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NR 06

Ano: 2010 . nr 06 . Mês: Julho . Mensal . Director: António Serzedelo . Preço0,01 €

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e d t a t c e d n i sp l e e s a o l r frim-se pe o m s o o mede i A ã ç m a z i l u i iv c e d grau de

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à m a i v e ol e- o dev be qu r r sa co ue em g r e s s e q l , n ã o ras, s e l a ita ho m áve o e a c r e d m e d i duas i e ta r e ante e v sol, vis r t i e s r r l a t o E En anue i o . p a r a c ê n c i rá du e r ,c z, em bia no aM o p r e a a l u é m , i , asso os” s m c m Pis id enfi se a r a m b tará d p a n , t tr m ri ta es “te . En a por rante irá, g a os os ar ote, e ir a ç d lh m u ra ap no est ga a p rta u o, ig apla aça, o erro um c a inv ma n de, t e e u a r a u v n u b r n d m p a i t e i a é q g co o av en qu al ra ulg ás, o ro vend to, in fern orre ra tr cena são, j is do , su go d u a r o n c n a a , o t i a u u j e o p l a e l d t i u, o «O mo s al e ane essa volta ue lh uma era m ran eça a entro m b i o , v t , q n s d á li ão te ra ,c ra la ria ade. A ivo de ro at ece a vulto do, e a, e n …) ien e obe o ne em ir c fi t ( ç a u g erd airá v O tou acon e um tro l a for ro?» ça su de, q o com s vir iante lib s d ou oi su o. ur od ou for alda ue o p rpo, p efesa e um e não scans r o q recçã se do ecia a vê o t enha l ã t t om vida e co em d rtir d m de rcebe na di cha- mer ndo ue ac pe nca dos a que e mu era q nvist ia da stá d ser s , a pa ou nu o e p u a i n a r o arr segu sólid de, qu se es Que que s o o e exp tour e, ent m . e s o s , o a t l e i o s do ra alg verd r. De nobr idade ito c o ele i que 98) exi e r l a 19 o t í d e r r e a ã m n r r u p n t d t co m. E i mo ulo es ru ua ebe j á n o r t e » Litera ve o va o tít cie à b to de eiro q perc vivo, a s, u n s r a m obel d e ica r r n a t e u d e e u c á u r o u c i o N , t n e t ta in da as io r«O mer ue re viveu pelo ais cont e a vi (Prém as e ias, se a m q n r o o , o r a a g s r ic pa ador com med ta. Só bor , ent ma afr ndúst sabe t i s m seu s ara o a e e e S a r o i r , b z é m pu . Te to Nã as de ue Jos só da riq tes e uros. aças tão orrer mas omen ue é s r A r to ão o. m as ar to m ho q sp sa juíz do a as de nte a para n d o son cer ç a c eia ra ide ou on as, e p pulsi os e p no oc saib a a id .» d r s, e im de não nei ent am rico m ter conv ue er ue o r ma anida ue t n ue er riq ria mq oq xcê um « E pode a ergu lvez e é bo qualq da h errama il, m ta os, e r eT as ês or qu m pa ur res p form artas d ano tr o a t c a o 1 e vir are e q u m a d a s i s b o a n 0 3 , p . 2 m m L u 0 i l e ,2 n tro sub racto d tugal, i Lisboa Tea a t , r i x E Po enes par os re r sob do, F d o m to re


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02 NA VIGIA

Suponho que viver no meio da natureza seja sonho para muita gente. E como não? Pense-se apenas na solidão. No sossego. Na serenidade. Na vista sobre um horizonte infindável, banhado pela perfeição que só um pôr-do-sol pode oferecer. Imagine-se agora apreciar tudo isto na companhia encantadora de Scarlett Johansson. (Suspiro. Duplo Suspiro.) Nem o paraíso poderia ser tão perfeito. A isto se chama ter uma ‘vida simples’. Viver da terra e para a terra. Nos entretantos, ler prosa selecta. Muito selecta. Pensar. Escrever. A Scarlett e um copo de vinho. Pensar mais um pouco. Ler idem. Receber, ocasionalmente, um ou outro amigo mais próximo. Uma pessoa sonha com isto e sente-se um verdadeiro Henry David Thoreau. Na verdade, uma pessoa sonha com isto e deseja realmente ser Thoureau. Infelizmente, e como Thoureau bem sabia, nem nessa ideia simples estamos completamente livres de poderes transcendentes que, fatalmente, nos relembram a dura e miserável realidade de que este é um luxo a que já ninguém poupada por ordem do tributem direito. Que o diga quem, nal. A filha que com ele reside até há bem pouco tempo, tinha está grávida de oito meses. O tribunal, aqui, habitação no Parfoi caridoso, que Natural da que estas numa dádiva Arrábida, junto à pouco habiAldeia da Piedade, incluam a redução a tual. Não obsperto de Azeitão, um monte de estante ser esta e a viu ser demo- combros um conu m a dádiva lida coercivajunto de habitações com data de mente pelo ICNB expiração. (Instituto da Con- que a nada nem a Mal a criança servação da Natu- ninguém afectam, nasça a demoreza e da Biodi- destruindo umas lição avança. versidade). Apa- quantas vidas pelo r e n t e m e n t e , e caminho, na tentati- O h o m e m , sem meio de desta vez, foram va de aprimorar uma sustento senão três casas. Uma, a a sua quinta, de Ana Merelo. A paisagem límpida será mandado outra, a de Mário sobre uma pedreira para debaixo Pereira Alves. da ponte com Pessoas a quem, e como se não bastasse, será um novo neto nos braços. É exigido o pagamento das ope- como se diz: vida nova, casa rações, assim como, suponho, nova. O ICNB, pelo seu Presidente uma nota escrita de agradecimento pelo distinto trabalho Tito Rosa, a cara da vergonha, não se condói e explica executado. Mas eu falei de três demo- que as casas foram construlições? Erro meu. A mais dra- ídas ilegalmente, há mais de mática, a do agricultor Flo- 20 anos, numa zona protegida. rentino Duarte e família, foi Repito o pormenor: constru-

MQUINTAS

Viver na Natureza (e ter o ICNB como vizinho)

ídas há mais de 20 anos. O sr. enquanto os poderes públicos Rosa explica que é a lei. E que não eram vistos nem aparecia lei é para todos. Ainda que dos. Agora isso de nada vale. venha que com uma vida de O ambiente, claro, está em atraso. Porque, de facto, de primeiro lugar. Os vizinhos, uma vida de atraso se trata. incrédulos, leigos em direito O Plano de Ordenamento do ambiental, não compreenParque Natural da Arrábida, dem como é possível que meia dúzia de casas o qual regula as sejam democonstruções no Os vizinhos, lidas quando, espaço protegido, só foi aprovado incrédulos, leigos em nas suas traseiras, pedreiem 2005. Minu- direito ambiental, ras esventram dências, claro. não compreendem pacientemente, Antes da imple- como é possível que faz anos, uma mentação do meia dúzia de casas Serra promesmo, já exissejam demolidas tegida pelo tiriam «algumas mesmo ICNB. regras de cons- quando, nas suas Não duvido que trução» (sic), as traseiras, pedreiras seja uma quesquais, suponho, esventram pacienteforam estipuladas mente, faz anos, uma tão de prioridades. Ou melhor, a olho e ao sabor Serra protegida pelo de facilidade. do vento. Inacremesmo ICNB. O ICNB, que ditável como, na nunca serviu altura, ninguém nada nem ninguém senão a sua estava esclarecido. Durante todo este tempo (20 própria idiotice, acha que são anos, minha gente, 20 anos), estas habitações quem comFlorentino Duarte, na sua ino- prometem fatalmente o Parque cência, ali foi gastando as eco- Natural. E perante isto, claro, o nomias a montar uma vida drama humano não passa de

uma coisa secundária e sem importância. Obviamente. Felizmente, há um vislumbre de salvação. Os poderes autárquicos, que, aparentemente, nunca se preocuparam antes com o assunto, acordaram, como é hábito, perante a tragédia iminente e já prometeram intervir no sentido de impedir a demolição da casa do sr. Florentino Duarte. Admito que não tenho grande fé. O ICNB está convicto das suas beneméritas acções na conservação da natureza e da biodiversidade. Aliás, que estas incluam a redução a um monte de escombros um conjunto de habitações que a nada nem a ninguém afectam, destruindo umas quantas vidas pelo caminho, na tentativa de aprimorar uma paisagem límpida sobre uma pedreira, não deixa de ser uma metáfora perfeita para o excelso trabalho que todos os dias o ICNB luta por realizar. Tiago Apolinário Baltazar Estudante Universitário


