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Sem medo do feminismo É muito comum ouvir pessoas falando sobre feminismo de modo depreciativo ou em forma de sátira, com o objetivo de deslegitimar esse importante movimento político. E, muitas vezes, as pessoas acabam acreditando no que é dito sem pesquisar ou procurar entender sobre. Primeiro, é muito importante que a gente saiba falar sobre o que se propõe, busque informações sérias para que não sejamos amplificadores de absurdos. Costumo brincar que é preciso a gente combater os achismos. Eu posso achar, por exemplo, que macarrão é mais gostoso que nhoque ou que sorvete de morango é mais gostoso que sorvete de chocolate. Isso não implica necessariamente na vida de ninguém, provavelmente comprarei mais sorvete de morango. Mas quando eu acho coisas sobre questões importantes, aí estou contribuindo para a permanência delas. Eu achar que é mentira que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil, não faz com que essa violência deixe de acontecer. Eu achar que é balela de feminista o aumento em 54,8% dos assassinatos de mulheres negras nos últimos 10 anos, não faz com que essa realidade deixe de existir, conforme nos mostra o Mapa da Violência de 2015. Logo, eu achar coisas em relação a vida de sujeitos, oportunidades de grupo, é no mínimo, leviano. É preciso ter humildade para reconhecer que desconhecemos um tema, não há problema algum nisso, estamos sempre em constante aprendizado. Porém, precisamos ter o compromisso de lutar contra as desigualdades e para isso, o primeiro passo é conhecer a realidade em que vivemos e não somente ter a nossa vida como base. Eu nunca sofri violência doméstica, por exemplo. Logo, eu não sou parâmetro para explicar esse tipo de violência na sociedade. O Brasil é um dos países mais violentos para as mulheres no mundo. Um dos países mais desiguais e é preciso despertamos nossa consciência para isso, para que juntas possamos criar modos de combate a esses dados tão alarmantes. Muitas mulheres e movimentos de mulheres vêm lutando historicamente para que possamos ser reconhecidas como sujeitos. Bom falar também que não existe um único feminismo, existem várias vertentes e perspectivas ideológicas e não necessariamente todas as feministas vão concordar entre si, ao contrário. Eu sou uma feminista negra. Eu acredito que não é possível fazer o debate de gênero dissociado do debate racial e de classe. Existe uma longa tradição de feministas negras no Brasil, como Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, Luiza Bairros, Núbia Moreira, entre outras e é preciso conhecer a história de mulheres que lutaram, inclusive para que


estivéssemos aqui hoje. Não precisamos ter medo dos feminismos e sim das violências às quais somos submetidas pelo simples fato de sermos mulheres. Para criar um diálogo com o leitor/leitora, vou listar alguns equívocos sobre o tema e responder. Feministas são contra a maternidade? É muito comum ouvirmos que feministas são contra o fato de mulheres serem mães, por exemplo, o que se configura num erro de entendimento. Geralmente, o que feministas questionam é a imposição da maternidade como destino, a afirmação de que para serem felizes e completas, mulheres precisam ter filhos. Nossa questão é de que a maternidade deveria ser uma escolha na vida de mulheres e que elas pudessem de fato ter estrutura do poder público para isso, como número de vagas em creche suficientes, direito à saúde de qualidade, acesso à educação de modo mais concreto. Uma pesquisa do Departamento de Economia, Administração e Sociologia, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ), campus da USP em Piracicaba (SP), indicou que o trabalho doméstico interfere no rendimento escolar de crianças e adolescentes, sobretudo de meninas. O estudo se baseou nos resultados da Prova Brasil, teste que analisa o desenvolvimento de alunos do 5º e 9º anos do ensino fundamental de escolas públicas. De acordo com a pesquisa, os alunos do 5º ano, que conciliam trabalho e estudo, são os mais prejudicados. Desde muito cedo, meninas são obrigadas a desempenhar tarefas domésticas por conta da crença de que essas são tarefas de mulheres. Essa imposição afeta diretamente o desempenho educacional delas. A filósofa francesa Simone de Beauvoir, em seu importante livro “O segundo Sexo”, escreveu uma frase que ficou muito famosa: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. O que a pensadora quis dizer é que existem valores e construções que são impostas a mulher mesmo antes de ela nascer. Por exemplo, quando a mulher está grávida, geralmente fazem a pergunta: “é menino ou menina”. Se for menina, na maioria das vezes, pinta-se o quarto de cor de rosa, compra-se brinquedos como fogão, geladeira, bonecas que simulam recém-nascidos, ou seja, acredita-se que essas coisas são o que definem as meninas. Ao passo que para os meninos, um outro mundo é apresentado, com outras e mais possibilidades. Cria-se uma ideia que isso é natural e que, logo, todas as meninas devem corresponder a essas expectativas. Nesse sentido é que Simone de Beauvoir afirma que não se nasce mulher, torna-se, porque


esses valores são aprendidos em sociedade. Quando nascemos já somos colocadas nesses moldes antes de sequer pensarmos se nos cabem. Isso não quer dizer que precisamos ser contrários ao fato de que meninas brinquem com bonecas, por exemplo, mas nos atenta para a reflexão de que elas deveriam brincar com outras coisas, como bolas e de que meninos também poderiam brincar com bonecas, caso um dia também queiram ser pais. O que estamos apontando é para a questão de que numa sociedade em que meninas são ensinadas desde cedo a reproduzir um tipo de feminilidade que engloba necessariamente a maternidade, não podemos dizer que de fato mulheres possuem a escolha de não escolher serem mães. Sobretudo se está explicitando que não existe de fato uma escolha quando o poder público não garante que essas mulheres possam seguir ou não com uma gravidez ou tenham condições concretas de cuidar dos filhos, e quando julga-se que essa é uma tarefa somente da mulher. Se o menino aprende desde cedo que esse é um papel da mulher, como entenderá sua responsabilidade igual na criação dos filhos? Como feministas, pleiteamos isso. Feministas são contra o casamento? Mais uma vez, também questionamos aqui o modelo de felicidade que está posto, como se uma mulher só pudesse ser feliz se tiver um homem ao lado. Refletimos sobre as imagens que são criadas de mulheres como rivais, sempre disputando homens ou até brigando fisicamente por eles como se suas vidas dependessem daquilo. Ao passo que para os homens, isso não se dá da mesma forma. Voltando à Simone de Beauvoir, ela disse que pensar sobre a situação das mulheres deveria ser uma questão de pensar concretamente quais são as possibilidades e oportunidades que possuem numa sociedade desigual e não pensá-la em termos de felicidade. E por que não? Porque existe um modelo imposto do que seria essa felicidade, e geralmente, vem colocado como dependente de um homem e não como escolha, se existe o desejo de ter alguém, ou não. Se o tema é se depilar ou não, casar, ter filhos, o que queremos é uma sociedade mais justa, em que realmente possamos fazer escolhas. Lutamos por uma sociedade mais justa em que ser mulher não signifique desigualdade salarial, violência. Quando entendemos o que de fato é ser feminista, não existe qualquer razão para não ser. Djamila Ribeiro (Para a programação especial ‘Agora é que são elas!’ | MAR/2018)


Sem medo do feminismo  

Texto: Djamila Ribeiro Para a programação especial 'Agora é que são elas!' (MAR/2018) Ilustração: Linoca Souza

Sem medo do feminismo  

Texto: Djamila Ribeiro Para a programação especial 'Agora é que são elas!' (MAR/2018) Ilustração: Linoca Souza

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