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Mulheres Caminhantes! Terminal Santana

Como melhorar a segurança e a mobilidade de meninas e mulheres?

A experiĂŞncia do projeto Santana Segura pelas Mulheres e para as Mulheres


Introdução Esta publicação apresenta o processo de realização e os resultados do projeto Santana Segura pelas Mulheres e para Mulheres, que foi apoiado pelo programa Casa Cidades 2018 do Fundo Socioambiental Casa. O projeto é a segunda parte da edição “Terminal Santana” do projeto Mulheres Caminhantes!, que busca envolver meninas e mulheres na construção de cidades mais seguras e sustentáveis, a partir da aplicação de uma metodologia de auditoria cidadã desenvolvida pelas organizações criadoras do projeto, chamada “Auditoria de Segurança de Gênero e Caminhabilidade”. A metodologia propõe uma reflexão integrada sobre segurança, gênero e mobilidade sustentável, colocando as mulheres como especialistas para observarem e avaliarem o espaço público de seus territórios e criarem soluções considerando suas diferentes características socioeconômicas, etárias e étnico-raciais. A primeira parte do “Mulheres Caminhantes! Terminal Santana” foi realizada no final de 2017, quando um grupo de mulheres moradoras da zona norte da cidade de São Paulo realizou um diag-

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nóstico do entorno do Terminal Santana e propôs soluções para serem implementadas em conjunto pela sociedade civil, governo e organizações. Os resultados dessa primeira parte podem ser vistos no relatório disponível em http://bit.ly/relatoriomulherescaminhantes. Já a segunda parte, foco deste relatório, foi realizada entre agosto de 2018 e fevereiro de 2019, quando o mesmo grupo de mulheres voltou a se reunir para revisar as soluções propostas e colocar parte delas em ação. Nas próximas páginas, você conhecerá todo o caminho que culminou em incríveis ações cidadãs realizadas no entorno do Terminal Santana, além de reflexões sobre aprendizados. Esperamos que este documento sirva de inspiração para a atuação de outros grupos de mulheres. Boa leitura!

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Sumário 05 O território 06 As participantes 07 O caminho até as ações 13 Planejando as ações 16 Vamos às ruas 28 Aprendizados 31 Próximos passos

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O Território O Terminal Santana é o principal polo de transporte público da Zona Norte da cidade de São Paulo. Nele, encontram-se a estação de Metrô Santana da linha azul e um terminal de ônibus, por onde passam 42 linhas. A conexão dos bairros da Zona Norte com o centro da cidade quase que obrigatoriamente se dá pela passagem ou baldeação no Terminal Santana. Assim, esta área é muito frequentada não só por quem mora próximo, mas também por quem mora nos bairros adjacentes. O movimento no local é intenso e diverso e pode gerar sensação de insegurança para muitas pessoas. Por essa razão, entendeu-se que esta seria uma região relevante para que meninas e mulheres realizassem um diagnóstico do local e refletissem sobre possibilidades de mudança. Diversos elementos do entorno do terminal contribuem para a insegurança e a baixa caminhabilidade para as mulheres. As condições das calçadas, rampas de acessibilidade, travessias e iluminação da região são críticas. Lá também é possível encontrar pontos de prostituição e exploração sexual, e há uma grande concentração de população em situação de rua, cuja relação com alguns comerciantes é conflituosa, principalmente pelo apoio a medidas que visam à sua expulsão da região. Além disso, a oferta de serviços públicos especializados para mulheres na região é baixíssima, não havendo nenhuma Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher em todo o distrito de Santana.

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Algumas das participantes do projeto em ação nos pontos de ônibus da região.

As participantes As mulheres que participaram deste projeto integram o coletivo “Mulheres da Zona Norte por uma SP Segura e Sustentável”, formado como um subgrupo do Fórum Regional de Mulheres da Zona Norte. O Fórum foi criado em 2015 por demanda das conferências municipais de mulheres, que também culminaram na composição e criação do Conselho Municipal de Mulheres. No entanto, com o início da gestão municipal de 2017, os fóruns sofreram grande desarticulação, principalmente pela desconstrução da Secretaria Municipal de Mulheres.

