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Igreja Congregacional de Vila Vera / Silas Klein Estudo em Casa IX - 7 de Julho de 2012

O Dízimo na Bíblia1 É impossível, na atual sociedade, ser cristão sem ser questionado sobre o dízimo. Aqueles que o tratam questionavelmente e os que o enfatizam desmedidamente tornaram-no símbolo da corrupção eclesiástica. Seu estudo tornou-se assim necessidade. Entretanto, existem três perigos em seu estudo: (1) o perigo de não livrarmo-nos de suas conotações populares; (2) o perigo em não discerni-lo entre seus destoantes relatos bíblicos; e (3) o perigo da queda em uma mensagem de “venda de bênçãos”. Tentando não sucumbir a qualquer dos três perigos iremos estudar o dízimo pela via histórica. Suas diferentes conotações e práticas no decorrer dos séculos nos ajudarão a captar sua essência. Estudaremos o dízimo em quatro períodos históricos do Israel Antigo: patriarcal; tribal; monárquico; e pós-exílico.2 Assim, a economia, liturgia e organização social relacionadas ao dízimo serão comparados nas quatro épocas.

Dízimo no Período Patriarcal O dízimo era uma prática recorrente nos povos antigos, que foi adotada posteriormente pelo povo israelita. A história patriarcal nos mostra isso. A própria palavra hebraica para dízimo, ma’aser, de raiz ‘aser, vem do verbo árabe ’ashara, cujo significado é formar uma comunidade, constituir um grupo. Dízimo, no início, não era uma taxa ou tributo obrigatório, mas uma forma de devolutiva a Deus, criador da terra (Dt 26.5-11).

demonstra a preocupação com os que não possuíam condições de alimentarem-se. Preocupação que mostra que o agradecer a Deus, com o dízimo, devia ajudar na construção da shalom de Deus, a dignidade de vida à todos (leia Dt 24.17-22).

Dízimo no Período Monárquico No período monárquico o dízimo tem duas concepções distintas, demarcadas em antes e depois de Josias, em sua reforma cúltica. Antes de Josias, ele é marcado negativamente. Quando o povo clamou por um rei, Samuel avisou dessas consequências negativas. Uma delas era o dízimo (1Sm 8.15,17), que deixaria de ser agradecimento pessoal e favor ao outro, para ser ferramenta para compor o tesouro real. Devemos entender que o Templo, local de culto, pertence ao rei na monarquia (Am 7.13/1Rs 12.26-33; 2Rs 12.19, 16.8; etc) e são tomados para a nobreza (Am 5.11). Dízimo era opressão. Na reforma Josiânica (2Rs 22-23; 2Cr 34-35), quando o culto foi restaurado e Jerusalém passou a ser capital cúltica de Judá (interferiu também em locais do Norte, como Betel, 2Rs 23.15), o dízimo passa a ser entregue anualmente (Dt 14.22-27; Dt 12.17-18), é utilizado para o pagamento das contas do Estado (2Rs 22.3-10; Dt 14.22-27; Dt 12.17-18), mas o rei é responsável pelo Templo e sacrifícios (2Cr 35.7). Dízimo é dinheiro estatal. Assim, o dízimo, nos 420 anos de monarquia em Israel, teve duas diferentes funções, enriquecer a nobreza e depois custear um estado já não tão rico quanto antigamente.

Dízimo no Período Pós-Exílico

Dois relatos são importantes. Abraão dando dízimo a Melquisedeque, sacerdote e rei de Salém (Gn 14.17-24) e Jacó prometendo o dízimo a Deus, pela companhia na viagem (Gn 28.10-22). A primeira mostra um costume existente, não há introdução ao rito, somente a explicação do porque. Porque “criou céu e terra” (v.19) e “entregou teus inimigos entre tuas mãos” (v.20). A segunda é uma saga etiológica, que explica a origem de um costume (ver Am 4.4), na qual Jacó agradece proteção. O dízimo era, no período patriarcal, uma forma de agradecimento pessoal a Deus, pela criação e sustento diário e pelas bênçãos recebidas nos caminhos bons e maus da vida.

Depois do exílio babilônico, Israel não possuía rei e tampouco um sistema de governo e renda estabelecidos. Assim, mais que nunca, um sistema de doação era necessário para restabelecer Estado e Culto. Não havia rei que custeasse os serviços sacerdotais 3 , encargo que o povo se compromete, com Neemias (Ne 10.1,33-40; 12.44-47). Nesse tema Malaquias é profeta atuante (Ml 3.6-12), conclamando o povo à manter o Templo. Depois, com a chegada de Esdras, os imperadores passam a custear culto e sacrifícios (Ed 6.4, 7.15-23), deixando com o povo levita. O dízimo pós-exílico então é utilizado para manter o Templo e Culto, além de ser uma forma de comprometimento com a santidade (Ne 10), que os fariseus levam ao extremo nos tempos de Jesus.

Dízimo no Período Tribal

Conclusão

No período tribal o dízimo ganha nova conotação. Ele permanece com o sentido de agradecimento pessoal, mas acresce em seu conceito a justiça social. Nisso, Dt 14.28-29 e Dt 26.12-15, são emblemáticos. Eles falam que a cada três anos deixar o dízimo da colheita na porta de casa, para que dele se alimentem levita, estrangeiro, órfão e viúva. Isso

O dízimo, na Bíblia, migrou de oferta pessoal à ferramenta de justiça social, de instrumento de opressão e enriquecimento à viabilização de Estado e Culto. Vemos que sua integralidade não está no ato de dar, mas na forma de administração e aplicação, social ou cúltica. Que Deus nos abençoe e capacite a sermos bons administradores daquilo que é oferecido à Ele.

1

Bibliografia: SCHMIDT, Werner H. A Fé do Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 2004; SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 2009; SIQUEIRA, Tércio Machado. Tirando o pó das Palavras. São Paulo: Cedro, 2005; DE VAUX, Roland. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2004; VON RAD, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: ASTE/Targumim, 2006; 2

Consideramos somente o Antigo Testamento por um simples motivo, só existem quatro ocorrências de “dízimo” no Novo Testamento: Mt 23.23; Lc 11.42; e Hb 7.2-9. Os dois evangelhos comparam a prática pós-exílica com a prática do tribalismo e o texto de Hebreus refere-se à época patriarcal em contraste à época monárquica. 3

Ezequiel sonha com essa ajuda do rei no custeamento dos sacrifícios, parecia um ideal messiânico (Ez 45.13,17), talvez por essa ajuda concretizada Isaías se exalte chamando Ciro de “Filho de Deus” (Is 44.28/Ed 6.1-5)


Dízimo