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Josane Guerra Simões Cristina Ávila AFFONSO ÁVILA - CRISTINA ÁVILA - JOSANE GUERRA SIMÕES

Affonso Ávila

IMAGENS DE MINAS


Affonso Ávila

Cristina Ávila

Joseane Guerra Simões

CIDADES HISTÓRICAS - OURO PRETO

Patrocínio:

Apoio Cultural:

Produção:

Belo Horizonte 2008


Coordenação editorial: Priscilla Amorim Neves Pagani Francisco Caram Produção Executiva: Neoplan Consultoria e Marketing AdP – Associação de desenvolvimentos de Projetos. ISCEBRA – Instituto Sócio Cultural e Esportivo do Brasil Equipe de Produção: Priscilla Amorim Neves Pagani Francisco Caram Cynthia Celly Leandro Almeida Ricardo Augusto Pagani Moreira Luiz Cláudio Rodrigues Valéria Souza de Oliveira Roberval Aquino Rossana Martins Texto Introdutório: Affonso Ávila Pesquisa e Redação final de Textos: Cristina Ávila Pesquisa, Redação de Textos: Josanne Guerra Simões Estagiária de Pesquisa: Kátia Maria Nunes Campos Projeto Gráfico: Sérgio Luz Fotografia: Lux Color Fotografia, Filmagens e Eventos Renato Soares Helton Souza Agradecimentos: Capitão Haroldo Rossi (Capitão Rossi) Guarda Municipal de Ouro Preto Carlos Henrique Tomaz (Leitão) Guia Turístico Cássio Antonio Marques Lopes (Mic Suporte Ltda) Fernando Guimarães (Ministério da Cultura) Gilberto Fernandes Sivestre - Guarda Municipal Ouro Preto Guilherme Augusto Rezende Sozinho (Mic Suporte Ltda) Jose Cícero da Silva (YCO Produções) José Geraldo Leão da Luz (Mic Suporte Ltda) Lux Color fotografias, filmagens e eventos. Márcio Correa Teixeira (Terra Verde) Marinalda de Souza Ayres da Silva Rogério dos Santos de Loredo - Guarda Municipal de Ouro Preto Sandra Fosque - diretora de Promoção Cultural Ouro Preto Tottal Marcas e Patentes Walter Pagani Junior (Mic Suporte Ltda)


Sumário 9

Ouro Preto: a Cidade e a Cidadania Affonso Ávila

23 A vida cotidiana em Vila Rica: Modos de viver, gostos e gestos Cristina ávila 37 Monumentos da Cidade de Ouro Preto 37

Igreja de São Francisco de Paula

37

Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia (Mercês de Cima)

39

Palácio dos Governadores

39

Conjunto Alpoim

40

Chafariz da Praça Tiradentes

41

Casa de Câmara e Cadeia (atual Museu da Inconfidência)

43

Passo da Praça Tiradentes, ou da Cruz às Costas

43

Igreja de São Francisco de Assis

44

Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Perdões (Mercês de Baixo)

45

Passo de Antônio dias, ou do Pretório

45

Chafariz do Passo de Antônio dias, ou do Ouvidor

46

Casa da República Maracangalha

46

Casa de Cláudio Manoel da Costa

47

Oratório de Nossa Senhora do Bom despacho

47

Chafariz do final do Beco da Padaria

48

Chafariz da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio dias

48

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio dias

51

Ponte do Palácio Velho

51

Ruínas do Palácio Velho

51

Ponte de Antônio dias, ou de Marília

52

Chafariz de Marília, ou do Largo do dirceu

52

Clube XV de Novembro

53

Oratório de Santa Cruz

53

Chafariz da Rua Barão de Ouro Branco

53

Chafariz do Alto da Cruz do Padre Faria

55

Igreja de Santa Efigênia do Alto da Cruz

55

Capelinha de Santa Cruz


57

Capelinha de Nossa Senhora das Necessidades

57

Ponte do Padre Faria

57

Capela do Padre Faria

58

Chafariz do Caminho das Lages

58

Sobrado das Lages

58

Ruínas do Palácio do Bispo

58

Chafariz do Quartel, ou dos Cavalos

59

Chafariz dos Contos, ou de São José

61

Casa dos Contos

61

Ponte dos Contos

61

Passo da rua São José ou da Coroação de Espinhos

62

Passo da rua Getúlio Vargas, ou da Flagelação

62

Igreja de Nossa Senhora do Rosário

64

Chafariz do Rosário, ou do Caquende

64

Ponte do dumont

64

Chafariz da Samaritana

64

Igreja de Nossa Senhora do Carmo

66

Teatro Municipal

67

Ponte do Ouro Preto, ou do Pilar

67

Chafariz do Pilar

67

Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar

70

Capela de Nosso Senhor do Bonfim

70

Chafariz da Glória, ou do Bonfim

72

Sobrado (de balcão) da rua da Glória

72

Passo da Ponte Seca, ou da Verônica

72

Ponte Seca

73

Ponte do Rosário, ou do Caquende

73

Casa dos herdeiros do coronel Matos (ou chácara dos Matos)

75

Igreja do Bom Jesus das Cabeças (ou São Miguel e Almas)

76

Sobrado da rua Alvarenga, 33

76

Casa dos Irmãos Cota

77

Chafariz da rua das Cabeças I

77

Capelinha do Bom Jesus da Pedra Fria

77

Chafariz da rua das Cabeças II

78

Chafariz do Alto das Cabeças

79

Chafariz da Coluna


79

Casa de Bernardo Guimarães

80

Colégio Baeta

80

Chafariz do Largo de Frei Vicente Botelho

81

Casa do Balanço

81

Ponte da Barra

82

Chafariz da Barra

82

Ponte do Funil

82

Chafariz do Jardim Botânico

82

Capelinha da Cruz das Almas

84

Casa dos herdeiros Rocha Lagoa

84

Casa da República Quitandinha

85

Igreja de São José

87

Capela de São Sebastião

87

Chafariz do Morro de São Sebastião

88

Capela de Sant’Ana

88

Capelinha da Cruz

89

Capela de São João Batista

89

Capela de Nossa Senhora da Piedade

91

Chafariz das Águas Férreas

91

Capela do Senhor Bom Jesus das Flores do Taquaral

92

Capela de Nossa Senhora das dores

93 Museus 95 Distritos do Município de Ouro Preto


8 - Imagens de Minas


OuRO PRetO:

A CiDADe e A CiDADAniA Affonso Ávila

F

alar de Ouro Preto é, sobretudo, falar de seu núcleo histórico, do acervo e feição que lhe conferem singularidade e identidade próprios, nos âmbitos urbano e temporal, na órbita portanto de monumento criado e preservado de civilização e cultura. Mas é falar também de uma cidade no seu sentido mais amplo, isto é, do lugar do cidadão, do habitante que o foi não só do ontem, porém que continua a o ser do hoje, usufrutuário presente do que lhe foi legado em significado e beleza, em essência humana e essência da arte. Não se trata assim de ver Ouro Preto como uma cidade-museu, mas como um espaço urbano privilegiado entre todos os outros da América Latina onde o cidadão vive e convive em comunhão de tradição e progresso. E para cumprir bem essa missão excepcional, urge que nos escudemos sempre de uma base sólida e incorruptível de conscientização, que a tenhamos fortemente entranhada em cada ato da vida social, em cada passo de rua, em cada gesto de acolhida àqueles que vêm a Ouro Preto. O exercício de tal consciência, a um grau de lucidez e compromisso do dia-a-dia, é o que podemos chamar, na perspectiva ouro-pretana, de parcela honrosa e compartilhada de cidadania. O conceito e sua compreensão partem, a um só tempo, dos gestores da municipalidade e dos moradores de qualquer status ou idade que sejam – o rico, o pobre, o adulto, a criança –, bem como dos que aqui aportam por fruição ou índole de pesquisa – histórica, artística, arquitetônica, urbanística, ou por uma curiosidade mais afetiva e singela movida pelo apelo cultural ou turístico. O mesmo espírito de cidadania não deve faltar, outrossim, aos que carregam a responsabilidade implícita – jurídica, técnica e profissional, de lhe dar cobertura de conservação e perenidade ao acervo do núcleo primordial da cidade e seu entorno, isto é, as autoridades e os especialistas do Patrimônio Histórico e Artístico. Cidade Monumento da Humanidade, a missão de cidadania ouro-pretana extrapolou o círculo limitado da visão de seus habitantes para ampliar-se ao universo dos que fruem e cuidam, por prazer ou incumbência cultas, daquilo que no mundo delimita a aura civilizatória do homem. Ouro Preto não ostenta mais apenas o título de cidade histórica mineira ou brasileira, mas de polo ecumênico da trajetória transepocal da arquitetura, das artes, do urbanismo. Este Guia conciso, porém quanto possível preciso, do par toponímico Vila Rica/Ouro Preto, pretende servir, por princípio e fim, de uma roteirização útil e sem retórica exaltadora, em redação leve e acessível, para consulta de quantos se dispõem ou venham a se dispor, em coesão de cidadania, à defesa deste espaço único de expressão e valor contra a corrupção do tempo e as inconsciências do vandalismo que deformam a imagem construída e paisagística da cidade. Na pretensão de ajudar a consolidar uma vertente, no caso mais que necessária, do conceito de cidadania ligado à tradição e à história urbana, discorrerei um pouco sobre aspectos genéricos ou pontuais através dos quais essa noção, só mais recentemente firmada em vocabulário e rigor, se manifestou aqui em vitalidade, oscilações ou falhas ao longo de trezentos anos de uma “antigüidade de édito e de idade”, como escreveu o poeta.

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Vila Rica: história e primeva cidadania A ocupação da área onde se situa a cidade de Ouro Preto, tal como na maior parte é dividida ainda hoje, efetivou-se de fins do século dezessete à primeira década do século dezoito. Essa ocupação se faz em nucleamentos esparsos, localizados estrategicamente nas proximidades de córregos e morros de ocorrência aurífera ou à margem da estrada que cortava o território de Vila Rica até à saída para Mariana. Bifurcações que partem do Alto das Cabeças: 1 – via Centro Histórico, que segue na direção de Antônio dias e Santa Efigênia, até o Largo da Tesoura; 2 – via antiga Ponte do Xavier, Santa Casa, Palácio dos Governadores e Caminho das Lajes (Rua Conselheiro Quintiliano), onde as duas vias se entrosam rumo à antiga Vila do Carmo. Quando se erige juridicamente a Vila Rica de Albuquerque em 1711, os núcleos locais de povoação já se acham definidos em arraiais ou bairros, com pouca diferença do zoneamento hoje vigente: Arraial dos Paulistas (de que a Rua dos Paulistas é o principal remanescente), Antônio dias, Ouro Preto (Pilar ou Fundo de Ouro Preto), Padre Faria, Cruz das Almas (com o posterior Rosário), Barra e Caquende. A jurisdição religiosa, dividida em duas freguesias – Ouro Preto (Matriz do Pilar) e Antônio dias (Matriz de Nossa Senhora da Conceição), arraiais mais importantes que acabaram por fundir-se nas alturas da atual Praça Tiradentes –, passou a determinar também os limites ou circunscrições para efeitos administrativos. Os primeiros aforamentos de terrenos, concedidos pelo Senado da Câmara de Vila Rica, já começam a aludir, em 1712, a topônimos que indicam se não um arruamento regular, pelo menos a tendência natural com que ele se concretizaria. Morros, córregos e atalhos determinam o desenvolvimento de um tecido urbano entrecortado de becos, travessas e ladeiras, alguns becos dos quais desaparecidos com o tempo, incorporados a propriedades particulares ou absorvidos na paulatina regularização do arruamento. Lição óbvia de mestres como Sylvio de Vasconcellos e outros à qual acompanham minhas conclusões pessoais de pesquisador. Percebe-se, até o aforamento de 1737 – que oferece a primeira imagem de uma sofrível estruturação urbana –, uma oscilação toponímica reveladora da instabilidade do comportamento demográfico de natureza aleatória, típico da atividade de seus habitantes: a efemeridade das sucessivas buscas de melhores veios ou depósitos auríferos. daí a freqüente alusão a “Ruas Novas” e “Caminhos Novos”, com diversificação também de “Ruas direitas”, isto é, de vias de acesso direto a pontos-chave como igrejas, praça central, Casa da Câmara, etc. Note-se que o crescimento urbano seria também polarizado, ao longo do século XVIII, pela construção de igrejas em diferentes pontos da Vila, constituindo sempre fatores de logradouros mais amplos: os largos ou praças fronteiras e ruas laterais aos novos templos. Esses largos, praças ou ruas ensejariam assim, no seu âmbito perimetral ou em espaços contíguos, sucessivos loteamentos, construções civis e, por conseqüência, novos enclaves de assentamento populacional. A conjeturável cidadania, no âmbito do desenvolvimento urbano de Vila Rica, se enuncia, desde cedo, por meio do desempenho de três agentes principais: 1 – a atividade privada da mineração e do comércio; 2 – a iniciativa comunitária através do Senado da Câmara (hoje Câmara Municipal ou de Vereadores); 3 – a iniciativa laico-religiosa, através das Irmandades e Ordens Terceiras. A atividade e a iniciativa privadas serão responsáveis, naturalmente, pelo surto de construções civis – residenciais e quase sempre também de comércio – que ocorrerá no curso do século. dentre estas, há que ressaltar-se a edificação do elegante lanço de sobrados da atual Praça Tiradentes, conhecido ainda hoje por Conjunto Alpoim, por serem suas plantas atribuídas ao sargentomor engenheiro José Fernandes Pinto Alpoim, que em 1741 projeta o Palácio dos Governadores (depois Escola de Minas), construído por Manoel Francisco Lisboa, o maior empreiteiro e arrematante de obras da história colonial de Ouro Preto. 10 - Imagens de Minas


Outra importante construção devida à iniciativa privada é a da Casa da Ópera, hoje Teatro Municipal, erguida pelo contratador João de Sousa Lisboa e inaugurada em 1770, atualmente considerado o mais antigo teatro da América Latina. Passou a funcionar como uma espécie de sociedade anônima, com “assinantes” ou acionistas permanentes, dentre eles o mais entusiasta dessa conquista cultural, que foi o poeta Cláudio Manoel da Costa, antes titular da Secretaria do Governo da Capitania. Pelo seu vulto, é exemplo mais notável de iniciativa particular a chamada Casa dos Contos, construção empreendida a partir de 1782 pelo contratador, banqueiro e empreiteiro João Rodrigues de Macedo. No curso da elevação desse prédio monumental, registram-se algumas das talvez mais eloqüentes manifestações de cidadania verificadas em Vila Rica. Vários habitantes das proximidades, considerando-se prejudicados pelo volume da obra, de imediatos reflexos na segurança dos prédios da sua vizinhança, na conseqüência do desvio das águas de um córrego e do próprio abastecimento de água na área (o hoje Chafariz dos Contos, principalmente), pressionaram o Senado da Câmara e os deputados da Junta da Real Fazenda, que admoestam então o poderoso construtor da Casa dos Contos quanto aos riscos representados pelo empreendimento. Traduzindo por certo o anseio e necessidades da população em crescente expansão demográfica e urbana – indicadores por sua vez de uma incoercível vontade nativista e portanto política de fixação social –, o Senado da Câmara, órgão de paradoxal expressão democrática dentro do

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sistema absolutista português, planeja e executa, entre 1745 e 1765, a construção dos principais chafarizes e pontes de Vila Rica. deve-se salientar, nesse prolongado processo de obras públicas, a participação direta ou indireta de Manoel Francisco Lisboa, líder e tutelar, como já ficou acentuado, da indústria local de construção e formador de verdadeira “escola” de oficiais da espécie. O período compreendido entre 1780 e 1800 é assinalado, outrossim, por inúmeras obras de importância, construídas por iniciativa ou autorização do mesmo Senado da Câmara e que são decisivas para a atual definição urbanística e arquitetônica do núcleo histórico de Ouro Preto. As principais obras se localizam na parte central da então Vila Rica e outras, de menor relevância, em determinados bairros. As realizações urbanizadoras – desaterros, muros de arrimo, arruamento e calçamento – estão, na maioria, vinculadas a grandes projetos de construção religiosa ou civil então em andamento ou em fase de conclusão.

Entre aos obras de urbanização mais relevantes procedidas pelo Senado da Câmara estão a reconstrução do calçamento da Praça principal (hoje Tiradentes) em 1780 e, dezessete anos depois, ou seja, em 1797, a ampliação e conclusão definitiva da mesma Praça. Isto com a demolição de um lance de casas, à direita fronteira da Casa de Câmara e Cadeia (atual Museu da Inconfidência), que prejudicavam a vista do novo e imponente prédio oficial, e com a remoção do Pelourinho para o largo então urbanizado em frente à Igreja de São Francisco de Assis (Largo do Pelourinho, depois Praça Tomás Antônio Gonzaga e hoje Largo do Coimbra). O grande empreendimento comunitário, através do Senado da Câmara no período, é, no entanto, o início de sua nova sede, a Casa de Câmara e Cadeia “em pedra e cal” (e depois Museu da Inconfidência), projeto notável que não apenas marcaria definitivamente o espaço monumental da atual Praça Tiradentes – com o Palácio, o Forum (mais tarde transferido) e a Câmara, no exemplo premonitório de uma “Praça dos Três Poderes”. O portentoso edifício representaria, por outro

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lado, papel importante na história arquitetônica do Brasil Colônia, como uma ponte de evolução significativa entre o gosto barroco e a linguagem construtiva já declaradamente neoclássica, isto muito tempo antes da chegada ao país da chamada Missão Francesa, antes do prédio da Associação Comercial da Bahia, dado geralmente como precursor na nova tendência, antes da atuação construtivo-pedagógica no Brasil dos arquitetos europeus Vauthier e Grandjean de Montigny. O exercício comunitário da cidadania no século dezoito, em Vila Rica, ocorreu também de modo evidente e admirável por meio das associações religiosas leigas – as Irmandades e Ordens Terceiras, agremiações que reuniam, em segmentos e confrarias próprios, os três principais estratos populacionais: os brancos, os mestiços ou pardos e os negros. Houve duas etapas distintas na atuação desses grêmios confessionais no processo de desenvolvimento urbano e arquitetônico da vila-capital: na primeira metade do século, talvez mais precisamente na década de 1730/40, elas influíram de maneira poderosa na construção definitiva das duas igrejas matrizes locais: a de Nossa Senhora do Pilar, no bairro de Ouro Preto, e a de Nossa Senhora da Conceição, no bairro de Antônio dias. Embora os recursos maiores para a edificação das matrizes viessem do Erário Público, através de dotações concedidas pelo Rei, as Irmandades do Santíssimo Sacramento – associações leigas de elite – tiveram nos dois casos função preponderante na definição dos respectivos projetos e custos arquitetônicos e de ornamentação. Mas, as Irmandades do Santíssimo receberam também apoio declarado de outras entidades, até mesmo das confrarias negras, como ficou demonstrado na fabulosa festa de inauguração da Matriz do Pilar, em 1733, o chamado “Triunfo Eucarístico”, que teve da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos uma colaboração fundamental para o sucesso e beleza do grande evento religioso, lúdico e social do barroco no Brasil. O Triunfo Eucarístico assinala também, com efeito, como nenhum outro instante da história colonial brasileira, a perfeita integração racial e democrática dos segmentos sociais, num exemplo portanto de esforço conjunto e cooperativo dos cidadãos. Isso não obstante se possa argüir a inexistência de um espaço institucional efetivo para as classes inferiores, notadamente a dos escravos negros, no âmbito de um conceito de cidadania tal como o entendemos hoje. A segunda etapa de prevalência comunitária das confrarias religiosas de organização leiga se daria, de modo extraordinariamente positivo, na posterior metade do século, com a construção de templos gremiais de notável imponência, a exemplo das capelas monumentais das Ordens Terceiras brancas de São Francisco de Assis e de Nossa Senhora do Carmo, da barroquíssima igreja curvilínea da Irmandade do Rosário e de outros edifícios de agremiações menores, mas construções de forte influência e presença visual no conjunto estelar urbano-paisagístico de Vila Rica. É necessário assinalar que o projeto das obras principais do século dezoito em Vila Rica não obedecem apenas a imposições de interesse imediato, com aleatória interferência no panorama urbanístico local. Os documentos por mim consultados e estudados revelam que existia notória consciência urbanística visual, tão do espírito e primado do barroco, não só da parte do Senado da Câmara, responsável pelas normas de construção e pelas iniciativas de sentido comunitário, mas também das ordens laico-religiosas construtoras dos edifícios confessionais mais significativos. Tudo isso sob o rigoroso controle de qualidade exercido pelas corporações de ofícios através da atuação dos “louvados”, avaliadores ou fiscais por elas designados. Interessante no cenário, no concerto urbano, é a presença do que se poderia chamar pontos de fuga, representados por áreas de repouso ou reflexão urbanísticos, que atenuam a pressão compacta do casario, dos assentamentos e do entrecruzar de vias sinuosas e estreitas da vila histórica. Espaços como o do Largo de Frei Vicente Botelho, Largo do Rosário, do entorno da Matriz do Pilar e de outros vazios ou janelas do tecido habitado que pontualizam essa distensão urbana, modulando e conferindo ritmo próprio e gracioso ao par construído Vila Rica/Ouro Preto como o vemos e sentimos os que o percorremos permanente ou transitoriamente.

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A imperial Cidade e o orgulho ferido No século XIX, a Imperial Cidade de Ouro Preto, como passa a denominar-se a antiga Vila Rica – distinguindo-a já o Poder do Império, com esse título pomposo mas dignificante, de outros núcleos remanescentes da peripécia urbano-colonial brasileira – torna-se centro mais forte de decisões político-administrativas da unidade mais densa de população do País: sede dos três poderes da extensa e influente província – Executivo, Legislativo e Judiciário. Cidade em que predomina o estamento burocrático letrado e ilustrado na maioria, era natural que a questão da cidadania se evidenciasse de forma então mais nítida. A população não toma individualmente ou em consórcio gremial grandes iniciativas construtivo-urbanísticas – os arrojados edifícios religiosos, por exemplo – como na ex-Vila Rica, mas exerce implícita pressão sobre o Governo Provincial, principalmente no que tange a melhoramentos de serviços urbanos, como pavimentação, alargamento e mesmo abertura de novas ruas. Ouro Preto é – pouco se sabe disso – uma das primeiras cidades brasileiras a receber, à época, infra-estrutura básica e moderna, como a rede de esgotos. A chegada da Estrada de Ferro induz a expansão urbana para a parte baixa da cidade, que também é um dos primeiros centros brasileiros a conhecer a nova invenção da telefonia, logo depois da extasiante visita de Pedro II à Exposição da Filadélfia. Outra experiência modernizante a que Ouro Preto se lança, episodicamente, é o recurso ao uso de bondes a tração animal, em linhas e trajetos para isso mais favoráveis. A indústria manufatureira auxilia na oferta de empregos e no desempenho econômico da cidade, através da cerâmica, da tecelagem, das massas alimentícias, chá e até mesmo da produção de cerveja, de fabricação individual ou caseira, mas que tornava Ouro Preto um dos núcleos pioneiros da cervejaria no Brasil. Vila Rica fora o pólo propulsor da circularidade cultural no Setecentos, com sua criatividade repensada ou original, cerne, com a obra de um Xavier de Brito, um Aleijadinho, um Ataíde e outros poetas ou inventores, do barroco remanescente e profuso que, exportado aos quatro cantos de Minas, ergueu e ornamentou nossa arquitetura e uma arte que à cidadania póstera coube e – mais do que nunca – cabe preservar como riqueza e singularidade. Escola de formação de mão-de-obra na arquitetura, escultura e pintura, a sede da Capitania se constituiria também, na frase feliz de Sílvio Romero, numa “réplica brasileira de Weimar”, com a atuação simultânea e intercursiva de artistas plásticos, construtores, compositores, padres esclarecidos, historiadores, poetas, botânicos, mineralogistas e até gramáticos, listados em minucioso levantamento de Mário de Lima. Ligada ao impulso e curiosidade do gosto cidadão e progressista, a circularidade cultural polarizada por Vila Rica trouxera inovações que espantariam pouco depois os viajantes estrangeiros, como o alto nível da criação musical e um teatro avançado para a época, pois admitiu, antes mesmo que em outras partes do Brasil, a presença de mulheres nos grupos que se apresentavam na Casa da Ópera, a exemplo da atriz famosa para o tempo Violante Mônica, que contracenava com o tenor também de nomeada na arte operística José Bonifácio. Natural que as idéias políticas animassem também a índole cidadã vila-riquense e, por extensão, mineira. O fato maior do movimento inconfidente, às beiras já do século XIX, indicaria amadurecida tendência de cidadania e nativismo, num “projeto de nação possível”, como pude analisar em estudo publicado, contrariando a animadversão de historiadores que vêem na Inconfidência uma aventura ingênua e imaginária supervalorizada pelo culto ufanista das figuras de Tiradentes e companheiros. Com o advento da Imperial Cidade, o velho aprendizado dos embates do Senado da Câmara, das representações ao rei e da divisão em partidos pró e contra-inconfidentes alimenta e enrijece a vertente política da cidadania ouro-pretana, e ela faz realçar personalidades que influirão na vida pública do Império, sejam liberais ou conservadores, destacando-se na formulação de normas jurídicas e ações pragmáticas. É de Ouro Preto que saem dois importantes líderes do país emancipado – o Visconde de Ouro Preto, Affonso Celso de Assis Figueiredo, e Bernardo Pereira de Vasconcelos, 14 - Imagens de Minas


este incluído pelo historiador Octávio Tarquínio de Sousa como um dos “construtores do Império”. Outras lideranças moças surgirão, principalmente, nas lutas aboliconistas e republicanas das últimas décadas do século, formadas muitas delas pelas próprias escolas superiores que o empenho do apego cidadão local fizera implantar na antiga Vila Rica – a Escola de Minas e Metalurgia, a Escola de Farmácia, cernes da futura Universidade Federal de Ouro Preto, e, no fim do século, a Escola de direito que se transferirá, como o Ginásio Mineiro, para a nova capital que logo adviria. Mas o momento crucial de uma tomada ouro-pretana de consciência de cidadania no século XIX ocorre quando o Governo já republicano decide a mudança da Capital do Estado para sítio geográfico de maior perspectiva de desenvolvimento urbano. A população de Ouro Preto, reacendendo a velha flama cidadã de melhores tempos e descrente até à última hora de que o Poder Estadual conseguisse recursos suficientes para o gigantesco projeto da mudança, resiste à idéia de sua concretização. Numa iniciativa de notável conteúdo comunitário, e à revelia das decisões já então prenunciadas pelo Governo do Estado, a Municipalidade reúne seus derradeiros e comoventes esforços pela permanência ali, no sopé do Itacolomi, da sede da administração mineira. Nunca acreditando na fatalidade da transferência da capital, a cidade procura se habilitar e preparar por si mesma para uma proposta de modernização e expansão. Para isso, é assinado um contrato com os empresários Moura Costa e Vicente Barreiros, destinado a um plano de reformulação urbana ambicioso para a cidade.