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NA VIGIA 03

O Festival e as Bandas Filarmónicas Nos dias 25, 26 e 27 de Junho passados, Setúbal foi palco, uma vez mais, do Festival de Bandas Filarmónicas da Cidade de Setúbal. O evento, que vai na sua 6ª edição, trouxe à margem do Sado mais de 400 músicos, de 10 formações de distintas regiões do país. O público confirmou o seu apreço pela iniciativa com uma expressiva participação nos seus diversos momentos. O festival experimentou já diferentes modelos, tendo, desde a edição de 2009, encontrado o formato que mais o projecta, mais valoriza as bandas e maior expressão de público encontra. Este evento é um projecto da Sociedade Musical Capricho Setubalense, que foi prontamente acolhido pela Câmara Municipal de Setúbal. Estava assim criada a parceria que se vem consolidando ano após ano e que assume como objectivos centrais a promoção da música e da música filarmónica em particular, dar a conhecer o trabalho desenvolvido por estas formações musicais e fortalecer os laços de cooperação e amizade entre as bandas, os músicos e as colectividades que se dedicam ao ensino e à divulgação da música.

Sociedade Musical Capricho Setubalense - 1928

abre-se o espaço doméstico, à imagem do que a aristocracia praticava desde a Idade No âmbito das práticas cul- Média. Em Portugal, todaturais, as bandas filarmónicas, via, há uma grande limitação em Portugal, são um produto ao encontro público fora do do século XIX. Para o com- contexto religioso, pelo que preender, há que recuar um a sociabilidade se desenvolve no espaço doméstico, o que pouco no tempo. abre uma nova realidade para No final do Antigo Regime as actividades culturais. A Igreja perde rendimentos o absolutismo marcava a que lhe permiEuropa. A protam assegudução cultural O festival rar uma proera, assim, cendução cultutralizada. A par- experimentou já ral de ponta, tir de 1750 surge diferentes modelos, passando a a e m e r g ê n c i a tendo, desde a edigarantir apede uma cultura ção de 2009, enconnas a liturgia urbana. Nas printrado o formato que tradicional. cipais cidades da Europa, a classe mais o projecta, mais Simultaneamente desam é d i a u r b a n a valoriza as bandas e parecem as desenvolve uma maior expressão de ordens reliprática de sepa- público encontra. giosas, subração do espaço sistindo unireligioso do profano. Criam-se os espaços camente as mendicantes e públicos de sociabilidade e as assistencialistas. Dá-se o

desaparecimento sucessivo dos ducados. Com as revoluções liberais, desenvolve-se, cada vez mais, uma cultura urbana, difundindo-se as bibliotecas, a literatura de cordel, a música urbana. O Estado e a Igreja reduzem significativamente o mecenato cultural, pelo que na maior parte dos países europeus esta função foi assumida pela grande burguesia urbana. No nosso país, assim não aconteceu. A rápida ascensão desta classe não lhe permitiu apropriar-se das ferramentas necessárias a um gosto cultural sofisticado e contrariamente ao que se verificou generalizadamente pela Europa, não chamou a si essa responsabilidade. Em meados do século XIX existe, em Lisboa e, de algum modo, no Porto uma elite fechada que acompanha e está a par do que de melhor se faz em Paris, em Londres ou

em Berlim. Embora o território da média burguesia urbana, nacional continue a caracteri- começam a formar-se bandas zar-se por uma prática cultu- filarmónicas, que beneficiaral rural, associada às colhei- ram de ampla disseminação no tas e às estações, nas cidades séc. XIX e durante a primeira República. As do país afirmase bandas filaruma elite buro trabalho mónicas e as guesa local – os colectividades donos das fábri- desenvolvido por cas, das terras, das estas formações mu- a elas associadas foram casas – que enri- sicais e fortalecer os e continuam quece muito rapi- laços de cooperação a ser estrutudamente, cone amizade entre as ras de cultura quanto nem sembandas, os músicos que imprimipre de forma legal, ram a desconjá que por vezes e as colectividades centração de associados ao que se dedicam ao equipamentos tráfico de escra- ensino e à divulgaculturais e a vos. Começam ção da música. democratizaa copiar o que ção do acesso vêm em Lisboa e no Porto e aparecem deste ao ensino da música, num país modo alguns equipamentos, onde a concentração da acticomo os teatros de modelo vidade e dos equipamentos italiano, algumas bibliotecas, culturais mantém caracterísassociações. Na impossibi- ticas próprias de um regime lidade de formar músicos, e absolutista. consequentemente orquestras, fora de Lisboa, por iniciativa Nuno Marques


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04 ASSOCIATIVISMOS

Touradas na Feira de Santiago, não obrigado No passado dia 30 de Junho das aos rituais naturais, sob do corrente ano foi apresentada, influência do meio ambiente na última Assembleia Munici- em que se envolve. Assim parece ao comum dos pal de Setúbal, a Plataforma pela Ética Animal de Setúbal, cidadãos que gosta da sua terra, conhecida por “ES Animal”. Um que quer vê-la crescer e protexto fundamentado chamava a gredir. Para quê fazer a tourada atenção para a importância da na Feira de Santiago? Quando há tanto por fazer, defesa dos animais, da salvaguarda do património natural, os parcos recursos financeiros salvaguarda e recuperação do existentes deverão ser melhor património construído em mau canalizados. O desenvolvimento de estado e/ou risco de derrocada, Setúbal deverá e investimento no assentar nas Centro HistóSe existiu suas riquezas rico, entre outros naturais, como aspectos julgados alguma tradição sustentáculo de importância de touradas em do desenvolfundamental para Setúbal, ninguém vimento ecoa cultura e história as poderá comparar nómico real, de Setúbal. E para e não na proa problemática das com as tradições moção de um “touradas na Feira culturais, históricas de Santiago”. O e religiosas que estão espectáculo cruel e desitexto e o vasto no ser e sentir mais gual entre o grupo de pessoas profundo de uma “homem e o que o apresentacomunidade que animal”. ram, consideram Os valores as mesmas como ama a Arrábida e o dos setubaactos de barbá- Sado lenses estão na rie, um espectáculo condenável e desumano, Serra da Arrábida e no Estuásem respeito pela dignidade de rio do Sado, veículo cultural, outros animais, os “touros”, que histórico e religioso, susceptísão apenas um pouco diferen- vel de promoção de emprego e riqueza, designadamente atrates dos “Homens”. Tantas outras tradições, ao vés das actividades económilongo da história, no complexo cas tradicionais como o pasprocesso de evolução das men- toreio, a produção de queitalidades, têm vindo a evoluir no jos e vinho, da gastronomia sentido do respeito por todos os da região, apanha de ostras e da pesca, da seres humanos, e, sobrevivência em Setúbal, a reaPara quê fazer da comunilidade não é semea tourada na Feira dade de roazes lhante à dos concorvineiros, o celhos vizinhos de Santiago? turismo, e de da Moita, Montijo e Alcochete, nem detém arreiga- todo ecossistema da região da Arrábida que urge defender, das práticas tauromáquicas. Assim, não se compreende promover e salvaguardar. Estamos num período da hisesta necessidade de recuperação de uma dita tradição tau- tória, em que a crise económica/ romáquica, cujas tradições financeira nos deverá levar a mais profundas estão liga- uma profunda reflexão sobre o

