urina. No Quadro 2, apresentamos as escalas identificadas e os aspetos mais relevantes que os estudos obtiveram da sua aplicação.

Quadro 2 - Escalas identificadas na caracterização do consumo de tabaco na mulher grávida SFF Avalia nos fumadores ativos os níveis de dependência, a cessação tabágica, os momentos de mudança e as abordagens de intervenção, nos diferentes trimestres da gravidez. SAI

Visa medir a presença de fatores que influenciam a recaída do consumo de tabaco. Avalia o consumo de tabaco no período pré-concecional, consumo de tabaco pelo parceiro, exposição ao fumo ambiental do tabaco e regras relacionadas com o consumo de tabaco dentro de casa.

PRAMS

Possibilita a caracterização das experiencias e comportamentos das mulheres durante os períodos pré-concecional e pré-natal, nomeadamente através do número de cigarros fumados por dia e a sua equivalência em número de maços.

MCQ

Mede o consumo de tabaco, permitindo às mulheres identificar o seu hábito de fumar num continuum, que vai desde fumadoras regulares, redução do consumo de tabaco durante a gravidez, consumo ocasional e cessação tabágica durante a gravidez.

FTND

Avalia o grau de dependência da nicotina.

SQ

Faculta informações em relação ao consumo de tabaco durante a gravidez e no período pré-concecional.

CONCLUSÃO A realização desta RSL permitiu-nos conhecer o estado de arte sobre os instrumentos utilizados para a caracterização do consumo de tabaco pela mulher grávida. A identificação dos instrumentos e as estratégias utilizadas para a aplicação dos mesmos suportam o desenvolvimento de instrumentos de colheita de dados, que nos permitam fazer a caracterização futura do consumo de tabaco da mulher grávida no distrito de Santarém. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA O consumo de tabaco durante a gravidez é o mais importante fator de risco modificável em que podemos intervir. Como EPS consideramos que os resultados desta RSL dão um contributo sustentado para a continuidade do trabalho que estamos a desenvolver, o estudo epidemiológico sobre o consumo de tabaco na mulher grávida, indo ao encontro dos eixos de intervenção transversal, previstos no PNPCT da DGS (2013).

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Bottomleya, K. L., & Lancaster, S. J. (2008). The association between depressive symptoms and smoking in pregnant adolescents. Psychology, Health & Medicine, 13(5), 574-582. Cnattingius, S. (2004). The epidemiology of smoking during pregnancy: Smoking prevalence, maternal characteristics, and pregnancy outcomes. Nicotine & Tobacco Research, 6(Suppl. 2), 125-140. Acedido em Junho, 13 de 2014, em http://ntr.oxfordjournals.org/ Corbett, R. W. (2006). Cuidados de enfermagem durante a gravidez. In D. L. Lowdermilk, & S. E. Perry, Enfermagem na maternidade (pp. 245-303). Loures: Lusociência. Direção Geral da Saúde (2013). Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo 2012-2016. Lisboa: Direção Geral da Saúde. Flick, U. (2005). Métodos qualitativos na investigação científica. Lisboa: Monitor. Fortner, R., Pekow, P., Dole, N., Markenson, G., & Chasan-Taber, L. (2011). Risk factors for prenatal depressive symptoms among Hispanic women. Maternal & Child Health Journal, 15(8), 1287-1295. Gyllstrom, E. M., Hellerstedt, W. L., & McGovern, P. M. (2011). Independent and Interactive Associations of Prenatal Mood and Substance Use With Infant Birth Outcomes. Maternal & Child Health Journal, 15(2), 198-204. Hannover, W., Thyrian, J. R., Ebner, A., Roske, K., Grempler, J., Kuhl, R., Hapke, U., Fusch, C., & John, U. (2008). Smoking during pregnancy and postpartum: Smoking rates and intention to quit smoking or resume after pregnancy. Journal of Women’s Health, 17(4), 631-640. Heaman, M. I., & Chalmers, K. (2005). Prevalence and correlates of smoking during pregnancy: A comparison of aboriginal and non-aboriginal women in Manitoba. Birth: Issues in Perinatal Care, 32(4), 299-305.

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Higgins, J., & Green, S. (2009). Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions Version 5.0.2. The Cochrane Collaboration, 2009. Holtrop, J. S., Meghea, C., Raffo, J. E., Biery, L., Chartkoff, S. B., & Roman, L. A. (2010). Smoking among pregnant women with medicaid insurance: Are mental health factors related?. Maternal & Child Health Journal, 14(6), 971-977. Mateja, W. A., Nelson, D. B., Kroelinger, C. D., Ruzek, S., & Segal, J. (2012). The association between maternal alcohol use and smoking in early pregnancy and congenital cardiac defects. Journal of Women’s Health, 21(1), 26-34. Melnylk, & Fineout-Overholt (2005). Rating system for hierarchy of evidence. Merzel, C., English, K., & Moon-Howard, J. (2010). Identifying women at-risk for smoking resumption after pregnancy. Maternal & Child Health Journal, 14(4), 600-611. Orr, S. T., Blazer, D. G., & Orr, C. (2012). Maternal prenatal depressive symptoms, nicotine addiction, and smoking-related knowledge, attitudes, beliefs, and behaviors. Maternal & Child Health Journal, 16(5), 973978. Poletta, F. A., López-Camelo, J. S., Gili, J. A., Montalvo, G., & Castilla, E.E. (2010). Consumo y exposición al humo de tabaco en mujeres embarazadas de Ecuador. Revista Panamericana de Salud Pública, 27(1), 56–65. Santos, C. M. C., Pimenta, C. A. M., e Nobre, M. R. C. (2007). A estratégia PICO para a construção da pergunta de pesquisa e busca de evidências. Revista Latinoamericana de Enfermagem, 15(3). Subramanian, S., Katz, K. S., Rodan, M., Gantz, M. G., El-Khorazaty, N., Johnson, A., & Joseph, J. (2012). An integrated randomized intervention to reduce behavioral and psychosocial risks: Pregnancy and neonatal outcomes. Maternal & Child Health Journal, 16(3), 545554.


20 EFEITO DA MASSAGEM TERAPÊUTICA NA SAÚDE MENTAL DAS

PESSOAS COM PATOLOGIA ONCOLÓGICA | Márcia Alves1; Maria Jardim2; Bárbara Gomes3; Otília Freitas4 |

RESUMO CONTEXTO: O enfermeiro deve interagir com as pessoas em situação de saúde ou doença, melhorando o seu contexto sociocultural e o seu processo transição. Estas interações são organizadas com um propósito em que o enfermeiro utiliza ações terapêuticas para promover a saúde. A massagem terapêutica consiste em pressionar e esfregar o corpo ou partes deste com fins terapêuticos. OBJETIVO(S): Avaliar o efeito da intervenção da massagem terapêutica na saúde mental das pessoas com patologia oncológica. METODOLOGIA: Revisão sistemática da literatura, através dos descritores “pacientes”, “oncologia” e “massagem”, estudos de 2000 a 2012, em bases de dados e motores de busca online. RESULTADOS: O corpus do estudo foi composto por 15 artigos e demonstra que a massagem terapêutica reduz, quer de imediato, quer a longo prazo, a ansiedade e a depressão. Contudo, há estudos em que não existiram diferenças nestas variáveis. Esta intervenção melhora, de imediato, o relaxamento, o bem-estar emocional e o padrão de sono, a dor, o desconforto físico-emocional e a fadiga. Não houveram diferenças estatísticas significativas que corroborassem a melhoria da qualidade de vida, stress e sofrimento. CONCLUSÕES: A massagem terapêutica tem efeitos benéficos a curto prazo na saúde mental das pessoas com patologia oncológica. No entanto, relativamente à ansiedade e depressão os resultados analisados são contraditórios, reportando-se para investigações futuras. Sugerimos novas pesquisas para maior consistência empírica sobre os efeitos da intervenção da massagem terapêutica na saúde mental das pessoas com patologia oncológica e assim contribuir para a prática de uma enfermagem de excelência baseada na evidência. PALAVRAS-CHAVE: Pacientes; Oncologia; Massagem