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Esse plano, que chamo aqui Plano Moura Costa, previa medidas de evidente alcance para a emergência e contingência a que se propunha, medidas certamente executáveis a imediato, médio e longo prazos, dentre elas 1 – a terraplenagem do Morro da Forca e seu tratamento paisagístico; 2 – aterro do Vale do Ribeirão Funil; 3 – construção em áreas vazias, para isso indicadas, de “casas populares”, de “tipo moderno, com acomodações suficientes para duas, quatro, oito e dez pessoas” (idéia precursora do sistema da “casa própria” e aproveitada logo depois pela Comissão Construtora de Belo Horizonte); 4 – alargamento da Rua do Jangadeiro e outras, com seu calçamento em paralelepípedos; 5 – construção e tráfego de uma linha de bondes entre partes favoráveis e estratégicas da cidade; 6 – construção de um elevador (certamente do tipo do Elevador Lacerda, em Salvador), ligando a parte alta à área da Estação Férrea; 7 – obras gerais de arborização, iluminação pública, amplo e moderníssimo Teatro Municipal, Matadouro, grande mercado de estrutura metálica, com divisão em lojas (espécie dos atuais Shoppings Centers), escolas públicas, Biblioteca Municipal, etc. Quanto ao imperativo da expansão em natural processo de uma cidade-capital atualizada ao nível do que se fazia em Paris, em São Paulo, Rio de Janeiro e outras metrópoles, o Plano Moura Costa previa, em inteligente descortino, a criação de um Núcleo Industrial no município, a construção de “colônias” para assentamento de brasileiros e imigrantes estrangeiros, nas áreas do Tripuí, Campo Grande, Saramenha, e, sobretudo, pela notável percuciência, a criação da Cidade Satélite Cesário Alvim, em Cachoeira do Campo, ligando-a a Ouro Preto por via férrea, projeto este que até hoje, por sua viabilidade e conveniência, não perdeu atualidade. O Plano Moura Costa teve seu contrato assinado em 12 de setembro de 1891, logrando, graças por certo a ingentes instâncias da população, sua aprovação em decreto do Presidente José Cesário de Faria Alvim, datado do dia 14 dos mesmos mês e ano, o que faz concluir que, no caso, corria-se contra o tempo. Foi um instante luminoso de espírito comunitário e de cidadania do povo de Ouro Preto, instante cujo fulgor não passaria, no entanto, de um desesperado e inalcançado sonho. O Plano Moura Costa não chegou a concretizar-se: a transferência da capital para Belo Horizonte seria breve fato irrecorrível e consumado. Restava o pesar assumido do orgulho cidadão ferido. Uma pergunta fica em desafio ao leitor e a mim próprio: que imagem teríamos da Ouro Preto remasterizada do Plano Moura Costa? Um mascaramento urbanístico ou uma espacejada metrópole plausível e justificadora do investimento? Sei apenas que o final abraço de cidadania da antiga capital não abarcou o sentido emblemático e imorredouro da herança barroca: a preservação do núcleo histórico e do conjunto monumental pareceu-me letra morta no texto planejador.

Cidadania versus assistencialismo oficial Concretizada a instalação da nossa capital em Belo Horizonte, Ouro Preto conheceria um penoso período de esvaziamento populacional, comercial e político, reduzida a um núcleo de cerca de 10.000 habitantes, de recursos comunitários incompatíveis com o vulto e expressão históricos e monumentais de seu acervo urbanístico-cultural. “Aqui outrora retumbaram hinos”, escreveria com senso de percepção solidária o poeta parnasiano Raimundo Côrrea, ali confinado pela ditadura de Floriano, enquanto seu companheiro Olavo Bilac, também desterrado do Rio de Janeiro pelo “Marechal de Ferro”, cooptado pela melancolia ouro-pretana registrava o ar lúgubre do crepúsculo da cidade despovoada em belo poema: “O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre”. As comemorações dos duzentos anos de criação de Vila Rica foram mais uma celebração de réquiem do que festa cívica, tal como se conclui do precioso livro Bicentenário de Ouro Preto – 1711-1911, para cuja publicação colaborou o parente por meu costado ouro-pretano Henrique Adeodato dias Coelho. Só a alegria juvenil e o comportamento nãoconvencional dos estudantes advindos de várias partes do País quebravam a monotonia cotidiana da cidade em declínio. Entretanto, algu-

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mas ações esparsas, ditadas certamente pela “má consciência” dos vitoriosos mudancistas, ocorreriam através de obras oficiais de restauração, como a Igreja de São Francisco de Assis, no governo Mello Vianna, ou das Igrejas do Pilar, do Carmo e Capela de São João, no governo Antônio Carlos, todas antes de 1930. Criando-se, já no governo provisório de Getúlio Vargas, a Inspetoria dos Monumentos Nacionais, órgão de efêmera existência, que precedeu à instituição do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a atuação principal da referida Inspetoria se concentraria em Ouro Preto, com o que se pode chamar Plano Epaminondas de Macedo. O transitório organismo federal elabora então vasto projeto de restaurações para o acervo do núcleo histórico e, à falta de outro profissional qualificado, aproveita na orientação e direção das obras a figura dedicada do engenheiro Epaminondas de Macedo, modesto chefe de Residência da Estrada de Ferro Central do Brasil na região de Ouro Preto, mas homem perfeitamente identificado pela competência e sensibilidade com o trabalho a ser implementado. Ele procede para isso a minucioso estudo e levantamento das obras indispensáveis à recuperação do conjunto histórico-artístico local, desdobrando-os em três frentes e etapas: 1 – restauração de todas as velhas pontes da cidade; 2 – restauração de todos os chafarizes, com o restabelecimento de suas frentes de água; 3 – restauração de igrejas e capelas. O trabalho se desenvolve por três anos – 1935 a 1937 –, com recursos federais que, se não foram generosos, pelo menos bastaram em rigor financeiro para a inteira execução do programa previsto. Ressalte-se, entre as dezenas de obras comandadas por Epaminondas de Macedo, a notável reconstituição da bela Ponte da Casa dos Contos, então em imagem lamentavelmente desfigurada de sua feição e estrutura originais. Num desacerto de “modernização” de fins do século dezenove ou princípios do vinte, talvez mesmo em decorrência do espírito “modernizador” que empolgou a cidade por ocasião do frustrado Plano Moura Costa, os muros de cantaria da Ponte dos Contos haviam sido substituídos por balaustrada ou grades metálicas. Valendo-se de uma extraordinária intuição restauradora, Epaminondas consegue descobrir as velhas pedras de cantaria da antiga Ponte num depósito da Prefeitura e, completando-as com outros blocos de pedra oriundos de pedreiras do Itacolomi, recompõe com admirável perícia e dedutível fidelidade, o aspecto que deveria ser o primitivo daquele importante marco urbanístico e mesmo paisagístico do período colonial.

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Contando por certo com a simpatia cidadã dos remanescentes habitantes de Ouro Preto, pois a ele não faltaram ocorrência de mão-de-obra de presumível qualidade e portanto indispensável apoio logístico, o Plano Epaminondas de Macedo logrou ser o único programa restaurador de vulto contextual urbano até hoje realmente concretizado em Ouro Preto. É verdade que, a partir da criação do SPHAN em fins de 1937, inúmeros trabalhos de significado talvez até maior viriam a ser realizados pela heróica e respeitável repartição na cidade, mas trabalhos quase sempre pontualizados, isolados, contemplando em sentido preservador monumentos de relevante importância histórico-cultural ou outros em declarado risco de sobrevivência.

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Com a atuação da Inspetoria dos Monumentos Nacionais e, depois, do SPHAN, verifica-se uma política mais paternalista ou assistencialista do Poder Público do que propriamente uma integração dos órgãos oficiais com uma reivindicadora vontade de cidadania da comunidade ouropretana, adormecida desde o malogrado Plano Moura Costa e o golpe da queda político-administrativa da velha capital. A história da relação Patrimônio/Cidadão em Ouro Preto seria, como se sabe, uma constante relação de atritos sob o ponto de vista legal e fiscalizador, contornados alguns pela ação conciliadora dos técnicos do SPHAN e de lideranças locais, outros agudizados pela resistência empedernida das partes, o interesse particular se sobrepondo ao bem cultural comum ou vice-versa. O mais recente projeto de planejamento urbano e de recuperação do patrimônio históricocultural de Ouro Preto foi denominado Plano Viana de Lima, elaborado por determinação da UNESCO em convênio com os governos da República, do Estado e do Município. Partindo de um relatório apresentado por M. Parent, enviado especial daquele organismo ao Brasil, a UNESCO incumbiu um de seus mais competentes técnicos, o arquiteto-urbanista português Alfredo Viana Lima, de elaborar as diretrizes de um Plano diretor para Ouro Preto. O trabalho do eminente especialista, desenvolvido com base em demorada pesquisa e detalhado levantamento de campo, previa obras de proteção ao solo e correção topográfica e urbanística, enquadramento paisagístico da cidade, recomposição da flora típica, ordenamento do sistema de energia elétrica, telefonia e do tráfego no perímetro central e circundante, ampliação da rede hoteleira e controle do turismo, criação de museus e outros espaços culturais, recuperação do conjunto de prédios e de monumentos e seus entornos, valorização de locais pitorescos, além de outras ações destinadas à segurança e integridade do núcleo histórico e artístico. Tudo apoiado numa compatível legislação urbana, convenientemente elaborada: Lei do Uso do Solo, Código de Obras, Normas e Posturas, Legislação Tributária com inclusão de vantagens ou compensações fiscais para os proprietários de bens tombados e outros estatutos jurídicos pertinentes. Apreendendo bem o perigo de desfiguração do núcleo histórico central, em sua moldura paisagística, prejudicada pelo crescente processo de favelamento e ocupação indevida de encostas e vales, Viana de Lima indicava também, como prioridade, a criação de uma área de expansão urbana. Área planejada e dotada da necessária infra-estrutura, ligada de modo segmental ao corpo existente da cidade e capaz de resguardar de uma maior inchação deformadora a excepcional mas frágil contextura do tecido histórico, no que, aliás, reformulava sugestão constante no remoto Plano Moura Costa. A Fundação João Pinheiro, através de seu Centro de desenvolvimento Urbano, encarregou-se dos detalhamentos técnicos conseqüentes e da elaboração de leis e normas básicas para a implantação do Plano. Esse trabalho, reunindo entusiasta equipe de jovens urbanistas e outros profissionais, com a qual tive oportunidade enriquecedora de atuar como coordenador de suporte histórico-documental, prolongou-se entre 1973 e 1974 por cerca de 18 meses, com um pacote final de produtos que tornava o então convencionado Plano de Conservação, Valorização e desenvolvimento de Ouro Preto/Mariana o mais arrojado estudo aplicado da espécie na história do planejamento urbano brasileiro. Sem obter adesão explícita da comunidade e da municipalidade gestora de então, o Plano Viana de Lima sofreu os reflexos do próprio período de obscurantismo que “assolava o País”, no qual vontade política comunitária e consciência de cidadania representavam perigo para o regime e matéria de repressão ideológica. Entretanto, restabelecido o Estado de direito, restabeleceram-se igualmente, com os melhores augúrios, a instância de cidadania e o espírito de civilidade comunitária indispensáveis à execução de um plano protetor de teor assim notável para uma cidade ímpar em sua escala e individualidade no mundo ocidental e, por isso, tendo como subsídio básico o relatório final de Viana de Lima, declarada pela UNESCO, prioritariamente no Brasil, Patrimônio Cultural da Humanidade.

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O Poeta e a Cidade Não me lembro bem se foi Lefèbvre quem afirma que “as cidades deveriam ser pensadas pelos poetas”. Não chegarei a pretender admitir tanto, mas acredito que os poetas podem ajudar a repensar as cidades. É o que procurei fazer nos quinze anos de atividade profissional como assessor de documentação histórico-documental, a lição que procurei aprender estudando a história do desenvolvimento de cidades mineiras. Orgulha-me, sem modéstia, o ter mestre Burle Marx, no seu reenquadramento paisagístico de Tiradentes, acolhido minhas preliminares observações sobre aquela cidade também tão querida. de minhas reflexões profissionais, políticas e intelectuais retirei esta minuta de princípios, que ofereço sempre, intruso urbanista, e a repito aqui à reflexão, tanto aos que administram quanto aos que usufruem do convívio diuturno das cidades: 1 – As Diretrizes que orientam uma coerente política de uso do solo devem ajustar-se, em nível de planejamento ou legislação para cidades em processo de crescimento, às condições ideais mínimas de seu meio ambiente urbano, de modo a assegurar-se à população um compatível padrão de qualidade de vida. 2 – Entendem-se para isso, como componentes de valorização do meio ambiente urbano, não apenas os fatores físico-temporais, a exemplo do adequado parcelamento e ocupação do solo, da racional organização viária ou de uma infra-estrutura básica moderna e eficiente, mas ainda outros fatores capazes de influir, talvez em grau mais intenso, no comportamento, na bem-estar e na sobrevivência, individual ou coletiva, daqueles que usufruem o espaço urbano, nele habitando e trabalhando. 3 – Assim, há que manter-se a salubridade do ar que se respira, dos mananciais que abastecem de água a cidade, do sistema de vazão de dejetos e, sobretudo, a integridade das áreas verdes que protegem as encostas, equilibram o regime das águas e renovam o elemento atmosférico. 4 – Outro dado significativo na valorização do meio ambiente urbano é o respeito à relação harmônica entre o habitante e a paisagem plástica e visual da cidade, tanto sob o aspecto da natureza envolvente, quanto dos vazios urbanizados para embelezamento e lazer ou de singularidades artístico-arquitetônicas insinuadas no espaço construído. 5 – A noção de bem-estar urbano passa, desta maneira, a compreender simultaneamente condicionantes naturais, sociais e culturais, que juntas atuam na consecução da desejada qualidade de vida. 6 – No caso de uma cidade como Ouro Preto, que conjuga o caráter histórico de sua formação com o caráter dinâmico de seu desenvolvimento, há que fixar-se, para sua expansão como núcleo ativo de vida e trabalho, diretrizes ainda mais harmonizadoras do ser, que é a sua identidade precípua, e do vira-ser, que é a imposição natural de seu organismo realimentado sempre de nova vitalidade humana. 7 – Para que isso ocorra, a execução de uma Política Urbana para a cidade deve contar com a percepção de sensibilidade e a consciência participativa do habitante, daquele que é o gestor e o fruidor de um espaço e de um ambiente singularmente ricos de referências e significados sociais e culturais.

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Recompus em retrospecto a história da construção de uma cidade. Que meus olhos de poeta e estudioso do barroco não venham a testemunhar, praza aos céus, a sua desconstrução. Retomo, a propósito, as palavras centenárias do geógrafo Alfredo Moreira Pinto, que me serviram de epígrafe à Cantaria Barroca, livro de fascínio e paixão:

GLORiOSA OuRO PRetO QuAnD O A HORDA VAnDÁLiCA QuiSeR D eStRuiR-te

PARARÁ

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AS DA tuA CiDADe COMO Out RORA ÁtiLA ÀS PORtAS De ROMA Percorram, leitores, a cidade bem-amada, deixem que seu charme único os cative, como a mim cativou. Todos temos um pouco de Ouro Preto dentro de nós.

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A vida cotidiana em Vila Rica Modos de viver, gostos e gestos

CRISTINA ÁVILA

V

oltemos no tempo. Em pleno século XVIII, Vila Rica já tinha ares urbanos de grande importância. Grande trânsito de pessoas de todos os tipos. Misturavam-se mineradores, funcionários públicos, artistas, artífices e, sobretudo, gente comum. Gente da qual os livros de história pouco falam mas cujos fragmentos de hábitos, costumes, gostos e gestos marcaram para sempre a paisagem da Cidade Patrimônio da Humanidade . Imaginemos as ruas, os casarios se formando, mulheres e homens que constituíam a vida em um local distante do reino, cheio de promessas, cujo cotidiano estava carregado de conflitos. Lembremos da tentação do ouro, pois a princípio havia ouro. A notícia se espalhava e a cada dia mais gente se aventurava em lombo de burro até a maior vila do local, onde o ouro era abundante. Para a fixação de pessoas eram necessários comida, escravos, ferramentas e administração. Logo as vilas cresceram, em menos de meio século, a população da região mineira passou de 600 mil habitantes, enquanto toda a população do Brasil e de Portugal não ultrapassava 4 milhões de habitantes. Para alimentar tantas pessoas, o abastecimento das Minas evoluiu ao longo da primeira metade do século XVIII. Se a princípio o transporte se fazia por meio de escravos - negros e brancos que carregavam toda espécie de material às costas-logo foi possível viabilizar um transporte mais eficaz, os chamados tropeiros ou mulandeiros. O lucro dos tropeiros foi importante, pois cada mula levava cerca de 150 quilos de mercadoria. Com o tempo, o tropeiro recebe novas incumbências como a de correio, banqueiro, médico e receitador de óculos. O arraial se movimentava. O mercado funcionava e alguns aventureiros chegaram a trabalhar com agricultura de subsistência, resolvendo aos poucos a demanda de toda a Vila Rica.

O que se comia Apesar da presença maciça de tropeiros no começo, a alimentação era escassa. O alimento básico da maioria da população era milho e mandioca, principal sustento e o pão diário dos mineradores. Com as plantações locais aumentou o número de legumes que em geral eram cozidos. A caça completava bem a alimentação. Com as tropas chegavam carne bovina, pimenta do reino e urucum. As raízes mais usadas eram as batatas, mandiocas, carás e inhame. da carne de porco, fácil de ser encontrada, já que a criação era bastante grande e os animais andavam à solta pelas ruas da cidade, se aproveitava tudo, lombo, toucinho, banha, torresmos, lingüiça, chouriço, sangue, pele, miúdos, etc. A carne de galinha era também comum de ser encontrada e nas casas as galinhas conviviam no mesmo espaço dos moradores. dessa forma, garantiam-se os ovos. Carne de carneiro, peixes, bacalhau também existiam com alguma abundância. O leite de vaca era fundamental, a nata aproveitada em quitutes e não é à toa a fama que o queijo de Minas tem até hoje. As refeições se diferenciavam conforme o poder aquisitivo. Os ricos podiam se fartar com as galinhas cozidas, ovos e doces. Em dias de festa, a galinha cozida era acrescentada de arroz, carne de vitela, porco, lingüiça e bacalhau. Os cozidos eram reservados para o cotidiano, já os assados Imagens de Minas - 23


para dias de festas. Já nesta época, a comida de agrado geral era a galinha cozida com angu, quiabo e couve. O feijão era indispensável na mesa dos ricos. O pão era artigo de luxo, assim como o vinho. Nos bailes, as mesas eram compostas com chá, café, limonada, ponche, vinho e doces em calda, frutas em conserva com açúcar, doce de leite, biscoitos de nata, bolo de milho e queijo. Os tropeiros, classe também abastada, usavam o chamado feijão seco, hoje feijão tropeiro: feijão cozido sem caldo, não esmagado, com torresmos fritos e farinha de mandioca. O pão era substituído pela farinha de milho. Eram bastante usadas as pipocas, o curau de milho, pamonhas, cuscuz, biscoitos, bolos e canjicas. O administrador, o intendente e os feitores comiam conjuntamente o chamado trivial. Ao almoço, feijão preto com farinha de milho e um pouco de toucinho frito ou carne de sol cozida. Ao jantar, um pedaço de porco assado; na ceia, hortaliças cozidas e toucinho. A água era a bebida comum. Os pobres enganavam a fome com feijão preto, peixe seco e farinha de milho. Carne era coisa rara. Na falta de alimentos, eram apreciadas as iças ou formigas tanajuras. O doce comum era feito de melaço com farinha de mandioca. As laranjas e bananas podiam servir de sobremesa, quando havia nos pomares e quintais. Os escravos se alimentavam basicamente duas vezes por dia: almoço e ceia. O comum era o angu, farinha de milho misturada com água quente, no qual se acrescentava um naco de toucinho. O feijão podia também fazer parte da refeição. Na senzala, o negro escravizado armava o tripé de varas, fincado no chão, e nele pendurava um caldeirão de ferro em que se cozinhava o feijão com toucinho. A águardente acompanhava a refeição. Os utensílios usados na alimentação eram poucos. A maioria da população comia a capitão, fazia-se um monte de comida com as mãos, amassavam e o arremessava à boca. Os talheres eram poucos e restritos às camadas altas da população. Era usual, ao ser convidado para uma refeição, o visitante levar sua própria faca ou colher. Os hábitos simples seguiam os costumes de Portugal onde poucos eram os requintes. Os hábitos indígenas de se cozinhar em folha de bananeira permaneceram e os negros, com seus caldeirões de feijão e angu, influenciaram a culinária, incluindo ainda o mingau de fubá. No mesmo período, era usual fazer a aguardente de laranjas. Segundo receita dada pelo viajante Auguste de Saint-Hilaire, no livro Viagens pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais – (1816 a 1822): socam-se as laranjas; espreme-se seu suco; adiciona-se açúcar e deixa-se fermentar. A alimentação era variada, ainda que pobre de nutrientes, mas cabe lembrar que a oralidade passou de geração a geração as origens da culinária mineira que ainda hoje é bastante apreciada.