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que pretendemos para a nossa região e aproveitando as nefastas circunstâncias para dar o salto em frente e mudar o paradigma económico de desenvolvimento industrial para outro, com base nos recursos naturais, promovendo o desenvolvimento sustentável numa região única e que se encontra num processo de candidatura a património mundial pela Unesco. Ao contrário de assistirmos,

mais ou menos passivamente, à destruição deste tesouro, deveríamos investir na salvaguarda do mesmo. A cultura e a tradição dos setubalenses dizem muito mais que qualquer tourada que tenha existido na Feira de Santiago. Se existiu alguma tradição de touradas em Setúbal, ninguém as poderá comparar com as tradições culturais, históricas e religiosas que estão no ser e

sentir mais profundo de uma comunidade que ama a Arrábida e o Sado e que vê, com tristeza, estes a serem destruídos diariamente pela acção das pedreiras, da co-incineração e por uma política económica errada para a região. Para tourada já nos basta esta! Fernanda Rodrigues Associação dos Cidadãos pela Arrábida e Estuário do Sado


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PERIFERIAS 05 José Saramago in memoriam Em 1982 é editado Memo- estrito, adquirem uma nova rial do Convento que alcança significação por se tornarem um êxito que ultrapassa fron- relevantes as forças mateteiras e torna conhecido José riais que fazem a História. Por Saramago, então com 60 mostrar os indivíduos agindo anos, à escala internacional. à base dos seus dramas pesAntes, entre outros, já tinha soais, dos seus interesses e escrito Levantado do Chão conflitos de classe. Essa insubordinação con(1980) e Viagem a Portugal (1981), dois livros fundamen- tra a história oficial, que já tais na sua obra. Nessas três existia em Levantado do Chão obras inscreve-se o dispo- ou Memorial do Convento, sitivo narrativo que torna a continua no Ano da Morte de Ricardo Reis, História do escrita de Saramago impar. Uma mesma frase é parti- Cerco de Lisboa, O Evangelho lhada por diversos persona- segundo Jesus Cristo e será retomada com gens, incluindo o novo enquanarrador. A consO que nunca dramento na trução sintáctica Viagem do é reconstruída se perde é uma deElefante o u por uma pon- purada sagacidade e m Caim o tuação, de vír- que se plasma num seu último gula flutuante, discurso literário romance. que subverte as de uma criatividaEntre o regras gramátiEvangelho e cas para se sub- de fulgurante, sem meter ao ritmo nunca a literatura se a Viagem, o dispositivo s o c i a l d a l i n - subordinar à polítinarrativo de guagem. As nar- ca, mas sem deixar Saramago rativas são cons- de ser política. inflecte a partruídas a partir t i r d e Jande uma observação profunda da condi- gada de Pedra. A trama dos ção humana, de uma pers- romances e/ou novelas pectiva histórica que ques- centra-se e, contraditoriaEstátua do escritor, em Azinhaga do Ribeiro, sua terra natal tiona ideologicamente o que mente, dilui-se no questionar a historiografia oficial dá por o presente. É o que sucede portuguesa alargou a estrada midos, da justiça social e da adquirido. Desloca o centro em Todos os Nomes, Ensaio da sua inesgotável beleza, paz, sempre com lúcida milida acção para um colectivo, sobre a Cegueira, Ensaio sobre ganhou uma fama mundial tância comunista. José Saramago, um escrique não tinha. tipificado em personagens, a Lucidez ou as J u s t a m e n t e tor que só no último terço que emergem de uma mul- Intermitências A trama dos d i s t i n g u i d o da sua vida é reconhecido, tidão anónima que, assim, da Morte. com o Nobel vê alguns dos seus romanO que nunca romances e/ou fica nomeada. Os Mauda Literatura, ces entrarem para o cânone Tempo, Baltasar Sete-Sóis, se perde é uma novelas centra-se e, e m 1 9 9 8 , o da literatura mundial. Fazem Blimunda, o sr. José, Joana depurada saga- contraditoriamente, discurso de parte dos livros que a humaCarda, Joaquim Sassa e tan- cidade que se dilui-se no questioaceitação do nidade deve necessariatos outros que ganham iden- plasma num disnar o presente. prémio anun- mente conhecer, deve ler tidade para melhor repre- curso literário de cia a inten- com urgência para enconsentarem o todo, de onde uma criatividade sobressaem sem nunca a fulgurante, sem nunca a lite- ção de tornar mais conhe- trar, para aprofundar a sua ratura se subordinar à polí- cido Portugal e a literatura dimensão. Apesar disso, ele se subtraírem. Os episódios ocorridos e tica, mas sem deixar de ser de língua portuguesa, mas nunca deixou de ser um também o de dar mais visi- escritor fundamente enrairegistados pela realidade, política. Com Saramago, a língua bilidade às causas dos opri- zado na sua pátria. Viagem no seu sentido mais plano e

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a Portugal é uma frondosa sementeira onde se colhem os saberes que irá espalhar pela sua ficção. Um livro de expandido amor pelas terras lusitanas que deveria estar nas estantes de todos os portugueses. Haveria um dia, há sempre um dia, em que se deixa de estar, em que não se escrevem mais romances, nem mais se confraterniza com os amigos, nem se cruza uma esquina do acaso para apertar a mão de um desconhecido que não nos conhece, mas nos leu. Nesse dia começa a caminhada para a nuvem habitada por outros escritores, igualmente notáveis, a quem a memória atira para um progressivo esquecimento que nem o Nobel conquistado consegue proteger. Não podemos deixar que esses dias se aproximem de José Saramago, com ele outros resgataremos. Não podemos deixar que o nevoeiro comece a invadir essa escrita plantada num território político e social que é nosso e que proporciona a todos o sublime prazer da leitura que lavra o pensamento, tornando-o mais fecundo. José Saramago continuará a ser lido nas sete partidas do mundo, enquanto o mundo for mundo, para glória da literatura e de Portugal. Obrigado José Saramago pelos livros que escreveste para todos nós. Obrigado pelo orgulho que sentimos em sermos da mesma pátria. Um obrigado, mais íntimo e pessoal, por termos sido amigos e camaradas. Mais, muito mais que muitos outros alguma vez foram, e que partilhámos com tantos outros. Manuel Augusto Araújo


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06 PERIFERIAS

“Contributos da Memória Operária, para a História do Trabalho” II

A desvalorização do escudo funcionou de uma forma mais eficaz do que a mais feroz pauta proteccionista; é verdade que Alfredo da Silva soube aproveitar, como poucos, esta oportunidade, porque o Barreiro, com as condições naturais naquela altura, lhe ofereceu o progresso dos transportes no Rio e no Comboio, que foram para a CUF as grandes vias rápidas do futuro. Serviram para o escoamento dos seus produtos, com a eficácia e rapidez que os negócios de uma empresa em crescimento no século XX exigia, bem como a defesa dos seus interesses pessoais, das suas ambições e do futuro que assegurou aos seus herdeiros. É verdade que eu, jovem mente para os trabalhadores do operária, quando cheguei ao grupo CUF, mas esta organizamundo do trabalho em 1969, ção do trabalho e da vida dos encontrei refeitórios e comida trabalhadores e suas famílias, era um verdade qualidade, credeiro carrosches tecnicamente sel de retorno equipadas e com CUF do Bareconómico. pessoal especiali- reiro, que tinha lá zado (onde muitas dentro das suas ins- Os trabalhadores recebiam o gerações de criantalações um quartel ordenado por ças foram criadas), um lado, mas serviços de medi- da GNR, que durandevolviam-no cina no trabalho te cerca de 40 anos integralmente apoiados por téc- vigiou, intimidou, nicos competentes reprimiu e humilhou à procedência, no pagamento e com preparação muitos milhares dos géneros científica, colónia de trabalhadores, alimentícios, de férias para os filhos dos traba- homens e mulheres e do vestuário, da bicicleta, lhadores, escolas que também matou da mota, da primárias e prorenda de casa, fissionais, centros educativos, bairros habitacio- da água, da luz, etc.. Eram exigidos ritmos de nais, onde viviam muitos dos seus trabalhadores. Recordo quantidade e organização que tinham prioridade, no do trabalho muito violentos acesso a casa da empresa, os e muito duros, particularmente trabalhadores que apresentas- do trabalho feminino, cronosem o cartão de Legionário ou metrado ao segundo; havia da PIDE e que fossem casados um profissional que tinha a pela Igreja Católica. O Hospital função de cronometrar todos da CUF era o melhor hospital, os movimentos realizados no mas não devemos esquecer que exercício da nossa função, que operários com saúde produzem se colocava junto de cada tramais e muitos adoeciam a tra- balhador durante 15 minutos, balhar. A “despensa” era a loja para multiplicando as unidaonde tudo se vendia exclusiva- des produzidas nesse tempo,

