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Ponta Delgada – 8,9 e 10 de Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

A SOCIEDADE PORTUGUESA DE ENFERMAGEM DE SAÚDE MENTAL

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM A Pessoa, a Família, a Comunidade e a Saúde Mental

Carlos Sequeira José Carlos Carvalho Luís Sá

Bruno Santos Francisco Sampaio Genoveva Carvalho Joana Coelho Eugénia dos Santos Sónia Teixeira Daniela Martins ASPESM E-book (formato. pdf)

Todos os artigos publicados são propriedade d’ASPESM, pelo que não podem ser reproduzidos para fins comerciais, sem a devida autorização da Sociedade Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental. A responsabilidade pela idoneidade e conteúdo dos artigos é única e exclusiva dos seus autores. A opção do texto com o novo acordo ortográfico ficou a cargo de cada autor.

Sequeira, C.; Carvalho, J.C.; Sá, L. (Eds.) (2014). VI Congresso Internacional ASPESM: A Pessoa, a Família, a Comunidade e a Saúde Mental. Porto: ASPESM.

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1. A eficiência de um projeto de promoção a saúde mental de estudantes de enfermagem__________________________pág.6 2. Crack: A Pedra ___________________________________pág.16 3. Transições de Adolescentes em Conflito com a lei: um programa de prevenção

em

cuidados

de

saúde

primários

_______________________________________________pág.31 4. O internamento psiquiátrico de pessoas idosas com doença mental e os aspetos da infeção _____________________________pág.44 5. Educado para Educar: os maus tratos e os contextos familiares _______________________________________________pág.56 6. Educação permanente com vistas à integralidade do cuidado em saúde mental ___________________________________pág.67 7. Mapeamento de recursos visando a atenção à saúde mental do trabalhador

que

atua

no

ensino

superior

_______________________________________________pág.83 8. Intervenção Cognitivo-Comportamental em grupo para adultos com ansiedade e depressão ____________________________pág.93 9. Influência das redes virtuais na saúde mental dos adolescentes que convivem com doenças crónicas ____________________pág.106 10. Comunicação paradoxal em contexto hospitalar: reflexão sobre dificuldades

comunicacionais

entre

profissionais

de

saúde

e

doentes________________________________________ pág.116 11. Experimentações

Estéticas

do

Cuidado

_______________________________________________pág.129 12.O Gabinete de apoio ao estudante na promoção da saúde mental _______________________________________________pág.143 13.Imaginário coletivo de idosos participantes da Rede de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa _____________________________pág.154 14.Inovação no necessário de aprendizagem de enfermagem utilizando potencialidades

artístico/criativas

como

exercício

das

emoções______________________________________pág.167 15.Competências do enfermeiro na gestão dos medos da criança préescolar e pais ___________________________________pág.180 Ponta Delgada, Julho de 2015


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16.A produção do cuidado no campo da saúde mental: reflexões para a equipe _________________________________________pág.198 17.Produções expressivas representantes das emoções vivenciadas por coordenadores de transplantes na entrevista familiar para doação de órgãos________________________________________pág.208 18.A rede de saúde mental: uma reflexão pela via da rede viva _______________________________________________pág.221 19.A vivência do sofrimento moral por profissionais da estratégia de saúde da família ________________________________pág.231 20.Vulnerabilidade de mulheres em situação de rua para o uso abusivo de substâncias psicoativas ________________________pág.243 21.A prática de atividades extracurriculares no primeiro ciclo do ensino básico e a sua influência na qualidade de vida das crianças _______________________________________________pág.256 22.A Relação entre o Burnout e a Inteligência Emocional em Estudantes do Ensino Superior _______________________________pág.268 23.Morte

Fetal

na

Família:

Como

podemos

ajudar?

______________________________________________pág.278 24.As fontes de informação em saúde como preditoras da literacia em saúde

em

gestão

de

stresse

nos

adolescentes____________________________________pág.291 25.A doença mental e sua relação com o estigma nos estudantes de saúde _________________________________________pág.304 26.A influência dos programas de educação sexual nos comportamentos e atitudes dos adolescentes_________________________pág.317

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

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Mestre, professor da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal

Fluminense. Niterói (RJ), Brasil. E-mail: andre.braga@globo.com 2

Enfermeira graduada pela Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal

Fluminense. Niterói (RJ), Brasil. E-mail: mariforall@hotmail.com 3

Doutora, professora da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal

Fluminense. Niterói (RJ), Brasil. E-mail: nanicortez@hotmail.com 4

Enfermeira graduada pela Escola de Enfermagem Aurora de Costa da Universidade Federal Fluminense.

Niterói (RJ), Brasil. E-mail: kellinvelasco@yahoo.com.br 5

Doutora, professora da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Rio de Janeiro (RJ), Brasil. E-mail: virginia.damasio@gmail.com 6

Especialista em Saúde da Família e da Comunidade, Doutora, professora da Escola de Enfermagem

Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro (RJ), Brasil. E-mail: mmontuanog@ig.com.br

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Objetivo: comparar a saúde mental dos pesquisados ao inicio e fim das atividades por meio de questionários de qualidade de vida SF 36 (Medical Outcomes Study36 - Item Short). Metodologia: estudo exploratório, descritivo, de campo com abordagem quantitativo. Os resultados do projeto foram calculados através do teste de Wilcoxon. A análise dos dados foram de acordo com os seis domínios do instrumento de coleta de dados, o questionário SF 36. Os sujeitos foram 22 alunos e como cenário foi na escola de enfermagem Aurora de Afonso Costa onde ocorre o projeto O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, CAAE nº 33791514.6.0000.5243. Resultados: Dos seis domínios, em quatro deles, foi possível rejeitar a hipótese nula (intervalo de confiança de 95%): meio ambiente, autoavaliação da qualidade de vida, psíquico e das relações sociais, houve uma resposta positiva na promoção da saúde mental e redução do estresse respectivamente. Assim evidencia-se que houve melhorias na qualidade de vida e consequentemente na saúde mental dos alunos. Os domínios que não tiveram melhoras significativas foram: satisfação com a própria saúde e físico. Conclusão: os resultados sinalizam a eficiência do projeto e que promove não somente a qualidade de vida, mas como a saúde mental dos estudantes. Palavras-chave: Promoção da saúde, Saúde menta, Estudantes de enfermagem

Objective: To compare the mental health of respondents to the beginning and end of activities by means of quality of life questionnaires SF 36 (Medical Outcomes Study36 - Item Short). Method: exploratory, descriptive study, with quantitative approach field. Project results were calculated using the Wilcoxon test. The analysis of data according to the six areas of data collection instrument, the SF 36. The subjects were 22 students and the backdrop was in Aurora Afonso Costa nursing school where the project the research project is approved by the Research Ethics Committee, CAAE No 33791514.6.0000.5243. Ponta Delgada, Julho de 2015


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Results: Of the six areas, in four of them, it was possible to reject the null hypothesis (95% confidence interval): environment, self-assessment of quality of life, psychological and social relations there was a positive response

in

the

promotion

of

mental

health

and

stress

reduction

respectively. Thus it is evident that there have been improvements in quality of life and consequently the mental health of students. The areas that have not had significant improvements were: satisfaction with their health and physique. Conclusion: The results indicate the efficiency of the project and that not only promotes quality of life, but as the mental health of students. Keywords: Mental Health, Nurse Students, Health Promotion.

Objetivo: Comparar la salud mental de los que respondieron al principio y al final de las actividades por medio de cuestionarios de calidad de vida SF 36 (Medical Outcomes Study36 - Objeto cortos). Método: estudio exploratorio, descriptivo, con el campo de enfoque cuantitativo. Los resultados del proyecto se calcularon utilizando la prueba Wilcoxon. El análisis de los datos de acuerdo con las seis áreas del instrumento de recolección de datos, el SF 36. Los sujetos eran 22 estudiantes y el telón de fondo estaba en la escuela de enfermería Aurora Afonso Costa, donde el proyecto El proyecto de investigación está aprobado por

el

Comité

de

Ética

de

la

Investigación,

CAAE

No

33791514.6.0000.5243. Resultados: De las seis regiones, en cuatro de ellos, fue posible rechazar la hipótesis nula (95% intervalo de confianza): medio ambiente, la autoevaluación de la calidad de vida, psicológica y las relaciones sociales que había una respuesta positiva en la promoción de la salud mental y la reducción del estrés, respectivamente. Por lo tanto, es evidente que ha habido mejoras en la calidad de vida y por lo tanto la salud mental de los estudiantes. Las áreas que no han tenido mejoras significativas fueron: la satisfacción con su salud y condición física. Conclusión: Los resultados indican la eficiencia del proyecto y que no sólo promueve la calidad de vida, pero a medida que la salud mental de los estudiantes. Ponta Delgada, Julho de 2015


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Descriptores: Promoción de la Salud, Salud Mental, Los estudiantes de enfermería

Segundo a Carta de Ottawa (1986), promoção da saúde é quando a comunidade capacita-se buscando melhorar sua qualidade de vida e saúde. Segundo a mesma carta, saúde é bem estar físico mental e envolve uma série de fatores. Deste modo, a realização de um grupo de promoção da saúde mental com acadêmicos de enfermagem justifica-se já que o curso de graduação em Enfermagem é muito estressante devido sua carga horária integral nas universidades públicas e pela área em si ser complexa tanto para o aluno quanto para os que são cuidados pelos mesmos no processo ensino-aprendizagem.

Assim,

entende-se

que

um

aluno

estressado

compromete o processo de enfermagem e pode gerar riscos a segurança do paciente. Considera-se que a Oitava Conferência Nacional de Saúde apontou que a saúde é o resultado de uma combinação de diversos fatores e é um direito de todo cidadão. Contudo, nos dias atuais, percebe-se através da mídia escrita e falada que tais direitos não estão sendo assegurados. Já a saúde mental é o equilíbrio emocional entre a vivência externa e as emoções internas (Secretaria do Estado da Saúde do Paraná/Brasil, 2013). É parte integrante do completo bem estar físico, social e mental. Trata-se de uma parte importante da vida humana que não pode ser negligenciada de forma alguma. A fim de que a saúde mental seja preservada, é necessário gerir várias situações e superá-las. O que exige um conhecimento mais profundo do interior da pessoa e sobre aquilo que a leva a estresse e conflito (Dias, Romano, Lemos, 2010). Por essa razão, é importante que a saúde mental seja promovida. Assim, promover saúde mental é permitir que o indivíduo alcançasse o equilíbrio de suas emoções e possa viver satisfatoriamente. Sabe-se que nos dias de hoje, o viver tem sido dificultoso. São muitos compromissos, prazos, viagens e outros, que com o passar do tempo, tendem a reduzir qualidade de vida e deteriorar a saúde mental dos indivíduos. Tal situação atinge o corpo discente nas universidades e tem Ponta Delgada, Julho de 2015


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sido observado que alunos que estudam enfermagem precisam de cuidados no que tange a saúde mental, pois vale destacar que o projeto surgiu pela própria demanda dos alunos à coordenadora do projeto e resultados de pesquisa de iniciação científica com os acadêmicos de enfermagem da escola de enfermagem da Universidade Federal Fluminense - UFF, pois eles alegam que são submetidos a uma intensa carga horária com muitas atividades

curriculares,

enfrentam

longas

jornadas

no

trânsito,

têm

dificuldades de alimentação, entre outras. Por essa razão, criou-se o projeto de extensão onde eles pudessem aliviar o estresse, redescobrir habilidades em desuso por meio de atividades artísticas

que

instigavam

os

sentidos

e

pudessem

relaxar

e

consequentemente minimizar o estresse. Sendo assim, esta pesquisa justifica-se por haver um hiato na literatura sobre o tema, e por querer testar uma base empírica de que a saúde mental dos acadêmicos de enfermagem é prejudicada durante a graduação e que a inserção destes alunos em atividades direcionadas pode melhorar a saúde mental dos mesmos e tem por objetivo comparar a eficiência

do

projeto

de

extensão

“Promoção

á

saúde

mental

dos

acadêmicos de enfermagem” através do Medical Outcomes Study 36 - Item Short (SF-36), antes e depois da realização das atividades do grupo, comprovando se o projeto promove a saúde mental dos participantes.

Estudo exploratório e descritivo de abordagem quantitativa. Pesquisa de campo. Para a coleta dos dados foi empregado o SF-36. Trata-se de uma versão reduzida do questionário WHOQOL. Que é um questionário de qualidade de vida criado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Seus domínios incluem: auto-avaliação com a qualidade de vida, satisfação com a própria saúde, físico, psíquico, meio ambiente e relações sociais. (Organização Mundial da Saúde, 1998) A coleta de dados foi realizada no período de setembro a dezembro de 2014, após a aprovação de um projeto de pesquisa pelo Comitê de Ética do Hospital

Universitário

Antônio

Pedro

-

HUAP/UFF,

sob

o

número

33791514.6.0000.5243 e Parecer CAAE número 771.910.

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Considerando-se os critérios de elegibilidade, a amostra foi composta por 22 alunos. Aqueles que se juntou a pesquisa recebeu o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e do questionário de Qualidade De Vida SF-36, devidamente instruídos para o correto preenchimento e da finalidade da pesquisa. Para categorização dos dados, foi utilizado o programa Microsoft Office 2010®, em sua plataforma Excel. Para a análise dos dados empregouse o teste de Wilcoxon para dados pareados. A média dos dados foi feita com o programa Stata 9.0.

Em relação ao sexo, observamos o predomínio feminino (95,4%); houve uma maior frequência dos alunos entre 18 e 21 anos (73%); os sujeitos inscritos nos três primeiros períodos da graduação prevaleceram (82%). Na apresentação dos resultados, utilizamos para a análise dados coletados o teste de Wilcoxon para amostras pareadas. Este teste trabalha com médias e se usa conceitos estatísticos para rejeitar ou não uma hipótese nula, ou seja, aquela que geralmente afirma que não existe relação entre dois fenômenos medidos. E esta premissa é normalmente usada quando a estatística de teste, na verdade, segue uma distribuição normal. (Cunha G., Eiras M. e Teixeira, 2012) O intervalo de confiança utilizado foi de 95% Quadro 1: Resultado do teste de Wilcoxon (U) para os domínios SF-36 Domínio

Média

pré

atividade N= 22 Auto-avaliação com a qualidade de

Média

pós

Valor U

atividade N=22

2,86

4,45

<0,001

Relações sociais

13 58

17,88

<0,001

Meio ambiente

12,79

14,05

<0,001

Psíquico

12,68

17,55

<0,001

3,13

3,59

0,11

13,89

13,71

0, 68

vida

Satisfação com a própria saúde Físico

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A discussão será apresentada pelos domínios contidos no SF-36. Auto-avaliação com a qualidade de vida teve um valor positivo, sendo ressaltado a sua importância, pois segundo a OMS (1994), qualidade de vida é a forma que um indivíduo se vê dentro de sua cultura e sistema de valores. Sendo que essa visão é feita com base em objetivos, padrões, expectativas e preocupações. Santos e Randüz (2012) nos apontam que existem vários conceitos sobre o que é qualidade de vida. Mas, no geral ter uma vida de qualidade é está satisfeito com sua vida. Porem pode ser apontado com sinônimo de saúde, felicidade, ter renda, entre muitos outros fatores. Para Lima (2004) a qualidade de vida é quando o indivíduo se sente feliz e tem sucesso na vida. E que isso envolve quatro áreas diferentes. Que são o campo profissional, as relações sociais, os relacionamentos afetivos e a saúde. Por fim, Silqueira (2005) aponta que a qualidade de vida é um reflexo de valores individuais e coletivos, assim como saberes e experiências de uma determinada época , lugares e contextos diferentes. Sendo que é uma construção feita pela sociedade que leva a marca desse grupo. O domínio das relações sociais inclui as relações pessoais e o apoio pessoal. A maioria dos participantes era bem jovem. Jovens e adolescentes costumam ter uma ampla rede de contatos. Algumas atividades do projeto eram feitas em pequenos grupos. O projeto em si era feito também para haver uma socialização entre os participantes, lembrando sempre que a enfermagem é uma profissão que trabalha em grupo. E essas atividades serviram de ajuda para que os alunos treinassem essa habilidade. Como por exemplo, dividir tarefas, cumprimento de metas. O domínio meio ambiente abarca muitos quesitos, entre eles: segurança, física e proteção, recursos financeiros, o ambiente doméstico, ambiente externo onde o individuo convive, oportunidade de ganhar mais conhecimentos, transporte e lazer. Mesmo por vezes não estando presentes de forma satisfatória para os alunos, observa-se que não interfere em sua qualidade de vida.

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O domínio psíquico incluí a presença de sentimentos positivos e negativos;

pensar,

aprender,

concentrar-se

e

memorizar;

leva

em

consideração a autoestima do individuo e como sua imagem corporal e aparência . Teve um valor alto. Isso significa que as atividades do projeto ajudaram os alunos a descobrir a si mesmos. Ferro (2012) em sua tese diz que a parte psíquica pode ser dividida em autoestima, o significado das tarefas, feedback e desenvolvimento pessoal/profissional. O valor positivo desse domínio mostra que apesar de todas as dificuldades, os alunos conseguiram manter autoestima elevada e sentimentos positivos. E também houve melhorias nos processos de aprendizado. O domínio Satisfação com a própria saúde teve um resultado negativo, que é bastante preocupante. Como citado anteriormente, a OMS prega que saúde é o conjunto de vários fatores como lazer, alimentação, entre outros. Esses fatores juntos gerariam satisfação com a vida e felicidade. Ao vermos um resultado aquém do esperado, percebe-se que esses alunos não estão satisfeitos com sua saúde. A explicação é que eles, talvez, não tenham acesso a todos os fatores que precisam para ter saúde. O

domínio

físico

abrange

dor,

desconforto,

energia

para

as

atividades, fadiga, sono e repouso. Esse domínio teve um valor muito baixo. A explicação seria que mesmo com atividades relaxantes, o cotidiano dos acadêmicos é tão estressante que o projeto por si só não é suficiente para minimizar que fatores estressores interfiram na saúde física. Fiedler (2008), em sua tese de doutorado estudou uma qualidade de vida de estudantes de medicina. Estes que enfrentam uma realidade parecida com a dos estudantes de enfermagem. Esta autora coloca que a falta de sono reduz a capacidade dos estudantes reterem informações, concentrar-se e direcionar a atenção visual. Fiedler usou o questionário WHOQOL que abarca essa questão. O SF 36 não incluí essa questão. Porém, os alunos responderam ambos os questionários. Mas, só utilizamos o SF 36 para esse estudo. Acrescentamos essa questão aqui baseado no trabalho de Fernández, Galindo, Gambín, Gómez, Muñoz (2010) sobre a qualidade de sono dos estudantes de enfermagem que é muito prejudicado devido o cotidiano agitado que os alunos possuem.

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Como vários estudos já citados nesse trabalho apontam, esses fatores que acabamos de mencionar têm sido responsáveis pelo estresse e redução da saúde dos alunos. Florence Nightingale já mencionava sobre a importância do ambiente e sua visão objetivava priorizar o fornecimento de um ambiente estimulador do desenvolvimento da saúde para o paciente. Ela acreditava que isso faria um diferencial na recuperação dos doentes. (George. 1993) Florence então passa a adotar conceitos que definem o que envolve a questão do ambiente, sendo esses vistos como componentes físico, social e psicológico os quais precisam ser entendidos como inter-relacionados, e não partes distintas, separadas (Dias, Romano, Lemos, 2010), reforçando o que já fora mencionado.

Dos seis domínios analisados, em quatro deles, foi possível rejeitar a hipótese nula (intervalo de confiança de 95%). Foram eles: Auto-avaliação com a qualidade de vida, Psíquico, Relações sociais e Meio Ambiente. Já o domínio Físico e Satisfação com a própria saúde não apresentaram mudanças relevantes. Após essa análise, podemos concluir que o projeto é eficaz. Porém, uma limitação do estudo foi à amostra pequena para uma avaliação quantitativa mais consistente. Assim, sugere-se já que o projeto encontra-se em andamento agregar novos sujeitos de pesquisa dos novos grupos. Talvez, as falhas não ocorram somente porque o projeto não seja eficiente, mas, também porque o estilo de vida dos alunos seja difícil e outras intervenções precisem ser feitas. O projeto nunca vai ser suficiente por ele mesmo. Talvez uma mudança de currículo e uma postura mais acolhedora no meio acadêmico possam ajudar os alunos. E também os alunos podem ter tido uma maior consciência do seu estado de saúde. Que não é somente o bem-estar físico; mas inclui o bem-estar mental e a social juntamente. Mesmo sabendo que viés quantitativo pode não ser o melhor para a temática saúde mental, ainda assim ele foi escolhido como resposta a duas provocações. A exigência de mais trabalhos quantitativos na área de enfermagem, e a segunda, mostrar que é possível fazer um trabalho Ponta Delgada, Julho de 2015


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quantitativo em um assunto tão subjetivo como a saúde mental. Considerose que o projeto respondeu adequadamente as duas provocações. Espera-se que esse trabalho instigue para aumentar o número de pesquisas na área de promoção a saúde mental que é escassa, e a aperfeiçoar o projeto “Promoção á saúde mental dos estudantes de enfermagem”.

Organização Mundial da Saúde. Primeira conferência internacional sobre promoção da saúde, 1986.

SESA. Secretaria do Estado da Saúde do Paraná. (SPP/DVSAM - Saúde Mental) Definição de Saúde Mental.

Disponível

em

<http://www.saude.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=1059>. Acesso em: 28 out. 2014. 

Dias, J.M.M.; Romano, A.M.; Lemos E. M. (2010) Gestão de Stress no ensino superior in do diagnóstico á intervenção em saúde mental. Portugal.

Organização Mundial da Saúde. Versão em português dos instrumentos de avaliação de qualidade de vida (WHOQOL), 1998. Acesso em: http://www.ufrgs.br/psiquiatria/psiq/whoqol1.html

 

Cunha G., Eiras M. e Teixeira N. (2012) Bioestatística e Qualidade Na Saúde. Portugal: Lidel. Lima F.B. (2004) stress, qualidade de vida, prazer e sofrimento no trabalho de call center . Dissertação de Mestrado. Faculdade de Psicologia, Campinas, PUC.

Silqueira,S.M.F.(2005) O questionário genérico SF-36 como instrumento de mensuração da qualidade de vida relacionado à saúde de pacientes hipertensos. Tese de Doutorado, Escola de Enfermagem, Ribeirão Preto, USP.

Fiedler, P. T.(2008) - Avaliação da qualidade de vida do estudante de medicina e da influência exercida pela formação acadêmica. Tese de Doutorado, Faculdade de Medicina, USP.

Fernandez, M. J.; Galindo, S. B.; Gambín, D. G; Gómez, J. I. G.; Muñoz, A.J. Simonelli; S. Rosario G.(2010) Calidad del sueño y somnolência diurna em estudiantes de enfermeria : estudio de prevalencia in Do diagnóstico á intervenção em saúde mental . Portugal.

Ferro, F. F.(2012) Instrumentos para medir a qualidade de vida no trabalho e esf: uma revisão de literatura, Trabalho de especialização, UFMG.

George J.B. (1993) Teorias de enfermagem: os fundamentos para a prática profissional. São Paulo: Artes Médicas.

Santos, V.E. P; Randüz, V. O estresse de acadêmicas de enfermagem e segurança do paciente Revista Enfermagem UERJ, volume 19 número 4, outubro/dezembro 2011.

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Doutor, Docente, Coordenador do Observatório em Saúde

Hospital Universitário Onofre Lopes-HUOL / Departamento de Medicina Clínica-DMC Universidade Federal Do Rio Grande do Norte-UFRN, Brasil.Av. Nilo Peçanha, 620 – Petropólis, Natal/RN, Brasil. CEP: 59012-300 E-mail : jotarn@ufrnet.br

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Crack é o nome derivado do verbo "to crack" que em inglês significa quebrar, devido aos pequenos estalidos produzidos pelos cristais ao serem queimados. É capaz de causar consumo compulsivo e dependência em seus usuários. É uma droga feita da mistura da pasta de cocaína com bicarbonato de sódio ou soda cáustica, constituindo uma forma impura de cocaína. As principais consequências físicas do consumo dessa droga incluem doenças pulmonares e cardíacas, digestivas e alterações na produção e captação de neurotransmissores. Este artigo tem como objetivo abordar a temática do crack, focando conceito; surgimento e contexto; indicadores; marco legal e estratégias e metodologias. Foram utilizadas como fontes artigos publicados em periódicos especializados, sites oficiais, teses e dissertações. Como resultados, foram constatadas semelhanças entre os perfis encontrados até o momento: usuário de crack é homem, jovem, solteiro, pertencente a diferentes classes sociais, com predominância da classe e nível de escolaridade baixos, antecedentes de uso de outras drogas, comportamento sexual de risco e sem vínculos empregatícios formais. Os comportamentos de

risco

mais

observados

nessa

população

são o

número elevado de parceiros, o sexo sem proteção e a troca de sexo por crack ou por dinheiro para aquisição da substância. Conclui-se que há uma r e l a ç ã o entre o consumo de crack e a infecção pelo HIV e outras DST e a necessidade de abordagens mais apropriadas e intensivas em cada fase do tratamento já que são usuários de difícil adesão. Palavras-Chave: crack, usuário de crack, consequências para a saúde, tratamento.

Crack - (the rock) - is the name derived from the verb "to crack" which in English means break. The small POPs that gave rise to the name are produced by crystals, when burned. Causes compulsive consumption and dependency on its users. It is obtained through the mixture of cocaine paste with baking soda or caustic soda. Is an impure form of cocaine. The

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main physical consequences is the appearance of lung diseases, cardiac, digestive, changes in production and uptake of neurotransmitters. The objective of this study is to address the "crack", their conceptualization;

origin

and

context;

indicators;

legal

framework;

strategies and methodologies; From the integrative review will be presented a synthesis of multiple published studies and general conclusions about it. The profile found of users is as follows: mostly male, young, single, belonging to different social classes. However, there is a predominance of members from the class and low education level; poly users, with sexual behaviors of risk and without formal links. The observed risk behaviors are the large number of partners, the unprotected sex and the exchange of sex for crack or money to acquire this substance. There is a close relationship between the consumption of crack and HIV infection and other sexually transmitted diseases-STDs. In this context, one should focus on multidisciplinary approaches more appropriate and intensive, since crack users have as main characteristic – the resistance of treatment adherence. Keywords: crack, user profile, chemical dependency, treatment

Crack es el nombre derivado del verbo “to crack”, que quiere decir quebrar, en inglés, debido a los pequeños chasquidos producidos por los cristales cuando quemados. Es capaz de causar consumo compulsivo et dependencia en sus usuarios. Es una droga hecha de la mistura de pasta de cocaína con bicarbonato de sodio o soda cáustica, constituyendo una forma impura de cocaína. Las principales consecuencias físicas del consumo de esta droga incluyen enfermedades pulmonares, cardíacas y digestivas, además de alteraciones en la producción y captación de neurotransmisores. Este trabajo tiene como objetivo esencial abordar la temática del crack, en particular, el concepto; surgimiento y contexto; indicadores; marco legal y estrategias y metodologías. Fueran utilizados como fuentes artículos publicados en periódicos especializados, sitios oficiales, tesis y disertaciones.

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Como resultado, fueran constatadas semejanzas entre los perfiles encontrados hasta ahora: el usuario de crack es hombre, jueves, soltero, perteneciente a distintas clases sociales, con predominancia de clase y nivel de escolaridad bajos, antecedentes de uso de otras drogas, comportamiento sexual de riesgo y sin vínculos laborales formales. Los comportamientos de riesgo más observados en esta populación son el número elevado de parejas, el sexo sin protección y el cambio de sexo por crack o por dinero para adquirir la substancia. Concluyese que existe una relación entre el consumo de crack y la infección por el HIV y otras DST y la necesidad de abordajes más adecuadas e intensivas en cada fase del tratamiento, ya que son usuarios de difícil adhesión. Descriptores: Crack; Usuario de Crack; Consecuencias en la Salud; Tratamiento..

Crack, como referido anteriormente, é o nome derivado do verbo "to crack" que, em inglês, significa quebrar devido aos pequenos estalidos produzidos pelos cristais (as pedras) ao serem queimados. Nos Estados Unidos, alguns usuários misturam a pasta da coca com a droga haxixe e denominam-na, também, de crack. É uma droga feita a partir da mistura da pasta de cocaína com bicarbonato de sódio ou soda cáustica, considerado como uma forma impura de cocaína. A forma mais comum de consumo é através da aspiração da fumaça oriunda da queima da pedra do crack. A fumaça produzida pela queima da pedra chega ao sistema nervoso central em dez segundos, devido ao fato de a área de absorção pulmonar ser grande e seu efeito durar cerca de 3 a 10 minutos. O consumo de Crack causa um aumento rápido de cocaína no sangue, produzindo efeitos psíquicos, com pico em cinco minutos. Os efeitos desagradáveis são igualmente mais intensos, contribuindo também para a re-administração, além de ser essa droga considerada a forma da cocaína mais capaz de causar consumo compulsivo e dependência (Tuller, Rosa; Menegatti, 2007). Entre os efeitos relatados por alguns usuários referidos anteriormente citaram-se, ainda, a inibição da fome e do sono. Efeitos tóxicos também são muito comuns, uma vez que na tentativa de aumentar a sensação de prazer Ponta Delgada, Julho de 2015


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com o uso da droga, os usuários acabam utilizando quantidades cada vez (Bertolote, Nappo, 2010, Ribeiro, 2006, Cunha, 2004). Do ponto de vista do usuário, o crack se torna uma droga de alcance poderoso, uma vez que a sensação de prazer intenso pode ser comparada ao de um orgasmo. Outras sensações tais como euforia, poder e excitação sexual, também foram citadas, o que de certa forma explicaria a vontade incontrolável, popularmente conhecida como “fissura” e a consequente dependência em pouquíssimas vezes de uso. Complicações mortais como enfartes do miocárdio, hemorragias cerebrais e paradas respiratórias podem ocorrer com o uso contínuo da droga. Porém, a relação com a morte não é direta e pode incidir muito mais por atividades relacionadas ao tráfico, disputa na aquisição para venda ou uso, prostituição e homicídios para obtenção da droga do que pelos efeitos que ela causa nos seus usuários. O consumo de crack foi registrado pela primeira vez na década de 1980 nos Estados Unidos. Inicialmente, os usuários eram oriundos das camadas mais pobres. A droga aparece como um novo e mais potente derivado da cocaína. No Brasil, o primeiro registro de utilização se deu em São Paulo, no ano de 1989 e a primeira pesquisa sobre o consumo foi feita no município de São Paulo, tendo como população-alvo 25 usuários com o seguinte perfil:

homens,

menores

de

30

anos,

desempregados,

com

baixa

escolaridade e poder aquisitivo, provenientes de famílias desestruturadas (Dualibbi; Ribeiro; Laranjeira, 2008). De acordo com o mesmo estudo, os usuários de crack na comunidade, quando comparados aos usuários de cocaína, pareciam possuir um padrão mais grave de consumo, maior envolvimento em atividades ilegais, maior risco de efeitos adversos ao uso de cocaína, maior envolvimento em prostituição e ter mais chance de morar ou ter morado na rua, mais problemas sociais e de saúde do que os usuários de cocaína. De forma geral, o usuário de crack é poli usuário ou tem antecedente de consumo de outras substâncias. O início do uso se dá com drogas lícitas - o tabaco e o álcool, geralmente em idade precoce e de

modo pesado (Dualibbi; Ribeiro ; Laranjeira, 2008). O crack é

considerado atualmente uma das drogas mais letais no mundo. No Brasil, Inicialmente, o seu uso se restringia a indivíduos pertencentes às classes de menor poder aquisitivo. Hoje, está presente em todas as classes sociais e Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

em todo o território nacional. É considerado, de modo geral, uma droga mais barata e acessível em comparação às outras. O valor de cada pedra de crack, em São Paulo, pode variar de R$ 5,00 a R$ 20,00, sendo que estes valores variam consoante o seu peso em gramas. Alguns usuários chegam a utilizar 20 pedras de crack por dia, cujo investimento será de R$ 400,00/dia (Nappo et al, 2008). Nos últimos anos,

o uso se estendeu às camadas média e alta,

especialmente nas principais capitais do país. Apesar de o crack ter o seu preparo mais rápido e barato

traz conseqüências clínicas e psicológicas

desastrosas em um período mais curto de tempo quando comparado com a forma em pó da mesma substância. Levantamentos epidemiológicos têm mostrado o aumento do uso de crack, possivelmente, em razão de mudanças de seu acesso, estratégias de mercado e formas de uso. Alguns estudo têm procurado identificar tais aspectos da cultura de uso de crack. Os resultados mostram, ainda, que o acesso ao crack é simples, facilitado por estratégias de mercado como a entrega em domicílio (crack delivery). Uma leitura dos resultados de estudos e pesquisas publicados nos últimos anos, apesar de escassos, sugere uma questão de fundo: se a humanidade conviveu

e

convive

tanto

tempo com

substâncias

que

causam

dependência, porque é que o uso/abuso de crack atingiu no Brasil proporções tão alarmantes? Pelo menos três respostas, entre várias, são apontadas: a) O fato de a droga ser fumada faz com que a absorção seja maior pelo cérebro, situando-se em torno de mais de 90%, o que faz com que a dependência se instale de forma mais rápida, podendo ocorrer na primeira utilização. Sabe-se, por um lado, que o padrão de uso mais frequentemente encontrado nos estudos é o compulsivo associado ao uso múltiplo de outras drogas e atividades ilícitas em troca de crack ou de dinheiro para a sua aquisição; por outro lado, identificou-se o uso controlado (não-diário de crack) como uma das estratégias adotadas por ex-usuários para o alcance do estado de abstinência (Oliveira; Nappo, 2008). As características do principal grupo de usuários, ou seja, de indivíduos oriundos da classe econômica baixa e de pouco acesso aos serviços de saúde justificam, até certo ponto, a escassez de informações acerca dos efeitos crônicos sistêmicos ou locais do uso de crack, principalmente no que diz respeito às manifestações no organismo dos Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

dependentes. Na literatura consultada e referenciada neste dossiê, a maioria discute as alterações orgânicas causadas pelo fumo do crack. Referem-se, apenas, às lesões agudas, diferindo nas abordagens feitas consoante o seu meio de administração (Nicastri ; Andrade, 2000 ; Prado, 2003 ;

Mançano, 2008 ; Zeni ; Araújo, 2009); b) a segunda resposta

refere-se ao “comercial”: o crack é considerado barato, diferente de outras substâncias ilícitas, como a cocaína e mesmo as lícitas, como as bebidas alcoólicas e o cigarro, tornando-se acessível a qualquer pessoa. Apesar de o lucro ser menor, o traficante ganha no volume de comercialização, este, ao concentrar a produção, essa droga passou a ser comercializada na forma de “pedras” a um baixo custo por unidade, o que de início causava a falsa sensação de ser uma droga mais barata que as demais. Depois de mais de duas décadas da introdução de crack no mercado das drogas, o preço por unidade parece não ter sofrido variação expressiva, o que leva a sugerir que é a qualidade da droga que tem mudado. Nos Estados Unidos, por exemplo, os estudos apontam que as pedras de crack têm sido adulteradas com substâncias inertes ou estimulantes de baixo custo, o que tem diminuído a sua pureza em termos de concentração de cocaína. No Brasil, em função dos inúmeros pontos de distribuição e venda de crack (cada qual com suas próprias “leis”), sua composição química ainda é desconhecida, de tal forma que interações imprevisíveis podem colocar a vida do usuário em risco, o que o torna um problema de saúde pública relevante; c) A desagregação das famílias, a onda de violência e as condições degradantes dos usuários. É consensual, na sociedade brasileira, a existência de uma verdadeira epidemia de abuso do crack. Sabe-se, no entanto, que diferente das doenças infecciosas em que é possível isolar e combater o agente causador, a

dependência

química

é

difícil

de

ser

tratada

pela

sua

própria

especificidade, ou seja, a de transformar o cérebro dos usuários e passar a controla-los. Das doenças crônicas, como a diabetes e hipertensão é a única que escapa ao controle do doente, ficando este refém da própria (s) substância (s) que usa ou consome. Voltando ao processo de produção, o crack, inicialmente era convertido do cloridrato de cocaína (pó) pelo próprio usuário.

Atualmente,

a

situação

é

bem

diferente

como

referido

anteriormente. O traficiante passou a controlar toda a produção. Ainda, assim, além da qualidade, para citar apenas um exemplo, na cidade de São Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Paulo relatos informais apontavam as mudanças da acessibilidade e estratégias de uso de crack. A esse respeito, nos Estados Unidos, Perlman et al., também, identificaram o denominado shotgun, uma estratégia de uso que, embora encarada como compartilhamento inocente de crack (e outras drogas fumáveis) entre dois usuários, tem propiciado contextos eróticos de uso, aumentando a incidência de encontros homo e heterossexuais. Como na cultura de crack, o uso de preservativos é geralmente inconsistente. Esses encontros podem facilitar a transmissão de HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis (DST). Nesse sentido, Duailibbi, Ribeiro e Laranjeira (2008) referem um estudo realizado com 388 adolescentes, maioritariamente, do sexo feminino que procuraram espontaneamente um serviço público de Porto Alegre - RS (2001) para realizar o teste anti-HIV. Os casos de soro positividade diagnosticados estavam diretamente associados aos relatos f e i t o s de relação sexual com parceiro sem preservativo e de troca de sexo por drogas. Em outro estudo realizado no Rio de Janeiro onde foram entrevistados 675 homens, na faixa etária dos 18 aos 50 anos, com sorologia negativa para o HIV e antecedente de sexo com homens nos últimos seis meses observou-se que a vulnerabilidade à infecção pelo HIV estava associada à pobreza, a o baixo nível de instrução e ao uso de drogas, especialmente, à outro

cocaína e o crack.. Em Campinas (SP),

estudo com usuários, predominantemente, do sexo

masculino

detectou a presença do HIV em 11% dos usuários, relacionando o uso de crack e a prática de sexo sem proteção ao risco de infecção pelo HIV. Embora a troca de sexo por drogas seja uma prática mais comum em mulheres, este comportamento, também, é encontrado entre homens, consumidores de crack, independentemente da sua orientação s e x u a l . Apesar da escassez de estudos nacionais específicos sobre esse assunto, uma pesquisa realizada com 13 michês, 53 travestis e 449 prostitutas da cidade de Ribeirão Preto (SP), constatou que o consumo de crack e d e cocaína injetável aumentava sensivelmente o risco de infecção pelo HIV (Guimarães, 2008). O tratamento da dependência de drogas exige uma abordagem integrada das diversas dimensões implicadas. É consensual, na literatura, que o mesmo seja feito num enfoque Inter e multidisciplinar, na Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

medida em que se trata de um fenômeno complexo e plurideterminado, sendo diversas as áreas do conhecimento científico necessárias à sua compreensão e, consequentemente, para o tratamento da doença. As dimensões psíquicas ou emocionais, assim como os fatores de contexto incluindo os sociais, os culturais e familiares devem ser consideradas. A superação do vício, segundo esta perspectiva, não depende apenas do usuário de crack, mas de uma ação conjugada, articulada, estreita, multi e Inter profissional de especialistas, bem como da força de vontade por parte do próprio usuário, da família, fortemente apoiados por políticas públicas de prevenção, tratamento e de reinserção social voltadas a essas categorias. A desarticulação verificada, aliada às estatísticas nacionais contraditórias produzidas

por

alguns

institutos

e

centros

de

pesquisa

tanto

no

enfrentamento, como nas intervenções e estratégias definidas em nível das políticas públicas junto aos usuários do crack, na sociedade brasileira, têm contribuído, entre outros aspectos, para o baixo índice de recuperação e de enfrentamento do fenômeno.

Para este estudo optou-se por uma pesquisa bibliográfica, sendo utilizadas como fontes as Bases de Dados da Scielo e LILACS, artigos publicados em periódicos especializados e sites oficiais, nos últimos dez anos, em língua portuguesa, utilizando-se as seguintes palavras chave: crack, usuário de crack, perfil do usuário, consequências para a saúde, tratamento.

Os resultados da pesquisa realizada, até ao momento, mostram que o usuário

de

crack

é

predominantemente

homem,

jovem,

solteiro,

pertencente a diferentes classes sociais. Há, no entanto, predominância da classe

e

nível

desestruturadas,

de com

escolaridade antecedentes

baixas, de

proveniente

uso

de

de

drogas

famílias injetáveis

comportamento sexual de risco e sem vínculos empregatícios formais. São de difícil adesão ao tratamento, havendo necessidade de abordagens mais apropriadas e intensivas em cada fase. Os usuários de cocaína e crack parecem ser m a i s vulneráveis às mortes por causas externas. Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Uma das características do usuário de crack é a degradação física, passando o usuário, a não mais cuidar do seu corpo, deixando de lado os princípios básicos de higiene (Duailibi; Ribeiro e Laranjeira; 2008, Malta, 2008). Em relação às características ocupacionais um estudo de Guimarães et al (2008) mostrou que 43,3% dos usuários de crack são autônomos, 36,7% estavam

desempregados

e

apenas

20%

trabalhavam

com

vínculo

empregatício. Quanto à profissão, as mais declaradas foram serviços gerais (30%); construção civil (16,7%) e comércio (13,3%). Os demais (40%) afirmaram ser vigilante, motorista ou ter outra profissão. Constatou-se, ainda, que 25% tiveram antecedentes criminais motivados pelo uso da droga, enquanto 41,7% motivados e não motivados pela droga. Todos os crimes foram realizados após o início do uso de substâncias psicoativas (cocaína ou crack).

Ziegal et al. e Schifano et al observaram, em seus

estudos, que os consumidores de crack apresentam problemas de criminalidade. Os usuários de crack têm 57,4% mais probabilidade de detenção, o que é um dado bastante significativo

(apud Guimarães,

2008). Relativamente às mulheres, 10% das usuárias relataram estar grávidas no momento da entrevista e mais da metade das que fazem uso de crack já haviam engravidado ao menos uma vez desde que iniciaram o uso da droga. Pesquisas revelam, ainda, que 44,5% das mulheres entrevistadas relataram já ter sofrido violência sexual na vida, enquanto entre os homens o percentual foi de, apenas, 7%. Quando consideradas as diferenças entre os gêneros, nota-se que os homens usam crack por tempo mais prolongado, em média por 83,9 meses e as mulheres por aproximadamente 72,8 meses. O consumo diário, no entanto, é mais intenso entre elas: 21 pedras de crack. Já os homens consomem 13 por dia. As estatísticas sobre o tratamento colocados à disposição das pessoas com problemas relacionados às drogas mostram que 78,9% dos usuários de droga querem fazer tratamento, o que é considerado pelos especialistas, um passo importante em direção ao tratamento, controle e recuperação de pessoas portadores dessa doença crônica – a dependência química. Apesar dessa iniciativa da parte de alguns, continua baixo o seu acesso aos serviços colocados à sua disposição: postos e centros de saúde. Os usuários manifestaram interesse Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

por serviços associados à assistência social e por serviços de atenção à saúde não necessariamente voltados ao tratamento da dependência química, como os ligados à higiene, à distribuição de alimento, ao apoio para conseguir emprego, escola ou curso e atividades de lazer. Esses aspectos foram citados por mais de

90% dos entrevistados como

fundamental para facilitar o acesso e o uso de serviços de atenção e tratamento ambulatorial. Acedido em: http://www.brasil.gov.br/cidadaniae-justica/2013/ Devido a essas características, o uso do crack se torna incompatível com qualquer modo tradicional de vida (trabalho, estudo, relacionamento amoroso, etc.), marginalizando o indivíduo que faz uso dessa substância (Nappo, Galduróz e Noto, 2000). Há escassez de estudos sobre estudantes, sejam estes de nível superior ou não o que dificulta o conhecimento de um perfil

acerca desses usuários. De uma forma g e r a l , os estudos referem

a influência de amigos, a permissividade da família, aliados ao estilo de vida independente dos estudantes como fatores de risco para o uso do crack, sugerindo que essas áreas devam ser abordadas na prevenção, e no tratamento a essa população. O consumo de sido

associados

diretamente

à

infecção

cocaína e crack têm

pelo

HIV

outras DST.

Os

comportamentos de risco mais observados são o número elevado de parceiros, o sexo sem proteção e a troca de sexo por crack ou por dinheiro

para

comprar a substância.

(Malta, 2008). A presença de

comorbidades psiquiátricas é comum entre usuários de crack e agrava o prognóstico das doenças. A s

complicações agudas são mais prevalentes

em usuários regulares com d i a g n ó s t i c o d e d e p e n d ê n c i a g r a v e . Os usuários de cocaína e crack são mais vulneráveis às mortes por causas externas ((Dualibi & Laranjeira & Ribeiro & Malta, 2008). Quanto maior o número de fatores de risco presentes, maior a intensidade de uso: o uso de drogas por parte dos pais e amigos; desempenho escolar insatisfatório; relacionamento deficitário com os pais; baixa auto- estima; sintomas depressivos; ausência de normas e regras claras; tolerância do meio às infrações; necessidade de novas experiências e

emoções;

baixo

senso

de

responsabilidade;

pouca

religiosidade;

antecedente de eventos estressantes; uso precoce de álcool. De forma geral, quanto mais precoce se inicia o uso da droga, maior a probabilidade Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

do indivíduo se tornar um usuário regular e apresentar problemas, independentemente

da

presença

de

fatores

de

risco

(Tuller,

Rosa,

Menegatti, 2007).

Uma leitura às estatísticas apresentadas ao longo deste artigo exige adoção

de

ações

conjuntas

com

participação

efetiva

de

setores

importantes da sociedade contemporânea brasileira, designadamente a mídia, profissionais da área da saúde, da sociedade civil organizada, da educação e de diferentes áreas do conhecimento científico, técnico e profissional. O enfrentamento às drogas exige uma responsabilidade compartilhada no trato de questões tão delicadas e polêmicas que envolvem a prevenção ao uso e abuso de drogas, à promoção da saúde, à reinserção social e resgate de cidadania, principalmente de brasileiros portadores dessa

doença

crônica

a

dependência

química.

Todos,

de

forma

organizada, têm o direito/dever de exigir a criação de redes de apoio, de tratamento e de reinserção social. A efetiva inclusão social, política, econômica na sociedade contemporânea brasileira, assim o exige. Tem-se assistido nas últimas décadas, no entanto, a substituição de uma exclusão social por uma inclusão marginal de parte significativa de parcelas importantes da população. O enfrentamento do flagelo não pode e nem deve ser feito à custa ganhos importantes conquistados no processo democrático recente no Brasil. Os Programas devem pautar pelos princípios da eficiência, efetividade e eficácia. As saídas apontadas não precisam de ser necessariamente consensuais, mas devem atender minimamente as dimensões/necessidades psicossociais, sócio antropológicas dos cidadãos. A legislação social brasileira, principalmente no período que se seguiu à Promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, é considerada uma das avançadas. A sua aplicabilidade tem deixado muito a desejar. A Lei 11.343/2006 a de todos os cidadãos ao pleno exercício da população em geral, na direção da produção de consensos que permitam estabelecer uma abordagem inovadora e local, que trate destes temas, considerando as realidades de mercado de consumo, do mercado de trabalho e das contribuições da economia, da política, da sociologia, da

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

comunicação, da antropologia e de outras áreas do conhecimento, além das que habitualmente tratam destes temas. Ações de prevenção devem apoiarse em sistemas de informação sobre o uso indevido de drogas produzido pelos Órgãos Federais, Estaduais e Municipais, devendo ser acessível a todos, independentemente da sua condição social e econômica, nível de escolaridade, classe social entre outros. Sugerem-se, entre outras medidas a adotar, em relação aos desafios que se colocam tanto no presente como no futuro sobre o enfrentamento do crack, que essas campanhas e programas de prevenção tenham como suporte a convergência e a sistematização de indicadores sobre o uso de drogas no Brasil. São, ainda, escassos e contraditórios, como referidos anteriormente, os resultados de pesquisas realizadas e divulgadas por alguns Centros e Grupos de Pesquisas das Universidades e dos Órgãos competentes. Esses resultados devem fazer parte de processos de avaliação permanente, tendo como pano de fundo as especificidades locais e regionais de cada estado da República Federativa do Brasil. Uma leitura sobre as informações da disseminação e o aumento exponencial de usuários de crack, sobretudo jovens e adolescentes e a interiorização dessa droga por todos os estados brasileiros sugere, entre outras medidas um mutirão nacional aliado a uma parceria entre as empresas e as instituições que desenvolvem ações de caráter preventivo e educativo sobre drogas para o enfrentamento desse grande flagelo nacional – o crack e de outras drogas.

As discussões sobre os resultados tornam evidentes a necessidade de reformulação de parte significativa das políticas públicas sobre drogas em geral e, em especial sobre o crack. No Brasil, apesar dos esforços das autoridades constituídas, o avanço tem sido vertiginoso nos últimos anos. Há problemas estruturais muito sérios, rede de atendimento indevidamente consolidadas, necessidade de capacitação, falta de uma rede consolidada, entre outros. É preciso planejar e aplicar intervenções específicas de prevenção ao uso e abuso de drogas a partir de abordagens mais compreensivas do que repressivas. Convém lembrar que as manifestações de drogadição pelo usuário constituem um

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

fenômeno complexo, resultante da sua personalidade, seus valores e crenças com o produto droga e seus efeitos no organismo e o contexto sociocultural. A efetiva prevenção deve ser fruto do comprometimento, da cooperação e da parceria entre os diferentes segmentos da sociedade brasileira e dos órgãos governamentais, federal, estadual e municipal, fundamentada na filosofia da “Responsabilidade Compartilhada”, com a construção de redes sociais que visem a melhoria das condições de vida e promoção geral da saúde. Nunca se deve esquecer que as experiências bem-sucedidas de cada realidade

não

podem

ser,

simplesmente,

transplantadas,

mas,

sim,

reinventadas sobre valores, bem-estar, integração socioeconômica e no contexto das relações familiares e nos seus diferentes modelos, nas diferenças culturais, de gênero, de raça entre outros. Todas as ações voltadas à prevenção devem ser planejadas em prol do desenvolvimento humano, à vida saudável, ao acesso aos bens essenciais tanto individuais como coletivos, ao protagonismo juvenil, à participação da família e, sobretudo na formação de agentes multiplicadores de prevenção, em especial, junto das comunidades mais carentes.

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Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Doutora em Enfermagem; Enfermeira especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica;

Professora Coordenadora na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra – UCP de Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria. Apartado 7001, 3046-851 Coimbra. Email: quaresma@esenfc.pt 2

ProfesoraTitular, Departamento de Enfermería,Universidad Rovira i Virgili. Universitat Rovira i Virgili.

Campus Catalunya, Av. Catalunya, 35, 43002 Tarragona, España Email: carme.ferre@urv.cat 3

Doutor em Saúde Mental; Enfermeiro especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica;

Professor Coordenador na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra – UCP de Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria, Apartado 3046-851 Coimbra, Portugal. Email: jcsantos@esenfc.pt

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Ao longo do ciclo vital, os indivíduos e as suas famílias enfrentam acontecimentos que requerem reorganizações pessoais e relacionais. A vivência desses fenómenos de ajustamento e mudança traduzem-se muitas vezes por momentos de grande vulnerabilidade e desequilíbrios, tornandose por isso importantes focos para a intervenção de Enfermagem. A adolescência devidamente

constitui

um

preparada,

desses poderá

acontecimentos pôr

em

causa

que,

quando

o

processo

não de

desenvolvimento harmonioso e conduzir a adoção de condutas de risco, onde se enquadra a delinquência juvenil. Com este estudo pretendíamos compreender os processos de transição que conduzem os adolescentes à prática de factos ilícitos que os colocam em conflito com a Lei e a cumprir medida de internamento em Centro Educativo e elaborar um programa de prevenção da delinquência juvenil através da promoção da saúde e capacitação da família, da criança/adolescente e comunidade capaz de transformar os processos de transição vivenciados pelos adolescentes em conflito com a Lei. Alicerçada nos pressupostos das abordagens qualitativas, a análise da informação sustentou-se no referencial teórico das transições de Meleis recorrendo à metodologia da Grounded Theory. Os dados emergentes permitiram a compreensão da natureza psicossocial do fenómeno da delinquência juvenil e o entendimento das interações de múltiplos fatores que concorrem para o seu aparecimento, assumindo particular importância a parentalidade como foco de atenção para a prática de enfermagem. A leitura dos dados permitiu a construção de um modelo explicativo da experiência de transição para a delinquência na adolescência e a elaboração de um programa intervenção a nível da prevenção universal, seletiva e indicada, tendo como base a abordagem ecológica e cognitiva comportamental. Palavras-Chave: Delinquência juvenil; Transições da Meleis; Enfermagem; programa de prevenção

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

A lo largo del ciclo vital, los individuos y sus familias se enfrentan a acontecimientos que requieren una reorganización personal y relacional. La experiencia de esos fenómenos de ajuste y cambio se traduce, muchas veces, en momentos de gran vulnerabilidad y desequilibrio, convirtiéndose así en un importante foco para la intervención de la enfermería. La adolescencia constituye uno de esos acontecimientos que, cuando no se está debidamente preparado, puede poner en peligro el proceso de desarrollo armonioso y llevar a la adopción de conductas de riesgo, donde se enmarca la delincuencia juvenil. Con este estudio se pretendía comprender los procesos de transición que llevan a los adolescentes a realizar hechos ilícitos que los hacen entrar en conflicto con la ley y a cumplir medidas de internamiento en un centro educativo, y elaborar un programa de prevención de la delincuencia juvenil a través de la promoción de la salud y la capacitación de la familia, del niño/adolescente y de la comunidad para transformar los procesos de transición vividos por los adolescentes que se encuentran en conflicto con la ley. Sobre la base de los presupuestos de los enfoques cualitativos, el análisis de la información se basó en el referente teórico de las transiciones de Meleis, para lo cual se recurrió a la metodología de la Grounded Theory. Los datos obtenidos permitieron comprender la naturaleza psicosocial del fenómeno de la delincuencia juvenil y entender las interacciones de múltiples factores que contribuyen a su aparecimiento, entre los cuales tiene una particular importancia la parentalidad como foco de atención para la práctica de enfermería. La lectura de los datos permitió construir un modelo explicativo de la experiencia de transición hacia la delincuencia en la adolescencia y elaborar un program de intervención a nivel de la prevención universal, selectiva e indicada, teniendo como base el enfoque ecológico y cognitivo del comportamiento. Descriptores: adolescentes; delincuencia juvenil; transiciones de Meleis; enfermería; programa de prevencion.

Throughout the life cycle, individuals and their families experience events

that

require

personal

and

relational

reorganizations.

These

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phenomena of adjustment and change often translate themselves into moments of great vulnerability and imbalances, thus becoming important foci for Nursing intervention. Adolescence is one of those events that, if not properly

prepared,

may

undermine

the

adolescent’s

harmonious

development and lead to the adoption of risk behaviors, such as juvenile delinquency. This study aimed to understand the transition processes which lead adolescents to practice illicit acts, which put them in conflict with the Law and force them to an institutionalization period in an Educational Center. It also aimed to draw up an action plan to prevent juvenile delinquency through health promotion and the empowerment of the family, the child/adolescent and the community capable to transform transition processes of adolescents in conflict with the Law. Under the assumptions of qualitative approaches, data were analyzed based on the theoretical framework of Meleis' transitions using the Grounded Theory methodology. The emerging data allowed us to understand the psychosocial nature of the phenomenon of juvenile delinquency and the interactions between the multiple factors that contribute to its occurrence. In this process, parenthood takes on a special importance as a focus of attention for nursing practice. Data reading allowed for the construction of an explanatory model of the experience of transition to delinquency in adolescence. It also allowed for the drawing up of a program of interventions for universal, selective and indicated prevention, based on the ecological and cognitive-behavioral approach. Keywords: Juvenile Delinquency; Meleis’ Transitions; Nursing; prevention program

A delinquência juvenil é um fenómeno multicausal que envolve todas as raças, condição social e nível cultural, observando-se em todo o tipo de sociedades e regimes políticos. Esta situação é reconhecida pelo Comité Económico e Social Europeu (CESE) (2006/C110/13) ao considerar a delinquência juvenil como um dos fenómenos que mais preocupa as sociedades europeias e, desde o século Ponta Delgada, Julho de 2015


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passado, um dos problemas criminais observados internacionalmente a título permanente (Comité Económico e Social Europeu, 2006). A adoção de comportamentos que colocam o adolescente em conflito com a Lei são acontecimentos de vida com consequências na saúde/doença futura, e com ligações profundas às vivências anteriores, relacionadas com a família e com o ambiente. Este processo transacional é marcado vulnerabilidades

e

desequilíbrios

pessoais,

familiares

e

ambientais

tornando-se, também por isso um foco de intervenção de Enfermagem. Estes jovens infratores da lei constituem um grupo social vulnerável, sobre o qual recai o peso da estigmatização, conduzindo-os à situação extrema de desadaptação social. O desafio é enfrentar este problema social implementando medidas que não aumentem a estigmatização e maximizem o desvio. Como resposta, na última década têm-se intensificado a preocupação de convergência nos princípios de orientação e nos instrumentos legislativos produzidos

pela

União

Europeia.

Destacamos

a

Recomendação

Rec

(2003)20, de 24 de Setembro e a Recomendação CM/Rec(2008)11, de 5 de Novembro,

emitidas

pelo

Conselho

Europeu

aos

Estados

membros

(Conselho da Europa, 2003; 2008). A primeira institui novas formas de prevenção e tratamento ajustadas às necessidades educacionais e sociais específicas como forma de diminuir a reincidência. A segunda define regras que visam garantir a segurança dos jovens que entram em conflito com a lei e o cumprimento dos direitos humanos e dos direitos das crianças, defendendo a promoção da saúde física e mental, bem como o bem-estar social, dos jovens sujeitos a sanções ou medidas comunitárias, ou qualquer medida de privação de liberdade. Em Portugal, os dados apresentados nos diversos Relatórios Anuais de Segurança Interna (RASI) refletem um movimento de desagravamento da delinquência juvenil, entre 2003 e 2008, seguida da inversão dessa tendência nos anos 2009, 2010 e 2012, 2013 e 2014, o que demonstra que este problema existe na sociedade portuguesa e que a diminuição da prevalência de forma continuada e persistente ainda não foi atingida. Nos termos da Lei Tutelar Educativa (LTE) delinquência juvenil é a prática de facto qualificado como crime, por indivíduo comprovadamente menor, com idade compreendida entre os 12 e os 16 anos. Ponta Delgada, Julho de 2015


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A evidência demonstra que a esfera do risco e da proteção gravita ao redor da família, da escola, do grupo de pares e da comunidade. Assim, entendemos que a prevenção exige uma abordagem interdisciplinar e multissectorial e deve desenvolver-se numa perspetiva ecológica que considera a multidimensionalidade dos vários fatores de risco e de proteção e integra as questões inerentes ao contexto social e cultural.

Este estudo foi realizado com adolescentes a cumprir medida de internamento em Centro Educativo, através da consulta documental e entrevistas, com a finalidade de reconstruir o percurso transacional para a prática de comportamentos conflituantes com a lei na adolescência. É uma investigação qualitativa de cariz interpretativo, sustentada no referencial teórico da teoria de médio alcance das transições de Afaf Meleis, numa abordagem ecológica. O referencial metodológico seguido foi a Grounded Theory. Com

este

estudo

pretendemos

atingir

dois

objetivos

gerais:

compreender os processos de transição que conduzem os adolescentes à prática de factos ilícitos que os colocam em conflito com a Lei; elaborar um programa de prevenção da delinquência juvenil através da promoção da saúde e capacitação da família, da criança/adolescente e comunidade Respeitando os princípios éticos e legais foram obtidos os pareceres favoráveis da Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos e autorização por parte do Instituto de Inserção Social para realizar a investigação nos Centros Educativos.

O processo de transição para a delinquência, vivenciados por estes adolescentes, caracteriza-se por um padrão sequencial, embora não linear. Foram identificadas 5 fases, sendo a transição de fase momentos críticos, de agravamento da situação de desorganização pessoal e de desintegração social, que se observa pela prática de atos conflituantes com a lei de maior gravidade e em maior número, sem que os recursos externos (família, escola, comunidade) exercessem o papel esperado de imprimir rutura na progressão de desajustamento social (Figura1). Ponta Delgada, Julho de 2015


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Os dados emergentes permitam a compreensão natureza psicossocial do fenómeno da delinquência juvenil e o entendimento das interações de múltiplos fatores que concorrem para o seu aparecimento, assumindo particular importância a parentalidade como foco de atenção para a prática de enfermagem. Seguindo a teoria das transições de Meleis, apresentamos na Figura2, os processos de transição vivenciados por estes adolescentes nesta situação de transição específica.

Relativamente à natureza desta transição consideramos que o processo de mudança aglutina: situações de natureza desenvolvimental, transições

situacionais

onde

se

enquadram a ausência de

modelos

educativos e a privação de cuidados securizantes; transições de saúdedoença relacionadas com as situações de doenças crónicas e, por último, organizacionais, com a mudança de um ambiente permissivo e negligente para uma estrutura educacional e residencial normativa. No que diz respeito às propriedades destacamos a inexistência de consciencialização da necessidade e compromisso para a mudança neste processo de transição, tanto por parte da família como dos adolescentes. O processo de transição vivenciado por estes adolescentes revela-se profundamente influenciado por familiares, o contexto escolar e o grupo de pares. Estes fatores, numa relação de interdependência vão influenciar os significados atribuídos ao evento crítico e às expetativas dos adolescentes

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relativamente ao seu futuro, evidenciando-se o seu papel dificultador de progressão para uma transição para adolescência saudável e de bem-estar Pela sua importância para o desenho do programa de prevenção, passamos a

apresentar

os

fatores

condicionantes

desta

transição

específica

enquadrados nos contextos familiares, escolares, grupo de pares e comunitários. Os pontos mais relevantes da caracterização do contexto familiar destes adolescentes são: As figuras parentais apresentam-se como modelos inconsistentes, negligentes e incapazes de transmitir afeto e segurança, atingido por vez a rejeição e o abandono em idades muito precoces; As práticas educativas assentam em atitudes permissivas negligentes e desresponsabilizantes que conduzem ao tipo de disciplina indiferente caracterizado

pela

falta

de

controlo,

incapacidade

para

exercer

a

autoridade, conter e supervisionar. Os métodos disciplinares são exercidos nos extremos da permissão ou da coerção, através de castigos físicos, coerção verbal e privação. Nas fontes de stresse familiar identificámos violência e maus-tratos, dependência de substâncias com destaque para o alcoolismo, criminalidade com elementos detidos por tráfico de droga, roubo e homicídio, prostituição e situações de pobreza extrema. A vivência escolar desde adolescentes mostrou-se frágil, descontínua e problemática, pautada por dificuldades de adaptação e integração, manifestação

de

comportamentos

disruptivos,

absentismo,

mau

desempenho escolar, abandono escolar ou mesmo expulsão, favorecendo a exclusão social. Estes adolescentes juntam-se em grupos que se organizam em torno dos mesmos interesses e objetivos práticos, que quase sempre visam a obtenção da sua satisfação imediata. A comunidade em que se inseriam não só não promoveu a sua integração como potenciou, de forma transversal, a exclusão social destes jovens e das suas famílias. No ponto de vista individual estes adolescentes revelaram um estilo simplificador de análise da realidade, por vezes não diferenciada da fantasia, o que se traduz em limitações da capacidade de se entender a si próprio e de se relacionar com os outros. Revelam-se pessoas com baixa autoestima, inseguras e pouco confiantes. As falhas na oferta de figuras Ponta Delgada, Julho de 2015


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afetivas e modelos de identificação válidos e consistentes podem estar na origem das dificuldades de identificação que manifestam. Não reconhecem as suas famílias como fontes de segurança e proteção, sentem-se rejeitados e rejeitam-nas. A não interiorização de normas e regras morais e sociais impediram que estes menores consolidassem a noção dos limites e dos outros enquanto sujeitos com direitos, apresentando limitações na capacidade de descentração, na tomada de consciência de si próprio, da cooperação, reciprocidade, assim como a construção do locus de controlo e da consciência moral. Estes adolescentes apresentam indicadores de autoperceção que apontam para baixos níveis de autoestima e autoconfiança, sentimentos de inferioridade e de insegurança. Manifestam grande instabilidade emocional, intolerância à frustração, impulsividade e imaturidade. A incapacidade reflexiva torna a ineficaz a tomada de decisões para a resolução de problemas, recorrendo à violência como expressão da agressividade primária não elaborada. Relativamente

aos

padrões

de

resposta

evidenciamos

a

interdependência entre o fenómeno da delinquência juvenil e o ambiente circundante, sendo por isso indispensável: Desenvolver a consciencialização e o envolvimento com a mudança, assim como o desenvolvimento de estratégias de resolução de problemas com os adolescentes e as famílias; Capacitar para o exercício da parentalidade; E, com os adolescentes promover o desenvolvimento de competências individuais e sociais e da construção do seu projeto de vida.

A transição não é apenas um significado para a mudança, mas tem implícito o processo psicológico que envolve a adaptação à mudança face aos eventos perturbadores. Assim, conhecer as condições facilitadoras e dificultadoras da transição possibilita o desenvolvimento de intervenções terapêuticas congruentes com a experiência singular da pessoa e suas famílias, no sentido de se promoverem processos de transição saudáveis (Meleis et al., 2000), no período anterior à transição esperada, preparando

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para a mudança de papéis ou na prevenção dos efeitos negativos sobre o indivíduo (Chick & Meleis, 2010). A conceção do programa que abaixo se apresenta alicerçou-se em pressupostos reconhecidos pela evidência: As intervenções de promoção da saúde mental na escola e na família têm impacto positivo sobre a criança, família e comunidade originando resultados positivos no âmbito das competências pessoais, sociais e educacionais (Weare, 2013; Weare & Nind, 2011); Os programas multimodais que envolvem o contexto escolar e a família revelaram-se mais eficazes do que os programas de prevenção que se concentram apenas em intervenções direcionadas para as crianças (Haggerty, McGlynn-Wrigh, & Klima, 2013; Stewart-Brown & SchraderMcmillan, 2011; Weare & Nind, 2010); A evidência recente comprova que os programas mais eficazes são os programas de capacitação que envolvem a educação dos pais, programas pré-escolares, o treino de competências e o treino de autocontrolo na infância (Durlak, Weissberg, Dymnick, Taylor, & Schellinger, 2011; Moffitt, et al., 2011); Os processos de transição assumem-se como eixos estruturantes dos cuidados de enfermagem prestados pelos enfermeiros especialistas de saúde mental (Ordem dos enfermeiros, 2011); O conhecimento dos fatores condicionantes desta transição específica permitiu identificar as áreas de intervenção sensíveis aos cuidados de enfermagem, e que se estruturam em torno de seis eixos de ação estratégica, organizados de acordo com as três áreas de prevenção: universal, seletiva e indicada (Quadro1). Este programa pretende refletir uma prática planificada e integrada para a prevenção de delinquência juvenil, de modo que as ações se possam desenvolver concertadamente, numa perspetiva ecológica e em rede, dirigido ao fortalecimento de fatores de proteção e ao controle ou minimização dos fatores de risco.

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A Prevenção Universal- Eixo 1-Colaboração interinstitucional para a prevenção da delinquência juvenil, combate ao estigma e dinamização da cultura da não-violência- é dirigida à população em geral, através de campanhas de sensibilização. A Prevenção seletiva engloba: o Eixo 2 que tem a finalidade de identificar as crianças e famílias de risco, através das consultas de enfermagem de desenvolvimento infantil; O Eixo 3 direciona-se para a promoção de competências pessoais e sociais das crianças que frequentam a educação pré-escolar e o 1º ciclo do ensino básico; O Eixo 4 dirige-se para os pais e encarregados de educação, com os objetivos de promover as competências parentais e desenvolver a cultura de não-violência. O Eixo 5 tem por finalidade a promoção das competências de professores e assistentes operacionais para a identificação e sinalização precoce de sinais de risco, combate ao estigma e promoção da cultura de não-violência no espaço escolar. A prevenção Indicada- Eixo 6- dirige-se à intervenção com crianças em risco e suas famílias, referenciadas pelo sistema de promoção e proteção de menores, pelos educadores de infância ou professores e enfermeiros da saúde escolar, com a finalidade de controlar ou minimizar a situação de

risco

existente, bem como

impedir

a continuidade

de

comportamentos disruptivos e agressivos na infância. É desenvolvida no Ponta Delgada, Julho de 2015


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centro de saúde e pressupõe, a necessidade de uma mudança efetiva de comportamentos familiares.

Destacamos que os dados emergentes deste estudo comprovam que este

processo

transacional

é

marcado

por

momentos

de

grande

vulnerabilidade e desequilíbrios pessoais, familiares e ambientais, tornandose evidente que a adoção de comportamentos delinquentes tem ligações profundas às vivências anteriores, relacionadas com a família e com o ambiente. Destacamos o denominador comum das histórias de vida destes adolescentes, marcadas por múltiplos abandonos, perdas e rejeições, desde uma idade muito precoce. Os dados confirmaram, ainda, os comportamentos disruptivos na infância como preditores de condutas problemáticas na adolescência. Este processo transacional evolui num continuum de fases sequenciais que comprovamos que influenciam as seguintes. A necessidade de imprimir rutura na progressão de desajustamento social exige uma intervenção ecológica. A evidência tem demonstrado que os programas de intervenção precoce que contemplam intervenções multimodais, que envolvem a capacitação de pais e professores, a par do treino de competências específicas na infância assumem um papel importante para a proteção de condutas inadequadas na adolescência e são mais eficazes a longo prazo, sendo por isso formas assertivas de prevenção da delinquência juvenil. Uma boa saúde mental é definida na infância e adolescência, por isso atuar a no âmbito da prevenção junto das suas crianças e adolescentes é um dos melhores e mais eficazes investimentos de qualquer comunidade e a melhor estratégia da obtenção de ganhos na saúde dos adultos (WHO, 2010).

Salientamos que a identificação de variáveis explicativas desta transição e focos sensíveis aos cuidados de enfermagem, capazes de facilitarem

transições

saudáveis,

permitem

desenvolver

intervenções

específicas na área do exercício de cuidados de forma a: Identificar precocemente as crianças de risco para problemas de conduta na infância; Ponta Delgada, Julho de 2015


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Intervir precocemente nas crianças e famílias vulneráveis e de risco; Construir projetos de intervenção centrados na promoção da saúde mental e bem-estar na infância; Construir projetos de intervenção centrados na promoção da parentalidade positiva; Promover a articulação dos serviços de saúde familiar com as equipas de saúde escolar;

Comité Económico e Social Europeu. (2006). Parecer “A prevenção da delinquência juvenil, as formas de tratamento. Bruxelas: Comité Económico e Social Europeu.Chick, N., & Meleis, A. I. (2010). Transitions: a nursing concern. In A. I. Meleis, Transitions theory: middle range and situation specific theories in research and practice (pp. 24-38). New York: Springer Publishing Company.

Conselho da Europa. (2003). Recomendação CM/Rec(2003)20 do Comité de Ministros aos Estados Membros sobre novas formas de tratamento da delinquência juvenil e ao papel da justiça de menores. Bruxelas: Conselho da Europa.

Conselho da Europa. (2008). Recomendação CM/Rec(2008)11 sobre as Regras Europeias para os delinquentes menores sujeitos a sanções ou medidas de coacção. Bruxelas: Conselho da Euro

Durlak, J. A., Weissberg, R. P., Dymnick, A. B., Taylor, R. D., & Schellinger, R. (2011). The impact of enhancing students’ social and emotional learning: a meta-analysis of school-based universal interventions. Child Development, 82, pp. 405-432.

Haggerty, K. P., McGlynn-Wrigh, A., & Klima, T. (2013). Promising parenting programmes for reducing adolescent problem behaviours. Obtido em 30 de abril de 2014, de DOI:10.1108/JCS-042013-0016

Meleis, A. I., Sawyer, L. M., Im, E. O., Messias, H. D., & Schumacher, K. (2000). Experiencing Transitions: An Emerging Middle-Range Theory. Advances in Nursing Science, 23 (3), pp. 12-28.

Ordem dos enfermeiros. (2011). Regulamento das competências específicas do enfermeiro especialista em enfermagem em saúde mental. Ordem dos enfermeiros: Lisboa.

Quaresma, M.H.S. (2014). Transições de adolescentes em conflito com a lei: Compreender para cuidar. Tese de doutoramento. Universitat Rovira Y Virgill.

Stewart-Brown, S. L., & Schrader-Mcmillan, A. (2011). Parenting for mental health: what does the evidence say we need to do? Report of Workpackage 2 of the DataPrev project. Health Promotion International, 26 (suppl 1), pp. i10-i28.

Weare, K. (2013). Child and adolescent mental health in schools. Child and Adolescent Mental Health, 18 (3), pp. 129-130.

Weare, K., & Nind, M. (2010). Identifying evidence-based work on mental health promotion in schools in Europe: An interim report on the DataPrev project. Advances in School Mental Health Promotion, 3 (2)(36-44). Obtido em 2014 de Janeiro de 13, de http://eprints.soton.ac.uk/143711/

Weare, K., & Nind, M. (2011). Mental health promotion and problem prevention in schools: what does

the

evidence

say?

Obtido

em

2

de

Fevereiro

de

2014,

de

http://heapro.oxfordjournals.org/content/26/suppl_1/i29.full.pdf+html 

WHO. (2010). Mental Health Promotion in Young People – an Investment for the Future. Copenhagen, Denmark,: Regional Office for Europe. Obtido de http://www.euro.who.int/pubrequest

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1

PHD; Enfermeira Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria, Hospital Magalhães Lemos; UNIFAI, Rua

Professor Álvaro Rodrigues, 4149-003, Porto, Portugal. E-mail : mgsottomayor@gmail.com 2

PHD; Professor Coordenador, Universidade de Évora, ESSE de S. João de Deus; UNIFAI Largo Senhor

da Pobreza, 7000-811- Évora, Portugal; E-mail : greis@uevora.pt 3

PHD, Professor Auxiliar, Instituto Superior das Ciências do Trabalho e Emprego IUL;UNIFAI; Av. Das Forças

Armadas, 1649-026 Lisboa, Portugal. E-mail : gageiropestana@gmail.com 4

PHD; Professor Auxiliar, Universidade Fernando Pessoa, Rua Professor Álvaro Rodrigues, 4149-003,

Porto, Portugal. E-mail : jmsantos@ufp.edu.pt;

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CONTEXTO: Infeções associadas aos cuidados de saúde (IACS) são uma ameaça para os doentes utilizadores de todo o sistema de saúde público ou privado. A avaliação inicial nos episódios de urgência de âmbito psiquiátrico fornece subsídios para a gestão da pluripatologia no contexto de processos infeciosos permitindo identificar e controlar precocemente os focos de infeção OBJETIVO(S): Identificar a prevalência de infeção e caracterizar a amostra do ponto de vista clínico, funcional e social. METODOLOGIA: A amostra é constituída por 99 pessoas com doença psiquiátrica num episódio de urgência no Biénio 2013/2014, num hospital psiquiátrico. Tratou-se de um estudo transversal, descritivo e correlacional. O instrumento utilizado foi a Folha de Avaliação Inicial (AI) preenchida aquando do episódio de urgência psiquiátrica RESULTADOS: Sugeriram uma prevalência de infeção de 15,2% numa amostra maioritariamente: feminina (83.8%), viúva (%), média de idade 74.2 anos, autónoma (69.7%), com diagnóstico de demência (46.5%) tendo

como

motivo

de

internamento

alterações

de

comportamento

(58,5%). CONCLUSÕES: De etiologia multifatorial a doença mental cursa com outras patologias e a avaliação multidimensional e multidisciplinar, integrada na AI, destes episódios pode dar contributos para identificar casos de infeção e melhorar a qualidade na prestação de cuidados produzindo ganhos em saúde Palavras-Chave: doença mental; infeção; Enfermagem.