Dos modos de morar A arquitetura civil mineira seguiu o fluxo dos moradores carecendo de planejamento, dando a Vila Rica uma conformação urbana de feição medieval. Segundo o arquiteto Silvio de Vasconcellos, nas edificações mais antigas predominava uma planta retangular. O pé-direito era baixo e a cobertura era predominantemente de duas águas. O puxado da cozinha ficava nos fundos, local em que conviviam os senhores e escravos. Um corredor ligava a rua ao quintal e, assim como as alcovas, fazia divisa com as casas vizinhas. A casa nobre rebate a planta clássica, tornando o corredor um elemento central. As construções se amontoam, se interpenetram, multiplicam-se para o alto e para os fundos, escoram-se mutuamente, mas por outras razões: só há uma rua disponível que importa aproveitar ao máximo. Fazem-se mínimas as testadas, cobrindo as frentes rueiras das moradias. Os quintais eram estreitos e compridos e os córregos, barrancos, cercas ou muros fazem as divisas nos fundos. Aposentos eram enfileirados. O da frente, com janela para rua servindo de

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sala, e os demais, acessíveis por um corredor lateral, que servia de quarto de dormir, consistindo por vezes nas chamadas “alcovas” sem janelas. No final, instalavam-se a cozinha e o alpendre, que davam para o quintal. Existiam ainda casas com cobertura de telhas e também de sapé. As populações mais pobres se abrigavam em pequenas choupanas com apenas um ou dois cômodos, nos quais se dormia, cozinhava. Muitas vezes abrigava uma pequena oficina. Contribuindo para a vida urbana, oratórios eram colocados em nichos nas paredes dando para a rua. As madeiras empregadas nas construções são em geral canela preta ou marrom, ipê, jacarandá, usados de preferência nos elementos visíveis como portais, balaústres, etc. Eram também usados vinhático, a peroba branca e a rosa, angico, sucupira, cedro e candeia. Ainda segundo Silvio de Vasconcellos, os arcos aparecem nas vergas e nas arcadas de vestíbulos, átrios, corredores, claustros, etc. São maciços, de alvenaria ou de cantaria. Os mais antigos são de volta redonda ou arco pleno. Aparecendo na segunda metade do século XVIII, os arcos abatidos de três centros ou, em certos casos, de dois centros com segmentos retos de permeio. As vedações usam pau-a-pique, adobe, nas edificações residenciais.Vedações de pedra surgem nas residências mais antigas e edificações mais nobres. O tabique, tábuas de grande simplicidade, era usado principalmente para divisões de cômodos internos. Em residências pobres, uma divisão feita com esteiras separa a cozinha do quarto de dormir. Essas recebem revestimentos diversos: em geral, argamassa compondo o emboço de barro, completado ou não de cal e areia.Amassa-se o barro com estrume de curral, para sua maior consistência e para proporcionar melhor ligação entre o maciço e o revestimento de cal e areia. Para proteger as empenas da água da chuva, usavam-se tábuas ou telhas dispostas verticalmente. Os pisos mais comuns eram de terra batida, ladrilho de barro, tabuado corrido, lajes de pedra, seixos rolados. Eram usuais janelas peitoris; janelas rasgadas; janelas de canto; janela com parapeito entalado; janela com o parapeito sacado. As folhas abrem-se sempre para o lado interno dos vãos, com exceção das gelosias e rótulas. Vãos preenchidos por folhas maciças, cegas ou com postigos Imagens de Minas - 25


(pequenas aberturas na folha). As treliças têm aplicação variada nas construções, seja compondo folhas de janelas, portas (parte), balcões, guarda-corpos, varandas, coros, vazios de escadas. As folhas podem ser abertas normalmente, em torno de eixos verticais e, neste caso, se chamam gelosias ou em torno de eixo horizontal, em sua parte superior, denominando-se então rótulas. de início, o vidro, pela dificuldade de sua obtenção, foi usado apenas nos edifícios de maior importância, como igrejas, fechando os óculos ou as janelas altas, fixas. Posteriormente, para o final do século XVIII, começou a ser generalizado o seu uso nas residências. Porém, ainda em 1870, eram considerados “como os mais custosos ornamentos no interior do Brasil”, no dizer de Spix e Martius. Folhas de vidro de abrir aparecem no século XIX, inteiras ou com partes em venezianas, assim como as bandeiras de vidro. Já as venezianas são introduzidas no século XIX. A ornamentação compunha-se de lambrequins ou sianinhas decorrentes da influência francesa, crescente após a chegada de d. João VI ao Brasil, no século XIX. Os sobrados e até mesmo as edificações térreas ganham requintes de nobreza como cimalha, vãos com sobreverga de cimalha, cunhais e cachorros ornamentados. Já as casas oferecem, em regra, poucas comodidades e não possuem, em geral, nenhum ornato sobre a brancura das paredes. Saint-Hilaire refere-se à “brancura das casas” de Minas Gerais e São Paulo; Spix e Martius dizem que em Vila Rica são as casas “na maioria caiadas de branco” e também as condições de arrematação recomendam sempre a caiação na “maior alvura possível”. Nas madeiras, a cor seria grandemente aplicada e variada. Não só o azul, conhecido hoje como colonial, porém todas as cores, principalmente em tons fortes e com preferência pelas primárias. Recentemente, com a coloração das fachadas no século XIX é que, paradoxalmente, foram os elementos de madeira se entristecendo para tons de terra onde predominam o marrom, o cinza ou chumbo, como se achavam pintadas as igrejas mineiras no princípio do século XX. (VASCONCELLOS, 1979). Na pintura, a cor pode ser lisa, decorativa ou figurativa. A lisa recobre os portais, as folhas, os frechais, as beiradas e os forros. A decorativa prefere os forros e os painéis de madeira que recobrem as paredes internas, tanto em barrados quanto por inteiro. Nos elementos estruturais, como cimalhas, portais e outros, pode ocorrer o uso do faiscado (imitação de pedra), às vezes até recobrindo e dando mais ênfase à própria pedra, sendo também chamada “pintura de fingimento”. São encontradas muitas referências a esse tipo de pintura nos documentos da época. Seja como “pintura de fingimento”, “fingimento de pedra”, a “cimalha fingindo de pedra branca”, entre outras, feitas com alvaiade e secante. Nas pinturas a óleo, as cores se combinam das formas mais variadas, tendo, por exemplo, os portais coloração diferente das folhas e assim por diante. No geral, os elementos estruturais tinham cor igual aos portais, vergas e cunhais, usando-se para as folhas de vedação outra cor e para as cimalhas, decorativas em fingimento, brancas ou em tons claros de cinza ou rosa. Os tipos de cor nos enquadramentos das edificações eram comumente sangue-de-boi, verde, ocre, azul. As portas e os caixilhos das janelas eram geralmente pintados em cinzento, imitando mármore. Às vezes, os rodapés e forros também eram pintados à imitação do mármore. Os equipamentos domésticos ou as chamadas alfaias se diferenciavam conforme a situação financeira. Nas residências pobres, encontramos referências de ausência de móveis restringindose à sala de Redes e esteiras feitas de fibra de bananeira. Uma talha com um copo de madeira preso a um cabo, onde cada qual bebe por sua vez. Registros de Santos de fatura popular. E em nossas mais recentes pesquisas, encontramos oratórios de salão rústicos, comoventes peças de tradição devocional na qual se abrigavam santos de devoção. O fogão a lenha era rústico, muitas vezes de barro socado e, após ser aceso, o fogo ardia e era alimentado durante todo o dia.

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No quarto, esteira de fibra de bananeira convivia com catre simples com estrado trançado de couro ou tablado rústico, decoração imitando os estilos da época, porém tosca, em recortes mal feitos, às vezes parecendo canga de boi. Não havia dossel ou mosquiteiro. As roupas eram penduradas em varal. Podiam existir cestas de fibra vegetal, colchas de tear, lençóis e fronhas de tecidos rústicos, colchão recheado com palha ou mesmo a ausência deste. Nas residências ricas, como atestam os bens confiscados pelos Autos da devassa da Conjuração Mineira, a situação era bem diferente, assim como em casas paroquiais e no bispado de Mariana. Nesses locais, encontramos nas salas Espelhos (aparecem por volta de 1619), vasos da Cia. das Índias, pinturas religiosas sobre tela ou madeira, registros de santos, crucifixos. Nas janelas e portas, cortinas e reposteiros. Tapetes portugueses de seda e lã com paisagens pastoris, floridos; tapetes persas; tapetes de tear. Forros de mesa rendados, bordados, em linho branco ou em adamascados coloridos, de preferência vermelhos.Tecidos bordados em fios de ouro e prata nas guarnições. Almofadas bordadas, rendadas, com motivos da Índia e chinesices. Nos quartos, aparecem espelhos de menor porte, dourados, verdes, em forma de livro, de toucador ou de vestir, são objetos de toilette. Os de porte maior, com molduras, guarnecidos de tartaruga, ou revestidos de cortinas de damasco vermelho, são mais decorativos. Eram consideradas opulências: baixelas e alfaias de cama. Cortinas, reposteiros e dossel feitos de casimira fina, seda, cetim, cambraia, adamascado, linho com ou sem bordados ou rendas. Entre os pertences de mulheres, eram usuais caixinhas para costura com fechadura e chave,tesoura e agulha. Os homens também tinham o hábito de costurar, como se pode ver no depoimento de Tomás Antônio Gonzaga que estaria bordando para o enxoval de seu casamento com Maria dorotéia, a Marília de dirceu. Alguns quartos faziam vez de escritório com: tinteiros, papeleiras, mapas, como se vê em descrições de aposentos de intelectuais da época, a exemplo dos árcades e na iconografia da época. Na cozinha, existiam alguns objetos semelhantes aos que eram usados por toda a população, tais como cestos de taquara, gamelas, pilão, moringa de barro, cabaças, cuias, cuités, faca, tacho de cobre, moringas, salva, gomil e púcaro. Panela de pedra e de barro torneadas. Os objetos mais sofisticados de cozinha se restringiam a defumante: aparelho para afastar insetos,garrafas de aguardente de cana, algumas peças de vasilhame de barro, uma talha com um copo de coco de cobre, aberto a buril, preso a um cabo de madeira. Bacias de cobre para fazer pão-de-ló, tabuleiros de madeira, folha de flandres e fôrmas de queijo, algumas em formatos curiosos como coração ou estrela, estes eram reservados para os dias de festas. Para o serviço de mesa, duas tamboladeiras, um púcaro, seis colheres de prata. E nada mais. O garfo era raro, porém encontram-se, em coleções particulares, faqueiros completos de prata usados em Minas Gerais (como o que encontramos na coleção da Senhora Márcia Moura e Castro). Pratos de louça inglesa, portuguesa, Cia. das Índias, cerâmica. Copos de prata ou, mais raramente, de cristal, para beber água. Guardanapos eram raros, porém, se usados, tinham porta-guardanapos de prata. Satisfaziam-se os remediados com cinco ou seis colheres de cabo roliço e uma ou duas tamboladeiras. Pouco se tem escrito sobre o mobiliário usado pela população das antigas vilas coloniais, mas o pouco que sabemos advém do testemunho de viajantes, de listagem de inventários e da iconografia da época e mais ainda do testemunho vivo das peças existentes em museu. Não era hábito possuir muitos móveis em Minas Gerais, o conforto era secundário para uma população que se aventurava por regiões mais ao centro do Brasil e vivia longe da corte, mas o advento do enriquecimento com o ouro e os inúmeros artífices que se fixaram em Minas Gerais contribuíram para que uma camada próspera da sociedade procurasse manter na capitania hábitos e luxos do Reino. No início do século XVIII, no litoral, especialmente no Rio de Janeiro e Bahia, são confeccio-

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nados móveis tipicamente barrocos de fatura erudita. Entalhes volumosos, concheados, volutas, pés em garra e bola e/ou bolacha, além de joelheiras volumosas e entalhadas. Entre os elementos decorativos, destaca-se o feixe de plumas. Esses móveis são chamados d. João V. Em Minas Gerais o mobiliário é a princípio raro mas ganha ares mais requintados a partir de meados do século XVIII.Aparecem as cadeiras de canto, em jacarandá com quatro pernas e pés de garra. Os móveis em estilo Rococó (ou d. José I) surgem em motivos assimétricos tanto no mobiliário religioso, retábulos ou oratórios, quanto em mobiliário caseiro. Aparece o douramento de rocalhas sobre fundo branco. Estofamentos em tecidos adamascados são comuns. O couro continua em uso, porém com motivos Rococós. As arcas são mais delicadas e recebem pinturas em seu interior com cenas galantes. As mesas aparecem em grande escala, assim como: contadores, secretárias e objetos. dissemina-se o uso das cadeirinhas de arruar com acabamentos em pinturas, indicando serem utilizadas por mulheres ou mesmo pelo clero. O Museu da Inconfidência guarda exemplares importantes do mobiliário mineiro. de acordo com a documentação de época, os contratadores possuíam móveis requintados notadamente: • • • • • • • • • •

1 dúzia de cadeira meio adamascadas 6 tamboretes velhos 1 contador da índia 2 escritórios de pau-brasil 2 contadores de madeira negra com ferragens douradas 2 caixões da Índia um oratório de salão erudito com imagens de boa fatura 2 painéis 3 bufetes com cortinas vermelhas 1 alcatifa (tapete de seda e lã)

Já o mobiliário de um homem de posses modestas constava de • • • • • •

1 oratório com várias imagens Uma imagem do Senhor Morto Um contador de madeira preta de Moçambique com oito gavetas Quatro caixões da Índia 1 cama decorada 2 escritórios pequenos e cinco painéis

O móvel mais democrático encontrado em minas é a arca. A arca mais comum, típica mesmo, é lisa, de ximbó, vinhático ou outra madeira, sempre em tábuas inteiras e com as malhetas ou ganzepes cobertos por guarnição rasa de jacarandá, presa por cavilhas, conforme a tradição do alfarge; são da mesma madeira as molduras no tampo e no rodapé, seguras a prego. Às vezes, são enfeitadas com losangos formados pela mesma guarnição que a requadra; raramente têm almofadas salientes e pés. O tampo é preso por longas dobradiças fixas com pregões rebitados. Os puxadores laterais são também presos por pontas retorcidas e encravadas na madeira de tal modo que, uma vez retiradas, não podem mais ser recompostas com perfeição. Na frente, um espelho simples, pois a tranca vertical é muito rara. Por dentro, o escaninho a um canto; por fora, raramente, duas gavetas embaixo; todas são do século XVIII. Além dessas arcas simples, existem em Minas outras ornamentadas com enfeites ou flores embutidas, que correspondem à moda inglesa do começo de 1800. Encontra-se também uma ou

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outra peça original, com aplicações de ferro ou almofadas salientes, mas são raras, como são raras as arcas pintadas na face interior da tampa, com figuras, cartelas, troféus com bandeiras, flores etc., muitas tendo pertencido a irmandades, corpos militares ou câmaras. Algumas de conforeiro são originárias de Macau. Usou-se também um par de banquinhos para sustentar a arca. O armário antigo em Minas era, como em todo o Brasil e em Portugal, um móvel encaixado na parede da sala de jantar; às vezes nos cantos. Acompanhava o estilo da casa e era pintado a óleo em todas as reformas que esta sofria: só não lhe pintavam os montantes ou molduras quando estes eram de jacarandá. Primitivamente, eram feitos com portas de almofadas, duas folhas em cima e duas embaixo, enfeitadas com molduras, cordões e um ou outro entalhe. Quando o vidro plano tornou-se acessível, as portas passaram a ser feitas com caixilhos para os vidros, em grupos de quatro, seis ou oito, como nas janelas; vidros pequenos conforme eram importados pelo comércio. Além do armário embutido na parede, sempre houve outros, móveis soltos, pelos corredores, quartos e cozinha: simples, sem vidros, com ou sem gavetas e sempre sujeitos à pintura periódica. Na região do ouro, foram as rosinhas de malabar o motivo mais comum usado em armários, mas também podiam ser decorados com frutas e outros elementos que remetessem àa sua utilização. Além do sono sobre esteiras, tão comuns em Minas como as redes no nordeste, os catres foram itens que sobreviveram em museus e que são encontrados na iconografia mineira , especialmente em cenas de ex-votos. Pessoas de posse tinham camas. Às vezes a cama se destinava apenas ao membro mais importante da moradia, outras se estendiam por toda a família. Os modelos variavam pouco, podendo-se encontrar camas com galeria de torneados, geralmente guarnecidas de bilros e com varais altos. Frontão com recortes simples ou de linhas retas, às vezes com coroamento em curvas e vazado. A superfície trabalhada em caneluras verticais ou em espinha. São do começo do século XVIII: algumas têm reminiscência do século anterior e muitas talvez tenham sido mesmo levadas para Minas. Frontão com ornamentos de desenho primário, folhagem rudimentar, ornatos geométricos, linhas curvas terminando em espiral e em execução grosseira. Foram feitas por mãos bisonhas, fogem ao estilo erudito e coincidem com móveis semelhantes, de Portugal, Espanha, Itália. Seus entalhes geométricos lembram às vezes ornamentos de móvel bretão. Comumente têm cruz sobreposta ou entalhada. São móveis feitos durante todo o século XVIII. Camas com galeria de torneados ou torcidos, ou de tábuas recortadas e vazadas (em forma de balaústres). Raramente têm bilros. Varais altos ou curtos. Frontão ondulado com entalhes em estilo barroco; em geral, com cartela no centro. Seus elementos são volutas simples ou com plumas, conchas e folhas de acanto. Sofrem influência de dom João V. Constantemente, com cruz sobreposta ou entalhada e com iniciais religiosas, J. M. J. Camas como as anteriores, porém com elementos de ornamentação rococó em lugar de folhas de acanto nas volutas: cruz e iniciais religiosas. São do período de dom José I; algumas, raras, denunciam elementos da época de dona Maria I (Luís XVI): pérolas, cartelas elípticas, fitas e flores. Algumas têm pés arqueados. A mesa chamada holandesa (a que os portugueses chamam espanhola) é móvel que conserva na forma e no desenho características de século XVII. Mesa de cozinha e copa encontrava-se por toda parte e em abundância, entre Mariana e Santa Bárbara. Não são apenas brasileiras, portuguesas ou espanholas, pois, na Itália, encontram-se peças absolutamente idênticas — e nos mínimos detalhes — como se pode ver na obra de Arturo Midana L’Arte de legno in Piemonte nel sei e nel settecento. Existe entre nós enorme variedade de mesas desse gênero, sempre obedecendo aos mesmos princípios. O tampo é de cedro ou outra madeira leve, guarnecido de forte requadro de jacarandá preso por encaixe e grandes pregos. A caixa, com gavetas ou sem elas, tem almofadas verticais nos ângulos e, entre as gavetas e na linha inferior, um cordão, moldura ou rendado. Os pés ondulados, abrindo para baixo, são fortes e simplesmente recortados, às vezes exagerados em suas curvas e

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volutas, sempre travadas por torneados ou travessas lisas ou recortadas. Quando têm entalhes, são em forma de escamas, de palmas ou de desenho primário; têm pequenos espelhos de ferro, no geral com puxadores pendentes. de regra o tampo é prolongado nas pontas. Estão hoje justamente valorizadas e são usadas como mesa de centro em vestíbulos ou, quando grandes, como mesa de jantar. São do século XVIII. O uso deste mobiliário, caro e dispendioso não era realmente comum. Vila Rica tinha hábitos simples: sentadas em esteiras nas varandas, senhoras recebem seus visitantes com as honras e cortesias das casas. Bancos, tamboretes, bufetes também serviam de móveis de descanso quase sempre toscos. No mundo simples das mulheres, as Rocas eram instrumento do trabalho doméstico e eram colocadas em geral nos quartos das donzelas. Usavam vasos de flores e mantilhas nas janelas. Nos interiores das edificações, encontram-se, além de mobiliário solto, armários ligados à construção, seja em rebaixados nas paredes (embutidos) ou salientes. Entre os primeiros, os mais primitivos se resumem a simples nichos na espessura do maciço, com soleira e verga reta ou curva e, às vezes, prateleira de madeira, sendo comumente aproveitados para a lamparina, pequenos objetos ou santos, transformando-se nos oratórios. Mais tarde, são forrados com madeira, de que também são feitas as portinholas que os fecham. Mobiliário dos inconfidentes ou pedra (laje). São de pequeno vulto e não chegam ao piso. Todos os móveis encontrados entre os bens dos Inconfidentes apresentavam a principal característica do mobiliário no século XVIII – o predomínio da linha curva. •

Cadeiras dos Inconfidentes: “de campanha” – do tipo de dobrar; de encosto, de talha, com os pés tortos; assento e encosto de damasco carmesim e uma única de encosto de

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sola com sua pregaria... dentre as peças confiscadas aos Inconfidentes, encontram-se várias pintadas ou douradas: 2 mesas de cabiúna com os pés tortos e a talha com frisos dourados; 2 estantes pintadas; 7 molduras douradas (de espelhos e de quadros); 1 poltrona pintada de encarnado com filetes dourados; 1 dita pintada de azul com filetes amarelos; 1 catre de pau torneado pintado de azul e dourado; 1 catre com cabeceira dourada e pintado com sobrecéu de damasco carmesim; 1 cômoda grande pintada com 4 gavetas. Mesa pequena tosca com gaveta coberta de Carneira com guarnição de durante carmesim. Mesa de cabiúna com talha e pés tortos com gaveta pequena e espelho dourado. Preguiceiro de jacarandá coberto de couro com os pés de ferro. Espelho grande de vestir com sua moldura e flor dourada. Poltrona de jacarandá preto com pés-de-burro e assento de sola. Estante de madeira com suas molduras de guardar livros com gavetas de um dos lados. Estante de pau com cimalhas.

Hábitos domésticos, etiquetas e higiene O conceito de etiqueta que temos hoje em dia difere muito dos hábitos mineiros de Vila Rica. À mesa, assentavam o dono da casa, e quando muito os filhos já casados, e algum hóspede de consideração. Mesmo em dias de festas, tomam os homens assento a um dos lados da mesa, e as mulheres ao outro, em geral usavam-se bancos. Em jantares de cerimônia, eram usados por famílias de posse objetos de mesa de procedência inglesa, como a louça. Mas o comum eram as cabaças e os cocos em lugar de terrinas e xícaras. Colheres e garfos eram de prata, mas cada convidado comparecia com sua própria faca, em geral comprida, pontiaguda e com cabo de prata lavrada. Antes de servido o jantar, os convidados ficavam à vontade, ou de pé, conversando na sala, ou esteira no soalho. Tiravam o casaco, os sapatos e mais o que quisessem. As damas ficavam todas juntas de um só lado e, do outro, os cavalheiros ou a dona ao lado do marido e tendo do outro lado uma senhora, também com o seu esposo. Nas fazendas e casas-grandes, quando havia gente de fora para comer, as mulheres não se sentavam à mesa. Água era servida, em geral, em um copo imenso levado em uma salva de prata, e que é sempre o mesmo para todos. Usavam os dedos (comer a capitão) com mais freqüência que os garfos. A etiqueta mandava que não se empregassem mais de 3 dedos em juntar o bocado. Comer do prato do vizinho era prova de amizade, não sendo raro que os dedos de um e de outro se vissem mergulhados a um só tempo no mesmo prato. Nas casas de roça, despejam-se simplesmente alguns pratos de farinha sobre a mesa ou num balainho, onde cada um se serve com os dedos, arremessando com um movimento rápido a farinha na boca, sem que a mínima parcela caia por terra. Segundo Saint-Hilaire, usa-se por toda a parte toalha, mas não se oferecem guardanapos aos convivas. Tomava-se um pedaço de carne, punham-no na palma da mão, acrescentavam-lhe verdura e farinha, temperavam tudo com um pouco de molho, de azeite ou de sopa, e com isso formavam um bolo que levavam à boca. Quando se come carne assada, cada vez que se leva um pedaço à boca, junta-se uma colher de farinha, e, com uma destreza inimitável, arremessa-se uma colherada sem deixar cair um só grão. Mas, em locais de maior cerimônia, havia o hábito de espetar a carne com o garfo. As escravas comem ao mesmo tempo, em pontos diversos da sala, sendo que por vezes suas senhoras lhes dão um bocado com as próprias mãos. O escravo que serve à mesa está sempre de pés no chão, por mais bem vestido que se apre-

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sente e leva ao ombro uma toalha de algodão arrematada por uma bainha larga. Os mineiros não costumam conversar quando comem. devoram os alimentos com uma rapidez que, confesso, muitas vezes me desesperou. (Saint-Hilaire, 1875). Bebia-se vinho também sem delicadeza de modos. Terminado o repasto, cada um limpava na toalha da mesa a faca de ponta de que se servira, enfiando-a depois no cano de bota ou na bainha ao lado do cinturão. Por fim, todos tomavam uma única xícara de café, uma só como sedativo. Por outro lado, a substituição do talher pelos dedos e o costume de comerem duas pessoas no mesmo prato impunham hábitos rigorosos de asseio. As lavagens das mãos eram obrigatórias antes e depois de cada repasto (refeição, banquete). Mandavam os tratados de civilidade que os convivas lavassem as mãos uns na presença dos outros. depois da refeição, lavavam-se a boca e as mãos. Os comensais se levantavam, juntavam as mãos, inclinavam-se, rendiam graças, faziam o sinal da cruz, e, em seguida, saudavam-se reciprocamente. O escravo que serviu à mesa se junta aos convivas, e agradece a deus um repasto em que não tomou parte. A refeição principal era o jantar ao meio-dia. Mais comum no chão e na esteira, nas casas pobres. Lenços eram poucos e raros. Só a gente educada limpava o nariz, usualmente na manga do ves-

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tido. Quando se vulgarizou o uso do lenço, mandava o bom tom que ele não entrasse em atividade, senão depois de terem o indicador e o polegar desempenhado a parte mais considerável da tarefa. Faca: todo homem tinha. Servia para cortar a carne à mesa, palitar os dentes, alisar a palha de milho e picar o fumo de rolo para cigarro, tirar bicho-de-pé, muito comuns naquele tempo e como defesa pessoal. Chegava-se a levar o bocado à boca com a ponta da faca. O uso de mascar fumo é mais comum do que o de fumar. Em segundo lugar, o uso do “torrado” por homens e mulheres. Segundo Critilo, nas Cartas Chilenas, no tempo do Governador Cunha Meneses, até alguns magistrados abandonaram as perucas brancas expondo os cabelos naturais na forma em que passeiam os caixeiros. Ao mesmo tempo, vão desaparecendo as manifestações consagradas de decoro e urbanidade. Os homens não se sentam mais direitos e graves e, as próprias damas aprenderam a atravessar as pernas sobre as pernas. Assim, também, perderam muitos o hábito de se despedir dos amigos, preferindo retirar-se das reuniões em segredo. Com relação à higiene, os banhos gerais eram pouco comuns, usando-se mais banhos parciais, com toalha molhada, bacia e gomil. Os banhos de corpo inteiro eram feitos em grandes tinas de madeira ou em rios. A higiene das mãos era constante, assim como objetos de toucador para cabelo e barba. Eram comuns os piolhos, o que tornou usual o cafuné, forma carinhosa de se tirar piolhos.

Dos Modos de vestir A moda não andava longe da colônia. Para o dia-a-dia as mulheres usavam trajes ligeiros, mas buscavam ocultar os corpos. As mulheres costumavam se envolver em um grande manto, que lhes escondiam o corpo, inclusive o rosto. Usavam a vasquinha, o corpinho e por cima deste o gibão e sobre o gibão o saio (casacão de rabo longo de mangas perdidas, com abertura nos cotovelos dando liberdade aos braços) e compondo tudo isto o manto. Este traje era especialmente usado pelas viúvas que não queriam contrair novas núpcias ou mulheres casadas vigiadas por maridos ciumentos. Para passeio, mulheres casadouras e senhoras de maiores posses, gostavam de vestir-se à espanhola. Usavam penteados de dois bandos, cobertos com fitas. Usavam saias de seda e blusas de mangas folgadas de punhos brancos, com corpetes enfeitados de rendas ou bordados. As solteiras usavam vestidos de saias duplas, com corpete com muitas fitas, rendas e bordados. Os decotes eram enfeitados nas beiradas formando molduras douradas ou prateadas – jóias em ouro ou brilhantes. O uso de pano na cabeça era generalizado com fins de higiene, por causa dos piolhos ou em substituição das perucas guardadas para ocasiões festivas. Os sapatos eram difíceis e muitas mulheres só os usavam para as missas ou festas. Na igreja era usual grandes capas de um tecido pesado e espesso, geralmente cor de rosa ou vermelho. Haviam capas de algodão tecidos e tingidos na terra. Os calçados, luxo que aparece com mais freqüência no século XVIII, são compostos de chapins, botinas, sapatos franjados de prata e forrados de veludo. Aparecem em inventários de morte chapéus com véus, com laçados de filigrana ou acolchoados de cetim ou de tafetá coloridos. Eram usados abanos de tecido chinês, penas de avestruz, leques franceses com motivos florais e gravuras galantes. As mulheres negras que trabalhavam em Minas conservavam o hábito de sua terra natal e ficavam de peito nu com uma saia tipo sarongue enrolada no quadril. Já uma negra criada da casa usava saia bastante rodada, apertada na cintura e, na cabeça, pendendo até o meio das costas um lenço caído. As vendedeiras andavam mais tampadas com manto, casaquinha, saia, saiote e Imagens de Minas - 33


mangas compridas. Muitas alforriadas possuíam jóias e balangandãs. As queridas das sinhazinhas tinham vestidos para acompanha-las as festsa e igrejas e ganhavam jóias de presente e sapatos. Os homens brancos andavam com veste larga com abas e fraldão, camisas, capa de baeta, calções de pano escocês, chapéu de feltro, borzeguins (botina de couro cujo cano é fechado com cordões de Marrocos). Gabões de raso (capote de manga) e calções de veludo. Meias de agulha de fio de algodão. Como vestuário de gala têm-se casaca forrada de tafetá acamurçado, abotoadura de prata, galão com guarnições e fitaria. Em dia de festa um ouvidor levava um manto de seda negra, com pregueado miúdo nas costas e largas pregas aos ombros; sapatos de fivela; meias de seda; casaca e calções negros; uma vestia de cetim branco; gravata de filó ou renda; chapéu e bengala. Negros carregadores de cadeirinhas de arruar vestiam calções de veludo e casacas com galões, às vezes chapéus. Os de mina ou moleques usavam bermudas coloridas, macacões, colete, chapéu de palha. O tecido mais usado era o algodão grosseiro. Crianças trajavam como adultos.