SÉRGIO LEMOS

No Centenário da República, hoje no século XXI, todos temos a obrigação de trazer ao debate a memória da vida vivida no mundo do trabalho no século XX.

pelo horário de trabalho diário, representava que eu tinha que fixar a quantidade individual manusear diariamente 7776 da produção diária exigida a kg, porque a semana de trabacada trabalhador. Considerei lho era de seis dias, eu carrena altura, e hoje continuo a gava por semana 46.656 kg”. considerar, esta forma de orga- Os horários eram muito ríginização do trabalho vexante e dos (de entrada eram à meia indigna, porque era é a roboti- noite e meia hora, às sete, às zação absoluta dos trabalha- oito, às nove e às dezasseis dores, não havia tempos des- horas). Se o pessoal operácontados para beber água, ir rio chegasse 3 minutos atraà casa de banho, ver as horas, sado ao portão, descontava enfiar a máquina quando aca- 15 minutos e, durante o ano bava ou se partia o fio, limpar de trabalho, só podia chegar 4 vezes atrasado, mesmo o suor, etc. que fossem só 3 Quero aqui minutos, porque dar um exemOs trabalhaà 5.ª vez tinha plo: um saco, dores recebiam o oruma repreenchamado in­­­ são registada. Na diano, pesava denado por um lado, altura, os trans900 gramas, mas devolviam-no por t es p ú b liuma chapa de integralmente à cos não eram sacos eram 30. procedência, no paA costureira gamento dos géneros o s a c t u a i s e ninguém tinha fazia 6 chapas alimentícios, do carro. por hora, ou Havia nos seja 180 sacos e vestuário, da bicicleeu tinha que os ta, da mota, da renda locais de trabalho muito pó, muita ir buscar num de casa, da água, da poluição, muito carro por mim luz, etc. calor no verão. puxado, e coloUm exemplo: os car na bancada das 6 costureiras, que eu tinha trabalhadores das máquinas a responsabilidade de alimen- no feltro, na tecelagem, na fiatar. Ou seja, eram 1080 sacos ção, na sacaria, nas carpetes, que eu carregava por hora. etc., ao fim de uma hora de Por dia eram 8640, o que trabalho, tinham mais de 2

dedos de altura de cotão de juta em cima dos ombros. O que mais me surpreendeu foi ter encontrado dentro da fábrica ao lado do refeitório 3, um quartel da GNR, com soldados que todos os meses se renovavam no batalhão, militares com os quais todos os dias me cruzava no refeitório, porque quando os trabalhadores chegavam para almoçar às 11H30, já lá estavam comendo os soldados da GNR. A CUF do Barreiro é a única fábrica que teve uma força militarizada dentro das suas instalações. Todos os trabalhadores reagiam a esta presença indesejada e que diariamente era ostensiva e provocatoriamente imposta, e que para todos representava uma afronta ultrajante à dignidade dos trabalhadores e ao respeito pelo trabalho. Nunca aceitei, não aceito aquela afronta e imposição da acção da militarização do trabalho na CUF do Barreiro; não esqueço o ambiente de repressão, de más condições de trabalho, da intimidação, do autoritarismo e de discriminação de que todos os trabalhadores eram vítimas, (como exemplo, só os trabalhadores eram revistados à saída). Não posso deixar de dizer para memória futura que trabalhei na fábrica da CUF do Barreiro, que tinha lá dentro das suas instalações um quartel da GNR, que durante cerca de 40 anos vigiou, intimidou, reprimiu e humilhou muitos milhares de trabalhadores, homens e mulheres e que também matou (este quartel só depois do 25 de Novembro de 1975, deixou de estar dentro dos muros da fábrica). Não posso deixar de aqui recordar o medo que significava ver os cavalos da GNR a cavalgarem nas ruas do Barreiro. Esta memória não é apenas minha, é uma memória colectiva, da população do Barreiro e de todos aqueles que foram trabalhadores da CUF, porque estes cavalos tinham a função de demonstrar a força da intimidação e da repressão. Ercília Talhadas Jurista


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PERIFERIAS 07 Guilherme Augusto de Vasconcelos Abreu

A sua descoberta cultural da Índia

Guilherme Augusto de Vas- gigantescos de sob as camaconcelos Abreu nasceu no dia das terciárias, monumentos 20 de Maio de 1842 e deixou- veneráveis de velhas civilizanos a 1 de Fevereiro de 1907. ções desaparecidas, surgem os No contexto da literatura Vedas, Puranas, Mahabarath, portuguesa é descrito como Ramayana, as Leis de Manu, fazendo parte da Geração de Panchtantra, Avesta, etc”. De igual modo, Eça de QueiSetenta, conhecida pela conroz, amigo tribuição original íntimo de Vase histórica que Conhecer os concelos de deu à vida culAbreu, infortural em Portu- princípios das civima-nos das gal, sob múlti- lizações primitivas, preferências plos aspectos. constituía, então, intelectuais da O meu proem Coimbra, um referida Gerapósito é ofereção de 70, na cer um vislum- distintivo de supebre acerca da sua rioridade e elegância Universidade de Coimbra: biografia intelec- intelectual. Os Ve“Conhecer os tual, preenchendo das, o Mahabarath, princípios uma lacuna que Ramayana, o Zenddas civilizaexiste na história Avestha, eram os ções primitido Orientalismo vas, constiem Portugal, bem livros sobre os quais tuía, então, como iluminar o nos precipitávamos, enorme signifi- com a gula tumultu- em Coimbra, cado da contri- osa da mocidade que um distintivo de superiobuição monu- devora.” ridade e elemental de Guigância intelherme de Vasconcelos em relação à Sans- lectual. Os Vedas, o Mahacritologia, no contexto do barath, Ramayana, o ZendAvestha, eram os livros sobre Orientalismo no Ocidente. Entre 1850 e 1970, aproxi- os quais nos precipitávamos, madamente, o Orientalismo com a gula tumultuosa da em geral e a Sanscritologia mocidade que devora.” Vasconcelos de Abreu em particular, atraíram alguns jovens estudantes da Univer- começou, então, por estudar a Literatura Sânscrita, debrusidade de Coimbra. Basílio Telles é disso tes- çando-se cuidadosamente temunha afirmando na sua sobre as traduções francesas obra “Do Ultimatum ao 31 de e alemãs de algumas das mais Janeiro”: “Logo após, desen- importantes obras da cultura terradas de sob os escom- Indiana, como Ramayana, bros do tempo, como fósseis Mahabarath, o livro das leis

de Manu e Baghvad Gita. Na sua obra “Mosaico Literário”, publicada em Coimbra, tomámos conhecimento do modo como Vasconcelos de Abreu iniciou um estudo sério, tanto da língua como da cultura sânscrita. Embora aluno de Matemática na Universidade de Coimbra, dedicava-se intensamente ao estudo da sanscritologia, de tal modo que Abel Bergaigne escreveu, em 1875, de Paris a Vasconcelos de Abreu para que

fosse para Berlim estudar com Martin Haug, que tinha experiência na Índia, nomeadamente em Poona e Bombay. Vasconcellos de Abreu desenvolveu todos os esforços possíveis, no sentido de convencer o Governo de Portugal da importância cultural e administrativa do estudo da Sanscritologia. Felizmente, foi bem sucedido, o que podemos constatar pela carta da Secretaria dos Negócios Estrangeiros:

