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EXPEDIENTE

colaboradores Jimmy [Marcelo Pontes] Professor de Marketing da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo, diretor do departamento de Marketing, Pesquisa e Economia da faculdade e um grande estudioso do carnaval paulista. Na Revista RODA, Jimmy atua como colunista, depositando toda sua experiência com a escola de samba Vai-Vai e seu conhecimento na área empresarial.

Tatiana Oliveira Formada em Jornalismo e em Letras Estrangeiras Modernas na Universidade Norte do Paraná e com pós graduação em Comunicação Popular e Comunitária, Tati possui experiência com produção e revisão de conteúdo para veículos impressos. Na primeira edição da revista RODA, ela contribuiu no aspecto verbal, criando a matéria principal.

Celso Cruz É terapeuta e atua como coordenador do Papo, programa de acolhimento, aconselhamento e acompanhamento dos estudantes da ESPM. Líder da Área de Comunicação e Artes da Escola, onde é professor desde 2001. É dramaturgo e diretor teatral, com pós-doutorado pela ECA-USP. Seu sangue expressivo pulsa nas veias da revista RODA por meio da poesia.

ESCOLA SUPERIOR DE PROPAGANDA E MARKETING

PROJETO III: CULTURA E INFORMAÇÃO

Curso de Graduação em Design com Habilitação em Comunicação Visual e Ênfase em Marketing Projeto Integrado do 3º semestre

Profº Marise de Chirico

PROJETO EDITORIAL E GRÁFICO

Profº Giancarlo Ricciardi

COMUNICAÇÃO E LINGUAGEM II Profª. Regina Ferreira da Silva

MARKETING II Ivan Ravena Pinheiro Ribeiro Karolinne Pedrosa Cavalcante Rodrigo Nunes Bruhns Sara Bergamin de Carli

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PRODUÇÃO GRÁFICA Profª Mara Martha Roberto

COR E PERCEPÇÃO Profª Paula Csillag


alô alô, realeza

o samba é meu dom Wilson das Neves se foi e deixou para trás um legado de muita ginga e samba, embora o pesar dos fãs de sua música ainda esteja pairando por aqui. Em sua primeira edição, a Revista RODA – que não teria como não se comover com esse acontecimento – faz sua homenagem ao cantor, instrumentista e compositor carioca, contando um pouco de sua vida e sua influência no cenério musical brasileiro ao longo dos anos. Voltando a São Paulo, damos destaque ao novo álbum de Criolo, que se arriscou no universo do samba sem decepcionar, trazendo um quê de novo para suas críticas sociais em forma de melodia. A Revista RODA também traz ainda uma breve história sobre a trajetória do samba na Bahia, berço do gênero; entrevistas com os mestres Paulinho da Viola, Martinho da Vila e Beth Carvalho. A gloriosa agenda de Setembro/Outubro conta o que há de bom para reunir os amigos e dizer com o pé. E, no seu eixo mais expressivo, um pé em administração e carnaval com uma coluna do diretor da Vai-Vai, Marcelo Pontes, além de um poema exclusivo do artista Celso Cruz. A equipe da Revista RODA dá as boas-vindas e abre as portas do seu e ao seu lançamento, pois veio pra saciar a sede de música, cultura e informação. Reúnam os parceiros, peguem uma gelada e entrem na roda!

Aquele abraço!

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nesta edição desde que o samba é samba

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AI QUE SAUDADES DA AMÉLIA 31 anos sem Nelson Cavaquinho Postais da Bahia Adoniran Barbosa WILSON DAS NEVES

FICA MAIS UM POUCO, AMOR 24 Entrevista com Paulinho da Viola 30 Seu Carlão do Peruche 34 38 43

TEMPOS IDOS Uma história de luta e resistência A história de Assis Valente O peculiar samba paulista

CAMARÃO QUE DORME A ONDA LEVA 46 Como funciona uma escola de samba?

alma boêmia

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A COISA AQUI TÁ PRETA Samba e política

SONHO DE BAMBA São Paulo rasga clichês

PELA LUZ DOS OLHOS TEUS 61 Zeca Pagodinho é tema de musical 67 Entrevista com Martinho da Vila

TATU BOM DE BOLA 72 Escola de samba cria time de futebol UMA SIMPLES MARGARIDA 76 Arte brasileira ganha mostra exclusiva 4


001 Ano 01 Set 2017

samba da minha terra

BAHIA 80 Samba, o sangue que corre nas veias da Bahia RIO DE JANEIRO 86 Entrevista exclusiva com Beth Carvalho PERNAMBUCO 92 Samba tem lugar garantido em Pernambuco

alguém me avisou

CONVITE DO ARNESTO 98 Ensaio de Rodrigo Camus inspira samba “existencialista” 100 Estrela de Xica da Silva, cantora renasce no samba 103 Criolo transformou “surtos” de samba em um álbum

NÃO DEIXE O SAMBA MORRER

109 Entrevista exclusiva com Grazzi Brasil

O MUNDO É UM MOINHO

112 Acessibilidade no samba 114 Projeto usa samba para tratar transtornos psiquiátricos 116 Samba alegra avós em asilo de Porto Alegre

COM QUE ROUPA?

118 Agenda das rodas de samba de setembro e outubro

conversa de botequim

PRANTO DE POETA

122 Coluna assinada

SÓ CHORA QUEM MAMA

127 Poema de Celso Cruz 128 AQUELE ABRAÇO

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TIPOGRAFIAS Urbana e Karmina Oferta do dia (Eduardo Ramalho) PAPEL Pólen soft 80g Color plus 80g (Fedrigoni Papéis) IMPRESSÃO Gráfica Inove Rua do Curtume, 247 - Lapa de Baixo. 6


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desde que o samba ĂŠ samba

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DESDE QUE O SAMBA É SAMBA

31 anos sem o grande Nelson Cavaquinho, o poeta do juízo final Nos admiráveis versos do compositor desfilam letras sobre desamores, despedidas e a morte TEXTO André de Oliveira

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á 31 anos Nelson Cavaquinho desaparecia – dessa vez em definitivo – pela segunda vez na vida. Apesar de seus dois sumiços – ou de suas duas mortes, como provavelmente ele gostaria –, sua figura continua sendo enigmática. Morreu no ano de 1986, aos 74 anos, no Rio de Janeiro, mas sua voz rouca, suas músicas sombrias – que falam de desamores, despedidas e morte – ainda desnorteiam: não há em Nelson nenhum resquício do estereótipo do samba como uma música alegre, feita para agradar. A primeira vez em que Nelson Cavaquinho desapareceu foi pouco antes da década de 1950. Nascido em 1911, o cantor fez sucesso até a metade do século passado, quando a época áurea do samba – marcada por figuras como Carmem Miranda, Dalva de Oliveira e Dorival Caymmi – acabou. Ele e seu amigo Cartola, compositor de vários clássicos, como O Mundo é Um Moinho e As Rosas Não Falam, passaram anos de ostracismo artístico. Até que no início de 1960 foram redescobertos pela classe média carioca que buscava novos ares nos velhos morros cariocas.

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Quando voltou, Nelson já havia abandonado o cavaquinho que tinha lhe rendido o apelido na juventude. Seu instrumento agora era o violão. Saído diretamente de um túnel do tempo, ele recendia há uma época passada, esquecida. Se o Brasil se profissionalizava, Nelson era o símbolo do improviso, do amadorismo. Se éramos o país do futuro, ele era nosso passado de pé no chão. “Muito mais do que arcaico, Nelson parece ter nascido extemporâneo, na contramão da ‘promessa de felicidade’”, escreveu no artigo Rugas, o artista e ensaísta Nuno Ramos. No entanto, ao contrário de Cartola, que se fixou como um dos maiores sambistas brasileiros, Nelson também é lembrado, mas em segundo plano. É que junto ao seu nome não é possível usar qualquer adjetivo que proponha sutileza ou conforto. Enquanto Cartola oferecia respostas e conselhos em suas músicas, Nelson oferecia incômodo puro e simples. “Preste atenção, querida Embora eu saiba que estás resolvida Em cada esquina cai um pouco a tua vida Em pouco tempo não serás mais o que és.”


ai que saudades da amélia

foto Rodrigo Bernardes

Nelson em documentário de Leon Hirszman, de 1969

Em Nelson Cavaquinho, sambista e poeta, tudo remete ao final. Se, por exemplo, se fala em folhas, lembra-se das secas. Até sua barriga, na gíria cômica inventada por ele próprio, vira um cemitério de frango. Se o samba é por vezes um gênero que desconhece autores, confundindo-os nas coletâneas em que intérpretes desfilam pout-pourris recheados de clássicos, Nelson Cavaquinho é inconfundível. Suas letras são sombrias, sua voz é rasgada, esculpida pelo excesso de álcool e tabaco barato. O modo como ele toca violão, usando apenas o polegar e o dedo mínimo, é dissonante, forte. Em um de seus sambas mais famosos, Nelson ordena: “Tire seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor”. Em outro, anuncia: “É o Juízo Final, a história do bem e do mal. Quero ter olhos pra ver a maldade desaparecer”. Nenhuma história poderia ser mais o Nelson Cavaquinho” que a do próprio Nelson Cavaquinho. Obcecado pelo final, ele viu seu fim ainda em vida e depois voltou só para lembrar os brasileiros, empolgados pela invenção da bossa-nova, pela vida dourada da zona sul do Rio de Janeiro, do barro de

que também eram feitos. Seu estilo, como escreveu Ramos, era uma espécie de anti-João Gilberto. Enquanto um busca o minimalismo, a sutileza, o outro escancarava as dores de se estar vivo. Ainda segundo o ensaísta, há no sambista o desejo e a recusa do moderno, coisa que caracteriza quase tudo o que o Brasil almeja ser. “Em Nelson, a vida é o que é, num certo sentido, aquilo que sempre foi. Por isso, não carrega ansiedade nem projeto. Parece tão desejável quanto a morte”. E, contudo, apesar de ser provavelmente o sambista que mais escreveu sobre o fim, a imagem que talvez melhor defina sua personalidade é a do mito que diz que ele próprio, Nelson Cavaquinho, tremia de medo ao pensar em seu juízo final. Conta-se que ele passou uma madrugada inteira atrasando o relógio: a ideia era que, desse modo, ele poderia enganar a morte. Sabe-se hoje que a tática não deu certo, mas Nelson, de um jeito ou de outro, ao mexer nos ponteiros, conseguiu permanecer parado no tempo, dentro do passado de onde veio. E, por isso mesmo, é hoje uma ponte para o que o Brasil foi e deixou de ser. roda.com.br

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Cem anos de Dorival Caymmi, um ícone da cultura brasileira Madri comemora o centenário de nascimento de Dorival Caymmi, pioneiro de sua música popular TEXTO Danielle Belmiro

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Bossa Nova foi como uma enxurrada na música popular brasileira. Com o surgimento desse movimento moderno e cosmopolita, no fim dos anos cinquenta, tudo o que tinha sido criado antes ficou parecendo velho. Poucos artistas sobreviveram ao fenômeno. Um deles foi Dorival Caymmi, que tinha começado sua carreira 20 anos antes, em plena era do rádio. Foi o que disse Chico Buarque, em certa ocasião, à Stella, neta e biógrafa do cantor e compositor. Na última terça-feira, ela esteve na Casa de América, em Madri, para a comemoração do centenário do nascimento do avô. A Fundação Cultural Hispano-Brasileira e a Embaixada do Brasil homenagearam o músico, que morreu em 2008, com shows e uma exposição. “Dorival é um gênio universal. Pegou o violão e compôs o mundo”, afirmou o maestro e amigo Antônio Carlos Jobim no prefácio de um songbook de Caymmi. Os dois gravaram um disco no auge da Bossa Nova. Caymmi não só resistiu à nova onda como foi absorvido por ela. As suas criações tinham elementos inéditos, o que permitiu que sua obra dialogasse com o gênero inovador.

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O músico influenciou artistas das gerações que o seguiram, como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Mesmo assim, é praticamente impossível enumerar quantas versões outros intérpretes fizeram de seus sambas, que se tornaram ícones culturais no Brasil. Stella Caymmi não tem dúvidas em qualificar como extraordinária a contribuição do avô ao desenvolvimento do samba e da música popular brasileira, dois gêneros vigentes que se destacam no país. “Jobim dizia que as modulações e dissonâncias de sua música não têm nem comparação com as de outros compositores”, recorda Stella. Caymmi introduziu acordes que faziam que suas melodias fossem distintas das demais. Muitos consideram sua técnica tão original que “não tem herdeiros, nem mesmo na família”, afirma Stella, cuja mãe e tios também são músicos. Assim ele não imitava ninguém, também era difícil copiá-lo. Embora o seu estilo tenha começado e terminado com Caymmi, “sua obra impregnou toda a música popular brasileira”. “Meu autorretrato é este: sou um poeta porque existe uma Bahia onde nasci que está aqui dentro de mim, viva, e me traz os melhores momentos desde


ai que saudades da amélia

foto Matheus Cavalcante

O cantor e compositor brasileiro Dorival Caymmi em praia do Rio de Janeiro

a minha infância até hoje”, refletia Caymmi em um programa de televisão que celebrou seus 85 anos. Embora o êxito tenha chegado quando ele foi viver no Rio de Janeiro, em 1938, o artista foi um dos responsáveis pela imagem idealizada que se construiu da Bahia. Suas composições pareciam vender turisticamente esse Estado, o maior do Nordeste brasileiro. A atriz e cantora Carmen Miranda interpretou em 1939 a canção de Caymmi O que é que a Baiana Tem? no filme musical Banana da Terra – e, com a ajuda do cantor e compositor, estilizou e exportou a figura da baiana, que despertou em muita gente o desejo de conhecer essa terra mística e tropical. Além de suas conhecidas Canções Praieiras, que evocam o mar e histórias de pescadores, compôs os Postais da Bahia, que descreviam o sincretismo no vestuário, na arquitetura, nas festas, na comida e na religião de sua terra. “Caymmi era uma espécie de antropólogo instintivo. A obra conserva a Bahia de sua época”, assinala Stella. Seus amigos Carybé, artista plástico e Jorge Amado, escritor, fizeram o mesmo com suas respectivas disciplinas. Os três fizeram da cultura afro-baiana uma boa fonte de inspiração

para suas criações. A Carybé está dedicada uma mostra na Casa de América, na qual 30 de suas gravuras dialogam com letras de canções de Caymmi. Dorival Caymmi nasceu sem acesso a muitos recursos para desenvolver seu talento, foi um autodidata. Com cerca de 100 canções e 20 discos gravados ao longo de 60 anos de carreira, considera-se que sua obra é pequena em quantidade, em comparação com a de outros artistas. Mas a sua qualidade e a inovação garantiram seu lugar na posteridade.

O artista foi um dos responsáveis pela imagem idealizada que se formou do Estado da Bahia roda.com.br

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Adoniran Barbosa, o poeta da cidade Há poucas coisas que façam o paulistano se lembrar e ter orgulho de onde vem, e uma delas é a música de Adoniran Barbosa TEXTO Otto Martinez

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ão Paulo é uma das cidades mais plurais do mundo e sua cultura local foi dando espaço para outras cores e ânimos nas últimas décadas, de modo que ela esqueceu de si mesma com o passar do tempo, ao invés de incorporar tudo que recebeu e gerar algo novo a partir de então. Hoje, há poucas coisas que façam o paulistano se lembrar e ter orgulho de onde vem, e uma delas é a música de Adoniran Barbosa. A voz rouca e um tanto fanha de Adoniran é uma fotografia sonora cinza das favelas da Casa Verde e Jaçanã, cruzando as ruas da Mooca e do Brás, passando pelos botecos do Bixiga, até chegar no centro da capital. Talvez este seja o maior efeito de sua música: o saudosismo de uma São Paulo romântica que para alguns distraídos nem tenha existido. Uma belle époque de trabalho e pobreza. Não é o antigo, mas o velho, o decadente, que predominam boa parte desta paisagem outrora ocupada por símbolos de vigor econômico como tecelagens e metalúrgicas. Tal área nunca foi exatamente bonita, embora tenha sido a coisa mais linda desse mundo para alguns que ali viveram, como eu.

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No entanto, ainda se ouve Adoniran ecoando dos silêncios escuros das janelas das pensões do Brás, cantando Abrigo de Vagabundo como que expressando os braços abertos desta cidade. Se fosse gênero literário, o samba de Adoniran – e por que não dizer o samba paulistano? – seria uma busca discreta pelo minimalismo, reduzindo o pandeiro e o bumbo a uma caixinha de fósforo. Apesar do lirismo das melodias, a mensagem é direta e o que se canta é a realidade nua e crua, sem a riqueza de metáforas e o espírito de malandro do samba carioca, sem a transcendência e leveza do samba baiano. O samba paulistano é preto no branco. Enquanto o samba do Rio torna tudo grandioso e canta até mesmo a tristeza com certa alegria, o samba de São Paulo canta a tristeza com mais tristeza ainda, quase como que debochando da própria desgraça. “E hoje ela vive lá no céu, Bem juntinho de nosso Senhor Como lembrança guardo somente suas meias e seus sapatos Iracema, eu perdi o seu retrato.”


ai que saudades da amélia

foto Gyovanna Lessa

Adoniran, autor de obras consideradas patrimônio imaterial da cidade de São Paulo

As musas de Adoniran eram Beatriz, Lígia ou No campo da linguagem, vale ainda lembrar Luiza, mas sim, Malvina, Pafunça, Inês, mulheres que o sambista do Bixiga também compôs o samba da classe operaria, sofridas, quase sempre con- italiano – cantado em italiano macarrônico –, além descendentes com a exacerbada liberdade dos do que, Adoniran brincava com anglicismos como maridos. Às vezes eram imprevisíveis e sempre ninguém, aplicando nas canções frases do tipo: desprovidas de qualquer glamour, a exemplo de “A mezza note o’clock, saiu uma baita duma briga. Inês que disse que ia comprar o pavio para o lam- Era só pizza que avoava, junto com as brachola” e pião e deixou um recado no chão, bem ao lado “Tudo aquilo era para mim. Gemia e me olhava assim do fogão: “pode apagar o fogo, Mané, que eu não como quem diz: alô, my boy”. volto mais.” Às vezes eram sábias também, mas “Por que vocês não me procuraram há vinte invariavelmente amadas por ele. anos?”, perguntou o compositor aos jornalistas Permeadas por erros de português propositais, no final dos anos setenta quando sua música pasbem típicos dos ítalo-paulistanos – que incomo- sou a ser mais reconhecida. O que se pode dizer é daram até o poetinha, mas que, entretanto, não o que a música de Adoniran, mesmo tratando de um impediram de comissionar a melodia de Bom dia, microcosmo tão específico e sendo tão prosaica, Tristeza a Adoniran –, suas canções abordaram fre- felizmente sobreviveu a todos os arroubos, todos quentemente os problemas sociais da época, em os modismos e internacionalismos, que quase a especial a questão da habitação, sem, no entanto, apagaram, alcançando a era digital e confirmando fazer militância, pois isso talvez soasse demasiado seu compositor não somente como um artista pausofisticado, assim como seria sofisticado fazer uma listano, mas como um artista brasileiro e universal, análise do homem trabalhador em conflito com o justificando a fala célebre de Tolstoi: “Pintando vagabundo/boêmio/artista que é tão presente em bem tua aldeia, serás universal”, e provando que sua obra. A modernidade lhe parecia pesar demais. ele ainda é, sim, cinquenta anos depois, uma brasa. roda.com.br

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O sambista Wilson das Neves morreu aos 81 anos na capital do Rio de Janeiro

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ai que saudades da amélia

O SAMBA ESCOLHEU DAS NEVES, Ô SORTE! Em luto pela recente partida do grande mestre Wilson das Neves, relembramos a trajetória de um dos maiores bateristas do Brasil TEXTO Tatiana Oliveira

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alecido em agosto deste ano, a música brasileira e os apaixonados por samba já sentem a falta que fará o sambista Wilson Das Neves, que fez do gênero a sua vida, através do dom sagrado da composição, as parcerias acertadas, os talentos múltiplos e uma produção sempre atual. Sessenta anos de carreira. Mais de 600 gravações registradas. Participação em mais de 800 discos. Padrinho de bateria do Império Serrano, escola de samba onde cresceu, entregou seu coração e teve seu corpo velado. Este foi Wilson das Neves, o homem que tinha o ritmo em suas mãos e o samba em sua alma. Das Neves fez do samba a sua vida. E sua origem humilde refletia na melodia, harmonia e na qualidade técnica de cada batuque tocado. Baterista com alto rigor técnico, destacou-se por ter pavor a apresentações pirotécnicas e batuques barulhentos e ególatras. Deu certo: seu compasso discreto o referenciou como um dos maiores bateristas brasileiros do século XX. Carioca nascido em 1936 no bairro da Glória, mudou-se para o bairro de São Cristóvão ainda criança. Entusiasmou-se por bateria e percussão desde muito jovem e tornou-se profissional em 1954, quando começou a tocar em um casa de dança de salão. “Naquele tempo tinham muitas orquestras, e trabalhos em boates, gafieiras, teatros de revista e as casas de dança de aluguel. As bailarinas eram da casa, o cliente picotava um cartão que

marcava quantos minutos dançou e pagava por isso. Não era competição e nem casa de prostituição, e sim um local onde o sujeito ia para dançar, dança de salão, com uma mulher que sabia fazer isso. Duas orquestras ficavam tocando o tempo todo”, contou o músico em reportagem ao jornal carioca A Nova Democracia, em edição veiculada em agosto de 2010. Com verdadeira paixão pela música popular, Wilson das Neves integrou conjuntos que se apresentaram nas TVs Excelsior, Tupi, Globo e Continental. Ele começou a compor canções no ano de 1973 e então não parou mais. Mas no começo, ele não mostrava para ninguém, guardava. Foi mostrar suas composições autorais apenas em 1996, quando ele também passou a gravá-las. Lançou, então, seu disco O Som Sagrado de Wilson das Neves, apostando na roda.com.br

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carreira de cantor. Aposta certa: já em sua estreia, Das Neves ganhou o prêmio Sharp na categoria cantor revelação. O álbum também contou com a parceria de Chico Buarque, na canção Grande Hotel, sétima faixa do disco. Seu destaque não foi apenas com álbuns com melodias próprias e letras autorais. Ainda outras parcerias férteis o levaram a dividir estúdios e palcos com alguns dos maiores nomes da música brasileira. Tocou com Elis Regina, Elizeth Cardoso, Elza Soares, Erasmo Carlos, Wilson Batista, Cartola, Caetano Veloso, Nelson Cavaquinho, Clara Nunes, João Nogueira, Ataulfo Alves, Wilson Simonal, Tom Jobim, João Gilberto, Jorge Ben, Ney Matogrosso, entre outros gigantes. Foi músico na Rádio Nacional. Integrou a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. E foi baterista de Chico Buarque por mais de três décadas.

Pagode não é estilo de música, pagode é uma festa, eu canto samba e vira pagode, porque é uma festa Ao Jornal Nexo, em 2016, revelou que via nos vários ritmos brasileiros o samba tocado de diferentes maneiras. “Tem a bossa nova, que tem uma pesquisa maior em harmonia, mas não deixa de ser samba. Pagode não é estilo de música, pagode é uma festa, eu canto samba e vira pagode, porque é uma festa, né? O coco alagoano é um partido alto. O frevo tem uma samba ali dentro. Os ritmos baianos, como o axé, é bossa nova só que tocado de forma mais sutil, mais suave. Ciranda e maracatu têm samba. Os instrumentos são diferentes, mas o fundamento é o mesmo, é samba.” E nem mesmo o avançar da idade barrou a alta produtividade na carreira artística de Wilson Das Neves. Em 2013, em nova parceria com Chico Buarque, fez parceria na canção Samba para João, do disco Se me Chamar, ô Sorte. Faixa e CD ganharam o 25º Prêmio da Música Brasileira 2014 nas categorias Melhor Canção do Ano e Melhor Álbum de Samba.