CONTEXTO: Las infecciones asociadas a los cuidados de salud (IACS) son una amenaza para los enfermos que utilizan el sistema de salud público o privado. La evaluación inicial de los episodios de urgencia de carácter psiquiátrico proporciona una gran ayuda para la gestión de la pluripatología en el contexto de los procesos infecciosos, permitiendo identificar y controlar precozmente los focos de infección OBJETIVO(S): identificar la prevalencia de infección y caracterizar la muestra desde el punto de vista clínico, funcional y social Ponta Delgada, Julho de 2015


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METODOLOGÍA: És una muestra de 99 ancianos que sufrieron un episodio de urgencia en el Bienio 2013/2014, en un hospital psiquiátrico. Se trata de un estudio transversal, descriptivo y correlacional en el que se utilizó como instrumento un impreso de Evaluación Inicial cuando tuvo lugar el episodio de urgencia psiquiátrica RESULTADOS: Indican una prevalencia de infección del 15,2% en una muestra mayoritariamente: Femenina (83.8%), viuda (%), con una media de edad de 74.2 años, autónoma (69.7%), con diagnóstico de demencia (46.5%)

y

cuyo

motivo

de

internamiento

fue

la

alteración

del

comportamiento (58,5%). CONCLUSIONES: De la etiología multifactorial: la enfermedad mental cursa

con

otras

patologías

y

la

evaluación

multidimensional

y

multidisciplinar integrada en la Evaluación Inicial de estos episodios puede contribuir a identificar casos de infección y mejorar la calidad de los cuidados, lo que proporcionará beneficios para la salud. Descriptores: enfermedad mental; Infección; Enfermería

BACKGROUND: The Healthcare-associated infections (HAIs) are a threat to every patient using the public or private healthcare system. The initial evaluation in episodes of psychiatric health emergency provides benefits to the management of multiple pathologies in the context of infectious processes, allowing early identification and control of infectious outbreaks AIM: Identify the prevalence of infections and characterize, from a clinical, functional and social point of view METHODS: the 99 people that had an emergency episode in the 2013/2014 biennium, in a psychiatric hospital. This is a cross-sectional, descriptive and correlational study. The Initial Evaluation Sheet (IE), filled during the psychiatric emergency episode, was the tool used for this study. RESULTS: suggested a 15,2% prevalence of infection in a sample which was mainly composed of: women (83.8%), widows (%), with an average age of 74.2 years old, independent (69.7%), with dementia diagnosis (46.5%), having behaviour change as main reason for their admission (58,5%).

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CONCLUSIONS: of multifactorial aetiology the mental disease appears at the same time as other pathologies and the multidimensional and multidisciplinary evaluation included in the IE of these episodes can provide input to identify infection cases and improve care quality, thus resulting in health benefits.

.

Keywords: mental illness; infection; nursing

As infeções associadas aos cuidados de saúde (IACS) são uma ameaça para os doentes (V. Erasmus, T.J. Daha, H. Brug, J.H. Richardus, M.D. Behrendt, 2010) utilizadores de todo o sistema de saúde público ou privado. Segundo estes autores a qualquer momento mais de 1, 4 milhões de pessoas em todo o mundo desenvolvem complicações associadas aos cuidados

de

saúde.

As

infeções

provocadas

por

micro-organismos

multirresistentes patogénicos aumentam os níveis de mortalidade nos vários ambientes de saúde podendo propiciar períodos de internamento prolongados em meio hospitalar, bem como, fomentam o risco de internamento em unidades de cuidados intensivos. Universalmente em todo o mundo cerca de 5% a 10% dos doentes adquirem infeções hospitalares, sobretudo em unidades de cuidados intensivos com taxas de prevalência que vão de 20 a 30%, sendo considerado pelo especialistas internacionais uma sobrecarga considerável de doença e de mortalidade (V. Erasmus, et al 2010). Os doentes mentais, pela sua fragilidade cognitiva e a consequente dificuldade em fazer escolhas conscientes no que toca às medidas de precauções básicas em saúde, estão sujeitos a processos infeciosos que cursam com outras doenças e a questão do estudo das IACS transforma-se num imperativo ético, económico e social. O objetivo deste estudo foi conhecer a prevalência de infeção identificada em pessoas com doença psiquiátrica que tiveram um episódio de urgência.

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Amostra: Foram 99 pessoas participantes num episódio de urgência no biénio 2013/2014, num hospital psiquiátrico. Foi um estudo transversal, descritivo e correlacional. Instrumento de colheita de dados: Foi utilizada a Folha de Avaliação Inicial (AI) que consta do processo clínico onde se inserem os registos das variáveis sociodemográficas, clínicas e funcionais. Destas foram utilizadas, apenas, as seguintes variáveis: Género; Estado Civil; Idade; Horas de sono por dia; Medicação para dormir; Tipo de humor; Motivo de internamento; Alteração de pensamento; Atividade alucinatória; Antecedentes pessoais; Alterações sensoriais; Valores de TA; Dor; Tempos livres; Antecedentes pessoais; Orientação (tempo/espaço/alo e auto); e funcionalidade. A variável em estudo foi a prevalência de infeção registada na AI e referenciada nos registos de episódios de urgência psiquiátrica. Procedimentos: Os dados foram colhidos do processo clínico pelos investigadores. O estudo decorreu no biénio 2013/2014. Respeitaram-se os princípios éticos que norteiam a investigação com pessoas. O tratamento estatístico foi descritivo e correlacional com modelos de análise categórica (Pestana & Gageiro, 2008, 2009).

Os resultados sugeriram uma amostra maioritariamente sem infeção como co-morbilidade (84,8%), feminina (83,8%), viúva (43,7%), com média de idade de 72,4 anos, sendo a moda de 77 anos (7,1%), autónoma (69,7%) e com excesso de peso (58,5%). A maioria eram viúvos, 43,7%

e, casados/união de facto 34,5%. Estes apresentaram menos infeções do que os restantes estados civis (0,5 vezes). Embora a presença de infeção estivesse mais representada nas idades mais novas

verificou-se

que

esta

diferença,

não

foi

significativa,

respetivamente: média de 71 anos e 72,63 anos. O género masculino apresentou-se mais propenso à manifestação de infeção (1,3 vezes). O motivo de internamento foi essencialmente alteração de comportamento (58,5%) e sintomatologia depressiva (19,1%), sendo os restantes motivos distribuídos pelos diagnósticos de ansiedade (3,2%), Psicose Maníaco

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Depressiva (PMD) (1,1%), Outras Psicoses (5,3%), Demência (2,1%), Delirium (1,1%), Alívio do cuidador (2,1%), Neurose (1,1%), Outros (5,3%), e Caso Social (1,1%). Uma percentagem elevada já tinha tido internamentos psiquiátricos (79,8%). A maioria das pessoas foi acompanhada pela família (62,6%) pela polícia (14,1%) por amigos/vizinhos (4,0%) e por outros não identificados (7,1%). As pessoas que foram acompanhadas no episódio de urgência pelos amigos/vizinhos foram as que tiveram menos referência a infeção do que as acompanhadas por quaisquer dos outros elementos da rede social (5,7%).

A maioria das pessoas era autónoma na mobilidade (70,4%) e em relação à interferência da funcionalidade na presença de infeção constatou-se que as pessoas autónomas tinham menos infeção (0,3 vezes) do que aquelas que precisavam de ajuda (27,3%). Apesar da maioria das pessoas ter excesso de peso, segundo valores do IMC≥27,1Kg/m2, (58,7%), as pessoas com IMC mais baixo, IMC≤24Kg/m2 foram as que registaram maior propensão para a

infeção (3,4 vezes) contrariamente às restantes (15,2%). Noventa por cento das pessoas tomava medicação para dormir, tendo-se verificado que os que tomavam estes medicamentos apresentavam menos risco de ter infeção (0,7 vezes). Embora se tenham observado mais pessoas com problemas de humor a diferença não se manifestou significativa nas diferentes patologias, mas, quem tinha humor deprimido apresentou maior risco de infeção (1,1 vezes). As pessoas que foram internadas por motivo de alteração de comportamento (58,5%) tinham maior risco de ter presença de infeção do que as pessoas internadas por sintomatologia depressiva (2,9 vezes), os restantes motivos de internamento não se diferenciaram em relação à ocorrência de infeções. A dor não se relacionou com a presença de infeção (87,6%). Aqueles que não tinham referência a dor tinham menos probabilidade de ter infeção (0,5 vezes). No que concerne às alterações de pensamento, verificou-se que embora se tenham observado mais pessoas sem esta alteração os

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valores relacionados com a presença de infeção nãos os diferenciaram. As pessoas que tinham delírios místicos (30,0%) e de grandeza (22,0%) possuíam maior risco de ter infeções (7,5 vezes) do que aquelas que tinham os outros tipos de delírio, sendo que naquele caso a associação entre estas duas variáveis era grande conforme mostra a elevada amplitude do intervalo de confiança (95% IC 1.064 2 42.5). A atividade alucinatória (9,7%) e o taquipsiquismo (11,6%) não se diferenciaram quanto à presença de infeção. As doenças respiratórias estavam em minoria (5,1%); contudo, aquelas que tinham esta doença tinham mais probabilidade de ter infeção do que as que não as apresentavam (1,3 vezes). Apenas 13% das pessoas tinham doença psicológica e estas tinham mais probabilidade de ter infeções (1,2 vezes).

Verificou-se que a maioria não tinha doenças neurológicas (88,8%) mas as pessoas que tinham estas doenças tinham mais referência a infeção do que as que não tinham aquele diagnóstico (1,2 vezes). Na análise do estado mental (orientação auto e alopsíquica, espacial e temporal) constatou-se que a maioria estava orientada auto e alo psiquicamente (71% e 66,3%), seguida de 56,1% que estava orientada no espaço e 39,0% que estava orientada no tempo. As pessoas que estavam orientadas alo psiquicamente tinham menos referência a infeção (0,8 vezes) do que as pessoas desorientadas neste item, e, aquelas pessoas que estavam orientadas auto psiquicamente tinham menos referência a infeção (0,8 vezes). No que se refere à orientação espacial, constatou-se que as pessoas orientadas neste item possuíam menos referência a infeção do que as que se encontravam desorientadas espacialmente (0,9 vezes). A proporção de pessoas orientadas no tempo (41,8%) foi idêntica às desorientadas (58,2%) não se distinguindo significativamente entre si em relação à presença de infeção. Globalmente, estar orientado nos itens: alo, auto, espacial e temporal associou-se a menos ocorrência de infeção. No que se refere às alterações músculo-esqueléticas constatou-se que a maioria (79,6%) não as apresentou e que as pessoas que tinham este diagnóstico tinham maior risco de ter infeção do que aqueles que não apresentaram doença músculo-esquelética (1,4 vezes).

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

A maioria das pessoas tinha como antecedente diagnóstico de demência (47,9%) seguida pelo diagnóstico de psicose (15,6%) e pela PMD (14,6%). As pessoas com demência e psicose tinham mais probabilidade de ter infeção em pelo menos 14,7% dos casos quando comparado com as restantes doenças psiquiátricas. As pessoas hipertensas (37,4%) tinham um risco maior de ter infeção do que aqueles que não tinham esse diagnóstico (2,5 vezes). A inatividade (73,1%) e infeção estavam relacionadas, sendo que aquelas pessoas que tinham atividades de lazer (12,0%) tinham menor risco de ter infeção do que aqueles que não desenvolviam alguma atividade (0,8 vezes). A maioria (89,7%) das pessoas não tinham lesões no sistema sensorial e este sistema não distinguiu as pessoas quanto à infeção (1,0). Nos episódios de urgência apenas 15,2% tinham na folha de AI referência a infeção e estes tinham como co morbilidade: a desorientação, a demência, a psicose com as alterações de pensamento, as doenças respiratórias, as neurológicas e as psicológicas e o índice de massa corporal.

Fez-se um estudo sobre infeções associadas aos cuidados de saúde num hospital psiquiátrico sendo as IACS no dizer destes autores uma ameaça para os doentes utilizadores de todo o sistema de saúde público ou privado (V. Erasmus, et al 2010). Infeções associadas aos cuidados de saúde, são comuns em pessoas mais velhas e podem estar relacionadas com as suas deficiências nutricionais

(Laurent et al., 2014) e de

imunodepressão (Haq & McElhaney, 2014) que os conduz com frequência a meios hospitalares. Embora neste estudo a presença de infeção

estivesse mais representada nas idades mais baixas e nos homens, alguns tipos de micro organismos são mais comuns em pessoas mais velhas e em comparação com as idades mais jovens a taxa é elevada e tem um maior risco de mortalidade (Ku et al., 2014). Os vários motivos para o internamento das pessoas desta amostra, por um lado, salientam a evidência de que muitas vezes nas pessoas mais velhas as alterações de comportamento têm subjacente um processo Ponta Delgada, Julho de 2015


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infecioso mas, por outro lado, dado haver uma percentagem muito elevada de pessoas que já tinham tido internamentos anteriores, a ida ao hospital psiquiátrico, pode apenas ser a opção fácil, no contexto do estigma de que padecem muitos dos doentes mentais. Apesar das grandes dificuldades relacionadas com o processo de doença estas pessoas são na sua maioria acompanhadas por familiares e a sua alteração funcional faz prever mais risco de infeção o que é concordante com outros estudos (Esparcia et al., 2014). A percentagem muito elevada de pessoas que tomavam medicação para dormir, não se associa neste estudo com a presença de infeção, apesar de representar um maior risco para outras patologias como as doenças cardiovasculares ou doenças da cognição, o que contraria a ideia de outros autores que referem que este tipo de medicação é um risco acrescido para a infeção (Huang et al., 2014).

A propensão para a infeção nas pessoas com índice de massa corporal mais baixo, com alterações de comportamento e deprimidas, encontrada nesta amostra é consistente com outros estudos que indicam que as pessoas que padecem de demência pelo seu comportamento errante, a deambulação sem sentido e as alterações de comportamento podem prejudicar a adequada ingestão dietética e calórica apesar de em muitos casos a oferta alimentar ter um bom equilíbrio nutricional (Agarwal et al., 2012). A alteração do humor, também acrescida dos efeitos da inatividade muito presente nesta amostra, sem interesses pessoais por qualquer atividade de lazer, pelo abaixamento de ânimo que a caracteriza, por uma certa adinamia e redução da funcionalidade podem justificar a ocorrência de maior risco de infeção nas pessoas com este diagnóstico evidência concordante com outros trabalhos (Esparcia et al., 2014). Tal como noutros estudos (Boerlage et al., 2013), a dor está subdiagnosticada nos doentes mentais. Constatou-se que aqueles que não tinham referência a dor tinham menos probabilidade de ter infeção. Apesar de terem co morbilidades potenciadores da expressão de dor, como é o caso da doença músculo-esquelética, a ausência de dor nos registos dos processos estudados, remete para a possibilidade desta ocorrência ser

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

ignorada ou ter um tipo de manifestação, nomeadamente, as alterações de comportamento presentes na maioria dos casos que não é compreendida no contexto da doença mental e por vezes cursa com o processo infecioso. Não foram encontradas no sistema sensorial, alterações significativas nem se diferenciam em relação à infeção. Das perturbações psiquiátricas encontradas apenas os delírios místicos e de grandeza surgiam associados a infeção, o que, de certa forma, pode estar relacionado com o alheamento da realidade que esta sintomatologia arrasta e em consequência a não utilização de atitudes de segurança e de precauções básicas que norteiam as medidas de proteção preconizadas num contexto de um qualquer internamento hospitalar. Apenas 15, 2% dos registos na folha de avaliação inicial mencionavam a presença de infeção, valor que não é estranho tratando-se de um hospital psiquiátrico (Levitt, 2014). Alguns autores (Titmarsh et al., 2014) discutem se os processos infeciosos das pessoas mais velhas estão relacionados com o envelhecimento dos seus sistemas de defesa ou se pelo contrário se relacionam com a resistência desses micro organismos multirresistentes e propõem a importância de uma boa gestão de todos estes fenómenos apelando a uma escolha de terapia antibiótica que considere

todos

estes

itens. Porém, segundo

estes autores a

mortalidade ao fim de trinta dias ainda é grande (Adamuz et al., 2014; Søgaard, Nielsen, Schønheyder, Nørgaard, & Thomsen, 2014). Esparcia et al. (2014) também referem a importância da melhoria da terapêutica antimicrobiana como um impacto favorável no prognóstico da infeção. Os microbiologistas devem alertar os médicos de medicina familiar sobre o que se sabe acerca da resistência antimicrobiana cujo conhecimento os leve a fazer optar por prescrever medicamentos mais eficazes (Thibaut et al., 2014). Todavia, estar vigilante em relação ao aparecimento de micro organismos

multirresistentes,

ter

uma

atitude

preventiva,

utilizar

precauções, nem sempre quer dizer ter o controlo da situação (HernándezPorto et al., 2014). Alguns autores referindo-se aos problemas de infeção nos hospitais psiquiátricos apontam a necessidade de estes reverem as suas políticas de controlo de infeção, sugerindo a utilidade de reduzir a propagação entre os doentes e os funcionários (Levitt, 2014) não se escudando com as características desta especialidade e deste tipo de doentes. Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

A doença mental cursa com várias co morbilidades que podem propiciar o aparecimento de infeções associadas aos cuidados de saúde, sobretudo nos mais velhos. A fragilidade que caracteriza o adoecer mental por si só desencadeia uma maior vulnerabilidade nestas pessoas para a aquisição de processos infeciosos sendo que em todas as circunstâncias ao contrário do que se pensava o recurso aos antibióticos está a esgotar-se como

solução

particularmente,

no

caso

dos

microrganismos

multirresistentes, sendo fulcral no controlo da infeção hospitalar uma atitude de prevenção consciente.

Com o envelhecimento demográfico crescente o recurso ao serviço de urgência tenderá a aumentar por isso os profissionais de saúde deverão utilizar o máximo de estratégias que limitem a propagação da infeção nos mais velhos e principalmente naqueles que terão maior dificuldade em proteger-se nomeadamente os doentes mentais

Adamuz, J., Viasus, D., Jiménez-Martínez, E., Isla, P., Garcia-Vidal, C., Dorca, J., & Carratalà, J. (2014). Incidence, timing and risk factors associated with 1-year mortality after hospitalization for community-acquired

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Boerlage, A. a, Valkenburg, A. J., Scherder, E. J. a, Steenhof, G., Effing, P., Tibboel, D., & van Dijk, M. (2013). Prevalence of pain in institutionalized adults with intellectual disabilities: a crosssectional

approach.

Research

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Developmental

Disabilities,

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2399–406.

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Esparcia, A., Artero, A., Eiros, J. M., Balaguer, M., Madrazo, M., Alberola, J., & Nogueira, J. M. (2014). Influence of inadequate antimicrobial therapy on prognosis in elderly patients with severe urinary

tract

infections.

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Haq, K., & McElhaney, J. E. (2014). Ageing and respiratory infections: The airway of ageing. Immunology Letters. doi:10.1016/j.imlet.2014.06.009

Hernández-Porto, M., Castro, B., Ramos, M. J., Arias, A., Aguirre-Jaime, A., & Lecuona, M. (2014). Risk factors for development of methicillin-resistant Staphylococcus aureus-positive clinical culture

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

in nasal carriers after decolonization treatment. American Journal of Infection Control, 42(7), e75– 9. doi:10.1016/j.ajic.2014.03.011 

Huang, C.-Y., Chou, F. H.-C., Huang, Y.-S., Yang, C.-J., Su, Y.-C., Juang, S.-Y., … Lee, C.-C. (2014). The association between zolpidem and infection in patients with sleep disturbance. Journal of Psychiatric Research, 54, 116–20. doi:10.1016/j.jpsychires.2014.03.017

Ku, N. S., Kim, Y. C., Kim, M. H., Song, J. E., Oh, D. H., Ahn, J. Y., … Choi, J. Y. (2014). Risk factors for 28-day mortality in elderly patients with extended-spectrum β-lactamase (ESBL)producing Escherichia coli and Klebsiella pneumoniae bacteremia. Archives of Gerontology and Geriatrics, 58(1), 105–9. doi:10.1016/j.archger.2013.07.002

Laurent, M., Bastuji-Garin, S., Plonquet, a, Bories, P. N., Le Thuaut, a, Audureau, E., … Thuaut, A. Le. (2014). Interrelations of immunological parameters, nutrition, and healthcare-associated infections: Prospective study in elderly in-patients. Clinical Nutrition (Edinburgh, Scotland). doi:10.1016/j.clnu.2014.01.012

Levitt, G. a. (2014). Infection control for MRSA in a psychiatric hospital. General Hospital Psychiatry, 9–11. doi:10.1016/j.genhosppsych.2014.02.005

Pestana, M. H., & Gageiro, J. N. (2008). Análise de Dados para Ciências Sociais: a Complementaridade do SPSS. Lisboa: Edições Sílabo.

Pestana, M. H., & Gageiro, J. N. (2009). Análise Categórica, Árvores de Decisão e Análise de Conteúdo em Ciências Sociais e da Saúde com o SPSS. Lisboa: Lidel.

Søgaard, M., Nielsen, R. B., Schønheyder, H. C., Nørgaard, M., & Thomsen, R. W. (2014). Nationwide trends in pneumonia hospitalization rates and mortality, Denmark 1997-2011. Respiratory Medicine. doi:10.1016/j.rmed.2014.05.004

Thibaut, S., Caillon, J., Marquet, a, Grandjean, G., Potel, G., & Ballereau, F. (2014). Epidemiology of third-generation cephalosporin-resistant community-acquired Enterobacteria isolated from elderly

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Titmarsh, G. J., McMullin, M. F., McShane, C. M., Clarke, M., Engels, E. a, & Anderson, L. a. (2014). Community-acquired

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and

their

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myeloid

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Ueda, T., Kawakami, R., Horii, M., Sugawara, Y., Matsumoto, T., Okada, S., … Saito, Y. (2014). Noncardiovascular death, especially infection, is a significant cause of death in elderly patients with acutely

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

MSc; Phd Student ICS/ Universidade Católica Portuguesa; Enfermeira Especialista em Enfermagem de

Saúde Mental e Psiquiátrica; Professora Adjunta; Escola Superior de Enfermagem Egas Moniz, Monte de Caparica, Código Postal: 2825, Portugal. Email: aidasimoes@gmail.com 2

Ph.D; Enfermeira Especialista em Enfermagem Médico-cirúrgica, Professora Coordenadora na Escola

Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Leiria. Unidade de Investigação em Saúde, Leiria, Código Postal:2400, Portugal. Email: manjos.dixe@gmail.com 3

Ph.D; Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica; Professora Adjunta na

Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Leiria; Leiria, Código Postal:2400, Portugal. Email: saudadelopes8@gmail.com

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

CONTEXTO: Os maus tratos e os contextos familiares. OBJETIVO: Identificar fatores familiares que contribuem para os maus tratos em crianças e jovens. METODOLOGIA: Estudo descritivo de abordagem qualitativa. RESULTADOS: Dos 30 processos consultados, 9 atribuíram a causa de maus tratos a fatores familiares. Da análise da informação destes resultaram 30 unidades de enumeração e 10 unidades de registo agrupadas em 4 categorias. - A categoria pais vítimas de violência inclui 6 unidades de enumeração e 2 unidades de registo: ter sido vítima de abuso ou negligência na infância e haver violência doméstica. - A categoria pais desvalorizam as suas responsabilidades parentais inclui 9 unidades de enumeração distribuídas por 2 unidades de registo: não assumir as responsabilidades de pais e os pais dão prioridade às suas necessidades emocionais em detrimento das dos filhos. - A categoria perturbações mentais e físicas na família inclui 11 unidades de enumeração distribuídas por 4 unidades de registo: perturbações mentais da avó, perturbações mentais da mãe, perturbações mentais do pai e perturbações físicas do pai. - A categoria pais que abusam de substâncias psicoativas inclui 7 unidades de

enumeração

distribuídas

por

duas

unidades

de

registo:

toxicodependência e consumo de álcool CONCLUSÕES: Na análise dos nossos processos constatamos que os pais que maltratam os filhos foram eles próprios vitimas de violência direta e/ou indireta

e

parentais,

negligenciados.

Não

valorizam

preocupam-se

essencialmente

as

suas

com

as

responsabilidades suas

próprias

necessidades. Os pais/cuidadores apresentam perturbações mentais, assim como abuso de substâncias, quer álcool, quer droga. Estes resultados vêm confirmar o que a literatura nos informa, existem vários estudos que corroboram estes dados. Palavras-Chave: Maus tratos; contexto familiar; enfermagem; saúde mental.

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

CONTEXTO: Los malos tratos y los contextos familiares. OBJETIVO: Identificar los factores familiares que contribuyen a los malos tratos a los niños y jóvenes. METODOLOGÍA: Estudio descriptivo de enfoque cualitativo. RESULTADOS: De los 30 casos estudiados, 9 asignaron la causa de los malos tratos a los factores familiares. El análisis de la información de estos dio lugar a 30 unidades de enumeración y 10 unidades de registro agrupadas en 4 categorías. - La categoría padres víctimas de la violencia incluye 6 unidades de enumeración y 2 unidades de registro: de haber sido víctima de abuso o negligencia en la infancia y haber violencia doméstica.La categoría padres devalúan sus responsabilidades parentales incluye 9 unidades de enumeración, repartidas en 2 unidades de registro: no asumir las responsabilidades de los padres y los padres dan prioridad a sus necesidades emocionales a expensas de los niños. - La categoría trastornos mentales y físicos en la familia incluye 11 unidades de enumeración repartidas en 4 unidades de registro: trastornos mentales de la abuela, los trastornos mentales de la madre, trastornos mentales de lo padre y trastornos físicos de lo padre. - La categoría padres que abusan de sustancias psicoactivas incluye 7 unidades de enumeración, repartidas en 2 unidades de registro: la drogodependencia y el consumo de alcohol CONCLUSIONES: En el análisis de los procesos, se encontró que los padres que abusan de sus hijos fueron víctimas de la violencia directa y/o indirecta y descuidados. No valorizan sus responsabilidades parentales, están preocupados principalmente con sus propias necesidades. Los padres / cuidadores tienen trastornos mentales, así como el abuso de sustancias, ya sea alcohol o drogas. Estos resultados confirman lo que la literatura nos dice, hay varios estudios que corroboran estos datos. Descriptores: Malos tratos; contextos familiares; enfermería; saude mentales.

BACKGROUND: Maltreatment and family contexts. AIM: Identify family factors that contribute to children and youth illtreatment. Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

METHODS: Qualitative approach descriptive study. RESULTS: Of the 30 cases surveyed, 9 attributed the cause of ill-treatment to family factors. An analysis of the resulting information from these units 30 and 10 list registration units grouped into 4 categories. - The category parents’ victims of violence include 6 enumeration units and 2 registration units: having been a victim of abuse or neglect in childhood and domestic violence. - The category parents devalue their parental responsibilities include 9 enumeration units spread over 2 registry drives: not assume the parental responsibilities and parents give priority to their emotional needs at the expense of the children. - The category mental and physical disorders in the family include 11 enumeration units spread over 4 registration units: the grandmother mental disorders, the mother mental disorders, father mental disorders and father physical disorders. - The category parents who abuse psychoactive substances include 7 enumeration units spread over 2 registry units: drug addiction and alcohol consumption CONCLUSIONS: In our processes analysis we found that parents who abuse their children were themselves victims of direct and/or indirect violence and neglected. Not valuing their parental responsibilities, are concerned primarily with their own needs. Parents/caregivers have mental disorders as well as substance abuse, whether alcohol or drugs. These results confirm what the literature tells us, there are several studies that corroborate this data. Keywords: Maltreatment; family contexts; nursing; mental health

Os maus tratos na infância, como quase todos os problemas sociais, caracterizam-se por responder a mais de uma causa, manifestando-se de forma complexa. A Lei da convecção europeia sobre o exercício dos direitos das crianças (2014, pág. 528) refere: “Tendo em consideração a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, nomeadamente o seu artigo 4.º, segundo o qual os Estados Partes têm de tomar todas as medidas legislativas, administrativas e outras que se revelem necessárias à Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

realização dos direitos reconhecidos na referida Convenção…Convencidos de que os direitos e o superior interesse das crianças deveriam ser promovidos e que, para o efeito, as crianças deveriam ter a possibilidade de exercer os seus direitos, em particular nos processos de família que lhes digam respeito; Reconhecendo que as crianças deveriam receber informação relevante, por forma a permitir que esses direitos e o superior interesse sejam promovidos e as opiniões das crianças sejam tidas devidamente em consideração; Reconhecendo a importância do papel parental na proteção e promoção dos direitos e do superior interesse das crianças, e considerando que, se necessário, os Estados deveriam participar nessa proteção e promoção”. As consequências dos maus tratos para a criança e o adolescente são graves, sendo múltiplos os fatores que contribuem para a sua ocorrência. No seio familiar a utilização indiscriminada da disciplina coercitiva e a crença nos valores autoritários parecem ser fatores de risco potenciais para desencadear o abuso físico e emocional (Cecconello, 2003). O relatório da UNICEF de 2014 intitulado “Hidden in Plain Sight” é a maior compilação de dados feita até hoje sobre a violência contra as crianças. Podemos constatar a larga escala de abusos físicos, emocionais e sexuais e revela as atitudes que perpetuam e justificam a violência, mantendo-a ‘escondida à vista de todos’ em todos os países e comunidades do mundo. Com a convicção de que estar exposto a situações de conflito deixa marcas emocionais com graves repercussões no desenvolvimento das crianças/jovens, é necessário intervir na diminuição dessas marcas, nomeadamente tendo como alvo o acompanhamento da família/cuidadores. A criança que é maltratada no seio da família experimenta de uma forma permanente o facto de o ser por quem deveria ser responsável pela sua proteção, cuidado e amor. O enfermeiro de saúde mental poderá dar um contributo fundamental no que a esta tipologia de perigo diz respeito, adotando estratégias de intervenção

preventivas

e/ou

terapêuticas

dirigidas

às

famílias,

consequentemente, é importante refletir sobre os contextos em que os maus tratos ocorrem por forma a conseguirmos intervir preventivamente.

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

A metodologia utilizada neste estudo pautou-se pela pesquisa de análise, do discurso, de 30 processos de crianças/jovens referenciados à CPCJ (comissão de proteção de crianças e jovens). Optou-se por uma amostra não probabilística, intencionalmente selecionada. Este estudo descritivo com recurso a metodologia qualitativa pretende identificar fatores familiares que contribuem para os maus tratos em crianças e jovens. A partir da análise interna da informação, que identificava a origem de maus tratos nas crianças/jovens nos 30 processos consultados, foram quantificadas e agrupadas as unidades de registo em categorias e subcategorias, segundo o sentido dos elementos de significação das mensagens, obedecendo aos critérios de homogeneidade, exclusividade, objetividade, adequação ou pertinência (Bardin, 2014). Desta análise resultaram várias categorias e uma delas integrou os fatores familiares que estiveram na origem dos maus tratos e que são o assunto deste estudo.

Dos 30 processos consultados, 9 atribuíram a causa de maus tratos a fatores familiares. Da análise da informação destes resultaram 30 unidades de enumeração e 10 unidades de registo agrupadas em 4 categorias nomeadas segundo o sentido dos elementos de significação das mensagens (Tabela 1): - A categoria pais vítimas de violência inclui 6 unidades de enumeração e duas unidades de registo: ter sido vítima de abuso ou negligência na infância (Ex: “A mãe da criança refere que a sua mãe a maltratava, daí ter fugido de casa e ter ficado grávida”) e haver violência doméstica (Ex. ”A mãe refere ter sido vítima de maus tratos por parte do marido”). - A categoria pais desvalorizam as suas responsabilidades parentais inclui 9 unidades de enumeração distribuídas por duas unidades de registo: não assumir as responsabilidades de pais (Ex.: “A mãe transfere para a escola todos os problemas de absentismo da jovem, desculpabilizando a mesma”) e os pais dão prioridade às suas necessidades emocionais em detrimento das dos filhos (Ex.: “A mãe da criança já esteve com vários companheiros”) - A categoria perturbações mentais e físicas na família inclui 11 unidades de enumeração distribuídas por 4 unidades de registo: perturbações mentais Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

da avó (Ex.: “A mãe da criança refere que a sua mãe tem anorexia nervosa e esgotamento, sendo seguida por um neurologista”), perturbações mentais da mãe (Ex.: “A mãe do jovem é seguida em psiquiatria”), perturbações mentais do pai (Ex.: “O pai refere ter tido um esgotamento nervoso há 2 anos”) e perturbações físicas do pai (Ex.: “Pai foi vítima de AVC há 4 anos e não consegue dar resposta às necessidades da jovem”). - A categoria pais que abusam de substâncias psicoativas inclui 7 unidades de

enumeração

distribuídas

por

duas

unidades

de

registo:

toxicodependência (Ex.: “O pai da criança é toxicodependente”) e consumo de álcool (Ex.: “O padrasto da jovem aquando da agressão física, segundo a GNR, denotava um odor a álcool”).

Tabela 1 – Categorias, unidades de registo e unidades de enumeração referente aos fatores familiares nos maus tratos Categorias

Unidades de enumeraçã o

Unidades de registo Ter sido vítima de negligência na infância

Pais vítimas de violência

abuso

ou

Haver violência doméstica

Pais desvalorizam as suas responsabilidades parentais

Perturbações mentais físicas na família.

e

Pais abusam de substâncias psicoativas

3 1

Não assumir as responsabilidades de pais Os pais dão prioridade às suas necessidades emocionais em detrimento das dos filhos

5 3

Perturbações mentais da avó

2

Perturbações mentais da mãe

6

Perturbações mentais do pai

2

Perturbações físicas do pai

1

Toxicodependência

4

Consumo de álcool

3

Atualmente ser pai e mãe torna-se uma tarefa nem sempre fácil, apresentando

os

mesmos,

dificuldades

em

desenvolver

as

suas

competências e cumprir com as funções parentais, colocando os filhos em perigo e envolvendo-se em condutas de risco.

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Na análise dos processos podemos constatar que no que à primeira categoria diz respeito, “pais vítimas de violência”, vários autores referem que pais violentados têm maior propensão para serem eles próprios pais violentos (Assis, 1994; King, 1988) e para muitos pais ainda persiste a punição como uma prática educativa (Cecconello et al, 2003). No que concerne à segunda categoria “pais desvalorizam as suas responsabilidades parentais” os estudos revelam que os pais por vezes acabam por se centrar mais propriamente nas necessidades da própria sociedade do que nas dos seus próprios filhos (Corvo, 2015). Ainda segundo a mesma autora, a ausência de uma parentalidade positiva é reconhecida como uma das principais

causas

do

desenvolvimento

de

condutas

de

risco

nas

crianças/jovens. Qualquer individuo pode ter filhos, no entanto, nem todos conseguiram ser bons pais (Cury, 2004). A terceira categoria “perturbações mentais e físicas na família”, pode levar-nos a construir uma explicação psicológica,

tendo

por

base

a

personalidade

de

quem

maltrata,

apresentando este agressor como doente, que apesar de ser reprovado é compreendido pela patologia de que é portador (Gomes, 2002). De acordo com o mesmo autor, uma criança desenvolvida numa estrutura familiar patológica poderá herdar o comportamento dos pais, podendo ser um futuro autor, quando adulto, de maus tratos infantis. Quanto à quarta categoria “pais abusam de substâncias psicoativas”, encontramos autores que fazem menção ao alcoolismo como uma explicação para a ocorrência de maustratos contra a criança (Bittencourt, 1995; Delgado & Fisberg, 1990; Seabra & Nascimento, 1998; Zavaschi et al., 1991; citados por Gomes, 2002). Quer

o

álcool,

quer

as

drogas,

são

substâncias

que

alteram

o

comportamento do individuo, podendo levá-lo a ter mudanças no mesmo ligadas à violência.

A família constitui o meio para o desenvolvimento da criança (Bronfenbrenner, 2005), pois é neste microssistema que de um modo privilegiado se podem desenvolver as principais interações e atividades que o estimulam. Neste caso, uma criança/jovem que esteja exposto a situação

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

de vulnerabilidade poderá estar mais exposta a uma situação de risco, comparada a outra, inserida numa família socialmente mais favorecida. A exposição a comportamentos que podem comprometer o bem-estar e desenvolvimento das crianças – designação utilizada – tem vindo a agravar-se e é já uma das situações de perigo que os técnicos mais identificam quando analisam o contexto familiar das crianças/jovens. Na análise dos nossos processos constatamos que os pais que maltratam os filhos foram eles próprios vitimas de violência direta e/ou indireta parentais

e

negligenciados. e

preocupam-se

Não

valorizam

as

essencialmente

suas

com

responsabilidades

as

suas

próprias

necessidades. Os pais/cuidadores apresentam perturbações mentais, assim como abuso de substâncias, quer álcool, quer droga. Estes resultados vêm confirmar o que a literatura nos informa e a existência de vários estudos que corroboram estes dados. No comentário ao relatório apresentado pela UNICEF (Hidden in Plain Sight, 2014) pode ler-se a apresentação de seis estratégias que poderão permitir à sociedade como um todo, desde as famílias aos governos, prevenir e reduzir a violência contra as crianças. Estas incluem, entre outras: - Apoiar os pais e dotar as crianças de aptidões para a vida quotidiana; - Mudar mentalidades; - Reforçar os sistemas judiciários, penais e de serviços sociais; - Recolher elementos de prova relativos à violência e aos custos humanos e socioeconómico que acarreta, a fim de mudar mentalidades e normas sociais. Ainda nesse mesmo comentário Anthony Lake afirma “A violência contra as crianças ocorre a cada dia que passa, em toda a parte. E, embora prejudique sobretudo as crianças, também afecta todo o tecido da sociedade – ameaçando a estabilidade e o progresso. Mas a violência contra as crianças não é inevitável. Podemos preveni-la se não deixarmos que permaneça na sombra…Os dados contidos neste relatório obrigam-nos a agir no interesse de cada uma destas crianças e pelo reforço da estabilidade futura das sociedades em todo mundo” concluiu Anthony Lake (UNICEF, 2014).

Para que a ação dos Serviços de Saúde se torne mais efetiva nesta matéria,

necessidade,

portanto,

de

melhorar

a

aplicação

dos

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

mecanismos de prevenção da ocorrência dos maus tratos, da deteção precoce das situações de risco e de perigo, do acompanhamento e prestação de cuidados e da sinalização e/ou encaminhamento de casos para outros serviços, no âmbito de uma eficiente articulação funcional. Torna-se premente uma maior eficácia e eficiência dos serviços de Saúde Mental a fim de se obter uma resposta atempada às necessidades identificadas na população referenciada às CPCJ’s, seria seriamente importante a existência de um enfermeiro de saúde mental que fizesse esta articulação entre comissões e entidades de 1ª linha nesta área de especialidade.

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1 2

Artigo extraído da dissertação defendida em 04 de Setembro de 2015 Mestre em Ensino na Saúde - Formação Interdisciplinar para o SUS/ Universidade Federal Fluminense

(UFF); Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria, Professora e Psicóloga; Professora do Atendimento Educacional Especializado (AEE) do Município de Duque de Caxias/RJ, Professora do curso de Pós graduação em: saúde mental e atenção psicossocial com ênfase em álcool e outras drogas /FAGOC. Telefone: (55 21) 968580715. Endereço: Rua Saturno, Lote: 05, Quadra: 32, Jardim Leal, Cep.: 25035575, Duque de Caxias, RJ, Brasil. E-mail: silviasantospsi@ig.com.br 3

Doutora em Enfermagem UFRJ - EEAN (Pós doutorado: Enfermagem em Saúde Mental - Escola

Superior de Enfermagem do Porto); Enfermeira; Departamento: MEP - Materno Infantil Psiquiatria/ EEAAC/UFF. Telefone: (55 21) 992565985. Endereço: Rua vereador duque estrada 109/407- santa rosaniteroi. CEP 24240210. RJ, Brasil. E-mail: nanicortez@hotmail.com

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

O presente estudo partiu do contexto do processo de Reforma Psiquiátrica, que redireciona o modelo assistencial em saúde mental e as diretrizes em busca da eficácia das práticas e à promoção da integralidade. Dessa forma, a presente pesquisa, tem por objetivo geral propor a política de Educação Permanente em Saúde visando contribuir para reorganização da rede de saúde mental do município de Japeri para o cuidado integral ao usuário. Objetivos específicos: identificar e descrever as dificuldades sociais, de infraestrutura e pessoais, enfrentadas pelos profissionais da rede de saúde mental; planejar, propor e realizar oficina de sensibilização através da EPS para a rede de saúde mental, de acordo com as dificuldades encontradas com vistas ao cuidado integral; produzir documentário com todos os passos realizados na pesquisa e a mobilização da rede de saúde mental no processo de sensibilização através das oficinas de EPS, de forma a contribuir para outros municípios, assim como para o mestrado profissional como produto desta pesquisa. Quanto à metodologia, trata-se de uma pesquisa exploratória, de campo, de abordagem qualitativa e cunho descritivo, do tipo pesquisa-ação. Os sujeitos foram profissionais que atuam na área da saúde, com formações e funções variada. Os resultados geraram três categorias: a estrutura do trabalho na saúde mental; a construção da reflexão na prática e a articulação: integralidade e intersetorialidade. Conclui-se que, os entraves da gestão e dos recursos, foram indicadores para que outros serviços voltem sua atenção às dificuldades que a fragmentação de ações e a falta de recursos geram a desassistência. Palavras-chave: Saúde Mental; Educação; Educação Profissionalizante e Educação Permanente.

Este estudio del contexto del proceso de reforma psiquiátrica, que redirecciona el modelo de atención en salud mental y las directrices de búsqueda de la eficacia de las prácticas y la promoción de la integridad. Por

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

lo tanto, esta investigación tiene el objetivo de proponer la política de Educación Continua en Salud para contribuir a la reorganización de la red de salud mental de la ciudad Japeri para la atención integral al usuario. Objetivos específicos: identificar y describir las dificultades sociales de infraestructura y personal, que enfrentan los profesionales del sistema de salud mental; planificación, propuesta y ejecución de sensibilización taller EPS para la red de salud mental, de acuerdo a las dificultades encontradas con miras a la atención integral; producir documental con todas las medidas adoptadas en la investigación y la movilización de la red de salud mental en el proceso de sensibilización a través de los talleres de EPS a fin de contribuir a otros municipios, así como para maestrías profesionales como un producto de esta investigación. En cuanto a la metodología, se trata de una investigación exploratoria, por supuesto, el enfoque cualitativo y naturaleza descriptiva, la investigación-acción de tipo. Los sujetos fueron los profesionales que trabajan en el cuidado de la salud, con formaciones y funciones variadas. Los resultados generaron tres categorías: la estructura de trabajo en salud mental; la construcción de la reflexión en la práctica y la articulación: integración e intersectorial. En conclusión, las barreras de la gestión y los recursos, eran indicadores para otros servicios dirigen su atención a las dificultades que la fragmentación de la acción y la falta de recursos generan la falta de asistencia. Descriptores: Salud Mental; Educación; Educación, Formación Profesional y Continua.

This study from the context of the psychiatric reform process, which redirects the care model in mental health and the guidelines in pursuit of effectiveness of practices and promoting integrity. Thus, this research has the objective to propose the policy of Continuing Education in Health to contribute to the reorganization of the mental health network of the Japeri city for comprehensive care to the user. Specific objectives: identify and describe the social difficulties of infrastructure and personnel, faced by professionals within the mental Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

health system; planning, proposing and implementing awareness-raising workshop by EPS for the mental health network, according to the difficulties encountered with a view to comprehensive care; produce documentary with all the steps taken in the research and mobilization of the mental health network in the sensitization process through the EPS workshops in order to contribute to other municipalities, as well as for professional master's as a product of this research. As for the methodology, it is an exploratory research, of course, qualitative approach and descriptive nature, type action research. The subjects were professionals working in health care, with formations and varied functions. The results generated three categories: the structure of work in mental health; the construction of reflection in practice and the joint: integration and intersectoral. In conclusion, the barriers of management and resources, were indicators for

other

services

turn

their

attention

to

the

difficulties

that

the

fragmentation of action and the lack of resources generate the lack of assistance. Keywords:

Mental

Health;

Education;

Education,

Professional

and

Continuing Education.

A presente pesquisa tem como objeto de estudo a implantação de um espaço de educação permanente com vistas à promoção do cuidado integral na rede de saúde mental do município de Japeri, Rio de Janeiro/Brasil. A problemática que levou os autores à presente pesquisa surgiu a partir da dificuldade de articulação da rede que se observa na práxis, no que se refere ao cuidado com os usuários de transtorno mental. É a prática em serviço que busca novos caminhos de atenção, influenciados pelo movimento da Reforma Psiquiátrica, visando à qualidade de vida do usuário com transtorno mental severo e persistente. Deste modo, após 10 anos da Lei 10.216 de 6 de abril de 2001 – Lei esta que instituiu um novo olhar ao usuário com transtorno mental, redirecionando o modelo assistencial de saúde mental –, que caracteriza-se como marco após vários movimentos de luta de profissionais, usuários e Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

familiares a favor de um novo modelo de assistência (BRASIL, 2004a), verifica-se a necessidade de articular a rede buscando a integralidade na assistência, visando à ampliação dos diferentes pontos de atenção para atender

às

pessoas

com

sofrimento

ou

transtorno

mental

e

com

necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas. No entanto, muitas vezes as equipes não se encontram preparadas para lidar com o tema, e, para tal, o Ministério da Saúde tem estimulado a expansão de diretrizes que incluam a dimensão subjetiva dos usuários nas ações da atenção básica, como uma forma de “responsabilização em relação à produção da saúde, à busca da eficácia das práticas e à promoção de equidade, da integralidade e da cidadania num sentido mais amplo” (BRASIL, 2005a, pg. 34), obedecendo então ao modelo de redes de cuidado de base territorial e buscando o estabelecimento de vínculos e acolhimento. Desta maneira, foi criada a Portaria nº 3.088, que institui a rede de atenção psicossocial para atender às demandas das pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes de uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), orientando assim a importância das ações intersetoriais, garantindo a integralidade do cuidado e ampliando o acesso à atenção psicossocial da população em geral (BRASIL, 2011a). Assim sendo, esta pesquisa apresenta como problema em estudo: Como promover o cuidado integral na rede de saúde mental do município de Japeri por meio do processo da Educação Permanente? Diante deste contexto, as questões que nortearam a presente pesquisa foram: Quais dificuldades dos trabalhadores da rede de saúde mental do município de Japeri?; Como articular os serviços da rede de saúde mental do município de Japeri de acordo com os problemas levantados pelos trabalhadores?; Como promover a integralidade do cuidado na rede de saúde mental por meio da proposta de educação elaborada coletivamente? Diante do exposto, apresenta-se como objetivo geral: Propor a política de Educação Permanente em Saúde, visando contribuir para reorganização da rede de saúde mental do município de Japeri e no cuidado integral ao usuário. E como objetivos específicos: Identificar e descrever as dificuldades

sociais,

de

infraestrutura

e

pessoais,

enfrentadas

pelos

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

profissionais da rede de saúde mental; Planejar, propor e realizar oficina de sensibilização por meio da EPS para a rede de saúde mental, de acordo com as dificuldades encontradas com vistas ao cuidado integral; Produzir documentário com todos os passos realizados na pesquisa e a mobilização da rede de saúde mental no processo de sensibilização por meio das oficinas de EPS, de modo a contribuir para outros municípios, assim como para o mestrado profissional como produto desta pesquisa. Embora a Lei da reforma psiquiátrica (10.216/01) já tenha 14 anos, há ainda muito a ser feito, e, para que a reabilitação psicossocial aconteça, efetivamente faz-se necessário alinhar a equipe aos pressupostos da reforma psiquiátrica e das novas políticas de saúde. Deste modo, justifica-se a importância do presente estudo, uma vez que, com a política da reforma psiquiátrica, novos serviços substitutivos foram criados, e, consequentemente, os serviços asilares forma fechados. Com isso, segundo os dados do Ministério da Saúde, houve uma inversão no período de 2002 a 2011, marcada pela proporção de recursos do Sistema Único de Saúde destinados aos hospitais psiquiátricos e aos serviços extra‐hospitalares, observando-se que, em 2002, os recursos destinados eram de 24,76% para os serviços extra-hospitalares e 75,24% para os serviços hospitalares.

Em 2006 essa inversão ficou marcada

quando os recursos para os serviços extra-hospitalares chegaram a 47,23%, enquanto que os recursos para os serviços hospitalares declinaram a 52,77%. Em 2011 podemos observar a continuidade desta, chegando a 71,2% dos recursos para os serviços extra-hospitalares e somente 28,8%, o que reafirma o compromisso da gestão federal com o investimento em uma rede de atenção com ações e serviços diversificados de base comunitária, proporcionando os direitos civis, o acesso ao trabalho, educação, cultura e o fortalecimento dos laços

familiares e comunitários

(BRASIL, 2012). Esta pesquisa pretende contribuir para o aprofundamento da proposta de Educação Permanente em Saúde, visando instrumentalizar os profissionais de saúde mental e evidenciando a importância da portaria que legitima a Educação Permanente em Saúde (Portaria nº 198/2004), bem como avaliar os resultados que tal política favorece na qualificação do profissional de saúde e para reestruturação da rede de atenção psicossocial, Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

atuando com usuário portador de transtorno mental e verificando, de igual modo, os resultados na assistência, favorecendo a população com a presente proposta de cuidado integral, conforme institui a RAPS (Portaria nº 3088/2011). Pretende-se, de igual modo, contribuir para academia e no cuidado ao usuário do SUS através de pesquisa, evidenciando os possíveis avanços na assistência por meio do atendimento em rede no cuidado integral, utilizando a EPS para ofertar um serviço de qualidade ao SUS e objetivando a implantação de outras experiências da EPS na RAPS de outros municípios. A fim de buscar a relevância deste estudo, foi realizado o estado da arte, por meio da busca por trabalhos no portal da Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), nas bases de dados Lilacs, Pubmed e no portal de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), realizando assim a revisão integrativa sobre o objeto em estudo, em que ficou evidendiado nos dados encontrados, que as ações em conjunto entre os profissionais de saúde, as propostas de educação permanente e as ações com a comunidade, familiares, escola e todo universo da rede de atenção, além da interlocução academia e serviço, geram resultados na assistência de forma eficaz, com ênfase na facilitação da acessibilidade e integralidade do cuidado ao usuário, especificamente aqui, da saúde mental. Barbam e Oliveira (2007) evidenciam que o trabalho em rede se faz necessário, uma vez que os cuidados prestados ao usuário se dão de forma intersetorial e, para isso, é preciso buscar espaços de discussões que permitam a reflexão dos profissionais. Nessse

contexto,

Sanches

e

Oliveira

(2011)

apontam

que

discussões intersetoriais entre profissionais da educação e da saúde garantem que seja facultado o direito aos usuários da saúde mental que vivenciam ambos os espaços de que suas existências e sofrimento sejam minimizados, bem como amplia, aprimora e melhora os vínculos com essas famílias, de modo a garantir que acessem outros meios de relações possíveis na comunidade. Desse modo, a proposta de educação permanente poderá promover este espaço de qualificação e problematização para os profissionais da saúde, articulando a rede de assistência psicossocial.

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

De acordo com os objetivos desta pesquisa, o tipo de estudo realizado foi descritivo e exploratório, sendo a abordagem apresentada qualitativa e o tipo de estudo de acordo com o instrumento de coleta de dados de campo, do tipo pesquisa ação. No que concerne à pesquisa descritiva, esta tem por premissa buscar a resolução de problemas melhorando as práticas por meio da observação, análise e descrições objetivas, mediante entrevistas com peritos para a padronização de técnicas e validação de conteúdo. Esse tipo de pesquisa exige do investigador uma série de informações sobre o que deseja pesquisar, e pretende descrever fatos e fenômenos de determinada realidade (GIL, 2008). Já a pesquisa exploratória tem como objetivo proporcionar maiores informações sobre determinado assunto, delimitar um tema, definir os objetivos ou formular hipóteses de uma pesquisa, e, por isso, é o primeiro passo de todo trabalho científico. A pesquisa descritiva tem como objetivo observar, registrar, analisar, classificar e interpretar os fatos, sem que, com isso, o pesquisador interfira neles (ANDRADE, 2003). A pesquisa de campo foi do tipo pesquisa-ação, por ser esta uma metodologia coletiva, que possibilita as discussões e a produção cooperativa de conhecimentos específicos sobre a realidade vivida, a partir da perspectiva das estruturas hierárquicas e das divisões em especialidades que fragmentam o cotidiano. É toda tentativa continuada, sistemática e empiricamente fundamentada de aprimorar a prática (THIOLLENT, 1988). Neste sentido, por ser uma pesquisa de campo, a mesma envolveu seres humanos, seguindo as recomendações da Resolução 466/2012, a qual veio substituir a Resolução 196/96 do Ministério da Saúde (MS) em parceria com o Conselho Nacional de Saúde (CNS), o qual visa assegurar os direitos dos sujeitos participantes de pesquisas (BRASIL, 2012). O recorte espacial desta pesquisa é o território de Japeri, município da Baixada Fluminense, especificamente no Centro de Atenção Psicossocial II Dr. Jorge Tannus Rejane (CAPS), em Japeri. A escolha deste local se deu por lá funcionar também como espaço de atuação da Coordenação de Saúde Mental, e, visando o espaço estratégico, a sala de reunião de equipe multiprofissional. Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Os sujeitos da pesquisa foram trabalhadores na área da saúde do município

de

Japeri,

com

formações

variadas

(médicos,

psicólogos,

enfermeiros, terapeutas ocupacionais, dentre outros) e diversas funções (exemplo: agentes de saúde, porteiro, recepção, dentre outros), que atuam com usuários de saúde mental na rede de atenção psicossocial do município. Inicialmente 24 pessoas participaram da pesquisa, sendo dois excluídos; uma delas foi a coordenação do CAPS, que na terceira oficina pediu exoneração do cargo, e outro profissional, por ter participado somente de duas oficinas em virtude do seu período de férias, restando assim 22 pessoas. Na primeira fase, os sujeitos do estudo responderam a um questionário

semiestruturado

e

aberto,

preenchido

pelos

próprios

trabalhadores, que teve como objetivo: 1- identificar as dificuldades encontradas pelos trabalhadores ao atuarem com usuários de saúde mental na

rede

de

atenção

psicossocial;

2-

buscar

sugestões

de

filmes,

documentários e/ou material em vídeo que estejam direcionados aos problemas levantados pelos mesmos, para fomentar o produto da presente pesquisa, como material emanado dos próprios profissionais; 3- levantar a indicação de profissionais para realização de uma mesa redonda que possa minimizar os problemas relatados. Na segunda fase o pesquisador, juntamente com a Coordenação de Saúde Mental, organizou encontros com os gestores dos Serviços da Rede de Atenção Psicossocial, sendo nomeado como Colegiado de Gestores da Rede

de

Atenção

Psicossocial,

sensibilizando

os

gestores

sobre

a

importância da integração em saúde e a Política de Educação Permanente em Saúde, trazendo assim para discussão o movimento da Saúde Mental no município de Japeri. As respostas do questionário foram transformadas em três casos (situação de aprendizagem) os quais foram utilizados para terceira fase, as oficinas de EPS, que estão descritas nos resultados da presente pesquisa. Análise dos dados foi realizada de acordo com as fases da coleta. Para sistematizar as dificuldades identificadas na primeira fase, na qual se deu a aplicação do questionário, foi realizada a análise de conteúdo, considerando que, ao analisarmos e interpretarmos informações geradas por uma pesquisa qualitativa, deve-se caminhar tanto na direção do que é Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

homogêneo quanto no que se diferencia dentro de um mesmo meio social (MINAYO, 2012). Nesse sentido, este estudo encontrou sustentação em BARDIN (2009), cujos os preceitos metodológicos da análise de conteúdo foram utilizados a partir da pesquisa qualitativa destacando-se as seguintes etapas definidas como: pré-análise; exploração do material ou codificação; tratamento dos resultados, inferência e interpretação

Para identificar as dificuldades da rede de saúde mental, foram realizadas quatro perguntas com foco nas dificuldades da rede, as quais estavam baseadas nas seguintes temáticas: a rede de atenção psicossocial, as questões sociais, a infraestrutura e as questões pessoais. Contudo, ao analisar

as

respostas

dos

que, ao

profissionais, serem

surgiram

as

Unidades

de

Significação

(US)

agrupadas, geraram as seguintes

categorias:

1ª Categoria: Desafiando gigantes: estrutura do trabalho na

saúde mental; 2ª Categoria: Despreparo profissional e a construção na reflexão da prática: a grande virada; 3ªCategoria: Articulação: integralidade e intersetorialidade, caminho para romper as desigualdades. Deve-se destacar que a análise

realizada anteriormente

dos

questionários serviu de base para planejar e propor as oficinas de educação permanente na rede de saúde mental em Japeri. O planejamento foi realizado de forma a ratificar a análise dos questionários, ou seja, as dificuldades evidenciadas e estas servirem como temas principais das situações problemas trabalhados nas oficinas. A fim de demonstrar como foi realizada a síntese de sistematização para elaboração das categorias, segue a construção do quadro a seguir com as US e as categorias: Quadro 1: Síntese das Unidades de Significação (US), Unidades Registro (UR) e categorias na análise de conteúdo segundo Bardin (2009). Unidade de Significação

Total

Categorias

Total de Categorias

1ª Categoria: Desafiando gigantes: estrutura do

99 (450%)

UR Estrutura (Física, organizacional, material)

78

Ponta Delgada, Julho de 2015


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Dificuldade de RH

12

Má gestão

7

Dificuldade de acesso

12

Qualificação

9

Enfrentamento

9

Frustração

2

Insegurança

1

Integralidade Intersetorialidade

10 4

Integralidade/ Intersetorialidade

11

Comunicação

3

Evasão

1

Inclusão

1

Estigma

1

Preconceito

7

trabalho na saúde mental.

2ª Categoria: Despreparo profissional e a construção na reflexão da prática: a grande virada.

3ª Categoria: Articulação: Integralidade e intersetorialidade, o caminho para os rompimentos.

21 (95,45%)

38 (172,72%)

Ao aplicar o questionário, com objetivo de evidenciar as dificuldades dentro do aspecto da rede de atenção psicossocial, as dificuldades sociais, as dificuldades de infraestrutura e as dificuldades pessoais, verificou-se que, em todas dificuldades levantadas, apontam para os problemas estruturais, sejam elas físicos, de recursos humanos ou de insumos, o que direciona também para má gestão, que leva os serviços de saúde a situação caótica de um espaço sem estrutura saudável na prestação de uma assistência que possibilite o cuidado integral. 5.1- 1ª Categoria: "Desafiando Gigantes": estrutura do trabalho na saúde mental A coleta de dados foi realizada através do questionário, o qual evidenciou que os aspectos relacionados à infraestrutura tornaram-se um "gigante" para os profissionais, uma vez que, em todas as temáticas, de alguma maneira os sujeitos apontaram para as dificuldades estruturais.

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

O caos estrutural retoma a ideia de Schön (2000) sobre o terreno pantanoso, uma vez que o profissional precisa adentrar nesse terreno para analisar, através do pensamento reflexivo, quais serão as estratégias possíveis para buscar resolubilidade no caos em que se encontra. O movimento proposto pelo referido autor foi feito pelos profissionais nesse presente estudo, e após participar das oficinas e fazer o exercício da reflexão-na-ação, o sentimento de empoderamento foi construído a cada encontro possibilitando estabelecer as estratégias para a resolução dos problemas do "pântano". Freire (1991) apud Arelaro (2007, p. 918) afirma que: “A mudança do

mundo

implica

a

dialetização

entre

a

denúncia

da

situação

desumanizante e o anúncio de sua superação: no fundo, o nosso sonho”. Deste modo, o que movimenta toda transformação nos serviços é na verdade a inquietação com o instituído, que vai demandar novas estratégias de formular ações, integrando o cuidado na assistência. Para isso, são criadas novas políticas que fortalecem a proposta do cuidado integral, com o viés nessa construção coletiva de EPS, como estabelece, por exemplo, a portaria nº 3.088, em que organiza a rede de atenção psicossocial, definindo os cuidados de forma articulada entre os serviços e reafirmando a importância da Formação Permanente, para promover a qualidade na assistência prestada (BRASIL, 2011a). 5.2- 2ª Categoria: "Despreparo" profissional e a construção na reflexão da prática: a grande virada. Os trabalhadores que participaram do presente estudo eram de diversas áreas, funções e diversos setores: CAPS, Residências Terapêuticas, Polo de Álcool e Drogas, Polo Infanto Juvenil e Desinstituconalização. E com o perfil multiprofissional, a possibilidade de crescimento e troca em diversos aspectos possibilitaram uma aproximação entre estes. No questionário, evidenciou-se em 95,45% das respostas dos profissionais a necessidade de qualificação. No entanto, ao participarem das oficinas e se aproximarem da proposta de EPS, ficou evidenciado a necessidade de qualificação profissional.

Isso fica claro nas respostas às

situações de aprendizagens:

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

"(....) é necessário propor um espaço de educação permanente para os todos os serviços da rede de atenção psicossocial, visando maior interação dos serviços e ampliando o acesso aos usuários". (Resposta da equipe ao caso 1) E dando continuidade as oficinas, verificou-se que a ideia de um espaço de qualificação e integração da rede é reforçada pelos profissionais, como levantado na resposta ao caso 2: "(...) estruturação de equipes de matriciamento, colegiados e política de educação permanente promovendo a articulação de rede, levando a desmistificação dos mitos e preconceitos referentes a loucura (...)". E na última situação de aprendizagem, discutida pela equipe, a qualificação aparece novamente, mas num chamado emergencial: "(...)A qualificação contínua das equipes é outra demanda que se apresenta de maneira emergencial tanto em relação a uma formação mais aprofundada sobre determinados assuntos quanto para formação ampliada com os princípios da EPS, levando a uma ação técnica mais assertiva, estabelecendo limites pessoais e profissionais na atuação profissional(...)". (Resposta da equipe ao caso 3) 5.3- 3ª Categoria: Articulação: integralidade e intersetorialidade, o caminho para os rompimentos. A partir dos dados coletados no questionário, verificou-se que a articulação entre a integralidade e a intersetorialidade está diretamente ligada à possibilidade da organização da rede de atenção psicossocial, possibilitando

a

comunicação

entre

os

serviços,

minimizando

os

preconceitos e estigmas que possam ocorrer devido à falta de conhecimento e o distanciamento sobre a saúde mental. Esse

retrato fica evidenciado

nos dados

do

questionário, ao

buscarem as dificuldades da rede de atenção, os profissionais apontaram para a problemática do cuidado integral com 172, 72% das respostas. No momento das oficinas, a falta de integralidade na rede é reforçada nas respostas dos profissionais à questão de aprendizagem:

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

"Para construção da rede faz-se necessário que todos os componentes da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) compreendam quais são as funções que devem exercer de acordo com a portaria 3.088/11. Considerando que cada usuário é único, é de suma importância o fortalecimento dos laços familiares e dos serviços(...)". E na discussão na oficina referente a situação de aprendizagem do caso 1, a necessidade da integralidade do cuidado e a articulação entre os serviços é reforçada com a seguinte afirmativa: "(...) esse circuito que engloba a informação, seja através do investimento, articulação e difusão, necessita de uma constante retroalimentação das experiências no que se refere a uma melhor integralidade dessa rede composta de diversos atores (...)". (Resposta da equipe ao caso 2) Nessa perspectiva, Freire (1979) afirma que o trabalhador social que atua numa realidade, a qual, mudando, permanece para mudar novamente, precisa compreender que o seu querer fazer se dá nessa realidade com outros homens, tão condicionado como ele pela realidade dialeticamente permanente e mutável. 5.4- Processo de sensibilização da EPS e reflexões da prática em serviço: 5.4.1- Sensibilização da EPS: No que tange ao funcionamento das oficinas, o processo de construção coletiva foi realizado diante das possibilidades, sendo cada sujeito contribuinte desse processo de reflexão no que era possível cumprir para o debate do grupo. Portanto, nos momentos de discussão não era homogêneo

que todos

haviam

assistido

os

filmes,

ou

que

tinham

contribuído com os materiais científicos, mas a partilha do que cada um trazia da sua própria prática, somada aos que traziam destaques das leituras de artigos científicos, portarias e leis com os que conseguiram assistir ao filme. A junção dos diversos recursos gerou a possibilidade de crescimento da equipe, principalmente no aspecto ligado à concentração Ponta Delgada, Julho de 2015


81

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

nos

momentos

de

reuniões

e

à

atuação

crítica

dos

direitos

dos

trabalhadores da saúde e dos usuários. Nesse contexto, a presente pesquisa pautada na intevenção da prática, pode confirmar as idéias de Freire (1979) em seu livro intitulado Conscientização, em que levanta a questão da codificação, afirmando que esta representa a dimensão dada na realidade, tal como vivem os indivíduos. O que reafirma Schön (2000), quando diz que a aproximação dessa realidade é utilizar os talentos artísticos para conduzir os problemas que nela surgem, é interagir com o pântano apontado pelo autor, terreno esse em que se encontram os problemas reais dos indivíduos.

O presente estudo proporcionou espaços de aprendizagem, de troca e de vivência entre gestores da rede de atenção através dos encontros de colegiados, que resultou na construção de um material organizativo para a rede de atenção do referido território. Possibilitou de igual modo a participação dos trabalhadores da rede de atenção nas oficinas de EPS, sensibilizando-os para o cuidado integral, e trazendo a reflexão-na-ação como preconiza Schön, sendo o espaço da oficina um facilitador para as discussões das dificuldades do cotidiano e colocando os trabalhadores como "atores principais" no processo de construção do conhecimento, pensando no cuidado ao usuário da Saúde Mental e provocando intervenções na prática. É importante dizer também que a pesquisa foi apresentada no VI Congresso Internacional da Sociedade de Enfermagem de Saúde Mental subordinada ao tema: "A pessoa, a família, a comunidade e a Saúde Mental", que decorreu nos dias 9 e 10 de julho de 2015 em Ponta Delgada Portugal, e foi premiada, por ter demonstrado a importância da pesquisaação e por ter traçado um percurso metodológico de maneira adequada e consistente, contribuindo, assim, para reflexão em outras práticas em saúde mental. Assim sendo, espera-se que a presente pesquisa possa alcançar outros lugares, num processo reflexivo e imerso em relação ao cuidado integral ao usuário e a importância da Política Nacional de Educação Permanente, dando destaque à Rede de Atenção Psicossocial. Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

O estudo evidenciou que se faz necessário o trabalho integral para boa prática clínica, e que é através do processo de educação permanente, possibilitando a reflexão na ação que teremos uma assistência em saúde mental mais humanitária, possibilitando aos profissionais a aprendizagem no espaço de trabalho e levando aos usuários o cumprimento dos seus direitos como usuários da saúde mental.

Andrade, M. M. Introdução à metodologia do trabalho cientifica. 6ª ed. São Paulo: Atlas; 2003.

Arelaro, L. R.G. Formulação e implementação das políticas públicas em educação e as parcerias público-privadas: impasse democrático ou mistificação política? Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 899-919, out. 2007 Disponível em http://www.cedes.unicamp.br. Acessado em: 14 de Outubro de 2014.

Barban, E.G, Oliveira, A.A, O Modelo De Assistência Da Equipe Matricial De Saúde Mental No Programa Saúde Da Família Do Município De São José Do Rio Preto (Capacitação E Educação Permanente Aos Profissionais De Saúde Na Atenção Básica), Revista: Arq. Ciência Saúde, 2007.

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_______.

PORTARIA/GM

3.088,

DE

23

de

Dezembro

de

2011.

Disponível

em:

www.saude.mg.gov.br. Acesso: 30 de Novembro de 2013. 

_______. Ministério da Saúde. Saúde Mental em Dados 10. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Coordenação Geral de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas. Ano VII, nº 10, março de 2012. Disponível em: https://saudeecosol.files.wordpress.com/2012. Acesso: 10 de fevereiro de 2015.

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Thiollent, M. Metodologia da Pesquisa-Ação. 4 ed. São Paulo: Cortez, 1988.

Ponta Delgada, Julho de 2015


83

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Mestre; Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e Biociências PPGENFBIO/UNIRIO.

Professora do Curso de Enfermagem,Universidade Severino Sombra, Rua Xavier Sigaud, 290, RJ, 22290180. Tel. 982520346, Brasil. marileimts@hotmail.com 2

Pós-doutora pela USP-SP. Doutora em Enfermagem. Mestra em Educação. Professora Titular da

Universidade Federal Fluminense, UFF. Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Niterói, Tel. 991915906, Brasil. claudiamarauff@gmail.com 3

Doutora em Enfermagem pela Universidade de São Paulo. Professor Associado da Escola de

Enfermagem Alfredo Pinto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, UNIRIO, RJ, Tel. 992359016, Brasil. joppassos@hotmail.com

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

CONTEXTO: Refletir

sobre algumas questões situando

a saúde do

trabalhador e a psicodinâmica do trabalho, em relação à docência, pode levar à transformações efetivas para adaptar o trabalho ao ser humano. No Brasil a Saúde do Trabalhador é identificada a partir dos anos 80, no contexto da transição democrática, destacando-se um novo pensar sobre o processo saúde-doença e sua relação com o trabalho. OBJETIVO(S): Diagnosticar necessidades de saúde do docente/trabalhador de uma Instituição de Ensino Superior. METODOLOGIA: Estudo exploratório descritivo com abordagem qualitativa. Coleta dos dados por meio de entrevista semi-estruturada saúde do trabalhador, condições e recursos de trabalho. Participaram do estudo 103 docentes em regime CLT, de uma Instituição de Ensino Superior no Estado do Rio de Janeiro/Brasil. Utilizamos o método de análise do referencial teórico da psicodinâmica do trabalho proposta por Christophe Dejours. Com aprovação do CEP, atendendo aos requisitos da Resolução 466/12 do CNS/MS. RESULTADOS:

Fatores

de

riscos,

podem

contribuir

ou

determinar

repercussões negativas sobre a saúde do docente, tais como jornada de trabalho itensa, postura corporal e desgaste psíquico. Tais aspectos podem comprometer

o

trabalho

docente

e

influenciar

na

sua

motivação

profissional, relações interpessoais no ambiente de trabalho contribuem para o desenvolvimento de algum desconforto emocional. CONCLUSÕES: Foram identificamos alguns elementos, necessidades de saúde do trabalhador docente, que precisam ser enfrentados. Constatamos a presença de fatores de riscos, que podem contribuir ou determinar repercussões negativas sobre a saúde do docente, que poderá ser de grande importância para o suporte às medidas adequadas de intervenção. Palavras-Chave: Enfermagem; Educação Superior; Saúde do Trabalhador; Saúde Mental

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

CONTEXTO: Para reflexionar sobre algunas cuestiones de pie salud de los trabajadores y la psicodinámica del trabajo, en relación con la enseñanza, puede conducir a transformaciones efectivas para adaptar el trabajo a los seres humanos. En Brasil la salud de los trabajadores se identificó a partir de los años 80, en el contexto de la transición democrática, especialmente el nuevo pensamiento sobre el proceso salud-enfermedad y su relación con el trabajo. OBJETIVO(S): Diagnóstico de necesidades de salud de la maestra / empleado de una institución de educación superior. METODOLOGÍA: estudio exploratorio descriptivo con abordaje cualitativo. La recolección de datos a través de entrevistas semi-estructuradas de salud ocupacional, condiciones y recursos de trabajo. En el estudio participaron 103 docentes en régimen de CLT, una institución de educación superior en el estado de Río de Janeiro / Brasil. Utilizamos el método de análisis del marco teórico de la psicodinámica del trabajo propuesto por Christophe Dejours. Con la aprobación del CEP, el cumplimiento de los requisitos de la CNS/MS Resolución 466/12. RESULTADOS: Los factores de riesgo pueden contribuir a determinar o repercusiones negativas en la salud de los docentes, como el trabajo Itensa viaje, la postura del cuerpo y el desgaste psíquico. Tales aspectos pueden poner en peligro la enseñanza e influencia en su motivación profesional, las relaciones interpersonales en el lugar de trabajo contribuyen al desarrollo de un cierto malestar emocional. CONCLUSIONES: Se identificaron algunos elementos, las necesidades de salud de la labor docente que deben abordarse. Tomamos nota de la presencia de factores de riesgo que pueden contribuir o determinar repercusiones negativas en la salud de los profesores, que pueden ser de gran importancia para apoyar las medidas de intervención adecuadas. Descriptores: Enfermería; La educación superior; Salud Ocupacional; Salud mental

BACKGROUND: To reflect on some issues standing worker health and psychodynamics of work, in relation to teaching, can lead to effective Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

transformations to adapt the work to humans. In Brazil the workers' health is identified from the 80s, in the context of democratic transition, especially new thinking about health-disease process and its relationship with work. AIM: Diagnosing health needs of the teacher / employee of an institution of higher education. METHODS: descriptive exploratory study with a qualitative approach. Data collection through semi-structured interviews occupational health, working conditions and resources. The study included 103 teachers in CLT regime, a higher education institution in the state of Rio de Janeiro / Brazil. We use the method of analysis of the theoretical framework of psychodynamic of work proposed by Christophe Dejours. With approval of the CEP, meeting the requirements of the CNS / MS Resolution 466/12. RESULTS:

Risk

factors

may

contribute

to

or

determine

negative

repercussions on the health of teachers, such as journey intense work, body posture and psychic wear. Such aspects may jeopardize the teaching and influence in their professional motivation, interpersonal relationships in the workplace contribute to the development of some emotional discomfort. CONCLUSIONS: We identified some elements, health needs of the teaching work that need to be addressed. We note the presence of risk factors that may contribute to or determine negative repercussions on the health of teachers, which may be of great importance to support the appropriate intervention measures. Keywords: Nursing; Higher education; Worker's Health; Mental Health

As relações que estabelecem com o trabalho e com a sociedade, apontam para o sofrimento do trabalhador. A perspectiva o trabalho é mais que o ato de trabalhar; há uma troca social pelo trabalho enquanto fator de integração social, clamando por mudanças. No campo da saúde do trabalhador destaca-se para quem o trabalho, enquanto organizador da vida social, pode ser considerado um espaço de denominação e submissão do trabalhador. A diversidade de problemas relacionados ao trabalho em saúde, desde a humanização à tensão entre o individual e o coletivo no processo de mudança social e à produção de

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

humanização como prática numa sociedade fortemente desumanizada (Gastaldo, 2005). Muitos fatores estão associados aos acidentes de trabalho. Dentre os principais fatores, estão aqueles relacionados a inadequação e práticas de trabalho, dos materiais disponíveis, fatores pessoais e a falta de adoção de medidas preventivas por trabalhadores e empregadores (Marziale, 2008). A Saúde do Trabalhador é identificada a partir dos anos 80, no contexto da transição democrática, destacando-se um novo pensar sobre o processo saúde-doença e sua relação com o trabalho, e com o surgimento de novas práticas sindicais seguidas das CIPAs. Em 1988 uma série de discussões levou a inclusão da temática na Constituição Federal. A denominação Saúde do Trabalhador foi incorporada na nova Lei Orgânica da Saúde, estabelece conceituação e competências do Sistema Único de Saúde - SUS (Brasil, 1990). A psicodinâmica do trabalho tem por objetivo o estudo das relações entre condutas, comportamentos e experiências de sofrimentos e de prazeres vividos, de um lado pela organização e realizações do trabalho (Dejours, 1980). A clínica do trabalho é o processo que busca desenvolver no campo da saúde mental e da saúde do trabalho, como os trabalhadores sentem e vivenciam a defasagem existente entre o trabalho prescrito e o real (Dejours, 1992). Na ‘relação do trabalho’ todos os laços humanos são criados pela organização do trabalho: relações com hierarquia, com as chefias, com a supervisão, com outros trabalhadores – e que são às vezes desagradáveis, até mesmo insuportáveis (Dejours, 2000). Trabalhar na perspectiva da integralidade questões relacionadas à Saúde do Trabalhador é um passo fundamental para se desenvolver novas abordagens teórico-metodológicas que possibilitem avançar nos processos de análise e intervenção sobre as situações, impactos e efeitos que são submetidos os Trabalhadores em seu ambiente de trabalho. Indagar sobre questões ligadas ao trabalho humano, situando a Saúde do Trabalhador, a psicopatologia e a psicodinâmica do trabalho, em relação à docência, assim como outras profissões diretamente ligadas à

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

questão do trabalho, da saúde do trabalhador, empenhadas nos processos, podem levar as transformações efetivas. O presente estudo tem por objetivo Diagnosticar necessidades de saúde do docente/trabalhador de uma Instituição de Ensino Superior.

O presente estudo caracterizou-se por uma pesquisa descritiva com enfoque qualitativo dos dados. Na pesquisa qualitativa a interação entre o pesquisador e o participante é essência. A compreensão social se faz por aproximação, sendo preciso exercitar a disposição de olhares por vários ângulos (Minayo, 2005). A amostra é composta de docentes do quadro permanente da USS Instituição de Ensino Superior no Estado do Rio de Janeiro/Brasil, em regime CLT e que estejam atuando na instituição há mais de um ano. A participação por parte dos docentes se dá de maneira voluntária e foi estabelecido o número de amostra em 103 docentes das seguintes áreas: ciências da saúde, ciências exatas e ciências humanas. Pesquisa com apoi de fontes secundárias e primárias – composta de dados a partir de informações prestadas pela chefia e informações coletadas a partir dos sujeitos: “entrevista”. Recorremos à utilização de duas estratégias de coleta de dados e informações: obtenção de dados secundários, provenientes da Direção dos Centros; e obtenção de dados primários na realização de entrevista. Os instrumentos construídos para coleta de dados deu-se a partir de imagens capturadas foi elaborada uma entrevista

contendo

14

questões.