“… Manda sua Magestade El Rei… Considerando quão extraordinário e fértil tem sido para o conhecimento das origens históricas dos povos da Europa e da parte principal da Ásia o estudo da língua Védica e do Sânscrito… Considerando que estas línguas são a chave dos problemas mais recônditos da Philologia, e melhor guia que o Grego e o Latim para o conhecimento da estructura, connexão histórica e correlação das línguas de toda a família Aryana ou Indo-europeia, a que pertence a Portuguesa, e que o Sânscrito é a língua dos homens mais considerados entre os Índios e a das leis, instituições e literaturas d’estes… Considerando que Portugal não pode fundar já estabelecimentos scientíficos, a exemplo da Allemanha, da Inglaterra, da França, dos Estados Unidos da América, deve, porém, suprir, a exemplo da Itália, estas necessidades da civilização actual, subsidiando em país estrangeiro os indivíduos que mais vocação mostrem por estas disciplinas, para depois poderem vir fomentar estudos. (…) Há por bem que o bacharel em Matemática, Guilherme Augusto de Vasconcellos Abreu, passe a seguir na Allemanha, em França, e se o julgar necessário, em Inglaterra, os cursos de Philologia Oriental.” Anil Samarth Historiador

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graças à generosidade das gentes de Setúbal - Fonte Nova e zona Ribeirinha - a edição deste jornal foi possível.

a solidariedade constrói-se.

obrigado!


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08 PERIFERIAS

“É preciso formar o técnico, mas igualmente entrevista ao Director da Escola Profissional de Setúbal

Manuel Pisco, Director da Escola Profissional de Setúbal, assume-se como um filho da revolução do 25 de Abril. As suas experiências de vida confirmam-no, pois é no mundo sindical que encontrou a sua plena realização. Na CGTP/IN, onde trabalhou na área de formação de quadros, colabora na criação da Escola Profissional Bento de Jesus Caraça, ainda no seu início, em 1989, chegando a ser, posteriormente, seu director. É em 1989, na qualidade de vereador da oposição, que propõe a Mata Cáceres a criação de uma escola profissional em Setúbal, proposta essa prontamente rejeitada e só aceite quando outras câmaras socialistas tomaram a iniciativa. Comprometido solidariamente com esta cidade e as lutas sindicais e dos trabalhadores nos seus anos mais duros, os do desmantelamento do tecido industrial, no seu trajecto sindicalista, no Sindicato das Indústrias Eléctricas do Sul e Ilhas, na União dos Sindicatos de Setúbal e na CGTP-IN, sempre trabalhou nas áreas da formação de quadros, educação e formação profissional. No primeiro mandato de Carlos de Sousa, em 2001, vindo da presidência da Escola Profissional Bento de Jesus Caraça, naquela altura a maior do país e com a Presidência da Assembleia Geral da Associação Nacional de Escolas Profissionais, assume a direcção da Escola Profissional de Setúbal, em simultâneo com a vereação dos Recursos Humanos. O Sul - É compatível o ensino da cidadania numa escola profissional? Manuel Pisco – Erro, erro, erro de percepção. A educação para a cidadania deve ser transversal em todas as áreas de formação. Eu digo que está errada a formulação da pergunta porque transpira de preconceitos. Há a percepção geral que uma EP serve para fazer técnicos. Mas veja-se, por exemplo a escola profissional Bento de Jesus Caraça, que serviu de modelo a muitas outras, porque escolheu para seu patrono um pedagogo, que pugnava sempre para a formação integral do indivíduo. Nós também procurarmos essa formação integral do indivíduo. É preciso formar o técnico, mas igualmente e antes de mais, formar a pessoa e formar o cidadão. Só há educação se houver a formação integral do indivíduo. É o saber, saber ser e saber fazer. Sem o nível de cultura adequado ninguém pode ser um bom técnico.

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S - Mas como ensinar cidadania num currículo tão sobrecarregado de áreas técnicas? MP - Em todas as unidades curriculares tem de existir um ensino integrado. Contudo, todos os cursos têm uma unidade disciplinar que se chama “Integração”. Essa disciplina pretende fazer a integração de todos os valores culturais, preparar o aluno para a sua integração social e profissional, o que pode não passar sistematicamente nas disciplinas científicas e técnicas. Ao contrário do se pensa por vezes, é nas escolas profissionais que há espaço para procurar atingir o objectivo da formação integral das pessoas. S - Já era assim anteriormente? MP - No início de 2002, quando assumi a direcção da EPS, verifiquei que havia, ao nível da gestão pedagógica, uma orgânica repetitiva daquilo que era o paradigma da escola secundária. Não é uma crítica, pois não

faziam estágios finais sem terem os planos curriculares concluídos e onde nem sequer as classificações dos alunos eram lançadas nos “Livros de Termos”. Nos primeiros 10 anos, a EPS funcionou sem instalações próprias, com as turmas dos cursos profissionais a funcionar nas salas da Escola Superior de Tecnologia (a quem temos que agradecer o acolhimento que permitiu o arranque da EPS) e com as turmas de Aprendizagem a funcionar nas instalações do próprio IEFP, que financiava e acolhia no seu espaço essa formação, feita em nome da EPS. É a isso que o PS, numa nos podemos esquecer que a tentativa constante de partiescola funcionou nos primei- darizar esta instituição, chama ros 10 anos dentro da Escola de “período de reconhecidos Superior de Tecnologia do Ins- méritos gestionários...” Mas tituto Politécnico de Setúbal. veja-se o que são as coisas: Nunca teve, portanto, nesse durante os primeiros 10 anos, período, autonomia orgâ- a EPS nem sequer teve exisnica e uma verdadeira auto- tência física. O edifício onde nomia pedagógica. Tudo era hoje funciona a Escola foi inaugurado gerido em função em Dezemda “disciplina” e Ao contrábro de 2001, das disponibiliem cima das dades dos pro- rio do se pensa por eleições que fessores de cada vezes, é nas escolas o PS perdeu. disciplina e foi profissionais que há Eu assumi a necessário reoespaço para procurar Administrarientar a gestão pedagógica para atingir o objectivo da ção da Fundação em Março o perfil do aluno formação integral de 2002 e foi e perfil de curso. das pessoas. desde então Não devemos que teve que pensar que ensinar é apenas “dar a matéria”. se concluir a obra, refazendo Ensinar é, antes de mais, edu- as fundações do edifício, uma boa parte das infraestruturas car o jovem. Quando assumi a direcção, e toda a obra de arranjos exteconjuntamente com a minha riores, porque tudo tinha sido equipa, alterámos procedi- feito à pressa, para inaugurar mentos e processos, acabá- a tempo das eleições... Mais, mos com situações estra- foi sob a minha administranhas de alunos que tinham ção que teve que ser refeito certificação profissional e não e concluído todo o processo tinham diploma escolar, que de reconhecimento da Fun-

dação que no tal “período de reconhecidos méritos gestionários” tinha ficado abandonado. No início de 2002, não havia um só professor no quadro de efectivos – estavam todos com contratos a prazo ou de prestação de serviços. Hoje, há 20 professores do quadro permanente, com a sua carreira estabilizada. Os funcionários administrativos, mesmo na mesma categoria, cada um tinha um vencimento diferente, mesmo com os mais antigos a ganhar menos que os mais recentes, sem se perceber com que critério. Tudo isto teve que ser regularizado, mas o PS, só vê “méritos gestionários” no tempo em que todos os membros dos corpos sociais tinham cartão PS e os recrutamentos de pessoal seguiam o mesmo critério. Mas nós não nos impressionámos com isso. Quem está, está e é com esses que trabalhamos. Com a minha administração o partidarismo nunca foi critério. Todos os que trabalham na Fundação o podem testemunhar e basta ver quem já passou e quem está no Conselho de Administração, com pessoas que têm no seu curriculum elevadas responsabilidades assumidas nas áreas da formação profissional, mesmo com nomeações de governos socialistas. S - Não virão, as escolas secundárias com ensino profissionalizante, a fazer exactamente o mesmo que até aqui tem sido o papel das escolas profissionais? MP - Espero bem que sim. A integração da vertente profissional da rede pública de ensino é o reconhecimento formal e oficial da validade