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Ao mesmo tempo, ele, muito antenado às tendências contemporâneas da música brasileira, também em 2014 ele convidou Emicida, BNegão, Maíra Freitas – filha de Martinho da Vila – e Max de Castro, produtor, arranjador e instrumentista, filho de Wilson Simonal –, para comemorar seus 60 anos de carreira. No ano seguinte, participou da série Os Experientes (2015), da Globo, onde interpretou o músico Mateus, sob direção de Gisele Barroco. Como ator, Wilson Das Neves já havia feito uma participação em um filme sobre o ilustríssimo músico Noel Rosa. Em 2016, comemorando 80 anos, convidou para sambar no palco de seu show o pequeno Thawan Lucas, passista de apenas 8 anos. O garoto já havia feito brilhar os olhos do mundo todo com seu samba no pé, em uma parceria com Das Neves na abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Na apresentação, enquanto o baterista invocava os deuses do samba, em reverência à história da música popular brasileira, Thawan distribuía muitos sorrisos e passos acertados. A relação entre o samba e outras tendências musicais segue, mesmo após a sua morte. Há quase três anos, Wilson das Neves participou da melodia da música Todavía, em parceria com o músico chileno, o Gonzalo Astaburuaga. A canção foi produzida no Brasil, país onde o "GO" foi convidado pelo próprio sambista para gravar nos estúdios "Toca do Bandido". Ali conseguiram criar um samba rico de soul, onde os artistas falam do amor e da sensualidade.


ai que saudades da amélia

foto Luís Guilherme Kawall

Um dos principais nomes do samba carioca, em ensaio fotográfico de 2015

VIDA E MORTE NO IMPÉRIO SERRANO “O samba é meu dom Aprendi bater samba ao compasso do meu coração De quadra, de enredo, de roda, na palma da mão De breque, de partido alto e o samba-canção O samba é meu dom Aprendi dançar samba vendo um samba de pé no chão No Império Serrano, a escola da minha paixão No terreiro, na rua, no bar, gafieira e salão.” Wilson das Neves cresceu dentro da quadra da escola Império Serrano. Dedicou sua vida inteira a ela, merecidamente tornando-se nos últimos anos seu padrinho de bateria. A identificação com a escola vem de sua mãe, que o influenciou desde muito novo. Em entrevista ao portal Público, em 2010, brincou que não descobriu o samba, e sim o samba é que o descobriu, por meio da Império Serrado. “As coisas é que escolhem a gente. A bateria sempre me fascinou. Fui criado vendo desfile. Minha mãe era baiana, desfilava na escola. Meu pai, Flamengo, eu tinha que ser Flamengo. Minha mãe, Império Serrano, eu tinha que ser Império. Você pode mudar de roupa, de mulher, de automóvel, mas de

escola de samba, não, é até morrer. Seus primeiros desfiles em escola de samba foram na bateria, tocando tamborim. Depois virou compositor, diretor, vice-presidente e presidente da ala de compositores. Tornou-se, então, benemérito da escola. Wilson das Neves morreu em 26 de agosto de 2017, aos seus 81 anos, no hospital na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, onde estava internado, vítima de um câncer. Seu corpo foi velado na manhã do dia 28, na quadra da escola de samba Império Serrano, escola do coração. Sua trajetória de vida e seu amor à escola Império Serrano estão to registrados no documentário O Samba é Meu Dom (2010), de Cristiano Abud e na biografia Ô sorte! Memórias de um imperador (2016), do escritor Guilherme de Vasconcellos. roda.com.br

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DESDE QUE O SAMBA É SAMBA

foto André Leite Rocha

Paulinho da Viola em sua casa, no Rio de Janeiro

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fica mais um pouco, amor

Paulinho da Viola: “O samba não acabou só porque o povo não deixou” O nomeado músico de 74 anos fala sobre o centenário do samba, o carnaval moderno e a crise atual brasileira TEXTO María Martín

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aulo César Batista de Faria (Rio de Janeiro, 1942) não faz nada com pressa. Um músico que demorou mais de 15 anos na conclusão de uma letra não vê inconveniente em se estender mais de 15 minutos em cada uma das perguntas desta entrevista. Assim, o encontro, em um dia chuvoso na sua casa da zona oeste do Rio de Janeiro, dura cerca de quatro horas corridas. “Eu falo muito, vou emendando uma coisa na outra e eu não sei sintetizar”, diz sorrindo. A conversa começa no que foi sua oficina de marcenaria, onde Paulinho restaurava violões, móveis talhados e até tacos de sinuca. A madeira é, junto com a música e a mecânica, uma paixão muito antiga. Hoje, aquele esconderijo onde os pregos se guardam em caixas de charutos está ocupado por trastes que a família foi deixando por lá. Há cerca de um ano que as ferramentas, algumas com mais de cem anos, não saem dos seus estojos de couro nordestino, mas Paulinho promete limpar tudo aquilo e retomar os trabalhos atrasados. Ele precisa, confessa. “Eu poderia ter sido marceneiro, ou talvez um bancário aposentado. Mas não deixaria de tocar violão”, diz.

É difícil arrancar dele uma crítica e fácil demais ouvir elogios a quem o acompanhou em suas andanças. Paulinho da Viola tem hoje, ao todo, 53 anos de carreira. Seu plano hoje, além de continuar com alguns shows esporádicos, é lançar um disco novo. Ele não sabe quando, não sabe com quais músicas, mas não se importa. Trabalhará, escreverá, reescreverá, gravará e regravará… Ele não tem pressa. “Algum dia ficará pronto”.

O samba faz seu primeiro centenário há pouco. Que referências você considera serem, digamos, indispensáveis nessa comemoração? Na letra de Bebadosamba falo de muitas delas, mas eu falo aí dos nomes mais tradicionais, ligados às escolas, é uma escolha bem pessoal. Tem o Donga, Ismael Silva, Noel Rosa, o próprio Ary Barroso, que eu não cito na música, Paulo da Portela, que foi fundador da Portela, Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, esse era grande… Elton Medeiros, Candeia... Olha, é muito difícil. Wilson Batista, Geraldo Pereira, Monsueto Menezes, Dona Ivone Lara… E muitos outros que fogem da minha memória agora. roda.com.br

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foto Andreza Haik

Fotografia do acervo pessoal de Paulinho no início de sua carreira

Essa história nossa do samba é assim fascinante porque se enriqueceu e mudou muito. Os movimentos que vinham surgindo na música brasileira, desde a bossa nova em 50, já propunham uma abordagem diferente daquilo que se fazia tradicionalmente com o samba. As escolas de samba mudaram de ano para ano e elas incorporaram muita coisa nova também. Você pode dizer que o samba tem origem na África, com elementos da cultura portuguesa, com grandes influências aqui no Brasil, mas você vê que o povo foi antropofágico, pegou tudo e o devolveu de outra maneira. Nesses cem anos sempre houve experimentações, desconstruções, jovens talentos trazendo coisas novas... E essa linha rítmica, tão forte, só não desapareceu por um motivo: porque o povo não deixou. Já no começo dos anos 1970, eu costumava ouvir produtores dizer: “Ihh, a gente tem que acabar com essa velharia aí”. Se um produtor diz isso tem um peso, mas as pessoas não deixaram de tocar, artistas gravavam sambas antigos e novos, incorporaram novas tecnologias, usaram um instrumental diferente, construíram versos de outra maneira... Tudo foi mudando, mas se fosse pelo mercado, o samba não seria o que hoje ele é.

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O que acha que a gente estará comemorando daqui a outros cem anos? Como você imagina que vá ser o futuro do samba? Não sei te dizer isso, mas sei que hoje há escolas de samba até fora do país. Quando fui ao Japão em 1986 já tinha uma escola de samba lá e desfilava e tudo. Um dos primeiros enredos da Portela, em 1923, chamava-se O Samba dominando o mundo. Já havia o sonho do compositor popular de que algum dia o samba conquistaria o mundo. Eu não acho que dominou o mundo, mas foi para muitos lugares. Eu acredito que essa coisa do samba no mundo se deve muito às escolas do samba, mesmo com os estereótipos e a visão distorcida que chega lá fora do que o samba é.

No cenário atual, com tanta oferta, se prestaria atenção a um novo Paulinho da Viola? Eu não sei te dizer, querida. Mas eu viajo bastante, e onde eu vou e faço um show recebo até quize discos. É muita coisa, é muita gente e fica realmente difícil você saber o que é bom e o que não é. É muito diferente do nosso tempo. O que eu sei te dizer é que tem muita coisa legal, mesmo no universo do samba, no universo do


fica mais um pouco, amor

foto Guilherme Kawall

O artista em show comemorativo a seus 50 anos de carreira, em 2014

choro. Outro dia, um rapaz, de quem eu já havia ouvido falar, me deu um CD seu em São Paulo. Eu nunca ouvi ninguém fazer aquilo com um cavaquinho. Chama-se Messias Britto. Agora, veja se você vai achar um disco dele em alguma loja! Talvez em alguma especializada. Mas as pessoas que fazem esses trabalhos autorais e não têm uma gravadora que vai distribuir, encontram uma enorme dificuldade para dar a conhecer sua música. E os espaços para essas pessoas jovens apresentarem seus trabalhos, ao invés de se multiplicar, diminuem. Por outro lado, muitas vezes tem artistas, que nem são artistas, que gravam uma duas, três músicas e daqui a pouco é um estouro.

O que lhe sugere que um intérprete como Wesley Safadão tenha um dos cachês mais altos do país (cerca de 650.000 reais por um show)? Eu li sobre ele. Isso é o que se chama de mercado. Você tem um público enorme que consome esse trabalho e isso reverte no cachê. É difícil julgar. Seria uma pretensão dizer se isso é bom ou ruim. Claro, tem gente que não gosta, mas você tem que cuidar de fazer o melhor que você pode. Eu mesmo tenho trabalhos que não gosto mais de ouvir.

Como foi trabalhar durante a ditadura? Eu só tive uma música censurada e isso que era uma época que eu tinha um envolvimento político maior. Mas meu trabalho não era reivindicativo. Eu achava que já tinha muita gente fazendo isso, e algumas pessoas não faziam bem. Algumas músicas eram mais panfletos do que arte. E panfleto não é arte. A música que eu tive censurada era sobre um par de sapatos. Eles sapateavam. Ela se chamava Meu sapato e dizia assim: “Meu sapato de salto de aço inoxidável que sapateia que rompe as teias que se formaram sobre as calçadas.” E o sapato ficava fazendo uma batucada. Num determinado trecho, a música falava de uma figura que tinha brasões e viram aí uma provável alusão ao militarismo. mas isso não fazia sentido. Acabei tirando aquele trecho e escolhi um outro título. Tem um que fala assim [Paulinho canta]: roda.com.br

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foto Kristine Rocha

Paulinho da Viola e Canhoto da Paraiba no Pixinguinha de 1978

“Acende uma chama É o som de um samba Que chega nas ondas da noite pra mim Dizendo que a história nos ensina E um amor assim ninguém domina.” Essa frase, “que um amor assim ninguém domina”, tinha um significado na época que você não quer saber, mas eles não podiam censurar isso. [Paulinho continua cantando]. “Se há um tempo de amargura Pode haver a desventura De um samba sem calor Mas nada se conserva eternamente Depois a gente se vê amor.” Essa música tinha um significado, não precisava falar diretamente de nada, estava aí. Inúmeros artistas fizeram isso para driblar a censura.

O que acha do Carnaval de hoje? É muito diferente daqueles em que você participava? Essa história é também longa. Na década de 1970 eu ainda saía na Portela e começamos a notar que algumas escolas apresentavam uns sambas mais curtos e mais rápidos, mais vibrantes. As escolas enfrentavam alguns problemas, entre eles de espaço.

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Não tinha sambódromo, havia pequenas arquibancadas, o povo invadia o desfile, não havia como controlar isso. Mas eu adorava. Principalmente porque a batucada, era outra batucada. A forma de tocar mudou muito. Cada bateria tinha um som diferente, você poderia diferenciar as escolas pela forma como tocavam os instrumentos. E como não havia essa quantidade de escolas, ficavam um tempo enorme desfilando. Mas a medida que as escolas foram crescendo e sofisticando seus enredos e aprimorando suas fantasias é claro que tudo mudou e o andamento acelerou. Pensava-se que ficava mais vibrante. Você pode acelerar, mas tem que ter um limite. Nesse andamento que as escolas fazem hoje, repare no tamborim tocando: ele não faz mais a síncopa do samba. Antes não era qualquer pessoa que saía tocando um instrumento, saíam os melhores. Isso dava um balanço no samba que não existe mais. O fato das escola se verem obrigadas a passar em um tempo cronometrado, ver as pessoas correndo, se empurrando inclusive para não serem penalizadas, isso não é desfile. Ao mesmo tempo, os sambas chamados samba de terreiro ou de quadra são sambas que até hoje são cantados pelas pessoas e gravados pelos artistas, enquanto os sambas de enredo, com algumas exceções, são até descartáveis.


fica mais um pouco, amor

foto Natália Andrade

Paulinho da Viola em sua casa, no Rio de Janeiro

O Carnaval deste ano está cheio de marchinhas sobre a crise econômica e política. Se tivesse que compor uma letra crítica hoje, sobre o que seria? Acho que a gente vive uma situação muito difícil. Existe uma luta política e muita desinformação da nossa parte. Mas pela primeira vez você tem uma discussão aberta sobre uma questão muito antiga e que não é só daqui que é a corrupção. É algo muito sério, mais que qualquer outra coisa, eu acho. Eu tento acompanhar de alguns jornais, tento discutir com meus filhos, meus amigos, mas eu acho que é uma areia muito grande para o meu caminhão. Eu não sei como vai se desenvolver tudo isso.

Há algo que ultimamente lhe indignou, como um possível aumento de impostos? Olha, se essa é a melhor proposta… Nessa hora em que as pessoas não têm condições de comprar nada… De repente uma ação da Petrobras vale cinco reais, a maior companhia do país. Qual é o significado disso? Tem muita gente que investiu dinheiro aí, pequenos investidores que foram estimulados a isso. O que você vai dizer para essas pessoas?

Se decepcionou com estes últimos governos? Sim, estou um pouco decepcionado. Mas de uma maneira geral, é difícil ficar entusiasmado nesses tempos. Mas eu não gosto de falar disso, não.

No documentário sobre a sua vida, de Zuenir Ventura, a saudade é um tema recorrente. Às vezes parece que você foge dela, às vezes parece que a minimiza. O que é a saudade? A memória é muito importante para mim, tem um peso muito grande. Ele me perguntou sobre a saudade e eu disse: “Eu não sinto saudade”. Isso ficou no filme e eu estava andando uma vez na cidade e uma senhora me parou e me disse: “Como é que você pode dizer uma coisa dessas? Eu acabei de perder uma pessoa, você não sabe o que isso significa para mim”. E ela disse isso com lágrimas nos olhos. A única resposta que eu tive foi abraçá-la [os olhos de Paulinho se avermelham] e comecei a chorar com ela. Quando falo isso fico emocionado. Mas o que eu queria dizer é que talvez eu não sinta essa saudade, como se eu quisesse voltar no tempo, porque para mim é como se tudo estivesse presente. Quando eu falo do Paulo da Portela é como se ele estivesse aqui, quando eu falo do Pixinguinha, que é a coisa que eu mais gosto de ouvir na minha vida, ele está aqui. Zé Kéti, que é adoração, é como se estivesse aqui. Quando eu falo da minha avó, que amo, minha mãe, meu pai, eu não sinto a falta deles, porque é como se eles estivessem aqui. Eu acho que sofro menos, talvez seja um mecanismo de defesa que eu criei, eu não sei. Meu passado é muito presente, mas isso não quer dizer que eu seguro ele. roda.com.br

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Seu Carlão do Peruche, um baluarte do samba de São Paulo Integrante da mais antiga escola em atividade, a Lavapés, Seu Carlão é uma das figuras ilustres do samba paulista TEXTO Kathleen Hoeppers

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o mundo do samba paulista há poucas hisA sua obra e a sua caminhada reafirmam a imtórias tão genuínas quanto a de Seo Carlão portância da música popular e das manifestações do Peruche: o integrante da mais antiga afro-brasileiras na constituição da nossa cultura. escola em atividade, a mítica Lavapés, e grande “O Carnaval é cultura nossa. A gente não sabe nem conhecedor das origens, tradições e do jongo e o quem é o presidente do país, mas sabe que aqui congado – ancestrais do samba –, é também fun- tem samba e futebol”, afirma em entrevista exdador do G.R.C.S.E.S. Unidos do Peruche. clusiva à revista RODA. É por isso que Seo Carlão, Além de excelente ritmista, partideiro, intér- por toda sua trajetória, pode falar sobre o assunto prete e compositor respeitado, Carlão é um bata- com o bacharelado que a vida lhe concedeu. lhador pelo samba e pelas tradições afrodescenNascido no dia 11 de setembro de 1930 na dentes de São Paulo. Condecorado Embaixador do Rua Pirineus, no bairro da Barra Funda, Carlos Samba pela União das Escolas de Samba de São Alberto Caetano teve sua iniciação musical no Paulo (UESP) e agraciado com o Prêmio Anchieta jongo, como ele próprio define, “o embrião do pelos relevantes serviços prestados ao samba da samba”, em Pirapora do Bom Jesus. Ele ia com a capital paulista, Seu Carlão faz parte da categoria família para a festa que lá ocorre todos os anos, dos mestres e sua influência é aclamada por várias no dia 6 de agosto. Enquanto sua mãe, a dona gerações de grandes sambistas. Maria José Cruz, ia para a igreja, o seu pai, José Aos 87 anos de idade, sua trajetória na música Moisés Caetano, o levava para um barracão onde confunde-se com a história do próprio samba reinava o batuque. “Costumava-se separar os do estado: dos batuques do interior, que o in- homens e as mulheres e tinha o pai do samba, fluenciaram desde a infância, às glórias, como que tocava um bumbão grande. Pra cantar tinha a oficialização do Carnaval paulistano durante a que pôr a mão no bumbo e pedir a autorização ditadura militar, no ano de 1968. do pai do samba. Daí, então, podia cantar”.

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fica mais um pouco, amor

foto Marília Xavier

Seu Carlão do Peruche fala sobre sua trajetória com exclusividade à RODA

Dono de uma visão crítica, Carlão reage contra Tendo sido hostilizado por repressão policial a desvalorização cultural que figura na cidade: “Hoje ainda criança, passou a encarar os tortuosos caestá tudo diferente. Tem uma Casa de Cultura que minhos da sociedade da qual foi marginalizado. virou um grande negócio. O comércio é violento”, “Eles furavam os nossos instrumentos e nos prenquestiona sobre o não reconhecimento e a falta de diam porque estávamos fazendo batucada. Nos importância concedida aos espaços destinado às chamavam de pretos e vagabundos”, lembra das manifestações culturais do interior do estado. abordagens policiais arbitrárias que sofreu na juAnos mais tarde, no início da década de 1940, ventude, problema ainda atual e que ainda aflige seus pais o colocaram para morar com o tio poli- alguns setores da sociedade. cial, Gabriel Ferraz, na Rua Manoel Dutra, localizada no bairro do Bixiga. Neste época, Carlos começou a exercer o ofício de engraxate ambulante aos finais de semana - uma alternativa para conseguir um dinheiro e ajudar no orçamento familiar. O menino ia engraxar sapatos na região do Pátio do Colégio, no centro da cidade, e descobriu que o utensílio servia também de instrumento musical para alguns de seus colegas, Toniquinho Batuqueiro e Germano Mathias. Batucando na lata de graxa, na ausência da freguesia, tomou gosto pela percussão. “A gente ficava batucando na caixa de engraxar e na latinha de graxa. Também jogávamos tiririca – modo de dançar o samba com rasteiras.”

Eu não compactuo com o Carnaval de atualmente. Acho que parece uma boiada, uma procissão roda.com.br

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foto Matheus Manoel

Carlão do Peruche, 87, um dos fundadores da Unidos do Peruche, em um de seus shows

Na década de 1940, Carlão já havia se iniciado no mundo carnavalesco paulistano, desfilando na Flor do Bosque, uma escola de samba pequena no Bosque da Saúde e, no ano de 1947, como ritmista na Lavapés – escola de samba mais antiga ainda em atividade do estado de São Paulo. A ideia de se criar uma escola de samba na Casa Verde surgiu entre amigos e militantes da Lavapés com sambistas da região do Parque Peruche. Em 1956, Seo Carlão se tornou um dos fundadores da Sociedade Esportiva Recreativa Beneficente Unidos do Parque Peruche, agremiação localizada na zona norte da cidade, que realizava seus ensaios em um espaço chamado “Terreiro do Caqui”. Passados 61 anos desde a sua fundação, Seo Carlão – hoje no cargo de Presidente de Honra e da Velha Guarda da escola – acompanhou de perto o processo de criação e evolução da agremiação, mantendo sempre a originalidade e o comprometimento que o destaca no mundo do samba até hoje. “No meu entender, eu não compactuo com

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o Carnaval de atualmente. Não passa de uma disputa entre as escolas de samba. Trabalha-se o ano inteirinho para um desfile que dura 65 minutos. Mais de três mil componentes atravessando dois quilômetros; parece uma boiada, uma procissão.” A percepção para captar as principais distorções da sociedade e até antecipar acontecimentos, como a mercantilização do Carnaval e a criação do Bloco Sovaco de Cobra, em 1975, marca definitivamente a trajetória de Seo Carlão como um dos grandes militantes do gênero na capital paulista. Carlão, no papel de sambista e amante do gênero, fez sua parte por ter tido a coragem de colocar o dedo na ferida mesmo sob tantas condições adversas, quando muitos se calaram e não agiram. Ele encerra a entrevista com uma crítica de respeito ao atual cenário político: “Nós somos o povão. Tudo o que fazem lá em cima reflete aqui. Nós somos o país que mais paga impostos. Para onde é que vai o nosso dinheiro? Ainda mais com esse bando de gente ‘honesta’ nos dirigindo.”


DESDE QUE O SAMBA É SAMBA

Uma história de luta e resistência Negros escravizados tinham que dançar o batuque escondidos dos senhores TEXTO Claudete Nogueira

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samba teve origem lá no continente africano e foi trazido para o Brasil pelos negros que foram escravizados. Sua origem está ligada à dança originária em Angola, denominada umbigada. O batuque de umbigada, também conhecido como tambu ou caiumba, é uma manifestação cultural trazida para o Brasil pelos escravos de origem bantu. Com seus instrumentos como o tambu, uma espécie de tambor feito de tronco oco de árvore; quinzengue, um tambor mais agudo que faz a marcação rítmica do tambu e nele se apoia; as matracas, que são os paus que batem no tambu do lado oposto do couro; guaiás ou chocalhos de metal em forma de cones ligados. Na dança, homens e mulheres formam duas fileiras que se defrontam, encontram-se no centro do salão, fazendo passos variados e terminam com a umbigada. A região Sudeste caracterizou-se por concentrar um grande contingente de negros, principalmente os de origem cultural bantu. Estudos mostram que, em 1850, cerca de 90% dos homens e 2/3 das mulheres escravizados em fazendas com 20 a 50 escravos no Sudeste eram africanos. A continuidade

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do tráfico negreiro manteria essa percentagem ao longo de todo o século 19, com a economia açucareira e mais tarde a do café, que exerceu impacto em áreas pouco populosas sendo, portanto, fundadas por gerações de comunidades de escravizados da região centro-africana, entre elas, em sua maioria, bacongos, umbundos e ovimbundos. De acordo com a professora Olga Von Simson entre as bagagens trazidas pelos escravizados que vinham da região Nordeste do Brasil veio também o que hoje denominamos de patrimônio imaterial, isto é, os saberes e os hábitos culturais que eles adquiriram na sua infância e juventude. Entre esses saberes culturais certamente chegou também o de cantar e dançar o samba de roda, uma prática já então em ampla difusão por toda a região nordestina e na qual também se incluía a umbigada, originada do antigo ritual religioso angolano em honra à deusa da fertilidade. Diante desse contexto, percebe-se que o resultado da vinda desses escravizados de origem bantu favoreceu a propagação de algumas manifestações afro-brasileiras com base cultural comum,


tempos idos

foto Nathaly Oliveira

Manifestação cultural do Batuque de Umbigada no Teatro do Incêndio no Bixiga

como as “danças de umbigada”. Essas manifestações se espalharam pelo interior paulista, recebendo diferentes denominações, de acordo com as especificidades adquiridas nos locais. Cidades como Rio Claro, Campinas, Piracicaba, São Simão e Itapira; Itu, São Roque, Sorocaba, Araçoiaba da Serra, Laranjal Paulista e Tietê, no eixo Médio do Rio Tietê; Redenção da Serra, Jacareí e Caçapava, no Vale do Paraíba, são algumas das áreas de ocorrência do samba rural paulista no passado. Atualmente Tietê, Capivari e Piracicaba continuam sendo espaços dessas manifestações. O Treze de Maio em Piracicaba, o Sábado de Aleluia em Capivari e a Festa de São Benedito em Tietê são algumas das ocasiões em que passado e presente se confundem na dança de umbigada, nos reaquecimentos dos tambores ao calor da fogueira, nos longos versos improvisados em que homens e mulheres, jovens e velhos (re)vivem um ritual que o tempo não conseguiu apagar. Essa mesma modalidade de samba é também praticada atualmente nos municípios Santana do Parnaíba (grupos Cururuquara e Gritos da Noite),

Vinhedo (Samba de D. Aurora), em Mauá (Samba Lenço), Quadra (Samba Caipira) e em Pirapora do Bom Jesus (Samba de Roda). A partir da minha pesquisa de Doutorado defendida na Unicamp em 2009, tive contato com os batuqueiros das cidades de Piracicaba, Capivari e Tietê que relataram as histórias guardadas em suas memórias, envolvendo violência, repressão e preconceitos. Nos relatos dos sambistas paulistanos pode-se perceber que a história do samba rural de São Paulo foi marcada pela luta e resistência contra o poder estabelecido. São histórias que ressaltam a resistência ao sofrimento do cativeiro, a luta para manter a vida e a cultura. Destacam-se as histórias em que os escravos tinham que dançar o batuque escondidos dos senhores e que quando descobertos tinham que “disfarçar” os cantos ou eram castigados. A formação dos bairros de periferia, nas cidades do interior paulista, após o final do século 19, contribuiu para a manutenção dessas danças de umbigada, mesmo que ressignificadas. Levadas pelos ex-escravos que deixavam as fazendas em busca de um trabalho na zona urbana e que roda.com.br

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foto Vanessa Cavalcante

Grupo de samba Cururuquara do município de Santana do Parnaíba, em evento organizado por eles

acabavam se refugiando nesse contexto periférico, essa manifestação cultural enfrentou o desafio de continuar existindo em uma sociedade que buscava novas regras de convivência. No interior paulista, os ex-escravos distribuíram-se em espaços das periferias das cidades ou se mantiveram nas zonas rurais compondo o que se denomina de universo caipira. Os descendentes desses grupos, ao rememorarem suas trajetórias, reconstroem os difíceis momentos que caracterizaram o período, marcados principalmente pela luta em prol da sobrevivência. Nos depoimentos de membros das famílias, estão presentes as mágoas, a revolta e a indignação decorrentes dessa marginalidade que estava presente em todos os momentos possíveis. No ambiente de trabalho, na convivência cotidiana, assim como no lazer.

