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AS MULHERES POETAS

NA LITERATURA BRASILEIRA

VOLUME 1


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Este livro é resultante de um trabalho de 6 anos de pesquisa. Durante esse período selecionei cerca de 400 poetas e por volta de 1500 poemas. Tudo isso foi divulgado diariamente em meu site, nas 2 timelines que tenho no facebook e em espaços solidários, como Revista Biografia, Vidráguas, Cult e outros. Antes de tentar transformar esse trabalho em livro de papel, através de uma editora, achei providencial realizá-lo na forma digital.

AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA Capa e projeto gráfico: Rubens Jardim

_______________________________________________ As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira – Antologia poética São Paulo, 2018 ISBN 978-85-908178-1-9 Poesia brasileira ______________________________________________ 2

AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA


Rubens Jardim

AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

1ª EDIÇÃO

São Paulo Edição do Autor 2018 AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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Sumário 06 08 12 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50

Maria Valéria Rezende 51 Jacinta Passos As mulheres poetas 52 Dora Ferreira da Silva Um pouco de luz 53 Mariajosé de Carvalho Angela do Amaral Rangel 54 Stella Leonardos Barbara Heliodora 55 Edith Pimentel Pinto Maria Dorothéia J. de Seixas 56 Ilka Brunhilde Laurito Ildefonsa Laura César 57 Helle Alves Beatriz Brandão 58 Lilia Pereira da Silva Maria Josefa Barreto 59 Yeda Prates Bernis Delfina da Cunha 60 Celina Ferreira Nísia Floresta 61 Ida Laura Maria Firmina dos Reis 62 Claire Feliz Regina Adélia Fonseca 63 Zila Mamede Eugênia Câmara 64 Leonor Scliar Cabral Júlia de Castro 65 Esther Proença Soares Josefina Álvares de Azevedo 66 Hilda Hilst Narcisa Amália 67 Iracy Gentili Alcina Carolina Leite 68 Helena Parente Cunha Adelaide de Castro Alves 69 Zulmira Ribeiro Tavares Carmen Freire 70 Renata Pallottini Anna Autran 71 Olga Savary Alexandrina dos Santos 72 Lupe Cotrim Garaude Amélia Rodrigues 73 Maria José Giglio Francisca Clotilde 74 Marly Medalha Julia Lopes de Almeida 75 Adélia Prado Presciliana Duarte de Almeida 76 Ivete Tannus Júlia Cortines 77 Darcy Denófrio Francisca Julia 78 Astrid Cabral Maria Nazaré Prado 79 Marina Colasanti Auta de Souza 80 Myrian Fraga Eufrosina Miranda 81 Lélia Coelho Frota Colombina 82 Laura Esteves Cora Coralina 83 Marly de Oliveira Laura Brandão 84 Lenilde Freitas Gilka Machado 85 Maria Carpi Henriqueta Lisboa 86 Eunice Arruda Cecília Meireles 87 Stella Carr Adalgisa Nery 88 Helena Armond Lila Ripol 89POETAS Lucia 4 AS MULHERES NA Fonseca LITERATURA BRASILEIRA Helena Kolody 90 Neide Archanjo


091 092 093 094 095 096 097 098 099 100 101 102 103 104 105 106 107 108 109 110 111 112 113 114 115 116 117 118 119 121 122 123 124 125 126 127 128

Ana Neustein Marly Vasconcelos Mirian de Carvalho Rita Moreira Maria Lucia del Farra Maria da Conceição Paranhos Leila Ferraz Vera Casanova Solange Padilha Líria Porto. Anna Maria Fernandes Teruko Oda Reni Cardoso Hilma Ranauro Nilza Barude Dalila Teles Veras Lourdes Teodoro Alice Ruiz Lígia Sávio Vitória Lima Ceres Marylise Rebouças Deise Assumpção Conceição Evaristo Clevane Pessoa Aline de Mello Brandão Helena Ortiz Diva Cunha Flora Figueiredo Ilma Fontes Geni Guimarães Liana Timm Betty Vidigal Lu Menezes Jucara Valverde Maria Beatriz Farias de Souza Ana Maria Lopes Angela Leite de Souza

125 126 127 128 129 130 131 132 133 134 135 136 137 138 139 140 141 142 143 144 145 146 147 148 149 150 151 152 153 154 155 156 157 158 159 160 161

Augusta Faro Rizolete Fernandes Eulália Maria Radtke Graça Vilhena Berenice Sicas Lamas Tania Diniz Arriete Vilela Neuzza Pinheiro Zuleika dos Reis Tereza Tenório Xênia Antunes Cyana Lehay-Dios Claudia Alencar Ana Mottin Lucila Nogueira Marcia Barroca Maria Rita Kehl Elizabeth Hazim Marcia Maia Rita Moutinho Rosália Milszjatn Sonia Sales Angélica Torres Ana Cristina Cesar Beth Brait Alvim Bruna Lombardi Dagmar Braga Hilda Machado Sonia Pereira Angela Melim Silvia Jacinto Neuzamaria Kerner Teresa Vignoli Miriam Alves Ledusha Spinardi Lilian Gattaz Jandira Zanchi

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MARIA VALERIA REZENDE

É uma escritora santista que ingressou na literatura em 2001, com o livro Vasto Mundo. Conquistou vários prêmios: Jabuti, Livro do Ano, Prémio Casa de las Américas e Prêmio São Paulo de Literatura. Em 1965 entrou para a Congregação de Nossa Senhora - Cônegas de Santo Agostinho. Sempre se dedicou à educação popular, primeiro na periferia de São Paulo e, a partir de 1972, no Nordeste. Viveu no meio rural de Pernambuco e da Paraíba e, desde 1986, mora em João Pessoa. Já esteve em Angola, Cuba, França e Timor, entre outros países.

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Por que a poesia, por que as palavras? Eu não poderia nem me conceber como alguém sem as vozes que me invadiram desde antes d’eu nascer! Quanto mais vozes me chegam, mais ampla e funda me tornam. Preciso de todas elas. Até há pouco, as vozes das mulheres, cada uma única, mais da metade da humanidade, estavam silenciadas ou esquecidas. É urgente resgatá-las, proclamálas, para salvar nossa humanidade em perigo. Rubens Jardim percebeu o desafio e aqui nos traz uma primeira dose indispensável dessa poesia, no momento exato para que não pereçamos sufocados! Salve, Rubens Jardim! Salve, mulheres poetas! Salvem-nos! AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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Não faz muito tempo que elas deixaram a cozinha, os crochês e as costuras. Hoje elas são executivas, médicas, empresárias, políticas, professoras -- e até presidentes. Mas já faz tempo que elas ingressaram na literatura. Onde fizeram e fazem um excelente trabalho. Este e-book pretende divulgar o trabalho das nossas poetas. Antes, porém, leia este histórico.

Uma das últimas fotos de Virginia Woolf, escritora, ensaísta e editora britânica, conhecida como uma das mais proeminentes figuras do modernismo. Nasceu em 1882 em família abastada. Seu pai, Sir Leslie Stephen, era escritor e historiador ilustre da Inglaterra vitoriana.Virginia morreu em 1941. 8

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Na década de 1920, Virgínia Woolf afirmava que, para as mulheres produzirem sua poesia, precisavam de um quarto com chave e uma renda anual de quinhentas libras. Em verdade, enquanto os homens dispunham de uma estrutura adequada ao trabalho intelectual, para as mulheres restava o canto da mesa da cozinha depois de realizadas todas as tarefas. Um quarto com chave proporcionaria o sossego necessário à concentração, e a renda contribuiria com a independência financeira indispensável para a liberdade de pensamento e o exercício da criatividade. Como se vê, não é privilégio tupiniquim o esquecimento proposital da contribuição cultural da mulher, em vários campos do saber e das artes. No caso específico da literatura, a questão é mais séria ainda. Afinal, tanto Silvio Romero como José Veríssimo –famosos historiadores da nossa literatura no século 19-- registraram pouquíssimos nomes femininos. E na História Concisa da Literatura Brasileira –a mais usada no ensino atual— o prof. Alfredo Bosi só menciona quatro nomes de poetisas: Francisca Júlia, Gilka Machado, Auta de Sousa e Narcisa Amália. Mesmo assim, somente a AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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primeira mereceu biografia e algum destaque. Mas essa ausência, que passa uma ideia equivocada da influência feminina na cultura do país, vem sendo corrigida através de pesquisas, teses, livros, artigos e ensaios. Escritoras Brasileiras do Século XIX, organizado por Zaidhé Muzart, foi o pontapé inicial em direção a uma reavaliação desse nosso patrimônio literário e cultural.

Raquel de Queiroz tomando posse na ABL

Publicado em 2000, o livro, com cerca de 1000 páginas, revela nada menos que 52 autoras e mostra nomes que nunca ouvimos falar —resultado desse trabalho paciente de “revolver escombros e garimpar entulhos”, conforme texto introdutório da própria autora, Zaidhé Muzart É inquestionável o mérito desse trabalho --e de um sem número de outros que foram surgindo sobre as questões relativas à mulher. É crescente, sem duvida, a presença delas em todas as áreas das atividades humanas. Tivemos até uma presidente mulher. Quanto à literatura mais recente, não podemos nos queixar. Existem muitas escritoras mulheres e elas também se apresentam em dissertações, teses de doutorado, pesquisas apresentadas em congressos e outras publicações. Sem a pretensão de desenvolver uma avaliação desse panorama, utilizo este espaço para prestar 10

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uma homenagem às mulheres. Mais especificamente às mulheres escritoras. Ou mais especificamente ainda: às mulheres escritoras de poemas. Afinal, por incrível que pareça, existe uma nítida predominância em nossa literatura de escritoras que se dedicaram à prosa, notadamente ao romance. Caso de Rachel de Queiroz, por exemplo, a primeira mulher a ingressar, em 1977, no clube do bolinha que era a Academia Brasileira de Letras. Pouco depois, a ABL acolheu duas outras prosadoras consagradas: Dinah Silveira de Queiroz e Lygia Fagundes Telles. O incrédulo leitor poderá perguntar: e as nossas poetas, onde estão?

Lygia Fagundes Telles É curioso observar que mesmo em épocas mais retambém entrou na ABL centes as poetas continuavam sendo preteridas. Um exemplo é a inexistência de qualquer nome feminino vinculado à literatura na Semana de 22. Nem Cecília Meirelles, que já havia publicado Espectros, em 1919, teve aí a sua hora e a sua vez. Só para não ficar sem registro, relaciono aqui alguns nomes femininos. Alguns são desconhecidos até de especialistas, outros conquistaram alguma visibilidade. Mas todas essas escritoras desempenharam um papel que não se restringia às funções de esposa, mãe e dona de casa. Elas foram à luta e deixaram seu recado --para além do recato.

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UM POUCO DE LUZ NA LUTA DAS MULHERES Num dos artigos pioneiros no sentido de mapear as características da história da mulher no Brasil, escrito por Maria Beatriz Nizza da Silva, a autora afirma: “não temos acesso direto ao discurso feminino senão tardiamente no século XIX e, até então, temos de nos contentar em conhecer os desejos, vontades, queixas ou decisões das mulheres através da linguagem formal dos documentos ou petições, manejada pelos homens”. Debret, pintor e historiador que viveu 15 anos entre nós, já registrava que a educação das mulheres se restringia, até 1815, a recitar preces de cor e a calcular de memória, sem saber escrever nem fazer as operações. Somente o trabalho de agulha ocupava seus lazeres, pois

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os demais cuidados relativos ao lar eram entregues sempre às escravas. Só a partir de 1827, com a primeira legislação referente à educação feminina, é que as mulheres tiveram direitos assegurados à educação. Portanto, mesmo em meados do século XIX, a mulher ainda permanecia isolada do ambiente cultural. Talvez a marca mais evidente dessa condição de subordinação seja a do silêncio e a de uma ausência, notada tanto no cenário público da vida cultural literária, quanto no registro das histórias da nossa literatura. Na esperança de poder contribuir, modestamente, na reversão da nossa falta de conhecimento sobre a questão, resolvi abrir este espaço para divulgar alguns momentos significativos da história da literatura brasileira feita por mulheres. Já fizemos, em nosso site, postagens de tudo que se encontra neste livro, elencando autoras muito pouco conhecidas e divulgadas. E prosseguimos, agora, nessa mesma direção. Esclarecendo que minha atenção está voltada, exclusivamente, para poetas mulheres. Com vocês, as vozes femininas que quebraram barreiras e se fizeram ouvir.

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ANGELA DO AMARAL RANGEL (1725)

Carioca, deve ter sido a primeira poeta brasileira a ter seus versos publicados antes de 1822. Participou como membro da Academia dos Seletos, em 30 de janeiro de 1752, das comemorações em homenagem a Gomes Freire de Andrade, governador e capitão-general das capitanias do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Nesta ocasião, declamou os dois sonetos que lhe fizeram ser lembrada como poeta. Um simples menino de 12 anos que ali os escutava era José Basílio da Gama que, anos depois, já escritor, publicou o seu livro Uruguay que imortalizou Gomes Freire de Andrade.

MÁXIMAS CRISTÃS E POLÍTICAS Ilustre General, vossa Excelência Foi por tantas virtudes merecida, Que, sendo já de todos conhecida, Muito poucos lhe fazem competência: Se tudo obrais por alta inteligência, De Deus a graça tendes adquirida, Do Monarca um afeto sem medida, E do Povo uma humilde obediência: No Católico zelo, e na lealdade Tendes vossa esperança bem fundada; Que, na presente, e na futura idade, Há de ser a virtude premiada Na terra com feliz serenidade, E nos Céus com a glória eternizada. MÁXIMA PRIMEIRA Já retumba o clarim, que a Fama encerra Na vaga Região seu doce acento, De Gomes publicando o alto alento, Por não caber no âmbito da terra: Declara, que se está na dura guerra, Tudo acaba tão rápido, e violento, Que o mais forte Esquadrão, em um momento, Seus talentos vitais ali subterra. Vosso Nome será sempre exaltado, Que se voais nas asas da ventura, Vosso valor o tem assegurado; Porque nos diz a Fama clara, e pura Que outro Herói, como Vós, não tem achado Debaixo da Celeste Arquitetura.

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BÁRBARA HELIODORA (1758/1819)

Mineira de São João Del Rey, viveu com o poeta inconfidente Alvarenga Peixoto, teve cinco filhos e foi considerada heroína da Inconfidência Mineira. Sua produção literária é bastante reduzida e controvertida. Consta que muitos de seus manuscritos teriam sido apreendidos e destruídos pelos esbirros de D. Maria, a louca. Os poemas Conselhos a meus filhos e um soneto dedicado a filha Maria Ifigênia, são atribuídos a ela, mas nem todos os estudiosos são unânimes nisso. E a pesquisadora Eliane Vasconcellos destaca um aspecto curioso: tendo produzido tão pouco, existe uma imensa bibliografia sobre ela.

SONETO Amada filha, é já chegado o dia, em que a luz da razão, qual tocha acesa, vem conduzir a simples natureza: - é hoje que o teu mundo principia. A mão, que te gerou, teus passos guia; despreza ofertas de uma vá beleza, e sacrifica as honras e a riqueza às santas leis do Filho de Maria. Estampa na tua alma a Caridade, que amar a Deus, amar aos semelhantes, são eternos preceitos da Verdade. Tudo o mais são idéias delirantes; procura ser feliz na Eternidade, que o mundo são brevíssimos instantes.

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MARIA DOROTHÉIA JOAQUINA DE SEIXAS (1767/1851)

Mesmo sem publicar nenhum livro “ela é um capítulo da história literária do Brasil, pois está ligada a um dos livros supremos de nossa poesia, Marília de Dirceu”. Essa observação, de Múcio Leão e de outras figuras ilustres da nossa literatura , obrigou-me a abrir esse espaço de exceção. Afinal, essa Maria Dorothéia nascida na mineira Vila Rica e falecida lá mesmo em 1851, confunde-se com a figura feminina de Marília, celebrada pelo poeta.E essa Maria/Marília foi imortalizada por ter sido a musa inspiradora de Tomás Antônio Gonzaga no conhecidíssimo poema Marília de Dirceu. O excerto ao lado é do poeta árcade.

LIRA I Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, que viva de guardar alheio gado, de tosco trato, de expressões grosseiro, dos frios gelos e dos sóis queimado. Tenho próprio casal e nele assisto; dá-me vinho, legume, fruta, azeite; das brancas ovelhinhas tiro o leite, e mais as finas lãs, de que me visto. Graças, Marília bela. graças à minha Estrela! Eu vi o meu semblante numa fonte: dos anos inda não está cortado; os Pastores que habitam este monte respeitam o poder do meu cajado. Com tal destreza toco a sanfoninha, que inveja até me tem o próprio Alceste: ao som dela concerto a voz celeste nem canto letra, que não seja minha. Graças, Marília bela. graças à minha Estrela! Mas tendo tantos dotes da ventura, só apreço lhes dou, gentil Pastora, depois que o teu afeto me segura que queres do que tenho ser senhora. É bom, minha Marília, é bom ser dono de um rebanho, que cubra monte e prado; porém, gentil Pastora, o teu agrado vale mais que um rebanho e mais que um trono. Graças, Marília bela. graças à minha Estrela! (...)

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ILDEFONSA LAURA CÉSAR (1774/1873)

Poeta baiana, estudou literatura, filosofia e línguas. Exerceu o magistério e é considerada a primeira escritora baiana a publicar sua produção poética em livro e talvez a primeira escritora brasileira a introduzir tonalidade erótica em poesia. Chocou seus contemporâneos por causa de sua ligação fora da lei com um estudante de medicina. Corajosa, enfrentou preconceitos e colocou em versos a sua paixão e a falta de liberdade para amar. Publicou Ensaios Poéticos (1844) e Lição a Meus Filhos (1854) No soneto publicado ao lado, ela faz uma releitura de Camões ao retratar um dos feminicídios mais caros à história da Bahia: o assassinato de Julia Fetal pelo noivo em 21/04/1847.

À lamentável morte de D. Júlia Fetal Estavas bela Júlia, descansada Na flor da juventude e formosura, Desfrutando as carícias e ternura Da mãe que por ti era idolatrada A dita de por todos ser amada Gozavas sem prever tua alma pura Que por mesquinho fado à sepultura Brevemente serias transportada... Eis que de fero algoz a destra forte Dispara sobre ti Júlia querida, O fatal tiro que te deu a morte! Dos olhos foi-te a luz amortecida E do rosto apagou-se, iníqua sorte, A branca, viva cor, com a doce vida ........................................................................ Quanto invejo da pastora O viver simples e bom! Mas a mim negou o fado, Não quis tivesse esse dom. ............................................................... Cantando à borda do rio, Que banha alegre mourada, Seus projetos executa Sem que seja censurada. Isenta de austeras leis, Pensa, ri, brinca se quer. Ignorando rigorismos É feliz onde estiver.

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BEATRIZ BRANDÃO

(1779/1868)

Mineira, de aristocrática família de Vila Rica, foi poetisa, educadora, musicista e tradutora. Escreveu cerca de quinhentas páginas de poesia que são, ainda hoje, pouco conhecidas, embora tenha participado intensamente da vida social, cultural e política do Brasil. Organizou recepção a D. Pedro I , no Teatro Municipal de Vila Rica, ocasião em que um coral de moças entoou o Hino do Fico, uma composição de sua autoria. ‘Já podeis da Pátria, ó filhos,/Ver contente a mãe querida!/Já raiou a liberdade/ No horizonte do Brasil’. Fundou a primeira escola de moças da cidade, regeu o coral da Igreja Matriz do Pilar e era prima de Maria Dorotéia, a célebre Marília de Dirceu

SONETO Que tens, meu coração? Porque ansioso Te sinto palpitar continuamente? Ora te abrasas em desejo ardente, Outra hora gelas triste e duvidoso? Uma vez te abalanças valeroso A suportar da ausência o mal veemente; Mas logo esmorecido, descontente, Abandonas o passo perigoso? Meu terno coração, ela, resiste, Não desmaies, não tremas; pode um dia Inda o Fado mudar o tempo triste. Suporta da saudade a tirania, Que ainda verás feliz, como já viste, Raiar a linda face da alegria. SONETO Voa, suspiro meu, vai diligente, Busca os Lares ditosos onde mora O terno objeto, que minha alma adora, Por quem tanta aflição meu peito sente. Ao meu bem te avizinha docemente; Não perturbes seu sono: nesta hora, Em que a Amante fiel saudosa chora, Durma talvez pacífico e contente. Com os ares, que respira, te mistura; Seu coração penetra; nele inspira Sonhos de amor, imagens de ternura. Apresenta-lhe a Amante, que delira; Em seu cândido peito amor procura; Vê se também por mim terno suspira. 18

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MARIA JOSEFA BARRETO (1786/1837)

Gaúcha de Viamão – foi, apesar de politicamente conservadora e anti-farroupilha, uma feminista avant la lettre: professora, abriu uma escola primária mista em Porto Alegre, algo incomum naquela época. É considerada a primeira jornalista brasileira.*Fundou e editou o jornal Bellona em 1833, em Porto Alegre. Poeta e repentista, escreveu muitos elogios dramáticos e vários poemas de nuance árcade.Fazia saraus literários e reunia em sua casa a sociedade mais culta da época.

*Essa afirmação é do jornalista Roberto Rossi Jung, após pesquisar jornais antigos e escrever o livro “A gaúcha Maria Josefa, primeira jornalista brasileira”

AOS 55 ANOS DO SENHOR D. JOÃO VI Lá onde o Tejo undoso ufano pisa, Dos brilhantes lauréis já despojada, De fúnebre cipreste a fronte ornada, Lísia envolvida em pranto se divisa. Na saudade cruel que a penaliza, Invejosa suspira, consternada, Quando América assaz afortunada A glória de João imortaliza. No seu erguido trono brasileiro, Fundador de uma nova monarquia, Qual de Ourique Afonso, Rei primeiro, Ditando sábias leis, já neste dia De onde lustros o giro vê inteiro O grande filho da imortal Maria.

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DELFINA DA CUNHA (1791/1857)

Gaúcha de S. José do Norte, monarquista e autodidata, contraiu varíola e antes de completar 2 anos de idade ficou cega. Já escrevia aos 12 anos, primando pela métrica em seus poemas. Não gostava dos liberais farroupilhas e acabou metendo o pau em Bento Gonçalves. “Maldição te seja dada / Bento infeliz desvairado / No Brasil e em toda a parte/ Seja teu nome odiado”. Devido à Revolução Farroupilha (1835-1845), exilou-se no Rio de Janeiro, retornando apenas uma vez ao Rio Grande do Sul. Após a morte do pai, escreveu um soneto-apelo ao imperador, conseguindo obter uma pensão vitalícia de D. Pedro I, em reconhecimento aos serviços militares prestados por seu pai.

SONETO Em versos não cadentes, oh leitores, Vereis os males meus, vereis meus danos: Da primavera as galas e os verdores Não brilharam p’ra os meus primeiros anos. Mesmo n’infância exp’rimentei rigores De meus fados crueis sempre inumanos, Que só me destinaram dissabores, Mil males revolvendo em seus arcanos. Sem auxílio da luz, que o sol envia, Versos dignos de vos tecer não posso; Desculpai minha ousada fantasia. Com estes cantos meus, mortais,adoço A mágoa que o meu estro só resfria: Se mérito lhe dais, é todo vosso. SONETO Vinte vezes a lua prateada Inteira o rosto seu mostrado havia, Quando um terrível mal, que então sofria, Me tornou para sempre desgraçada. De ver o céu e o sol sendo privada, Cresceu a par comigo a mágoa ímpia; Desde a infância a mortal melancolia Se viu em meu semblante debuxada. Sensível coração deu-me a natura, E a fortuna, cruel sempre comigo, Me negou toda a sorte de ventura ; Nem sequer um prazer breve consigo: Só para terminar minha amargura Me aguarda o triste, sepulcral jazigo.

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NÍSIA FLORESTA

(1810/1885)

É considerada uma pioneira do feminismo e escreveu cerca de 15 títulos dentre poemas, romances, novelas e ensaios. Em 1848, passou a residir em Paris, comunicando-se com Victor Hugo, Saint-Hilaire, Lamartine, George-Sand e correspondendo-se com Augusto Comte, Manzzini, Garibaldi e outros notáveis da época. Nísia também dirigiu um colégio para moças no Rio de Janeiro e escreveu livros em defesa dos direitos das muheres, dos índios e dos escravos. Escrita em fevereiro de 1849, a obra A lágrima de um caeté traz um interessante retrato da Revolução Praieira (1848-1850), última das rebeliões provinciais de caráter separatista que abalaram o Segundo Reinado.

A LÁGRIMA DE UM CAETÉ (Fragmentos) Era um homem sem máscara, enriquecido não do ouro roubado aos iguais seus, nem de míseros africanos d’além-mar, às plagas brasileiras arrastados por sedenta ambição, por crime atroz! Nem de empregos que impudentes vendem, a honra traficando! o mesmo amor!! Mas uma alma, de vícios não manchada, enriquecida tinha das virtudes que valem muito mais que esses tesouros. Era da natureza o filho altivo, tão simples como ela, nela achando toda a sua riqueza, o seu bem todo... O bravo, o destemido, o grão selvagem, o Brasileiro era... - era um Caeté! era um Caeté, que vagava na terra que Deus lhe deu, onde Pátria, esposa e filhos ele embalde defendeu!... (...) Não chores, ó Caeté, o amigo teu: Que caiu, não morreu, porque o bravo Constante defensor da pátria sua, Para a pátria não morre. (...) O bravo selvagem atônito ficou... - Quem és; lhe pergunta, infernal deidade? - Uma tal visão de inferno não sou: Sou cá deste mundo, a realidade. (...) Volta às selvas tuas, vai lá procurar Alguns desses bens, que aqui te hão tirado: Não creias, ó mísero, jamais encontrar A paz, a ventura que aqui tens gozado. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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MARIA FIRMINA DOS REIS (1822/1917)

Negra, nordestina, pobre, bastarda e mulher. Tudo isso em um Brasil escravocrata no século XIX. Ainda assim, Maria Firmina dos Reis se estabeleceu como uma das escritoras mais admiráveis da nossa literatura. Dedicou-se ao magistério e participou ativamente na imprensa local, publicando poesias, crônicas e contos. Em 1859, aos 34 anos, publica o romance Úrsula, considerado como o primeiro romance abolicionista brasileiro. Em 1871, publicou a coletânea de poesias Cantos à beira-mar. É autora do Hino de Libertação dos Escravos (1888)

CONFISSÃO Embalde, te juro, quisera fugir-te, Negar-te os extremos de ardente paixão: Embalde, quisera dizer-te: - não sinto Prender-me à existência profunda afeição. Embalde! é loucura. Se penso um momento, Se juro ofendida meus ferros quebrar: Rebelde meu peito, mais ama querer-te, Meu peito mais ama de amor delirar. E as longas vigílias, - e os negros fantasmas, Que os sonhos povoam, se intento dormir, Se ameigam aos encantos, que tu me despertas, Se posso a teu lado venturas fruir. E as dores no peito dormentes se acalmam. E eu julgo teu riso credor de um favor: E eu sinto minh’alma de novo exaltar-se, Rendida aos sublimes mistérios do amor. Não digas, é crime - que amar-te não sei, Que fria te nego meus doces extremos... Eu amo adorar-te melhor do que a vida, melhor que a existência que tanto queremos. Deixara eu de amar-te, quisera um momento, Que a vida eu deixara também de gozar! Delírio, ou loucura - sou cega em querer-te, Sou louca... perdida, só sei te adorar.

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ADÉLIA FONSECA

(1827/1920)

Poeta soteropolitana foi presença destacada no meio cultural de seu tempo.Foi alvo de elogios de Gonçalves Dias, Machado de Assis e outras personalidades.Pertencia a família de intelectuais e recebeu desde menina esmerada educação. Distinguiu-se em saraus e tertúlias poéticas.Em 1870, muda-se para o Rio de janeiro, acompanhando o marido. Mais adiante torna-se sogra do historiador Capistrano de Abreu. Publicou o livro de poemas Ecos da Minha Alma(1852)e divulgou seus trabalhos poéticos na imprensa da época.

Ninguém nas asas da mais leve aragem, A ti enviou lembranças tao saudosas; Ninguém horas passou tão deleitosas De amor te ouvindo a férvida linguagem; Ninguém de tua vida na passagem Semou, sem espinhos, tantas rosas; Ninguém te diz palavras tão mimosas, Contra o peito estreitanrto tua imagem; Ninguém de alma te deu tão lindas flores, nem tanto desejou como eu desejo, Delas, tão puras, conservar as cores; Ninguém sabe beijar como eu te beijo; Ninguém assim por ti morre de amores; Ninguém sabe te ver como te vejo Neste poema ,dedicado ao visconde da Pedra Branca,Adelia faz denúncia: Que preconceito tirano m‘impede De voar pressurosa a teus lares? De poder, na ventura de ouvir-te, Extinguir da saudade os pesares? .............................................. Com tuas sábias palavras Vem m‘ensinar a esquecer Este mundo de mentiras, Em que forçam-me a viver. Ele, como tu sabes, Tem costumes sociais, Que nos privam de fazermos O que desejamos mais. .................................... Vem ensinar-me a esquecer D‘estes usos sociais, Que, sem razão nos proíbem O que desejamos mais. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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EUGÊNIA CÂMARA

(1837/1874)

Atriz, poeta, dramaturga e tradutora nascida em Portugal, veio ao Brasil para uma turnê em 1859 e acabou morando no Rio de Janeiro, cidade onde veio a falecer.Sua estréia ocorreu no Ginásio Dramático, a mais famosa casa de espetáculos da época. Anos depois, em 1863, apresentou-se em Recife, no Teatro Santa Isabel. É ali que o poeta Castro Alves, ainda adolescente fica apaixonado pela atriz e vão viver juntos num bairro dessa cidade. A relação causa escândalo por ser o poeta 10 anos mais jovem, e pelo fato da atriz ter uma filha.Publicou Esboços Poéticos (1859) e Segredos D’Alma.