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PERIFERIAS 09   formar a pessoa e formar o cidadão” do ensino que temos prestado e o acompanhamento persoao longo dos anos. Durante nalizado ao aluno, da formamuitos anos os governos, fos- ção em contexto de trabalho. sem mais à esquerda ou mais Não basta dar conhecimentos à direita, todos reconheceram técnicos. O conhecimento técnico rapidamente a validade do se adquire e rapiensino proÉ preciso lecdamente perde fissional. No entanto fun- cionar com o objecti- actualidade. É preciso leccionar com cionou sempre vo de dar as compeo objectivo de dar com numerus tências culturais e as competências clausus, ou relacionais ao aluno, culturais e relaseja, um limite cionais ao aluno, para o número para que este se inpara que este se d e a l u n o s tegre com facilidade integre com facique o Fundo nas empresas. lidade nas empreSocial Europeu sas. Não sei se as pagava. Uma estupidez, porque sempre se escolas secundárias têm condiviu que ficava mais barata ções organizativas para serem uma turma de ensino pro- capazes de tudo isto. fissional que uma turma da S - Será que o ensino proescola pública. No entanto, iam reconhecendo a sua mais- fissionalizante serve para valia, porque tinha taxas diminuir o abandono escode aproveitamento muito lar? MP - As escolas profissuperiores ao ensino regular e taxas de empregabili- sionais e as formações de dade, mercê da relação com dupla certificação contribuas empresas, esmagadora- íram para o decréscimo das taxas de abandono escolar e mente melhores. melhoria dos resultados. Os S – Será que o ensino pro- cursos profissionais sempre fissionalizante nas escolas tiveram melhores resultasecundárias trará consigo dos no aproveitamento dos alunos e regresesses altos são do abaníndices de A integração dono. Quando empregabilida vertente proos números são dade? todos misturaMP – Não sei fissional da rede dos na estruse traz – e tam- pública de ensino é tura pública de bém não quero o reconhecimento ensino, os resulfazer críticas formal e oficial da tados gerais ao trabalho de validade do ensino melhoram, dando outros – mas melhores estatísque há condi- que temos prestado ticas. Mistura-se ções mais difí- ao longo dos anos. maus resultados ceis para obter com um sector estes resultados, é preciso reconhecer. Um com bons resultados e, assim, dos receios das escolas profis- faz-se a média subir. sionais é que esta experiência S - Qual a média de empreno ensino regular não venha a ter os mesmos resultados e que, gabilidade da EPS? MP - Podíamos dar númepor isso, possa vir a contaminar a imagem que existe de alto ros fabulosos, como 60% no índice de empregabilidade e da primeiro ano, 70% no segundo excelência no ensino técnico ano após terminar o curso. que as escolas profissionais Mas, com a generalização detêm. Os índices de empre- dos cursos profissionais e os gabilidade não dependem só tempos de crise, não creio que do trabalho do professor, que isso seja o mais importante. O tem de dar aulas. Mas a empre- importante é que a EPS acomgabilidade implica a saída da panha as carreiras dos seus exescola, pois implica a audi- alunos, indicando-lhes oporção e a comunicação estreita tunidades e redireccionancom as empresas, a adequa- do-os, sempre que possível. ção permanente dos programas Todavia, os Gabinetes de Inte-

dos alunos inscritos face ao ano passado. S - Atendendo a tudo que foi dito, porquê criar os cursos de assistente de arqueólogo e assistente de conservação e restauro, num período de crise económica? MP - Nós fazemos uma oferta formativa em função da necessidade ou saturação da oferta educativa e da procura do mercado de trabalho e esta é uma das áreas que demonstra maior carência. Em primeiro lugar a nossa preocupação sãos os alunos, pois em primeiro lugar a escola trabalha para eles, com uma perspectiva de oportunidades no futuro. Em segundo pensamos nas necessidades organizativas e nos professores que devemos ter. Não há uma oferta estruturada nas áreas da cultura e há espaço para essa oferta. Nas novas formações que vamos iniciar, nas áreas de animação, 2D e 3D, já temos alunos em excesso, mas no caso dos assistentes de arqueologia e conservação e restauro nem tanto. È uma formação nova cujo interesse ainda não foi bem percepcionado, mas vamos insistir, pois o que é normal nas novas formações, é que quando não abre no primeiro ano, abre no segundo. Não pretendemos formar técnicos só na área da tecnologia pura e dura, mas também técnicos na área da cultura. A indústria da cultura é geradora de riqueza mais que suficiente para se ter em conta e os quadros intermédios são praticamente inexistentes.

CEDIDA POR MANUEL PISCO

gração Profissional, financiados pelo IEFP, não foram aprovados para a EPS nem para o IPS, mas sim para outras entidades com níveis de eficácia duvidosa, retirando-nos a possibilidade de utilizar algumas verbas justamente destinadas ao que fazemos todos os dias. Hoje em dia, porém, muitos dos alunos seguem para cur-

sos superiores, pois muitos dos que concorrem a esta instituição já são dos melhores no 9.º ano de escolaridade. A EPS não somente é uma escola local, mas sim uma escola regional, com alunos que vêm de todo o distrito, porque escolhem esta escola. Apesar do alargamento da oferta de cursos profissionais, este ano já temos o dobro

S - Podemos esperar uma cidade mais cosmopolita com esta aposta? MP - Não podemos pensar que a EPS vem resolver o problema, mas, sem dúvida, vem dar o seu pequeno contributo. Creio que, futuramente, devemos apostar no teatro, artes performativas e nalgumas outras áreas. Nós temos artistas e outros profissionais nessas áreas. Temos de saber extrair o seu contributo. Há condições para uma oferta estruturada para as áreas culturais. Este é o desafio. José Luís Neto josé.neto@jornalosul.com


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Evocação de Matilde Rosa Araújo «É a vida! Nasce-se, morre-se, assim como o Sol que, todos os dias, nasce e morre [...].»

in O gato dourado

«O passarinho viúvo sentiu mais frio [...]. Apeteceu-lhe morrer para ali. Mas elevou-se no ar. E cantou. Como se escrevesse com o bico riscos de tinta roxa no ar frio. Riscos tristes. [...] » in O passarinho viúvo

A pouco mais de quinze dias a frequentar, em 1941, o curso de ter completado, no dia 20 de Filologia Românica na de Junho, 89 anos, morreu, Faculdade de Letras da Unino passado dia 6 de Julho, versidade de Lisboa. Aí conheMatilde Rosa Araújo (1921 - ceu, entre outros, Sebastião 2010), uma das grandes refe- da Gama, com quem desenrências da literatura portu- volverá laços de profunda guesa contemporânea. Faleceu amizade, vivos até ao fim. É enquanto dormia, aos primei- como estudante que, em 1943, ros alvores do dia, de forma conquista o primeiro lugar no delicada e suave, como tudo o concurso literário “Procura-se um Novelista”, organizado que fez ao longo da vida. Escritora, professora, peda- pelo jornal O Século, com a goga, tradutora, colaboradora novela A Garrana. Em 1945 da imprensa nacional e regio- ganha o primeiro prémio dos nal e de revistas literárias de Jogos Florais Universitários com os contos referência, defenreunidos sob o sora dos valoSem medo título Estrada res da cidadania, sem Nome. Matilde apôs a de consequências, Com O Livro sua assinatura e assumindo consda Tila, cancolaborou acti- cientemente riscos e tigas pequevamente em mui- responsabilidades, ninas (1957) tas causas, sobreas suas acções em e Desenho e tudo naquelas em Poesia (1958), que a criança era defesa da literatura Matilde inauo centro, tendo, não se prenderam gura a sua proentre outros, inte- apenas com a litedução poética grado os grupos ratura de recepção para e sobre a fundadores do infantil. infância. A sua Comité Por tubibliografia guês da UNICEF e do Instituto de Apoio compreende quase meia cenà Criança, IAC. Anteriormente, tena de títulos, entre poesia, em Outubro de 1974, integrara conto, novela, obra pedagóa Comissão de Honra das gica e ensaística. Assina textos manifestações do “Dia Mun- em cerca de trinta antologias dial da Infância", ao lado de e obras colectivas. São inúmeoutros nomes da vida social ros os prefácios e posfácios que a sua generosidade levou e cultural de então. Após ter feito os estudos a escrever. Três dos seus títuprimários e liceais em casa, los estão editados em Braille. Matilde Rosa Araújo começou Somam centenas os artigos