RESUMEN “Efecto de la terapia de masaje en la salud mental de las personas con patología del câncer” CONTEXTO: Las enfermeras deben interactuar con las personas en el estado de salud o enfermedad, la mejora de su contexto sociocultural y su transición de processo. Estas interacciones se organizan con un propósito en el que las enfermeras utilizan acciones terapéuticas para promover la salud. El masaje terapéutico es presionar y frotar el cuerpo o partes del mismo para fines terapéuticos. OBJETIVO(S): Evaluar el efecto de la intervención de la terapia de masaje en la salud mental de las personas con patología del cáncer. METODOLOGÍA: Revisión sistemática de la literatura a través de los descriptores “pacientes”, “oncología” y “masaje”, estudios de 2000 a 2012, en las bases de datos y motores de búsqueda en línea. RESULTADOS: El estudio se compone en 15 artículos y demuestra que la terapia de masaje reduce, ya sea inmediatamente o el largo plazo, la ansiedad y la depresión. Sin embargo, hay estudios que no hubo diferencias en estas variables. Esta intervención mejora, de inmediato, la relajación, bienestar y sueño emocional, el dolor, la incomodidad y la fatiga física y emocional. No hubo diferencias estadísticamente significativas que apoyen una mejor calidad de vida, el estrés y el sufrimiento. CONCLUSIONES: El masaje terapéutico tiene efectos beneficiosos el corto plazo en la salud mental de las personas con patología del cáncer. Sin embargo, para la ansiedad y la depresión se fueron evaluados resultados contradictorio, la presentación de informes para las investigaciones futuras. Recomendamos más investigación para consistencia más empírica sobre los efectos de la intervención de la terapia de masaje, en la salud mental de las personas con patología del cáncer y contribuir así a la práctica de la excelencia en enfermería basada en la evidencia.

DESCRIPTORES: Pacientes; Oncología; Masaje

ABSTRACT “Effect of massage therapy in the mental health of people with cancer pathology” BACKGROUND: Nurses should interact with people in health status or disease, improving their socio-cultural context and its process transition. These interactions are organized with a purpose in which nurses use therapeutic actions to promote health. Therapeutic massage is to press and rub the body or parts thereof for therapeutic purposes. AIM: Evaluate the effect of massage therapy intervention in the mental health of people with cancer pathology. METHODS: Systematic literature review through the descriptors “patients”, “oncology” and “massage”, from 2000 to 2012 studies, in databases and online search engines. RESULTS: The study was composed of 15 items and shows that massage therapy reduces, either immediately or the long term, anxiety and depression. However, there are studies in which there were no differences in these variables. This intervention improves, immediately, relaxation, emotional well-being and sleep patterns, pain, physical and emotional discomfort and fatigue. There were no statistically significant differences which would support improved quality of life, stress and suffering. CONCLUSIONS: Therapeutic massage has beneficial effects in the short term in the mental health of people with cancer pathology. However, with regard to anxiety and depression the results analyzed are contradictory, reporting for future investigations. We suggest further research to most empirical consistency on the effect of massage therapy intervention, mental health of people with cancer pathology and thus contribute to the practice of nursing excellence based on evidence.

KEYWORDS: Patients; Oncology; Massage Submetido em 30-09-2014 Aceite em 19-01-2015

1 Doutoranda em Ciências de Enfermagem na Universidade do Porto, ICBAS; Enfermeira no Hospital Dr. Nélio Mendonça, Funchal, Portugal, marcialves96@hotmail.com 2 Doutora em Ciências de Enfermagem e Desenvolvimento e Intervenção Psicológica; Professora Coordenadora na Universidade da Madeira, Funchal, hjardim@uma.pt 3 Doutora em Ciências de Enfermagem; Professora Coordenadora na Escola Superior de Enfermagem do Porto, 4200-072 Porto, Portugal, bgomes@esenf.pt 4 Doutora em Ciências de Enfermagem; Professora Coordenadora e Presidente na Universidade da Madeira, Funchal, Portugal, omsfreitas@uma.pt Citação: Alves, M., Jardim, M., Gomes, B., e Freitas, O. (2015). Efeito da massagem terapêutica na saúde mental das pessoas com patologia oncológica. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 119-122. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 119


INTRODUÇÃO A massagem terapêutica baseia-se na aplicação de pressão no corpo com múltiplos objetivos nomeadamente: ajudar o relaxamento, a sensação de prazer, a ultrapassar problemas físicos, a libertar bloqueios emocionais, amenização da dor, entre outros. A massagem pode ser aplicada com fins terapêuticos, servindo para ajudar no restabelecimento do equilíbrio das diversas estruturas humanas. A sua aplicação desencadeia efeitos mecânicos, analgésicos, psicológicos, térmicos e estruturais. Segundo Meleis (2012), o papel do enfermeiro é interagir com as pessoas, melhorar o seu contexto sociocultural e algum tipo de transição. Estas interações são organizadas em torno de um propósito e o enfermeiro utiliza algumas ações terapêuticas para melhorar, trazer ou facilitar a saúde. Os enfermeiros, como elementos de uma equipa multidisciplinar, intervêm ativamente no controlo e alívio da dor total através de intervenções não farmacológicas, em complementaridade com a terapêutica farmacológica, conhecendo as suas indicações, as contraindicações e os efeitos colaterais (Ordem dos Enfermeiros [OE], 2008; Direção Geral de Saúde [DGS], 2001). A massagem pode ser preventiva, curativa, de reabilitação e alívio da tensão muscular local e em geral. Os doentes que beneficiam desta intervenção apresentam níveis mais baixos de ansiedade e de dor, tendo mais controle sobre as decisões de tratamento (Almeida e Duarte, 2000). Com base no pressuposto de que a massagem tem efeitos na condição de saúde do doente, surge esta revisão de literatura baseada na questão “Qual o efeito da massagem terapêutica na saúde mental das pessoas com patologia oncológica?”, com o objetivo de analisar os estudos realizados neste âmbito, para melhor conhecer os efeitos desta intervenção de enfermagem, massagem terapêutica, no doente oncológico. METODOLOGIA Esta pesquisa alicerçou-se numa revisão sistemática da literatura. Foi realizada, exclusivamente em bases de dados e motores de busca online, nomeadamente EBSCOhost (Medline, Cochrane Central Register of Controlled Trials, Cochrane Database of Systematic Reviews, Psychology and Behavioral Sciences Collection, EJS EJournals, British Nursing Index), à LILACS, à SciELO, ao RCAAP (Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal) e à ScienceDirect. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 120

Como critérios de inclusão considerámos os artigos reportados ao período entre 2000 e 2012, estudos primários completos que avaliassem o efeito da massagem terapêutica nos doentes com idade superior ou igual a 18 anos e com diagnóstico médico de cancro. Foram excluídos os artigos que não relatavam a investigação em torno da temática em estudo e que não apresentassem os critérios de inclusão pré-definidos. Os descritores de pesquisa utilizados foram oncology, cancer e massage therapy, e foram combinados entre si através dos operadores boleanos “AND” e “OR”. Da pesquisa resultaram 120 artigos, sendo 50 na EBSCOhost, 20 na SciELO, 1 na LILACS, 7 na RCAAP e 42 na ScienceDirect. No processo de seleção dos estudos científicos foram considerados os critérios de inclusão e de exclusão estabelecidos (Figura 1). Após leitura integral dos mesmos, foram selecionados 15 estudos para a revisão sistemática. Figura 1 - Processo de seleção do corpus documental Estudos identificados na base de dados: EBSCOhost (n=50), LILACS (n=1), SciELO (n=20), RCAAP (n=7), ScienceDirect (n=42) n=120 Excluídos pela leitura do título e do resumo: n=69 + estudos repetidos (n=2) Estudos incluídos para análise completa do

Excluídos após análise completa do texto: n=34

texto

Não cumprirem os critérios de inclusão: 5 artigos de

n=49

revisão sistemática da literatura; 6 artigos de opinião; 2 comunicações livres; 3 capítulos de livros; 4 referentes à fase inicial da doença. Total =15 artigos

Sem clareza metodológica: 14 estudos por não apresentarem objetivos claramente identificados e indefinição do desenho de investigação.

RESULTADOS Tendo por base os artigos selecionados, procedemos à (re)leitura dos mesmos de forma a analisar e sintetizar a evidência empírica, categorizando-os segundo os efeitos da intervenção massagem terapêutica, e de acordo com as variáveis identificadas nos estudos (Quadro 1). Quadro 1 - Resumo dos resultados dos artigos selecionados Efeitos a curto prazo Efeitos a longo prazo Alterações significativas na melhoria: - Bem-estar emocional; - Desconforto físico e emocional; - Humor deprimido; - Padrão de sono; - Relaxamento; - Stress.