SE EU FORA Se eu fora das auras a aura mais branda Quisera teus sonhos poder embalar; Se eu fora do sol um disco luzente Teus olhos tão meigos viera dourar. Se eu fora das aves a ave mais terna, Pousada em teu ombro, quisera cantar; Se eu fora dos prados gazela donosa Viera a teus pés o meu colo rojar. Se eu fora da fonte a límpida água, Na sede que sentes viria brotar; Se eu fora uma estrela, das mil que o céu tem, Teus passos noturnos quisera guiar. Se eu fora das vagas, a vaga mais mansa Quisera gemendo teus pés ir beijar; Se eu fora das selvas sanhudo leão, Iria ao teu jugo a fronte curvar. Se eu fora dos cantos, o canto mais doce, Meus sons de contínuo te havia vibrar, Se eu fora donzela, meu pomo vedado Em sonhos d’amor te iria doar!... Porém não sou aura, nem disco luzente, Das aves mais ternas só ouço o trinar! Que existem gazelas apenas o sei; Da água me sirvo p’r’a sede matar. Estrelas luzentes, se as canto é de longe... A vaga que ruge só posso adorar; Leões? Tenho medo lembrar-me que os há; Quisera não vê-los nem mesmo a sonhar. Agora dos cantos – oferto-te este! Saudoso...singelo...d’amor inspirado! Aceita meu canto: se virgem não é...Há tanta donzela sem pomo vedado!..

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JÚLIA DA COSTA

(1844/1911)

Poeta paranaense, usou o pseudônimo literário de Americana. Foi novelista e eximia pianista. Colaborou regularmente em jornais e revistas com poesia, divulgações líricas em prosa e novelas-em-folhetim. Publicações: Flores Dispersas (1867) Bouquet de Violetas(1868) e Flores Dispersas (publ. post.1913).

A NOITE Brilha o céu, mas em vão soluça e brada A terra ansiosa, com pueril receio! É densa a treva; nessa paz calada Funda tristeza nos oprime o seio! Tudo fenece, embaixo da orvalhada Repousa o campo de perfumes cheio! Negro é o mar, a floresta sossegada, Dormem as aves da espessura em meio! Embalde a noite traiçoeira e linda Enche de encanto os bosques e os atalhos, E, enquanto de fulgor o espaço alinda Seu manto enfeita de gentis orvalhos: Mentem os ermos na amplidão infinda! Mentem as flores a tremer nos galhos!

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JOSEPHINA ÁLVARES DE AZEVEDO (1851/?)

Poeta pernambucana, foi jornalista, escritora, professora, biógrafa e dramaturga.Irmã do poeta romântico Álvares de Azevedo por parte de pai, é considerada uma das precursoras do movimento feministya no Brasil. nista Fundou o periódico paulista A Família (1888) voltado à publicação de autoras e à educação das mulheres brasileiras. A partir da Proclamação da República (1889) passa a revindicar o direito feminino ao voto, considerando-o conquista fundamental. Fontes divergem na questão de nascimento, local e data. O certo , porém, é que viveu no Rio e em São Paulo.

FÉ Ao rugido medonho da tormenta Que a alma nos esmaga, nos trucida, Não pensem que maldigo a triste vida Nem o sopro de Deus que ora me alenta Nem um momento só sou esquecida De quem criou o mundo e aviventa A flor do prado, a fera mais cruenta, A tudo, enfim, que tem ou não tem vida É doce nas agruras da existência Lembrarmos a divina onipotência, Erguermos para o céu o coração! Naquele terno enlevo de fé pura É sempre mui feliz a criatura Que forças vai buscar no coração.

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NARCISA AMÁLIA

(1852/1924)

Nasceu em São João da Barra, Rio, foi poeta e também é consideradaa uma das primeiras jornalistas profissionais do Brasil. Combateu a opressão da mulher, a escravidão e possuía fina sensibilidade social. Teve grande sucesso de crítica e de público e é das raras escritoras do passado a ser mencionada em histórias da literatura brasileira. Sílvio Romero e Machado de Assis estão entre os que louvaram seu talento.Publicou apenas um livro de poemas: Nebulosas (1872) que alcançaampla repercussão. Com ele despertou a atenção até do Imperador D. Pedro que quis conhecê-la. Em 1874 declamou para ele estrofes do livro.

POR QUE SOU FORTE Dirás que é falso. Não. É certo. Desço Ao fundo d’alma toda vez que hesito... Cada vez que uma lágrima ou que um grito Trai-me a angústia - ao sentir que desfaleço... E toda assombro, toda amor, confesso, O limiar desse país bendito Cruzo: - aguardam-me as festas do infinito! O horror da vida, deslumbrada, esqueço! É que há dentro vales, céus, alturas, Que o olhar do mundo não macula, a terna Lua, flores, queridas criaturas, E soa em cada moita, em cada gruta, A sinfonia da paixão eterna!... - E eis-me de novo forte para a luta. O LAGO Calmo, fundo, translúcido, amplo, o lago longe, trêmulo, trêmulo, morria. No seu límpido espelho a ramaria, curva, de um bosque punha sombra e afago. Terra e céu, ondulando, eram na fria tela fundidos! O queixume vago que a água modula, de ambos parecia, solto, ululante, intérmino, pressago! - “Trecho vulgar de sítio abstruso e agreste” talvez; mas todo o encanto que o reveste sentisses; contemplasses-lhe a beleza; comigo ouvisses-lhe a mudez, que fala, e sorverias no frescor que o embala todo o alento vital da Natureza!

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ALCINA CAROLINA LEITE (1854/1939)

Poeta alagoana, dedicou-se ao magistério em verdadeiro apostolado. Seu pendor para as letras aparece muito cedo, e ainda adolescente começa lecionar pelo interior de Alagoas. Também desde a adolescência escrevia e declamava poesia. Só publicou um livro de poemas, Campesinas, em 1889, com prefácio do poeta Martins Junior.

MEU ANJO ENGANADOR Meu anjo inspirador aos lábios nega Os mimosos sorrisos da ventura, Densa núvem a fronte lhe carrega Da pesada tristura! Meu anjo inspirador é macilento Como um raio de luz crepuscular; Tem um mundo de dor c sentimento No seu lânguido olhar. O puríssimo seio não lhe cobre Um manto rutilante de esplendor, Mas lhe brilham gentis na face nobre As pérolas do amor. Meu anjo inspirador não se espaneja Aos vívidos clarões do rei do dia, — Profundo cismador — mas livre adeja Na escuridão sombria. Não lhe vibra a voz o raio ardente Da eloquência que os ânimos seduz; Co’o flébil sôpro a viração plangente Suas falas traduz. Meu anjo inspirador não se enfeitiça Dos perfumes das rosas matutinas; — Êle quer mais à palidez mortiça Do lírio que declina. Meu anjo inspirador é grande, imenso, Como um abismo de amor e de amizade! Vive no meu coração — profundo, intenso, E chama-se — Saudade!...

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ADELAIDE DE CASTRO ALVES GUIMARÃES (1854/1940)

Baiana, foi poeta. musicista, pintora, desenhista e irmã do famoso poeta dos escravos: Castro Alves. Casada com o jornalista e político baiano Augusto Álvares Guimarães, teve uma filha, também poeta, Glória de Castro Alves Guimarães. Permaneceu inédita até recentemente, quando aos 79 anos teve seus poemas publicados no livro O Imortal, (1933), por iniciativa de sua filha. Em 1954, em comemoração ao centenário de seu nascimento, a filha reuniu seus poemas esparsos e publicou o livro Arpejos em Surdina.Atribuiu-se a ela o cultivo da memória, a conservação do acervo e dos manuscritos inéditos do poeta libertário, Castro Alves, seu irmão.

SONETO Ouvindo, ao piano, Luisa Leonardo

Deslizam... voam... céleres se enlaçam enlevos santos, ideais floridos... Loiros sonhos de anseios revestidos entre quimeras fulgidas esvoaçam... Negros tormentos desvairados passam... desalentos cruéis, encantos idos, fanadas ilusões, gozos perdidos, claros escuros pelos ares traçam... E de onde da alma humana transportadas estas miragens vêm?... De inanimadas rígidas fibras — cordas de um piano, que palpitam sutis, falam, imploram, se inflamam, vibram, delirantes choram das mãos da Artista ao toque soberano!... AMOR É UM CARPINTEIRO Amor é um carpinteiro Que ri com ar de matreiro, Cerrando forte e ligeiro Na tenda do coração... Com toda a proficiência Põe pregos de resistência, Ferrolhos na consciência, Tranca as portas da razão

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CARMEN FREIRE

(1855/1891)

Poeta carioca nascida em família de poucos recursos, acabou casando muito jovem, (tinha apenas 13 anos) com o latifundiário e senador Barão Flávio Clementino da Silva Freire.Tornou-se grande anfitriã e notabilizou-se pelas famosas tertúlias poéticas, realizadas em seu palacete que era frequentado por nomes de destaque das nossas letras:Olavo Bilac, Guimarães Passos, Coelho Neto, Aluisio Azevedo e outros. Seus poemas só são publicados após a sua morte, em 1897, por iniciativa de amigos e admiradores.O título Visões e Sombras já insinua a ruína da família após a Abolição e a Proclamação da República.

A LÁGRIMA Nascida na ternura ou na tristeza, Límpida gota dos orvalhos da alma, Tu, lágrima saudosa, muda e calma, Que força enorme tens nessa fraqueza? Possuis mais que o poder da realeza, Quando és filha da dor que o pranto acalma, E, qual gota de orvalho em verde palma, À pálpebra chorosa ficas presa! Estrela da saudade, flor de neve, Que o vento da tristeza faz brotar, Amo o teu brilho nessa luz tão breve Do breve globo teu… imenso mar Cujos fundos arcanos não se atreve Nem se atreveu ninguém jamais sondar! NO DESERTO Esperar?... para quê? Com o sol expira A esperança que tínhamos no dia, E é tão longa, tão lôbrega, tão fria A noite em que a alma incrédula suspira! O desengano toda a fé retira Dos corações, enchendo-os de agonia... Bendito aquele que inda se alumia Da crença a doce e perfumada pira. Passam-se os dias, para o céu levanto Os olhos cheias da maior tristeza E as minhas preces úmidas de pranto Mas a voz do infeliz tem tais raízes Que, dentro da garganta fica presa, E Deus escuta apenas os felizes.

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ANNA AUTRAN

(1856/1933)

Poeta baiana, nascida em Salvador, ficou órfã de mãe quando tinha 1 ano.Muito jovem já demonstrava vocação para a poesia e para o jornalismo. Com 12 anos já pubicava poemas em jornais da época. Com 15 anos divulgou artigo A Mulher e a Literatura, defendendo a participação da mulher na esfera pública. Em 1877 publicou Devaneios, coletânea de seus poemas.Lutou pela República e pela abolição da escravidão. Antes mesmo de 1888 a poeta já havia alforriado os escravos da família. Por causa dessas ideias, avançadas para a época, se transferiu para o Rio de Janeiro.

15 DE NOVEMBRO Da Lusitânia escravo e vil sujeito, O Ipiranga solta o grande grito De independência ou morte e em novo rito O nosso jugo em parte foi desfeito! Mas inda irmãos sofriam todo o efeito Do cativeiro vil e mais aflito Todo esse bando incrédulo, proscrito Via calcado aos pés o seu direito, Quando em ondas de luz banha-se o povo... Desprende a liberdade um canto novo E sabia-se um troféu da humanidade! Prendia a realeza a última parte, Que a derrubando após, hoje reparte Por todo o solo os dons da liberdade!. .......................................................................................... Quem perder fez-me a alegria? Foram sonhos de uma hora, Foram pesares de um dia! .......................................................................................... Quem murchou-me as vivas cores? Foram desgostos talvez .......................................................................................... Quem debuxou-me as olheiras? Um sentimento e martírio!... .......................................................................................... Quem me roubou meus sorrisos? Foram suspiros e ais!... .......................................................................................... (trechos de O canto da virgem a transformação de um “estado d’alma” em outro, como talvez dissessem os românticos, é o motivo do pesar enunciado em primeira pessoa) AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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ALEXANDRINA DOS SANTOS (1859/1934)

Poeta carioca, nasceu em Campos e faleceu em Campinas. Pelo testemunho de alguns historiadores foi jornalista e poeta festejada em círculos restritos.Não publicou nenhum livro, mas apenas um caderno manuscrito herdado por seu sobrinho-neto, o escritor Guilherme de Figueiredo, que a considera a primeira poeta satírica e escatológica brasileira. Esse caderno tem mais de 250 páginas e reúne 72 poemas de sua lavra e de poetas românticos como Victor Hugo, Lamartine, Casimiro de Abreu e outros.

A UM APAIXONADO Stás a falar na morte a cada passo! Eu não sei por que a queres já, tão cedo! Repara que morrer é grande maço... Que a morte não coisa de brinquedo. Ai! De te ver tão preso tenho medo... Bem pode acontecer qualquer fracasso! Tu podes te soltar, eu to concedo, Mas sem quebrar do amor o doce laço. Bem sabes que na vida o meu norte Esse tiveres morte prematura, Talvez esse desgoste eu não suporte; Pois eu receio tanto essa tortura, Que acontece a lembrança da morte Postou-me no urinol... a cobrar soltura.

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AMÉLIA RODRIGUES (1861/1926)

Poeta baiana, romancista, professora,conferencista, teatróloga nasceu em Arraial daLapa (hoje município Amélia Rodrigues) e faleceu em Salvador.Como escritora imiciou-se muito jovem, colaborando na imprensa baiana, com grande êxito público. O primeiro poema de que se tem notícia é “Ser pobre” publicado em O Monitor, em 1879. Sua colaboração em jornal na década seguinte se amplia, pois,em 1882, experimenta outro gênero, a ficção, escrevendo um folhetim, O mameluco.Nas comemorações do seu centenário de nascimento, Amélia foi aclamada como a Gabreila Mistral brasileira.

JOANA ANGÉLICA Às crianças baianas Crianças! Aprendei de nossa História Um fato mais: tragédia desumana E vil, porém que cinge de honra e glória A fronte pura da mulher baiana. Vou resumi-lo para vós. Um dia, (Ao rebentar da Independência a luta) Pela cidade ouviu-se a correria Da soldadesca lusa, infrene e bruta. Queria sangue e oiro. Indescritível Era o seu ódio, o seu desbragamento Fere, mata… e depois, ímpia, terrível, Assalta e quebra as portas de um convento, O convento da Lapa, ninho santo, Onde viviam dignas brasileiras Como pombas de Deus, no doce encanto Da fé cristã. As inocentes freiras Desmaiam de terror. Caíra morto O velho capelão, p’ra defendê-las… Nessa hora de pranto e desconforto Meu Deus! Meu Deus! O que seria delas? Madre Joana Angélica, a abadessa, Assoma à porta, que o machado abrira, E exclama, erguendo a virginal cabeça, E o braço firme, numa santa ira: “Ímpios!… para traz!… respeitai a morada Das servas do senhor!…” no mesmo instante, Tomba morta, de golpes traspassada… E a canalha cruel passa adiante, Pisando o nobre coração sem vida E a fronte branca, a resplender virtude, Da heroica mártir. Ó Pátria querida, Não a esqueças jamais!… Ó juventude, Recordai sempre o seu brilhante exemplo De pureza e coragem varonil! AS MULHERES POETAS NA Sacrificai-vos defendendo o LITERATURA templo, BRASILEIRA O lar, a honra, o nome do Brasil!

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FRANCISCA CLOTILDE (1862/1932)

Poeta cearense, nasceu em Tauá mas viveu grande parte de sua existência em Fortaleza.Ao lado de Emília de Freitas e Ana Facó, Franscica Clotilde representa o pioneirismo feminino na literatura cearense. Mulher de cultura e personalidade dinâmica, colaborou ativamente na imprensa, participando das discussões e das ideias da época.Foi a primeira mulher cearense a lecionar na antiga Escola Normal do Ceará (1882).Fundou e dirigiu o Externato Santa Clotilde que, contrariando os costumes da época, era destinado a ambos os sexos.Fundou a revista Estrela onde publicou muitos poemas e peças de teatro, destinadas as apresentações nos saraus familiares.

A ÁRVORE Ao contemplá-la, triste, emurchecida, Os galhos nus de folhas despojados, Sem a seiva que outrora tanta vida Lhe trazia em renovos delicados; Ao vê-la assim tão só, tão esquecida, Tendo gozado dias tão folgados, Ao som dos passarinhos namorados, Que nela achavam sombra apetecida: Ai! Sem querer encontro semelhanças Entre meus sonhos, minhas esperanças E a mirrada árvore dolente. Ela perdeu as folhas verdejantes, Bem como eu as ilusões fragrantes Que outrora me embalavam docemente À Memória da Virtuosa Irmã Margarida Bazet Seus lábios não provaram neste mundo A taça do prazer que nos seduz, Desprezou a grandeza... Uniu-se à cruz, Aos que sofrem votou amor profundo. Guiou-me a infância, terna e desvelada No caminho do bem, tinha carinhos Para os prantos dos tristes orfãozinhos, Era tão boa, meiga e dedicada! Descansa em paz, Oh! doce criatura, O mundo não podia a formosura De tua alma de santa compreender; Ele que é não, inconseqüente e rude Eleva o vicio e abate a sã virtude! Só entre os anjos poderás viver....

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JULIA LOPES DE ALMEIDA (1862/1934)

Escritora carioca, distinguiu-se como romancista, cronista, teatróloga e abolicionista. Iniciou seu trabalho na imprensa aos 19 anos, em A Gazeta de Campinas, numa época em que a participação da mulher na vida intelectual era rara e incomum. Três anos depois, em 1884, começou a escrever também para o jornal carioca O País, numa colaboração que durou mais de três décadas. Seu romance A Falência é considerado por muitos como sua obra mais importante.Fez parte do grupo que fundou a Academia Brasileira de Letras, mas por ser mulher, foi impedida de ingressar na instituição. A primeira mulher a furar esse bloqueio foi Raquel de Queiroz, em 1977.

A LARANJEIRA Perfumada laranjeira, Linda assim dessa maneira, Sorrindo à luz do arrebol, Toda em flores, branca toda – Parece a noiva do Sol Preparada para a boda. E esposa do Sol, que a adora, Com que cuidados divinos Curva ela os ramos, agora! E entre as folhas abrigados, Seus filhos, frutos dourados, Parecem sois pequeninos.

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PRESCILIANA DUARTE DE ALMEIDA (1867/1944)

Poeta mineira, nasceu em Pouso Alegre e morreu em São Paulo, onde tornou-se figura de destaque no meio cultural.Prima de Julia Lopes de Almeida e de Adelina Lopes Vieira participou do movimento pedagógico renovador que se iniciava no Brasil.Fundou e criou revistas feministas, literárias e estudantis, e participou , juntamente com o marido, para a fundação da Academia Paulista de Letras. Foi eleita membro-fundadora, cadeira número 8, e escolheu como patrona sua bisavó , Bárbara Heliodora. Publicou Rumorejos (1890), Sombras (1906) entre outros.

VALSANDO A quanto tempo só comtigo valso, Feiticeiro parzinho enamorado! Não tens o brilho de um sorriso falso: Paz, innocencia, amor. . . tudo a teu lado ! Valso comtigo e ao mesmo tempo canto. Sou a musica e o par, ès o perfumei Incomparável e festivo encanto Desse baile que tem o teu olhar por lume! E refulgem teus olhos satisfeitos A cada giro do valsar antigo... Sei que não sabes ver os meus defeitos. Neste baile ningüem competirá comniigo! E assim a qualquer hora ou da noite ou do dia Tem o mesmo fulgor a tua figurinha! A h ! eomtigo a valsar, minh’ alma se inebria: Como que alegre vôa e para o céu caminha!

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JÚLIA CORTINES

(1868/1948)

Poeta carioca, nasceu em Rio Bonito, Rio deJaneiro.De família culta e abastada, iniciou estudos de línguas e literatura ainda na infância, revelando grande talento para a criação literária. Fez várias viagens à Europa eescreveu no jornal O País. Publicou a coletânea de poemas Versos, 1894, exatamente um ano após o aparecimento da poesia simbolista de Cruz e Souza.Em 1905 sai o segundo livro Vibrações.

ALMA SOLITÁRIA O que sentias era o que ninguém sentia: – O ódio, o amor, a saudade, a revolta tremenda. Não há ninguém que te ame e te console e entenda. Ninguém compartilhou tua funda agonia. A alma que possuir acreditaste, um dia, Indiferente, vai a trilhar outra senda. Do infinito deserto ergueste a tua tenda Em meio à solidão da paisagem vazia... E ora num voo audaz, ora num voo incerto, Entre o fogo do céu e a areia do deserto, A asa da aspiração finalmente cansou... Mas a tua ansiedade e a tua angústia acalma. – Sobre o abismo cavado entre as almas, ó alma, Ninguém, para transpô-lo, uma ponte lançou. POR TODA PARTE Interrogaste a vida: interrogaste o arcano, Misterioso sentir do coração humano; A mesta palidez serena do luar; O murmúrio plangente e soturno do mar; O réptil, que rasteja; o pássaro, que voa; A fera, cujo berro as solidões atroa; A desenfreada fúria insana do tufão; A planta a se estorcer numa atroz convulsão. Interrogaste, enfim, tudo o que existe, tudo: O que chora, o que vibra, o que é imoto, o que é mudo. Do astro eterno baixaste à transitória flor. Que encontraste, afinal? – A dor! a dor! a dor!

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FRANCISCA JÚLIA

(1871/1920)

Paulista, sua estreia literária deu-se em 1891, nas páginas do jornal O Estado de São Paulo. A poeta publicou 4 livros. O primeiro, Mármores (1895) foi prefaciado por João Ribeiro e fez sucesso com sonetos muito bem trabalhados, recebendo críticas consagradoras de Olavo Bilac e Araripe Júnior. Alguns críticos chegaram a apontá-la como a maior poetisa da língua portuguesa. Seus últimos trabalhos já mostram uma certa dicção simbolista. Sobre seu túmulo está a estátua da Musa Impassível, de Victor Brecheret, em homenagem a um de seus poemas mais famosos.

MUSA IMPASSÍVEL I Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero Luto jamais te afeie o cândido semblante! Diante de Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero. Em teus olhos não quero a lágrima; não quero Em tua boca o suave e idílico descante. Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante, Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero. Dá-me o hemistíquio d ouro, a imagem atrativa; A rima, cujo som, de uma harmonia crebra, Cante aos ouvidos d alma; a estrofe limpa e viva; Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos, Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra, Ora o surdo rumor de mármores partidos. II Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora, Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca! Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca, Por esse grande espaço onde o Impassível mora. Leva-me longe, ó Musa impassível e branca! Longe, acima do mundo, imensidade em fora, Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora, O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca. Transporta-me, de vez, numa ascensão ardente, À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares, Onde os deuses pagãos vivem eternamente, E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo, Passarem, através das brumas seculares, Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo. 38

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MARIA NAZARÉ PRADO (1875/1949)

Paulistana, biógrafa, memorialista e presença de destaque no ambiente cultural paulistano da primeira metade do século,nasceu no antigo solar dos Prados, na rua de São Bento e faleceu no Rio de Janeiro depois de uma vida de intensa atividade social e cultural. Foi educada na Europa, casou-se, separou-se e teve um caso de amor com o escritor Graça Aranha que durou 16 anos.Passava longas temporadas em Paris e participou do movimento modernista, em 1922, tendo patrocinado a Fundação Graça Aranha, instituido prêmios e realizado conferências.Conservam-se inéditos os originais de Cartas de Amor(dirigidas a Graça Aranha) e Diário Íntimo. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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AUTA DE SOUZA

(1876/1901)

Potiguar, de família classe média, mulata, teve a vida marcada pela tuberculose, que vitimou sua mãe quando ela era uma criança de três anos. A mesma doença mataria seu pai, seu avô e a avó Dindinha, que foi sua mãe de criação. Auta de Souza conviveu durante dez anos com a tuberculose, mal sem cura na época, que a mataria aos 24 anos de idade. Publicou poemas na revista Oásis, nos jornais natalenses A República e A Tribuna, que reuniam os mais prestigiados escritores da época. Seu primeiro e único livro, Horto, foi publicado em 1900, quando ela já era um nome nacional. Tanto que o prefácio foi escrito por Olavo Bilac, o mais famoso poeta do seu tempo.

MEU PAI Desce, meu Pai, a noite baixou mansa. Nem uma nuvem se vê mais no céu: Aninharam-se aqui no peito meu, Onde, chorando, a negra dor descansa. Quando morreste eu era bem criança, Balbuciava, sim, o nome teu, Mas d’este rosto santo que morreu Já não conservo a mínima lembrança. A noite é clara; e eu, aqui sentada, Tenho medo da lua embalsamada, Corta-me o frio a alma comovida. Se lá no Céu teu coração padece, Vem comigo rezar a mesma prece: Tua bênção, meu pai, me dará vida! TUDO PASSA Aquela moça graciosa e bela Que passa sempre de vestido escuro E traz nos lábios um sorriso puro, Triste e formoso como os olhos dela... Diz que su’alma tímida e singela Já não tem coração: que o mundo impuro Para sempre o matou... e o seu futuro Foi-se n’um sonho, desmaiada estrela. Ela não sabe que o desgosto passa Nem que do orvalho a abençoada graça Faz reviver a planta que emurchece. Flávia! nas almas juvenis, formosas, Berço sagrado de jasmins e rosas, O coração não morre: ele adormece... 40

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EUFROSINA MIRANDA (1880/?)

Poeta baiana, nasceu provavelmente em Feira de Santana e não se sabe ainda a data de seu falecimento. Alguns sugerem a década de 1930. Filha do professor Alípio Severiano Miranda, cursou a Escola Normal e ingressou no magistério. Foi professora em diversas localidades do interior baiano e, mais tarde, conseguiu transferir-se para Salvador, onde conquista fama e reconhecimento. Destacou-se como notável declamadora em saraus e recitais de poesia.Pertenceu a Academia de Letras da Bahia e ao Instituto Geográfico e Histórico. Publicou apenas um livro, Eflúvios: primeiros versos em duas edições, 1909 e 1911.

VEM

A D. ALCIDE(a pedido de uma noiva) Porque singrando mares te partiste Deixando em solidão minh’alma triste?

Partiste...e do prazer a santa calma, Que em nosso coração leda sorria, Se mudou em letal melancolia, Que entristece e apavora esta minha’ alma. De futuro risonho a loira palma Inda ontem venturosa eu antevia; Na esperança, que a nossa dor acalma, Concentrava feliz minha alegria. Então disseste meigo: Muito em breve Voltarei, flor mimosa e leve, Mesmo antes de surgir a primavera. Vem, noivo de minh’alma, idolatrado, Mais formoso, mais terno e enamorado, Pois tua noiva aqui te espera.

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COLOMBINA

(1882/1963)

Poeta paulistana, é considerada precursora da poesia sensual escrita por mulher. Publica seus primeiros versos parnasianos por volta de 1900, no jornal A Tribuna, de Santos, SP, sob o pseudônimo de Paula Brasil. Em 1906 funda a revista O Sorriso, em São Paulo. Seu primeiro livro de poesia, Vislumbres, é lançado em 1908. Seguiram-se Versos em Lá Menor (1930) e Lampião de Gás (1937). No início da década de 1930 atua como colaboradora nos jornais Fon-Fon, Careta e Jornal das Moças, com o pseudônimo Colombina. Outros livros de sua lavra: Distância (1948), Trovas (1955), Cantigas ao Luar (1960) e Rapsódia Rubra (1961).

EXALTAÇÃO Olhas nos olhos meus. E eu vejo neste instante toda a terra subir a um céu que desconheço. Olho nos olhos teus. E fica tão distante o mundo: e todo o fel que ele contém, esqueço. Sorris... e, contemplando o teu lindo semblante, o ideal de minha vida, enfim, eu reconheço. Falas... ouço-te a voz, e, impetuosa, radiante, num gesto de ternura, os lábios te ofereço. Beijas a minha boca. E neste beijo grande – como uma flor que ao sol desabrocha e se espande – , todo o meu ser palpita e freme e vibra e estua. Tudo é um sonho, no entanto; o seu beijo... o meu crime. Mentirosa ilusão! Pobre ilusão que exprime somente o meu desejo imenso de ser tua! A CARNE Exiges. É ciumenta e egoísta. Não admites qualquer rivalidade, ou que algo te suplante. És forte e audaz no teu domínio sem limites capaz de transformar a vida num instante, És mísera e brutal. Mas, nada obsta que agites e açambaques o mundo, e que essa alucinante e estranha sensação que aos humanos transmites, tenha, como nenhuma, um halo deslumbrante. Oh, carne que possuis no teu imo maldito mais lodo que contém num charco pantanoso, mais esplendor, também, que os astros do Infinito … Rugindo de volúpia e de sensualidade, espalhando na terra apoteoses de gozo, ó, carne, serás tu a única verdade?

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CORA CORALINA

(1889/1985)

Começou a escrever cedo: aos 14 anos. Mas só começou a publicar quando tinha 76 anos: seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, só saiu em 1965. E foi graças a uma crônica do poeta Drummond, que Cora Coralina ganhou visibilidade e atenção --e passou a ser admirada por todo o Brasil. Foi redatora de jornal em Goiás e publicou seu primeiro conto, Tragédia na Roça, em 1910, no Anuário Histórico Geográfico e Descritivo do estado de Goiás. Além de outras premiações importantes, ganhou o prêmio Juca Pato, da UBE, em 1984.

ANINHA E SUAS PEDRAS Não te deixes destruir… Ajuntando novas pedras e construindo novos poemas. Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. Faz de tua vida mesquinha um poema. E viverás no coração dos jovens e na memória das gerações que hão de vir. Esta fonte é para uso de todos os sedentos. Toma a tua parte. Vem a estas páginas e não entraves seu uso aos que têm sede. ........................................................................... Fechei os olhos e pedi um favor ao vento: leve tudo que for desnecessário. Ando cansada de bagagens pesadas. Daqui pra frente levo apenas o que couber no bolso e nocoração. MULHER DA VIDA Mulher da Vida, Minha irmã. De todos os tempos. De todos os povos. De todas as latitudes. Ela vem do fundo imemorial das idades e carrega a carga pesada dos mais torpes sinônimos, apelidos e ápodos: Mulher da zona, Mulher da rua, Mulher perdida, Mulher à toa. Mulher da vida, Minha irmã. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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LAURA BRANDÃO

(1890/1942)

Poeta carioca, foi professora e ardorosa defensora dos direitos humanos e das ideias de igualdade social e racial.Começou a escrever muito cedo e ainda criança alguns poemas saíram publicados na imprensa. Era considerada grande declamadora. Estréia aos 25 anos com o livro Poesias. Na sequência aparecem Imaginação(1916) Meia Duzia de Fábulas(1917) e Serenidade(1918). Com as greves operárias que acontecem em 18 e 19, em São Paulo e Rio, Laura conhece Otávio Brandão, dirigente comunista. Casam-se em 1921 e dez anos depois o casal e as 4 filhas são deportados para a União Soviética. Após 10 anos de exílio, Laura morre e é sepultada por lá mesmo.