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Compõem o grupo 23 mulheres que se articulam em outros espaços de participação social da cidade, como os conselhos participativos das Subprefeituras da Zona Norte e movimentos de moradia. Suas idades são variadas, assim como os graus de escolaridade, a identificação racial e os bairros onde vivem. Todas elas utilizam frequentemente o transporte público e se deslocam a pé, e a maioria tem sob sua responsabilidade o cuidado de pelo menos uma pessoa (criança, idosa ou com deficiência).

O caminho até as ações Conforme adiantado, o projeto Santana Segura pelas Mulheres e para as Mulheres é a segunda parte da edição “Terminal Santana” do projeto Mulheres Caminhantes! A primeira parte do projeto dedicou-se ao diagnóstico do território a partir do levantamento de dados e da realização de três encontros. O primeiro encontro foi realizado em um dia de semana à noite. Conversamos sobre como era caminhar no local e seu entorno e mapeamos os lugares onde as participantes mais circulavam ou evitavam. Em seguida, definimos um trajeto para percorrer juntas e saímos à rua para avaliá-lo. Como o objetivo era captar as sensações ao percorrer o território a pé e sozinha, caminhamos em silêncio para viver a experiência de forma individual. Na volta, discutimos como nos sentimos ao circular à noite por cada quadra e rua percorrida. O segundo encontro aconteceu em um sábado de manhã e teve como foco avaliar o espaço público que foi percorrido anteriormente. Depois de batermos um papo sobre o que

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Para reconhecer melhor os problemas do territĂłrio, ĂŠ importante caminhar por ele.


significa sentir medo enquanto mulher, os diferentes tipos de violência que existem e o que significa caminhabilidade e mobilidade sustentável, fomos para a rua novamente. Dessa vez, escolhemos três trechos com base nas sensações do primeiro encontro: aquele onde a maior parte das mulheres havia se sentido bem ao caminhar e os dois que provocaram as piores sensações no grupo. A análise do espaço público foi feita a partir de quatro camadas: a “do chão”, a “de cima”, a “dos acessos” e a “das sensações”. Para isso, utilizamos uma ferramenta didática e fácil de usar: molduras verdes feitas de papel para posicionar em volta do que é positivo no caminho e fotografar, e molduras vermelhas para registrar o que é negativo. No terceiro e último encontro, convidamos para estar conosco algumas parceiras da luta pelo direito das mulheres à cidade. Discutimos os resultados da avaliação para entender o que faz com que nos sintamos menos seguras ao nos deslocarmos em alguns lugares de Santana e da cidade. Para isso, as participantes apresentaram como foi a avaliação dos caminho com suporte das fotos, que ajudam a registrar e manter uma memória dos elementos positivos e negativos a partir da perspectiva das caminhantes. Depois, divididas em grupos, as mulheres determinaram quais eram os problemas prioritários a serem enfrentados e pensaram em soluções para que o Terminal Santana seja, ao mesmo tempo, um local que contribua com a segurança de gênero e com a mobilidade sustentável. Vale lembrar que integrar esses temas também significa contribuir com a mitigação às mudanças climáticas. Afinal, não há como diminuir a emissão dos gases de efeito estufa se os principais meios de transporte utilizados não forem o deslocamento a pé, a bicicleta

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Todas as questões e soluções propostas foram definidas coletivamente em reuniões presenciais.

e os transportes públicos. Apesar de os grupos terem levantado problemas distintos, cada um deles listou soluções que, mesmo em diferentes formatos, convergiam e se complementavam. Isso reforça que não só é possível, como também extremamente necessário, pensar coletivamente em soluções que consideram diferentes áreas do conhecimento e problemáticas socioambientais para alcançar resultados mais efetivos. A seguir, apresentamos uma tabela com o resumos das propostas desenhadas:

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Grupo Problema

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Linha de ação Soluções principais

Zeladoria com Sensibilização; foco nos itens: Ativismo; Rampas de acesAção no espaço. so; Iluminação; Buracos;

Envio de relatório para poder público; Intervenções na rua com lambe-lambes com frases de efeito e reflexões chamando atenção aos problemas apontados.