Não houve alterações significativas na melhoria: - Qualidade da saúde; - Sofrimento; - Stress.


Quanto às variáveis ansiedade e depressão constatou-se que, após a massagem terapêutica, estas melhoravam significativamente a curto prazo (Post-White, Kinney, Savik, Gau, Wilcox & Lerner, 2003; Hernandez-Reif, Ironson, Field, Hurley, Katz & Diego, 2004; Cassileth & Vickers, 2004; Deng, Barrie & Cassileth, 2005; Downey et al., 2009; Jane, Wilkie, Gallucci, Beaton & Huang, 2009; Sui-Whi, Wilkie, Gallucci, Beaton & Huang, 2011). Existem estudos que relatam a eficácia da massagem terapêutica na depressão, a longo prazo (Downey et al., 2009; Jane et al., 2009; Sui-Whi et al., 2011). No entanto, noutros estudos não se verificaram diferenças significativas na melhoria da ansiedade e da depressão a curto (Billhut, Bergbom & Stenes-Victorin, 2007) e a longo prazo (Ahles et al., 1999; Soden, Vincent & Craske, 2004; Wilkinson et al., 2007). Wilkinson et al., (2007) acrescentam que apesar de terem obtido os mesmos resultados estatísticos, o autorrelato da ansiedade, através de entrevistas estruturadas, melhorou para os doentes que receberam massagem terapêutica e que esta relação não se comprovou para o autorrelato da depressão. Em contrapartida, segundo Adams, White e Beckett (2010) a ansiedade aumentou de 3,83 para 4,75 a curto prazo. No que concerne a outras variáveis estudadas, a massagem tem efeitos benéficos e imediatos no relaxamento (Grealish, Lomasney & Whiteman, 2000; Adams et al., 2010), humor deprimido, raiva (Hernandez-Reif, Ironson, Field, Hurley, Katz & Diego, 2004), stress (Cassileth & Vickers, 2004), desconforto físico e emocional, bem-estar emocional e no padrão de sono (Soden et al., 2004; Adams et al., 2010). Relativamente à qualidade de vida, esta melhorou significativamente, a curto prazo, apenas no estudo de Ferreira e Lauretti (2007); mas a longo prazo, não existem estudos que corroborem a melhoria da qualidade de vida, do stress e do sofrimento (Soden et al., 2004; Kutner, et al., 2008). DISCUSSÃO Os resultados enfatizam a necessidade de aumentar as evidências empíricas, bem como dar a conhecer os benefícios associados à massagem terapêutica, incidindo particularmente a nível dos doentes com patologia oncológica. No entanto, a maioria dos estudos desta revisão sistemática, realçam o efeito da massagem terapêutica na melhoria de algumas variáveis que geram desconforto, nomeadamente o humor deprimido, raiva, desconforto físico e emocional, bem-estar emocional e no padrão de sono. Assim, os enfermeiros devem proporcionar o relaxamento, prazer, contornar problemas físicos e libertar bloqueios emocionais através da massagem terapêutica.

Obtivemos resultados contraditórios a nível do efeito da intervenção na ansiedade e na depressão, pois apesar de uns estudos terem revelado efeitos positivos a curto (Post-white et al., 2003; Hernandez-Reif et al., 2004; Cassileth & Vickers, 2004; Deng et al., 2005; Downey et al., 2009; Jane et al., 2009; Sui-Whi et al., 2011) e a longo prazo (Jane et al., 2009; Downey et al., 2009; SuiWhi et al., 2011), todavia outros estudos não revelaram quaisquer efeitos (Ahles et al., 1999; Soden et al., 2004; Billhut et al., 2007; Wilkinson et al., 2007). Constatou-se que esta intervenção obteve resultados positivos associados à diminuição dos sinais vitais devido ao relaxamento promovido (Grealish et al., 2000; Adams et al., 2010), no humor deprimido e raiva (Hernandez-Reif et al., 2004), na fadiga muscular (Deng et al., 2005), no stress (Cassileth & Vickers, 2004) e a nível do bem-estar emocional e no padrão de sono (Soden et al., 2004; Adams et al., 2010). Não existiram diferenças estatísticas que corroborem a melhoria na qualidade de vida, do stress e do sofrimento (Soden et al., 2004; Kutner et al., 2008). CONCLUSÃO Mediante a análise dos resultados, embora as variáveis ansiedade e depressão apresentassem efeitos contraditórios, permitiu-nos inferir que a massagem terapêutica tem efeitos benéficos a curto prazo a nível do bemestar emocional, desconforto físico e emocional, humor deprimido, padrão de sono, relaxamento e stress. No que respeita à qualidade de vida e sofrimento não existem estudos que confirmem os efeitos da intervenção. O presente estudo carece de trabalhos de investigação relacionados com a temática explorada, pelo que acreditamos que esta consiste numa das limitações desta revisão sistemática da literatura. A necessidade de novas investigações sobre os efeitos da massagem terapêutica, na área de intervenção de enfermagem, torna-se pertinente para maior consistência empírica sobre os seus efeitos na saúde mental das pessoas com patologia oncológica e assim contribuir para a prática de excelência baseada na evidência. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Os enfermeiros são os profissionais que recorrem cada vez mais à utilização da massagem terapêutica como intervenção para a promoção da saúde. Consideramos necessário incrementar no corpo de saberes da enfermagem a produção de conhecimentos sobre o tema, de forma a subsidiar as discussões, orientações e treino da equipa, propondo diretrizes atualizadas e protocolos inovadores. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 121


Este estudo comprova cientificamente os efeitos a curto prazo da massagem terapêutica, relativamente a algumas variáveis. Assim, os enfermeiros podem aplicá-la na prestação de cuidados diários ao doente e com mais complementaridade às terapêuticas farmacológicas vigentes no sistema de saúde. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Adams, R., White, B., & Beckett, C. (2010). The effects of massage therapy on pain management in the acute care setting. International Journal of Therapeutic Massage & Bodywork, 3(1), 4-11. Ahles, T., Tope, D., Pinkson, B., Walch, S., Hann, D., Whedon, M., Dain, B., Weiss, J., Mills, L., & Silberfarb, P. (1999). Massage therapy for patients undergoing autologous bone marrow transplantation. Journal of Pain and Sympton Management, 18(3), 157-163. Almeida, M., e Duarte, S. (2000). Massagem dorsal de bem-estar e de conforto. Referência, 5(1), 75-78. Billhut, A., Bergbom, I., & Stenes-Victorin, E. (2007). Massage relieves nausea in women with breast cancer who are undergoing chemotherapy. Journal of Alternative and Complementary Medicine, 13(1), 53-57. Cassileth, B., & Vickers, A. (2004). Massage therapy for symptom control: Outcome study at a major cancer center. Journal of Pain and Sympton Management, 28(3), 244-249. Deng, G., Barrie R., & Cassileth, B. (2005). Integrative oncology: Complementary therapies for pain, anxiety, and mood disturbance. Cancer Journal for Clinicians, 55(2), 109-116. Direção Geral de Saúde (2001). Plano nacional de luta contra a dor. Portugal. Downey, L., Diehr, P., Standish, L., Patrick, D., Kozak, L., Fisher, D., Congdon, S., & Lafferty W. (2009). Might massage or guided meditation provide “means to a better end”? Primary outcomes from an efficacy trial with patients at the end of life. Journal of Palliative Care, 25(2),100-108. Ferreira, A., e Lauretti, G. (2007). Estudo dos efeitos da massoterapia no alívio da dor e na melhoria da qualidade de vida em pacientes oncológicos sob cuidados paliativos. Revista Dor, 8(2), 983-993. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 122