NOITE DE ARTISTA “Noite irmã do Silêncio, Noite amiga Cuja luz é mais calma sem mormaço Em que o corpo repousa da fadiga, E a grande mente busca o grande Espaço Oh! Noite! é no teu seio que se abriga Quem medita, fugindo ao mundo escasso, Depois, flores da aurora, aos frutos, liga Da idéia germinada em teu regaço! Tal a Noite, sem trevas e sem frio, Um pouco primavera, um pouco estio Artista, no teu sono, que irradia! Cenário dos projetos mais risonhos, Que das tantas estrelas, quantos sonhos - Noite tão clara que parece dia!” ENTRE ARTISTAS Entre artistas não deve ser assim Como na sociedade: É preciso outras leis para esta gente Que vive do que sente ( ... ) para esta gente aflita, Que, no meio de tanto horror, inda acredita Na coragem, na Luz; (...) E esta gente que luta e sofre e pensa, às vezes Abandonando um pouco as coisas graves, Procura a fantasia e canta como as aves (...)

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GILKA MACHADO

(1893/1980)

Carioca e pioneira da poesia erótica no Brasil, ela ganhou com 14 anos o concurso de poesia do jornal Imprensa. Foi elogiada e admirada por Mario de Andrade e Drummond. Este chegou a escrever, em cronica, que “Gilka foi a primeira mulher nua da poesia brasileira”. O primeiro livro, Cristais partidos, foi publicado aos 22 anos. Já estava casada desde os 17 com o também poeta Rodolpho Machado, que morreu precocemente. Viúva pobre, com dois filhos para criar, foi diarista na Central do Brasil e complementava a renda fazendo pensão. Foi quando, em 1933, ganhou um concurso da revista “O Malho”, que deu a ela o título de “maior poetisa do Brasil”.

SER MULHER Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada para os gozos da vida; a liberdade e o amor; tentar da glória a etérea e altívola escalada, na eterna aspiração de um sonho superior... Ser mulher, desejar outra alma pura e alada para poder, com ela, o infinito transpor; sentir a vida triste, insípida, isolada, buscar um companheiro e encontrar um senhor... Ser mulher, calcular todo o infinito curto para a larga expansão do desejado surto, no ascenso espiritual aos perfeitos ideais... Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza! ficar na vida qual uma águia inerte, presa nos pesados grilhões dos preceitos sociais! PARTICULARIDADES... Muitas vezes, a sós, eu me analiso e estudo, os meus gostos crimino e busco, em vão torcê-los; é incrível a paixão que me absorve por tudo quanto é sedoso, suave ao tato: a coma... Os pêlos... Amo as noites de luar porque são de veludo, delicio-me quando, acaso, sinto, pelos meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo em carícias sutis, rolarem-me os cabelos. Pela fria estação, que aos mais seres eriça, andam-me pelo corpo espasmos repetidos, às luvas de camurça, às boas, à pelica... O meu tato se estende a todos os sentidos; sou toda languidez, sonolência, preguiça, se me quedo a fitar tapetes estendidos. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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HENRIQUETA LISBOA (1901/1985)

Poeta mineira, é autora de obra poética muito representativa. Seu primeiro livro, Fogo Fátuo, foi publicado quando ela tinha 21 anos. Em 1929 ganhou o Prêmio Olavo Bilac de Poesia, da Academia Brasileira de Letras. Manteve correspondência duradoura com Mario de Andrade. Conquistou a admiração de Drummond, Bandeira, Cecília Meireles e Gabriela Mistral. Também mereceu atenção e elogios de importantes críticos daquela época como Otto Maria Carpeaux e Sergio Buarque de Hollanda. Publicou quase 20 livros entre 1925 e 1977. Sua produção também inclui ensaios, conferências e traduções.Foi pioneira ao escrever poesia para crianças no Brasil.

MODELAGEM/MULHER Assim foi modelado o objeto: para subserviência. Tem olhos de ver e apenas entrevê. Não vai longe seu pensamento cortado ao meio pela ferrugem das tesouras. É um mito sem asas, condicionado às fainas da lareira Seria uma cântaro de barro afeito a movimentos incipientes sob tutela. Ergue a cabeça por instantes e logo esmorece por força de séculos pendentes. Ao remover entulhos leva espinhos na carne. Será talvez escasso um milênio para que de justiça tenha vida integral. Pois o modelo deve ser indefectível segundo as leis da própria modelagem. CALENDÁRIO Calada floração fictícia caindo da árvore dos dias

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CECÍLIA MEIRELES

(1901/1964)

Poeta carioca, foi pintora, professora e jornalista. É considerada uma das vozes líricas mais importantes da literatura em língua portuguesa. Publicou seu primeiro livro, Espectro, em 1919, quando tinha apenas 18 anos. Em 1939 publicou “Viagem” livro que lhe deu o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras. Participou do grupo literário católico da Revista Festa, junto com os poetas Tasso da Silveira e Augusto Frederico Schmidt . Fundou, em 1934, a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro. Foi homenageada pelo Banco Central, em 1989, com sua efígie na cédula de cem cruzados novos. Publicou mais de 20 livros de poemas.

RETRATO Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: — Em que espelho ficou perdida a minha face? MOTIVO Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta. Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: — mais nada. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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ADALGISA NERY

(1905/1980)

Poeta carioca, foi jornalista, prosadora e política. Casou aos 16 anos com o pintor Ismael Nery, que era seu vizinho. A partir daí viveu no sofisticado meio intelectual. que incluia Murilo Mendes, Jorge de Lima e Manuel Bandeira. Tres anos após a morte do marido, casou-se com Lourival Fontes, diretor do DIP e, mais tarde, embaixador no México. Aí tornou-se amiga de Frida Kahlo e Diego Rivera. Treze anos depois separou-se, publicou livros de poemas e foi eleita 3 vezes como deputada estadual no Rio, pelo PSB. Em 1969 foi cassada. Em 1970 viveu de favor, algum tempo, na casa de Flavio Cavalcanti, em Petrópolis. Em 1976 foi para um asilo de velhos onde morreu esquecida em 1980.

ASPIRAÇÃO Desejo de desmontar meu corpo E atirá-lo aos quatro ventos do mundo, De enfrentar a luz do sol Até que seu calor pulverize meus ossos, De atirar-me no oceano Até que o batimento de suas águas Transforme meus cabelos em algas perdidas, De gritar contra as montanhas Até que o eco se ausente de minha voz, De matar a consciência de mim mesma Até que eu possa viver. MISTÉRIO Há vozes dentro da noite que clamam por mim, Há vozes nas fontes que gritam meu nome. Minha alma distende seus ouvidos E minha memória desce aos abismos escuros Procurando quem chama. Há vozes que correm nos ventos clamando por mim. Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome E eu olho para as árvores tranqüilas E para as montanhas impassíveis Procurando quem chama. Há vozes na boca das rosas cantando meu nome E as ondas batem nas praias Deixando exaustas um grito por mim E meus olhos caem na lembrança do paraíso Para saber quem chama. Há vozes nos corpos sem vida, Há vozes no meu caminhar, Há vozes no sono de meus filhos E meu pensamento como um relâmpago risca O limite da minha existência Na ânsia de saber quem grita.

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LILA RIPOLL

(1905/1967)

Poeta gaúcha, foi pianista, professora e presença de destaque na literatura sul-riograndense. Miltante política, participou da frente intectual do Partido Comunista, em 1935. Conquistou prêmios importantes : Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras, pelo livro de poemas Céu vazio(1941), e o Pablo Neruda da Paz, por Novos Poemas(1951)em Praga, na República Checa. Publicou seis livros de poemas--e depois do golpe de 64, foi presa, mas rapidamente libertada em função de sua saúde — sofria de um estado avançado de câncer.

POEMA VI Hoje pensar me dói como ferida. O próprio poema não é poema. Tem qualquer coisa de trágico. De sangue junto ao muro. De pétalas descidas. De véu cobrindo o retrato de um morto. Hoje pensar me dói como ferida. Mas é uma imposição-pensar. Não quero estado de graça, nem aceito determinismo. Só a morte é irreversível. A opressão do azul aumenta meu conflito, e é cruel escutar as razões da razão. Quisera repartir-me no cristal da manhã. Ser um pouco daquela rosa tocada de irrealidade; de tênue luz ferindo o espelho do rio; daquela estátua pudica que parece ter ressuscitado a inocência Mas em vez disso, aqui estou: queimada em pensamentos, quebrados os instrumentos do sonho.

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HELENA KOLODY

(1912/2004)

Poeta paranaense, professora e presença atuante no meio cultural, foi a primeira mulher brasileira a publicar haicais. Admirada por Drummond e Leminski, deixou vasta e expressiva obra poética: mais de 18 livros reconhecidos e aplaudidos. Em 2012, centenário de seu nascimento, uma série de comemorações procuraram resgatar seu nome e dar visibilidade a sua trajetória poética. Esse trabalho envolveu a rede de bibliotecas, as escolas e os alunos que puderam realizar atividades de declamação e interpretação de poemas. Foram produzidos, também, livros e cadernos ilustrados com poesias, haicais e frases da autora.

LIÇÃO A luz da lamparina dançava frente ao ícone da Santíssima Trindade. Paciente, a avó ensinava a prostrar-se em reverência, persignar-se com três dedos e rezar em língua eslava. De mãos postas, a menina fielmente repetia palavras que ela ignorava, mas Deus entendia. GRAFITE Meu nome, desenho a giz no muro de tempo. Choveu, sumiu. JOVEM Suporta o peso do mundo. E resiste. Protesta na praça. Contesta. Explode em aplausos. Escreve recados nos muros do tempo. E assina. Compete no jogo incerto da vida. Existe. SEM AVISO Sem aviso, o vento vira uma página da vida 50

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JACINTA PASSOS

(1914/1973)

Poeta baiana, professora, jornalista, militante política e feminista, nasceu em família rural abastada da região de Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano. Publicou 4 livros e um deles, Canção da partida(1945) foi ilustrado por Lasar Segall. Sua poesia, vigorosa e libertária, despertou interesse e atenção de nomes como Mário de Andrade, Antonio Candido, Sérgio Milliet e Roger Bastide. Nas palavras da filha, Jacinta foi católica fervorosa e se transformou em comunista ardorosa. Mesmo após o golpe de 1964, ela não abandonou a militância. Em 1965 foi detida quando pichava muros da cidade com palavras de ordem contrárias à ditadura.

EU SEREI POESIA A poesia está em mim mesma e para além de mim mesma. Quando eu não for mais um indivíduo, eu serei poesia Quando nada mais existir ente mim e todos os seres, os seres mais humildes do universo, eu serei poesia. Meu nome não importa. Eu não serei eu, eu serei nós, serei poesia permanente, poesia sem fronteiras. 1935 Tenso como rede de nervos pressentindo ah! novembro de esperança e precipício. Fruto peco. Novembro de sangue e de heróis. Grito de assombro morto na garganta, soluço seco dor sem nome. Ferido. De morte ferido. Como um animal ferido. Luta de entranhas e dentes. Natal. Sangue. Praia Vermelha. Sangue. Sangue. É quase um fio escorrendo sangrento tenaz por dentro dos cárceres, nas ilhas e nos corações que a esperança guardaram. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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DORA FERREIRA DA SILVA (1918/2006)

Poeta paulista, tradutora e editora, desempenhou essas atividades com rara lucidez, seriedade e consciência. Traduziu poetas fundamentais como Rilke, Holderlin, Saint-John Perse. Traduziu, também, trabalhos de Jung. Fundou a revista Diálogo, junto com seu marido, o filósofo Vicente Ferreira da Silva. E criou a revista Cavalo Azul, para difusão da poesia. Como poeta publicou 10 livros, ganhou 3 vezes o Jabuti e recebeu o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. Admirável ser humano, seus poemas contribuem para o enriquecimento da nossa literatura e de nós mesmos.

NASCIMENTO DO POEMA É preciso que venha de longe do vento mais antigo ou da morte é preciso que venha impreciso inesperado como a rosa ou como o riso o poema inecessário. É preciso que ferido de amor entre pombos ou nas mansas colinas que o ódio afaga ele venha sob o látego da insônia morto e preservado. E então desperta para o rito da forma lúcida tranqüila: senhor do duplo reino coroado de sóis e luas. NOTURNO II Nossos olhos nos pertencem — não o dia. Amor não nos pertence nem a morte. Apenas pousam na pérola mais fina. Desce o luar No flanco de rios precipitados folhas se alongam caules estremecem. A noite já desfere seu punhal de trevas. 52

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MARIAJOSÉ DE CARVALHO (1919/1995)

Poeta paulistana, foi atriz, diretora, cantora, pianista, professora de dicção e tradutora de clássicos. Deu aulas na Escola de Arte Dramática(EAD), envolveu-se em movimentos de renovação cultural. Foi musa e mestra – amada e odiada sem meios termos por quantos a conheceram – e esteve no centro da cultura paulistana ao longo de quase 50 anos Alguns livros de sua lavra poética: Poemas da noite amarga (1950), Aurum et Niger (1966 ), Neomenia (1968), Lunalunarium (1976).

que ânsia imemorial atrai os corpos de ambarina e amavios impregnados ossos tendões e carne e sangue nervos? que impacto os enlouquece tange anula? que plectro ou lançadeira ou sábia lâmina? e exangues ao cansaço os abandona? phallus vulva os seios mãos e boca e a pele esse tecido permeável são instrumentos de urdir tecer e a estrutura imantada aniquilada é deliquo amplo voo queda a pique num abismo do fogo gelo e nada VIII do sardo mar por águas lavrado em sal conservado dentre jóias moedas armas de submerso acervo a mim vieste aro de bronze a mim viúva e nesta herança de remoto pacto em meu dedo estás arcaica AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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STELLA LEONARDOS

(1923/2019)

Poeta carioca, tradutora e teatróloga, possui obra considerada multiforme, rica na experimentação de várias linguagens, tendo se dedicado, nos últimos tempos, ao romanceiro, cancioneiro e a rapsódia, onde o histórico e as tradições populares, dos vários recantos do Brasil, lhe servem de substrato. Já ganhou vários prêmios, inclusive o Nacional de Poesia, em 1964, por Geolírica. Sua obra inclui mais de 70 títulos, entre eles os premiados Cantabile,(1967) Amanhecência(1974) e Romanceiro da Abolição(1986).

DO APRENDIZ DE ESCULTOR Existe uma voz na pedra? Lá no alto daquela pedra mora um colomi de pedra chamado Itacolomi. O colomi, lá da pedra me fala: — Não queiras ouro. Menino, teu ouro é outro. Escuta, Antônio Francisco, tuas mãos querem lavrar. Procura tornar mais que ouro a pedra que te encontrar. Existe voz na madeira? Lá do alto daquela igreja vive uma cruz de madeira, a mais alta que já vi. A cruz, lá do alto, me fala: — Escuta, Antônio Francisco, não te coube em Vila-Rica muita lenha. Coube lenho e mãos que querem talhar. Procura tornar madeiro a madeira que te achar.

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EDITH PIMENTEL PINTO (1924/1992)

Poeta paulistana, foi professora titular de língua portuguesa na USP e deu aulas de português e literatura brasileira na universidade de Tubingen, Alemanha. Em 1958, publicou sua primeira coletânea de poesias - Ia, recebendo o prêmio Fábio Prado. Com Dimensões de Agora, ganhou o prêmio Governador do Estado de São Paulo, 1959/1960. Publicou, também, Todavia, (1971). Essas três obras foram, mais tarde, reunidas em uma só. Quinze anos depois, com o livro Sinais e Conhecenças(1986)ela conquistou o primeiro prêmio de poesia da Bienal Nestlé de Literatura.

VIA Aqui vou eu recortando uma pequena eternidade neste papel de espaço metonimicamente extrapolado em figurinhas de mãos dadas. Aqui vou eu de deus em deus aprendendo a compor as imagens dos homens. FONÉTICA Os velhos livros acenam das estantes com pássaros recados que ensaiam voos perecíveis entre o ramo e o chão mais imediato. As letras enrouquecem no afã de cativar a distância do acaso, a eternidade. E embora se sucedam de jeito para o eco, nem sempre sonorizam os mesmos compromissos no aparelho das páginas impávidas. COMPOSIÇÃO Minhas frases compassam-se autonômicas intempestivos motivos se autorando e eu de imanante — amorfas tessituras — fico no espelho onde procuro o encontro. Contemplo o todo e o transitivo verbo tenta sorrir-me em brevíssimo aceno. Imprevistas palavras suprem-me as latentes as velhas transfiguram-se e as futuras aturdem-me e se insisto este poema sé cristaliza em forma e se aniquila.

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ILKA BRUNHILDE LAURITO (1925/2012)

Poeta paulistana, estreou cedo com o livro Caminhos ( 1948). No ano seguinte formou-se em letras e dirigiu a Cinemateca Brasileira (1962). Entre 1969 e 1975 participou de movimentos de divulgação, como Poesia na Praça e Poetas na Praça. Recebeu o Jabuti de poesia, pelo livro Canteiro de Obras,(1987) e o Jabuti de literatura juvenil, pelo livro A Menina que Fez a América.(1990)

V (Canto ao arrumar a cama) Canto ao arrumar a cama, canto diligente verônica oficiando os passos da paixão cotidiana. Exibo ao meu espelho atônito os lençóis que estampam o corpo do senhor que nunca me salvou da crucificação no pranto. E canto porque canto, sem esperanças de glória ou de ressurreição. aliança PUBLICIDADE Proibido colocar cartazes: em chão parede poste. (Em homem: pode.) ADÁGIO Devagar não vim ao longe. Nem sequer cheguei aonde. Eu me quebrei buscando a fonte. Mas inteira é a sede do meu cântaro.

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HELLE ALVES

(1926/2019)

Poeta mineira, foi jornalista, trabalhou em TV e na Assembleia de São Paulo. Mulher à frente de seu tempo, Helle defendia a autonomia das mulheres. Acompanhou as inovações tecnológicas e era uma usuária assídua das redes sociais. Foi a única repórter que testemunhou a chegada do corpo de Che Guevara após ser morto na guerrilha. Em Santos, onde viveu muito tempo e morreu, deu aulas e teve atuação intensa na defesa dos idosos. Foi autora de vários livros: Paisagem de Pedra ( poemas,1962); Envelhecer Não Doi ( auto-ajuda); Memória do Século A Hora e a Vez da 3ª Idade(Levantamento da situação dos idosos); Eu Vi (relato sobre sua vida, suas reportagens e seus viagens).

ALMA EM SILÊNCIO Minha vida está triste como o silêncio de um morto. Tenho desejo de vozes, de risos e de sons. EM FUNDO BRANCO Os braços são lamentos que o trono nu do inverno retorceu, descarnou. Silhueta de arame em fundo branco. E só. Mas me lembro do outuno pesado de sonhos. Do manto verde que me vestia a fronte. Das ilusões desbotadas lentamente e uma a uma caindo no pó. Era belo o tapete ouro-velho que forrou meus passos. Mas tão fugaz... Sepultado no murmúrio da primeira chuva. Hoje espio as longas mãos de neve e a estátua de pedra que o frio esculpiu em meu dorso. Mas este gesto, ó caminhante, não o creias desespero ou morte. É prece. Vê que não há pranto em meus olhos. Só silêncio. E no peito acendo brasas para aquecer o anseio de nova primavera. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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YEDA PRATES BERNIS (1925)

Poeta mineira, diplomada em letras, com passagem por canto e piano em conservatório. Pertence a Academia de Letras de Minas Gerais, já ganhou vários prêmios, teve poemas musicados por Carmargo Guarnieri e já foi traduzida para o francês, espanhol, inglês, italiano e húngaro. Estreou em 1967 com o livro Entre o Rosa e o Azul. Já foi elogiada por poetas do porte de Drummond e Henriqueta Lisboa. Seus últimos livros: Cantata (2004) e Viandante (2006).

Inutil.A gaiola Nunca aprisiona As penas do canto FOGUEIRA Espio à beira do que chamam de minha alma. Fingindo calma, vejo no poço uma fogueira queimando o já tão pouco do muito edificado. Não como um louco mas como quem não presta atenção, despejo gasolina. Tudo o que resta é um choro de menina. DESENHO O menino desenha coloridos pássaros e os aprisiona, na gaveta. Ao ouvir trinados no papel vê, saindo pela fresta, asas em festa buscando o céu. NASCER Desenrolar o eterno no solar diminuto Minuto materno

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CELINA FERREIRA

(1928/2012)

Poeta mineira, jornalista e redatora, conquistou a admiração dos poetas Drummond e Manuel Bandeira. Fez muita literatura infantil e recebeu vários prêmios por seus livros nessa área. Publicou Poesia de Ninguém (1954) Poesia Cúmplice(1959) Hoje Poemas (1967) e Espelho Convexo (1973).

SALTO MORAL Sondar a possibilidade do salto e a profundidade do abismo. Formular o desenho preciso. Vôo e queda, a mesma dimensão e altura. Vôo e queda recortam no ar a mesma figura. Saltar de dentro de si mesmo Como quem pula o muro da infância, A cerca que esconde os pomares do mundo e limita o corpo e seu agreste crescimento. E restringe o homem e seu poder. Saltar para o desconhecido sem redes sob o corpo. O salto moral Diante de mil trapézios oscilantes e luzes e o pavor dilacerante da platéia. A comovente platéia da autopiedade Saltar para a verdade O SEXO NO ESPELHO O amante predispunha o espelho para duplicar o amor. Múltiplos corpos, avidez do resgate, a noite lúdica. Hoje, no espelho, a solidão em dobro. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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CLAIRE FELIZ REGINA (1928)

Poeta matogrossense, nasceu em Campo Grande e é funcionária pública aposentada. Aos 17 anos mudou-se para Bauru-SP, cidade onde se casou e teve os seus filhos. Posteriormente veio para São Paulo , onde reside atualmente. Quase aos oitenta anos passou a escrever poesia. Publicou 3 livros de poemas: Meu jeito de falar(2014), Poemas eróticos (2014) e Caquinhos de poemas(2014).Participa com frequência de leituras públicas de poesia em saraus.Foi homenageada, ano passado, pelo Sarau Gente de Palavra Paulistano,

O MARIDO Antes ele fazia sexo demorado. Cheio de preliminares. Reclamou-me a vizinha, virou poeta de hai-kai, agora, só quer dar “uma rapidinha” POEMA PARA UM AMOR MAIS JOVEM Você nãofez. Você é um poema, que pena... Por que só agora? Por que tanta demora? O que você escreveu é lindo, mas pra mim, fora de hora. Eu nasci bem antes, eu tinha pressa, eu queria ver a vida, eu queria encontrar um poeta. Mas terminei desencontrando, pois na estrada da vida, você está na entrada, eu, na saída. NOSSO AMOR Por que o nosso amor tem que ser assim? Te amo porque não posso viver sem você, mas te odeio porque você pode viver sem mim.

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ZILA MAMEDE

(1928/1985)

Poeta paraibana, formou-se em biblioteconomia e trabalhou no Instituto Nacional do Livro, em Brasília. Foi diretora da biblioteca da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde viveu a maior parte de sua vida e onde o mar a levou para sempre. Publicou : Rosa de Pedra (1953), Salinas (1958), O Arado (1959), Exercício da Palavra (1975), A Herança (1984) e Navegos (Poesia reunida 1953-1978). Manteve intensa correspondência com Drummond e Bandeira. E João Cabral a elogiou assim: “fiquei feliz em ler Exercício da Palavra, e até me arrependo de ter publicado um livro também em 75.”

RUA(TRAIRI) Nos cubos desse sal que me encarcera (Pedras, silêncios, picaretas, luas, anoitecidos braços na paisagem) a duna antiga faz-se pavimento. Meu chão se muda em novos alicerces, sob as pedreiras rasgam-se meus passos; e a velha grama (pasto de lirismos) afoga-se nos sulcos das enxadas, nas ânsias do caminho vertical. Ao sono das areias abandonamse nesta rua vívidos fantasmas De seus rios meninos que descalços apascentavam lamas e enxurradas. Meu chão de agora: a rua está calçada. A PONTE Salto esculpido sobre o vão do espaço em chão de pedra e de aço onde não permaneço - passo.

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LEONOR SCLIAR-CABRAL (1929)

Poeta gaúcha, é doutora em linguística pela Universidade de São Paulo, professora titular aposentada pela UFSC e pós-doutorada pela Universidade de Montréal. Eleita em 1991 presidente da International Society of Applied Psycholinguistics. Foi presidenta da União Brasileira de Escritores de Santa Catarina. Coordenou os projetos Ler & Ser: Combatendo o Analfabetismo Funcional e criou e coordena o Sistema Scliar de Alfabetização (SSA), com dezenas de trabalhos publicados no Brasil e no exterior. Seu primeiro livro, de 1987, Sonetos, foi publicado pela Noa Noa, editora que já imprimiu raridades bibliográficas. O segundo, De senectura erotica, foi publicado em 1998.

TRILHAS CRUZADAS Pelas trilhas cruzadas entre esferas eu fui descendo e em sombra transformei-me que acreditei mais viva do que a luz, desmemoriada. Inútil minha busca tão efêmera, a ilusão de o nada construir, sobre o caos em desordem que ordenamos inordenável. O que me dispersou me acolherá e retorno ao seu ventre iluminado, a desprendida alma dos tormentos, último sopro. DERRADEIRO ENCONTRO O espelho multiplica minhas rugas, esfacelado por tênues nervuras. Um Dorian Gray sorrindo escarnece de mim. Mãos nervosas encobrem-se em camadas O pergaminho inscrito por histórias, indecifrados signos à espera de um leitor. E sobre o palimpsesto mostro um rosto, disfarce do que fui sem nunca ser, erguendo o pé esquerdo sobre o degrau errado. Constelada de lunares, a mão, às esconddas, anota na agenda as impossíveis data do derradeiro encontro.

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ESTHER PROENÇA SOARES (1929)

Poeta paulistana, é formada em letras. Graduou-se também em artes cênicas na ECA e freqüentou aulas de dança com Klauss Vianna, Maria Duschenes e Ivaldo Bertazzo. Já trabalhou como arte-educadora, professora de etiqueta e expressão corporal. Seu primeiro livro de poemas, Disco de Cartolina foi publicado em dezembro de 2016. E ela foi encorajada pelo poeta Alvaro Alves de Faria que fez o prefácio.

ALGORITMO Eu sou a soma do que sou mais o que não sou aniquila-me o deserto entre o meu ser e o meu não ser emparedado. É imensa a minha sede mas o cantil está furado DOIS TONS Há luzes sempre acesas em quartos de hospitais e choros tristes de crianças dentro da noite --bem sei Há putas tristes debaixo de lampiões e poetas famintos aos pés delas --bem sei Há cânceres minando fígados e mentes e cárceres formando mentes dementes --bem sei mas nada é mais triste agora do que esta negra madrugada entre as quatro paredes brancas do meu quarto ...................................................................................... Escrever um poema é ousadia enorme Desculpem se cometo assassinatos nos meus versos Eles brotam em mim e me sufocam pedindo para nascer ser minha história

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HILDA HILST

(1930/2004)

Poeta, dramaturga, cronista e ficcionista construiu obra extensa e variada com mais de 40 títulos. Nos últimos anos de sua vida, acho que em 1990, anunciou seu “adeus à literatura séria” e tornou-se uma autora pornográfica. Seu objetivo era vender mais livros e conquistar o reconhecimento do público. Essa postura da poeta causou espanto e indignação entre amigos e críticos. O editor Caio Gracco, da Brasiliense, negou-se a publicá-la. Hilda ganhou o Jabuti duas vezes e o APCA também duas vezes. Fez uma poesia profunda, comovente e originalíssima.

Aflição de ser eu e não ser outra. Aflição de não ser, amor, aquela Que muitas filhas te deu, casou donzela E à noite se prepara e se adivinha Objeto de amor, atenta e bela. Aflição de não ser a grande ilha Que te retém e não te desespera. (A noite como fera se avizinha) Aflição de ser água em meio à terra E ter a face conturbada e móvel. E a um só tempo múltipla e imóvel Não saber se se ausenta ou se te espera. Aflição de te amar, se te comove. E sendo água, amor, querer ser terra ................................................................................... Que este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba. Que me exclua do estar sendo perseguida E do tormento De só por ele me saber estar sendo. Que o olhar não se perca nas tulipas Pois formas tão perfeitas de beleza Vêm do fulgor das trevas. E o meu Senhor habita o rutilante escuro De um suposto de heras em alto muro. Que este amor só me faça descontente E farta de fadigas. E de fragilidades tantas Eu me faça pequena. E diminuta e tenra Como só soem ser aranhas e formigas. Que este amor só me veja de partida.

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IRACY GENTILI

(1930/2001)

Poeta e artista plástica, nasceu em Barra Mansa, Rio de Janeiro. Integrou o movimento Catequese Poética, iniciado em 1964 pelo poeta catarinense Lindolf Bell, em São Paulo. Na década de 70 foi morar em Salvador e criou uma galeria de arte que acabou virando ponto de encontro de muitos artistas. Publicou apenas um livro: Os Rumos (1964) que teve apresentação do poeta lindolf Bell.

Brancos são os olhos das mulheres Brancas as paisagens O céu todo branco arqueando-se em horizontes. Brancos homens? Brancas ruas? Onde estão as cores da vida? O sol quer se por e nada mudou! Sempre a alvura infinita Distendendo-se em toda a parte Os olhos cansam de ver Sempre a mesma paisagem. Ele.—o que tinha azul nos olhos Que tanto me assombraram Que branca lembrança me deixou! Ah! Este tédio branco ao meu encalço Onde tudo é loucura, Este longínquo marulhar de vozes veladas Que passam por mim E este sussurro de harmonia extinta.

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HELENA PARENTE CUNHA (1930)

Poeta baiana, é pós-doutorada em letras e fez carreira acadêmica como professora universitária da UFRJ. É também ficcionista, pesquisadora, ensaísta e crítica literária. Seu livro de estréia, Corpo do gozo (1960) foi premiado no Concurso de Poesia da Secretaria de Educação e Cultura da Guanabara, em 1965. Tem mais de 25 livros publicados entre poemas, contos e ensaios.

