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Igreja Congregacional de Vila Vera / Silas Klein Estudo em Casa IX - 6 de Outubro de 2012

O “Sábio” Salomão

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Na Bíblia temos personagens que temos em mais alta conta que outros. Particularmente, alguns reis de Israel, uns profetas e alguns jovens despatriados. Os enxergamos sob a linha histórica a-crítica, sem medir seus atos e sem leituras atentas de suas vidas e atos históricos. Não “vivemos a Bíblia” em nossas leituras, a deixamos falar, mas não nos colocamos sob a pele daqueles israelitas omitidos pelo texto e somos, por muitas vezes, enganados por nossa desatenção. Salomão é um desses personagens. Quando o enxergamos, deixamos-nos levar pelos relatos de grandes riquezas, onde “todas as taças que bebia eram de ouro” (1Rs 10.21) e que a “prata era tão comum quanto pedras” (2Cr 1.15). Também deixamos sua sabedoria dizer-se sábia, quando narra o fantástico relato das duas mães/prostitutas (1Rs 3.16-28) ou quando a Rainha de Sabá curva-se perante sua glória (1Rs 10.1-13; 2Cr 9.1-11). Salomão compôs 3.000 provérbios, além de 1.005 cânticos (1Rs 5.12), que lhe fizeram ser creditado como autor dos provérbios, eclesiastes e cantares. Era um rei sábio, famoso, rico e amplamente conhecido e reconhecido.

A sabedoria do rei, segundo o povo. No entanto, na primeira vez em que o povo é permitido falar, a glória de Salomão sucumbe. Roboão, filho de Salomão, inicia seu reinado com um fato “curioso”. Ao ajuntar a assembléia de Israel, no início de seu reinado, o povo faz um pedido contraditório: “Teu pai tornou pesado o nosso jugo; agora, alivia a dura servidão de teu pai e o jugo pesado que ele nos impôs e nós te serviremos” (1Rs 12.3-4). Roboão responde, após pensar três dias, de forma igualmente contraditória às lendas que ouvimos de Salomão: “Meu pai tornou vosso jugo pesado, eu o aumentarei ainda: meu pai vos castigou com açoites, e eu vos castigarei com escorpiões” (1Rs 12.14). Aqui ocorre o famoso cisma entre os povos do Norte e Sul depois conhecidos como Israel e Judá, com direito ao apedrejamento do líder dos trabalhos forçados e fuga do rei (1Rs 12.18-19). Foi quando responderam a Roboão: “Que parte temos com Davi? Não temos herança com o filho de Jessé. Às tuas tendas, ó Israel! E agora, cuida da tua casa, Davi!” (1Rs 12.16) Essa frase sela a quebra do seguimento da dinastia davídica pelos povos do norte, que seguem Jeroboão. Mesmo Jeroboão que já havia sido protagonista de uma revolta, causado como consequência à opressão (1Rs 11.26-40). A Bíblia narra a vasta sabedoria de Salomão, como um “coração tão vasto como a areia que está na praia do mar” (1Rs 5.9). Porém, se formos tomar pelo contexto que se encontra esse mesmo texto, temos aqui uma grande ironia. Para a entendermos temos que perscrutar um caminho de entrelinhas bíblicas, que faremos a seguir.

A sabedoria do rei, nas entrelinhas. A palavra mas (sm;), em hebraico, explicita um conceito geralmente traduzido por “corvéia” . Corvéia envolve trabalho pesado, involutário e não-remunerado, ou algum serviço para autoridade superior, senhor feudal, rei ou governante estrangeiro (Êx 1.11; Et 10.1; Lm 1.1; Gn 49.15). Era usual e difundido na mesopotâmia o uso da corvéia. Na assíria já se condenavam alguns delinqüentes a servirem com trabalhos forçados por determinado período. Israel, no Egito, compartilha dessa sorte, sob o Faraó (Ex 1.11-14; 5.4-19; etc). Mas, se fizermos uma leitura desapercebida do texto bíblico podemos encontrar em Salomão um rei perfeito, mesmo quando relacionado à corvéia. A Bíblia diz que: “toda a população que restava dos amorreus, heteus, ferezeus, heveus e jebuseus, [...], Salomão os empregou como mão-de-obra na corvéia, o que são ainda hoje. Mas não impôs a corvéia aos israelitas[...]” (1Rs 9.20-22). Mas isso não condiz ao que o povo disse. A palavra de quem devemos ouvir? A monarquia foi o estopim inicial dessa realidade de trabalhos forçados. O que Samuel alertou (1Sm 8.11-18), ocorreu sob o governo de Salomão (1Rs 5.27-32; 11.28), que utilizou-se deste expediente para conseguir fazer realizar suas grandes obras arquitetônicas: o templo de Javé; seu palácio; o Melo (aterro do monte do palácio/templo); o muro de Jerusalém; além das cidades de Hasor, Meguido, Gazer, Bet-Horon inferior, Baalat, Tamaar e todas as cidades armazéns (1Rs 9.15-19). Quem é Salomão? É o rei sábio, das grandes riquezas, das “pedras de prata”, dos “cálices de ouro”, das lendas que inspiraram outras lendas sobre minas escondidas de riquezas ímpares ou é o rei que aprisionava seu povo sob severa servidão e trabalhos forçados, que açoitava o povo pobre para se sustentar sob um luxo e receber fama de outros reis opressores das redondezas (entre outras coisas, 1Rs 11.1-13)?

A sabedoria do rei, considerações. Salomão é um rei fundamental para nós. Ele é base de uma construção ideológica que permitiu a alguns sacerdotes historiadores construir sob seu reinado e de seu pai, Davi, um messias que deveria vir. Ele representava esperança da restauração de um reino caído e frágil. Nos tempos exílicos isso era tudo o que importava. As falhas de caráter e os desastres de governo não deveriam ser superiores à esperança que deveria despontar no final, na moral da história. Esse é Salomão. Um rei falho, pecador, que precisou ser suporte a algo maior. Não somente ele, mas outros tantos personagens bíblicos não nos devem ser modelos por reinados perfeitos, glórias ou poder econômico, mas devem ser modelos de homens falhos como nós, que devem traduzir às gerações futuras esperança e consolação, frente às dificuldades da vida. Que sejamos como o rei Salomão, pessoas sábias ao seguir ao Senhor, pessoas sábias que tenham consciência de suas falhas e dificuldades e sábias para entender que o que mais importa é a luz no fundo de cada túnel escuro: a esperança.

Bibliografia sobre corvéia: CARR, G. Lloyd. “mas” in HARRIS, R. L. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Trad.: Márcio Loureiro Redondo, Luiz Alberto T. Sayão, Carlos Osvaldo C. Pinto. São Paulo: Vida Nova, 1998 p.856; DE VAUX, Roland. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2004 p.173-175. Bibliografia sobre o Templo de Salomão: RÖSEL, Martin. Panorama do Antigo Testamento: História, contexto e teologia. São Paulo: Sinodal/EST, 2009. p. 178-182. Bibliografia sobre releituras sacerdotais no Antigo Testamento (especialmente pós-exílio): GALLAZZI, Sandro. A teocracia sadocita: sua história e ideologia. Macapá: S. Gallazzi, 2002 p. 132-149 ; RENDTORFF, Rolf. Antigo Testamento: uma introdução. Trad.: Monika Ottermann. Santo André: Academia Cristã, 2009. p. 392-398. 1

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