Composta

dos

seguintes

blocos:

identificação do entrevistado; olhar do profissional sobre sua saúde; sobre as condições e recursos de trabalho. O estudo atendeu as especificações da Resolução do Ministério da Saúde nº466/12 e foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa sob o nº 0035/2009.

Em

relação

ao

corpo

docente

entrevistado

103

docentes

entrevistados 60 são do sexo masculino e 43 do feminino. Quanto à titulação, a amostra será composta de doutores; mestres e especialistas. Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Observou-se com o inicio das entrevistas alguns fatores de riscos, podem contribuir ou determinar repercussões negativas sobre a saúde do docente, poderá ser de grande importância para dar suporte às medidas adequadas de intervenção. Às condições do trabalho docente e os efeitos sobre a sua saúde. À necessidade de se discutir mais profundamente quanto ao processo de trabalho dos docentes, sua jornada de trabalho, ao desgaste psíquico. À postura corporal e ao desgaste psíquico dos professores acabam comprometendo a eficácia docente ao promover a diminuição da motivação do professor no trabalho. Como discussão de estudos sobre as condições de trabalho docente permitem caracterizar os Processos laborais e descrever o perfil de adoecimento dos trabalhadores, avaliando possíveis associações entre ocupação e saúde. No Brasil, a literatura sobre as condições de trabalho docente e saúde ainda é restrita, principalmente com relação aos docentes em IES. Dentre as principais discussões estão relacionados reflexão sobre as condições do trabalho docente e os efeitos sobre a sua saúde. O crescimento observado, especialmente nos últimos anos, dos Cursos de Graduação, em geral, apontam para a necessidade de se discutir mais profundamente quanto ao processo de trabalho dos docentes, sua jornada de trabalho, ao desgaste psíquico relacionado às necessidades atuais e potenciais de formação profissional (Gomez, Lacaz, 2005). Aspectos referentes à postura corporal e ao desgaste psíquico dos professores, há formas de cuidado que valorizam algumas potencialidades presentes na prática de ensino. Como as tecnologias de cuidado e conteúdos e estratégias que os docentes utilizam para o ensino do cuidado, considerado

a

liberdade

(Corte

et

al,

2014).

O

docentes

acabam

comprometendo a eficácia docente ao promover a diminuição da motivação do professor no trabalho (Gasparini, Barreto, 2005). Torna-se indispensável valorizar a dimensão subjetiva e social em todas as práticas de atenção em saúde (Neves, Souza, Tavares & Vasconcelos, 2014), fortalecer o trabalho em equipe, fomentar a construção de autonomia e protagonismo dos sujeitos, fortalecer o controle social e valorizar os profissionais de saúde (Souza, Passos &Tavares, 2015). Os resultados apontam para as deficiências nas condições de infraestrutura do ambiente laboral: ausência de espaço para descanso/ repouso, Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

salas de aulas inadequadas e cargas de trabalho que afetam a saúde e o desempenho do trabalho docente como ventilação inadequada, exposição ao pó de giz e poeiras, carregar material didático, permanecer em pé e manter posição inadequada do corpo (Araújo, Sena, Viana, Araújo, 2005). Necessidade de redefinição de aspectos referentes ao processo e organização do trabalho (Murofuse, Rizzotto, Muzzolon Nicola, 2009). Quanto ao levantamento de documentos relacionados aos dados secundários, além das estratégias apontadas, os três centros de Ciências pesquisados tiveram suas instalações mais importantes fotografadas, como laboratórios, salas de aula e bibliotecas.

Foi realizada busca documental

junto a Direção para obtenção dos dados dos Centros e de identificação dos docentes, como: formação profissional, titulação, formação profissional e tempo de serviço. do Projeto Político Pedagógico, do Fluxograma do Curso de Graduação - Enfermagem e Licenciatura, mapas de disciplinas dos períodos e horários das aulas. Observou-se que os Centros possuem diferenças desde o número de profissionais vinculados aos centros como titulação acadêmica. Destacando-se o centro de Ciências da Saúde, como o que apresenta maior número de Doutores.

Com base no objetivo proposto estudo aponta alguns elementos, necessidades

de

saúde

do

trabalhador

docente,

que

precisam

ser

enfrentados. Quanto aos resultados apoiado em fontes secundárias apontam para questões relacionadas à saúde laboral; tendências e desafios de cada área, principais facilidades e dificuldades de recursos disponíveis, para a prática docente do ensino superior. Os resultados demonstram a presença de fatores de riscos, que podem contribuir ou determinar repercussões negativas sobre a saúde do docente, poderá ser de grande importância para dar suporte às medidas adequadas de intervenção. Como condições do trabalho docente e os efeitos sobre a sua saúde. Necessidade de se discutir mais profundamente quanto ao processo de trabalho dos docentes, sua jornada de trabalho, ao desgaste psíquico. Postura corporal e ao desgaste psíquico dos professores acabam

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

comprometendo a eficácia docente ao promover a diminuição da motivação do professor.

No que se refere ao mapeamento e suas suas implicações pra a clínica, acreditamos que as necessidades de saúde do trabalhador docente precisam

ser

enfrentados.

Para

prestar

contribuições

e

ratificar

a

necessidade de realização de novas investigações destinadas a avaliar, de forma exploratória.

Araújo T. M., Sena I. P. de, Viana M. A., Araújo E. M. (2005). Mal-Estar docente: avaliação de condições de trabalho e saúde em uma Instituição de Ensino Superior. Revista Baiana de Saúde Pública. v. 29 n.1, p.6-21 jan./jun.

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situation of health workers and the training process at a regional center for professional health education. Rev. Latino-Am. Enfermagem, vol.17, n.3, pp. 314-320.

Ponta Delgada, Julho de 2015


92

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Neves, E.S., Souza, M.M.T, Tavares, C.M., Vasconcelos, C.B.S. The working process of health caregivers who work in therapeutic residences. Revista Pró-UniverSUS. 2014 jan./Jun.; 05 (1): 2126.

Souza, M.M.T, Passos, J.P., Tavares, C.M.M. Suffering and precarious ness at work in nursing. J. res.:

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2015

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DOI:

10.9789/2175-

5361.2015.v7i1.2072-2082

Ponta Delgada, Julho de 2015


93

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Doutora; Enfermeira e Psicóloga; Universidade Fernando Pessoa, Faculdade de Ciências Humanas e

Sociais, Departamento de Ciência Política e do Comportamento, 4249-004 Porto, Portugal. E-mail: vania.linhares@gmail.com 2

Doutora; Professor Associado; Universidade Fernando Pessoa, Faculdade de Ciências Humanas e

Sociais, Departamento de Ciência Política e do Comportamento, 4249-004 Porto, Portugal. Email: rmeneses@ufp.edu.pt

Ponta Delgada, Julho de 2015


94

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

CONTEXTO: É inquestionável a prevalência da sintomatologia ansiosa e depressiva que se reflete nos frequentes pedidos de apoio psicológico, nas unidades de saúde. Assim, face aos benefícios da Intervenção em Grupo, esta

abordagem

afigura-se

como

uma

possibilidade

promissora,

na

obtenção de uma resposta atempada e eficaz. OBJETIVO(S): O presente estudo, tem como objetivo descrever o desenvolvimento,

implementação

e

avaliação

de

eficácia

de

uma

intervenção cognitivo-comportamental em grupo, desenvolvida para adultos com sintomatologia ansiosa e depressiva, com idades compreendidas entre os 35 e 53 anos. METODOLOGIA: Foram realizadas 13 sessões de grupo, durante quatro meses, na Clínica Pedagógica de Psicologia da Universidade Fernando Pessoa.

A

avaliação

da

intervenção

incluiu

medidas

qualitativas

e

quantitativas e follow-up, cinco meses após a finalização da intervenção. RESULTADOS:

Os

resultados

evidenciaram

uma

diminuição

da

sintomatologia ansiosa em todas as participantes, aumento da eficácia da resposta a situações problemáticas, melhoria da qualidade de vida e o desenvolvimento de algumas habilidades de vida. Simultaneamente, a intervenção promoveu o desenvolvimento de competências académicas, profissionais e pessoais. CONCLUSÕES: Apesar das limitações, como a dimensão da amostra, acredita-se que a descrição desta experiência de intervenção em grupo possa

contribuir

para

o

desenvolvimento

de

melhores

práticas

em

intervenções semelhantes no futuro. Palavras-Chave:

Ansiedade;

Depressão;

Intervenção

Cognitivo-

Comportamental.

CONTEXTO: Es incuestionable la prevalencia de la sintomatología ansiosa y depresiva que se refleja en las frecuentes solicitaciones de apoyo psicológico, a las unidades de salud. Así, ante los beneficios evidenciados en la intervención en grupo, este abordaje se configura como una posibilidad promisoria en la obtención de una respuesta en tiempo y eficaz. Ponta Delgada, Julho de 2015


95

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

OBJETIVO(S): El presente estudio tiene como objetivo describir el desarrollo, implementación y avaluación de eficacia de una intervención cognitivo-conductual en grupo, desarrollada para adultos con sintomatología ansiosa y depresiva, com idades comprendidas entre los 35 y 53 años. METODOLOGÍA: Han sido realizadas 13 sesiones de grupo, durante cuatro meses, en la Clinica Pedagógica de Psicología de la Universidad Fernando Pessoa. La avaluación de la intervención ha incluido medidas de calidad y cantidad y follow-up, cinco meses tras el término de la intervención. RESULTADOS: Los resultados han evidenciado una disminución de los sintomas ansiosos en todas las participantes, aumentación de eficacia de la respuesta a situaciones problemáticas, mejoría de la calidad de vida y el desarrollo de algunas habilidades de vida. Simultáneamente, la intervención ha promovido el desarrollo de competencias académicas, profesionales y personales. CONCLUSIONES: No obstante las limitaciones, como la dimensión de la muestra, se cree que la descripción de esta experiencia de intervención en grupo pueda contribuir para el desarrollo de mejores prácticas en intervenciones semejantes en el futuro. Descriptores: Ansiedade; Depresión; Intervención cognitivo-conductual.

BACKGROUND:

The

prevalence

of

the

anxiety

and

depressive

symptomatology is unquestionable, and reflects on the frequent requests for psychological help at health units. In this way, regarding the benefits evidenced in Group Intervention, this approach reveals itself as a promising possibility in obtaining a quick and efficient response. AIM: the present study has the objective of describing the development, implementation and evaluation of the efficiency of a cognitive behavioral intervention in group, developed for adults with anxiety and depression symptoms, aged between 35 and 53. METHODS: During four months, 13 group sessions were held at the Psychology

Pedagogical

Clinic

of

Fernando

Pessoa

University.

The

intervention evaluation included qualitative and quantitative measures and follow-up, five months after the end of the intervention.

Ponta Delgada, Julho de 2015


96

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

RESULTS: The results revealed a decrease in anxiety symptoms in all the participants, increase in efficiency in response to problematic situations, improvement in quality of life and development in some life abilities. Simultaneously, the intervention promoted academic, professional and personal competences. CONCLUSIONS: Despite the limitations, such as sample dimension, it is believed that the description of this intervention experience in group may contribute to the development of better practices in similar future interventions. Keywords: Anxiety; Depression; Cognitive-Behavioral Intervention.

Na atualidade, a prevalência das perturbações mentais e o aumento do sofrimento psicológico, reforçam a necessidade de uma intervenção atempada e eficaz. A World Health Organization (WHO, 2011), adverte para o impacto que o contexto socioeconómico pode ter na saúde mental e defende a implementação de programas e políticas capazes de contrariar e prevenir estes mesmos efeitos. A intervenção em grupo (IG), emerge, assim, como uma direção importante, face aos benefícios económicos, à efetividade de tratamento e a possibilidade de desenvolvimento de competências (Maly, Umezawa, Leake, & Silliman, 2005; Yalom & Leszcz, 2006). A salientar, ainda, os benefícios para algumas pessoas que lidam com o isolamento social ou que procuram desenvolver estratégias de coping (Yalom & Leszcz, 2006). Adicionalmente, a terapia cognitivo-comportamental (TCC), com vantagens a nível do desenvolvimento de habilidades importantes para o tratamento e para a prevenção da recaída (Wright, Basco, & Thase, 2008), tem vindo a demonstrar eficácia na abordagem em grupo (Bieling, McCabe & Antony, 2008). Simultaneamente, a salientar os resultados positivos nas perturbações de humor (Dewes, Leite, Oliveira, Andretta, & Mühlen, 2010; Krishna, Jauhari, Lepping, Turner, & Crossley, 2011) e nas perturbações de ansiedade (Deacon & Abramowitz, 2004; Linden, Zubraegel, Baer, Frankel, & Schlattman, 2005). Numa

perspetiva

de

intervenção

psicológica

e

de

apoio

à

comunidade, a Clínica Pedagógica de Psicologia (CPP) da Universidade Ponta Delgada, Julho de 2015


97

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Fernando Pessoa dispõe de uma Unidade de Intervenção em Grupo (UIG) com objetivos clínicos e pedagógicos, sendo que, face ao elevado número de pedidos de apoio psicológico, constitui um recurso importante para a comunidade. Neste sentido, no âmbito da UIG, foi desenvolvida uma intervenção

cognitivo-comportamental

em

grupo

para

adultos

com

sintomatologia ansiosa e depressiva. Apesar da ansiedade e depressão serem consideradas perturbações distintas, ambas apresentam características sobrepostas (Apóstolo, Mendes, & Azeredo, 2006), sendo frequente a coexistência destas em simultâneo. Assim, Dodding, Murphy e Howell (2008) desenvolveram um estudo piloto de IG para pessoas com ansiedade e depressão e pessoas significativas, tendo obtido resultados positivos. Deste modo, pretende-se descrever o desenvolvimento, intervenção

implementação

e

avaliação

cognitivo-comportamental

em

da

grupo,

eficácia para

de

uma

adultos

com

ansiedade e depressão, na perspetiva de que possa servir de base a outras experiências de IG, em contextos semelhantes, bem como em ações preventivas, numa perspetiva de promoção da qualidade de vida (QDV).

Os participantes foram pré-selecionados a partir da análise de todos os pedidos de consulta psicológica na CPP. Os critérios de inclusão utilizados foram: proximidade de idade, sintomatologia semelhante. Enquanto que os critérios de exclusão foram: indicadores sugestivos de emergência (p.e., ideação suicida, atividade psicótica) e incompatibilidade de horário com a maioria dos participantes. O grupo foi constituído por quatro participantes dos sexo feminino, com idades compreendidas entre os 35 e 53 anos (M=43,75, DP=9,07), maioria solteiras, profissionalmente ativas, com filhos e com escolaridade entre o 9º ano e o ensino superior. Todas as participantes apresentaram como

sintomatologia:

problemas

e

participantes

ansiedade,

dificuldades estavam

no

depressão,

relacionamento

medicadas,

ainda

que

resolução

ineficaz

interpessoal. sem

Três

de das

acompanhamento

psicológico anterior. Na avaliação das necessidades dos participantes e na avaliação da eficácia da intervenção, recorreu-se ao protocolo de avaliação da UIG, Ponta Delgada, Julho de 2015


98

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

composto por uma entrevista individual semiestruturada e os seguintes instrumentos de avaliação: versão Portuguesa da Hospital Anxiety and Depression Scale - HADS (Pais-Ribeiro et al., 2007; Zigmond & Snaith, 1983), para avaliar a presença e gravidade da sintomatologia ansiosa e depressiva; Escala de Satisfação com o Suporte Social (ESSS) - validada por Pais-Ribeiro (1999), para avaliar a satisfação com o suporte social percebido; Brief-COPE - escala de 1989 de Carver et al. (28 itens), aferida para a população portuguesa por Pais-Ribeiro e Rodrigues (2004), para avaliar as estratégias de coping utilizadas pelos participantes; e para avaliar a perceção de QDV foi utilizada a versão breve, em Português de Portugal, do World Health Organization Quality of Life o WHOQOL-Bref (Serra et al., 2006). Na avaliação do processo optou-se por: uma monitorização da sintomatologia

ansiosa

e

depressiva;

a

avaliação

da

resposta

dos

participantes em relação à sessão através da Escala Aspetos Únicos na Terapia (HAT), nomeadamente a versão reduzida da versão portuguesa adaptada por Sales, Goncalves, Fragoeiro, Noronha e Elliott (2007) da Helpful Aspects of Therapy Form (Elliott, 1993); a assiduidade dos participantes; a discussão semanal no final da sessão, com a supervisora e espectadores

(sempre

que

tenham

existido)

e

diário

reflexivo

do

acompanhamento das sessões. Na avaliação intermédia da IG optou-se pelo questionamento informal acerca da satisfação com a intervenção e sobre o agendamento das sessões posteriores. Na avaliação global da IG, recorreuse também, a um questionário com questões abertas, desenvolvido com o objetivo de conhecer a satisfação das participantes em relação à IG. O follow-up consistiu num contacto telefónico, cinco meses depois do fim da intervenção, consistiu no questionamento acerca da sintomatologia e estratégias de coping utilizadas, relacionamento interpessoal e resolução de problemas. O planeamento, implementação e avaliação da intervenção em grupo ficou a cargo da psicóloga, com supervisão da coordenadora da UIG, após obtenção do consentimento informado por todas as participantes. A IG teve uma duração de 13 sessões, de 90 min, periodicidade semanal e duas sessões individuais: uma de avaliação inicial e uma de finalização. As sessões foram estruturadas no sentido de facilitar a gestão de tempo, compreendendo: a fase inicial dedicada ao acolhimento e monitorização da Ponta Delgada, Julho de 2015


99

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

sintomatologia; a fase de desenvolvimento, de análise da tarefa de casa, desenvolvimento dos conteúdos e partilha de experiências e, por último, a fase de finalização, de síntese e avaliação da sessão. Os materiais de suporte às sessões, foram desenvolvidos pela psicóloga, em função do planeamento das sessões e dos participantes. A metodologia utilizada foi a ativa e colaborativa, com recurso a estratégias cognitivas e comportamentais, com foco no processo grupal. As tarefas de casa foram utilizadas para estabelecer continuidade entre as sessões e comprometimento. As sessões (sequência, conteúdo e atividades) foram planeadas em função das necessidades identificadas na fase de avaliação e em função de abordagem progressiva dos conteúdos, treino de estratégias e grau profundidade na exploração dos problemas. Importante, também, a articulação entre os diferentes conteúdos/atividades (p.e. coesão grupal, psicoeducação,

reestruturação

cognitiva,

crenças

estratégias

de

relaxamento) e situações partilhadas para favorecer o desenvolvimento de habilidades de vida (p.e., autoconhecimento, relacionamento interpessoal, lidar com os sentimentos, lidar com o stress, comunicação assertiva, resolução de problemas).

Na

avaliação

da

IG

recorreu-se

à

análise

de

componentes

quantitativos e qualitativos. Relativamente às componentes quantitativos, a Tabela 1, permite observar os resultados obtidos através dos questionários administrados antes e depois da intervenção.

Tabela 2. Resultados dos Questionários HADS, ESSS, Brief-COPE Participante (N=4) Antes e Depois da IG Participantes 1 2 3 antes depois antes depois antes HADS (0-21) Ansiedade 12 6 13 9 14 Depressão 1 1 12 9 10 ESSS Satisfação com amigos (116 19 18 15 22 25) Intimidade (1-20) 13 11 15 13 14 Satisfação com Família (16 9 9 11 3 15)

e WHOQOL-Bref, por

depois

4 antes

depois

8 3

16 6

9 10

21

22

21

17

15

16

5

15

12

Ponta Delgada, Julho de 2015


100

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Atividades Sociais (1-15) ESSS total (15-75) Brief-COPE (0-6) Coping Ativo Planear Utilização de Suporte Instrumental Utilização de Suporte Emocional Autoculpabilização Aceitação Religião Reiterpretação Expressão de Sentimentos Negação Autodistração Desinvestimento Comportamental Uso de Substâncias Humor WHOQOL-Bref Físico (7-35) Psicológico (6-30) Relações Sociais (3-15) Ambiente (8-40)

13 48

13 52

4 46

4 43

5 44

7 50

3 55

9 58

5 4

5 4

4 5

3 4

2 3

4 4

4 5

4 3

2

4

1

2

2

3

3

4

6

5

4

2

2

2

3

4

3 5 0 5 6 4 6

3 4 0 6 5 3 5

6 6 2 4 2 3 5

2 4 4 3 5 4 3

3 3 5 2 2 0 3

2 4 6 4 2 2 4

4 2 2 2 5 0 4

3 2 2 2 4 1 3

0

1

0

0

1

1

3

0

1 2

0 6

3 2

0 2

4 1

4 2

0 0

0 0

30 22 10 25

26 22 12 30

25 15 8 25

30 21 8 23

25 14 13 29

28 21 10 29

30 18 14 31

29 23 10 29

Atendendo aos respetivos pontes de corte para o questionário HADS: 0 a 7 normal, 8 a 10 baixo, 11 a 14 moderado, 15 a 21 grave (Pais-Ribeiro et al., 2007), os resultados evidenciam uma diminuição da sintomatologia ansiosa em todas as participantes, para um nível baixo (Participante 2 [P2], Participante 3 [P3] e Participante 4 [P4]) e nível normal (Participante 1 [P1]). Relativamente à sintomatologia depressiva, de acordo com os respetivos pontos de corte, a P1 manteve o mesmo nível de sintomatologia depressiva

e

duas

participantes

apresentaram

uma

diminuição.

Contrariamente, a P4 apresentou um ligeiro aumento da sintomatologia depressiva, nomeadamente de nível normal antes da intervenção para nível baixo depois da intervenção. Relativamente à satisfação com o suporte social, através da ESSS, verificou-se que a maioria das participantes apresentou aumento do score total da ESSS, observando-se diferentes resultados para cada subescala. Quanto ao Brief-COPE, verifica-se que as duas participantes que antes da IG utilizavam estratégias de coping referentes à escala Uso de Substâncias, depois da IG referem ter deixado de utilizar estas estratégias, bem como, a estratégia Autoculpabilização. Por outro lado, as estratégias mais utilizadas por três das participantes depois da IG correspondem às escalas: Reinterpretação, Humor, Expressão de sentimentos, Religião.

Ponta Delgada, Julho de 2015


101

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Na

avaliação

da

QDV,

os

resultados

podem-se

considerar

satisfatórios, verificando-se uma melhoria da QDV a nível do domínio psicológico na maioria das participantes. Ao nível do registo de assiduidade das participantes, salienta-se a inexistência de drop-outs, e a contabilização de 10 faltas no total (19%), com maior ocorrência na fase inicial da IG. Relativamente às componentes qualitativas, nomeadamente o diário reflexivo do acompanhamento das sessões constitui uma estratégia muito útil, não só na avaliação da IG, mas também na implementação da mesma. Na avaliação intermédia da IG (informal), o feedback foi positivo, uma vez qua as participantes solicitaram que a realização de mais duas sessões em relação ao cronograma inicial. A observação das sessões (pela supervisora e estudantes), em espelho unidirecional, permitiu conhecer o feedback, após cada sessão, acerca das situações partilhadas e do desempenho da psicóloga. Portanto, com benefícios para o desenvolvimento profissional da mesma, numa postura de melhoria do desempenho pessoal. Na avaliação global da satisfação das participantes quanto à IG, nomeadamente na importância da IG, as participantes responderam ter considerado: Muito interessante (P1), Muito importante (P2) e Muito positiva (P4). Salientaram, de um modo geral, a partilha de experiências, a aprendizagem em grupo e o autoconhecimento. Valorizada também a componente de aplicação prática, mais preparadas para lidar com os problemas (P3). A referir a inexistência de qualquer aspeto negativo relatado pelas participantes. Quanto ao desempenho da psicóloga, as opiniões das participantes, foram semelhantes e com valorização de competências como: paciência, clareza e domínio dos assuntos. Ao nível do follow-up, os resultados sugerem que os resultados se mantiveram ao longo do tempo para três das participantes.

Globalmente, os resultados foram positivos, em consonância com estudos anteriores que apontam para a eficácia da TCC (p.e., Dewes, et al., 2010; Linden et al., 2005). Foi possível uma diminuição da sintomatologia ansiosa

em

todas

as

participantes,

bem

como,

a

diminuição

da

Ponta Delgada, Julho de 2015


102

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

sintomatologia depressiva, na maioria das participantes. No entanto, ainda que os resultados ao nível da sintomatologia depressiva tenham sido menos homogéneos

(uma

participante

apresentou

um

discreto

aumento),

considera-se que este resultado possa ter sido influenciado pelo facto desta participante

ter

apresentado

valores

significativamente

positivos

na

diminuição da sintomatologia ansiosa. Ao nível da satisfação com suporte social, a referir que os valores obtidos para cada subescala, registaram decréscimo em algumas subescala e noutras um acréscimo. A articulação destes resultados com o score total da ESSS sugere que a maioria dos participantes tenha procurado e obtido satisfação com o suporte social de diferentes modos, traduzindo-se numa compensação satisfatória. Relativamente à utilização e estratégias de coping utilizadas, salientase que as duas participantes que antes da IG utilizavam: Uso de Substâncias, depois da IG referem ter deixado de utilizar estas estratégias, sendo por isso encarado como um resultado positivo. Similarmente, a estratégia Autoculpabilização, foi assinalada como menos utilizada por três participantes e que tal como a anterior são de evitar. Relativamente às estratégias mais utilizadas, surgem: Reinterpretação e Humor, o que pode ser interpretado como positivo, já que pode traduzir uma tentativa de crescimento com as situações e, por outro lado, uma diminuição da dramatização em relação às mesma, através do humor. Três participantes registaram menor utilização de estratégias de coping depois da IG e apresentaram menores níveis de ansiedade, portanto menor necessidade de recurso a estratégias de coping. Contrariamente, a P3 registou um aumento de utilização de estratégias de coping, sendo que corresponde à participante com maior evidência de diminuição de sintomatologia ansiosa e depressiva simultaneamente. Ao nível da QDV, os resultados refletem os benefícios da IG para a dimensão Psicológico, afigurando-se como uma medida importante na diminuição do sofrimento psicológico (WHO, 2011). No entanto, para os restantes domínios os resultados foram divergentes, o que sugere a necessidade de se atender a outras dimensões, na IG. A utilização do diário reflexivo constitui uma estratégia muito útil, não só na avaliação da IG, mas também na implementação da mesma, tendo Ponta Delgada, Julho de 2015


103

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

emergido como aspetos relevantes: a a metodologia ativa, o planeamento assente no dinamismo e flexibilidade, a preocupação com o processo grupal e a intervenção de todos os participantes. O que vem de encontro a Bieling et al. (2008) que argumentam que o processo grupal tem implicações nos resultados obtidos nas IG. Compreende-se, assim, que no questionário de satisfação da IG, a partilha de experiencias, a aprendizagem em grupo de habilidades de vida e o autoconhecimento tenham sido valorizadas pelos participantes. Portanto, uma das vantagens apontadas IG (p.e., Maly et al., 2005; Yalom & Leszcz, 2006) e na prevenção da recaída.

Em suma, a IG surge como abordagem importante no processo de tratamento,

possibilitando

que

a

mudança

terapêutica

ocorra

numa

ambiente de partilha, seguro e despatologizador, capaz de favorecer o autoconhecimento e a responsabilização pela mudança de comportamentos, conforme o desejável. Ainda que, globalmente, os resultados tenham sido positivos, apontam-se algumas limitações importantes, tais como: o número reduzido de participantes (com repercussões evidentes quer na implementação quer nos resultados); os participantes serem do mesmo sexo (se por um lado pode facilitar a partilha de vivências, por outro, pode dificultar o enriquecimento destas) e a inexistência de grupo de controlo. A nível pedagógico, as diferentes fases da IG revelam um elevado potencial em termos de aprendizagem, para todos os intervenientes. Conclui-se que através da descrição sumária das diferentes fases que constituíram a IG

foi possível fornecer um exemplo de uma IG cujos

resultados revelam evidências favoráveis à efetividade desta intervenção.

Num contexto atual, caracterizado por maiores exigências, considerase que a melhoria da capacidade de adaptação às dificuldades do quotidiano possa constituir um beneficio a longo prazo, numa perspetiva de melhoria da QDV dos participantes e promoção de fatores protetores, pelo que, os esforços na divulgação e otimização de IG, devam ser intensificados, afigurando-se potencialidades também ao nível da formação e investigação. Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Apóstolo, J. L. A., Mendes, A. C., & Azeredo, Z. A. (2006). Adaptation to Portuguese of the depression, anxiety and stress scales (DASS). Revista latino-americana de enfermagem, 14(6), 863-871.

Bieling, P. J., McCabe, R. E., & Antony, M. M. (2008). Terapia cognitivo-comportamental em grupo (I. H. Oliveira, Trad.). Porto Alegre: Artmed. (Obra original publicada em 2006).

Deacon, B. J., & Abramowitz, J. S. (2004). Cognitive and behavioral treatments for anxiety disorders: A review of meta‐ analytic findings. Journal of Clinical Psychology, 60(4), 429-441. doi:10.1002/jclp.10255

Dewes, D., Oliveira, M. D. S., Andretta, I., von Mühlen, B. K., Camargo, J., & Leite, J. C. D. C. (2012). Efetividade da Terapia Cognitivo-Comportamental para os Transtornos do Humor e Ansiedade: uma revisão de revisões sistemáticas. Revista de Psicologia da IMED, 2(2). Disponível em http://seer.imed.edu.br/index.php/revistapsico/article/view/173

Dodding, C. J., Nasel, D. D., Murphy, M., & Howell, C. (2008). All in for mental health: a pilot study of group therapy for people experiencing anxiety and/or depression and a significant other of their choice.

Mental

health

in

family

medicine,

5(1),

41.

Disponível

em

http://www.pubmedcentral.nih.gov/articlerender.fcgi?artid=2777547&tool=pmcentrez&rendertype=abstract 

Elliott, R. (1993). Helpful Aspects of Therapy Form. Manuscrito não publicado, Toledo, Estados Unidos da América: Universidade de Toledo.

Linden, M., Zubraegel, D. Baer, T. Franke, U., & Schlattmann, P. (2005). 
 Efficacy of Cognitive Behaviour Therapy in Generalized Anxiety Disorders. 
 Psychotherapy and Psychosomatics, 74(1), 36-42. doi: 10.1159/000082025

Maly, R., Umezawa, Y., Leake, B., & Silliman, R. (2005). Mental health outcomes in older women with breast cancer: Impact of perceived family support and adjustment. Psycho-Oncology, 14(7), 535-545.

Krishna, M., Jauhari, A., Lepping, P., Turner, J., Crossley, D. and Krishnamoorthy, A. (2011), Is group psychotherapy effective in older adults with depression? A systematic review. Int. J. Geriat. Psychiatry, 26: 331–340. doi: 10.1002/gps.2546

Pais-Ribeiro, J. (1999). Escala de Satisfação com o Suporte Social (ESSS). Análise Psicológica, 3(7), 547-558.

Pais-Ribeiro, J., Silva, I., Ferreira, T., Martins, A., Meneses, R., & Baltar, M. (2007). Validation study of a Portuguese version of the Hospital Anxiety and Depression Scale. Psychology, Health & Medicine, 12(2), 225 -237.

Pais-Ribeiro, J., & Rodrigues, A. (2004). Questões acerca do coping: a propósito do estudo de adaptação do Brief Cope. Psicologia, Saúde & Doenças, 5(1), 3-15.

Sales, C., Goncalves, S., Fragoeiro, A., Noronha, S., & Elliott, R. (2007). Psychotherapists Openness to Routine Naturalistic Idiographic Research?. Mental Health and Learning Disabilities Research and Practice, 4(2). 145-161. doi: 10.5920/mhldrp.2007.42145

Serra, V., Canavarro, A., Simões M. C.,., Pereira M. R, Quartilho, M., Rijo M., D., et al. (2006). Estudos psicométricos do instrumento de avaliação da qualidade de vida da Organização Mundial de Saúde (WHOQOL-Bref) para Português de Portugal. Psiquiatria Clínica, 27(2), 41-49.

Yalom, I. & Leszcz, M. (2006). Psicoterapia de Grupo: Teoria e Prática (R. C. Costa, Trad.) (5ºed.). Porto Alegre: Artmed (Obra original publicada em 1970).

World Health Organization Regional Office for Europe (WHO Europe). (2011). Impact of economic crises on mental health, Copenhagen: Denmark, World Health Organization. Disponível em http://www.euro.who.int/__data/assets/pdf_file/0008/134999/e94837.pdf

Ponta Delgada, Julho de 2015


105

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

ď °

Wright, J., Basco, M., & Thase, M. (2008). Aprendendo a terapia cognitivo-comportamental: um guia ilustrado (M. G. Armando, Trad.). Porto Alegre, Brasil: Artmed. (Obra original publicada em 2006).

ď °

Zigmond, A.S., & Snaith, R.P. (1983). The Hospital Anxiety and Depression Scale. Acta Psychiatrica Scandinavica, 67(6), 361-370.

Ponta Delgada, Julho de 2015


106

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Pós Doutora em Educação. Enfermeira. Profª Titular e Coordenadora Geral da Pós-Graduação em

Enfermagem. Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa. Morada:

Rua

Dr.

Celestino,

74,

Andar,

CEP:

24020-091,

Niterói/RJ,

Brasil.

E-mail:

claudiamarauff@gmail.com 2

Mestra em Ciências do Cuidado em Saúde. Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem

Aurora de Afonso Costa, Morada: Rua Dr. Celestino, 74, 6º Andar, CEP: 24020-091, Niterói/Rio de Janeiro, Brasil. 24020-091, Niterói/ RJ, Brasil. E-mail: sisan.gabi@hotmail.com

Ponta Delgada, Julho de 2015


107

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

CONTEXTO: As redes sociais e virtuais fazem parte do contexto mais amplo do apoio social e tem sido um meio importante para promover ajuda aos adolescentes que convivem com as doenças crônicas. OBJETIVO: Discutir a influência das redes virtuais na saúde mental de adolescentes que convivem com doença crônica. METODOLOGIA: Estudo descritivo, exploratório e qualitativa, realizado no período de junho a outubro de 2014, com 14 adolescentes, com idade entre 14 a 20 anos, de um ambulatório público especializado em saúde do adolescente, localizado na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas e criação de um desenho livre. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Federal Fluminense/Hospital Universitário Antônio Pedro – Niterói, Brasil

sob o protocolo Nº 692.112/2014. A análise de conteúdo

ocorreu segundo Bardim. RESULTADOS: Os adolescentes que convivem com doenças crônicas pesquisam nas redes virtuais para compreender a sintomatologia da sua condição,

conteúdos sobre estética corporal e

saber sobre o futuro das

pessoas com doenças crônicas. CONCLUSÕES: A compreensão da doença crônica e suas consequências pelos adolescentes requer mais que o conhecimento da patologia e desejo de obter a cura, envolvendo o sentir-se bem ante a sociedade e consigo mesmo. Palavras-Chave: Saúde mental; Adolescente; Doença crônica; Rede social.

CONTEXTO: Las redes sociales y virtuales son parte del contexto más amplio de apoyo social y ha sido un medio importante para promover el apoyo a las adolescentes que viven con enfermedades crónicas. OBJETIVO(S): Discutir la influencia de las redes virtuales en la salud mental de los adolescentes que viven con enfermedades crónicas. METODOLOGÍA: Este es un enfoque exploratorio-descriptivo cualitativo, llevado a cabo en los meses de junio a octubre de 2014, con 14 adolescentes, entre 14 y 20 años, en una clínica pública especializada en salud de los adolescentes, con sede en Río de Janeiro de Janeiro, Brasil. La Ponta Delgada, Julho de 2015


108

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

recolección de datos se realizó a través de entrevistas semi-estructuradas y la creación de un diseño artístico. El estudio fue aprobado estudio aprobado por el Comité de Ética del Hospital de la Universidad Fluminense / Antonio Pedro Universidad Federal - Niterói, Brasil bajo el N ° 692.112 / 2014 protocolo. El análisis de contenido fue segundo Bardim. RESULTADOS: Los adolescentes que viven con enfermedades crónicas, la investigación en redes virtuales para entender los síntomas de su condición, contenido en la estética del cuerpo y saber sobre el futuro de las personas con enfermedades crónicas. CONCLUSIONES: La comprensión de la enfermedad crónica y sus consecuencias

por

los

adolescentes

requieren

mucho

más

que

el

conocimiento de la patología y va más allá del deseo de sanación, que implica el sentirse bien a la sociedad ya sí mismo. Descriptores: Salud mental; Adolescente; Enfermedad crónic; Red social.

BACKGROUND: Social and virtual networks are part of the broader context of social support and has been an important means to promote support to adolescents who live with chronic diseases. AIM: Discuss the influence of virtual networks on the mental health of adolescents living with chronic illness. METHODS: This is an exploratory, descriptive, qualitative approach, carried out in the months from June to October 2014, with 14 adolescents, aged 14 to 20 years, a specialized public clinic in adolescent health, located in Rio de Janeiro, Brazil. Data collection was conducted through semi-structured interviews and the creation of an artistic design. The study was approved study

approved

by

the

Ethics

Committee

of

Universidade

Federal

Fluminense / Antonio Pedro University Hospital - Niterói, Brazil under No. 692,112 / 2014 protocol. Content analysis was second Bardim. RESULTS: Adolescents living with chronic diseases, research in virtual networks to understand the symptoms of their condition; content on body aesthetics and know about the future of people with chronic diseases. CONCLUSIONS: Understanding the chronic disease and its consequences by adolescents require much more than the knowledge of pathology and

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

goes beyond the desire for healing, involving the feel good to society and himself. Keywords: Mental health; Adolescent; Chronic diseases; Network social.

As

Doenças

Crônicas

Não

Transmissíveis

(DCNT)

compõem

o

problema de saúde de máxima extensão no mundo, elas afetam fortemente camadas pobres da população e grupos vulneráveis (Ministério da Saúde, 2011). Os índices de morte por DCNT já estão mais elevados em países de baixa e média renda do que em países ricos. Em 2007, cerca de 72% das mortes no Brasil foram atribuídas às DCNT: doenças cardiovasculares (DCV), doenças respiratórias crônicas, diabetes, câncer e outras, inclusive doenças renais (Schmidt et al., 2011). A idade é sempre um fator a ser considerado. Os idosos, geralmente considerados como o grande grupo de risco, não estão sozinhos como vítimas das doenças crônicas, pois há evidências mundiais suficientes a respeito de crescentes números de jovens e pessoas de meia idade com algum tipo de doença crônica (Goulart, 2011). Pesquisas comprovam que o apoio social pode reduzir o sofrimento emocional do adolescente que passa por esse problema (Balistieri e Tavares, 2013). O processo de desenvolvimento do adolescente, de modo geral, passa por desequilíbrios e instabilidades extremas em nosso meio cultural, mostrando-nos períodos de arrogância, de introversão, alternando com audácia, timidez, descoordenação, urgência, desinteresse ou apatia, que se sucedem ou são concomitantes com conflitos afetivos (Brêtas, 2010). Nesse contexto, a rede de amigos tem papel fundamental na promoção da saúde mental dos adolescentes - o grupo ajuda na transição da vida familiar para a vida independente do mundo adulto, sendo um indício de adequação social (Silva et al, 2004). As redes sociais e virtuais fazem parte do contexto mais amplo do apoio social e tem sido um meio importante para promover a saúde mental dos adolescentes que convivem com as doenças crônicas. As mídias sociais incluem os sites de redes sociais bem conhecidos, tais como Facebook, LinkedIn e Twitter, mas também Ponta Delgada, Julho de 2015


110

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

wikis, como o Wikpédia por exemplo, blogs, microblogs, podcasting, outras redes sociais e demais sites (Lachman, 2013; Hamm et al., 2013). Como a presença de uma doença crônica pode afetar a saúde mental do adolescente e os relacionamentos interpessoais, as redes sociais podem ser consirderadas como mais um dispositivo de saúde mental. Pensando nisso, esse estudo tem por objetivo discutir a influência das redes virtuais na saúde mental de adolescentes que convivem com doença crônica.

Trata-se de pesquisa qualitativa, de caráter descritiva e exploratório, realizada no período de junho a outubro de 2014, com 14 adolescentes, idade entre 14 a 20 anos, de um ambulatório público especializado em saúde do adolescente, localizado na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Os critérios de seleção para a composição da amostra constituíram-se em: ser adolescente que convive com doença crônica; estar em tratamento no cenário de pesquisa; ter pesquisado na rede social virtual sobre a sua condição

crônica;

aceitar

livremente

participar

da

pesquisa

com

corcondância dos pais ou responsáveis. A

coleta

de

dados

foi

realizada

por

meio

de

entrevistas

semiestruturadas, aplicadas individualmente, mediante o agendamento das consultas

dos

participantes.

A

entrevista

semiestruturada

combina

perguntas fechadas e abertas, em que o entrevistado tem possibilidade de falar sobre o tema sem se perder à questão formulada (Minayo, 2010). Os questionamentos buscaram estimular os adolescentes a falarem sobre a influência das redes sociais virtuais na sua saúde mental, os conteúdos encontrados, o reflexo no seu autocuidado e relações interpessoais. Além da entrevista, foi solicitada ao adolescente a criação de um desenho, e uma frase que respondesse ao seguinte questionamento: Como você se sente ao falar sobre sua doença? Para essa atividade foi fornecido uma caixa de 12 bastões de giz pastel oleoso, uma folha de papel Canson branco tamanho A4, e, quando requerido pelo adolescente, lhe era fornecido uma caneta esferográfica ou um lápis nº2. As questões éticas seguiram as orientações da resolução nº466/12 do Ministério da Saúde (Ministério da Saúde, 2012). A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da

Universidade Federal Fluminense/Hospital Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Universitário

Antônio

Pedro

Niterói,

Brasil

sob

o

protocolo

692.112/2014. Além disso, com finalidade de preservar a identidade dos participantes, as falas foram identificadas por pseudônimos comumente encontrados em redes virtuais. Os pais e as adolescentes assinaram os Termos de Consentimento Livre e Esclarecido e o Termo de Assentimento, conforme as normas para pesquisa com adolescentes. Para análise dos dados consideramos a análide de conteúdo segundo Bardim (2011), seguindo as seguintes etapas: pré-analise, exploração do material e o tratamento dos dados, inferência e interpretação.

Os adolescentes que convivem com doenças crônicas pesquisaram nas redes virtuais a sintomatologia da sua condição; conteúdos sobre estética corporal e temas relacionados ao futuro das pessoas com doenças crônicas. As informações obtidas na internet permitiram aprender sobre a condição de saúde, promovendo alívio emocional, melhora no convívio social e no aprendizado - colaborando para redução da desesperança e promoção da saúde mental positiva. Os depoimentos a seguir apresentam os temas pesquisados pelos adolescentes nas redes virtuais. “O que é síndrome nefrótica?” (Pocahontas S2). “Aí eu pesquisei pra ver como é que eram os sintomas, se era compatível com os meus e deu tudo lá, batata! (risos) Mesma coisa. Aí pesquisei às vezes, assim, quando o médico passa algum remédio, aí, eu pesquiso o nome do remédio pra saber o efeito que ele faz e pra quê que ele é” (Saori). O interesse pela “estética” pode ser explicado pelo fato da imagem corporal do adolescente estar alterada tanto pelas intervenções no tratamento, quanto pela própria manifestação sintomática relacionada à doença. Podemos perceber essa categoria na fala dos adolescentes e Figura 1. “Ah.. só procurei saber de estrias, mas aí falou que é normal, só isso. Não tem muito jeito né?”(Penélope Charmosa). “Se pode fazer tatuagem, se pode pôr piercing[...]. Se o cabelo cai por naturalidade. Meu cabelo caiu, fiquei muito mal e procurei saber[...]Aí... eu Ponta Delgada, Julho de 2015


112

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

procurei também saber porquê dava aquelas manchinhas, manchinha rosinha que dá na pele. Aí procurei” (Mily).

Figura 1: Desenho criado pela adolescente Mily. A figura 2 apresenta o sofrimento que a adolescente Penélope Charmosa vivencia por não estar no “padrão estético” estabelecido pela mídia e adotado por grupos, especialmente de adolescentes.

Figura 2: Desenho criado pela adolescente Penélope Charmosa

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Sobre

o

futuro

dos

adolescentes

com

doenças

crônicas,

os

depoimentos abaixo expressam a incerteza quanto ao futuro desses sujeitos. “A gente pergunta se tem cura. Quem for lá olhar, vai ver que sempre tem essa pergunta. E também como é o tratamento no caso específico e quais são os melhores medicamentos que usam” (Aventureiro). A incerteza quanto ao futuro provoca inquietações na vida do ser humano, ainda mais para o adolescente que convive com problema crônico de saúde. O acesso aos conhecimentos científicos promove segurança e capacidade para escolher a melhor maneira de enfrentar essa condição. “[...] se pode ter filhos.. porque falaram pra mim uma vez que não podia ter” (Mily).

O adolescente com doença crônica deve aprender a lidar com a situação se valendo das estratégias e habilidades de enfrentamento que possui (Araújo et al., 2011). Ou seja, o adolescente com doença crônica tem a oportunidade de utilizar os recursos disponíveis, como a internet e as redes virtuais, a fim de superar as limitações de conhecimento e, ao se apropriar desse conteúdo informativo, conquistar um outro olhar sobre a própria condição. A inclusão do adolescente como participante ativo de seu tratamento, compartilhando a responsabilidade pelas decisões e resultados, torna-se fundamental para que ele adquira confiança e autonomia. Durante

a

adolescência

a

imagem

corporal

é

extremamente

importante. Por isso, se houver prejuízo na aparência ou se o uso de medicações provoca efeitos colaterais antiestéticos, a equipe de saúde deve ficar atenta. Uma imagem corporal insatisfatória pode causar sentimentos de desvalorização e inferioridade, criando um ciclo vicioso constituído pela transgressão

aos

regimes

terapêuticos

propostos

e

consequente

agravamento da doença. Por sua vez, a piora da doença pode contribuir com alterações na aparência física, prejudicando ainda mais a autoestima (Ministério da Saúde, 2008).

Assim, os profissionais da saúde precisam Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

atentar para esse aspecto do adolescente com doença crônica, lembrandose do cuidado integral do paciente. Normas socioculturais têm perpetuado o estereótipo da associação entre magreza e beleza entre as mulheres, fazendo com que um corpo magro seja considerado ideal (Martins et al., 2012). Na adolescência, o corpo é um importante elo de identificação entre eles. A preocupação com a beleza, que é imposta pela mídia, atua primordialmente como formadora e reprodutora de estereótipos sociais, por exibir continuamente nos meios de comunicação padrões de beleza peloAo receber o diagnóstico de uma doença crônica, o adolescente, passa por momentos de angústias e incertezas diante do desconhecido, pois se depara com a fragilidade da vida e do corpo, algo inesperado nessa fase onde tudo é intenso e sem limites (Rezende, Schal y Modena, 2009). A internet oferece um meio interativo e dinâmico para divulgação de informações, mudanças de atitudes e comportamento. Por meio dela e de outros meios de comunicação eletrônica, grande impacto na disseminação de informações e pesquisas é produzido (Polit y Beck, 2011). Fontes disponíveis como blogs, weblogs, páginas pessoais em redes sociais e grupos de apoio virtual produzem conhecimento baseado na experiência vivida de cada paciente, conhecimento esse que é trocado, partilhado, dividido e multiplicado nas formas diversas de contato virtual (Ortegaet al., 2012). A preocupação com o futuro envolve o desejo de vivenciar todas as oportunidades que a vida proporciona, inclui-se entre outras atividades a vontade de ter um relacionamento, ter uma família, exibicionismo e culto público dos corpos malhados de modelos e de atores (Brêtas, 2010).

Os adolescentes usam as redes virtuais para melhor compreender a doença e seus efeitos estéticos sobre o corpo. A compreensão da doença crônica e suas consequências envolve mais que conhecimento da patologia, mas também o contexto, vivências com o tratamento e sobretudo o desejo de obter a cura. Os meios de comunicação e interação ampliam a possibilidade do adolescente de adquirir o conhecimento sobre sua condição, reduzindo a Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

ansiedade e melhorando o processo de enfrentamento da doença e autonomia diante do tratamento.

Araújo, Y.B., Collet, N. Gomes, I.P., Amador, D.D., (2010). Saberes e experiências de adolescentes hospitalizados com doença crônica. Rev. enferm. UERJ,19(2),274-9.

Balistieri A. S., Tavares, C.M.M., (2013). A importância do apoio sócioemocional em adolescentes e adultos jovens portadores de doença crônica: uma revisão de literatura. Enfermería Global, 30, 399-409.

Bardin, L., (2011). Análise de conteúdo. Lisboa: Edições, 70.

Brêtas, J.R.S, (2010). Vulnerabilidade e adolescência. Rev. Soc. Bras. Enferm. Ped,10(2),89-96.

Goulart, F.A.A, (2011). Doenças Crônicas Não Transmissíveis: estratégias de controle e desafios para o sistema de saúde. Organização Pan-Americana de Saúde, 1-96.

Hamm, M.P., Chisholm, A., Shulhan, J., Milne, A., Scott, S.D., Given, L.M., et al., (2013). Social media use among patients and caregivers: a scoping review. BMJ Open, 3(5): e002819.

Lachman, V.D., (2013). Social media: managing the ethical issues. Medsurg Nurs, 22 (5).

Martins, C.R., Gordia, A.P., Silva, D.A.S., Quadros, T.M.B., Ferrari, E.P., Teixeira, D.M., et al., (2012). Insatisfação com a imagem corporal e fatores associados em universitários. Estud psicol, 17(2),241-246.

Minayo, M.C.S., (2010). O desafio do conhecimento. Pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec.

Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde, Diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres humanos, (2012). Resolução n. 466, de 12 de dezembro de 2012. Brasília : Ministério da Saúde.

Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise de Situação de Saúde (2011).

Plano de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não

transmissíveis (DCNT) no Brasil 2011-2022. Brasília: Ministério da Saúde. 

Ministério da saúde.Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas Saúde do adolescente: competências e habilidades, (2008).Brasília: Ministério da Saúde.

Ortega, F., Zorzanelli, R., Meierhoffer, L.K., Rosário, C.A., Almeida, C.F., Andrada, B.F.C.C., et al., (2013). A construção do diagnóstico do autismo em uma rede social virtual brasileira. Interface Comunic., Saude, Educ., 17(44),119-32.

Polit, D.F., Beck, C.T., (2011). Fundamento da Pesquisa em Enfermagem: avaliação de evidências para a prática da enfermagem 7ed. Porto Alegre: Artmed.

Rezende, A.M., Schall, V.T., Modena, C.M., (2009). O “Adolescer” e adoecer: vivência de uma adolescente com câncer. Aletheia, 30,88-100.

Schmidt, M.I., Duncan, B.B., Silva, G.A., Menezes, A.M., Monteiro, C.A., Barreto, S.M., et al., (2011). Doenças crônicas não transmissíveis no Brasil: carga e desafios atuais. Lancet: Saúde no Brasil, 4,61-74.

Silva, M.M., Sclhoen-Ferreira, T.H., Medeiros, E., Aznar-Farias, M., Pedromônico, M.R.M., (2004).O Adolescente

e a Competência Social: focando o número de amigos. Rev. Bras. Cres. e Desenv.

H)um,14 (1),200-2007. 

Tavares, C.M., Muniz, M., Silva, T. (2015). Prioridades de investigação em saúde mental e a transformação do modelo assistencial. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, (spe2), 107-112.

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Psicólogo Clínico; Doutor em Psicologia Clínica; Tel: 0351962779365; Prof. Coordenador na Escola

Superior de Enfermagem de Coimbra, Avenida Bissaya Barreto e Rua 5 de Outubro, Apartado 7001, 3046-851 Coimbra, Portugal, Email : jpinto@esenfc.pt 2

Enfermeiro; Doutor em Desenvolvimento e Intervenção Psicológica; Pós-Doutorado na área científica

de Enfermagem; Tel: 0351917667915; Prof. Coordenador na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Avenida Bissaya Barreto e Rua 5 de Outubro, Apartado 7001,3046-851 Coimbra, Portugal, Email: pauloqueiros@esenfc.pt

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

CONTEXTO: A comunicação é um processo complexo, sensível no qual os interlocutores estão envolvidos, num vai e vem da comunicação. Este expande a comunicação ou restringe o manejo das mensagens expressas. A hospitalização, enquanto experiência extrema, é tanto mais grave quanto mais ameaçar a integridade do eu e o sentimento da continuidade do existir podendo observar-se comunicações paradoxais do doente. OBJETIVOS: Os objetivos do estudo são analisar a comunicação usada por um doente, com uma faceta confiante e outra desconfiada na relação e conceptualizar um modelo integrativo para a dupla ligação da comunicação apresentada pelo doente. METODOLOGIA: Análise, tendo por base uma vinheta, um trecho comunicacional paradoxal entre uma enfermeira e um doente. RESULTADOS: Os resultados indicam que quando o doente apresentou uma comunicação paradoxal com o profissional de saúde este mostrou maiores dificuldades para lidar com este tipo de comunicação, porque valoriza excessivamente o conteúdo verbal relativamente ao conteúdo não verbal. O comportamento colaborativo e divertido manifestava-se a par do registo obstinado de todos os atos e práticas que lhe eram feitos. A não integração, por meta comunicação, da paradoxalidade comunicacional instala no doente, o desespero e angústia extrema, relatando bloqueio e iminência de suicídio. CONCLUSÕES: Concluímos que a comunicação profissional de saúde e o doente exige uma meta comunicação que desenvolva uma intervenção mais integrada

dos

aspetos

paradoxais

da

comunicação,

minimizando

o

sentimento de desamparo e desespero do doente Palavras-chave: Comunicação; Comunicação não verbal; Transtornos de comunicação; Sintomas comportamentais

CONTEXTO: La comunicación es un proceso complejo, sensible en el que las partes se dedican a una comunicación de ida y vuelta. Esto expande la comunicación o restringir el manejo de mensajes urgentes. Hospitalización, como una experiencia extrema, es tanto más grave los más amenaza la

Ponta Delgada, Julho de 2015


118

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

integridad del yo y un sentido de la continuidad de la existencia (Winnicott, 2000), se pueden ver las comunicaciones paradojales paciente. OBJETIVOS: Los objetivos del estudio es analizar la comunicación usado por un paciente con una faceta confiada y otra sospechosa en la relación y conceptualizar

un

modelo

integrador

para

el

doble

enlace

de

la

comunicación presentado por el enfermo. MÉTODOS: Análisis, basada en una viñeta, un paso de comunicación paradojal entre una enfermera y un paciente. RESULTADOS: Los resultados indican que cuando hay una comunicación paradojal con el profesional este mostró mayor problemas para lidiar con este tipo de comunicación, ya excesivamente valorado el contenido verbal en relación con el contenido no verbal. El comportamiento de colaboración y la diversión se manifiesta al tanto de registro obstinada de todos los actos y prácticas que se hicieron a él. La falta de integración, mediante metacomunicación, la comunicación paradojal se instala en el paciente, la desesperación y la angustia extrema, la presentación de informes y el bloqueo al borde del suicidio. CONCLUSIONES:

Concluimos

de

que

la

comunicación

entre

los

profesionales sanitarios y el paciente requiere un objetivo de comunicación para desarrollar una intervención más integral de los aspectos paradójicos de la comunicación, lo que minimiza la sensación de impotencia y desesperación del paciente. Descriptores: Comunicación; Comunicación no verbal; Trastornos de la comunicación; Síntomas conductuales

CONTEXT: Communication is a complex, sensitive process in which the parties are engaged in a back and forth communication. This expands the communication

or

restrict

the

handling

of

express

messages.

Hospitalization, as an extreme experience, it is all the more serious the more threatening the integrity of the self and a sense of the continuity of existence

(Winnicott,

2000),

can

be

seen

the

patient

paradoxical

communications. OBJECTIVES: The aims of the study is to analyze the communication used by a patient with a confident facet and another suspicious in the relationship Ponta Delgada, Julho de 2015


119

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

and

conceptualize

an

integrative

model

for

the

double

bond

of

communication presented by ill. METHODS: Analyze, based on a vignette, a paradoxical communication passage between a nurse and a patient. RESULTS:

The

results

indicate

that

when

exist

a

paradoxical

communication with the health professional this showed greater difficulties to deal with this type of communication because too values the verbal content in relation to non-verbal content. The collaborative and fun behavior manifested itself abreast of stubborn record of all acts and practices that were made to him. Failure to integration, by metacommunication, the paradoxical communication installs on the patient, despair and extreme distress, reporting and blocking the verge of suicide. CONCLUSIONS: We conclude that the communication between healthcare professionals and the patient requires a metacommunication to develop a more integrated intervention of the paradoxical aspects of communication, minimizing the feeling of helplessness and despair of the patient Keywords:

Communication;

Nonverbal communication;

Communication

disorders; Behavioral symptoms

A experiência de internamento e a deterioração da saúde tem merecido uma atenção crescente dos profissionais, nomeadamente ao nível da comunicação profissional de saúde-doente. Santos e Sousa (2015, p.2) consideram que «o internamento hospitalar é um momento de elevada ansiedade (…), pois associa-se à deterioração da saúde e da qualidade de vida». A relação com o doente envolve o profissional numa comunicação complexa única e irrepetível. Esta tem como especificidade o próprio local onde

ocorrem

as

relações

profissional

de

saúde-doente.

Estas

são

complexas e dependem de muitos fatores, incluindo o conceito da própria relação como um lugar. A construção duma comunicação que respeite o doente e que o ajude a criar áreas de encontro, de comunicação interessante e de manutenção do sentimento de integridade pessoal (Edvardsson, Sandman, & Rasmussen, 2005; Persson, & Määttä, 2012). A pragmática da comunicação introduz, na meada do século XX, o conceito de comunicação paradoxal. Jackson & Bodin (1968) ao estudar a Ponta Delgada, Julho de 2015


120

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

comunicação de pessoas com patologia esquizofrénica, chega à conclusão que no lugar da esquizofrenia estaria uma transação esquizofrenizante, leiase enlouquecedora, que tinha como suporte de base a paradoxalidade comunicacional. Esta consiste sobretudo em patamares de comunicação discordantes e antagónicos nos seus sentidos que levam o interlocutor a ficar refém desta dissonância de conteúdos expressos, tanto mais quanto maior for a sua dependência em relação ao interlocutor. Por exemplo, a mãe que diz ao mesmo tempo “meu filho amo-te” mas lhe rejeita o abraço, dizendo “não me sujes o vestido”, deixando a criança refém do pensamento circular “ela não me ama mas ela diz que me ama”. Este ciclo infindável invalida a resolução do paradoxo tanto mais quanto mais for o nível de dependência. O presente estudo tem como propósito estudar os aspetos envolvidos na comunicação profissional de saúde-doente, nomeadamente a comunicação paradoxal e a sua importância no eclodir de situações extremas

por

inexistência

de

uma

descodificação

adequada

da

paradoxalidade pré-existente. Propõe-se também clarificar o modo como essa mesma comunicação pode ser atualizada e integrada, tornando-se por isso fator protetor de comportamentos comunicacionais extremos como os que são apresentados na vinheta clínica que dá suporte à discussão sobre a temática da paradoxalidade comunicacional. A comunicação A comunicação tem sido estudada nas mais diversas áreas, desde a linguística de Saussurre à psicologia (Watzlawick, Beavin, & Jackson, 1996; Alarcão, 2000). Progressivamente tornou-se uma área importante para as profissões ligadas à saúde (Watzlawick et al, 1996; Alarcão, 2000; Bietti, 2012), pois a compreensão do doente e do seu mal-estar têm tido como suporte

a

sua

palavra

expressa.

Assim,

os

aspetos

não

ditos

da

comunicação têm vindo a ganhar um papel crescente na sua compreensão. Os contextos hospitalares tornam-se um “espaço” privilegiado de comunicação. Esta assume, em nosso entender, um papel múltiplo que vai do mero instrumento de acesso a meio de diagnóstico, podendo mesmo ser assumido como um elemento transformacional. Desta forma, a comunicação passa a ser catártica ou mesmo curativa, promovendo bem-estar e melhoria na ansiedade emergente no doente. Ponta Delgada, Julho de 2015


121

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Por outro lado, a comunicação pode ser lida como comportamento e relação. Como comportamento podemos perceber que, quer o que é dito quer o que não é dito, conforma desejos, medos e expectativas que norteiam

doente

e

profissional

na

sua

ação.

Enquanto

comunicação coexiste com uma área de encontro mais

relação,

a

ou menos

conseguida, onde os interlocutores desenvolvem complexos movimentos de aproximação e afastamento, numa dinâmica tantas vezes inacessível à sua consciência. Este aspeto tem um impacto profundo no encontro que se pretende estabelecer. O entendimento da diversidade e complexidade comunicacional do doente, para além do que é expresso verbalmente, possibilita um nível de acesso e de entendimento maior ao que este diz e ao que

tenta

esconder

através

dos

não

ditos

que

se

expressam

corporalmente e/ou através de acções que parecem destacadas e/ou bizarras das restantes expressões verbais. As comunicações diversas do doente: do verbal ao não verbal A comunicação é um processo complexo, singelo, muito sensível e irrepetível no qual os interlocutores se (des)enlaçam, momento a momento, num vai e vem comunicacional que alarga o âmbito da comunicação ou, ao invés, a afunila para um gueto que pode impossibilitar o correto manejo das mensagens expressas (verbal, corporal e comunicacional). Neste sentido, aproximamo-nos de Hall, Ouyang, Lonnquist, e Newcombe, (2011, p. 254) quando afirmam que «A pragmática [da comunicação] é o estudo de capacidades de comunicação social, verbais e não verbal, incluindo proxémica, o vai e vem, o comprimento resposta, o pressuposto, o contato visual e a entoação». A complexidade e a multidimensionalidade da comunicação tornam-se então expressas e participam ativamente na comunicação profissional de saúde-doente. Por outro lado, a hospitalização é, em si mesma, uma situação limite, tanto mais grave quanto maior for a reserva do diagnóstico e mais puser em risco e ameaçar a integridade do eu (Pinto e Queiros, 2013, 2015) e o sentimento da continuidade do existir (Winnicott, 2000). Nestas situações, o doente não se restringe a si doente, mas transporta toda uma história de vida fantasiada e vivida com desejos e paixões, frustrações e medos, que se podem manifestar, no aqui e agora, com a doença e a sua gravidade, podendo instalar mecanismos de defesa Ponta Delgada, Julho de 2015


122

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

mais arcaicos e processos de comunicação embasados na raiva, no desespero

e

na

culpa,

ou

introduzir

mesmo

uma

paradoxalidade

comunicacional onde, por um lado mostra uma faceta de si confiante e noutra revela uma faceta mais desconfiada na relação. Esta dupla ligação (Watzlawick et al., 1996) que mostra e que esconde, necessita duma capacidade integrativa para ler e compreender as diversas comunicações do doente e a sua concordância ou discordância discursiva. A comunicação com o doente apela a uma proximidade entre este e o profissional que facilite a observação e a análise fina da comunicação como um todo (verbal e não verbal), destacando sobretudo a concordância ou a discordância da mesma. Sempre que um profissional contacta um doente a comunicação

instala-se

imparavelmente.

As

respostas

e/ou

as

não

respostas constituem em si elementos pertinentes de relação e de comunicação. O valor da expressão verbal não diminui o valor da expressão não verbal do doente, pois, muito do que é dito pode não o ser pela via verbal e, por isso, torna-se necessário atender aos aspetos não verbal da comunicação, sobretudo quando esta encerra uma discrepância acentuada em relação aos conteúdos expressos. A discrepância entre conteúdos verbais e não verbal introduz sempre um conflito interno ou relacional do doente que importa aferir a par e passo, pois a dinâmica comunicacional tem a validade do aqui e agora, podendo modificar-se com a introdução de novos aspetos na comunicação. A proximidade ao doente é uma construção que pela sua dimensão projetiva se constrói e desconstrói com relativa facilidade, pois o doente espera ser entendido mais do que ser atendido. Importa então perceber que a posição do profissional na relação é um elemento chave para o desenvolvimento desta que é, por princípio, limitada no

tempo,

obrigando

a

um

olhar

aguçado

ao

comportamento

comunicacional do doente como atrás aludimos, bem como à construção duma relação de confiança. O estabelecimento duma relação de confiança com o doente, baseada na sua aceitação no aqui e agora, abre a possibilidade de compreender melhor os não ditos e as deixas ocasionais da sua comunicação. O profissional de saúde tem como papel principal a escuta e a análise do comportamento comunicacional do doente como um todo. A paradoxalidade comunicacional foi bem explicada por D. D. Jackson e, se na génese, Ponta Delgada, Julho de 2015


123

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

estudou

a

comunicação

esquizofrenizante

(Jackson

&

Bodin,

1968;

Watzlawick et al., 1996), podemos aperceber-nos dela sempre que haja um desencontro comunicacional entre o que expressamos e o que sentimos como

oposto.

Cabe

pois

ao

profissional

permitir

esse

desenlace

esclarecedor, sempre que clarifica as comunicações discrepantes, facilitando a sua integração num discurso fluido e concordante do doente e da sua história passada e actual. Importa ainda perceber como é que a comunicação paradoxal pode tornar os profissionais reféns dela, sempre que não valorizem os seus indícios não verbal ou o discurso defensivo do doente. Estes contêm, muitas vezes, uma dimensão intima e profunda dos anseios e angústias do doente que, por medo ou receios presentes ou passados, o impossibilitam de expressar de forma clara e aberta ao profissional de saúde. As comunicações discrepantes do doente exigem aos profissionais a capacidade de estabelecimento numa meta-comunicação, onde se possam precisar e tornar claras as discrepâncias comunicacionais dos mesmos, num esforço de integração que possibilite o acesso integral ao conflito sentido pelo doente. A indagação das discrepâncias pode ser um dos meios de acesso aos diversos níveis comunicacionais, facilitando a sua integração e compreensão. Importa, pois, ajudar a integrar o que está desavindo no doente e sobre o qual pode ou não existir uma consciência mais ou menos clara. Pretendemos então partir duma situação clínica (vinheta clínica) ilustrativa e tentar desconstruir e construir os elementos que ela nos mostra, para percebermos como a comunicação paradoxal pode encerrar em si um sofrimento intenso que apela a montante por uma clarificação pacificadora.

O presente artigo enquadra-se na metodologia de estudo por vinheta. Segundo Galante, Aranha, Beraldo, & Pelá (2003, p. 358) «a vinheta é uma descrição curta e compacta de uma situação, real ou fictícia, usada para chamar atenção, passar uma mensagem, produzir sensações e detectar comportamento, atitude e conhecimento». No caso presente, propormo-nos partir do relato de uma situação entre um doente e um enfermeiro onde se Ponta Delgada, Julho de 2015


124

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

narra

o

comportamento

comunicacional

do

doente,

realçando

a

paradoxalidade deste, que opõe a uma docilidade expressa na relação, uma violência e um desespero interno que acaba por escrever num bilhete descuidado. Ilustração clínica Um

senhor

de

70

anos

entrada

no

hospital

para

internamento. Tinha um tumor do esófago com metástases cerebrais, estando a fazer radioterapia. A estudante relata-o como uma pessoa bem-disposta, confiante e colaborante que costumava rir-se com facilidade. Revela também ter muito interesse no seu tratamento, registando num papel “tudo o que lhe fazem”. A estudante nunca questionou o porquê deste seu comportamento e diz que a sua comunicação com ele se baseava apenas em coisas simples do dia-a-dia. Certa manhã, a estudante vai com a enfermeira ao quarto para ministrar medicação e encontraram um papel na mesinha de cabeceira que dizia: “Bloqueio total. Suicídio. Perdão a Deus” A estudante declara ter tido medo de falar com o senhor e a enfermeira também não falou acerca do recado expresso no papel.

A análise dos resultados revela que o doente mantinha uma relação amistosa expressa na relação com o enfermeiro. A tranquilidade e concordância escondiam, no entanto, uma desconfiança do doente expressa nos seus apontamentos obstinados, onde tomava nota de tudo o que lhe faziam. Este comportamento não verbal mostrava a sua desconfiança e o seu sentimento de estar ameaçado. A relação, pretensamente terapêutica, resvalara para uma área de inquérito onde o doente se assumiu como escrivão. Tudo era apontado, todos os pormenores contavam numa dinâmica relacional paranóica que desvelava o medo e o desespero do doente. A não compreensão desta dimensão comunicacional levou ao afunilamento da mesma para um gueto sem saída. A falha comunicacional aconteceu, a nosso ver, na ilusão de que o doente era solícito e amistoso. No entanto, pensar o doente parcelarmente contém o risco de não Ponta Delgada, Julho de 2015


125

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

compreensão do todo. Os pormenores comunicacionais no espaço, no corpo, nos gestos ou mesmo na escrita têm um papel tão relevante como o que é dito pelo doente, pois, como se comprova é impossível não comunicar e,

neste

caso,

aconteceu

de

forma

distorcida,

instalando-se

uma

comunicação paradoxal, instalando-se uma patologia do 1º axioma da comunicação (Watzlawick et al., 1996). Assim, a surpresa e o espanto, dos profissionais face ao papel escrito do doente, mostram, na sua base, uma falha comunicacional no diagnóstico integral da comunicação do doente, que pode ocorrer com frequência, sempre que se não conte com as diversas dimensões comunicacionais do mesmo. Por outro lado, o profissional, ao não valorar a comunicação escrita do doente, provoca um estreitamento comunicacional que impede a construção duma relação de confiança. Esta pode ser entendida pelo doente como uma desqualificação, instalando, do ponto de vista histórico, um retorno a vividos semelhantes que o podem desesperar e fazer sentir bloqueado e sem saída. A expressão “bloqueio total. Suicídio” apresenta-se como resultado de um equívoco comunicacional onde os profissionais se deixaram enlear no manto da comunicação fácil, que se mostra depois o canto do cisne que surpreende quem não escuta por inteiro todas as “falas” do doente e as analisa a partir da concordância ou da discordância contida nessas mesmas “falas”. A redução à fala verbal empobrece o entendimento e pode deixar o profissional de saúde refém de si e da sua estratégia. A comunicação baseada “em coisas simples do dia a dia” é um aspeto importante, desde que a leitura da mesma não esteja atenta somente aos conteúdos verbais. Falar do tempo, dos filhos, da história e dos feitos ou desventuras pessoais encerra em si uma hermenêutica que tem que ser actualizada no aqui e agora da comunicação e que serve de diagnóstico dinâmico relativo às concordâncias e às discordâncias dos diversos discursos verbais, corporais e comportamentais. No verbo o doente era dócil, no corpo haveria uma tensão defensiva que passou sem referência e no comportamento a escrita obstinada e desconfiada mostravam um doente em risco e muito ameaçado na sua integridade pessoal (Pinto & Queirós, 2013, 2015). A pontuação a montante desta discrepância comunicacional permitiria, em nosso entender, reassegurar o doente e diminuir substancialmente o risco do vivido extremo Ponta Delgada, Julho de 2015


126

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

que

acabou

por

acontecer,

como

acontece

na

criança

que

chora

ritmadamente, pedindo auxílio, e que, na sua ausência, torna o choro esganiçado por temor e raiva emergente (Bowlby, 1990) do desamparo e descuido do cuidador.

A vinheta apresentada acima permite-nos uma leitura didáctica da comunicação em contexto hospitalar. O correr dos dias e a pressa de responder

às

exigências

são

múltiplas,

a

par

da

necessidade

dos

profissionais atenderem e responderem à integridade comunicacional do doente, expressa através dos conteúdos verbais, dos conteúdos corporais e dos conteúdos comportamentais (Watzlawick et al, 1996; Alarcão, 2000; Clasen, 2008) Sempre que um doente se relaciona com um profissional de saúde instala uma área de comunicação complexa, que envolve várias dimensões de comunicação não verbal. Dos aspetos não verbais, Clasen (2008, p.107) realça «o

cinésico,

o

háptico, a paralinguagem, a proxémica e

a

territorialidade». Deste modo, os movimentos, o contacto táctil e o conter emocional do doente, o não dito do dito, a proximidade, a distância e a dança

territorial

assumem

uma

importância

decisiva

no

desenrolar

comunicacional e, sempre que uma destas dimensões seja descurada aparece o risco de a sua expressão poder tornar-se extremada. A comunicação extremada tem, um sentido condensado do desencontro comunicacional entre o doente e o profissional de saúde. A concordância expressiva (verbal, corporal e comportamental) na comunicação torna-a fluida, construtiva e facilitadora de encontro comunicacional. Ao instalar-se uma

discrepância

comunicacional

o

radical

de

intangibilidade

relacional/comunicacional pode esconder, até ao último momento, o sofrimento do doente e a ameaça à sua integridade pessoal (Pinto & Queirós, 2013, 2015). Assim, quando ele o expressa pode já conter toda a raiva, entretanto contida e sentida como incapacidade de compreensão por parte do profissional de saúde. Os aspetos analógicos da comunicação (Watzlawick et al., 1996; Alarcão, 2000), têm, em contexto hospitalar, uma importância determinante no matizar das percepções e das representações do doente. O hospital é a casa das doenças e um lugar de temor e risco Ponta Delgada, Julho de 2015


127

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

acrescido, pois, gente saudável não se torna seu “hóspede”. Deste modo, o espaço torna-se um elemento comunicacional relevante. O “espaço” hospitalar parece então tornar-se adverso e ameaçador, pois, «a natureza do ''espaço'' (…) afeta a interação [e] muitas vezes recebe menos atenção» (Clasen, 2008, p.107) dos profissionais de saúde. A perceção e a representação

do

“espaço

hospitalar”

tornam-se

um

elemento

comunicacional fundamental onde o medo e a ameaça podem espreitar e invadir o campo comunicacional, necessitando de transformação atenta desses conteúdos expressos não verbalmente, pois, o doente anseia por asseguramento desses medos não expressos verbalmente.

Podemos concluir que a comunicação profissional de saúde-doente apela por uma avaliação, feita momento a momento, onde os níveis de concordância e discordância dos vários aspetos da comunicação, necessitam ser tidos em conta e integrados na comunicação verbal com o doente, salvaguardando sempre a integridade pessoal deste. Por outro lado, podemos concluir que a comunicação paradoxal encerra em si um potencial de perturbação da comunicação, podendo conduzir a comportamentos comunicacionais extremos que coloquem em risco o bem-estar do doente e as próprias dinâmicas do dia a dia. Concluímos, pois, que a comunicação profissional

de

saúde-doente

apela

a

uma

meta-comunicação

que

desenvolva uma intervenção mais integrada dos aspetos paradoxais da comunicação, minimizando o sentimento de desamparo e desespero do doente.

A integração efetiva do conceito de comunicação paradoxal na comunicação com o doente torna a comunicação mais efetiva, apelando a uma maior atenção aos aspetos discrepantes dos vários níveis de comunicação do doente. Por outro lado possibilita estabelecer uma relação mais integrativa da expressão do doente, facilitando-lhe o sentimento de ser mais compreendido e contido pelo profissional de saúde. Por fim potencia

a

instalação

duma

verdadeira

comunicação

terapêutica

estabelecida a partir duma base diagnóstica integrativa, que constrói e Ponta Delgada, Julho de 2015


128

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

alicerça a relação de confiança, partindo da tomada de consciência do doente de que o profissional o entende e lhe expressa verbalmente as suas discrepâncias comunicacionais.

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Ponta Delgada, Julho de 2015


129

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Doutor em Educação Ambiental; Pós-doutorando em Educação Ambiental – pesquisador e professor na

Universidade Federal do Rio Grande, Av. Itália Km 8 Bairro Carreiros – 475 – Aeroporto, Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil, augustoamaral@hotmail.com

Ponta Delgada, Julho de 2015


130

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

O presente artigo foi desenvolvido a partir das pesquisas-intervenção do autor em sua dissertação e tese, dando origem a concepção da Teatralidade

Humana.