PERTO Daqui desta janela ocidental da minha rua das laranjeiras entre os cabelos assustados dos dois coqueiros frente ao meu prédio daqui junto ao convite maternal das mangueiras daqui deste instante brasileiro que se move aberto pela minha janela carioca daqui da minha verde verdade tropical eu vejo sim eu vejo daqui a limpidez dos cedros e a serenidade inequívoca dos pinheiros plantados no outro lado do dia. BLOQUEIO onde sopra agora o vento que levava o que eu dizia? onde se perderam os nomes que tantas coisas tiveram? onde ficaram as coisas chamadas em minha voz? e minha voz como assim subtraída? gosto de pedra na saliva em minha língua as palavras me emparedam onde houvera minha boca 66

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ZULMIRA RIBEIRO TAVARES (1930/2018)

Poeta paulistana, estreou com o premiado Termos de Comparação(1974) livro onde mistura contos, ensaios e poemas. Publicou vários livros de ficção como O nome do bispo (1985), prêmio Mercedes-Benz de literatura, O mandril (1988) e Joias de família (1990), prêmio Jabuti de romance. Vesúvio(2011) é seu primeiro livro só de poemas. Morreu em São Paulo, aos 88 anos, em decorrência de infecção urinária seguida pneumonia.

VIDA: OBJETO DE DESEJO Nós desejamos pinguins. Não os de geladeira com seu peso fixo de massa pintada sua estatuária de cozinha sem nenhum sopro de da Vinci. Nós desejamos pinguins. Não os das geleiras que nos esfriam os dedos ao toque de suas penas firmes. Frios são os caminhos que a morte nos envia. Desejamos os pinguins de nosso assombro fechados dentro de nós no desejo como pérolas nas ostras. Ostras não sabem das pérolas que engendram e trazem consigo. E nós que os formamos do escuro, deles só temos o rastro, pinguins, com seu brilho de nácar. A MANCHA DA COR Se com o passar dos anos vamos perdendo os pelos que nos faziam orgulhosos por sua fricção animal e sua vizinhança dos capinzais na boa estação, E, ainda, se vamos perdendo a água que nos deixava luminosos como sinaleiras, como elas atentos e úteis — isso ainda não é sério. Podemos avançar nas perdas. Mas, quando os dias se excedem, espichamo-nos como as sombras do poente, somos ginastas rastejadores, as sombras são nossos pijamas de elástico e fumo, elas nos levam estirados na direção do sol desaparecido dentro de sua mancha de cor. Nossas sombras são sombras estradeiras. Somos estradeiros com as sombras e corremos para nada dentro da mancha de cor. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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LINA TÂMEGA PEIXOTO (1931/2020)

Poeta mineira, é professora, pesquisadora e crítica de literatura. Ainda estudante tem textos premiados em um concurso. Fundou, com amigos, a revista literária Meia-pataca, lá em Cataguases. Mais tarde, anos 50, faz o curso de letras clássicas na PUC do Rio de Janeiro. Em 1952 estréia em livro com Algum Dia. 30 anos depois, o segundo, “Entretempo”. Mais duas décadas sem publicar, quando em 2005 lança “Dialeto do corpo”. E, na sequência, num só ritmo, “Água polida”, 2007; “50 poemas escolhidos pelo autor”, 2008; “Prefácio de vida”, 2008; “Os bichos da vó”, 2008; “Entre desertos”, 2014. e Alinhavos do Tempo, 2019.

EXERCÍCIO DE VIRTUDE N. 06 Nunca me perguntas, amado, por que a virtude, acostada ao acerto da gentileza e da arte, penetra em mim como lavor do mundo ou como flor amarrada a seu jardim. Os rumores da noite, punhais de suor e flama, são nossos corpos estendidos nesta cama de forma rara. São mais que torrões de ternura desmanchando-se na levedura das mãos. São mais que sarças de abraços que não adormecem nunca mesmo que a tesura do tempo lhes dê violentas mordidas. Esta sou eu e por quantos me veem atormentada pelos guizos de amor e do aroma que ferem as carícias com outros lamentos. DEITADA JUNTO A OUTRA Ato as trilhas perfeitas e infensas do enigma às magníficas arruaças da memória e guardo nos confins dos trastes velhos a face endoidecida de meu poema. Espalha-se na vegetação dos signos o mesmíssimo prefácio de vida preso ao punho que refaz e renova o flanco aberto e exposto da palavra que se deita junto a outra.

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RENATA PALLOTTINI (1931)

Poeta, advogada, filósofa e dramaturga. Nasceu em São Paulo, escreveu e produziu trabalhos para teatro e televisão, entre os quais Vila Sésamo e Malu Mulher. Publicou mais de 20 livros de poesia, sem contar os de prosa, teatro e ensaios. Recebeu diversos prêmios por seus trabalhos, inclusive o Jabuti. Desde 1988 faz parte do corpo docente da Escuela Internacional de Cine y Television de San Antonio de los Baños, em Cuba. Em 2017 foi eleita a intelectual do ano e conquistou o troféu Juca Pato.

A vida vindo a ser o que devia: absolutamente agora sem nenhum outro dia. BURITI CRISTAL Para Lamarca e os outros Ele andou por três dia na caatinga. No quarto dia ajoelhou de fome. No quinto adormeceu ao pé da baraúna. No sexto foi encontrado e metralhado pelos guardas. E no sétimo descansou. POÉTICA (II) Descer até o fundo e quando o sentimento esteja o mais maduro provocá-lo e feri-lo para que a voz aflore mas sem meias-medidas sem cautela e sem pena: assim o Poema.

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MARIA LÚCIA ALVIM (1932/2021)

Mineira de Araxá, Maria Lúcia é artista plástica e poeta. Publicou cinco livros até 1980, reunidos num único volume em 1989, na Coleção Claro Enigma, da Editora Duas Cidades. XX Sonetos é o primeiro desses livros, publicado em 1958. Na ocasião, o trabalho ganhou o primeiro prêmio no V Concurso Feminino de Poesia, promovido pela Gazeta de Notícias, um dos principais da época. Publicou ainda os livros Coração incólume (1968), Pose (1968), Romanceiro de Dona Beja (1979) e A rosa malvada (1980). Lançou ainda Vivenda (1989), que reúne 30 anos de sua produção poética. Morreu em Juiz de Fora, vítima do coronavirus.

AQUAVIA Como a fonte que jorra, ambivalente, marejados de sono, navegamos — que esse rio de amor e de abandono seja leito comum para quem morre. Impelidos à margem da corrente sacudimos a tarja temporária e a alma se evapora: tarlatana sobre a nossa nudez contraditória. Na umidade do riso, no desejo impreciso e profuso, pelo pranto que no calor das órbitas poreja, Ah, transidos de frio, patinamos entre quiosques, domos e coretos sem nada surpreender ou consumar. SALA DE VISITA De braços abertos O tempo fica parado Forrado de branco. SALA DE JANTAR A mesa mastiga Léguas de fome. Ponteia A toalha, a mosca. SALÃO Fechado em si mesmo Opacidade dos olhos No espelho do assoalho. BIBLIOTECA Que importa os livros: A curiosidade espia Os bichos, ao vivo.

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OLGA SAVARY

(1933/2020)

Poeta nasceu em 21 de maio de 1933, Belém do Pará, e faleceu em 14 de maio de 2020, em Teresópolis, Rio de Janeiro. Seus livros publicados, pessoais e coletivos, somam mais de 1500, em poesia, conto, romance, crítica e ensaio. Recebeu 60 dos mais importantes prêmios literários do Brasil e do exterior, entre eles o Jabuti (Câmara Brasileira do Livro), APCA, 20 prêmios UBE/RJ, UBE/SP, vários da Academia Brasileira de Letras, Prêmio Internacional Brasil-América Hispânica etc. Seu nome e obra aparecem em mais 300.000 citações na internet.

LIMITE Ausente e lassa, queria estar pisando a areia fina de Arraial do Cabo, a areia grossa de Amaralina, em Goiás Velho urdir a tarde com Bernardo Élis e Cora Coralina, farejar cheiro de candeia por toda Ouro Preto... mas estou presa às molduras de todos os meus retratos. LIBERDADE CONDICIONAL Que eu toda me torne desterro, lugar de exílio, exílio em ti; meu corpo é um edifício erguido com vista para o mar, ou seja, como o mar rodeando a ilha, todo com vista para ti. Que sejas a tensa corda do arco só a atirar – único prazer da memória – setas não para a altura mas em única direção abaixo da minha cintura. E te amo morto ou vivo com a certeza de quem sabe do grande fogo das vísceras, cartas marcadas de risco, cujo mapa é só abismo, precipício onde se cai de mãos dadas com o perigo e as sete quedas do vício. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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LUPE COTRIM GARAUDE (1933/1970)

Poeta paulistana estudou literatura, línguas, artes. biblioteconomia e iniciou curso de filosofia na USP. Em 1961, fez um programa de TV, que a projetou publicamente. Em 1965, lançou seu primeiro livro de poemas, Monólogos do afetoe viajou para o Chile onde conheceu o poeta Pablo Neuda. Seu último livro, Poemas ao Outro, conquistou o prêmio governador do Estado. Em 1968 integrou a equipe de professores-fundadores da ECA, lecionando Estética e Pensamento Filosófico.

SAUDADE (a Guilherme de Almeida) A saudade é o limite da presença, estar em nós daquilo que é distante, desejo de tocar que apenas pensa, contorno doloroso do que era antes. Saudade é um ser sozinho descontente um amor contraído, não rendido, um passado insistindo em ser presente e a mágoa de perder no pertencido. Saudade, irreversível tempo, espaço da ausência, sensação em nós premente de ser amor somente leve traço num sonho vão de posse permanente. Saudade, desterrada raiz, vida que se prolonga e sabe que é perdida. ARS POÉTICA Da desordem nunca erguerei um verso. Bem sei que na bela superfície de um momento, existe o alento da Poesia. Mas é do futuro, é do instante que serve a continuidade da vida em sentimento, que desejo o meu poema. O Homem, sofrido a prosseguir na sua eternidade construída — — eis o meu tema. 72

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MARIA JOSÉ GIGLIO (1933)

Poeta paulista, publicou em sua trajetória de mais de 50 anos de poesia quase 20 livros. Versos a um Polichinelo (1958) registra a sua estréia. Participou de antologias e foi traduzida para o italiano, espanhol, inglês, francês e até hungaro. Ativista literária, organizou eventos, criou prêmios e fundou a casa do escritor(1982) em São Roque. Outros livros da autora: Labirinto(1964), 5 Elegias( 1972), Salmos abstratos(1974) e Não(1986).

OPUS VI Ouço trovões como tubas alardeando a chuva Ouço glicínias glissando no terraço e a natureza assente ao drama de si mesma. Ouço o silêncio do mundo. OPUS XVII Toca a vespa no vidro fixo da janela uma fuga impossível. Rascante rumor de patas na transparência falsa. Escala repetida sem escape ou pausa. Em surdina agora inútil o par de asas.

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MARLY MEDALHA (1934)

Poeta fluminense, licenciou-se em letras e trabalhou como jornalista durante vários anos em São Paulo. Foi diretora do Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, em Niterói. Publicou: A Canção da Ternura Inútil (1961); Queima-Sangue de Narda (1973); Lírica de Antonha do Céu por Raimundo Vira-Flor (1975),cordel. Participou de várias leituras públicas de poemas com o grupo Catequese Poética, nos anos 60.

CANTIGAS DA BENDIÇÃO E repousada em ti me tenho como um pombo no ninho. Nem te faço de correio, nem te arreio, és passarinho. Passarinho, passarminho, entre as penas do arvoredo, Francis Hime, arvorinho, passarinho, passaredo. Quando tu voas, eu vôo. Se desfaleces, te aqueço. Ah, passarinho-do-vento, passarinho-do-moinho, pombo-sem-pombo-correio, só por ser teu alimento enfeito a casa de milho, forro de folhas por dentro. Por te amar, não tenho pena, por cantar, perdi meu medo. Que te olhando eu viro um ninho. Tenho bem mais que mereço.

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ADÉLIA PRADO

(1935)

Poeta mineira, estreou tarde: tinha 41 anos quando publicou o primeiro livro: Bagagem. E assim mesmo, graças à intervenção de Drummond, que ficou encantado com seus poemas e enviou os originais, com um bilhetinho, ao editor Pedro Paulo de Senna Madureira. O que mais chama a atenção em seu trabalho é o cotidiano percebido com perplexidade, a revalorização do feminino e a religiosidade vivenciada no dia-a-dia, na mesa, na cama, na cozinha.Alguns de seus livros de poesia: O coração disparado, (1978), A faca no peito, (1988), A duração do dia, (2010). Foi traduzida para vários idionas e escreveu uns 8 livros de prosa.

NEUROLINGUÍSTICA Quando ele me disse ô linda, pareces uma rainha, fui ao cúmice do ápice mas segurei meu desmaio. Aos sessenta anos de idade, vinte de casta viuvez, quero estar bem acordada, caso ele fale outra vez. IMPRESSIONISTA Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante. Por muito tempo moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo. ENSINAMENTO Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo: “Coitado, até essa hora no serviço pesado”. Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente. Não me falou em amor. Essa palavra de luxo

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IVETE TANNUS

(1936/1986)

Poeta paulista, professora universitária, socióloga e pedagoga. Estreou, em 1960, com A violeta e o espelho. Seguiram-se A irmã escolhida(1961), Canto de Amor e Morte para um rei(1963), Eu do teu ser(1964) e O poeta e a Origem(1966). Teve vários poemas traduzidos para o francês, inglês e espanhol. E participou de diversas antologias. Obteve boa repercussão crítica nos anos 60. E esteve presente no lançamento dos meus primeiros poemas publicados: 4 novos poetas na poesia nova, 1965, Livraria Atrium.

A DANÇA DOS CIPRESTES Sou apenas uma mulher pequena que escuta o nascimento das plantas Sem entender-lhes o diálogo. Sou pequena e estou cansada de interrogar-me, De perscrutar sempre as mesmas coisas Para sempre descobrir que os homens são tristes. Ah, meus irmãos A estrêla se aproxima Para nunca mais regressar. Ainda bem que a noite desceu E o luar me visita em casa É ele que me deixa nua Enquanto os ciprestes bailam. PROFISSÃO DE FÉ Amo-te, Musa Espumosa e leda Mas de músculos de aço e hálito forte De pudor e pétala. Amo-te a efígie Em que nasce o Mistério E a raiz da Música. Quero-te límpida e concisa Como a Morte Mas não apenas mensageira da angústia Que o Destino põe no meu cabide Como um chapéu de outono

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DARCY DENÓFRIO (1936)

Poeta goiana, professora universitária, ensaísta e autora didática. Estréia como poeta com o livro Voo Cego(1980) que conquistou o prêmio Cora Coralina/UBE, em 1982. Seguem-se outros: O risco das palavras(1982), finalista da I Bienal Nestlé de Literatura; Amaro mar(1988) e Ínvio Lado (2000); Poemas de dor & ternura (2008) e Uma voz e o silêncio (2014).

POEMA DA DOR SEM NOME Essa mágoa dói tão fundo como se houvesse perfurado o abismo interior de meu mundo. Dela, não serei vassala só quero lançá-la como um fio infinito que se joga no abismo até vomitar de vez o início da ponta. Depois, chegar à íntima alegria sem sentir a broca perfurando a rocha de meu poço artesiano. À alegria de alcançar as águas tranquilas minhas mais profundas reservas humanas. E ouvir o íntimo silêncio águas entre rochas calcárias sem nenhuma pressa águas que não estremecem nem trincam o espelho da alma. PONTO FINAL Se não há mais nada a fazer é isto mesmo - em frente. Não importa a direção a que se ande (já disseram) desde que seja para frente. Se a última palavra já foi pronunciada não cabe vírgula nem outros sinais de pontuação AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA a não ser o ponto final ENFRENTE!

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ASTRID CABRAL (1936)

Poeta amazonense, radicada no Rio de Janeiro, é professora e tradutora. Foi dos primeiros docentes da Universidade de Brasília, de onde saiu em 66 em consequência do golpe militar. Oficial de Chancelaria do Itamaraty serviu por 20 anos em Brasília, Beirute, Rio e Chicago. Detentora de inúmeros prêmios: dois da Academia Brasileira de Letras. Publicou 16 livros, dos quais 2 no exterior. Já representou o Brasil em 4 encontros internacionais de poesia nos EUA e Europa. Viúva do poeta Afonso Félix de Sousa, é mãe de 5 filhos.

A CASA NO BREU Faz tanto tempo que deixei aquela casa. Confesso: não sei mais da estrada nem da chave. É como se ficasse em cidade sem nome, em outro planeta ou nem existisse mais. No entanto não sei como de vez em quando algo me arrebata e me arrasta ao seu regaço de breu. Tudo o que eu ouço é o vôo cego dos morcegos no vão das telhas e uma torneira pingando sem parar. Será o choro de minha mãe na sala ou serei eu mesma em pranto? CORAÇÃO COURAÇADO Tempestades em oceanos ou em copos d’água e não peço a Deus balsas barcaças nem praias. Só um coração couraçado. Desses que no lombo das ondas vão sem tombos o convés em festa. Iluminado. BAINHA ABERTA Crava em meu corpo essa espada crua. Quero o ardor e o êxtase da luta em que me rendo voluntária e nua. Meu temor é a paz pós-união: desenlace derrota solidão. 78

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MARINA COLASANTI (1937)

Poeta ítalo-brasileira, jornalista, escritora, roteirista e artista plástica. Nasceu na então colônia italiana da Eritreia. Viveu sua infância na Líbia e então voltou à Itália onde viveu onze anos. Só em 1948, transferiu-se com a família para o Brasil, onde vive até hoje na cidade do Rio de Janeiro. É casada com o também escritor Affonso Romano de Sant’Anna. Recebeu quatro prêmios Jabuti: poesia, crônica e literatura infantil. O primeiro livro de poesia é Cada Bicho seu Capricho (1992). Na sequência vieram muitos outros: de contos, crônicas e de poesia infantil. Um dos mais recentes é Passageira em Trânsito (2009).

SEXTA-FEIRA À NOITE Sexta-feira à noite os homens acariciam o clitóris das esposas com dedos molhados de saliva. O mesmo gesto com que todos os dias contam dinheiro papéis documentos e folheiam nas revistas a vida dos seus ídolos. Sexta-feira à noite os homens penetram suas esposas com tédio e pênis. O mesmo tédio com que todos os dias enfiam o carro na garagem o dedo no nariz e metem a mão no bolso para coçar o saco. Sexta-feira à noite os homens ressonam de borco enquanto as mulheres no escuro encaram seu destino e sonham com o príncipe encantado. ANTES QUE Preciso ler um bom poema antes de dormir antes que a noite escorra o diário inventário das lembranças antes que o sono cale a boca e olhar, antes que o prumo caia horizontal. Preciso ler um bom poema antes que seja tarde que fique escuro que chegue o frio. Ler um bom poema antes que a morte venha e escreva o seu. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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MYRIAM FRAGA

(1937/2016)

Poeta baiana, foi escritora, jornalista e biógrafa. Tem 20 livros publicados, entre poesia e prosa. Pertenceu à Academia de Letras da Bahia e ao Conselho de Cultura do Estado. Participou de várias antologias no Brasil e exterior, tendo poemas traduzidos para o inglês, francês e alemão. Entre suas recentes publicações: Poesia Reunida (2008) com o conjunto de sua obra. Seu primeiro livro, Marinhas, de 1964, tinha alto padrão gráfico, tiragem pequena e orientação artística do famosogravador Calasans Neto. Foi diretora da Fundação Casa de Jorge Amado desde sua instituição, em julho de 1986.

PERSPECTIVA Este é um mundo-limite (A que me oponho) De ciciadas palavras, De mesuras, De faces decalcadas De outras faces E de sentenças duras. Este é um mundo-mentira (Não me enganam) Da espiral de cinza. Do frangalho do sonho. Onde a espera faz-se inútil E o tempo é nada. Mundo-agora. O demônio com seus filtros O desvairado cachorro. Sua matilha. Semeando este chumbo, Esta ameaça. Duro é o espreitar do olho Em cada face. Na boca devastada A fome pasce E a mão ensaia o gesto E se disfarça. MINOGRAM Não te mires no espelho Côncavo das virtudes. Esquece o labirinto. Não cogites, Devora 80

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LÉLIA COELHO FROTA (1938/2010)

Poeta carioca, escritora, antropóloga e crítica de arte, foi responsável pelas representações brasileiras nas bienais de Veneza de 1978 e 1988 e curadora da exposição Brésil, Art Populaire Contemporain, no Grand Palais (Paris, 1987). Recebeu os prêmios Jabuti e Olavo Bilac (Academia Brasileira de Letras) pelo livro de poemas Menino Deitado em Alfa (1978).

9 PROJETO Sim, iremos para a América do Sul para as quadras de tênis vazias para os parques de diversão silenciosos movidos pelos anúncios luminosos. PRINCÍPIO A morta abriu o dia radioso com a cortina da sua despedida. Partiu no meio os cabelos vagarosos escorrendo ainda de lembranças, vestiu o vestido precioso e saiu à procura, sôfrega, de outras tantas, verdadeiras vidas. UMA DOR Acordar é fechar as pálpebras. Nossos olhos só escrevem por cima, muito por cima. E quando abrimos as janelas É só o vento que está ali. Existe uma dor solta no mundo. E eu quero deixar meu emprego, meus cabelos minha família para ir atrás dela bicho com fome.

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LAURA ESTEVES (1938)

Poeta carioca, faz parte do grupo Poesia Simplemente. Seu primeiro livro de poemas, Transgressão, foi publicado em 1997. O segundo, Como água que brota na fonte, em 2000 . O terceiro, Rastros - poemas escolhidos, em 2006, Finalmente, em 2008, Cinquenta poemas escolhidos. Foi curadora do Forum Poesia ( UFRJ, em 2005, 2006 e 2007), e uma das premiadas do “Concurso Contos do Rio”/2004, do jornal “O Globo”.

COMUNHÃO Minha caneca de ágata era de um azul-que-não-mais-existe. Agora, só na minha memória, nesta vontade de voltar ao Engenho-Novo, puxar a saia da mãe e receber a caneca de suas mãos: o pão molhado no café-com-leite. Minha hóstia. Aqui, mãe: eu necessito. LOBISOWOMAN Desvairada, arranho tua aura com unhas de siamesa. Corça, atravesso tua rua e teu corpo de um salto. lambo tua nuca com língua de tigresa. Estraçalho tua roupa com meu canino dente. Égua, te enlouqueço em meu galope. Saciada a fêmea, me protejo em teu colo: mulher/menina/adolescente. Ah! Mas, não tem jeito... é da minha essência, da minha natureza. Me transformo, novamente: gata/corça/cadela/égua/tigresa. E, te devoro num instante, com unhas, dentes/tridentes, nessa mesa de banquete.

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MARLY DE OLIVEIRA

(1938/2007)

Poeta capixaba, viveu no Rio de Janeiro e foi professora de língua e literatura italianas e de literatura hispano-americana. Publicou, entre outros, os livros: Cerco da Primavera (1957), Explicação de Narciso (1960), A Suave Pantera(1962), A Vida Natural e O Sangue na Veia(1967), Contato e Invocação de Orpheu (1975), O Mar de Permeio(1998) e Uma vez, sempre (2000). Quando jovem estudou língua italiana e filologia românica na Universidade de Roma.E seus poemas escritos na língua de Dante conquistaram o poeta Giuseppe Ungaretti: “É um milagre, simplesmente poesia em um italiano luminoso.” Marly foi casada com João Cabral de Melo Neto.

MINHA FELICIDADE VEM DE QUANDO ESTOU SÓ Minha felicidade vem de quando estou só e ninguém me interrompe no poema, essa espécie de transfusão do sangue para a palavra, sem qualquer estratagema. A palavra é meu rito, minha forma de celebrar, investir, reivindicar: a palavra é a minha verdade, minha pena exposta sem humilhação à leitura do outro, hypocrite lecteur, mon semblable. O SANGUE NA VEIA (XXV) Escrevo; logo, sinto, logo, vivo, e tiro-lhe ao viver a indisciplina que o espraiaria, que o dispersaria, e dou-lhe a minha forma comedida, a que tem o tamanho de um amor que eu guardo, que não gasto, não disperso; amor que se concentra em dura pérola, não pétala, não isto que é um excesso, pois que pode voar; o que me fica de tudo o que acontece e não se altera, de tudo o que acontece e me escraviza, e do que escravizando me liberta. Escrevo; logo, sou quem se domina, e quem avança numa descoberta.

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LENILDE FREITAS (1939)

Poeta paraibana, é tradutora, fez mestrado em Teoria da Literatura pela UFPE e especializações em poesia pela Universidade Vanderbilt (EUA).. Estreou em livro em 1987 com Desvios. Depois vieram mais 5 livros de poemas. Esboço de Eva (1987); Cercanias (1989); Espaço Neutro (1991); Tributos (1994) e Grãos na Eira (2001). Conquistou vários prêmios literários: “All Nation Poetry Contesf (USA); “Prémio Emilio Moura de Poesia” (MG),”Augusto dos Anjos” (PB), “Arriete Vilela” (AL), “Prêmio Pasárgada” (SP), “Nestlé de Poesia” (SP).

A FERNANDO PESSOA Não é disso que estou falando nem do silêncio presente nesta sala em que os pensamentos entram igual moscas e pousam onde querem. Não é disso nem de tarde que mastiga devagar o que resta da hora e o vento procura, procura lá fora não se sabe a quem. Falo do teu sonho ancorado nas alturas e desta porta aberta a esperar ninguém AQUÁRIO O amor em mim está maduro como um peixe. De tanta água repleto, ele não nada. Pesado cochila sob pedras — completo. MOMENTO ÍNTIMO O cheiro de café passa e para junto à tosse metálica que golpeia o meu nervo acordado. O mar — espelho de Deus — se contorce. Aproximo-me da vida e ilumino o abismo que me tira o fôlego. Uma cigarra toca seu clarim — acorda os que dormem dentro de mim. 84

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MARIA CARPI

(1939)

Poeta gaúcha, é advogada, professora e defensora pública. Estreou madura com o livro de poemas Nos Gerais da Dor, 1990, premiado como revelação pela APCA. De lá para cá são 10 obras, entre elas Os Cantares da Semente (1996) A Migalha e a Fome (2000), A Força de Não Ter Força (2003), O Herói Desvalido (2006), A Chama Azul (2011) O Senhor da Matemática (2012) e O perdão imperdoável(2014). O reconhecimento da crítica veio através dos diversos prêmios recebidos pela poeta. Entre eles, figuram a Menção Honrosa no Casa de las Américas/1999, em Cuba, pelo As Sombras da Vinha.

A semente é uma fenda no tempo. A única fenda. Viver não nos salva. Morrer não nos liberta. A porta é estreita e semente. O AVENTAL No centro da casa, uma vertente. No centro do movimento, o avental de minha mãe. As toalhas jamais sabiam secar-me. Ali acalmava as mãos interrompidas de voar. Ali as lágrimas e toda a trégua. A PÁGINA BRANCA E A MIGALHA(poema 19) Só a página te dará a saber que estás despido. Tão penúria que começarás a revesti-la. Só a página te fará perceber que estás distante. Tão lonjura que começarás a visitá-la. E quanto mais te familiarizares com a página, mais ela te será um amor escuso, com cadeados entre as vielas tortas e sua paz secreta. Com cancelas entre a querência e seu pampa aberto. Ela recôndita e real; tu amador, viajante incerto, trôpego de propósitos, chegando a parte alguma. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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EUNICE ARRUDA

(1939/2017)

Poeta, pós-graduada em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, começou a publicar em 1960. É Tempo de Noite foi seu livro de estréia. Seguiram-se mais 11 livros de poemas, além de antologias publicadas nos EUA, Canadá, França,Uruguai. Já foi diretora da UBE e do Clube de Poesia de São Paulo. Ganhou em 1974 o prêmio Pablo Neruda (Argentina) e, em 1997, o de Mérito Cultural da UBE, Rio de Janeiro. Coordenou projetos de divulgação de poesia, deu palestras e organizou oficinas literárias. Seus verso, sempre curtos, são muito bem trabalhados e dâo luz às palavras,

UM VISITANTE Quem escreve é um visitante Chega nas horas da noite e toma o lugar do sono Chega à mesa do almoço come a minha fome Escreve o que eu nem supunha Assina o meu nome ERRO Edifiquei minha casa sobre a areia Todo dia recomeço OBSERVANDO sim há as horas de trégua Quando se afiam as facas A TERRA É REDONDA Se corro corro o risco de chegar Ao mesmo lugar 86

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STELLA CARR

(1939/2008)

Poeta carioca, veio para São Paulo com 4 anos e daqui nunca saiu. Estudou línguas, literatura, artes gráficas, antropologia e pré-história. Escreveu três livros de poesia, ilustrados por ela mesma: Tres viagens em meu rosto(1965), Matéria de abismo(1966) e Caderno de capa azul(1968)em coautoria com crianças. Por esse livro conquistou o Jabuti, em 1969, ano em que passa a escrever para jovens, dedicando-se inclusive à série juvenil de livros policiais e de suspense. Publicou mais de 40 livros nessa área e ganhou mais um Jabuti pela obra Acordar ou Morrer. Participou de leituras públicas de poesia com a Catequese Poética, nos anos 60.

A CORRENTE Um rio imita o Tempo. Quanto passa, caminho de água na margem da água, corrente, minuto impossível — elo. Um rio corta veia rua cadeia-viva a hora-morta de nem hoje ou amanhã. Um dia-tempo não, luz. Um rio flui infinito, cordilheiras, planícies, movimento no fundo do aquário redondo — rotação-translação. Um rio-rua com holofotes nos olhos fortes de luzes — tráfego — de milhões de seres transeuntes. Passam, postes, pastam — rebanhos enrolam a lã luminosa, uns atrás dos outros. O rio imita a rua. O mar imita a terra. O peixe imita o homem. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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HELENA ARMOND

(1940/2014)

Poeta mineira radicada em São Paulo, publicou quase duas dezenas de livros de poesia. Já foi premiada pela APCA, mas viveu distante das badalações literárias. Já lançou livro em supermercado, sem avisar ninguém. É artista plástica também e já se apresentou em salões e galerias.Participou de uma das Bienais com uma instalação de protesto à sociedade de consumo. Valdir Rocha, escultor e editor, disse coisas interessantes sobre ela: “é uma figura curiosíssima, não tem o verniz da cultura dita convencional, é uma intuitiva e uma autora reclusa ou semi, por opção. E é também uma autora virtuosa e corajosa.”