Religiosidade A religiosidade cotidiana se expressava no corpo, nas moradias e nas formas de devoção. Nas paredes das casas se penduravam quadros de assuntos religiosos. Os oratórios eram comuns nas salas encima de mesas e nos quartos ao lado das camas, cheios de santos e de mensagens votivas. Os livros de hora eram leitura obrigatória especialmente para as mulheres. Muitas crianças se alfabetizavam através de orações. Padres invadiam lares abastados para comer, beber, dar conselhos ou apenas passar tempo. Muitos padres pecavam contra a castidade especialmente com escravas e, mulheres beatas e viúvas. Foram muitos os que contraíram famílias e foram aceitos pelas comunidades coloniais. Os sermões tinham uma enorme função social de agregar fiéis e propagar a fé. Haviam 98 feriados. Eram obrigatórios os dízimos e as esmolas. O terço era rezado todos os dias. Todos participavam das cerimônias da Semana Santa, independente da condição social e raça. A devoção das santas relíquias e imagens eram obrigatórias e generalizadas. Muitas eram carregadas no corpo do fiel. Cada devoto montava sua corte celeste privativa. Seu anjo da guarda, seus santos protetores, Nosso Senhor e Virgem Maria em várias invocações. Quando havia uma doença grave, era comum fazer um ex-voto em agradecimento à cura. Havia inúmeras procissões, festas, bênçãos, trezenas, novenas e tríduos dedicados aos múltiplos oragos da freguesia de Vila Rica. Sem a igreja não havia vida social na colônia. 34 - Imagens de Minas


Gestos Para finalizar esta pequena copilação de hábitos da Capitania Mineira e da Vila Rica de Ouro Preto veremos alguns gestos marcantes da sua população. •

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As pessoas caminham em seguida umas às outras o mais lentamente possível, e formam assim uma espécie de procissão. O senhor na frente, em seguida a sinhá e os filhos. Os escravos eram os últimos a comporem a fila indiana. Usava-se, também, as mulheres andarem aos pares de braços dados. O marido andava uns passos à frente da esposa. O teatro, La Comédie Française, influenciou a época com figuras mascaradas colombinas, pierrôs e outros personagens, que tinham a pele maquiada de branco com as bochechas carmesim. O uso de tal maquiagem se estendeu por toda a Europa chegando ao Brasil através do teatro, via Portugal. Os gestos desses personagens influenciaram a maneira de se apresentar das pessoas que gostavam de representar um modo de ser artificial e teatral. Assustava os eclesiásticos a moda francesa da corte ser um hábito comum aos homens e mulheres ricos, independente de suas origens: “as galas da moda publicam, qual pode ser quem as veste; que também por moda andam bailando patenteiam o seu interior os homens.” (ARAÚJO LIMA, 1749). O andar a bailar a que se refere Araújo Lima era uma herança maneirista, de gestos artificiais e pedantes. Esse gestual é recorrente em pinturas do século XVIII de cenas galantes e retratos de personalidades da época. As mãos faziam movimentos lentos, maneiristas. O olhar feminino era melancólico e dissimulado. Nas Minas, as mulheres viviam atrás de treliças, janelas, portas como depõem os viajantes. Saíam às ruas acompanhadas dos senhores, mucamas e, raramente, com amigas íntimas. Por decência, as mulheres não cruzavam as pernas. Andavam a cavalo sentadas com as pernas a um dos lados do animal. Livros de civilidade tinham regras para diversos modos de conversação indicando que, em festas as mulheres falassem sobre o tempo, comessem pouco, não se misturassem aos homens e, principalmente, não discutissem sobre assuntos polêmicos como política, religião, dinheiro. Um gesto comum às mulheres era de manterem-se ocupadas com trabalhos manuais como bordados, costuras, rendas. O homem tinha ampla liberdade para ir e vir, ter intercursos sexuais com meretrizes, concubinas e escravas. A leitura e a escrita eram gestos mais masculinos do que femininos. Mulheres não andavam na rua sozinhas, sempre acompanhadas de outra senhora, de uma escrava, de criança, do marido ou em caderinha de arruar; senão ficava mal falada..

A vida na colônia tinha regras rígidas, mas era flexível, fútil, exremamente voltada à religião (forma de escape social). Para compreendê-la é preciso entender o imaginário da época e ter sensibilidade para ousar trilhar caminhos fragmentados e obscuros da trilha da história em meio a documentos escritos, monumentos, resquícios visuais, iconográficos, objetos de fé, objetos do fazer, do uso cotidiano e da arte. Aqui deixamos uma síntese do muito que poderíamos ainda dizer da vida setecentista mineira.

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Igreja de S達o Francisco de Paula

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MOnuMentOS

igreja de São Francisco de Paula Situa-se no alto do Morro que leva o seu nome. Tombada individualmente pelo SPHAN em 08 de setembro de 1939. Sua construção, ocorrida no mesmo local em que primitivamente se elevara a Ermida de Nossa Senhora da Piedade, teve início no dia 4 de outubro de 1804, por iniciativa dos irmãos da Ordem Terceira de São Francisco de Paula. O risco da igreja foi elaborado pelo capitão-mor Francisco Machado da Cruz. O acesso principal é feito por uma escadaria ornamentada com quatro estátuas dos evangelistas, em louça de Santo Antônio, importadas de Portugal. O conjunto de talha da igreja é de boa qualidade e bastante homogêneo. Constitui um rococó tardio, provavelmente inspirado no Carmo da mesma cidade. Os seis altares laterais estão sob a invocação de São Francisco de Sales, Nossa Senhora da Conceição, São Miguel, Santo Antônio, São Geraldo (única de gesso) e Nossa Senhora da Consolação. Entre as muitas lendas que povoam a cidade, uma refere-se a essa igreja. Diz-se que ali, ainda nos tempos em que a cidade não contava com iluminação elétrica, em algumas noites, quem olhasse para a Igreja, poderia vê-la profusamente iluminada, o que causava espanto e medo nos antigos habitantes de Ouro Preto.

igreja de nossa Senhora das Mercês e Misericórdia (Mercês de Cima) Situa-se na rua Padre Rolim, bairro do Ouro Preto. Foi tombada individualmente pelo SPHAN em 08 de setembro de 1939. Inicialmente, a Irmandade das Mercês reunia-se na igreja da Irmandade de São José. Todavia, devido a divergências entre as duas irmandades, em 1771, os Irmãos das Mercês resolveram construir seu próprio templo. A modificação do projeto original da fachada foi feita para dar lugar a uma torre central com data no século XIX. O cemitério anexo foi construído em 1828. Merece destaque a escultura que orna sua portada. Trata-se de um medalhão executado em 1810 por Manuel Gonçalves Bragança, que constitui o principal atrativo dessa igreja, revelando forte influência da arte do Aleijadinho. Confeccionado em pedra-sabão, nele está representada a Virgem Maria estendendo o manto de proteção aos cativos dos mouros.

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Igreja de Nossa Senhora das Merc锚s e Miseric贸rdia

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Palácio dos Governadores (atual escola de Minas da universidade Federal de Ouro Preto) Situa-se na Praça Tiradentes. Foi tombado individualmente pelo SPHAN em 13 de março de 1950. De início, funcionou no local a Casa Real que serviu de fundição e moeda. Em julho de 1735, o então Governador Gomes Freire de Andrade resolveu mandar adaptar a edificação para que ali funcionasse o Palácio dos Governadores, bem como outros serviços ligados à administração da Capitania. Diante da resolução de substituir a antiga edificação por uma nova de pedra e cal, que oferecesse maior segurança, Gomes Freire chama a Minas o sargento-mor engenheiro José Fernandes Pinto Alpoim que, em junho de 1741, desenha o projeto. Ocupando um dos baluartes da frente, a Capela do Palácio foi construída entre 1766 − quando foi decidido o desaterro do baluarte que a recebeu − e, 1781, quando foi realizado um mandado de pagamento a Manuel Francisco de Araújo, pela confecção de um retábulo. O acesso à capela era feito por uma escadaria em arco, ainda existente. Quando da transformação do uso do Palácio em Escola de Minas, a capela passou a servir como gabinete de mineralogia. Desde Gomes Freire de Andrade – Conde de Bobadela – até o presidente Crispim Jacques Bias Fortes – o último governador mineiro a exercer seu mandato na antiga capital, 105 chefes de governo passaram pelo Palácio dos Governadores de Ouro Preto.

Escola de Minas da UFOP

Conjunto Alpoim Na Praça Tiradentes, os sobrados de números 44, 60/2, 64/8 e 70/4 formam, com o de 52/4, um conjunto de sobrados cujo risco é atribuído ao engenheiro José Fernandes Pinto Alpoim, que, em 1741, projetou o Palácio dos Governadores. Esse conjunto foi tombado dentro do acervo arquitetônico e paisagístico da cidade pelo SPHAN em 20 de abril de 1938. O andar térreo e porão são ocupados por lojas, bares, restaurantes. No andar superior, os cômodos apresentam áreas residenciais e utilização diversa.

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Conjunto Alpoim

Chafariz da Praça tiradentes Situa-se na praça Tiradentes, anexo à escadaria do Museu da Inconfidência, sendo também chamado Chafariz da Praça. Compreendido no acervo arquitetônico e paisagístico da cidade, é tombado pelo SPHAN em 20 de abril de 1938. No século XIX, esse chafariz foi construído em substituição a um anterior que era datado de 1724. Lateralmente, possui duas bacias retangulares de pedra aparelhada que serviam de bebedouro para animais.

Chafariz da Praça Tiradentes

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Casa de Câmara e Cadeia (atual Museu da inconfidência) Situa-se na Praça Tiradentes, a antiga Casa de Câmara e Cadeia. Foi construída em substituição à outra, anterior, a partir do ano de 1784, conforme planta arquitetônica desenhada pelo sargento-mor Manuel Ribeiro Guimarães e assinada pelo então governador da Capitania de Minas Gerais, Luiz da Cunha Meneses. As obras da nova Casa de Câmara e Cadeia sofreram uma paralisação com os episódios da Inconfidência Mineira, sendo reiniciadas em 1790. José Ribeiro de Carvalhais arremata a fatura dos serviços de cantaria, torre do relógio (terminada em 1799), rebocos e gradil. Em 1805, as obras passam às mãos do Coronel José Veloso Carmo e o edifício foi construído até o pátio, faltando-lhe a parte posterior. A construção assumiu novo impulso a partir de 1830. Os serviços de carpintaria do telhado foram arrematados pelo sargento-mor José Bento Soares, que também se responsabilizou pela encomenda das quatro estátuas, confeccionadas em pedra-sabão, representando as virtudes cardeais – Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança. O edifício funcionou como Câmara e Cadeia até o ano de 1863, quando ficou destinado apenas à função de presídio. Em 1907, é transformado, provisoriamente, em Penitenciária-Geral do Estado. Com a transferência da penitenciária para Ribeirão das Neves, o prédio passou à proteção do SPHAN e, após os trabalhos de restauração e adaptação à nova destinação, no dia 11 de agosto de 1944, o Museu da Inconfidência abria suas portas.

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42 - Imagens de Minas Igreja de S達o Francisco de Assis


Passo da Praça tiradentes ou da Cruz às Costas Situa-se na praça Tiradentes, esquina da rua Conde de Bobadela, antiga rua Direita do Pilar. Foi objeto de tombamento individual pelo SPHAN em 8 de setembro de 1939. Nas primeiras ilustrações feitas da praça, pode-se notar que a porta do passo estava situada na rua Conde de Bobadela e não onde se localiza atualmente, na praça Tiradentes. O passo da Praça Tiradentes não tem estrutura arquitetônica autônoma. Trata-se de um dos cômodos da residência localizada nessa esquina. A função do passo pode ser percebida pela porta, que se destaca do conjunto da casa. Seu interior possui um altar de talha simples, presumivelmente do século XIX.

igreja de São Francisco de Assis Situa-se no largo que leva seu nome, na confluência com as ruas Costa Sena e das Mercês. Foi tombada individualmente pelo SPHAN em 04 de junho de 1938. É considerada obra-prima da arte colonial brasileira. Seu risco, datado de 1766, é de autoria de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. A construção iniciou-se pela capela-mor, como habitualmente se fazia no período. Essa parte do edifício tem sua conclusão em 1771, cinco anos após o início das obras. Em 1774, o Aleijadinho fornece o risco da portada. Para Germain Bazin, essa portada é a obra-prima do Aleijadinho, enquanto ornamentista sacro. Nela, pode-se observar um anjo que sustém uma grande cruz ornada, circundado por uma glória; o anjo que lhe faz par, à direita, aponta, com os braços estendidos, a composição central. Na composição, dois brasões encostados um ao outro trazem, à esquerda, as armas franciscanas e, à direita, as do reino de Portugal. Mais acima, ornando o medalhão, a Virgem, de mãos postas. Entre os brasões e o medalhão, vê-se o braço estigmatizado de São Francisco em aspa com o braço do Crucificado – o conjunto é encimado pela coroa de espinhos. As duas asas de anjo que rematam os brasões são igualmente simbólicas, assim como as flores de girassol e as rosas - atributos de Maria. O conjunto da composição é encimado por uma coroa fechada; ao redor do medalhão, um galhardete com as seguintes palavras: Dignare me laudare te virgo sacrata (Digna-me, ó Virgem sagrada, louvarte). Da mihi virtutem contra (Dai-me a virtude contra). Entre as inovações do Aleijadinho em São Francisco de Assis: vedação do óculo, acima da portada, por um baixo relevo em forma circular, representando a visão de São Francisco no Monte Alverne. Em sua nave, porém, apresenta seis altares, também projetados pelo Aleijadinho. Sua construção arrastou-se por mais de sessenta anos, entre 1829 (data do ajuste para execução dos dois primeiros com Vicente Alves da Costa) e 1890, quando a douração do último da série de retábulos foi concluída por Lourenço Petrício. Estão sob a invocação de Santo Ivo, Santa Isabel da Hungria, São Roque, os Bem Casados (São Lúcio e Santa Bona) e Santa Rosa de Viterbo. Entre 1801 e 1812, tem-se a pintura do forro da nave e a pintura e douramento da capela-mor com autoria de Manuel da Costa Ataíde. No forro da nave, pintura ilusionista com uso da perspectiva arquitetônica e o tema da Glorificação da Virgem. Também são de Manuel da Costa Ataíde a série de painéis a óleo que decora os quatro chanfros da nave e paredes da capela-mor (com temas relativos à iconografia da Ordem Franciscana), assim como as barras da pintura imitando azulejos, com episódios alusivos à vida de Abraão, no registro inferior das paredes da capela-mor. No arco-cruzeiro estão inseridos os púlpitos em pedra-sabão, também de autoria de Antônio Francisco Lisboa, que os concluiu entre 1772 e 1774. Na sacristia, paredes cobertas de telas de autoria de Francisco Xavier Gonçalves, datadas de 1782. Nelas, estão representados: Santa Isabel de Portugal e Santa Isabel da Hungria; Santo Ivo; São Luís de França; Santa Rosa de Viterbo; São Francisco lendo os estatutos da Ordem para Santa Clara e para

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São Roque; o Papa e os cardeais no momento de entregar a São Francisco os estatutos; São Francisco levado ao céu pelos anjos. Os outros quatro representam: um eremita; Santa Maria Egipcíaca; a Madalena e São Francisco. Na sacristia, encontra-se um lavabo, também atribuído a Antônio Francisco Lisboa. Um monumental nicho canelado constitui a base da composição, tendo ao centro a figura de um capuchinho de olhos vendados. Logo acima, um grande anjo esvoaçante sustentando um medalhão com a efígie de São Francisco. Na base, dois corsos e dois anjinhos ladeiam um brasão com a inscrição Haec est ad caelum quae via ducit oves (Este é o caminho que conduz as ovelhas para o céu). A igreja pertence ao estilo Rococó. O cemitério da ordem foi construído entre 1831 e 1838 por Manuel Fernandes da Costa e José Ribeiro de Carvalho.

igreja de nossa Senhora das Mercês e Perdões (Mercês de Baixo) Situa-se na rua das Mercês, no bairro de Antônio Dias. Foi tombada individualmente pelo SPHAN em 08 de setembro de 1939. Com a justaposição das duas devoções, a Capela do Bom Jesus dos Perdões passou a chamar-se Capela de Nossa Senhora das Mercês e do Bom Jesus dos Perdões, cuja abreviação originou a singular denominação corrente de Capela de Nossa Senhora das Mercês e Perdões. Ela também é conhecida popularmente na cidade como - Mercês de Baixo - para diferenciá-la do outro templo também dedicado a Nossa Senhora das Mercês - Mercês de Cima - devido à localização topográfica das duas no mapa da cidade. Em 1775, o edifício é dotado de nova capela-mor, cujo risco foi encomendado a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. A reedificação da igreja das Mercês, feita em princípios do século XIX, não abrangeu a construção das torres da fachada, sendo elevada provisoriamente uma única torre em taipa do lado direito para as necessidades do culto. Na segunda metade do século, foi construída a segunda torre. A reedificação do século XIX, além da substituição da taipa das paredes por alvenaria de pedra e construção de um novo frontispício implicou em total reformulação do jogo de volume do edifício. As fachadas laterais apresentam vãos pintados, imitando janelas com almofadas e bandeiras. Em sua nave, estão colocados quatro altares laterais: sob a invocação de Santa Catarina, Santo Antão, São Lourenço e Nossa Senhora da Saúde que seriam procedentes de uma igreja incendiada em Rio das Pedras. O altar-mor é de 1890.

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Passo de Antônio Dias ou do Pretório Situa-se na rua Bernardo de Vasconcelos, antiga rua Direita de Antônio Dias, esquina da rua Carlos Tomás, antiga rua do Gibu. Tombamento individual feito pelo SPHAN em 8 de setembro de 1939. A antiga capela pode ter sido executada por Manuel Francisco Lisboa, pois, entre 1728 e 1734, ele recebeu pagamentos pela feitura dos passos da rua. Foi reconstruída em meados do século XIX por decisão da irmandade dos Passos.

Chafariz do Passo de Antônio Dias ou do Ouvidor Situa-se em frente ao Passo de Antônio Dias, na rua Bernardo de Vasconcelos, antiga rua Direita de Antônio Dias, esquina de rua Cláudio Manuel, antiga rua do Ouvidor. Foi tombado individualmente pelo SPHAN em 19 de junho de 1950. É um dos mais antigos de Ouro Preto. A iniciativa de sua construção deve-se ao Senado da Câmara de Ouro Preto que, em sessão datada de 20 de março de 1752, decidem por sua construção no lugar que, até então, abrigava apenas uma fonte.

Chafariz do Passo de Antônio Dias ou do Ouvidor

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Casa da República Maracangalha Situa-se na rua Cláudio Manuel nº 129. Essa residência foi tombada dentro do acervo arquitetônico e paisagístico da cidade, em 20 de abril de 1938, pelo SPHAN. Abriga uma república de estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto. É uma construção da primeira metade do século XX. Possui grande importância para a complementação do conjunto das construções que integram a rua.

Casa da República maracangalha

Casa de Cláudio Manuel da Costa Situa-se na rua Carlos Tomás, nº 6, antiga rua do Gibu. Tombada pelo SPHAN, dentro do acervo arquitetônico e paisagístico da cidade, em 20 de abril de 1938. Em ficha histórico-analítica do SPHAN, pelo menos os dois blocos principais da residência foram construídos em meados do século XVIII. Já o terceiro bloco seria construção anterior, pois apresenta vergas retas e tem uma aparência de maior peso visual. Apresenta em sua fachada portas do tipo calha, vergas retas ou em arco abatido, cimalha em massa e estrutura de madeira. Balcões sacados: cinco com parapeito em ferro fundido e dois em madeira recortada. O entorno da residência é em laje e pé-de-moleque. No interior da casa, há um pátio de serviços de forma retangular e jardim. Com a prisão do inconfidente Cláudio Manuel da Costa, a casa passou às mãos do governo português e foi arrematada por Diogo Pereira de Vasconcelos. Posteriormente, também serviu de moradia ao presidente da Província Bernardo de Vasconcelos.

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Casa de Cláudio Manoel da Costa

Oratório de nossa Senhora do Bom Despacho Situa-se na rua Bernardo de Vasconcelos, antiga rua Direita de Antônio Dias, esquina com rua dos Paulistas. Tombado em 20 de abril de 1938 pelo SPHAN, dentro do acervo arquitetônico e paisagístico da cidade. Sua parte superior − local onde era colocado o sino − é em madeira, ornamentada com lambrequins, apresentando três janelas. Já a parte inferior, em alvenaria de pedra, possui porta almofadada com verga em arco abatido. O oratório não tem imagem; somente uma cruz enfeitada durante períodos de festejos religiosos.

Chafariz do final do Beco da Padaria Localiza-se transversal à rua Bernardo de Vasconcelos, antiga rua Direita de Antônio Dias. É um chafariz parietal, em alvenaria de pedra, com frontão triangular e cruz central. Não são conhecidos elementos documentais referentes à sua construção.

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Chafariz da igreja Matriz de nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias Tombado dentro do acervo arquitetônico e paisagístico de Ouro Preto em 20 de abril de 1938, pelo SPHAN. Situado na rua Bernardo de Vasconcelos, antiga rua Direita de Antônio Dias, junto ao paredão da igreja. É uma estrutura de pedra lavrada com frontão em curvas e contracurvas, arrematadas por volutas nas extremidades e encimado por uma cruz. Ao centro, há uma concha estilizada em pedra lavrada. A bacia de pedra retangular está abaixo do nível da rua. Esse chafariz esteve soterrado por muito tempo, tendo sido descoberto nas obras realizadas na Matriz, no segundo semestre de 1980, sob a responsabilidade do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG).

igreja Matriz de nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias Situa-se na Praça de Antônio Dias, entre as ruas Bernardo de Vasconcelos e Aleijadinho. Foi tombada individualmente pelo SPHAN em 08 de setembro de 1939. O rápido crescimento da população do arraial de Antônio Dias, que em 1711 passara a fazer parte da recém-criada Vila Rica, exigiu a construção de um novo templo. Em 1727, iniciou-se a construção da atual Matriz de Antônio Dias, traçada por Manuel Francisco Lisboa, segundo informações de Joaquim José da Silva, em seu Registro de Fatos Notáveis, de 1790, que também foi o arrematante de sua principal obra. Os altares da nave podem incluir peças remanescentes da Matriz primitiva. Nela, foram enterrados, em 1814, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. E, em 1853, D. Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília de Dirceu, cujos despojos foram depois transferidos para o Museu da Inconfidência. A decoração interna da nave pode ser atribuída a Manuel Francisco Lisboa. Apresenta oito altares laterais. O estilo é o mesmo do dos altares da nave da Matriz de Nossa Senhora do Pilar, caracterizado como estilo Dom João V do Porto. O risco da talha da capela-mor é de autoria de Antônio de Souza Calheiros, modificado posteriormente pelos executores, os entalhadores Jerônimo Félix Teixeira e Felipe Vieira, entre 1756-1768. Ao alto, de cada lado, no altar-mor, podem ser vistas duas belas pinturas e, encimando o retábulo, uma alegoria apocalíptica: uma fortaleza de onde surge uma águia e por cima a coroa de rainha, significando o Cristo nascido da Virgem. Nas bases das pilastras do fundo do altar-mor, há duas cabeças de índios com cocar estilizado. A construção do adro esteve a cargo de Joaquim Mariano Augusto de Meneses, entre os anos de 1860-1863 .

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Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias

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Interior da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias (interior) 50 - Imagens de Minas


Ponte do Palácio Velho Situa-se na rua do Chico Rei, sobre o córrego da Sobreira. É em alvenaria de pedra, com arco pleno, muro parapeito e cruz no centro. Esta ponte se faz seguir por outra, alguns metros depois, com tipologia semelhante, mas de proporção menor. Não são conhecidos elementos documentais referentes à sua construção.

Ruínas do Palácio Velho Situam-se na rua Chico Rei, nº 200. Foram tombadas dentro do acervo arquitetônico e paisagístico da cidade, em 20 de abril de 1938. Ali se situava o primeiro palácio governamental. As ruínas localizam-se nas encostas do Morro da Encardideira, em Antônio Dias; local que atesta a fase da mineração na Capitania, com entradas das minas e terrenos revolvidos na ânsia de encontrar o ouro. Os paredões da entrada são feitos em arco de canga e possuem seteiras. Deve-se observar a calçada de pedra e os jardins em patamares.