Falta de limpeza.

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Desconforto e Sensibilização; insegurança nos Campanha; pontos de ônibus Manifesto.

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Insegurança re- Educação/ Dis- Rodas de conversa sobre lacionada ao as- cussão masculinidade em escolas sédio sexual

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Curto prazo: Criar campanha e ir de lanterna até os pontos de ônibus

Insegurança à Projeto no am- Sinalização para pedesnoite biente constru- tres (indicativa e inforído mativa); Aterramento de fios; Melhir iluminação - LED.

Após os três encontros, todo o conteúdo produzido foi apresentado em um evento aberto, que contou com a participação de representantes da sociedade civil e do poder público. Os detalhes podem ser lidos no relatório disponível no link http://bit.ly/relatoriomulherescaminhantes. A primeira parte do projeto teve apoio do WRI Brasil e se somou a outras iniciativas que realizamos junto à organização em 2017, como o seminário “Mobilidade urbana e a perspectiva das

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Irani, uma das lideranças comunitårias da região, escuta atenta as ideias de suas colegas.


mulheres” e a “Coalizão Mobilidade Urbana na Perspectiva das Mulheres”.

Planejando as ações A segunda parte do projeto dividiu-se na realização de dois encontros, um para definir as ações e outro para organizar como as ações seriam colocadas em prática.

Encontro 1 O primeiro encontro teve como objetivo responder à pergunta: “Qual problema queremos resolver primeiro e como?”. Para isso, reunimo-nos em um sábado de manhã para retomar o que havíamos feito na primeira etapa. E também para escolher um dos quatro problemas previamente levantados e uma solução para contribuir com o enfrentamento desse problema. Para embasar a escolha, as participantes foram divididas em quatro grupos e fizeram o exercício de determinar quais das soluções elas tinham mais vontade de “fazer acontecer” e que poderiam colocar imediatamente em prática, considerando a possibilidade de gerar resultados positivos para a sua segurança e mobilidade sustentável e para a de outras meninas e mulheres. Em seguida, as facilitadoras convidaram os grupos a pensar em que tipo de atividades e habilidades seriam necessárias para as soluções acontecerem e quem mais teríamos que envolver para conseguir realizar a ação. Trinta minutos de-

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pois, cada grupo apresentou sua escolha e razões para as demais participantes, e em seguida aconteceu uma sessão de perguntas, respostas e sugestões. As soluções escolhidas foram:

Criar lambe-lambes e intervenções para chamar atenção para o assédio sexual e informar mulheres sobre seus direitos;

Elaborar um manifesto do “ponto de ônibus ideal” e colocar informações relevantes nos pontos de ônibus perto do terminal;

Chamar atenção para a falta de iluminação das ruas e pontos de ônibus;

Criar espaços de discussão sobre masculinidades nas escolas.

Após as apresentações, foi revelado às participantes que havia uma verba para realizar a ação selecionada e elas foram orientadas a chegar a um consenso para escolher apenas uma solução. No entanto, foi entendido que as quatro soluções poderiam acontecer com o orçamento e que, no caso da discussão nas escolas, a reflexão sobre as masculinidades poderia ser incorporadas nas mensagem criadas para os lambe-lambes. Além disso, foi ressaltado que a escolha dessas soluções não deveria significar que outras propostas não poderiam ser realizadas, mas sim que eram um ponto de partida para destinar os recursos disponíveis naquele momento da forma mais otimizada possível. A definição prática e o plano de ação seriam, então, trabalhadas no encontro seguinte.

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Participantes leem e revisam as ideias apresentadas por todos os grupos nos encontros de planejamento.