NÃO CRIO TOLAS MENTIRAS Nem da verdade um vão a escandir cada verso arremedo em canto chão QUE TE SAIBAS TERRA Que te saibas água Que te saibas pedra que te saibas ser aos saltos de um girino a espermatozóide a centelha a ser uma estrela que erra... mas ilumina a terra PAZ já aqui e agora há paz ... no lá fora deveria haver floração de acácias ao vento filtrando um mantra... mais adiante há instantes variáveis de tumultos des-encontros... e insultos aos que comem pedra e se deliciam sem argumentos...envio um vale aos mantras redefinidos de cada grito há muito deixei as aquarelas pesquiso fractais da humanidade e...sem ruídos desço o vidro da janela

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LUCIA FONSECA (1940)

Poeta carioca, formou-se em história natural e trabalhou como pesquisadora em genética. Começou a escrever regularmente no início da década de 70, publicando poemas em suplementos literários de alguns jornais. Invenções do Silêncio (1980) é seu primeiro livro de poemas. Rede Fluvial (1983) veio na sequência e recebeu o prêmio Emílio Moura da Sec. de Cultura do Estado de Minas Gerais. O Paraíso era Antes(2008) é seu último livro. Antes dele, publicou em 2007, Cantares.

NOTURNO II Eu creio em noites Rainer Maria Rilke Aqui é noite. Definitiva noite como dentro de um fruto. Um peixe que se percebesse só no oceano talvez sentisse medo. E no entanto é só que ele nada o mais das vezes. Aqui é noite. Apalpo sementes no ventre escuro do sono. Tudo é tão quieto, calado, enrodilhado em pelúcia. Que longas, as gestações! O mendigo, o palhaço, o príncipe, o bêbado, o triste se fazem assim, no escuro — só mais tarde, sob as luzes serão coroados. Nessa hora, entre todas, a mais silenciosa, imóveis dormem sonhos e poemas — sementes na bruma. Ouvir-lhes o silêncio, o sono, confiar — eis tudo. ESTRADA Por todas as curvas do caminho há sempre um paraíso perdido, um amor abortado um podia ter sido aberto em flores vermelhas. Adiante o que é: áspera dormida estrada branca.

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NEIDE ARCHANJO (1940)

Poeta paulista, advogada e psicóloga. Estreou com o livro Primeiros Ofícios da Memória, em 1964. Em seguida, participou de alguns recitais junto com o grupo Catequese Poética. Criou, em 1969 o movimento poesia na praça, exposição de poemas na Praça da República. Em 1980 recebeu o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Poesia. Em 1995 foi indicada para o Jabuti, e em 2005 ganhou o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras. Sua obra reunida está no volume Todas as Horas e Antes, de 2004.

Solidão de árvore esperando o fruto. Solidão de Lázaro esperando o Cristo. Solidão de alvo esperando a seta. Ave, poeta. DA POESIA Esculpo a página a lápis e um cheiro de bosque então me aparece. Que a poesia é feita de romãs daquilo que é eterno e de tudo que apodrece. PROFUNDAMENTE Estão todos sentados esta noite. Estão todos sentados. A velha mesa respira mas nadas se aquieta. Estão todos sentados mortos e sentados. E este amor não basta para carpir os beijos os nomes os retratos.

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ALICE SPÍNDOLA (1940)

Poeta mineira, artista plástica e divulgadora cultural. Participou de diversas antologias, nacionais e internacionais e fez sua estréia em livro individual, com Fio do Labirinto(1996) já ganhando 2 prêmios: da UBE do Rio, e da Prefeitura de Macaíba, no Rio Grande do Norte. Publicou também livro de contos e O Loire – poema fluvial da França (2006). Vive em Goiás. A poesia dela é carregada de experimentalismos, mas sempre com os tons da simplicidade. O poeta Diego Mendes de Souza diz mais: “escreve doçuras sobre o Tempo, o rio de sua aldeia, a alma das coisas, a solidão e o silêncio do mundo. Há um livro de Alice intitulado O Araguaia - Rio & Alma de Goiás, que é uma rapsódia de encantamento.”

SEMPRE BUSCANDO A CANÇÃO ESQUECIDA No frêmito da ventura, a fuga e o retorno da imagem do pequeno barco. Imagem — fonte e oráculo — mergulhada na insularidade do mar de gestos e de palavras. Com a alma seqüestrada pela beleza do rio e pelo rumor de suas águas, o menino procura a canção esquecida. Menino parisiense voga nas milhas do sol. E O MEU AMOR É TANTO E o meu amor é tanto que, preso a rede deste encantamento, me faço Araguaia, também. Sim, ó, Araguaia-mar, eis o poder de teus enigmas! Um mar-oceano se adentra em mim. E eu, em mar, me converto. Mar de águas desafiantes. Mar que voga nas veias do meu canto.´

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ISABEL CAMARA

(1940/2006)

Poeta mineira, atriz e dramaturga bissexta. Com a única peça que escreveu, As Moças, ganhou o Moliére de melhor autor de 1970. Festejada nos meios cults do Rio e São Paulo, foi amiga de Bethânia, Chico e Tom, redatora da TV Globo e tradutora. Teve alguns de seus poemas incluídos na antologia de Heloísa Buarque de Hollanda, 26 Poetas Hoje (1975). Publicou Coisas Coiós, abandonou a badalação e foi morar incógnita em Goiânia, onde 12 anos depois veio a falecer.

QUEM Quem diante do amor ousa falar do Inferno? Quem diante do Inferno ousa falar do Amor? Ninguém me ama ninguém me quer ninguém me chama de Baudelaire LIGHT-COCK-SONG só para gênios, tímidos e alguns porcos chauvinistas desses que o padre vem me benzer todo dia, e que quando não vem ele cá vou eu lá: Leva este caralho compra-me um maço de cigarros Continental, umas cem gramas de alho e o tempero, que te der na cuca. E se o dinheiro render, um lacinho de fita de seda ou crepom. Depois, na saída do cinema, vem cedo pra casa, me leva pra cama, sem se esquecer que o alho é para um aglio-olio. ........................................................................................ ninguém morre ao travesseiro só os sonhos isto quando há travesseiro ou lojas cheirosas de tanto capim-do-pará murta macela... essas ervas que socorrem a Santa Mãe Natureza

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MARIA DA PAZ RIBEIRO DANTAS (1940/2011)

Poeta paraibana, viveu no Recife desde 1963. Foi mestre em teoria da literatura pela Universidade Federal de Pernambuco. É autora dos livros de poemas: Sol de Fresta, (1979), menção honrosa especial no Prêmio Fernando Chinaglia, da UBE do Rio e Ilusão em pedra, (1981). Participou de várias antologias de poesia e se tornou sinônimo dos estudos em torno do poeta Joaquim Cardozo. Publicou diversos títulos sobre o poeta, entre eles: O mito e a ciência na obra de Joaquim Cardozo, Joaquim Cardozo: Ensaio biográfico e Joaquim Cardozo: Contemporâneo do futuro. Editava e mantinha o site www. joaquimcardozo.com.

LITURGIA Com tuas longas vestes verdes te inclinas sobre o sangue das uvas. O céu e a terra tremem e o vinho reflete o abismo de Deus. Com tuas longas vestes verdes artesão da manhã solenemente ergues o Sol. O CAPIBARIBE NO RECIFE Nada mais doméstico do que esse boi manso pastando a si mesmo sob a canga das pontes. EDIFÍCIO DA SUDENE Na beira mar da seca o monumento às ondas.

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ADÉLIA MARIA WOELLNER (1940)

Poeta paranaense, advogada e professora universitária. Participou de diversas antologias. Pertence à Academia Paranaense de Letras e á Academia Feminina de Letras do Paraná. Estreou em livro em 1963 com a Balada do Amor Que Se Foi. Seguiram-se Nhanduti(1964), Poesia Trilógica(1972), Encontro Maior e Avesso Meu(1990), Infinito em Mim (2000) e Sons do Silêncio(2004). Algumas coletâneas de seus poemas, em edição de bolso, tiveram tiragens raras (tratando-se de poesia): 20, 40 e 120 mil exemplares.

POESIA Pássaro arisco, a poesia resiste à prisão na gaiola-poema. INDAGAÇÃO Vida: jogo de xadrez. Deverei aceitar, resignada, o limitado espaço que me foi r eservado nesse tabuleiro? CONQUISTA Joguei o laço, ajustei o nó; apertei o espaço e segurei o tempo. Onde e quando agora não existem. Basto-me eu só, na insistência em viver... MEMÓRIA ATÁVICA Em algum lugar deste infinito mistério - que é meu ser -, a emoção primitiva brilha e reflete a memória de todas as eras.

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ORIDES FONTELA

(1940/1998)

Poeta paulista, de origem muito pobre, viveu sempre em dificuldades financeiras. Aos 27 anos, depois de cursar a escola normal na terra natal, veio morar em São Paulo e realizar dois sonhos: entrar na USP e publicar um livro. Fez filosofia, exerceu o magistério e trabalhou como bibliotecária na rede estadual de ensino. Publicou cinco livros de poemas a partir de 1969.Parte de sua obra foi republicada em 2006: Poesia Reunida. Recebeu o prêmio Jabuti de Poesia, em 1983, com Alba , e o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1996, com Teia . Morreu em Campos de Jordão, aos 58 anos. em um sanatório.

FALA Tudo será difícil de dizer: a palavra real nunca é suave. Tudo será duro: luz impiedosa excessiva vivência consciência demais do ser. Tudo será capaz de ferir. Será agressivamente real. Tão real que nos despedaça. Não há piedade nos signos e nem no amor: o ser é excessivamente lúcido e a palavra é densa e nos fere. (Toda palavra é crueldade) TEIA A teia, não mágica mas arma, armadilha a teia, não morta mas sensitiva, vivente a teia, não arte mas trabalho, tensa a teia, não virgem mas intensamente prenhe: no centro a aranha espera. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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ELIZABETH VEIGA (1941)

Poeta carioca, estreou em livro em 1972, com o volume Gosto de fábula, chamando a atenção de alguns poucos críticos. Vinte anos depois veio A paixão em claro. Talvez o tempo transcorrido, entre uma publicação e outra, explique o apagamento de seu nome. Mas não justifica. Mais dez anos se passaram para a publicação de Sonata para Pandemônio(2002).E em 2007, ela trouxe à luz seu último livro:A estalagem do som.

O AMOR O amor subverte todos os espaços, ocupa o relógio inteiro: explode as horas que não são suas. O amor dissolve o diário, calendário, lenda, brinca do que não existe. O amor rasga o fogo com os dentes: a surpresa ilumina. SONATA ACHINCALHADA 1 (coisas de superegos)

Canonizaram o esqueleto da burra. Entronizaram-lhe os quartos traseiros num andor. Suas mandíbulas atarracadas silvam bênçãos. Condenaram-na ao inferno. 2 (esquisitices de ego)

Na algibeira da muleta carrego a panela de pressão social fervendo, e uma xícara de chacota sem açúcar. E resfolego, mula, sem pretender o Olimpo das belas letras, vou trôpega, vou pelo avesso empacada. Quem quiser que funcione: eu sou um parafuso a menos da máquina do mundo. 96

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YEDA SCHMALTZ

(1941/2003)

Poeta e ficcionista pernambucana, ensaísta e expert em artes plásticas. Já morou em Recife, Rio, mas viveu sempre em Goiânia, onde faleceu prematuramente. Dedicou-se à docência superior nas áreas de estética, história e sociologia da arte. Estreou em livro com Caminhos de Mim (1964). Já publicou mais de dez livros de poemas e recebeu vários prêmios (APCA,1985; Remington-RJ, 1980). Alguns títulos: Anima Mea(1984),Prometeu Americano(1996), Vrum(1999) e Chuva de Ouro(2000).

PLANALTO CENTRAL Se eu abrir esta janela, não mais verei o mar salgado e as montanhas e não verei as praias com suas conchas, os veleiros, as brumas, tana espuma e nem o encanto alegre das amendoeiras. Se eu abrir esta janela, verei mongubas e paineiras; nenhuma pedra ou montanha: árvores baixas, retorcidas, parecendo um sofrimento, verei águas azuis e doces, sem balanços e um sol, um sol de tudo, um sol de rei. Se eu abrir esta janela agora, enxugando com as costas da mão o suor da testa, de certa forma, apertando os olhos, me verei: é assim o mundo que eu entendo e gosto— meu mar salgado é no rosto. AMOR Amor, se houve, eu tive. De lembrar o amor em poesia, minha alma sobrevive. MINHA ALMA É TRISTE Minha alma é triste como o cerrado goiano. Minha alma existe sem ter achado o que amo. Minha alma insiste ao menos na beleza: poemas feitos de hibiscos — brincos rubros de princesa. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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KÁTIA BENTO

(1941)

Poeta capixaba, cursou enfermagem no Rio e fez parte do grupo AdVersos até meados de 1972. Participou da antologia Las Voces Solidárias, Buenos Aires (1978) e conquistou destaque com vários poemas-postais. Publicou: O azul das montanhas ao longe(1968), Principalmente Etc(1972), Contrafala(1980) e Romanceiro de Amuia(1980).

NOSSA SENHORA DA TELEVISÃO Esta imagem entronizada na sala manda que cales. Com sortilégios lança quebrantos luzes que tonto comes e bebes. Ela decide teus gestos, dita o prato do dia te veste e doma :esta imagem fria da redoma. O VENTILADOR Com todas as letras espalha-se o vento. e se pronuncia sutil movimento :cabelos flutuam papéis esvoaçam as coisas em leque dançam no espaço Mas vem uma pausa na eletricidade e o sopro suave já nada ventila. E a dor outra vez é a súbita sílaba que pousa na pele se finca e fica.


DORA FIGUEIRA LOCATELLI (1941/2014)

Poeta mineira, fez mestrado em língua e literatura brasileira pela UFRJ --e vive no Rio de Janeiro. Em 1971, com os poemas ainda inéditos de Árias em Solidão Maior, conquistou o prêmio Fernando Chinaglia, da UBE. Onze anos depois, ganhou o mesmo prêmio. Mas, desta vez, com os contos de Abre a Janela, Maria! Participou da coletânea Com a Boca no Mundo(1985) e da antologia Sete Vozes(2004). Seu livro de estréia A Raiz do Tambor só foi publicado em 2011.

DESTEMPERO Canto como quem risca a pedra, (Hilda Hilst) Nunca serei comedida. Do tronco velho de meus versos as palavras escorrem dilacerações sem pudor secreções de morte e vida. Sou um animal comovido. FIM DE SEMANA Despeço-me do mundo como quem arruma bolsas para um fim de semana. A vida abriu a boca e ouvi verdades desconhecidas. Calço pantufas e flutuo serena sem pressa. Feito um pássaro que abre as asas e se dilue no horizonte. Despeço-me numa paz silenciosa. VISITA — Menina, pega no cabideiro o chapéu do compadre que ele já vai com pressa! No feltro do chapéu do compadre um cheiro entranhado de suor salgado. Aroma desconhecido. Naquele chapéu descubro o cheiro de homem e era tão bom e com tanta gula cheirava que em encantei até o pecado. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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ELIANE ACCIOLY (1941)

Poeta mineira, é artista plástica, psicanalista, mestre em psicologia clínica, doutora em comunicação e semiótica, pela PUC de São Paulo. Coordenou oficinas de poesia, nos anos de 1994 a 2001. Em novembro de 2003, como poeta convidada, apresentou seus poemas no XI Encontro Internacional de Mulheres Poetas, em Mixteca, México.Publica em revistas científicas e tem poemas, artigos e livros traduzidos ao espanhol, francês e inglês.

QUARTETO quatro ouvindo violino solo só quatro chorando na platéia c(h)oro O MENINO E O MEDO para Gianluca um mosquito entra em casa um avião invade o quarto um helicóptero pousa no peito entre pêlos e arrepio o grito morre na hora da guerra mãe não socorre A SURPRESA O gato-maravilha que em mim morreu retorna às vezes, cara redonda e invisível Sombra errante corre a saudade de bandos vadios e arrepia as ruas de meu corpo Lábio de lua crescente fixo só na aparência ri de mim, Alice, prisioneira dos contrários, o país dos espelhos onde me extravio na aprendizagem banal e mágica de ser humana

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LECY DELFIM VIEIRA (1942)

Poeta mineira, autodidata, dedicou-se à prosa de ficção e à poesia, com textos que fogem ao padrão de seu tempo, construídos com muita imaginação e qualidade. Deixou obras inéditas: Rua sem elevadores, 8.511.965 km2 de omissão, PAN-Pressão atmosférica normal, Mulher setentrional, Ensaios-Menina e Paródias do gigante líquido. Morreu no Rio de Janeiro em 2008.

MENINA Nº 3 Menina gozado não? o que aconteceu ao vagalume. Bastou, como tu disseste, uma leve batida e ele morreu. Menina trágico não? que ele tenha morrido porque nenhuma batida é leve. Mas vê menina, esta luz dele é só dele. Até agora mesmo pois mesmo agora ele já te pertence. Cuidado, cuidado ao pegá-la. Ela clareia Menina. E é sempre assim. A luz ilumina. A luz ilumina. A luz ilumina. A luz ilumina. A luz i A luz é dele mas não é por ele. E sempre ele soube. A luz é sempre para os outros. Que importa que eu ou ele seja cego? Estas luzes, a minha e a dele, não são por mim ou por ele. São por ti Menina. E ainda agora – e será sempre assim – eu as darei a ti. Mesmo que não voltasses a ser séria, morena e doce eu as daria a ti porque quando eu cismo de dar eu dou Menina. Nem que seja a primeira coisa que eu faça e a última que eu dê eu dou Menina. Não arregales os teus dedos pálidos pois que ficas vesga. Junto as minhas luzes às do vagalume e as baixo para ti. És tão pequena Menina! No entanto, eu não as dou por bondade ou amor. Eu as dou porque são minhas apenas. E cuidado Menina que elas queimam se não são por ele e elas ilumiam se não são por mim e elas obrigam se são por ti Menina. Minha Menina de mil cabelos curtos e duas luzes. ...............era uma vez um vagalume que morreu não porque POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA 101 perdeuASaMULHERES luz............


AGLAIA SOUZA

(1943)

Poeta carioca, contista, musicista e professora universitária. Participou de inúmeras coletâneas de poesia e de contos. Estreou em livro com Gota de Barro (1982). Além desse livro, tem publicados os seguintes títulos: Artesã(1989), Murmúrio(1993), Rondó ao Mar(1996) Canção Tagoriana(2000) e Cantaria (2010). Vive em Brasília.

O ESPELHO O espanto do idoso frente ao espelho justifica o tempo que parou — dentro do peito e da mente insone. Onde fica o tempo que passou? GOTA DE BARRO Criação. Criar do nada — do quase nada —, do barro. Esbarro nas palavras, criando barreiras, barrancas, barragens, diques, comportas estanques, tanques, água, limo, barro. Esbarro outra vez na terra. Molhada. Pingada. Suada. Um pingo que cai. Uma gota de barro. Criada. Sem forma. Só som. Da queda. No barro. CANTABILE O chão canta um canto de dor se passa, rasteiro, passageiro cantor. A voz leve enleva e some: só fica nos ares um aroma e um nome.

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IEDA ESTERGILDA DE ABREU (1943)

Poeta cearense, advogada, jornalista e compositora. Residiu em Brasília nos anos 60 e vive em São Paulo desde 1974. Já publicou quatro livros de poemas, entre eles Grãos – poemas de lembrar a infância (1985) e A véspera do grito (2001).

Me espanto, me perco, me acho, me refaço em qualquer lugar me largo, me deixo, me entrego, me desvelo aqui ou lá me bato, me estrago, me reparto e despedaço me sento, me enxergo e considero: o que que há? Me enraízo, me escravizo, me divido e multiplico em qualquer ar me esqueço, me comovo, me morro e sou de novo em qualquer lugar. P DE PALAVRA E PEDRA Palavras às vezes pesam como pedras ferem a boca como pedra que se mastiga. Agudas, acertam rápidas como pedras dirigidas esfriam como pedras frias na boca ressentida pensam e pedram como pedras no caminho. NADICES Brinco com a razão não tenho idade nem sexo o real é invenção já foi e continua sendo nada. Não perco o senso sou o que penso.

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ANA NEUSTEIN

(1943)

Poeta mineira, cursou filosofia na PUC, em São Paulo, cidade onde vive há muitas décadas. Filha do poeta Dantas Motta, conviveu no meio intelectual, escreveu e guardou seus escritos por quase 50 anos. Só recentemente, seguindo sugestão de amigos, resolveu divulgar os seus escritos guardados. Eles foram selecionados e reunidos no livro Poemas(2012).

ESPERANÇA A esperança é tirana Anda mal acompanhada Passeia com doenças e infortúnios Proíbe-nos de olhar o irreversível Adia os finais É brasa encoberta Cega suas vítimas É agente dupla Conhece técnicas de tortura Enfeita as dores Esconde a morte Promete o impossível Mas... é vital como o Ar É verde Esmeralda bruta e bela. VISITA Diga que sou bem-vinda e me ofereça um café Quando a colher girar na xícara Ela se transformará numa caixinha de música E a colher numa bailarina. PERDA Você sabe? É claro que você sabe Toda perda é como um caroço de abacate. Não passa na garganta. Só resta colocá-los na água Pra ver se brota.

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MARLY VASCONCELOS (1943)

Poeta cearense, é formada em Direito e ex-professora de literatura da Universidade Federal do Ceará, colaboradora de revistas e movimentos literários como Pássaro, Siriará, O Saco. É imembro da Academia Cearense de Letras e publicou Água Insone, (1973), Cãtygua proençal,(1985), Sala de retratos (1998), Azul-Cobalto (2002) e Solitário Bandolim (2010), seu livro mais recente. Em prosa, publicou o romance Coração de Areia (1989), menção honrosa no Prêmio Graciliano Ramos da UBE do Rio de Janeiro. Um de seus ttemores é o de profanar a palavra. “Eu respeito muito a palavra, por isso não publico tanto”.

VERBUM Uma época escrevi estórias com tanta ansiedade que não podia comer uma maçã. Não havia tempo para o detalhe. Palavra, eu fui palavra. Poderás avaliar o que é ser palavra? Fecha os olhos e compõe com tuas lembranças um território exaurido e descarnado, pasto de animais melancólicos, lagoas, cacimbas secas. Na terra, debaixo da oiticica, um monte de ossos. Preço que paguei sendo palavras. SILÊNCIO Atenta para a água que ressoa nos aquários, o caminhar de passos harmoniosos, pálpebras que baixam lentamente. Tudo prenuncia o silêncio. MEDUSA Estamos ligados pelo tédio. O parentesco que pode mais que a sensibilidade dos felinos, o vento, o grito das flores, a engrenagem dos algarismos. Estamos ligados pelo tédio. A terrível e impiedosa epidemia que se apossa da alma, encurva a sombra dos meninos, cega os que bordam as palavras.

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MIRIAN DE CARVALHO (1943)

Poeta carioca, ensaísta e crítica de arte, estudou história da arte, educação artística e filosofia, área em que defendeu tese de doutorado. Docente na UFRJ, lecionou estética. Em 1999, publicou seu primeiro livro de poesias: Cantos do Visitante (Edição da autora). Seguiram-se Teia dos Labirintos (2004), O Camaleão no Jardim (2005), Travessias (2006), Violinos de Barro (2009), Roteiro de Mitavaí(2012) e 50 poemas escolhidos pelo autor. Tive o privilégio de prefaciar seu último livro: Vazadouro(2013).

DESEJO À DISTÂNCIA Herdeiros do mito, eu Os escrevo na tela de cristal Onde os humanos são deuses Do desejo à distância. Ante a impossível proximidade Do corpo do outro, minha cabeça De serpente enrola-se na própria Cauda. Ás vezes (muitas vezes) Respirar é doloroso. INCOMPREENSÕES DO TATO Perdidas em meio à selva de códigos Deságuam cachoeiras de mensagens Que emergem entre estranhos na ânsia De algum projeto de encontro. Aperto de mão ou abraço não há. Troca de carícias não há. Olhar não Se completa se não aquele do voyeur Colecionando imagens do amor intocável. Às incompreensões do tato, O que sobrevive é cio. E poesia.

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RITA MOREIRA

(1944)

Poeta paulistana, jornalista, estreou muito jovem, com o livro Maria Morta em Mim(1962). Seguiram-se A Hora do Maior Amor (1965) e Perscrutando o Papaia (1999). Recebeu elogios de Menotti del Picchia e Paulo Bonfim. Durante vários anos foi redatora da Abril e editora de etimologia na Enciclopedia Larousse. Morou em Nova Iorque e tornou-se vídeo-documentarista de sucesso. Muito jovem foi letrista e parceira de Paulinho Nogueira (Moça da Chuva e Historinha, entre outras). Seu último livro de poemas, Coração de Ontem, foi publicado em 2015.

MÃE MODERNA

Mesmo longe, a viajar, sempre comigo. Pendurados no celular, neo-umbigo. IPSIS A palavra é ainda a mais sublime invenção. Mas tem tanta coisa linda que escapa à nomeação! SHERAZADE Proibida no edifício a cachorra da velhinha na verdade não existe. Mas em noites mais escuras a senhora, muito triste, fecha os olhinhos cansados e não reza ave-marias como fazem as vizinhas com quem tem pouca amizade. Chama o nome que inventou -- Sherazade, Sherazade! -e sente nas mãos manchadas amorosas lambidinhas.

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MARIA LUCIA DEL FARRA (1944)

Poeta paulista, é professora de literatura e vive em Sergipe. Fez sua estréia com o Livro das Auras (1994) já mostrando uma voz poética afinada e original. Livro de Possuídos(2002) confirma isso --e com Alumbramentos(2012) ela conquistou o prêmio Jabuti, de 2012. Seus 3 livros são considerados, segundo alguns críticos e apresentadores, como o que há de melhor na poesia contemporânea.

CALLAS NA ESCALA ASCENDENTE Inteira, tua voz é um cone, torre de catedral, coisa tátil, que se avista, mutável como caleidoscópio. É fósforo, poço de petróleo: força que se arremessa das profundas da treva e que (de chofre) perfura com sua agulha as nuvens para ganhar penugem de pássaro e adejar (mui devagar) sobre o espírito. Foguete é tua voz em busca do buraco negro (olho terceiro) turbina que se aquece entre coração e cérebro e desenha ogivas de ignoradas paragens – onde leio flor, lâmina arcaica letra grega que não entendo mas que se inscreve no mármore dos altares. DESQUITE A água da pia tudo escoou. Onde o íntimo sabor daquele bolo de noivado? Apenas os talheres tagarelam na gaveta fechada. ABERTURA

Entre caibros e telhas a trepadeira ganha a sua fenda e pende sobre o alpendre entregue finamente ao ar. Minha vida dá flores. 108

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MÁRCIA CARRANO (1944)

Poeta mineira, contista, é doutora em Letras Vernáculas /Literatura Brasileira pela UFRJ. Atuamente, ensina redação e literatura no Criarte, curso fundado por ela em 1980. Em 1977, lançou o primeiro livro de poemas, “Zero Versus”, elogiado pela crítica. Tem textos publicados em suplementos literários e sítios da Internet. “Porção de tintas”(contos) foi premiado pela Funalfa em 2003. Publicou ainda “Vento leve” (poemas) e “Olhar de espanto”(contos). Participou, entre outras, da antologia “+30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira”. Vive em Juiz de Fora

COM RUÍDO POÉTICO quando nasci um anjo pedante desses que pensam saber de tudo disse: vai, márcia, ser amante na vida. sina muito louca para mulher tão pouca. e não bastasse o anjo mistral veio depois com estórias de hoje serviste? a quem? hoje amaste? serviste? amaste? e fiquei comendo alpiste amoroso e amando a pústula o malandro o traidor de mim e amante do outro. e pensava beber da fonte na noite escorrendo línguas de fogo e desatino mas atino: não sou coxa nem desdobrável. mulher é mesmo fome de amor frente e costas cima e baixo direito e avesso mulher é mesmo fonte pendente ralando entre o abismo de amar e Amar. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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MARIA DA CONCEIÇÃO PARANHOS (1944)

Poeta soteropolitana, contista, teatróloga, professora universitária, pesquisadora e ensaísta. Fez mestrado em teoria da literatura na UFBA e doutorado em literatura comparada na Universidade da Califórnia. Estreou em livro com Chão Circular (1970) que recebeu o Prêmio Arthur Salles.Seguem-se os títulos ABC re-obtido(1974), Os Eternos Tormentos(1986) e As Esporas do Tempo (1996).

ESCUTA Ocorre que há uns lapsos na história, há uns lapsos. Então vêm, videntes, relatar histórias conhecidas em noites longas de calor, insônia. Ouvimos. Pacientemente. Sob discursos jazem outras vozes. Necessário cantar. Animais se aninham ao nosso ânimo, baixam seu brado à espera da canção. E os leões de pedra dos portões deixam rolar os globos que os sustentam. Falamos línguas obscenas. Não. Endureceu-se o ouvir. Indefinidamente? Afrontar a rija espada dos confrontos, permitir soluços, se o peito arfa curvado de rajadas imprudentes. Se não se deixa a alma nesses lances em que transidos vagamos dementes, como afrontar as rugas, decifrar mensagens (não correm ventos nas paisagens mortas, largadas ao relento)? Necessário é amar. Primeiro e último tormento.

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LEILA FERRAZ

(1944)

Poeta paulistana, ensaísta, tradutora, fotógrafa e artista plástica. Participou ativamente do Movimento Surrealista em São Paulo, de 1965 a 1970. Em 1968 foi para Paris onde estreitou contatos com o movimento surrealista internacional. Em 1977 lança seu primeiro livro de poemas: Cometas . Em 1980 seu segundo livro : Poemas Plásticos. Em 1998 publica poema e ensaio em Surrealist Women - An International Anthology editada pela University of Texas – Austin

OS PRISIONEIROS Usei o negro como ponta de lança E o vermelho como razão agonizante Silenciei anarquicamente as portas Das mãos entrelaçadas Cobri montanhas traficadas e Infanta Escutei as histórias que nunca ouvi Abri os braços em revoluções do nada E mais alto subi abrindo o céu a unhadas Porque sou jovem Tresloucada Gêmea e apaixonada Gritando palavras de ordem Tirando panfletos da pedra Numa corrente de mãos e construindo barricadas Entrevi um pedaço da história arrancada a palmadas Das ruas de Paris E se Não dormi e se não comi Fui corpo só pulsando sensitivo entre matracas Que tentavam impedir a melhor das trepadas A trepada do cio A trepada fecundada A trepada inesquecível A trepada que funde Viva a vida e viva a morte A trepada do corpo A trepada menstruada A trepada que para o tempo A trepada sem idades A trepada de todas as gentes A trepada sem pátria A trepada bastarda (esta trepada com a vida foi plenamente gozada em maio de 1968, em Paris) AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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VERA CASA NOVA (1944)

Poeta carioca, ensaísta, pesquisadora e professora da UFMG. Tem diversos trabalhos, poesias, ensaios, estudos e pesquisas publicados em livros, internet, jornais, revistas, suplementos literários do Brasil e exterior. Autora, entre outros, de Lições de almanaque e Desertos . Atualmente tem programa na Rádio UFMG Educativa, chamado UM TOQUE DE POESIA, que vai ao ar todos os dias pela manhã e à noite.