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No entanto, fica evidente que a situação de marginalidade e racismo não passou despercebida pelos negros e negras vítimas da discriminação. Essa percepção fazia-se notar também nas letras das músicas que, dentro do universo do batuque, retratavam a situação por que passavam as famílias, como na letra criada e cantada por Dona Anicide Toledo, de Capivari, para denunciar a situação do filho que sofria discriminação no trabalho: “Eu moro em Capivari, gosto muito da minha terra, eu moro em Capivari, São João que me perdoe, do que eu vou falar aqui. Precisa acabar o racismo, dentro de Capivari” – depoimento concedido a Claudete de Sousa Nogueira em 2006. Assim, ao ouvir e vivenciar as experiências narradas pelos descendentes dos antigos batuqueiros pode-se perceber que o samba foi e continua sendo um espaço de resistência e do exercício da cidadania.


tempos idos Detalhe da obra Batuque (1835), do artista Johann Moritz Rugendas

roda.com.br

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A história de Assis Valente, o sambista trágico Há 90 anos nascia o compositor amargurado que fez alegres sambas como Tem Francesa No Morro e outros clássicos da MPB TEXTO Claudete Nogueira

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ssis Valente teve uma vida atormentada. Os muitos sucessos de sua autoria não foram suficientes para impedir que ele tentasse tirar a própria vida três vezes antes de finalmente conseguir, em 10 de março de 1958, ingerindo guaraná com formicida numa praia carioca. Assis, que completaria 90 anos na próxima segunda-feira, 19 de março, tentou afogar-se na praia do Leme, jogar-se de uma janela, e, a mais notória de suas tentativas de suicídio, atirou-se do Corcovado em 1941 – e não morreu. Mesmo com tão trágico histórico, não se pode dizer que sua vida tenha sido uma sucessão de fracassos. Pelo menos não do ponto de vista profissional. Nascido em Santo Amaro, no interior da Bahia, ele revelou desde cedo pendor para a vida artística e notável inteligência. Há até mesmo uma estranha história segundo a qual teria sido raptado aos seis anos de idade por um homem que não se conformava em ver criança tão brilhante em um local tão pobre. Lendas à parte, o fato é que, aos nove anos, José de Assis Valente já vivia em Salvador, longe dos seus pais e dos irmãos. Era farmacêutico

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e estudava desenho e escultura no Liceu de Artes e Ofícios. Algumas vezes, Assis entretanto, atuava como artista e comediante acompanhando um circo. Mais tarde ele fez o curso de prótese dentária. Ou seja, um homem de múltiplos interesses e talentos, que nunca conseguiu se decidir definitivamente por uma ocupação.

SUCESSO PROFISSIONAL Depois que foi para o Rio de Janeiro, em 1927, trabalhou como ilustrador e como protético antes de começar a fazer sambas, por influência de Heitor dos Prazeres, o bamba da Praça Onze com quem fez amizade no início da década de 30. Suas ilustrações eram boas a ponto de serem publicadas em revistas de prestígio, como a revista carioca Fon Fon. Do seu ofício de protético, dizem que era o melhor de sua época, e manteve a profissão por toda a vida. Seus sambas foram gravados pelos maiores intérpretes de então: Francisco Alves, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Aracy de Almeida, as irmãs Aurora e Carmen Miranda, entre muitos outros.


tempos idos

foto Kristhian Cavalcante

Assis Valente, compositor e pai de grandes canções do samba em foto de 1932

Na vida pessoal, no entanto, a situação era outra. A própria incapacidade de se decidir pela vida de sambista serve como indício de sua indefinição íntima. Segundo seus biógrafos – Francisco Duarte Silva e Dulcinéa Nunes Gomes, autores de A Jovialidade Trágica de José Assis Valente, ed. Martins Fontes, 1989 – e as pessoas que conviveram com ele, Assis era um homossexual reprimido pela ambiente machista e moralista em que transitava, o mundo boêmio carioca dos anos 30, 40 e 50. Casado e pai de uma filha, esbanjava dinheiro com seus amantes, e por isso contraiu sérias dívidas, apontadas como um dos motivos de seu suicídio na carta que deixou. Além disso, andava “muito cansado das injustiças e muito enojado de tudo”, conforme escreveu na carta.

CARMEN MIRANDA: AMOR E MÁGOA Sua carreira musical, no entanto, foi marcada pelo sucesso de músicas espantosamente alegres, indo na contramão da imagem que tinha a sua personalidade, de “triste e amargurada”, para usar as expressões que utilizou em Alegria. Neste samba diz:

“Minha gente era triste e amargurada inventou a batucada pra deixar de padecer salve o prazer salve o prazer.” Assis inventou sua própria batucada, brejeira e satírica, capaz de conquistar a exigente Carmen Miranda, mas nem assim deixou de padecer completamente. Carmen foi sua principal e mais querida intérprete, por quem tinha verdadeira fixação. Depois de ter gravado em 1933 Good Bye Boy e Etc., a Pequena Notável se encantou com o compositor baiano, e eternizou pérolas como Recenseamento, E o Mundo Não se Acabou – que ganhou recentemente versões de Paula Toller, Adriana Calcanhotto e Ney Matogrosso – e Camisa Listrada. Carmen foi também um dos maiores motivos de desgosto para Assis. Em 1940, quando voltou de uma temporada nos Estados Unidos, ela pediu músicas para gravar. O sambista lhe ofereceu a canção Recenseamento e Brasil Pandeiro. Carmen gostou da primeira, mas desprezou a segunda, dizendo roda.com.br

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foto Reimes Teixeira

Assis Valente e Carmen Miranda (1954), em fotografia publicada em jornal da época

que era muito “borocoxô”, que não prestava. Esse samba começava dizendo que “chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor” provou-se um sucesso atemporal, estourando três vezes até hoje. “A recusa da Carmen doeu muito nele, Valente nunca mais esqueceu”, disse a cantora Marlene, que gravou em 1956 seu primeiro LP, inteiramente dedicado ao repertório de Assis. “Foi o violonista Luiz Bittencourt quem me sugeriu que eu gravasse Assis, e até hoje acho que fiz muito bem aceitando a sugestão. Era uma época em que ele passava por muita dificuldade financeira, ninguém mais queria gravá-lo. O meu disco foi uma grande alegria para ele”, lembra Marlene. A cantora se recorda ainda da personalidade do compositor: “Ele era muito tímido, muito fechado, acho que tinha vergonha que alguém descobrisse que era homossexual. Imagina, naquela época! Nunca o vi com um amigo, ele devia ser muito sozinho. Mas era uma pessoa muito delicada, interessante, inteligente e educadíssima.”

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O primeiro sucesso de Valente de Assis foi em 1932, quando a Araci Côrtes gravou a impagável canção Tem Francesa no Morro, que satiriza a moda francófona da época por meio de versos como: “Vian Petite francesa Dancê le classique Em cime de mesa.” No ano seguinte seria a vez de Carlos Galhardo ter enorme êxito com a marcha natalina Boas Festas, um clássico regravado muitas vezes por muitos ícones – Caetano Veloso a cantou, no ano de 1968, na TV, à moda tropicalista, com uma arma apontada para a cabeça. Também em 1933, os artistas Aurora Miranda e Francisco Alves gravaram Cai, Cai, Balão, música da autoria de Assis, inspirada nas festas juninas e que se tornou parte do patrimônio musical infantil brasileiro.


tempos idos

foto Maria do Carmo

Dorival Caymmi, Carmen e Assis posam com o microfone da Radio Mayrink Veiga

PONTO DE VISTA FEMININO A década de 1930 foi o auge da carreira do artista Assis Valente, lançando suas músicas de maior sucesso pelas vozes privilegiadas dos grandes nomes do rádio. Transitava com facilidade pelo meio, tendo sido inclusive o introdutor do conterrâneo Dorival Caymmi no ambiente artístico. Depois do rompimento com Carmen e do êxito de Brasil Pandeiro na gravação dos Anjos do Inferno, a vida de Assis foi entrando em um período de declínio. O ano de 1941 foi o do seu casamento e da tentativa de suicídio atirando-se do Corcovado. Alguns sucessos esparsos permearam aquela década, como o pungente Fez Bobagem, gravado pela Aracy de Almeida. É possível que este samba tenha sido feito para um de seus amantes, falando do ponto de vista feminino: "Meu moreno fez bobagem Maltratou meu pobre coração Aproveitou a minha ausência."

Depois de sua morte, Assis teve esparsas homenagens. Foi muito gravado por cantoras. Aracy de Almeida, Elza Soares, Isaura Garcia, Márcia, Maria Alcina, Simone, Olívia Byington, Wanderléa, Nara Leão, Maria Bethânia, Zezé Motta, Clara Nunes, Vanusa, Eliete Negreiros e Ademilde Fonseca já se arriscaram no repertório valentiano ao longo dos anos. Ultimamente, o artista ganhou interpretações do cantor Eduardo Dussek – ex-Dusek –, que recriou o repertório de Carmen Miranda, e acaba de ser gravado por Ney Matogrosso em seu recém-lançado décimo oitavo ábum solo chamado Batuque. Disco só com músicas suas é possível achar um, gravado em 86 e relançado em CD pela coleção Acervo Funarte. Em 95 ficou em cartaz no Rio de Janeiro o musical O Samba Valente de Assis, um panorama sobre a vida do sambista com o ator Norton Nascimento (19622007) no papel principal; e um espetáculo no qual o ator e o músico Luiz Gaiyotto uniram a poesia de Castro Alves e a música de Valente. roda.com.br

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Uma breve história sobre o peculiar samba paulista Identidade controversa do ritmo em São Paulo não intimidou seus talentos e não o impediu de se consolidar no Brasil TEXTO Antônio Rafael Junior

O

s defensores de um estilo próprio do samba e instrumentação, como “o maior peso do batuque, paulista sempre tiveram como base o enal- feito com muito surdo e bumbo, e pouca miudeza tecimento da sua origem rural. A zabumba – pandeiro, cuíca, frigideira, chique-chique”. usada por negros escravizados para marcar o comNo entanto, a existência de um samba tipicapasso da música tornou conhecido o samba de mente paulista é controversa. Não é consensual bumbo, ritmo que marcou o gênero de forma a nem mesmo entre alguns dos maiores sambistas servir de referência para diferenciar o samba pau- de São Paulo o reconhecimento de que há um eslista do carioca, ao qual sempre foi comparado. tilo paulista que diferencie este gênero musical Em depoimento ao documentário Samba à das demais regiões do País. Paulista, fragmentos de uma história esquecida, lançado em 2007 por Gustavo Mello, o sambista CONTROVÉRSIAS Geraldo Filme, um dos ícones do gênero em São Considerado o pai do samba paulista, Adoniran Paulo, afirmou categoricamente: “Nosso samba Barbosa foi justamente uma figura contrária à não tem nada a ver com o samba do Rio, é tão dife- classificação regional do samba, afirmando que rente em tudo, nos tipos de manifestação da gen- o samba paulista, carioca, baiano, entre outros, te, no andamento. O nosso vem mesmo daqueles seriam iguais. Para ele, o que existia era simplesbatuques, daquelas festas que eram dadas aos mente o samba brasileiro. Outro importante samescravos quando tinham boas colheitas de café”. bista paulista que não demonstra preocupação Um dos grandes defensores do samba típico de com a segmentação regional é Germano Mathias. São Paulo é o cantor, compositor, produtor e pesAs controvérsias quanto à identidade paulista do quisador musical Osvaldo Barro, conhecido como samba muito se devem a transformações que esse Osvaldinho da Cuíca. Para ele, o samba paulista tem gênero musical sofreu por conta do desenvolvicaracterísticas próprias quanto à estrutura rítmica mento da grande São Paulo, principalmente no

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tempos idos

foto Gabrielle Celestino

Adoniran Barbosa assinou canções que entraram para o imaginário nacional

decorrer do século 20. Uma das transformações foi o avanço da industrialização que, pouco a pouco, restringiu os espaços que serviam de redutos do samba nas grandes cidades, sobretudo na capital, que foi a mais afetada pela mudança. Ao defender que “o samba paulista é diferente do samba baiano que se instalou na cidade do Rio de Janeiro”, o dramaturgo Plínio Marcos escreveu um artigo no jornal Folha de São Paulo, em 13 de fevereiro de 1977, em que destacou os principais redutos do gênero na “cidade da garoa” – a grande São Paulo – naquela época: Jardim da Luz, Barra Funda, Largo da Banana, Praça Marechal, Alameda Glete, Bexiga, Rua Direita, Praça da Sé, Largo da Banana, Barra Funda, Jardim da luz e Praça da Sé, locais em que, segundo ele, “o crioulo vindo do interior ia se instalando perto dos locais de trabalho”. O desenvolvimento econômico aqui no Brasil descaracterizou vários desses locais, como o Largo da Banana, por exemplo, que deu lugar ao Memorial da América Latina. E assim o samba foi perdendo seus antigos espaços. O que não quer dizer que o gênero foi esquecido. Apenas transformado.

TRANSFORMAÇÕES Além das modificações geográficas dos antigos redutos do samba, pesquisadores apontam uma significativa influência do rádio nas características do samba paulista, especialmente a partir do ano 1936, com a inauguração da Rádio Nacional. A emissora passou a difundir o samba carioca por todo o Brasil, tornando-o uma espécie de referência nacional. Outro impacto deveu-se à oficialização do carnaval paulistano em 1968, o que levou os tradicionais cordões carnavalescos da capital paulista a seguirem os padrões dos desfiles do Rio. De acordo com a historiadora Ligia Nassif Conti, que fez sua tese de doutorado na USP (Universidade de São Paulo) sobre esta temática, foi a partir de 1968 que “as posições contrárias à padronização do carnaval diante do modelo carioca e os discursos lamentosos da descaracterização sofrida pelo carnaval paulista tomaram forma”. Mais que isso, a inauguração do Sambódromo do Anhembi, em 1991, reforçou as críticas dos antigos sambistas por ser “uma estrutura fechada e com entrada restrita a um público pagante”. roda.com.br

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foto Luana Rocha

Integrantes do grupo Demônios da Garoa, uma das bandas ícones do samba paulista

PAI DO SAMBA PAULISTA

OUTROS ÍCONES

Entregador de marmitas na adolescência, Adoniran cresceu ouvindo rádio e se aventurou nas emissoras paulistanas inicialmente como humorista e ator. Os primeiros sambas que compôs datam dos anos 30, mas as primeiras décadas de sua carreira foram difíceis. “Nas suas primeiras e só pouco fecundas tentativas de ingresso no mercado radiofônico paulista, o então João Rubinato se inscreve em programas de calouros, optando por interpretar sambas dos bambas cariocas como Noel Rosa, Silvio Caldas e Orestes Barbosa”, relata a historiadora Ligia Nassif Conti. A difícil aceitação de Adoniran como ator e músico era justificada por sua voz fanha e seu sotaque ítalo-paulistano. Apesar disso, o artista atravessou as oscilações iniciais e aproveitou o auge do rádio para criar modas, falar dos costumes e materializar histórias populares em suas canções. Assim, entre tantas outras notáveis composições, surgiram Saudosa Maloca (1951), Samba do Arnesto (1953) e Tiro ao Álvaro (1960), esta última eternizada na voz de Elis Regina. O maior sucesso de sua carreira, entretanto, foi Trem das Onze, canção que virou símbolo da cidade de São Paulo. Composta por Adoniran em 1951, Trem das Onze foi regravada em 1964 pelo grupo Demônios da Garoa, que havia firmado uma parceria de sucesso com Adoniran anos antes.

Fundado em 1940 pelo músico Arnaldo Rosa, o Grupo Demônios da Garoa, tornou-se a banda mais famosa do samba paulista em todos os tempos. Boa parte dos sucessos do grupo, no entanto, deve-se à regravação de composições de Adoniran Barbosa. Grandes mestres do samba paulista já se foram, mas ficaram eternizados na memória da música brasileira. Geraldo Filme, por exemplo, nascido em 1928, cresceu nas rodas de samba da Barra Funda. Filme teve participação marcante em desfiles de carnaval nas escolas Unidos do Peruche e Vai-Vai. Também foram sambistas marcantes de São Paulo o Alberto Alves da Silva, o Seu Nenê, cujo nome batizou a escola de samba da Vila Matilde, e o popular Henricão, que compôs um dos maiores sucessos carnavalescos de todos os tempos, Está Chegando a Hora, canção que também ficou conhecida como canto de torcidas de futebol. Há ainda nomes consagrados dentro do samba paulista que permanecem como lendas vivas. É o caso de Germano Mathias, com 81 anos, cujo grande sucesso foi Meu Nego na Janela e que ficou conhecido por cantar e tocar com uma tampa de lata de graxa, homenagem aos engraxates da Praça da Sé, com quem conviveu na década de 50. Quem segue em plena atividade é Osvaldinho da Cuíca, 75 anos, que chegou a tocar com Adoniran Barbosa e que já foi intérprete da escola de samba Gaviões da Fiel.

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DESDE QUE SAMBA É SAMBA

Como funciona uma escola de samba? O carnaval já está chegando e a gente te conta tudo sobre como a escola de samba se comporta na avenida INFOGRÁFICO Sara de Carli

Carros alegóricos, mestre-sala, porta-bandeira, enredo e comissão de frente. No desfile das escolas de samba, cada detalhe tem importância e significado próprio. Mas, você sabe para que serve cada um dos elementos de uma escola de samba? Surpresas e novidades são o que não faltam nos desfiles das escolas de samba, que as guardam como segredos a ser revelados somente na avenida, na noite de carnaval. Mas todas as agremiações precisam seguir regras básicas, dentro de um regulamento que confere pontos para decidir quem será a campeã do carnaval paulistano. Próximo ano, em 2018, serão 14 escolas desfilando no Grupo Especial de São Paulo, sendo então sete na sexta e sete no sábado. O primeiro desfile começa às 21h. Cada uma delas pode levar, no mínimo, 2.000 componentes. As escolas de samba de São Paulo possuem de 55 a 65 minutos para realizar sua apresentação.

ABRE-ALAS Responsável por apresentar a escola e o começar a contar a história do samba-enredo. Geralmente traz o nome da escola de samba.

COMISSÃO DE FRENTE Abre o desfile e dá o grande charme do enredo. Deve saudar o público e apresentar a escola. É obrigatória a exibição em frente às cabines de julgamento. Valem nota a coordenação de movimentos e a indumentária.

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camarão que dorme a onda leva

ALA DAS CRIANÇAS

ALA DAS BAIANAS

Crianças da comunidade desfilam fantasiadas. Não vale ponto, mas ajuda a contar o enredo. Só podem entrar na avenida se estiverem portando autorização do Juizado da Infância e da Juventude.

É item obrigatório para toda escola de samba. São as “mães do samba”, carregam a experiência e a tradição da escola. Devem girar nos refrões, ajudando na evolução.

ALA DOS COMPOSITORES

VELHA GUARDA

Composta pelos poetas e sambistas da escola, responsáveis pela criação dos sambas da agremiação ao longo dos anos.

Grupo de sambistas mais idosos, quase sempre fundadores da escola. Desfilam em posições de honra, com roupas de gala.

MESTRE SALA E PORTA BANDEIRA O casal carrega o pavilhão da escola. Por isso, toda a graça e beleza que eles levarem para a avenida vai demonstrar o amor pela escola. É um dos critérios de avaliação

BATERIA

ALA DOS PASSISTAS

São de 200 a 320 ritmistas de percussão. O quesito é avaliado de acordo com a performance artística e a obrigatória sustentação da cadência ao longo do desfile.

Cerca de 40 componentes, maioria mulheres. Têm importante papel na evolução.

RAINHA DA BATERIA Não é obrigatório, nem faz parte do julgamento. Mas toda escola tem sua rainha. Cabe a ela apresentar a bateria, mostrar samba no pé e simpatia.

CARRO DE SOM O intérprete ou puxador é acompanhado por apoiadores de canto. Geralmente, cinco auxiliares. Eles podem vir no chão ou em cima do carro de som, com três instrumentistas para marcar o ritmo. roda.com.br

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alma boĂŞmia


ALMA BOÊMIA

foto Fernando Souza

Wilson Batista, autor de obras como Lenço no pescoço e O bonde São Januário

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a coisa aqui tá preta

A MÚSICA COMO UM SÍMBOLO DA CRÍTICA SOCIAL BRASILEIRA Uma análise sobre o samba como instrumento de sátira política e resistência da cultura popular do país TEXTO João José da Silva

A

malandragem tem sido vista por muitos autores como essas canções não se constituem em um estilo de composição de samba largamente difun- grande número. Um passeio pelo unidido nos tempos da Primeira República (1889-1930). O verso da malandragem pode ser engênero teria sido desestimulado e perseguido no Estado Novo, contrado em sambas como Ora Vejam implantado em 1937, por ser considerado potencialmente de- só, de Sinhô, gravado pela primeira sestabilizador da ideologia trabalhista que então se buscava im- vez em 1927; A Malandragem, lanplantar. De acordo com essa vertente a história teria início na çado no ano de 1928, por Alcebíades década de 1880, quando ex-escravos traumatizados por anos Barcelos; Amor De Malandro, do de trabalho compulsório, ao se verem livres, recusaram o tra- cantor Ismael Silva, Francisco Alves balho regular, logo identificado à escravidão. Incorporados aos e Freire Júnior, lançado em 1929; e O contingentes marginalizados de cidades como o Rio de Janeiro, Que Será de Mim?, samba de Ismael eles encontrariam um meio de expressão no samba, ritmo de Silva e Nilton Bastos, lançado em 1931. origem popular, nascendo nesse momento o samba malandro. De certa forma, essa interpretação acaba reproduzindo ar- ODE AO MALANDRO gumentos dos senhores de escravos em sua defesa da imigração Outros exemplos notórios de sambas europeia por considerarem os libertos incapazes de servirem malandros lançados antes do enducomo trabalhadores assalariados. Por outro lado, a verdade é que recimento do patrulhamento, com a há poucas composições que critiquem o trabalho e apresentem entrada em cena do Departamento a malandragem como alternativa, mesmo antes do Estado Novo, de Imprensa e Propaganda – em afirma o historiador Tiago de Melo Gomes, professor de História 1939 são: Morro da Mangueira, de Contemporânea na Universidade Federal Rural de Pernambuco. Manoel Dias, 1926 –, Eu Quero é Nota Pesquisando trabalhos sobre o assunto, vasculhando antigas par- – Artur Faria, 1928 –, Caixa Econômica tituras, livros sobre música popular e outras fontes, ele notou que – Nássara e Orestes Barbosa, 1933 – e roda.com.br

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foto Divulgação

Detalhe da capa do álbum O Tal Malandro, do sambista de breque Moreira da Silva

O Trabalho me deu Bolo – Moreira da Silva e João Golô, 1937. Mas o exemplo mais característico é Lenço no Pescoço, do músico Wilson Batista, gravado em 1933 por Sílvio Caldas. A maioria dos estudos sobre a relação samba-malandragem cita Lenço no Pescoço como a “profissão de fé” do malandro. Ao elencar os principais ícones da malandragem – chapéu do lado, tamanco arrastando, lenço no pescoço, navalha no bolso, orgulho da vadiagem – a canção era a exaltação orgulhosa da malandragem: “Sei que eles falam Deste meu proceder Eu vejo quem trabalha Andar no miserê Eu sou vadio Porque tive inclinação Eu me lembro, era criança Tirava samba-canção Comigo não Eu quero ver quem tem razão.”

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Enfim, “o momento histórico foi parte decisiva na incorporação do gênero e do ato da malandragem como símbolos nacionais, o samba malandro surge em um momento em que se buscava nas classes populares os parâmetros para uma nova maneira de se pensar a nacionalidade”, diz o historiador Tiago Gomes.