Atualmente,

segue

desenvolvendo-a

no

pós-

doutorado, a partir de experimentações estéticas de cuidado a fim de operarem como analisadores junto aos grupos em que se realizam as intervenções. Trata-se de um arranjo com distintas técnicas e metodologias a fim de atender demandas específicas na área da Psicologia Social. Os dados produzidos no campo de pesquisa se dão em um permanente jogo de correspondência entre prática e teoria, uma práxis problematizadora de temáticas que vêm sendo colocadas como desafio na área da Saúde Coletiva. Fundamenta-se no campo epistemológico da Análise Institucional, nos estudos das Três Ecologias e no método cartográfico de Félix Guattari e Gilles Deleuze. Propõe processos de autogestão e autoanálise de grupos na produção de saberes compartilhados e, com ajuda do diário de campo, busca compreender e transformar os diversos sentidos cristalizados nas instituições. Evidencia certas alienações e opressões, favorecendo a análise crítica e o entendimento das intervenções como formas inovadoras de se relacionar, colocando em questão as formas instituídas. Aponta para a complexidade e a indissociabilidade dos problemas ligados ao meio ambiente, à subjetividade humana e às relações sociais, aproximando atitude ecológica e pensamento filosófico. O processo de experimentação indica que existe uma potência dos intercâmbios e da sensibilidade quando privilegiamos um conhecimento que se apreende com o corpo em movimento, relacionando-se com o outro e o mundo, buscando alternativas, ousando, acessando devires e criando soluções. Palavras-Chave: Saúde Coletiva; Método da Cartografia; Psicologia Social; As Três Ecologias.

El presente artículo se ha desarrollado a partir de la investigaciónintervención realizada por el autor en su disertación y tesis, dando origen a la concepción de Teatralidad Humana. Actualmente, esta temática sigue siendo

desarrollada

en

el

pos-doctorado

del

autor,

a

partir

de

Ponta Delgada, Julho de 2015


131

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

experimentaciones estéticas de cuidado, con la finalidad de operar como analizadores junto a los grupos en los que se realizan las intervenciones. Se trata de un arreglo con distintas técnicas y metodologías que buscan atender las demandas de la Psicología Social. Los datos producidos en el campo de investigación se encuentran en un permanente juego de correspondencia entre práctica y teoría, una práxis problematizadora de temáticas que se ponen como um reto en el área de la Salud Colectiva. El trabajo está basado en el campo epistemológico del Análisis Institucional, en los estudios de las Tres Ecologías y el el método cartográfico de Félix Guattari y Gilles Deleuze. Este trabajo también discute procesos de autogestión y autoanálisis de grupos en la producción de saberes compartidos y, con el auxilio del diario de campo, busca comprender y transformar los diversos sentidos cristalizados en las instituciones. Además de eso, se busca evidenciar ciertas alienaciones y opresiones, favoreciendo el análisis crítico y el entendimiento de las intervenciones como formas innovadoras de relacionarse, poniendo en relieve las formas instituidas. Así, se busca discutir la complejidad y la inseparabilidad de los problemas vinculados al medio ambiente, a la subjetividad humana y a las relaciones sociales, aproximando actitudes ecológicas y pensamiento filosófico. El proceso

de

experimentación

indica

que

existe

una

fuerza

de

los

intercambios y de la sensibilidad cuando privilegiamos un conocimiento que se aprende con el cuerpo en movimiento, relacionándose con el otro y el mundo, buscando alternativas, osando, accediendo devenires y creando soluciones. Descriptores: Salud Colectiva; Método de la Cartografía; Psicología Social; Las Tres Ecologías.

This article was developed based on intervention-research by the author in his thesis and dissertation, where he developed the concept of Human Theatricality. Presently, this research is being carried out in his Post-Doctorate degree, based on aesthetic experiments of care in order to work as analyzers joined with the groups in which the interventions are made. These interventions are an arrangement, with different techniques and methods, in order to meet specific demands in Social Psychology area.

Ponta Delgada, Julho de 2015


132

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Data collected can be considered as a permanent game of relation between theory and practice, a common problematic practice of subjects that are being considered as challenges in collective health area. This article is based on Institutional Analysis theory, Three Ecologies studies, Felix Guattari and Gilles Deleuze’s cartographic method. Selfmanagement and self-analysis in groups that produce shared knowledge are suggested. Additionally, with the help of the field diary, crystallized institutional thoughts are attempted to be understood. Further, this diary shows clearly specific alienation and oppression, making a benefit to the critic analysis and also to the understanding of the interventions as new ways to relate. In addition to it, the complexity and the inextricable connection among problems related to environment, human subjectivity and social relations are pointed out, in an attempt to make environmental attitude and philosophical thought closer to each other. The process of experimentation indicates the existence of a power from the exchanges in sense when we idealize a knowledge which is learnt with the body in movement, in relation to other and to the world, in search of alternatives, daring and accessing transformation and creating solutions. Keywords: Collective Health; Cartography Method; Social Psychology; Three Ecologies. A concepção da Teatralidade Humana O presente artigo foi desenvolvido a partir das pesquisas-intervenção do autor em sua dissertação de mestrado (AMARAL, 2009) e tese de doutorado (AMARAL, 2013), dando origem a concepção da Teatralidade Humana. Trata-se de um arranjo particular feito a partir de distintas técnicas a fim de atender encomendas específicas na área da Psicologia Social. Isto significa que as experimentações não se repetem, mas se recombinam, se rearranjam em função das características de cada encomenda. São montagens que combinam elementos prático-teóricos dos Grupos Operativos, de Enrique Pichon-Rivière (1998 e 2005); do Arco-Íris do Desejo e do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal (1988, 1996 e 2002); da Somaterapia, de Roberto Freire (1988 e 1991); do Psicodrama e da Sociodrama, de Jacob Levy Moreno (2008); da Biodança, de Rolando Toro

Ponta Delgada, Julho de 2015


133

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

(2002); e da Sociopoética, de Jacques Gauthier (2009 e 2012). Atualmente, a Teatralidade Humana vem sendo trabalhada em sua investigação de pósdoutorado,

fundamentando-se

no

campo

epistemológico

da

Análise

Institucional, no método da cartografia (DELEUZE e GUATTARI, 1995)

e nos estudos sobre As Três Ecologias (GUATTARI, 1990). As

experimentações

estéticas

de

cuidado

apontam

para

a

complexidade e a indissociabilidade dos problemas ligados ao meio ambiente (ecologia ambiental), à subjetividade humana (ecologia mental) e às relações sociais (ecologia social), aproximando atitude ecológica e pensamento filosófico. As Três Ecologias expressam a necessidade de fazermos emergir uma reflexão que busque ultrapassar os limites da lógica cartesiana, desinstalando o humano como centro e medida de todas as coisas e procurando romper as fronteiras que separam cultura e natureza. Isto torna-se possível através de articulações políticas e práticas cotidianas imbricadas com a ação do pesquisador em seu campo de investigação. A pesquisa-intervenção tem como objetivo analisar, através da experimentação em grupo, outros modos de coexistência e a capacidade de reinvenção da relação consigo mesmo, com os outros e com o meio ambiente. Um recurso de pesquisa em que o pesquisador ora se aproxima do objeto, ora se distancia, ora torna-se o próprio objeto, conquistando outras perspectivas de análise e autoanálise, dessa forma, põe em questão os espaços que obstaculizem o encontro humano, que subtraiam o contato e a interação com os outros e o mundo. A pesquisa-intervenção da Teatralidade Humana é um analisador, criado artificialmente, que proporciona o entendimento dos problemas socioambientais a partir do cotidiano e fornece algumas pistas de como podemos

enfrentá-los

e

superá-los. Quando

as

experimentações

da

Teatralidade Humana são colocadas em funcionamento, procuram tornar “manifesto o jogo de forças, os desejos, interesses e fantasmas dos segmentos organizados” (BAREMBLITT, 2002, p.135). Pressupõe lidar com um conjunto de acontecimentos que se dão no tempo e no espaço por meio de uma atitude de abertura ao novo, ao diferente, ao desconhecido, aos fluxos e potencialidades do acaso, às necessidades e demandas do grupo participante, ampliando e fortalecendo a partilha, o trabalho em rede.

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Os dados produzidos no campo de pesquisa se dão em um permanente jogo de correspondência entre a prática interventiva e o campo conceitual, uma práxis problematizadora de temáticas que vêm sendo colocadas como desafio para a Saúde Coletiva. A necessidade do humano valorizar a vida, desenvolver atividades cooperativa e solidariamente, ampliar a sensibilidade e a capacidade inventiva, desejar e ir ao encontro de um futuro melhor partilhando sonhos e utopias, cuidar de si, do outro e do meio ambiente ao buscar romper com sua própria alienação. Outros Modos de Coexistência A dimensão de alienação aqui utilizada defende que no mundo urbano contemporâneo, o humano vem eliminando gradualmente do seu corpo a capacidade de lidar com imprevistos, oscilações e incertezas, o que está atrelado ao fato de deixar de ser dono do seu próprio destino ao vender sua força de trabalho e abrir mão de atributos e qualidades potenciais, como sugere a concepção marxista. A relação do humano com sua atividade laboral é alienada, pois esta, assim como o produto e o benefício econômico não lhe pertence. Todavia, além dos problemas ligados à divisão técnica e social do trabalho, torna-se imprescindível avançarmos na análise, visto que na contemporaneidade os processos alienantes proliferam como uma epidemia. Também significam diminuição da capacidade de pensar e agir por conta própria, falta de engajamento político, crescente sentimento de solidão e isolamento, inércia intelectual, passividade diante dos problemas socioambientais, embotamento da criatividade e da expressão, indiferença e falta de cuidado com os outros e o mundo, perturbação mental, falta de sensibilidade, inatividade física, entre outros aspectos. Em nosso tempo torna-se importante romper com um tipo de alienação entendida como condição normal dos corpos, como se o sedentarismo, a apatia e um desejo fraco fizessem parte da própria essência humana. Normalidade compreendida como uma falta de potência que priva o corpo de suas “capacidades virtuais ou atuais de produzir, inventar, transformar, etc. (...) das forças geradoras do radicalmente novo, criador de vida” (BAREMBLITT, 2002, p.163). A questão que impulsiona a investigação propõe examinar de que forma é possível produzir modos de coexistência que procurem romper com Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

esses processos alienantes, promovendo o cuidado consigo mesmo, o outro e o meio ambiente através da experimentação estética. Elaborá-la implica lidar com certos limites do conhecimento, pois não basta refletir e conscientizar-se a respeito dos problemas socioambientais, é preciso tomar decisões

e

efetivamente

produzir

as

mudanças

necessárias

na

necessidade

de

subjetividade humana, nas relações sociais e no meio ambiente. A

análise

das

experimentações

reforça

a

promovermos pesquisas implicadas, movidas pelo desejo, que demandem o envolvimento direto do investigador e capazes de promover modos de coexistência inovadores, assim como outras formas de relacionamento e convívio. Iniciativas prático-teóricas que fomentem a intervenção do pesquisador em seu campo

de

pesquisa, bem como

os

processos

autogestivos, a inventividade e a autonomia de grupos e pessoas. Expõe as relações entre o conteúdo propriamente teórico e uma prática de pesquisa que coloca em relevância o contato com o impensado, pondo em dúvida os valores

que

sustentam

certas

instituídos. Entendendo que

normas,

regras,

modelos

e

padrões

“toda instituição compreende um movimento

que a gera: o instituinte; um resultado: o instituído; e um processo: da institucionalização. Exemplos de instituições são: a linguagem, as relações de parentesco, a divisão social do trabalho, a religião, a justiça, o dinheiro, as forças armadas, etc. Um conglomerado importante de instituições é, por exemplo,

o

Estado.

regulamentadora,

as

Para

realizar

instituições

concretamente

materializam-se

em

sua

função

organizações

e

estabelecimentos” (BAREMBLIT, 2002, p. 156 e 157). A análise das experimentações vem elucidando a concepção filosófica, os objetivos e as particularidades de um processo investigativo aberto à multiplicidade de saberes (acadêmicos e não acadêmicos) e peculiaridades dos grupos que participam das experimentações. Propõe a transmutação dos valores instituídos e a instauração de um movimento instituinte capaz de gerar novos valores e outras instituições. Aspectos teórico-metodológicos A pesquisa-intervenção provoca rupturas nas perspectivas colocadas pelo movimento da Pesquisa-Ação (THIOLLENT, 1998), principalmente naquelas referentes às relações entre teoria e prática, entre sujeito e Ponta Delgada, Julho de 2015


136

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

objeto. As reflexões aqui desenvolvidas são objetivos da ação na pesquisa, através do exercício de desnaturalização das instituições, ou seja, das “árvores de decisões lógicas que regulam as atividades humanas, indicando o que é proibido, adotar

o que é permitido e o que é indiferente”

(BAREMBLIT, 2002, p. 156). Assim como, do acolhimento da noção de implicação colocada para o sujeito cognoscente. A análise implicada (LOURAU, 2004), permite compreendermos nosso envolvimento enquanto alternamos posições como sujeito e objeto da pesquisa,

colocando

em

questão

certos

postulados

de

objetividade,

neutralidade, imparcialidade que balizam a ciência clássica. Nessa perspectiva, sujeito e objeto se misturam, ou seja, quem conhece é conhecido e quem analisa é analisado, ao mesmo tempo em que intervém sobre a realidade. Conhecimentos acumulados e articulações intelectuais cedem espaço ao conjunto de forças sociais e políticas que emanam do ambiente, tendo em vista a abertura do investigador às interferências e sucessivas recomposições suscitadas pelo meio. Trata-se de um tipo de pesquisa constituída por uma coletividade, que se agrega para realizar experimentações estéticas de cuidado com propósitos claramente definidos, onde múltiplas relações são experimentadas em um fluxo constante de desterritorialização e reterritorialização existencial. Na análise é utilizado o relato escrito dos participantes, suas falas durante as intervenções, assim como as respostas às questões formuladas pelo coordenador das atividades que são enviadas por e-mail a posteriori. O principal desafio das experimentações tem sido: reinventar se reinventando, ajudando-se mutuamente, acessando devires, acreditando em intuições, valorizando o outro em suas diferenças, mostrando-se como se vê, expressando-se tal como se sente, ampliando o conhecimento de si mesmo, agindo e pensando com o corpo inteiro em movimento, colocando-se em situações não normais (com relação às normalidades instituídas) e lidando com acontecimentos inesperados. Enfim, arriscando-se para além dos lugares seguros e confortáveis. Nas experimentações estéticas de cuidado valoriza-se a importância de produzir alternativas teórico-práticas que incluam aspectos afetivos, vivenciais, imaginativos, auto reflexivos, criativos, de desmoronamento e reconstrução e, sobretudo, forneçam pistas de como acionar o desejo de Ponta Delgada, Julho de 2015


137

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

reinventar a si mesmo e o mundo em que vivemos. As relações sociais vividas no processo de experimentação acontecem graças a existência de um ambiente que fomenta o intercâmbio entre diferentes histórias de vida e visões de mundo, a coexistência de variados pontos de vista (religiosos, estéticos, políticos, filosóficos, epistemológicos, etc.) e a interação entre diferentes grupos étnicos, classes sociais, gêneros, faixas etárias, etc. São modos de convívio agenciados pelo cuidado não somente no âmbito das relações humanas, enquanto são cultivadas relações de amizade, companheirismo, solidariedade, afeto etc., mas também da relação com o não humano, enquanto são cultivadas novas maneiras de perceber e lidar com os outros animais, as plantas, a terra, o oxigênio, a água etc. Reinventando o cuidar, o tocar, o ver, o sentir, o ouvir, o falar, o afetar e o ser afetado pelo outro e o meio, através de técnicas sensoriais e vivências em contato com a natureza. Trata-se de desenvolver uma metodologia focada nos processos inventivos (e não nos resultados destes) acionados pelos problemas, demandas e necessidades que surgem ao longo das experimentações. Dessa forma, talvez seja possível desenvolver uma concepção teórica que, de alguma forma, contribua com uma mudança de pensamentos e paradigmas capaz de impulsionar modos de coexistir que tenham como prioridade a vida em seu aspecto mais amplo, e não apenas o humano. O campo do empírico, aqui entendido como campo de intervenção, é um espaço

delimitado

pelas

possibilidades

que surgem no

decorrer da

experimentação, e permitem ao humano deslocar-se nos fluxos dos acontecimentos, em consonância com as portas que se abrem e se fecham, de acordo com as continuidades e interrupções. Onde o acontecimento é compreendido como o ato, processo e resultado da atividade afirmativa do acaso. É o momento de aparição do novo absoluto, da diferença e da singularidade. Estes atos, processos e resultados, consequências de conexões insólitas que escapam das constrições do instituído – organizado, estabelecido, são o substrato de transformações de pequeno ou grande porte que revolucionam a História em todos os seus níveis e âmbitos. O acontecimento atualiza as virtualidades, cuja essência não coincide com as possibilidades.

O

virtual

não

existe,

mas

faz

parte

da

realidade

(BAREMBLITT, 2002, p.134). Ponta Delgada, Julho de 2015


138

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

A pesquisa-intervenção constitui-se como uma espécie de aventura por territórios desconhecidos, em virtude do permanente processo de transformação e adequação aos grupos e espaços onde acontecem as experimentações.

Acentua

a

importância

de

aprender

a

lidar

com

imprevistos e incertezas no seu próprio corpo e fazer proliferar outros modos de subjetivação, aberto as surpresas, dúvidas, inquietações e oscilações. A concepção da Teatralidade humana mostra seu potencial produtor de sentidos, na medida em que o método de trabalho implementa novas formas de se relacionar, mais sensíveis e menos opressoras, esteticamente aprazíveis, colocando em suspeita as formas instituídas. Quebrar

o

acostumado,

para

favorecer

a

emergência

do

inovador,

imprevisível, inesperado: isso interessa aos pesquisadores! Os cientistas sociais que estudam as relações de poder encontram a necessidade de elaborar

dispositivos

ou

entender

como

os

que

existem

foram

historicamente instituídos. Lembremo-nos da obra de Michel Foucault, com seus conceitos de “arqueologia do saber” e de “epistêmé”: uma formação social já define o que se pode saber e em que formas se pode conhecer; mas igualmente, o que não se pode pensar, o que é proibido para o pensamento ou simplesmente, velado para ele; agora, define também as potências e os limites do pensamento crítico irreverente, ou seja, como se pode e em que formas se pode, mediante um esforço crítico impar, revelar parte do proibido, atingir parte do inacessível, ou seja, em momentos revolucionários, pensar o impensável. A própria realidade está cheia de dispositivos de todos os gêneros! Portanto, os pesquisadores ainda mais que quaisquer outros, estão convidados a se questionar sobre o que seu método de trabalho permite e, no mesmo gesto, proíbe de descobrir, entender, pensar (GAUTHIER, 2009, p. 08 e 09). Um agenciamento coletivo (GUATTARI, 1981 e 1992) é processado para que outras formas de pensar e se relacionar possam emergir. Muitas vezes, conectando acontecimentos distintos e até mesmo contraditórios, que constituem a pesquisa-intervenção: as reuniões do Grupo de Pesquisa “As Três Ecologias de Félix Guattari”; as inúmeras conversas a respeito de questões pessoais e não acadêmicas com membros do Grupo; a partilha de sonhos e utopias; os textos criados coletivamente; a elaboração conjunta

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

de táticas e estratégias; os cursos de formação e atividades extensionistas, as aulas ministradas; as experimentações propriamente ditas, os múltiplos afetos

que

atravessam

o

processo

de

investigação,

entre

outros

acontecimentos. Considerações finais Na investigação de pós-doutorado, a concepção da Teatralidade Humana

progride

na

perspectiva

cuidado,

avança

na

direção

reconhecimento

dos

das

experimentações

da

Saúde

Coletiva,

estereótipos

vividos

nas

e

estéticas

de

possibilita

o

relações

instituídas,

desvelando e tornando consciente comportamentos e formas de expressão padronizadas.

Opera

no

entendimento

da

percepção

do

humano,

promovendo outras formas de sentir e atuar, fomentando um agir mais ético e atento à importância de relações pautadas no cuidado, enfim, outros processos de subjetivação. O processo de experimentação indica que existe uma potência do encontro,

das

relações

humanas

solidárias,

do

desenvolvimento

da

sensibilidade e da intuição, enquanto potencializam-se novas formas de expressão e privilegiam-se fontes não conscientes de aprendizado – um conhecimento que se apreende com o corpo em movimento, relacionandose com o outro e o mundo, buscando alternativas, ousando, criando outras soluções para os mesmos problemas. O processo de experimentação estimula o acesso a certas lembranças remotas, processos

imagens de

em

constituição

significação,

(espectros),

atualizações

e

desejos

sensações

longínquos, inenarráveis,

sinalizando a importância dos devires, no que diz respeito as mudanças de percepção e atitude frente a realidade e ao desconhecido. A pesquisa-intervenção da Teatralidade Humana procura manter-se fiel às descontinuidades e perturbações do processo de experimentação, colocando tais vetores no fluxo dos acontecimentos vividos. Difundi-la enquanto prática de cuidado de si, dos outros e do mundo é uma maneira de qualificar as relações humanas e contribuir com o aprofundamento das questões ligadas a Saúde Coletiva e ao desenvolvimento humano. É sabido que aqueles que passam pelo processo de experimentação vivem

certos

estranhamentos

e

desconfortos,

não

porque

estejam

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140

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

rompendo com seus próprios eixos e territórios existenciais, mas porque se desalinham com relação ao grande eixo que faz girar toda a parafernália social. Este é o preço da invenção e da ruptura com as convenções e preceitos sociais. A

experimentação

estética

propõe

uma

ética

da

permanente

reinvenção de si e do mundo, instigando o humano a fazer uma busca na tentativa de transformar-se, em alguma medida, no próprio ambiente em que seu corpo habita. Instiga-nos a pesquisar certas possibilidades de intercâmbio com o meio que sejam abertas aos devires: devir-água, devirvegetal, devir-animal, devir-inumano. Não se trata de um processo passivo, em absoluto, pois o humano transforma-se transformando. A pesquisa-intervenção evidencia a importância de aprender a lidar com

forças

e

fragilidades,

de

trabalhar

cooperativamente,

de

lidar

criativamente com opressões, de sentir e perceber a vida a partir de outros ângulos e perspectivas. As intervenções têm permitido aprender um pouco mais sobre a força das emoções, ímpetos e sensações. Momentos importantes porque acionam o corpo, rompem com alienações, impulsionando o humano à ação, criando condições de possibilidade para que manifeste suas capacidades sensíveis, estéticas e transformadoras da realidade. Dado o caráter processual da pesquisa, entende-se que é de fundamental

importância

que

ações

e

reflexões

permaneçam

em

movimento, influenciando-se mutuamente. A investigação propõe-se a continuar analisando criticamente e problematizando o que acontece no campo de pesquisa, de acordo com as proposições teórico-metodológicas que embasam a intervenção. Pretendem continuar religando cultura e natureza ao transmutar energias sutis e revelar potencialidades que o humano desconhecia em si mesmo: novas capacidades de expressão, de comunicação, de intercâmbio e a extraordinária aptidão de superar seus próprios limites e dificuldades. Entretanto, é prudente continuar questionando se o que está sendo feito contribuirá com a produção de modos de coexistência que rompam com a alienação e promovam o cuidado consigo, com o outro e com o ambiente. Será que as intervenções e experimentações poderão despertar o desejo de um futuro melhor, enquanto transmuta-se os valores de uma Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

sociedade movida pela lógica consumista? Como continuar qualificando a pesquisa do ponto de vista da invenção de modos de coexistência que promovam o cuidado e a saúde coletiva? É preciso continuar a problematizar a atitude transformadora, bem como os próprios estudos e análises da Teatralidade Humana, reafirmando permanentemente a importância da autoanálise e de um saber pautado na ética e na criação de uma sociedade comprometida com o cuidado. Talvez, dessa forma, seja possível avançar um pouco mais clarificando propósitos e objetivos, entendendo melhor aquilo que está sendo feito ou que se pensa estar fazendo. A pesquisa tem gerado a convicção de que é preciso continuar duvidando das certezas para que um novo conhecimento e uma nova sociedade possam emergir.

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Ponta Delgada, Julho de 2015


142

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Toro, R. Biodanza. (2002). São Paulo: Editora Olavobrás.

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143

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Doutorada em Psicologia; Professora auxiliar convidada na Escola Superior de Enfermagem da Cruz

Vermelha Portuguesa de Oliveira de Azeméis, Rua da Cruz Vermelha, 3720-126 Oliveira de Azeméis, Portugal. E-mail: anatorres@esenfcvpoa.eu 2

Mestre em Psicologia da Saúde e Reabilitação Neuropsicológica; Psicóloga estagiária na Escola Superior

de Enfermagem da Cruz Vermelha Portuguesa de Oliveira de Azeméis, Rua da Cruz Vermelha, 3720-126 Oliveira de Azeméis, Portugal. E-mail: tania.asc@ua.pt 3

DESE em Enfermagem de Saúde Materna e Obstetrícia; Professora auxiliar convidada na Escola

Superior de Enfermagem da Cruz Vermelha Portuguesa de Oliveira de Azeméis, Rua da Cruz Vermelha, 3720-126 Oliveira de Azeméis, Portugal. E-mail: sarapereira@esenfcvpoa.eu

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

CONTEXTO: A transição e adaptação para o ensino superior é uma situação desafiante, que envolve diferentes mudanças, podendo contribuir para o desenvolvimento

de

distress

psicológico

nos

estudantes.

É

assim

recomendado o apoio psicológico neste contexto, com atividades de prevenção e remediativas. OBJETIVO(S): O objetivo deste trabalho consiste em apresentar atividades de avaliação, de prevenção e de remediação adotadas pelo Gabinete de Apoio ao Estudante (GAE), com base no que tem sido defendido teoricamente e empiricamente validado. Estas atividades de intervenção tiveram

como

principal

objetivo

a

promoção

da

saúde

mental

da

comunidade académica e da comunidade envolvente. METODOLOGIA: Os participantes das iniciativas do GAE foram estudantes, colaboradores

e

um

grupo

escolar

da

comunidade

envolvente.

Os

instrumentos utilizados foram questionários de avaliação de necessidades, questionários de avaliação de satisfação, questionários de avaliação do nível de conhecimentos e questionários de monitorização do estado psicológico e físico. Na totalidade foram realizadas 11 atividades tendo sido utilizados procedimentos distintos com os diferentes participantes. RESULTADOS: Através da avaliação efetuada foi possível identificar necessidades de apoio em vários estudantes. Os resultados obtidos com as diferentes atividades de prevenção e promoção da saúde indicam um nível de satisfação de “Bom” ou “Muito Bom” entre 82% e 94% dos participantes. CONCLUSÕES:

Podemos

concluir

que

as

atividades

de

intervenção

desenvolvidas pelo GAE têm contribuído para a promoção da saúde mental da

comunidade

académica

e

envolvente.

Implicações

futuras

são

apontadas. Palavras-Chave: Ensino Superior; Apoio Psicológico; Gabinete de Apoio ao Estudante; Saúde Mental.

CONTEXTO: La transición y la adaptación a la educación superior es una situación difícil, que involucra a diferentes cambios y pueden contribuir al desarrollo de los trastornos psicológicos en los estudiantes. Se recomienda

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como apoyo psicológico en este sentido, las actividades preventivas y correctivas. OBJETIVO(S): El objetivo de este estudio es presentar las actividades de evaluación, prevención y remediación adoptadas por la Oficina de Apoyo al Estudiante (OAE), en base a lo que se ha defendido teórica y empíricamente validados. Tales actividades de intervención tenían como objetivo principal la promoción de la salud mental de la comunidad académica y la comunidad circundante. METODOLOGÍA: Los participantes de las iniciativas OAE eran estudiantes, empleados y una escuela en la comunidad circundante. Los instrumentos utilizados fueron cuestionario de evaluación de necesidades, cuestionarios de evaluación de la satisfacción, Cuestionarios de evaluación el nivel de conocimiento y cuestionarios de seguimiento del estado psicológico y físico. En total, 11 actividades se llevaron a cabo con diferentes procedimientos fueron utilizados con diferentes participantes. RESULTADOS: Mediante la evaluación realizada se identificaron las necesidades de apoyo en diversos estudiantes. Los resultados obtenidos con las diferentes actividades de prevención y promoción de la salud indican un nivel de satisfacción de "buena" o "muy buena" entre el 82% y el 94% de los participantes. CONCLUSIONES: Podemos concluir que las actividades de intervención desarrolladas por OAE han contribuido a la promoción de la salud mental de la comunidad académica y circundante. Implicaciones futuras son indicadas. Descriptores: Educación Superior; Apoyo psicológico; Oficina de Apoyo al Estudiante; Salud mental.

BACKGROUND: The transition and adaptation to higher education is a challenging situation, which involves different changes and may contribute to the development of psychological distress in students. It is recommended psychological support in higher education with preventive and remediative activities. AIM: The objective of this study is to present evaluation, preventive and remediative activities adopted by the Student Support Office (SSO), based on what has been advocated theoretically and empirically validated. Such Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

intervention activities had as main objective the promotion of mental health of academic and surrounding community. METHODS: Participants of the SSO initiatives were students, employees and a group of students from surrounding community. The instruments used were psychological needs assessment questionnaire, satisfaction assessment

questionnaires,

evaluation

questionnaires

the

level

of

knowledge and psychological and physical state monitoring questionnaires. In total 11 activities were realized with different procedures and different participants RESULTS: Through the evaluation performed were identified support needs in various students. The results obtained with the different prevention and health promotion activities indicate a level of satisfaction of "Good" or "Very Good" between 82% and 94% of participants. CONCLUSIONS: We can conclude that the intervention activities developed by SSO have contributed to the mental health promotion of academic and surrounding community. Future implications are pointed out. Keywords: Higher Education; Psychological Support; Office of Student Support; Mental Health.

A adaptação ao contexto universitário é um processo complexo e multidimensional sendo preditor do rendimento/sucesso académico, do desenvolvimento psicossocial e da saúde e bem-estar do estudante (Clarke, 1998; Pessoa, 2010). A transição e adaptação para o ensino superior é uma situação desafiante, que envolve diferentes mudanças, podendo contribuir para o desenvolvimento de distress psicológico, nomeadamente ansiedade e depressão (Costa & Leal, 2008; Ferraz & Pereira, 2002). Os desafios do contexto educativo estão na base de várias dificuldades psicossociais que têm diversas repercussões nomeadamente na adaptação, aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes universitários, especialmente no primeiro ano (Diniz & Almeida, 2006). Os efeitos do desafio desta transição dependem de fatores como os seguintes: a história de desenvolvimento dos estudantes e as expectativas iniciais no ingresso na universidade (Almeida et al., 2003), bem como, o curso ter sido a primeira opção, a mobilidade de residência e o apoio percebido pelos estudantes (Costa & Leal, 2008). Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Existem também diversos fatores de risco que podem ser encontrados no ensino superior e que podem contribuir para o desenvolvimento de psicopatologia nos estudantes, tais como: hábitos alimentares; consumo excessivo de álcool, tabaco e outras drogas; suicídio; ausência de exercício físico; comportamento sexual de alto risco; vitimização sexual; problemas na identidade sexual ou relações problemáticas; condição socioeconómica baixa; e stress (Bennet, 2002). Estes dados indicam que é imprescindível a implementação e desenvolvimento

de

programas

preventivos

que

promovam

o

desenvolvimento pessoal e profissional dos estudantes (Serpa & Santos, 2001). Os serviços de apoio psicológico no ensino superior devem ter como principal objetivo proporcionar aos estudantes a promoção, manutenção e melhoria da saúde e do bem-estar (RESAPES, 2012). É assim recomendado o apoio psicológico neste contexto, com atividades de prevenção e remediativas que permita intervir no combate às causas explicativas do insucesso académico (Pereira et al., 2006). Assim, garantir um processo de transição e adaptação de qualidade e um forte investimento na promoção de estilos de vida saudáveis nos estudantes deverão ser preocupações constantes das instituições de Ensino Superior. O objetivo deste trabalho consiste em apresentar atividades de avaliação, de prevenção e de remediação adotadas pelo Gabinete de Apoio ao Estudante (GAE) da Escola Superior de Enfermagem da Cruz Vermelha Portuguesa de Oliveira de Azeméis (ESEnfCVPOA), com base no que tem sido defendido teoricamente e no que tem sido empiricamente validado. Estas atividades têm como principal objetivo a promoção da saúde mental da comunidade académica, bem como, de forma menos frequente, da comunidade envolvente.

As iniciativas do GAE tiveram como participantes estudantes (de licenciatura e das pós-licenciaturas de especialização); colaboradores (docentes e não docentes) e um grupo escolar do ensino secundário do meio envolvente da escola. Os instrumentos utilizados foram os seguintes: Questionários de avaliação de necessidades (nomeadamente questionários de despiste do sofrimento emocional), Questionários de avaliação de Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

satisfação, Questionários de avaliação do nível de conhecimentos, Escala tipo Likert para avaliação subjetiva da descontração sentida, Registo de automonitorização das Pulsações por Minuto (PPM), Questionário de Saúde do

Paciente

-

PHQ-9 (Kroenke, Spitzer, & Williams,

2001;

versão

portuguesa: Torres, Pereira, & Monteiro, 2013), Termómetros Emocionais (Mitchell, 2007; versão portuguesa: Pereira & Teixeira, 2011), Questionário de Assertividade, Escala de Auto-Eficácia Geral Percebida (Schwarzer & Jerusalem, 1995; versão portuguesa: Araújo & Moura, 2011), Questionário de Gestão do Tempo Académico (Veiga & Melim, 2007), e Inventário de Estratégias de Estudo (Leal & Almeida, 1993). As atividades de intervenção realizadas pelo GAE com vista à promoção da saúde mental foram as seguintes: sessões de relaxamento; rastreios do sofrimento emocional; consultas de psicologia; seminários de promoção da saúde sobre as temáticas Gestão do Tempo, Gestão do Stress, Métodos de Estudo e Comunicação; e ações de educação e promoção da saúde com base em dias comemorativos nacionais e mundiais sendo realizadas ações no Dia Mundial da Sida e no Dia Municipal das Escolhas Saudáveis. Na totalidade foram realizadas 11 atividades, 1 dirigida para a comunidade externa envolvente, 3 dirigidas para os colaboradores e 7 dirigidas para os estudantes. Foram utilizados procedimentos distintos para os

diferentes

públicos-alvo.

No

quadro

1

serão

apresentados

os

instrumentos utilizados e os participantes consoante as atividades de intervenção realizadas. Quadro 1. Intervenção, instrumentos e participantes. Intervenção Sessões de Relaxamento

Participantes Estudantes

X

Rastreio do Sofrimento Emocional

Consultas de Psicologia

Gestão do Tempo

Gestão do Stress

Métodos de Estudo

X

X

X X

X

X

X

X

Colaboradores

de de de de

Dia Mundial da SIDA

X X

Dia Municipal das Escolhas Saudáveis

X X X

Comunidade Instrumentos Questionários avaliação necessidades Questionários avaliação

Comunicação

X

Ponta Delgada, Julho de 2015

X


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

satisfação Questionários de avaliação do nível de conhecimentos Escala tipo Likert para avaliação subjetiva da descontração Registo de automonitorização das PPM PHQ-9

X X X X

Termómetros Emocionais Questionário de Assertividade Escala de AutoEficácia Geral Percebida Questionário de Gestão do Tempo Académico Inventário de Estratégias de Estudo

X X X X X

As sessões de relaxamento tiveram os seguintes objetivos: que os estudantes se sentissem mais relaxados e descontraídos para a realização das avaliações; que realizassem uma avaliação mais fidedigna dos conhecimentos reais dos estudantes, não influenciada por variáveis como a ansiedade; que os estudantes conseguissem controlar a sua ativação fisiológica perante situações indutoras de stress compreendendo a diferença no seu estado de tensão antes e após o efeito do relaxamento. O método utilizado

nas

sessões

de

relaxamento

foi

o

relaxamento

muscular

progressivo de Jacobson. Antes e após cada sessão de relaxamento foi avaliado o nível de descontração subjetivo através do preenchimento de uma escala tipo Likert, as PPM através de um registo de automonitorização e as médias das notas obtidas pelos estudantes que realizaram e não realizaram relaxamento. O rastreio do sofrimento emocional foi realizado aos estudantes através do preenchimento dos questionários de avaliação psicológica (Questionário de Saúde do Paciente - PHQ-9, Termómetros Emocionais, Questionário de Assertividade e a Escala de Auto-Eficácia Geral Percebida). Após a análise dos resultados dos questionários contactou-se os estudantes cujos resultados nos questionários indicassem níveis elevados de sofrimento emocional, disponibilizando apoio psicológico do GAE. As Ponta Delgada, Julho de 2015


150

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

consultas

de

psicologia

tiveram

como

objetivo

fornecer

apoio

psicopedagógico e psicológico em diversas áreas tais como dificuldades de adaptação, stress e ansiedade aos exames, perturbações de humor, perturbações de sono, entre muitas outras. O seminário de Gestão do Tempo teve como objetivos definir metas e prioridades a curto, médio e longo prazo; identificar os sinais indicativos de uma má organização do tempo; gerir o tempo de forma mais eficaz com o intuito de alcançar os objetivos previamente definidos e o sucesso académico; e treinar técnicas para uma gestão eficaz do tempo. Foi utilizado o Questionário de Gestão do Tempo Académico em 2 momentos distintos: no seminário e 2 meses após a realização deste com o intuito de avaliar se houve alguma alteração na forma como os participantes gerem o seu tempo. O seminário de Métodos de Estudo teve como principal objetivo dotar os estudantes de estratégias de estudo mais eficientes possibilitando o aumento do seu sucesso académico. No fim do seminário foi entregue aos estudantes o Inventário de Estratégias de Estudo com o intuito de compreender as estratégias de aprendizagem dos estudantes. O seminário de Gestão do Stress teve como objetivos

transmitir/aprofundar

conhecimentos

sobre

a

temática,

familiarizar os participantes acerca dos sinais e sintomas do stress, familiarizar os participantes sobre os riscos de indução de stress da sua área profissional e dotar os participantes de competências de gestão do stress. O seminário de Comunicação teve como objetivos transmitir informação sobre comunicação, demonstrar a importância da comunicação nas relações interpessoais e na área da enfermagem, informar sobre as barreiras à comunicação e os estilos de comunicação e indicar estratégias para um estilo de comunicação assertivo. No seminário de Comunicação realizado para o grupo escolar da comunidade envolvente foi aplicado um questionário de avaliação do nível de conhecimentos para analisar se os conhecimentos

transmitidos

no

seminário

foram

adquiridos

pelos

estudantes. O Dia Mundial da Sida teve como objetivos a discussão e divulgação sobre o dia, sobre os dados recentes de incidência da SIDA e sobre as novas medidas a serem tomadas para controlar a doença. Na comemoração deste dia foi ainda realizada uma atividade prática de colocação do preservativo feminino e masculino num modelo anatómico, revelando a importância e desmistificando o uso do preservativo feminino. Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

O Dia Municipal das Escolhas Saudáveis teve como objetivos sensibilizar para este dia comemorativo e promover estilos de vida saudáveis.

Os resultados obtidos com as diferentes atividades de intervenção indicam um nível de satisfação de “Bom” ou “Muito Bom” entre 82% e 94% dos participantes. Com a avaliação de necessidades efetuada foi possível identificar necessidades de apoio em vários estudantes tendo-se verificado, com o rastreio

do

sofrimento

emocional,

que

a

maioria

dos

estudantes

demonstram alguma sintomatologia depressiva, ansiosa e de sofrimento emocional e a necessidade de melhoria de competências de assertividade. Os resultados das sessões de relaxamento indicam que os estudantes apresentaram um aumento estatisticamente significativo da descontração subjetiva e uma diminuição estatisticamente significativa do número de PPM. Relativamente ao seminário de Gestão do Tempo, os resultados indicam que as estratégias transmitidas no seminário foram particularmente úteis para aumentar o planeamento a curto-prazo das atividades dos participantes. Com a realização do seminário de Métodos de Estudo os resultados indicam que os estudantes do sexo feminino têm uma melhor capacidade na planificação das tarefas de estudo. Por último, e em relação ao seminário de Comunicação, a avaliação dos conhecimentos indica que os participantes conseguiram adquirir as competências transmitidas no seminário.

Os resultados do rastreio do sofrimento emocional demonstram uma necessidade

de

apoio

sentida

pelos

estudantes,

nomeadamente

na

sintomatologia depressiva e ansiosa, e na necessidade de melhoria de competências de assertividade, sendo estes dados comuns ao que se tem verificado em estudos anteriores com estudantes de ensino superior (Costa & Leal, 2008; Ferraz & Pereira, 2002). Após os resultados obtidos com o rastreio de sofrimento emocional, os estudantes que revelaram necessidade Ponta Delgada, Julho de 2015


152

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

de apoio na sintomatologia acima referida, foram encaminhados para o GAE,

sendo

disponibilizado

apoio

psicológico

para

as

necessidades

encontradas. Os resultados encontrados corroboram a importância e pertinência dos serviços de apoio psicológico e de como a atuação ao nível preventivo e remediativo tem um impacto positivo no sucesso escolar e bem-estar dos estudantes, demonstrados pelos resultados positivos obtidos com as sessões de relaxamento, seminário de Gestão do Tempo e Comunicação. O que vai de encontro ao que é defendido por autores como Pereira e colaboradores (2006). Os participantes demonstraram elevada satisfação com as atividades realizadas, demonstrando a necessidade e benefícios da realização de atividades neste contexto. Seria de interesse que futuramente as atividades fossem realizadas para um maior número de indivíduos da comunidade académica, bem como, realizar um maior número de atividades para a comunidade envolvente. Seria ainda pertinente monitorizar os ganhos com estas atividades a médio e longo-prazo.

As atividades de prevenção e remediativas desenvolvidas pelo GAE têm contribuído para a educação e promoção da saúde da comunidade académica e comunidade envolvente demonstrando a importância dos serviços de apoio psicológico no ensino superior. Os graus de satisfação encontrados reforçam a pertinência de se continuarem a realizar atividades de promoção da saúde de toda a comunidade académica e da extensão à comunidade envolvente.

O contributo deste trabalho permite compreender a importância de identificar e intervir celeremente nas necessidades de apoio dos estudantes, facilitando a adaptação ao ensino superior e promovendo a saúde mental. Os resultados verificados com as atividades de intervenção realizadas permitem observar o seu impacto na prevenção e intervenção em problemáticas resultando numa melhoria de adaptação e bem-estar dos

Ponta Delgada, Julho de 2015


153

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

estudantes, reforçando a pertinência e necessidade de uma realização contínua destas atividades nas instituições de ensino superior.

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Veiga, F. & Melim, A. (2007). Questionário de Gestão do Tempo Académico. Psicologia, Educação e Cultura, 11(2), 329 – 341.

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Bacharel em Enfermagem, Enfermeira Assistencial, Sociedade Beneficente Alemã- Residencial Lar

Recanto Feliz, Rua Heitor Bariani 124, CEP: 03080-020 SP, Brasil. E-mail: gabriela.ugeda1@gmail.com 2

Mestre em Enfermagem; Professora Instrutora do Curso de Graduação em Enfermagem da Faculdade

de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, Alameda Barros, 418 - apto191, Santa Cecília, CEP 01232-000, São Paulo - SP, Brasil. E-mail: araujoleite.juli@gmail.com

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

CONTEXTO: A RPDI destaca-se como espaço de luta coletiva pelo direito dos idosos, através de reuniões sistemáticas destes com profissionais de diferentes instituições e pela articulação para a implantação de políticas públicas. OBJETIVO: compreender o imaginário coletivo de idosos que participam de encontros organizados pela concepção de Rede de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa (RPDI), sobre o envelhecimento. METODOLOGIA: Trata-se de pesquisa qualitativa, pautada no método psicanalítico. Os participantes da RPDI foram convidados para entrevista coletiva, na qual foi utilizado o Procedimento do Desenho-Estória com Tema. RESULTADOS: A análise dos desenhos e narrativas possibilitou reconhecer nove campos de sentido afetivo-emocionais denominados “Desamparo”, “Você é o velho que plantou”, “Lutei, lutei e continuo tendo que correr atrás”, “Fatalidade”, "Vou roubar sua juventude”, “Receita da boa velhice”, “O velho é o outro”, "A união faz a força" e "A vida se dá em relação". CONCLUSÕES: apontaram

Os

caminhos

dinâmicas

que

heterogêneas

levaram no

aos

campos

imaginário

de

coletivo

sentido sobre

o

envelhecimento. Foram identificadas contradições inerentes ao ser idoso. Apesar do desamparo, da luta contínua e persistente, das fatalidades, da negação da velhice, está também presente a força que a experiência de vida lhes dá e a motivação que encontram na união com seus pares para enfrentar os desafios da vida e conquistar seus direitos. Palavras-Chave: Envelhecimento; Psicanálise; Saúde Coletiva.

CONTEXTO: La RPDI se destaca como espacio de lucha colectiva por el derecho de los mayores, a través de reuniones sistemáticas de estos con profesionales de diferentes instituciones y por la articulación para la implementación de políticas públicas. OBJETIVO: comprender el imaginario colectivo de mayores que participan de encuentros organizados por la concepción de Red de Protección y Defensa

de

la

Persona

Mayor

(RPDI),

sobre

el

envejecimiento.

METODOLOGIA: Es una investigación cualitativa, siguiendo el método Ponta Delgada, Julho de 2015


156

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

psicoanalítico. Se les invitaron a los participantes de la RPDI a una entrevista colectiva, en la que se utilizó el Procedimiento del Dibujo-Historia con Tema. RESULTADOS: El análisis de los dibujos y narrativas posibilitó reconocer nueve campos de sentido afectivo-emocionales denominados “Desamparo”, “Eres el mayor que plantaste”, “Luché, luché y sigo teniendo que pelear”, “Fatalidad”, "Robaré tu juventud”, “Receta de la buena vejez”, “El mayor es el otro”, "La unión crea la fuerza" y "La vida pasa en relaciones". CONCLUSIONES: Los caminos que levaron a los campos de sentido apuntaron dinámicas heterogéneas en el imaginario colectivo sobre el envejecimiento. Se identificaron contradicciones inherentes al hecho de ser mayor. A pesar del desamparo, de la lucha continua y persistente, de las fatalidades, de la negación de la vejez, también presente está la fuerza que la experiencia de vida les da y la motivación que encuentran en la unión con sus pares para enfrentar los desafíos de la vida y conquistar sus derechos. Descriptores: Envejecimiento; Psicoanálisis; Salud Pública.

BACKGROUND: The RPDI provides a group forum to fight for the rights of the elderly, through regular meetings with professionals from different institutions and by coordinating the implementation of public policies. AIM: elucidate the collective imagination of elderly participants of meetings held by the Network for the Protection and Defense of the Elderly (RPDI) on aging. METHODS: This qualitative study was based on the psychoanalytical method. The participants of the RPDI were invited to a group interview in which

the

Procedure

of

Drawing-Story

with

Theme

was

employed.

RESULTS: The analysis of drawings and narratives allowed the new fields of affective-emotional feelings to be identified called “Helpless”, “You are the elder you sowed”, “I struggled, struggled and still strive”, “Fatality”, “I will steal your youth”, “Recipe for successful aging”, “Other people are old”, “Unity yields strength” and “Life is relationships”. CONCLUSIONS: The pathways which led to the fields of feeling revealed heterogeneous

dynamics

in

the

collective

imagination

about

aging.

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Contradictions inherent to being elderly were identified. The helplessness, relentless struggle, fatalities and denial of aging were accompanied by strength from life experience and motivation from meetings with peers to deal with life´s challenges and to fight for one´s rights. Keywords: Aging; Psychoanalysis; Public Health.

O envelhecimento da população é um fenomeno já consolidado nos países desenvolvidos, e recente em países em desenvolvimento como o Brasil (Word Health Organization [WHO], 1982). A faixa etária que mais cresce atualmente é aquela que abrange pessoas com 60 anos ou mais. No Brasil, segundo as projeções das Nações Unidas, entre 2000 e 2050, a população idosa passará de 7,8% para 23,6% (Giacomin, 2012). A redução da população jovem e o aumento na proporção de idosos gera uma dupla demanda, em termos de políticas públicas, traduzida em dilemas para os gestores e dificuldades para quem envelhece e ainda não tem seus direitos humanos e sociais garantidos (Giacomin, 2012). O rápido envelhecimento em países emergentes ultrapassa o desenvolvimento econômico dessas regiões, ao passo que acompanha alterações na estrutura e no papel das famílias. As necessidades econômicas, somadas a outros fatores, geram famílias menores, nas quais, é comum o jovem migrar para as grandes cidades a fim de estudar e trabalhar e a mulher ganha força no mercado de trabalho. A família contemporânea já não é mais sinônimo de cohabitação entre pai, mãe, filhos e avós. O que encontramos são infinitas possibilidades de arranjos por laços sanguíneos e/ou afinidades, tantos quanto forem possíveis recriar (Giacomin, 2012). Diante

disso,

não

cabe

falar

em

envelhecimento

de

forma

homogênea. Os estudos ressaltam que grupos sociais distintos vivenciam de forma peculiar essa fase e apontam, portanto, que não existe um único modo de envelhecer (Debert, 2013). As pessoas envelhecem conforme o curso de suas vidas e a determinação social das doenças, as quais expressam não só suas escolhas ao longo dos anos, mas também suas oportunidades.

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Essa diversidade encontrada nas formas de compreender a velhice abre espaço para novas concepções, nas quais idosos aparecem como seres ativos, capazes de enfrentar positivamente a experiência da senilidade (Debert, 2013). Nesse cenário, destacam-se organizações como a Rede de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa (RPDI, 2012), um espaço de luta coletiva por melhores condições de vida, no âmbito de políticas públicas, mantido e promovido por idosos. A RPDI iniciou suas atividades em 2009, na região central do Município de São Paulo, impulsionada por profissionais de saúde, atuantes na atenção primária, os quais se deparavam com situações de violência institucional contra idosos em situação de vulnerabilidade social (RPDI, 2012). A RPDI

tem seus princípios pautados na concepção da Rede

Nacional de Defesa da Pessoa Idosa (RENADI), e conta com a participação de representantes do poder público, sociedade civil organizada, movimentos sociais,

universidades,

organizações

não

governamentais

e

cidadãos

interessados (RPDI, 2012) . A prática assistencial em unidades de saúde nos revela diversidade na forma de participação dos idosos nas atividades promovidas por estes serviços.

Muitos

frequentam

apenas

as

consultas

médicas,

outros

participam de algumas atividades como grupos de caminhada e passeios culturais, e há também aqueles que participam ativamente, buscando conquistas coletivas. Participamos de algumas conferências da RPDI e chamou-nos atenção a enfâse com que os participantes abordavam quentões sobre cidadania, discutindo direitos e deveres dos idosos. Essa observação nos motivou à buscar, no presente estudo, compreender o imaginário coletivo desses idosos sobre o envelhecimento.

Este estudo caracteriza-se como pesquisa empírica com enfoque qualitativo, por meio do método psicanalítico, em entrevista grupal com idosos participantes da RPDI, da região Centro-Oeste de São Paulo. Baseouse no conceito de "imaginário coletivo", desenvolvido por Aiello-Vaisberg (1999) numa tentativa de resgatar o substrato afetivo-emocional das Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

manifestações simbólicas do grupo em questão. Ou seja, um conjunto de símbolos, costumes ou lembranças que tenham um significado específico para o sujeito e comum para aqueles que fazem parte do grupo estudado (Ávila, Tachibana, & Aiello-Viasberg, 2008). Considerando que o objeto de estudo é o imaginário coletivo sobre “ser idoso”, a abordagem mais adequada é a qualitativa, descrita por Minayo (1999) como: “...aquelas capazes de incorporar a questão do significado e da intencionalidade como inerente aos atos, às relações, e as estruturas sociais, sendo essas últimas tomadas tanto no seu advento quanto na sua transformação, como construções humanas significativas” (p. 10). Baseando-se em Freud (1923), Herrmann (1979) define a psicanálise primariamente como método de pesquisa, podendo também ser usado como forma de tratamento ou como um tipo específico de abordagem de fenômenos sociais e culturais. Aiello-Vaisberg (1999) tem destacado a radicalidade do método psicanalítico, que compreende que toda e qualquer manifestação humana é sempre dotada de múltiplos sentidos afetivoemocionais. O método psicanalítico caracteriza-se pelo movimento de abertura, construção e participação (Silva, 1993), ou seja, pela interação de dois movimentos: associação livre e atenção flutuante. A associação livre é uma das regras constitutivas do método investigativo freudiano, segundo a qual a pessoa é convidada a dizer tudo que lhe vem a cabeça, de forma o mais livre possível e sem uma seleção prévia (Laplanche & Pontalis, 1992). A proposta é que, mesmo aquilo que não se apercebe, mas que emerge a partir

do

inconsciente,

caracteriza-se

possa

ser

complementarmente

expressado. como

postura

A

atenção

flutuante

fenomenológica

de

abertura à comunicação emocional do sujeito (Laplanche & Pontalis, 1992) . Obtido parecer favorável do Comité de Ética em Pesquisa com Seres Humanos do Instituto de Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho, idosos participantes da RPDI foram convidados à participar de um encontro grupal, em dia e horário previamente agendado. Nove idosos atenderam ao convite e registraram sua anuência em Termo de Consentimento Livre e Esclarecido - TCLE. O encontro foi coordenado pelos pesquisadores; tutora, preceptoras e alunos; participantes do Programa de Educação pelo Trabalho para a Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Saúde - PET, de forma a constituir um grupo multiprofissional (psicologia, medicina, enfermagem, serviço social e fonoaudiologia). Utilizou-se o "Desenho-Estória com Tema", criado por Aiello-Vaisberb (1997, 1999) a partir do Desenho-Estória de Walter Trinca (1976), como recurso mediador da comunicação emocional. Após a apresentação inicial dos objetivos da pesquisa e preenchimento do TCLE convidamos os presentes à desenharem uma pessoa idosa e escreverem uma história sobre a figura desenhada. Quando todos terminaram, redistribuimos os desenhos-estórias, de forma tal que cada um apresentava e comentava outro desenho diferente do seu, pois os participantes não assinaram nem identificaram suas produções. Nosso objetivo foi investigar a pessoalidade coletiva (Goldmann, 1971) e não o imaginário pessoal de um indivíduo em particular. O encontro grupal teve a duração de duas horas e trinta minutos. Os desenhos e histórias

produzidos

no

encontro

foram

tomados

como

expressões

narrativas (Manna, 2013), pois contam, de forma figurativa e verbal, como os idosos imaginam os idosos, fazendo um recorte em uma parte significativa da dramática vivenciada. Entendemos que, evidentemente, nenhum registro pode dar conta do acontecer humano, que é sempre inerentemente complexo, multifacetado e dinâmico. Assim, o material produzido foi compartilhado, apreciado e comentado por todos. De forma livre e espontânea a conversação se estabeleceu girando em torno das ideias apresentadas pelos pesquisadores a partir dos desenhos-estórias e interpretações expressas por cada um. Posteriormente, cada pesquisador fez sua narrativa sobre o encontro grupal, contando como foi, o que sentiu e o que o impactou na experiência vivida. As várias narrativas foram transformadas em uma narrativa grupal, com a história que pôde ser contada pelo grupo de pesquisadores. O material produzido (desenhos-estórias e narrativa grupal) foi trabalhado pelos pesquisadores em múltiplos encontros e discussões, em um processo de interlocução, buscando coletivamente, os vários sentidos presentes, de forma à promover e abarcar a abertura para novos sentidos, registrando a riqueza presente nas discussões e interpretações.

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

O processo interpretativo coletivo do material foi compreendido como comunicação emocional inter-humana, que possibilitou a abertura para múltiplos

sentidos

e

olhares.

Deu-se

pela

emergência

de

diversas

associações livres e não pelo desvelamento de verdade única contida no material.

A

análise

dos

desenhos

e

das

narrativas

possibilitou-nos

reconhecer nove campos de sentido afetivo-emocionais, apresentados a seguir. Estes foram entendidos como interpretações que se organizam ao redor de um valor, regra ou crença sobre determinado assunto. O campo “Desamparo” se organiza ao redor da crença de que os idosos se sentem sem apoio, seja da família, da sociedade ou do poder público,

pela

falta,

carência

ou

insuficiência

de

atenção

às

suas

necessidades nesse momento da vida. Um desenho-estória apresenta uma idosa cadeirante em situação de rua. A discussão gira ao redor da invisibilidade da situação aos olhos da sociedade e da falta de resolutividade do poder público em atender as necessidades dessa senhora. Apresenta também um idoso cuidando de outro idoso, e aponta: “os filhos não podem cuidar, a família está muito ocupada, então um deles assume a tarefa de cuidar do outro”. “Você é o velho que plantou” é um campo que apresenta a crença de que o velho é o resultado de sua história, de como viveu ao longo das diversas idades, desde o nascimento, e que colherá na velhice o que plantou em outros momentos da vida. Vários

desenhos

retratam

a

linha

da

vida,

apresentando

o

nascimento, a infância, a adolescencia, a fase adulta e a velhice. Um outro, traz o desenho de uma árvore e explica que o idoso era uma semente, que depois de um tempo torna-se uma história de vida e conclui que a forma como cada um envelhece “depende do que fez na juventude”. O campo “Lutei, lutei e continuo tendo que correr atrás” expressa a idéia de que o idoso, mesmo tendo vivido uma longa história, com muitas lutas e algumas conquistas, não pode parar. Exemplificamos esse campo com a narrativa de uma das participantes que escreveu parte de sua história de vida, narrando dificuldades e oportunidades com as quais se deparou, tendo como desfecho a luta atual para sobreviver com uma aposentadoria insuficiente. Esta narrativa gerou uma rica discussão sobre Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

as dificuldades encontradas no envelhecimento, como o desamparo por parte da família e da sociedade, e os esforços diários desprendidos para superá-las. O que aqui denominamos “Fatalidade” é um campo organizado em torno da crença de que o idoso se sente impotente diante de situações que estão postas e que não vê possibilidade de mudança. A estória registrada por um participante evidencia a ideia: “ser idoso, independente de títulos e classe social deixa-nos as vezes apreensivas, pois independente da nossa história, do nosso jeito de ser e ver o mundo, ficamos com nossos sentimentos e emoções as vezes vulneráveis com tudo que acontece ao nosso redor. A falta de reconhecimento, apoio, entedimento por parte da família e das politicas públicas que não nos vê como patrimônio social desse pais..”. A regra fundamental presente no campo “Vou roubar sua juventude” é a crença de que o jovem dispõe de características e atributos que são desejados pelos idosos, e que, ficando próximo a pessoas jovens o velho terá energia, será ativo e participativo. A discussão que subsidiou esse campo surgiu do seguinte trecho de um desenho-estória: “Ela gosta de ser alegre, jovial, e estar sempre ao lado de pessoas mais jovens, talvez roubando a energia jovial das pessoas que a cerca..”. O campo “Receita da boa velhice” representa o imaginário de que seguindo uma receita de bem viver o idoso será feliz, saudável e ativo. Um dos desenhos ilustra uma tarde no parque, com um jardim e um personagem andando de bicicleta, trazendo na narrativa uma ideia próxima a receita do bom envelhecimento. A estória traz uma frase pronta, uma receita de bem viver. Seria uma mensagem para os mais jovens? Para nós, pesquisadores? “O envelhecer não deve ser uma preocupação pois é a lei natural da vida. Devemos nos preocupar sim em levar uma vida saudável, curtir o máximo

a

natureza,

pois

ela

tem

tudo

para

nos

dar...procurar

relacionamentos de amizade, pois eles nos tornarão mais uteis no dia a dia.”. Já o campo “O velho é o outro” baseia-se na concepção de que o idoso vê seus pares como velhos, negando sua própria condição de velhice. Esse campo surgiu no momento do convite, diante da recusa de uma idosa, Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

médica,

em

participar

da

pesquisa,

explicitando

indignação

e

descontentamento diante da proposta. Era como se o fato de ser um “profissional de saúde” o retirasse automaticamente do destino de ser idoso. Não temos como saber quantos outros deixaram de participar por não se considerar idoso. Em “A união faz a força”, permeia a crença de que a união e a relação com outros idosos fortalece e traz condições de enfrentar as adversidades da vida. Um desenho mostra duas cenas; uma com várias pessoas de mãos unidas, em circulo, em interação e a outra, com pessoas dispersas e isoladas. Foi construído para expressar a RPDI, evidenciando que juntos os idosos se fortalecem. No dia do encontro grupal, durante a conversação após apresentação desse desenho- estória, uma das idosas enfatiza “o velho precisa falar pelo velho”, reforçando que os idosos devem ser representados por idosos, pois estes têm vivências e experiências que propiciam aproximação real das singularidades e necessidades. O último campo reconhecido no material foi denominado “A vida se dá em relação” e se fundamenta na ideia de que o idoso se constitui pelas relações que estabelece ao longo da vida, com pessoas de sua faixa etária e com outras gerações. Algumas histórias abordaram a importância da família, das relações com outras pessoas, sejam jovens ou idosos. Uma das narrativas aponta: “Ser idoso é poder transmitir tudo que ao longo dos anos aprendemos e trocar fatos com a juventude e com outros idosos..”.

Os campos de sentido “Desamparo”, “Você é o velho que plantou”, “Lutei, lutei e continuo tendo que correr atrás” e “Fatalidade” referem-se à velhice

desamparada. Trata da vulnerabilidade

presente na velhice,

relacionada à grande parcela de idosos com carência ou insuficiência de apoio diante das necessidades decorrentes do envelhecer, seja da família, da sociedade ou do poder público. A mudança da estrutura familiar reflete nesta realidade e o papel de cuidador, culturalmente associado às mulheres, tendem a se organizar de outras formas, mudando por vezes o papel do próprio idoso, que em muitos casos assume o papel de cuidador e provedor. Alguns desenhos trouxeram a imagem de um idoso cuidando de outro.

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Os campos "Vou roubar sua juventude”, “Receita da boa velhice” e “O velho é o outro” se baseiam na concepção de negação e rejeição da condição do velho, remetendo à sentimentos ambivalentes do processo de envelhecer. Relaciona-se também com a idéia de responsabilidade única do individuo sobre seu caminho para o envelhecer. Os campos

"A união faz a força" e "A vida se dá em relação"

apresentam similaridade em relação à idéia de que a vida se dá em comunidade. Durante o processo interpretativo dos desenhos-estórias e nas discussões e conversação dos pesquisadores em torno do material produzido várias evidências reafirmam a importância da união entre os idosos para a conquista de seus direitos na sociedade, marcando sua posição, sua função e importância no mundo. Ao contrário dos campos relacionados às fragilidades, esse é um campo de força, de batalha, que se organiza ao redor da crença de que "ser idoso é participar e ser ativo". As narrativas expressam que a união e a relação com outros idosos fortalece e traz conhecimento. Além disso, o idoso percebe sua importância ao poder transmitir aos jovens o que aprendeu ao longo da vida, entendendo que essa interação (com outros idosos e com outras gerações) permite novas aprendizagens e abre novos horizontes. É a expressão da concepção de que a vida permite ao idoso constante aperfeiçoamento de experiências e conhecimentos. Goldfard (2006), aponta a "possibilidade de realizar investimentos afetivos que permitam pensar em projetos realizáveis" como uma das maneiras de enfrentar os sentimentos de desamparo. Salienta que para que isso seja possível, o idoso não pode estar só. É preciso "vincularidade", possibilidades de relações permanentes, renováveis e significativas que restaurem a autoestima, contemplem os desejos, exijam o cumprimento de deveres e o exercício de direitos. Que faça, enfim, de um cidadão idoso desabilitado, um cidadão pleno . Identificamos durante a entrevista grupal a vincularidade referida anteriormente, através do reconhecimento dos direitos e da reivindicação por políticas públicas mais eficientes e eficazes, sem esquecer de seu papel na conquista desse espaço, de sua cidadania.

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Os caminhos que nos levaram a estes campos de sentido apontaram dinâmicas heterogêneas e contradições inerentes ao ser idoso no imaginário coletivo dos idosos da RPDI. Apesar do desamparo, da luta contínua e persistente, das fatalidades, da negação da velhice, está também presente a força que a experiência de vida lhes dá e a motivação que encontram na união com seus pares para enfrentar os desafios da vida e conquistar seus direitos. Foi importante observar as características destes contornos e suas interpretações, diante da forma como cada integrante do grupo realizou a leitura dos desenhos e do desafio principal e da riqueza na construção de um olhar coletivo resultante do compartilhamento dos diversos pontos de vista.

Ainda com o importante desenvolvimento tecnológico e científico presente no setor da saúde, as práticas em saúde encontram diversas limitações para corresponder de forma efetiva às complexas necessidades de saúde de individuos e populações. Discussões sobre a humanização e a integralidade do cuidado tornam-se cada vez mais presentes e relevantes na busca por alternativas de organização dos sistemas de saúde de forma a corresponder às demandas. Essa pesquisa contribui potencialmente para sensibilização de profissionais envolvidos na atenção ao idoso para um olhar humanizado do ser idoso, propiciando

maior

empatia

por

questões

referentes

as

dificuldades,

peculiaridades, desafios, superações e potencialidades da terceira idade. Acreditamos ainda, que conhecer a influencia subjetiva do que experimenta o grupo participante da RPDI sobre uma realidade comum - “ser idoso”, poderá servir de referencial para futuras estratégias de ação, que visem o empoderamento desse grupo etário e a implementação de medidas motivadoras da participação de idosos em atividades coletivas.

Aiello-Vaisberg, T. M. J. (1997). Investigação de representações sociais. In: Trinca, W. (org.), Formas de investigação clínica em Psicologia. São Paulo:Vetor.

Aiello-Vaisberg, T. M. J. (1999). Encontro com a loucura: transicionalidade e ensino de psicopatologia. Tese de Livre Docência, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Ávila, C. F., Tachibana, M., & Aiello-Vaisberg, T. M. J. (2008). Qual é o lugar do aluno com deficiência? O imaginário coletivo de professores sobre a inclusão escolar. Paidéia, 18(1), 155-164.

Debert, G. G. (2013). Feminismo e velhice. In Dossiê: Velhice, família, Estado e propostas políticas, (pp. 15-38). Rio de Janeiro: SESC.

Giacomin, K. C. (2012). Envelhecimento populacional e os desafios para as políticas públicas. In Berzins, M., & Borges, M. C., Políticas públicas para um país que envelhece, (pp. 17- 44). São Paulo: Martinari.

Goldfarb, D. C. (2006). Velhices fragilizadas: espaços e ações preventivas. In Velhices: reflexões contemporrâneas (pp.73-85). São Paulo : SESC: PUC. .

Goldmann, L. (1977). La creation culturelle dans la societe moderne. Paris, Mdiations/Poche.

Herrmann, F. (1979). Andaimes do real: o método da psicanálise. (3ª ed.). São Paulo: Casa do Psicólogo.

Laplanche, J., & Pontalis, J. B. (1992). Vocabulário de psicanálise. São Paulo: Martins Fontes.

Manna, R. E. (2013). O imaginário coletivo de cuidadores de idosos na saúde pública: um estudo psicanalítico. Dissertação de Mestrado, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP.

Minayo, M. C. S. (1999). O desafio do conhecimento: Pesquisa qualitativa em saúde. (6ª. ed.). São Paulo: Hucitec/Rio de Janeiro: Abrasco.

Rede de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa. (2012). Propostas elaboradas pela comissão preparatória do primeiro encontro da rede social de defesa e proteção da pessoa idosa da região Centro. São Paulo: Autor.

Silva, M. E. L. (1993). Pensar em psicanálise. In Silva, M. E. L. (org.), Investigação e psicanálise (pp. 42-57). São Paulo: Papirus.

Trinca, W. (1976). Investigação clínica da personalidade: O desenho livre como estímulo de apercepção temática. Belo Horizonte: Interlivros.

Word Health Organization (1982). Plan internacional de accion sobre el envejecimento. Viena: Assembléia Mundial sobre el Envejecimento.

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Mestre;

Doutoranda

do

Programa

de

Pós-Graduação

em

Enfermagem

e

Biociências

PPGENFBIO/UNIRIO. Professora do Curso de Enfermagem,Universidade Severino Sombra, Rua Xavier Sigaud, 290, RJ, 22290-180. Tel. 982520346, Brasil. marileimts@hotmail.com 2

Pós-doutora pela USP-SP. Doutora em Enfermagem. Mestra em Educação. Professora Titular da

Universidade Federal Fluminense, UFF. Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Niterói, Tel. 991915906, Brasil. claudiamarauff@gmail.com 3

Doutora em Enfermagem pela Universidade de São Paulo. Professor Associado da Escola de

Enfermagem Alfredo Pinto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, UNIRIO, RJ, Tel. 992359016, Brasil. joppassos@hotmail.com

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CONTEXTO: Quando criamos estamos desenvolvendo expressões que recebemos do mundo. Além de constituir um recurso pedagógico, a arte propiciar ao sujeito, por meio de expressões poéticas ou imagens, um meio de reelaborar, refletir e desenvolver, pensamento crítico e reflexivo em relação à sua prática. OBJETIVO(S): O estudo teve por objetivo identificar potencialidades artístico/criativas baseados em percepções do cenário de aprendizagem do acadêmico de enfermagem. METODOLOGIA: Estudo exploratório de abordagem qualitativa, realizado em uma Universidade no Rio de Janeiro, Brasil. Amostra composta por dez acadêmicos do curso de enfermagem.

Meios de coleta de dados –

expressão poética, que permitiu capturar, significados e sentidos que emergiram das práticas e interações com a profissão. Com aprovação do CEP, atendendo aos requisitos da Resolução 466/12 do CNS/MS. RESULTADOS: Buscou-se ampliar sentidos para formar um mosaico de conhecimento sobre a experiência com o aprendizado da prática de enfermagem. A partir da imagem, percebe-se que reafirma a emoção, a sensibilidade e a criatividade no processo formativo que remete à prática reflexiva da enfermagem. As imagens analisadas falam do compromisso com a liberdade, a subjetivação da vida e do trabalho. CONCLUSÕES: Há demanda para educação artística no processo de formação

em

enfermagem,

decorrente

da

própria

sensibilidade

e

criatividade do acadêmico e das provocações poéticas, advindas dos diferentes cenários de aprendizagem prática. Para tanto, deve incluir melhoria na qualidade de sua saúde mental, vislumbrando oportunidades para poder implementar, executar e avaliar suas atividades assistenciais. Sua formação deve dialogar com pressupostos artísticos, destacando o sentir como forma de conhecimento. Palavras-Chave: Enfermagem; Arte; Aprendizagem; Emoções em Saúde

CONTEXTO: Al crear expresiones que están desarrollando recibir el mundo. Además de ser un recurso educativo, proporcionando el arte con el tema

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

por medio de expresiones o imágenes poéticas, un medio de volver a trabajar, reflexionar y desarrollar el pensamiento crítico y reflexivo en relación con su práctica. OBJETIVO(S): El estudio tuvo como objetivo identificar el potencial artístico / creativo basado en la percepción de la situación de aprendizaje académico de enfermería. METODOLOGÍA: Estudio exploratorio de abordaje cualitativo, realizado en una universidad de Río de Janeiro, Brasil. Muestra de diez estudiantes del programa de enfermería. Medios de recogida de datos - la expresión poética, lo que permitió la captura, los significados y sentimientos que surgieron de las prácticas e interacciones con la profesión. Con la aprobación del CEP, el cumplimiento de los requisitos de la CNS / MS Resolución 466/12. RESULTADOS: Él trató de ampliar sentidos para formar un mosaico de conocimientos acerca de la experiencia de aprendizaje de la práctica de enfermería. A partir de la imagen, podemos ver que reafirma la emoción, la sensibilidad y la creatividad en el proceso de aprendizaje que lleva a la práctica de la enfermería reflexivo. Las imágenes analizadas hablan de compromiso con la libertad, la subjetividad de la vida y el trabajo. CONCLUSIONES: Hay demanda de la educación artística en el proceso educativo de enfermería, que deriva de las provocaciones de sensibilidad y creatividad académica y poéticas, derivados de diferentes escenarios de aprendizaje práctico. Esto se hace incluyen la mejora de la calidad de su salud mental, viendo oportunidades con el fin de implementar, ejecutar y evaluar sus actividades de bienestar. Su formación debe comprometerse con supuestos artísticas, destacando la sensación como una forma de conocimiento. Descriptores: Enfermería; Arte; Aprendizaje; Emociones Salud.

BACKGROUND: When creating expressions that are developing receive the world. Besides being an educational resource, providing art to the subject by means of poetic expressions or images, a means of reworking, reflect and develop critical and reflective thinking in relation to their practice.

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

AIM: The study aimed to identify potential artistic / creative based on perceptions of the nursing academic learning scenario. METHODS: Exploratory study of qualitative approach, performed at a university in Rio de Janeiro, Brazil. Sample of ten students from the nursing program. Data collection means - poetic expression, which allowed capture, meanings and feelings that emerged from the practices and interactions with the profession. With approval of the CEP, meeting the requirements of the CNS / MS Resolution 466/12. RESULTS He sought to expand senses to form a mosaic of knowledge about the learning experience of nursing practice. From the picture, we can see that reaffirms the emotion, sensitivity and creativity in the learning process that leads to the reflective nursing practice. The images analyzed speak of commitment to freedom, the subjectivity of life and work. CONCLUSIONS: There is demand for arts education in the nursing education process, deriving from the sensitivity and academic creativity and poetic provocations, stemming from different scenarios of practical learning. This is done include improving the quality of their mental health, seeing opportunities in order to implement, execute and evaluate their welfare activities. Its formation must engage with artistic assumptions, highlighting the feeling as a form of knowledge. Keywords: Nursing; Art; Learning; Emotions Health

Na enfermagem, o cuidado do paciente é central e a suposição é a primeira e a última a justificar a presença da enfermagem. As ações de cuidar e de ajudar às pessoas em situações de riscos, de incapacidades, de falências, de condições precárias para prover o cuidado à saúde, asseguram significado e propósito à enfermagem, e assim ao campo de ação dos enfermeiros (Carvalho, 2015). Durante

a

graduação,

recomenda-se

que

o

estudante

de

enfermagem, seja colocado o mais precocemente em contato com a prática, posto que é a essência de sua formação. Esse momento tende a ser como repleto de incertezas, ameaças e inseguranças. O que o leva a se sentir despreparado

emocionalmente

para

prestar

assistência

e

acessar

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

intelectualmente os conhecimentos científicos de que precisa (Scherer, Scherer, & Carvalho, 2006). Torna-se indispensável valorizar a dimensão subjetiva e social em todas as práticas de atenção em saúde (Neves, Souza, Tavares & Vasconcelos, 2014), fortalecer o trabalho em equipe, fomentar a construção de autonomia e protagonismo dos sujeitos, fortalecer o controle social e valorizar os profissionais de saúde (Souza, Passos &Tavares, 2015). Na formação em enfermagem há fragilidades e potencialidades, contudo, a partir da percepção e da vivência do estudante é que se pode avaliar qualitativamente a efetividade dos cursos de graduação na formação de profissionais críticos-reflexivos. Apenas a visão crítica da realidade não basta para mudar, ao apontar as dificuldades e os possíveis problemas identificados no curso, mostram-se críticos quanto a sua experiência formativa; evidenciando, sua capacidade de reflexão a respeito da realidade (Canever et al., 2014). Na enfermagem, a formação deve proporcionar o processo dialético de ensino-aprendizagem. O que significa à adoção de um modelo educativo e de perspectivas pedagógicas que superem a mera transmissão de conhecimentos. (Lemos, Passos, 2012). Neste sentido ao ser oferecido a oportunidade de criar no cenário de aprendizagem, gera a possibilidade de transformar sua realidade. Frente à situação da expressão poética representa simbolicamente aquilo que gostaria que de fato acontecesse e, inconscientemente, expressa aquilo que mais lhe afeta, bem como aquilo que nem percebe que o faz sofrer. A Arte, além de constituir um recurso pedagógico, pode propiciar por meio da imagem, de expressões poéticas, um meio de reelaborar, refletir e desenvolver, um pensamento crítico em relação à sua prática. (Alves, Cogo, 2014). Através da gravura ocorre a inspiração simples, como efeito daquilo que a vida carrea em si, expressando um sentimento poético, através de imagens, mesmo contendo multiplicidade de elementos individuais é a materialidade da linguagem que a cria. É uma exigência de criação, só se manifesta a si mesma ali onde a criação é possível (Bergson, 2005). A imaginação consiste num instrumento para a transformação das práticas. Desmistifica os mistérios que justificam uma definição formal do Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

papel profissional, desconstrói mitos que legitimam a terapia e o cuidado como um tipo de conhecimento específico. É subjacente a todos os processos perceptuais e cognitivos, e tudo que conhecemos é transmitido através de imagens psíquicas. Já a imagem não é só um produto da percepção do real, é idêntica a sua significação (Barthes, 2007). A expressão pela arte implica exercitar as mais diferentes formas de ação, como a imaginação, a própria arte, a ciência, a tecnologia, o sentimento

e

a

emoção.