Ponte de Antônio Dias ou de Marília de Dirceu Situa-se no Largo de Dirceu sobre o córrego da Sobreira. Sua construção foi arrematada em 11 de outubro de 1755, por Manuel Francisco Lisboa. O arrematante era obrigado a executar a obra conforme planta e risco com parapeito, cruz e arcos em itacolomito e paredes de pedra e cal. Manuel Francisco Lisboa, por termo de cessão, transferiu o direito de arrematação para Antônio da Silva Erdeiro, sendo seus fiadores João Amorim Pereira e Isidoro Leite Esquerdo. A ponte é composta de dois paredões interrompidos e dois arcos plenos, tendo ao centro um pequeno terraço circular e cruz de cantaria sobre acrotério de forma complexa. O muro parapeito é em pedra aparelhada. A água do córrego só corre sob um arco da ponte.

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Chafariz de Marília ou do Largo do Dirceu Situa-se na rua Santa Efigênia, nº 26, antiga Ladeira de Santa Efigênia, anexo ao Clube XV de Novembro, defronte à ponte de Antônio Dias. Foi tombado individualmente pelo SPHAN em 19 de junho de 1950 sob denominação de Chafariz da Praça de Marília. Passou a ser chamado Chafariz de Marília por ficar próximo da casa em que residiu Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, eternizada como Marília, pelo seu noivo, o poeta inconfidente Tomás Antônio Gonzaga. Apesar de não se conhecer o autor do risco, sabe-se que seu contratante foi Manoel Francisco Lisboa, pai de Antônio Francisco, o Aleijadinho. Sendo assim, não é desprezada a hipótese de que este tenha trabalhado nos ornatos de pedra-sabão do chafariz.

Clube XV de novembro Situa-se à rua Santa Efigênia n. 26, na ladeira de Santa Efigênia, como antigamente era conhecida. Foi tombado dentro do acervo arquitetônico e paisagístico da cidade pelo de 1938.

SPHAN em 2 de abril

Hoje, sede do Clube XV de Novembro, era o antigo Solar da Família Ferrão. Nessa residência, foram utilizadas a alvenaria de pedra, taipa de sebe e madeira.

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Oratório de Santa Cruz Situa-se na rua Barão do Ouro Branco, esquina de rua Santa Efigênia, antiga Ladeira de Santa Efigênia. Em 8 de setembro de 1939, foi tombado individualmente pelo SPHAN. Foi construído, presumivelmente, no século XVIII, e está ligado a uma lenda que versa sobre um bando de contrabandistas de ouro da época: a quadrilha do Vira Saia. O oratório é um nicho em arco pleno com frontão triangular recoberto de telhas do tipo canal. No seu pedestal, há um elemento decorativo formado por curvas e contracurvas, arrematadas em volutas estilizadas. Este oratório, de aspecto rústico e singelo, não apresenta imaginária, apenas uma cruz tosca, que é envolvida em papel picado e exposta em datas festivas.

Chafariz da Rua Barão de Ouro Branco Localiza-se na rua Barão de Ouro Branco, em frente à residência de nº 19. Está compreendido no acervo arquitetônico e paisagístico da cidade, tombado a 20 de abril de 1938, pelo SPHAN. Traz a data de 1761, mas não há documentos referentes à sua construção.

Chafariz do Alto da Cruz do Padre Faria Situa-se na rua de Santa Efigênia, antiga Ladeira de Santa Efigênia, inserido na fachada da residência nº 42. Tombado individualmente pelo SPHAN em 19 de junho de 1950. Foi mandado construir em 1757. Sua arrematação, dada em 30 de dezembro do mesmo ano, e ganha por Henrique Gomes, teve como fiadores Miguel de Oliveira e Antônio José da Costa. Fixou-se em um ano o prazo de início da construção. Há a possibilidade, levantada por Lúcio Costa, da participação do Aleijadinho como autor do busto de pedra-sabão, que encima o chafariz, datado de 1761.

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Igreja de Santa EfigĂŞnia do Alto da Cruz 54 - Imagens de Minas


igreja de Santa efigênia do Alto da Cruz Situa-se na Ladeira de Santa Efigênia, bairro Alto da Cruz. Também designada por Igreja do Rosário do Alto da Cruz do Padre Faria. Foi tombada individualmente pelo SPHAN em 8 de setembro de 1939. Parece, no entanto, que a atual Igreja de Santa Efigênia, construída no mesmo local da primitiva capela do Alto da Cruz do Padre Faria, foi iniciada em 1733. As obras prolongaram-se até 1785, data inscrita na peanha da cruz que encima o frontão da fachada. Assinala Germain Bazin que a planta da igreja de Santa Efigênia (talvez de autoria de Manuel Francisco Lisboa) pode ser considerada como uma simplificação da planta tradicional, visando à obtenção de formas mais elegantes e funcionais. Em termos de fachada, Santa Efigênia representa um elo fundamental na cadeia evolutiva da arquitetura religiosa mineira: as torres são dispostas em posição ligeiramente recuada em relação ao corpo do edifício e têm seus ângulos abatidos, o que lhes dá as formas arredondadas do período rococó. Um nicho abrigando a estátua de Nossa Senhora do Rosário constitui o motivo central da ornamentação do frontispício. Esse nicho é de estilo D. João V, não apresentando ainda elementos em rocalha. A imagem data de 1768 e não se sabe a sua autoria, embora apresentando algo da influência do Aleijadinho. As obras de talha da nave e capela-mor são de autoria de Francisco Xavier de Brito e Manuel Gomes da Rocha 1747-48; as esculturas, de Antônio Pereira Machado, 1747-48. Os altares laterais, em número de quatro, estão sob a invocação de Santa Rita, Santo Antônio do Noto, São Benedito e Nossa Senhora do Carmo. Os dois primeiros altares, a partir da entrada principal da igreja, são do estilo caracterizado por Germain Bazin como D. João V do Porto, barroco visando à riqueza e superabundância de detalhes. Poderiam, talvez, ser originários da primitiva capela do Alto da Cruz. Os dois altares próximos ao arco-cruzeiro, assim como o altar-mor, já pertencem ao “estilo D. João V de Lisboa” ou estilo Brito, revelando maior preocupação arquitetônica e evidenciando a trama estrutural, organizada em função da tribuna central. Também as paredes da capela-mor são recobertas de talha que, no espaço central entre as tribunas, emoldura dois painéis a óleo, representando São Domingos e São Francisco, orando aos pés do Crucificado. Os púlpitos, por sua vez, são de 1747-48, feitos por José da Silva Madeira. As pinturas dos forros da nave, capela-mor e sacristia – painéis laterais e quadros a óleo da capelamor – são contemporâneas da edificação da igreja, isto é, meados do século XVIII. Contudo, sua data e autoria ainda são desconhecidas. As pinturas das ilhargas da capela-mor foram atribuídas a Manuel Rebelo de Sousa, pelo falecido restaurador ouropretano Jair Afonso Inácio.

Capelinha de Santa Cruz É um dos componentes do conjunto de oratórios e capelinhas da freguesia de Antônio Dias, estando situado na rua Resende, esquina de rua Santa Rita. Tombada dentro do acervo arquitetônico e paisagístico de Ouro Preto, em 20 de abril de 1938. De acordo com Germain Bazin, a capela foi construída no século XVIII e, provavelmente, passou por reconstrução no século XIX ou mesmo no século atual. É uma edificação bastante simples, feita em alvenaria de canga, possuindo um único compartimento. De frontão triangular, recoberto por telhas do tipo canal e arrematado por cruz de ferro batido, apresenta, ainda, porta almofadada de duas folhas.

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Igreja de Santa EfigĂŞnia do Alto da Cruz (interior) 56 - Imagens de Minas


Capelinha de nossa Senhora das necessidades Esta capelinha faz parte do grupo de oratórios e capelinhas da freguesia de Antônio Dias, localizandose na rua Padre Faria, em frente ao nº 3. Sua construção, segundo Germain Bazin, foi realizada no século XVIII, devendo ter sido uma iniciativa individual ou coletiva de devotos de Nossa Senhora das Necessidades. A capelinha é toda em pedra, constando de um único compartimento, onde se encontra um altar simples, encimado por um oratório, tendo a santa padroeira em seu trono.

Ponte do Padre Faria Está localizada junto à capela do Padre Faria. Foi arrematada a 30 de outubro de 1750 por Antônio Fernandes Barros, sendo seu fiador Domingos Gonçalves da Costa. O arrematante teria que seguir, como de costume, as condições de execução; com a ponte a ser feita de pedra do Itacolomi, e a necessária segurança com a obra ser entregue em seis meses. Consta de um paredão interrompido por um arco pleno e muro parapeito em alvenaria de pedra e cruz de pedra ao centro.

Capela do Padre Faria Localiza-se na ladeira do Padre Faria. Foi tombada individualmente pelo SPHAN em 8 de setembro de 1939. De acordo com o Santuário Mariano, publicado em 1723, a primeira invocação da Capela foi a Virgem do Carmo, tendo sido transferida posteriormente para este local a imagem de Nossa Senhora do Parto do arraial do Bom Sucesso, quando, então, a capela ficou sob a guarda da Irmandade de Nossa Senhora do Parto. Pelos anos de 1740, foi iniciada a sua reconstrução, no mesmo lugar da antiga ermida, só que em maiores proporções e em pedra. O seu adro, onde se eleva uma cruz pontifícia (única em Minas Gerais) possui gravada a data de 1756 e é todo circundado de muretas de canga. No seu interior, há três retábulos dourados. E, segundo documentação existente, o altar-mor e o de Santo Antônio já estariam concluídos em 1750, enquanto que o terceiro foi executado aproximadamente por esta época e dedicado ao Senhor Bom Jesus da Cana Verde. Esses altares são característicos do estilo D. João V, com dossel. A capela-mor possui pinturas, presumivelmente, da mesma época que as obras de talha. No forro está representada a coroação da Virgem pelos anjos, enquanto os painéis laterais são representações da vida de Maria: Visitação, Anunciação, Adoração dos Pastores e a Fuga para o Egito. Merece ainda atenção o lavabo da sacristia em pedra lavrada, encimado por um arco interrompido em volutas e pináculo de forma flamejante. Capela do Padre Faria

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Chafariz do Caminho das Lages Localizado na rua Conselheiro Quintiliano, antigo Caminho das Lages. Foi tombado no acervo arquitetônico e paisagístico da cidade, em 20 de abril de 1938. A falta de registros sobre esse chafariz deixa seu histórico incompleto. É um chafariz parietal, possuindo um retângulo central, que é o seu corpo. De cada lado deste retângulo, uma coluna reta com fuste e capitel. O frontispício também é reto e encimado por uma cruz. Na base, o tanque, e, de cada lado, um poial em pedra.

Sobrado das Lages Também conhecido como Solar dos Nobres; está situado na rua Conselheiro Quintiliano, nº 627, antigo Caminho das Lages. Foi tombado dentro do acervo arquitetônico e paisagístico da cidade, pelo de 1938.

SPHAN em 20 de abril

Por suas características arquitetônicas, esse sobrado pode ser considerado uma edificação do final do século XVIII ou do princípio do século XIX. Em 1954, foi acrescentado um óculo na sua fachada oeste e, em 1966, houve a colocação de um chafariz numa mina de água natural. É um sobrado imponente, sendo sua entrada feita por um grande portão em arco abatido e cimalha trabalhada, arrematado por telhas. Destaque especial deve ser dado ao seu jardim, todo disposto em patamares, e aos relevos e pinturas que se espalham pelos paramentos das paredes. O sobrado possui também interessante sala-capela interna. Junto a esse sobrado está um chafariz, mas são desconhecidos sua autoria e risco. Sabe-se somente que foi aí colocado em 1966.

Ruínas do Palácio do Bispo Localizado no final da rua Henrique Gorceix, foi construído por ordem de Dom Frei Domingos da Encarnação Pontevel, Bispo de Mariana, eleito por Pio VI através da Bula de 1º de março de 1778. Instalou-se em Mariana a 25 de fevereiro de 1780. Por desentendimentos ocorridos na Cúria de Mariana, esse Bispo veio residir em Ouro Preto, época em que foi construído esse palácio, onde faleceu.

Chafariz do Quartel ou dos Cavalos Foi tombado dentro do acervo arquitetônico e paisagístico da cidade pelo de 1938.

SPHAN em 20 de abril

Localiza-se na rua Rocha Lagoa, antiga rua das Flores, junto ao paredão que separa a Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia da Escola Estadual D. Pedro II. Onde hoje se localiza a escola, havia um Quartel da Cavalaria. Esse chafariz é também chamado dos cavalos porque servia de bebedouro aos animais. 58 - Imagens de Minas


Foi arrematado, a 3 de agosto de 1746, por Antônio Leite Esquerdo que faria, de acordo com os autos de arrematação, carranca igual à do Chafariz do Rosário. Em 1790, o Senado da Câmara ordenou a mudança do local do chafariz devido a um desmoronamento na encosta da rua das Flores, reiterando em 1791 essa recomendação.

Chafariz dos Contos, ou de São José Localiza-se no Largo São José ou dos Contos, atual praça Reinaldo Alves de Brito. Foi tombado individualmente, em 19 de junho de 1950, pelo SPHAN. Ordenada sua construção pelo Senado da Câmara de Vila Rica, foi arrematada em 12 de abril de 1745, por João Domingues da Veiga. O autor do risco não foi ainda identificado. É assim chamado pela proximidade em que está da Casa dos Contos. Em 1911, foi feito um nivelamento do calçamento, que prejudicou a visão primitiva do chafariz, soterrando parte de seu embasamento. Superiormente, é arrematada em volutas e molduras, cercada de três belas e duas esferas. Traz a data de 1760 e a inscrição latina: “Is Quæ Potatum, Gens Pleno Ore Senatü Securi Ut Sitis Nam Facit Ille Sites”, que pode ser traduzida por: “Povo que vais beber, louva de boca cheia o Senado porque tens sede e ele a faz cessar”.

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Casa dos Contos 60 - Imagens de Minas


Casa dos Contos Localizada na rua São José, a Casa dos Contos, Casa dos Contratos ou ainda Casa da Ponte é o mais imponente exemplo do tipo residencial de Ouro Preto durante o período colonial. Foi mandada construir pelo contratador de impostos João Rodrigues de Macedo e, por volta de 1787, já se encontrava concluída. Na edificação, o contratador estabeleceu a sua moradia (no andar superior) e a administração dos seus negócios de contratos das entradas e dízimos (no andar térreo). Devido às grandes dívidas contraídas pelo proprietário, a casa passou a ser alugada, em 1802, à Junta da Real Fazenda que, no ano seguinte, mediante adjudicação, dela tomou posse. Vale lembrar que, com a descoberta dos planos da Inconfidência Mineira, alguns dos cômodos do prédio foram reclamados pelo governo da Capitania para servir de prisão a alguns dos inconfidentes − entre eles o poeta Cláudio Manuel da Costa que aí foi morto − e para o aquartelamento das tropas repressoras vindas do Rio de Janeiro . Entre 1820 e 1821, foi feito o prolongamento do lado direito da edificação para abrigar também a Casa de Fundição de Ouro. Em 1844, realizou-se um acréscimo do lado esquerdo, para permitir o funcionamento da Secretaria da Fazenda da Província de Minas no mesmo local já ocupado pelo Tesouro Nacional. Com a transferência da capital de Minas Gerais para Belo Horizonte, em 1897, o imóvel passou a ser ocupado pelos Correios e pela Caixa Econômica. Em 1970, o imóvel retornou às mãos do Ministério da Fazenda que o restaura e o adapta para servir de sede ao Centro de Estudos do Ciclo do Ouro – CECO, com o objetivo de levantar a documentação econômico-fiscal do ciclo do ouro – o chamado Arquivo da Casa dos Contos.

Ponte dos Contos Situa-se na rua São José, ao lado da Casa dos Contos, sobre o córrego do Ouro Preto, antigo Tripuí. Esta ponte foi denominada de São José até pelo menos 1802, quando foram transferidas para a casa de José Roiz de Macedo as instalações da Casa de Fundição, que deu novo nome à ponte. Construída em 1744, sendo arrematada em 8 de abril por Antônio Leite Esquerdo, foram fiadores Agostinho Gonçalves Souto e Jeronymo Soares. Nela foi colocada uma cruz que, de acordo com a crendice popular, evitava acidentes. O arrematante devia seguir o risco e, após o término da ponte, calçá-la de pedra grossa e dura. É toda em cantaria, formada por dois grossos paredões de espessura igual à da ponte, interligados por um arco pleno. O muro parapeito é sustentado por beirais em pedra. Possui cruz central e banco lateral, oito coruchéus estilizados distribuídos geometricamente pela ponte, sendo que em um consta a data de 1715 e em outro, a de 1882. Afirma-se que os antigos moradores de Vila Rica reuniam-se aí para comentar os acontecimentos do dia, fossem eles de âmbito mais geral ou de caráter mais particular.

Passo da rua São José ou da Coroação de espinhos Está localizado na rua São José, quase em frente ao Hotel Tóffolo. Foi tombado individualmente pelo SPHAN em 8 de setembro de 1939. Somente a partir de 1808 é que se iniciou a sua construção, sendo que, até essa data, o referido Passo era armado provisoriamente durante as solenidades da Semana Santa. Utilizou-se em sua construção madeira, tijolos e, nos alicerces, pedra. Como todos os Passos, constitui-se de um único compartimento pequeno. Não tendo grande expressividade do ponto de vista arquitetônico, há nele a incorporação de elementos de vários períodos.

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Passo da rua Getúlio Vargas ou da Flagelação Localiza-se na rua Getúlio Vargas, antiga rua do Sacramento, esquina da ladeira do Paracatu, anexo ao nº 99. Em 8 de setembro de 1939, foi tombado individualmente pelo SPHAN. O atual Passo foi iniciado em 1816, usando-se taipa. Apresenta um altar de madeira terminando em arco abatido, com molduras. Podem ser vistos, no forro, resquícios de pintura do século XIX.

igreja de nossa Senhora do Rosário Localiza-se no Largo do Rosário, bairro do Ouro Preto. Foi tombada individualmente pelo IPHAN em 08 de setembro de 1939. A construção desta igreja foi possível graças à atuação dos irmãos do Rosário que, para a passagem da procissão do Triunfo Eucarístico, ocorrida em 1733, construíram a rua que tomou, posteriormente, o nome de Rua Nova do Sacramento (atual Getúlio Vargas). Em troca desse benefício, obtiveram do Senado da Câmara concessão de amplo terreno, próximo à capela primitiva, para construção de uma nova igreja; concessão esta confirmada em 1761. Nesse terreno, foi construída a atual igreja do Rosário. Sabe-se que, em 22 de abril de 1752, os irmãos da Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos da freguesia de Ouro Preto solicitaram permissão à Coroa Portuguesa para terem, durante dez anos, um ermitão que pudesse esmolar pelas Minas, com o objetivo de adquirir os meios necessários à construção de uma nova igreja. Considerada pelos especialistas como a expressão máxima do barroco colonial mineiro, sua planta arquitetônica resulta da intercessão de duas elipses encaixadas em forma de 8, com corredores em torno da capela-mor e sacristia quadrangular na extremidade. Seu risco é atribuído a Antônio Pereira de Sousa Calheiros e por Joaquim José da Silva, em seu Registro de Fatos Notáveis, de 1790. Foram arrematantes das obras de alvenaria José Pereira dos Santos (primeiro arrematante, morto em 1762) e José Ribeiro de Carvalhais (arrematante das obras de construção do frontispício, empena e torres).

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Em Minas Gerais, além da Igreja do Rosário de Ouro Preto, apenas a de São Pedro dos Clérigos de Mariana tem planta elíptica, sendo tão grande a semelhança entre as duas igrejas, que não há dúvida de que uma das duas influiu diretamente na outra . Seu interior, de grande simplicidade, é, sobretudo, notável no que diz respeito ao elemento arquitetônico, com sua monumental ordem de pilastras toscanas, delimitando um espaço interno dominado pela forma oval da nave. Apresenta seis altares laterais, que estão sob a invocação dos santos da Irmandade do Rosário dos Pretos: Santa Helena, Santa Efigênia e Santo Antônio da Núbia, à direita de quem entra, e Nossa Senhora Mãe dos Homens, Santo Elesbão e São Benedito, à esquerda. Esses altares, executados entre 1784 e 1792, são de uma simplicidade extrema, predominando o aspecto pictórico, que tenta suprir a indigência da talha. Já o altar-mor é uma peça moderna, sem maior significação artística.

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Chafariz do Rosário ou do Caquende Este chafariz, semelhante ao da rua das Flores, está situado no Largo do Rosário. Tombado em 20 de abril de 1938, dentro do acervo arquitetônico e urbanístico da cidade. Sabe-se que, em 7 de janeiro de 1743, passou por consertos que se fizeram necessários, pois os barris utilizados para colher a água estragaram o seu tanque. Em 1820, teve sua localização alterada, para ficar mais próximo da Capela do Rosário; o que se fez sob a responsabilidade de José Cláudio Martins. Nesta época, encontrava-se em ruínas . É um chafariz parietal, com sua parte da frente caiada e paredão em argamassa. Ladeiam seu corpo duas pilastras de cantaria com base, fuste e capitel, que se prolongam em verga de linha reta. O frontão é em volutas, encimado de cruz – atualmente de cimento – ladeada de dois ornatos piramidais, assentados em soco de cantaria. Faltam o tanque e duas torneiras. O piso é de laje.

Ponte do Dumont Fica na rua Tomé Afonso, antiga rua da Água Limpa, sobre o córrego do Caquende. Sabe-se que foi reedificada em 1892, por ordem da Câmara Municipal; obras que ficaram a cargo do engenheiro João Batista Bembi. Possui muro parapeito alterado em um dos lados e estreitamento em seu leito. Este se subdivide, passando por dois vãos retos, separados por uma estrutura em pedra, de forma hidrodinâmica; o que confere um aspecto estranho, estando oblíqua ao eixo da rua.

Chafariz da Samaritana Localiza-se na rua Conde de Bobadela, antiga rua Direita do Pilar, aos fundos da edificação que hoje abriga o Museu Casa Guignard. O ornato central desse chafariz, em forma de cabeça, é atribuído a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, embora não haja documentação comprobatória. Sua execução seria, provavelmente, uma das primeiras obras individuais do artista, datada de princípios da década de 60 do século XVIII. O chafariz é parietal e está junto ao muro do fundo da residência, possuindo frontispício em arco pleno, com nicho central, ladeado de moldura reta. Neste nicho, há um ornato em baixo relevo que se compõe de um círculo envolto por um quadrado, no qual está inserida uma frase, hoje bastante deteriorada, tendo ao centro uma cabeça. Logo abaixo se encontra a bica e, sob o chafariz, o tanque.

igreja de nossa Senhora do Carmo Localiza-se no Largo de confluência das ruas Brigadeiro Mosqueira e Costa Sena. Foi tombada individualmente pelo IPHAN em 20 de abril de 1938. Em 1756, tem início as obras de construção desta igreja, numa iniciativa dos irmãos da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo que, até aquela época, reunia-se na Capela de Santa Quitéria, situada nos terrenos onde hoje se encontra a Igreja do Carmo. Desentendimentos com a Irmandade de Santa Quitéria, relativos às condições de cessão do terreno retardam os trabalhos, interrompidos por diversas vezes, até o acordo definitivo consignado em termo de 6 de julho de 1766. Pelo referido acordo, em troca do terreno, concedia a Ordem Terceira do Carmo uma série de regalias à Irmandade de Santa Quitéria, tais como: construção de casa para o seu capelão, conservação da imagem de Santa Quitéria no trono da capela-mor, reserva de sepulturas no recinto da igreja, entre outras. O projeto é de autoria de Manuel Francisco Lisboa, datado de 1766. A planta da igreja foi um dos últimos trabalhos realizados pelo arquiteto que veio a falecer em 1767. Embora não exista prova documental, a portada desta igreja é atribuída ao Aleijadinho, baseada em comparação com outras portadas de sua autoria. 64 - Imagens de Minas


Igreja de Nossa Senhora do Carmo

O tema central é constituído pelo brasão da Ordem, ladeado por dois querubins e encimado pela cabeça de um terceiro querubim, sustentando a coroa da Virgem. Em 1771, Francisco de Lima Cerqueira arremata a obra de escultura do pórtico, lavatório da sacristia e arcos do coro, trabalhos estes concluídos em 1780. Concluída a parte arquitetônica, tem início a decoração interna do templo, inaugurada pela arrematação, em 1784, da obra de seis altares laterais e púlpitos por Manuel Francisco de Araújo. Esses altares deveriam ser executados de acordo com risco aprovado em 1779, do qual é desconhecido o autor. Esse risco foi modificado posteriormente por João Nepomuceno Correia e Castro. Em 1789, é definitivamente adotado para esses altares um risco traçado em tamanho natural na parede interna do consistório. Quanto aos púlpitos, foi adotado o projeto elaborado por João Gomes. Em 1795, apenas os dois primeiros altares da série se achavam concluídos: os de Santa Quitéria e Santa Luzia, próximos ao arco-cruzeiro. Os dois seguintes (São João e Nossa Senhora da Piedade) foram executados pelo Aleijadinho e seus oficiais entre 1807 e 1809. Esse artista modificou o risco original, respeitando, todavia, em linhas gerais, o estilo dos altares precedentes. As urnas desses dois altares apresentam relevos esculpidos que constituem talvez os últimos trabalhos do Aleijadinho no gênero. A do altar de São João representa o profeta Jeremias na prisão e a de Nossa Senhora da Piedade, a paciência de Jó. Os relevos são cercados por inscrições alusivas ao tema. Os dois últimos altares, executados entre 1812 e 1814 por Justino Ferreira de Andrade, discípulo do Aleijadinho, copiam por razões de simetria o de Santa Quitéria e o de Santa Luzia. Note-se ainda que as sanefas ou guarda-pós introduzidos pelo Aleijadinho foram anexadas ao coroamento de todos os demais altares da nave. Esses retábulos foram dourados e pintados por Manuel da Costa Ataíde, em 1813. Os painéis de azulejo, de legítima faiança pombalina, decoram ainda os registros inferiores das paredes da capela-mor, ilustrando temas relativos à iconografia da Ordem. A pintura dos forros da nave e capela-mor que hoje se vê são obra do pintor italiano Angelo Clerici, que a executou entre 1908-1909. O cemitério anexo (de catacumbas) foi iniciado em 1824, sob a direção do arquiteto Manuel Fernandes da Costa, administrando posteriormente as obras o arquiteto João Miguel Ferreira. A obra foi concluída somente em 1868, tendo sido adotado, em 1861, novo projeto de autoria do engenheiro Henrique Gerber. Imagens de Minas - 65


teatro Municipal Está situado na rua Brigadeiro Mosqueira, antiga rua do Carmo. É considerado o teatro mais antigo da América do Sul. Foi o primeiro teatro brasileiro a apresentar mulheres intérpretes ou atrizes; isso ainda no século XVIII, quando os papéis femininos eram desempenhados por homens ou travestis. Seu primeiro proprietário foi o Coronel João de Souza Lisboa, contratador dos reais quintos e entradas, que também foi seu construtor. Foi concluído em 1769 e a abertura da Casa de Ópera (como era designado) ocorreu no dia 6 de junho de 1770, em homenagem ao aniversário do rei D. José I. Reformado a pedido da Sociedade Dramática Ouropretana a partir de 1861. Apresenta em sua fachada principal três portas almofadadas com verga em arco abatido, ladeado por cunhais, tudo em pedra; óculo central recortado e frontão triangular ornamentado com lambrequins em massa. É encimado por um ornato central, com forma de harpa e dois elementos decorativos laterais. Internamente, esse teatro apresenta platéia, palco, bastidores e camarotes em todo o seu prolongamento, com dois andares e grades de ferro trabalhado.