ODE AO TRABALHO Assim, samba e malandragem acabam por serem aglutinados em um repertório de imagens que simbolizava ingenuidade, juventude e pureza nacional. Entretanto, não deve ser esquecido o conjunto de sambas de compositores consagrados do gênero, como Sinhô, o Donga, Assis Valente


a coisa aqui tá preta

e Noel Rosa, entre outros, que compunham canções com co- EXALTAÇÃO DO GOVERNO mentário social e, embora eles não tratassem de política direta- No processo de fortalecimento da mente, eram verdadeiras crônicas sobre a vida e o cotidiano na imagem do País, de seu governo e de cidade do Rio de Janeiro daquela época. seu líder máximo junto às camadas O Governo Vargas (1930-1945), principalmente no período populares, a música popular desemditatorial – inaugurado em 1937 – empenhou-se em privilegiar penhou papel importante, sendo sigum estatuto ideológico do trabalho e dos trabalhadores e co- nificativa a quantidade de músicas locá-los acima de outros assuntos. O trabalho devia ser visto exaltando aquele que era o “Pai dos como a fonte de todos os valores e a única via de ascensão e Pobres”, o “Amigo das Crianças” e o progresso. Ociosidade e improdutividade passaram a ser as- “Homem do Sorriso”. Sambistas como sociadas à malandragem e à decadência. Em contraposição ao Antonio Moreira da Silva, conhecido samba malandro, a máquina ideológica do Estado privilegiaria como Kid Morengueira, revelaram o samba exaltação, com letras enaltecedoras das grandezas do uma admiração pela figura do “HoPaís e das vantagens do trabalho honesto, realizando, conse- mem do Sorriso”, como atestam os quentemente, uma auto-promoção às custas do samba. versos do samba Diplomata, de 1943: Wilson Batista, o mesmo sambista que compôs a música considerada o hino da malandragem, Lenço no Pescoço, criou “Nasci no Rio de Janeiro, sou em 1940, em parceria com Ataulfo Alves, o samba O Bonde de reservista, sou brasileiro São Januário, gravado por Ciro Monteiro, cuja letra é um bom Minha bandeira foi desrespeitada, exemplo de alinhamento à ideologia estadonovista: foi humilhada e ultrajada Felizmente nessas horas tristes, “Quem trabalha é quem tem razão dolorosas e bem amargas Eu digo e não tenho medo de errar Temos um homem de fibra que é O Bonde São Januário o Presidente Vargas Leva mais um operário Debaixo de suas ordens, quero Sou eu que vou trabalhar empunhar um fuzil Antigamente eu não tinha juízo Para lutar, vencer ou morrer pela Mas hoje eu penso melhor no futuro honra do meu Brasil.” Graças a Deus sou feliz Vivo muito bem Getúlio Vargas seria deposto em A boemia não dá camisa a ninguém 1945 e suas fotos, antes obrigatórias, Passe bem!” foram mais do que depressa retiradas das repartições públicas. Cinco De acordo com alguns críticos, aderindo à retórica da glori- anos mais tarde, os retratos voltaficação do Estado Novo, muitos sambistas estariam malandra- riam quando Getúlio foi reeleito. A mente agradando ao DIP, alguns até estimulados pelos prêmios marchinha carnavalesca Retrato do de carnaval. Surgiu então uma safra de sambas e marchas com- Velho lançada na voz de Francisco prometidos com relógio de ponto como, por exemplo, as compo- Alves em 1950, embalou a campanha sições O Trem Atrasou – de Arthur Vilarinho, Estanislau Silva e eleitoral que levou Getúlio Vargas de Paquito, 1940 –; O Bonde do Horário já Passou – Haroldo Lobo e volta ao Palácio do Catete. O sucesso Milton de Oliveira, 1940 –; É Negócio Casar – Ataulfo Alves, 1941 foi tanto que as comemorações pela –; Sete Horas da Manhã – Ciro de Souza, 1941 – e Eu Trabalhei eleição de Getúlio Vargas se prolon– Roberto Roberti e Jorge Faraj, 1941. garam até o carnaval de 1951. roda.com.br

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BURLANDO A CARTILHA Retrato do Velho não foi a primeira marchinha política, mas tem sido considerada a precursora de jingles famosos, como os das campanhas presidenciais de Jânio Quadros em 1960 – Varre, Varre, Vassourinha – e Ulysses Guimarães em 1989 – Bote Fé no Velhinho. É inquestionável que a personalidade de Vargas exerceu um fascínio sobre os compositores brasileiros, como demonstra Jairo Severiano no livro Getúlio Vargas e a Música Popular Brasileira, que apresenta uma interessante série de composições feitas ao longo dos anos sobre o estadista. Mas, se é certo que a polícia política de Getúlio tentou tolher a liberdade dos compositores, também se chega à constatação de que não foram poucos aqueles compositores que se desviaram da cartilha imposta pelo projeto trabalhista do Estado Novo. Uma demonstração de que a ideologia trabalhista não conseguiu uma penetração mais do que superficial na obra desses sambistas é a de que, logo no primeiro carnaval após o fim do regime, os “regenerados” revelaram o oportunismo de sua conversão. No ano de 1946, fez sucesso um samba intitulado Trabalhar eu Não, de Almeidinha [Aníbal Alves de Almeida]: “Eu trabalho como um louco Até fiz calo na mão O meu patrão ficou rico Eu pobre sem tostão Foi por isso agora Que mudei de opinião Trabalhar, eu não, eu não.” Wilson Batista, o mesmo compositor sambista que lá em 1933 compusera o hino dos malandros Lenço no pescoço e, em 1940, O bonde de São Januário, no qual o operário sacolejava satisfeito rumo ao trabalho, apresentou em 1949, de parceria com Roberto Martins, a marchinha que se tornou um clássico do carnaval carioca, Pedreiro Waldemar: “De madrugada toma o trem da circular Faz tanta casa e não tem casa pra morar Leva marmita embrulhada no jornal Se tem almoço, nem sempre tem jantar O Waldemar que é mestre no oficio Constrói um edifício E depois não pode entrar.”

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O malandro como nunca antes ganhava consciência política e descobria a exploração de classes embutida no Brasil, que foi intrínseca ao processo de desenvolvimento do nosso país.

INSTRUMENTO DE LUTA Na época de ouro das rádios, dos anos 30 até os anos 60, sambas e marchas carnavalescas muitas vezes já serviram de instrumento de sátira política. Após o golpe militar de 1964, compositores como Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo, Caetano Veloso, Gilberto Gil,


a coisa aqui tá preta Trecho da letra de Morro do Sossego, de Candeia, e o registro da censura em 1971

Milton Nascimento, Ivan Lins, Luiz Gonzaga Jr., Chico Buarque – que chegou a usar o pseudônimo Julinho da Adelaide para driblar a censura – e outros de sua geração dedicaram suas obras à denúncia, de forma explícita ou velada, das injustiças da ditadura militar. Na década de 1970, muitos sambistas engajados em questões da negritude, como Paulinho da Viola e Nei Lopes, não descuidaram da crítica social e reescreveram a história do samba como legado da cultura africana no Brasil. O sambista, cantor e compositor carioca Candeia [Antônio Candeia Filho], lançou em 1970 o samba Dia de Graça, trazendo em seus versos a frase emblemática: “Negro, acorda, é hora de acordar Não negue a raça Torne toda manhã dia de graça.”

Em toda a história deste gênero, o samba, uma exortação explítica à ação que foi direcionada exclusivamente aos negros havia sido imiscuída em meio a versos de canções. Em 1979, O bêbado e o Equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco, dava voz à população que clamava pela anistia. A democratização abrandou o tom da crítica social e política na música popular, atualmente mais presente em composições de rappers, que revelam a angústia e a indignação de quem sabe do que está falando. roda.com.br

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ALMA BOÊMIA

São Paulo rasga clichês para fazer Carnaval virar uma festa de massa Mais paulistanos decidem ficar na cidade para ser folião nas ruas e aposentam fama de mal-humorados TEXTO André de Oliveira

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ara explicar o fenômeno do ressurgimento do Carnaval de rua paulistano, vamos parafrasear um dos mais simbólicos e icônicos sambistas da história do estado do Rio de Janeiro, o compositor Nelson Sargento, que costuma dizer assim sobre o samba: “O samba agoniza, mas não morre”. A máxima intacta, do jeito que está, também vale para os paulistanos. Só que para explicar o Carnaval de rua daqui, é melhor colocar a coisa desse jeito: São Paulo agoniza, mas não morre. É o que vemos cotidianamente na Praça Roosevelt, no Minhocão, no Largo da Batata, nas hortas comunitárias, na Paulista Aberta. E agora também no Carnaval. A cidade que se idealizou sem pedestres está sendo invadida por eles. Para deixar bem claro isso, o Carnaval de rua paulistano está aí, surrupiando, nem que por uns dias, o espaço cinzento dos automóveis. Vamos aos números. No final de semana pré-carnaval, 410.000 pessoas foram às ruas da cidade com ou sem samba no pé, fantasiadas ou não, bêbadas ou sóbrias, só para festejar o mesmo. Veja bem. Até bem poucos anos atrás pré-carnaval, no

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imaginário reto e correto do paulistano, talvez fosse uma coisa somente imaginável em Salvador, lá na Bahia. Próximo dado. Este ano, nada menos do que 355 blocos se cadastraram para a folia. Para quem gosta de estatísticas, o número representa um aumento de 27% de bloquinhos a mais em relação ao ano passado. E, por falar em 2015 e estatísticas, 42% do público escolheu ficar intencionalmente em São Paulo no último carnaval, segundo pesquisa feita pela SPTuris. Isso tudo em uma cidade em que até recentemente, a tradição na data era viajar para o interior ou buscar folia com recifenses, cariocas e baianos. Depois dos números, vamos às impressões. Se até pouco tempo São Paulo passava os dias de Carnaval solitária, acabrunhada, hoje lança candidatura espontânea à musa da festa. Pelo quarto ano consecutivo desfilando no Acadêmicos do Baixo Augusta – que, diga-se de passagem, juntou 130 mil pessoas –, a atriz paulistana Alessandra Negrini desfilou vestida de noiva e monopolizou timelines. A fantasia foi uma provocação contra o conservadorismo, popular hoje entre políticos


sonho de bamba

foto Camila Raghiantti

A atriz Alessandra Negrini desfilou pelo bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, em 2016

brasileiros que estão loucos para aprovar um com Santana, mas levanta ainda outro ponto. retrógrado Estatuto da Família. Nada mais anti- “É importante lembrar que o poder público, de -Carnaval. Além de dar um recado para os recal- dois anos para cá, também encampou a festa e cados, Negrini estava linda. Unanimidade entre tem estabelecido diálogo com a sociedade para todos os gêneros. Já está praticamente eleita por que ela aconteça com tranquilidade”, diz. aclamação popular como a melhor rainha de baApesar dos conflitos, que já acabaram até teria do Brasil. E ainda deu um recado: o negócio com a Polícia Militar jogando bombas e distridela não é desfile no Anhembi ou Sapucaí com os buindo cacetadas em foliões, a Prefeitura de São famosos. “A vibe do bloco é outra. É a diversidade, Paulo tem tentado organizar o festejo fazendo é ser feliz, ocupar as ruas. Isso me interessa mais”, com que os dias sejam tranquilos – mas sem disse em reportagem ao UOL. estragar a festa – para todos. No site Carnaval Para o músico e pesquisador da história do de Rua, é possível encontrar informações sobre samba, Chico Santana, o movimento do carnaval blocos e medidas que serão tomadas para os de rua, surgido nos últimos 5 anos, é explicado dias de festa. Se a única máscara que São Paulo por dois pontos. “Primeiro, é uma demanda da usou nos últimos anos foi a de mal-humorada, cidade pela ocupação do espaço público que vem o carnaval de rua, cada vez maior, mostra que as sendo cada vez mais utilizado e isso se refletiu no coisas já mudaram. A carioca Leandra Leal, que Carnaval. Segundo, é um resgate de um espírito desafiou todos os estereótipos ao sair do Rio carnavalesco mais puro de descontração, de es- de Janeiro para subir no trio elétrico do Baixa pontaneidade, de fuga do carnaval mercantilizado Augusta ao lado de Alessandra Negrini, não dos abadás e das escolas de samba. É sair para a rua deixou dúvidas sobre a queda dessa máscara para brincar”, comenta. André Santos, historiador carrancuda: “É lindo São Paulo aceitar o caos do que também trata do assunto, concorda 100% Carnaval, aceitar essa loucura”. roda.com.br

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foto Alexandre Nino

Formação do bloco Domingo Ela Não Vai, do carnaval paulistano, em fevereiro de 2017

MOVIMENTOS DIFERENTES que promovem festas o ano inteiro e que agora Se a cidade não tem o charme da capital carioca, saem também no carnaval. É curioso que nas coisas que podem parecer estranhas para o folião festas o público é, em sua maioria, jovem, mas apegado às raízes empolgam quem decide ficar durante os dias de folia, o bloco atrai todo tipo por aqui. Exemplo: fazer um viaduto tremer não de gente, de todas as faixas etárias. Se no Rio de com a passagem dos carros, mas com a quantida- Janeiro um casal de idosos carnavalescos é comum, de de gente que pula e dança em cima dele. Nesse na sisuda São Paulo isso representa incontestável ponto, a afirmação pode parecer estranha, mas novidade. E é exatamente essa nova paisagem huo ressurgimento do Carnaval de São Paulo, ao mana que se tem notado nos blocos da cidade. contrário do movimento semelhante que aconSegundo Santos, poucos grupos em São Paulo teceu no Rio de Janeiro, às vezes tem mais a ver têm uma preocupação real de buscar raízes na hiscom a cidade em si do que com o samba. tória do Carnaval da cidade. “Um dos poucos que Para os cariocas, o que ocorreu há cerca de 15 eu conheço é o Kolombo diá Piratininga que não anos, quando os blocos tomaram de novo as ruas quer sair como um bloco ou uma escola de samba, da cidade, foi um reencontro com antigos conhe- mas como um cordão que é a primeira agremiação cidos – o Cacique de Ramos, o Bola Preta, a Banda carnavalesca da cidade. Eles são como um eco de de Ipanema. São Paulo, ao contrário, havia perdido um grupo representado por Geraldo Filme e Plínio quase que por completo sua tradição, quando, Marcos que queriam se distanciar do samba do em 1968, o Carnaval das escolas de samba, insti- Rio de Janeiro, revelando as raízes paulistas”, diz. tucionalizado e organizado no Anhembi, acabou Tradições e preferências musicais à parte, entre com os cordões – como eram chamados aqueles bombas e festejos, a festa de rua tem sido também grupos de samba paulista que saiam nas ruas – e talvez principalmente – um retorno à cidade: da cidade. Hoje, não é difícil encontrar blocos “São Paulo agoniza, mas não morre”. Vida longa ao como o Pilantragi, na zona oeste de São Paulo, carnaval paulistano! 58


roda.com.br

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ALMA BOÊMIA

foto Mallu Favilli

Zeca Pagodinho fala sobre filme e sua trajetória no samba à RODA

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pela luz dos olhos teus

ZECA PAGODINHO É TEMA DE MUSICAL E ANUNCIA QUE VEM UM FILME POR AÍ Cantor aceita reconhecimento apenas agora e diz que não teria concordado com a homenagem em outro caso TEXTO Gustavo Cunha

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e repente, Zeca Pagodinho levanta do sofá. Seu celular “Se quisesse água, era só ir lá no toca, mas ele logo silencia o aparelho e grita pelo seu tsunami. Não quero água, e nunca neto Noah, de 7 anos. A voz ecoa pelo segundo andar quis. Tem tanta coisa para pedir! Lá da sua cobertura na orla da Barra, na Zona Oeste do Rio. Um em Xerém, quando alguém diz isso, pouco antes, o avô havia encontrado a criança escondida sob eu falo que tem um riozinho lá no um móvel. “Esse moleque é virado. Tem dias que eu falo que fundo do terreno”, rebate o compovou fazer uma reza ou tacar um para-raios nele”, avisa o sam- sitor e cantor de 58 anos, referindobista ao apresentar o menino para a equipe de reportagem. Um -se ao sítio que mantém em Duque ruído abafado de aspiradores de pó invade o ambiente. A faxina de Caxias, na Baixada Fluminense. na casa é motivo para um desabafo: “Como é chato. Se estou na Lá pelas tantas, Zeca sugere, por sala, me pedem para ir para o quarto. Aí é só chegar no quarto fim, um início para a entrevista. Mas que falam para eu sair”. Vestido numa calça larga, ele anda para mais longe dali. Na verdade, não tão cá e para lá, reclamando que os amigos do filho acabaram com distante assim: ele quer conversar à as garrafas de cerveja da despensa. Zeca está inquieto, mas não beira-mar, sentado numa cadeira de demora para mostrar o seu talento como anfitrião. plástico, com uma gelada na mão e a “Vocês querem beber o quê?”, Zeca indaga para o repórter, o brisa no rosto. O destino é o Quiosque fotógrafo e duas assessoras de imprensa. No mesmo cômodo do Lelê, uma espécie de extensão de também estão Peter Brandão e o Gustavo Gasparani, os atores casa, onde – dia sim, dia sim – Zeca que darão vida ao ícone carioca no espetáculo Zeca Pagodinho entorna alguns copos. Basta descer – Uma história de amor ao samba, que estreia desta semana no o elevador e atravessar a avenida. Teatro Net Rio, em Copacabana, na Zona Sul do Rio. Diante da “Esse tal de Zeca Pagodinho só questão, alguém faz menção a apenas um copo d’água. A res- existe no palco. E fora dele, eu sou posta é motivo para soltar um palavrão e gestos largos. apenas um qualquer, mas estou roda.com.br

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foto Jorge Carran

me acostumando às homenagens. Se fosse no início da minha carreira, não ia topar que fizessem essa peça, não”, dispara ele, antes de engatar uma conversa com Cobra Coral, um senhor de 71 anos que vive nas ruas da região há mais de 30: “Quando esse daqui veio morar na praia, eu ficava olhando lá de cima [ele aponta para sua cobertura]. Se fizesse frio, mandava as empregadas prepararem umas panelas de comida para trazer aqui. Sou amigo das meninas da noite também. De vez em quando, eu venho dar um dinheirinho para elas”. O lado generoso é genuíno. Cria de Irajá e Del Castilho, onde nasceu e encarou a maior parte da infância, Zeca Pagodinho nunca dilacerou as raízes enterradas no subúrbio. Da adolescência ao início da vida adulta, trabalhou como office boy, entregador de café, feirante, camelô, contínuo e anotador de jogo do bicho. A história é parecida com a de outros milhões. Por uma força qualquer, no entanto, tomou rumos improváveis. No tablado, a ideia central do espetáculo teatral é se concentrar sobre a saga do tal homem comum que se manteve fiel a esse posto, apesar da fama. Diferentemente de outras produções biográficas, como Elis – A musical (2013) e Tim Maia, vale tudo – O musical (2011), a proposta é pincelar fatos curiosos da

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trajetória de Zeca Pagodinho para bordar uma fábula sobre um sujeito que se projetou ao mundo justamente por suas linhas tortas. “Nossa busca é enaltecer a cultura suburbana através dele. O que mais chama atenção é a fidelidade ao mundo em que foi criado. É um cara que abriu possibilidades para vários, que surgiu do povo e se manteve igual. Ele conheceu champanhe e caviar, mas não deixou de derrubar cabrito ou de beber cerveja”, exalta Gustavo Gasparani, autor e diretor do texto, além de intérprete do artista na fase pós-fama: “Nós mostramos o que ele significa para o país, até porque não tem como competir com o original. Nós somos pouco realistas. Tratamos o personagem como um herói suburbano”.


pela luz dos olhos teus

foto Silvia Braz

Gustavo Gasparani interpreta Jessé no musical Zeca Pagodinho: Uma história de amor ao samba

Zeca ri da alcunha. “Eu sou um qualquer”, repete. A assessora pessoal reforça, porém, que ele está mesmo se habituando às celebrações em vida. O comportamento acabou se tornando necessário. Em outubro, o artista inaugura sua primeira roda de samba mensal, no Jockey Club, na Zona Sul do Rio. O produtor Roberto Faustino apresentou, recentemente, ao cantor a sinopse de um filme inspirado no livro Zeca Pagodinho: Deixa o samba me levar, dos jornalistas Jane Barboza e Leonardo Bruno. O projeto embrionário foi recebido com muita animação e aprovado pelo próprio retratado – a previsão, agora, é que essa cinebiografia chegue às telonas no ano de 2019. Ainda assim, diante de tanto interesse alheio, a criatura real por trás do triunfo musical – com barriga protuberante e dente de ouro – teima em não entender o próprio sucesso. “Há um monte de gente que faz a mesma coisa que eu”, justifica. O modo arredio é a prova maior de que Jessé Gomes, como o astro foi batizado, ainda se mantém fiel às letras impressas na carteira de identidade. Alguns amigos antigos ainda o chamam pelo nome original. Apesar das várias nomenclaturas e dos mais de 30 anos de carreira, o seu jeitão despachado é o mesmo. A dificuldade é se equilibrar entre as figuras de Zeca e de Jessé sem enrolar os fios do cérebro.

“Eu nunca imaginei onde eu iria chegar. Não imagino nem aonde vou amanhã. Vivo o dia. Tudo é encaminhado pela vida. Hoje, todos querem ser artistas. Antigamente, a gente era só sambista. Ninguém desejava morar na Barra. A gente queria só cantar e ser reconhecido”. Com o tempo, os passos adquirem um novo sentido. Na infância, o músico era classificado pelos colegas como um “moleque com espírito de velho”. Faz sentido. As serestas na casa do tio, ao lado dos adultos, eram seu programa predileto. No teatro, Zeca Pagodinho, enquanto criança, é encarnado pelo ator Peter Brandão, de 23 anos, conhecido por sua passagem no programa Gente inocente e na novela da emissora de TV Rede Globo, Malhação (2012). roda.com.br

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foto Jorge Carran

Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz, parceiros na música e amigos na vida

“Estou ansioso com a estreia, bem nervoso. É bizarro pensar que estou representando o cara. Deposito o máximo de alegria em cena”, detalha. O sambista aproveita o momento do papo para continuar a descortinar o passado longínquo. Não há lembranças de campeonatos de futebol ou recordações de brincadeiras com pipa. Disso, ele quase sempre esteve fora. Por opção. “Só queria ficar nas viagens pelo samba. Gostava de ir para as favelas ver o partido-alto. Parecia que a vida me dizia: ‘Fica aqui, porque é isso que você vai usar’”, teoriza. Ironicamente, a felicidade ingênua, quase infantil, explodiu na personalidade depois de crescido. Atualmente, o esporte preferido do carioca de pele morena é brincar. Na maior parte das horas, ele engole cerveja e se distrai com os netos. Sem limites. “Já lutei muito, e preciso viver o que conquistei”, reconhece. Não à toa, para uma nação inteira, Zeca Pagodinho é símbolo de festa. Virou uma marca. As dezenas de causos pitorescos protagonizados por ele ao longo da profissão ilustram a batalha travada entre as duas existências que residem num único ser. Para fugir de entrevistas, Zeca já pulou muros de emissora de TV. Frequentemente, é visto pelas ruas de bermudão – às vezes sem camisa. Na última semana, publicou na internet um vídeo em que dança o sucesso Despacito com os netos Noah e Catarina, de 3 anos. Em 2015, quando a amiga Beth Carvalho

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esteve internada, foi ao hospital com cervejas escondidas num saco plástico. “A água do gelo foi pingando por todo o corredor. Mas fizemos a festa”, ele ressalta, com um ar de sapeca. A sua popularidade unânime resultou em convites inesperados para o mundo da política, todos negados. Ele ri da montagem com sua imagem como sendo presidente da República, sucesso nas redes, mas muda o tom da voz diante do assunto. “Deus me livre. Estou fora disso”, limitou-se a dizer. Ainda que ele não tenha perdido o bom humor, Zeca anda cabisbaixo. Na TV, ele assiste apenas a desenhos animados ou a séries como Chaves – uma das favoritas. Sente medo dos noticiários. “No meu tempo, vagabundo não assaltava mulher nenhuma, isso não existia. Que mundo é esse?”, diz, espantado: “Fui criado em favela, e via


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quando assaltavam. Se tivesse uma senhora na loja, eles espera- é feita na Barra. Em Xerém, a ativivam sair para roubar. Agora, os bandidos de hoje em dia matam dade não é mais possível devido à qualquer um à toa, como se a vida não valesse nada”. presença maciça de evangélicos. Ele já pensou, inclusive, em deixar o país para morar em Adepto da ideologia paz e amor sua casa de Miami, nos Estados Unidos. “Nem sei o estado dela e frequentador assíduo de igrejas após a passagem do furacão”, revela. O plano foi descartado tão e terreiros, o Zeca Pagodinho não logo: se distanciar das pessoas próximas o deixaria deprimido. vê nenhum problema em temas suA melancolia se reflete na relação com o papel e a caneta: postamente controversos, como a com as letras, Zeca também está mais quieto. As suas últimas transexualidade e o casamento gay: composições foram produzidas com o músico Arlindo Cruz, “Cada um tem que fazer o que gosta, antes de o colega ser internado, em março, por causa de um mas sem desrespeitar outros. Tudo AVC. O estado de saúde do amigo o entristece profundamente. que tem abuso é demais. Se tiver um O sambista não tomou coragem para visitar o compadre no homem e uma mulher se lambendo hospital, com medo de encarar seu maior parceiro musical na na minha frente, eu vou falar: ‘Ei, voatual situação desfavorável – os dois se conheceram aos 19 anos. cês, vão para casa, vão para um moAo sofrimento natural, somam-se perdas recentes no universo tel, vão para o mato’”, afirma, acresda batucada, com as mortes de Wilson das Neves, Chiquinho centando: “Há pessoas sem uma Vírgula, Almir Guineto e Luiz Melodia. religião que são do bem. Há pessoas com religião que são más. Uma coisa não tem a ver com a outra”. As suas palavras são firmes. Na família, ele manda e desmanda. “Eu respeito todo mundo, e ensino isso”. Poucos meses atrás, a sua filha mais nova, Maria Eduarda da Silva, de 13 anos de idade, implorou ao pai por uma viagem de férias a Nova York durante o Natal. O pedido foi veementemente negado por Zeca. A assessora aproveita a brecha no discurso para lembrar a Zeca de sua suposta participação no progra“Esse negócio de Arlindo ficar doente parece que botou todo ma Domingão do Faustão. Até o femundo doente. Está faltando um pedaço grande no samba. A chamento, era certo que ele entoaria música está triste. Isso me desanima. A essa hora, Arlindo ia cinco canções ao vivo, no programa chegar aqui e contar um monte de histórias. A gente ia rir pra de domingo. Ele reclama. “Ah, não caramba. Sinto muita falta disso tudo”, confidencia. dá para mandar o Fausto fazer o proNa vida que segue, os pequenos prazeres se sobrepõem a grama lá em casa?”. Fim de papo, a conflitos mundanos. Um sorriso brota no rosto quando lembra secretária insiste. Fim da conversa, da proximidade com o dia de São Cosme e Damião, de quem é o repórter anuncia. O sambista se devoto. Todos os anos, na data de 27 de setembro, ele distribui queixa novamente: “Ah, vocês, hein!? doces para uma legião de crianças nas ruas, seguindo a tradição Agora todo mundo vai embora. E eu que mistura o catolicismo a crenças de matriz africana. A ação vou beber com quem?”.