PARA ESCREVER UM POEMA não basta um pássaro ou uma flor: basta o escrever se é que basta: esse pão essa comida esse vinho do escrito à impressão. Fica um grito entalado na garganta. Tudo o que temos não basta. É preciso tirar da morte da palavra esse silêncio bastante de si mesmo e ouvir uma canção inexistente. RETORNO RIMBAUD Farejo na areia os restos de um instante sem fim Cada minuto deixa o suave frescor de um mar longínquo Viajo além. Percorro a água revolta no barco de Rimbaud Deixando que o éter em mim se faça. Simbolista ultrapassado, o poeta ronrona no turbilhão de vertigens pós-tudo. Toma o chá da luxúria e rasto atrás não deixa. Brinca nos intercursos da palavra, e De um segundo a outro, deixa a leveza passar inteira. Seu caminho asperamente se refaz na areia 12345 conta a dedo as conchas apanhadas e some com a onda envolto em si mesmo.

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SOLANGE PADILHA (1944)

Poeta paraense, vive atualmente no Rio de Janeiro. Morou em Paris durante um período da ditadura militar onde se formou em Ciências Sociais pela Sorbonne. Participou dos primeiros coletivos de mulheres no exílio. Em São Paulo fundou com outras mulheres o jornal Nós Mulheres, e doutorou-se pela PUC-SP. No Rio de Janeiro, trabalhou na Secretaria Municipal de Cultura. Participou da Antologia de Poemas Cariocas (2012, Poesia do Grão-Pará (2001),Nova Poesia Brasileira (1992) Antologia de Poesia do Mulherio das Letras, Antologia Mulherio das Letras Portugal Poemas, (2019) Publicou os livros de poemas: Saphographia (1987), Dadaandaainda (1992), Escrita Labial (2014).

VAIDADE o primeiro fio branco despontou no cucuruto da cabeça olhando a contraluz parecia efeito do verão não era. as rugas mal percebi vi o estado já gravado no amanhecer da ressaca no espelho disse mudou tudo mas nada se compara ao primeiro fio branco na buceta.

4.

Segui a rua assombrada de imagens segui a camisa amarela repleta de versos Foi grande a alegria de encontrar o poeta e com ele bebi o que adensam as rimas Taças de vinho, vermelhas Quebradas no acorde de vértebras

9.

nem todos os peixes são azuis o salmão é rosa como um sábado 11. Me preparo para o fogo e a lama tudo que mistura terra tudo que amalgama trama

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LÍRIA PORTO

(1945)

Poeta mineira, é professora e vive em Araxá. É autora dos livros Borboleta Desfolhada e De Lua, publicados em Portugal (2009), Asa de Passarinho e Garimpo (finalista do prêmio jabuti – poesia – 2015), Cadela Prateada (2016). Participou das antologias Dedo de Moça e Cartas Embaralhadas. Tem poemas publicados em vários jornais, revistas e sites, entre eles a revista Germina, Cronópios, Mallarmargens e Balaio Porreta. Faz uma poesia aparentemente simples, porém forte e cheia de signos e símbolos. É muito atuante no facebook.

AOS BONZINHOS não sou como o sândalo não perfumo o machado que me fere faço escândalo e o machado que se ferre DISPARIDADES um furacão entre as pernas no coração a nevasca – o sexo no equador a alma lá no alasca ROMANCE há que haver algum frisson susto arrepio pois ficar só por costume igual o poste da esquina é muito triste vai amor melhor assim procura um olho d’água uma fagulha um rastilho algo que te arrebate devolve-te à vertigem TEATRAL vestida de renda tirana me ronda eu não me rendo finjo-me estátua ela passa e desatenta carrega outro fim do primeiro ato 114

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ANNA MARIA FERNANDES (1945)

Poeta carioca, é advogada e conferencista. É sobrinha de Jorge Fernandes, poeta modernista do RN e prima do escritor Peregrino Jr., fundador da UBE-RJ. Seu segundo livro, Seiva e sumo, de 1975, recebeu o Prêmio Olavo Bilac, conferido pela ABL. Trabalhou na assessoria de imprensa e no departamento jurídico da Light-RJ e também assinou uma coluna literária, durante três anos, no Correio Brasiliense. Foi aluna dos poetas Lêdo Ivo e Affonso Romano de Sant’Anna, na Oficina Literária de Afrânio Coutinho. Publicou Retrato obscuro (1970), Seiva e sumo (1986), Sem título (1990), Nó poético (1999), Antologia poética: cinco livros (2016).

A TI, POESIA A ti, poesia, não renuncio. Como renunciar à vida? Se há retornos, princípio, Fiel à linha interrompida. Renúncia maltrata o ego Despoja, enoja, cede à corja. Tonteia, cego bambeia Põe branca bengala no prego. Não renuncio ao teu apelo. No silêncio hei de purgar O fel Cingir teu sangue ao meu pelo. ASPEREZA Áspera é a guerra E a fome E a espera Mais áspera. Áspera é a derrota E a luta E a queda Mais áspera. Áspera é a data Gravada nas pedras E a frase incompleta Mais áspera. ECLIPSE A sombra do teu corpo no meu delineada O meu coração batendo bem junto ao teu Nossos olhos, nossas mãos, ânsia inesperada Que já não sei quando és tu Quando sou eu. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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TERUKO ODA

(1945)

Poeta paulista, é considerada uma das maiores expoentes do haicai no Brasil. Filha de imigrantes japoneses, é professora e fundadora do Grêmio de Haicai Caminhos das Águas(Santos) e presidente do Gremio Haicai Ipê (São Paulo). Já publicou vários livros: Nos caminhos do haicai(1993), Relógio de Sol(1994), Estrela Cadente(1996), Cata-Vento(2001).

Corrida engraçada — As emas vão se abanando com leques de plumas. Vento de inverno — A velhinha de bengala quase um caramujo. Solidão no rancho — Passatempo do roceiro o bicho-do-pé. Barzinho de estrada — Não sei se como ou se abano as moscas do prato. Um quê de inquietude no balé das borboletas — Tarde de outono. No pó ajuntado entre o asfalto e a sarjeta — Cosmos florido. Rápidas bicadas — Equilibra-se no galho a ameixa-amarela. Pássaros disputam — Parece tão saboroso o mamão do vizinho. Quietude absoluta — Sobre a foto do jazigo a queda de folhas.

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RENI CARDOSO

(1945/2008)

Poeta paulista, atriz, professora, pesquisadora e tradutora. Integrou o movimento Catequese Poética, iniciado pelo poeta catarinense Lindolf Bell, logo após o golpe militar de 64. Abandonou a poesia, fez mestrado e doutorado na USP e junto com Jacó Guisburg e Teixeira Coelho, organizou o livro Semiologia do Teatro. destacando-se como grande especialista em teatro russo. Seu livro, Os Banhos: uma Poética em Cena é um exemplo disso.

O CAMINHO Não é medo de chegar sozinha: é medo de não chegar. Não é angústia de saber longa a estrada: é de não saber escolher entre todas a verdadeira. Oh! Meu segredo inviolável! O longo mapa a percorrer! Quantas vezes penso ter chegado à paz e é apenas uma encruzilhada. CARTAS A ALESSANDRO 1 O trem partiu. A princípio pensei No teu rosto. Depois, que não existias. No final, deixei de sentir. Tua mão acenou E vi que eras incomparável -o único.

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Estou como num hotel. Redescubro conversas de um dia anterior E sei que alguma festa está no fim. Converso com tua voz De trás de uma coluna Para sempre.

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HILMA RANAURO (1945)

Poeta carioca e doutora em letras, é também ensaísta, professora da UFRJ e membro da Academia Brasileira de Filologia. Participou de diversas antologias, (Antologia da Nova Poesia Brasileira,1982, e A Poesia Fluminense no Século XX, (1998).Obra poética: Descompasso (1985) e Um Murro no Espelho Baço(1992).

DESCOMPASSO Me querem mãe e me querem fêmea, me querem líder e me fazem submissa, me fazem omissa e me cobram participação, me impedem de ir e me cobram a busca, me prendem nas prendas do lar e me cobram conscientização, me tolhem os movimentos e me querem ágil, me castram os desejos e me querem em cio, me inibem o canto e me querem música, me apertam o cinto e me cobram liberalidade. Me impõem modelos gestos atitudes e comportamentos. E me querem única. Me castram podam falam e decidem por mim. E me querem plena....

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NILZA BARUDE

(1946)

Poeta paulista, fez parte da Catequese Poética e atuou como jornalista em São Paulo e na Bahia. Dirigiu, criou e apresentou programas na TV. Recebeu título de Cidadã da Cidade de Salvador e publicou Amor/Ação(1995), Contos &Cartas Memórias de um Coração e Reticências (2011). É também artista plástica e vive em Salvador.

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Calcei os chinelos velhos de deus E caminhei pelas águas Pela mão de todos os meus irmãos, E dançamos a ciranda das ondas junto com todos os peixes Depois, Exaustos E em paz, Deitamos no leito marinho Entre algas. Adormecemos para acordar Ao lado dos velhos chinelos.

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Eu tenho todas as raças liquidadas em meu sangue, Eu tenho todos os povos tombados em meus braços, Eu tenho o estigma desse tempo, E tenho o sangue e a terra misturando-se e restaurando-se In memorian. Eu tenho as trincheiras nas costas e asas nos pés, Que me levam a todos os continentes. Eu tenho em cada olho uma bomba detonada, E na boca uma granada por explodir. Eu sou o produto desse tempo discutido em dialética. Eu sou a hipótese e a síntese matemática dos acontecimentos. Eu sou a criança metralhada, Eu sou a angústia da humanidade toda, Que se desfaz, Aprendendo a morte, Dia a dia.

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DIULINDA GARCIA (1946)

Poeta potiguar, nasceu em São João de Sabugi/ RN,e m 19 de janeiro de 1946, é graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte(UFRN),escreveu alguns livros entre os quais,Caminho do Invisível, Abstração, Lucidez de Navalha, Rascunho, Entrenós, Derramares e Sob a luz das lamparinas(pequenos contos).Participou de várias antologias e coletâneas nacionais e internacionais.Ela confessa que busca alcançar o leitor através de uma tessitura textual introspectiva, construída entre as vivências de seu tempo e a inventividade, onde o real e o imaginário se contrapõem.

MULHERES Tecelãs incansáveis Tecem vidas Fazem vivos Os seus lares Repartindo alegria Em pedaços Pintando,bordando E rebordando a vida Com a esperança De meninas Que rezam enquanto Esperam Para que o tempo Seja breve. ENTRENÓS Entre a vida e o sonho os meus caminhos (entrenós) Entre a vida e a morte a sós (entrenós) num quase chegar sob guarda-sóis colados calados (entre nós)

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DALILA TELES VERAS (1946)

Poeta portuguesa, vive no Brasil desde 1957. É autora de diversos livros de poesia e crônica. Colabora regularmente em jornais e revistas do Brasil e exterior. Já integrou a diretoria da UBE e é fundadora do Grupo Livrespaço de Poesia (Prêmio APCA melhor realização Cultural de 1993). Reside e trabalha em Santo André onde criou a Alpharrabio, livraria editora e espaço cultural de divulgação da cultura e das artes na região do Grande ABC. Sua editora já publicou cerca de 60 obras de autores regionais. À Janela dos Dias é um livro que reúne quase toda a sua obra poética.

SOLILÓQUIOS De tanto ficar consigo dispensou as palavras Bastavam-lhe os gestos (batuta invisível) a orquestrar o silêncio DO AMOR E SEUS SILÊNCIOS No destempero e ardências da fúria inaugural a palavra sem proveito (verbalização de corpos) No rito já maturado do caminho reconhecido a muda comunhão (frêmito de carne e espírito) Urgências mitigadas os silêncios primordiais já agora interpretáveis (epifania outonal) MEMÓRIA Em meu dedo o teu dedal (tento, mãe costurar tua memória prender-te ao que me resta) Incertos pontos que a vista embaçada não deixa urdir

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LOURDES TEODORO (1946)

Poeta goiana, reside em Brasília desde 1959. Escreve e publica desde a adolescência e já foi incluída em antologias poéticas no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. É doutora em Literatura Comparada pela Universidade de Paris, Sorbonne, e autora de 4 livros de poemas: Água Marinha ou Tempo Sem Palavra(1978) e Canções do Mais Belo Pecado(1996) são dois deles.

Á SOMBRA DOS EMBODEIROS DO RECIFE V toma da máscara a forma exata, veste tua real aparência, medita. deixa cair a suposta essência, sê trigo e coquelicot: aceita a passagem gratuita da brisa dorme, que sonharei contigo. Á SOMBRA DOS EMBODEIROS DO RECIFE VI carta sem destinatário. não sou trezentos, tampouco tenho em mim todos os sonhos do mundo; custa-me ajeitar os ombros, com todo esse peso das mãos de uma criança, querendo eternamente ser em mim. dancei na praça: os meninos de rua soltaram o corpo comigo, súbito, sem loló ou crack, viraram folha, docemente ao vento! PAISAGEM LITORÃNEA os arranha-céus subiram aos morros, para ver o mar e os negros mudaram-se para a avenida Copacabana. as usinas e as fábricas lançaram-se dos penhascos, a ponte se dissolveu na bruma e jangadas povoaram a baía, inocentemente. 122

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ALICE RUIZ

(1946)

Poeta paranaense, publicitária, tradutora e letrista, destacou-se na geração da contracultura dos anos 60 e 70. Foi poeta de gaveta até os 26 anos, quando publicou, em revistas e jornais culturais, alguns poemas. Mas só lançou seu primeiro livro aos 34 anos: Navalhanaliga(1980). Já publicou 19 livros, entre poesia, traduções e uma história infantil. Letrista, tem mais de 50 músicas gravadas. Já ganhou o prêmio Jabuti(1988) e governo do Paraná(1980).

Lembra o tempo em que você sentia e sentir era a forma mais sábia de saber E você nem sabia? ............................................................ rede ao vento se torce de saudade sem você dentro ................................................................................. Tem os que passam e tudo se passa com passos já passados tem os que partem da pedra ao vidro deixam tudo partido e tem, ainda bem, os que deixam a vaga impressão de ter ficado ................................................................................. você esqueceu? isso acontece só os mortos não esquecem ................................................................................ que viagem ficar aqui parada

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LÍGIA SÁVIO

(1946)

Poeta gaúcha, possui doutorado em letras e é professora de literatura, em Porto Alegre. Participou de antologias independentes na década de 70 (Teia, Teia II e Paisagens). É uma das idealizadoras e apresentadoras do Sarau das Seis, evento realizado mensalmente. Publicou o livro de poemas No dorso da palavra, 2015.

NUM VITRAL ANTIGO cacos de minha missão: mosaico coletânea antologia fotomontagem slides em todos eles passam pedaços de mim de ti ao vento AH, PLANOS: ENGANOS projetos retos enquanto a rua lá fora espia com seu olho torto de lua tudo que se move. Planos? Só ciganos. RE-MITOLÓGICA É só do sal de Urano que nasce a força erótica? Foi esta a história que contaram. Só os deuses-homens gestavam o amor. Mas Afrodite, na concha, expele jorros pelas pernas criando palavras de todos os sexos.

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VITÓRIA LIMA

(1946)

Poeta recifense, mora em João Pessoa e leciona na UEPB, em Campina Grande. É especialista em literatura de língua inglesa, grande estudiosa de Shakespeare. Seus primeiros poemas apareceram tarde, em 1995, na Antologia Contemporânea da Poesia Paraibana. Dois anos depois publicou o volume-solo Anos Bissextos e, em 2007, o livro Fúcsia.

CIGANO DESEJO Meu desejo anda de bonde, patins e avião. A pé, descalço, de tênis e camisão. Meu desejo anda tímido, coitado. Pega carona no vento, no tempo, anda na contramão. Meu desejo só não anda satisfeito. OPUS 42 São 42 agostos. uns passados em branco. outros a limpo. outros a seco. os melhores: bissextos. QUE NEM JAMES DEAN Veio deu um rolé com seus olhos verdes e foi-se rápido que nem James Dean AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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CERES MARYLISE REBOUÇAS DE SOUZA (1946)

Poeta baiana, é graduada em Letras e Pedagogia, pós-graduada stricto sensu em Linguística e lato sensu em Alfabetização. Membro efetivo de várias instituições literárias entre as quais se destacam a Academia de Letras de Itabuna, a Academia de Letras Castro Alves, a UBE de SP e RS e a REBRA Rede de Escritoras Brasileiras. Coautora de diversas antologias nacionais e internacionais com poemas traduzidos em vários idiomas, também é autora de e-books e dos livros Atalhos e Descaminhos (poesia), lançado no Salão do Livro de Paris e O outro lado do Silêncio (em prosa). Agraciada com os troféus Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda.

Não sou mais nem menos; sou apenas corpo que levanta vôo, e às vezes cai sob o mesmo céu que abriga a todos. À MULHER Porque és mais que a beleza, muito mais que um corpo. Porque és mais que um ventre para o filho e muito mais que a ilusão de um homem. Porque tuas mãos são alento, bênção e sensatez. Porque há paz nas tuas palavras quando rompes com tua essência, o estigma de fetiche. Porque és nobre, imensurável, e amamentas com a força dos teus seios e de tua luz, a história humana.

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DEISE ASSUMPÇÃO (1946)

Poeta paulista, nasceu em Pirassununga e vive em Maua´, ABC paulista, desde 1968. Formada em letras, especialização em literatura brasileira, tem uma longa atuação no magistério. Participa de congressos e outros eventos da área, tendo vários trabalhos publicados. Alguns de seus poemas constam de antologias, revistas e sites literários. Cofre é sua primeira publicação em livro(2003). Segundo Tarso de Melo, “a poesia que vai neste Cofre de Deise Assumpção, afirma uma fala consciente: transparece que uma longa meditação sobre (e sob ) os versos que aplaca quaisquer marcas de estréia.”

PURGATÓRIO a mãe gemendo de dor (sem remédio) o irmão sem dentes e emprego (e bêbado) pai e avô caducando em asilo (em cheiro de urina) sobrinhos e filhos e netos (bisnetos) alongando a caravana (em deserto) eu parede de palavras a repercutir seus ais (só em versos) se eu morrer só poeta ouvirei em juízo: tive fome e me deste poesia ASSALTO No cristal impermeável do espelho do meu quarto, olhei brincos e batom, tom de vestido e sapatos, cheiro de gotas de almíscar, dobras da seda da gola. No espelho transparente do vidro do meu carro, colou-se um prato de fome, sobrenome de menino registrado em cartório de latrocínio de nomes, em expediente encerrado. E eu me vi, e tive medo. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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CONCEIÇÃO EVARISTO (1946)

Poeta mineira, nasceu em uma comunidade no alto da Av. Afonso Pena, em Belo Horizonte. Trabalhou como empregada doméstica até 1971, quando concluiu os estudos secundários.Mudou-se para o Rio, onde fez mestrado e doutorado em literatura. Começou a publicar, na década de 1980, poemas, contos, ensaios e romances. É militante do movimento negro e foi homenageada com exposição, em 2017, no Itaú Cultural de São Paulo: Ocupação Conceição Evaristo. Poemas da Recordação e Outros Movimentos (2008) é seu último livro de poemas.

RECORDAR É PRECISO O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos. A memória bravia lança o leme: Recordar é preciso. O movimento de vaivém nas águas-lembranças dos meus marejados olhos transborda-me a vida, salgando-me o rosto e o gosto. Sou eternamente náufraga. Mas os fundos oceanos não me amedrontam nem me imobilizam. Uma paixão profunda é a bóia que me emerge. Sei que o mistério subsiste além das águas DO FOGO QUE EM MIM ARDE Sim, eu trago o fogo, o outro, não aquele que te apraz. Ele queima sim, é chama voraz que derrete o bivo de teu pincel incendiando até ás cinzas O desejo-desenho que fazes de mim. Sim, eu trago o fogo, o outro, aquele que me faz, e que molda a dura pena de minha escrita. é este o fogo, o meu, o que me arde e cunha a minha face na letra desenho do auto-retrato meu.

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CLEVANE PESSOA (1947)

Poeta potiguar, psicóloga e jornalista. Trabalhou na imprensa de Juiz de Fora, nos anos de chumbo da ditadura, mantendo a página Gente, Letras & Artes e a coluna diária “Clevane Comenta.” Já viveu em Belo Horizonte, São Luiz, São Paulo e Belém. Publicou vários livros de poemas: Asas de Água, Partes de Mim, Olhares teares, saberes e Erotíssima são alguns títulos. Hoje vive em Belo Horizonte.

CICLO A fonte murmurante O rio rumoroso A cachoeira barulhenta Todos errantes, Participantes de uma orquestra Cujo regente Fica invisível à luz dos dias, Oculto à luz do luar, Torna-se dourado junto às luas claras... Mais tarde, serão Garoa Neblina Orvalho pranto: Sutis presenças Com lições de umidade, De humildade, De humanidade... THEORGASMIA Desnuda parte do corpo, parte a alma E oferece a Marte, o espelho de Vênus, Onde observa a arte dos seios plenos Bela, curiosa, intimorata e calma... Em breve, dois deuses nus, Deu-se o fato, o olfato se aprofunda, A vulva, a pélvis, as nádegas, O falo, o talo, a flor profunda. Deus goza, enquanto, voyeur De tempos imemoriais, Interpreta todos os sinais. E o esperma divino banha o casal, Agora incapaz de distinguir o Bem do Mal.

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ALINE DE MELLO BRANDÃO (1947)

Poeta paraense, é médica neurologista e professora universitária. Já teve alguns de seus poemas musicados e tem colaborado com jornais e revistas do Pará e de outros Estados. Publicou os livros de poemas: Cantiga Geral de Amor (1984 - com o nome de Aline Carreira); Viola d’Água (1986); As Mãos do Tempo (1989).

ABSTINÊNCIA Abstenho-me do pão e sem luxo, sobrevivo. Não trago o peito cativo em luxúria sem paixão. Porém preservo o tesão de exercer com poesia a fina flor do meu dia sem pudor ou perfeição. Eu penso que meu pecado é não ter mais encontrado a quem dei meu coração tão antigo em novidades tão moço nas descobertas. O resto são veleidades, letra tonta em linhas certas! CAMINHO, SEMPRE CAMINHO Caminho, sempre caminho por velhas novas palavras por grandes pequenos feitos, retalhos do dia-a-dia Atalhos, sempre evitados como recuso calçados. Os pés – desnudos – no chão. Letras brotando na mão.

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HELENA ORTIZ

(1947/2019)

Poeta gaúcha, é jornalista, contista e editora. Criou e dirigiu o projeto Panorama da Palavra, mostra semanal de poesia. O projeto deu origem a um jornal mensal homônimo, que tem edição em papel e na internet e também à Editora da Palavra, seu braço editorial. Estreou em 1995 com Pedaço de Mim. Em seguida, vieram Margaridas (1997); Azul e Sem Sapatos (1997); Em Par (2001); Sol Sobre o Dilúvio (2005); O silêncio das xícaras (2009); Alfinetes (2012). Morreu em sua casa, no Rio, no dia 10 de fevereiro de 2019.

ESGOTAMENTO As palavras estão exaustas de escrever contra a guerra séculos e séculos O que temos hoje, sem nenhuma trégua? Guerras e guerras As palavras estão cansadas Há que enterrá-las como enterramos os mortos. Há que esquecê-las até que chegue um tempo novo de verdade incólume e as palavras ressuscitem inocentes SÉCULO XXI Uma estrela maldosa piscará uma única vez anunciando: O mundo acabará como o conhecemos Dominaremos terra céu e mar O ar, não – estará rarefeito Irrecuperável A sede e a chuva ácida Nos transformarão em horrendas criaturas A rosnar e trucidar a carne 6 DE MAIO estávamos felizes em pleno domingo a certeza próxima do outro comida no fogo roupa já passada casa nem tão limpa sapatos num canto projetos alinhavados a notícia chegou pelo telefone apagou o fogo separou nossos sapatos notícia maior que a vida AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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DIVA CUNHA

(1947)

Poeta potiguar, formou-se em letras, fez pós-graduação na PUC do Rio de Janeiro e doutorado em Barcelona. Seu último livro de poesia, Resina, (2009), reúne a reedição dos três primeiros livros Canto de Página (1986), Palavra Estampada (1993) e Coração de Lata (1996). Recentemente, em junho deste ano, passou a ocupar cadeira na Academia Norte Rio-Grandense de Letras.

SOU TODOS... sou todos os poetas que li com a devida ressalva eles não são eu cadeira que ocupo enquanto escrevo CERTAS MULHERES... Certas mulheres catam coisas pequeninas conchas, feijões, letras outras distraem-se nos espelhos contam rugas algumas contam nuvens criam cachorros e gatos como crianças certas mulheres guardam mágoas ressentimentos, botões, elásticos algumas são como certos homens não contam nada ocupadas com coisas incontáveis SÃO OS TRAPOS São os trapos do coração a escorrerem caminhos afora trapos e tripas vomitados em golpes escuros sobre os tetos frios destas noites trapos e tripas tripas e trapos fitas e fitas farrapos

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FLORA FIGUEIREDO (1947)

Poeta paulistana, cronista e tradutora. Já publicou vários livros de poemas. Destacamos: Florescência (1987), Amor a Céu Aberto(1992), O Trem que Traz a Noite(2000) Chão de Vento(2005) e Limão Rosa(2009). Foi colaboradora da revista Cláudia e possui trabalho na área musical. Seu poema Enrosco, musicado por Ivan Lins, foi gravado pela cantora Simone. Tem participado de alguns saraus em São Paulo.

A PEDIDOS Querem um verso, mas não sou capaz. Vejo a palavra fraturar as entrelinhas, tento soldá-las, mas não são minhas. Rompeu-se o verbo e me deixou pra trás. NÓ Estou perdidamente emaranhada em seus fios de delícias e doçuras. Já não encontro o começo da meada, não sei nem mesmo se há uma ponta de saída, ou se a loucura vai num ritmo crescente até subjugar a minha vida. Não importa. Quero seus nós de seda cada vez mais cegos e apertados a me costurar nas malhas e nos pêlos. Enquanto você me amarra, permanece atado na própria trama redonda do novelo RETIRADA Respeite o silêncio a omissão, a ausência. É meu movimento de deserção. Abandonei o posto, rompi a corda, desacreditei de tudo. Cansei de esperar que finalmente um dia, minha fotografia fizesse jus ao seu criado-mudo. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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ILMA FONTES

(1947)

Poeta e escritora sergipana, psiquiatra e legista, trocou a medicina pelo jornalismo, cinema e ativismo cultural. Não publicou nenhum livro de poesia, mas participa de um sem número de antologias como New Poetryofthe World (China), Dimensão(revista íbero-americana de poesia), Nova Poesia Brasileira(1992), Catálogo da Produção Poética dos Anos 90(1995)

CONFIDÊNCIA DA ARACAJUANAC Há anos morri em Aracaju, principalmente no dia em que nasci. Por isso sou gay, orgástica: de nuvem. Dois por cento de cajuína na alma dois por cento de fel nas calçadas e esse alegramento do que na vida é pluralidade e solidão. A vontade de amar, que me impulsiona o trabalho, vem de Aracaju, de suas noites azuis onde sobram mulheres e horizontes. O hábito de mexericar, que tanto dilacera, é amarga herança aracajuína. De Aracaju levei poucas prendas que posso oferecer: um búzio sujo de petróleo, que trago no peito um pensar desembestado como um defeito essa falta de jeito, nenhum sofá nem sala de estar, nada em volta. Tive mesas, tive cadeiras, tive divãs! Hoje, não sou funcionária pública. Nem médica psiquiatra. Jornalista por ofício com vício de cineasta, viro o videócio na videocidade. Saudade. Aracaju é apenas um cu - mas como dói!

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GENI GUIMARÃES (1947)

Poeta paulista, iniciou a carreira literária publicando poemas em jornais no interior de São Paulo. O primeiro livro, Terceiro filho, foi lançado em 1979. Em 1980, aproximou-se do movimento negro e publicou mais 2 livros de poesia: Da flor o afeto, da pedra o protesto (1981)e Balé das emoções (1993). Também publicou livros de contos e de literatura infantil. Já representou o Brasil indo a diversos países falando sobre a questão do negro e o preconceito.

MINHA MÃE Gosto da inocência dela: Benze crianças, Faz simpatias, Reza sorrindo, Chora rezando. Gosto da inocência dela: Apanha rosas, Poda os espinhos, Coloca nas mãos, De meninos branquinhos. Gosto da inocência dela: Conta histórias longas, De negros perdidos, Nas matas cerradas, Dos chãos do país. Ama a todo o mundo, Diz que a ida à lua, É conto de fada. Gosto da inocência dela: Crê na independência, E é tanta a inocência, Que até hoje ela pensa, Que acabou a escravidão. … Inocência dela… QUANDO ME VEM... Quando me vem oferecer uísque aproveita o dedo que segura a taça e me indica a porta, disfarçadamente. Eu consciente do direito a festas, (inclusive a comemorada no mês de maio) bebo. E não saio. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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LIANA TIMM

(1947)

Poeta gaúcha, é arquiteta, designer e artista plástica multimídia, dedicando-se atualmente à arte digital e videoarte. Mestre em educação pela UFRS, tem 24 livros publicados de arte e poesia. Já fez 65 exposições individuais, entre elas Pinacoteca de São Paulo e Memorial da América Latina. Participou de mais de cem coletivas e conquistou mais de 13 prêmios.Títulos de alguns de seus livros:Paisagens do Interior(2018), Essencial (2017), Incessante(2016) e Extravios Incandescentes(2014).