Encontro 2 No segundo encontro a pergunta era “Como vamos nos organizar para realizar as ações?”. As participantes se dividiram em três grupos para listar todas as atividades necessárias para realizar as soluções definidas e foram estimuladas a compartilhar com o grupo como estavam se sentindo. Após a acolhida, a atividade de organização foi feita com a ajuda de uma tabela que buscou facilitar a criação de um cronograma com divisão de responsabilidades, a partir das seguintes perguntas: O quê? Quando? Onde? O que é necessário fazer? Quem faz o quê? Os grupos apresentaram como iriam se organizar para que as demais participantes pudessem comentar ou dar sugestões e verificar como cada ação se conectaria e se fortaleceria. Finalmente, cada grupo decidiu como se daria a comunicação entre as participantes e as facilitadoras se dividiram para acompanhar os grupos e dar suporte à mão na massa.

Vamos às ruas As participantes puseram a “mão na massa” em três intervenções realizadas no espaço público: um “Lambidaço”, um “Lanternaço” e um “Graffitaço”. Nas páginas seguintes, contaremos o que foram essas intervenções!

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Mensagens sobre direitos das mulheres a uma vida sem violência foram espalhadas pelas ruas.

Lambidaço O lambidaço foi uma ação de colagem de lambe-lambes, um tipo de cartaz com mensagens de caráter crítico ou artístico, em lugares de grande visibilidade no entorno do terminal Santana. Esse formato foi escolhido pelas mulheres por ser muito utilizado nas ruas da cidade e ter fácil aplicação. O objetivo era chamar a atenção para a violência que meninas e mulheres sofrem nos espaços privados e públicos, desnaturalizando esse fenômeno e encorajando as mulheres a enfrentarem seus agressores. Para isso, elaboraram frases com um forte tom feminista e o design dos lambes ficou por

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conta de uma das integrantes do coletivo.

Design dos cartazes: Patrícia França

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A intervenção aconteceu em um sábado de manhã. Foram impressos 100 cartazes e as participantes, sempre em grupos, se revezaram na escolha de locais e na colagem dos lambe-lambes. Ao mesmo tempo em que acontecia a colagem, a artista circense Selva reforçava a intervenção com uma caixa de som e um microfone na mão, fazendo coro às mensagens dos cartazes. Além disso, as mulheres dialogavam com várias pessoas que caminhavam sobre o problema da violência contra mulheres. Muitas transeuntes mostraram concordar com as mensagens abordadas e algumas inclusive quiseram aprender como colar lambe-lambes. Alguns homens, por outro lado, demonstraram incômodo com a intervenção e chegaram a querer interromper nossas falas ao microfone.

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Lambe-lambes são materiais de comunicação efêmeros e baratos, que combinam com a linguagem urbana.


Desafios

Oportunidades

A colagem de lambe-lambes trou- Lambe-lambes chamam a atenção xe apreensão em relação a possí- de quem caminha, ao mesmo temveis conflitos com a lei. Por isso, o po em que são práticos de produzir grupo buscou informações sobre e colar. a regulamentação e verificou que apenas cartazes publicitários eram proibidos por lei. A livre manifestação, por outro lado, é garantida pela Constituição Federal brasileira. Apesar do grande impacto visual, essa é uma intervenção que pode durar pouco tempo no espaço público em razão da retirada dos lambe-lambes colados ou da colagem de outros cartazes no mesmo local.

Acompanhar a colagem com falas em microfone e música é uma estratégia interessante para potencializar as mensagens escritas nos lambe-lambes.

O comportamento violento de alguns homens, que chegaram a assediar as participantes, não foi contido nem mesmo pela intervenção.

Esse tipo de intervenção pode ser aproveitada para abordar meninas e mulheres que circulam pelos espaços públicos e compartilhar informações sobre como elas podem denunciar atos de violência e que serviços públicos elas podem acessar. As participantes mostravam-se felizes por participar do processo de interferir no espaço público com as suas mensagens e desejos.