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Ponte do Ouro Preto, ou do Pilar Localiza-se na rua do Pilar, ou das Caldeiras, sobre o córrego do Ouro Preto, antigo Tripuí. Sua construção foi ordenada pelo Senado da Câmara de Vila Rica e a obra arrematada em 31 de dezembro de 1756. Essa ponte veio substituir uma em madeira. Foram fiadores da obra Jeronymo da Costa Cunha e Antônio Alves. O arrematante teria que seguir os termos: fazer a ponte, a volta do arco, parapeitos e assentos, as calçadas do meio, destruir os paredões da antiga ponte e construir uma ponte provisória, de madeira, ao lado. É uma ponte de pedra, com arco único abatido e dois muros parapeitos que servem de banqueta, sendo, por um lado, arrematada por duas pinhas torcidas e, do outro, por cruz central em pedra, e duas pinhas torças nas extremidades.

Chafariz do Pilar Situa-se na rua Américo Lopes, antigo Largo da Matriz do Ouro Preto. Foi tombado dentro do acervo arquitetônico e paisagístico de Ouro Preto, pelo SPHAN, em 20 de abril de 1938. Em 19 de novembro de 1848, um chafariz é transferido do Padre Faria para o Largo da Matriz, pois nessa data a Casa de Câmara e Cadeia reclama esta providência.

igreja Matriz de nossa Senhora do Pilar Localiza-se na Praça Monsenhor Castilho Barbosa, bairro do Ouro Preto. Foi tombada individualmente pelo IPHAN, em 08 de setembro de 1939. Por volta de 1728, os habitantes da freguesia do Pilar consideram a igreja “pequena, arruinada e em termos de cair”. Assim, decidiram sua demolição e a ereção de um novo templo, “com mais capacidade e segurança”. A construção da atual Matriz do Pilar foi iniciada entre 1728 e 1730, empenhando-se na obra o próprio governador da Capitania. Seu projeto é atribuído ao sargento-mor e engenheiro Pedro Gomes Chaves. O arrematante da obra principal foi João Fernandes de Oliveira (1731-1736).

Igreja de Matriz de Nossa Senhora do Pilar (interior) Imagens de Minas - 67


Igreja de Matriz de Nossa Senhora do Pilar 68 - Imagens de Minas


Em janeiro de 1731, procedendo-se à demolição da capela-mor, foram o Santíssimo Sacramento e as imagens transladados, provisoriamente, para a Capela do Rosário dos Pretos, filial da Matriz do Pilar. Pilar concluída, em termos arquitetônicos, em 1733, ano do Triunfo Eucarístico, procissão solene que assinalou a volta do Santíssimo Sacramento. Em 1736, com a intervenção de Antônio Francisco Pombal, a nave assumiu uma forma poligonal. Entretanto, dada a fragilidade do material empregado em sua construção − taipa − foi, em 1781, necessário reparar uma de suas torres, que ameaçava desabar. Em 1818, uma parede inteira do edifício ameaçava desabamento, sendo mantida por meio de escoras. Finalmente, em 1825, iniciou-se a urgente obra de reforma do templo, com a substituição da parede de taipa do lado da Epístola por alvenaria de pedra. Em 1848, concluíram-se o frontispício e a torre do lado do Evangelho e, em 1852, a torre do lado da Epístola, atingindo a Matriz do Pilar a sua configuração atual. Obras essas que tiveram como arrematante Manuel Fernandes da Costa. No interior desse templo, entre 1735 e 1737, foi realizada a decoração arquitetônica da nave, integrando seis altares laterais em talha dourada. Esses altares estão sob a invocação de São Miguel e Almas, Sant’Ana e Senhor dos Passos (lado da Epístola) e Santo Antônio, Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora das Dores (lado do Evangelho). Os altares de Santo Antônio e Nossa Senhora das Dores (1º e 3º do lado do Evangelho), são anteriores aos demais tendo, talvez, pertencido à igreja primitiva. Os coroamentos, entretanto, foram provavelmente refeitos para melhor integração ao conjunto, no arranjo definitivo da nave por Antônio Francisco Pombal. Os quatro altares restantes são do estilo caracterizado como estilo D. João V do Porto. São inteiramente dourados, assim como os dois púlpitos. O forro da nave é formado por caixotões curvilíneos e retilíneos, onde se inserem 15 painéis com personagens do Antigo Testamento. Seu desenho ou risco é de autoria de Antônio da Silva, datado de 1737. Em 1751, foi concluído o arco-cruzeiro. A talha da capela-mor, de autoria de Francisco Xavier de Brito, foi realizada entre 1746 e 1751. Ela inaugura, em Minas, o estilo caracterizado como estilo Brito. Comparada aos altares da nave, revela evidente preocupação arquitetônica, sendo bem mais nítida a trama estrutural do retábulo, organizada em função da tribuna central. O douramento é restrito aos elementos ornamentais, que sobressaem em fundo branco. Painéis de talha decoram também as paredes e forro da capela-mor e arco-cruzeiro. Nas paredes da capela-mor estão representados os quatro evangelistas e seus símbolos no registro superior. Já no registro inferior, estão representadas as quatro estações do ano. No painel circular, no centro da abóbada, tem-se a representação da Última Ceia.

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Capela de nosso Senhor do Bonfim Está localizada na rua Antônio de Albuquerque nº 42, antiga rua da Glória. Foi tombada individualmente pelo SPHAN em 8 de setembro de 1939. Segundo Manuel Bandeira, era nesta capela “que os condenados à forca alma” antes da execução.

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Construída no século XVIII, teve sua fachada completamente desfigurada no século XIX, quando sofreu reformas. Foi recuperada a sua fachada original, graças à restauração feita nos anos de 1957 e 1958, pelo SPHAN. A estrutura arquitetônica, toda em pedra e com sineira lateral, é bastante simples, o mesmo ocorrendo com o interior. A capela vem sendo utilizada como Passo, nos rituais da Semana Santa.

Chafariz da Glória ou do Bonfim Localiza-se na rua Antônio de Albuquerque, antiga rua da Glória, no bairro do Ouro Preto. Tombado individualmente pelo SPHAN em 19 de junho de 1950. Sua construção foi uma iniciativa do Senado de Vila Rica que, para tanto, deu-se no dia 12 de agosto de 1752. A obra devia obedecer ao mesmo risco utilizado na construção da fonte do Passo de Antônio Dias, do qual só diverge por pinhas que ladeiam o frontão. As peças são de cantaria do Itacolomi. No centro, está a fonte em argamassa de cal e areia e duas pilastras de cantaria em linha reta. Traz a data de 1753 gravada acima do painel superior. Acima da cimalha há um quadro que traz a inscrição latina “Curia Curat, Fabricat, Propinat, Abhorret, Nos Libertatem, Staqua, Flu [...] Ta Setim”. (O Senado cuida de nós, ama a abundância, fabrica os tanques, dá a beber as águas correntes, detesta a sede). Saem três bicas de três carrancas com um ornato conchóide, tendo embaixo uma bacia de laje única, com três cavidades.

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Chafariz da Gl贸ria ou do Bonfim Imagens de Minas - 71


Sobrado (de balcão) da rua da Glória Localiza-se na rua Antônio de Albuquerque (antiga rua da Glória), nº 134. Foi tombada dentro do acervo arquitetônico e paisagístico da cidade, em 20 de abril de 1938. Trata-se de exemplar representativo da arquitetura da primeira metade do século XVIII, formando antigamente conjunto com casa do mesmo tipo, caída em ruínas. A singularidade arquitetônica do prédio tem chamado a atenção, especialmente em razão da presença dos balcões em madeira que se salientam em sua fachada.

Sobrado da Rua da Glória

Passo da Ponte Seca ou da Verônica Está situado na rua Donato da Fonseca, antiga Ponte Seca. Foi tombado individualmente pelo SPHAN, em 8 de setembro de 1939. O Passo foi reconstruído em 1788, sendo seu arrematante Antônio de Barros. Esse difere dos demais Passos da cidade por não estar inserido no tecido urbano. Possui um altar em madeira, colunas salomônicas e resquícios de douramento.

Ponte Seca Localiza-se na rua Donato da Fonseca, antiga Ponte Seca. Denominada Ponte Seca por não haver um córrego abaixo dessa ponte. É um aterro em alvenaria de pedra e muro parapeito recoberto com grandes lajes.

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Ponte do Rosário ou do Caquende Fica na rua Bernardo Guimarães, sobre o córrego do Caquende. Arrematada em 10 de fevereiro de 1753 por Antônio Silva Erdeiro, foi construída em seis meses. Conforme os autos de arrematação, a ponte seria edificada junto das últimas casas próximas ao córrego, na parte de baixo. Toda ela obedeceu à planta, perfil e risco, dos quais não se conhece o autor. É formada por dois paredões de alvenaria de pedra separados por um arco pleno que dá passagem ao córrego e a uma passarela de pedestres, cujo acesso se faz pela travessa Odorico Neves, transversal à travessa Domingos Vidal.

Casa dos herdeiros do coronel Matos (ou chácara dos Matos) Localiza-se na rua Alvarenga (antiga rua das Cabeças), nº 12. O imóvel foi tombado dentro do acervo arquitetônico e paisagístico da cidade, em 20 de abril de 1938. Até o momento, não foram encontrados elementos documentais capazes de esclarecer sobre quem teria tido a iniciativa de sua construção. A casa é de construção da segunda metade do século XIX. Entretanto, é possível que tenha substituído edificação mais remota. A data – 1910 – inscrita na fachada, deve referir-se a alguma modificação ou reforma parcial feita no referido ano. Sabe-se, contudo, que seu projeto foi elaborado pelo engenheiro Henrique Dumont, pai do aviador Santos Dumont . Não se sabe, porém, se ele aí residiu. Residência assobradada, com adaptações do século XIX, apresenta varanda lateral, sinhaninha no beiral e fechamento de janelas em venezianas. O conjunto geral completa-se com o jardim lateral que, por sua vez, é valorizado pela ornamentação composta de estatuetas de cerâmica portuguesa de Santo Antônio do Porto.

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Igreja do Bom Jesus das Cabeรงas 74 - Imagens de Minas


igreja do Bom Jesus das Cabeças (ou São Miguel e Almas) Localiza-se na rua Alvarenga, Alto das Cabeças. Foi tombada individualmente pelo IPHAN, em 08 de setembro de 1939. A primeiro de agosto de 1771, os moradores da região conhecida como Passa Dez obtiveram licença da Mesa Capitular do Bispado de Mariana para poder erigir uma capela com a invocação do Santíssimo Coração de Jesus e São Miguel e Almas . As obras para a sua construção iniciaram-se provavelmente nesta época. Em 1778, estavam já bem adiantadas, pois foi quando se passou ajuste com o Mestre Pedro Francisco Rodrigues Lages, para a edificação do frontispício que incluía, entre outras obras, a confecção do “óculo, janelas e cruz”. No que diz respeito às obras de escultura que o ornamentam, são atribuídas a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. A iconografia dessa portada é bastante complexa, reunindo as três invocações da Igreja: São Miguel e Almas, Sagrados Corações e Bom Jesus do Matozinhos. A primeira está representada pela figura de São Miguel e pelo relevo das Almas do Purgatório. Os Sagrados Corações de Jesus, Maria e José figuram na chave do arco, acima do nicho e sem monogramas na tarja segurada pelo Arcanjo. Finalmente, o símbolo do pelicano, emblema do sacrifício da Paixão, alude diretamente à devoção do Bom Jesus do Matozinhos, que é o Cristo Crucificado. A decoração interna da Igreja é extremamente simples, nada apresentando de particular interesse no que diz respeito à talha. Merecem, entretanto, referência especial a imagem do Senhor do Sepulcro e duas pinturas de Manuel da Costa Ataíde (Ceia e Crucificação) nos corredores laterais.

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Sobrado da rua Alvarenga, nº 33 Não foram encontrados, até o momento, elementos documentais suficientes para a elaboração de seu histórico. É um sobrado em alvenaria de pedra, apresentando cimalha em madeira e massa, e cunhais de pedra. No pavimento superior, encontram-se quatro janelas rasgadas por inteiro, com parapeito entalado e grades de ferro trabalhado; com postigo sobreposto e verga em arco abatido. O pavimento inferior possui duas portas com verga em arco abatido e três janelas com postigo sobreposto e verga, também, em arco abatido.

Casa dos irmãos Cota Situa-se na rua Alvarenga, nº 58, antiga rua das Cabeças. Foi tombada dentro do acervo arquitetônico e urbanístico da cidade, em 20 de abril de 1938, pelo SPHAN. Esta casa é considerada como característica da segunda metade do século XVIII. Utilizou-se em sua construção alvenaria de pedra, madeira e taipa de sebe. Essa edificação também tem um vestíbulo em seixos rolados, de desenhos e gosto moçárabe.

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Chafariz da rua das Cabeças i Localizado na rua Alvarenga, antiga rua das Cabeças, ao lado do número 119. Foi tombado dentro do acervo arquitetônico e paisagístico em 20 de abril de 1938. Não se localizaram até o momento, elementos documentais que esclareçam algo a respeito de sua construção.

Capelinha do Bom Jesus da Pedra Fria A capelinha do Bom Jesus da Pedra Fria faz parte do grupo de capelinhas pertencentes à freguesia do Pilar. Está localizada na rua Alvarenga, antiga rua das Cabeças, em frente ao número 213. Foi tombada dentro do acervo arquitetônico e paisagístico da cidade, em 20 de abril de 1938, pelo SPHAN. Esta capela, feita em alvenaria de pedra, de planta retangular, apresenta em sua fachada beiral de cachorro simples, ombreira de pedra, verga de pedra em arco abatido e cunhais em pedra aparelhada, não possuindo janelas. No seu interior, composto de apenas um único compartimento, encontra-se o altar, tendo os fiéis que assistir aos ofícios religiosos do lado de fora.

Chafariz da rua das Cabeças ii Situado na rua Alvarenga, antiga rua das Cabeças, em frente às residências de números 311 e 313. Foi tombado dentro do acervo arquitetônico e paisagístico, em 20 de abril de 1938. A iniciativa de sua construção partiu do Senado da Câmara de Vila Rica, se construído no período colonial, ou da Câmara Municipal de Ouro Preto, se posteriormente. Desconhecem-se, porém, detalhes a respeito de sua construção. Possui bacia retangular com pia única em pedra.

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Chafariz do Alto das Cabeças Situado na rua Alvarenga, antiga rua das Cabeças, junto ao muro do adro da igreja do Senhor Bom Jesus e São Miguel e Almas, no bairro Cabeças. Foi tombado individualmente pelo SPHAN em 19 de junho de 1950 Obra arrematada em 20 de junho de 1723, por Francisco de Lima que, talvez, seja o artista Francisco de Lima Cerqueira. Os autos de arrematação davam a ele três meses para concluir a obra, da qual foram fiadores João Alves Viana e Martinho Fernandes. Tem como ornato dois peixes cruzados no frontispício. Embaixo, possui um maciço de alvenaria em formato circular, que recebe uma bacia com duas cavidades.

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Chafariz da Coluna Situa-se na rua Alvarenga, antiga rua das Cabeças, ao lado da casa de número 746. Foi tombado dentro do acervo arquitetônico e paisagístico, em 20 de abril de 1938. Desconhecem-se minúcias a respeito de sua construção que deve sua iniciativa, provavelmente, à municipalidade. Presumivelmente datado do século XIX. É formado por coluna de alvenaria de pedra com base, fuste, capitel e arquitrave, fuso e cornija, tendo pedestal protegido por lajes, que serviam para descanso de barris.

Casa de Bernardo Guimarães Localiza-se na rua Alvarenga, nº 794, na antiga rua das Cabeças Foi tombada dentro do acervo arquitetônico e paisagístico da cidade, em 20 de abril de 1938. É uma construção do século XIX, mas não temos, até agora, nenhum documento que esclareça sobre a data precisa em que a residência foi erguida ou referente aos executores e responsáveis por ela. Sofreu algumas mudanças devido à necessidade de adaptação aos novos fins a que está destinada, dentre elas, a construção de um pavilhão. Possui beirais de cachorro e cimalha. Apresenta nove sacadas “isoladas” com piso em madeira, parapeito em ferro fundido e postigo sobreposto, sendo que as janelas inferiores são dos tipos guilhotina e saia-e-camisa. As quatro portas são do tipo calha e, tanto elas como as janelas, são com vergas curvas. Na maior parte dos cômodos, os pisos são em tabuado largo e saia-e-camisa, ocorrendo, em alguns deles, pintura decorada. Deve ser destacada a existência de uma capela, mas a respeito da qual não existe, até o momento, nenhum documento esclarecedor da época de sua construção.

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Colégio Baeta Localiza-se na rua Felipe dos Santos, nº 165. Foi fundado em 27 de novembro de 1895, segundo informações contidas em placas existentes em sua fachada. Não se conhecem, até o momento, dados a respeito de sua construção. A fachada é azulejada com quatro estátuas de porcelana geometricamente dispostas e separadas por pinhas, também em porcelana. Apresenta janelas com verga curva, ombreiras e peitoril em pedra e gelosias em treliça, distribuídas em dois grupos de três, separadas pela porta em arco pleno, bandeira de ferro e com duas folhas de madeira.

Chafariz do Largo de Frei Vicente Botelho Localizado no referido Largo. Não se conhecem a época de sua construção, autoria e responsabilidade de execução e evolução das obras. Foi tombado em 20 de abril de 1938, pelo SPHAN. Possui duas pilastras de cantaria, sem ordem, ligadas superiormente por verga reta, tendo no centro, como arremate, uma cruz adulterada, em cimento. No centro do quadro, há um losango, com fundo em cantaria, furado no meio e provido de calha à moda de bica. Suas partes de alvenaria estão rebocadas e caiadas. Possui bacia retangular de pedra.

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Casa do Balanço Localiza-se no Largo de Frei Vicente Botelho, nº 85. Foi tombada dentro do acervo arquitetônico e paisagístico da cidade em 20 de abril de 1938, pelo SPHAN. A residência é considerada como um exemplar do século XVIII, de acordo com a sua estrutura arquitetônica e seu sistema construtivo. A denominação de Casa do Balanço provém do fato de ela ter o seu corpo principal insinuando-se para a rua, como um balcão sem apoio aparente. Houve inserção de dois cômodos pequenos, no fundo do pavimento principal.

Ponte da Barra Localizada no final da rua Antônio Martins com a praça Prefeito Amadeu Barbosa, sobre o córrego do Funil. Compõe-se de um paredão de alvenaria de pedra, que serve de aterro à primeira parte da ponte e dois arcos plenos separados por estrutura de pedra de forma hidrodinâmica. No passadiço, dois pequenos largos de forma circular e, ao centro destes dois, uma cruz sobre acrotério, ambos em pedra talhada. Seu muro parapeito, em alvenaria de pedra, é um prolongamento na vertical dos paredões que a formam.

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Chafariz da Barra Localizado na praça Prefeito Amadeu Barbosa, encontrando-se bem abaixo do nível da rua, sendo seu acesso feito por meio de uma escadaria fronteiriça. Compõe-se de um paredão ladeado de duas pilastras com base, fuste e capitel, arrematado em verga reta. Ao centro, em baixo-relevo, arco pleno em alvenaria de pedra rebocada. Suas três bicas estão secas e sua bacia circular possui elementos ornamentais em forma de pétalas, apoiando-se sobre pedestal cilíndrico abaulado. Possui muro parapeito ao fundo, que também serve de banco, e um muro divisório em alvenaria de pedra e canga.

Ponte do Funil Localiza-se na rua Diogo de Vasconcelos, entrada da praça Cesário Alvim, sobre o ribeirão do Funil. A respeito de sua construção, sabe-se, até o momento, que, em 04 de fevereiro de 1892 a Intendência Municipal colocou em hasta pública o seu alargamento. É interessante notar sua largura e seu sistema de drenagem. É guarnecida por dois muros parapeitos, em toda sua extensão, que servem também de bancos.

Chafariz do Jardim Botânico Localiza-se nos terrenos do Instituto Barão de Camargos, antigo Jardim Botânico do Passa Dez, na entrada de Ouro Preto, pela rodovia dos Inconfidentes. Foi tombado junto com o acervo arquitetônico e paisagístico da cidade, pelo SPHAN, a 20 de abril de 1938. Sua construção deve prender-se historicamente à do próprio Jardim Botânico, que foi instalado por iniciativa do governo da Província e inaugurado em 1825. Seu chafariz deve, provavelmente, datar desse período ou de pouco depois. O chafariz está parcialmente destruído, sobrando apenas, no paredão central de alvenaria de pedra, um detalhe em pedra lavrada. Possui duas bicas em forma de peixe estilizado, já bastante danificado.

Capelinha da Cruz das Almas Pertencente à Freguesia do Pilar, está situada no final da rua Henrique Adeodato, antiga ladeira da Cruz das Almas ou do Hospício. Foi tombada dentro do acervo da cidade, em 20 de abril de 1938, pelo SPHAN. Construída no final do século XIX, como nos atestava a data que se achava inscrita em sua fachada: 1888. Contudo, em 1980, uma batida de carro provocou o desaparecimento dessa data. É possível que nesse local existisse uma capelinha anterior, caso em que a atual seria uma reconstrução. Esta capelinha, com estrutura de madeira e alvenaria mista, possui óculo recortado em ângulos retos. Apresenta um único compartimento, no qual existe um altar onde está colocada uma cruz. É a menor de todas as capelinhas de Ouro Preto.

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Capelinha da Cruz das Almas Imagens de Minas - 83


Casa dos herdeiros Rocha Lagoa Localiza-se na rua Teixeira Amaral (antiga ladeira de São José), nº 50, no Morro de São Sebastião. Foi tombada dentro do acervo da cidade em 20 de abril de 1938. Até o momento, não foram localizados elementos documentais sobre quem teria tido a iniciativa de sua construção. Trata-se de construção de linhas tradicionais, integrada à feição arquitetônica local característica do século XVIII. A casa é valorizada, externamente, por um jardim lateral em patamares.

Casa da República Quitandinha Localiza-se na rua Teixeira do Amaral, nº 102 (antiga ladeira de São José), no Morro de São Sebastião. Foi tombada dentro do acervo arquitetônico e paisagístico da cidade em 20 de abril de 1938. Trata-se de uma construção de linhas tradicionais, integrada à feição arquitetônica local característica do século XVIII. Não foram encontrados, até o momento, elementos documentais capazes de esclarecer quanto à autoria do projeto e responsabilidade por sua execução. Inserida em local de área razoável, com espaços vazios aos fundos e lados da construção, ela estaria valorizada originalmente pela existência de pequeno jardim e pomar, dos quais restam vestígios.

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igreja de São José Localiza-se no final da rua Teixeira Amaral, no Morro de São Sebastião. Foi tombada individualmente pelo SPHAN em 08 de setembro de 1939. Por volta de 1744, já cogitavam os irmãos de São José da construção de um novo templo, datando deste ano uma petição a D. João V,solicitando confirmação do terreno concedido pela Câmara. Dois anos mais tarde, os irmãos enviam nova carta ao rei D. João V, solicitando a concessão de uma esmola para a reedificação de sua capela. Iniciadas em 1753, as obras já deviam estar bem adiantadas em 1761, data da visita canônica e bênção da nova igreja. Concluída a nave por volta de 1759 (data do último recibo de José Pereira dos Santos), tem início, no ano seguinte, a construção da capela-mor, arrematada por Antônio Rodrigues Falcato, obra que ocuparia o período compreendido entre 1760 e 1764. Datam de 1772 dois riscos fornecidos pelo Aleijadinho para a Irmandade de São José, na qual fora admitido como irmão naquele mesmo ano: o “risco da torre” − que não chegou a ser executado − e o “risco do retábulo da capela-mor”, cuja talha foi realizada por Lourenço Rodrigues de Sousa entre 1775 e 1778. A decoração da capela-mor completou-se com a pintura do forro (Desposório de São José), obra de Manuel Ribeiro Rosa, executada no período 1779-1783 e removida em princípios do século XX . O frontispício atual foi construído em princípios do século XIX. Iniciada em 1810 por Miguel Moreira e concluída no período 1828-29 por José Veloso Carmo, sua construção parece ter-se baseado em um segundo risco, feito por João Machado de Sousa em 1801, e não no risco do Aleijadinho de 1772 (que previa duas torres). Dividida em nave, capela-mor e sacristia, cujo acesso é dado pelos corredores ao longo da capelamor, a planta da igreja filia-se ao partido típico adotado pela arquitetura religiosa mineira da segunda metade do século XVIII. Sua fachada, entretanto, é totalmente inovadora, apresentando características únicas no panorama geral das construções religiosas do período. Isso se prende ao fato de ela apresentar uma torre única que emerge de sobre o terraço que a circunda (situado no nível do segundo pavimento); o que lhe fornece um partido arquitetônico absolutamente original. A fachada da igreja, com seu terraço arredondado, ornado de bela balaustrada de pedra-sabão e sua graciosa torre arrematada por pirâmides, pode, sem dúvida, ser considerada como uma das mais significativas de Ouro Preto. Internamente, a igreja apresenta, em seu altar-mor, uma talha decorada de maneira bem simples. Em seu cemitério, foi enterrado o poeta Bernardo Guimarães.