Grealish, L., Lomasney, A., & Whiteman, B. (2000). Foot massage: A nursing intervention to modify the distressing symptoms of pain and nausea in patients hospitalized with cancer. Cancer Nursing, 23(3), 237-243. Hernandez-Reif, M., Ironson, G., Field, T., Hurley, J., Katz, G., & Diego, M. (2004). Breast cancer functions following massage therapy. Journal of Psychosomatic Research, 57(1), 45-52. Jane, S., Wilkie, D., Gallucci, B., Beaton, R., & Huang, H. (2009). Effects of a full-body massage on pain intensity, anxiety, and physiological relaxation in Taiwanese patients with metastatic bone pain: A pilot study. Journal of Pain and Symptom Management, 37(4), 754-763. Kutner, S., Smith, M., Corbin, L., Kemphill, l., Benton, K., & Mellis, K. (2008). Massage therapy versus simple touch to improve pain and mood in patients with advanced cancer: A randomized trial. Annals of Internal Medicine, 149(6), 369-379. Meleis, Afaf (2012). Theoretical nursing: Development & progress (5th ed.). Philadelphia: Wolters Kluwer. Ordem dos Enfermeiros (2008). Dor guia de boas práticas. Portugal: Ordem dos Enfermeiros. Post-White, J., Kinney, M., Savik, K., Gau, J., Wilcox, C., & Lerner, I. (2003). Therapeutic massage and healing touch improve symptoms in cancer. Integrative Cancer Therapies, 2(4), 332-344. Soden, K., Vincent, K., & Craske, S. (2004). A randomized controlled trial of aromatherapy massage in a hospice setting. Palliative Medicine, 18(2), 87-92. Sui-Whi, J., Wilkie, D., Gallucci, B., Beaton, R., & Huang, H. (2011). Effects of massage on pain, mood status, relaxation, and sleep in Taiwanese patients with metastatic bone pain. A randomized clinical trial. Pain, 152(10), 2432-2442. Wilkinson, S., Love, S., Westcombe, A., Gambles, M., Burgess, C., Cargill, A., Young, T., Maher, E., & Ramirez, A. (2007). Effectiveness of aromatherapy massage in the management of anxiety and depression in patients with cancer. A multicenter randomized controlled trial. Journal of Clinical Oncology, 25(5), 532-538.


21 A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO DOCENTE E OCORRÊNCIA DE

ASSÉDIO MORAL NO ENSINO PÚBLICO SUPERIOR DE ENFERMAGEM | Geilsa Valente1; Carlos Sequeira2 |

RESUMO CONTEXTO: O assédio moral compõe um tema complexo, tendo em vista que muitas vezes está caracterizado apenas pela percepção da própria vitima. A realização desta pesquisa surgiu da observação de situações de assédio moral no trabalho do docente no ensino público superior de enfermagem. OBJETIVOS: Identificar na literatura a ocorrência do Assédio Moral no Trabalho em docentes-enfermeiros e Refletir sobre a ocorrência do Assédio Moral no Trabalho e sua relação com a organização do trabalho no ensino público superior. METODOLOGIA: Trata-se de um artigo de reflexão, a partir da revisão de literatura, abrangendo o recorte temporal de 2001 a 2012, nas bases de dados virtuais em saúde. RESULTADOS: Observou-se que existe uma lacuna de conhecimento científico referente ao assédio nas relações de trabalho, principalmente no que concerne à categoria de enfermeiro-docente, abordando a organização do trabalho desses profissionais. CONCLUSÃO: Conclui-se que o assédio moral é uma ocorrência no ambiente do ensino público superior de enfermagem, e traz danos à saúde física e mental do trabalhador. Sugere-se que estudos sejam ampliados no intuito de trazer á tona esta realidade e contribuir para que a problemática em foco seja combatida. PALAVRAS-CHAVE: Violência; Fatores de risco; Riscos ocupacionais

RESUMEN

ABSTRACT

“Organización del trabajo en la enseñanza y ocurrencia del acoso moral en la educación publica superior de enfermería” CONTEXTO: Bullying compone un tema complejo, ya que a menudo se caracteriza sólo por la propia percepción de la víctima. Esta investigación surgió de la observación de situaciones de acoso escolar durante la enseñanza en la educación superior pública en enfermería. OBJETIVOS: identificar en la literatura la ocurrencia de acoso en el trabajo de las enfermeras-maestros y reflexionar sobre la incidencia del acoso en el trabajo y su relación con la organización del trabajo en la educación superior pública. METODOLOGIA: Este es un artículo de reflexión a partir de la revisión bibliográfica, que cubre el periodo de tiempo 2001-2012, en las bases de datos virtuales en salud. RESULTADOS: Se observó que hay una brecha de conocimientos científicos relacionados con el acoso en las relaciones laborales, en particular con respecto a la categoría de enfermera-docente, dirigiéndose a la organización del trabajo de estos profesionales. CONCLUSIONES: Se concluye que la intimidación es un hecho en el ámbito de la educación superior pública en la enfermería, y trae daño al trabajador en la salud física y mental. Se sugiere que se amplíen los estudios con el fin de poner de manifiesto esta realidad y contribuir para que el problema de enfoque sea combatido.

“The organization of the teaching work and occurrence of moral harassment in upper public education nursing” BACKGROUND: Bullying composes a complex issue, given that often is characterized only by the victim’s own perception. This research came from the observation of situations of bullying during teaching in public higher education in nursing. OBJECTIVES: Identify the literature the occurrence of Harassment in the Work-nurses and teachers and reflect on the occurrence of Harassment in work and its relation to the organization of work in public higher education. METHODS: This is an article of reflection from the literature review, covering the time frame 2001-2012, the virtual databases in health. RESULTS: It was observed that there is a scientific knowledge gap related to harassment in employment relationships, particularly with respect to the nurse-teacher category, addressing the organization of the work of these professionals. CONCLUSIONS: It is concluded that bullying is an occurrence in the public higher education nursing environment, and brings harm to the physical and mental health worker. It is suggested that studies be expanded in order to bring out this reality and contribute to the problem in focus is tackled.

DESCRIPTORES: Violencia; Factores de riesgo; Riesgos laborales

Submetido em 30-09-2014 Aceite em 29-01-2015

KEYWORDS: Violence; Risk factors; Occupational risk

1 Doutora em Enfermagem; Enfermeira; Bolsista CNPq de Pós-Doutoramento na Escola Superior de Enfermagem do Porto; Professora Adjunta na Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Departamento de Fundamentos de Enfermagem e Administração, Brasil, geilsavalente@yahoo.com.br 2 Doutor em Ciências de Enfermagem; Enfermeiro; Professor Coordenador na Escola Superior de Enfermagem do Porto, Porto, Portugal, carlossequeira@esenf.pt Citação: Valente, G., e Sequeira, C. (2015). A organização do trabalho docente e ocorrência de assédio moral no ensino público superior de enfermagem. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Ed. Esp. 2), 123-128. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 123


INTRODUÇÃO

METODOLOGIA E RESULTADOS

As condições em que se desempenha um posto de trabalho, a oportunidade de controle, a adequação entre as exigências do cargo e as capacidades da pessoa que o desempenha, as relações interpessoais, a remuneração e a segurança física, entre outros, são fatores de relevo para o bem estar psicológico dos trabalhadores e para a sua saúde mental. (Martins, 2004). Diante dessa realidade, no Brasil, o assédio moral tem sido foco de investigações nas diferentes áreas do conhecimento, como: Direito, Medicina, Psicologia, Enfermagem, Administração, entre outras. Contudo, observa-se que a literatura internacional e a nacional, que tratam desse tema, merecem ser ampliadas, tendo em vista que ele é incipiente no meio acadêmico e no âmbito profissional, o que dificulta a sua visibilidade, identificação, prevenção e erradicação no ambiente de trabalho. Sobre este contexto, de acordo com Caran (2007) o assédio moral é um tema complexo, de difícil abordagem, pois está inserido em um âmbito da violência, caracterizada muitas vezes, apenas pela percepção do própria vítima. Para o profissional docente, os fatores de risco de ocorrência do Assédio Moral no Trabalho (AMT), estão relacionados, predominantemente, à sobrecarga decorrente da intensificação da atividade pedagógica, que inclui cada vez mais novas demandas, com aulas semanais extensas, reuniões periódicas e constantes, pesquisas, atividades de extensão e produção de relatórios, atividades administrativas como chefia de departamentos, coordenação de cursos, dentre outras. Acrescentese a isso, a cobrança de cumprimento de horário, e a necessidade de melhorias nas situações comunicacionais interpessoais e nas propostas pedagógicas institucionais, somadas às mais variadas exigências do alunado e a competitividade entre os pares. Neste sentido, têm-se como Objetivos: Identificar na literatura a ocorrência do AMT em docentes-enfermeiros e Refletir sobre a ocorrência do AMT e sua relação com a organização do trabalho no ensino público superior.