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Mulheres caminham pelas ruas de Santana à noite para destacar falta de iluminação pública.

Lanternaço Nesta intervenção, as participantes se reuniram e caminharam pelo entorno do terminal Santana com as lanternas de seus celulares ligadas. O lanternaço foi inspirado em uma ação de um grupo de mulheres da UNAS Heliópolis e teve por objetivo “iluminar” o problema. As integrantes do grupo chegaram aos poucos no ponto de encontro, o salão da Paróquia Nossa Senhora de Sant’Ana, entre 19h00 e 19h40. Enquanto isso, fomos conversando sobre como a falta de iluminação nos pontos de ônibus au-

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menta o medo de sermos abordadas e assediadas enquanto esperamos pelo transporte. O objetivo inicial era caminhar pela Avenida Cruzeiro do Sul, identificada como a que mais gera insegurança para as meninas e mulheres que se deslocam por transporte público à noite pela Zona Norte. Porém, no horário em que decidimos sair (às 20h00), começou uma chuva muito forte e decidimos atrasar um pouco a atividade, diminuindo nosso trajeto à quadra do entorno da igreja, onde há vários pontos de ônibus. Assim, com guarda-chuvas e capas, saímos com nossas lanternas em mãos denunciando, com um microfone, as falhas na iluminação pública que alimentam nosso medo de circular na cidade. A caminhada durou por volta de 40 minutos e nesse trajeto transmitimos nossa mensagem não apenas para as pessoas que circulavam no local, mas também para os policiais em serviço ao redor do terminal. Desafios

Oportunidades

Esse tipo de intervenção é muito influenciada pelas condições climáticas. A chuva atrasou a atividade e quase a impossibilitou, dificultando principalmente o diálogo com as pessoas que estavam nas ruas.

Ao caminhar à noite com luzes, fica evidente o problema da iluminação pública e como isso afeta todas as pessoas passando, sejam mulheres, homens, crianças etc.

Para chamar mais a atenção, vale vincular a intervenção com políticas públicas, convidar vereadoras a participarem e fazer muitas imagens e gravações.

Abordar o tema da iluminação pública, por ser um problema comum a muitas áreas da cidade, dialoga vincular a intervenção a outras pautas de reivindicações socioambientais, como a moradia digna.

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Mariana, da UNAS Heliópolis, compartilha a experiência de mobilização das mulheres do bairro.

Graffitaço A última intervenção reuniu 4 ações diferentes. Primeiro, as participantes se encontraram em uma das salas da paróquia para participar de uma roda de conversa com integrantes da UNAS Heliópolis, organização dedicada a melhorar a qualidade de vida e facilitar o desenvolvimento integral das pessoas que moram nessa região e do coletivo Magic Minas, um grupo que promove a ocupação de quadras públicas por mulheres que jogam basquete. Trocamos experiências sobre os desafios de promover a igualdade de gênero nos espaços públicos e também de envolver os homens nessas discussões.

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Participantes participam da pintura de mural de graffiti e deixam suas marcas nas ruas.

Em seguida, todas se dirigiram à avenida Cruzeiro do Sul para acompanhar a grafiteira Cleo Moreira na realização de um lindo painel com temática feminista em uma das colunas que sustentam a linha azul do Metrô, entre as estações Santana e Carandiru. A obra, finalizada dois meses depois, é um dos únicos graffitis femininos a compor o Museu Aberto de Arte Urbana. Durante a atividade, a artista circense Selva e a DJ Nicole deixavam rolar músicas com mensagens feministas. Já algumas das mulheres se arriscaram a fazer “tags” com seus nomes ao lado do graffiti, mostrando que aquele território também é delas. Enquanto rolava a pintura do graffiti, parte das mulheres se juntaram para espalhar adesivos com informações so-

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As participantes do graffitaço posam em frente ao mural parcialmente finalizado.