Assim

temos

por

objetivo

identificar

potencialidades artístico/criativas baseado em percepções do cenário de aprendizagem do acadêmico de enfermagem.

Pesquisa com abordagem interpretativa e exploratória, de natureza qualitativa, interação e compreensão se dá por aproximação, exercitando a disposição de olhares por vários ângulos (Minayo, 2005). Realizada na Universidade Severino Sombra, Vassouras/RJ. Foram participantes do estudo dez estudantes do curso de graduação em enfermagem, que se encontrava em diferentes momentos de prática, do quarto ao oitavo período do curso. Meios de coleta de dados – expressão poética. O recurso artístico, disponível através da expressão poética, permitiu capturar significados e sentidos que emergem da prática e de interações com a profissão. Enquanto atividade acadêmica a utilização de recursos

criativos

e

artísticos,

deve

se

constituir

num

instrumento

transformador, não deve ter a intenção apenas de facilitar o aprendizado, mas deve servir como instrumento recorrentemente, para propiciar que professores e alunos discutam as questões mais inquietantes do ser humano (Cabral, 2004). instrumento utilizado foi estruturado em uma folha impressa contendo

a

seguinte

questão:

procure

expressar

experiências vivenciadas em sua prática acadêmica.

de

forma

poética

Informou-se aos

participantes que tinham a liberdade de não atender à questão ou de respondê-la da maneira que desejassem. Uma das preocupações da pesquisa foi a de não interferir, nem indagar ou perguntar a interpretação acerca da produção artística do sujeito.

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Como referencial teórico, recorremos aos estudos relativos à fluidez a partir da Teoria das Estranhezas, proposta pelo filósofo Ued Martins Manjud Maluf (2002). Para a interpretação da expressão poética, que permite capturar significados e sentidos que emergem da prática e de suas interações, sobretudo, da sua vivência em lugares institucionais outros, que não os seus. Recorre-se à Teoria das Estranhezas, pelo fato de ser considerada uma alternativa conceitual, que enseja novas perspectivas teóricas, como as unidades fluidas, mosaicos de isomorfos – permitindo falar-se de tempo e espaço –, em que a fluidez representa a busca de uma sensibilidade perdida, aquela que nunca se fecha. Para este autor, a fluidez nunca se completa e o olhar é quem define esse movimento, o que não existe pode ser criado. Buscamos

ampliar

os

sentidos

para

formar

um

mosaico

de

conhecimento sobre a experiência. Nesse sentido, não foram agrupados dados em ‘categorias’, posto que o que estamos buscando são as estranhezas e não as semelhanças de sentidos. Para compor a análise destacamos imagens, que evidencia por sua utilização, substitutos para elementos que expressarem o que pensam, sabem e sentem aspectos esses resultantes de suas experiências na prática acadêmica

isomorfos.

O

contexto

do

desenho,

comprometido

e

direcionado à formação profissional, como um ‘mosaico de isomorfos’. Optamos por analisar apenas o material obtido que apresenta ‘expressão poética’ através de desenho – imagem. O estudo atendeu as especificações da Resolução do Ministério da Saúde nº466/12 e foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa sob o nº 0076/2009-02. Artigo extraído da dissertação de mestrado “O olhar sobre a prática na construção da identidade do enfermeiro: imagem do estranhamento dos novos cenários de aprendizagem”, apresentada a Universidade Federal Fluminense.

Após selecionar o material em que os estudantes utilizaram como recurso artístico a linguagem poética, se expressando através de desenhos, procedemos à análise da imagem capturada pela atividade, sob a luz da Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Teoria

das

Estranhezas.

Procurou-se

lançar

olhares

sobre

os

estranhamentos nos diferentes cenários de aprendizado vivenciados pelos estudantes de enfermagem, por meio do aprendizado da prática. Desta maneira, com base nas imagens produzidas, analisamos: o desenho, o processo criativo e a forma. O desenho propriamente dito formaliza a fluidez da criação, através da consciência, papel crítico do sujeito; a criatividade, que direciona basicamente a expressão do sujeito, em busca do nexo com os diferentes cenários de prática; e a forma que escolheu para representar, repercutindo suas experiências vivenciadas no cenário

de

prática.

Um

instrumento

de

aprendizado

viável/possível,

influenciando sua expressão sensível. Buscou-se, isomórficas,

através

enquanto

desta

estratégia,

constituir

as

recursos

disponíveis

de

comunicação

uma

imagens

diferenciada, ou seja, uma unidade rica, diversificada e complexa, que reflete o cenário de aprendizado do enfermeiro. A prática acadêmica emerge nas imagens, através das formas, texturas, cores, intensidade, diversidade, enfim, há uma explosão de fenômenos artísticos presentes nas imagens capturadas das experiências vivenciadas por esses sujeitos, nos diferentes momentos de prática, vivenciados no cenário de aprendizagem da enfermagem. Tal fato nos leva a perceber que estas imagens capturadas formam um mosaico de conhecimentos, porém subjetivo. O autêntico, o inédito, expresso em apenas uma simples provocação poética, envolvendo um viés artístico. A explosão de significados com variações semânticas dá narrativa própria a cada situação, o determinante está na forma de olhar. Dependendo de como olhamos, percebemos o mundo, estamos nos permitindo entrar em um cenário completamente desconhecido, é a fluidez que nunca se completa e o olhar é quem define esse movimento. O que não existe pode ser criado: é a não-reflexividade. Quando modifico o olhar, vou revelar por amostras outras verdades, fundamentar esse olhar – ver como modo de ouvir. Para uma linguagem ser mensurável, precisa de um substitutivo. Ela não poderá conter ‘elementos’ (alfabeto, palavras). Para suprir essa falta foi criada a expressão ‘isomorfos’ – concepção

não

matemática

de

isomorfismo,

um

tipo

especial

de

equivalência (Maluf, 2007). Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Para compor a análise destacamos duas imagens, evidenciando substitutos para elementos de alfabetos e palavras – isomorfos. A partir da imagem, o estudante expressa poeticamente uma síntese da experiência vivida com o aprendizado prático da sua profissão.

Figura 1: O nascimento

Na figura 1, a imagem remete ao nascimento, parecendo haver, portanto, muita coisa para acontecer, se desenvolver. É o início do processo. Nos fala da vida, relacionada às expectativas da estudante em relação ao início da vida profissional, que se encontra atrelada ao aprendizado da prática. A expressão poética evidenciada reafirma a emoção, a sensibilidade, a criatividade no processo formativo, o que nos remete à prática criativa da enfermagem.

A

imagem

apresenta

uma

expansão

ascendente

e

interminável. O nascimento para a vida profissional, expresso de forma poética, num contexto de aprendizado da prática acadêmica, remete ao crescimento, emergindo a noção de fluidez. A Teoria das Estranhezas nos permite formular uma conjectura das fragmentaridades, como substitutivo para elemento, informação: mosaicos isomorfos. Onde o que se almeja é a busca de uma sensibilidade perdida, o resgate do intuitivo (Maluf, 2002). A imagem projetada para a experiência com a prática profissional nos revela que seu cotidiano de cuidar é expansivo e poético, comprometido e afetivo. Uma prática consistente, comprometida com o contexto em que ocorrem as relações, à medida que evidencia o nascimento de um bebê sobre bases sólidas. Revelando, preocupação com as bases teóricas que Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

possam dar sustentação à sua prática. O cuidar, neste contexto, pode estar relacionado não com a dor, mas com a condição criativa, pela expressão da sensibilidade de escolha do foco narrativo: imagem de um bebê, cheio de luz,

que

além

de

representar

o

nascimento,

expressa

também

o

renascimento, a renovação, o início, a beleza, o constructo, o ideal, o belo, o desenvolvimento da prática, como o início e não como o fim. Cuidar comprometido, visceral, vital, umbilical – o bebê nascendo ligado ao mundo. Como uma árvore em permanente crescimento, nasce com raízes profundas – grande base para realizar a prática. A árvore está verde, o que significa que ainda precisa amadurecer/crescer, necessidade de aquisição de mais experiências e conhecimento.

Figura 2: A construção

Na figura 2 a imagem nos fala de uma prática bem fundada, alicerçada, estruturada. Parece haver comunicação com o mundo à sua volta, há um registro do ambiente. Valoriza a liberdade e permite o aceso, à medida que revela um caminho em sentido à obra. Apresenta-se de “portas abertas” ou aberta a novas possibilidades. Há formas de cuidado que valorizam algumas potencialidades presentes na prática de ensino dos enfermeiros. Como as tecnologias de cuidado e conteúdos e estratégias que os docentes utilizam para o ensino do cuidado, considerado a liberdade (Corte et al, 2014). A escada expressa acesso. As árvores o diálogo, a interação, já que se apresentam em par. A casa encontra-se no centro e no alto, projetando sua importância para o sujeito.

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

A irregularidade dos tijolos da construção nos fala da singularidade do sujeito da experiência e da flexibilidade do processo de ensino prático, leva em consideração as diferenças. O telhado de forma ascendente, com traço irregular, e a lacuna mostram que o processo está inacabado, incompleto, que ainda há o que aprender, que é preciso dar continuidade à construção. Contudo, os pássaros e o sol alinhados à direção da lacuna no telhado podem expressar o desejo de libertação do estudante – mas também de prosseguimento: duas forças em disputa. Os pássaros ainda voam em direção ao sol, o que demonstra ter um objetivo de infinito, de fluidez. Também evoca a idéia de movimento, de mudança. Puschel & Ide (2002) falam do “Tempo do Desejo” na enfermagem, onde as mudanças passam por uma nova imagem profissional, que se traduz pelas mudanças de diretrizes, poder decisório, participação, valorização, autonomia, reconhecimento profissional. Considerando que o estudante passa a freqüentar mais o cenário hospitalar. Entra em contato direto com a realidade, se espera que demonstre suas habilidades práticas associadas aos conhecimentos teóricos adquiridos. Tende a ser considerado pelo aluno como repleto de incertezas, ameaças e inseguranças frente às situações vivenciadas (daí a imagem da muralha). O fato de estar em um local novo como, o hospital, requer do aluno a habilidade para lidar não só com as suas emoções, mas também com as do paciente. O estudante ao se conscientizar da importância do que foi apreendido pela experiência anterior tem a oportunidade de trabalhar com toda a equipe de enfermagem e com os clientes de maneira mais integrada e reflexiva.

Constatou-se potencialidade artístico/criativa entre os estudantes de enfermagem, mesmo que a educação artística ou dos sentidos não seja referência de sua formação. Embora tenha feito um verdadeiro esforço poético para se expressar, há limitações impostas pela falta de contato com a experimentação poética e de exposição a essa. Verificamos que há uma demanda para a educação artística no processo de formação em enfermagem, decorrente da própria sensibilidade Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

e criatividade presente nos estudantes e das provocações poéticas, advindas dos diferentes cenários de tenha aprendizagem prática. Conclui-se que para o desenvolvimento de um profissional mais crítico e, sobretudo, sensível

é

preciso

orientar

o

olhar

para

a

prática,

evitando-se

o

desenvolvimento de um agir mecânico e conformado com a lógica do mercado de trabalho. Mas, para que isso aconteça, faz-se necessário que o aprendiz de enfermagem tenha a devida atenção dos docentes, ou seja, é esperado que os formadores estejam engajados nessas propostas e ofereçam aos alunos suporte para alcançá-las, através de um aprendizado baseado em trocas sensíveis. Em síntese, por te lançado mão da linguagem artística, como forma de expressão poética, o estudo aponta na direção da valorização da arte, durante a construção da sua identidade profissional e reconhecer a arte como meio ou processo e não apenas como fim.

No que se refere ao sentidos atribuídos pelos estudantes ao aprendizado, e suas implicações pra a clínica, poderíamos depreender que esta experiência foi muito rica, posto que, associam-na à ideia de crescimento, desenvolvimento e expansão de conhecimentos. Há uma imagem positiva sobre o processo de ensino-aprendizagem. Entendemos que a arte pode favorecer o aprendizado por permitir o desenvolvimento da expressão poética e a expansão da consciência do futuro profissional de enfermagem.

Contudo,

faz-se

necessária

à

definição

de

estratégias

pedagógicas que articulem o saber, para o desenvolvimento do aprender a ser, para então desenvolver o aprender a fazer.

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Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

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Processo de formação e inserção no mercado de trabalho: uma visão dos egressos de enfermagem. Rev Gaúcha Enferm. mar; 35(1): 87-93. 

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Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

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Licenciado em Enfermagem; Enfermeiro Especialista em Saúde Infantil e Pediatria; Enfermeiro na

Prestação de Cuidados na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Dona Estefânia – CHLC, Rua Jacinta Marto, 1169-045 Lisboa, Portugal. Email: enfsandro@gmail.com 2

Licenciada em Enfermagem; Enfermeira Especialista em Saúde Infantil e Pediatria; Enfermeira na

Prestação de Cuidados no Serviço de Pediatria do Hospital Dr. Nélio Mendonça, Av. Madalenas 55, BQ 9020-329, Funchal, Portugal. Email: anacatiacg@gmail.com 3

Licenciada em Enfermagem; Enfermeira Especialista em Saúde Infantil e Pediatria; Enfermeira na

Prestação de Cuidados no Serviço de Neonatologia do Hospital Divino Espírito Santo, Av. D. Manuel I, 9500-370 Ponta Delgada, Portugal. Email: lipamachado@hotmail.com 4

Doutorado em Psicologia da Saúde e da Educação; Enfermeiro Especialista em Saúde Infantil e

Pediatria; Professor Coordenador na Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa, 2925-010 Azeitão, Portugal. E-mail: jvilelas@esscvp.eu

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

O cuidar da criança e sua família pode ser considerado um desafio exigente para o enfermeiro. As interações que se estabelecem no processo de cuidar em Enfermagem dão origem a diversas emoções e sentimentos na criança, família e no próprio profissional, podendo interferir no bem-estar e qualidade da relação terapêutica. Desenvolvendo competências no âmbito da gestão de emoções, o enfermeiro prestará cuidados mais personalizados e capazes à criança e família, apresentando também padrões de qualidade mais elevados, com amplos benefícios a nível da saúde. Este estudo teve como objetivo conhecer as competências do enfermeiro promotoras da gestão dos medos da criança em idade préescolar e dos seus pais, face a procedimentos invasivos, em contexto de internamento. Foi realizada pesquisa nas bases de dados Cinahl, Medline, e Bireme, considerando a bibliografia publicada entre abril de 2009 e abril de 2014, pelo método PI[C]OS. Dos 15 artigos encontrados, aplicando critérios de inclusão e exclusão foram selecionados cinco. Da análise dos estudos selecionados conclui-se que as competências do enfermeiro na gestão dos medos da criança pré-escolar e família são fundamentais para a redução dos mesmos. Das competências gestoras de medo podem-se salientar: a aplicação de estratégias de brincadeira terapêutica e de posicionamento; inclusão dos pais no cuidar; ensinos aos cuidadores e administração de terapêutica. Assim, a melhoria da qualidade dos cuidados evidencia-se pela maximização de competências na gestão dos medos pelo enfermeiro aliada à parceria dos cuidados. Palavras-Chave:

Pré-Escolar;

Enfermeiros;

Procedimentos

Invasivos;

Medos.

El cuidado de los niños y sus familias puede considerarse un desafío exigente para las enfermeras. Las interacciones que se producen en el proceso de atención de enfermería dan lugar a diversas emociones y sentimientos de niño, la familia y el profesional de sí mismo, y también pueden afectar el bienestar y la calidad de la relación terapéutica. El desarrollo de habilidades en el contexto de la gestión de las emociones, la Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

enfermera brindará atención más personalizada y capaz para el niño y la familia, mientras que el establecimiento de altos estándares de calidad, con grandes beneficios en términos de salud. Este estudio tuvo como objetivo conocer las habilidades de las enfermeras la promoción de la gestión de los temores de preescolar de sus padres de los niños y, en comparación con los procedimientos invasivos, en medio hospitalario. Encuesta se realizó en las bases de datos Cinahl, Medline y Bireme, teniendo en cuenta la literatura publicada entre abril de 2009 y abril de 2014, utilizando el método de PI[C]OS. De los 15 artículos encontrados, fueron seleccionados con criterios de inclusión y exclusión de cinco. El análisis de los estudios seleccionados concluyó que las habilidades de las enfermeras en la gestión de los temores de los niños de preescolar y la familia son clave para reducirlos. Las habilidades de gestión del miedo que pueden ser observadas son: la aplicación de las estrategias de juego terapéuticos y posicionamiento; inclusión de los padres en la atención; la enseñanza de los cuidadores y el suministro de terapia. Así, la mejora de la calidad de la atención se pone de manifiesto mediante la maximización de las habilidades en el manejo de los temores por la enfermera asociada con la asociación de cuidado. Descriptores: Preescolar; Enfermeras; Procedimientos invasivos; Miedos.

Caring for children and their families can be considered a demanding challenge for nurses. The interactions that take place in the care process in Nursing give rise to various emotions and feelings in child, family and professional himself and may also affect the well-being and quality of the therapeutic relationship. Developing skills in the context of managing emotions, the nurse will provide more personalized and capable care to the child and family, while setting higher standards of quality, with large benefits in terms of health. This

study

aimed

to

know the

nurses'

skills

promoting

the

management of preschool children's and their parents fears, compared to invasive procedures, on hospital setting. Survey was conducted in Cinahl, Medline and Bireme databases, considering the literature published between Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

April 2009 and April 2014, using the PI[C]OS method. Of the 15 articles found, applying inclusion and exclusion criteria were selected five. The analysis of selected studies concluded that nurses' skills in the management of fears of preschool child and family are key to reducing them. The management skills of fear that can be noted are: the application of therapeutic play strategies and positioning; inclusion of parents in care; teaching carers and therapy delivery. Therefore, improving the quality of care is evidenced by maximizing skills in the management of fears by the nurse associated with the care partnership. Keywords: Preschool; Nurses; Invasive Procedures; Fears.

O cuidar da criança e sua família pode ser considerado um desafio exigente para o enfermeiro. As interações que se estabelecem no processo de cuidar em Enfermagem, entre os vários intervenientes, nomeadamente a crianças e sua família e o enfermeiro, dão origem a diversas emoções e sentimentos que podem interferir no seu bem-estar e na qualidade da relação de cuidar. As competências desenvolvidas no âmbito da gestão de emoções contribuirão para uma melhoria significativa nos cuidados a prestar à criança e família, como também padrões de qualidade mais elevados, com amplos benefícios e ganhos no âmbito da saúde. Jean Watson propõe uma filosofia e ciência centrada no cuidado, o que constitui o eixo da prática de Enfermagem (Watson, 2002). Cuidar é o ideal moral da enfermagem, pelo que o seu objetivo é proteger, melhorar e preservar a dignidade humana. No processo de cuidar desenvolvem-se respostas humanas intersubjetivas de acordo com as condições de saúdedoença e interações relacionadas com o ambiente-pessoa (Watson, 2002). Assim, a hospitalização na infância pode ser considerada uma experiência potencialmente traumática, que pode despertar sentimentos diversos, nomeadamente, angústia, ansiedade e medo diante de uma situação desconhecida ou ameaçadora (Mendes e Martins, 2012). Deste modo, os cuidados prestados à criança devem ser uma forma de proteção, estímulo e amor, com o objetivo de preservar o seu crescimento e desenvolvimento, sendo os pais os intervenientes privilegiados para atender a estes aspetos (Melo, 2005). De facto, atualmente, a família é uma referência quando se Ponta Delgada, Julho de 2015


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pensa nos cuidados pediátricos. Assim, a criança e os pais em parceria com o enfermeiro, devem assumir parte ativa no processo de enfermagem (Mendes e Martins, 2012). A parceria está associada a um processo dinâmico que requer participação ativa e acordo de todos os parceiros na procura de objetivos comuns. Por outro lado, o reconhecimento dos pais como elemento ativo e responsável da equipa de saúde pediátrica e o desenvolvimento de uma relação de confiança entre os pais e a equipa de saúde é imprescindível para obter o máximo bem-estar da criança (Casey, 1993; Barros, 2003; Ivatiuk, 2013). A comunicação terapêutica permite o estabelecimento dessa ligação entre o enfermeiro e a família, baseando-se numa compreensão empática, que favoreça a satisfação das necessidades psicossociais do utente (Phaneuf, 2005) e consequentemente resultados em saúde mais positivos (Coelho & Sequeira, 2014). Deste modo, compete ao Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde da criança e do jovem trabalhar em parceria junto da criança e sua família/pessoa significativa, independentemente do contexto em que ela se encontre (Ivatiuk, 2013). As crianças hospitalizadas experienciam muitos procedimentos invasivos, necessários para o seu restabelecimento de saúde. Estes podem ser definidos

como

técnicas

operativas

ou

diagnósticas

que

utilizam

instrumentos capazes de penetrar os tecidos ou invadir algum orifício do corpo, os quais estão associados a experiências de dor e de ansiedade, em função de implicarem expetativa de sofrimento físico e perda de controlo da situação (Melo, 2005). O medo torna-se, assim, muito frequente na criança hospitalizada, principalmente associado aos procedimentos invasivos, em que a sua motivação é libertar-se ou fugir de situações potencialmente ameaçadores, revelando a necessidade de proteger a sua integridade física e psicológica (Leite e Shimo, 2007). Na fase pré-escolar, o medo e o trauma resultante dos procedimentos invasivos é mais intenso, independente da presença ou não da mãe, em virtude da etapa do desenvolvimento, onde a fantasia está presente em tudo, assim como o pensamento egocêntrico e a incapacidade em lidar com o lado abstrato da doença (Hockenberry & Wilson, 2014). As características desta etapa interferem na conceção da realidade por parte da criança préescolar e esta vivenciam diversas emoções. As emoções dizem respeito àquilo que a criança sente, que pode ser de tonalidade positiva ou negativa, Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

podem ser perturbadoras ou gratificantes, são despoletadas por um evento (acontecimento ou pessoa) associado a uma experiencia emocional (Diogo, 2015). A capacidade de gestão das experiências emocionais permite à criança adquirir uma identidade psicossocial adaptativa, a qual será fundamental ao longo da sua vida (Pereira, Nunes, Teixeira e Diogo, 2010; Vilelas, 2014). A gestão emocional não constitui um processo fácil, em particular no caso da criança, pelo que os enfermeiros assumem uma especial importância no seu processo e capacitação (Leite e Shimo, 2007). Os enfermeiros devem possuir competências na gestão da emocionalidade durante o ato de cuidar das pessoas (Diogo, 2012) e praticar estratégias eficazes, específicas da enfermagem pediátrica, gerindo as suas próprias emoções de forma a conseguirem alcançar as dos outros. Em saúde infantil e pediátrica, a atividade lúdica constitui a estratégia mais utilizada neste trabalho emocional, cujo objetivo é transformar uma situação adversa num ambiente menos ameaçador e mais natural e familiar (Barros, 2003), contribuindo, assim, para gerir a emocionalidade excessiva das crianças (OE, 2007). O brinquedo terapêutico, como técnica, permite à criança a expressão segura dos sentimentos, pela projeção e transferência destes sentimentos nas personagens da brincadeira, através do jogo “faz de conta” (Azevedo, Santos, Justino, Miranda e Simpson, 2007). Ao brincar no hospital, a criança altera os seus sentimentos perante o ambiente em que se encontra, aproximando-o de sua realidade cotidiana, proporcionando um efeito positivo na sua recuperação. Pois, a atividade recreativa, de forma livre e desinteressada, oferece um efeito terapêutico. Algumas das estratégias no desenvolvimento de atividades lúdicas no hospital podem consistir na apresentação e manipulação de equipamentos hospitalares e utilização de figuras representativas de situações às quais a criança será ou tenha sido submetida, assim, ela através do brincar será familiarizada com estas experiências, diminuindo a probabilidade do medo (Leite e Shimo, 2007). O enfermeiro, sendo o profissional que assume um entendimento profundo sobre as respostas humanas da pessoa aos processos de vida e problemas de saúde, e uma resposta de elevado grau de adequação às necessidades do cliente (OE, 2002), deverá exercer a sua função como facilitador da experiência ameaçadora para a criança e para os pais. Deste Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

modo,

com

este

estudo

pretende-se

conhecer

as

competências

do

enfermeiro promotoras da gestão dos medos da criança em idade préescolar e dos seus pais, face a procedimentos invasivos, em contexto de internamento.

A questão que norteia este estudo, foi formulada a partir do método PI[C]OS (Vilelas, 2009), definimos a seguinte questão: Em relação às crianças pré-escolares e seus pais (P) quais as competências do enfermeiro (I) promotoras da gestão dos medos face aos procedimentos invasivos (O)?. A partir da questão definimos os critérios de inclusão e exclusão como consta na Tabela 1. Tabela 1 – Descrição dos critérios de inclusão e exclusão Critérios Seleção

de

Critérios de Inclusão

Critérios de Exclusão

Participantes (P)

Crianças em idade pré-escolar e seus pais, em contexto de hospitalização.

Crianças fora da idade préescolar e seus pais, sob tratamento em ambulatório.

Intervenção (I)

Competências do enfermeiro no processo de gestão dos medos, face a procedimentos invasivos.

Comparação [C]

__________

Resultados (O)

Promoção da gestão do medo da criança, face a procedimentos invasivos.

Desenho (S)

Estudos de abordagem qualitativa, quantitativa e mistos, com evidência científica.

Outras competências do enfermeiro não relacionadas com a gestão dos medos, face a procedimentos invasivos. __________ Estudos que revelam outros fatores que influenciam a gestão dos medos, face a procedimentos invasivos. Todos os achados que não apresentem metodologia científica.

Os descritores foram previamente avaliados no MeSH para a língua Inglesa e nos descritores em saúde para os de língua portuguesa. Assim, elaborámos as seguintes equações de pesquisa: [(Child* Or Preschool) And (Nurs*) And (Procedure Or Pain Or Fear* Or Afraid Or Fright*)] e [(Criança Or Pré-Escolar) And (Enfermagem) And (Dor Or Medo)]. As bases de dados utilizadas na pesquisa foram a Cinahl, Medline e Bireme com os respetivos filtros para refinar a pesquisa, nomeadamente o período de publicação entre Abril de 2009 e Abril de 2014 e texto integral. Assim, obtivemos 16 artigos na Cinahl, 45 na Medline e 27 na Bireme. Após a pesquisa procedeu-se à Ponta Delgada, Julho de 2015


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filtragem e seleção dos artigos apenas pela leitura independente do título e do resumo dos artigos, por três pesquisadores, de acordo com os critérios de inclusão e exclusão. Assim obtivemos 15 artigos, 8 artigos na Cinahl, 4 na Medline e 3 na Bireme, que foram submetidos a uma leitura integral e independente por três revisores, identificando-se, por fim, cinco estudos para o nosso estudo. Os estudos apresentados são internacionais, sendo um do Reino Unido, um da Suécia, um da Holanda, um da China e o outro da Índia. Não foi selecionado nenhum estudo em Português, pelo que a análise dos artigos poderá não representar a realidade do panorama nacional. Este facto demonstra ainda a necessidade de efetuar mais estudos nesta área temática.

Na tabela 3 estão descritos os estudos selecionados. Estão também identificados quando ao seu nível de evidência, segundo a classificação em numeração romana dos níveis de evidência (Guyatt & Rennie, 2002; Melnyk & Fineout-Overholt, 2005; Vilelas, 2009). Tabela 2- Descrição dos Artigos Selecionados Artigo: Distraction techniques for venepuncture: a review Autores Murphy Ano de publicação Objetivos

2009 Reportar e melhor compreender as Técnicas de Distração aplicadas em punções venosas e os seus potenciais benefícios para a criança. Métodos Revisão Sistemática de Literatura de publicações entre 1990 e 2006. Participantes 0 – 18 Anos Intervenções Aplicação de Técnicas de Distração em punções venosas: brinquedo interativo; Vídeo de Desenhos Animados; Presença e Ensino dos Cuidadores; Posicionamento. Resultados Técnicas de distração passivas são mais eficazes que as ativas; A eficácia de uma técnica particular depende da capacidade de atenção da criança; A presença dos pais, o ensino sobre as técnicas de distração e o posicionamento são menos conclusivos mas ajudam no alívio dos medos e dor. Grau de evidência I Artigo: Randomized interventions for needle procedures in children with cancer Autores Hedén, Von Essen & Ljungman Ano de publicação 2009 Objetivos Examinar se as crianças experimentam menos medo, angústia e dor associada à inserção de agulhas quando submetidas às estratégias: soprar bolas de sabão e uso de almofada

Ponta Delgada, Julho de 2015


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aquecida. Estudo Experimental 28 Crianças com cancro e com idades compreendidas entre 27 Anos. Intervenções Procedimento submetido com Cuidados Básicos; Procedimento submetido com Cuidados Básicos e Bolas de Sabão; Procedimento submetido com Cuidados Básicos e Almofada Aquecida. Resultados Os pais afirmam que as crianças vivenciam menos medo quando submetidas às referidas estratégias; As crianças vivenciam menos medo e angústia quando submetidas aos cuidados básicos e soprar bolas de sabão ou aos cuidados básicos e almofada aquecida; As bolas de sabão ou a almofada aquecida são intervenções mais eficazes na redução do medo e angústia aquando da punção venosa do que os cuidados básicos, segundo a opinião dos pais; Na opinião dos enfermeiros, não foram significativas as diferenças quando é associada qualquer uma das intervenções aos cuidados básicos; Nem os enfermeiros nem os pais notaram diferenças na eficácia das duas técnicas, quando comparadas. Grau de evidência II Artigo: Reducing Fear in Preschool Children Receiving Intravenous Injections Autores Hsieh, Liu & Cho Ano de publicação 2012 Objetivos Desenvolver uma estratégia de redução do medo face à injecção endovenosa. Métodos Método quase experimental Participantes 45 Crianças em Idade Pré-Escolar. Intervenções Aplicação de estratégia Brincadeira Terapêutica; Seleção do Posicionamento para a injeção; Estratégia Cognitivo Comportamental de Distração. Resultados A aplicação das referidas estratégias reduziu o nível de medo, melhorando a aceitação face à administração endovenosa; Melhorando a experiência positiva da criança face aos tratamentos; Aumentando a qualidade dos cuidados de enfermagem. Grau de evidência III Artigo: Does postoperative 'M' technique massage with or without mandarin oil reduce infants' distress after major craniofacial surgery? Autores de Jong, Lucas, Bredero, van Adrichem, Tibboel & van Dijk Ano de publicação 2012 Objetivos Comparar os efeitos da Técnica de Massagem “M” com e sem óleo mandarim nos níveis de dor, angústia, frequência cardíaca e pressão arterial em situação de cuidados pósoperatórios de grande cirurgia craniofacial. Métodos Estudo Experimental Aleatório Participantes 60 Crianças pré-escolares Intervenções Aplicação da Técnica de Massagem “M” com e sem óleo de mandarim. Resultados Níveis de conforto comportamental mais elevados do que nos níveis bases, mas as diferenças não foram estatisticamente significativas; Alterações verificadas nos valores de frequência cardíaca e a pressão arterial mas não relacionados com a massagem; Técnica de massagem “M” com e sem óleo não revelou benefícios. Grau de evidência II Artigo: Efficacy of two oral premedicants: midazolam or a low-dose combination of midazolam– ketamine for reducing stress during intravenous cannulation in children undergoing CT imaging Autores Jain, Ghai, Saxena, Saini & Khandelwal Métodos Participantes

Ano de publicação

2010

Ponta Delgada, Julho de 2015


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Objetivos

Métodos Participantes Intervenções

Resultados

Grau de evidência

Analisar a eficácia e segurança da administração oral de midazolam e da associação de baixas doses de midazolam e ketamine na redução do stress e ansiedade em crianças submetidas a punção venosa. Estudo Experimental Aleatório 99 Crianças entre os 1 e os 5 anos Administração ao Grupo M de 0.5 mg/kg de midazolam em 5 ml de mel; Ao grupo MK de 0.25 mg/kg de midazolam misturado com 1 mg/kg de ketamine em 5 ml de mel; Ao grupo P administrados apenas 5 ml de mel. Foi significativamente maior o número de crianças que choraram durante a punção venosa no grupo placebo em comparação com os outros dois grupos; O grupo MK mostrou crianças mais calmas e menos sedadas comparativamente ao grupo M; Administração de baixa dose de midazolam ou da associação de midazolam com ketamine, reduz consideravelmente o stress durante a punção venosa sem qualquer efeito adverso; A administração da associação midazolam-ketamine deixa as crianças mais calmas e tranquilas durante as punções venosas do que a sua administração em exclusivo. II

Analisando os dados resultantes dos diferentes estudos, verifica-se que nem todos incluem exclusivamente a idade definida, ou seja, dirigemse a várias idades pediátricas, sem exclusividade a um subgrupo etário. Contudo, só analisámos os artigos onde fosse possível selecionar os resultados específicos das crianças em idade pré-escolar. Pode-se afirmar que a angústia que os procedimentos invasivos provocam nas crianças, famílias e também nos profissionais de saúde é evidente. A punção venosa surge assim identificada como um dos procedimentos hospitalares mais receados pelas crianças (Murphy, 2009; Hedén, Von Essen & Ljungman, 2009; Jain, Ghai, Saxena, Saini & Khandelwal, 2010; Hsieh, Liu & Cho, 2012). Dos cinco estudos, em quatro a punção venosa foi a intervenção alvo (Murphy, 2009; Hedén, Von Essen & Ljungman, 2009; Jain, Ghai, Saxena, Saini & Khandelwal, 2010; Hsieh, Liu & Cho, 2012). O medo surge frequentemente na criança hospitalizada, principalmente associado aos procedimentos invasivos, e o seu principal objetivo e função parece ser o de proteger a integridade física e psicológica da

criança

motivando-a

para

se

libertar

ou

fugir

de

situações

potencialmente ameaçadoras (Melo, 2005). Se for considerado o número de vezes em que existe a necessidade de executar uma punção venosa durante Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

um processo de internamento hospitalar, consegue-se percecionar a importância que existe em que os profissionais de saúde sejam capazes de gerir da melhor forma, os medos da criança, face a este procedimento. De forma geral, destacam-se duas estratégias major de gestão do medo nos procedimentos invasivos, que não são mais do que intervenções distrativas: tanto ativas (utilização do brinquedo, soprar a bola de sabão) (Murphy, 2009; Hedén, Von Essen & Ljungman, 2009; Hsieh, Liu & Cho, 2012), como passivas (visualização de um vídeo de desenhos animados) (Murphy, 2009). Revelaram-se também como estratégias eficazes, as medidas de conforto como o posicionamento (Murphy, 2009; Hsieh, Liu & Cho, 2012), massagem (de Jong, Lucas, Bredero, van Adrichem, Tibboel & van Dijk, 2012), aplicação de almofada de calor(Hedén, Von Essen & Ljungman, 2009) e terapêutica analgésico (Jain, Ghai, Saxena, Saini & Khandelwal, 2010) . Hsieh, Liu & Cho (2012) utilizam a nomenclatura "estratégias cognitivo comportamentais", mas onde poderão ser incluídas as anteriormente referidas. Para Murphy (2009) as técnicas de distração passivas são mais eficazes que as ativas, se bem que a eficácia de uma técnica particular depende da capacidade de atenção da criança. Esta última questão é também mencionada na literatura: o brincar terapêutico encontra-se condicionado pela disponibilidade da criança, disponibilidade dos enfermeiros, privacidade durante o brincar e a construção da relação de confiança. A atividade de brincar nos cuidados à criança implica três qualidades da ação/interação: a forma como é mobilizada (estruturada ou não-estruturada), o momento (espontâneo ou tempo reservado) e o local (sala de pensos, casa de banho, quarto da criança e sala de atividades) (Pereira, Nunes, Teixeira e Diogo, 2010). Se tivermos em conta que na fase pré-escolar, o medo e o trauma resultante dos procedimentos invasivos é mais intenso, em relação à etapa do desenvolvimento, onde a fantasia está presente em tudo (Leite e Shimo, 2007), pode-se compreender que a visualização do vídeo de desenhos animados permitirá à criança “entrar” no mundo de fantasia e imaginação que visualiza, e desta forma abstrair-se da situação real potencialmente ameaçadora que vivencia, a punção venosa, e que lhe desperta as emoções como o medo, a angústia e ansiedade. Por intermédio do lúdico, a criança adquire novos conhecimentos no seu processo de desenvolver-se no Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

mundo, descobre a sua individualidade e conhece a realidade. Através da fantasia, consegue elaborar as suas vivências, tanto as prazerosas como as originadoras de stress, angústia ou dor (Castro e Andrade, 2010). As atividades lúdicas surgem como estratégias libertadoras de tensões, trazem prazer e são uns dos mais completos processos educativos, com influência no intelecto, emocional e físico da criança. Por outras palavras, o brincar terapêutico auxilia a criança a desenvolver mecanismos de coping, permitindo-lhe ultrapassar a situação de crise que esta enfrenta numa vivência mais alegre e menos traumatizante, com o restabelecimento físico e emocional da criança ao reduzir as respostas de stress, medos e angústias durante esse período (Pereira, Nunes, Teixeira e Diogo, 2010). Outro estudo menciona explicitamente que as estratégias envolvendo o brincar a distração e o posicionamento confortavel reduzem o nível de medo, melhorando a aceitação face à administração endovenosa (Hsieh, Liu & Cho, 2012), permitindo melhorar a experiência positiva da criança face aos tratamentos e consequentemente aumentar o nível de qualidade dos cuidados de enfermagem, o que se compreende por incluir a satisfação do utente, segundo os critérios de qualidade da Ordem dos Enfermeiros Portuguesa (OE, 2002) e considera-se que o brincar fornece, portanto, várias formas de contribuição para o desenvolvimento infantil, pode-se afirmar que o enfermeiro deve utilizar a brincadeira terapêutica (por exemplo o soprar bolas de sabão) como estratégia face a procedimentos invasivos, na medida em que esta se configura com uma possibilidade de expressão de experiências relativas à hospitalização, permitindo a redução da angústia e a reorganização dos sentimentos. Em nenhum estudo houve referência à gestão do medo dos pais, no entanto eles próprios foram mencionados como sendo um fator que ajuda no alivio de medos e dor da criança, ora pela sua presença, ora por serem alvo de ensino sobre as técnicas de distração e de posicionamento. Estes resultados,

contudo,

foram

menos

conclusivos

em

relação

aos

anteriormente apresentados. Este facto parece subvalorizar a importância inquestionável da filosofia do cuidar centrado na família, numa parceria com os cuidadores. Ainda assim, a parceria é enfatizada pela importância que os pais assumem para o desenvolvimento integral da criança e também para o desenvolvimento do próprio cuidado também. O processo de cuidar em Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

pediatria, face à sua especificidade, direciona o desenvolvimento de capacidades, por parte do enfermeiro, no sentido da parceria com os pais, tão defendida por alguns peritos (Leite e Shimo, 2007). Se considerarmos a gestão emocional efetiva, os enfermeiros devem apresentar competências na gestão das emoções durante o ato de cuidar das pessoas (Diogo, 2015) e praticar estratégias eficazes, específicas da enfermagem

pediátrica.

Desta

forma,

torna-se

fundamental

que

os

profissionais respondam não só às necessidades físicas dos clientes, mas também às emocionais, gerindo as suas próprias emoções de forma a conseguirem alcançar as dos outros. O artigo de Hedén, Von Essen e Ljungman (2009), especificamente, enfoca a importância do uso concomitante das técnicas de distração (uso da almofada aquecida e soprar bolas de sabão) em associação aos cuidados gerais, que no entanto não são definidos. Quando comparados entre si, não existe diferença na eficácia entre as duas técnicas. De realçar que neste estudo existe diferença entre a opinião dos pais e dos enfermeiros. Ao contrário da opinião dos pais, os enfermeiros revelam que não foram significativas

as

diferenças

quando

é

associada

qualquer

uma

das

intervenções aos cuidados básicos, o que demonstra a importância que tem o facto de se conhecer bem a criança, como é o caso dos cuidadores. Os cuidadores, ao conhecerem melhor a criança conseguem mais facilmente perceber as diferenças de comportamento da criança e desvios da sua normalidade. Estes resultados patenteiam assim a importância da parceria de cuidados, defendida por inúmeros peritos em pediatria como já foi referido anteriormente, e da importância de opinião e satisfação dos pais perante os cuidados prestados. Destes resultados pode-se inferir também que ao controlarmos os medos das crianças durante os procedimentos invasivos, está-se indiretamente a controlar também as emoções dos seus cuidadores. Apenas um estudo se refere a um procedimento invasivo mais específico, o pós-operatório de uma cirurgia craniofacial, onde foi estudado a aplicação da técnica de massagem "M" com e sem óleo mandarim (com aroma) (de Jong, Lucas, Bredero, van Adrichem, Tibboel & van Dijk, 2012). Este estudo surge no contexto atual, onde as terapias não farmacológicas e complementares se estão a emancipar no contexto de controlo da doença, Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

no sentido de aliviar a angústia, a dor e a ansiedade aguda dos fatores intrínsecos à hospitalização. Contudo, é uma área ainda com necessidade de investigação neste sentido. No referido estudo, os resultados não evidenciam o benefício significativo, a curto prazo, desta técnica de massagem nas condições em que decorreram, de acordo com as escalas válidas

de

avaliação

pós-cirúrgica

aplicadas

e

os

sinais

vitais

avaliados/registados. Os autores descrevem os benefícios de técnicas semelhantes em outros grupos estudados em outras faixas etários, no entanto as caraterísticas específicas desde grupo, descritos anteriormente, em que o medo da separação dos pais e da aproximação e toque de estranhos poderá ter um grande impacto nos resultados do estudo. Esta particularidade demonstra que as crianças na fase pré-escolar são um grupo de especial singularidade, pelas características que os definem e que devem ser tidas em conta, na interação com as mesmas aquando da tentativa de controlo de medo, dor e ansiedade. Como identificado no estudo, seria de todo benéfico repetir o mesmo com os pais a aplicarem a técnica de massagem, até mesmo em outras situações invasivas. Mais uma vez, é realçado a importância do contributo potencial da parceria de cuidados, com total benefício quando os pais são encarados pela equipa como aliados (Diogo, 2015), mesmo em locais específicos como o bloco operatório ou a sala de recobro. As ações desenvolvidas

entre

pais

e

profissionais

de

saúde

devem

ser

complementares no sentido do objetivo final que é o bem-estar da criança (Leite e Shimo, 2007). O fator aroma também não teve grande impacto no grupo estudado, o que poderá ter também alguma influência pelo significado que o aroma em si possui para a criança. Para Jain, Ghai, Saxena, Saini & Khandelwal (2010) a intervenção proposta para gestão de medo e dor é uma intervenção interdependente de enfermagem (a administração de medicação), que requer uma prescrição prévia, de acordo com o peso da criança, ainda que em uma dose baixa. Os resultados do estudo sugerem que uma combinação de dose baixa de midazolam (0,25mk/kg) e ketamine (1mg/kg) oral, ou o uso exclusivo de midazolam (0,5mg/Kg) oral reduziu efetivamente o stress e a ansiedade da criança associada à punção venosa, durante o exame imagiológico, com redução relevante de número de crianças a chorar durante a intervenção, Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

em comparação com o grupo placebo, cooperando assim para o resultado dos exames, sem necessidade de contenção física e múltiplas punções. De referir que no grupo placebo, mais de metade das crianças choraram mesmo com a aplicação correta de EMLA, o que enfatiza o facto que a visão da agulha e o medo da punção evoca grande ansiedade, por si só e não tanto apenas pela questão da dor, e que pode ser reduzida pelo uso de prémedicação. É, aqui, visível a afirmação de que o medo é uma estratégia de fuga e libertação às situações potencialmente ameaçadoras (Melo, 2005) e que o enfermeiro deve ser capaz de dar resposta não só às questões físicas, mas também dominar competências de gestão de emoções durante a sua prática (Diogo, 2012) para atingir a qualidade dos cuidados. A competência de otimização terapêutica medicamentosa, é assim considerada uma resposta à gestão do medo da criança em situações de procedimentos invasivos.

Em todos os estudos apresentados foi evidente a consideração do medo

associado

aos

procedimentos

invasivos,

e

a

necessidade

de

intervenção para além do simples controlo de dor inerente aos mesmos. O enfermeiro,

enquanto

profissional

preopupado

na

satisfação

das

necessidades da pessoa e respostas humanas em situações de saúde e doença, constitui um elemento chave no processo de facilitar e harmonizar a experiência ameaçadora sob a qual a criança e família são submetidas ao longo do internamento. Como fator agravante, os procedimentos invasivos, muitas vezes associados a emoções negativas, são uma constante e devem por isso ser alvo de especial atenção por parte dos profissionais de saúde, para que estes estejam cada vez mais capazes de dar resposta eficaz neste complexo processo de gestão de emoções. A criança em idade pré-escolar, no grupo pediátrico, constitui um desafio particular, pelas características que a definem. Assim, o enfermeiro deve desenvolver competências do domínio emocional, identificando e aplicando estratégias válidas e eficazes no controlo do medo e angústia da criança submetida a procedimentos invasivos, bem como dos familiares que a acompanham. Como mostram os estudos analisados, a brincadeira terapêutica constitui um grande aliado na Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

gestão do medo da criança, pela componente distrativa que possui, seja ela passiva (ex.: visualização de vídeos animados) ou ativa (ex.: soprar bolas de sabão, brinquedos interativos). A brincadeira é linguagem universal de todas as crianças, inclusive na fase pré-escolar onde existe uma grande capacidade de imaginação e fantasia. A terapêutica constitui também um importante efeito na gestão do comportamento e emoções da criança, pelo que a competência de otimização

terapêutica

medicamentosa

deve

ser

desenvolvida

pelo

enfermeiro, em conjunto com a equipa, visto ser uma intervenção interdependente. Na atualidade é universalmente aceite a importância da presença e participação dos pais na hospitalização da criança. Sendo idealmente a família o elemento de referência, segurança, confiança para a criança e ainda o melhor cuidador da mesma, o seu envolvimento durante a prática dos procedimentos invasivos trazem também benefícios para a gestão do medo da criança, nomeadamente quando são parceiros no cuidar, através do ensino sobre as técnicas distração da criança. Assim, pode-se inferir que competências de promoção de uma parceria de cuidados são promotoras da gestão do medo da criança submetida a intervenções invasivas. Por outro lado, o posicionamento durante o procedimento, no qual poderá haver envolvimento e orientação dos pais, constitui também uma estratégia facilitadora, que deve incorporar as competências do enfermeiro. Analisando os resultados em conjunto dos diversos estudos, verifica-se que é notória a grande autonomia que o enfermeiro assume neste processo de gestão

de

emoções

e

a

acessibilidade

económica

das

estratégias

identificadas. As competências dos enfermeiros traduzem-se na qualidade dos cuidados de enfermagem ao harmonizarem a experiência da criança face aos procedimentos invasivos. Um enfermeiro dotado do conhecimento de múltiplas estratégias e a sua aplicação oportuna na sua prática, levam a um cuidar humanizado e individualizado da criança e família. O profissional melhor capacitado, motivado e provido de ferramentas científicas propícias ao encontro da satisfação das necessidades do utente pediátrico prestará, indubitavelmente cuidados de nível superior que diz respeito à sua qualidade. Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Espera-se

que

os

resultados

traduzam

impacto

para

a

prática

de

enfermagem e que incitem a novas investigações e pesquisas sobre a temática, complementado os resultados aqui apresentados.

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Ponta Delgada, Julho de 2015


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Ponta Delgada, Julho de 2015


198

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Trabalho extraído de um dos capítulos do relatório de Doutoramento de Marcela Pimenta Muniz em

processo de andamento na Universidade Federal Fluminense, com título provisório de “Um encontro com a Saúde Mental: uma perspectiva ético-estética do cuidado”. 2

Doutoranda do Programa de Ciências do Cuidado em Saúde da Universidade Federal Fluminense,

Mestre em Ciências do Cuidado em Saúde; Enfermeira; Professora Assistente do Departamento de Enfermagem Materno-infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense; Rua Dr. Celestino, nº74, centro, CEP 24020-091, Niterói, Brasil. Email: marcelapimentamuniz@gmail.com 3

Doutora em Saúde Coletiva; Enfermeira; Professora Titular do Departamento de enfermagem médico-

cirúrgica; Diretora da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense; Orientadora da pesquisa; Rua Dr. Celestino, nº74, centro, CEP 24020-091, Niterói, Brasil. E-mail: abrahaoana@gmail.com 4

Pós-Doutora em Enfermagem; Enfermeira; Professora Titular do Departamento de Enfermagem

Materno-infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense; Co-orientadora da pesquisa; Rua Dr. Celestino, nº74, centro, CEP 24020-091, Niterói, Brasil. E-mail: claudiamarauff@gmail.com

Ponta Delgada, Julho de 2015


199

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

CONTEXTO: A partir do movimento da Reforma Psiquiátrica brasileira, a ênfase dos modos de cuidado não é mais colocada no processo de cura, mas na produção de vida, de sentido, de sociabilidade, e na utilização das formas de convivência. OBJETIVO(S): Objetivou-se uma reflexão a respeito do cuidado no campo da Atenção Psicossocial. METODOLOGIA: A metodologia empregada foi uma reflexão teórica com base nos referenciais da Reforma Psiquiátrica Brasileira, da Clínica Ampliada e das Tecnologias Leves do Cuidado. A sistematização da produção críticoreflexiva se deu através do uso de intercessores que possibilitaram a produção de conhecimento. RESULTADOS: A noção de Clínica Ampliada estabelece que a doença nunca ocupe o lugar do sujeito na relação. O poder disciplinar – preocupado com a normalização e silenciamento do corpo e do sofrimento – que ainda reside nas maneiras de cuidar deve ser enfrentado através de intercessores do cuidado que estejam centrados nos modos de existência do usuário, sobretudo com o emprego das tecnologias leves do cuidado, como acolhimento, vínculo, autonomia e corresponsabilização. CONCLUSÕES: Pensar o cuidado no paradigma da Reforma Psiquiátrica requer que as questões da vida estejam acima das questões da doença, sendo necessário que a equipe de saúde mental busque romper com o jogo de poder predeterminado na psiquiatria tradicional. Para isso, é necessário tomar como base o acolhimento criado a partir de uma atenção integral, onde o vínculo seja estabelecido pela confiança recíproca e, acima de tudo, pelo

interesse

genuíno

pelo

bem-estar

do

usuário,

garantindo

o

compromisso igualitário assegurado pelo cuidado. Palavras-Chave: Saúde mental; Poder; Ciências Humanas.

CONTEXTO: A partir del movimiento de la Reforma Psiquiátrica brasileña, el énfasis de los modos de cuidado no es más colocado en el proceso de cura, pero en la producción de vida, de sentido, de sociabilidad, y en la utilización de las formas de convivencia.

Ponta Delgada, Julho de 2015


200

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

OBJETIVO(S): El objetivo fue hacer una reflexión respecto al cuidado en el campo de la Atención Psicosocial. METODOLOGÍA: La metodología empleada fue una reflexión teórica con base en los referenciales de la Reforma Psiquiátrica Brasileira, de la Clínica Ampliada y de las Tecnologías Leves del Cuidado. La sistematización de la producción crítico-reflexiva ocurrió a través del uso de intercesores que posibilitaran la producción de conocimiento. RESULTADOS: La noción de Clínica Ampliada establece que la enfermedad tome el lugar del sujeto en la relación. El poder disciplinar – preocupado con la normalización y silenciamiento del cuerpo y del sufrimiento – que aún reside en las maneras de cuidar debe ser enfrentado a través de intercesores del cuidado que estén centrados en los modos de existencia del usuario, principalmente con el empleo de las tecnologías leves del cuidado, como acogimiento, vínculo, autonomía y corresponsabilidad. CONCLUSIONES: Pensar el cuidado en el paradigma de la Reforma Psiquiátrica requiere que las cuestiones de la vida estén encima de las cuestiones de la enfermedad, siendo necesario que el equipo de salud mental busque romper con el juego de poder predeterminado en la psiquiatría tradicional. Para eso, es necesario tomar como base el acogimiento creado a partir de una atención integral, donde el vínculo sea establecido por la confianza recíproca y, sobre todo, por el interés auténtico por el bienestar del usuario, garantiendo el compromiso igualitario asegurado por el cuidado. Descriptores: Salud mental; Poder; Humanidades.

BACKGROUND: From the movement of the Brazilian Psychiatric Reform, the emphasis of modes of care is no longer placed on the healing process, but on the production of life, sense, sociability, and use of forms of coexistence. AIM: The objective was to reflect about the care in the field of Psychosocial Care. METHODS: The methodology applied was a theoretical reflection based on the benchmarks of the Brazilian Psychiatric Reform, the Extended Clinic and the Soft Care Technologies. The systematization of the critical-reflective Ponta Delgada, Julho de 2015


201

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

production took place through the use of intercessors that enabled the production of knowledge. RESULTS: The notion of Extended Clinic argues that the disease never takes the place of the in the relationship. The disciplinary power – concerned about standardizing and silencing body and suffering – which still lies on the ways to take care should be confronted through care intercessors that are focused on the modes of existence of the user, especially with the application of soft care technologies, such as hospitality, bond, autonomy and co-responsibility. CONCLUSIONS: Thinking about the care in the paradigm of the Psychiatric Reform requires that issue of life are beyond the issues of disease, which requires that the mental health team strives to break with the power game predetermined in the traditional psychiatry. To that end, we should rely on the hospitality created from a comprehensive care, where the bond is established by mutual trust and, above all, by the authentic interest in the welfare of the user, thereby guaranteeing an egalitarian commitment ensured by the care. Keywords: Mental health; Power; Humanities.

A formulação de uma nova caminhada para o cuidado em saúde mental está sendo estruturada com base na evidenciação do sujeito e na construção de um sistema que viabilize alternativas adequadas ao vivenciar humano na dimensão clínica e cidadã. Em um caminho oposto, o saber psiquiátrico organicista sustenta teses bizarras, como a origem genética, o tratamento condutista que repete o asilo fora dele. Até mesmo alguns profissionais, com toda a boa intenção, tendem a transformar o serviço de saúde numa extensão de consultórios particulares, operando abordagens incompatíveis com a realidade social do território público (Campos, 2003). Existe uma proposta atual de se fortalecer a perspcetiva do empoderamento dos usuários (a partir da inspiração em experiências dos países europeus anglo-saxões). Mas como seria possível promover o empoderamento se o próprio tratamento, muitas vezes, ainda é desempoderar o usuário? “Ainda há muitos pesquisadores que se empenham em desenvolver uma estratégia capaz de restabelecer relações com a loucura, mas chancelandoPonta Delgada, Julho de 2015


202

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

a como doença, observando-a para estudá-la, dominando-a para tratá- la” (Muniz, Tavares, Abrahão e Souza, 2015, p.65). Neste sentido, o presente estudo teve como objetivo propor uma reflexão a respeito do cuidado no campo da Atenção Psicossocial, considerando-se o que está entre o biopoder e a “força fraca”. Este estudo justifica-se pela necessidade de tornar verdade para os profissionais este conhecimento da Reforma Psiquiátrica e as inovações práticas que ela sugere, sendo necessárias ressignificações diárias do processo de trabalho e da formação em Saúde Mental (Muniz et al., 2015).

Utiliza-se uma perspectiva crítica e reflexiva a respeito da produção do cuidado em Saúde Mental. Para isto, aplicou-se como referencial teórico a Reforma Psiquiátrica Brasileira, a Clínica Ampliada e as Tecnologias Leves do Cuidado. Para a sistematização da produção crítico-reflexiva, utilizou-se a noção de intercessor, que possibilitaram a produção de conhecimento. Considera-se o conceito de intercessor como algo que nos força a pensar (Deleuze, 1996), gerando assim um deslocamento nas maneiras de conjeturar o cuidado. Desta forma,

empregou-se como intercessor

o que está entre o

Biopoder (Foucault, 2000) e a Clínica Menor (Tallemberg, 2014) nos processos de cuidar no campo da Atenção Psicossocial, na busca de formar nuances para um cuidado mais cidadão e menos disciplinazirante.

A suposta humanização das práticas tem produzido uma nova dinâmica de produção, de onde as práticas da psiquiatria não escapam. Disciplinar o indivíduo para a produção permite mantê-lo sob as vistas da previsibilidade. Atualmente não somos mais passíveis do suplício em praça pública. No entanto, a punição em tempos capitalistas se volta, como em outros vários setores, para a disciplina. O próprio Estado, na atualidade neoliberal, passa a desempenhar uma função policial, através da promessa do controle e da segurança. Neste

sentido,

o

medo

e

a

intolerância

têm

sido

ações

frequentemente desempenhadas por nós, inclusive nas práticas de saúde, Ponta Delgada, Julho de 2015


203

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

pois não aceitamos aquilo que é diferente no outro, aquilo que, no julgamento moral, seria um erro. Muitas vezes, quando está diante do paciente, o profissional lança mão de mediações e escudos ligados ao regime moral, que busca uma estabilidade e se esquiva do encontro, do acontecimento. Umas das principais formas de buscar a estabilidade, o controle da situação é através da disciplinarização dos corpos (Foucault, 2000). A busca pelo sujeito normalizado, disciplinado, silenciado no campo da atenção psicossocial e da saúde em geral tem relação direta com a noção de relações de poder e da emergência das suas diversas modalidades de exercício, considerando-se a construção do poder como um mecanismo que se desenvolve a partir das relações sociais (Foucault, 2000). Considerase o poder em sua capacidade de “agir sobre o comportamento dos indivíduos tomados isoladamente ou em grupo, para formar, dirigir e modificar sua maneira de portar-se” (Huisman, 2001, p.391). Esta perspectiva aponta a forte vertente capitalística da produção de cuidado, e faz mais sentido ainda quando a associamos à história da loucura. O louco está em um lugar de anormal e, hoje, no lugar de doente porque ele “não produz”. Entre aspas porque muitas das vezes trata-se de alguém que está sim produzindo, mas, na verdade, o que produz é dentro de um regime ético, uma criação de si como obra de arte. Porém, este tipo de criação vai contra a noção do atual capitalismo mundial, e vai contra as forças da produção de cuidado capitalística, à medida que não reforça o intenso consumo de tecnologias leve-duras e duras. Interessa aqui, sobretudo, a reflexão em torno do poder em suas extremidades onde estão, segundo Foucault, as operações que investem os corpos dos indivíduos, seus gestos, atitudes, comportamento, hábitos e discursos. Trata-se do micropoder, de modo que “as transformações ao nível capilar, minúsculo, do poder não estão necessariamente ligadas às mudanças ocorridas no âmbito do estado” (Foucault, 2000, p.137). Investe-se

demasiadamente

na

atribuição

de

qualidades,

lógicas

especulativas, morais e práticas, e isto produz um profissional de saúde autorizado e autorizante. E esta lógica é ainda mais delicada no campo da atenção psicossocial, pois historicamente há um avanço nas técnicas de avaliação e diagnóstico, na farmacologia, na estruturação da rede instituída, Ponta Delgada, Julho de 2015


204

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

e

este

avanço,

na

maioria

das

vezes,

ainda

está

a

serviço

da

disciplinarização dos corpos, do biopoder, do capitalismo. Deparamo-nos com trabalhadores da saúde que, muitas das vezes bemintencionados, avaliam um portador de transtorno psíquico sob o ponto de vista que precisam ‘acertar o que está torto, o que está errado’ na vida dele. No entanto, olvida-se que, a dependede dos modos de existência, é possível

que

este

movimento

aparentemente ‘torto’ ou

de

vida

absolutamente

inusitado

e

‘anaormal’ seja mesmo algo que permita a ele

uma vida mais intensa, imanente, livre. A filósofa e economista marxista Rosa Luxemburgo dizia que “quem não se movimenta não sente as correntes que o aprisionam” (Insdorf, 1987, p.1). Interessa aqui pensar no poder em suas extremidades onde estão, segundo Foucault, as

operações que investem os corpos dos indivíduos,

seus gestos, atitudes, comportamento, hábitos e discursos. O micropoder revela que há uma “relativa independência ou autonomia da periferia com relação ao centro”. De modo que “as transformações ao nível capilar, minúsculo, do poder não estão necessariamente ligadas às mudanças ocorridas no âmbito do estado” (Foucault, 2000, p.137). A “tecnologia” disciplinar do corpo constrói um sujeito com utilidade capitalista e docilidade, e não apenas repressão e dominação. Isso se dá de modo discreto e sutil, para que não seja percebido, e com isto, a disciplina se torna até mais eficaz do que os métodos violentos. Destaca-se que a disciplina é “uma técnica de distribuição dos indivíduos através da inserção dos corpos em um espaço individualizado, classificatório, combinatório” (Machado, 2009, p. 173). Trata-se de um mecanismo que propiciará uma transformação do sujeito, tirando da “força do corpo” sua “força política” e tornando máxima sua “força útil”. Este aspecto é tão caro à saúde mental que a história da loucura foi um dos elementos fundamentais utilizados por Foucault para examinar o funcionamento dos mecanismos de poder, partindo de baixo. No contexto da Atenção Psicossocial, ao entendermos que os modos de cuidar em saúde mental não são geridos apenas por balizadores coletivos ou macropoítcos, mas, sobretudo, pela dimensão micropolítica, temos que, aqueles que não estão sintonizados com as propostas da Ponta Delgada, Julho de 2015


205

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Reforma Psiquiátrica irão, em seu micropoder, exercer o cuidado na lógica pela qual ele é capturado, e não necessariamente pela lógica proposta pelo Estado. A valorização excessiva dos aspectos molares da produção de cuidado tem ofuscado as possibilidades de matrizes não estratificadas, uma vez que estas, em seu caráter anárquico, estão livres das marcas duras e cristalizadas (que garantiam seu lugar através do poder capitalístico bem delimitado). O que tem sido o ordenador do cuidado? Apenas as demandas e respostas bem estruturadas? A necessidade de normalizar o que é diferente? Ou as demandas e produções singulares, ‘rizomáticas’? Neste sentido, ao invés de diagnósticos, conclusões, avaliações especulativas e condutas totalizantes, propõe-se aqui trabalhar com o que Tallemberg aponta como “clínica menor”. Quanto a este “nos fazer menores”, Tallemberg (2015) refere que o que se subtrai em uma chamada “clínica menor” são os marcadores de poder do sistema de representação nas relações. À medida que estes marcadores de poder – considerando-se seu caráter político, que não se localiza nas lutas, mas na produção da diferença – são subtraídos, permite-se a formação de outras composições, de desterritorializações, pois outras linhas se colocam em relação. Com isto, são produzidas outras relações de saber-poder e, também, de subjetivação (Tallemberg, 2015). Considera-se que há a possibilidade de favorecer a “força fraca” do profissional de saúde, a clínica menor – em detrimento do poder para a disiciplinarização dos corpos –

quando se produz

práticas de saúde e

relações terapêuticas com ênfase nas tecnologias leves, que possibilitam a forma efetiva e criativa de manifestação da subjetividade do outro, a partir, por exemplo, dos dispositivos de acolhimento, vínculo, autonomia e coresponsabilização contidos nessa organização da assistência à saúde (Merhy, 2002 e Ayres, 2004). Deste modo, propõe-se a valorização das tecnologias leves ou relacionais pelos sujeitos componentes da prática nos serviços de saúde mental, aliada à perspectiva emancipatória de operar o cuidado conforme os pressupostos da Reforma Psiquiátrica e da Atenção Psicossocial (Jorge et al., 2011). Ponta Delgada, Julho de 2015


206

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

O movimento de disciplinarização e docilização dos corpos ainda está presente nas práticas da psiquiatria e saúde mental, onde as nuances da loucura continuam sendo vistas sob o ponto de vista de algo a ser vigiado, remediado, treinado, governado, utilizado. Ter como norteador do cuidado a própria experiência do sofrimento para além dos sintomas e diagnósticos ainda é um desafio para os profissionais. Com isto, propõe-se a construção de novos saberes e práticas que ressignifiquem o cuidado, através de dispositivos capazes de agenciar a ruptura do cuidado saúde mental com seu devir capitalista e capitalístico. Em busca de se responder aos preceitos da Reforma Psiquiátrica, não deve haver um cuidado unilateral, uma transmissão de cuidado ou um cuidado normativo e normalizador, em sim um encontro. Um encontro de modos de existir, de afetos, de corpos sensíveis. Isto implica em pensar o as práticas de saúde mental sob o ponto de vista da coexistência; uma experiência vivida tanto por quem cuida como por quem é cuidado, à medida que a qualidade da assistência está diretamente atrelada à dimensão micropolítica da produção de cuidado.

A experiência de viver, para além do processo saúde-doença, não se dá de maneira estanque. Ao contrário, acredita-se que, ao se dar vez e voz ao usuário, pode-se notar que há aí nesta experiência uma intensa multiplicidade, que supera as noções de identidade ou analogia que estão contidas nas normatizações do cuidado. Acredita-se que os profissionais da Saúde Mental possam construir um outro cuidado fora das amarras institucionais da psiquiatria, mediado pelo encontro com o usuário, buscando driblar as barricadas que encontram em seu caminhar na Atenção Psicossocial, ao reconhecer que a produção de cuidado se dá em acontecimento, na potência de vida e na diferença.

Ayres, J.R.C.M. (2004). Cuidado e reconstrução das práticas de saúde. Interface, 8(14), 73-92.

Campos, G.W.S. (2003). Reflexões sobre a clínica ampliada em equipes de saúde da família. In: Campos, GWS. Saúde Paidéia. São Paulo: Hucitec.

Deleuze, G. (1996). Conversações (2ª ed). São Paulo: Editora34.

Ponta Delgada, Julho de 2015


207

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Foucault, M. (2000). Vigiar e punir. Nascimento da Prisão (23ª ed). Rio de janeiro: Vozes.

Foucault, M. (2000). Microfísica do poder (15ª ed). Rio de janeiro: Graal.

Foucault, M. (1999). Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins fontes.

Huisman, D. (2001). Dicionário dos filósofos. São Paulo: Martins Fontes.

Insdorf, A. (1987). Rosa Luxemburg: More Than a Revolutionary. The New York Times, 31 de maio. Disponível em: http://www.nytimes.com/1987/05/31/movies/rosa-luxemburg-more-than-a-revolutionary.html

Jorge, M.S.B., Pinto, D.M., Quinderé, P.H.R., Pinto, A.G.A., Sousa, F.S.P., e Cavalcante, C.M. (2011). Promoção da Saúde Mental - Tecnologias do Cuidado: vínculo, acolhimento, coresponsabilização e autonomia. Ciênc. saúde coletiva, 16(7), 3051-3060.

Merhy, E.E. (2002). Saúde: a cartografia do trabalho vivo. São Paulo: Hucitec.

Muniz, M., Tavares, C.M.M., Abrahão, A.L., e Souza, A.C. (2015). A Assistência de Enfermagem em Tempos de Reforma Psiquiátrica. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, (13), 6165.

Tallemberg, C. (2014). Passagens de uma prática clínico-política menor. Tese de Doutorado. Rio de Janeiro: UFRJ.

Ponta Delgada, Julho de 2015


208

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Doutoranda em Ciências do Cuidado em Saúde, da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso

Costa/Universidade Federal Fluminense. Enfermeira. Professora Assitente Universidade Estácio de Sá. Morada: Estrada do Cabumgui, 786A, Vargem Grande. Código Postal: 22785-020, Rio de Janeiro/ Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: paulaisabellafonseca@gmail.com 2

Graduanda da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa/ Universidade Federal Fluminense.

Código Postal: 24422-020, Niterói/ Rio de Janeiro, Brasil. Email: laismpaiva@gmail.com 3

Pós Doutora em Educação. Enfermeira. Profª Titular do Depto de Enfermagem Materno Infantil e

Enfermagem Psiquiátrica da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, da Universidade Federal Fluminense.

Morada: Rua Dr. Celestino, 74, 6º Andar, CEP: 24020-091, Niterói/Rio de Janeiro, Brasil.

E-mail: claudiamarauff@gmail.com

Ponta Delgada, Julho de 2015


209

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

CONTEXTO:A entrevista familiar para doação de órgãos envolve grande carga emocional que é vivenciada frequentemente pelos coordenadores avançados em transplantes. Na busca de descobrir quais as emoções vivenciadas neste momento, lançou-se mão da técnica da Imaginação Ativa (IA), proposta por Carl Gustav Jung. O conceito de IAcompreende todas as formas de realização do símbolo, seja ela uma continuação visual do símbolo na imaginação, seja um modo mais representativo, por meio de expressão artística. OBJETIVO(S):caracterizar por meio de produções expressivas seguindo a técnica da Imaginação Ativa de Jung as emoções vivenciadas na entrevista familiar para doação de órgãos. METODOLOGIA:Abordagem

qualitativa,

estudo

hermenêutico.

Dados

obtidos pela aplicação da técnica da Imaginação Ativa, proposta por C.G.Jung, no período de jan/mai 2012, com 24 coordenadores avançados em transplantes, alocados na Central de Transplantes do estado do Rio de Janeiro/Brasil. Dados analisados por representatividade arquetípica e simbólica à luz do dicionário de símbolos e dos conceitos pensados por Jung sobre as imagens saltadas do inconsciente. Estudo aprovado pelo Comitê de Ética UFF/HUAP, RJ/Brasil sob nº 321/11. RESULTADOS:principais símbolos culturais evidenciados foram as lágrimas, o sol, a cruz, o arco-íris e o coração. Por meio dos desenhos os sujeitos assumiram ou reconheceram as emoções e questões que lhes afetam na entrevista familiar. CONCLUSÕES:As produções expressivas deram vazão às impressões, emoções e sentimentos não-ditos, auxiliando os sujeitos a entrarem em contato consciente com as emoções sentidas, corroborando para a autoconscientização

e

autoconhecimento

destes

profissionais

proporcionando a manutenção de sua saúde mental. Palavras-Chave:Emoções

Manifestas;

Desenho;

Transplantes;

Enfermagem Psiquiátrica.

CONTEXTO:La entrevista familiar para la donación de órganos implica gran carga

emocional que

se

experimenta

a

menudo

por

coordinadores

Ponta Delgada, Julho de 2015


210

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

avanzados en trasplantes. En la búsqueda para saber cuáles son las emociones experimentadas en este momento, se empleó la técnica de Imaginación Activa (IA), propuesta por Carl Gustav Jung. El concepto de la IA comprende todas las formas de realización del símbolo, sea una continuación del símbolo visual en la imaginación, sea una forma más representativa, por medio de la expresión artística. OBJETIVO(S):caracterizar por medio de las producciones expresivas siguiendo la técnica de la Imaginación Activa de Jung las emociones experimentadas en la entrevista familiar para la donación de órganos. METODOLOGÍA:Enfoque cualitativo, estudio hermenéutico. Los datos obtenidos mediante la aplicación de la técnica de la Imaginación Activa propuesto por CG Jung, en el período de enero / mayo de 2012, con 24 cordinadores avanzados en trasplantes, asignados al Centro de Trasplantes del Estado de Río de Janeiro / Brasil. Los datos fueron analizados por representación arquetípica y simbólica a la luz del diccionario de símbolos y conceptos diseñados por Jung en las fotos surgidas de lo inconsciente. Este estudio fue aprobado por el Comité de Ética UFF / HUAP, RJ / Brasil, N ° 321/11. RESULTADOS:principales

símbolos

culturales

destacados

fueron

las

lágrimas, el sol, la cruz, el arco iris y el corazón. A través de los dibujos los sujetos asumieron o reconocieron las emociones y las cuestiones que les afectan en la entrevista familiar. CONCLUSIONES:Las

producciones

expresivas

han

dado

lugar

a

impresiones, emociones y sentimientos no expresados, ayudando a que el sujeto

entre

en

contacto

consciente

con

las

emociones

sentidas,

corroborando para la auto-concientización y auto-conocimiento de estos profesionales o que les proporciona lo mantenimiento de su salud mental. DESCRIPTORES: Emoción Expresada; Diseño; Trasplantes; Enfermería Psiquiátrica.

BACKGROUND:The

family

interview

for

organ

donation

involves

considerable emotional charge that is often experienced by advanced coordinators in transplants. In the search to discover which emotions were experienced at this time, the technique of Active Imagination (IA) was Ponta Delgada, Julho de 2015


211

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

resorted, proposed by Carl Gustav Jung. The concept of IA comprehends all the forms of realization of the symbol, whether it’s a visual continuation of the symbol in the imagination or a more representative way by means of artistic expression. AIM: Characterized by expressive productions following Jung's Active Imagination technique, the experienced emotions in the family interview for organ donation. METHODS: Qualitative approach, hermeneutic study. Data obtained by applying the Active Imagination technique proposed by CG Jung in the period from January / May 2012, with 24 advanced coordinators in transplants, allocated in the Transplant Center of the State of Rio de Janeiro / Brazil. Data analyzed by archetypal and symbolic representation in the light of the dictionary of symbols and concepts designed by Jung on the unconscious skipped pictures. This study was approved by the Ethics Committee of UFF / HUAP, RJ / Brazil under No. 321/11. RESULTS:The highlighted main cultural symbols were tears, sun, cross, rainbow and heart. Through the drawings, the subjects assumed or acknowledged the emotions and issues that affect them in the family interview. CONCLUSIONS:The expressive productions have given rise to impressions, emotions and unspoken feelings, helping the subjects to come into conscious contact with the emotions felt, confirming for self-awareness and self-knowledge these professionals providing care for their mental health. KEYWORDS: Expressed Emotion; Design; Transplant; Psychiatric Nursing.

O processo de doação de órgãos é composto por diferentes etapas, dentre as quais a entrevista familiar que é realizada por coordenadores avançados

em

transplantes.

Esta

comporta

grande

complexidade

emocional, pois nela se explica para os familiares o que é a morte encefálica e se coloca a possibilidade da doação (Fonseca, Tavares, 2015).De modo mais profundo, a entrevista familiar pode ser compreendida como uma reunião na qual estão presentes parentes e algumas vezes amigos próximos do potencial doador, somado a um (ou mais) profissional vinculado a equipe de transplantes que possui dois grandes objetivos: de esclarecer o que é a Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

morte encefálica a qualquer tipo de família (nível social, educacional e econômico), e de oferecer a opção da doação de órgão(s) e tecido(s). Desta maneira, a entrevista familiar paradoação de órgãos carrega consigo uma ampla gama de reações dos familiares que estão sendo entrevistados. Afirma-se que doação de órgãos pode ocasionar instabilidade emocional nos entes dos potenciais doadores, despertando, assim, receio, desconfiança e insegurança (Pinheiro, Cherobini, Zamberlan, Perrando, Roso, 2013).Sabese ainda que, embora o sentimento de solidariedade, amor ao próximo, sensação de alívio e dever final cumprido também sejam citados pelos parentes do doador como pertencentes ao momento da entrevista, é inegável a massante presença da ansiedade, estresse (Cinque, 2010), dor, choque, desespero, angústia, sofrimento e desgaste diante da perda do ente querido(Moraes, Massarollo, 2008; Santoro, Mahl, Silva & Oliveira, 2013)frente à tomada de decisão para doação de órgãos. No entanto, não são somente os parentes do doador que se afetam com a situação, estudo traz que enfermeiros que atuam na doação de órgãos para transplante consideramque seu trabalho é difícil, marcado por diversos conflitos, relacionados: ao significado da morte, ao significado da doação de órgãos, por estar com a família do doador e por cuidar do doador. Afirmam ainda que estar com a família do doador é um dos momentos maisdifíceis sendo uma experiência complexa por vivenciar a dor, o sofrimento e a morte (Lima, 2012). Sobre isso, coordenadores avançados em transplantes afirmam ser importante o preparo emocional para realizarem as entrevistas familiares. As justificativas declaradas para isto foram desde sentirem a necessidade de estarem mais preparados para fazerem as entrevistas, à reconhecerem que em algum momento o preparo emocional lhes fez falta no lidar com comunicações difíceis(Fonseca, Tavares, 2014). Neste contexto, diante da vivência laboral de frequentes dilemas experimentados nesta etapa do processo de doação de órgãos, e frente ao fato de na Central de Transplantes do Rio de Janeiro/Brasil não possuir previstos, momentos para se compartilhar as vivências nesta situação, refletiu-se sobre a possibilidade de se estudar de maneira mais lúdica, que buscasse as imagens do inconsciente, sobre qual(is) emoção(ões) que

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

está(ão) envolvida(s) neste momento, como um modo de permitir a ventilação emocional destes sujeitos. Para esta busca lançou-se mão da técnica da Imaginação Ativa, proposta por Carl Gustav Jung, aqual trata de um percurso interior que implica em tornarconsciente o inconsciente com a ajuda de sonhos, fantasias

eimaginação(Kast,

1997).Ainda

sobre

isso,

o

conceito

de

Imaginação Ativa (IA) compreende todas as formas de realização do símbolo, seja ela uma continuação visual do símbolo na imaginação, seja um modo mais representativo, por meio de expressão artística (Tavares, 1998). A IA possui uma gama de propósitos criadores, pois as imagens, acredita Jung, tem vida própria e os acontecimentos simbólicos são desenvolvidos por meio de um entendimento peculiar (Jung, 2008). Diante disso, o objetivo deste estudo foi de caracterizar por meio de produções expressivas seguindo a técnica da Imaginação Ativa de Jung as emoções vivenciadas na entrevista familiar para doação de órgãos.