Fora do palco eu sou um qualquer, mas estou me acostumando às homenagens. No início da minha carreira não iria topar

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foto Joanna D’à vila

Martinho JosĂŠ Ferreira, conhecido popularmente como Martinho da Vila

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Martinho da Vila: “O samba vive um momento forte, avançado e merecido” Sambista defende que O Samba, de Georges Gachot, é um filme para brasileiro ver. Em entrevista exclusiva, fala da atual fase forte do samba e discute política TEXTO João Carraro

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artinho José Ferreira, mais conhecido como Martinho da Vila, a quem o samba ensinou tantas lições, destaca no documentário O Samba, exibido durante o Festival de cinema do Rio, uma das mais importantes: “Os verdadeiros revolucionários são otimistas”. E logo entoa para o diretor francês Georges Gachot, que o seguiu com a câmera para adentrar os bastidores da escola Unidos de Vila Isabel, os versos de sua canção mais gravada dentro e fora do Brasil, Canta, canta, minha gente, marcando cadência e exibindo o sorriso que ele julga ideais para cantá-la. Por telefone, a provavelmente já cansada de uma vida de entrevistas no rastro de tantas composições bem-sucedidas e inconfundível voz do sambista Martinho da Vila passeia pelos mais variados temas, do filme à política no Brasil, passando pelos 100 anos que o samba completa no ano que vem. O único desgosto de Martinho, apesar de a conversa acontecer em uma segunda-feira de manhã, parece ser a falta de ideologia com que se faz política no país. Mas o tema não o impede de dar risada. Nem o cansaço, nem a segunda-feira.

Soube que, no começo, você não foi com a ideia de fazer o filme, mas terminou topando e, no fim, gostou do resultado. O que o preocupava? É verdade, eu resisti, mas apenas porque eu estava com a agenda complicada, mas aí o diretor me disse que eu não precisava fazer nada, que ele só ia me seguir em alguns momentos do meu cotidiano. E assim foi. Eu apareço muito, né?

Na verdade, não achamos que aparece tanto. Mas você é quem guia o espectador. Essa era a intenção. Tem gente falando que é um filme para gringo ver, mas muito pelo contrário!

O que todo mundo espera? Um show de samba. Aquela coisa com rainhas de bateria, mulatas. E o que o filme entrega é um show de samba, mas com um tamborim e uma voz. É outro tipo de show. A história começa com alegorias cobertas, rumo à Sapucaí, e termina não com uma rainha da bateria, mas sim com uma senhora sambando. É algo para se pensar. Por isso, digo que é um filme para brasileiro ver. roda.com.br

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foto Divulgação

Cartaz do filme O Samba, de autoria de Georges Gachot

Quando mostra a escola de samba, ele capta algo interessante: que se trata de uma escola de fato, onde as pessoas aprendem samba, entre várias outras coisas e aprendizados.

Você está quase completando seus 50 anos de carreira. Que balanço você faz, depois de tantos projetos e sendo um dos músicos mais importantes do Brasil?

Exatamente. A palavra escola não está mais ligada a esse aprendizado, mas lá há meninos estudando e mulheres praticando diferentes atividades, músicos aprendendo.

Na arte não tem carreira. Quando você faz arte, é vida artística, ou seja, não tem fim, só quando você morre. A carreira é uma coisa que começa, passa pelo ponto máximo e depois termina. Na vida, sempre há coisas para fazer. E arte é política, mesmo sem um engajamento de fato.

Não é a primeira vez que um filme é feito sobre a sua carreira. Qual a diferença entre os filmes O Samba e o Pequeno Burguês – Filosofia de vida, que saiu no ano de 2010? O Filosofia de Vida saiu acompanhando meu disco na época, o Pequeno Burguês. Foi um trabalho mais ligado ao disco, uma coisa mais promocional do artista. Esse último fala do samba mesmo. Mostra as pessoas que não têm muito dinheiro para pagar o desfile na Sapucaí, mas vão para lá, para espiar de longe. Inclusive, de cima do viaduto, que é um negócio perigoso. É algo que o brasileiro não vê. Não passa na televisão.

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Falando em política, você é filiado ao Partido da Social Democracia Brasileira desde 2005, correto? Sou filiado, mas não sou um político partidário. Me filiei, porque acho que todo cidadão deveria fazer isso para participar e poder opinar, se quiser. Mas não tenho pretensões políticas. Os partidos brasileiros não têm ideologia definida. O PCdoB tem isso um pouco, mas já não muito. Aqui é como se não houvesse necessidade de identidade partidária. Assim caminha nosso Brasil: devagar e sempre. E o mundo também.


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foto Joanna D’Ávila

Martinho fala com exclusividade à RODA sobre filme O Samba, no qual aparece revelando o seu cotidiano

O que você opina sobre a radicalização das discussões políticas hoje no Brasil?

Tampouco aproveitamos o fato de sermos latino-americanos, você não acha?

Vivemos em uma democracia radical, no sentido das posições radicalizadas, em que os objetivos são puramente político-partidários. Muitos órgãos de imprensa parecem praticamente órgãos de oposição, difundindo notícias como se fossem informativos criados por partidos específicos. Imagine pessoas com pouca instrução recebendo essas notícias… A desinformação é total.

Sim, esse intercâmbio cultural deveria ser muito maior na região. Tem que ser muito curioso para ir atrás das novidades culturais sobre a América Latina aqui. Uruguai é o país hispano-americano onde tenho mais público. Eles gostam de samba. O samba cresceu pela importância política, social, econômica e cultural. Hoje, o gênero vive um estágio forte, avançado.

Outro quesito que fala contra nós, ainda hoje, é nossa relação débil com a África, tema que você defende há anos. O que pode dizer sobre isso?

Falando de samba, depois de ter sido marginalizado por tanto tempo, ele passou a abrir portas para o Brasil no mundo inteiro. Como você avalia o samba, hoje?

Sim, nós continuamos distantes. Hoje, um pouco menos pelo lado econômico, mas sim muito pelo cultural. Sou membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a CPLP, que integra oito países lusófonos. É uma idealização, que poderia contribuir com uma maior proximidade, mas precisaria ser levada mais a sério pelas administrações dos países envolvidos.

No começo, o samba era discriminado. Foi se impondo por força própria. Hoje, se o presidente de uma escola de samba do grupo especial ligar para um prefeito ou para um governador, eles atendem na hora. O samba cresceu por sua importância política, social, econômica e cultural. Vive um estágio forte, avançado, muito merecido. roda.com.br

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Escola de samba cria time, cresce no futebol e mira uma vaga no Paulistão Vai-Vai monta uma equipe de futebol profissional e dirigente detalha os planos da caminhada rumo à elite TEXTO Vinícius Perazzini

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stádio Nicolau Alayon, São Paulo. Cerca de 50 torcedores animam o jogo com instrumentos de percussão e fazem um som impressionante, digno de uma bateria de escola de samba. Só que não apenas parece uma bateria de escola, é. Maior campeã do Carnaval paulista, com 15 títulos no grupo especial, a Vai-Vai decidiu montar no ano passado um time de futebol profissional. A semente surgiu pelo lateral-direito Marco Aurélio Barbosa, ex-Cruzeiro e Santos, filho de Diamantino Barbosa, o “Seo Nenê”, um dos grandes baluartes da escola: daí então nasceu o Esporte Clube Vai-Vai. Marco Aurélio tornou-se o presidente do time e a equipe se filiou à Liga de Futebol Paulista, jogando a Taça Paulista, contra outros 24 clubes. O time chegou a ficar 20 jogos invicto e só parou na semifinal. Os planos são bem maiores para futuro e o futebol não é apenas uma diversão na Vai-Vai, tanto é que o time ganhou uma diretoria independente da parte do Carnaval. A equipe chegou a tentar uma vaga na Segunda Divisão do Paulista deste ano (equivalente ao quarto nível do estado), mas não

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conseguiu pagar a taxa de filiação da FPF, cerca de R$800 mil. O clube também buscou parceria com algum time que já tivesse pago a taxa e estivesse sem jogadores, porém acabou sem sucesso. Diante deste cenário, o time jogará novamente o torneio da Liga de Futebol Paulista, organização presidiada pela advogada Gislaine Nunes, que é conhecida por atuar em diversos casos trabalhistas de jogadores. A competição jogada pelo E.C. Vai-Vai não é reconhecida pela CBF, é uma “Quinta Divisão informal”, que é sub-23 e permite até cinco atletas acima da idade. A Liga de Futebol Paulista, que organiza a Taça Paulista, tem em seu quadro apenas times pequenos, sem registro na FPF ou distantes da entidade. Seu objetivo é dar chances para times com menores condições. Diretor-executivo do E.C. Vai-Vai, Gleison Pego conversou com a Roda e destacou que a equipe deseja mais: a meta é entrar na elite do Paulistão dentro de alguns anos, disputando jogos contra Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo. “Pretendemos nos filiar à Federação Paulista o mais rapidamente possível. Tentamos essa vaga recentemente, mas no momento a gente não estava


tatu bom de bola

foto Ivan Ravena

O Esporte Clube Vai-Vai esteve na semifinal da Taça Paulista em 2016

com a força financeira necessária. Conversamos também com o Jaguariúna e o Força Sindical, buscando parceria para jogar com a vaga deles, mas acabamos não caminhando para o fechamento do negócio. Mas a meta é arrumar um parceiro que queira nos ajudar nessa empreitada de conseguir a vaga de alguma forma. Quem sabe em 2018 a gente não esteja na Segunda Divisão. Olha… Se tivermos competência, acredito que em 2021 estaremos batendo na porta da elite no Paulistão. Com dedicação e seriedade, acredito que a gente consegue. Nosso objetivo é chegar nas cabeças, subindo de degrau a degrau”, falou o diretor. Enquanto o glamour não chega, é preciso se virar como dá. O E.C. Vai-Vai está em recesso e retomará suas atividades em 5 de março. O primeiro passo na volta aos trabalhos será “simplesmente” montar o elenco do zero. Os contratos com os jogadores da temporada passada eram apenas de seis meses. O clube fará peneiras e delas sairá o grupo de 2017. A fórmula deu certo em 2016, quando cerca de 1.300 jogadores participaram de seleções feitas na Portuguesa da Vila Mariana, na

zona sul. Quem for escolhido assinará vínculo, receberá um salário mínimo e mais alguns outros benefícios. Porém, não adianta pedir mais. “Todo mundo ganha igual, justamente para não ter ciúmes. Foi assim no ano passado e continuará assim. A existência de diferença de salário gera muitos problemas, até mesmo em times que são maiores que o nosso… Aqui nós somos muito pé no chão. Trabalhamos com o número de 28 atletas durante 2016 e a maioria vivia apenas da renda gerada pelo futebol, desse salário. Apenas alguns tinham algum outro emprego. Dois dos jogadores trabalhavam como motoristas de Uber depois do treino, e o nosso goleiro reserva era pedreiro, trabalhava em obra”, disse Gleison Pego, afirmando que o time da Vai-Vai já é uma vitrine. “Nosso time chamou a atenção com a série invicta. Nosso técnico chegou a ser procurado por chineses que acompanhavam a liga. Depois ele aceitou oferta do Cascavel Clube Recreativo, da Segunda Divisão do Paraná, e levou alguns jogadores junto dele. Tive notícia de atleta que chegou a ir para fora do Brasil. Sem dúvidas, aqui é uma vitrine”, comentou. roda.com.br

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foto Rodrigo Bruhns

Detalhe de uma das camisetas utilizada pelo time da Vai-Vai nos jogos de futebol

O clube gasta R$40 mil por mês entre salá- casa do Esporte Clube Vai-Vai na competição será o rios e encargos para realizar nossos jogos. Dois estádio Nicolau Alayon, que é alugado do Nacionalpatrocinadores – uma indústria que produz em- -SP. Já os treinos são na Portuguesa da Vila Mariana. balagens plásticas e uma padaria – cobrem as Curiosamente, a Vai-Vai nasceu de um time de despesas. Um dos grandes objetivos do time, que várzea. Há uns 90 anos, havia no bairro do Bixiga tem também uma categoria sub-18, é começar a uma equipe chamada Cai-Cai, que tinha um grupo revelar joias e ampliar as receitas com isso. de choro como parte. Em 1928, um segmento mais “No ano passado, o campeonato acabou e todo rebelde deste grupo decidiu romper com o esporte mundo saiu. Agora a ideia é dar mais oportunidades e formou a Vai-Vai, com foco só na música. A espara os jogadores da categoria sub-18, produzir ta- cola foi oficialmente fundada em janeiro de 1930. lentos, até para que a gente tenha participação em Gleison Pego, além de dirigente do time, também é uma eventual negociação desses atletas. Nós quere- da ala dos compositores e faz parte da Vai-Vai desde mos que a base dê retorno”, detalhou Gleison Pego. 1992, tendo vivido nove títulos pela escola. Com A Taça Paulista está ainda em sua segunda edição. experiência em levantar taças, ele sabe bem como A primeira aconteceu entre junho e dezembro de festejar quando o E.C. Vai-Vai for campeão pela pri2016. Desta vez, essa disputa começará em maio. A meira vez: “Será uma festa com muito samba!”.

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ALMA BOÊMIA

Arte brasileira ganha mostra exclusiva na Pinacoteca São Paulo A mostra Arte no Brasil: Uma história na Pinacoteca São Paulo traz o modernismo brasileiro em 500 obras TEXTO Cláudia Varselhas

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Pinacoteca do Estado de São Paulo apresenta sua nova exposição de longa duração Arte no Brasil: uma história na Pinacoteca São Paulo, que ocupa todo o segundo andar do edifício lá da Avenida Tiradentes com obras do seu acervo, e marca uma nova e destacada etapa no centenário percurso da Pinacoteca do Estado que integra a rede de museus da Secretaria de Estado da Cultura. Ela sucede a mostra que foi aberta em 1998, no mesmo espaço, ao final do restauro do edifício, e que permaneceu em cartaz até dezembro de 2010, cumprindo um papel fundamental no fortalecimento da instituição. O objetivo central da mostra de arte é oferecer ao público uma leitura da formação da visualidade artística e da constituição de um sistema de arte no Brasil do período colonial até meados dos anos 1930, centrada nas obras que compõem o acervo do museu. “Obedecendo a uma ordem cronológica, a exposição se articula a partir de dois eixos temáticos, essenciais na constituição e compreensão do desenvolvimento das práticas artísticas no país. De um lado, a formação de um

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imaginário visual sobre o Brasil – o conjunto de imagens sobre ele, suas relações e sentidos que produzem. De outro, a formação de um sistema de arte no país – ensino, produção, mercado, crítica e museus – iniciado com a vinda da Missão Artística Francesa, a criação da Academia Imperial de Belas Artes e do programa de pensionato artístico. “O percurso das salas apresenta os desdobramentos desta história, seus personagens e realizações…”, afirma Ivo Mesquita, curador chefe da Pinacoteca do Estado. Na perspectiva da missão institucional, visa igualmente proporcionar aos visitantes uma experiência qualificada de relação com as obras expostas, por meio de uma série de propostas educativas que busca explorar múltiplos conteúdos de leitura, bem como também sugerir relações com o edifício e as memórias que nele residem. A exposição é composta por cerca de 500 obras, entre pinturas, esculturas, desenhos, gravuras e fotografias, de autoria de artistas fundamentais para a história da arte brasileira daquele período, como Debret, Taunay, Almeida Junior, Facchinetti, Eliseu Visconti, Pedro Alexandrino, Candido Portinari,


uma simples margarida

foto Raquel Nakamura

Fachada da Pinacoteca de São Paulo, em registro de 2017

Lasar Segall, entre outros. Deste total, cerca de 300 obras passaram por processo de conservação e restauração, ao longo do último ano. O espaço expositivo foi totalmente readequado, incluindo troca de piso e dos sistemas de abertura das portas, e aprimoramento dos sistemas de climatização, de iluminação e de segurança. O percurso expositivo se estende por 11 salas. Outras quatro, localizadas nas extremidades do edifício, abrigam exposições temporárias que oferecem perspectivas sobre os artistas, os movimentos, períodos históricos, ou contrapontos contemporâneos, relacionadas à exposição de longa duração. A mostra também abriga algumas propostas educativas, que indicam umas outras possibilidades de leitura e interpretação das obras expostas. Em paredes de cor cinza, Arte em diálogo traz trabalhos de artistas modernos e contemporâneos, também do acervo do museu, selecionados pelo Núcleo de Ação Educativa para estabelecer relações com questões tratadas pelas obras expostas em cada sala. Uma sala de leitura disponibiliza material bibliográfico e documental

sobre a história da Pinacoteca de São Paulo e da arte no Brasil. A Sala de Interpretação, em um outro momento do trajeto, oferece a possibilidade de explorar aspectos da memória do lugar e do indivíduo, das visitas ao museu e à exposição a partir de elementos interativos, que registram impressões no contexto da mostra. Nos corredores, o conjunto de vitrines, pontua e comenta, com peças singulares do acervo, a narrativa no interior das salas de exposições. Neste mesmo espaço se encontra a Galeria Tátil de Esculturas Brasileiras, composta por 12 obras que foram escolhidas para que visitantes com deficiências visuais possam apreciá-las de forma autônoma, tocando-as e recebendo informações por meio de etiquetas e textos em dupla leitura – tinta e Braille –, além de áudio-guia. A seleção das obras foi realizada considerando a indicação do público com deficiências visuais que participou de visitas orientadas ao acervo do museu nos últimos 5 anos. Além disso, dimensão, forma, texturas e diversidade estética, que facilitam a compreensão artística dessas obras ao serem tocadas, foram outros critérios adotados para a escolha das esculturas. roda.com.br

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foto Divulgação

Detalhe da obra Caipira picando fumo, de Almeida Júnior, um dos artistas selecionados para a exposição

A concretização desta iniciativa só foi possível graças à colaboração dos Acervos Artísticos dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo, da Fundação Crespi Prado e da Coleção de Arte da Cidade, do Centro Cultural São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura, que cederam obras de seus acervos, imprescindíveis para a construção dos roteiros curatoriais propostos. Duas fontes de recursos do Governo do Estado de São Paulo viabilizaram integralmente a realização deste projeto: o FID – Fundo Estadual de Defesa dos Interesses

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Difusos, da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania, e verbas destinadas pela Secretaria de Estado da Cultura para fins como este. Mais do que uma contribuição para a história da arte no Brasil, um exercício de museologia social e uma prática de ação educativa responsável, a exposição Arte no Brasil: uma história na Pinacoteca São Paulo é um passo decisivo no compromisso do museu de tornar realidade o direito individual de cada cidadão brasileiro de ter acesso efetivo a seu patrimônio cultural preservado.


uma simples margarida

PERCURSO EXPOSITIVO SALA 1: A tradição colonial As obras contrapõem a tradição artística do Brasil colonial, tão estreitamente ligada à temática religiosa, à imaginação europeia com relação ao país. A breve ocupação holandesa no Nordeste daria origem às primeiras pinturas que procuravam reproduzir o ambiente natural do país segundo as tradições da pintura de paisagem europeia.

desenho; os estudos do corpo humano; as cópias de pinturas dos grandes mestres e a viagem o continente europeu como prêmio da principal competição proposta pela instituição.

SALA 6: Os gêneros de pintura A sala reúne brasileiros dos quatro gêneros propostos pelo ensino acadêmico – natureza-morta, paisagem, retrato e pintura histórica – indicando o alcance e a longevidade do modelo francês difundido pelas academias do mundo.

SALA 2: Os artistas viajantes A sala reúne uma seleção de pinturas de paisagem executadas por artistas estrangeiros entre 1820 e 1890, aproximadamente. São esses artistas, genericamente chamados “viajantes”, os responsáveis por introduzir no ambiente artístico brasileiro gêneros já consagrados da arte europeia, como a paisagem e a natureza-morta.

SALA 3: A criação da academia As obras de Jean-Baptiste Debret, Nicolas Taunay e Zéphéryn Ferrez, artistas da Missão Francesa de 1816, sinalizam a criação da academia de belas artes no Rio de Janeiro e a instauração, portanto, de um novo sistema artístico, baseado no modelo Francês. Esta academia forma gerações de artistas, representados por Agostinho José da Motta e Pedro Américo, entre outros, responsáveis pela difusão da regra acadêmica, que estabelece novos padrões de gosto ao ambiente artístico no Brasil.

SALA 4: A Academia no fim do século A sala apresenta obras de Rodolfo e Henrique Bernardelli, assim como de outros professores e alunos da Academia no período entre 1890 e 1915, como Zeferino da Costa, Belmiro de Almeida e Pedro Weingärtner.

SALA 5: O ensino acadêmico A sala propõe uma reflexão a respeito do sistema de ensino nas academias de belas artes, abordando alguns de seus aspectos principais: o exercício do

SALA 7: Realismo burguês A Academia é a base de um sistema artístico que pressupõe o mecenato. É inevitável que a produção acadêmica reflita, portanto, valores importantes para certas classes sociais. No final do século XIX, as obras de Almeida Junior, Eliseu Visconti e Oscar Pereira da Silva, entre outros, reunidas nesta sala revelam a consolidação de um gosto tipicamente burguês no Brasil.

SALAS 8 e 9: Das coleções para o museu Estas salas reúnem obras de uns dos grandes lotes de doação que depois vieram a constituir o acervo da Pinacoteca do Estado, como o acervo da Família Azevedo Marques (1949), Família Silveira Cintra (1956), Alfredo Mesquita (1976/1994), entre outros.

SALA 10: Um imaginário paulista A sala propõe uma reflexão sobre a imagem que São Paulo busca projetar sobre si a partir do final do século XIX. As telas em que Almeida Junior propõe a tipificação do caipira paulista são contrapostas a imagens da transformação da paisagem urbana de São Paulo.

SALA 11: O nacional na arte Reunindo obras de diferentes períodos, a sala destaca uma questão que perpassa todo o século XIX brasileiro, permanecendo como indagação ainda para artistas e intelectuais do modernismo paulista: a criação de um ideário nacional nas artes. roda.com.br

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samba da minha terra

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SAMBA DA MINHA TERRA

foto Pedro Rocha

Dona Dalva Damiana, 89, vive na mesma casa em que nasceu, em Cachoeira

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salvador

SAMBA, O SANGUE QUE CORRE NAS VEIAS DA BAHIA Negro na origem, o samba mesclou música, comida, religião e também ensinou o Brasil a sorrir TEXTO Camila Moraes

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m negro arrancado da sua terra é jogado no Brasil sem prévio aviso. Passa seis dias apanhando. No sétimo, busca um alento na memória. Sorri, mas só quando pensa nos seus. Batuca, porque na África, de onde ele veio, esse era o convite para dançar, comer e rezar. Assim ele renova as energias que vão permitir que sua pele maltratada resista uma semana mais sob o sol da lavoura e o látigo do colonizador europeu. É um negro escravizado, trazido ao país no século XVI pelos portugueses que chegaram à Bahia pouco antes. Foi ele quem inventou o samba. O samba é hoje o ritmo nacional por excelência. Mas, antes de ser música, ele é esse chamado que reúne os brasileiros ao redor de som e comida para todos, como vem fazendo há séculos. Quem, aqui, não reage sorrindo a um “vai dar samba”? Isso porque o samba nasceu na Bahia, mas se espalhou de norte a sul do Brasil e virou sua principal identidade sonora, renovando ao longo do tempo o seu papel de integração e, principalmente, de resistência. Tão atual que é, ele ainda junta os diferentes, dá alegria e, enquanto o batuque durar, faz a gente esquecer do resto. Quem remonta essa história é a Dona Dalva Damiana, cantora, compositora e sambadeira de 89 anos, que nasceu na cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, onde vive até hoje, na mesma casa onde nasceu e viveu com os pais e mais sete

irmãos. O espaço é comprido e estreito, cheio de toalhas de flores que decoram suas “poucas posses” e dão ao ambiente aquele inconfundível ar festivo de Brasil. Ampla e aberta, ao contrário de sua casa, Dona Dalva começa a conversar reclamando da idade, que está ficando sem saúde. É só falando de samba que ela deixa de ser uma senhora quase centenária para gesticular e sorrir como uma menina. “Quando o samba começa, os problemas vão embora”, diz. Ela, neta de uma escrava que fez parte de uma irmandade afrocatólica formada só por mulheres – da qual ela também faz parte hoje –, a Nossa Senhora da Boa Morte, símbolo do forte sincretismo religioso baiano e da resistência africana no Brasil, Dona Dalva garante que “o samba para o baiano é sangue”. Por isso, fundou em 1961 o Samba de roda.com.br

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foto Reimes Cavalcante

A Casa do Samba de Santo Amaro da Purificação, a principal do Recôncavo baiano

Roda Suerdieck, o mais tradicional do Recôncavo, cujo nome ela emprestou da fábrica de tabaco onde trabalhou, feito a mãe charuteira, por 32 anos. Foi sua maneira de manter vivo aquilo que desde muito jovem aprendeu a fazer – “grudar uma palavra na outra e jogar em cima uma música” para criar composições que nascem do dia-a-dia, como mostra sua primeira canção: “Venha cá como quiser, ô, jiló Como quiser venha cá, ô, jiló Plantei jiló, não pegou A chuva caiu, rebentou Eu cortei miudinho, botei na panela Pensei que era jiló, não é jiló, é berinjela.” Não resta dúvida de que o berço do samba é o Recôncavo, a faixa de terra ao redor da Baía de Todos os Santos, repleta de rios navegáveis, que na época da Coroa Portuguesa chegou a ser responsável por 5% do PIB brasileiro – graças às suas plantações de açúcar e de tabaco e também ao intenso comércio de utensílios que havia na região. Lá existem, ainda hoje, mais de 250 quilombos. Segundo Roberto Mendes, cantor e compositor

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de Santo Amaro, onde fica a matriz das Casas do Samba da região, “o samba é tradicionalmente um comportamento musical”. Para entendê-lo em sua origem, é preciso resgatar a sua configuração primeira, que deu origem a todas as demais: o samba de roda, que é declarado patrimônio imaterial nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2004 e mundial, pela UNESCO, em 2005. Samba de roda não é o mesmo que uma roda de samba. Sua identidade reside na chula, uma espécie de cantiga de louvor à mulher e à beleza feminina declamada com técnica vocal específica por cantadores homens, e também na viola-machete portuguesa, incorporada à percussão africana. Da roda, participam homens e também mulheres: tradicionalmente, eles tocam os instrumentos – viola,


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foto Rayane Marinheiro

Baba Pote e dona Nicinha: candomblé e samba em Santo Amaro

violão, cavaquinho, pandeiro, atabaque, prato, triângulo, timbau O lugar ainda carece de espaço para – e põem a voz, enquanto as mulheres marcam o ritmo usando as guardar os trajes das sambadeiras, palmas, dançam uma a uma para os tocadores vestidas com as a chuva danifica muito do que é roupas típicas e chamam as companheiras para fazer o mesmo guardado ali e não há recursos nem com a umbigada. Tudo isso acontece dentro de um círculo – a mesmo para pagar um funcionário. roda –, que no passado se formava espontaneamente depois de “Se Deus nos der o direito de ter uma um dia de trabalho ou das festas de rezas aos santos, tão popula- sede, vou morrer gratificada e feliz, res no interior baiano. “O samba de chula está para o Recôncavo, porque vou deixar na Terra uma com o cultivo de cana de açúcar, assim como o blues está para o lembrança do meu trabalho”, diz, Mississipi, nos Estados Unidos, com o algodão”, compara Mendes, alimentando a esperança. uma das maiores referências de música na Bahia, citando uma das Um outro desafio é manter vivo mais importantes contribuições musicais dos EUA ao mundo. o interesse dos jovens por essa e O samba de roda, mesmo sendo secular, continua a ser prati- outras modalidades de samba. Para cado, especialmente no interior da Bahia. Ainda assim, tem de Dona Nicinha (Santo Amaro, 1949), lutar para se manter. Apesar do samba de ser patrimônio cultu- outra sambadeira tradicional da ral do país e do mundo, ainda não foi reconhecido formalmen- região, é a responsável, há 38 anos, te pelo próprio Estado baiano. Isso significa que, apesar do que pelo samba de roda Raízes de Santo já se conquistou, guardiãs do samba como Dona Dalva Damiana Amaro, “alguns se interessam, mas enfrentam batalhas diárias para garantir a preservação de muitos preferem o axé, o arrocha algo que pertence não só a elas, mas a todos. Em Cachoeira, o e o pagode”, ritmos hoje mais poSuerdieck ainda carece sim de uma sede própria. Da casa que pulares na Bahia. É também a eles ocupa em aluguel graças a um convênio com a Prefeitura de que o atual secretário da cultura do Cachoeira, a placa da entrada da casa foi roubada recentemente. Estado, o músico Jorge Portugal, roda.com.br

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foto Marina Jambo

Clementino Rodrigues, o Riachão, em sua casa, no bairro do Garcia

pretende chegar ao escolher o samba como protagonista do Carnaval de Salvador – considerada a maior festa de rua do mundo – em 2016. “Queremos preservar as expressões culturais de matriz africana, como o samba, e temos planos de ação continuada que incluem, a médio e longo prazo, a irmandade da Boa Morte e a Casa de Dona Dalva”, explica. Nessa toada, o carnaval soteropolitano teve nesta sexta-feira um show para celebrar alguns momentos da história do samba no Largo do Pelourinho, com o cantador de chula Seu João do Boi, Roberto Mendes e Paulinho da Viola – cuja presença marca a fase em que o samba vai ao Rio e por lá floresce. Como mostra a programação, que inclui vários outros shows, a festa vestiu a camisa dos 100 anos do gênero, celebrados em 2016 – já que em 1916 se registrou oficialmente, na Biblioteca Nacional, a composição do primeiro samba, Pelo Telefone, no Rio de Janeiro.