bre linhas de ônibus em oito paradas que ficam no entorno do terminal Santana. O grupo de mulheres pensou tanto o formato (adesivos A1, com letras grandes) quanto as informações que deveriam ser divulgadas: nome da linha, trajeto completo, tempo de intervalo, primeira e última partida, forma de denúncia de assédio sexual e a existência da lei municipal que permite que mulheres e pessoas idosas têm direito a descer fora do ponto de ônibus entre 22h00 e 5h00. A aplicação dos adesivos foi feita nas superfícies de vidro das paradas de ônibus. As pessoas que aguardavam os ônibus nos pontos onde foi feita a intervenção foram bastante cooperativas e demonstraram apoio à ação.

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Também foi elaborado, para esta intervenção, o manifesto “O ponto de ônibus que queremos” para dar visibilidade aos problemas e apontar soluções. O ponto de ônibus, elemento central da mobilidade, foi apontado pelas participantes como o ambiente onde meninas e mulheres passam um dos momentos de maior vulnerabilidade nos seus deslocamentos: a espera pelo transporte público à noite. Desafios

Oportunidades

Para fazer um graffiti é necessário Uma das articuladoras do projeto revisar os locais permitidos para tinha contato com uma das pessoreceber a arte. as responsáveis pelo Museu Aberto de Arte Urbana (MAAU), o que permitiu contornar a dificuldade em encontrar um local para o graffiti. Não foi fácil encontrar informações Os materiais de informação producompletas e fidedignas sobre as li- zidos devem impactar o deslocanhas de ônibus municipais no site mento de muitas mulheres. da SPTrans, pois elas não são disponibilizadas em formato aberto. Da mesma forma, não obtivemos A conexão com outros grupos de resposta da SPTrans em relação à mulheres agindo na cidade potencializa a intervenção e promove o colagem de adesivos. compartilhamento de aprendizagens. O estudo dos pontos de ônibus é A criação de um material de refebastante complexo e exige tempo rência que chama atenção à vule recursos (financeiros e humanos). nerabilidade dos pontos de ônibus pode ser utilizado posteriormente no debate sobre o tema.

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Para redigir o manifesto, elaborou-se um questionário com base em estudos sobre o tema. As participantes responderam o que faria melhorar os pontos de ônibus em seis eixos: localização, informação, modelo, serviços, segurança e manutenção. Os resultados foram condensados em um panfleto que foi distribuído nas ruas no dia da intervenção, além de serem divulgados em redes sociais.

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As participantes avaliaram os problemas das ruas e propuseram soluções a partir de suas próprias vivências.


Aprendizados Nesta etapa do projeto foram realizadas ações que promovem a participação de meninas e mulheres na transformação das cidades em ambientes mais seguros e cômodos para elas circularem e estarem. Para isso, foram vinculados os temas da violência de gênero nos espaços públicos e mobilidade sustentável. As ações, conforme descrito, foram definidas, elaboradas e realizadas pelas mulheres participantes do projeto com apoio de facilitadoras e colaboradoras externas. Ainda que à primeira vista as ações possam parecer efêmeras com relação à mudança do ambiente construído, elas tiveram como função contribuir com o discurso e a esfera simbólica dos espaços seguros e sustentáveis. Provocando, tanto nas participantes quanto nos transeuntes que testemunharam a intervenção então, a reflexão sobre os aspectos estruturais e culturais que tornam a cidade mais inseguras para as meninas e mulheres. Nesse sentido, vale a pena citar Carolyn Whitman, que definiu três linhas de práticas para a construção de cidades melhores para meninas e mulheres:1) ações que aumentam a segurança, como melhorar a iluminação das ruas; 2) a criação de lugares seguros, como a transformação de bairros em lugares mais diversos através, por exemplo, do uso do solo e da mudança do desenho das ruas; e 3) a criação discursiva de espaços seguros (em inglês “discursive safe spaces”) a partir, por exemplo, de ações de ativismo com mensagens anti-violência e processos de participação cidadã. Assim, foi importante reconhecer du-

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rante o projeto que as ações realizadas se encaixam na terceira prática mas que, mesmo não sendo suficiente isoladamente, têm igual importância para alcançar a transformação integral. Além disso, as participantes relataram que colocar em prática parte das soluções que elas haviam coletivamente criaram foi algo que transformou sua maneira de perceber o espaço público. Não apenas por elas terem sido provocadas a planejar e atuar para melhores condições da cidade, como também pela oportunidade de ampliar seus conhecimentos sobre iniciativas e ideias que ajudam a transformar positivamente o espaço urbano.