A

abordagem

metodológica

é

a

qualitativa,

pois

enfatiza

a

compreensão da experiência humana como é vivida, coletando e analisando materiais narrativos e subjetivos (Polit & Hungler, 2011). A escolha por esta abordagem se justifica, pois este tipo de estudo resulta em informações ricas e profundas, que possibilitam o esclarecimento de múltiplas dimensões de um fenômeno complexo. Seus resultados são tipicamente baseados nas experiências da vida real de pessoas com conhecimento do fenômeno em primeira mão (Polit & Hungler, 2011). O tipo de estudo é hermenêutico, pois enfoca o significado que trata de como os sujeitos, social e historicamente condicionados, interpretam o mundo inseridos em um dado contexto (Polit & Hungler, 2011). O cenário foi a Central de transplantes do estado do Rio de Janeiro/ Brasil. Participaram da pesquisa,no período de janeiro à maio de 2012, cerca

de

24

coordenadores

avançados

em

transplantes,

sendo

17

enfermeiras, 2 assistentes sociais, 2 médicos e 3 psicólogos da equipe. Foram incluídos no estudo profissionais que realizavam entrevistas familiares para doação de órgãos e que estavam trabalhando no período de coleta de dados na equipe da Central de Transplantes. Excluiu-se da Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

pesquisa os profissionais que não realizavam ou nunca haviam realizado entrevistas familiares. Ressalta-se

que

este

estudo

representa

um

recorte

de

uma

dissertação de mestrado em que se utilizou a entrevista individual como parte da coleta dos dados, no entanto tais dados não foram aqui utilizados. Os dados foram obtidos pela aplicação da técnica da Imaginação Ativa em que os participantes utilizaram o desenho, como meio de produção expressiva, através de bloco de folha branca A3 e giz pastel (caixa com 12 cores). Foram percorridos para isso os seguintes passos: após audição de música relaxante de duração de cerca de 3 minutos em ambiente calmo, climatizado e com luz baixa, cada um dos sujeitos foi orientado a desenhar o que lhe saltasse a mente quando perguntado “Quando falo sobre emoções na entrevista familiar qual é a imagem que lhe recorre?” no tempo máximo de 3 minutos. Reiterou-se a importância de desenhar a primeira imagem imaginada.

Após

interpretações

do

o

desenho

desenhado.

os

próprios

Reitara-se

sujeitos que

este

relataram sujeitos

suas foram

identificados com nomes de cores, não tendo sido citados seus nomes originais. Os dados foram analisados por sua representatividade arquetípica e simbólica à luz do dicionário de símbolos e também de conceitos pensados por Jung sobre as imagens saltadas do inconsciente. Estudo aprovado pelo Comitê de Ética UFF/HUAP, RJ/Brasil sob nº 321/11.

Os principais símbolos culturais que foram evidenciados foram as lágrimas, o sol, a cruz, o arco-íris e o coração. Acompanhados dos símbolos, foram identificadas emoções e sentimentos sentidos na entrevista familiar que

foram:

tristeza,

luto,

solidariedade,

esperança,

amor,

alegria,

superação, fraternidade e confiança. Por meio dos desenhos, os sujeitos assumiram ou reconheceram as emoções e questões que lhes afetam na entrevista familiar com auxílio das explicações relatadas sobre as figuras evidenciadas logo a seguir. A produção expressiva da fig.1, se utiliza de diferentes elementos para representar as emoções contidas no momento da entrevista familiar. Na fig.2, está representado o choro da tristeza de se ter perdido alguém e a alegria de alguém ter ganho vida novamente. Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Fig.1, Carmin - Olhos, lágrimas, morte e coração/ tristeza.Fig.2, Rosa Escuro- Olhos e lágrimas/ tristeza e alegria.

Em seguida, é possível observar duas produções de participantes que trouxeram nas imagens a representação das emoções que relataram não sentir no momento da entrevista familiar.

Fig.3, Violeta Cobalto- Coração e estrela/ amor linha negra/ luto,

Fig.4, Grys de Paine -Cores e tristeza

Abaixo, na fig.5,temos o sol como a luz, a vida nova, o arco-íris como a diversidade da vida e as lágrimas como a tristeza, enquanto que na fig.6, as nuvens representam as pessoas que estão indo embora, e o sol, representa a luz para os que terão nova vida daqui para frente. Por fim, na fig.7, temos a cruz representando o luto, a perda e a morte, enquanto o sol, representa a esperança.

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Fig.5, Vermelho E.– Sol,lágrimas e Fig.6, Verde O. – Sol entre nuvens/esperança

Arco-iris/solidariedade Fig.7, Laca Orquídea – Sol ecruz/ luto, tristeza, esperança

O elemento que apareceu com maior freqüência (7 produções) foi o coração, tradicionalmente expressado pela cor vermelha.

Fig.8, Vermelho C. – Sol dentro do coração/ amor, superação

Fig. 9, Azul Cobalto – Coração / amor, fraternidade, confiança

A livre expressão de Carmin,na fig.1, mostra a presença dos símbolos culturais como as lágrimas e o coração. De acordo com Jung (2008b, p.117) os símbolos culturais: “são aqueles que foram empregados para expressar ‘verdades eternas’[...] e passaram por inúmeras transformações e[...] um longo processo de elaboração mais ou menos consciente, tornando-se assim imagens coletivas aceitas pelas sociedades civilizadas.” As lágrimas expressas nas figuras 1 e 2, representaram para os participantes a tristeza e dor do momento da entrevista, mas além disso, Rosa Escuro (fig.2) declara que a lágrima representa ainda a alegria de saber que aquela doação salvará outra vida. A lágrima em Chevalier (2009, p. 533) é denominada como “gota que morre evaporando-se, após dado testemunho: símbolo da dor e da intercessão.” Desta maneira, observa-se a ligação entre o simbolismo a ela atribuido e sua significação pelos participantes quando refletiram sobre as emoções na entrevista familiar. E por meio destes símbolos, Carmim expressa uma ideia emocional que evitou quando negou, em depoimento, a emoção sentida na entrevista

Ponta Delgada, Julho de 2015


217

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

em que projeta seu irmão no potencial doador. Relatou ainda que contém suas emoções no momento da entrevista familiar. No entanto, ao pensar sobre as emoções, nesta situação, Carmin desenha símbolos que se remetem às emoções. Este mesmo comportamento foi observado nas figuras 3 e 4, em que outros participantes que também não admitiram suas emoções ao longo da entrevista, as trouxeram na experiência do desenho (fig. 3 e 4). Violeta Cobalto (fig.3) afirma seu não-envolvimento com as situações com as quais lida na entrevista, mas em seguida representa o coração, um dos maiores símbolos culturais de amor e fraternidade. Grys de Paine (fig.4) traz a contradição em sua fala ao declarar que “não se comove, não se abala” com o que acontece na entrevista familiar, mas entende que em situações, principalmente nas que os pais têm de lidar com a morte dos filhos, o entrevistador não tem como não se “sensibilizar com a situação dos pais”, já que “é contra história natural da humanidade os pais enterrarem seus filhos”. Seu desenho traduz o quanto a morte lhe afeta, e muito nos diz sobre os arquétipos propostos por Jung, pois a presença

do

azul

e

do

verde

guardam

significados

históricos,

e

estreitamente ligados a questão da morte e finitude, sobressaltantes na entrevista familiar. Impávido, indiferente, não estando em nenhum outro lugar a não ser em si mesmo, o azul não é deste mundo; sugere uma ideia de eternidade tranqüila e altaneira, que é sobre-humana [...] Segundo Kandinsky, a profundidade do verde dá uma impressão de repouso terreno e de contentamento consigo mesmo, ao passo que a profundidade do azul tem uma gravidade solene, supraterrena. Essa gravidade evoca a ideia da morte: as paredes das necrópoles egípcias, sobre as quais se destacavam, em ocre e vermelho, as cenas dos julgamentos das almas, eram geralmente revestidas de um reboco azul-claro. (CHEVALIER, 2009 p. 107) Com isso, reitera-se que o inconsciente não consegue abafar o que se sente, ou se representa nas situações nas quais o sujeito se insere. Como água, de alguma maneira elas encontram um modo de escoar para encontrarem seu mar. A respeito destes participantes que não admitem suas emoções mas que produzem símbolos culturais que vão contra seu discurso, Jung (2008a) explica que as funções psicológicas são normalmente controladas pela Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

vontade - sendo esta a maneira que esperamos que aconteça, já que temos medo do que por conta própria se move. Quando as funções são controladas elas podem ser postas para fora de uso, sendo suprimidas ou aumentadas de intensidade, dirigidas por uma intenção. No entanto, com uma freqüência significativa, podem agir de modo autônomo, escapando ao nosso controle. A partir daí elas sentem, agem e pensam em nosso lugar, não deixando espaço para nossa ação já que uma vez iniciado este processo não o interrompemos. Ou então, as funções agem de maneira tão inconsciente, que ficamos sem saber o que aconteceu, embora nos deparemos com o resultado

de

um

processo

emocional

desenvolvido

a

um

estágio

inconsciente. Talvez o sujeito esteja totalmente inconsciente do que sentiu, mesmo que aquelas coisas de fato tenham acontecido. Portanto, sendo as funções psicológicas, como as funções sensoriais, dotadas de energia específica, não se pode anular um sentimento, uma sensação, uma emoção. Ou seja, ninguém pode dizer “Eu não vou sentir”, pois o sentimento, por exemplo, surgirá inevitavelmente (JUNG, 2008a). A partir disso podemos compreender melhor a negação de Carmin e seus colegas às suas próprias emoções, pois pela repressão ao que se sente, o próprio inconsciente toma a iniciativa em reagir às suas vivências. Com isso, fica claro que é ele (inconsciente) é quem fala na produção expressiva, entregando o que verbalmente é protegido/ocultado pela consciência destes sujeitos. A

grande

questão

é

que

quando

reprimidos

os

conteúdos

inconscientes da mente, eles podem irromper de maneira destrutiva, sob a forma de emoções negativas, como afirma Jung (2008b). Daí a relevância de trabalhar o autoconhecimento principalmente nestes sujeitos que lidam com dilemas morais frequentemente e colocam à prova sua saúde mental. Na contramão dos que não assumiram suas emoções, não as reconhecendo, foram identificados sujeitos que as verbalizaram e as trouxeram também para a produção expressiva. Estes produziram símbolos como a cruz, representando o luto e a dor; e o coração, que apareceu 7 vezes e representa o centro da vida. Sobre este, o ocidente o representa como a sede dos sentimentos (Chevalier, 2009, p.280).

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219

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Somado a eles está o símbolo do sol, que aparece em 6 das 24 expressões, não fugindo à cor que normalmente lhe é atribuída, o amarelo. A seu respeito, Platão, na República (508 a.C) fez do sol a imagem do Bem, tal como se manifesta na esfera das coisas visíveis [...]. Ainda a respeito deste elemento [...] a alternância vida-morte-renascimento é simbolizada pelo ciclo solar: diário [...]; anual (solstício). O Sol aparece, então, como um símbolo de ressurreição e de imortalidade (Chevalier, 2009 p.836). Como vimos acima, os participantes conectam a representação do sol: a uma ideia relacionada ao bem, ou a um ato de bondade; a solidariedade e a esperança. Com isso, é possível perceber o quanto a significação literal do elemento sol guarda sentido com o que estes sujeitos sentem

que

dentro

de

seus

depoimentos

são

reforçadas

tais

características. Neste contexto, ao observarmos os significados literais dos símbolos com as representações dos sujeitos, reimprimimos a afirmação de Jung quando este diz que a verdade e a realidade da imagem são criadas e também existem naquilo que é criado, na imagem em si (JUNG, 2008a). A exemplo da junção desta verdade e da realidade, temos o sentido que faz a representação do sol como quando tratamos da questão dos transplantes, que de uma maneira imortalizam, mas por período determinado, o órgão do doador no receptor.

As produções expressivas deram vazão às impressões, emoções e sentimentos não-ditos, auxiliando os sujeitos a entrarem em contato consciente com as emoções sentidas nos momentos em que elas foram vivenciadas nas entrevistas familiares realizadas. Este movimento corrobora para a autoconscientização e autoconhecimento destes profissionais que não possuem um dispositivo de apoio emocional no ambiente de trabalho que lhes auxilie neste exercício que proporciona a manutenção de sua saúde mental.

A

utilização

de

dispositivos

lúdicos

pelos

coordenadores

em

transplantes os permitem construir o autoconhecimento, que os possibilita Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

lançar mãos de estratégias para lidar melhor com os dilemas morais com que lidam frequentemente, melhorando assim, a qualidade do trabalho que oferecem na prática clínica para si mesmos e familiares entrevistados.

Chevalier, J. (2009). Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. 24ªed. Rio de Janeiro, Brasil: José Olympio.

Cinque, V.M.; Bianchi, E.R.F. (2010). A tomada de decisão das famílias para a doação de órgãos. Cogitare

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Saúde

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Jung, C.G. (2008a). Fundamentos da Psicologia Analítica. 14ªed. Petrópolis. Vozes.

Jung, C.G.; Freeman, J.; Henderson, J.; Jacobi, A.J.(2008b) O homem e seus símbolos. [concepção e organização Carl G. Jung]; tradução Maria Lúcia Pinho - 2ª Ed. Especial – Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Kast, V. (1997). Dinâmica dos símbolos(a) - fundamentos da psicoterapiajunguiana. São Paulo: Loyola.

Lima, A.A.F. (2012). Doação de órgãos para transplante: conflitos éticos na percepção do profissional.

O

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Saúde,

São

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Moraes, E.L.; Masarollo, M.C.K.B. (2008). A recusa familiar para a doação de órgãos e tecidos para transplantes.Rev

Latino-am

Enfermagem,

maio-junho;

16(3).

Acedido

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http://www.scielo.br/pdf/rlae/v16n3/pt_20.pdf 

Pinheiro, A. L. U.; Cherobini, M. D. B.; Zamberlan, C.; Perrando, M.S.; Roso, C.C. (2013). Sentimentos dos familiares frente à doação de órgãos e estratégias de educação em saúde. J Nurs Health.

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http://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/enfermagem/article/view/3397/3241 

Polit, D.F.; Beck, CT.; Hungler, B.P. (2011). Fundamentos de Pesquisa em Enfermagem – Métodos, avaliação e utilização. Trad: Ana Thorell.

5ª ed. – Porto Alegre: Artmed.

Santoro, K.A.; Mahl, A.C.; Silva, J.C.; Oliveira, L.A. (2013). Na contramão do egoísmo: a percepção acerca da doação de órgãos pela família doadora. Unoesc & Ciência - ACBS, Joaçaba, jul./dez. 4(2), p. 165 -176. Acedido em: http://editora.unoesc.edu.br/index.php/acbs/article/viewFile/3648/pdf_15

Tavares, C.M.M. (1998). A imaginação criadora como perspectiva do cuidar na enfermagem psiquiátrica. [tese doutorado]. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Enfermagem Anna Nery. Rio de Janeiro, Brasil.

Ponta Delgada, Julho de 2015


221

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Trabalho extraído de um dos capítulos do relatório de Doutoramento de Marcela Pimenta Muniz em

processo de andamento na Universidade Federal Fluminense, com título provisório de “Um encontro com a Saúde Mental: uma perspectiva ético-estética do cuidado”. 2

Doutoranda do Programa de Ciências do Cuidado em Saúde da Universidade Federal Fluminense,

Mestre em Ciências do Cuidado em Saúde; Enfermeira; Professora Assistente do Departamento de Enfermagem Materno-infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense; Rua Dr. Celestino, nº74, centro, CEP 24020-091, Niterói, Brasil. Email: marcelapimentamuniz@gmail.com 3

Doutora em Saúde Coletiva; Enfermeira; Professora Titular do Departamento de enfermagem médico-

cirúrgica; Diretora da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense; Orientadora da pesquisa; Rua Dr. Celestino, nº74, centro, CEP 24020-091, Niterói, Brasil. E-mail: abrahaoana@gmail.com 4

Pós-Doutora em Enfermagem; Enfermeira; Professora Titular do Departamento de Enfermagem

Materno-infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense; Co-orientadora da pesquisa; Rua Dr. Celestino, nº74, centro, CEP 24020-091, Niterói, Brasil. E-mail: claudiamarauff@gmail.com

Ponta Delgada, Julho de 2015


222

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

CONTEXTO:

O

campo

da

Atenção

Psicossocial é

um

conjunto

de

dispositivos e instituições que possibilitam o cuidado em saúde mental. Implica reconhecer não apenas a desinstitucionalização, mas também que está em jogo toda a existência e produção social das pessoas e seus projetos de reinvenção de novas formas de viver. OBJETIVO(S): Este estudo teve como objetivo o desenvolvimento de uma reflexão a respeito da Rede de Atenção Psicossocial no Brasil (RAPS). METODOLOGIA: A metodologia empregada foi uma reflexão teórica com base nos referenciais da proposta de Rede do Ministério da Saúde, da Reforma Psiquiátrica e do conceito de Rede Viva. Para a sustentação da produção

de

dados

crítico-reflexiva,

utilizou-se

a

inspiração

da

esquizoanálise. RESULTADOS: Apontam-se, nos resultados deste estudo, os objetivos e diretrizes da Rede de Atenção Psicossocial instituída pelo Ministério da Saúde. A partir disso, realiza-se a contemporização da existência de uma rede de saúde que não é desenhada pelo sistema de saúde a priori. Tratase da Rede Viva, que é fruto de componentes que brotam do próprio território de vida do usuário. CONCLUSÕES:

As

ações

psicossociais

são

construídas

a

partir

do

entendimento mais amplo de saúde-doença, que engloba a realidade psicossocial não só nos serviços de saúde, mas considerando-se também a rede “emaranhada” que o portador de transtorno psíquico produz através de sua efervescência existencial. Propõe-se a construção do encontro ético da Rede Viva com os serviços da RAPS, para que ambas se potencializem na produção do cuidado. Palavras-Chave: Saúde mental; Serviços de Saúde; Apoio Social.

CONTEXTO: El campo de la Atención Psicosocial es un conjunto de artilugios e instituciones que posibilitan el cuidado en salud mental. Implica reconocer no sólo la desinstitucionalización, sino también que esto pone en juego toda la existencia y producción social de las personas y sus proyectos de reinvención de nuevas formas de vivir.

Ponta Delgada, Julho de 2015


223

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

OBJETIVO(S): Este estudio tuvo como objetivo el desarrollo de una reflexión respecto de la Red de Atención Psicosocial en Brasil (RAPS). METODOLOGÍA: La metodología empleada fue una reflexión teórica basada en los en los referenciales de la propuesta de Red del Ministerio de Salud, de la Reforma Psiquiátrica y del concepto de Red Viva. Para sostenimiento de la producción de datos crítico-reflexiva, se utilizó la inspiración de esquizoanálisis. RESULTADOS: En los resultados de este estudio, se indican los objetivos y directrices de la Red de Atención Psicosocial establecida por el Ministerio de Salud. A partir de esto, se lleva a cabo la actualización de la existencia de una red de salud que no es diseñada por el sistema de salud a priori. Se trata de la Red Viva, que es fruto de los componentes que surgen del propio territorio de vida del usuario. CONCLUSIONES: Las acciones psicosociales se construyen a partir del entendimiento más amplio de salud-enfermedad, que incluye la realidad psicosocial no sólo en los servicios de salud, pero también considera la red “enmarañada” que el portador de trastorno psíquico produce a través de su efervescencia existencial. Planteamos la construcción del encuentro ético de la Red Viva con los servicios de la RAPS, para que ambas se fortalezcan en la producción del cuidado. Descriptores: Salud mental; Servicios de Salud; Apoyo Social.

BACKGROUND: The field of Psychosocial Care is a set of devices and institutions that enables the mental health care. This involves recognizing not only the deinstitutionalization, but also that the complete existence and social production of people and their reinvention projects of new ways of living is at stake. AIM: This study had the objective of developing a reflection about the Psychosocial Care Network in Brazil (RAPS). METHODS: The methodology applied was a theoretical reflection based on the benchmarks of the Network proposal of the Ministry of Health, the Psychiatric Reform and the concept of Living Network. In order to sustain the critical-reflective production of data, we used the inspiration of schizoanalysis. Ponta Delgada, Julho de 2015


224

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

RESULTS: In the results of this study, we highlight the objectives and guidelines of the Psychosocial Care Network established by Ministry of Health. From that point, we achieve the update of the existence of a health network that is not designed by the health system beforehand. This is the Living Network, which is the result of components arising from the life territory itself of the user. CONCLUSIONS: The psychosocial actions are developed from the broader understanding of health-disease, which includes the psychosocial reality not only in health services, but also considers the “entangled” network that the bearer of psychic disorder produces through its existential effervescence. We propose the consolidation of the ethical meeting between the Living Network and the RAPS services, so that both are enhanced to produce care actions. Keywords: Mental health; Social Support; Health Services.

A Política Nacional de Saúde Mental no Brasil tem como marco a Lei 10.216/2001 (Brasil, 2001), também conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica, a qual redireciona o modelo assistencial, dispondo sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e define que a internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes. O campo da Atenção Psicossocial é desse modo, um conjunto de dispositivos e instituições que possibilitam o cuidado em saúde mental. Implica não só reconhecer que a liberdade é terapêutica, como apontou Basaglia, mas também está em jogo toda a existência e produção social dessas pessoas, seus projetos de reinvenção de novas formas de viver. Através do presente texto, intenta-se propiciar a divulgação do tema, bem como a reflexão por parte de profissionais e gestores do campo da Saúde Mental, favorecendo avanços nas práticas da Atenção Psicossocial. Este estudo teve como objetivo propor uma reflexão a respeito da Rede de Atenção Psicossocial no Brasil.

Ponta Delgada, Julho de 2015


225

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

A metodologia empregada foi uma reflexão teórica com base no referencial da proposta de Rede do Ministério da Saúde, da Reforma Psiquiátrica e do conceito de Rede Viva. Como balizador para a pordução dos dados, utilizou-se a inspiração na esquizoanálise (Deleuze, 2006; Deleuze & Guattari; 2012; Foucault, 2000).

O campo da Atenção Psicossocial é desse modo, um conjunto de dispositivos e instituições que possibilitam o cuidado em saúde mental, e que assim sendo, é um campo bem complexo, plural, polissêmico, que versa sobre o estado mental dos sujeitos e das coletividades (Vasconcelos, 2009; Koda, 2003; Amarante, 2011). Tal campo, por ser um processo social constituído desse entrelaçamento de discursos, vozes, fatos, por vezes contraditórios, repleto de tensões, contra-sensos, consensos (Amarante, 2011), não se coloca como um modelo, um sistema fechado ou uma técnica (Saraceno, 2001). O seu saber é construído no caminhar, nas interseções, nas interpelações, em um movimento constante e de transformação, agenciados por diversos protagonistas em permanente negociação. “Implica não só reconhecer que a liberdade é terapêutica, como nos ensinou Basaglia (...) agora o que está em jogo é toda a existência e reprodução social dessas pessoas, seus projetos de reinvenção de novas formas de viver, e que modificam integralmente os componentes psíquicos de sua realidade” (Vasconcelos, 2009, p. 142). As ações psicossociais são construídas a partir do entendimento mais amplo de saúde-doença, que engloba a realidade psicossocial, a atenção interdisciplinar no campo da saúde mental. Refere-se à responsabilidade do cuidar pelos diversos atores sociais, usuários, familiares, profissionais, comunidade de modo geral, por intermédio de diversas metodologias articuladas à terapêuticas (Carvalho, 2013). Neste sentido, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) foi instituída pela Portaria GM/MS nº 3.088, de 23 de dezembro de 2011 (republicada em 21 de maio de 2013), obedecendo às diretrizes desse novo modelo assistencial, e tem como principais objetivos:

Ponta Delgada, Julho de 2015


226

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Ampliar o acesso à atenção psicossocial da população, em seus diferentes

níveis de complexidade; Promover o acesso das pessoas com transtornos mentais e com

necessidades decorrentes do uso do crack, álcool e outras drogas e suas famílias aos pontos de atenção; 

Garantir a articulação e integração dos pontos de atenção das redes de saúde no território, qualificando o cuidado por meio do acolhimento, do acompanhamento contínuo e da atenção às urgências (Brasil, 2011). Constituem-se diretrizes para o funcionamento da Rede de Atenção

Psicossocial: I - respeito aos direitos humanos, garantindo a autonomia e a liberdade das pessoas; II - promoção da equidade, reconhecendo os determinantes sociais da saúde; III - combate a estigmas e preconceitos; IV - garantia do acesso e da qualidade dos serviços, ofertando cuidado integral e assistência multiprofissional, sob a lógica interdisciplinar; V - atenção humanizada e centrada nas necessidades das pessoas; VI - diversificação das estratégias de cuidado; VII - desenvolvimento de atividades no território, que favoreça a inclusão social com vistas à promoção de autonomia e ao exercício da cidadania; VIII - desenvolvimento de estratégias de Redução de Danos; IX - ênfase em serviços de base territorial e comunitária, com participação e controle social dos usuários e de seus familiares; X - organização dos serviços em rede de atenção à saúde regionalizada, com

estabelecimento

de

ações

intersetoriais

para

garantir

a

integralidade do cuidado; XI - promoção de estratégias de educação permanente; e XII - desenvolvimento da lógica do

cuidado para pessoas com

transtornos mentais e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, tendo como eixo central a construção do projeto terapêutico singular (Brasil, 2011).

Ponta Delgada, Julho de 2015


227

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

O modelo de redes de cuidado configura as ações de saúde mental na atenção básica. A base territorial e a atuação transversal com outras políticas específicas buscam o estabelecimento de vínculos e acolhimento da ação em saúde. Neste processo, devem estar fundamentadas os princípios do SUS e da Reforma Psiquiátrica e para sua articulação (saúde mental e atenção básica) resultam as seguintes diretrizes fundamentais: noção de território;

organização

intersetorialidade;

da

atenção

reabilitação

à

saúde

psicossocial;

mental

em

rede;

multiprofissionalidade

e

interdisciplinaridade; desinstitucionalização; promoção da cidadania dos usuários; e, construção da autonomia possível de usuários e familiares (Brasil, 2003). Porém, explorando-se as múltiplas facetas das demandas do usuário, entende-se que o cuidado em Saúde Mental requer a produção de Redes Vivas (Mehry) que venham a potencializar novos encontros, pois demanda a criação de escutas polifônicas e campos transferenciais multifocais, bem como um certo caleidoscópio de possibilidades de encontros, potentes para a produção de subjetividade dos envolvidos. Assim, não obstante a proposta de rede instituída, em que cada serviço de saúde seria uma “estação” e elas se ordenariam por uma hierarquia regulatória, “nem sempre a lógica da produção existencial de um usuário e sua busca por respostas para si, no campo do cuidado, ‘obedece’ esses mecanismos regulatórios” (Merhy, 2014, p.1). Em texto sobre Redes Vivas, Merhy afirmou que “não há como começar uma investigação obedecendo só o território institucional definido pelas formas de organizar as redes formais de cuidado, nos arranjos entre as estações”, referindo-se aos serviços de saúde (estações seriam a rede dura, instituída pelo governo). Fazendo referência ao que ele chama de Rede Viva, Merhy (2014) afirma “As redes para nós nascem nos campos de existências dos ‘usuários’". Ao pesquisar sobre acesso e barreira na rede de Saúde Mental, por exemplo, a linha de pesquisa Micropolítica do Trabalho e Cuidado em Saúde revelou que determinada usuária de um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) possuía diversas possibilidades de produção de cuidado, produção de vida fora dessas "estações" instituídas. E essas outras possibilidades para fora das “estações” mais óbvias da sua rede de cuidados não a Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

tomavam simplesmente como “a usuária de saúde mental”, e muito menos levava em consideração apenas o seu diagnóstico que funcionaria como o primeiro filtro de todas as equipes que tinham contato com ela no campo institucionalizado pelas ‘estações de cuidado’” (Merhy, 2014, p.2). Aponta-se que, era como se em um CAPS (“estação” instituída) não houvesse saída para a usuária que não fosse ser uma psicótica e ponto final e que seria este patamar estanque na concepção da equipe, que teriam como parâmetro para pensar qualquer oferta. Porém, fora do território institucional da saúde mental, isto é, fora dos equipamentos de saúde instituídos, ou dentro da chamada Rede Viva, o usuário é simplesmente ele mesmo, para além de qualquer diagnóstico e as ofertas vem por outros acontecimentos e relações, com outros sentidos. Assim, o usuário não era mais um caso, mas uma Rede Viva de Existências (Merhy, 2014). Isto vai de encontro com o eixo desinstitucionalizante da Atenção Psicossocial, o qual

enfatiza a necessidade dos profissionais da RAPS

desenvolverem a experiência de práticas que vão além do cenário tradicional (consultório e/ou enfermaria), buscando novos espaços de contato e acompanhamento do paciente. Também deve ser estimulado abranger outros atores que não apenas o paciente, como a família enquanto referência do processo terapêutico (Carvalho, 2013). “A rede formal de cuidado é limitada não apenas pela dificuldade, tantas vezes presente, de vínculo e de adesão ao tratamento, mas, também, porque essa rede é restrita a um espaço físico, a um protocolo e, até mesmo, a um diagnóstico” (Kemper, Martins, Monteiro, Pinto e Walter, 2015, p.996). “A possibilidade de promover a ampliação das redes existenciais tem como principal objetivo ampliar os recursos que cada um tem disponível para ir produzindo, isto é, produzir a possibilidade de lançarem mão de leques de opções, de cartas na manga, de vários recursos para ampliar a capacidade de cada um, em suas redes existenciais, irem reinventando as suas existências para enfrentar os vários momentos da vida. A falta de rede de encontros empobrece as possibilidades de mudanças. Quando você se inclui na rede do outro, pode contribuir para novos agenciamentos por ser um a mais destas redes, e não ser a única rede que possibilita a potência do outro” (Merhy et al., 2015, p.6). Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Desta forma, é necessário que o cuidado produzido não perca de vista esta perspectiva, buscando a sintonia do processo de trabalho com aberturas para as singularidades presentes no campo, isto é, abertura para a diferença.

A despeito de uma rede de saúde desenhada pelo sistema de saúde a priori, o portador de transtorno psíquico possui demandas que subvertem muitos protocolos, tornando-os opções frágeis. Por isto, torna-se valiosa a articulação da RAPS com uma rede de saúde menos formatada, porém, mais autêntica sob o ponto de vista da confiança do usuário – composta, por exemplo, por pessoas de sua vizinhança, ou por uma antiga professora em quem confia há muitos anos, não importa quem seja, o que importa é o elo, o vínculo, que soma com a equipe de saúde mental – por que não? A Rede Viva é fruto de componentes anticapitalísticos que brotam do próprio território do usuário. No âmbito da micropolítica, considera-se o sujeito sob o ponto de vista do engendramento de diferentes corpos, superando a lógica do uno. Propõe-se

extrapolar

a

lógica

do

indivíduo,

pois

ele

não

é

dado

exclusivamente por processos individuais, mas sim na permeabilidade às diferentes produções maquínicas. É nesta nuance que se torna fundamental o reconhecimento da composição de atmosferas de cuidado que abarquem uma polifonia, uma heterogeneidade, a multiplicidade que se produz no mundo da vida.

As ações psicossociais necessitam ser construídas a partir do entendimento mais amplo de saúde-doença, englobando a realidade psicossocial não só nos serviços de saúde, mas considerando também a rede “emaranhada” que o portador de transtorno psíquico produz através de sua efervescência existencial. É possível construir o encontro ético da Rede Viva com os serviços da RAPS, para que ambas se potencializem na produção do cuidado.

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Amarante, P. (2011). Saúde Mental e Atenção Psicossocial (3ª ed). Rio de Janeiro: Editora Fiocruz.

Brasil. Ministério da Saúde. (2011). Portaria nº 3.088. Institui a Rede de Atenção Psicossocial. Brasília: Diário Oficial da União.

Brasil. Ministério da Saúde. (2001). Lei 10.216. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Brasília: Diário Oficial da União.

Carvalho, M.C. (2013). O Acesso ao Tratamento em Saúde Mental na Microrregião de Itajubá/MG – Brasil. Dissertação Mestrado em Saúde Mental Internacional, Universidade Nova de Lisboa.

Deleuze, G. (2006) Diferença e repetição. Rio de Janeiro: Graal, 2006.

Deleuze, G., & Guattari, F. (2012). Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia (2ª ed). Rio de Janeiro: Editora 34.

Foucault, M. (2000). Microfísica do poder (15ª ed). Rio de janeiro: Graal.

Kemper, M.L.C., Martins, J.P.A., Monteiro, S.F.S., Pinto, T.S., e Walter, F.R. (2015). Integralidade e Redes de Cuidado.Interface: Comunicação, Saúde e Educação, 19(1), 995-1003.

Koda, M.Y. (2003). A construção de sentidos sobre o trabalho em um Núcleo de Atenção Psicossocial. In Amarante, P. (org.), Archivos de Saúde Mental e Atenção Psicossocial (pp. 67-87). Rio de Janeiro: Nau Editora.

Merhy, E.E., Gomes, M.P.C., Silva, E., Santos, M.F.L., Cruz, K.T., Franco, T.B. (2014). Redes Vivas: multiplicidades girando as existências, sinais da rua – Implicações para a produção do cuidado e a produção do conhecimento em saúde. Revista Divulgação em Saúde para Debate, (52), 153-164.

Saraceno, B. (2001). Reabilitação psicossocial: uma estratégia para a passagem do milênio. In Pitta, A. (org.), Reabilitação psicossocial no Brasil (pp. 13-18). São Paulo: Hucitec.

Vasconcelos, E.M. (2009). Abordagens Psicossociais. Volume I História, Teoria e Trabalho no Campo (2ª ed). São Paulo: Editora Hucitec.

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Mestre em Enfermagem; Professora da Faculdade Ciências da Vida- Sete Lagoas/MG e do Centro

Universitário de Sete Lagoas/MG- UNIFEMM, Enfermeira da Prefeitura Municipal de Paraopeba-MG, Rua Jurunas, nº282, Carmo, 35700-452 Sete Lagoas- MG, Brasil. E-mail: cecilia.lima@unifemm.edu.br 2

Doutora em Enfermagem; Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem Aplicada da Escola de

Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais, Avenida Professor Alfredo Balena, Centro, 30130100 Belo Horizonte- MG, Brasil. E-mail: m.odetepereira@gmail.com 3

Doutora em Enfermagem; Professora Associada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de

Minas Gerais-Brasil, Departamento de Enfermagem Aplicada, Avenida Professor Alfredo Balena, Centro, 30130100 Belo Horizonte- MG, Brasil. E-mail: mj.brito@globo.com

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

CONTEXTO: Na conjuntura da Estratégia de Saúde da Família, os profissionais são responsáveis pela organização das demandas locais, planejadores das ações de saúde e agentes de transformação social, configurando mudanças no paradigma de atenção à saúde. Nesse contexto, podem vivenciar problemas éticos e o Sofrimento Moral, compreendido como desequilíbrio psicológico ocasionado por sentimentos dolorosos, quando a pessoa julga assertivamente acerca do que é moralmente correto, porém se vê impedida de executá-lo por restrições de variadas ordens. OBJETIVO: Compreender a vivência do Sofrimento Moral no cotidiano de trabalho da equipe da Estratégia de Saúde da Família. METODOLOGIA: Trata-se

de

um

estudo

de

caso

com

abordagem

qualitativa, cujo cenário foi um município de Minas Gerais. Participaram 28 profissionais das equipes de saúde da família. Os dados foram coletados por meio de entrevistas, com roteiro semiestruturado e observação não participante entre os meses de agosto e outubro de 2014 e, submetidos à análise de conteúdo de Bardin. RESULTADOS: Os resultados apontaram que questões estruturais das unidades;

escassez

de

materiais;

improvisação;

sobrecarga

laboral;

desvalorização profissional; relações interpessoais e, fragilidades das redes de atenção à saúde, se configuram como infração aos princípios do Sistema Único de Saúde brasileiro e resultam em implicações éticas para os profissionais, constituindo-se fonte de sentimentos de impotência, frustação e desânimo no trabalho. CONCLUSÕES:

Questões éticas e Sofrimento Moral vivenciados pelos

participantes do estudo, embora rotineiros, não eram percebidos como situações problemáticas tornando-se pouco discutidas. Assim, considera-se necessária uma reflexão ampliada sobre a temática por parte dos trabalhadores da atenção primária. Palavras-Chave: Estratégia de Saúde da Família; Ética; Dano Moral.

CONTEXTO: En la coyuntura de la Estrategia de la Salud de la Familia, los profesionales son responsables por la organización de las demandas locales,

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

planificadores de las acciones de salud y agentes de la transformación social,

configurando cambios en el paradigma de atención a la salud. En

este contexto, los profesionales pueden vivenciar problemas éticos y de Sufrimiento Moral, entendido como el desequilibrio psicológico ocasionado por sentimientos dolorosos, cuando la persona juzga de forma asertiva en relación a los que es moralmente correcto, pero se ve impedida de ejecutarlo por diferentes restricciones. OBJETIVO: Comprender la vivencia del Sufrimiento Moral en el día a día del trabajo del equipo de la Estrategia de la Salud de la Familia. METODOLOGIA: Se trata de un estudio de caso con abordaje cualitativo, cuyo escenario fue un municipio del interior de Minas Gerais. Participaron 28 profesionales de los equipos de la salud de la familia. Los datos fueron colectados por medio de entrevistas con guión semi estructurado y observación no participante, entre los meses de agosto y octubre de 2014 y, sometidos a la técnica de análisis de contenido de Bardin. RESULTADOS: Los resultados apuntaron que cuestiones estructurales de las unidades; escasez de materiales; improvisación; sobrecarga laboral; desvalorización profesional; relaciones interpersonales y, fragilidades de las redes de atención a la salud, se configuran como infracción a los principios del Sistema único de Salud brasileño y resultan en implicaciones éticas para los profesionales, constituyéndose en fuente de sentimientos de impotencia, frustración y desánimo en el trabajo. CONCLUSIONES: Cuestiones éticas y de Sufrimiento Moral vividos por los participantes del estudio, aun siendo rutinarios, no eran percibidos como situaciones problemáticas, y así, eran poco discutidas. En este sentido, se considera necesario una reflexión ampliada sobre esta temática por parte de los trabajadores de atención primaria. Palabras Claves: Estrategia de la Salud de la familia; Ética; Daño Moral.

BACKGROUND: In the context of the Family Health Strategy, professionals are responsible for organizing the local demands, planning the health care and promoting social changes, setting changes in the health care paradigm. In this context, professionals can experience ethical problems and Moral Distress, understood as psychological imbalance caused by painful feelings, Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

when one judges assertively about what is morally right, but is prevented from running it by restrictions of various orders. OBJECTIVE: To understand the experience of Moral Distress in the daily working team of the Family Health Strategy. METHODOLOGY: This is a case study with a qualitative approach, conducted in a municipality of Minas Gerais. Participants were 28 professionals of Family Health Teams. Data were collected through interviews with semi-structured and non-participant observation between August and October 2014, submitted to content analysis technique proposed by Bardin. RESULTS: The results indicated that issues related to structural conditions of the units, shortage of material inputs, improvisation, work overload, professional devaluation, interpersonal relationships and weaknesses in the performance of health care networks are configured as offenses to the principles of the Brazilian Unified Health System and result in ethical implications for practitioners, becoming preeminent source of impotence feelings, frustration and discouragement at work. CONCLUSIONS: The ethical issues and Moral Distress experienced by the study participants, although present in routine daily work, were not perceived as problematic situations, and became invisible and little discussed. In this sense, it is necessary a broader reflection on this subject by workers of primary care. Keywords: Family Health Strategy; Ethics; Moral damage.

A Estratégia de Saúde da Família (ESF) estrutura-se com “base no reconhecimento das necessidades da população, apreendidas mediante o estabelecimento

de

vínculos

entre

os

usuários

dos

serviços

e

os

profissionais de saúde” (Oliveira, Pereira, 2013, p. 159). Para tanto, um conjunto de ações e serviços, que extrapola a assistência médica, deve ser disponibilizado pela equipe de saúde da família para população de uma área adscrita. No Brasil, a organização dos serviços de saúde da Atenção Primária a Saúde (APS), pauta-se na ESF como porta de entrada ao serviço e parte integrante de uma Rede de Atenção à Saúde (RAS) que garanta acesso na Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

atenção especializada e hospitalar à população, o que configura a coordenação do cuidado (Mendes, 2011). Frequentemente, os profissionais de saúde lidam com limitações que dificultam o exercício profissional coerente com os princípios descritos, o que muitas vezes os levam a deparar-se, em seu cotidiano de trabalho, com problemas; desafios; e dilemas éticos e morais, que podem provocar-lhes o Sofrimento Moral (SM) (Barlem, Lunardi, Dalmolin, Tomaschewisk-Barlem, 2012; Lunardi, et al., 2009). O SM é definido como sentimentos negativos que ocorrem diante de situações que envolvem dimensões éticas, em que o profissional de saúde não se sente capaz de preservar todos os interesses e valores em jogo, configurando-se como um distanciamento entre as convicções da pessoa e suas ações, traduzindo-se em constrangimentos psicológicos, ocasionados por sentimentos dolorosos (Barlem, et al., 2012; Lunardi, et al., 2009). Mediante o exposto, este estudo objetivou compreender a vivência do Sofrimento Moral no cotidiano de trabalho da equipe da Estratégia de Saúde da Família, haja vista a necessidade de estudar-se o fenômeno que afeta a qualidade do cuidado oferecido à população atendida nessas unidades de saúde. A proposta de se refletir acerca da vivência do SM no ambiente laboral dos diversos atores atuantes na APS é de extrema relevância, com vistas à sensibilização de trabalhadores e pesquisadores para questões éticas e morais, para a promoção do protagonismo dos profissionais e transformação dos diferentes contextos.

Trata-se de um estudo de caso com abordagem qualitativa. A investigação deu-se em quatro unidades da APS, sendo todas equipes da ESF de um município da região sudeste do Brasil, entre os meses de agosto e outubro de 2014. Participaram do estudo: quatro enfermeiros (E), três médicos (M), três técnicos de enfermagem (TE) e dezoito Agentes Comunitários de Saúde (ACS), totalizando 28 profissionais, que compunham o quadro funcional das equipes há pelo menos um ano, critério de elegibilidade para participação no estudo.

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

A coleta de dados se deu por meio de entrevista com roteiro semiestruturado e da observação não participante. Os depoimentos foram gravados, transcritos e transcriados. Os dados foram submetidos à análise de conteúdo, proposta por Bardin (2011), obedecendo aos três pólos cronológicos: pré-análise do material; a exploração e o tratamento dos resultados. Concluídas as referidas etapas, tornou-se possível realizar inferências e interpretações dos dados, correlacionando-os com o objetivo proposto pela teórica. A pesquisa obteve parecer de aprovação nº 749142, junto ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais. Os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, de acordo com a Resolução 466/2012, do Conselho Nacional de Saúde.

Na organização dos dados coletados com o propósito de melhor compreensão da vivência do Sofrimento Moral no cotidiano de trabalho da equipe da Estratégia de Saúde da Família, verificou-se que a organização dos serviços de saúde e as condições de trabalho na ESF foram determinantes para a vivência do SM. Assim, aspectos referentes às condições estruturais das unidades foram citadas pelos participantes, bem como observadas pelas pesquisadoras e, destacadas nas categorias a seguir. A escassez de insumos e equipamentos nos serviços de saúde e suas consequências. Problemas relacionados à organização do trabalho têm implicações éticas, tanto para os profissionais, quanto para os usuários dos serviços de saúde e se

tornam

constantes

fontes

de

SM,

implicando

aos

trabalhadores

sentimentos de impotência, frustação e desânimo no trabalho, conforme as expressões a seguir: “Tem uns três anos que não temos carro para fazermos as atividades que são necessárias. O acompanhamento que se poderia fazer de forma melhor, mais completa e mais efetiva, não se consegue fazer porque não tem carro disponível para deslocar-se para zona rural [...] ficar todo dia

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

insistindo, correndo atrás para eu ter condições de fazer o meu trabalho é muito desgastante.” (E2). “Às

vezes

falta

equipamentos,

como

por

exemplo

um

eletrocardiograma. Faltam medicamentos [...] e como continuar a dar assistência?” (M3) Nesta perspectiva, pôde-se vivenciar uma situação em que um senhor de meia idade apresentava dor lombar intensa e, por isso, necessitava de atendimento médico. Segundo informação da enfermeira da unidade, não havia nada que se pudesse fazer no local, já que não havia insumos necessários para o atendimento. Assim, o médico encaminhou o paciente ao hospital mais próximo, na cidade vizinha, para que o mesmo recebesse o atendimento adequado (NO7). Em complementação, a fala da enfermeira, ilustra a questão: “Às vezes fico impossibilitada e sei que o paciente precisa ter um atendimento melhor, ter um atendimento mais rápido. É preciso de algo que o município não possui”. (E3) Insumos materiais, equipamentos e infraestrutura adequados são condições básicas para que o profissional consiga prestar uma assistência eficaz, respeitando os preceitos éticos e legais de sua profissão e as condições dignas de atendimento à população. Trabalhar em contextos que não disponibilizam os recursos necessários, como explicitados pelos participantes, demanda a prática da improvisação, expressada em falas dos trabalhadores: “[...] às vezes falta algum material e tem-se que improvisar e adaptar [...]” “[...] têm muitas coisas que nos leva a improvisar, pedindo para um vizinho ou alguém que tiver passando ou nós mesmos fazermos o que seria obrigação do estado ou da gestão do município organizar, para viabilizar um atendimento melhor.” (E3) Os profissionais passam a improvisar de forma rotineira no serviço, para que as atividades não parem de acontecer e se façam da melhor maneira possível, garantindo a assistência à população. A falta de materiais/insumos e a improvisação refletem ainda na percepção de sobrecarga de trabalho, expressa no depoimento do ACS: “[...] estamos realmente sobrecarregadas. Temos que fazer duas produções: a do e-sus e do SIAB (Sistema de informação da Atenção Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Básica), além de ter que dar conta da meta de exames de Papanicolau (colpocitoscopia) e das metas que nos são impostas: vacina; bolsa família e saúde do trabalhador, enfim, são muitas coisas!” (ACS9); “[...]

do

mesmo

jeito

que

nós,

agentes

de

saúde,

estamos

sobrecarregados, a enfermeira também está. Só que temos que arrumar um meio, porque não dá para ficar assim, não tem como ficar assim, porque vai ficando desgastante”. (ACS13) Esta inquietude, expressada por ACS’s também foi percebida por outros profissionais da ESF, denotando ser difícil manejar a sobrecarga de trabalho. Desvalorização profissional e precariedade das relações no âmbito do trabalho. Os

participantes

mostraram-se

desgastados

físico,

mental

e

emocionalmente, devido às pressões para o alcance de metas estabelecidas pela gestão e atribuição de novas demandas funcionais. Por conseguinte, vivenciavam um sentimento de desvalorização, com comprometimento da sua autoimagem e autoestima, como expressou um dos participantes: “Às vezes, parece que se está fazendo o serviço com má vontade e, na realidade, não é isto. O desgaste está muito grande e estamos vivendo enorme pressão.” (ACS13) Percebendo que o sofrimento está também intrinsecamente ligado à relação cotidiana de valorização do profissional, verificou-se a expressão da necessidade de maior valorização dos profissionais, que se sentiam marginalizados nesse sistema de saúde: “[...] e falta também valorização humana, motivação e uma política de valorização do profissional.” (M3) Para os profissionais, a sobrecarga laboral e a desvalorização profissional tornam precárias as relações no trabalho e não lhes garantem os direitos sociais. Além de questões diretamente ligadas ao serviço, também foram mencionadas fragilidades na atuação e na articulação das RAS. Assim, a organização e a infraestrutura da APS, em especial da ESF, apresentaram limitações e impõem desafios para a construção da rede de serviços de saúde efetiva, como sinalizaram os depoimentos: Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

“As grandes dificuldades são as inerentes ao Sistema Único de Saúde [...] dada à escassez de recursos e à morosidade na tramitação de exames e cirurgias. Então, isto nos angustia e ao paciente também [...] e atrasa os diagnósticos [...]” (M1) “Às vezes atendemos alguns casos que não são pra nós, e então são encaminhados para outro serviço, mas não temos o retorno. Muitas vezes enfrentamos essa dificuldade também” [...]. (TE2) Os profissionais entendem que a falta de articulação da RAS somada à forma como ela está organizada, configuram-se como desafios a serem superados, para assegurar o acesso integral dos usuários aos serviços de saúde.

A organização dos serviços de saúde e as condições de trabalho na ESF são determinantes ao SM vivenciado pela equipe de profissionais, ao reconhecerem

sua

responsabilidade

moral

face

às

situações

problemáticas, terem o conhecimento da forma correta de agir, mas por impedimentos ou constrangimentos de ordem institucional, sentirem-se considerarem, consequência,

incapazes como os

de

tomar

inadequado,

trabalhadores

são

uma o

decisão

seu

correta

desempenho.

acometidos

por

e Por

sintomas

físicos, como dor ou angústia, que afetam o corpo e/ou a mente (Lunardi et al., 2009). As situações mencionadas pelos participantes deste estudo são identificadas rotineiramente nos serviços da APS e frequentemente não condizem com o preconizado em manuais técnicos e portarias do Ministério da Saúde. Assim, problemas éticos são vivenciados nos pontos de cuidado deste componente de saúde. Cabe salientar que cada nível de atenção possui particularidades, com cenários diferenciados, diferentes demandas de saúde e procedimentos específicos;

sujeitos

envolvidos (usuários,

familiares e profissionais), o que requer deliberações embasadas em conhecimento especifico acerca do serviço e da comunidade. Segundo os depoimentos dos participantes desta pesquisa, a prática de ações improvisadas se apresentava como potencial gerador de desgaste e de sofrimento para os trabalhadores, uma vez que a equipe desejava Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

desempenhar suas atividades com qualidade e compromisso. A angústia e a ansiedade vivenciadas pelos profissionais causavam-lhes SM, considerando que os atendimentos que os mesmos proporcionavam à população apresentavam qualidade aquém à almejada. Estudo

realizado

com

profissionais

da

saúde

para

identificar

problemas éticos nos três tipos mais comuns de serviços na atenção primária, existentes no Município de São Paulo, revelou que as questões éticas na APS consistem em um obstáculo para a efetivação da prática de uma atenção integral (Silva, Zoboli, Borges, 2006). Na prática laboral em saúde não é incomum que profissionais se acomodem frente às condições inadequadas de trabalho, configurando uma situação de imobilismo, o que representa uma redução no exercício de poder e resistência perante os problemas éticos (Barlem, et al., 2012). Assim, pode-se inferir que os participantes deste estudo conviviam com situações consideradas problemáticas, que lhes geravam conflitos éticos e morais e que comprometiam a qualidade do cuidado ofertado. No que tange aos problemas relacionados à organização do trabalho evidenciam-se pressupostos éticos, para os profissionais e para os usuários dos serviços de saúde, que são fonte de SM (Dalmolin, Lunardi, Lunardi Filho, 2009; Dalmolin, Lunardi, Lunardi, Barlem, Silveira, 2014). A escassez de recursos materiais e insumos para a atenção à saúde são potencialmente geradores de SM, corroborando com os resultados desta pesquisa (Bulhosa, 2006; Dalmolin, et. al, 2009). Estudo de etnoenfermagem realizado entre os anos de 2006 e 2007, em dois hospitais do Rio Grande do Sul, com o objetivo de conhecer como os trabalhadores da equipe da enfermagem, de diferentes instituições e localidades, revelou que os profissionais vivenciavam dilemas e sofrimento moral no exercício profissional. Os autores verificaram que no ambiente organizacional, a sobrecarga de trabalho se apresenta como fonte de SM. (Dalmolin, et al. 2009). Investigação desenvolvida por Bulhosa (2006), em que se buscou compreender como profissionais da enfermagem vivenciavam problemas, dilemas e SM, no cotidiano do trabalho, verificou que a sobrecarga funcional causava

sentimento

de

desvalorização

nos

trabalhadores,

com

comprometimento da sua autoimagem e autoestima. Ponta Delgada, Julho de 2015


241

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Estudo realizado em um serviço especializado de saúde mental para a atenção integral de usuários de álcool e outras drogas, da Rede de Atenção Psicossocial no Estado de São Paulo, identificou a sobrecarga de trabalho como fator preponderante na satisfação percebida pelos trabalhadores, com reflexos em sua saúde física e psíquica, coadunando com os resultados deste estudo (Souza, Pereira, Oliveira, Pinho, Gonçalves, 2015). Em relação às Redes de Atenção à Saúde, os resultados do presente estudo sinalizaram que a forma de organizar o sistema de atenção à saúde do município era incipiente, com pouca articulação entre os pontos de cuidado disponíveis para oferecer atenção integral e contínua à população. A articulação dos componentes e pontos de cuidado é um desafio à consolidação das RAS e, à coordenação pela APS. Revisão integrativa para analisar a produção científica acerca das evidências, potencialidades, desafios e perspectivas da APS, na coordenação das RAS, evidenciou como nó crítico a coordenação das redes pela APS, relacionada

à

comunicação,

carência de

de

estratégias

organização

do

e

acesso

formas nos

de

integração

diferentes

níveis,

e em

concordância com este estudo (Rodrigues, et al., 2014). Há evidências de que se a RAS for pouco estruturada e articulada, seus componentes oferecerão assistência à saúde fragmentada e pouco efetiva à determinada população. Dada

a

escassez

de

produção

literária

acerca

das

questões

relacionadas aos problemas éticos na APS, principalmente a vivência do SM nesse contexto, é premente a realização de novos estudos que ampliem a discussão e análises acerca do Sofrimento Moral, disparadas nesta pesquisa.

Os profissionais das equipes de saúde da família, em seu ambiente diário de trabalho, estiveram expostos a inadequadas condições de trabalho e organização dos serviços de saúde, fatores determinantes à vivência do Sofrimento Moral pelos trabalhadores.

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Por meio dos dados desse estudo nota-se a necessidade de estimular o fortalecimento da prática ética dos serviços de saúde para minimizar o Sofrimento

Moral.

Torna-se

relevante

mencionar

a

necessidade

de

investimento em estrutura e processo de trabalho já que vivemos em tempos de sucateamento dos dispositivos de saúde. Ainda, a equipe multidisciplinar deve estar apta para identificar os conflitos éticos e analisar de forma crítica suas implicações, com senso de responsabilidade e de obrigação moral, na tomada de decisões relacionadas à vida humana.

Bardin, L. (2011). Análise de conteúdo. São Paulo. Edições 70.

Barlem, Edison Luiz Devos, Lunardi, Valéria Lerch, Lunardi, Guilherme Lerch, Dalmolin, Graziele de Lima, & Tomaschewski, Jamila Geri. (2012). Vivência do sofrimento moral na enfermagem: percepção da enfermeira. Revista da Escola de Enfermagem da USP, 46(3), 681-688.

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Enfermeira; Doutor em Educação; Professor Adjunto, Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de

Enfermagem, Departamento de Enfermagem Aplicada, Avenida Alfredo Balena, nº 190, CEP 30.130-100. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. E-mail: evilla@enf.ufmg.br 2

Enfermeira; Mestre em Enfermagem, Professor Assistente, Universidade Federal de Minas Gerais,

Escola de Enfermagem, Departamento de Enfermagem Aplicada, Avenida Alfredo Balena, nº 190, CEP 30.130-100. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. E-mail: sonia.vm@zipmail.com.br 3

Enfermeira; Doutor em Enfermagem Psiquiátrica; Professor Associado, Universidade Federal de Minas

Gerais, Escola de Enfermagem, Departamento de Enfermagem Aplicada, Avenida Alfredo Balena, nº 190, CEP 30.130-100. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. E-mail: amandamsreinaldo@gmail.com 4

Enfermeira; Doutor em Enfermagem; Professor Adjunto, Universidade Federal de Minas Gerais, Escola

de Enfermagem, Departamento de Enfermagem Aplicada, Avenida Alfredo Balena, nº 190, CEP 30.130100. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. E-mail: m.odetepereira@gmail.com

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

CONTEXTO: O consumo de substâncias psicoativas é um fenômeno transversal. Estudos em diferentes contextos indicam que seu uso abusivo por mulheres tem aumentado principalmente para o álcool, tabaco e cocaína, em suas diferentes apresentações. OBJETIVO: Caracterizar o perfil de mulheres em situação de rua, morando temporariamente em uma casa de apoio governamental situada na cidade de Belo Horizonte - Minas Gerais, Brasil. METODOLOGIA:

Trata-se

de

uma

investigação

exploratória,

quali-

quantitativa, em que se utilizou a entrevista semiestruturada, como instrumento de coleta de dados. RESULTADOS: Os resultados indicaram que 62,7% das participantes passaram a viver nas ruas devido aos problemas familiares. Os fatores que desencadearam os conflitos no lar foram: uso abusivo de álcool (42,7%), desavenças (37,6%) e sofrimento mental (19,7%). Quanto às questões de saúde, constatou-se que a maioria das mulheres estava adoecida, pois 58,0% estavam vivenciando um sofrimento mental e 13,1% eram portadoras do vírus HIV. No entanto 29% não relataram alguma outra afecção de saúde. As entrevistadas percebiam que eram vistas com preconceito e estigma. CONCLUSÕES: Os resultados evidenciaram as situações de opressão, vulnerabilidade social e exclusão social, vivenciadas pelas participantes. Neste sentido, a enfermagem tem diante de si, o desafio de elaborar, propor e implantar ações que considerem a questão de gênero e vulnerabilidade social, por meio da promoção da saúde e prevenção dos agravos, que impactem no processo de reinserção e emancipação social dessas mulheres. Palavras-Chave: vulnerabilidade social; transtornos relacionados ao uso de substâncias; mulheres; saúde; enfermagem.

CONTEXTO: El consumo de drogas es un fenómeno transversal, diversos estudios apuntan a que el consumo de drogas ha aumentado entre las mujeres, en comparación con los hombres, particularmente en el consumo de alcohol, tabaco y cocaína, en sus diferentes formas. Ponta Delgada, Julho de 2015


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OBJETIVO: Describir el perfil de mujeres con historial de vida en las calles que ahora residen en la casa de apoyo gubernamental situada en la ciudad de Belo Horizonte - Minas Gerais, Brasil. METODOLOGÍA: Se trata de una investigación exploratoria, cuantitativa y cualitativa, que se ha servido de la entrevista semiestructurada como instrumento para la recolección de datos. RESULTADOS: Los resultados arrojan que un 62,7% de las mujeres viven en la calle por problemas familiares, y entre estas últimas, el 42,7 %, a causa del abuso del alcohol, 37,6% desacuerdo y un 19,7% padecen algún tipo de enfermedad mental. Las entrevistadas perciben que fueron vistos con el prejuicio y el estigma. CONCLUSIONES: Los datos apuntan a situaciones de exclusión, opresión y vulnerabilidad. En consecuencia, el campo de la Enfermería se encuentra frente al reto de conseguir diseñar, proponer e implantar acciones dirigidas a remediar estas situaciones desfavorecedoras a nivel de género y vulnerabilidad social, para, de este modo, minimizar la situación de estas mujeres, ofreciéndoles oportunidades de inclusión social a través de la promoción de la salud, la prevención de daños y la adopción de hábitos de vida saludables que tengan un impacto positivo en su calidad de vida. Descriptores: vulnerabilidad; trastornos relacionados con el consumo de sustancias; mujeres; salud; enfermaria.

BACKGROUND: Drug use is a transverse phenomenon, studies in different settings indicate that the use and abuse of drugs has increased among women when compared to men, especially for alcohol, tobacco and cocaine in its different presentations. OBJECTIVE: Describe the profile of women with history of life on the streets, residents of a government support house in the city of Belo Horizonte - Minas Gerais, Brazil.

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METHODOLOGY: This is an exploratory, quantitative and qualitative investigation, which used a semi-structured interview as the instrument for data collection. RESULTS: The results show that 62,7% of women live on the street due to family problems, among which, 42.7% is due to the abusive use of alcohol, 37,6%

disagreement

and

19,7%

presented

mental

suffering.

The

interviewees perceived they were viewed with prejudgement and stigma. CONCLUSIONS: The data point to situations of exclusion, oppression and vulnerabilities. Accordingly, nursing has before it the challenge of preparing, proposing and implementing actions to consider the issue of gender and social vulnerability in order to minimize the these women's situation, offering the possibility of recovering their citizenship through health promotion, prevention of injuries and the adoption of healthy lifestyles that have an impact on their quality of life. Keywords: vulnerability; disorders related to substance use; women; health, nursing.

O uso de substâncias psicoativas é um fenômeno que perpassa diferentes setores da sociedade. O aumento da violência, acidentes de trânsito, agressões, abandono escolar e do lar, aumento da população de rua, depressão e distúrbios de comportamento estão associados ao abuso de álcool e outras drogas (Bastos; Bertoni, 2014). Pesquisa realizada em 71 municípios brasileiros, para conhecer o perfil das pessoas em situação de rua no País, revelou que existem 31.922 indivíduos nessa situação, sendo que a maioria desta população era masculina. Os principais motivos pelos quais essas pessoas passaram a viver e morar na rua se referiam aos problemas de alcoolismo e/ou drogas (35,5%); desemprego (29,8%) e desavenças com pai/mãe/irmãos (29,1%) (Brasil, 2008). No ano de 2014, em Belo Horizonte, 1.827 pessoas viviam em situação de rua, dentre elas 13,2% eram mulheres (Garcia, 2014). Apesar de ser um contingente menor, as mulheres em situação de rua vivenciam

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maiores

adversidades,

de

diferentes

formas,

destacando-se

a

vulnerabilidade ao uso de álcool e outras drogas. Considera-se, como população em situação de rua, um grupo populacional heterogêneo, que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares fragilizados ou rompidos e a inexistência de moradia convencional regular (Brasil, 2008). A vulnerabilidade aos múltiplos fatores de risco para a saúde está associada à condição desfavorável de vida dessa população. Uma das preocupações predominantes em relação à população em situação de rua são os riscos à saúde, tendo em vista a precariedade das condições de vida e os hábitos e costumes vivenciados por ela. O uso de substâncias psicoativas e práticas sexuais inseguras são comuns a esse grupo e os expõem à violência e às doenças sexualmente transmissíveis, entre outras condições (Varanda; Adorno, 2004). Mattos, Campos e Ferreira (2004) destacaram a relação entre os moradores de rua e o alcoolismo. O uso do álcool e outras drogas propicia maior suscetibilidade às enfermidades e dificuldades para o engajamento laboral, dentre outros agravos à saúde. Diante dessa dinâmica, como causa, consequência ou os dois fenômenos concomitantes, é muito provável que o aspecto da dependência às substâncias psicoativas promova a manutenção das pessoas na rua, impossibilitando sua saída dessa, para uma condição de vida em melhor situação. Estudo em que foi traçado o perfil dos usuários de crack e similares em cenas de uso no Brasil, realizado em 112 municípios de portes variados, incluindo todas as capitais brasileiras, indicou que as mulheres estão inseridas em contextos de maior vulnerabilidade; que apresentam baixa escolaridade; experiência cotidiana de viver em situação de rua; histórico de violência sexual; uso concomitante e intenso de substâncias psicoativas; uso infrequente de preservativos; troca de sexo por dinheiro e/ou drogas, entre outros elementos de vulnerabilidade individual e social (Bastos; Bertoni, 2014). Não se têm outras publicações científicas que abordem a respeito da vida das mulheres em situação de rua. Neste sentido, o presente estudo se revela de extrema relevância social, pois objetivou caracterizar o perfil de

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mulheres com trajetória de vida nas ruas, acolhidas em residência de acolhimento transitório, da cidade de Belo Horizonte - Minas Gerais, Brasil.

Trata-se

de

uma

pesquisa

exploratória,

interpretativa,

com

abordagem quali-quantitativa. O cenário da pesquisa foi uma residência de acolhimento transitório para mulheres em situação de rua, situada na cidade de Belo Horizonte. O serviço foi implantado em 2000, por uma entidade religiosa e é financiado pela Secretaria Municipal de Assistência Social de Belo Horizonte, com a qual mantem um convênio desde 2005. Participaram do estudo trinta e oito mulheres. Os critérios de inclusão foram: ter idade superior a 18 anos; residir na casa de apoio; possuir capacidade física e cognitiva para responder aos questionamentos e o consentimento voluntário para participação, concedido após explicação do objetivo do estudo e de garantia do anonimato às participantes. Para a coleta de dados, que aconteceu por meio de entrevistas, as autoras elaboraram um instrumento semi-estruturado para conhecer o perfil das participantes. A presente pesquisa obteve o Parecer nº153/09, quando submetida no Comitê de Ética em Pesquisa (COEP) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Os

resultados

quantitativos

tabulados

serão

apresentados

descritivamente.

Os depoimentos das participantes foram transcritos e

sistematicamente

organizados.

Para

a

hermenêutica dialética (Minayo, 2010).

análise

qualitativa

utilizou-se

Nos resultados, as falas das

participantes serão identificadas pela letra ‘E’, seguida do número da entrevista.

O presente estudo objetivou a caracterização das mulheres em situação de rua em uso abusivo de substâncias psicoativas, que será apresentado a seguir:

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Em relação à procedência, 18,42% era proveniente de outros estados e 81,6% de Minas Gerais, destas 36,8% relataram ser de Belo Horizonte e 44,78% de outras cidades mineiras. Dentre as participantes, 50% tinham idades entre 31 e 45 anos; 31,6% entre 46 a 60 anos e 18,4% entre 15 e 30 anos. O grau de escolaridade das entrevistadas variou entre: ensino fundamental incompleto (63%); ensino fundamental completo (23,7%); analfabetas (11,5%) e somente uma havia completado o nível médio (2,6%). Verificou-se o predomínio de baixa escolaridade, cujo impacto negativo foi mencionado na fala de uma das entrevistadas: “Eu queria ter estudado e se tivesse estudo, talvez não estivesse nas ruas. Está tão ruim para quem tem estudo, imagine para quem não tem.” E2 Quanto ao estado civil, 76% foram casadas ou viveram em união estável, enquanto que 21,4% das participantes eram solteiras e apenas uma era viúva (2,6%). Apesar de viverem nas ruas, uma delas expressou a esperança de que dias melhores virão: “Eu vim da rua, mas ainda vou vencer na vida, tenho fé nisso...” E2 Motivos que levaram as mulheres a abandonarem seus lares As razões da saída de casa foram para 62,7% problemas familiares, enquanto para 34,8%, questões econômicas e uma das mulheres alegou apenas o desejo de fazê-lo, sem apresentar outra justificativa. Os fatores que desencadearam os conflitos no lar foram: uso abusivo de álcool (42,7%), desavenças (37,6%) e sofrimento mental (19,7%). Ao responderem a respeito do motivo pelo qual foram viver na rua, pode-se observar certa desolação, uma tristeza de quem um dia teve seu espaço social e físico e agora não o tem mais. Algumas tiveram marido, casa, filhos, mas perderam tudo, e naquele momento percebiam que se perderam na vida: “O que eu mais queria era voltar, ter minha casa de novo, rever meus filhos. Eles devem estar grandes agora...” E3 Vários relatos expressaram os desentendimentos, as brigas e as agressões na família, que culminaram em sua saída de casa, para a rua: “Comecei a brigar com o meu pai quando comecei a fumar maconha, a

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coisa virou um inferno e quanto mais piorava, mais eu fumava, até que eu tive que sair de vez.” E6 A vivência de sofrimento mental foi outro motivo para o abandono da casa, pois se verificou que, no geral, a família não apresentava suporte para o cuidado, tão pouco à mulher, que em momentos de crise abandonava a família, a despeito de estar ou não assistida. A ilusão de uma vida melhor nas ruas A mudança de uma cidade pequena para um grande centro urbano se deu pela esperança de melhora nas condições de vida, conforme o depoimento: “Eu mudei pensando que as coisas iriam melhorar e acabei piorando minha vida de vez. Se pudesse voltava atrás.” E13. Elas se mostravam sem perspectivas de transformação e de futuro, estavam desmotivadas, mas acreditavam que dias melhores poderiam acontecer, de acordo com a vontade divina. “Agora é deixar que Deus resolva tudo. Para mim agora é só Ele...” E7. “Eu só sei que hoje estou viva, amanhã eu não sei de nada, vai ser o que Deus quiser...” E3 A rua torna-se um espaço propício para o uso de álcool e outras drogas, o viver neste contexto faz com que as pessoas estejam mais vulneráveis para o uso e abuso de álcool e outras drogas, e este, por sua vez, torna-se um forte aliado para lidar com as questões da vida na rua, como expressaram duas mulheres em suas falas: “Quando saí de casa não pensei duas vezes (...). E acabei afundando na bebida. Se você quer saber, a bebida foi minha companheira...” E5. “Quando você está na sob o efeito da droga dá para ficar bem, dá para esquecer os problemas, a vida”. E1 As mulheres tiveram os laços familiares rompidos e relataram essa situação com pesar, principalmente quando se reportavam aos filhos. Quando descreviam a perda do contato com os filhos, o faziam chorando, expressando dor que, em muitos casos, a bebida e outras substâncias psicoativas atenuavam. “E quando eu penso nos meus filhos... Eu tenho dois filhos, aí não adianta mesmo, saio e pego o que aparecer, bebo mesmo, não tem jeito”. E3

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Viver e adoecer na rua Quanto às questões de saúde, constatou-se que a maioria das mulheres estava adoecida, pois 58,0% estavam vivenciando um sofrimento mental e 13,1% eram portadoras do vírus HIV. No entanto, 29% não relataram alguma outra afecção de saúde. As entrevistadas percebiam que eram vistas com preconceito e estigma e que a comunidade as consideravam como pessoas de pouco valor social, que escolheram morar na rua, a despeito de terem um lar. Que não valorizavam a vida em família; que eram pessoas desonestas, com índole má e que eram desocupadas, como expressa a fala a seguir: “Todo mundo olha para nós como um ser vagabundo. Então, vem ficar aqui na rua e veja se consegue sair dessa situação! Vem ver como é bom!” E6 O agrupamento em busca de apoio e segurança, apesar de representar a possibilidade de melhores condições de subsistência e, por vezes de proteção, aumenta o risco de se tornarem alvo da polícia e de denúncias de moradores: “Quando os homens, os policiais chegam perto, aí o bicho pega, salve quem puder e quem dá conta de correr”... E6 A violência física, verbal e psicológica faz parte do cotidiano das mulheres em situação de rua. Algumas delas tornaram-se vítimas de violência sexual: “Muitas vezes tive relação sexual com homens que nunca vi e tinha que ficar calada, senão morria”. E2. Observa-se que as mulheres têm poucos recursos de defesa quando estão nessa situação.

O perfil das mulheres moradoras de rua entrevistadas no estudo está de acordo com a literatura produzida no país sobre o tema. São migrantes de cidades pequenas situadas ao redor de um grande centro urbano, adultos jovens em fase produtiva, sem companheiro e com baixa escolaridade. (Schor e Vieira, 2010; Varanda e Adorno, 2004). Tiradentes e Fernandes (2008) afirmam que, no caso das mulheres a pobreza se deve, entre outras coisas, à educação insuficiente, à dificuldade de acesso à escola, à dependência e falta de direitos econômicos, ao ingresso desigual no mercado de trabalho. Questões estas associadas ao gênero.

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Segundo Escorel (1999) quando o motivo da mulher sair para morar nas ruas são questões relacionadas aos conflitos na família, em geral, o alcoolismo, o consumo de drogas, a violência doméstica e as doenças mentais encontram-se associados. A situação de morar nas ruas rompe com os laços sociais e familiares, mas há o desejo de resgatar a vida doméstica e o convívio familiar, principalmente para aquelas que têm filhos. Elas almejam um lugar social onde o trabalho e o resgate da cidadania e dignidade sejam possíveis. Viver na rua gera medo, insegurança, solidão e angústia. Segundo Mattos, Campos e Ferreira (2004) a solidão é o primeiro sentimento que toma o indivíduo ao ver-se em situação de rua. A mudança do espaço físico e conhecido, dependendo das circunstâncias, modifica a percepção de mundo do sujeito e sua identidade. O enfrentamento de um novo ambiente, novas normas sociais, que em alguns casos são hostis, podem dificultar a reconstituição de um repertório pessoal e social. Diante dessa situação cria-se um espaço de vulnerabilidade física, psíquica e social (Kasper, 2006). O uso de álcool funciona como uma das causas da entrada, permanência e saída da rua e da fragilização dos vínculos e relações. Os principais motivos para viver em situação de rua encontram-se nos problemas de alcoolismo ou uso de drogas, desemprego e desavenças familiares (Botti et al., 2006). Quando comparamos os dados encontrados neste estudo a outros, oriundos de pesquisas nacionais, que associaram o gênero feminino ao uso e abuso de álcool e outras drogas, consideramos que estes coadunam com o panorama brasileiro. Segundo a pesquisa do Perfil dos Usuários de Crack e/ou Similares no Brasil (Bastos; Bertoni, 2014) realizada com 7.381 usuários de crack em 112 municípios e todas as capitais brasileiras, a maioria dos usuários de crack e/ou similares são adultos jovens, com idade média de 30 anos, homens (78,7%). Em relação às mulheres, a pesquisa aponta que elas têm entre 18 e 24 anos, se autodeclaravam não brancas, casadas ou morando com um companheiro, possuíam baixa escolaridade, viviam em situação de rua nos últimos 30 dias anteriores à pesquisa. Estavam realizando algum tipo de trabalho ilícito, relacionado ou não ao tráfico de drogas, como meio Ponta Delgada, Julho de 2015


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para obter dinheiro ou drogas e com história prévia de prisão devido a esta prática. Houve um expressivo engajamento dessas mulheres em trabalho sexual ou troca de sexo por dinheiro. O tempo médio de uso relatado pelas mulheres foi de aproximadamente seis anos. O número médio de pedras/porções de crack e/ou similares fumadas por mulheres foi de 23,34 nas capitais. A maioria das mulheres relatou uso concomitante de drogas lícitas (álcool e tabaco) nos 30 dias anteriores à realização da pesquisa. O relato de uso de outras drogas ilícitas, neste mesmo período, também foi frequente, principalmente de maconha e cocaína. A maioria das mulheres referiu atividade sexual nos 30 dias anteriores à pesquisa com parceiro fixo. Uma proporção significativa de mulheres relatou ter recebido dinheiro ou drogas em troca de sexo nos 30 dias anteriores à pesquisa. Mais de 70% das mulheres referiu ter tido sexo com parceiros que não haviam utilizado o preservativo masculino, nem utilizaram, elas mesmas, em pelo menos uma relação sexual vaginal, oral ou anal. A proporção de mulheres que relataram ter sofrido violência sexual alguma vez na vida foi seis vezes à relatada pelos homens. Nesse sentido, para além da psicopatologia, segundo Mattos e Ferreira (2004) essa condição de vulnerabilidade diante do que se considera normal para a sociedade, a saber: morar em uma residência fixa, trabalhar formalmente e constituir família, torna o diferente alvo de estranhamento e repulsa.

O estigma que o morador de rua carrega é, por vezes,

internalizado em função de uma tipificação que ele absorve do meio social. O que se verifica é a naturalização da vida das pessoas em situação de rua. Desse modo difunde-se a condição de rua como definitiva, imutável, diante da qual o sujeito se sente destituído de sua identidade e da possibilidade de autonomia. No setor saúde o descaso com essa população também é observado. Adorno; Vasconcellos e Alvarenga (2011) referem que, em casos de acidentes e situações de emergência, o morador de rua pode passar meses internado, em função das diversas intervenções a que tenha que se submeter, como no politraumatismo, mas que após a alta, ele é ‘descartado’ em vias públicas, sem outro acompanhamento.

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As situações do quotidiano que a mulher encontra no momento em que passa a viver na rua a expõe à vulnerabilidade e risco. O uso e abuso de álcool e outras drogas é um deles. O estudo possibilitou uma aproximação com a realidade de vida dessas mulheres, suas necessidades e angústias diante das situações vivenciadas em seu cotidiano. Essa realidade merece a atenção por parte das políticas públicas para a área e aponta a necessidade do planejamento de ações em diferentes setores da sociedade que acolham as demandas dessa parcela da população, entre eles, o da saúde, considerando a questão do gênero.