Foi realizado um levantamento bibliográfico, abrangendo o recorte temporal de 2001 a 2012, nas bases de dados virtuais: Biblioteca Virtual de Saúde (BVS); Medical Line (MEDLINE); Scientific Eletronic Library Online (ScIELO); Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde(LILACS); Banco de Dados da Enfermagem (BDENF); Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME); Universidade de São Paulo (USP); Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN); Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES); Centro de Estudos e Pesquisa de Enfermagem (CEPEN); Publicações Médicas (PUBMED) e SCOPUS. Observou-se que existe uma lacuna de conhecimento científico referente ao assédio nas relações de trabalho, principalmente no que concerne à categoria de enfermeiro-docente, abordando a organização do trabalho desses profissionais. Devido à diversidade de termos utilizados para definir o AMT, iniciou-se a busca, em cujas bases de dados utilizou-se o descritor: “violência”, surgindo, pois, a violência sexual e a não sexual, estando o fenômeno do assédio moral incluído na última, tendo como descritor “violência no trabalho” com sinônimos: “violência no ambiente de trabalho” e “violência ocupacional”. Quanto à predominância de publicações nacionais na língua portuguesa, foram identificadas na referida busca, 1.467 publicações sobre AMT, entre estas 402 eram trabalhos na área da saúde, 212 na educação e 106 na enfermagem. Sendo identificadas ainda 08 publicações científicas na enfermagem com abordagem da psicodinâmica do trabalho, todas produzidas nas Regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste do Brasil. Com a ampliação da busca, entre os anos de 2012 a 2013, nas mesmas bases de dados e utlizando-se o descritor “violência no trabalho”; “ensino” e “instituições acadêmicas”, não foram encontradas publicações que abordassem diretamente a temática, o que denota a carência de pesquisas sobre um assunto tão contundente e que merece ser explorado.

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Com o descritor Assédio moral no trabalho, foram localizadas 24 produções científicas, sendo 20 artigos, 03 teses e 02 monografias. Dentre estes, apenas um se referia a questão do assédio moral no trabalho docente de enfermagem, localizado nas bases MEDLINE e PUBMED, sendo um escrito por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina – Brasil. Decorrido esse levantamento, foram confeccionadas fichas bibliográficas, detalhando-se os dados sobre artigos, títulos, nomes dos periódicos, volume, número de publicações, informações sobre os autores, métodos utilizados e suas concepções sobre a temática. O resultado desse banco de dados levou ao diagnóstico das produções catalogadas, principalmente as publicações que envolvem enfermeiros que também atuam na docência. Todavia, a fim de mapear e discutir as produções acadêmicas de AMT, sob a ótica da psicodinâmica do trabalho, o resultado não revelou nenhuma publicação. Durante a revisão da literatura, as palavras-chave mais encontradas foram: assédio moral, jornada de humilhação, psicoterrorismo, constrangimento no trabalho e violência. Quando da investigação a respeito de pesquisas que abordassem o AMT, identificou-se que a América do Norte e a Europa são os continentes que detêm o maior número de estudos nessa área, sendo o Brasil o país com o menor número de publicações. Assim, dentre os principais tipos de assédio moral relacionados aos profissionais da enfermagem e da educação, estão: humilhações, insultos diversos, ritos de disciplinamento e de poder, cerceamento de direitos, cobranças desnecessárias por parte de chefias, delegação de tarefa e desrespeito entre os profissionais da equipe. Nas demais Regiões do Brasil, esse levantamento mostrou uma produção cientifica ainda muito incipiente, uma vez que foram encontradas somente doze publicações sobre o AMT, inseridas na área da pósgraduação lato sensu, em saúde do trabalhador, e stricto sensu, na área do Direito. Depreende-se que a escassez de produções científicas abordando o AMT entre os enfermeiros docentes, pode estar relacionada à sua complexidade ou à dificuldade da sua caracterização e, ainda, à carência de pesquisadores que estudem este tema. Ressalta-se ainda que não foram encontradas publicações científicas sobre o AMT na enfermagem com abordagem da organização do trabalho.

Desta forma, a presente pesquisa se justifica por apontar a necessidade de multiplicar, difundir e aprofundar os estudos que abordam o assédio moral nas relações de trabalho, principalmente na área da saúde e educação, no intuito de contribuir com a diminuição da elevada ocorrência de AMT entre os docentes-enfermeiros e as repercussões deste fenômeno sobre a saúde do trabalhador e ao ambiente laboral. DISCUSSÃO A partir dos resultados da busca bibliográfica, e tomando como base o material selecionado como potencial, realizou-se uma análise reflexiva, no intuito de atender aos objetivos deste estudo, separando os resultados por categorias temáticas. A Ocorrência de Assédio Moral no Trabalho do Enfermeiro/Docente Segundo Simm (2008), o assédio moral na modalidade “horizontal” é bastante comum. Ele é observado quando não se consegue conviver com as diferenças, especialmente quando elas são destaques na profissão ou no cargo ocupado. Este tipo de AMT foi bastante percebido nas pesquisas realizadas com docentes/enfermeiros. Segundo eles, as hostilidades partiam dos próprios colegas de trabalho. Normalmente, o intuito do assediador é atormentar a vítima até que ela se afaste ou se desligue do grupo ou mesmo da organização, ou deixe de concorrer àquela promoção ou àquele cargo em disputa. Dejours e Abdoucheli, citados por Lancman e Uchida (2003), afirmam que numa organização hierarquizada do tipo piramidal, quanto mais se sobe na estrutura organizacional, mais se abrem as possibilidades para expressão e imposição dos desejos de quem ocupa os postos de chefia. De acordo com os autores pesquisados, por ser o assédio moral um acontecimento invisível, muitas vezes, ele é banalizado, ignorado e ocultado, gerando, gradativamente, o adoecimento no trabalho quando as vítimas já não conseguem mais usar estratégias para enfrentálo. Assim sendo, para enfrentar o sofrimento visível e invisível é necessário falar sobre esse sofrimento e agir coletivamente para transformar a gestão do trabalho e romper com os laços perversos instituídos nesta ambiência laboral (Dias, 2002).

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Peculiaridades do Assediador e do Assediado Normalmente os assediadores são pessoas centralizadoras, autoritárias, invejosas, perversas, e com abuso de poder. Para Hirigoyen (2002), o assediador normalmente usa informações como forma de aterrorizar o assediado. Nesses casos, pode predominar a intolerância, o mau humor, o senso de grandiosidade, com poder destrutivo, inveja, sentindo prazer com o clima de pressões. Para Felker (2006), os agressores são pessoas que infernizam a existência do outro, alimentando seu poder de destruição. Por isso, criticam, mas não apresentam soluções para os fatos; mostram-se extremamente agressivos por qualquer ameaça; agridem pessoas que consideram capazes de obstar sua ascensão. Normalmente, a vítima é escolhida quando ela causa ameaças ao assediador. Na verdade, conforme Hirigoyen (2002), frequentemente o assédio se inicia quando uma vítima reage ao autoritarismo de um chefe, ou se recusa a se deixar subjugar. É sua capacidade de resistir à autoridade, apesar das pressões, que a leva a se tornar um alvo. Em sua grande maioria são pessoas inteligentes, dedicadas, responsáveis, empenhadas e amigas. Ao ser assediado, este trabalhador sofre muita pressão, e não conseguindo resistir às pressões, passa a ser mais uma vítima frequente do AMT, que muitas vezes, é praticado com a intenção de baixar a autoestima e desestabilizar a vítima emocional e profissionalmente. Para Salvador (2002), a pessoa que é assediada é ferida no seu amor próprio, sente-se atingida em sua dignidade, sua honra, sua liberdade, com perda súbita da autoconfiança. Relação entre a Ocorrência do AMT e a Organização do Trabalho dos Docentes-Enfermeiros A organização do trabalho em que os docentes-enfermeiros estão inseridos no serviço público no Brasil, não é regida por normas internas que norteiam o controle e fiscalização do tempo e dos horários trabalhados. Considerando que este tipo de organização contribui para a ocorrência do AMT, Mendes e Tamayo (2001) reforçam a necessidade de uma política institucional que possa regularizar estas atividades laborais desenvolvidas, na tentativa de evitar o comprometimento do ambiente de trabalho, onde tudo parece permitido e o poder não tem limites, tornando esta organização propicia para as práticas de atos de humilhação que levam o trabalhador ao sofrimento e possível adoecimento. Para o assédio ocorrer é preciso haver uma cultura organizacional que permita e incentive a ocorrência deste fenômeno. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 126