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As participantes avaliaram os problemas das ruas e propuseram soluções a partir de suas próprias vivências.


Com relação a isso, relatos das articuladoras locais dão conta que a maioria das participantes das ações seguem debatendo o tema em outros espaços, como audiências públicas, associações de bairro, movimentos e no cotidiano onde estão inseridas. Por exemplo, Irani afirma que não consegue mais andar na rua sem observar como os espaços não são adequados à mobilidade universal e quais elementos geram medos e perigos para as mulheres. Já Natasha, outra participante, vem tentando inserir as pautas apresentadas nas reuniões na escola de seu filho.

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Algumas das participantes posam em frente ao terminal Santana no dia do “Lambidaço”.


Próximos passos Este relatório será apresentado em uma audiência pública convocada pelo projeto na Câmara de Vereadores da cidade de São Paulo. A audiência tem como objetivo chamar atenção para a falta de acolhimento da cidade às meninas e mulheres, apontando para a necessidade da implementação de políticas de mobilidade sustentável com perspectiva de gênero. Buscamos reforçar o diálogo com o poder público por entender que essa questão limita o acesso desse grupo à cidade e a oportunidades, tendo os pontos de ônibus como elemento catalisador para a ampliação de ações intersetoriais e a geração de um pacto suprapartidário pelo direito das mulheres à cidade. O coletivo “Mulheres da Zona Norte por uma SP Segura e Sustentável” continuará promovendo a pauta no Fórum de Mulheres da Zona Norte e nas demais audiências e ações que o grupo participa, sempre buscando somar a outras iniciativas e organizações feministas, e que atuam pela melhora das condições de mobilidade urbana e qualidade dos espaços públicos. Queremos continuar a desenvolver ações que efetivamente promovam mudanças na cidade e aprofundem as reflexões necessárias sobre planejamento urbano sensível a gênero, segurança das mulheres e mobilidade sustentável, estimulando um pensamento integrado, que inclui sua relação com outras temáticas, como o combate às mudanças climáticas. O projeto Mulheres Caminhantes! segue com o objetivo de realizar cada vez mais edições e contribuir com a construção de cidades mais seguras e sustentáveis para meninas e mulheres!

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Ficha Técnica: Organização e realização: Coletivo Mulheres da Zona Norte por uma SP Segura e Sustentável, Rede MAS - Mulheres Atuando pela Sustentabilidade e SampaPé!. Textos: Alice Junqueira, Ana Carolina Nunes, Kamila Gomes e Leticia Sabino. Design gráfico: Marina Fráguas. Diagramação: Giulia Fagundes. Participantes do projeto: Adriele, Alexsandra Ferreira dos Anjos, Ana Maria, Ana Paula Barros, Anaide Rosa, Bianca Santos, Cristina Cardoso, Daiana Lourenço, Daiane Zito, Elisabeth Dequirmandjian Mendes, Elizabeth de Melo Cedro, Esmaele, Gabriela Lucera, Irani Aparecida Pereira Dias, Karina Martha Júlio, Maria Socorro, Natacha Orestes, Patrícia França, Paula Marcolino, Selma Dutra, Simone Isabel, Tatiana Cunha de Oliveira, Terezinha Brites, Vanessa Lira, Veronica Barreto e Vitória Guedes Registro audiovisual: Patrícia França Projeto realizado com recursos do Programa Casa Cidades 2018. Ano de publicação: 2019.

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