A enfermagem e suas diferentes especialidades, entre elas: a saúde da mulher; a saúde coletiva e a saúde mental podem contribuir por meio do desenvolvimento de pesquisas e ações junto às mulheres em situação de rua, na ótica da integralidade. Desta forma, suas ações repercutirão na formulação ou ampliação de políticas públicas, na área. Deve-se considerar, no âmbito da formação do enfermeiro, a atenção pessoa em situação de rua, sob a perspectiva de gênero, considerando o perfil epidemiológico e social desta população.

Adorno, R.C.F.; Vasconcellos, M. P. e Alvarenga, A.T. (2011). Para Viver e Pensar Além das Margens: perspectivas, agenciamentos e desencaixes no campo da Saúde Pública. Saúde & Sociedade, 20(1), 86-94.

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1

Mestre em Psicologia da Educação, Desenvolvimento e Aconselhamento pela Faculdade de Psicologia e

de Ciências da Educação, Universidade de Coimbra, Rua do Colégio Novo, 3000-115 Coimbra, Portugal. E-mail: rmarinasantos@gmail.com 2

Doutoramento; Professora Auxiliar na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade

de Coimbra, Rua do Colégio Novo, 3000-115 Coimbra, Portugal.. Email: luizabelima@fpce.uc.pt

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À prática de atividades extracurriculares (AEC) na infância e adolescência têm sido associados benefícios físicos, psicológicos e sociais. Com este estudo pretendeu-se compreender em que medida a prática de atividades

extracurriculares

e

o

número

de

atividades

praticadas

influenciam a qualidade de vida de crianças que frequentam os 3º e 4º anos de escolaridade. Participaram no estudo 201 crianças (47,3% raparigas e 52,7% rapazes) com idades entre os 7 e os 11 anos (M=8.84, DP=0.83), que

responderam

a

um

protocolo

constituído

por

um

questionário

sociodemográfico e pelo Kidscreen-27 que avalia a qualidade de vida. Os resultados indicam que as crianças que praticam AEC quando comparadas com as que não praticam revelam uma melhor qualidade de vida. Não foram encontradas diferenças quando se comparam as crianças consoante o número de AEC praticadas. Fomentar a prática de AEC no primeiro ciclo de escolaridade pode, assim, representar não apenas o desenvolvimento de uma

competência

específica

mas

também

o

desenvolvimento

de

competências psicossociais de autonomia e de bem-estar. Palavras-Chave:

Atividades

Extracurriculares;

Qualidade

de

Vida;

Crianças.

La práctica de actividades extracurriculares en la infancia y la adolescencia se ha asociado a beneficios físicos, psicológicos y sociales. Con este estudio se pretendió comprender en qué medida la práctica de actividades extracurriculares y la cantidad de actividades practicadas influyen en la calidad de vida de los alumnos que cursan tercer y cuarto cursos de primaria. La muestra fue compuesta por 201 sujetos (47.3% niñas e 52.7% niños), entre los 7 y los 11 años (M=8.84, DE=0.83), que contestaron

a

un

protocolo

constituido

por

un

cuestionario

socio

demográfico y por un cuestionario de auto-respuesta, el Kidscreen-27, para evaluar la calidad de vida. Los resultados obtenidos muestran que los alumnos que realizan actividades tienen mayor calidad de vida que los que no practican. No hay diferencias de calidad de vida al comparar por la cantidad de actividades practicadas. Fomentar la práctica de actividades extracurriculares puede representar el desarrollo de una competencia Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

específica, pero también de competencias psicosociales, de autonomía y de bienestar. Descriptores: Actividades extra curriculares, Calidad de vida; niños.

Extracurricular activities have shown to have physic, psychological and social benefits. This investigation aims to understand in what way the practice and the amount of these activities influence the quality of life of a 3rd and 4th grader. The sample comprised 201 subjects (47.3% girls and 52.7% boys), aged between 7 and 11 years old (M=8.84, SD=0.83), who answered

an

assessment

protocol

composed

of

socio-demographic

questions and a self-report questionnaire, the Kidscreen-27, that evaluates quality of life. The results show that the participants in extracurricular activities have better quality of life than the non-participants. The comparison based on the amount of extracurricular activities practiced hasn’t shown significant results. Engaging in extracurricular activities in early years of school may represent not only the development of a specific skill, but also benefit psychosocial development, autonomy and well-being. Keywords: Extracurricular Activities; Quality of Life; Children

O envolvimento de alunos em atividades extracurriculares (AEC) é um tema largamente estudado e mais ou menos consensual quanto aos benefícios que lhe são atribuídos. Num mundo cada vez mais competitivo e individualista, em que se quer profissionais cada vez mais completos nas mais diversas áreas, as AEC ganharam um estatuto de notoriedade, pelos apregoados inúmeros benefícios que trazem à vida dos jovens e por ajudarem a conciliar a vida profissional e familiar de pais cada vez mais ocupados. A prática destas atividades parece ser encarada como uma forma de as crianças e jovens obterem uma vantagem em relação aos seus pares, por se achar que preparam melhor para a adultez e que facultam qualidades não tipicamente fomentadas nas escolas, como iniciativa, motivação, sociabilidade e facilidade em lidar com a diferença, seja cultural

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

ou de outra ordem (Larson, Jarrett, Hansen, Pearce, Sullivan, Walker, Watkins & Wood, 2004; Molinuevo, Bonillo, Pardo, Doval, & Torrubia, 2010). É por isso natural o crescente interesse pela forma como as crianças e adolescentes passam o tempo depois da escola, e qual o efeito que isso tem no seu desenvolvimento emocional, social e cognitivo (Jordan & Nettles, 2000). A posição geral encontrada na literatura e confirmada pelas sucessivas investigações é a de que a prática de AEC traz benefícios aos mais diversos níveis, como físico, psicológico, social e para a vida futura, estando

positivamente

correlacionada

com

poder

de

iniciativa,

desenvolvimento de competências, estabelecimento de objetivos ou vida social estimulante (Mahoney, Cairns & Farmer, 2003; Fredricks & Eccles, 2006; Shernoff, 2010; Molinuevo et al., 2010) elevada confiança pessoal, melhor ajustamento psicossocial (Shernoff, 2010) e baixos níveis de depressão (Fredricks & Eccles, 2005; Mahoney et al., 2003), além de que mostrou ter impacto positivo em alunos em situações de risco (Mahoney et al., 2003). O grupo de pares parece ter aqui um papel importante. Verificou-se que as ligações que se estabelecem através da prática de AEC estão relacionadas com maior capacidade de socialização e aceitação pelos pares e com baixo comportamento antissocial (Durlak & Weissberg 2010, Mahoney et al., 2003; Shernoff, 2010). Apesar de não existir uma definição da qualidade de vida aceite como sendo exata e única, existem alguns aspetos onde há consenso; é um constructo multidimensional e subjetivo (Seidl & Zannon, 2004 in Gaspar & Matos, 2008) que deve englobar os aspetos físico, mental e de interação social (Gaspar & Matos, 2008). Lawton (1991) diz que a qualidade de vida é a avaliação multidimensional da interacção sujeito-ambiente num tempo passado, presente e antecipado, através de padrões intrapessoais e de normas sociais. Para este estudo parte-se do pressuposto que, não podendo medir a qualidade das AEC, a prática e a intensidade com que são praticadas pesam na qualidade de vida de quem as pratica. Referente à intensidade, a prática extensiva de atividades parece ser relativamente comum nos EUA, onde a grande maioria das investigações é feita, havendo diversos artigos que focam o tema (Pediatricians Advocate More Playtime for Children, 2006; Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

The Overbooked Child. Are We Pushing Our Kids Too Much?, 2000). Em Portugal

parece

também

começar

a

ser

uma

realidade,

embora

consideravelmente menos expressiva. Com cada vez maior variedade e oferta de AEC, há alunos com o horário completamente preenchido, a praticar três, quatro, cinco e até mais atividades. No estudo de Shernoff (2010), os resultados mostram que a qualidade da experiência tem mais importância que a quantidade de atividades que se pratica. Outras investigações apontam para um limite de horas semanais a partir do qual a prática passa a ter malefícios (Marsh & Kleitman, 2002; Zill, Nord & Loomis, 1995 in Carroll & Purdie, 2007). Para além do impacto no desenvolvimento da criança, também a vida familiar poderá ser afetada. As AEC podem ajudar a conciliar os horários dos membros da família, mas se a prática dessas atividades perturbar ou diminuir o tempo que os pais devem passar com os filhos, acredita-se que possa ser prejudicial. As famílias precisam de tempo para estarem juntas; os seus membros devem ter oportunidade de estarem uns com os outros, para relaxar, para falar, para saberem do seu dia a dia, para brincarem em família (Elkins, 2003). Se pais e filhos perdem tempo de qualidade enquanto família por causa das AEC, então estas perdem influência positiva para que foram pensadas. Quando se fala em qualidade de vida, é inevitável pensar no estatuto socioeconómico das famílias. Sendo baixo, impõe naturalmente um limite nos recursos e consequentemente nas oportunidades que se pode vir a ter, seja de estudo, de atividades ou de carreira futura. Além (e por causa) da limitação monetária, estas famílias podem carecer de membros com carreiras relacionadas a estatutos mais altos, pelo que a falta de modelos pode levar as crianças a serem menos ambiciosas com o seu próprio futuro (Trice, 1991, in Mahoney et al., 2003). Na verdade, sujeitos com padrões de comportamento social problemático vêm maioritariamente de famílias de baixo estatuto socioeconómico (Cairns et al. 1989). No entanto, são também estas crianças e adolescentes que têm mais a beneficiar da prática de AEC, porque são as que por norma têm mais espaço para melhorar (Mahoney et al., 2003). Aqui será relevante explorar a interacção sujeitoambiente mencionada no início do texto. Segundo Lawton (1991), existem três pontos importantes. Primeiro, ter em mente que o ambiente onde se está inserido afeta o nosso bem-estar e que os ambientes não são todos Ponta Delgada, Julho de 2015


261

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

iguais na qualidade de vida que proporcionam, como podem ser exemplo o ambiente de casa e o de uma AEC. Segundo, as pessoas afetam o contexto em que vivem, moldando-o às suas necessidades. Terceiro, esta interação é dinâmica e recíproca, ou seja, o sujeito e o ambiente influenciam-se mutuamente. Pode-se portanto inferir que a prática de uma AEC vai ter impacto no sujeito que a pratica, no contexto em que a pratica e no ambiente onde vive. Os

fatores

determinantes

da

qualidade

de

vida

são

predominantemente variáveis psicológicas, como a autoestima, o suporte social e a autonomia (Hansson, 2006; Kuehner & Buerger, 2005). É crucial considerar que é a perceção do sujeito que mais contribui com informação para a sua avaliação da qualidade de vida. Esta avaliação é intrapessoal, sendo portanto subjetiva, e obedece a padrões de avaliação internos (Lawton, 1991) sujeitos à experiência pessoal de cada um. São as avaliações de cada sujeito e satisfação ou não com os seus comportamentos que mais podem dar informação sobre a qualidade de vida (Basu, 2004). O objetivo geral desta investigação é o de perceber se a prática de atividades extracurriculares tem influência na qualidade de vida de crianças ainda a frequentar o primeiro ciclo de escolaridade. Em particular pretendese: 1. Perceber se as crianças dos terceiro e quarto anos que praticam AEC se distinguem das que não praticam em termos da sua qualidade de vida. 2. Verificar se existem diferenças ao nível da qualidade de vida de crianças dos terceiro e quarto anos, entre crianças que praticam uma ou duas AEC e crianças que praticam três ou mais.

Amostra Participaram neste estudo 201 crianças com uma média de idade de 8,84 anos (DP=0,833), existindo mais rapazes do que raparigas (cf. tabela 1).

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Tabela 2. Características gerais da amostra (n=201) n (%) M (DP) Idade 8.84 (0.83) 7 anos 4 (2) 8 anos 71 (35.30) 9 anos 84 (41.80) 10 anos 37 (18.40) 11 anos 5 (2.50) Sexo Feminino 95 (47.30) Masculino 106 (52.70) Escolaridade 3º ano 114 (56.70) 4º ano 87 (43.30) Nº de AEC Grupo 1 87 (43.30) Grupo 2 70 (34.80) Grupo 3 44 (21.90) Idade de início AEC 3.21 (3.20) Com que frequência pratica AEC Todas as semanas 113 (99.10) De duas em duas0 (0) semanas Uma vez por mês 1 (0.90) Dias por semana que 1.75 (1.98) pratica AEC Tipo de AEC Dança 24 (13.25) Desporto 81 (44.75) Música 47 (25.96) Língua 10 (5.52) Outra 19 (10.49) Com estas crianças foram constituídos 4 grupos que se distinguem através do número de AEC que praticam. Especificamente, o grupo 1 inclui crianças que não praticam AEC, o grupo 2 agrega as crianças que praticam uma ou duas AEC e, por último, um grupo 3 tem crianças que praticam três ou mais AEC. Estes dois últimos grupos, quando considerados em conjunto, formam um quarto grupo, o grupo dos praticantes de AEC. Instrumentos Questionário Sociodemográfico – elaborado para obter informação sociodemográfica das crianças que participaram no estudo, bem como os seus hábitos no que respeita a prática, ou não, de AEC.

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Kidscreen-27 – nesta investigação foi utilizada a versão reduzida de vinte e sete itens do questionário de qualidade de vida de crianças e adolescentes Kidscreen, adaptado para Portugal por Tânia Gaspar e Margarida Gaspar de Matos. Avalia o estado de saúde geral, estando dividido

em

cinco

dimensões,

bem-estar

físico,

bem-estar

psicológico, autonomia e relação com os pais, suporte social e grupo de pares, e finalmente, ambiente escolar. As respostas são dadas numa escala tipo Likert com cinco hipóteses, que variam de “nada” a “totalmente”. No presente estudo, o valor α de Cronbach é de 0.771, indicando possuir boa fiabilidade. Procedimentos A amostra foi recolhida em diferentes escolas das cidades de Coimbra, Viseu, Porto e da ilha da Madeira. Depois de um primeiro contacto com a Direção da escola, foram entregues os pedidos de autorização aos Encarregados de Educação, com a devida explicação do objetivo da investigação e com a garantia de confidencialidade dos dados. A recolha foi presencial e em espaço de sala de aula, com exceção da amostra de Viseu, que foi recolhida pelos professores. No caso da Madeira foi necessário um pedido à Secretaria Regional de Educação e Recursos Humanos. Foi sempre tido em atenção saber junto dos professores se haveria nas turmas alguma criança com necessidades educativas especiais. Em nenhum caso houve.

Estudo 1 – Influência da prática e não prática de AEC na qualidade de vida Analisando as estatísticas descritivas do Kidscreen-27 na tabela 2, verificamos que a amostra praticante de AEC perceciona ter uma melhor qualidade de vida do que a amostra não praticante, em todas as dimensões da qualidade de vida. Possuindo as diferenças significado estatístico (p≤.05).

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Tabela 2. Médias, desvio-padrão e teste da diferença de médias da qualidade de vida em função da prática de AEC* Grupo 1 (n=87) M (DP) Bem Estar Físico 16.03 (3.65) Bem Estar Psicológico 20.40 (4.10)

Grupo 4 (n=114) M (DP) 17.32 (2.99) 21.54 (3.57)

Autonomia e Relação22.05 (5.56) 23.77 com os Pais (4.12) Suporte Social e13.21 (4.15) 14.79 Grupo de Pares (1.89) Ambiente Escolar 12.98 14.11 Total (3.012) (2.25) 81.43 88.11 (14.89) (10.35) *Grupo 1=sem AEC; Grupo 4=com AEC

MannWhitney U 5987.00 5757.00

5874.00 5901.00 6068.00 6426.00

Wilcoxo p nW

12542.0 0 12312.0 0 12429.0 0 12457.0 0 12623.0 0 12981.0 0

.01 1 .04 5 .02 4 .01 4 .00 6 .00 0

Assim, podemos concluir que as crianças que praticam AEC se percecionam como tendo melhor bem estar físico e psicológico, mais autonomia, melhor relação com os pais, melhor suporte social e grupo de pares e melhor ambiente escolar. No geral, mais qualidade de vida do que as crianças que não praticam AEC. Estudo 2 – Influência da quantidade de AEC praticadas na qualidade de vida Relativamente ao questionário de qualidade de vida analisado por número de AEC (tabela 3), as médias são idênticas para os dois grupos apenas ligeiras flutuações entre as dimensões. Não se encontram diferenças estatisticamente significativas na comparação entre número de AEC no valor total nem em nenhuma dimensão (p≥.05), o que significa que os grupos percecionam a sua qualidade de vida da mesma forma.

Tabela 3. Médias, desvio-padrão e teste da diferença de médias da qualidade de vida em função da quantidade de AEC* Grupo 2 (n=70) M (DP) Bem Estar Físico 17.36 (3.00) Bem Estar Psicológico 21.61 (3.88)

Grupo 3 (n=44) M (DP) 17.25 (2.90)

MannWhitney U 1498.00 1250.50

Wilcoxo p nW 2488.00 2240.50

.804 .081

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

21.43 (3.05) Autonomia e Relação23.61 (4.04) 24.02 com os Pais (4.27) Suporte Social e14.87 (1.96) 14.66 Grupo de Pares (1.79) Ambiente Escolar 14.10 (2.19) 14.11 Total 88.11 (2.37) (10.28) 88.09 (10.57) *Grupo 2=com uma ou duas AEC; Grupo 3= com

1665.50

2655.50

.461

1290.00

2280.00

.112

1536.50 1554.50

2526.50 2544.50

.983 .933

três ou mais AEC

As crianças do grupo praticante de AEC percecionam ter uma melhor qualidade de vida do que as que não praticam. Como visto anteriormente, em Molinuevo et al. (2010) argumenta-se que os alunos que não façam parte de nenhuma AEC podem ter menos oportunidade de interagir com os seus pares, correndo assim o risco de desenvolver problemas emocionais e comportamentais. Por outro lado, a prática de AEC foi correlacionada com sentimentos e atitudes positivas, maior capacidade de socialização e aceitação pelos pares (Durlak & Weissberg, 201; Mahoney et al., 2003; Shernoff, 2010), satisfação pessoal e em relação à escola (Hansen et al., 2003; Shernoff, 2010; Barber et al., 2001; Carrol & Purdie, 2007). Todos estes benefícios podem, de facto, resultar na percepção de uma melhor qualidade de vida. Na comparação de grupos através da quantidade de AEC que praticam, os resultados mostram uma ausência de diferenças significativas estre os dois grupos. Apesar de a literatura defender que a prática excessiva de atividades extracurriculares pode ser um efeito negativo na vida destes alunos (Marsh & Kleitman, 2002; Zill, Nord & Loomis, 1995 cit. in Carroll & Purdie, 2007; Coleman, 1961; Marsh, 1992; Marsh & Kleitman, 2002, cit. in Fredricks & Eccles, 2006), os resultados deste estudo não parecem corroborar essa teoria. Para este resultado pode ter contribuído o facto de a amostra de crianças que praticavam três ou mais AEC ter sido recolhida em colégios privados, onde o horário destas atividades se mistura com as atividades letivas, dificultando a perceção de que estas representam

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

um extra na sua formação, não sendo, também por isso, sentidas como excessivas.

O reforço da ideia de que a prática de atividades extracurriculares traz benefícios variados para os seus praticantes, motiva o investimento na apresentação de atividades várias que possam suscitar o interesse das crianças e jovens e os ajudem na potencialização das suas capacidades e do seu bem-estar e na descoberta de novos recursos, interesses e vocações. Seria, no entanto, interessante conduzir investigações longitudinais que permitissem avaliar o efeito duradouro dos benefícios encontrados pela prática de atividades extracurriculares.

Barber, B.L., Eccles, J.S., & Stone, M.R. (2001). Whatever happened to the jock, the brain, and the princess? Young adult pathways linked to adolescent activity involvement and social identity. Journal of Adolescent Research, 16, 429-455.

Basu, D. (2004). Quality-of-life issues in mental health care: Past, present, and future. German Journal Psychiatry, 7 (3), 35-43.

Cairns, R.B., Cairns, B.D. & Neckerman, H.J. (1989). Early school dropout: configurations and determinants. Child Development, 60 (6), 1437-1452.

Carrol, A. & Purdie, N. (2007). Extra-curricular involvement and self-regulation in children. The Australian Educational and Developmental Psychologist, 24 (1), 19-35.

Durlak, J.A. & Weissberg, R.P. & Pachan, M. (2010). A meta-analysis of after school programs that seek to promote personal and social skills in children and adolescents. American Journal of Community Psychology, 45 (3-4), 294-309.

Elkins, D. (2003). The overbooked child: Are we pushing our kids too hard?. Psychology Today, 36 (1), 64-70.

Fredricks, J.A. & Eccles, J.S. (2005). Developmental benefits of extracurricular involvement: do peer characteristics mediate the link between activities and youth outcomes?. Journal of Youth and Adolescence, 34 (6), 507-520.

Fredricks, J.A. & Eccles, J.S. (2006). Extracurricular Involvement and Adolescent Adjustment: Impact of Duration, Number of Activities, and Breath of Participation. Applied Developmental Science, 10 (3), 132–146.

Gaspar, T. & Matos, M.G. (2008). Qualidade de vida em crianças e adolescentes. Versão portuguesa dos instrumentos Kidscreen-52. Cruz Quebrada: Aventura Social e Saúde.

Hansen, D.M., Larson, R.W., Dworkin, J.B. (2003). What adolescents learn in organized youth activities: a survey

of

self-reported

developmental experiences. Journal of

Research on

Adolescence, 13 (1), 25-55. 

Hansson, L. (2006). Determinants of quality of life in people with severe mental illness [Abstract]. Acta Psychiatrica Scandinavica, 429, 46-50.

Ponta Delgada, Julho de 2015


267

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Jordan, W.J., Nettles, S.M. (2000). How students invest their time outside of school: Effects on school-related outcomes. Social Psychology of Education, 3 (4), 217-243.

Kuehner, C. & Buerger, C. (2005). Determinants of subjective quality of life in depressed patients: The role of self-esteem, response styles, and social support. Journal of Affective Disorders, 86, 205-213.

Larson, R., Jarrett, R., Hansen, D., Pearce, N., Sullivan, P., Walker, K., Watkins, N., Wood, D. (2004). Organized youth activities as contexts of positive development. In A. Linley & Y.S. Joseph (Eds.), Positive psychology in practice (pp. 540–560). New York: John Wiley

Lawton M. P. (1991) A multidimensional view of quality of life in frail elders. In J. Birren, J. Lubben, J. Rowe & D. Detchman (Eds.). The Concept and Measurement of Quality of Life in the Frail Elderly. (pp. 3-27). San Diego, CA: Academic Press

Mahoney, J.L., Cairns, B.D., & Farmer, T.W. (2003). Promoting interpersonal competence and educational

success

through

extracurricular

activity

participation.

Journal

of

Educational

Psychology, 95 (2), 409-418. 

Marsh, H.W., & Kleitman, S. (2002). Extracurricular school activities: The good, the bad, and the nonlinear. Harvard Education Review, 72, 464-514.

Molinuevo, B., Bonillo, A., Pardo, Y., Doval, E., & Torrubia, R. (2010). Participation in extracurricular activities and emotional and behavioral adjustment in middle childhood in spanish boys and girls. Journal on Community Psychology, 38 (7), 842-857.

Shernoff, D.J. (2010). Engagement in after school programs as a predictor of social competence and academic performance. American Journal of Community Psychology, 45 (3-4), 325-337.

Ponta Delgada, Julho de 2015


268

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Mestre em Psicologia da Educação, Desenvolvimento e Aconselhamento, Faculdade de Psicologia e de

Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. Email: natashasoares@live.com.pt 2

Doutoramento; Professora Auxiliar na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da

Universidade

de

Coimbra;

R.

do

Colégio

Novo,

3000-115

Coimbra,

Portugal.

Email:

luizabelima@fpce.uc.pt 3

Doutoramento; Professora Auxiliar na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da

Universidade

de

Coimbra;

R.

do

Colégio

Novo,

3000-115

Coimbra,

Portugal.

Email:

lisete.monico@fpce.uc.pt 4

Doutoramento; Professora Auxiliar na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da

Universidade

de

Coimbra;

R.

do

Colégio

Novo,

3000-115

Coimbra,

Portugal.

Email:

mariajorgef@fpce.uc.pt

Ponta Delgada, Julho de 2015


269

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

O contexto universitário confronta os estudantes com desafios educacionais, pessoais, interpessoais e sociais, entre outros. Neste sentido, exige dos estudantes uma forte capacidade de regulação emocional, conduzindo, por vezes, a situações extremas de stresse que podem acabar por

desencadear

a

síndrome

de

Burnout,

um

processo

sequencial

tridimensional, de inadaptação ao meio. Com este estudo pretendeu-se analisar a relação entre a inteligência emocional e a experiência de Burnout em estudantes do ensino superior. Participaram 301 estudantes, de ambos os sexos (56.1% rapazes) com idades entre os 18 e os 39 anos (M=21.85; DP=2.55) que responderam ao Inventário de Burnout para Estudantes Portugueses e ao Questionário de Competência Emocional. Os resultados principais evidenciam uma associação moderada a forte da inteligência emocional com o sentimento de eficácia profissional, em particular, nas raparigas, e sendo mais expressiva no mestrado integrado do que na licenciatura. A inteligência emocional emerge como uma competência a ser promovida pelos serviços universitários que oferecem apoio aos estudantes. Palavras-Chave: Burnout; Inteligência Emocional; Estudantes; Ensino Superior.

El contexto universitario plantea a los estudiantes retos educativos, personales, interpersonales y sociales, entre otros. En este sentido, se demanda a los estudiantes una fuerte capacidad de regulación emocional, lo que puede llevar a un estrés extremado que, eventualmente, puede desencadenar el síndrome de Burnout, un proceso secuencial en tres dimensiones de inadaptación al medio. En este estudio el objetivo fue estudiar la relación entre el Burnout y la Inteligencia Emocional en estudiantes universitarios. Participaron 301 sujetos de ambos sexos (56,1% varones) con edades entre los 18 y 39 años (M=21.85, DE=2,55), que han respondido al Inventario de Burnout de Estudiantes Portugueses y al Cuestionario

de

Competencia

Emocional.

Los

resultados

principales

muestran una asociación moderada a fuerte entre la inteligencia emocional y el sentimiento de eficacia profesional, en especial en las jóvenes, y más expresiva en el máster qué en la licenciatura. La inteligencia emocional Ponta Delgada, Julho de 2015


270

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

emerge

como

una competencia a ser promovida por

los

servicios

universitarios que ofrecen apoyo a los estudiantes. Descriptores: Burnout; inteligencia emocional; estudiantes universitarios; Educación Superior.

The university context presents students with educational, personal, interpersonal and social challenges, among others. In consequence, those challenges require from students a strong capacity for emotional regulation, leading sometimes to extreme stress that can, eventually, trigger the Burnout

syndrome,

a

three-dimensional

sequential

process

of

maladjustment to the environment. This study aimed at studying the relationship

between

Burnout

and

Emotional

Intelligence

in

College

students. The sample comprised 301 individuals of both sexes (56.1% boys)

aged

between

18

and

39

years

(M=21.85,

SD=2.55).

Two

instruments were applied: the Burnout Inventory for Portuguese students and the Emotional Competence Questionnaire. The main results show a moderate to strong association between emotional intelligence and the sense of professional effectiveness, especially for girls and more expressive among master students than among licentiate degree students. Emotional intelligence emerges has a skill to be promoted by the university services that support college students. Keywords: Burnout; Emotional Intelligence; college students; Higher Education.

No contexto sociocultural em que nos encontramos, a entrada na Universidade representa uma transição exigente do Ensino Secundário para o Ensino Superior, pois depende do número de vagas que cada instituição dispõe, das notas de candidatura assim como dos exames exigidos, fazendo com que cerca de 25% dos alunos não veja satisfeitas as suas preferências vocacionais (Almeida et al, 2003). Associados a esta transição surgem desafios aos jovens adultos, nas áreas académica, social, pessoal e vocacional. Na área académica há uma total alteração do ambiente escolar, em que se destaca o sistema de ensino, a avaliação, a participação nas Ponta Delgada, Julho de 2015


271

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

aulas

e

os

métodos

de

estudo;

a

área

social

é

marcada

pelo

desenvolvimento de novas relações, da transformação das pré-existentes e o afastamento da família; em termos pessoais ocorre uma consolidação da personalidade, a autonomia (gestão de tempo e dinheiro) e construção de valores; por fim, as questões vocacionais associam-se às expectativas relacionadas com o curso, os planos e objetivos a traçar, assim como os projetos de vida baseados na escolha do curso (Almeida et al, 2003). Na sua diversidade estes desafios podem induzir o aparecimento de stresse na vida do estudante universitário, podendo contribuir para o desenvolvimento de um quadro de Burnout. O primeiro estudo com rigor e suporte empírico sobre o Burnout em estudantes surgiu com Schaufeli e colaboradores em 2002, de onde se conclui que este quadro é composto por três dimensões: Exaustão Emocional, definida pelo desgaste associado às exigências do estudo, Descrença, caracterizada pelo desenvolvimento de uma atitude cínica e distante em relação ao estudo e Ineficácia Pessoal, associada a uma perceção de estarem a ser incompetentes como estudantes (Martinez, Pinto & Silva, 2000). Yang (2004) definiu o Burnout em estudantes como a consequência de um processo de aprendizagem em que os indivíduos estão sujeitos a diversos obstáculos, como o stress ou outros fatores psicológicos, que resultam num estado de exaustão emocional, uma tendência à despersonalização e um sentimento de baixa realização profissional. Estudos realizados com estudantes universitários têm revelado que a sua inteligência emocional está associada ao sucesso académico (Di Fabio & Palazzeschi, 2009) e à menor manifestação de sintomas psicológicos e de complicações somáticas durante as épocas de exames (Mikolajczack, Roy, Luminet, Filee, & de Timany, 2007). Uma vez que a Inteligência Emocional pode afetar o nosso comportamento das mais diversas formas, tanto a nível pessoal como laboral, foram surgindo os mais variados modelos que a descrevem.

O

presente

estudo

assenta

no

modelo

baseado

nas

competências de Salovey e Mayer (1990), que ilustram a Inteligência Emocional como a capacidade do indivíduo para percecionar claramente a realidade, compreender e regular as suas próprias respostas emocionais assim como para se adaptar e responder aos outros (Mayer & Salovey, 1997). Neste sentido, estes autores definem quatro tipos principais de Ponta Delgada, Julho de 2015


272

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

capacidades emocionais, interrelacionadas: i) perceção emocional, isto é, habilidade individual de reconhecer as próprias emoções assim como captar as emoções dos outros expressas em expressões faciais, vozes e imagens; ii) utilização das emoções, enquanto capacidade para explorar as emoções, procurando desenvolver outras atividades cognitivas, aplicadas à resolução de problemas; iii) compreensão emocional, entendida como aptidão para perceber as diferentes emoções, a sua relação e evolução ao longo do tempo; e iv) gestão emocional, vista como a capacidade para regular as emoções próprias e as dos outros, tirando o máximo partido delas (McPheat, 2010). De acordo com Struthers, Perry e Menec (2000), o Burnout em estudantes

influencia

o

seu

desempenho

académico

e

respetivos

compromissos, assim como pode ameaçar o seu futuro académico, pelo que se considera o Burnout estudantil como um preditor para o Burnout a nível profissional (Mostert, Pienaar, Gauche & Jackson, 2007). Neste sentido, o presente estudo procura analisar a relação entre o Burnout e a inteligência emocional em estudantes que se encontram a frequentar o ensino superior.

Amostra Participaram 301 estudantes que frequentam do 1º ao 5º ano de cursos do ensino superior, de ambos os sexos (56.1% rapazes e 43.9% de raparigas), com idades compreendidas entre os 18 e os 39 anos (M=21.85 ; DP=2.55). Encontram-se a frequentar cursos das ciências exatas 68.5% dos estudantes, estando os restantes (34.2%) em cursos das ciências da saúde. Instrumentos Inventário

de

Burnout

de

Maslach

para

estudantes

portugueses [MBI] (Maroco & Tecedeiro, 2009; versão original Schaufeli et al., 2002) - escala de autoavaliação, constituído por 15 itens, agrupados pelos fatores Exaustão Emocional, Descrença e Eficácia Profissional. Os itens avaliam a frequência de sentimentos expressos em frases, no contexto escolar, de acordo com uma escala de Likert de 6 pontos, desde “Nunca” ao “Sempre”. No presente estudo, a escala revelou possuir boa consistência interna para as dimensões Exaustão Emocional (α=.83) e Descrença (α=.86), e razoáveis para a Eficácia Profissional (α=.77). Ponta Delgada, Julho de 2015


273

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Questionário de Competência Emocional [QCE] (Faria & Lima, 2002; versão original Taksic, 2000) - medida de auto relato, composta por 45 itens, repartidos pelos fatores Perceção Emocional, Expressão Emocional e Capacidade para Lidar com a Emoção. Este questionário é preenchido com base numa escala de Likert de 6 pontos, desde “Nunca” até “Sempre”. Neste estudo, a consistência interna das três dimensões é elevada: Perceção Emocional (α=.92) Expressão Emocional (α= .88) e Capacidade para Lidar com a Emoção (α = .82). Questionário Sociodemográfico – destinado à recolhe de informações sobre os sujeitos da amostra, nomeadamente, sexo, idade tipo de curso e ano que frequentam. Procedimentos Os dados foram recolhidos pela própria investigadora em diferentes faculdades, em contexto de aula ou através de contactos diretos noutros espaços académicos. Os estudantes foram sempre esclarecidos acerca dos objetivos do estudo, tendo-lhes sido garantida a confidencialidade e o anonimato dos dados recolhidos.

A descrença e a eficácia profissional são os fatores do Burnout que mais

se

correlacionam

com

as

diferentes

vertentes

da

inteligência

emocional, tanto para o total da amostra como para cada um dos sexos (cf. Tabela 1). Em particular, verifica-se que nas raparigas a capacidade para expressar e para lidar com as emoções está positiva e fortemente correlacionada com a eficácia profissional. Estas mesmas capacidades emocionais correlacionam-se negativa e moderadamente, e como maior expressão

também nas

raparigas, com o

sentimento

de

descrença

característico do Burnout. Tabela 1. Correlações entre o MBI e o QCE, na amostra total e segundo o sexo (n=301) Exaustão Emocional

Perceção Emocional Expressão Emocional

Total

Fem

Masc

-0.083

-.058

.111

-0.094

-.139

-.078

Descrença Total 0.160** 0.221**

Eficácia Profissional

Fem

Masc

-.164

-.150

.309**

-.129

Fem

Masc

0.374 **

.509**

.269**

0.360 **

.515**

.239**

Total

Ponta Delgada, Julho de 2015


274

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

-

Lidar com a

0.210*

Emoção

* -

Escala Total

0.144*

-

-

.236*

.191*

*

-.141

0.317**

-

-

.163*

0.262**

.323**

.310* *

0.518 **

.587**

.483**

.294**

.225* *

0.474 **

.601**

.380**

**p<0.01 *p < 0.05

Quando se analisam as correlações tendo em conta o tipo de curso, verifica-se que a capacidade de lidar com as emoções é a dimensão da inteligência emocional que mais se associa aos fatores do Burnout, tanto para os alunos em licenciatura como para os que estão a frequentar o mestrado (cf. Tabela 2). Para os estudantes de mestrado, uma maior capacidade de perceção e expressão emocional associa-se, ainda que fracamente, a menor descrença. Também para estes estudantes, os três componentes da inteligência emocional se associam de forma positiva e moderada a forte com a eficácia profissional. Tabela 2. Correlações entre o MBI e o QCE, em função do tipo de curso (n=301) Exaustão Emocional

Descrença

Eficácia Profissional

Licenc (n=88)

Mest. Int. (n=213)

Licenc (n=88)

Mest. Int. (n=213)

Licenc (n=88)

Mest. Int. (n=213)

Perceção Emocional

-.052

-.0.97

-.013

-0.228**

.242*

.433**

Expressão Emocional

-.114

-.079

-.114

-.182**

.195

.391**

Lidar com a Emoção

-.223*

-.202**

-.223*

-.310**

.490**

.518**

Escala Total

-.149

-.139*

-.149

-.267**

.360**

.500**

** p < 0.01 *p<0.05

Na análise da relação entre o Burnout e a Inteligência Emocional em função do ano de curso, verifica-se que a capacidade de lidar com as emoções

se

associa

positivamente

com

o

sentimento

de

eficácia

profissional, em especial no 1º, 4º e 5º anos. Todas as dimensões da inteligência

emocional estão

fraca

mas

negativamente

associadas

à

descrença nos alunos do 5º ano. Nos anos de mestrado, ou seja nos 4º e 5º ano, a inteligência emocional revela-se moderada a fortemente associada a um sentimento de eficácia profissional (cf. tabelas 3a e 3b).

Ponta Delgada, Julho de 2015


275

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Tabela 3a. Correlações entre o MBI e o QCE, em função do 1º, 2º e 3º ano (n=301) Exaustão Emocional

1º (n=6 6) Perceção Emocional

2º (n=16)

Descrença

3º (n=27 )

Eficácia Profissional

(n=66)

(n=16)

(n=27)

(n=66)

(n=16)

(n=27)

-.019

-.085

.055

-.030

.073

-.107

.410**

-.112

-.115

-.398

.005

.242**

.113

-.355**

-.055

-.198

-.113

Expressão Emocional Lidar com a Emoção

-.015

-.267

-.115

.273*

.023

.015

Escala Total

-.121

-.112

-.042

-.004 -.038

.590** .519**

.296 .121 .238

.216

.227

.064

** p < 0.01 * p < 0.05

Tabela 3b. Correlações entre o MBI e o QCE, em função do 4º e 5º ano (n=301) Exaustão Emocional

Descrença

4º (n=37)

Eficácia Profissional

5º (n=155)

4º (n=37)

.210

5º (n=155) -.187*

4º (n=37)

Perceção Emocional

.004

-.280**

.504**

Expressão Emocional

.035

-.151

-.029

-.233**

.493**

Lidar com a Emoção

-.247

-.245**

-.355*

-.313**

.621**

Escala Total

-.004

-.219**

-.140

-.313**

.596**

5º (n=155) .402** .349** .498** .471**

** p < 0.01 * p < 0.05

Associações de maior magnitude nas raparigas entre a inteligência emocional e a descrença (negativa), e entre a inteligência emocional e a eficácia profissional (positiva) podem dever-se ao facto de, em geral, as mulheres possuírem uma maior autoconfiança e de gerirem melhor as emoções mais stressantes do que os homens (Goleman, 1995), e de serem também elas quem possui expectativas mais elevadas em relação à universidade e maior compromisso com o estudo e com as atividades académicas (Almeida et al, 2003). O facto de os alunos de mestrado serem aqueles cujo sentimento de eficácia profissional está mais associado à inteligência emocional pode decorrer de uma maior motivação nesta fase do curso, da definição de projetos associados às escolhas vocacionais e de perspetivas mais concretas Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

no que diz respeito a saídas profissionais (Costa & Leal, 2008). Por outro lado, o acumular de experiências, tanto positivas como negativas, pode resultar nestes alunos num superior manancial de recursos para lidar com o stresse, tornando-os mais competentes na gestão das suas emoções.

O ambiente universitário propicia ao estudante um conjunto de experiências novas e diversas que desafiam a sua capacidade de adaptação. Sendo o Burnout em estudantes um preditor do Burnout a nível profissional (Mostert et al, 2007), importa identificar os fatores que estando presentes na vida do estudante universitário melhoram a sua capacidade de resposta aos desafios que lhe vão surgindo. Os resultados obtidos sugerem que a inteligência emocional constitui um desses fatores, pelo que o investimento na promoção desta competência pelas estruturas que dão apoio ao estudante universitário pode ter um retorno positivamente significativo na vida académica (com tudo o que ela implica) do estudante do ensino superior.

Almeida, L., Gonçalves, A., Salgueria, A., Soares, A., Machado, C., Fernandes, E., Machado, J. & Vasconcelos, R. (2003). Expectativas de envolvimento académico e entrada na universidade: estudo com alunos da universidade do Minho. Psicologia: Teoria, Investigação e Prática, 1, 3-15.

Austin, E. J., Evans, P. E., Goldwater, R. & Potter, V. (2005). A preliminary study of emotional intelligence, empathy and exam performance in first year medical students. Personality and Individual Differences, 39, 1395-1405.

Bastian, V. A., Burns, N. R. & Nettelback, T. (2005). Emotional intelligence predicts life skills, but not as well personality and cognitive abilities. Personality and Individual Differences, 39, 11351145.

Costa, E. & Leal, I. (2008). Um olhar sobre a saúde psicológica dos estudantes do ensino superiorAvaliar para prevenir. VII Congresso de Saúde, 135-266.

Di Fabio, A. & Palazzeschi, L. (2009). An in-depht look at scholastic sucess: Fluid intelligence, personality traits or emotional intelligence. Personality and Individual Differences, 46, 581-585.

Faria, L. & Lima Santos, N. (2002). Questionário de Competência Emocional (QCE). Porto: Edição dos Autores

Goleman, D. (1995). Emotional Intelligence. New York: Bantam Books.

Maroco, J. & Tecedeiro, M. (2009). Inventário de Burnout de Maslach para estudantes portugueses. Psicologia, Saúde e Doenças, 10 (2), 227-235.

Martínez, I. M. M., Pinto, A. M., & Silva, A. L. (2000). Burnout em estudantes do ensino superior. Revista Portuguesa de Psicologia, 35, 151-167.

Maslach, C. & Jackson, S. (1981). The measurement of experienced Burnout. Journal of Occupational Behaviour, 2, 99-113.

Ponta Delgada, Julho de 2015


277

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Mayer, J. D. e Salovey, P. (1997). What is Emotional Intelligence? In P. Salovey & D. Sluyter (Eds.) Emotional development and emotional intelligence: Implications for educators, (pp.3-31). New York: Basic Books

McPheat,

S.

(2010).

Emotional

Intelligence.

Acedido

em

Março

20,

2014,

em

http://bookboon.com/en/emotional-intelligence-ebook. 

Mikolajczak, M., Roy, E., Luminet, O., Fillee, C. & Timary, P. (2007). The moderating impact of emotional intelligence on free cortisol responses to stress. Psychoneuroendocrinology, 32, 10001012.

Mostert, K., Pienaar, J., Gauche, C. & Jackson, L. T. B. (2007). Burnout and engagement in university students: A psychometric analysis of the MBI-SS and UWES-S. South African Journal of Higher Education, 21, 147-162.

Salovey, P. & Mayer, J.D. (1990). Emotional Intelligence. Imagination, Cognition, and Personality, 9, 185-211.

Schaufeli, W. B. (2003). Past performance and future perspectives of Burnout Research. SA Journal of Industrial Psychology, 29 (4), 1-15.

Schaufeli, W. B. & Buunk, B. P. (2003). Burnout: An overview of 25 years of research and theorizing. In M. Schabracq, J. Winnubst, & C. Cooper (Eds). The handbook of work and health psychology, 2ª ed, (pp.383-428). Chichester: John Wiley.

Schaufeli, W. B., Martinez, I. M., Marques Pinto, A., Salanova, M. & Bakker, A. B. (2002). Burnout and engagement in university students: a cross national study. Journal of Cross-Cultural Psychology, 33 (5), 464-481.

Silva, M. J. M. R. (2010). A inteligência emocional como fator determinante nas relações interpessoais: emoções, expressões corporais e tomadas de decisão. Dissertação de Mestrado em Gestão – Universidade Aberta, Lisboa, Portugal.

Sternberg, R. J. & Grigorenko, E. L. (Eds.) (2002). The general factor of intelligence: How general is it? Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum.

Struthers. C. W., Perry, R.P. & Menec, V. H. (2000). An examination of the relationship among academic stress, coping, motivation, and performance in college. Research in Higher Education, 41, 581-592.

Weinstein, M. (2010). The relationship between emotional intelligence and Burnout among postgraduate university students. Master's thesis at Faculty of Humanities – University of Johannesburg, Johannesburg, South Africa.

Ponta Delgada, Julho de 2015


278

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Mestranda em Enfermagem de Saúde Familiar; Enfermeira Especialista em Saúde Materna e

Obstetrícia; Enfermeira de Família na USF Santa Joana do ACES Baixo Vouga; Avenida D. Afonso V, Santa

Joana,

3810-203,

Aveiro,

Portugal.

Tel:

234

891

060

ou

917993890.E-mail:

ritamariaferreiraleal@gmail.com 2

Mestranda em Enfermagem de Saúde Familiar; Enfermeira Especialista em Reabilitação; Enfermeira de

Família na UCSP2 do ACES Baixo Vouga; Praça Rainha D. Leonor, 3810-042, Aveiro, Portugal. Tel. 23489196/7.E-mail: isabelcelinamoreira@gmail.com

Ponta Delgada, Julho de 2015


279

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

CONTEXTO: A morte fetal é um evento doloroso para os membros da família que compartilharam o sonho de receber um pequeno novo elemento. OBJETIVOS: Compreender as características do luto na perda gestacional, o efeito nos membros da família e as intervenções que são eficazes na redução da consternação e na sua resolução. METODOLOGÍA: Trata-se de uma revisão sistemática da literatura com a questão: Que intervenção ou tipo de cuidados diminui a consternação e promove a vivência do luto nos membros da família que sofreu uma morte fetal? Foram incluídos 5 artigos científicos publicados nos últimos 6 anos. Foi utilizada a metodologia PICO. RESULTADOS: A família quer que a sua perda seja reconhecida. Buscam estratégias para lidar com ela, sendo a própria família um apoio no luto, cada membro precisa de fazer o seu. A partilha do luto em família é benéfica, incluindo no casal, os pais com crianças (irmãos), pais com seus pais (avós) e avós com netos, promovendo canais abertos de comunicação honesta. As crianças não devem ser excluídas deste luto. Sessões de aconselhamento de enfermagem e a terapia cognitivo-comportamental foram eficazes na resolução da consternação e pesar. A participação em fóruns online ajudou as mulheres a sentirem-se menos isolados e o seu fácil acesso, privacidade e anonimato foi apreciado. CONCLUSÕES: A família não deve ser deixada ao acaso e o profissional de saúde tem um papel preponderante no sentido de facilitar a experiência e prevenir sequelas de um processo de luto patológico. Palavras-Chave: morte fetal; família; pesar; consternação

CONTEXTO: La pérdida del embarazo es un evento doloroso para todos los miembros de la familia. OBJETIVOS: Comprender las características de este duelo; los efectos que tiene sobre los miembros de la familia; las intervenciones eficaces que resuelven la pesar y reduce la aflicción. METODOLOGÍA: El presente trabajo es una revisión sistemática de la literatura

con

la

pregunta

de

la

siguiente

manera:

¿Qué

tipo

de

intervenciones o cuidados disminuye duelo y promueve la resolución del Ponta Delgada, Julho de 2015


280

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

duelo entre miembros de la familia que han experimentado la pérdida fetal? La revisión incluye cinco artículos científicos publicados en los últimos 6 años, utilizando el método PICO. RESULTADOS: La familia quiere su pierda reconocida. Buscan estrategias para tener un acuerdo con ella. La partilla del duelo en la familia es beneficioso, incluido dentro de la pareja, los padres con sus niños, los padres con sus padres y los abuelos con sus nietos, fomentando los canales abiertos de comunicación honestos. Los niños no deben ser excluidos de este duelo. Sesiones de asesoramiento de enfermería y terapia cognitivaconductual fueron eficaces en la resolución de este duelo. Consulta de sites de internet ayudaron las mujeres a un sentimiento menos aislados y lo que le más gusta es el fácil acceso, la privacidad y el anonimato. CONCLUSIONES: La familia no debe ser dejada al azar y el profesional de la salud tiene un papel predominante en la facilitación de la experiencia y la prevención de las secuelas de un proceso patológico. Descriptores: muerte fetal; familia; pesar; aflicción

BACKROUND: Pregnancy loss is a painful event for all family members that shared the dream of welcoming a little newcomer. AIM: To understand the characteristics of this bereavement; the effects it has on the family members; the interventions that are effective in reducing bereavement and resolving grief. METHODS: This paper is a systematic literature review with the question as follows: What type of interventions or care decreases bereavement and promotes the resolution of grief among family members that have experienced fetal loss? The review includes 5 scientific articles published in the last 6 years, using the PICO method. RESULTS: The family wants their loss to be recognized and validated. They seek strategies to deal with it, being the family itself a mourning support, each member needs to grieve. Mourning within the family is beneficial, including within the couple, parents with children (siblings), parents with their parents (grandparents) and grandparents with grandchildren, fostering open channels of honest communication. Children should not be excluded from this mourning. Nursing counseling sessions and cognitive-behavioral Ponta Delgada, Julho de 2015


281

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

therapy were effective in resolving this bereavement and grief. Internet message boards helped women feel less isolated and it´s easy access, privacy and anonymity was appreciated. CONCLUSIONS: The family shouldn’t be left to chance, and the health professional has a predominant role in facilitating the experience of bereavement and prevention of the sequelae of a pathological grieving process. Key-words: fetal death; family; grief; bereavement

A morte fetal numa família é um evento doloroso, frequentemente de grande consternação onde todos os membros participam, de uma forma particular, e que afeta o sistema familiar. De acordo com Veltri (2010) a perda de uma criança durante a gravidez, no nascimento ou no puerpério é uma das perdas mais difíceis para a família. De acordo com Ferreira et al. (1990) citado por Rolim e Canavarro (2006) as reações de sofrimento e pesar, por morte de um bebé (feto ou recém-nascido) são uma realidade independente da duração da sua vida, de ter ou não problemas de saúde, de ser ou não fruto de uma gravidez planeada. Assim, conclui-se que as reações da família a uma situação de perda gestacional são múltiplas e não estão relacionadas linearmente com o tempo de gestação, mas de alguma forma, com a motivação e desejo da gravidez, assim como, do investimento emocional nela depositada. Este trabalho é uma revisão da literatura e surge de forma a compreender o luto da perda gestacional, como é que os membros da família vivem a perda gestacional, como a família (sistema) é afetada e como podem os profissionais de saúde promover a saúde da família, na potencialização das suas forças, recursos e competências, na vivência do seu luto, de forma, a este não se perpetuar no tempo e tornar-se patológico. Doka (1989) introduziu o conceito de “disenfranchised grief”, que é um luto não concedido, ou seja, não reconhecido pela sociedade. Refere este autor que existem três situações em que pode ocorrer este tipo de luto. Uma situação será pelo não reconhecimento da relação do enlutado com a perda, que é o caso do luto por uma pessoa que não faz parte da Ponta Delgada, Julho de 2015


282

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

família. Outra, porque a própria perda não é reconhecida, que é o caso da própria, morte fetal. Por fim, outra situação de “disenfranchised grief” é quando o enlutado não é reconhecido, que é o caso do luto das crianças mais

jovens, podendo

se

aplicar

aos

irmãos

do

bebé

falecido.

O

“disenfranchised grief” leva a que haja a vivência de um luto isolado. Cada membro da família vive o luto de forma diferente. As vivências da morte fetal podem ir de mínimas a intensas, dependendo do género (pai ou mãe), da perceção da perda, idade, cultura, crenças espirituais e religiosas, mudanças que a perda provocou na sua vida, mecanismos individuais de coping e sistemas de suporte existentes (Callister, 2006). Na perspetiva de Veltri (2010) as mães têm tendência a viver o seu pesar de uma forma mais visível através da expressão das emoções e na participação em programas de suporte no luto, enquanto os pais tendem a ter sentimentos de solidão, isolamento e impotência. Vários autores (Callister, 2006; Doka & Martin, 2014; Veltri, 2010) referem que os pais tendem a adotar o papel primordial de apoio e suporte, que é ser o mais forte, contendo os seus próprios sentimentos de acordo com o que lhes é socialmente e culturalmente esperado. Quando os pais perdem o seu filho, perdem o seu sonho, a vida que idealizavam com o seu filho/família e a sua identidade idealizada como pais. Dependendo da sua vinculação com o bebé, acredita-se que esta pode ser mais ou menos devastadora. Quanto às crianças que aguardavam a chegada de um irmão e cujos pais vão para o hospital e voltam com um vazio, é de salientar que estes têm também de fazer o seu luto. Os irmãos podem descrever a sua experiência de luto como um “doer por dentro” que é uma expressão dos seus sentimentos de tristeza, frustração, solidão, medo e raiva (Davies, 2006 in Veltri, 2010). Na maioria das vezes é feita uma tentativa de proteger o filho sobrevivente, de tal forma, que evita-se falar do assunto e os familiares que o rodeiam, escondem os seus próprios sentimentos para poupá-lo da vivência da perda. Os irmãos sobreviventes têm sido apelidados de os “forgotten mourners” (Thomas (1998) & Wallersted (1996) in Callister, 2006). Também é verdade, que a vivência do luto pela criança está dependente de múltiplas variáveis, tais como a sua idade, fase de desenvolvimento, características individuais, outros fatores simultâneos e o seu sistema de suporte (Furman, 1974; Forrest et al., 1982 in Oikonen & Ponta Delgada, Julho de 2015


283

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Brownlee, 2002). Na perspetiva de Balk (2010), os pais podem ignorar o significado da relação da criança existente com a criança falecida, particularmente no caso da morte fetal, pois faleceu antes do seu nascimento e nunca veio para casa do hospital. Os avós também têm sentimentos de pesar e consternação ao ver o seu próprio filho(a) sofrer, para além da dor da perda do neto que a maioria nunca chegou a conhecer. Na perspetiva de Oikonen & Brownlee (2002), o luto dos avós é complexo e multidimensional. Por um lado, sofrem como avós por terem perdido o seu neto, por outro, pela perda da oportunidade de vida do seu neto e ainda pelos seus filhos que perderam o seu próprio filho. Muitos avós referem um extremo sentimento de impotência, tristeza e dor pelos seus filhos. Para além destes sentimentos, ainda existe o sentimento de culpa, pois podem associar esta morte a um problema genético. Estes autores referem também que os avós podem experienciar um sentimento de culpa chamada do “sobrevivente” pois, ainda estão vivos, apesar da sua idade e tiveram a oportunidade de viver mais do que o seu neto. A intenção de proteger alguns membros da família, nomeadamente, os mais vulneráveis, faz com a perda seja vivida de uma forma isolada o que dificulta ou até impede o luto.

O presente trabalho consiste numa revisão sistemática da literatura baseada no processo metodológico proposto pelo Cochrane Handbook de Clarke & Horton, (2001) que estabelece a sua concretização em sete passos: formulação da pergunta; localização e seleção dos estudos; recolha dos estudos; avaliação crítica dos estudos; análise e apresentação dos dados; interpretação dos resultados; aperfeiçoamento e atualização. Para a elaboração da questão de investigação e dos critérios de inclusão e exclusão de estudos primários, foi utilizado o método PICO (The Joanna Briggs Institute, 2011): Quadro 3 - A elaboração da questão de investigação utilizando a metodologia PI[C]O Palavraschave Quem foi estudado?

P

Participantes

I

Intervenções O que foi feito?

Membros da família: mães, pais, irmãos e avós que vivenciaram uma morte fetal não antecipada ou não induzida. Intervenção para diminuir a consternação e promover a vivência do luto.

morte fetal; família; pesar (luto); consternação

Ponta Delgada, Julho de 2015


284

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

[C]

Contexto

Onde decorreu?

O

Outcomes

Resultados, efeitos ou consequências

Deste

modo,

a

Ambiente hospitalar; Cuidados Saúde Primários; Domicílio; Outras instituições de saúde. Diminuição dos sentimentos de consternação; vivência do luto não patológico.

questão

norteadora

da

investigação

é

“Que

intervenção ou tipo de cuidados diminui a consternação e promove a vivência do luto nos membros da família que sofreu uma morte fetal?” Foi revista literatura científica publicada entre 1/1/2009 e 8/11/ 2014, em diversas bases de dados eletrónicas, nomeadamente a Biblioteca do Conhecimento Online (B-On), Repositório Cientifico de Acesso Aberto de Portugal (RCAAP), PUBMED, Scientific Electronic Library Online (SCIELO), Literatura Latino-Americana em Ciências da Saúde (LILACS) e SCOPUS. Foram incluídos os estudos de evidência científica obtida através de abordagens quantitativas e qualitativas. Foram excluídos os estudos nas línguas

que não

fosse

português, inglês

ou espanhol;

as

revisões

sistemáticas da literatura; os artigos em que não se obteve o acesso integral e os que abordavam a morte fetal induzida por vontade da mulher ou casal. Consultando as bases de dados referidas obtivemos um total de 229 artigos. Através da leitura do seu resumo e aplicando alguns dos critérios de exclusão obtivemos numa segunda análise, um total de 29 artigos. Da análise mais detalhada destes e aplicando todos os critérios de exclusão enunciados, obtivemos 5, os quais consideramos relevantes e que passamos a referenciar no quadro seguinte: Quadro 4 - Estudos constituintes da amostra da revisão sistemática de literatura Swanson, K. M., Chen, H.-T., Graham, J. C., Wojnar, D. M., & Petras, A. (2009). Resolution of depression and grief during the first year after miscarriage: a randomized E1 controlled clinical trial of couples-focused interventions. Journal of Women’s Health, 18(8), 1245–57. doi:10.1089/jwh.2008.1202 E2

E3

E4

E5

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Ponta Delgada, Julho de 2015


285

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Resultados Da análise feita dos artigos foi feito um quadro resumo: Quadro 5 - Resultados dos estudos Estud Resultados o Os casais desejam a validação, reconhecimento da sua perda, apoio nas estratégias para lidar com ela e informação em como cuidar um do outro. O grupo de controlo apresentou os piores resultados na resolução do luto e depressão. Os homens e as mulheres reagem ao aborto espontâneo de formas diferentes. Os 3 tipos de intervenções tiveram diferentes impactos, no homem e na mulher. A intervenção mais eficaz na resolução do luto nas mulheres foi o SC - Self Care (3 vídeos e fichas de E1 autopreenchimento). A intervenção que acelerou mais o processo de resolução do luto nos homens foi a CC – Combined Care (1 sessão de aconselhamento + 3 vídeos e fichas de autopreenchimento). A intervenção NC- Nursing Care, que consistia em 3 sessões de aconselhamento com um enfermeiro, revelou ser o suporte mais eficaz na resolução dos sentimentos de consternação (sentimento profundo de perda e tristeza) facilitando a cura emocional do homem e da mulher. O mais importante para os pais é o reconhecimento intergeracional da criança morta como um importante, embora ausente, membro da família. Em algumas famílias encontraram-se formas e meios para partilhar o seu sofrimento na altura da perda, E2 enquanto noutras houve tensão intergeracional (pais e avós do bebé falecido). Os que apoiam as famílias em luto, pela perda gestacional têm um papel importante na promoção da comunicação intergeracional. É importante reconhecer que as crianças (irmãos sobreviventes) têm que fazer o seu luto. Os membros da família, nomeadamente os pais, devem falar com elas sobre o evento, os seus sentimentos, responder às suas questões e deixá-las partilhar o luto com os seus pais. As crianças precisam de uma comunicação aberta, honesta e apoio E3 emocional na perda, de forma a compreender a dor dos pais e processar a perda da família ao longo do tempo. Os profissionais de saúde devem alertar os pais para tal e ajudá-los a fornecer a informação adequada ao seu estádio de desenvolvimento. Estas medidas irão permitir um vínculo contínuo com o bebé falecido como uma estratégia de coping e diminuir as consequências nefastas a longo prazo. A paciente apresentou redução nos seus índices de sintomas depressivos, inicialmente graves, tornando-se leve no final da aplicação do protocolo de terapia cognitivacomportamental. Houve redução da ansiedade, principalmente após as sessões iniciais, em que a paciente relata ter sentido alívio por poder falar de um assunto proibido. E4 Diminuiu o percentil referente ao desejo de morte e de distúrbios psicossomáticos. Melhorou a qualidade do sono e autoconfiança. Houve também melhoria no fator Saúde Geral (QSG- Questionário de saúde geral de Goldberg) o que representa uma melhoria na saúde mental. A partilha de mensagens online ajudou as mulheres a sentirem-se menos isoladas na E5 sua perda e luto. Os aspetos que mais apreciaram nestes sites foram: o fácil acesso, a disponibilidade, o anonimato e a privacidade.

O luto da perda gestacional é um luto não reconhecido pela sociedade havendo

assim

um

maior

risco

de

desenvolvimento

de

problemas

psicossomáticos, uma maior vulnerabilidade e recorrência aos serviços de saúde (E1, E4). A família deseja a validação, o reconhecimento da sua perda gestacional e o apoio nas estratégias para lidar com ela (E1, E2, E3, E4, E5). A família é um meio de suporte fundamental para a vivência do luto não esquecendo que também cada um dos seus membros precisa de fazer o

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286

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

seu próprio luto. Este luto tem vantagens em ser partilhado em família (E2,E3). A comunicação intergeracional (pais e avós) (E2), e pais e filhos (E3) é importante para a prevenção de um luto patológico. Em algumas famílias em que não houve reconhecimento da perda e/ou partilha do sofrimento, as relações entre alguns membros ficaram fragilizadas, levando a que este evento causasse uma forte tensão intergeracional (E1, E2). As crianças (irmãos sobreviventes) não devem ser excluídas do luto. Precisam de ser reconhecidas no seu luto e ajudadas na sua vivência, através da partilha do sofrimento visível com os restantes membros da família. Devem-se dar respostas às suas questões de uma forma aberta e honesta e adaptada ao seu estádio de desenvolvimento. Caso contrário poderão não processar o luto e apresentar consequências nefastas nas suas relações a longo prazo (E3). Outra medida que se revelou benéfica na resolução da consternação e vivência do luto, foi a participação em sites/fóruns na internet de grupos de entreajuda, através da partilha de mensagens online, onde as mulheres se sentiram reconhecidas e acompanhadas na sua perda (E5). A aplicação da terapia cognitiva comportamental revelou melhorias significativas na saúde de uma mulher em grande consternação e depressiva após perda gestacional (E4). Segundo Beck (1995) citado por Powell, Abreu, Oliveira, & Sudak (2008), terapia cognitiva é um processo de tratamento de participação ativa da pessoa, que tem como objetivo ajudá-la a identificar as suas perceções distorcidas, pensamentos negativos, baseado no poder do pensamento realista, de forma a mudar comportamentos a fim de conseguir encarar a situação problema. Três sessões de aconselhamento com o enfermeiro (Nursing CareNC) revelaram ser o suporte mais eficaz na melhoria da consternação no homem e na mulher, relativamente a outras intervenções, denominadas por Self Care – (SC) e Combined Care – (CC). O SC – Self Care - que se baseia no autocuidado orientado através da visualização de uns vídeos e fichas de autopreenchimento (tipo diário), foi o mais eficaz na resolução do luto nas mulheres. Por sua vez, nos homens o CC – Combined Care acelerou mais o processo de luto, sendo este constituído por uma sessão de aconselhamento de enfermagem (NC) e a visualização de uns vídeos e fichas de autopreenchimento (tipo diário). Verificou-se que há diferenças na vivência Ponta Delgada, Julho de 2015


287

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

da perda entre homem e mulher e diferenças na eficácia na resolução de luto perante os diferentes tipos de intervenção. No entanto, foi consistente que a não intervenção foi nefasta tendo os sujeitos do grupo de controlo revelado os piores resultados na resolução do luto e depressão (E1).

A

família

deseja

a

validação,

reconhecimento

da

sua

perda

gestacional e apoio nas suas estratégias de adaptação. O profissional de saúde tem um papel predominante na facilitação do processo de vivência de luto e prevenção das sequelas de um luto patológico. As sessões de aconselhamento com o enfermeiro revelaram ser um suporte eficaz na melhoria da consternação no homem e na mulher. Como tal, torna-se pertinente investir na formação dos profissionais de saúde, nesta temática, de forma a colaborarem com a família neste processo de luto e adaptação à perda gestacional. Em relação à partilha de mensagens online, seria interessante o desenvolvimento

de

um

site

português

oficial

gerido/mediado

por

profissionais de saúde que permitisse a estas mulheres/casais, avós e eventualmente irmãos a partilhar a sua perda, de uma forma acessível, com privacidade e anonimato. No entanto, neste âmbito considera-se que há necessidade de perceber o funcionamento destes sites, quais os tipos que têm maior eficácia na resolução do luto da perda gestacional na família, possibilitando a abertura de um espaço de reflexão e orientação a novos pontos de investigação nesta temática.

Assim, considera-se que os profissionais de saúde devem ser promotores desta comunicação, alertando para os seus benefícios e promovendo momentos para que a família se encontre, apoie e tenha tempo e oportunidade de sofrerem a perda em conjunto, começando pelo momento do parto. Em contexto de cuidados de saúde primários e em saúde familiar, é importante avaliar a adaptação individual e familiar (sistema) dos enlutados, tendo em conta a fase de luto em que se encontram. Sabendo que dentro do casal, cada um vive a perda de uma

Ponta Delgada, Julho de 2015


288

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

forma particular e sendo uma situação geradora de stresse, deve também avaliar o funcionamento da díade, em particular. Nas famílias com crianças (irmãos sobreviventes) os adultos devem ser alertados para que estas não sejam excluídas do luto. Elas precisam de ser reconhecidas no seu luto e ajudadas na sua vivência, através da partilha do sofrimento visível com os restantes membros da família. Os membros da família, nomeadamente os pais, devem falar com elas sobre o evento, os seus sentimentos, responder às suas questões e deixá-las partilhar o luto com os seus pais. As crianças precisam de uma comunicação aberta e honesta e apoio emocional na perda, de forma a compreender a dor dos pais e processar a perda da família ao longo do tempo. Estas medidas irão permitir um vínculo contínuo com o bebé falecido como uma estratégia de coping e diminuir as consequências nefastas a longo prazo. Os profissionais devem ainda incluir, se for o caso, os avós na avaliação e eventual intervenção, sabendo que estes sofrem de uma forma particular e em diferentes

dimensões.

É

importante

a

promoção

da

comunicação

intergeracional (entre pais e avós), e pais e filhos. Em algumas famílias em que não houve reconhecimento da perda e/ou partilha do sofrimento com os avós, as relações entre estes e os seus filhos ficaram fragilizadas, levando a que este evento causasse tensão intergeracional. A cultura também influencia a forma como a família encara a morte fetal. É essencial que os profissionais conheçam as várias práticas e rituais associadas a esta perda e promovam o espaço e o tempo necessário para que ocorram, demonstrando uma verdadeira sensibilidade cultural quando é validado o que as famílias escolhem como ser o “caminho certo" para fazer o seu luto. Os profissionais devem ainda informar/aconselhar a integração dos membros da família em grupos de entreajuda, sendo estes uma forma de partilharem a sua experiência com pessoas que já passaram ou estão a passar por uma situação igual ou semelhante (ajuda entre pares), que entendem o seu luto, proporcionando compreensão e solidariedade. Nos últimos anos a sua forma online tem tido grande destaque, sendo que o acesso

à

internet

e

redes

sociais

tem

sido

fortemente

difundido,

ultrapassando a distância e o tempo.

Ponta Delgada, Julho de 2015


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Ponta Delgada, Julho de 2015


291

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Doutorada em Ciências de Enfermagem; Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e

Psiquiatria; Assistente de 2º Triénio no Departamento de Ciências de Enfermagem da Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Leiria e Instituição, Campus 2 - Morro do Lena - Alto do Vieiro, Apartado 4137, 2411-901 Leiria, Portugal. Tel: 244 845 300. E-mail: catarina.tomas@ipleiria.pt 2

Pós-Doutorado em Ciências de Enfermagem; Enfermeiro Especialista em Reabilitação; Professor

Coordenador em Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, 3046-851 Coimbra, Portugal. Email: pauloqueiros@esenfc.pt 3

Doutorada em Psicologia; Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria;

Professora Coordenadora em Escola Superior de Enfermagem do Porto, 4200-072 Porto, Portugal. Email: teresarodrigues@esenf.pt

Ponta Delgada, Julho de 2015


292

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

CONTEXTO: A procura de informação ocorre sobretudo em resposta a uma necessidade ou falta de conhecimento, enfatizando-se a necessidade de olhar para os diferentes contextos onde a informação em saúde pode ser adquirida e utilizada, como parte da estratégia para abordar a literacia em saúde. OBJETIVO(S): Conhecer o impacto da utilização das fontes de informação em saúde na literacia em saúde em gestão de stresse numa amostra de adolescentes portugueses. METODOLOGIA:

Realizou-se

um

estudo

quantitativo,

descritivo-

correlacional, transversal, utilizando uma amostra não probabilística de conveniência de 1215 adolescentes, com idade entre os 14 e os 20 anos, de ambos os sexos, a frequentar o ensino secundário no distrito de Leiria. Foi aplicado um questionário de autopreenchimento, constituído por questões sociodemográficas, a Health Literacy Questionnaire for Children e o Instrumento de Avaliação da Literacia em Saúde. RESULTADOS: Encontraram-se bons níveis de literacia em saúde em gestão de stresse e as fontes de informação mais utilizadas pelos jovens são o médico e a família. Existe correlação entre os níveis de literacia estudados e a utilização de algumas fontes de informação, sendo uma pequena percentagem da variância desta literacia explicada pela utilização destas fontes de informação. CONCLUSÕES: A amostra apresenta bons níveis de literacia em saúde em gestão do stresse, e uma consulta de fontes de informação em saúde frequente, tendo sido percebida uma relação de causalidade entre os dois conceitos. Palavras-Chave:

Adolescente,

Estresse,

Alfabetização

em

Saúde;

Comportamento de busca de informação

CONTEXTO: La solicitud de información se lleva a cabo principalmente en respuesta a una necesidad o falta de conocimiento, haciendo hincapié en la necesidad de mirar a los diferentes entornos en los que la información de

Ponta Delgada, Julho de 2015


293

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

salud puede ser adquirido y utilizado como parte de la estrategia para abordar la alfabetización en salud. OBJETIVO(S): Conocer el impacto de la utilización de las fuentes de información de salud en la alfabetización de la salud en el control del estrés en una muestra de adolescentes portugueses. METODOLOGÍA:

Se

realizó

un

estudio

cuantitativo,

descriptivo

y

correlacional, transversal, con una muestra no probabilística de 1215 adolescentes de edades comprendidas entre 14 y 20 años, de ambos los sexos, en la escuela secundaria en el distrito de Leiria. Un cuestionario de auto informe que consta de preguntas sociodemográficas, el Health Literacy Questionnaire for Children y la Instrumento de Avaliação da Literacia em Saúde se aplicó. RESULTADOS: Encontramos buenos niveles de alfabetización de la salud en el manejo del estrés y las fuentes de información más utilizadas por los jóvenes son el médico y la familia. Existe una correlación entre los niveles de alfabetización estudiado y el uso de algunas fuentes de información, y un pequeño porcentaje de la varianza de esta alfabetización es explicada por el uso de estas fuentes de información. CONCLUSIONES: La muestra cuenta con buenos niveles de alfabetización de la salud en el manejo del estrés, y una consulta de fuentes de información en salud frecuente, habiendo percibido una relación causal entre los dos conceptos. Descriptores: Adolescente; Estrés; Alfabetización en Salud; Conducta en la Búsqueda de Información

BACKGROUND: The search for information takes place mainly in response to a need or lack of knowledge, emphasizing the need to look at the different settings where health information can be acquired and used as part of the strategy to address the health literacy. AIM: To know the impact of the use of health information sources in health literacy in stress management in a sample of Portuguese adolescents. METHODS:

We

conducted

a

quantitative

study,

descriptive

and

correlational, cross sectional, using a non-probabilistic sample of 1215 adolescents aged between 14 and 20 years, of both sexes, in the secondary Ponta Delgada, Julho de 2015


294

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

school in Leiria district. One self-report questionnaire

consisting of

sociodemographic questions, the Health Literacy Questionnaire for Children and the Instrumento de Avaliação da Literacia em Saúde was applied. RESULTS: We found good health literacy levels in stress management and the sources of information most used by young people are the doctor and family. There is a correlation between levels of literacy studied and the use of some sources of information, and a small percentage of variance of this literacy is explained by the use of these information sources. CONCLUSIONS: The sample has good health literacy levels in stress management, and a frequent health information sources consultation, having been perceived a causal relationship between the two concepts. Keywords: Adolescent; Stress; Health literacy; Information Seeking Behavior

Na área da saúde a literacia em saúde mostra-se como algo fundamental, pois ter ou não níveis adequados da mesma poderá definir a presença de competências para o processamento e compreensão da informação de saúde, com a consequente tomada de decisão adequada (Bodie & Dutta, 2008). A literacia em saúde é definida por Borzekowski (2009) como a capacidade individual para receber, compreender, integrar e agir sobre as mensagens de saúde recebidas pela pessoa, requerendo a compreensão de mensagens diversas e a sua utilização de forma apropriada. Cada vez mais é exigido às pessoas que assumam novos papéis na tomada de decisão acerca dos cuidados de saúde a si próprios (Committee on

Health

Literacy,

2004;

Ishikawa

&

Kiuchi,

2010;

Steckelberg,

Hülfenhaus, Kasper, & Mühlhauser, 2009), bem como na procura de informação, tomada de decisão em saúde e na manutenção e avaliação da sua própria saúde. Alguns desafios têm sido impostos aos consumidores de cuidados de saúde aquando da procura de informação sobre saúde, nomeadamente a necessidade de assumir um papel de parceiro na prestação de cuidados e a proliferação de informação disponível a partir de muitas e variadas fontes de informação (Committee on Health Literacy, 2004). Segundo a mesma referência, apesar dos profissionais e educadores Ponta Delgada, Julho de 2015


295

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

de saúde assumirem que a população possui uma capacidade individual para

compreender

a

informação

sobre

saúde,

a

investigação

tem

demonstrado que a informação não é compreendida pela maioria das pessoas a quem se destina, sugerindo baixos níveis de literacia em saúde. Alguns estudos foram já realizados com vista à avaliação dos níveis de literacia em saúde nos adolescentes. Sanders, Federico, Klass, Abrams, & Dreyer (2009) concluíram que os níveis baixos de literacia em saúde nos adolescentes e jovens adultos ronda os 10 a 40% considerando os estudos que analisaram. Níveis

de

literacia em saúde

superiores

têm sido

encontrados em jovens que recebem com mais frequência informação sobre saúde, nas raparigas, nos que referem níveis de saúde superiores e nos que falam predominantemente mais do que uma língua, ou que nasceram noutro país (Chang, 2010; HLS-Consortium, 2012; Kutner, Greenberg, Jin, Paulsen & White, 2006; Paek, Reber, & Lariscy, 2011; Shah, West, Bremmeyr & Savoy-Moore, 2010; Wu, et al., 2010). A procura de informação ocorre sobretudo em resposta a uma necessidade ou falta de conhecimento (Mukherjee & Bawden, 2012), enfatizando-se a necessidade de olhar para os diferentes contextos onde a informação em saúde pode ser adquirida e utilizada, como parte da estratégia para abordar a literacia em saúde (Norman & Skinner, 2006). Fontes de informação em saúde como a internet e outras tecnologias são cada vez mais comuns entre a população geral e os jovens em particular, persistindo

apesar

disto

dificuldades

em

compreender

e

utilizar

a

informação sobre saúde disponível online (Gray, Klein, Noyce, Sesselberg, &Cantrill, 2005a, 2005b; Norman & Skinner, 2006). Em termos de temáticas, apesar de cerca de 31% dos jovens procurarem informação com vista a ter um estilo de vida saudável (Mukherjee & Bawden, 2012), a gestão de stresse não é um tema de interesse ou preocupação desta faixa etária, não constando nos tópicos de saúde mais procurados (Gray, Klein, Noyce, Sesselberg, & Cantrill, 2005a). A conceptualização da literacia em saúde como um conjunto de competências parte do pressuposto de que a literacia em saúde se baseia no conhecimento, podendo ser desenvolvida através de intervenções de educação (Nutbeam, 2009)

Ponta Delgada, Julho de 2015


296

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Este estudo apresentou como objetivo principal conhecer o impacto da utilização das fontes de informação em saúde na literacia em saúde em gestão

de

stresse,

numa

amostra

de

adolescentes

portugueses,

considerando o seu sexo, idade e ano de escolaridade. Para atingir o objetivo proposto realizou-se um estudo de caráter quantitativo,

descritivo-correlacional

e

transversal.