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que publicou em jornais e cias, assumindo consciente- das mãos de Jorge Sampaio, mente riscos e responsabi- mas aquilo que realmente a revistas. A literatura para a infância lidades, as suas acções em recompensava era saber que e juventude ocupou grande defesa da literatura não se as crianças liam os seus texparte da sua vida, não só ao prenderam apenas com a lite- tos e gostavam deles. Os sorrisos e os olhos nível da produção, mas tam- ratura de recepção brilhantes de bém da reflexão e da acção. infantil. Em 1962, Faleceu emoção das Entre muitas acções que Matilde foi um crianças e­­­ poderiam aqui ser evoca- dos membros da enquanto dormia, das recorde-se o facto de direcção da Socie- aos primeiros alvores ram as suas "medalhas" Matilde ter integrado, em dade Portuguesa do dia, de forma mais impor1979, o grupo que transmi- de Escritores que delicada e suave, tantes. tiu a Manuela Eanes, esposa nesse ano tomou Ta l v e z s e do Presidente da República posse, sob a presi- como tudo o que fez possa já conde então, as suas preocupa- dência de Aquilino ao longo da vida. siderar o a­­­ ções pela “situação de des- Ribeiro, direcção ­n o de 2010 favor a que estava votada, que se manteve no nosso país, a literatura em funções até 1964. Em 1970 um annus horribilis para as para crianças”. Desse encon- voltou a integrar o grupo que letras portuguesas, tanto pelo tro resultou a criação de esteve na origem da recons- número de escritores que um grupo de trabalho para trução da mesma, após o seu nos deixaram como pela sua tentar responder às ques- encerramento por razões polí- relevância nacional e interticas, de todos nacional. Um deles é Matilde tões e preocupasobejamente Rosa Araújo, sem dúvida uma ções entretanto aquilo figura maior da nossa literaconhecidas. levantadas e que Matilde Ro­­ tura, legando-nos uma obra passou a reu- que realmente ­sa Araújo viu a que irá ultrapassar a barreira nir-se nos Ser- a recompensava sua obra rece- do tempo porque fala do ser viços de Biblio- era saber que as ber alguns dos humano e de sentimentos tecas Itinerantes crianças liam os seus mais reconhe- que são intemporais e unie Fixas da Funtextos e gostavam cidos prémios versais. O nosso maior tridação Calouste literários por- buto à escritora será lê-la e Gulbenkian. Daí deles. tugueses, foi divulgar a preciosidade das resultaram os t r a d u z i d a e suas mensagens e a beleza da Encontros Gulbenkian de Literatura Infan- premiada fora de portas, foi sua escrita. til, tão importantes ao longo homenageada pela Sociedade Portuguesa de Autores, das últimas décadas. Fátima Ribeiro de Medeiros Sem medo de consequên- recebeu uma condecoração IELT, FCSH - UNL


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CULTURA

TEATRO ELEFANTE

Teatro para todos

O momento em que nos segundo lugar, pela consciêndeparamos com uma nova cia de, finalmente, nos dirigirideia é, com frequência, muito mos a todos os públicos, sem inquietante e, em simultâneo, quaisquer excepções. Pois, se fazer teatro é um extremamente estimulante. Neste paradoxo vive a criação acto abrangente, do ponto de vista dos meios, artística; neste linguagens e paradoxo vive, recursos envolvidesde o ano de (...) se fazer dos; o teatro para 1997, o Teatro teatro é um acto bebés revela-se do Elefante, abrangente, do um acto universal perante cada quanto ao público novo projecto. ponto de vista dos destinatário. P a r a d o x o meios, linguagens e Num primeiro de actores e recursos envolvidos; tempo dirige-se e n c e n a d o r o teatro para bebés a um espectaque se tornou revela-se um acto dor (aliás, pouco fascinante universal quanto ao comum...), ainda, no momento de criar um público destinatário. n o s p r i m e i ros momentos espectáculo para bebés. Em primeiro lugar, da sua vida; num segundo pela sensação de pioneirismo, tempo (segundo, mas não de encetar uma caminhada de menor importância), proem liberdade (quase) total; em põe-se envolver toda a famí-

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lia – pais, mães, irmãos mais como o futuro que cresce velhos e avôs –numa parti- diante dos nossos olhos. Divertimento porque, deste lha de experiências significamodo, partitivas entre todas as lhamos sorgerações. (...) um convite risos, gestos e E ele é, também, estórias com um convite para para educadores pequenos e educadores e bebés e bebés crescerem graúdos. crescerem em conem conjunto, parAprendijunto, partilharem zagens porvivências, troca- tilharem vivências, que, assim, rem histórias, per- trocarem histórias, se revelam sonagens e, sobre- personagens e, soactos e sabetudo, sensações, bretudo, sensações, res comuns sons e outras cum- sons e outras cume se descoplicidades. plicidades. brem as mais Com isto, entensimples forder-se-á com facilidade como as inquietações mas de comunicar, na compleiniciais se cumprem em pra- xidade dos sentidos, entre uns zer, divertimento e aprendi- e outros –actores e espectadores– na suprema soberania zagens. Prazer porque abrimos uma da sua condição de cidadãos. Entendemos a fruição da culjanela para mais uma parcela do mundo; parcela imensa tura como um direito de todas

as idades. Como tal, os espectáculos surgem naturalmente entre as criações que apresentamos. Ao procurar estabelecer novos elos de ligação com os espectadores, os actores do Teatro do Elefante querem estar mais perto da festa, transformar o mundo, tantas vezes (ainda) distante, do palco num espaço tão comum com o público quanto possível. Trata-se, muitas vezes, de uma aturada pesquisa sobre as formas, as linguagens e, sobretudo, de experimentação em torno da nossa capacidade de expressão através do corpo, nos silêncios que nos permitem também olhar, tocar, cheirar, ouvir... em suma, sentir. Fernando Casaca Director Artístico do Teatro do Elefante

fernandocasaca@teatrodoelefante.net


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A celebrar os 25 anos de existência, o Teatro Estúdio Fontenova está numa acção cultural intensa, tendo levado até meio do presente ano o espantoso número de quatro peças em cena. Foi o caso de “Corte de Luz”, do “Projecto Maria Parda”, a reposição de “Audição com Daisy ao vivo no Odre Marítimo” e, em Junho, “2 meias 1 malha & 1 curta”. Com esta última pretende o grupo homenagear Anton Tchekhov (1860 – 1904). Já na escolha do autor haveria muito a dizer, pois não se trata de um ilustre desconhecido, antes um dos escritores mais importantes para a dramaturgia universal, um dos autores mais fortes e conhecidos da literatura russa. Neto de um liberto, numa família numerosa e estigmatizada, fez-se a pulso e a golpes de talento, muitas das vezes entrando em conflito aberto com as elites culturais coevas. Tchekhov é tanto uma referência, como gico à força e O Urso). Com símbolo e metáfora. A peça consiste em, um espectáculo multidisciplinas palavras da sinopse facul- nar (teatro, cinema e dança) se tada ao público pelo TEF: “ visitam as peripécias e vivênUm relutante conferencista cias de um pobre diabo.” Sem surpresas assistimos apresenta-se ao respeitável público com o objectivo de a algumas das característipalestrar sobre “Os Malefícios cas que marcam a estética e do tabaco”. Apesar da sua boa a dramaturgia que reconhevontade a palestra desvia-se cemos a este grupo de teatro. Decór simconstantemente ples, trazendo para os aspecDecór para o centos mais sórditro da acção dos da sua vida. simples, trazendo o trabalho do Partindo do mote para o centro da actor. Cenário condutor proacção o trabalho do e acessórios porcionado pelo reduzidos ao “Os Malefícios do actor. essencial, forte tabaco” inicia-se uma pequena viagem cómi- polivalência técnica dos actoco-trágica pelas peças em um res (teatro, cinema e dança) e acto de Anton Tchekhov (Um encenação meticulosamente pedido de Casamento, O trá- trabalhada. Nada está a mais,