Para Hirigoyen (2005), o descontentamento e a frustração com a situação no trabalho e com o clima organizacional também podem ser condições favorecedoras à ocorrência do AMT, somadas às outras formas de Comportamento antissocial. Esse descontentamento, a falta de clareza e de controle sobre o próprio trabalho pode levar à maior irritação e menor tolerância. Desta forma, uma situação de trabalho caracterizada por conflito e pela estimulante falta de interesse, com constantes mudanças e sem controle das tarefas, leva a um clima interpessoal com discórdias dentro do grupo de trabalho, elevando o risco à ocorrência de AMT. Para Robbins (2002), esta situação gera um alto grau de ambiguidade, de demandas incompatíveis ou de expectativas exageradas sobre papéis, tarefas e responsabilidades, gerando intrigas/brigas, especialmente se estiverem relacionadas a direitos, obrigações e privilégios, o que leva à falta de confiança e a tensões entre os colegas de trabalho. No entanto, quando o indivíduo não possui um sistema de defesas suficientemente elaborado, adoecimentos podem surgir sob a forma de descompensações neuróticas e psicóticas, bem como por meio de manifestações psicossomáticas (Dejours, 2000). Os principais transtornos mentais e do comportamento relacionados ao trabalho elencados no capítulo X, do Manual de Procedimentos para os Serviços de Saúde, (MTE/Brasil, 2001), são: episódios depressivos; síndrome de Burnout; estado de estresse pós-traumático; síndrome da fadiga; transtorno do ciclo sono-vigília; transtorno mental orgânico ou sintomático não-especificado, dentre outras. A Norma Regulamentadora (NR) nº 32 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), do Ministério do Trabalho (MT), a partir de sua implementação (2005), tenta promover e preservar a saúde dos trabalhadores de estabelecimentos de saúde. Porém, esta NR não contempla a saúde mental no contexto laboral, limitando-se somente à dimensão corporal, e assim, não presta relevância à dimensão organizacional da instituição. Consequências/Repercussões do Assédio Moral Para a ambiência laboral dos docentes/enfermeiros. O ambiente laboral tenso, apreensivo e competitivo torna-se um terreno fértil para o terror psicológico com todos os seus desdobramentos junto ao trabalhador e às suas relações nas ambiências laborais. A qualidade do ambiente de trabalho sob o aspecto pessoal é muito mais do que relacionamentos meramente produtivos, exige integração entre todos os envolvidos.


O assédio moral inevitavelmente instala um clima desfavorável no local de trabalho tornando-o tenso, apreensivo e competitivo. Relatos feitos por estudiosos do tema como Barreto (2004); Ferreira (2010) e Mendes (2010) apontam que a primeira consequência a ser percebida no ambiente de trabalho é o afastamento dos colegas, seguido da queda da produtividade e redução da qualidade do serviço. Neste sentido, de acordo com Alkimin (2008, p.28), “deve o empregador estabelecer normas internas e condições de trabalho que visem à saúde e integridade física e mental dos trabalhadores, promovendo meios para prevenir qualquer tipo de agressão, além de conduzir mecanismos para garantir a qualidade de vida”. Para a saúde dos docentes/enfermeiros. - Reações Psíquicas - As principais reações psíquicas citadas pelos autores pesquisados foram: ansiedade, reação de medo, insegurança, insônia, falta de iniciativa, estados depressivos, dentre outras. Para Barreto (2002) as repercussões do AMT comprometem a individualidade dos profissionais, interferem na sua qualidade de vida, em muitos casos leva-os ao desajuste social e a transtornos psicológicos, colocando-os frente às situações de enfrentamento com consequente surgimento de sintomas que no início, se assemelham ao estresse, cansaço, nervosismo, alterações do sono, enxaquecas e distúrbios digestivos. Dejours (2000, p.76) salienta que “o trabalho sob pressão tem como repercussão, acumulo de energia psíquica, transformada em fonte de tensão e posteriormente em patologia”. Reações Psicossomáticas – as consequências/repercussões psicossomáticas sofridas pelo assediado dependem muito de seu perfil psicológico. Encontrando terreno fértil, o terror psicológico provoca na vítima danos físicos, mentais e alterações psicossomáticas. As reações mais evidenciadas nas pesquisas selecionadas foram: hipertensão, cefaleia, astenia, dispneia, taquicardia, queda de cabelo, distúrbios digestivos entre outros. Verificou-se também que as repercussões psicossomáticas apresentam reações diferentes em relação ao gênero, por vezes, havendo necessidade de fazer uso de medicações e em outras, ocasionam o isolamento social. Consonante à psicodinâmica do trabalho, as enfermidades físicas do trabalhador são prováveis frutos da dissonância constante entre demandas psíquicas do sujeito e o trabalho que realizam. Neste contexto, Barreto (2009) identificou que o assediado sofre dor de cabeça, náuseas, insônia, dores generalizadas, depressão profunda, que pode levar inclusive, à tentativa e/ou a efetivação do suicídio.

Assim, o assédio moral repercute, principalmente, no psicológico desses profissionais, e posteriormente levando ao aparecimento das doenças orgânicas, de forma silenciosa em longo prazo, e com isso, vai oprimindo as pessoas a ponto de elas serem seriamente afetadas. (Peixoto e Pereira, 2005). Segundo Silva (2008) As maiores consequências/repercussões que o assédio moral pode trazer a um indivíduo são os terrores psicológicos, os transtornos de ansiedade gerando grave depressão até a síndrome do pânico e, por vezes, a prática extrema do suicídio. O terror psicológico é um processo em que a vítima se submete nas relações de trabalho, onde é agredida, ofendida inúmeras vezes e sofre todo tipo de pressão e tortura psicológica por parte de seu agressor. Ferreira (2010) afirma que os efeitos econômicos provocados pelo AMT não se restringem somente à vida do indivíduo. Neste contexto, Soares (2008), inferiu que as repercussões do AMT para a sociedade representam um elevado custo, principalmente quando ocorre necessidade do afastamento prolongado do trabalho, ou a necessidade de aposentadoria precoce, o que contribui com a redução da população ativa. Isso acarretará uma sobrecarga ao sistema de saúde, onerando assim os cofres públicos, dada à necessidade de contratação e treinamento de outro trabalhador. CONCLUSÃO A realização deste estudo vem elucidar a carência de produções cientificas que abordem a temática em foco no Brasil, tendo em vista a importância desta e a sua ocorrência constante e compõe um passo introdutório para a realização de outros estudos mais aprofundados. Quanto aos resultados obtidos na revisão da literatura, conclui-se que para os docentes-enfermeiros, a medida de prevenção deve começar pelo conhecimento do fenômeno, além do incentivo à coibição e à denúncia. Essas medidas dizem respeito à necessidade de: uma atuação prática da relação humanizada com abordagem das questões éticas no trabalho; educação continuada; acolhimento e envolvimento institucional e a não perda da noção do trabalho coletivo, pois o trabalho individual e solitário leva ao sofrimento, além de predispor à ocorrência do assédio moral. Sugere-se que as organizações invistam em uma cultura estratégica de desenvolvimento humano como forma de substituir a competitividade, bem como que sejam fortalecidas e oficializadas leis especificas, diminuindo assim as chances de surgirem comportamentos negativos isolados que tanto propiciam o assédio moral no ensino público superior brasileiro. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 127


IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Consideramos que os resultados desta revisão de literatura e as reflexões realizadas, trazem contribuições significativas para a continuidade do trabalho que estamos desenvolvendo no ambito do projeto “Saúde mental positiva dos docentes do ensino superior”, onde pretendemos propiciar meios de intervenção, a partir da conscientização da gestão das unidades de ensino, com vistas a minimizar a ocorrência do assédio moral no trabalho docente. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Alkmin, M. A. (2008). Assédio moral na relação de emprego (2ª ed.). Curitiba: Juruá. Barreto, M. M. S. (2002). Assédio moral: O risco invisível no mundo do trabalho. Jornal de Rede Feminina de Saúde. Disponível em www.redesaúde.org.br/jr25/ htm1/body_jr25-margarida.html Barreto, M. M. S., Freitas, M. E., & Heloani, R. (2008). Assédio moral no trabalho. São Paulo (SP): Ed. Cengage. Barreto, M. M. S. (2009). Violência, saúde e trabalho: Uma jornada de humilhações. São Paulo (SP): EDUC. Caran, C. C. (2007). Riscos psicossociais e assédio moral no contexto acadêmico. Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Ministério da Saúde do Brasil (2001). Secretaria de políticas de saúde. Departamento de atenção básica. Área técnica de saúde do trabalhador. Brasília: Ministério da Saúde. Dejours, C. (2000). Travail, usure mentale. Paris: Bayard Éditions. Dias, H. H. Z. R. (2002). O “Des”cuidado em saúde: A violência visível e invisível no trabalho de enfermagem. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil.