A

amostra

de

conveniência selecionada para a realização desta análise foi definida por um método de amostragem não probabilístico. Esta amostra compreendeu 1215 adolescentes, com idade entre os 14 e os 20 anos, de ambos os sexos, a frequentar o ensino secundário no distrito de Leiria. Os critérios de inclusão incluíram a idade dos participantes (entre 14 e 20 anos), frequentar o ensino secundário numa escola do distrito onde se realizou o estudo e aceitar participar no mesmo. Não frequentar as escolas selecionadas para a constituição da amostra e não ter autorização no caso de jovens com idade inferior a 18 anos foram os critérios de exclusão definidos Os

dados

foram

recolhidos

através

de

um

questionário

de

autopreenchimento, constituído por questões sociodemográficas, a Health Literacy Questionnaire for Children (Vardavas, Kondilis, Patelarou, Akrivos, & Falagas, 2009, traduzido e validado para a população portuguesa por Tomás, 2014) e o Instrumento de Avaliação da Literacia em Saúde elaborado por Tomás (2014). A Health Literacy Questionnaire for Children pretende avaliar a literacia em saúde, compreendendo três aspetos: os tópicos de saúde sobre os quais os jovens foram educados no último ano, as fontes de informação em saúde utilizadas e a satisfação em relação à interação com o seu médico. Neste estudo foram valorizados os resultados obtidos acerca da utilização das fontes de informação em saúde, que é avaliado com base em oito itens de resposta tipo Likert com cinco opções de resposta (de Nunca a Sempre) e pontuação de 1 a 5, avaliando a frequência de utilização de oito fontes de informação em saúde. Pontuações mais elevadas correspondem a utilizações mais frequentes das fontes de informação em saúde. O Instrumento de Avaliação da Literacia em Saúde foi utilizado com vista à avaliação dos níveis de literacia em saúde, nomeadamente em gestão do stresse. Incluindo 9 temáticas de saúde e 7 parâmetros de desempenho em literacia em saúde, é composto por 11 Ponta Delgada, Julho de 2015


297

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

cenários e 52 questões de escolha múltipla. Para avaliação da literacia em saúde em gestão de stresse foram considerados 2 cenários e 7 questões de escolha múltipla acerca do assunto. Neste instrumento a pontuação poderá variar entre 0 e 1, quanto mais elevado o resultado, maiores os níveis de literacia em saúde. Foram

considerados

todos

os

procedimentos

formais

e

éticos

inerentes a este tipo de estudo, tendo os dados sido tratados com recurso a testes paramétricos.

A amostra, constituída por 1215 jovens, de ambos os sexos (52,76% do sexo masculino; 47,24% do sexo feminino), apresenta uma média 16,31 anos, sendo que a maioria dos jovens (34,40%) apresenta 16 anos. Relativamente ao ano de escolaridade frequentado, a amostra distribui-se pelos três anos de ensino secundário dos quatro cursos científicohumanísticos e dos cursos profissionais disponíveis nas instituições de ensino selecionadas, estando a maioria a frequentar o 11º ano de escolaridade (38,68%) e o curso científico-humanístico de ciências e tecnologias (52,43%). A grande maioria dos participantes eram de nacionalidade (96,13%) e naturalidade portuguesa (93,99%), e afirmavam dominar a língua portuguesa para comunicar com a família (97,45%), amigos, nas relações sociais (97,45%) e para ler e escrever (97,78%). Os níveis de literacia em saúde em gestão do stresse encontrados na amostra eram bons (͞x= 0,68; δ=0,228). 25% da amostra apresenta valores inferiores a 0,57, e 25% valores superiores a 4%. A diferença entre os dois sexos é estatisticamente significativa (t=-9,255; df=1118,198; p=0,000), sendo o valor mais elevado no sexo feminino (͞x= 0,74; δ=0,190) e mais baixo no masculino (͞x= 0,62; δ=0,244). Em termos de idade, não se encontraram diferenças nos níveis de literacia em saúde em gestão de stresse em termos de grupos etários (14-18 anos e 19-20 anos). Correlacionando

as

duas

variáveis,

obteve-se

uma

correlação

estatisticamente significativa (r=-0,092; p=0,002), demonstrando uma diminuição dos níveis desta literacia com a idade dos jovens. Considerando o

ano

de

escolaridade,

encontraram-se

diferenças

estatisticamente

significativas (F=10,980; df=1144; p=0,000), sendo o valor mais elevado Ponta Delgada, Julho de 2015


298

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

nos adolescentes a frequentar o 12º ano de escolaridade (͞x= 0,73; δ=0,205) e o mais baixo nos estudantes a frequentar o 10º ano de escolaridade (͞x= 0,66; δ=0,235). Em relação às fontes de informação em saúde, a mais utilizada é o médico (͞x= 3,68; δ=1,077), seguido da família (͞x= 3,67; δ=0,851), da televisão (͞x= 2,92; δ=0,830), da internet (͞x= 2,86; δ=0,973), dos amigos (͞x= 2,59; δ=0,863), dos panfletos/brochuras (͞x= 2,50; δ=0,982), das revistas (͞x= 2,41; δ=0,952) e do farmacêutico (͞x= 2,29; δ=1,099). As raparigas utilizam mais qualquer uma das fontes de informação em saúde, sendo as diferenças entre sexos estatisticamente significativas (p<0,030). Diferenças estatisticamente significativas foram também encontradas entre jovens a frequentar anos de escolaridade diferentes, nomeadamente em relação à utilização da fonte de informação amigos (F=6,510; df=1211; p=0,002). Os jovens a frequentar anos de escolaridade inferiores (10º ano de escolaridade) utilizam menos esta fonte de informação (͞x= 2,48), em comparação com os jovens a frequentar o 11º ano de escolaridade (͞x= 2,61) e o 12º ano de escolaridade (͞x= 2,70). Considerando a idade dos adolescentes da amostra, correlações estatisticamente significativas foram encontradas entre esta e a utilização das fontes de informação em saúde médico

(r=-0,100;

p=0,000),

amigos

(r=0,092;

p=0,001)

e

panfletos/brochuras (r=-0,071; p=0,014). Tal

como

se

percebe

na

Tabela

1,

existe

uma

correlação

estatisticamente significativa entre a utilização de algumas fontes de informação em saúde e a literacia em saúde em gestão de stresse. A utilização de revistas, do médico, da internet e de panfletos/brochuras aumenta de forma ligeira, mas estatisticamente significativa a literacia em saúde em gestão de stresse. Tabela 1 - Relação entre literacia em saúde em gestão de stresse e fontes de informação em saúde (Pearson) Fontes de informação em saúde r p Farmacêutico -0,052 0,083 Televisão 0,039 0,190 Revistas 0,086 0,003** Médico 0,102 0,001** Internet 0,108 0,000** Família 0,057 0,056 Amigos 0,047 0,117 Panfletos/Brochuras 0,084 0,004** Legenda: **p<0,01

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Tal como apresentado na Tabela 2, é possível perceber que existe uma predição dos níveis de literacia em saúde em gestão de stresse, sendo uma pequena percentagem da variância destes níveis explicados pela utilização das fontes de informação em saúde. A variância dos níveis de literacia em saúde em gestão de stresse é explicada pela consulta das fontes de informação em saúde, na amostra total e em todos os subgrupos formados na amostra considerando o sexo, o ano de escolaridade frequentado e a idade dos participantes, com exceção do grupo de adolescentes do sexo feminino. Tabela 2 - Impacto das fontes de informação em saúde na literacia em saúde em gestão de stresse (método Enter) r r2 F p Masculino 0,202 0,041 3,063 0,002** Feminino 0,131 0,017 1,142 0,333 10º ano de escolaridade 0,213 0,045 2,191 0,029* 11º ano de escolaridade 0,198 0,039 2,192 0,027* 12º ano de escolaridade 0,288 0,082 3,252 0,001** Idade >18 anos 0,195 0,038 3,227 0,001** Idade < 18 anos 0,239 0,057 3,383 0,001** TOTAL 0,188 0,035 5,104 0,000** Legenda: *p<0,05; **p<0,01

Utilizando o método Stepwise (Tabela 3) na análise explicativa da literacia em saúde em gestão de stresse pela utilização das fontes de informação em saúde, percebe-se que a utilização das fontes de informação farmacêutico, médico, internet e panfletos, contribuíram, na amostra total, para explicar 18,2% da variância da literacia em saúde em gestão de stresse. Tabela 3 - Impacto das fontes de informação em saúde na literacia em saúde em gestão de stresse (método Stepwise) r r2 p Internet 0,107 0,011 0,000** Internet + Médico 0,137 0,019 0,000** Internet + Médico + Farmacêutico 0,169 0,028 0,000** Internet + Médico + Farmacêutico + 0,182 0,033 0,000** Panfletos/brochuras Legenda: *p<0,05; **p<0,01

Os níveis de literacia em saúde em gestão de stresse encontrados na amostra são bons, comparativamente com os valores de literacia em saúde Ponta Delgada, Julho de 2015


300

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

encontrados por outros autores em estudos semelhantes, como os realizados por Sanders, Federico, Klass, Abrams, & Dreyer (2009). Estes autores referem que os níveis baixos de literacia em saúde na população adolescentes ronda os 10 a 40%. Na nossa amostra, apenas 25% dos jovens apresenta valores abaixo dos 0,57, apresentando uma literacia em saúde em gestão de stresse insatisfatória. Fatores que possam influenciar a literacia em saúde de forma negativa, como a nacionalidade ou naturalidade não portuguesa e o não domínio da língua portuguesa encontram-se na nossa

amostra

de

forma

residual

(prevalência

inferir

a

4%),

não

apresentando expressão em termos de resultados. Desta forma, estes fatores influenciam de forma muito reduzida os resultados de literacia em saúde encontrados. Poderiam esperar-se níveis mais baixos de literacia em saúde em gestão de stresse dado não ser um tema de interesse ou preocupação dos adolescentes, não procurando estes informação acerca deste tópico (Gray, Klein, Noyce, Sesselberg, & Cantrill, 2005a). Também as diferenças entre sexos nos níveis de literacia em saúde comprovam os resultados encontrados na bibliografia (Wu, et al., 2010, Chang, 2010, e pelo HLS-EU Consortium, 2012). As raparigas apresentam valores mais elevados de literacia em saúde em gestão de stresse, comparativamente com os rapazes. Níveis mais elevados foram também encontrados nos adolescentes a frequentar o 12º ano de escolaridade, diminuindo este valor com o aumento de idade dos adolescentes. Em relação às fontes de informação em saúde, a mais utilizada é o médico, seguido da família, sendo as menos utilizadas as revistas e o farmacêutico. Percebe-se então, tal como sugerido na literatura (European Opinion Research Group, 2003, Vardavas, Kondilis, Patelarou, Akrivos, & Falagas, 2009), que os adolescentes privilegiam fontes de informação fidedigna, como os profissionais de saúde, tendo também os pais como referência na procura de informação. No entanto, a internet surge neste estudo como uma fonte menos consultada em detrimento da televisão, família e profissionais de saúde, apesar da literatura a identificar como uma das principais fontes de informação em saúde nesta faixa etária (Gray, Klein, Noyce, Sesselberg, & Cantrill, 2005a, 2005b; Norman & Skinner, 2006).

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Foi

encontrada

uma

correlação

positiva

e

estatisticamente

significativa entre os níveis de literacia em saúde em gestão de stresse e a utilização das fontes de informação em saúde, nomeadamente a utilização de revistas, do médico, da internet e de panfletos/brochuras. Para além desta correlação, demonstrou-se a existência de explicação dos níveis de literacia em saúde em gestão de stresse pela utilização das fontes de informação em saúde. A utilização das fontes de informação em saúde farmacêutico,

médico,

internet

e

panfletos

explicam

uma

pequena

percentagem da variância da literacia em saúde em gestão de stresse. Também na literatura (Kutner, Greenberg, Jin, Paulsen & White, 2006; Paek, Reber, & Lariscy, 2011) se encontram resultados semelhantes, referindo vários autores que os níveis de literacia em saúde são mais elevados em adolescentes que procuram mais frequentemente informação sobre saúde nas várias fontes de informação.

A amostra apresenta bons níveis de literacia em saúde em gestão do stresse, e uma consulta de fontes de informação em saúde frequente, sendo as mais utilizadas o médico e a família (pais). Os valores mais elevados de literacia em saúde em gestão de stresse encontram-se em adolescentes do sexo feminino, percebendo-se que os valores mais baixos são encontrados nos adolescentes a frequentar o 10º ano de escolaridade e com mais de 18 anos. Os conceitos de literacia em saúde em gestão de stresse e a frequência de utilização de fontes de informação em saúde encontram-se correlacionados, tendo sido percebida uma relação explicativa significativa entre estes níveis de literacia e a utilização das fontes de informação em saúde, em particular o farmacêutico, médico, internet e panfletos.

Compreender o impacto das várias fontes de informação em saúde na literacia em saúde em gestão de stresse permite aos enfermeiros a utilização eficaz das fontes de informação, privilegiando o desenvolvimento de competências na utilização das fontes mais valorizadas por esta população, permitindo assim desenvolver as competências e os níveis de Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

literacia em saúde, e consequentemente, os comportamentos promotores de saúde.

Bodie, G. D., & Dutta, M. J. (2008). Understanding Health Literacy for Strategic Health Marketing: eHealth Literacy, Health Disparities, and the Digital Divide. Health Marketing Quarterly, 25(1/2), pp. 175-203. doi: 10.1080/07359680802126301.

Borzekowski, D. L. (2009). Considering Children and Health Literacy: A Theoretical Approach. Pediatrics (124), pp. S282-S288. doi: 10.1542/peds.2009-1162D.

Chang, L.-C. (2010). Health Literacy, self-reported status and health promoting behaviours for adolescents in Taiwan. Journal of Clinical Nursing (20), pp. 190-196. doi: 10.1111/j.13652702.2009.03181.x.

Committee on Health Literacy. (2004). Health Literacy: A Prescription To End Confusion. Washington, D. C.: The National Academies Press.

European Opinion Research Group. (2003). European Commission. Obtido em 20 de 08 de 2013, de European

Commission

Eurobarometer

Surveys:

http://ec.europa.eu/public_opinion/archives/ebs/ebs_179_en.pdf 

Gray, N. J., Klein, J. D., Noyce, P. R., Sesselberg, T. S., & Cantrill, J. A. (2005a). Health information-seeking behaviour in adolescence: the place of the internet. Social Science & Medicine, 60, pp. 1467-1478. doi:10.1016/j.socscimed.2004.08.010.

Gray, N. J., Klein, J. D., Noyce, P. R., Sesselberg, T. S., & Cantrill, J. A. (2005b). The Internet: A window on adolescent health literacy. Journal of Adolescent Health, 37(3), pp. 243.e1-243.e7. doi:10.1016/j.jadohealth.2004.08.023.

HLS-EU Consortium. (2012). Comparative Report of Health Literacy in Eight EU Member States. Obtido em 30 de 08 de 2013, de The European Health Literacy Survey HLS-EU: http://www.healthliteracy.eu.

Ishikawa, H., & Kiuchi, T. (2010). Health literacy and health communication. Ishikawa and Kiuchi BioPsychosocial Medicine, 4, p. 18. doi:10.1186/1751-0759-4-18.

Kutner, M., Greenberg, E., Jin, Y., Paulsen, C., & White, S. (2006). The Health Literacy of America's Adults: Results From the 2003 National Assessment of Adult Literacy (NCES 2006-483). U.S. Department of Education. Washington, DC: National Center for Education.

Mukherjee, A., & Bawden, D. (2012). Health information seeking in the information society. Health Information and Libraries Journal, 29, pp. 242-246. doi: 10.1111/j.1471-1842.2012.00997.x.

Norman, C. D., & Skinner, H. A. (2006). eHEALS: The eHealth Literacy Scale. Journal of Medical Internet Research, 8(4), p. e27. doi: 10.2196/jmir.8.4.e27.

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Paek, H.-J., Reber, B. H., & Lariscy, R. W. (2011). Roles of interpersonal and media socialization agents in adolescent self-reported health literacy: a health socialization perspective. Health Education Research, 26(1), pp. 131-149. doi: 10.1093/her/cyq082.

Sanders, L. M., Shaw, J. S., Guez, G., Baur, C., & Rudd, R. (2009). Health Literacy and Child Health Promotion: Implications for Research, Clinical Care, and Public Policy. Pediatrics (124), pp. S306S314. doi: 10.1542/peds.2009-1162G.

Shah, L. C., West, P., Bremmeyr, K., & Savoy-Moore, R. T. (2010). Health Literacy Instrument in Family Medicine: The "Newest Vital Sign" Ease of Use and Correlates. Journal of the American Board of Family Medicine, 23(2), pp. 195-203. doi: 10.3122/jabfm.2010.02.070278.

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Steckelberg, A., Hülfenhaus, C., Kasper, J., & Mühlhauser, I. (2009). Ebm@school - a curriculum of critical health literacy for secondary school student: results of a pilot study. International journal of public health, 54(3), pp. 158-165. doi: 10.1007/s00038-008-7033-1.

Tomás, C. (2014). Literacia em saúde na adolescência. Dissertação para obtenção do Grau de Doutor em Ciências de Enfermagem. Porto: Universidade do Porto (ICBAS).

Vardavas, C. I., Kondilis, B. K., Patelarou, E., Akrivos, P. D., & Falagas, M. E. (2009). Health literacy and sources of health education among adolescents in Greece. International journal of adolescent medicine and health, 21(2), pp. 179-186.

Wu, A. D., Begoray, D. L., MacDonald, M., Higgins, J. W., Frankish, J., Kwan, B., Fung, W., Rootman, I. (2010). Developing and evaluating a relevant and feasible instrument for measuring health literacy of Canadian high school students. Health Promotion International, 25(4), pp. 444452. doi: 10.1093/heapro/daq032.

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

1

Doutorada em Ciências de Enfermagem; Membro Efetivo da UIS; Enfermeira Especialista em

Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria; Assistente do 2º Triénio no Instituto Politécnico de Leiria, Escola Superior de Saúde, Departamento de Ciências de Enfermagem, Campus 2 – Morro do Lena – Alto do Vieiro, Apartado 4137, 2411-901 Leiria, Portugal. E-mail: catarina.tomas@ipleiria.pt 2

Doutorada em Enfermagem; Membro Efetivo da UIS; Professora Ajunta no Instituto Politécnico de

Leiria, Escola Superior de Saúde, Departamento de Ciências de Enfermagem, Campus 2 – Morro do Lena – Alto do Vieiro, Apartado 4137, 2411-901 Leiria, Portugal. E-mail:ana.querido@ipleiria.pt 3

Mestre em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria; Enfermeiro Especialista em Enfermagem de

Saúde Mental e Psiquiatria; Enfermeiro no Centro Hospitalar de Leiria, Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental, Travessa das Olhalvas, 2410 Leiria, Portugal. E-mail: drscarvalho@gmail.com

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

CONTEXTO: O estigma face à doença mental representa um fenómeno comum entre profissionais de saúde e futuros profissionais. Ter uma doença mental ou submeter-se a tratamento psiquiátrico é visionado ainda como algo pejorativo, sendo uma das principais fontes de autoestigma. OBJETIVO(S): Conhecer os níveis de estigma face à doença mental e a sua relação com a prevalência de doença mental diagnosticada nos estudantes de saúde. METODOLOGIA: Estudo quantitativo, descritivo-correlacional transversal, numa amostra não probabilística de conveniência de 574 estudantes de cursos de saúde. A recolha dos dados foi realizada através de um questionário

de

autopreenchimento,

constituído

por

questões

sociodemográficas e a Versão portuguesa do Attribution Questionnaire (AQ 27). RESULTADOS: A amostra é maioritariamente feminina com uma idade média de 21,36 anos, variando entre 18 e 56 anos, sendo a doença mental mais prevalente a Perturbação Depressiva. Os níveis de estigma na amostra são baixos a moderados, sendo os valores mais elevados encontrados no fator pena e os mais baixos no fator irritação. Os valores de estigma no fator perigosidade e valor total do estigma são mais elevados nos estudantes portadores de perturbação mental. Existe correlação entre ter perturbação mental e os níveis de estigma totais e nos fatores perigosidade e medo. CONCLUSÕES: A amostra apresenta níveis baixos a moderados de estigma face à doença mental. Os estudantes com perturbação mental diagnosticada apresentam valores mais elevados de estigma, sugerindo-se a presença de auto-estigma. Palavras-Chave: Doença Mental; Estigma; Estudantes de Saúde; Saúde Mental.

CONTEXTO: El estigma contra la enfermedad mental es un fenómeno común entre los profesionales de la salud y los futuros profesionales. Tener una

enfermedad

mental o

someterse

a

tratamiento

psiquiátrico

se

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

contempla todavía como algo peyorativo, siendo una importante fuente de autoestigma. OBJETIVO(S): Conocer los niveles de estigma contra las enfermedades mentales y su relación con la prevalencia de las enfermedades mentales diagnosticadas en los estudiantes de salud. METODOLOGÍA: Estudio cuantitativo, descriptiva- correlacional, con una muestra no probabilística de 574 estudiantes de los cursos de salud. Los datos se recogieron mediante un cuestionario de autoinforme que contenida de preguntas sociodemográficas y la versión portuguesa del Cuestionario de Reconocimiento (AQ 27). RESULTADOS: La muestra es predominantemente femenino con una edad media de 21,36 años, de entre 18 y 56 años, siendo la enfermedad mental más frecuente el trastorno depresivo. Los niveles de estigma en la muestra son de baja a moderada, y los valores más altos se encuentran en el factor de penalización y los más reducidos en el factor de irritación. Los valores de estigma en factor de peligro y el valor total son más altos en los estudiantes con trastorno mental. Existe una correlación entre tener el trastorno mental y los niveles totales de estigma y factores de peligro y el miedo. CONCLUSIONES: La muestra tiene niveles bajos a moderados de estigma contra la enfermedad mental. Los estudiantes diagnosticados con trastornos mentales tienen mayor valor de estigma, lo que sugiere la presencia de auto-estigma. Descriptores: Trastornos Mentales; Estigma; Estudiantes; Salud Mental.

BACKGROUND: The mental health stigma is a common phenomenon among health professionals and future professionals. Having a mental illness or being submitted to psychiatric treatment is also envisioned as something pejorative, being a major source of self-stigma. OBJECTIVE(S): To know the levels of mental health stigma and its relation to the prevalence of mental illness diagnosed in health students. METHODS: Quantitative, cross descriptive-correlation study, with a nonprobabilistic convenience sample of 574 students of health courses. Data collection was performed using a self-report questionnaire consisting of

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

sociodemographic questions and the Portuguese version of the Attribution Questionnaire (AQ 27). RESULTS: The sample is predominantly female with an average age of 21.36 years, ranging from 18 to 56, and the most prevalent mental illness is Depressive Disorder. The levels of stigma in the sample are low to moderate, with the highest values found in the penalty factor and lower the irritation factor. The stigma values in danger factor and total brand value are higher in students with mental disorder. There is a correlation between having mental disorder and the total levels of stigma and factors danger and fear. CONCLUSIONS: The sample has low to moderate levels of mental health stigma. The students diagnosed with mental disorders have higher values of stigma, suggesting the presence of self-stigma. Keywords: Mental Disorder; Social Stigma; Students;Mental Health. Introdução As pessoas estigmatizadas podem sofrer várias consequências quer a nível interno quer a nível externo, afetando a sua qualidade de vida, aumentando os níveis de stresse, tristeza, angústia e desencorajamento, diminuindo o seu funcionamento psicossocial bem como a procura e utilização dos serviços de saúde, o acesso à habitação, à educação e ao emprego (Graf et al., 2004; Klein et al., 2008; Sokratis, Lyons & Finlay, 2005, cit. in Barbosa, 2010). Os estudantes de saúde apresentam estereótipos e preconceitos não muito diferentes da população em geral quando integram o curso superior (Avanci, Malaguti e Pedrão, 2002). Numa amostra de estudantes de saúde Marques, Barbosa e Queirós (2010),

encontraram-se

verificados

valores

de

estigmatização

semelhantes

aos

numa amostra de estudantes de medicina (Queirós, 2013),

confirmando-se que esta população apresenta estigma em saúde mental. Marques, Barbosa e Queirós (2010) referem ainda que os estudantes dos cursos de medicina, de psicologia, os estudantes do 1º ano e os estudantes sem familiares com doença mental apresentaram maior expressão de estigmatização, traduzida sobretudo em pena, coerção, perigosidade, evitamento e medo, bem como em segregação e irritação. Num estudo Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

realizado em duas unidades de saúde, recorrendo ao AQ-9, uma versão reduzida do AQ-27, Oliveira e Azevedo (2014) observaram níveis de estigma mais elevados na coerção (Média=6) e a pena (Média=5,54), em oposição aos níveis mais baixos de estigma das dimensões evitação (Média=2,2) e culpa (Média=1,51). Outro estudo similar foi realizado por Barbosa (2010), avaliando o estigma numa amostra de estudantes de saúde, tendo obtido como dimensões com níveis mais elevados de estigma a ajuda (Média=22,11) e a coerção (Média=15,73), contrapondo às dimensões responsabilidade (Média=6,90) e irritação (Média=7,37) que apresentaram os resultados mais baixos de estigma. Por sua vez Pinto (2015), numa amostra de estudantes de medicina, verificou que a dimensão com maior pontuação

foi a

de

ajuda em contraponto

com a de

responsabilidade com menor pontuação. As dimensões perigosidade, medo, segregação e raiva apresentaram também elas níveis de estigma elevado neste mesmo estudo. Estando associado ao pouco contacto com pessoas com doença mental, a estigmatização parece diminuir ao longo do curso (Marques, Barbosa e Queirós, 2010). A formação e o contato com doentes mentais podem levar a uma alteração destes estereótipos e preconceitos, situação que deve ser acompanhada de uma análise e discussão dos planos de estudos e dos momentos de contato com doentes mentais que decorrem ao longo do curso (Corrigan, et al, 2001). Num estudo liderado por Almeida e Xavier (2014) verificou-se uma prevalência das perturbações mentais de 1 em cada 5 dos indivíduos nos 12 meses anteriores à entrevista, o que torna a doença mental uma questão social generalizada que afeta o bem-estar (Sickel, Seacat & Nabors, 2014) e representa uma fonte de sofrimento para os doentes (Xavier, Klut, Neto, Ponte e Melo, 2013). As perturbações mentais mais frequentes, encontradas no estudo realizado por Almeida e Xavier (2014), são as fobias específicas (8,6%), a perturbação depressiva major (6,8%), a perturbação obsessivo-compulsiva (4,4%), a fobia social (3,1%) e a perturbação pós-stress traumático (2,3%). A American College Health Association National (2006) conclui que nos Estados Unidos da América, 17,5% dos estudantes universitários já tinha tido um episódio depressivo e que 12,7% tinham experimentado um Ponta Delgada, Julho de 2015


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transtorno de ansiedade. Numa amostra de doentes de uma consulta de psiquiatria para estudantes universitários das instituições de ensino superior o diagnóstico mais prevalente é o estado depressivo (20,9%), seguido da perturbação

da

personalidade

(16,4%),

perturbação

de

ansiedade

generalizada (15,7%), perturbação de pânico (11,2%), esquizofrenia (9%), perturbação de adaptação (6%) e a perturbação obsessivo compulsiva (5,2%) (Silveira, Norton, Brandão e Roma-Torres, 2011). Covarrubias e Han (2011) verificaram que os profissionais com diagnóstico de doença mental apresentavam níveis elevados de estigma no que respeita ao desejo de colocar restrições aos doentes mentais, mas níveis mais baixos no que respeita ao desejo de distância social. Já nos estudantes de Medicina, Schwenk, Davis & Wimsatt (2010) observaram que os estudantes com diagnóstico de depressão possuem atitudes mais estigmatizantes comparativamente aos que não apresentam diagnóstico de depressão.

Pretendeu-se com este estudo conhecer os níveis de estigma face à doença mental e a prevalência de doença mental diagnosticada nos estudantes de saúde, bem como perceber a relação entre os dois conceitos. Pretende-se também avaliar a relação entre o estigma em saúde mental e o relacionamento com familiares diagnosticados com doença mental. Foi

para

correlacional,

isso

realizado

transversal.

A

um

estudo

população

quantitativo,

selecionada

descritivo-

compreendeu

os

estudantes dos diferentes cursos, Enfermagem, Dietética, Fisioterapia, Terapia da Fala (TF) e Terapia Ocupacional (TO), de uma escola superior de saúde no distrito de Leiria, tendo a amostra sido selecionada por um método de amostragem não probabilístico de conveniência. Os

dados

foram

recolhidos

através

de

um

questionário

de

autopreenchimento, constituído por questões sociodemográficas e a Versão portuguesa do Attribution Questionnaire (AQ-27) de Corrigan (Sousa, Queirós, Marques, Rocha e Fernandes, 2008). O AQ-27 avalia nove estereótipos

sobre

pessoas

com

doença

mental:

responsabilidade,

compaixão raiva, perigosidade, medo, ajuda, coerção, segregação e evitação. Apresenta a possibilidade de utilização de várias vinhetas, tendo para

este

estudo

sido

selecionada

uma

sobre

um

paciente

com

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

esquizofrenia, sobre a qual incidiram 27 declarações que são ponderadas numa escala tipo Likert de 9 pontos (desde 1 “nenhum ou nada “ a 9 “muito ou completamente”). A pontuação obtida em cada fator, e no valor total de estigma varia de 3 a 27, sendo maior o nível de estigma quanto maior a pontuação obtida. É considerado baixo estigma se a pontuação for inferior a 11, estigma moderado com pontuações entre 12 e 19 e estigma elevado se a pontuação for superior a 20. No estudo de validação do instrumento, realizado por Sousa, Queirós, Marques, Rocha e Fernandes (2008), para a população portuguesa, este instrumento apresentou um Alpha Cronbach de 0,88, próximo do resultado obtido em outros estudos realizados em Portugal (entre 0,7631 e 0,8332). Consideraram-se todos os procedimentos formais e éticos inerentes a este tipo de estudo. A análise dos dados foi feita recorrendo ao SPSS 20, tendo sido tratados com recurso a testes paramétricos.

A

amostra

selecionada

foi

constituída

por

573

estudantes,

maioritariamente do sexo femininos (81,5%), com uma média de idades de 21,36 anos (DP=4,34; Moda=20), variando esta entre os 18 e os 56 anos. Os estudantes inquiridos pertenciam aos cursos de Enfermagem (58,3%), Dietética (12,3%), Fisioterapia (10,6%), TF (13,6%) e TO (4,2%), sendo representativos de todos os anos de curso (4 anos). Em relação à prevalência de doença mental, classificada segundo o DSM-5, 37 (6,46%) dos estudantes referiram ter diagnosticada uma doença mental, sendo que a maioria (n=21; 3,66%)) referiram ter diagnóstico de Perturbação Depressiva. Outras perturbações surgem representadas na amostra, tais como as Perturbações da Alimentação e da Ingestão (n=5; 0,87%),

da

Ansiedade

(n=4;

0,70%),

Obsessivo-Compulsivas

(n=1;

0,17%), do Sono-Vigília (n=1; 0,17%) e da Personalidade (n=1; 0,17%). Os níveis de estigma na amostra (Tabela 1) são baixos a moderados (Média=12,49; DP=1,595), sendo a média das respostas obtidas de 4,04 (DP=0,55). Os valores mais elevados foram encontrados na expressão de pena e os mais baixos na dimensão irritação.

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Tabela 1 – Níveis de estigma em saúde mental na amostra Fator Médi a Médi DP (Iten Mín Máx a DP s; . . Fator ) 2,86 0,918 Responsabilidade

10. Eu iria pensar que o José é o culpado da sua situação atual. 11. Até que ponto acha que é controlável a causa da situação atual 5,43 1,528 do José? 3,78 2,174 5 11,33 23. Até que ponto acha que o José é responsável pela sua situação 3,04 0,970 atual? 9. Eu iria sentir piedade pelo José. 4,62 1,676 Pena 22. Até que ponto sentiria pena do José? 4,44 1,639 5,22 3,244 7 27. Até que ponto se iria preocupar com o José? 6,62 1,234 15,68 1. Eu iria sentir-me incomodado pelo José. 3,69 1,351 Irritação 4. Até que ponto ficaria zangado com o José? 3,13 1,031 3,38 2,521 4 12. Até que ponto se sentiria irritado com o José? 3,31 1,175 10,13 2. Eu iria sentir-me inseguro perto do José. 3,77 1,358 Perigosidade 13. Até que ponto sentiria que o José é perigoso? 3,78 1,393 3,62 3,321 4 18. Eu iria sentir-me ameaçado pelo José. 3,32 1,212 10,87 3. O José iria assustar-me. 3,67 1,320 Medo 19. Até que ponto sentiria medo do José? 3,48 1,335 3,56 3,404 3 24. Até que ponto se iria sentir assustado pelo José? 3,54 1,305 10,69 8. Eu estaria disposto a conversar com o José sobre os seus 3,20 1,201 Ajuda problemas. 20. Até que ponto estaria disposto a ajudar o José? 3,20 1,176 3,44 2,927 3 21. Até que ponto tem a certeza de que iria ajudar o José? 3,92 1,387 10,32 5. Se eu fosse responsável pelo tratamento do José, pediria para ele 6,58 1,151 Coerção tomar a medicação. 14. Até que ponto concorda que o José deveria ser forçado a tratar5,42 1,614 se com o seu médico mesmo que ele não quisesse? 5,12 2,488 8 15,36 25. Se eu fosse responsável pelo tratamento do José, iria 311orça3,37 1,203 lo a viver numa residência comunitária. 6. Penso que o José coloca a sua vizinhança em risco se não for 3,80 1,350 Evitamento internado. 15. Eu penso que seria melhor para a comunidade onde o José está 4,18 1,548 inserido se ele fosse colocado num hospital psiquiátrico. 4,48 3,703 3 13,43 17. Até que ponto acha que um asilo, onde o José pudesse estar 3,25 1,060 afastado da sua vizinhança, seria o melhor local para ele? 7. Se eu fosse um empregador, entrevistaria o José para um 4,41 1,670 Segregação emprego. 16. Eu partilharia uma boleia de carro com o José, todos os dias. 4,87 1,752 4,86 2,499 8 26. Se eu fosse senhorio, provavelmente alugaria um apartamento 4,15 1,606 14,59 ao José. Nota: os itens de pontuação invertida encontram-se convertidos em pontuação crescente

Como se pode verificar na Tabela 2 os valores de estigma na dimensão perigosidade e o valor total do estigma são mais elevados nos estudantes portadores de perturbação mental, não tendo sido percebidas diferenças

no

nível

de

estigma

considerando

o

tipo

de

doença

diagnosticada. Percebeu-se existir correlação entre ter perturbação mental e as dimensões perigosidade, medo e o nível total de estigma.

Ponta Delgada, Julho de 2015

21

24

19

23

23

22

23

24

24


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Tabela 2 – Relação entre estigma face à doença mental e ter doença mental (Teste t-student e Correlação de Pearson) Com DM Sem DM Dimensões do diagnosticada diagnosticada F estigma (Média; DP) (Média; DP) Responsabilidade 11,84; 2,383 11,31; 2,168 0,044 Pena 15,86; 3,086 15,70; 3,293 0,054 Irritação 10,73; 2,897 10,10; 2,518 1,888 12,09; 4,477 10,81; 3,247 9,500 Perigosidade Medo 11,82; 4,156 Ajuda 10,72; 2,755 Coerção 14,84; 2,943 Evitamento 14,36; 3,318 Segregação 14,51; 2,575 TOTAL 113,80; 19,653 Legenda: * - p<0,05; ** - p<0,01

10,64; 10,24; 15,41; 13,33; 14,63; 108,75;

3,367 2,930 2,484 3,777 2,530 14,574

3,043 0,137 1,481 0,927 0,000 4,774

(DM) diagnosticada p

r

p

0,833 0,817 0,170 0,002* * 0,082 0,711 0,224 0,336 0,986 0,029*

0,061 0,012 0,062 0,096

0,154 0,775 0,147 0,024*

0,086 0,043* 0,042 0,330 -0,056 0,189 0,069 0,109 -0,011 0,792 0,084 0,048*

Considerando o contacto com pessoas portadoras de doença mental, 37,1%

(213)

estudantes

afirmaram

ter

contacto

com

familiares

diagnosticados com doença mental, nomeadamente pais (n=59; 10,30%), tios (n=58; 10,12%), avós (n=50; 8,73%), primos (n=31; 5,41%), irmãos (n=14; 2,44%) e outros (n=10; 1,74%). Como se percebe na Tabela 3, não se verificaram diferenças estatisticamente significativas nos valores de estigma entre estudantes com familiares com e sem doença mental diagnosticada. Também não se observou uma correlação estatisticamente significativa entre estes dois conceitos. Tabela 3 – Relação entre estigma face à doença mental e ter contacto com familiares com doença mental (DM) diagnosticada (Teste t-student e Correlação de Pearson) Dimensões do Familiares com DM Familiares sem DM F p r p estigma (Média; DP) (Média; DP) Responsabilidade 11,48; 2,331 11,23; 2,106 0,379 0,205 0,054 0,205 Pena 15,60; 3,310 15,71; 3,250 0,019 0,705 -0,016 0,705 Irritação 10,12; 2,432 10,14; 2,611 1,994 0,950 -0,003 0,950 Perigosidade 11,07; 3,434 10,76; 3,295 0,659 0,290 0,045 0,290 Medo 10,72; 3,493 10,69; 3,397 0,121 0,899 0,005 0,899 Ajuda 10,39; 3,054 10,27; 2,896 0,144 0,636 0,020 0,636 Coerção 15,36; 2,536 15,35; 2,486 1,327 0,984 0,001 0,984 Evitamento 13,38; 3,563 13,44; 3,830 0,793 0,849 -0,008 0,849 Segregação 14,62; 2,679 14,57; 2,552 0,523 0,834 0,009 0,834 TOTAL 12,53; 1,570 14,46; 1,638 0,057 0,648 0,019 0,648

A prevalência de doença mental diagnosticada na amostra é baixa, comparativamente com a prevalência de doença mental noutros estudos que consideram a população portuguesa (Almeida e Xavier, 2014), Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

permitindo concluir que a população de estudantes de saúde apresenta níveis mais baixos de doença mental, ou, em alternativa, menos procura de diagnóstico

e

acompanhamento

de

situações

patológicas.

A

baixa

prevalência está em linha com os resultados do estudo de prevalência em Portugal, realizado por Almeida e Xavier (2014), e do estudo de Silveira, Norton, Brandão e Roma-Torres (2011) que avalia a prevalência de doença mental em estudantes universitários, em que as perturbações depressivas surgem como as patologias mais comuns. As Perturbações da Alimentação e da Ingestão e da Ansiedade são também mais prevalentes do que as restantes patologias, resultados que são consonantes com a incidência aumentada deste tipo de perturbações na população feminina, revelada no estudo de Silveira, Norton, Brandão e Roma-Torres (2011). Em termos de estigma, a amostra apresenta níveis baixos a moderados de estigma face à doença mental, corroborando resultados de estudos similares (Marques, Barbosa e Queirós, 2010; Queirós, 2013). Valores mais elevados foram encontrados nos fatores pena e coerção, à semelhança do já descrito na bibliografia (Barbosa, 2010; Oliveira e Azevedo, 2014), sendo os valores mais baixos referentes ao medo e irritação, indo ao encontro do referido no estudo de Barbosa (2010). Percebe-se assim que os estudantes a frequentar estes cursos de saúde, devido ao contacto profissional com a doença mental, apresentam níveis mais elevados de pena e coerção, o que se poderá relacionar com a atividade assistencial prestada aos utentes. A perigosidade, o medo e a irritação apresentam valores baixos, pois o contacto com o doente mental leva à compreensão dos seus comportamentos. Tal como refere Corrigan, et al (2001), a formação e o contacto com os doentes mentais poderá levar a uma alteração de estereótipos e preconceitos, reestruturando a imagem do estudante em relação ao doente mental. Os estudantes com perturbação mental diagnosticada apresentam valores mais elevados de estigma no seu valor total e na dimensão perigosidade, existindo uma correlação entre estas duas variáveis no valor total de estigma e nos fatores perigosidade e medo. Também Covarrubias & Han (2011) e Schwenk, Davis & Wimsatt (2010) encontraram valores mais elevados de estigma nos profissionais e estudantes de saúde com doença mental. Valores mais elevados de estigma de forma global, bem como em Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

relação à perigosidade e ao medo sugerem uma avaliação do conceito de doença mental considerando a sua própria doença. Sendo as perturbações depressivas as mais prevalentes na amostra, haverá a necessidade de compreender o significado de doença mental destes estudantes, no sentido de compreender o medo e perspetiva de perigo criada em torno deste conceito. O maior estigma por parte dos estudantes com doença mental evidenciado neste estudo, contraria os resultados obtidos por Pinto (2015) na amostra de estudantes de Medicina que já tinha frequentado consultas de

psiquiatria.

Nestes,

o

estigma

foi

significativamente

mais

baixo

comparativamente aos restantes estudantes relativamente à segregação, o que sugere uma maior compreensão da doença mental evidenciando maior tolerância e aceitação. Apesar dos valores mais elevados de estereótipos nos estudantes com doença mental, os que têm contactos frequentes com familiares com doença mental diagnosticada não apresentam diferenças significativas no estigma, comparativamente com os restantes. Em oposição, Marques, Barbosa e Queirós (2010) revelam valores mais elevados de estigma para estes estudantes. É de salientar que os valores médios de estigma dos estudantes com familiares com doença mental são substancialmente superiores dos reportados pelos familiares de pessoas com doença mental no estudo de Sousa, Marques, Curral e Queirós (2012) no que respeita à perigosidade, medo, evitamento e segregação. Estes resultados sugerem uma análise à representação da doença mental no seio familiar por parte dos estudantes de saúde. Percebem-se assim necessidades de intervenção pedagógica com vista à diminuição do estigma, bem como intervenção psicoterapêutica com vista à redução dos estereótipos relacionados com o conceito de doença mental presente nos estudantes portadores de doença mental, sugerindo-se ainda estudos futuros para compreensão das causas do estigma identificado.

A amostra apresenta níveis baixos a moderados de estigma face à doença

mental,

corroborando

resultados

de

estudos

similares.

As

perturbações depressivas são as mais comuns na amostra e estudantes com perturbação mental diagnosticada apresentam valores mais elevados de Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

estigma. O contacto com familiares portadores de doença mental não parece afetar os níveis de estigma. Salienta-se ainda a importância da compreensão do fenómeno do estigma nesta população, com vista à criação de programas de intervenção eficazes na redução da mesma, levando à melhoria de competências de cuidar dos estudantes e futuros profissionais de saúde.

Percebem-se assim necessidades de intervenção pedagógica com vista à diminuição do estigma, bem como intervenção psicoterapêutica com vista à redução do estigma presente nos estudantes portadores de doença mental, sugerindo-se ainda estudos futuros para compreensão das causas do estigma identificado.

Almeida, J., Xavier, J. (2014). Estudo epidemiológico nacional de saúde mental - 1º relatório coordenação do estudo. Lisboa: Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Nova de Lisboa.

American College Health Association (2007): Reference Group Executive Summary Fall 2009. Baltimore: American College Health Association.

Avanci, R., Malaguti, S., Pedrão, L. (2002). Autoritarismo e benevolência frente à doença mental, estudo com alunos ingressantes no curso de enfermagem. Revista Latino-america de Enfermagem, 10(4), 509-515. doi.org/10.1590/S0104-11692002000400007.

Barbosa, T. (2010). Estigma face à doença mental por parte de futuros profissionais de saúde mental. Tese de Mestrado. Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, Porto, Portugal.

Corrigan, P., River, L., Lundin, R., Penn, D., Uphoff-Wasowski, K., Campion, J., Mathisen, J., Gagnon, C., Bergman, M., Goldstein, H., Kubiak, M. (2001). Three Strategies for Changing Attributions about Severe Mental Illness. Schizophrenia Bulletin, 27(2), 187-195.

Covarrubias I., Han M. (2011) Mental Health Stigma about Serious Mental Illness among MSW Students: Social Contact and Attitude. Social Work, 56 (4), 317-25.

Marques, A., Barbosa, T.; Queirós, C. (2010). O Estigma na Doença Mental Perspectivado por Futuros Profissionais de Saúde Mental. Poster apresentado no III Congreso de la Federación Española de Asociaciones de Rehabilitación Psicosocial, Valladolid, Espanha.

Oliveira, A.; Azevedo, S. (2014). Estigma na doença mental: estudo observacional. Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, 30(4), 227-234.

Pinto, I. (2015). Mental stigma in medical students – Medical School of Oporto University. Tese de Mestrado, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Porto, Portugal.

Queirós, M. (2013). Perceção dos alunos de medicina face à doença mental: estudo exploratório sobre diferenças de género. Tese de Mestrado. Universidade Católica Portuguesa, Porto, Portugal.

Schwenk, T., Davis, L., Wimsatt, L. (2010). Depression, stigma, and suicidal ideation in medical students.

Journal

of

the

American

Medical

Association,

304,

1181–1190.

doi:

10.1001/jama.2010.1300.

Ponta Delgada, Julho de 2015


316

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Sickel, A., Seacat, J., Nabors, N. (2014) Mental health stigma update: A review of consequences, Advances in Mental Health, 12(3), 202-215, doi: 10.1080/18374905.2014.11081898.

Silveira, C., Norton, A., Brandão, I., Roma-Torres, A. (2011). Saúde mental em estudantes do ensino superior - Experiência da Consulta de Psiquiatria do Centro Hospitalar São João. Acta Medica Portuguesa, 24 (S2), 247-256.

Sousa, S.; Queirós, C.; Marques, A.; Rocha, N.; Fernandes, A. (2008). Versão preliminar portuguesa do Attribution Questionnaire (AQ-27). Porto: F.P.C.E.U.P./E.S.T.S.P.I.P.P.

Sousa, S.; Marques, A.; Rosário, C.; Queirós, C. (2012). Stigmatizing attitudes in relatives of people with schizophrenia: a study using the Attribution Questionnaire AQ-27. Trends in Psychiatry and Psychotherapy,34(4), 186–197.doi.org/10.1590/S2237-60892012000400004.

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Ponta Delgada, Julho de 2015


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1

Enfermeira; Enfermeira Especialista em Saúde Infantil e Pediatria; Enfermeira no ACES Oeste Sul- UCC

de Mafra, 2640-431 Mafra, Portugal. E-mail: cristinahil@gmail.com 2

Enfermeira; Enfermeira Especialista em Saúde Infantil e Pediatria; Enfermeira no ACES Oeste Sul- UCC

de Torres Vedras, 2560-578 Torres Vedras, Portugal. E-mail: sctcorreia@gmail.com 3

Doutor em Psicologia da Saúde e da Educação; Enfermeiro Especialista em Saúde Infantil e Pediatria;

Professor Coordenador na Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa, 2925-010 Azeitão, Portugal. E-mail: jvilelas@esscvp.eu

Ponta Delgada, Julho de 2015


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A Adolescência é considerada um período de extrema importância para a aquisição e integração de condutas e comportamentos que vão influenciar a Saúde no futuro. A Educação Sexual nesta fase constitui-se como um desafio para a enfermagem. O objetivo deste estudo foi analisar as alterações nos comportamentos e atitudes dos adolescentes decorrentes de Programas de Educação Sexual e determinar a importância do Enfermeiro durante este processo. Foi realizada pesquisa nas bases de dados Cinahl, Medline e Scielo, considerando a bibliografia publicada entre março de 2009 a março de 2014, pelo método PI[C]OS e feita também pesquisa no motor de busca Google. Dos 12 artigos obtidos na pesquisa, foram selecionados cinco após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão. Da análise dos estudos, pode-se afirmar que a escola é o local privilegiado

para

demonstraram Adolescentes

a

um sobre

promoção aumento

da na

sexualidade

educação aquisição

e

sexual. de

alterações

Os

resultados

conhecimentos saudáveis

nos

dos seus

comportamentos/atitudes, que se refletem, por exemplo, na diminuição do número de grávidas nesta faixa etária. Conclui-se que o Enfermeiro detém um papel fundamental nestas intervenções, promovendo a sexualidade saudável e segura junto dos Adolescentes. Palavras-Chave: Sexualidade; Adolescentes; Enfermagem.

La Adolescencia se considera un período de máxima importancia para la adquisición e integración de conductas y comportamientos que influirán en la Salud en un futuro. La Educación Sexual en esta fase se trata de un desafio para la Enfermería. El objetivo de este estudio fue analizar las alteraciones en los comportamientos y actitudes en los adolescentes resultantes de Programas de Educación Sexual, y determinar la importancia de las enfermeras durante este proceso. Fue realizada una pesquisa en las bases de datos de Cinahl, Medline y Scielo, considerando la bibliografía publicada entre marzo de 2009 a marzo de 2014, por el método PI[C]OS y también se realizó en el motor de busca de Google. De los doce artículos encontrados en dicha búsqueda, fueron seleccionados cinco tras la aplicación de criterios de inclusión y exclusión. Del análisis de los estudios Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

se concluye que la escuela es el lugar idóneo para la promoción de la educación sexual. Los resultados demostraron un aumento el la adquisición de conocimientos de los Adolescentes sobre sexualidad y alteraciones saludables en sus comportamientos/ actitudes, que se reflejaron, por ejemplo, en una disminución del número de embarazos en este grupo de edad. Se concluyó que el Enfermero tiene un papel fundamental en estas intervenciones ,promoviendo una sexualidad saludable y segura junto los Adolescentes. Descriptores: Sexualidad; Adolescentes; Enfermería.

Adolescence is a period of extreme importance during which the acquisition and integration of sound conduct and behavior patterns, will positively influence the General Health in the future. During this phase, Sexual Education constitutes a challenge for the Nursing professionals. The objectives of this study were to analyze the changes in the behaviors and attitudes of teenagers, resulting from the contact with Sexual Education Programs and determine the importance of the nurse during this process. Research was done using the Cinahl, Medline and Scielo database, taking into account the bibliography published during the period starting in March 2009 to March 2014, using the PI[C]OS method. Internet research using Google, was also employed, having produced 12 articles, from which five were selected, after applying inclusion/exclusion criteria. From this analysis, it was concluded that schooling environments are ideal spaces for the promotion of sexual education. The analysis results showed an increase in the acquisition of knowledge about sexuality and healthy behavior/attitude change amongst teenagers, as well as a decrease in the number of pregnancies in this age. The analysis also shows that the nursing professional has a privileged role in promoting a safe and healthy sexuality among adolescents. Keywords: Sexuality; Adolescents; Nursing

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Ao longo dos tempos o estatuto do Adolescente tem vindo a alterarse, se o início é aquando a puberdade já o término é mais difícil definir e tem variações de acordo com as culturas e a época. Este grupo etário começou a ser encarado de forma mais atenta no séc. XX, meados dos anos 60, pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e no final dos anos 70 a Saúde dos Adolescentes começou a ser abordada de forma mais específica em Portugal. A OMS atribui as designações de adolescentes e de jovens aos indivíduos que possuem idade compreendidas entre 10 e 19 anos e entre 15 e 24 anos (DGS, 2006). Adolescência vem do latim “adolesecere” que significa crescer. É um processo de rápidas mudanças físicas, cognitivas e sociais, em que a busca pela autonomia e independência é um estímulo constante (Prazeres, Laranjeira e Oliveira, 2005). Devido à plasticidade e vulnerabilidade excessiva do sistema nervoso central (SNC), este é um período sensível aos fatores de risco e/ou protetores. Com a imaturidade biológica do SNC, o adolescente tem: dificuldade em regular as emoções; controlar impulsos; aplicar a capacidade de julgamento; minimizar a atração por correr riscos e menor capacidade de planear e decidir (Vilelas, 2009a). Logo, os fatores de proteção devem ser valorizados e promovidos. Os principais fatores de proteção são o suporte familiar, a presença de um adulto de referência e a disponibilidade

para

socioeconómicos

apoiar e

negativos

supervisionar.

que

são:

A par

ambiente

com os

familiar

fatores

disfuncional,

carência económica, violência, falta de expectativas futuras, também existem

fatores

intrínsecos

que

podem

influenciar

positivamente

os

comportamentos, tais como a autoimagem positiva, boa autoestima e o exercício da assertividade. A oportunidade de exprimirem e exercitarem as suas vocações pessoais, assim como a sua valorização, é também uma forma de prevenir situações de condutas nefastas. Assim, a valorização dos fatores individuais e coletivos de proteção contribuem para o processo de desenvolvimento do adolescente, que em determinado momento um comportamento pode ser considerado negativo ou positivo (DGS, 2013a). Esta ideia vai ao encontro do Modelo de Promoção de Saúde de Nola Pender, a qual defende que as ações de saúde são uma sequência das Ponta Delgada, Julho de 2015


321

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

caraterísticas

e

experiências

dos

indivíduos,

em

resultado

de

comportamentos anteriores: fatores pessoais biológicos, psicológicos e socioculturais; benefícios da ação; barreiras à ação e autoeficácia. Todos estes fatores vão influenciar a capacidade pessoal de organizar e executar um comportamento de promoção de saúde. A noção de autoeficácia e a sua realização diminui a perceção de barreira ao desempenho comportamental (Sakraida, 2004). Assim, a sexualidade humana é modelada socialmente, em que as regras morais vão sendo estabelecidas através das alterações sociais globais. Estas alterações são influenciadas por todos os intervenientes que constroem a nossa identidade em todas as áreas da vida, que são elas as referências mais informais nas quais se incluem família e pares mas principalmente os grandes modeladores sociais tais, como os meios de comunicação social e mais formalmente a escola (APF, 2005). Os

aspetos

sexuais

nas

relações

interpessoais

tornam-se

particularmente importantes para o Adolescente. O desenvolvimento dos carateres sexuais primários e secundários e o aumento da sensibilidade dos órgãos genitais produzem nos adolescentes pensamentos e fantasias que os levam à exploração. É na infância que recebem a primeira informação sobre sexualidade através dos pais e escola, mas nem sempre estão preparados para o impacto da puberdade. Na adolescência, a partir da comunicação social, estão constantemente expostos ao simbolismo sexual e estimulação erótica. Para saciar a curiosidade, satisfazer os estímulos sexuais e obter sensações agradáveis envolvem-se em relações sexuais (Vilelas, 2009a; Hockenberry & Wilson, 2014). O projeto Aventura Social realizou um estudo OSYS (Online Study of Young People’s Sexuality) em Portugal que é uma extensão do estudo HBSC (Health Behavior in School-aged Children) desenvolvido em colaboração com a OMS. O estudo OSYS, com dados referentes a 2011, com uma amostra de 396 jovens, teve como objetivo estudar os conhecimentos, crenças, atitudes e comportamentos relativos à sexualidade nos jovens portugueses entre os 13 e os 21 anos. De acordo com os resultados deste estudo, a escola e a Educação Sexual, diminuem os comportamentos de risco, funcionando como um fator protetor (Vilelas, 2008; Matos, Ramiro, Reis e Equipa Aventura Social, 2013). No entanto, em Portugal assim como Ponta Delgada, Julho de 2015


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na Europa e no resto do mundo, os adolescentes e jovens adultos são o grupo mais afetado por Doenças Sexualmente Transmissíveis (DGS, 2013b). Apesar da taxa de nascimentos em parturientes adolescentes ter vindo a diminuir ao longo dos anos, mantém-se níveis preocupantes, sendo que em 2010 ocorreram em Portugal 4036 nascimentos de parturientes com idades inferiores a 19 anos (INE, 2012). As áreas da Educação Sexual e Planeamento Familiar em Portugal foram legisladas a 24 Março de 1984, referindo que a Educação Sexual é um direito fundamental à Educação (Dec-Lei n.º3, 1984). Em 11 de Agosto de 1999 a Constituição vem conceder maior eficácia aos dispositivos legais, garantia da promoção de uma vida sexual e reprodutiva saudável, mais gratificante e responsável, e também o reforço do acesso ao planeamento sexual e métodos contracetivos, tendo em vista a prevenção de gravidezes indesejadas e o combate a doenças sexualmente transmissíveis.

A

aplicação

das

medidas

previstas

nesta

lei

é

da

competência dos estabelecimentos de Ensino e de Saúde, em que as intervenções e ações podem ser conjuntas em associação ou parceria (DecLei n.º 120, 1999). A 6 de Agosto de 2009 a Assembleia da República estabelece o regime de aplicação da Educação Sexual em meio escolar. Esta lei é aplicável a todos os estabelecimentos de ensino públicos, privados ou corporativos e compreende o ensino básico e secundário. Tem como algumas finalidades o desenvolvimento de competências nos jovens que permitam escolhas informadas e seguras no campo da sexualidade e também a redução de consequências negativas dos comportamentos de risco, tais como a gravidez indesejada e as doenças sexualmente transmissíveis. Os artigos 9º e 10º referem que a Educação Sexual deve ter o acompanhamento de profissionais de saúde de unidades locais e que o Ministério da Saúde assegura as condições de cooperação das unidades de saúde com as escolas. A disponibilização de gabinetes de informação e apoio ao aluno no âmbito da Educação para a Saúde e Educação Sexual deve ser da responsabilidade das escolas, em que este apoio é articulado com as unidades de saúde, no âmbito da saúde escolar (Dec-Lei n.º 60, 2009).

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

A responsabilidade da saúde escolar é dos Agrupamentos de Centros de

Saúde/Unidades

Locais

de

Saúde

na

pessoa

do

Diretor

Executivo/Presidente do Concelho de Administração. A gestão do Plano Nacional de Saúde Escolar (PNSE), de acordo com a Orientação n.º 8/2010 da Direção Geral de Saúde (DGS), está ao cargo da Unidade de Saúde Pública (USP). Nas áreas de intervenção prioritárias do PNSE está incluída a Promoção da Saúde e a Literacia em Saúde, onde se privilegia os projetos de Promoção de Saúde em meio escolar, tais como a Educação Sexual e a cooperação na dinâmica dos gabinetes de informação e apoio ao aluno que incluem o âmbito da Educação Sexual. Todas as intervenções da Saúde Escolar têm indicadores para avaliação, neste caso implica a percentagem de alunos abrangidos por projetos de Educação Sexual, segundo o nível de educação e ensino (DGS, 2013c). Desta

forma,

deseja-se

que

as

intervenções

de

Enfermagem

assumam um lugar de destaque na promoção de comportamentos sexuais saudáveis junto desta faixa etária (OE, 2010a), sendo o Enfermeiro Especialista em Saúde da Criança e do Jovem o elemento de referência, com competências para promover a autoestima do adolescente e a sua autodeterminação nas escolhas relativas à saúde (OE, 2010b). Com

este

estudo

pretende-se

analisar

as

alterações

nos

comportamentos e atitudes dos adolescentes decorrentes de Programas de Educação Sexual e determinar a importância do Enfermeiro durante este processo.

Neste estudo foi formulada a questão de investigação pelo método PI[C]OS (Vilelas, 2009a): Em relação aos Adolescentes [P] qual a eficácia dos programas de Educação Sexual [I] na aquisição de conhecimentos, atitudes e comportamentos sexuais saudáveis [O]?. Foram definidos os seguintes critérios de inclusão: como participantes (P), os Adolescentes com idades compreendidas entre os 13 e os 18 anos e Enfermeiros que relatem a eficácia dos programas de educação sexual; como intervenção (I), programas de Educação Sexual realizados por Enfermeiros e que influenciem a aquisição de conhecimentos, atitudes e comportamentos nos Adolescentes; como outcomes/resultados (O), estudos Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

que revelem que os programas de Educação Sexual aumentam os conhecimentos e a aquisição de atitudes e comportamentos sexuais saudáveis e estudos de abordagem quantitativa e mistos. Como critérios de exclusão:

estudos

que

não

apresentem

metodologia

científica

e/ou

qualitativa e os Adolescentes (P), que não tenham idades compreendidas entre os 13 e os 18 anos. Foi realizada pesquisa de artigos nas bases de dados científicas CINAHL Plus With Full Text, MEDLINE With Ful Text e Scielo, tendo em conta o período compreendido entre março de 2009 e março de 2014. Foi utilizada a equação de pesquisa [Sexual Education and (Nurs*) and (Adolesc*)]. Desta pesquisa obtiveram-se 10 artigos (quatro da CINAHL, seis da MEDLINE). Utilizando os descritores em Português [Educação Sexual and Enfermagem and Adolescentes] obtivemos três na Scielo. A filtragem e recuperação dos estudos foram realizadas através da leitura do título e resumo destes independentemente por cada revisor (avaliação feita por dois revisores).

Foram

excluídos

sete

artigos,

quatro

por

não

incluírem

programas de educação sexual realizados por enfermeiros, três por estarem repetidos e um por não cumprir os critérios da idade. Dos cinco artigos selecionados para este estudo foram classificados pelo nível de evidência e analisados por dois investigadores. Os níveis de evidência utilizados foram: Nível I – revisões sistemáticas (meta-análises), estudos experimentais com grupos selecionados aleatóriamente; Nível II – RSL sem meta-análise; estudos prospetivos, estudo experimental com grupos não aleatórios; Nível III – estudos quasi experimentais; Nível IV – estudos não experimentais( estudos transversais, estudos de caso, estudos correlacionais); Nível V – revisões de literatura com estudos descritivos e estudos qualitativos; Nível VI – opiniões de autoridades/relatórios de peritos (Guyatt & Rennie, 2002; Melnyk & Fineout-Overholt, 2005; Vilelas, 2009a).

Na tabela 1, apresentam-se os artigos selecionados, onde consta o ano de publicação, autores, objetivos, participantes, intervenções, grau de evidência

e

principais

resultados

que

dão

resposta

à

questão

de

investigação.

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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Tabela 1- Análise dos artigos selecionados Artigo: Desenvolvimento de habilidades: estratégia de promoção da saúde e prevenção da gravidez na Adolescência Autores Gurgel, Alves, Moura, Pinheiro, Rego Ano de publicação Objetivos

2010 -Analisar as práticas do enfermeiro relativamente ao desenvolvimento de habilidades nos adolescentes, quanto à sexualidade e prevenção da gravidez precoce. Métodos Descritivo-exploratório de abordagem qualitativa. Entrevistas com mapas de associação de ideias. Participantes Oito Enfermeiros Intervenções Sessões de Educação Sexual quinzenais a grupos de adolescentes sobre vulnerabilidades e prevenção de Infeções sexualmente transmissíveis/Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, uso de substâncias psicoativas, gravidez na adolescência, violência, abandono escolar e autocuidado. Estas são participativas, proporcionando o esclarecimento de dúvidas, partilha de experiências e levando à reflexão. Resultados Verificou-se nos adolescentes o fortalecimento da autoestima, tornando-os reflexivos e competentes nas escolhas/decisões relativamente à sexualidade de forma consciente. Grau de evidência V Artigo: Perceção de Adolescentes sobre uma ação educativa em orientação sexual realizada por académicos (as) de Enfermagem Autores Fonseca, Gomes e Teixeira Ano de publicação 2010 Objetivos -Conhecer a perceção dos adolescentes sobre ações de orientação sexual realizadas na escola. -Identificar as fragilidades e as potencialidades das ações de educação de orientação sexual realizadas na escola. Métodos Descritivo-exploratório de abordagem qualitativa. Participantes Adolescentes-Idades: 15-17 anos Intervenções Ações de educação de orientação sexual em sala de aula: quatro sessões semanais com a duração de duas horas cada. Abordavam-se várias temáticas, entre as quais os métodos contracetivos, DSTs, influência da família na vida dos adolescentes. Estas ações incluíam jogos, brincadeiras, dramatizações, filmes e discussão de textos. Resultados Verificou-se que todas as atividades desenvolvidas contribuíram para aquisição de conhecimentos e escolhas responsáveis relativamente à sexualidade. Dois adolescentes referiram: “…a gente aprendeu que tem de prevenir ao máximo…Que não pode dar bobeira, e isso vai implicar em tudo na minha vida…vai mudar meu comportamento e aí vou só melhorar...”, “…eu aprendi a gente jovem precisa de informação. Tinha coisas não só de sexo…era algo que eu não sabia direito…e aí todas essas coisas vão me ajudar…porque vou aprender a fazer as coisas direito…” Grau de evidência V Artigo: Promoção da Saúde do Adolescente em ambiente escolar Autores Martins, Horta, Castro Ano de publicação 2013 Objetivos - Relatar a experiência de Educação para a Saúde com adolescentes, com enfoque na puberdade, início da sexualidade e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis.

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- Analisar o papel do Enfermeiro como educador em Saúde. Descritivo de abordagem quantitativa. Adolescentes-Idades: 11 aos 13 anos Intervenção Educativa sobre Educação Sexual numa Escola Municipal num bairro de uma área da periferia da Regional norte de Belo Horizonte. Realizaram-se três sessões durante três semanas, a dois grupos de adolescentes, onde se abordou a puberdade, inicio da sexualidade, masturbação e prevenção das DSTs. Nestas sessões recorreu-se ao desenho, caixa de dúvidas, debates, livros paradidáticos. Resultados - 95% dos adolescentes fizeram uma avaliação positiva sobre estas Intervenções, uma vez que lhes permitiu ampliar conhecimentos sobre a puberdade, inicio da sexualidade e às decisões sobre o início da sexualidade com segurança; - 75% dos adolescentes referiram que adquiriram novos conhecimentos referentes às transformações na adolescência, tais como: puberdade, ejaculação…; - 55% dos adolescentes relataram que irão recorrer aos serviços de saúde para esclarecimento de dúvidas. Grau de evidência IV Artigo: Intervenções de Educação Sexual em Adolescentes: uma revisão sistemática da literatura Autores Flora, Rodrigues e Paiva Ano de publicação 2013 Objetivos - Analisar a eficácia das intervenções de Educação Sexual a nível do conhecimento/ atitudes/ comportamentos dos adolescentes Métodos Revisão Sistemática da Literatura Participantes Adolescentes-Idades: 10-19 anos Intervenções Programas de Educação Sexual para adolescentes, aplicados em vários contextos sociodemográficos e culturais, com a duração de duas a 80 horas, onde foram utilizadas várias estratégias, tais como: jogos de interação, dramatização, brainstorming, trabalhos de grupo, estudos de caso, métodos de conferência, e métodos de execução prática. Nestes programas foram abordados temáticas, tais como: DSTs, gravidez na adolescência, promoção da saúde emocional Resultados Verificou-se um aumento do conhecimento dos adolescentes sobre sexualidade e uma melhoria nas suas atitudes/ comportamentos face à exposição a condições de risco, reveladas pela diminuição do número de grávidas adolescentes. Grau de evidência II Artigo: Assistência de Enfermagem na promoção à Saúde Sexual do Adolescente de 10 a 19 anos Métodos Participantes Intervenções

Autores Ano de publicação Objetivos Métodos Participantes Intervenções

Resultados Grau de evidência

Pinheiro, Araújo, Caurin, Paulino 2014 - Conhecer a importância dos cuidados de Enfermagem na promoção de Saúde Sexual ao adolescente de 10 a 19 anos Revisão sistemática da literatura Adolescentes Idades: 10 - 19 anos Educação Sexual para adolescentes nos serviços de Saúde e nas escolas envolvendo o contexto familiar, onde são abordados os métodos contracetivos, DSTs, gravidez na adolescência. Verificou-se que os danos em Saúde são minimizados quando os adolescentes são informados sobre o uso de métodos contracetivos, como o preservativo. II

Ponta Delgada, Julho de 2015


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E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

O Enfermeiro, em todos os estudos assume a função de formador e colabora com as equipas multidisciplinares nas ações de promoção de saúde junto aos adolescentes. Destacam-se os temas ligados à sexualidade nas ações de prevenção de comportamentos de risco, tendo um papel orientador em relação aos métodos protetores, visando de forma efetiva a saúde sexual e reprodutiva dos adolescentes (Gurgel, Alves, Moura, Pinheiro e Rego, 2010; Fonseca, Gomes e Teixeira, 2010; Martins, Horta e Castro, 2013; Flora, Rodrigues e Paiva, 2013; Pinheiro, Araújo, Caurin e Paulino, 2014). Como é referido pela Ordem dos Enfermeiros, a Educação Sexual deve ser reconhecida como um dos processos que influencia a maturação da personalidade e o modo de vivenciar a adolescência, assim o Enfermeiro detém um papel fundamental como educador tanto nas escolas e nos centros de saúde como em parceria entre ambos (OE, 2013). É destacado o período da adolescência como um momento privilegiado para intervenções na área da Saúde, na aquisição de hábitos de vida saudáveis, sendo o Enfermeiro um agente transformador em todo o processo de escolhas relativas à sexualidade (Martins, Horta e Castro, 2013). Na generalidade dos estudos, as intervenções junto dos adolescentes são realizadas em contexto escolar, no entanto, os serviços de saúde também são referidos como locais oportunos para promoção da saúde relativa

à

sexualidade.

Contudo,

a

escola

é

considerada

contexto

privilegiado para a aplicação das intervenções. A escola é um ambiente de socialização e aprendizagem para os adolescentes, sendo um espaço altamente favorável à promoção da sexualidade de forma positiva, tendo em conta as suas necessidades e contextos (Vilelas, 2009b). O PNSE refere que a promoção da saúde realizada com os alunos tem de ter em conta o que eles sabem, e o que eles podem fazer para a sua proteção e desenvolver a sua capacidade de interpretar a realidade de forma que sejam

induzidos

a

adquirir

comportamentos/atitudes

adequados.

A

prevenção de comportamentos de risco entre os adolescentes deve ter em conta o problema, o jovem, os pares, a família, a escola e a comunidade e as estratégias implementadas, em que o objetivo da intervenção é evitar, reparar e/ou atenuar os fatores de risco. Nas intervenções deve ser dada Ponta Delgada, Julho de 2015


328

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

prioridade às alternativas saudáveis e à promoção de atitudes assertivas (DGS, 2013c). Relativamente

à

duração/carga

horária

e

frequência

de

cada

programa, apenas dois estudos o referenciam (Fonseca, Gomes e Teixeira, 2010; Martins, Horta e Castro, 2013). As ações decorreram semanalmente durante quatro semanas no primeiro estudo e no outro estudo ocorrem três ações em três semanas, em ambos a duração das ações foi de duas horas. De uma forma geral, os estudos avaliaram a aquisição de conhecimentos e as alterações dos comportamentos/atitudes dos adolescentes após as intervenções. O método de avaliação mais utilizado foi o questionário. Relativamente às estratégias utilizadas, foram privilegiadas as ações interativas, proporcionando aos adolescentes uma participação ativa. O modelo dinâmico e interativo facilita a adesão por parte dos adolescentes e promove a construção de uma relação empática de forma a favorecer o seu desenvolvimento e a produzir mudanças em termos de conhecimentos, atitudes e comportamentos (Pontes, 2011). Tal como é referido por um dos adolescentes: “Eu acho que as brincadeiras ajudam porque foi muito divertido. Foi interessante porque vocês fazendo esse tipo de brincadeira é o que a gente gosta de fazer…é uma coisa que atraí. A gente se interessa pelo que vocês estão falando…se vocês fossem lá para a frente e só falar…a gente ia ficar reclamando. A gente ia perder uma chance, porque a gente não ia levar nada daquilo. Vocês brincando, interagindo com a gente, fica mais fácil de aprender.”( Fonseca, Gomes e Teixeira, 2010, p.335). É ainda salientado pelos adolescentes neste estudo, que as sessões com várias abordagens, todas elas participativas, tornaram a aprendizagem mais eficaz e agradável. Todos os estudos apresentaram resultados favoráveis, que permitem responder à questão de investigação, nomeadamente num dos estudos, no qual afirmam que em todas as intervenções e programas aplicados houve ganhos de conhecimento (Gurgel, Alves, Moura, Pinheiro e Rego, 2010; Fonseca, Gomes e Teixeira, 2010; Martins, Horta e Castro, 2013; Flora, Rodrigues e Paiva, 2013; Pinheiro, Araújo, Caurin e Paulino, 2014), sendo possível avaliar mudanças de comportamento, verificando-se diminuição do número de grávidas adolescentes (Flora, Rodrigues e Paiva, 2013). As temáticas abordadas nos programas de Educação Sexual, na sua maioria, Ponta Delgada, Julho de 2015


329

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

foram referentes à puberdade, métodos contracetivos, DSTs e gravidez na adolescência. Porém, houve outras temáticas, como a promoção da saúde emocional (Flora, Rodrigues e Paiva, 2013; Pinheiro, Araújo, Caurin e Paulino, 2014); influência dos pais na vida dos adolescentes (Fonseca, Gomes e Teixeira, 2010) a masturbação (Martins, Horta e Castro, 2013), o uso de substâncias psicoativas/violência/autocuidado/ abandono escolar (Gurgel, Alves, Moura, Pinheiro e Rego, 2010). Verificou-se ainda a alteração de atitudes/comportamentos, sendo notório que a maioria dos inquiridos refere que irá recorrer aos serviços de Saúde, contudo os restantes inquiridos referem que não vão recorrer por vergonha (Gurgel, Alves, Moura, Pinheiro e Rego, 2010). Neste sentido, é fundamental estabelecer uma relação empática entre profissionais e Adolescentes, disponibilizando espaços nos serviços de Saúde para atendimento humanizado e adequado. Os profissionais de Saúde devem ter uma atitude disponível para ouvir os adolescentes, respeitando as suas ideias e realidades, sem emitir juízos de valor com o objetivo de promover a comunicação e vinculação. A Educação para a Saúde é referida como um espaço onde se promove a partilha, reflexão e a confiança do adolescente, aumentando a sua capacidade de tomar decisões seguras sobre a sua Saúde (Gurgel, Alves, Moura, Pinheiro e Rego, 2010; Pinheiro, Araújo, Caurin e Paulino, 2014). É também referido que as intervenções no âmbito da Educação Sexual são o ponto inicial de um processo a ser complementado pelas escolas, família e por políticas sociais direcionadas para os jovens (Gurgel, Alves, Moura, Pinheiro e Rego, 2010; Martins, Horta e Castro, 2013; Pinheiro, Araújo, Caurin e Paulino, 2014). A comunicação entre pais e filhos sobre a sexualidade é fortalecida após a realização de intervenções na escola sobre esse tema, em que os adolescentes e pais têm uma reação positiva acerca destas (Pontes, 2011). Em

todos

os

estudos

é

reconhecida

a

alteração

nos

comportamentos/atitudes face à sexualidade após intervenções sobre sexualidade, realizadas por Enfermeiros.

Ponta Delgada, Julho de 2015


330

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

Os estudos analisados, foram realizados em vários países com culturas distintas, no entanto, em todos houve a preocupação em implementar programas sobre sexualidade para os adolescentes como forma de promoção da saúde e redução de comportamentos de risco, que influenciem negativamente a saúde dos mesmos. Constatámos que foi transversal a todos os estudos, o aumento da aquisição de conhecimentos em todas as intervenções e programas aplicados, sendo possível avaliar mudanças de atitudes/comportamentos em alguns dos estudos. Foi evidente a escolha da escola, como local privilegiado para a promoção da Educação Sexual, pois é o local onde os adolescentes passam a maior parte do seu tempo e onde convivem com o grupo de pares. A adolescência é caracterizada pelo crescente valor que os indivíduos dão às amizades e grupos de pares, considerando-os como fonte de informação credível, modelos de comportamento social e tomam conhecimento com outras formas de estar. Deste modo, concluímos que as ações em promoção de

saúde

em

grupo,

com

intervenções

interativas/participativas,

proporcionam-lhes confiança e fomentam a escolha por comportamentos saudáveis. Como limitações do estudo, apontamos o reduzido número de artigos que surgiram da pesquisa na base de dados e o facto dos estudos serem diferentes entre si, quer nas estratégias quer na amostra, não sendo possível realizar muitas comparações. Salientámos ainda, o facto de não existir estudos publicados com adolescentes portugueses, uma vez que não possibilitou a avaliação das intervenções realizadas no nosso país. Apesar da educação sexual nas escolas estar legislada, na qual a educação e a saúde

formam

uma

parceria,

na

nossa

pesquisa

não

encontramos

publicações referentes a este tema.

O Enfermeiro Especialista na Saúde da Criança e do Jovem desempenha um papel relevante como educador junto dos adolescentes e na articulação com outros profissionais, tendo em conta o planeamento, intervenção e avaliação das ações de promoção de educação sexual. Desta forma, esperamos que os resultados instiguem novas descobertas para Ponta Delgada, Julho de 2015


331

E-book: VI Congresso Internacional ASPESM

intervenções de educação sexual, nas quais integrem as escolas, famílias e comunidade, despertando nos adolescentes o interesse na aquisição de conhecimentos e desenvolvimento de habilidades/atitudes/ comportamentos sexuais mais responsáveis e seguros.

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