BRANCO NA POESIA, NEGRO NO CORAÇÃO Riachão (Salvador, 1921), o sambista mais veterano que ainda está em atividade na Bahia, tinha apenas 16 anos quando, no meio do caminho da loja de materiais de costura para o ateliê

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do renomado alfaiate soteropolitano Spinelli, onde trabalhava, encontrou no chão um recorte de revista que dizia o seguinte: “Se o Rio não escrever, a Bahia então não canta”. Ele, que adorava cantarolar sambas cariocas desde a infância, ficou intrigado, inclusive um pouco deprimido, com a manchete. Em um rompante não de raiva, “porque raiva quem é do samba não sente”, mas sim de resposta àquela provocação, ensaiou os versos de sua primeira canção, batuque marcado na palma da mão: “Eu sei que sou malandro, sei Conheço o meu proceder Deixe o dia raiar A nossa turma é boa, ela é boa Somente para batucar.”


salvador

Clementino Rodrigues, Riachão, que completa seus 95 do gênero que não para de se renoanos de idade no mês de novembro deste ano, nunca deixou var na Bahia. Juliana garante que os de ser alfaiate, comerciante, mensageiro, entre outras pro- baianos fizeram e continua fazendo fissões mais, mas aí começou uma vida inteira dedicada ao samba à sua maneira – tanto é desse ritmo brasileiro por excelência, o samba. jeito, que em território baiano não Eternizada pelo famoso compositor e ícone da cena mu- são comuns as escolas de samba: sical brasileira, Vinícius de Moraes, a questão do berço do “Aqui, tudo acontece na senzala. samba – se ele é da Bahia ou do Rio – nunca mais esquen- Não pode tirar isso de perspectiva. tou sua cabeça, ainda que tenha aparecido outras vezes em É uma questão de identidade, não suas conversas. Em uma delas, ele dava uma entrevista à tem regra: aquilo com o que você imprensa do Rio junto com outro sambista baiano dos vete- se identifica é o que o constitui e ranos, o Batatinha (Salvador, 1921-1997). Lado a lado com o que você vai passar para os seus colega, Batatinha quis ganhar o afeto dos cariocas e afirmou: filhos”, diz essa artista que leva 15 “Quando me entendi, vi que o samba estava vindo do Rio”. É anos na estrada e cujo o álbum de verdade que nesse momento os jornalistas vibraram, relem- estreia na carreira solo, Amarelo, bra Riachão, “mas foi a mim que deram tazão quando, no dia é um valioso resgate dos ritmos seguinte, saiu no jornal minha resposta: o samba nasceu na anteriores ao samba, como jongo, Bahia, porque o Brasil nasceu na Bahia”. maxixe, a semba angolana e lundu. Junto com Gal do Beco e Ju Moraes, Julia acompanhou Nelson Rufino, um compositor baiano de samba que completa 50 anos de carreira este ano, em um emocionante show comemorativo no Teatro Castro Alves, com entradas que estarão a um real, no dia 31 de janeiro do próximo ano. Da briga entre a Bahia e o Rio, que muitos – como Riachão, Rufino e Juliana – consideram ultrapassada, o compositor originário de Santo Porém, em lugar de temer a parcela carioca da equação, os Amaro, o Roberto Mendes, resgata baianos a assumiram, mesmo que com parcimônia. “O samba apenas a necessidade se olhar com tem mais de 400 anos”, relembra Jorge Portugal. “Ele nasceu mais destaque e melhor pela cultura do batuque dos escravos, que virou samba de roda, ainda hoje nacional. “Nosso Governo promove com representantes autenticíssimos. A mesma coisa no Rio de entretenimento, não cultura. Muita Janeiro foi chamada de ‘partido alto’, só que lá estavam todas coisa lá do Recôncavo e lá da Bahia as rádios da cidade. Por isso, essa música foi para o resto do já se perdeu, porque o Brasil oficial país e hoje o samba brasileiro é confundido com o do Rio. Mas pouco se importa com o Brasil real”, é isso. Como diz a famosa frase, ‘samba é como passarinho, é diz ele, ciente de que o povo que de quem pegar primeiro’”, resume. batucou primeiro não pode – e nem Com algumas participações agendadas nesse carnaval, deve – ser esquecido. Afinal, se a Juliana Ribeiro, jovem cantora e compositora que pesquisa Bahia não cantasse, o Rio de Janeiro as matrizes africanas do samba, está entre os novos talentos não teria o que escrever.

Na Bahia, tudo acontece na senzala. Não se pode tirar isso de perspectiva! É questão de identidade

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foto Creuza Costa

Beth Carvalho, 71, autora de obras como O Show tem que continuar e CamarĂŁo que dorme a onda leva

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rio de janeiro

Beth Carvalho: “O samba é do povo, que sofre, que sabe o que é a fome” Cantora relembra os tempos em que o ritmo era desprezado por gravadoras por ser muito popular TEXTO María Martín

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as grandes janelas de seu apartamento, em O que você comemorou no dia em que o samba um condomínio de alto padrão na Zona Sul completou o aniversário dos seus 100 anos? do Rio, Beth Carvalho – Rio de Janeiro, 1946 Comemorei os 100 anos do samba e os 50, agora – vê seus vizinhos baterem panelas toda vez que o 52, da minha carreira. Houve uma evolução grande, ex-presidente Lula ou Dilma Rousseff aparecem na sobretudo. A gravação ficou muito melhor. Antes, televisão. Um deles, conta a cantora, a incomoda o som do samba era mal gravado, tecnicamente especialmente porque, durante o panelaço, olha na falando. As gravadoras pensavam que era simplessua direção. Ela dá risada, mas uma sombra de preo- mente botar um bando de negros lá dentro e diziam: cupação e tristeza ronda toda a entrevista. Sentada “vamos lá, batuca aí”. Aquelas pessoas não tinham em uma cadeira de rodas – ela ainda se recupera de noção de que você tem que ter um microfone para um grave problema de saúde na coluna após passar o surdo, tem que ter um microfone para o tam tam, um ano no hospital – Beth cria longos silêncios após para cada coisa, entendeu? A coisa era mal tratada suas respostas e uma frase rompe vários deles: “Essa pelas gravadoras. Elas não entendiam o samba. Eu, coisa com Lula está me preocupando”. Martinho da Vila, nossos produtores, os técnicos, Três dias depois da Polícia Federal levar o ex- fomos responsáveis por essa melhora. -presidente para depor, Beth conversou com a RODA, quando criticou a operação, chamou as Faltava profissionalização das produtoras pessoas à luta e alertou para supostas conspirações ou havia um certo desprezo pelo samba? dos Estados Unidos. A conversa central, porém, Tinham desprezo também. Natural. Como tudo foi sobre o samba, o ritmo que levou uma das suas o que é popular é alvo de desprezo. Mas tiveram músicas até Marte. Uma engenheira na Nasa pro- que engolir, tiveram que nos engolir, porque nós gramou acordar um robô de uma sonda com a mú- fomos, durante muito tempo, os tentáculos das sica Coisinha do Pai, de Beth Carvalho, em 1997. gravadoras. Podia ter disco de elite, que não roda.com.br

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foto Cecília Mirela

foto Cecília Hia Mirela

Cantora Beth Carvalho posa com os compositores Guilherme de Brito e Nelson

vendiam nada, por causa do samba. É a mesma relação que vemos no povo brasileiro, que sustenta este país com seu trabalho, isso é a mesma coisa. Mesma coisa. O samba é uma coisa da esquerda, do povo, os compositores são do povo, que sofre, que sabe o que é a fome, então eu me sinto muito honrada de formar parte disso tudo.

O samba é um gênero machista? O Brasil é machista, né? Não é só a música, mas está melhorando muito. Dona Ivone Lara, então, se tornou a primeira mulher a fazer samba-enredo numa escola de samba. Antes não tinha nenhuma possibilidade de mulher fazer nada disso. E, mesmo assim, ela fez sem aparecer, só depois que o nome dela foi destacado. Da minha parte também houve uma revolução. Nos anos 70, eu, Clara [Nunes] e Alcione [Nazareth] fomos as primeiras mulheres a vender muitos discos. A gente quebrou um tabu que existia. Nós fizemos esse sucesso todo e lançamos novos compositores. Eu tinha moral na produtora, podia lançar os novos e resgatar os velhos.

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Sua filha seguiu seus passos e faz parte de uma nova geração de talentos. O que estão trazendo as novas gerações à música brasileira? Muito boa a nova geração. A Luana é uma compositora e muito talentosa, sabe tudo de samba porque viveu a vida inteira comigo, mas ela não é sambista. A nova geração, e no caso da Luana, traz coisas mais sofisticadas. Não é uma música tão popular como a que eu faço, mas tem chance de acontecer.

Como você, defensora do popular, vê essas músicas mais sofisticadas, mais minimalistas? Eu também pertenci à bossa nova durante muito tempo. A bossa nova é um braço do samba que tem sua sofisticação também. Não é que o samba não seja sofisticado, mas.... a bossa nova louvou a Zona Sul, não se falava em subúrbio, não se falava em Zona Norte. Eu sempre fui da Zona Sul, então eu me emocionava com aquelas músicas porque tinham a ver comigo, só que não me bastavam. Eu também quando ouvia um samba de raiz, um samba do Cartola ou do Nelson [Cavaquinho] eu me emocionava tanto quanto. Ou mais.


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foto Fernando Contini

Beth Carvalho e o ícone do samba, Cartola, em fotografia do acervo pessoal da cantora

E você sente muitas saudades da época do Cartola e do Nelson Cavaquinho?

Sua escola de samba, a Mangueira, foi campeã do desfile neste ano. O que significou para você?

Sinto. O Nelson para mim era o maior de todos. Eles sofreram muito, eram pobres e melhoraram, modéstia à parte, comigo. Muita gente pensava que o Cartola estava morto e ele veio à tona. A minha gravadora contratou ele, e passou a ter um disco por ano. Com Nelson Cavaquinho foi a mesma coisa. Não ficaram ricos, mas a vida deles melhorou bastante. Que é o justo, né?

Foi lindo, estávamos há tantos anos sem ganhar. A Mangueira mereceu, a [Maria] Bethânia também. O samba pegou, né? Na época foi o samba mais cantado da Avenida, isso já faz ganhar. Estava pensando quanto as escolas ficaram diferentes. As escolas de samba eram um lugar onde compositores tinham sua própria ala, davam o sangue pela escola e durante o ano todo eles cantavam seus sambas. Cansei de gravar músicas indo na quadra, ouvindo o compositor cantando… E a coisa foi mudando, acabaram com a ala que era dos compositores, desmotivaram eles... Já perdeu todo o sentido a escola de samba. É um absurdo não dar moral para o compositor. Os enredos eram sobre a história do Brasil, que era uma obrigação que o Getúlio Vargas impôs pelo bem da nação, e a gente estudava através dos sambas-enredo. Agora quem manda, são os patrocinadores. Uma escola patrocinada por uma marca de iogurte é brincadeira. Falar sobre iogurte! Veja bem! Deturparam tudo. Cartola deve estar se remexendo lá no túmulo…

Você voltou a encontrar talentos parecidos? Achei, mas apenas parecidos. Mas todos da velha guarda. Há jovens bons, mas não com a capacidade deles. Mas eu sou pelo jovem, viu? Tanto que eu lancei muita gente nova. Se não o samba ia parar, né? Como vai seguir o samba então, sem inovação? Não podemos parar, por exemplo, no Paulinho da Viola. Depois do Paulinho tem o Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Sombrinha, Zeca Pagodinho, Wanderley Monteiro... E agora já tem outra geração, Alfredo Del-Penho, Sérgio Marques, Teresa Cristina... Tem muita gente aí.

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O que há de verdade nessas histórias que contam sobre o mundo dos desfiles das escolas de samba ser a maior lavagem de dinheiro transmitida pela televisão? Eu não posso te falar isso porque eu não sei. Mas… Tudo é possível, né? O [Leonel] Brizola fez a maior homenagem ao samba que foi o sambódromo. Porque o Sambódromo era também uma lavagem de dinheiro danada, porque era a arquibancada todo ano montada. Imagina a grana que era isso. Ele não só fez um lugar fixo, como transformou em escola, CIEP (Centro Integrado de Educação Pública) durante o ano inteiro. Havia horário integral, as crianças faziam quatro refeições, e saíam da escola já de banho tomado… Agora acabaram com isso.

Em uma ocasião, anos atrás, você disse que a CIA pretendia acabar com o samba. O que quis dizer? A CIA está em tudo lugar, no mundo inteiro. Para dominar um país você tem que acabar com a cultura dele, essa é a teoria dos fascistas, dos Estados Unidos, principalmente. E, em termos de música, a coisa mais forte do Brasil é o samba. Melhor, é o forró, o sertanejo, o samba e o chorinho. Eles começaram a deturpar isso tudo. Hoje você ouve um sertanejo ou um samba que não é mais sertanejo, que não é mais samba.

Mas qual é a relação com a CIA? Ela colocou o rap, o hip-hop nas favelas. Hoje você não vê uma criança tocando tamborim, hoje você vê uma criança vestida de garoto americano, com a sua calça bem baixa, capuz, uma roupa que não tem nada a ver com o clima brasileiro, aliás. E muitas igrejas evangélicas que são contra o samba, o candomblé, contra a macumba, contra o espiritismo. E o samba vem disso. Não conseguiram acabar com essa nossa riqueza, mas a intenção é essa: um país que perde sua cultura é um país dominado. A CIA faz esse papel em todos os lugares do mundo. É claro que a direita ridicularizou essa minha declaração, mas eu continuo dando, não me importo.

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Você acha que antes as opiniões dos outros eram mais respeitadas do que são hoje em dia? Acho. Está tudo muito desrespeitoso, muito violento, está uma coisa assustadora. Eles – a direita – não se conformam com perder o poder. Há discursos homofóbicos, racistas, coisa que a gente não via antes dessa maneira. Talvez poderia ser igual que hoje, mas a gente antes não percebia que era tanto.

Em termos de música, a coisa mais forte do Brasil é o samba. Eles começaram a deturpar isso O que você opina do chamado do Lula para sair às ruas? Você não acha que isso promove ainda mais tensão nesse cenário político? Tem que ser, mesmo. É preciso lutar, é preciso se posicionar a respeito do que se pensa e batalhar por isso. Veja o que fizeram com o coitado do Chico [Buarque]. Ele foi hostilizado por uma manifestação de um grupo antipetista. Sem luta não há ganho e o Brasil necessita urgentemente de um sangue pulsante para acabar com a sujeira na política do país, você não concorda comigo?

Você gostaria que as pessoas que hoje fazem parte da elite musical do país fossem um pouco mais engajadas politicamente? Sim, com certeza acho isso sim, quem não gostaria? É necessário, hoje em dia. O problema é que eles estão sendo oprimidos. Claro que tem alguns que são alienados mesmo, e também tem outros que temem portas fechadas. Mas a gente vai ganhar essa luta, eu tenho fé nisso e no nosso Brasil.


rio de janeiro

foto Edvard Pedrosa

Lula, Beth e Jandira Feghali, durante o evento da sua pré-candidatura à prefeitura do Rio de Janeiro, em 2016

Você tem várias referências aos líderes comunistas Che Guevara e Fidel Castro na sua casa. Como você avalia o processo de abertura que está vivendo a ilha? Acho justo. Cuba é um exemplo para a humanidade. É engraçado quando você vê que há shows em solidariedade a Cuba… Cuba é quem tem sido solidária com o mundo inteiro e deve ser seguida como um exemplo. Não vi em Cuba ninguém passando fome. Eles estão melhores que nós, com certeza. Lá não tem miséria, não.

Falando em Lula, o que mais te causa preocupação sobre essa situação? Eu acho um absurdo o que está acontecendo. É um tiro no pé da direita, porque o povo se comoveu com isso. Então vai ter povo na rua. Se me chamarem, eu vou também. O que me preocupa é a inconstitucionalidade. Como é que faz uma coisa dessas? Não podem te levar da tua casa com a Polícia Federal sem te comunicar. Foi completamente arbitrário. Eu não temo as investigações, Lula é inocente, não há dúvidas. roda.com.br

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foto Julia Orlando

foto Yasmeen Kristine

FoliĂľes em carnaval na cidade de Olinda, Pernambuco

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pernambuco

O SAMBA TEM LUGAR GARANTIDO EM PERNAMBUCO Um ritmo genuinamente popular, o Samba é querido em todo Brasil, ou melhor, tocado, cantado e dançado TEXTO Maraba Soares

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ascido como o Frevo nas entranhas do espírito do povo nordestino, o Samba ocupou o sudeste brasileiro e lá tomou como sua morada. Em várias situações da nossa história cultural, o Samba teve sua força rítmica dominando o coração dos pernambucanos. As escolas de samba levavam inúmeras pessoas às ruas e até chegaram a existir em número maior do que as agremiações de Frevo. Várias delas fizeram sucesso no carnaval, disputando entre si o título de melhor de Pernambuco. Escolas de Samba como a “Império do Samba”; “Sambista do Cordeiro”; “Deixa Falar”; “Estudantes de São José”; e “Gigantes do Samba” fizeram ou fazem parte dessa história. Mas o movimento sambista de Pernambuco sofreu contendas de quem não queria ‘cariocar-se’, pois o Samba já era a referência no carnaval do Rio de Janeiro. Nas décadas de 1940 a 1970, defensores do “carnaval pernambucano” se posicionaram contra o modo de como o Samba dominava a festa de momo. Destacam-se as posições do jornalista e político Mário Melo, que chegou a afirmar que ‘o samba é carioca, portanto, indigno de existir por estas terras’; e do sociólogo Gilberto Freyre, que publicou o manifesto intitulado “Recifense sim, sub-carioca não!”. Pela força das palavras dá pra se ter uma ideia do clima de acirramento nessa época entre frevistas e sambistas pernambucanos, observe: “[…] A traição ostensiva às tradições mais características

de Pernambuco no que se refere a expressões carnavalescas. Um carnaval do Recife em que comecem a predominar escolas de samba ou qualquer outro exotismo dirigido, já não é um carnaval recifense ou pernambucano: é um inexpressível, postiço e até caricaturesco carnaval sub-carioca ou sub-isso ou sub-aquilo. De modo que a inesperada predominância, no carnaval deste ano, do samba subcarioca, deve alarmar, inquietar e despertar o brio de todo bom pernambucano: é preciso que a invasão seja detida; e que o carnaval de 67 volte a ser espontaneamente recifense e caracteristicamente pernambucano. Se há algum calabarismo a trair o carnaval do Recife, a favor de um carnaval estranho, que seja o quanto antes dominado este calabarismo. Afinal, como se explica a repentina organização de não sei quantas roda.com.br

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foto Martin Marinho

Desfile das Escolas de samba no Polo Dantas Barreto, em Recife, 2014

escolas de samba subcarioca na Cidade do Recife? A que plano obedece tal organização? Com que objetivo ela está se perpetuando? Eleitoralismo disfarçado? Estará havendo politiquice de qualquer espécie através do carnaval? Inocentes úteis estarão em jogo? Ou colapso da tradição carnavalesca no Recife por simples e passivo furor de imitação do exótico furor tão contrário ao brio recifense […]”, escreveu Gilberto Freyre. Mas isso são águas passadas, não existe mais essa disputa. Hoje o Samba, nascido do povo no recôncavo baiano, divide com o Frevo, nascido do povo pernambucano, as ruas do Grande Recife e de outras regiões de Pernambuco. Assim como o Maracatu; o Afoxé; e o Coco, o Samba tem seu espaço garantido. Ele tem seu movimento de sambistas pernambucanos, onde se encontra cantores como Paulo Isidoro – falecido em 2015 –, Jorge Ribas, Belo Xis e Paulo Perdigão; e escolas de samba que mantém o ritmo agitando o carnaval pernambucano, como a Gigante do Samba, Barca Furada, Viúvas de Santo Amaro, Galeria do Ritmo, entre tantas outras. Sem esquecer do grande sambista e malandro Bezerra da Silva, nascido no Recife em 1927 e que fez sucesso tocando um samba com um gingado seu, um partido alto diferente, que refletiu com muito humor o cotidiano do povo brasileiro. Dia 2 de dezembro. Esta foi a data em que um dos maiores nomes da música brasileira e sambista de Minas Gerais, Ary Barroso, pisou pela primeira vez em Salvador. Ele havia composto no final da década de 30 a música Na Baixa do Sapateiro, canção em que expressava todo seu amor pelo estado da Bahia. O povo da “terra de todos os santos” adotou a música de Ary como tema, pelo fato da obra ter traduzido perfeitamente a vida na região. Quando no ano de 1963 um vereador resolveu

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estender essa homenagem ao samba, como sendo o Dia do Samba, pois que anos mais tarde se tornou uma data oficial em território nacional. No dia 27 de novembro de 1916, o compositor Donga registrava a sua música chamada Pelo Telefone, que é considerado o primeiro samba a ter sido gravado. O gênero completou 100 anos. E para comemorar, artistas pernambucanos se uniram para homenagear o Dia Nacional do Samba, celebrado dia 2 de dezembro. Representantes do ritmo em Pernambuco promovem eventos gratuitos e pagos para reverenciar o estilo musical que representa o Brasil mundo a fora. No centro da capital, um grupo de sambistas fará uma grande roda de samba encabeçada pelo veterano Belo Xis, a partir das 17h, no Pátio de São Pedro. O evento marca também o Dia Municipal do Samba do Recife, um projeto que virou lei em 2012. Este será o 19º encontro de sambistas onde participam nomes como Luísa Pérola, Ramos Silva, Wellington do Pandeiro, Carlo Gill, Gabi do Carmo, Diná, Ana Morais, a Cibelly do Cavaco, a Cibele Alves e outros profissionais.


alguĂŠm me avisou

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ALGUÉM ME AVISOU

Rodrigo Campos inspira samba existencialista Com participações especiais, Sambas do absurdo é resposta a falta de sentido no cotidiano moderno TEXTO Paulo Pompermaier

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rês importantes nomes da música popular brasileira contemporânea unem forças em torno do absurdo para um novo projeto. Vozes entrecruzadas que cantam sem a delimitação de um “eu”, sons estrangeiros, perturbadores, deslocados do cotidiano e letras como: “Diz, Quem nasce da costela E boia na banheira Agora toma forma E goza na memória” São alguns dos elementos que compõem o tom do disco Sambas do absurdo, que conta com oito canções inéditas, idealizadas por Rodrigo Campos, com participações inéditas de outros artistas como Juçara Marçal, Gui Amabis e Nuno Ramos. O projeto, que foi lançado em 28 de agosto, tem inspiração no ensaio O mito de Sísifo, de 1942, de Albert Camus, no qual um camponês é condenado pelos deuses a empurrar uma pedra para o alto da montanha, de onde ela continua a rolar

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incessantemente. Quando leu o ensaio, Campos percebeu repetições semelhantes na própria vida, e de alguma maneira se sentiu “acolhido” pelo texto. Campos trata do absurdo como o divórcio do indivíduo com a própria a vida. Por isso, tematicamente, o projeto representa uma espécie de encontro com o absurdo, expressado na desconstrução do samba enquanto canção. “O absurdo causa esse medo de perder a referência, mas por outro lado ele te dá uma liberdade absurda: já que nada mais tem sentido, você pode ser quem quiser. Muda suas perspectivas”, diz. “No ensaio, o absurdo seria, em tese, essa falta de sentido da vida. Quis brincar com isso. O samba é um gênero existencialista por excelência: se você ouvir Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, vai ver que todos são muito filosóficos, existencialistas, mas de uma maneira cotidiana.” Ele menciona a visita de Camus ao país, em 1949, quando o autor e filósofo foi recebido com músicas de Dorival Caymmi: “Ele achou as músicas lindas e tristes, se identificou com o samba brasileiro, e de alguma forma percebeu essa melancolia”.


convite do arnesto

COMPOSIÇÃO Nuno Ramos

Arte sobre foto de Albert Camus

Rodrigo Campos acredita que não exista essa percepção sobre o gênero porque ele geralmente é cantado em rodas festivas, numa “atmosfera que relaciona todo brasileiro, sua história e a maneira como se formou o país”, longe de ares intelectualizados, até porque o samba sempre pertenceu a uma classe marginalizada, que sofre. “Meus trabalhos têm uma relação direta ou indireta com o samba, às vezes como matéria prima, às vezes como gênero. É algo que já é do meu convívio, da minha formação, e por isso reconheço esse lado existencial, foi a coisa que mais ouvi na vida”, afirma. O álbum tem 8 faixas escritas por Nuno Ramos, intituladas Absurdo, diferidas apenas por uma indicação numérica. Para Ramos, o disco é uma resposta indireta aos tempos atuais, à “absurdização” da vida em seus aspectos políticos e sociais. “Estamos vivendo um período de grande transição e isso pede invenção”, afirma. “É uma virada aparentemente conservadora, mas que como todas exige muita potência e muita vontade. Vivo essa ‘absurdização’ como algo que me exige uma voz, e acho que é isso que estamos tentando fazer.”

