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edicao comemorativa de 90 anos [ 1927-2017 ]

Um pobre homem [contos] dyonelio machado

siglaviva


© Siglaviva, 2017 © herdeiros de Dyonelio Machado, 2017 edição, pesquisa, revisão e design gráfico Renato Cunha posfácio e pesquisa Camilo Mattar Raabe ilustração da capa Fernando Lopes [Demônio interior, 2002] foto da quarta capa Eneida Serrano [Dyonelio Machado, 1976] A editora agradece aos autores e herdeiros dos textos da fortuna crítica e das imagens a cessão de direitos de publicação e ao Delfos – Espaço de Documentação e Memória Cultural/PUCRS, à Agência RBS, ao Correio do Povo, à Docdigital e à Associação Comercial do Rio de Janeiro a colaboração. Dados internacionais de catalogação na publicação [CIP]

MACHADO, Dyonelio [1895-1985] Um pobre homem [edição comemorativa de 90 anos] Brasília: Siglaviva, 2017 284 p., 13 ilustr. ISBN 978-85-66342-27-7

1. Ficção brasileira. 2. Conto. I. Título. CDD 869 Índice para catálogo sistemático 1. Ficção: literatura brasileira 869

Siglaviva Comunicação e Design siglaviva@siglaviva.com.br www.siglaviva.com.br [2017] Impresso no Brasil


[ sumário ]

[ Imo ] 9

Meu vô, por Andréa Soler Machado [ Intento]

13

Prefácio para a segunda edição de Um pobre homem, por Dyonelio Machado [ Filigrana]

15

Advertência, por De Sousa Junior [ Um pobre homem]

19

O velho Sanches

27

Um caso de bonecas

35

Execução

39

Ronda das gotas

43

Reunião em família

49

Noite no acampamento

59

Caso singular

67

Melancolia

78

O sr. Ferreira

84

Velha história

92

Ele estava triste...

97

Um sarilho e certa imagem feliz

102

História de um intendente

111

Nitucha

116

A chaga


121

Crônica mundana

125

Um pobre homem

133

A consulta

137

A prisão

139

O beijo

144

Três perfis

152

Ele era como um papagaio

163

Dona Inês

167

Animais domésticos

175

Apólogo das árvores

[ Contos esparsos ]

[ Fortuna crítica] 185

Coluna Livros e Autores, por Pedro Vergara

191

Um pobre homem: contos de Dyonelio Machado, por Darcy Azambuja

194

Coluna Bibliographia, por Amadeu Amaral

198

Um pobre homem: especial para o Correio do Povo, por Augusto Meyer

202

Carta de Zeferino Brasil

205

Coluna Notas Literárias, por Medeiros e Albuquerque

208

Coluna Vida Literária, por Tristão de Athayde

210

Um livro humano, por Paulo Arinos

215

Dyonelio Machado: do conto ao romance, por Moysés Vellinho


220

Carta de Luiz Luna

223

O primeiro livro, por Antonio Hohlfeldt

228

Estreia no conto, por Antonio Hohlfeldt

232

Orelha da segunda edição, por José Geraldo Couto

234

Desvalidos de Dyonelio voltam a circular, por Heitor Ferraz Mello [ Fac-símiles ]

241

Primeira página do datiloscrito do conto “Um pobre homem”

242

Capa do boneco de Um pobre homem

243

Capa da primeira edição de Um pobre homem

244

Última página do conto “Um pobre homem”

245

Primeira folha do manuscrito do “Prefácio para a segunda edição de Um pobre homem” [ Blague]

247

Um pobre homem..., por Dyonelio Machado [ Posfácio ]

253

O gosto da ferida, por Camilo Mattar Raabe [ Suplemento ]

273

Erico Verissimo dialoga consigo mesmo sobre Dyonelio Machado, por Erico Verissimo

283

Para Dyonelio Machado, por Mario Quintana


DYONELIO MACHADO, COM A ESPOSA, ADALGIZA, E OS FILHOS, CECÍLIA E PAULO (ANOS 1940). © ACERVO DYONELIO MACHADO (DELFOS/PUCRS).


[ imo ]

meu vô Andréa Soler Machado

Sou neta do Dyonelio Machado. Sei disso desde pequena, porém só ao longo da minha vida é que fui entendendo a delícia e a dor dessa genealogia. Escritor famoso, político importante, presidiário comunista, maldito, odiado, amado, e sempre verdadeiro. E o melhor, antes de tudo, meu vô: o primeiro a me pegar no colo, a apreciar meus desenhos, a me oferecer um copo de vinho, a me indicar os clássicos da literatura e, mesmo hesitante, a me emprestar um livro de orientação sexual. Nossa amizade surgiu da vivência, não da literatura. Contar coisas nossas beira a intimidade e talvez não interesse a muita gente, mas é isso que revela e humaniza o personagem autor de Os ratos. Quero crer que sempre fui sua neta preferida, já que preferência é afinidade, empatia, algo que se sente, que não tem explicação. Comigo ele conseguia ser criança. Eu adorava as suas travessuras. Enquanto uns se entediavam com sua declamação de poemas em algum almoço de família, eu babava. E, quando tudo estava muito chato, nos refugiávamos, eu e ele, na cozinha e conversávamos com as empregadas. Como ele gostava de plateia para narrar suas histórias, eu era a melhor companhia, e também testemunha e cúmplice de suas proezas de artesão. Lembro-me muito bem daqueles