AUTORRETRATO de alvura translúcida não tão lúcida enquanto pele um afogamento ao pensar arrepio de amor entendo bem e mal pedregulhos de rochas preciosas rosas sobre fundo preto preto sobre fundo rosa canto despassarada em névoa e me embaraço sendo eu INÉRCIA quero ser a essência das próprias vontades e ir em frente na angústia da liberdade absoluta minha alma experimenta na plenitude da vida tudo télos herdado pelos movimentos incansáveis da existência se gosto ou não acerto ou não faz sentido e não me paralisa

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BETTY VIDIGAL (1948)

Poeta paulistana, é jornalista e contista. Publicou seu primeiro livro, Eu e a Vela, quando tinha 17 anos. Estudou física e lecionou design, mas nunca conseguiu abandonar a poesia. Aliás, ela mesma já disse que fazia versos antes de saber ler e escrever. Nos anos 60 participou do movimento Catequese Poética, liderado por Lindolf Bell. Já integrou a diretoria da UBE, colaborou com a revista Voz Lusíada e o jornal O Escritor. Outros livros de poemas publicados: Tempo de Mensagem, Os Súbitos Cristais e Paixão via Internet e outros delírios improváveis

SEGREDO Retenho este segredo entre meus dedos, esfarelando-o aos poucos feito giz num movimento disfarçado e lento de quem quer revelá-lo mas não diz uma palavra sequer. E morde os lábios, para cortar o mal pela raiz. PITANGAS Era uma febre, um delírio, Uma mandinga bem feita, cama com cheiro de lírio. Era um delírio, uma febre, amor que não se endireita, quebranto que ninguém quebra, tremedeira de maleita, uma mulher e um ébrio de amor que não toma jeito. E ela, que não se emenda? Meus dedos fazendo renda com os pêlos do seu peito; o coração que se escuta pelo quarteirão inteiro; pitangas no travesseiro, cama com cheiro de fruta.

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LU MENEZES

(1948)

Poeta maranhense, é doutora em literatura comparada. Cresceu no Rio de Janeiro, onde voltou a morar após a adolescência em Brasília, cidade em que concluiu o bacharelado em Ciências Sociais. Trabalha nas áreas de pesquisa e tradução. Publicou os livros de poemas: O Amor é tão Esguio (1980), Abre-te, Rosebud!(1996) e Onde o céu descasca (2011).

CORPOS SIMULTÃNEOS DE CISNE Branco ideal e branco real o mesmo cisne no espaço de um saco de sal ocupam mas eis transmigrante lei que em mantimentos transfez obsoleta ampulheta: um cisne de sal segue o curso do tempo e míngua até ser somente de plástico transparente UTENSÍLIOS Para extrair do alumínio seu lúmen usaria o desusado, exaurido verbo “haurir” Arearia panelas, à beira de um rio, mergulhada no alumínio luzidio – “haurindo-o” – polindo-lhe a índole de água e o ímpeto de prata com grãos de ouro e de areia arearia “ourada” submersa emMULHERES seu domínio 138 AS POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA


MARGARIDA PATRIOTA (1948)

Poeta carioca, vive em Brasília, tem 30 livros publicados, abrangendo ensaios, ficção e poesia. Foi professora de literatura da Universidade de Brasília por 28 anos. Recebeu prêmios literários (INL, romance), o João-de Barro de Literatura Juvenil e o da FNLIJ por sua tradução/ adaptação de O Fantasma da Ópera. Produziu de 1997 a 2020 o programa de entrevistas “Autores e Livros” da Rádio Senado. São alguns títulos seus: Elas por elas e Enquanto Aurora, Explicando a Literatura no Brasil, Modernidade e vanguarda nas artes. Publicou em 2017 seu primeiro livro de poemas Laminário. Tempo de delação, seu segundo livro de poemas, saiu em 2019.

TEMPO DE DELAÇÃO Vi o sopro embaciar o vidro Para o dedo traçar no bafo O coração do amor proibido Vi a ponta do punhal Escorchar o tronco adusto Riscar o manacá que eu amava O sol inflamou o céu Não prestou qualquer socorro Nem se importou com isso Dentes rasgaram carnes Desmembraram gomos Deceparam cachos, que eu vi Flagrei a noite atropelando o dia Pelotões de nuvens ladras A assaltarem o luar Vi a neve deflorar a campina A hera assediar o muro O mar abusar do penhasco Vi sem asco o que delato Antes que prescreva em juízo O ardor dos fatos

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JUÇARA VALVERDE (1948)

Poeta gaúcha, é médica e dedica-se também às artes plásticas, precisamente escultura e pintura. Já coordenou semana de artes em hospitais e concursos de poesia. Publicou o livro Espírito do Tempo (2007) e participou de várias antologias e leituras públicas de poesia. Vive no Rio, é presidente da UBE e é membro da APPERJ - Associação Profissional dos Poetas e do Sindicato de Escritores do Rio de Janeiro.

CERTEZAS Serei água que banha o solo e canta na cascata, chuva forte que lava e alimenta as folhagens, por do sol que encanta o fim do dia. Talvez coração que se enternece com risada de criança, lágrima que escorre pela desigualdade, cultura que divido com todos. Quiça cheiro de terra molhada do início da chuva, som de vassoura varrendo a calçada. natureza nutrida de sonhos. Quem sabe onça que luta por seus filhotes, mulher alimentada pela esperança, poesia que transborda a alma. Sou, certeza de resistência. Desistência? Jamais. VÉUS Vestida de véus em seu devaneio ora cigana ou cavaleira em busca de desejos. A procura de cama ou feno, por mais uma noite, por mais um amor. Repleta de ardor, satisfeita, vai de partida. Despedida cheia de vida Despida.

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MARIA BEATRIZ FARIAS DE SOUZA (1948)

Poeta carioca, psicóloga e ensaísta, faz parte do grupo AdVersos e já publicou vários livros. Utiliza em seus trabalhos o pseudônimo Kuri. Teve estréia auspiciosa com Lugar Nenhum(1968), com prefácio de Vinicius de Moraes, talvez o único que o poeta tenha topado fazer. Outros títulos: Poemancipação(1970), O Negócio da Pia(1972), e Gueto(1981). Tem vários livros inéditos.

GUETO Venha beber conosco, os placidamente aflitos, pernoitar em nossas pequenas casas sem teto, partilhar dessa dimensão em que o sonho e a realidade não se distinguem, não se excluem. Venha embriagar-se conosco, os anjos tortos, desatrelar-se, aventurar-se pelo prazer da descoberta e brindar a loucura com a mesma reverência com que os outros brindam a coerência das linhas retas, das quadras, dos quadrantes. Venha misturar-se a nós, crianças medonhas, radicar-se nesse gueto entrincheirado além do território das engrenagens metálicas, provar a lucidez mágica da poesia que, de súbito, é uma dor e uma alegria. MARÍTIMO N.º 5 Não atento ao que os homens falam de Deus. Prefiro supor o que ele mesmo diria se eu fosse capaz de ouvi-lo. IRONIA Às vezes eu me sinto como se não tivesse mais nada pra dizer… aí me contradigo e os rios rolam seixos até a beira do mar.

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ANA MARIA LOPES (1948)

Embora carioca, a poeta considera-se brasiliense. Jornalista, trabalhou nas TVs Nacional e Alvorada, sucursal de O Globo e TV Câmara. Foi premiada como poeta em 1967(concurso literário patrocinado pela Embaixada de Portugal) e 1981(concurso de poesia promovido pela Editora Abril). Publicou poemas na antologia Poetas Brasileiros Hoje (1995) e lançou o livro de poemas Conversas com Verso(2006).

.COM Eu estou aqui você está aí Se acaso eu vou para aí Você vem para cá Há entre nós, inconteste, um computador – barricada – que nos serve de atalho para a fuga do contato é o desamor.com LUA E CORPO Uma lua incerta batia quando em quando seu claro no meu corpo Queria me despir de sua luz procurando o breu. Mas com grande mestria a lua investia seus dedos luminados procurando meus pelos explorando minhas cavernas e sem nenhum barulho dava seu mergulho em águas mucosas. Seus punhais, seus raios jorravam o clarão e pouco a pouco a lua incerta e meu corpo nu se amalgamaram - assim como fazem os astros e reinventamos a luz.

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ANGELA LEITE DE SOUZA (1948)

Poeta mineira, trabalhou por cerca de 30 anos em diversos órgãos da imprensa brasileira. Publicou dezenas de livros, a maioria na área infanto-juvenil. Com o livro de poemas Estas muitas Minas, conquistou o prêmio Casa de las Américas de Literatura Brasileira, de Cuba, em 1997. É também ilustradora e seus trabalhos já foram expostos nas Bienais de Bratislava, Eslováquia, em 1998 e 2000. Em 2017 expõe, em Bratislava, as ilustrações de “Cantiga dos Meninos Pastores”, poema de Adélia Prado.Lançou em 2019 o livro “Paz”, texto e ilustrações de sua autoria, premiado na Rússia.Publicou também Lição das horas e Entre linhas. Estreou com Amoras com Açucar (1982).

Meu desejo agora: não ter nenhum desejo ou antes ter a gula de um cantar de galo fora de hora só pelo gosto de despertar neste peito gasto alguma aurora. TUDO A paz humana jaz nesse teu peito sem tréguas. Amansa a ânsia. Despe o desejo. Verga a vaidade. Sonda a solidão. Aquieta tuas águas turvas para ver-lhes o fundo. Despoja-te de tudo Até seres só amor. Até seres tudo. PAISAGEM Serpentina dourada pelos últimos raios o rio, lá embaixo, se despede do olhar efêmero dentro do avião. Captamos atônitos sua líquida beleza. Mas no quadro da janela já ficou amarela a fotografia dessa emoção. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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AUGUSTA FARO (1948)

Poeta goianense, é pedagoga e mestre em teoria de literatura e linguística. É pioneira da poesia infantil no estado de Goiás e escreve também contos. Publicou Mora em mim uma Canção Menina (1982); Lua pelo Corpo(1984); O Estado de Graça(1988) e Avesso do Espelho,(1995) prêmio nacional UBE-Rio de Janeiro.É membro da Academia Feminina deLdetras e Artes de Goiás,, diretora do Centro Educativo Piaget e integra o Conselho Estadual de Cultura e a diretoria da UBE, seçãoGoiás.

COMPROMISSO Nada a ver com a voz mas a palavra Nada a ver com o pulso mas o sangue Nada a ver com as chaves mas a terra Nada a ver com as sombras mas os gestos Nada a ver com a oferta mas o pranto Nada a ver com o fardo mas o caminho Nada a ver com a guitarra mas a canção. MOIRA Nasci do ombro esquerdo de minha avó, por isso tenho um olho no meio da testa, que vê o fundo dos rios e o contorno mais longe das montanhas. Nasci em noite de tempestade quando um raio abriu a concha da escuridão mais escura. Nasci olhando de lado, como quem vê a poesia brotando do chão e me encharcando os sapatos.

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RIZOLETE FERNANDES (1949)

Poeta potiguar, é socióloga e militante dos movimentos sociais. Nesse caminho publicou o livro “A história oficial omite, eu conto: Mulheres em Luta no RN”. Reside em Natal desde 1971 e já foi agraciada com as medalhas Nísia Floresta e Auta de Souza. Aposentada do serviço público estadual, publicou seis livros, entre os quais Luas Nuas (2006), Vento da Tarde e Tecelãs (2013 e 2017) de poesia, os dois últimos bilingues, traduzidos para o espanhol.Participa de várias antologias, é membro da UBE, do Instituto Cultural do Oeste Potiguar, e do Coletivo de âmbito nacional Mulherio das Letras.

TROPELIAS DE VERÃO Queria um poema que emoção traduzisse no fiel idioma do coração de quem o lesse Um poema que falasse de coisas meras da vida simples e sucintamente mas que emocionasse Que a infância vivida no sertão, ao evocar cheiro de terra e capim espraiasse no ar Que fizesse chorar por recordações antigas os primeiros namorados as velhas amigas Que aquietasse crianças no seu bulício diário nos velhinhos reavivasse o vigor incendiário Por bêbados fosse gritado nas ruas em noite fria os deserdados aquecesse com o calor da poesia Renovasse a confiança nos sem amor e sem credo fulgurasse sonho pátrio no que vive em degredo Que levado a conhecer ao político pragmático presto ganhasse status de um lema programático Que lido na abertura da assembleia da ONU eliminasse as guerras que ceifam vida ao homem Esse poema seria tecido em raios de luar servido em taças de versos a fim de anunciar Em cada estrofe a paz, tão logo alvorecesse em cada verso o amor, assim que anoitecesse ------------------------------------------------------Ah, se Érato me presenteasse verve assim Ao invés, tropelias de verão, ai de mim!

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EULÁLIA MARIA RADTKE (1949)

Poeta catarinense, compositora e jornalista. Fez parte da Catequese Poética, movimento criado por Lindolf Bell em 1964. Já foi secretária municipal da Cultura em São José dos Pinhais-PR(1993 a 1996) e é presença atuante em seu meio cultural. Morou em Blumenau, Curitiba e vive em Navegantes, Santa Catarina. Seu primeiro livro, Espiral (1980), teve apresentação de Lindolf Bell. No livro seguinte, O Sermão das Sete Palavras(1986) ganhou o prêmio Luis Delfino de Poesia. Vieram a seguir: Lavra Lírica (2000) e Olho D’água (2007). Eulália coleciona vários prêmios e distinções.Destacamos:premio Ferreira Gullar, concurso nacional de poesia do Paraná; premio Mário Quintana, Alegrete, RS.

VII Como o rosto Sem susto dos anjos Herdei a quietude das luas É preciso coragem De um campo de espigas É preciso saber das sementes Por fora E por dentro é preciso AS ELEGIAS (1) É meio dia em minha vida, meu sonho meu sol, minha dança alucinada no horto. Para quem fui, gotas ficaram pendentes nas espigas. Para quem sou, canto humilde e ave partida. É meio dia em minha vida, este relógio de hastes singulares e plurais ceifando o tempo, trazendo à luz banquetes fartos e limpos - irreais 146

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GRAÇA VILHENA (1949)

Poeta piauiense, de Terezina, é professora de língua portuguesa pela UFPI e leciona literatura clássica. Integrou a chamada “geração do mimeógrafo” (anos 70). Participou da Antologia de poetas piauienses e cearenses e publicou Em todo canto(1997) e Baião de Todos (1996).

GUARDADOS Do tio que não conheci tenho um pião de madeira uma gravata de festa e um retrato magro coisas que me olham quando me procuro na inteireza das sobras FIM DE MUNDO Dentro das casas humildemente o dia se dissolve no bico das chaleiras cadeiras obedientes ensaiam danças nas calçadas e a moça espalha sobre um bordado uma possível felicidade. MONARK aquele menino e sua monark um craque andava soltando as mãos só com a roda traseira um pé na sela e os olhos em mim foram as primeiras lições sobre os perigos do amor

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BERENICE SICA LAMAS (1949)

Poeta pelotense (RS), psicóloga, professora universitária e orientadora de oficinas no Scrivere –espaço de criação literária. Ocupa cadeira na Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul. Já participou de várias antologias e estreou em livro em 1999, com Morder a Polpa. Outros títulos: Ãngulos e Dobras(2000), Inventário de Ausencias(2004) e Ampulheta (2007).

o perigo do caos interno estilhaços vazios são navios atracados porto inseguro viagem à vista no veludo das mãos na pata do tigre na unha afiada e filósofa QUINTA crianças se revoltam no parquinho lutam para se livrar das mães opressoras passantes cumprem seu papel e passam pássaros não voam às estrelas na tosca aldeia e o pinheiro adentra galhos ao shopping dio mio, árvores aderindo ao consumo?

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TANIA DINIZ

(1949/2020)

Poeta mineira, é contista, editora, promotora cultural, fundadora do mural poético “Mulheres Emergentes” (1989), publicação trimestral de circulação internacional. Faz parte da geração mineira que surge nos anos 80, nos rastros da contracultura, com humor, exaltação do prazer e da palavra. Estréia em livro em 1988 com os minicontos de O mágico de Nós. Depois vieram poemas em Mulher EmBalada (1992). Haicais: Bashô em Nós (co-autoria, 1996, Menção Especial Prêmio Ribeiro Couto/UBE-RJ), Relato de Viagem à Marmelada (1997), Flor do Quiabo (2001), entre outros. Tem trabalhos publicados em diversas antologias, revistas e jornais nacionais, e sites; alguns estrangeiros.

Amou-me como um deus amei-o como louca. Paixão barroca! UM HAICAI fogo-pagô fogo-pagô rolinha rolando a tarde noite chegou CORPOÁRIDO Em corpoárido seco terreno ardeste fogueiras, distraído. Fez-se fogo farto fogo-fátuo e sem ti, anjo torto, corpotraído, jaz agora fogo morto. BORBOLETA Um beijo pelo corpo inteiro ligeiro deixou uma borboleta roxa mordida na coxa .................................................................................. Tinha uma lua nova no pulmão esquerdo. Um doído no peito. Um sem jeito, Dores, amores. Quando explodiu, da boca saltaram-lhe flores, Estrelas, cometas, luas e sóis, arrebóis. Ternas juras entre lençóis. Boquiaberta, sem oráculo ou profeta, Descobriu-se poeta.

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ARRIETE VILELA (1949)

Poeta, cronista e contista alagoana. Professora aposentada da Universidade Federal de Alagoas, onde trabalhou com a autoria feminina na Literatura Brasileira. Foi eleita para a Academia Alagoana de Letras em 1996. Sua obra recebeu inúmeros prêmios, como o da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, em 2002. Publicou vários livros de contos e vários de poemas:(A Rede do Anjo; Vadios Afetos; O Ócio dos Anjos Ignorados; Frêmitos; A Palavra sem Âncora; Ávidas Paixões, Áridos Amores), reunidos em um único volume: Obra Poética Reunida (2011). Seus mais recentes livros de poesia: Teço-me (2015) e Abraços (2015).

POEMA 25 O Poema não devia esfolar a Palavra que há dentro de mim, pois se destrançam, assim, os fios de sisal que prendem memória e realidade. O Poema devia aliviar essa fascinante e atormentada relação com o que sou, com o que não sou, numa dualidade quase fluida, quase erótica. O Poema não devia deserdar-me do sonho comum, das pessoas com seus olhos de isca e de fastio. O Poema devia esvaziar-me da Palavra e de suas resistências, para que eu seja apenas devaneio à-toa. POEMA 1 Quantos adeuses devo dizer-te? Não sei. Mas te deixo um presente: os textos fundadores (ou fraudadores?) de mim e de ti. Talvez queiras mudar-lhes as entrelinhas...

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NEUZZA PINHEIRO (1949)

Poeta paranaense, é cantora, compositora, integrou a banda Isca de Polícia, de Itamar Assumpção e interpretou músicas de Arrigo Barnabé em festivais de televisão. Participou das antologias Outras Praias / Others Shores (1998) e 12 - Antologia de Poetas Londrinenses (2000). Publicou Pele &Osso,em 2011, vencedor do Primeiro Prêmio Nacional de Literatura poeta Lúcio Lins(jan/2008). Já mereceu apreciação elogiosa do poeta concreto Augusto de Campos.

O poema não pede não implora vem comendo pelas bordas esfolando a flor da pele bebendo sangue de aurora .............................................. O poema era um mutante foi de estralo a estrela de estrela a instante .............................................. Quando caio em mim Caio tão f u n d o que nem dou por mim .................................. Te digo Ao pé do olvido Escuta bem não esquece Mulheres desmonalisam Mesmo a golpes de mestre

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ZULEIKA DOS REIS (1949)

Poeta paulistana, formada em letras pela USP, é professora do ensino fundamental. Estreou em livro com Poemas de Azul e Pedra(1984), muito bem recebido pela crítica. Seu segundo livro, Espelho em Fuga (1989) foi prefaciado por Álvaro Alves de Faria e mereceu apresentação de Carlos Felipe Moisés e Caio Porfírio Carneiro. Participou de várias antologias de haicai.

PRIMAVERA Da página aberta salta uma pétala seca: Primavera antiga. VERÃO Cartão de Natal. Jesus ainda está dormindo no colo de Maria. OUTONO O velho espantalho e o menino da cidade. Ambos espantados. INVERNO Sem força nas asas O marimbondo de inverno. Sonhos do passado.

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TEREZA TENÓRIO

(1949/2020)

Poeta pernambucana, advogada, artista plástica e integrante da chamada geração de 65. Publicou oito livros de poesia, entre os quais Poemaceso, prêmios de 1985 da APCA e da UBE-RJ. Teve poemas traduzidos e publicados no México, Itália, Coréia. Participou de antologias poéticas na França, Itália e Portugal. Já estava afastada da vida literária por problemas de saúde e morreu de parada cardíaca.

SOMBRA Uma criança existe em mim. Sou ela e nossos corações têm o mesmo ritmo. Uma mulher de rosto solitário aperta-a nos seus braços que são meus . Sou riso e o mesmo riso de criança mas a estranha mulher me amarga a alma. Entre as duas meu corpo se transforma. Eu nunca sei quem usa a minha voz Essa mulher caminha pelos mortos com o mesmo alumbramento da criança. Nossas imagens fundem-se no espelho. Uma certeza lúdica me oprime: eu serei para sempre dividida entre os seres da sombra. Eles me velam. Eu sou alguém que busca um novo rosto. MEDIDA a medida do amor é ser deserto e retomar a ausência inicial de parte da memória devorada do inconsciente profundo axial por que o real do amor é fragmentar-se no decorrer do ciclo indefinido em espirais do tempo diluído à lembrança inconsútil desvelar-se

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XÊNIA ANTUNES (1949)

Nascida no Rio de Janeiro, a poeta mora em Brasília desde os anos 60. Escreve poesias, contos, crônicas e artigos. Tem dois livros publicados: Parto Normal e Exercícios de Amor e de Ódio (1980). É também artista plástica e fotógrafa. Integrou a chamada geração do mimeógrafo e participou de inúmeras antologias. Segundo o poeta e crítico Antonio Miranda, o poema Maria dos Prazeres é um clássico da cultura de Brasília.

MARIA A DOS PRAZERES Cada vez que me possuem cada vez fico mais pura mais casta mais virgem Cada vez que fico nua cada vez sou mais louvada beijada aleluia Cada vez que eu me entrego cada vez eu sou mais santa mais salve rainha Cada vez que estou parindo cada vez sou mais mater mais ave maria. MÃOS São mãos nos meus cabelos, nos meus olhos, na minha boca são mãos treinadas em percorrer a carne viva mãos que procuram a parte escondida são mãos acostumadas, salientes, que me desenham flores no corpo todo que me ativam a glândula são mãos que mentem o gesto escondem de mim o resto e, depois das mãos os pés acima de tudo. Ai, estão me machucando!

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CYANA LEHAY-DIOS (1950)

Poeta soteropolitana, é niteroiense por opção. Escreve ensaios, ficção e poesia. Autora de dezenas de artigos, capítulos de livros e textos apresentados em congressos nacionais e internacionais. Publicou Biombo(1989), livro de estréia na poesia. Seguiram-se Íntima Paisagem (1997), O Livro das Horas do Meio(1999), Seminovos em Bom Estado(2003) e (Re)Confesso Poesia(2009). Conquistou prêmios literários no Brasil e na Inglaterra.

CASAMENTO Eu faço a festa: faço, cozo, sonho a seresta enquanto você dorme. Preparo, congelo, apronto enfeito ajeito me sujeito você já se banha. Me arrumo, me enfeito, só não me perfumo, e afino os instrumentos. Recebo, sorrio, sirvo, também bebo, também como, e controlo sua performance. Madrugada, todos idos, Você, bêbado, dorme e eu desfaço a festa... DA GATA Era uma vez a gata. Prenha gata. Sozinha no fim-de-semana deu à luz quatro gatinhos. Sem trauma, sem parteira, sem curativo. Agora cinco gatos vagueiam pelo palácio Saudáveis. Negros. Independentes como nunca fui AULA DE PINTURA enquanto enrubesço me ensina a pintar com o corpo me ensina a perder os medos e a poder sujar as pontas dos dedos as unhas e as palmas das mãos nas tintas de todas as cores enquanto enrubesço em vinho tinto sê meu mestre amor AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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CLAUDIA ALENCAR (1950)

Poeta paulistana, atriz de teatro, cinema e tv, já publicou dois livros de pesquisas teatrais e lecionou artes cênicas. Publicou 4 livros de poemas: Maga Neón (1988), Sutil Felicidade (2001), 50 Poemas escolhidos pelo autor (2004) e Refinamento e Loucura(2013) Foi militante da ALN e em 1972 foi presa e torturada.

MERA INQUILINA Não sou meu corpo apenas entrei nele para meu conforto e confronto Hoje senti esse modus vivendi Sou mera inquilina Vejo através da retina mas ela não sou eu é simples janela na qual me debruço e estou Casa não é inquilino Obra de arte não é museu Som não é violino Corpo é só reflexo do Eu FRONTEIRAS Uma só boca para falar pouco Dois ouvidos para ouvir mais Uma só Alma para viver entre a paixão e o caixão

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ANA MOTTIN

(1950)

Poeta gaúcha, formou-se em direito pela UFRGS. Publicou em 2006 o livro de poemas Olhos de cadela, finalista do Prêmio Açorianos. Em 2011 foi finalista do premio Fato Literário, realização do Grupo RBS. Seu primeiro romance Atado de ervas foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura – Melhor livro do ano Autor Estreante.

CANÇÃO PARA ARRUMAR A MESA De minha mãe, eu sei, herdei a calma, os pés no chão, a luz dos candelabros Mas quem plantou em mim essa semente a cada outono florescendo em dálias? Era tão certa a casa em que vivíamos. Seu lúcido equador, as costas largas, Sobre a toalha o rol de cicatrizes: à esquerda os garfos, à direita as facas, no centro o prato e dentro o guardanapo . Bonança horizontal, pompa e decoro. Onde coloco, mãe, o desconforto, essa vontade de afiar as garras? POEMA DE AMOR SEM NINGUÉM Este poema de amor é bilhete sem destino Não sei a quem entregá-lo Não há nome no envelope nem rua, nem direção Ternura jogada fora saudade apenas, sem fatos que se possam recordar este poema de amor reincidente e insano joga sal no oceano transpira lençóis de insônia esboça os traços de um rosto traceja a forma de um corpo apaga, torna a fazer. Vento vago que levanta e logo depois deposita palavras soltas, papel este poema (eu mesma) este poema é ninguém. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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LUCILA NOGUEIRA

(1950/2016)

Poeta carioca, ensaísta, contista,crítica e tradutora. Tem vinte e dois livros de poesia publicados. Estreou com Almenara(1979) e já obteve o prêmio Manuel Bandeira do Governo de Pernambuco. Essa mesma premiação foi conquistada, em 1986, com o livro Quasar. Eis alguns títulos de livros de Lucila: A Quarta Forma do Delírio(2002), Poesia em Medellin(2006), Poesia em Cuba (2007) e Casta Maladiva(2009). Foi a primeira brasileira a participar do festival internacional de Poesia de Medellin, em sua XVI versão. Ocupava a Cadeira 33 da Academia Pernambucana de Letras, Viveu entre o Rio e Recife, onde faleceu em 25 de dezembro de 2016.

Estou mais para Elis e Janis Joplin Florbela Espanca, eu sou Virginia Woolf amante de Essenine e Sá-Carneiro sobre os campos; de trigo de Van Gogh Compreendo mais Holderlin e Nietzsche que a loucura de Kant ou de Descartes: tudo que em mim pareça comedido não passa de uma máscara de vidro ............................................................................... Falarão meus poemas pelas ruas de cor como receita de viver e aqueles que sorriam pelas costas recitarão meus versos sem os ler Falarão meus poemas pelas ruas de cor como receita de viver dirão que fui um mar misterioso onde quem navegou não esqueceu Falarão meus poemas pelas ruas de cor como receita de viver dirão que era poesia e não loucura meu jeito de sonhar todos vocês Falarão meus poemas pelas ruas de cor como receita de viver perguntarão por que vivi tão pouco sem dar-lhes tempo de me perceber — e aqueles que sorriam pelas costas recitarão meus versos sem os ler

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MARCIA BARROCA (1951)

Poeta mineira, formada em letras, vive no Rio de Janeiro. Seu primeiro livro, Marés e Semeaduras, saiu em 2006. O segundo, Desclausura-o verniz da unha na boca, em 2009. No ano seguinte, publicou 50 Poemas Escolhidos pelo Autor, livro que ganhou o prêmio Henriqueta Lisboa, da UBE-RJ. Seu último livro, Poemas Nus, saiu em 2013.

SENTIDO DO POEMA Teria a poesia violetas e vírgulas áridas palavras essencial sentido? Não sei… Quando sinto o poema Exponho o grito REFLEXO O apartamento inteiro respira você. Nunca pensei que moléculas de poeira gritassem seu nome. Pedro Almodóvar Desço a ladeira dos meus sonhos de salto alto. Requebro bamboleante nos paralelepípedos de um filme real em preto e branco. Um dia ainda sairei dos nervos. Virarei Almodóvar.

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MARIA RITA KEHL (1951)

Poeta paulista, psicanalista, ensaísta e jornalista, tornou-se figura pública muito conhecida e atuante. É mestra em Psicologia Social pela USP e Doutora em Psicanálise pela PUC-SP. Foi editora do Jornal Movimento, na época da ditadura e participou do grupo que criou o jornal Em Tempo, em 1978. No ano passado, ganhou o Jabuti com seu livro O Tempo e o Cão, a atualidade das depressões. Já publicou 4 livros de poemas: Imprevisão do Tempo(1979),O amor é uma droga pesada(1983), O Tempo do Desejo(1983) e Processos Primários(1996) Participou de várias antologias e desenvolve seu pensamento crítico em livros e em seu blog.

CAMINHAR NO ESCURO À frente, nem o vulto de uma luz. Breu sem meias medidas. Atrás, nada que faça lembrar o percorrido. Só o coração, na caixa preta, vibra a agulha da bússola. Caminha-se assim, nem tanto a esmo: pode-se dar um nome a cada passo assim como a cada dia com seu colar de minutos sua falta de começo sua falta de fim. MATO GROSSO Meu irmão é um cowboy guiando a kombi calado, premonitório. Ele atravessa os véus dourados de poeira estendidos na estrada a dois palmos do chão. Outra vez é essa hora do dia quando o olhar procura os últimos sinais de luz entre a faixa violeta dos morros e a unha da lua outra vez essa hora que unifica os mundos. e em Minas Gerais, no Mato Grosso, litoral paulista, em Manhattan que eu não vi, campos tristes, outra vez, é essa hora, quando as coisas se lamentam. choro de bois, sinos graves, mulher louca de sexo e tédio desolada porque tudo é tão lindo e nenhum deus existe.