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Igreja de SĂŁo JosĂŠ 86 - Imagens de Minas


Capela de São Sebastião Situa-se no Morro de São Sebastião, na freguesia de Nossa Senhora do Pilar. Da mesma forma que outras capelas, a sua construção parece ter sido iniciativa dos moradores que viviam naqueles arredores. Foi tombada individualmente pelo IPHAN em 8 de setembro de 1939. Sobre o arco-cruzeiro pode ser lida a data de 1753, que seria o ano de sua construção. Contudo, houve reconstrução e remodelamentos por volta de 1837, que se prolongaram até 1906 O partido arquitetônico é o comumente utilizado na região, isto é, dividido em nave, capela-mor e sacristia lateral. Esta capela é toda em pedra e possui um frontão triangular arrematado por uma cruz em pedra, com óculo e duas sineiras à guisa de torres. Essas, entretanto, não são usadas porque existe um campanário isolado, onde está localizado o sino. Seu interior é pobre, não havendo nenhum tipo de ornamentação exuberante. Apresenta apenas o altar-mor de formas classicizantes, sem policromia e douramento. Ainda podem ser vistos resquicíos de pintura original do altar-mor.

Chafariz do Morro de São Sebastião Localiza-se no fim da ladeira que dá acesso ao Morro de São Sebastião, prolongamento da rua Henrique Gorceix. Embora não se conhecendo detalhes sobre seu histórico e construção, parece ter sido construído entre fins do século XIX e início do atual. Possui base e coluna de ferro fundido, com fuste interrompido por estrias. Apresenta, ao meio, uma torneira. O capitel é trabalhado e arrematado por pinha.

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Capela de Sant’Ana Localiza-se no Morro de Sant’Ana ou Morro da Queimada. Segundo opiniões de técnicos do SPHAN, esta capela deve ter sido construída em período anterior a 1720, embora tenha recebido reformas e acréscimos com o passar dos anos. Como ocorre também com o que diz respeito à execução, autoria e iniciativa, não possuímos ainda nenhum documento que nos esclareça sobre este ponto. Foi tombada individualmente pelo SPHAN, em 6 de dezembro de 1949. A capela foi executada em canga, apresentando nave, capela-mor e sacristia. Possui sineira isolada do corpo do edifício. O seu frontão é triangular arrematado por uma cruz, tendo dois pináculos nas extremidades e um óculo recortado. Não existem torres. Os seus portais exteriores, de cantaria, são com verga em arco abatido O interior é pobre, tendo grades de jacarandá na nave e no coro, piso em tabuado largo, seteiras no lugar de janelas e portas almofadadas. O arco-cruzeiro é em madeira, arrematado por tarja pintada. Os altares, situados neste local, são de talha simples e apresentam policromia adulterada. Sob o coro existem duas pias de água benta, que são em pedra lavrada. É interessante notar, no adro dessa capela, piso em mosaico de pedra, formando desenhos e dísticos; trabalho do artista-pedreiro Vado Ribeiro.

Capelinha da Cruz Localiza-se no Morro da Queimada. Foi tombada em 20 de abril de 1938, dentro do acervo arquitetônico e paisagístico da cidade São poucos os elementos documentais concernentes a esta capelinha, sabendo-se somente que foi reconstruída no século XIX, utilizando-se para tanto, pedras de canga argamassadas. No seu interior, existe uma cruz de madeira, com todos os martírios, que pode ser considerada arte popular.

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Capela de São João Batista Situada no Morro de Ouro Fino, antigo arraial do Ouro Podre. A capela foi tombada individualmente pelo SPHAN em 8 de setembro de 1939 Foi construída antes de 17 de julho de 1743. Em 1761, foram reedificadas as paredes da sacristia por ordem do padre Visitador José dos Santos. O material utilizado em sua construção foi a canga. A sua fachada possui frontão triangular arrematado por uma cruz e dois elementos piramidais, em pedra, nas extremidades; janelas altas, do tipo guilhotina; óculo rebaixado e porta principal com batentes almofadados. O sino está colocado em uma posição lateral. É interessante notar a introdução de curvas na nave deste monumento, que possui interiormente grade de balaústres torneados, enquanto que a do coro é de tábuas recortadas. No retábulo, está pintada a representação dos doze apóstolos. O altar-mor apresenta confecção simples. O adro dessa capela é todo cercado por um muro, tendo, em seu lado direito, algumas sepulturas.

Capela de nossa Senhora da Piedade Esta capela situa-se no Morro da Piedade ou Morro da Queimada, como também é denominado. A segunda denominação advém do fato de aí se localizar, no início do século XVIII, as lavras de Pascoal da Silva Guimarães, um dos cabeças do motim ocorrido em 1720 contra a criação das Casas de Fundição, que passou à história como Sedição de Vila Rica. Naquela época, o local denominava-se arraial do Ouro Podre. Com a derrota dos revoltosos, o dito arraial foi exemplarmente queimado, a mando da Coroa Portuguesa. Daí por diante, o local ficou conhecido com o nome de Morro da Queimada . Podemos fixar como data provável para a construção da capela o ano de 1720, que é a data inscrita na peanha da cruz. Não foi encontrado, até o momento, nenhum documento alusivo à sua construção, o que nos impossibilita a identificação dos autores e responsáveis por sua execução. Foi tombada individualmente pelo SPHAN, em 8 de setembro de 1939. Apresenta uma fachada simples, com porta inferior de verga reta, encimada por duas sacadas com balaústres de jacarandá. Não possui torres, tendo, em seu lugar, sineiras e, no frontão, apenas um óculo redondo.

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O seu interior ĂŠ bastante simples, de paredes lisas. Na nave da capela, encontram-se duas pias em cantaria muito bem ornadas e dois altares simples e incompletos no arco-cruzeiro, que ĂŠ de pedra aparelhada. Existem ainda seteiras, como ocorre tambĂŠm na capela-mor. Tanto a nave como o coro possuem grades de jacarandĂĄ muito bem torneadas. O altar-mor neoclassicizante tem uma talha pobre onde predominam elementos planos e com os dourados caiados.

Capelinha de Nossa Senhora da Piedade

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Chafariz das Águas Férreas Situa-se na rodovia MG-56, que é um prolongamento do Caminho das Lages. Foi tombado dentro do conjunto arquitetônico e paisagístico em 20 de abril de 1938 É um manancial afamado desde o início do século XIX, quando foi construído. É um chafariz parietal muito simples, tendo só uma bica sem carranca, ladeada de dois adornos em cantaria. Apresenta numa moldura oval, sob a verga, os seguintes dizeres: “Presidindo a Capitania o Ilmo. Sr. Pedro Xavier de Athayde e Mello mandou a Câmara construir esta fonte em benefício da Saude Publica. Em o anno de 1806”.

Capela do Senhor Bom Jesus das Flores do taquaral Esta capela está situada na estrada que liga Ouro Preto a Passagem de Mariana, do lado esquerdo. Foi tombada individualmente pelo SPHAN em 8 de setembro de 1939. Era conhecida com o nome de Capela de Nossa Senhora do Pilar do Taquaral, tendo a mudança de denominação ocorrida após 1855. O início dos trabalhos de construção deve ter se dado em 1748, ano em que a capela foi erguida canonicamente, a pedido dos moradores da região, por Provisão de 28 de outubro. A capela é dividida em nave, capela-mor e sacristia lateral. O frontispício apresenta duas sineiras e duas janelas de coro, com balaústres de madeira. Contém em seu interior três altares em talha simples. O altar-mor possui colunas estípides, nichos e o trono é dedicado ao Senhor Bom Jesus das Flores. Os altares laterais são mais trabalhados, com guarda-pó ornado em lambrequim, colunas e consolos, dedicando-se à Sagrada Família e a Santo Antônio. Estes altares laterais conservam, até hoje, restos de pintura da época, provavelmente segunda metade do século XVIII. Os forros da nave e capela-mor que se encontravam repintados desde 1930 foram recuperados na década de 1980 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG). No forro da nave, está uma pintura a óleo do século XVIII, com um belo medalhão representando Nossa Senhora da Conceição, tendo aos pés um quarto de lua e o demônio, figurado por um dragão. Flores emolduram este medalhão, de forma circular, como na Capela do Padre Faria. No forro da capela-mor, também do século XVIII, está a representação de Nossa Senhora do Pilar.

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Capela de nossa Senhora das Dores A Capela de Nossa Senhora das Dores está situada entre os bairros de Antônio Dias e o da Barra, sendo possível chegar até ela através da rua das Dores. De acordo com notas existentes, foi a provisão de 31 de janeiro de 1779 que permitiu a construção da primitiva capela que teve, como entidade patrocinadora, uma confraria que posteriormente (1862) passou a Ordem Terceira. Mas a capela, que hoje vemos, tendo toda a sua estrutura em pedra, é datada de 1835. Entretanto, foi entre os anos de 1845 e 1850 que a sua construção avançou até a fachada atual. Infelizmente ainda nos são desconhecidos os nomes dos autores desta capela pois não foi localizado, até o momento, nenhum dado esclarecedor sobre o assunto. Foi tombada individualmente pelo SPHAN em 8 de setembro de 1939.

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MUSEUS Museu do Oratório Está situado na antiga Casa Capitular da Ordem Terceira do Carmo, ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Seu acervo é composto de diversos tipos de oratórios como os de algibeira, os bala, os de esmoler, os arca, os de alcova, os de arte conventual e o pingente; confeccionados nos séculos XVIII e XIX para a prática devocional dos fiéis.

Museu Aleijadinho Está situado na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, com um anexo em funcionamento na Igreja de São Francisco de Assis. O Museu foi criado em 1968 para reunir, em um só espaço, peças de arte sacra e documentos gráficos com a finalidade de conservar, preservar e difundir o acervo da Paróquia de Nossa senhora da Conceição. A maior parte do acervo encontra-se em exposição permanente em três ambientes distintos: Sala da Sacristia e Sala da cripta, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, e na Igreja de São Francisco de Assis.

Museu Casa Guignard Está situado na rua Direita, nº 110, e integra o sistema operacional da Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais. Como o próprio nome indica, o Museu foi criado com o objetivo de preservar e difundir a obra de Alberto da Veiga Guignard − considerado um dos maiores pintores e desenhistas brasileiros do século XX −, especialmente sua produção do período em que aqui viveu, dominada pela temática das cidades coloniais e da paisagem mineira e seu papel na Escolinha do Parque, em Belo Horizonte, responsável pela formação de artistas que romperam com a linguagem acadêmica, consolidando o modernismo nas artes plásticas em Minas Gerais. Seu acervo reúne obras do pintor, objetos e peças que ilustram a sua vida, bem como trabalhos de outros artistas, dedicados ao mestre Guignard. Exposições temporárias dinamizam o espaço cultural.

Museu da inconfidência Localizado na Praça Tiradentes, na antiga Casa de Câmara e Cadeia de Vila Rica. O Museu tem como objetivo documentar, pesquisar e preservar a memória da Inconfidência Mineira. Além disso, constitui um vasto repositório de peças que testemunham a conjuntura histórica que cerca o movimento de 1789: meios de transporte, sistemas de iluminação, processo de construção civil, equipamentos de casa, culto religioso, hábitos de higiene, decoração, mobiliário doméstico, sacro e de uso público, arte religiosa, artesanato e armaria. O arquivo histórico, composto de cerca de 40.000 documentos, além de peças relacionadas com a Inconfidência Mineira e seus protagonistas, apresenta processos que tiveram curso na justiça de Ouro Preto, partituras musicais, recibos que comprovam a autoria de obras de Antônio Francisco Lisboa − o Aleijadinho −, atas da Câmara Municipal, entre outros. A biblioteca da instituição possui, entre inúmeras obras raras, um total de 17.000 volumes. O Museu desenvolve atividades de pesquisa, educação e restauração em seus quatro anexos. Possui uma sala de exposições temporárias e o auditório-sala de projeção, que trabalha com vídeos, filmes, e a promoção de debates e palestras.

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Museu de Ciência e técnica da escola de Minas/ uFOP Está implantado no prédio do antigo Palácio dos Governadores, localizado na Praça Tiradentes que, posteriormente, abrigou a Escola de Minas e Metalurgia. O Museu foi criado com a finalidade de contribuir para a formação da consciência social sobre os valores do patrimônio técnico científico, enfatizando a democratização do conhecimento através da educação não formal e preservação do precioso acervo da Escola de Minas, que se constituiu em repositório de peças raras que testemunham a evolução científica e tecnológica da engenharia brasileira. São mais de 30.000 peças catalogadas e exibidas ao público, divididas, até o momento, em nove setores temáticos: História Natural (zoologia e paleontologia), Mineração, Mineralogia, Metalurgia, Siderurgia, Desenho, Topografia, Astronomia e Eletrotécnica.

Museu de Arte Sacra da igreja do Pilar Está implantado no porão da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, guardando tesouros da diocese, desde prataria e ourivesaria, imaginária, paramentos, etc. O Museu foi implantado para maior segurança dos objetos sacros datados dos séculos XVIII e XIX. Entre as obras principais está a Nossa Senhora das Mercês do mestre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

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dISTRITOS dE OURO PRETO Amarantina Matriz A atual matriz, construída em fins do século XVIII, sofreu pesada intervenção na primeira metade do século XX, descaracterizando a fachada e as torres. Está localizada numa área agradável e pitoresca, no centro do arraial, em frente à praça. Nos seus arredores, encontram-se as ruínas de um exemplar de arquitetura residencial, classificada por Sylvio de Vasconcellos, em 1948, como “casa bandeirista”, ou bandeirante.

Casa Bandeirista A casa bandeirista de Amarantina está localizada em um terreno de 2.000 m², à meia encosta, distante 400 m do rio Maracujá e, afora as paredes de pedra, os demais elementos − planta, cobertura, acabamentos internos e esquadrias − segundo levantamento realizado pelo SPHAN em 1948, enquadramse rigorosamente na tipologia paulista, formando um conjunto harmônico e gracioso com a matriz. Como se trata de área rural, ainda não foi possível localizar informações sobre seus construtores e circunstâncias de construção, pois não se cadastravam imóveis de povoações, para efeito de cobrança de foros, sendo necessária uma pesquisa em cartórios de notas do município. A casa foi tombada em 1963 pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, já em estado precário de conservação, terminando por ruir quase que inteiramente, em 1979, por ocasião do excesso de chuvas ocorridas naquele ano. Após o desabamento, foi desapropriada pela Prefeitura Municipal, restaurada e doada à comunidade local para a instalação de um centro de cultura e folclore.

eventos Entre outras festividades tradicionais, Amarantina ficou famosa por sua festa do alho, que se realizava anualmente em março. Essa festividade, porém, já não existe mais, devido ao pouco plantio da cultura do alho no decorrer dos anos. Entre outras comemorações religiosas regulares que ocorrem nesse distrito, sem dúvida, a mais concorrida é a cavalhada - de raízes medievais portuguesas, que simboliza a luta entre mouros e cristãos. Sua realização remonta ao século XVIII. Abandonada por certo tempo, foi restaurada em 1892 a pedido do historiador Diogo de Vasconcelos e realizada sem interrupção desde então.

Museu das Reduções de Amarantina Localizado às margens da Rodovia dos Inconfidentes. Nele estão expostas réplicas perfeitas de alguns dos principais edifícios de cada período da história do Brasil, tais como: Casa dos Contos de Ouro Preto, Casa de Câmara e Cadeia de Mariana, Igrejinha da Pampulha em Belo Horizonte, Palácio da Alvorada em Brasília, entre outros. As reduções se diferenciam de maquetes pelo fato de usar, na sua confecção, os mesmos materiais empregados na construção original, além do minucioso trabalho de detalhamento na construção, que é feita numa escala precisa.

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Antônio Pereira

Monumentos São pouquíssimas as construções remanescentes do período colonial, especialmente na arquitetura residencial. Apenas os monumentos religiosos e resquícios de grandes muros de pedra e alicerces de antigas construções evidenciam a antigüidade lugar. No que diz respeito aos monumentos religiosos, merecem atenção especial do visitante as ruínas da antiga Matriz e a Gruta de Nossa Senhora da Lapa. A antiga Matriz, erguida no centro do arraial, substituiu a primitiva capela dos primeiros tempos e sua invocação é Nossa Senhora da Conceição, padroeira do distrito. Foi edificada em alvenaria de pedra por volta de 1740, tendo sido destruída por um incêndio em meados do século XIX. Suas ruínas abrigam em seu interior um acanhado cemitério paroquial. Quanto à gruta que serve de templo natural sob a denominação de Nossa Senhora da Lapa, sabe-se que, desde o século XVIII, já possuía essa destinação. Um documento existente no Arquivo Histórico Ultramarino, em Portugal, datado de 1768, traz o relato da descoberta − 15 de agosto de 1767, data em que é comemorada a Assunção de Nossa Senhora − de uma grande lapa que possuía não apenas o formato de um templo como, ainda, suas formações naturais assemelhavam-se a anjos, santos e mesmo o Cristo Crucificado e Sua Mãe. Afirma o referido documento que ali começaram a ocorrer inúmeros prodígios para aqueles que utilizaram a água que corria de suas pedras. Prodígios esses que deveriam ser atribuídos à intervenção divina de Nossa Senhora. O pequeno templo instalado na gruta atrai centenas de visitantes e fiéis, em busca tanto da inusitada beleza da gruta quanto dos benefícios milagrosos atribuídos à padroeira da igrejinha. No dia 15 de agosto, ocorre a festa de Nossa Senhora da Lapa.

Atrações naturais A área rural de Antônio Pereira possui uma das mais belas paisagens do município de Ouro Preto. Sua região serrana integra o parque da Cachoeira das Andorinhas, onde se localiza a nascente do rio das Velhas e vários ribeirões como o Gualaxo, Mata-Mata, Romão e Natividade, que nascem em áreas preservadas de matas típicas de altitude, sendo o ambiente preferido de lobos-guará. Dentre as quedas d’água, destaca-se a cachoeira do Mata-Mata, que atrai moradores e visitantes.

Cachoeira do Campo igreja Matriz de nossa Senhora de nazareth A atual matriz teve sua construção iniciada em 1725 e prolongou-se até o final do século XVIII. No entender de especialistas em arte colonial mineira, esse templo marca um momento de transformações na arquitetura religiosa mineira, pela originalidade de seu frontispício, na qual o autor do risco rompe com o tradicional frontão triangular, projetando uma fachada simples, mas arrematada em linhas curvas. Inaugura-se, assim, uma tendência que culminaria, no final do século, na obra- prima do mestre Aleijadinho, o frontão fragmentado da Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto. Internamente, a Matriz apresenta cinco belíssimos altares, em estilo nacional-português e Dom João V. A capela-mor apresenta pinturas parietais realizadas por Antônio Rodrigues, também responsável pela pintura de seu forro realizada em 1755, segundo o padre Afonso de Figueiredo Lemos. Segundo o mesmo autor, as arcadas de talha dourada do coro e o arco do cruzeiro foram arrematados, em 1752, por Américo Machado e Manuel Rodrigues, sendo que as torres só foram construídas em 1792.

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igreja de nossa Senhora das Dores De aspecto singelo, a Igreja de Nossa Senhora das Dores foi construída em 1761, em alvenaria de pedra, apresentando um traçado despojado e torres quadrangulares de cobertura piramidal. A decoração interna também é bastante simples, destacando-se os painéis da capela-mor − que representam a Paixão de Cristo − e o medalhão do forro, representando um milagre da Virgem, à maneira de um ex-voto. A capela é peça fundamental nas comemorações da Semana Santa, pois é a coadjutora da Matriz nas procissões do Encontro e do Enterro.

igreja de nossa Senhora das Mercês Construída em 1908 pelo pároco Afonso de Figueiredo Lemos, a Igreja das Mercês, de inspiração neogótica, possui fachada curva em que a torre central se destaca do plano, o que confere certo movimento ao conjunto. Possui em seu interior três altares também de inspiração neogótica, executados em madeira escura. Está situada numa pequena praça, em posição frontal à Matriz, que fica a algumas centenas de metros rua abaixo, compondo, com as árvores próximas, um recanto pitoresco e agradável.

Capela do Bom Despacho Dedicada a Nossa Senhora do Bom Despacho, a capela possui um partido simples, típico das capelas rurais mineiras do século XVIII. Internamente apresenta três altares, também do século XVIII. Sineiras destacadas do corpo da capela, mas que mostram sinais evidentes de descaracterização. Os sinos trazem as datas de 1855 e 1856.

Capela de Santo Antônio Em ruínas até a década de 1990, esta capela de fins do século XIX foi reconstruída. Sua fachada inspira-se no partido dos arcos de triunfo da Antigüidade Clássica, com portada em arco pleno, nichos laterais e frontão triangular e uma sineira lateral. No alto do Tombadouro, existem a capela de São Francisco, com sua sineira lateral e a capela de São João que, por suas proporções e simplicidade se assemelham a Passos.

Palácio de Verão dos Governadores O Palácio de Verão foi provavelmente iniciado pelo conde de Assumar e, em torno de 1731, já se encontrava construído. O seu mais famoso ocupante foi o Visconde de Barbacena, governador da Capitania, à época da Inconfidência Mineira. O governador tinha como secretário e preceptor dos filhos o inconfidente José Álvares Maciel, também morador no Palácio. A casa foi parcialmente demolida e descaracterizada no início do século XX, para a instalação de um colégio. Restam ainda a ponte de pedra que lhe dava acesso.

Quartel da tropa de Linha As obras do primitivo quartel foram realizadas durante o governo de Martinho de Mendonça em 1737, que reconheceu a privilegiada posição estratégica de Cachoeira do Campo, evidenciada durante a guerra dos emboabas e dos motins do sertão. Os quartéis de Vila do Carmo lutavam com a escassez de pastos adequados para os cavalos da tropa, o que decidiu a questão a favor de Cachoeira. Em 1779, o primeiro edifício foi substituído por outro maior e mais fortificado: partido tradicional quadrangular com torreões nos ângulos e um pátio interno. Sofreu descaracterização, mas a sua estrutura térrea é a mesma, conservando inclusive uma cartela em pedra-sabão, com os seguintes dizeres: “Esta obra a Imagens de Minas - 97


mandou fazer o Exmo. Snor. Dom Antonio de Noronha, Governador e Capm. General desta Capitania. Anno de 1779”. O inconfidente tenente-coronel Francisco de Paula Freire Andrade era seu comandante à época de sua prisão, em 1789. Em 1819, foi estabelecida, por carta régia, uma coudelaria para o melhoramento racial de cavalos, anexa aos quartéis e nos pastos do regimento de cavalaria. Para este empreendimento foram compradas 60 éguas nativas e os garanhões foram trazidos de Portugal. O inventário de D. Pedro I menciona duas fazendas de criação de cavalos − fazendas do Buraco e Funil − que faziam divisa com o antigo quartel e incorporam atualmente o patrimônio do Colégio D. Bosco. Nelas, o imperador tinha casas e escravos a sua coudelaria particular, com garanhões da raça andaluz portuguesa, uma variante árabe, que tinham nomes como: “Gigante da Nação”, “Árabe do Cabo” e “Adamastor do Cabo”. Consta que era comum vê-lo passeando com seus cavalos pelas ruas do arraial, em temporada que passou por ali, pouco antes de proclamar a Independência em 1822. Os quartéis funcionaram nesses prédios até 1893, quando foram entregues aos salesianos para a fundação de uma escola agrícola.

Capelinhas rurais, pontes e monumentos às margens da estrada real Dores do Aranha (Santa Quitéria) O pequeno povoado de Dores da Boa Vista do Aranha, datado de meados do século XIX, situava-se a alguns quilômetros de Cachoeira do Campo, às margens da Estrada Real, entre Cachoeira do Campo e Ouro Branco. No início do século XX, o povoado desapareceu, dele restando apenas a solitária capelinha de Santa Quitéria e seu cemitério. Em suas imediações, funcionam algumas lavras de topázio do complexo do Capão do Lana, citado pelos viajantes e naturalistas europeus do século XIX.

taboões Taboões, uma antiga passagem da Estrada Real, onde se construiu uma ponte e um chafariz para a comodidade dos viajantes do século XVIII que seguiam em direção à Vila de Sabará. O chafariz traz a seguinte inscrição: Aonde o Conde de Cavaleiros Deixou a fonte nos passageiros, Que ali descansam junto à corrente, Quando os abrasa a calma ardente.

Conceição da Água Limpa (Dr. Rocha Lagoa) A meio caminho entre Cachoeira do Campo e Casa Branca, seguindo o antigo traçado da Estrada Real em direção a Sabará, encontra-se a ermida de Nossa Senhora da Conceição, oratório da fazenda da Água Limpa, que deu origem a um pequeno povoado, em meados do século XIX. O povoado foi rebatizado com o nome de Dr. Rocha Lagoa.