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Felker, R. D. H. (2006). O dano moral, o assédio moral e o assédio sexual nas relações de trabalho. São Paulo: LTR Editora. Ferreira, H. D. B. (2010). Assédio moral nas relações de trabalho (2ª ed.). Campinas: Russell Editores. Hirigoyen, M. F. (2005). Assédio moral: A violência perversa no cotidiano. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Martins, S. R. (2009). Clínica do trabalho. São Paulo: Casa do Psicólogo. Mendes, A. M., e Tamoyo, A. (2001). Valores organizacionais e prazer-sofrimento no trabalho. PsicoUSF, 6(1), 39-46. Mendes, A. M. (Org.) (2010). Violência no trabalho: Perspectivas da psicodinâmica, da ergonomia e da sociologia clínica. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie. Peixoto, O. S., & Pereira, I. V. (2005). Assédio moral no trabalho: Repercussões sobre a saúde do trabalhador. Revista Brasileira de Medicina do Trabalho, 3(2), 135137. Rocha, S. S. L, & Felli, V. E. A. (2004). Qualidade de vida no trabalho docente em enfermagem. Revista LatinoAmericana de Enfermagem, 12(1), 28-35. Silva, A. O. (2008). A prática do assédio moral nas instituições financeiras: Uma abordagem exploratória. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Administração). Universidade Estadual de Santa Cruz, Ilhéus. Simm, Z. (2008). Acosso psíquico no ambiente de trabalho: Manifestações, efeitos, prevenção e reparação. São Paulo: LTr. Soares, L. Q. (2008). Interações socioprofissionais e assédio moral no trabalho: “Ou você interage do jeito deles ou vai ser humilhado até não aguentar mais”. São Paulo: Casa do Psicólogo.


22 NORMAS

DE PUBLICAÇÃO DA ENFERMAGEM DE SAÚDE MENTAL

REVISTA

PORTUGUESA

DE

A Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental é publicada duas vezes por ano, em junho e dezembro, tratando-se de uma revista indexada em bases de dados nacionais e internacionais. A Revista apresenta, atualmente, as seguintes secções: Artigos de Investigação; Artigos de Revisão (Narrativa, Sistemática e Integrativa) da Literatura; Artigos de Boas Práticas/Reflexão. 1 – Procedimentos de Submissão do Artigo: 1.1 – Submissão eletrónica: os artigos devem ser sempre submetidos eletronicamente no sítio da Sociedade Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental: http://www.aspesm.org/. 1.2 – Para a submissão dos artigos, deverão sempre ser enviados os seguintes documentos: a) Artigo integral, obedecendo às normas da revista; b) Checklist de autoverificação, preenchida na totalidade c) Declaração de Cedência de Direitos de Autor e de Observação dos Princípios Éticos da Investigação, provando que os autores concordam que o artigo, uma vez aceite, fique da propriedade d’ ASPESM, não podendo, por isso, ser publicado noutra fonte, e que foram cumpridos todos os princípios éticos inerentes a um trabalho de investigação. Nota: a Direção da Revista reserva-se o direito de retirar um artigo do processo de revisão ou das bases de dados (no caso dos artigos publicados), sempre que se verifique que os autores publicaram uma versão idêntica noutra Revista. 2 – Processo de Revisão: Os artigos propostos são apreciados num processo Double Blinded (duplamente cego). Neste processo, o artigo é enviado por dois Peer Reviewers (Pares Revisores), os quais o examinam e arbitram sobre a sua qualidade, dando as recomendações que julgarem convenientes. Sempre que não se verifique acordo entre os dois revisores, o Diretor da Revista reserva-se o direito de indicar um terceiro revisor. A Direção da Revista enviará ao autor informação sobre a eventual aceitação definitiva, aceitação com alterações, ou não aceitação. No caso da aceitação com alterações, os autores receberão os pareceres e recomendações sugeridas pelos Peer Reviewers. O autor deve efetuar as alterações e reenviar o documento, via eletrónica, no tempo regulamentado. Nota: caso não se verifique o cumprimento rigoroso do tempo estipulado para correção do artigo, este pode ser excluído do processo de revisão. Cada artigo será, posteriormente, verificado pelo Diretor e Coordenador da Revista, que analisam a primeira versão do artigo e a versão corrigida, em função das recomendações dos Peer Reviewers. O processo de revisão será efetuado online. As fases do processo de revisão e recomendações encontram-se descritos no quadro abaixo: Fase Receção do Artigo Revisão Reformulação do Autor Verificação Redatorial Publicação

Procedimento Após o envio do artigo, este será submetido a um processo de revisão técnica (revisão dos aspetos formais e de normalização, de acordo com as normas de publicação da Revista). O artigo é enviado para 2 Peer Reviewers, que o examinam e arbitram sobre a sua qualidade, dando as recomendações convenientes. A Direção da Revista enviará ao autor informação sobre a aceitação definitiva, aceitação com alterações, ou não aceitação, bem como os pareceres e recomendações dos Peer Reviewers. As alterações a efetuar pelo autor deverão ir, rigorosamente, de acordo com as recomendações dos Peer Reviewers. Cada artigo deverá ser verificado pelo Diretor e pelo Coordenador da Revista, que analisam a primeira versão do artigo e a versão corrigida, em função das recomendações dos Peer Reviewers. A oportunidade de publicação é da inteira responsabilidade da Direção da Revista.

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3 – A decisão final acerca da oportunidade de publicação dos artigos é da responsabilidade do Diretor da Revista. 4 – O artigo: 4.1 – Tipo de artigo: devem ser artigos científicos originais e versarem temas de saúde mental, Enfermagem de saúde mental ou educação em saúde mental. O conteúdo dos artigos é da exclusiva responsabilidade dos seus autores, aos quais compete respeitar os princípios éticos da investigação e cumprir as normas da edição da Revista. A Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental poderá incluir artigos em língua portuguesa, espanhola, inglesa ou francesa, consoante a origem dos artigos. 4.2 – Estrutura do artigo 4.2.1 - Título: o artigo deverá incluir um título informativo (que vá de encontro ao âmbito do trabalho) e sucinto (em português, espanhol e inglês); máximo de 16 palavras, sem abreviaturas e sem a indicação da localização geográfica da investigação. 4.2.2 - Autores: os autores devem estar devidamente identificados, com o nome, habilitações académicas, categoria profissional, instituição onde exercem funções, contactos (morada, e-mail e telefone institucionais) e informação no caso de o artigo ser extraído de Dissertação ou Tese (indicando o título, ano e instituição onde foi apresentada). O nome e afiliação dos autores deve surgir imediatamente após o título em português. As afiliações devem estar por extenso (ex.: Local de Trabalho – Escola Superior de Enfermagem do Porto). Os endereços de correio eletrónico dos autores dos artigos devem estar com hiperligação (com link disponível). 4.2.3 - Resumo: o resumo do trabalho deve ser apresentado em português, espanhol e inglês, e não deve exceder as 250 palavras, devendo incluir a descrição do contexto, objetivo(s), metodologia, resultados e conclusões. 4.2.4 - Palavras-Chave: o artigo deve apresentar, no máximo, 4 palavras-chave, transcritas de acordo com os descritores MeSH (em português, ver DeCS), em português, espanhol e inglês. 4.2.5 - Corpo do artigo: O artigo (tratando-se de um trabalho de investigação) deve ser estruturado em secções, devendo incluir os seguintes capítulos: Introdução, Metodologia, Resultados, Discussão, Conclusão, e Implicações para a Prática Clínica). Os artigos de revisão e de boas práticas/reflexão não têm que obedecer, necessariamente, a esta divisão. 4.3 - Formato: • O texto deve ser apresentado em formato Word, letra Arial, tamanho 11, espaçamento 1,5, páginas em formato A4, em coluna única, evitando negritos e sublinhados, variação do tipo de letra, fundos de cor, etc.; • Todas as margens devem ter 2,5 cm.; • Não devem ser incluídas notas de rodapé. • O artigo não deve ultrapassar as 15 páginas incluindo resumo (em português, espanhol e inglês), referências, tabelas, quadro e figuras. • O artigo não deverá ser paginado. • Os parágrafos não devem ser indentados. • O artigo deve ser redigido de acordo com o Novo Acordo Ortográfico (caso não o seja, a Comissão Editorial reserva-se o direito de realizar a conversão). Nota: caso o(s) autor(es) se recuse(m) a redigir o artigo segundo o Novo Acordo Ortográfico devem, aquando do seu envio, manifestar essa posição de forma clara e inequívoca. • Na primeira utilização de uma sigla esta deve estar, primeiramente, por extenso, por exemplo: Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). • Quando se realizarem citações de três a cinco autores, todos os nomes devem ser mencionados na primeira vez que a citação é feita (ex.: Bradley, Ramirez, & Soo, 1999). Nas vezes seguintes, deve utilizar-se apenas o nome do primeiro autor seguido de “et al.” (ex.: Bradley et al., 1999). Caso a citação seja de seis ou mais autores, logo na primeira vez em que a citação é feita deve utilizar-se apenas o nome do primeiro autor seguido de “et al.”. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 130