A quinta faixa do álbum, Absurdo 05, é construída com base no cavaquinho de Campos – que concebeu as músicas do Sambas do Absurdo em parceria com o letrista Nuno Ramos –, e ganha contornos dramáticos com a voz precisa de Juçara. Amabis porta um MPC e cria arranjos e ambientações tortos para a canção regular. Não é de hoje que os autores desse álbum se embrenham em trabalhos reflexivos na música. Os três CDs já lançados pelo cantor e compositor Rodrigo Campos, que também é um cavaquinista de mão cheia, trabalham contextos variados, tendo o samba como linha mestra – com imersões em outros gêneros – e composições criativas. Juçara Marçal faz pelo menos 10 anos que se mantém como uma das melhores cantoras do cenário musical paulista. O fato de fazer parte do grupo Metá Metá, referência no país na fusão do moderno com as nossas origens musicais, valida esse seu entendimento da música como ferramenta de ideias. Gui Amabis tem também carreira sólida em projetos musicais densos tanto na atividade de multi instrumentista como produtor.​ roda.com.br

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Estrela de Xica da Silva, Zezé Motta renasce na cena musical do samba Após décadas, Zezé Motta se rende ao samba e lança, próximo semestre, o CD O Samba Mandou me Chamar TEXTO Samya Rodrigues

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a virada para a década de 80, no auge da popularidade graças à Xica da Silva, do filme homônimo de Cacá Diegues (1976), Zezé Motta tentava se estabelecer como cantora. Já fizera um disco com Gerson Conrad – Ex-Secos e Molhados –, outro com faixa-título de Rita Lee e Roberto de Carvalho – Muito prazer, Zezé. Ela levava muita gente aos teatros, mas a venda de seus discos era bem aquém do que a Warner esperava. Com acordo ainda vigente com a gravadora, recebeu a proposta. Por que não gravar um disco de samba? “Eu disse não, pois havia tantos autores que queria cantar – Milton Nascimento, Djavan – que não eram necessariamente compositores de samba. E eu ainda tinha resistência, pois achava que a proposta vinha da ideia de que negro tinha que cantar samba”, afirma Zezé. As décadas passaram, Zezé da Motta continuou alternando a carreira como atriz e cantora, apenas agora se rendendo ao samba. Ela lança no próximo semestre o disco O samba mandou me chamar. O décimo álbum de sua discografia, vem sendo gestado na última década. Traz canções inéditas

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de Arlindo Cruz e de Xande de Pilares – que participaram das gravações – e também duas regravadas: Mais um na multidão, de Erasmo Carlos, Carlinhos Brown e Marisa Monte, e Louco: Ela é seu mundo, de Wilson Baptista e Henrique de Almeida. Por que o samba justamente agora? “Naquele momento – nos anos 1980 – eu não queria virar cantora de samba, ganhar o rótulo de sambista. Continuo não querendo. Minha intenção é continuar cantando de tudo. Mas comecei a ouvir mais material, me envolver com o samba – namorou um compositor da Portela – e depois que gravei quase todo mundo que queria, vi que já podia.” O álbum, de acordo com a cantora, abrange as diversas facetas do samba. “Estou muito otimista em relação ao disco, inclusive até para carreira internacional”, comenta. Zezé passou os últimos 6 meses em Portugal gravando a novela Ouro verde, que será apresentada pela TVI – canal de TV privado. Emplacou não só uma personagem, como também dois sambas do albúm na trilha, Batuque de Angola e Ficar ao seu lado. “Por isso, estou esperando lançar o CD também lá.”


convite do arnesto

foto Geraldo Nunes

Atriz e cantora que teve papel de destaque na novela Xica da Silva, em um de seus shows em SP

BANQUETE O compositor Sérgio Santos compartilha da opinião de Zezé Motta. Ainda que apresente trabalhos dedicados ao samba – Mulato e Sérgio Santos –, não aparenta ter interesse em carregar o rótulo de sambista. “Não sou um especialista em samba. Estes dois trabalhos se voltam para as diferentes expressões deste estilo. O samba é um banquete dentro da música brasileira”, comenta ele, que tem cinco álbuns voltados para outros gêneros. “Acho que a música brasileira tem uma diversidade que nenhuma outra do mundo tem. Você pode pegar a música americana, que tem o blues e o jazz, mas ela não é tão diversa ritmicamente. Isto é resultado da influência cultural que sofremos. Um dos componentes desta diversidade é o samba.” Um samba é a princípio composto em compasso binário – célula rítmica formada por dois tempos. “Como ele permite uma multiplicidade de enfoques, você pode abordá-lo de diferentes maneiras.” Estreante, a belo-horizontina Júlia Rocha, que ficou conhecida pelo grande público ao participar do reality The Voice Brasil em 2015, lança no dia 25,

no Teatro Bradesco, o álbum Cheiro de flor. É um trabalho autoral dedicado ao samba. “Tem gente que força a barra tentando cantar um estilo que não diz nada sobre si próprio, não traz identidade. Mas, no meu caso, estou há muitos anos no mundo do samba, tanto que me considero uma cantora do estilo. Mas não é porque seja cantora de samba que não possa gravar um álbum de algum outro estilo”, diz ela, que cantou durante a noite vários estilos de música brasileira até se estabelecer no samba.

A música brasileira tem uma diversidade rítmica que nenhuma outra do mundo tem roda.com.br

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foto Juliana Dias

Kleber Cavalcante Gomes, mais conhecido comoconhec Criolo

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convite do arnesto

CRIOLO TRANSFORMOU “SURTOS” DE SAMBA EM UM ÁLBUM DEDICADO A ESTE GÊNERO Espiral de ilusão reúne 10 composições sobre a vida e o amor TEXTO Guilherme Augusto

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ascido e criado no Grajaú, na zona sul de São Paulo, Apesar do salto entre estilos, Criolo Kleber Cavalcante Gomes, mais conhecido pelo nome não considera que “abandonou” o rap, artístico Criolo, já está inserido na indústria da música já que ambos os gêneros são “irmãos”, há pelo menos 20 anos, rimando e cantando: “Esse desaguar de com capacidades de perseverança e música que veio em forma de rap poderia muito bem ter vindo criados em contextos de luta contra em forma de samba”. Durante a infância do músico, nos anos opressão de classe e racismo. Tanto 1980, o samba era o ritmo mais comum na periferia, e o rap era é que o primeiro single lançado do a novidade; hoje, ao contrário, é no samba que os fãs de Criolo disco, Menino mimado, é uma crítica veem o novo: “Aconteceu uma inversão aí”, brinca. a Michel Temer, João Dória e Geraldo O gênero sempre esteve presente na vida do rapper, tanto Alckmin que, nas palavras de Criolo, nos grupos de amigos quanto na relação com os pais e com os “não podem reger esta nação”. vizinhos do Grajaú. “O samba que descrevia o nosso cotidiano, Espiral de ilusão é o seu quarto a nossa malandragem. E eu, aos poucos, fui me aproximando, álbum, depois de um hiato de três do meu jeito”, lembra. Foi da boca da mãe, Maria Vilani, e do anos que seguiu Convoque seu buda, fanatismo de seu pai, Cleon Gomes, por Moreira da Silva, que cortado apenas pelo relançamento Criolo tirou as primeiras notas de samba. Mais tarde, entrou de seu albúm Ainda há tempo (2016), no Pagode da 27, grupo de pagode do Grajaú que, para o artista, em que foram alterdas algumas letras reúne vários grandes compositores de samba do Brasil. A partir machistas e transfóbicas, trabalho que daí, o gênero aparentemente contraditório ao que Criolo está o artista dedicou à luta secundarista. habituado foi fazendo cada vez mais parte da vida do músico: “Depois de Convoque seu buda, come“Você tem o Samba da Vela, o Samba na Laje, o Samba da Kombi, cei a me perceber como alguém que o na Cidade Adhemar. De uns tempos pra cá, eu fui me permi- está envelhecendo. Algumas coisas tindo esse flerte mais íntimo”, conta, no encarte do disco. mudaram em mim”, explica. roda.com.br

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E, ainda que o artista já tenha gravado alguns sambas, como Linha de frente, Fermento pra massa e Casa de mãe, de fato algo novo estava por vir depois de 2014: seu primeiro disco só de samba. As batidas eletrônicas do rap deram lugar a uma sonoridade mais orgânica feita com base no cavaco, no violão de sete cordas, em metais e percussões, além de um coro bem afinado e disposto a dar suporte a Criolo quando a música pede. E embora o disco de samba tenha saído somente neste ano, ele revela que a paixão pelo gênero é antiga. “De tempos em tempos, eu parava para compor sambas, mas em 2016 foi diferente e as minhas emoções desaguaram dessa forma. Foi, assim, uma junção da energia desses outros momentos com a de agora”, diz, satisfeito com o resultado final do seu trabalho no álbum. Criolo conta que foi acometido por “febres de samba” nos anos de 2002, 2004, 2008 e 2009, mas que a última delas foi diferente e acabou virando disco. “Não foi uma coisa pensada: ‘agora eu vou fazer samba’. Foi de uma maneira natural, uma forma que encontrei de compor minhas músicas”, comenta.

Você é quem tem que estar pronto para o samba. Tem que estar pronto para ter essa coragem de dividi-lo com o mundo E por que escolher o gênero nessa nova fase? Para o artista, as coisas são diferentes: foi o samba quem o escolheu. “Você é quem tem que estar pronto para o samba. Tem que estar pronto para ter essa coragem de dividi-lo com o mundo”, explica. Criolo já escreve samba há muito tempo, pelo menos desde 2006, quando gravou a primeira versão de Ainda há tempo, e com mais intensidade, segundo ele, entre 2008 e 2012: “O próprio Nó na orelha, de 2011, era para ser um albúm de samba”, revela. Gravar um disco inteiro só de samba, como Espiral de ilusão, é o que Criolo

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chama de um “sonho de menino”: algo que só pode acontecer porque ele está maduro o suficiente para isso. E se as músicas são sentimentos para ele, isso é traduzido nas letras que criam metáforas delicadas e inteligentes, contando mágoas sobre o amor, rindo do costumeiro e apontando faces da realidade. “As músicas saem do jeito que quem as compõe está, então é por isso que elas ficam de determinado jeito”, afirma. Sendo assim, Criolo está entre a celebração e a melancolia, sem tirar os dois pés da indignação. “Passei quase 30 anos da minha vida escrevendo rap, que é um jeito de a raiva ir para o mundo. Dessa vez eu decidi canalizar essas sensações de outra forma.” Forma essa que deu origem a dez músicas inéditas. Criolo começa seu ábum com a crescente Lá vem você, descrevendo um amor regado a algum álcool e à incerteza de um cotidiano com direito a almoço, jantar e café da manhã. Faz a introdução de suas belas metáforas em Dilúvio de solidão, que conta com cuíca e coro feminino. Menino mimado, música publicada antes do disco, é a terceira faixa e um verdadeiro desabafo. “Esses meninos mimados são todas aquelas pessoas que têm a responsabilidade de reger a nação, mas que têm outras prioridades na hora de trabalhar”, comenta. Em seguida, entra o samba-enredo Nas águas, música que faz referência ao candomblé. Filha do Maneco vem para fechar esta primeira parte do disco, trazendo um Criolo que interpreta a canção de uma maneira diferente, com uma voz distinta da que nós estamos habituados a ouvir.


convite do arnesto

foto João Paes

O rapper Criolo em dez sambas

SAÍDA

“É uma ode que está muito ligada ao que acontecia lá em casa. Nós ouvíamos todos os sambistas ilustres”, os que são extremamente populares”, diz, citando nomes como Nelson Sargento, Cartola e Zeca Pagodinho. Além disso, o lançamento deste trabalho está ligado à permissão que Criolo se deu para criar um disco de samba. “Eu autorizei, finalmente, um sentimento que estava guardado na minha cabeça por muito tempo. E tudo isso, todo esse trabalho, é sobre “Quem vai lucrar com essa patifaria esse interno e esse externo, tanto do É gente da alta na papelaria que eu vivo quanto sobre o que aconDelação premiada é jogo de poder tece ao meu redor”, afirma o cantor. E se for pra rua tentam me deter Junto com o disco Espiral de ilusão, Mozinho tá longe, eu vivo a sofrer ele lançou uma revista-encarte online Me aposentar só depois de morrer.” e gratuita que conta com entrevistas, partituras, letras, fotos de estúdio, Em meio às suas frases intrincadas, pausadas e sua voz serena, ilustrações de Elifas Andreato, que Criolo conta que o samba veio, na verdade, do berço. “Minha mãe foi o responsável pela capa do álbum, e meu pai tiveram um papel muito importante, o samba sempre além de imagens e textos autorais esteve presente lá em casa, no cotidiano. Meu pai é apaixonado de Criolo. No material, o artista deterpor Martinho da Vila”, explica. O albúm dá a ele a oportunidade mina: “O samba é algo muito especial de prestar uma homenagem não só ao gênero, como também à para todos nós, para o nosso povo e, sua relação com os pais, que lhe passaram esse gosto pela música. claro, para minha família”.

Calçada é a faixa seguinte à primeira e, com ritmo acelerado, inverte a forma clássica das músicas, começa com o refrão, que é intercalado pelos versos. Boca fofa é a oitava faixa e mistura samba e pagode. A nona canção, Hora de decisão, começa em tom apocalíptico com o som marcante do músico Ed Trombone. O percurso pela Espiral de ilusão chega ao fim com a faixa Cria de favela, que exibe o todo ecletismo dos estilos da música brasileira. “O disco tem muita lágrima – não acredito que algumas composições ficaram tão dançantes – mas também muita ressurreição, superação. A gente que cresce em favela e passa por esses percalços sabe muito bem como o sistema vira as costas para nós.”

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foto Guilherme Dias

O rapper e, agora, mais nova face do samba paulista, em um de seus shows

Para a carreira, o samba passa a ser essencial. Tanto que a turnê nacional do disco será inteiramente dedicada ao samba e tem estreia marcada para 27 de maio, em Porto Alegre. Depois, Criolo faz dois espetáculos no Rio de Janeiro, no Circo Voador, entre 2 e 3 de junho, e no dia 10, desembarca em Belo Horizonte para tocar no Arraiá Incrível do Parque Municipal. “Vamos rodar com uma banda montada, organizada com todo o carinho do mundo pelo Daniel Ganjaman e pelo Marcelo Cabral”, avisa. Dadas as suas devidas proporções, Espiral de ilusão é uma mudança bem-vinda e oferece para seu público a oportunidade de conhecer o artista em um formato mais artesanal e menos polido, como se estivesse cara a cara com ele. Nesse disco, Criolo não é rapper, mas cantor e compositor de samba. Modesto, ele desconversa quando questionado sobre a sua posição como expoente de um samba contemporâneo. “Estou mais para discípulo, alguém que ama, admira, sou um pouco guardião”, pondera.

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A capa é assinada pelo designer gráfico e ilustrador Elifas Andreato, que já desenvolveu algumas das capas de discos mais conhecidas da MPB, como Ópera do malandro, do ilustre Chico Buarque, e A rosa do povo, do ícone do samba Martinho da Vila.

Espiral de Ilusão Criolo Oloko Records no site Audição gratuita spiral/ www.criolo.net/e


ALGUÉM ME AVISOU

foto João Gomes

A cantora Grazzi Brasil em show em São Paulo

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não deixe o samba morrer

Desde pequena no universo do samba, Grazzi Brasil constrói sua carreira no país Através de participações em programas de talentos como Ídolos e Astros, cantora ganha destaque na cena musical brasileira TEXTO Iuri Ribeiro

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antora desde os 13 anos de idade e mãe aos 16, Graziele Raquel da Silva Santos já enfrenta e concilia desde cedo os desafios destas duas difíceis empreitadas. Aos 26 anos, Grazzi já lançou o seu segundo álbum, intitulado Samba Popular Brasileiro, no qual mescla as raízes da música brasileira a sua juventude. “Busco, neste trabalho, pegar tanto o que é da raiz quanto o que é atual, afinal sou uma pessoa jovem.” A menina do Jardim Bonfiglioli descobriu que era cantora precocemente, aos 10 anos de idade, na quadra da Universidade de São Paulo. Cantava baixinho enquanto esperava o início de sua aula de basquete e, quando percebeu, estava sendo assistida por todos. “Ali, naquele momento, eu percebi que estava no lugar errado”, conta. De fato, não demorou muito para que Grazzi trocasse definitivamente a bola de basquete pelo microfone. Já aos 13 anos começou profissionalmente, com o grupo de samba-rock Blackzuka, depois de uma infância muito embalada pelos artistas Bebeto e Jorge Ben. Passou 9 anos com a banda e carrega até hoje influências do samba-rock em seu modo de cantar.

Fã de Chico Buarque e inspirada em Elis Regina, a cantora paulistana mostra sua versatilidade interpretando canções de compositores consagrados da música popular brasileira e de jovens compositores, com repertório que passeia por samba, MPB, soul e samba-rock. Igualmente diversificado, seu disco de estreia, Nas Cordas de um Cavaquinho, lançado no ano passado, conta com influências de diversos gêneros e ritmos musicais, como faz questão de ressaltar. “Tem um pouco de MPB, tem samba, tem rap, enfim, tem o que é bom, o que eu gosto.” Nas próximas linhas, Grazzi conta um pouco mais sobre sua trajetória, suas participações nos programas Astros (SBT) e Ídolos (Record) e sobre as lições que esses concursos lhe renderam.

Como foi seu primeiro contato com a música? Pode até parecer clichê, mas eu sempre soube que queria cantar, queria ser cantora. Na primeira vez que me ouviram cantar, eu tinha apenas 10 anos de idade. Eu fazia basquete na USP e o treino não começava porque eu cantava, bem baixinho. Ali eu percebi que estava no lugar errado. roda.com.br

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Em casa você já tinha influências musicais? Já. Cresci ouvindo Jorge Ben, Bebeto e essa turma, com a minha mãe. Ela gostava e eu cresci ouvindo, não tinha como não gostar. Foi uma boa herança.

Pergunta pessoal, mas como foi conciliar a maternidade com a carreira de cantora? É claro que ocorreram algumas pausas. Eu fiquei meio envergonhada quando fiquei grávida, pela minha idade. Dei uma parada. Teve uma época em que tive que trabalhar em loja, mas nunca abandonei a música. Houve uma pausa, com certeza, pois eu morava com a minha mãe e cinco irmãos, além da minha filha. O pai da minha filha é minha mãe. Então ela dizia: “Você tem que trabalhar, vai ficar cantando?”. Porque até entrar uma grana na música demora mais que um pouco.

Você participou dos programas Astros, do SBT, e Ídolos, da Record. Como foram essas participações e que impacto tiveram em sua carreira? Em 2008, participei do reality Astros e também do Ídolos. No Astros, eu fiquei entre os nove finalistas, mas não ganhei, infelizmente. Depois foi a vez do Ídolos e, de 30 mil pessoas, fiquei entre as 15 melhores. Em 2010, participei do Ídolos de novo e, de 43 mil participantes, fiquei entre os 30 melhores. Sinceramente, o Ídolos só me trouxe a experiência de que, às vezes, é melhor você ir caminhando devagar pra chegar lá. Me ensinou também que cada um tem seu talento e que esse negócio de competição na música não combina.

Qual o motivo da escolha do nome Grazzi Brasil? Aos 17 anos, fui fazer uma gravação num estúdio. Na gravação, um senhor chamado Cristóvão ficou observando meu modo de cantar, interpretar, e entrou em estado de euforia. Ficou muito empolgado e, logo depois que terminei a gravação, veio conversar comigo. Me elogiou e desejou sucesso. Foi como se ele profetizasse a minha trajetória artística dali pra frente. Ele sugeriu esse nome, Grazzi Brasil, para que noutros países as pessoas

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pudessem logo entender que sou uma cantora brasileira e que cantaria músicas genuinamente brasileiras. Como eu sou muito ligada à cultura do nosso país e adoro ser brasileira, fiquei muito feliz, gostei bastante desse nome e o trouxe aos poucos para a minha vida artística.

DIAS ATUAIS Após o sucesso e a atuação da Grazzi Brasil em programas de televisão, a cantora, atualmente, está entre a lista dos candidatos a participar do The Voice Brasil, programa vocálico da Globo. Os jurados da sexta temporada do reality show televisivo serão Ivete Sangalo, Carlinhos Brown, Michel Teló e Lulu Santos. Ivete entra no lugar de Claudia Leite – que passa a integrar a banca do The Voice Kids. A sexta temporada do programa estreia na Globo no próximo dia 21 de setembro, após a novela A Força do Querer. Grazzi Brasil provavelmente irá soltar sua voz grossa e famosa cantando um samba tradicional. Nós, da Revista RODA, apostamos na canção Alguém me avisou, de Maria Bethânia, e acreditamos que, ao ser escolhida – considerando seu sucesso e seu embazamento cultural – irá tomar Ivete Sangalo como técnica e conselheira.

APÓS O SUCESSO O Paraíso do Tuiuti vai contar próximo ano com uma voz feminina em seu carro de som para o ano de 2018. A azul e amarelo contratou a compositora e intérprete Grazzi Brasil para tal, que é quem irá reforçar o time de vozes da escola. Ela vai ajudar com a interpretação do samba dos compositores Claudio Russo, Moacyr Luz, Dona Zezé, Jurandir e Aníbal sobre os 130 anos da Lei Áurea. Grazzi é natural de São Paulo, onde vem fazendo sucesso em escolas de samba como a paulista Vai-Vai. “Fiquei muito feliz com o convite do Tuiuti. Eu não esperava, sinceramente… Vai ser a primeira vez que vou desfilar no Rio e ainda mais em um enredo que exalta toda nossa negritude. Tenho certeza que vai ser emocionante” diz Grazzi Brasil.


não deixe o samba morrer

foto Rafaela Araújo

Grazzi Brasil irá cantar no Paraíso do Tuiuti em 2018

A cantora fez sua estreia no carnaval paulista este ano quando dividiu o microfone da Vai-Vai com Wander Pires. Grazzi, entretanto, já está na carreira musical há 17 anos, com uma filha de 13. “Canto desde os 13 anos. Tenho que agradecer imensamente aos convites que estão surgindo e, principalmente, a todos os integrantes do Tuiuti. Venho para somar.” afirma a cantora sambista. Renato Thor, o presidente da escola de samba de São Cristóvão, se encantou com a voz de Grazzi vendo sua performance durante o último desfile da Vai-Vai. A partir disso, Thor correu atrás do contato da cantora e fez, de imediato, o convite. Cerca de uma semana depois, Grazzi já estava acertando sua participação no carnaval carioca pela agremiação.