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dedos longos restaurando livros antigos. “Mequinha, sabes que já fui encadernador?” Era esse meu apelido, entre nós apenas, pois nunca tive apelidos; aliás, odeio apelidos, mas desse eu gostava, e até hoje desconheço se tem algum significado. Mais tarde soube que esses mesmos dedos esculpiram, lá nos anos 1930, no cárcere político, peças de um jogo de xadrez em cabos de vassoura, relíquia que segue guardada em um saquinho feito com um pedaço de uniforme listrado de presidiário e a qual consegui resgatar recentemente com uma prima. Dedos que me ensinaram a embaralhar cartas de uma forma diferente — ele apreciava jogar truco —, técnica que somente quando tive mãos de adulta pude realmente colocar em prática. Nos fundos da casa da praia do Imbé tinha uma casinha amarelinha, uma espécie de oficina, batizada Vila Andrea... eu amava isso, era uma homenagem! E demorou anos até eu descobrir Palladio — Andrea di Pietro della Gondola —, na faculdade de arquitetura, e entender o sentido de villa. Na Vila Andrea havia tudo o que precisávamos para montar uma pandorga: ferramentas, varetas e papéis de seda coloridos. Sim, ele fazia e empinava pandorgas. E as ironias? Hilárias para mim. “Inglês não interessa muito, português é uma língua obscena, aprenda francês”. Obedeci. Futricando sua mesa de trabalho, que na época se chamava birô (bureau, em francês), descobri as fotos! muitas fotos de fachadas e vistas de Porto Alegre, lindas, registros de longas caminhadas. Será que nasceu daí minha paixão pela arquitetura... e pelas caminhadas? Os ratos traduz essa visão cinematográfica, a vida em movimento, ao descrever imageticamente a perambulação pela floresta urbana, barulhenta, labiríntica, de céu recortado, inferno e paraíso da civilização.


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Meus quinze anos nos foram brindados com um poema: “Tens o silêncio no gesto, grande sinal de nobreza”. E logo veio a abertura política e a reedição de seus livros. O velho amigo então me outorgou o cargo de sua “base de massa”, uma convocação que nessa época eu ainda não sabia como honrar. Quando defendi meu doutorado, escutei atentamente as observações da banca, mas recordando que ele contava que, em sua defesa, esbravejou para a plateia após comentários absurdos de um dos membros: “Ele não leu a tese!” Esse era Dyonelio Machado! Durante minha vida fui entendendo melhor sua faceta pública e também suas histórias pessoais, aquelas que realmente impulsionam o mundo e que desvendam o homem por trás do escritor, ou melhor, entranhado no escritor. As histórias do menino solitário do Quaraí, o início do namoro com minha avó, Adalgiza, companheira de toda a vida, que nunca perdia a elegância, nem mesmo quando tinha de ouvir: “Mequinha, que bom quando vens almoçar, só assim tem comida boa, porque, tu sabes, eu sou o bicho da casa...” E ele fazia cara de bicho, e ria. A Adalgiza era pianista, lia, costurava, e preparava um doce de leite e uma massa inesquecíveis. Mas vivia mesmo era para ele. E, quando o Velho — assim ela carinhosamente o chamava — se foi, organizou as cartas, os manuscritos, tudo. Terminado o trabalho, se deitou no sofá e se foi também. Em minha família, as histórias vão sendo contadas aos poucos. E se misturam às lembranças que tenho do meu vô. [Porto Alegre, outubro de 2017]


DYONELIO MACHADO (ANOS 1930). © ACERVO DYONELIO MACHADO (DELFOS/PUCRS).


[ intento ]

prefácio para a segunda edição de um pobre homem 1 Dyonelio Machado

A solidão aqui é obra simultânea do mar e do deserto. Um mar bravio, a ultrajar, sem alívio, as épaves que ele atirou para a costa, na sua náusea de Titã, e que aí ficaram, esqueléticas, enormes, balizando a praia, entre as dunas... Foi neste ambiente que eu empreendi a revisão destas páginas. Esta nova edição faz-se em São Paulo e para São Paulo, o grande centro intelectual do país. É, pois, a ocasião de incorporar ao livro, duma vez por todas, as palavras, muitíssimo benévolas aliás, com que o cintilante Amadeu Amaral recebeu a edição primitiva de Um pobre homem. Desejo igualmente agradecer a atenção dispensada pela crítica brasileira a Um pobre homem. Em particular a pela crítica da minha terra, sempre bem-intencionada, por vezes elevada e sutil, não raro duma singular penetração.

1

[Nota do editor] Texto inédito escrito por Dyonelio Machado, ao que tudo indica, por particularidades no documento, no início dos anos 1930, quando intencionava publicar uma nova edição deste seu primeiro livro literário. Observe-se que, ao final do texto, ele registra o local, o dia e o mês de redação e omite, talvez por um lapso, o ano.


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Um pobre homem tem sua data. “Rien n’est plus intimement inhérent à un livre que sa date”.2 É o livro da mocidade. É o primeiro. É quase como quem diz: o primeiro pecado... Dele disse Medeiros e Albuquerque, o mestre incontestado de Mãe Tapuia: “É, de princípio a fim, muito bem escrito”.3 Estou longe de participar do mesmo juízo, pois sou o primeiro a reconhecer a desigualdade, a irregularidade, às vezes a desarticulação dessas páginas esparsas, verdadeiras folhas volantes, que a delicadeza de um amigo emaçou neste volume. Mas a opinião provém de um dos espíritos que eu mais admiro, e, pois, quero que fique registrada aqui. [Quintão, 18 de fevereiro] 2

2

[Nota do autor e tradução do editor] Gabriel Tarde, La logique sociale. “Nada é mais intimamente inerente a um livro do que sua data.”

3

[Nota do autor] Notas Literárias, Jornal do Commercio, numa edição de Natal, 1927.

Um pobre homem  
Um pobre homem  

Páginas iniciais da edição comemorativa de 90 anos (1927-2017) de "Um pobre homem", de Dyonelio Machado

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