• No corpo do artigo, ao citar autores coletivos, na primeira vez que a citação é feita, deve ser mencionado o nome por extenso (ex.: National Institute of Mental Health [NIMH], 2003). Nas vezes seguintes, pode ser utilizada a abreviatura (ex.: NIMH, 2003). • Os títulos dos capítulos devem seguir a seguinte estrutura: Nível do Título Formato 1 Centrado, Negrito, com Maiúsculas e Minúsculas 2 Alinhado à Esquerda, Negrito, com Maiúsculas e Minúsculas 3 Indentado, negrito, em minúsculas terminando com ponto final. 4 Indentado, negrito, itálico, em minúsculas terminando com ponto final. 5 Indentado, itálico, em minúsculas terminando com ponto final. 4.3.1 - Tabelas, quadros, gráficos e figuras: devem ser incluídos apenas os que sejam absolutamente essenciais para a compreensão do artigo e numerados por ordem de inclusão no texto, em função de cada tipo. As tabelas e quadros devem apresentar o título em cabeçalho e os gráficos e figuras devem apresentar o título por baixo. Para tabelas e quadros o tamanho da letra pode ser reduzido até um mínimo de 9 e sem espaçamentos. As tabelas, quadros, gráficos e figuras devem surgir imediatamente após o parágrafo em que é feita referência às mesmas. 4.3.2 - Citações: todos os autores citados no artigo devem constar da lista de referências bibliográficas. Exemplo: Sequeira (2006), (Sequeira, 2006), ou “Em 2006, Sequeira (...)”. Deve indicar-se o número de página, no caso de citação textual, tal como nos exemplos: Sequeira (2006, p. 32) ou (Sequeira, 2006, p. 32). Quando citar dois ou mais autores numa mesma paráfrase, deve ordená-los por ordem alfabética, tal como no exemplo: (Miller, 1999; Shafranske & Mahoney, 1998). Nota: utilizar o símbolo “&” apenas nas paráfrases em que os autores citados sejam de países em que o português não é uma língua oficial (ex.: EUA, Reino Unido, etc.). 4.3.3 - Referências Bibliográficas: • As referências selecionadas devem permitir evidenciar as publicações mais representativas do “estado da arte” da problemática em estudo (últimos 5 anos, extensíveis a 10 anos para problemáticas que tenham sido pouco estudadas), resultando da pesquisa de bases de dados de revistas indexadas nacionais e internacionais. • As referências bibliográficas devem estar elaboradas de acordo com as normas da 6ª Edição da American Psychological Association (APA). Todas elas deverão estar citadas no artigo. • Nas referências bibliográficas, independentemente do número de autores, estes devem ser todos referidos, não sendo permitido o uso de “et al.”. • O título das revistas nunca deve ser abreviado nas referências bibliográficas. Por exemplo, não se deve escrever “RPESM”, mas sim “Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental”. • Sempre que se inclua um site nas referências bibliográficas, a sua hiperligação deve estar presente e funcionante. Nota: as fontes devem ser alvo de seleção criteriosa, em função da sua pertinência, e não devem ultrapassar um total de 20 referências, organizadas por apelido do autor e ordenadas por ordem alfabética. APA 6ª Edição (Exemplos – consultar http://www.apastyle.org/) 4.3.3.1 Modelo de referências (indicar o nome de todos os autores – não usar “et al.”): Livros Shotton, M. A. (1989). Computer addiction? A study of computer dependency. London, England: Taylor & Francis. Trabalho académico (Dissertação/Tese) Healey, D. (2005). Attention deficit/hyperactivity disorder and creativity: An investigation into their relationship. Tese de Doutoramento, University of Canterbury, Christchurch, New Zealand. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 131


Trabalho académico (Dissertação/Tese) Healey, D. (2005). Attention deficit/hyperactivity disorder and creativity: An investigation into their relationship. Tese de Doutoramento, University of Canterbury, Christchurch, New Zealand. Editor literário Barkley, R. A. (Ed.) (2008). Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade: Manual para diagnóstico e tratamento (3ª ed.). Porto Alegre: Artmed. Capítulos de livros Haybron, D. M. (2008). Philosofy and the science of subjective well-being. In M. Eid & R. J. Larsen (Eds.), The Science of subjective well-being (pp. 17-43). New York, NY: Guilford Press. Autor coletivo American Psychological Association. (2010). Publication manual of the American Psychological Association (6ª ed.). Washington, DC: Author. Artigos de publicações periódicas Com DOI Herbst-Damm, K. L. & Kulik, J. A. (2005). Volunteer support, marital status, and the survival times of terminally ill patients. Health Psychology, 24, 225-229. doi: 10.1037/0278-6133.24.2.225 Sem DOI Light, M. A. & Light, I. H. (2008). The geographic expansion of Mexican immigration in the United States and its implications for local law enforcement. Law Enforcement Executive Forum Journal, 8(1), 73-82. Documentos eletrónicos Livros Schiraldi, G. R. (2001). The post-traumatic stress disorder sourcebook: A guide to healing, recovery, and growth [Adobe Digital Editions version]. doi: 10.1036/10071393722 Artigos de publicações periódicas Wheeler, D. P. & Bragin, M. (2007). Bringing it all back home: Social work and the challenge of returning veterans. Health and Social Work, 32(1), 297-300. Acedido em http://www.naswpressonline.org Outros (póster, comunicação livre, etc.) Leclerc, C. M. & Hess, T. M. (2005, agosto). Age diferences in processing of affectively primed information. Póster apresentado na 113ª Annual Convention of the American Psychological Association, Washington, DC. Nota: no caso de os autores serem de países de língua oficial portuguesa, nas referências bibliográficas o “&” deve ser substituído por “e”. 5 – Formato Padrão do Artigo a submeter: Primeira Página • Título (em português, espanhol e inglês) • Nome dos autores (separados por ponto e vírgula); • Afiliações dos autores (uma afiliação por linha); • Indicação caso o artigo seja extraído de Dissertação/Tese. Nota: esta página, posteriormente, é retirada pelo Coordenador da Comissão Editorial, sendo atribuído um número codificado que identifica o artigo junto dos revisores Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 2 (FEV.,2015) | 132


Segunda Página • Titulo (em português); • Resumo (em português); • Palavras-Chave (em português); • Título (em espanhol); • Resumen; • Descriptores; • Titulo (em inglês); • Abstract; • Keywords. Páginas Seguintes: • Introdução; • Metodologia; • Resultados; • Discussão; • Conclusões; • Referências bibliográficas; • Apêndices (se existentes), agradecimentos (se existentes), conflitos de interesses (se existentes), fontes de financiamento (se existentes), e contribuições dos autores (se aplicável).

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