“Ela está gravando vários sambas concorrentes para as disputas das escolas daqui. Fiquei impressionado com a voz dela e corri para fazer o convite. Estou com umas ideias para ela no nosso desfile. Grazzi tem tudo a ver com o nosso enredo” afirma Thor, que a compara com a cantora Clara Nunes. A sua apresentação oficial ainda será marcada, devendo ocorrer dentro do próximo mês, durante a abertura da quadra do Tuiuti para os ensaios do carnaval de 2018. No ano que vem, a Vai-Vai será a quarta escola a desfilar no carnaval com enredo Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão?, de carnavalesco Jack Vasconcelos. A escola de samba será a quarta a entrar na avenida e se apresentará no sábado, dia 10 de fevereiro de 2018. roda.com.br

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ALGUÉM ME AVISOU

Precisamos falar sobre acessibilidade no samba A comissão de frente da União da Ilha mostra que o samba é, acima de tudo, um abrigo de diversidade TEXTO Gregório Mattos

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izem que eles têm limitações. Mas para eles, a palavra limitação não significa obstáculo, mas sim superação… E a música é uma grande parceira nesta jornada. São inúmeros os exemplos de artistas que se dedicam à vencer as dificuldades e realizar seus sonhos. Três exemplos chamam a atenção, pela habilidade que têm em fazer coisas que muita gente não consegue: Kinho, O Rodo da Bahia, comanda os vocais da banda o Rodo da Bahia em uma cadeira de rodas e agita multidões em shows pelo nordeste. O ritmo que se caracteriza por gingados e coreografias não é empecilho para o vocalista dar um show à parte: “O Kinho é incrível, ele dança, brinca, canta e faz todo mundo tirar o pé do chão, com uma empolgação inacreditável. Eu sou muito fã da banda e dele, porque ele mostra pra gente que não existem limites para ser feliz e para se jogar na hora de dançar” diz Suellen Ferreira, de Aracaju-SE. Da Bahia, vamos para o Rio de Janeiro: no Rio, Gabrielzinho do Irajá, garoto prodígio que desde os três anos de idade é apaixonado por samba, já foi ator de novela, é cantor, compositor e partideiro,

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dividindo o palco com grandes ícones do samba, como Monarco, Seu Jorge, Dudu Nobre, Almir Guineto, Mauro Diniz, Luiz Carlos da Villa e vários outros. Aplicado e apaixonado por Samba de Raiz, é dedicado ao estudo da Música. Frequentador do Cacique de Ramos, ele faz parte de rodas de samba e é um verdadeiro fenômeno na arte de fazer o samba de improviso, “versa” como ninguém e numa velocidade incrível. “Ele é o máximo, ficamos eu, ele e o Xandy de Pilares mais ou menos 2 horas versando um dia desses. O Gabrielzinho não perde uma! É um garoto talentoso e muito inteligente.” diz o vocalista do Grupo Molejo, Anderson Leonardo. E você já imaginou uma passista sambar sem nunca ter ouvido o som da bateria? Alguns poderiam achar impossível, mas para Brunna Messias, passista da Escola de Samba Unidos da Piedade do Espírito Santo, não é. Ela nasceu com deficiência auditiva mas, na avenida, samba como ninguém e segue até as paradinhas da bateria. “Tem gente que até esquece que ela não ouve e tenta conversar com ela” afirma o pai, orgulhoso por ter levado a filha a rodas de samba desde que ela era pequena.


o mundo é um moinho

foto União da Ilha

Desfile da União da Ilha, em 2016, no Rio de Janeiro

No ano de 2016, sob o comando do coreógrafo Patrick Carvalho, a Comissão de Frente da União da Ilha trouxe oito cadeirantes para se juntarem a outros sete bailarinos que conduziram com maestria, muito talento e prática, a escola pela avenida: Com acrobacias impressionantes, eles emocionam o público, demonstrando que, se tiverem oportunidade, vencem qualquer desafio. A falta de inclusão de pessoas portadoras de necessidades especiais em shows, eventos e outros locais é algo que precisa acabar. Várias casas de shows pelo Brasil estão se adaptando para oferecer a estas pessoas o mesmo tratamento que todos os cidadãos merecem ter. A caminhada ainda é longa e é preciso fazer muito mais para dar a pessoas tão especiais “acessibilidade no samba”. Gabrielzinho do Irajá, Brunna Messias e Kinho. O que estes três têm em comum? O talento para superar limites! Alguns os chamam de ‘deficientes’, quando, na verdade, são extremamente ‘eficientes’, muito mais do que muitos de nós, dando o exemplo de que não existem barreiras insuperáveis quando se tem talento, paixão e muita força de vontade!

Precisamos aprender que, às vezes, nós é que nos tornamos deficientes, quando fingimos não ver, não ouvir, quando viramos o rosto, quando ignoramos a realidade de que pessoas especiais como estas podem nos ensinar muito mais do que imaginamos. O samba tem se tornado uma ferramenta de reconhecimento para isso.

A caminhada ainda é longa e é preciso fazer muito para dar a essas pessoas a acessibilidade no samba roda.com.br

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Projeto social usa samba para tratar transtornos psiquiátricos As vantagens do samba invadem o vasto campo da psicologia e trazem grandes benefícios à sociedade TEXTO Georges Ribeiro

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riado pelo Núcleo de Educação do Museu no ano de 2014, o projeto África ao Samba, por meio de análises das influências africanas no samba brasileiro, atende pessoas com transtornos psíquicos dos mais variados níveis. Inclusão, respeito e dignidade são algumas das ideias que norteiam a missão do Museu Afro Brasil. O projeto África ao Samba, a partir da análise das influências africanas no samba brasileiro, atende pessoas com transtornos psíquicos em seus mais variados níveis, afim de promover a reintegração social de seu público por meio de oficinas que analisam a história social do samba, tendo todo o acervo e as exposições temporárias da instituição como eixos organizadores das atividades. “O projeto permite que os participantes tenham condições de se apropriar de seus territórios e que possam ter acesso ilimitado ao que por ele é ofertado. Ainda que alguns dos beneficiados atendidos estejam acometidos por graves comprometimentos mentais, a experiência do projeto África ao Samba tem um agudo potencial educativo e terapêutico, uma vez que as todas as visitas e diálogos ajudam os

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participantes a trabalharem plenamente suas elaborações, suas representações e suas significações, contribuindo na promoção de sua saúde mental. Os resultados desse projeto social tem sido muito satisfatórios no que diz respeito a socialização dos pacientes atendidos”, destaca o assistente de coordenação do núcleo de educação do museu, Márcio Farias. “Esta percepção também é sentida pelos próprios participantes do projeto”, revela a usuária Madalena Felippe. “Minha autoestima foi lá pra cima. Não tenho mais vergonha de ser atraída pelo som dos tambores, seja por diversão, com o samba, ou pelo som dos atabaques, da religião, da umbanda e do candomblé. Agora eu sou uma mistura de tudo isso”, afirma contentemente. Segundo o Museu Afro Brasil, nos quatro anos de sua existência, cerca de 40 pessoas atendidas por unidades de saúde mental do município de São Paulo, tais como as unidades do Centro de Atenção Psicossocial – Itaim, Butantã e Sé – e do Centro de Convivência Cooperativa – Previdência e Ibirapuera –, já passaram pelo projeto e a maioria apresentou resultados muito positivos.


o mundo é um moinho

foto Teresa Teixeira

Projeto África ao Samba, apresentação no Museu Afro Brasil

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Samba alegra avós em asilo de Porto Alegre Roda acontece toda segunda-feira há oito anos e proporciona alegria e bom humor a pessoas idosas TEXTO Gabriela Santos

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ILUSTRA Ivan Ravena

m jardim gramado, com árvores frondosas. É este o cenário de uma roda de samba especial que acontece toda segunda-feira há oito anos seguidos. Especial porque é destinada a alegrar as tardes de segunda-feira de quase cento e cinquenta idosos que vivem por ali, sem família. O Asilo Padre Cacique, organização não governamental e sem fins lucrativos, fundado pelo padre baiano Joaquim Cacique de Barros em 1898, recebe, toda segunda-feira, os voluntários de várias idades que fazem a alegria dos vovôs e vovós que vivem ali. Este projeto proporciona alegria a idosos por meio da animação característica que há em uma roda de samba, o que já acontece e funciona há oito anos. A idéia surgiu durante uma conversa despretensiosa do Sr. Luiz Carlos, militar aposentado e ex-músico das noitadas de Porto Alegre, e D. Vilma Mazarem. Ambos com 80 anos de idade, eles resolveram juntar amigos e iniciar a batucada. Já na primeira tarde, as músicas de Noel Rosa, Cartola, Nelson Cavaquinho, mudaram a energia do lugar. Cheios de bom humor, batizaram a roda com o nome de “Roda de Samba do Porão do Padre.”

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Hoje, a roda de samba já conta com a participação de trinta e dois voluntários que se revezam no microfone. Há, inclusive, longas filas de espera para cantar ao longo da tarde. É uma alegria só! Mas engana-se quem pensa que essa alegria é reservada aos moradores do asilo. Outros idosos da região fazem questão de participar. Para eles, o momento é mágico. O batuque do pandeiro que transpõe os portões do asilo anuncia que a roda está formada. E todos se animam para soltar a voz e o corpo canta e samba até o entardecer.


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ALGUÉM ME AVISOU

Agenda

setembro 02

Sesc Interlagos: 14h Pagode da 27, Samba da Laje e Samba da Vela. Entrada gratuita

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Traço da União: 21h Grupo Arruda. R$20 (lista) e R$30 (porta)

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Traço da União: 13h Samba do Chapéu. R$20 (lista) e R$30 (porta)

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Ó do Borogodó: 21h Maurinho de Jesus. R$20

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Ó do Borogodó: 21h Adriana Moreira e Cordão da Fuleragem. R$25

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Traço da União: 21h Moacyr Luz e Toninho Geraes.

Ó do Borogodó: 20h Carlinhos Vergueiro. R$45

Ó do Borogodó: 21h Zé Barbeiro convida Edinho Silva. R$15

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Ó do Borogodó: 21h Inimigos do Batente. R$15

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Ó do Borogodó: 21h Forró com Tião Carvalho. R$20

Casa Barbosa: 19h Samba da Valdinéia. R$10 Traço da União: 19h Daniel Tatit apresenta “O Samba Que Une a Gente”. Preço não informado

Ó do Borogodó: 21h Trio Gato com Fome. R$20

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Ó do Borogodó: 21h Juliana Amaral. $25

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Ó do Borogodó: 21h Toinho Melodia e Conjunto Picafumo. R$20 Casa Barbosa: 19h Roberta Oliveira & Bando de Lá. R$10

Traço da União: 19h Batuque de Corda. R$15 (lista) e R$25 (porta)

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Ó do Borogodó: 20h Ó do Avesso apresenta Anná. R$30

Traço da União: 21h Jorge Aragão. R$40

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Casa Natura Musical: 22h – Martinho da Vila. Ingressos variam entre R$70 e R$280

Ó do Borogodó: 21h Cochichando e Anaí Rosa. R$15

Ó do Borogodó: 21h Adriana Moreira e Cordão da Fuleragem. R$15

Ó do Borogodó: 21h Zé Barbeiro convida Edinho Silva. R$25


especial

com que roupa?

03, 10, 17 e 24 Ó do Borogodó: 20h Umbando. R$15

09, 16, 23 e 30 Feijoada do Traço de União. Mulher R$25 e Homem R$35

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Ó DO BOROGODÓ

Ó do Borogodó: 21h Inimigos do Batente. R$15

Rua Horácio Lane, 21, Pinheiros, São Paulo - SP. (11) 3814-4087. Estação Fradique Coutinho (Linha 4)

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Rua Rui Barbosa, 559, Bela Vista, São Paulo – SP. https://www.facebook.com/barbosabixiga/

CASA BARBOSA

Ó do Borogodó: 21h Juliana Amaral. R$15

SESC INTERLAGOS

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CASA DA LUZ

Avenida Manuel Alves Soares, 1100, Parque Colonial, São Paulo - SP. (11) 5662-9500

Ó do Borogodó: 21h Raidilia. R$20

Rua Mauá, 512, Centro, São Paulo - SP. http://casadaluz.org/

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SAMBA DA VELA

Ó do Borogodó: 21h Jorge Ceruto. R$20 Traço da União: 21h Samba do Brotô. R$15 (lista) e R$25 (porta)

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Ó do Borogodó: 21h Cochichando e Anaí Rosa. R$25

Casa de Cultura de Santo Amaro - Praça Dr. Francisco Ferreira Lopes, 434, Santo Amaro, São Paulo - SP.

TRAÇO DA UNIÃO Rua Cláudio Soares, 73, Pinheiros, São Paulo – SP. Estação Faria Lima (Linha 4)

CASA NATURA MUSICAL Rua Artur de Azevedo, 2134, Pinheiros, São Paulo - SP. Estação Faria Lima (Linha 4)

ESTAÇÃO SÃO JORGE Av. Guilherme Cotching, 798, Vila Maria, São Paulo - SP.

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Agenda

outubro 02

Ó do Borogodó: 20h Ó do Avesso apresenta Mauro Amorim com participação de Alaíde Costa. R$45

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Ó do Borogodó: 21h Adriana Moreira e Cordão da Fuleragem. R$15

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Ó do Borogodó: 21h Zé Barbeiro convida Edinho Silva. R$25

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Ó do Borogodó: 21h Forró do Zé Pitoco. R$20

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Ó do Borogodó: 21h Raidilia, sambas, batuques e cantorias. R$20

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Ó do Borogodó: 21h Inimigos do Batente. R$25

Estação São Jorge: 14h - Grupo fundo de quintal. R$25

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Casa da Luz: 17h Grupo Samba da Luz. R$5

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Casa Barbosa: 19h Trio Gato com Fome. R$17

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Ó do Borogodó: 20h15 Inbloco: hepteto. Preço não informado

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Ó do Borogodó: 21h Zé Barbeiro convida Carmen Queiroz. R$15

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Casa Barbosa: 19h Roberta Oliveira & Bando de Lá. R$10

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Ó do Borogodó: 22h Renato Martins. Preço não informado

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Ó do Borogodó: 22h Inimigos do batente. R$15

Casa Barbosa: 19h Os Carpideiros. R$17

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Casa Barbosa: 19h Sambarbosa. R$17

Ó do Borogodó: 22h Choro de Bola. Preço não informado

Ó do Borogodó: 22h Roda de samba do terreiro grande. Preço não informado


conversa de botequim

roda.com.br

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CONVERSA DE BOTEQUIM

Gestão se aprende na Escola… de Samba TEXTO Marcelo Pontes [Jimmy]

ILUSTRA Ivan Ravena

As escolas de samba surgem no Rio de Janeiro, no final dos anos 20. O termo “Escola” é fundamental para entendermos a cultura existente nestas agremiações - seus integrantes se intitulavam “Escola” porque consideravam os locais dos seus encontros um lugar onde o aprendizado era compartilhado. A cultura das Escolas de Samba, com suas crenças e valores, são identificadas e têm uma grande importância, fazendo com que as tradições sejam preservadas, respeitadas e mostradas durante os desfiles. Fazendo uma analogia com o universo empresarial, podemos dizer que a Escola de Samba é uma grande “Fábrica de Emoções”. Por trás de um desfile existe toda uma estrutura complexa, semelhante a uma linha de produção, cujo objetivo é entregar um show de emoção, encantamento e alegria. Para isso, o trabalho é feito durante o ano inteiro, gerando empregos, criando processos, desenvolvendo a criatividade, gerenciando verbas e tempo, e administrando uma enorme quantidade de pessoas, com culturas, formações, objetivos e responsabilidades bastante diferentes. Para que isso seja feito com eficiência, alguns pontos merecem destaque:

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SATISFAÇÃO DO CLIENTE Uma Escola de Samba tem diferentes públicos, claramente identificados: o seu produto principal, a emoção, deve ser entregue não apenas para o folião, mas também para as pessoas que pagaram ingresso no sambódromo, com a expectativa de ver um espetáculo exuberante, e para o público que fica em casa, assistindo pela televisão, gerando audiência e, consequentemente, assegurando a verba de transmissão para o próximo ano. A satisfação destes clientes parece estar sendo muito bem feita. Em 2017, todas as escolas desfilaram praticamente com sua capacidade máxima de foliões, o que significa que todas as fantasias foram vendidas. Os sambódromos estavam lotados, a transmissão pela TV foi vista, apenas no Brasil, por mais de 30 milhões de pessoas. A quase totalidade das pessoas que desfilam sai da avenida satisfeita, recomendando a experiência para os amigos e familiares, e voltando no ano seguinte. Isto é exemplo claro de manutenção de cliente e comunicação boca-a-boca na sua essência.


pranto de poeta

GENEROSIDADE Um desfile não é formado apenas pelos destaques, celebridades e carros alegóricos deslumbrantes. É bom lembrar que, para que um carro alegórico se movimente na avenida, existem várias pessoas trabalhando dentro dele – pessoas que não veem o desfile, e não aparecem para a audiência. É lugar comum dizer da importância do trabalho em equipe em qualquer organização, e é difícil imaginar um trabalho em equipe com bons resultados sem um mínimo de generosidade entre seus membros.

ATENÇÃO DOS DETALHES Para se colocar na avenida desfiles maravilhosos são necessários meses de trabalho, e todo esse trabalho tem pouco mais de uma hora para ser apresentado. Qualquer erro cometido pode ser fatal na hora da apuração, não há uma segunda oportunidade. A disputa é cada vez mais acirrada, e exatamente por isso que cada detalhe é fundamental. Sozinhos, esses detalhes passariam despercebidos, mas, no conjunto, é o que faz uma Escola ser melhor ou pior.

baianas, que abençoam a Escola trazendo seu axé, ou quando vemos pessoas reverenciando o pavilhão da Escola, beijando a bandeira, podemos ter a certeza de que ali tem alguém muito comprometido.

TRABALHO EM EQUIPE O trabalho em equipe é o mais evidente ponto que se observa quando se compara a gestão de uma Escola de Samba com uma corporação. Mas, mesmo assim, merece uma reflexão importante, pois este é o eixo fundamental que faz com que as Escolas de Samba consigam desenvolver seu trabalho. Numa Escola de Samba todos querem desfilar bem e ganhar o carnaval. É por isso que, na hora do desfile, ninguém precisa pedir para o outro caprichar, porque o engajamento com a Escola é, por si só, suficiente para que as pessoas façam o seu melhor.

COMO FAZER?

Olhando a forma de gestão de uma Escola de Samba, fica uma questão: como fazer para se criar uma organização engajada, com pessoas comprometidas, num ambiente cada vez mais complexo e, por vezes, caótico? Nós já aprendemos que, em SENSO DE PROPRIEDADE qualquer organização, as coisas só acontecem se as É comum ouvirmos que as pessoas devem “vestir pessoas envolvidas quiserem que aconteça. a camisa da organização”. Na Escola de Samba Esta forma de gestão, que todos os anos nos isso é feito com naturalidade, e fica claro quando brinda com um espetáculo, não é obra do acaso. Ao ouvimos alguém dizer: “hoje tem ensaio na minha contrário, é fruto do trabalho incansável de inúEscola”. De nada adianta desfile com milhares de meras pessoas que, trabalhando em equipe, conseefeitos especiais e fantasias luxuosas, porque o guem criar o maior espetáculo da terra. O aparente que efetivamente ganha o carnaval são as pessoas. caos que se verifica nos ensaios é, na verdade, uma A maioria dos quesitos de julgamento dependem “re-ordem”, muito mais adequado a um ambiente fundamentalmente dos integrantes. cada dia mais complexo, caótico, e muito criativo. Por isso a importância dos símbolos, histórias, Essa conjunção mágica de cantoria, dança e mitos e rituais. Quando vemos integrantes da Escola ritmo, como afirma o consultor Renato Bernhoeft, abrindo caminho para a Velha-Guarda, numa atitude “é uma experiência digna de ser olhada por nossos de agradecimento com quem ajudou a construir a acadêmicos, consultores, executivos e empresas, Escola, quando vemos o respeito dedicado à ala das com maior interesse e menor preconceito”. roda.com.br

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Uma crônica para entender São Paulo TEXTO Eduardo Benesi

ILUSTRA Ivan Ravena

Era uma vez um motorista que odiava o motoqueiro que odiava o ônibus que odiava o ciclista que odiava o pedestre que odiava condutores de guarda-chuvas. O núcleo de aborrecimentos paulistanos se concentra num cenário caótico chamado trânsito. Mas não da pra generalizar. São Paulo tem a Avenida Paulista, uma moça com óculos de grau, que adora arte e barulho, que nos espia por prédios hiperativos, que carrega o fardo da anfitriã. O paulistano possui uma velocidade própria e ansiosa, temos crises de irritação com quem não se adapta ao nosso trote. Andar devagar é quase um atestado de “não sou daqui”. Mas não dá pra generalizar. Tem aquela bairro-senhora, a Vila Mariana,  da nostalgia idosa, dos pés de romã e casinhas com cores descascando: um abraço de vó. Em São Paulo a concorrência acontece inclusive no trânsito: quando você para o carro no farol e o automóvel do lado também vai brecar, repare que ele sempre vai dar um jeito de frear um pouco a sua frente. Mas não dá pra generalizar. São Paulo tem a Pompeia, aquele bairro que corre em 60 graus, que tem gente falando alto e tem palmeirenses mil.

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Se você vem de fora, se prepare: vão imitar seu sotaque. Corrigir português aqui é uma constante, tem muito daquele egocentrismo de quem acha que a linguagem correta é somente a local. Mas não dá pra generalizar. São Paulo tem Pinheiros: bairro de fim de tarde, das varandas apertadas, da boemia benedita, das cervejas abaixo de 0, dos arquitetos e sofás, de instrumentos teodoros e lojas musicais. Paulistano é especialista em perder o trailer do filme, de te conhecer a fundo em um dia e no outro fingir que não te conhece. Mas não dá pra generalizar. São Paulo tem  o Bixiga: bairro do calor afetivo, daquele gosto de manjericão, das mamas braçudas, da vibração confortável, do amor pomodoro. Aqui, vão te perguntar indiretamente qual é o seu cargo:


pranto de poeta

“O que você tá fazendo da vida?”, e você precisa estar “marca” e dos preços bananas. Para incomodar os fazendo algo, invente qualquer coisa, do contrário paulistanos basta andar em cordão de isolamento você é um poeta vagabundo. Mas não dá pra gene- (casais ou grupos que bloqueiam uma passagem ralizar. São Paulo tem a Frei Caneca, rua cor-de-rosa, estreita por estarem andando lado a lado) e você do rebolado protesto, do beijaço, de gente festeira, será muito xingado em pensamento. Ouse parar na das figuras que “ahazam”. Em São Paulo só é atraso esquerda da escada rolante, você será responsável 10 minutos depois do próprio atraso. O metrô é uma por todo um atraso coletivo. Somos neuróticos, central de gente rolando continuamente suas time- não duvide. Mas não da pra generalizar. São Paulo lines pelo smartphone. Uma multidão sorrindo pra tem a Mooca, bairro calórico, de mãe preocupada, pequenas telas. Mas não dá pra generalizar. da pizza de massa grossa, da rabiola inocente, do Paulistano sofre com a ressaca de euforia: tem moleque travesso, do sol de domingo no Juventus. preguiça de ligar no dia seguinte, e aos domingos, Tem Capão Redondo e tem várias tias do Yakult. só existe depois das três da tarde. Mas não dá pra Tem o Tatuapé e bichinhos de luz. Tem o Morumbi generalizar. São Paulo tem a 25 de Março, rua do e tem lugar que eu nem conheço. São Paulo é sede suor, em que carro não tem vez, dos catálogos de dos paradoxos, mas não dá pra generalizar. roda.com.br

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CONVERSA DE BOTEQUIM

Uma crônica para Adoniran Barbosa TEXTO Gabriela dos Santos

ILUSTRA Ivan Ravena

“Não posso ficar nem mais um minuto com você Sinto muito amor, mas não pode ser Moro em Jaçanã, se eu perder esse trem Que sai agora às onze horas Só amanhã de manhã.” Canta um senhor de cabelos brancos no trem. As pessoas em volta o analisam como se ele fosse um ser de outro planeta. Ao que percebo, fui a única que sorri. Talvez a rotina da metrópole tenha deixado a pessoas tão anestesiadas, que as fazem estranhar quem vive com mais leveza. A sensação é de que há uma trava, ferrugem nos sorrisos – parafraseando um outro poeta, dessa vez brasiliense. Desci do trem e segui meu caminho pensando naqueles versos e em como alguém pode se imortalizar por meio da própria rotina. Sim, rotina! O que Adoniran fazia era cantar o cotidiano – o dele e o de todos os paulistanos – e ouvir suas canções é se transportar para uma São Paulo antiga, que muitos de nós só conhece por fotos, filmes e causos. Quem é que não cria uma imagem mental ouvindo versos como os que Adoniran cantava?

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João Rubinato, nome de batismo de Adoniran, assim como muitos, foi um paulistano progênito da imigração italiana na cidade do café e é considerado o pai do samba de São Paulo, mas começou a caminhar com as próprias pernas trabalhando como entregador de marmitas lá em Jundiaí. Diante de sua história de vida, ouso dizer que o que fez Adoniran Barbosa tão grande foi o fato de ele conseguir ver arte onde ninguém mais via e, quando digo arte, me refiro à capacidade que temos de transformar uma coisa em outra coisa mais bonita. Se ele – e tantos outros – não conseguissem enxergar algum tipo de beleza nessa cidade esmagadora de sonhos, muitos dos hinos paulistanos nem sequer existiriam. Quantos mais podem existir? “Domingo nós fumo num samba No Bexiga na Rua Major Na casa do Nicola… À mezza notte o’clock Saiu uma baita duma briga Era só pizza que avuava junto com as brachola.”


sĂł chora quem ama

Samba TEXTO Celso Cruz

ILUSTRA Ivan Ravena

como supor que naquela tarde amarela na sala daquele apartamento azul naquela quarta-feira de cinzas enquanto mirava vertigens naquelas Ă­ris acesas descobriria o enredo que ainda vibra em cada osso nervo fibra que ainda reza em cada oco arco treva que ainda grita de cor de sal de lira pelas avenidas vermelhas da vida ? roda.com.br

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aquele abraรงo

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RODA  

A RODA é um projeto interdisciplinar de design editorial executado no terceiro semestre do curso de Design da ESPM-SP. Com o tema central "s...

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A RODA é um projeto interdisciplinar de design editorial executado no terceiro semestre do curso de Design da ESPM-SP. Com o tema central "s...

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