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ELIZABETH HAZIN (1951)

Poeta pernambucana, doutora em teoria literária pela USP, pós-doutora pela Universita degli Studi di Roma, já ensinou nas universidades federais de Pernambuco e Bahia. Atualmente dá aulas na universidade de Brasília. Participou do Festival Internacional de Poesia, em Copenhagen. Estreou em 1974, com o livro Poesias. Outros títulos: Verso e Reverso(1980), Casa de Vidro(1982) Arco-Íris(1983), Espelho Meu(1985), Martu(1987, premio Rio de Literatura) e o Arqueiro da Lua(1994).

O melhor está sendo feito? Não. Perdido nas esquinas sugerido nos desejos o melhor não tem mais jeito. É o pão que não comemos mas amassamos esse vinho derramado que não bebemos todo amor que não amamos — imaginado — é sempre o que não fazemos. o melhor nasce desfeito ou nos desfaz em mil momentos? NÃO ESCUTE Não escute meu choro quieto: eu sou um deserto e preciso chorar Não escute meu amor fugidio: eu sou um rio e preciso passar Não escute meu sorriso constante: eu sou um instante e preciso durar

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MÁRCIA MAIA

(1951)

Poeta pernambucana, é médica e participou de várias antologias, no Brasil e Portugal. Edita os blogues Tábua das Marés e Mudança de Ventos. Teve poemas publicados na revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, 2001. Já publicou 6 livros: Espelhos (2003), Um Tolo Desejo de Azul(2003), Olhares/ Miradas (2004) e Em Queda Livre (2005), Cotidiana e Virtual Geometria(2008) e Sem Amém (2011).

A chuva enxágua as calçadas da sexta-feira deserta. Encharcada, a miséria se abriga sob os pórticos das igrejas antigas pintadas de novo — preciosamente preservadas — sombria imagem de esquecidos. Não há páscoa, nesta cidade de vivos-mortos. Sem ressurreição e sem saída aqui é sempre — e todo dia — sexta-feira da paixão. ÍNTIMO sentes? esse arrepio que disfarço essa chuva que dentre as pernas se me brota umedecendo-me secretamente o descompassado bater do meu coração urdindo jam sessions de desejo dentro em mim enquanto olhar sereno riso nos lábios todas as tuas histórias escuto sem que te apresse sem que me apresse sentes?

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RITA MOUTINHO (1951)

Poeta carioca, jornalista e pesquisadora, é formada em comunicação social pela PUC-RIO. Colabora em jornais e revistas e orienta oficinas de poesia. Estreou em 1975, com Hora Quieta, livro que teve muito boa repercussão crítica. Seguiram-se A Traça(1982), Uma ou Duas Luas(1987), Vocabulário, Um Homem(1995), Romanceiro dos Amantes (1999) e Sonetos dos Amores Mortos(2006).Seu último livro, Theo & May - Sonetos de amor e mistério, (2016), foi inspirado no célebre Toi et moi, do poeta francês Paul Géraldy.

A PAZ NÃO FAZ BARULHO À noite nascem as horas de viagem: carrego o dia em bagagem até o cimo da falésia e lanço os desatinos em mergulho. Só então as límpidas águas do escuro alvam o futuro das dissonâncias do dia. O choro estia e durmo: a paz não faz barulho. VELEIRO Posso ser veleiro, mastro, parte ossificada, velas, sensibilidade, casco, verdade. Não multiplico pães nem peixes, choro onde me sangram as chagas, singro humana pelos mares, faço imagens, não milagres. Mas se você se fizer veleiro, eu andarei sobre as águas.

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ROSÁLIA MILSZJATN (1951)

Poeta carioca, é médica e psicanalista. Publicou cinco livros de poesias. O último, Esse Recorte(2014), conquistou o Prêmio Literário Nacional do Pen Clube do Brasil de 2016. Em 1999 venceu o Prêmio SESC de Poesia do Estado do Rio de Janeiro. Além de Antologias, seus poemas foram publicados em jornais e revistas como Poesia Sempre, Revista Agulha, Jalons (Nantes, França), revista CULT e outras.

COMO DIZER Como dizer que é noite se dentro de mim é dia como dizer do frio se dentro de mim é fogo como dizer não sei se dentro de mim eu sei como dizer de ti se dentro de mim sou eu A PROVA Não fale tanto Com o tempo O eco reverbera E fica insuportável Cale-se enquanto É tempo e por dentro Teça um instrumento Para a composição da melodia A melodia quando pronta Alcança os justos e inocentes E saberás quem anda ao teu lado

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SONIA SALES

(1951)

Poeta carioca, é formada em psicologia e arte. Fez cursos de extensão em Londres, Munique e Bruxelas. É membro titular da Academia Carioca de Letras, da Academia Luso Brasileira de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Já foi premiada algumas vezes e estreou em 1996 com A Chama Breve. Outros livros de poemas: Ouvindo o Silêncio (1998); Da Rússia com Amor (2003); Dedos da Morte (2006); 50 Poemas Escolhidos pelo Autor (2007) e Sol Desativado (2009). Seu livro, Os dedos da morte, recebeu o Prêmio Menotti del Picchia, da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, em 2007.

MAIS UMA VEZ Amor na casualidade do texto, como o cristal craquelado não extingue a letra trêmula o pranto desalentado. Nas muitas camadas do vidro colocaram o ciúme como cor, cortado pelo meio com lâminas de sangue. Mas o remédio não tinha bula e sem saber o conteúdo bebemos todo o restante. Esquecendo o cansaço começamos outra vez. NO ELEVADOR Neon em reflexo de estrelas. Cristal em céu costurado de espelhos. Um quadrado maior que o Universo. O elevador parou entre o quinto e o sexto andares sem computador, nem ampulhetas. Num instante, centenas, milhares de anos. O espaço cósmico em branco. Um homem, uma mulher, como no início do início.

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HILDA MACHADO

(1951/2007)

Poeta carioca, nasceu no Rio de Janeiro em 1951. Fez mestrado em Artes pela USP (1987), doutorado em História Social pela UFRJ (2001), e foi professora na UFF a partir de 2002. Estudou direção de cinema na Escuela Internacional de Cine y Televisión em Cuba (1989) e atuou como pesquisadora em várias universidades como a New York University (1993) e a University of London (19981999). Em 1987 recebeu o prêmio de melhor direção nos festivais de Gramado, Recife e Rio. Além de vários artigos e ensaios sobre cinema, publicou em 2002 o livro Laurinda Santos Lobo: artistas, mecenas e outros marginais em Santa Teresa (2002). O livro de poemas Nuvens, organizado pela autora permanece inédito.

O NARIZ CONTRA A VIDRAÇA * como a paisagem era terrível mandou se fechassem as janelas o nariz contra a vidraça e o fla-flu comendo lá fora genocídios, promessas, plenilúnios O festim de Nabucodonosor, a vitória dos pó-de-arroz as dores do pai e os gritos de amor são agora aquarelas pitorescas O nariz contra a vidraça melhor ainda atrás da persiana ela com seus preciosismos unhas feitas entre desfiladeiros de livros barricadas contra o sublime e o medo Discreta voyeuse o sofá combinando com o tom das exegeses a polidez dos móveis, avencas, decassílabos, filmes russos perífrases sobre paninhos de crochê e em vez de carne poemas no congelador Anônima, dizia sempre à manicure e apesar das mãos que enrugam as unhas bem curtas e o esmalte claro, por favor Um dia, o leite derramado na cozinha, saiu garras vermelhas, bateu à porta do vizinho

* Hilda Machado. Nuvens. São Paulo: Editora 34, 2018. 166

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ANA CRISTINA CÉSAR (1952/1983)

Poeta carioca da chamada poesia marginal dos anos 70, suicidou-se em 29 de outubro de 1983. Escreveu para revistas, jornais alternativos e lançou livros em edições independentes. Tornou-se conhecida ao participar da antologia 26 Poetas Hoje, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, em 1976. Entre os títulos publicados: Cenas de Abril, Correspondencia Completa, Luvas de Pelica—e o celebrado A Teus Pés, além de Inéditos e Esparsos.

Tenho uma folha branca e limpa à minha espera: mudo convite tenho uma cama branca e limpa à minha espera: mudo convite tenho uma vida branca e limpa à minha espera. NOITE CARIOCA Diálogo de surdos, não: amistoso no frio Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo. PSICOGRAFIA Também eu saio à revelia e procuro uma síntese nas demoras cato obsessões com fria têmpera e digo do coração: não sou e digo a palavra: não digo (não posso ainda acreditar na vida) e demito o verso como quem acena e vivo como quem despede a raiva de ter visto

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BETH BRAIT ALVIM (1952)

É poeta paulista com forte presença nos movimentos culturais de São José dos Campos, ABC e São Paulo nos anos 80, 90 e 2000. Tem passagens pelo teatro, cinema e vídeo, artes plásticas e visuais e gestão da cultura. Foi conselheira de literatura e diretora cultural da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, em São José dos Campos, assessora de literatura do Departamento de Cultura de Diadema, fundadora do Grupo Palavreiros e membro do Coletivo de Cultura do ABC Publicou Mitos e Ritos, Ciranda dos Tempos e Visões do medo, premiado pelo PAC 2007. Participou de diversas antologias no Brasil e no exterior.

FRUTO não lambuzo o beiço nem salivo doce diante do meu fruto predileto a casca áspera no caminho do seu pomo lanha-me a garganta não lambuzo o beiço nem salivo doce engulo seco OUTONO quando eu era jovem a dor doía horizontal bastava o pôr-do-sol e os dias não eram iguais hoje o outono escorre nos vitrais e no outono a dor é vertical trajo vestes escuras e baixo os olhos quando vejo o horizonte assim a dor afunda meus pés no chão amarra o nariz ao queixo e a boca cerrada rumina terra 168

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BRUNA LOMBARDI (1952)

Poeta paulistana, escritora, modelo, atriz, apresentadora, roteirista, produtora de cinema, empreendedora e ativista ambiental. Publicou 3 livros de poesia, No Ritmo dessa Festa(1976), Gaia (1980) e O Perigo do Dragão( 1984), dois romances, roteiro de filme e um diário com o registro poético das filmagens do Grande Sertão. Seu último livro, Poesia Reunida, foi publicado em 2017. Em sua trajetória poética recebeu elogios de Mario Quintana e Vinicius de Morais.

INTRANSITIVO A carne anda cada vez mais fraca e o silencio cada vez mais comprometedor cômicos somos nós que estamos falando sério e pobres são todos, de uma pobreza irremediável de uma doença incurável, apesar de todos os esforços da medicina, da psicoterapia, da parapsicologia quando a única solução seria um sortilégio. Há políticas bastantes para não pensarmos em nada e condicionamento suficiente para termos a ilusão de que pensamos de que somos livres e vivemos como queremos. Temos vontades baratas: um novo par de sapato um pouquinho mais de espaço para alongar as pernas e se possível mais tempo pra reclamar da vida. Ah, deveríamos desobedecer secretamente a nós mesmos, imitar um pouco mais os bichos inventar qualquer forma mais pura do que esta selvageria civilizada do que este progresso cheio de violência do que esta racionalidade que não deu certo. Meu irmão, o absurdo somos nós. BAIXO-VENTRE eu não agüentava mais de amor por você tava ardendo de vontade de você você há de me querer há de tentar, se atrever mesmo se for um delito, se for errado maldito, amaldiçoado mesmo que o céu nos castigue com um eterno eclipse e venha o caos, satã, o fim de tudo e a gente seja culpado porque não soube resistir à tentação eu não quero me livrar desse pecado e me salvo através dessa paixão. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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DAGMAR BRAGA (1952)

Poeta mineira, professora, formou-se em letras pela PUC, especializando-se em literatura brasileira. Depois fez pós-graduação em jornalismo. Atualmente trabalha como revisora de textos e é responsável pelo espaço cultural Letras e Ponto, onde também ministra oficinas de literatura. Estreou em livro recentemente, 2008, com Geometria da Paixão, finalista no prêmio Jabuti de 2009.

CONSTRUÇÃO Lanhada a pedra, faço-me fio, partilho, rasgo entranha e estranho. Quebrado o leme, desoriento, acolho vento, maré e abismo. Cavado o poço, torno-me água, mão retorcida, lisura e barro. Feito o silêncio, lasso a palavra gume sequioso de outra navalha. ARQUEOLOGIA removo o pó dos sonhos convoco oráculos deuses pitonisas remonto a um passado indecifrado labiríntico descerro véus – é tua esta sentença? como dói escavar este argumento o nó o laço o texto quando somos nós mesmos subterrados 170

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ANGÉLICA TORRES (1952)

Poeta goiana, jornalista, escritora e editora. Trabalhou em vários jornais como repórter de cultura. Fez pós-graduação em edição de publicações e livros, em Madison, Wisconsin (EUA), em 1988. Publicou Sindicato de Estudantes (1986,Prêmio Mário Quintana de Poesia, do Sindicato dos Escritores de Brasília), Solares (1988), Paleolírica (1999), O Poema quer ser Útil (2006) e Luzidianas(2010). Tem poemas em coletâneas, jornais, portais da internet, em revistas escritas e eletrônicas.Alguns de seus poemas foram musicados.

Tomara que caia um haikai na sua saia MEU CERRADO Encho os olhos de paisagens do cerrado Um espírito rendado emana da floresta de ikebanas goianas A claridade rasgada o plano exato: geografia instantânea DESCONFIE Não vás crer tanto assim num poeta Vê a cota ilusionista que contém o que ele conta Ele é sempre personagem forasteiro Experto em camuflagem. Um cigano faz-de-conta

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SONIA PEREIRA (1952)

Poeta paulista, é arquiteta formada pela USP e também compositora. Organiza e participa de saraus e oficinas literárias em São Paulo. Já participou de várias coletâneas e obteve algumas premiações. Publicou dois livros: Conta Gotas (1998) e Maldições e Outras Crueldades (2004). Atualmente produz seus próprios livros e integra o grupo lítero-musical Sampestre.

A preocupação com a grana me engana a pena falha a poesia engasga o peito se retrai. Vazio, o bolso gargalha. RESISTÊNCIA A fresta do muro é suficiente. Cabem: a lua e o sol poente FÁLICA Falo de mim, sempre falo. Deslizo em meus vãos desejos de línguas e mãos ávidas e falo, sempre falo. ALVORADAS então bebo o descompromisso do amanhã o dia engendra coisas à minha revelia e tudo é bem maior que a mesquinhez do destino e se anuncia na bruma surda tola linda de hoje 172

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ANGELA MELIM (1952)

Poeta gaucha, vive no Rio onde é escritora e trabalha como redatora, tradutora e intérprete de conferências. Publicou diversos livros, tendo sido premiada pela Fundação Vitae e UBE – União Brasileira de Escritores. Alguns títulos de sua obra poética: O vidro o nome (1974) Das tripas coração (1978) Vale o escrito (1981) Mais dia menos dia (1996, obra reunida) e Possibilidades (2006).

Meu pai nos abandonou. Minha mãe casou e mudou. Vovó morreu. Os irmãos sumiram no mundo ou submundo. Sem explicação Yvonne nunca mais falou comigo e, para Ronaldo, sou fantasma do passado. Vejo meus filhos já voando. Nem um pássaro na mão. FLORES Colho olhos fixos de novo boca seca aberta - o não completo me suspende entre parênteses invisíveis e impotentes no ar parado de passeio neste campo imperceptível minado que a pasma semântica do absurdo colore de avesso e espanto, flores que explodem ao contrário. MANIA DE LIMPEZA Raspa de limão cheira seco: assim a lua limpa alto relevo que a letra afixa no papel novo.

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SILVIA JACINTO (1952)

Poeta paulista, nasceu em Barretos, viveu em São Paulo e reside no Rio. É formada em jornalismo. Publicou: Lavoura de Infinito(1991), Helênica(1993Prêmio Jorge de Lima-UBE), Brasiliana(1994- Prêmio APCA), Chama(2000), O livro da intuição(2001) e Dança do Fogo: estudos sobre o desejo(2004).

LAVOURA DE TIJOLOS A agulha enfiada. A fragrância das flores na cambraia. As cores sólidas das linhas. O avô apenas uma fotografia na parede, me olhando. Dentro da casa. Lia bate os pés no pedal da máquina de costura. Aqui fora, nos canteiros do jardim Carlos e eu amassamos o barro. E o colocamos nas caixas de fósforos, vazias. Esses tijolos de barro sem cozer montam minha olaria. Vou deixar aqui meus sonhos ressecando ao sol. Quando crescer e voltar um dia e um dia não encontrar ninguém tocarei com minhas mãos sujas de sonho o barro dessa olaria. AS GARRAS Graciosa, rodando para o alto as mãos, apresenta-se na sala dançando, as ancas, alaúdes, requebram pernas abrem o godé da saia e guitarras enchem o ar de langor e músicas. Sobrancelhas agrestes olhar cálido e úmido unhas esmaltadas furam como garras assim, ela baila cravando-as em mim enterrando a fúria de sua paixão na fatalidade de ser apenas um indefeso homem.

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NEUZAMARIA KERNER (1952)

Poeta baiana, é professora e membro da Academia de Letras de Ilhéus. Publicou: Fragmentos de cristal, Eu bebi a lua e O livro-arbítrio das Evas dentro e fora do jardim. Este último veio à luz em 2014, com prefácio de Hélio Pólvora. Diz o prefaciador que “o poeta trabalha à beira do precipício”. Acrescento que sem cair nele, a poeta imprime nota nova à sua dicção poética.

CONSUMAÇÃO Toda vez que sopra o vento Eu e meu pensamento Cavalgamos num momento Ao encontro do amor. Vou arder a noite inteira Nos clarões de uma fogueira E depois de virar brasa, Voltar sozinha pra casa Esfriar e virar pó. O QUE ESPERAM DO POETA? para Laura Gomes A partir deste momento está determinado o banimento da palavra pecado. Proscrita também será a palavra culpa por ser ela causadora de infindável angústia. O poeta livre da abstinência do que chamam pecado dirá que sonhar não é sua invenção. E então terá a certeza de que o que dele esperam é apenas a sinceridade até na mentira.

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TERESA VIGNOLI (1952)

Poeta carioca, já morou em São Paulo, Brasília, e agora está em Campinas. É psicoterapeuta desde 1980. Já foi professora e coordena oficinas de escrita criativa em encontros de psicologia, educação e criatividade. Integrante da geração mimeógrafo, década de 70, participou de diversas antologias. Pega Gente e Porretas são duas delas. Em 1986, editou “Asa Verso” e em 1999, “Chama Verbo”, em parceria com a poeta Silma Coimbra Mendes.Em 2019 reuniu 29 poemas de contemplação da natureza que são acompanhados por fotos representativas feityas por Ronaldo Miranda e assim surgiu seu último livro: Entre Mundos.

a vida espera, silente. a vida pede semente. novas flores, novos tempos, urgente SEMEADURAS Não querer o brilho de fora, colher o trigo de ouro que nasce em campos vindouros. Pois seja o futuro o agora, no brilho que vem de dentro, na luz que anuncia o vento, na voz que sussurra a aurora. Seremos um dia um só povo a semear só alentos, a respirar novos pólens, a tocar em toda Terra. Todo braço um só abraço a enfeitar-se com flores pra colheita de ternuras. 176

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MIRIAM ALVES (1952)

É paulista, assistente social, professora, escritora e poeta com projeção internacional. Ativista afrodescendente sua poesia surge como ação e missão de atuar e interagir no espaço social. Na década de 1980, passou a integrar o coletivo Quilombhoje Literatura, responsável pela produção dos Cadernos Negros, publicação na qual estreia no número 5, de 1982. Publicou dois livros de poemas: Momentos de Busca, (1983) ; Estrelas nos Dedos, (1985) e está presente em diversas antologias e teses em universidades do Brasil e do exterior.

ÍNTIMO VÉU Arregaço o ventre corcoveio no ar gemo Você? Tira o meu último véu. PAISAGEM INTERIOR A madrugada respira acordes estrela brincalhona enluará sonata dum sonho rola asfalto O céu todo em sono confunde-se o sol ilumina-o com um sorriso madrugada respinga orvalho nos telhados A face do céu confunde-se meio em noites, meio em dias desponta uma aurora nasce uma criança brincalhona toda envolta em madrugada. Acorda dia! há fome de esperança!

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LILIAN GATTAZ

(1952)

Poeta paulista, é psicanalista e contista. Seu livro, Mar de Dentro, conquistou o Proac na categoria revelação de autor inédito. Já teve poemas e contos premiados e já foi publicada na Europa e nos Estados Unidos.

DESISTÊNCIA na ressaca de si mesmo navegou até o final e pulou horizonte abaixo QUIMERA todo cais é uma alameda de concreto vazado que sempre me leva para onde nunca vou. DA FUGA DAS PALAVRAS bem que eu queria te falar que ainda deita comigo o gosto acre da tua boca e que a lembrança dos teus olhos é o que fecha os meus mas é bem aí que as palavras fogem e às vezes elas fogem para sempre. boa noite, volto ao encontro da memória.

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AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA


LEDUSHA SPINARDI (1953)

Poeta paulista, é jornalista, tradutora e compositora brasileira. Viveu muito tempo no Rio e considera sua alma carioca. Assinou a coluna de poesia Risco no Disco no jornal Folha de S.Paulo na década de 1990. Foi parceira de Cazuza, Lobão, Bebel Gilberto e Francis Hime. É tradutora de língua espanhola, e também faz trabalhos jornalísticos. Já publicou quatro livros de poemas: Risco no Disco ( 1981), Finesse & Fissura (1984), 40Graus (1990) e Exercícios de Levitação (2003). O verso “Prefiro Toddy ao Tédio” – eternizado por Cazuza, é de sua autoria.

FELICIDADE nada como namorar um poeta marginal incendiado nada como um mingau de maizena empelotado de tanto amor acumulado uma casinha em botafogo um quarto uma eletrola uma cartola & depois da praia sonhar que a bossanova voltou pra ficar eu você joão girando na vitrola sem parar SINHAZINHA EM CHAMAS ai quem me dera uma tuberculose uma overdose uma carência esplêndida. DE LEVE feminista sábado domingo segunda terça quarta quinta e na sexta lobiswoman OLHANDO AS ILHAS a primeira nuvem fosca nos olhos a primeira alegria talhada no vácuo o namorado esteta que chorava à toa o atlas que homem nenhum me deu

AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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JANDIRA ZANCHI (1953)

Poeta curitibana, é ficcionista e educadora. Tem cursos de pós-graduação em astronomia e educação e é profissional do magistério. Trabalhou na Universidade Agostinho Neto, Luanda – Angola, entre 1985 a 1987. Como poeta publicou Gume de Gueixa (2013), o livro virtual A Janela dos Ventos (2012) e Balão de Ensaio (2007). Participa do conselho editorial de mallarmargens, revista de poesia e arte contemporânea.

SISOS ...quase todos os instantes do dia ocupados em desfazer as pistas das grandes vertigens dos alpendres de muitas fases dos minúsculos pormenores dialogados enfrentados na tábua rasa dessa empáfia oscilante e deslizante comemorada em sisos e risos eloquentes disparados ao sol e ao sul — de mim. SENHORA Foi na última noite. A primeira tempestade da madrugada Anunciava a chegada do alvorecer E todos os raios que partiram Em viagens ignoradas Voltarão em um clarão de lucidez. Eu só me ria, só me ria correntes e grilhões desabando nem barreiras nem segredos como vivemos por tantos anos agrilhoados obstinados. Mas, tem a primeira madrugada. Antes de adormecer grande despertar palavras e conceitos – não refaço não repiso não teorizo. Prática pré-praxis teoria depois sonho agora nessa madrugada. castigos e fetiches coração eterno coração detive incansável que ronda teus passos deve estar na poeira dos teus pés o segredo da minha paz.


Após um longo trabalho garimpando vozes femininas dentro da poesia brasileira, realizamos em dezembro de 2017 o primeiro Sarau das Mulheres Poetas, no auditório do IAMSPE (Hospital do Servidor). Naquela ocasião, reunimos 15 poetas e uma atriz que apresentou a performance-esquizofrênica Sou ela ou serei eu? No segundo Sarau das Mulheres Poetas, realizado em maio de 2018, na Casa das Rosas, resolvemos ultrapassar os limites do efêmero e conferir maior durabilidade e capilaridade ao evento. Esse é o sentido desse livrinho*, de pequena tiragem, mas feito com esmero e cuidado profissional. Espero que ele possa contribuir na direção desse projeto. Ou seja: que o ótimo trabalho que as mulheres poetas estão realizando mereça a atenção e o interesse

de leitores e críticos. França e Inglaterra ocorFoi por essa razão que reu o mesmo boicote com iniciei esse trabalho de escritoras do século 19. pesquisa em meados de Hoje essas questões estão 2011. Após um tremendo sendo revistas e resgadesabafo em meu site, tadas. Algo que é bom criticando esse boicote, re- para todos nós. E posso solvi correr atrás das vozes adiantar que a transformapoéticas das mulheres. E ção dessa série, que reúne para que isso não ficasse mais de 400 poetas e mais circunscrito a mim mesmo, de 1600 poemas, em livros meu site virou o site das digitais está concluída.São mulheres poetas. Nesses 6 3 volumes, todos já pronanos e meio deixei de pu- tos e disponíveis gratuiblicar qualquer outra coisa. tamente aos interessados E usei os dois espaços que na plataforma Issuu. O tenho no facebook para di- primeiro obteve a assivulgar cada poeta incluída natura de Maria Valeria na série. Rezende na apresentaPosso garantir que não me ção.O segundo de Wanda arrependi. Garimpando em Monteiro e o terceiro de diversas regiões do Brasil Mirian de Carvalho. encontrei muito ouro e Vencida essa primeira muita pedra preciosa. etapa, agora vou batalhar Lamentavelmente, grande para que alguma editora parte dessa riqueza estava transforme esse trabalho escondida através do em livro impresso.Conto legado remanescente do com a colaboração e ajuda machismo e da educação de todos. patriarcal. Mas é bom que rubens jardim (* fizemos um livrinho com minise esclareça: em Portugal, AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA 181 bio e poemas das participantes.)


Trabalho memorável, potável, cantável, poetável, historicável, encantável do minerador de jardins gerais da poesia feminina brasileira, Rubens Jardim. Mulheres poetas de todos os pontos do país vastíssimo,diretamente musas, sem intermediários.O traballho de Rubens, reinstalando e melhorando o cânone vai contra o destrabalho da midia patrocinada pelo sistema financeiro antinação. Não mais submersa,a verdadeira literatura brasileira,retorna ao seu lugar central de energia no espaço da literatura mundial. Carlos Emilio C. Lima Rubens Jardim, poeta e incansável ativista cultural, de há muito e de forma generosa vem divulgando a poesia feita por mulheres no Brasil. Como se não bastasse, a compilação e divulgação de centenas de poetas em seu blog, pioneira cartografia do gênero, agora ele contribui definitivamente com a história da literatura brasileira, publicando o primeiro volume digital dessa série que pode ser lido em PDF gratuitamente. Trata-se de um inestimável trabalho, merecedor de todo aplauso. Dalila Teles Veras Rubens Jardim, que há anos estuda e divulga nossas mulheres poetas, lança um livro - gratuito - sobre elas. Recomendo. Renato Janine Ribeiro Parabéns pelo excelente trabalho. Antonio Carlos Secchin Livro digital organizado por Rubens Jardim faz um rico mapeamento da poesia brasileira contemporânea de autoria feminina. Claudio Daniel Competência, generosidade e afeto são as marcas desse belo e sensível trabalho. Parabéns, Rubão, por mais essa realização. Marcos Roberto Nascimento Vejam esse interessantíssimo trabalho do poeta Rubens Jardim de resgate das poetas brasileiras em nossa literatura. É gratuito! Leiam, apreciem, divulguem! Edelson Nagues Garimpeiro? Trabalho de ourivesaria, parabéns! Antonio Torres Parabéns pela colheita querido, tá ótimo! Natália Barros Está maravilhoso, Rubens! Que trabalho acurado e bonito. Parabéns! Chris Herrmann Rubens, ficou excelente! Apanhou mas a diagramação ficou show. 182 AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA Adriane Garcia


Rubens, ficou muito bom o livro! Muito útil num universo cultural em que a poesia masculina parece sempre ter mais peso. Tomara que consiga transformá-lo em livro impresso! Marina Colasanti Rubens Jardim, grande divulgador da poesia, acaba de dar mais uma notável contribuição, reunindo no livro As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira muitos dos seus principais nomes. Valdir Rocha Minha homenagem para o seu trabalho pioneiro: AS MULHERES POETAS.Por sua contribuição ficará para sempre na História da Literatura Brasileira. Viva Rubens Jardim. Sonia Sales Queridíssimo, que trabalho hercúleo! Só mesmo um poeta sósia de Zeus se lançaria a uma aventura dessas. Que imenso prazer poder estar na companhia de tantas belas poetas, pela mão de um poeta de tamanha percepção e sensibilidade. Angélica Torres Lima Este maravilhoso projeto de Rubens Jardim é um grande e especial presente deste poeta tão generoso com a arte, a poesia, a cultura e a literatura- para nós. Um presente para nós, poetas mulheres brasileiras. Um presente para leitores, professores e pesquisadores. E, sem dúvida, para a própria Poesia. É uma honra fazer parte. Rubens merece todos os aplausos, pois, mantendo ativa sua vibrante produção individual, também organiza e coordena muitos projetos sempre voltados à divulgação da literatura, ao congraçamento, ao encontro e aos diálogos. Parabéns, Rubens, por fertilizar de arte o nosso cotidiano e o nosso universo. Beatriz Helena Ramos Amaral Belo trabalho, meu caro poeta! Ronaldo Werneck Que as utopias se inspirem em você, Rubens Jardim Beth Brait Alvim O Rubens Jardim tem feito um trabalho lindo de divulgar a poesia feita por mulheres no Brasil. Esse trabalho, de anos, começa agora a ser publicado em livro digital. Simone Teodoro Forte e linda antologia “As Mulheres Poetas”... fruto da dedicação, esplêndida pesquisa do querido poeta Rubens Jardim!!! Imperdível leitura! Patrícia Claudine Hoffmann AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA Volume 1  

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