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Corporações musicais de Cachoeira do Campo: a “banda de baixo” e a “banda de cima”. Cachoeira do Campo conta com duas das mais antigas bandas de música do interior mineiro: a Euterpe Cachoeirense, fundada em 1857, e a União Social, fundada em fins do século XIX, e cognominadas, respectivamente, “Banda de Cima” e “Banda de Baixo”. A origem dessas bandas parece ter sido a disputa em torno da eleição do regente da primeira e única banda que ali existia. Esta eleição polarizou os músicos e simpatizantes da banda. Ao final do pleito, o segmento vencedor realizou uma serenata. Afrontados, os vencidos decidiram fundar uma nova banda. O arraial, igualmente, dividiu-se em admiradores de uma ou outra, divisão que se refletiu na política local. Partidários da família Lemos, patronos da Euterpe Cachoeirense ou “Banda de Cima”, eram opositores políticos da União Social, patrocinados pela família Murta. Essa guerra musical provocou uma emulação constante dos músicos das duas bandas, resultando numa tradição de excelência que, talvez, tenha assegurado a notável sobrevivência das duas corporações musicais.

eventos Além das festas paroquiais como a comemoração da Semana Santa e aquelas presentes no calendário litúrgico da Arquidiocese de Mariana, merece destaque a Festa da Jabuticaba, realizada por três dias à época da colheita da fruta, em meados de outubro. Dessa festa consta a já tradicional feira de licores, bombons, doces, vinhos e sorvetes feitos da fruta. A programação inclui, ainda, a apresentação de shows de música popular.

Glaura (Casa Branca) igreja Matriz de Santo Antônio A igreja matriz foi construída por volta de 1750 pelos arrematantes Domingos Moreira Oliveira e Tiago Moreira, o mesmo construtor da igreja de Nossa Senhora da Conceição de Sabará, havendo a data, 1752, inscrita na base da cruz do frontão. Fachada com elementos comuns a outras igrejas do mesmo período, tais como: Nossa Senhora da Conceição, em Sabará, e Santa Efigênia, em Ouro Preto. É de partido tradicional simples e oratório sobre a portada onde se encontra uma imagem de Santo Antônio. As torres são arrematadas com pirâmides quadrangulares, e a cantaria é do granito de Amarantina. Na torre direita, existe um relógio, ali instalado em fins do XIX. O altar-mor emprega elementos arcaizantes da talha dos altares da antiga capela, como as colunas torsas e as arquivoltas. Os púlpitos são do tipo tradicional, com escadaria embutida na parede e taça de granito lavrado, com guarda-corpos em cimento. Em meados do século XX, a Igreja de Santo Antônio perdeu a posição de Matriz, convertendo-se em filial da Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, de Cachoeira do Campo.

Capela das Mercês da Pontaria A capela das Mercês está situada no Largo Pontaria. Possui planta e fachada extremamente simples. Em seu altar, pintura a têmpera com motivos florais, executados em cores vivas. O brasão da capela, pintado acima do trono é o de São Francisco de Paula. Do conjunto urbanístico do Largo, uma Cruz dos Martírios, em madeira, com os símbolos da Paixão de Cristo (escada, cravos, martelo, galo, dados, o manto, cálice, etc.).

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Fazenda do Xavier Logo à entrada do distrito, estão localizadas as ruínas da Fazenda do Xavier que, no século XIX e início do século XX, dedicava-se ao plantio de feijão e fabrico de farinha de mandioca, por informações orais. A sede apresentava as características do estilo colonial, com paredes em alvenaria de pedra e vergas curvas de cantaria. Presumivelmente, pode ter sido construída a partir da segunda metade do século XVIII. O pátio frontal é inteiramente cercado de muros de pedra seca, existindo aí um chafariz com uma enorme bacia retangular de lajes.

Festas e eventos Em julho há a festa do padroeiro, Santo Antônio: novena e procissões acompanhadas da tradicional fogueira, levantamento do mastro e leilões de prendas. A festa do Rosário, de origem tão remota quanto a de Santo Antônio, realiza-se em meados do mês de outubro, em data também fixada pela paróquia. A festa inclui a apresentação de congados e a eleição anual do Imperador e da Imperatriz, que substituíram os antigos rei e rainha negros da Irmandade do Rosário.

São Bartolomeu igreja Matriz de São Bartolomeu A matriz de São Bartolomeu é, provavelmente, uma das únicas matrizes rurais construídas em madeira e barro que sobreviveram aos primeiros cinqüenta anos da colonização da capitania das Minas Gerais, sem sofrer demolição e reconstrução “em pedra e cal”, como aconteceu às suas co-irmãs de Cachoeira do Campo, Glaura e Antônio Pereira. Seu traçado resume-se a um quadrilátero encimado por um frontão triangular, portada de linhas retas e duas janelas à altura do coro, compondo um triângulo invertido em oposição ao frontão. Possui duas torres laterais coroadas por coberturas de telhas de linhas “achinesadas”, na mesma linha das torres da Sé de Mariana, no melhor estilo vigente no primeiro quartel do século XVIII. Como particularidade de sua planta, apresenta uma capela lateral colocada perpendicularmente ao corpo da igreja, um provável acréscimo posterior, que configura quase uma segunda nave, dada a paridade de proporções. Desta disposição resultam dois arcos-cruzeiros em madeira, originalmente recobertos de pintura decorativa. Os pequenos retângulos de prospecção abertos por restauradores deixam entrever elementos que remetem às pinturas decorativas da capela do Padre Faria e à Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, ambas em Ouro Preto.

Capela das Mercês Centro de Memória de São Bartolomeu Foi inaugurado em dezembro de 2001 e está instalado na Escola Municipal Dr. Washington de Araújo Dias. É o resultado de uma parceria entre a referida escola e o Museu Casa Guignard de Ouro Preto, através da Oficina de Interpretação da Paisagem, realizada pelo setor educativo daquele Museu. Seu acervo reúne pesquisas realizadas pelos alunos, sobre a história do distrito de São Bartolomeu, fotografias antigas cedidas pela comunidade e objetos de uso cotidiano e vinculados à cultura da região.

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Casa da Festa Uma das peculiaridades de São Bartolomeu reside na existência de uma casa denominada “Casa da Festa”, que é uma instituição ligada ao culto do Divino. Esta forma de devoção, introduzida pelos colonizadores portugueses e bastante disseminada no interior do Brasil, surgiu na passagem do ano 1000, que marcou o fim da chamada “Era do Filho”, iniciada no nascimento de Cristo que, por sua vez, teria sido o fim da “Era do Pai”, o tempo do Antigo Testamento. Assim, o ano 1000 teria dado início à “Era do Divino Espírito Santo”, que precederia a segunda vinda de Cristo, crença da qual se originou o culto do Divino. Uma das formas assumidas por esse culto partia da representação deste novo tempo por uma criança − o “Imperador do Divino” −, que reinaria sob sua inspiração, vencendo as injustiças e purificando o mundo. Seu reinado era anunciado a toda gente por embaixadores da Boa-Nova, com cânticos festivos. O imperador saía em procissão, soltando os condenados da prisão e convidando a todos para um grande banquete comunitário, onde todos eram bem-vindos. Em São Bartolomeu, subsistem alguns elementos fragmentados dessa devoção como a “Embaixada do Divino”, que sofreu modificação no seu conteúdo original, e a “Casa da Festa”, onde todos podiam participar da ceia preparada para todos os visitantes, gratuitamente, como ainda costuma acontecer. O prédio é um sobrado colonial pertencente à Matriz, servindo eventualmente como casa de hóspedes e para o expediente da paróquia, assumindo as suas funções de “Casa da Festa” apenas durante as comemorações do padroeiro, que incorporaram parte da tradição da festa do Divino, desaparecida como evento independente.

Festas e eventos Festa de São Bartolomeu A festa de São Bartolomeu é das mais famosas entre as festas distritais do município de Ouro Preto. Além das comemorações exclusivamente litúrgicas, que incluem novena, procissão e a tradicional missa cantada, possui uma vertente popular: a “Embaixada do Divino”. Um grupo de “embaixadores”, que leva consigo a bandeira do Divino e uma bandeja onde se encontram um cetro e uma coroa, percorre toda a zona rural, acompanhados por um tocador de tambor com sua batida característica. Parando de casa em casa, a “embaixada” vai recolhendo donativos para a festa de São Bartolomeu. Algumas fazendas já são paradas tradicionais onde os embaixadores hospedam-se ao final do dia, retomando a caminhada logo cedo. Dentro de cada residência é realizado um pequeno cerimonial de bênção, com cantoria e reza. As pessoas fazem seus donativos e pedem bênçãos, pregando fitas, bilhetes e fotografias na bandeira, que acaba inteiramente recoberta por esses “lembretes”. Entretanto, nenhum outro aspecto da festa é tão atraente quanto a possibilidade de realização da tradicional tourada. Trata-se naturalmente de uma tourada à moda de São Bartolomeu, sem qualquer semelhança com as corridas de touro ibéricas. Mas a multidão que acorre ao distrito vai ao delírio com as exibições dos improvisados toureiros, em inglório confronto com os pachorrentos bois do tranqüilo povoado, no curro armado em meio a uma enorme aglomeração de barraquinhas que comercializam especialmente comida e bebida. Para quem desejar ver de perto essa festa, a data é emblemática − dia 24 de agosto − considerada, popularmente, como o dia em que os diabos estão à solta.

Outras atrações O visitante pode observar, ainda, os vestígios da antiga mineração na beira do rio, além do próprio rio das Velhas, que corre ladeando a estrada, deixando entrever belas paisagens, remansos, pontes e cachoeiras.

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Distrito de Santo Antônio do Leite Segundo o padre Afonso de Figueiredo Lemos, a origem do arraial se prende à antiga fazenda do Bananal, de propriedade do vigário da Vara de Vila Rica, em 1790, padre Vital José do Vale, que lá fundou uma capela dedicada a São Vital, iniciando assim a pequena povoação que pertence ao Distrito de Cacheira do Campo Este arraial passou a se denominar Santo Antônio do Leite, designação tradicionalmente atribuída às fazendas de criação que forneciam a maior parte do leite consumido na então capital Ouro Preto, assim como queijos e manteiga. É outra tradição oral que, da mesma forma que Amarantina, Santo Antônio do Leite teve, no século XIX e no início do século XX, uma enorme tradição de tropeirismo pelas estradas da região, unindo as vilas de Barbacena, Queluz, Congonhas, Rio de Janeiro e outras, comprando e vendendo gêneros e outras mercadorias, sendo os maiores revendedores e transportadores dos famosos doces de São Bartolomeu e Casa Branca para esses mercados. Em meados do século XIX, um devoto chamado Antônio Gonçalves do Sacramento dedicou grande parte de sua vida a esmolar com o propósito de erguer uma nova igreja, dedicada a Santo Antônio. Com o resultado de seus esforços, construiu a atual igreja em 1858.

Distrito de Miguel Burnier Localizado no entroncamento de antigas estradas para o Paraopeba (Itabira do Campo, atual Itabirito) a estrada para o Rio das Mortes. É tradição corrente que o antigo arraial de São Julião, atual Miguel Burnier, teve sua origem na famosa fazenda dos Caldeirões da família do inconfidente José Álvares Maciel, e que pertenceria, na época da sublevação (1789), ao seu cunhado o tenente-coronel Francisco de Paula Freire Andrade. O padroeiro da capela da fazenda, São Julião, teria sido escolhido em homenagem à sua mãe, Juliana de Oliveira Leite, designação estendida, posteriormente, ao arraial. Documentalmente, sabe-se, até o momento, que efetivamente, em seus arredores, localizavam-se terras pertencentes à família de Álvares Maciel. Por intermédio de uma escritura de compra e venda de um sítio localizado nesta região, datada de 1758, toma-se conhecimento de que o referido sítio fazia divisa com o capitão Francisco da Rocha Barbosa, Antônio Gonçalves Alemão, sargento-mor José Álvares Maciel (pai do inconfidente José Álvares Maciel), o padre Manuel Lopes e Manuel Souza. Nomes estes, então, entre os primeiros povoadores da região. É interessante notar que, do sobrenome de Antônio Gonçalves Alemão e sua provável ocupação – criação de porcos – tenha surgido o toponímico “Chiqueiro do Alemão”, atribuído a um trecho situado no local denominado “Rodeio”, que abrangia uma grande área entre Cachoeira do Campo e Ouro Branco. O distrito, rico em minerais e pedras semi-preciosas, alcançou uma grande prosperidade no século XIX, sediando a instalação de uma das primeiras fábricas de ferro de Minas Gerais: a fábrica de ferro “Patriótica”, que teve suas ruínas tombadas pelo IPHAN. Ainda no século XIX, outras atividades de mineração foram intensas, extraindo-se também manganês e topázios. No final do mesmo século, Miguel Burnier sediou, igualmente, outra fábrica de ferro: a Usina Siderúrgica Wigg, alavancada pela construção da estrada de ferro, que foi inaugurada em 1887. A usina Wigg foi fechada em meados do século XX. Entretanto, peças fabricadas por essa Usina ainda podem ser vistas nos passeios de cidades como Mariana e Ouro Preto, sob a forma de tampas de ferro. O toponímico São Julião foi substituído na década de 1890 por “Miguel Burnier”, em homenagem a um dos engenheiros construtores da ferrovia, inaugurada em 1887.

Distrito de Lavras novas e Chapada A região onde está situado esse distrito é belíssima e, embora precária, a sua acidentada estrada de acesso percorre trechos encantadores de campos de altitude, pontilhados por afloramentos rochosos do maciço do Itacolomi, com inúmeros fios d’água, ribeiros e cachoeiras. O traçado do acesso ainda é o mesmo da época colonial, com suas belas pontes de cantaria sobre os penhascos. A zona urbana é pequena e despretensiosa, ocupando um platô no topo de uma elevação, de onde se descortina uma bela vista. As casas não destoam da simplicidade do povoado. No entanto, foram con102 - Imagens de Minas


struídas numa escala desconcertante, em que a reduzida altura das paredes e dimensões dos caixilhos de portas e janelas não encontram similares dentro do município. Os moradores, acostumados com a reação dos visitantes, explicam que as casas “baixinhas” resistem melhor aos fortes ventos daquelas montanhas. Lavras Novas tem suas origens ligadas à família do famoso bandeirante Coronel Salvador Fernandes Furtado de Mendonça, da ala paulista taubateana, descobridor do Ribeirão do Carmo e fundador de Mariana, em 16 de julho de 1696. De acordo com Diogo de Vasconcelos, o Coronel Salvador “[...] tocado da mania geral de descobrimentos, mandou, pelos anos de 1704 que seus filhos Antônio Fernandes e Feliciano Cardoso à frente de uma turma de escravos e camaradas penetrassem o sertão ao sul do Carmo. Esta leva, não obstante os sofrimentos que lhe infligiram feras e serpentes venenosas, chegou a descobrir as minas do Pinheiro, do Bacalhau, do Rocha (Conceição) e dos Prazeres. [...]”. O mesmo autor informa que o Ribeirão dos Prazeres corre atrás do Itacolomi e passa em Lavras Novas, nome que lhe deu o Coronel Salvador Fernandes Furtado de Mendonça. Desta forma, Lavras Novas pode ser considerada um dos últimos descobertos de ribeirões auríferos, realizados pelos integrantes da mais famosa bandeira de Taubaté. Nos tempos coloniais, Lavras Novas, como seu próprio nome sugere, desenvolveu-se por força de um surto mineratório no século XVIII, empregando uma grande quantidade de escravos, o que pode explicar a forte tradição negra deste distrito, assim como a composição étnica de sua população. Esta característica deu origem recentemente à lenda de que o povoado teria sido um quilombo no passado. Embora romântica esta afirmação não possui, até o momento, nenhum fundamento histórico que a comprove. Terminado o curto período de exploração aurífera, o povoado sofreu um longo período de semi-isolamento e estagnação, agravado pela distância e dificuldade de acesso à sede do município, sobrevivendo de pequenas lavouras de subsistência e do artesanato de taquara. No que concerne ao trabalho com a taquara, os artífices de Lavras Novas tornaram-se os mais exímios mestres de toda a região. Até o último quartel do século XX, era comum encontrar, pelas ruas de Ouro Preto, homens a pé carregados de incríveis quantidades de balaios e cestos de todos os tamanhos e tessituras, vendendo seus produtos de porta em porta, imediatamente reconhecidos como “gente de Lavras Novas”. Mantêm, ainda, a antiga arte de tecer as tradicionais esteiras de forro, nas quais cada artesão imprime a sua marca, criando combinações e desenhos caprichosos e elaborados. Atualmente, por suas paisagens, festividades, artesanato e tradições, Lavras Novas tem atraído centenas de visitantes e, para os fiéis, a data mais procurada é a da festa de Nossa Senhora dos Prazeres, padroeira do distrito.

Distrito de Santa Rita e Salto Até o momento, na documentação pesquisada, não foi possível levantar maiores dados e informações sobre esse distrito. Sabe-se que o povoamento da região ocorreu por volta de 1740, tendo como objetivo a exploração das jazidas de pedra-sabão ali existentes, para o fabrico de panelas e peças arquitetônicas e decorativas. A estrada que dá acesso a Santa Rita merece destaque especial. O trajeto abriga vestígios da antiga Estrada Real, como pontes, calçadas e muros. Vestígios esses que se aliam a uma paisagem natural privilegiada.

Rodrigo Silva Pesquisas realizadas em documentação da Câmara Municipal de Ouro Preto demonstram que o povoado de Rodrigo Silva surge enquanto tal nas últimas décadas do século XIX. Sua importância relativa aumentou consideravelmente com a construção da estrada de ferro, na década de 1880, e sua denominação atual originou-se da designação da estação ferroviária, estendida espontaneamente a todo o povoado, costume esse posteriormente. A mineração de topázios também contribuiu para o desenvolvimento do distrito, sendo ainda hoje uma significativa fonte de renda do povoado. Possui alguma agricultura de subsistência e, como destaque, a atividade de artesanato em taquara, especialmente a cestaria e esteiras para forros. Merece atenção do visitante a antiga estação ferroviária. Imagens de Minas - 103


ÁREAS dE PRESERVAÇÃO AMBIENTAL PERMANENTE: Parque da Cachoeira das Andorinhas estação ecológica do tripuí Parque do itacolomi Parque Cachoeira das Andorinhas Em 1989, o governo do estado declara a região situada no Distrito de São Bartolomeu, no município de Ouro Preto, como Área de Proteção Ambiental por se constituir em patrimônio natural de reconhecido valor histórico, cultural, paisagístico, turístico e rara beleza cênica, emoldurando o entorno histórico de Ouro Preto; além de abrigar as nascentes que dão origem ao rio das Velhas e a bela cachoeira das Andorinhas, que se precipita de um penhasco cavado no quartzito, quase uma gruta natural. Este local específico é denominado Parque da Cachoeira das Andorinhas.

estação ecológica tripuí As denominadas “Estações Ecológicas” são áreas representativas de ecossistemas brasileiros, destinadas estritamente à realização de pesquisas básicas e aplicadas de ecologia, à proteção do meio ambiente natural e ao desenvolvimento da educação conservacionista. Em Ouro Preto, a Estação Ecológica do Tripuí engloba o ecossistema onde foi descoberto, em 1954, um espécime até então desconhecido, o Peripatsu, um fóssil vivo que, desde então, vem sendo alvo de pesquisas por parte de diversas instituições brasileiras. No ano seguinte, o Peripatus do tripuí foi descrito pelos pesquisadores paulistas Eveline e Ernesto Marcus, que o batizaram com a denominação de Peripatus acacius, em homenagem ao dr. Acácio Costa Júnior, que o havia descoberto. A existência desse invertebrado e a necessidade de protegê-lo e preservá-lo em seu habitat natural levaram a comunidade ouropretana e o meio científico a solicitar a criação da Estação Biológica do Tripuí, abrangendo uma área aproximada de 337 hectares. Em 1981, o decreto estadual nº 21.349 alterou a categoria do manejo desta unidade de conservação que passou de Estação Biológica para Estação Ecológica. É digno de nota o fato de, nesta área, também se localizar as ruínas do antigo Jardim Botânico e a bela aléia de pinheiros centenários onde, no século XIX, havia sido iniciado o cultivo de plantas destinadas ao fabrico de chá, numa das iniciativas que foram levadas a efeito àquela época, visando criar alternativas econômicas para o município. Na encosta oeste, acima do conjunto de prédios do antigo centro de internação de menores da FEBEM, hoje desativado, podem ser vistos ainda os remanescentes dessa antiga plantação, com fileiras de chá de folhagem escura destacando-se em meio à vegetação nativa.

Parque do itacolomi Além das belezas naturais como cachoeiras e vegetação exuberante, o Parque do Itacolomi abriga alguns monumentos arquitetônicos do período colonial como a fazenda de São José do Manso e um conjunto de ruínas de uma antiga edificação.

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Fazenda do Manso A sede Fazenda de São José do Manso pode ser considerada como um dos exemplos mais significativos da arquitetura colonial residencial, de caráter estável, existente em Minas Gerais. Trata-se de representante típico das chamadas “casa bandeirantes”, nome que advêm do fato de terem sido introduzidas pelos primeiros povoadores paulistas, que trouxeram consigo suas formas de construir e morar. A arquitetura rural paulista dos séculos XVII e XVIII caracteriza-se por apresentar uma “fachada simétrica, tendo ao centro um alpendre reentrante engastado entre dois prismas brancos, cada um com uma pequena janela no centro”, fato que se repetia em grande número de casos, nos fundos da construção, características essas presentes na sede da fazenda do Manso, com exceção da fachada dos fundos, que não repete a fachada principal da residência. De acordo com o pesquisador Tarquínio J. Barbosa de Oliveira, a Fazenda do Manso teria sido construída por Domingos da Silva Bueno, 2º guarda-mor do Distrito das Minas Gerais, entre os anos de 1705 e 1708, “para cobrança dos quintos, vigilância e defesa do acesso às minas do Ouro Preto”. Todavia, o pesquisador citado não fornece nenhuma indicação documental que comprove essa afirmativa. Outra afirmativa que ainda não pode ser comprovada é feita por Álvaro da Silveira. Diz este autor que a fazenda do Manso foi arrematada em 1772 pelo sargento-mor Manuel Manso da Costa Reis e que, naquela época, era conhecida pelo nome de “Fazenda da Vargem da Olaria”. Se não se pode conferir a data da dita arrematação, contudo, as pesquisas revelaram a existência de um registro de sesmarias em nome do sargento-mor Manuel Manso da Costa Reis, datado de 06 de agosto de 1770, mandado passar pelo conde de Valadares, governador da Capitania, onde consta a posse de terras, matos e sua olaria, em direção a Lavras Novas; justamente a região onde hoje se localiza a referida fazenda. Neste mesmo ano e no seguinte, 1771, Manuel Manso entrou ainda na posse de outras terras, sempre na mesma região, aumentando assim a sua propriedade. Diante das evidências apresentadas pela documentação pesquisada, sabe-se, por conseguinte, que Manuel Manso da Costa Reis já possuía uma olaria onde, provavelmente, também se localizava sua residência pois, comumente, os mineradores e agricultores residiam junto às lavras e campos cultivados. Por intermédio do testamento que fez junto com sua esposa, datado de 15 de junho de 1785, toma-se conhecimento de que a fazenda era composta de “Chácara com seus anexos e casas a ela juntas”.. Nesse sentido, então, o complexo da fazenda era bem maior do que hoje vemos. Dado o histórico geral da região, as atividades econômicas ali desenvolvidas eram, nesse período, a mineração e a agricultura de subsistência. Todavia, também aí funcionava uma olaria que fabricava telhas e tijolos cuja produção era comercializada, conforme atesta um recibo de venda de tijolos e telhas, passado em 13 de março de 1770, ao então poderoso Contratador das Entradas, João Rodrigues de Macedo. Aliás, vale ressaltar que a família Manso convivia com diversas autoridades administrativas da Coroa portuguesa, ocupando funções de relevo na capitania. Segundo tradição corrente em Ouro Preto, Maria Dorotéia Joaquina de Seixas − a eterna Marília de Dirceu −, costumava passar aí temporadas. Fato muito provável, já que uma de suas irmãs desposou, em 1788, o filho do casal, Valeriano Manso da Costa Reis. Cerimônia essa na qual figurou como padrinho o Visconde de Barbacena, então governador da Capitania de Minas Gerais. Após o falecimento de Manuel Manso, ocorrido por volta de 1787, a família continuou na posse da fazenda. Em 1804, pode ser a presença de D. Clara Maria de Castro, sua viúva, na “Vargem”, à frente de 14 escravos, 3 feitores e 9 agregados, que, por sua vez, possuíam 5 filhos e 3 escravos em 1804. Sessenta anos depois, em 1864, a Fazenda do Manso possuía novo dono. Trata-se do capitão José Bento Soares, que ali lavrava a terra e mantinha uma fábrica de ferro. A partir desta data, até 1931, a história da Fazenda do Manso permanece imprecisa. Sabe-se que foi vendida a Francisco Diogo de Vasconcelos, porém, até o momento, não foi possível precisar a data da transação. Nova troca de mãos ocorreu em 07 de outubro de 1974, quando os herdeiros de José de Sales Andrade vendem-na ao historiador Tarquínio Barbosa de Oliveira, acrescentando-lhe os locais denominados Sítio da Olaria e Canela de Ema. Até 1994, a fazenda pertencia aos herdeiros do historiador.

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Igreja de Nossa Senhora do Rosรกrio (interior)


Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias


A presente edição foi impressa em papel couchê fosco 150g (miolo) e capa em papel supremo 300g lainado, em dezembro de 2008 na Gráfica Focus.


Josane Guerra Simões Cristina Ávila AFFONSO ÁVILA - CRISTINA ÁVILA - JOSANE GUERRA SIMÕES

Affonso Ávila

IMAGENS DE MINAS

Imagens de Minas - Ouro Preto  

Livro da coleção "Imagens de Minas - Cidades Históricas" sobre a cidade de Ouro Preto