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PEDRO SOARES

Fontenova soma e segue

nada está esquecido e ali os menos no tempo do drama, de acasos têm sentido. Quanto haver laços de solidariedade. É à peça, temos duas partes o olhar nu sobre o mal que os cómico-trágicas intercala- medos e a ignorância provodas com um drama, dividido cam, um manifesto desapieem duas partes. E o drama é dado contra a mesquinhez, a cobardia, a poderoso, acerca de indiferença, um homem velho, Tal é raro, tal a abstendilacerado quando ção, o adiase confronta com o permite momentos que foi a sua vida, únicos, tal dá origem mento, que têm levado q u a n d o r e f l e c t e a beleza. a vida de sobre as suas escocada um, lhas, quando se vê a si mesmo como mestre e das comunidades e do país, marioneta, opressor-opri- ao lamaçal onde nos enconmido. Desta feita o TEF faz tramos. O TEF marcou a linha uma das mais violentas inter- divisória, vincou o fosso que pelações de sempre à classe divide intelectuais e povo, pequeno-burguesa urbana. entre os que sabem porHá uma confrontação feroz que conhecem e os que não e esquizofrénica com o povo, sabem porque nem querem com quem deixaram, pelo saber. É um olhar cru, des-

pido da misericórdia cristã e da solidariedade comunista. Por isso mesmo é também espelho para as consequências das não-escolhas, das não-inscrições. É, por fim, um arraial de pancada sobre a endémica falta de rasgo e de génio. Note-se que até o texto do flyer destinado ao público, com subtis erros gramaticais e ortográficos, impensáveis a quem ganha o pão a modelar e representar a língua portuguesa, visa demonstrar isso mesmo às “vida cinzentas e mesquinhas da pequena burguesia (…) olhai-vos um poucochinho e vêde até que ponto a vossa vida é má e sombria”. Em palco, Eduardo Dias e José Lobo, fizeram jus ao estatuto que lhes reconhecemos. Talentosos jovens actores, coube-lhes o duro papel do drama, em excelentes desempenhos. Mérito também para a Sofia Belchior/Dançarte pela coreografia. Surpresas muito agradáveis de Carla Garcia (Um pedido de Casamento e O Urso) e Tiago Cruz (O Urso), actores ligados a esta produção específica. Nota positiva à curta de António Aleixo e Pedro Soares/Low Cost Films, com a actuação de José Maria Dias. Sobre todos, gostaria de salientar o regresso de Graziela Dias ao palco, numa performance de forte presença, que vi com extremo agrado. Por fim, algo que transpareceu para o público e que enobrece o TEF, foi o facto de se ter sentido e visto o gozo, o prazer, que os actores conseguiam ter ao representar. Tal é raro, tal permite momentos únicos, tal dá origem a beleza. José Luís Neto jose.neto@jornalosul.com


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CULTURA 13 Três setubalenses em destaque Setúbal, talvez não seja só um de uma realidade ficcionada, por dormitório dela própria. Para vezes de contornos inverosílá das sonolências, fervilham meis, chegando a pisar o surideias, actividades, gente que real. Nele se lança um olhar, ora sonha e faz e luta. Talvez Setú- bem-humorado, ora dramático, bal queira muito mais e, na sua sobre uma certa portugalidade, ambição, ensandece e torna-se ainda viva nalguns locais, mas cega para os muitos que aqui tão ignorada e desprezada em vão germinando e tecendo poe- muitos noutros. Ao longo dos oito capítulos, sia, pintura, romance, história, que apresentam surpresas umas música, dança e canto. Parabéns a todos os que não atrás das outras, existe um fio desistem, não se deixam aba- condutor em torno do respeito ter por uma proximidade lis- pelas pessoas, pelos animais e boeta que também só epifenó- pela natureza. Trata-se de uma visão completamente descommicamente está acordada. Parabéns a António Gal- prometida de tendências morais rinho, a António Trabulo e a ou políticas vigentes, mostrando que se pode pensar e agir fora José Luís Neto. António Galrinho obteve dos cânones formatados e limiuma menção honrosa no Pré- tadores que a sociedade oferece mio Literário Miguel Torga/ e impõe.» António Trabulo recebeu o Cidade de Coimbra, edição de 2010 com o seu romance O Prémio Fialho de Almeida, relativo ao ano de Homem que fazia 2009, atribuCírculos. Aqui Talvez Seído pela Sociedeixamos uma dade Portus i n o p s e d e s s e túbal queira muito mais e, na sua guesa de Escriromance: tores e Artistas « Um turista ambição, ensandece Médicos ao espanhol, inte- e torna-se cega para seu romance ressado por arteos muitos que aqui Retornados sanato, perdeu-se vão germinando – O Adeus a numa viagem pelo África. interior de Portu- e tecendo poesia, «É sabido gal, indo parar a pintura, romance, que as duas uma aldeia que história, música, grandes guernão existia no seu dança e canto. ras que marcamapa de estraram a primeira das. Aí depara com pessoas, lendas e tradi- metade do século XX fizeram ções peculiares, pelas quais se mudar de dono vastas regiões apaixona. O homem dos círcu- do mundo. No final da primeira, los é um dos aldeãos. Oriundo caiu o antigo império otomano. de uma família bastante abas- No termo da segunda, as velhas tada, ainda jovem trocou a vida potências coloniais foram recoauspiciosa que lhe estava reser- nhecendo a independência aos vada pela vida simples a pacata imensos territórios que admida aldeia onde escolheu viver nistravam na África e na Ásia. Milhões de colonos brancos deicomo artesão. O romance relata as vivências xaram as possessões em que que o turista teve com a aldeia tinham sepultado pais e avós e e seus habitantes, em especial regressaram aos países de orio homem dos círculos, através gem. O Reino Unido, a Holanda,

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mesmo é uma das zonas de Portugal que mais trabalhos científicos tem tido, com estações que exercem um poderoso fascínio nos investigadores, como a cidade romana de Tróia, identificada desde o Século XVI como a antiga Caetobriga. A tese divide-se em duas partes. A primeira procura desvendar as intenções dos investigadores que procuraram definir as raízes e a história das populações que aí vivem, bem como das instituições que patrocinaram estes estudos, para além de se procurar ver qual o papel das narrativas históricas na construção da imagem colectiva. A segunda parte procura, através de um estudo de arqueologia pós-medieval, observar a dinâmica económica, social e Menina lendo, Vladimir Ezhakov, s/ data, óleo sobre tela, 30x48 cm mental do período mais impora França e a Bélgica tiveram de Fá-lo com a imaginação, tante da história do povoado, acolher e integrar populações o sentido de equilíbrio e a onde Setúbal procurava dispunumerosas com hábitos de vida qualidade da escrita a que já tar o estatuto de segunda cidade modificados. Quem vinha, trazia habituou os seus leitores. O do país, rivalizando com o Porto. na bagagem frustração, amar- romance“Retornados” relata Gerada pela riqueza da explode forma descomplexada e tão ração e exportação do sal, essa gura e sentimentos de perda. Os portugueses foram os exacta como possível o nosso Idade do Ouro foi ficcionada posteriormente últimos a voltar. Agarrados conturbado propelos investià terra e propensos a mis- cesso de descoParabéns a gadores locais. turar sangues e ideias, terão lonização. » Submetendo as José Luís Neto todos os que não sofrido mais. Alguns chegametodologias ram a sonhar com Pátrias viu aprovada, na desistem, não se arqueológicas Universidade de deixam abater por novas, outros brasis. e as da história Dando seguimento ao pro- Salamanca, com uma proximidade a meros instrujecto iniciado com “Os colo- distinção e louvor, lisboeta que também mentos utilitános”, António Trabulo voltou a no final de Abril, rios, conseguiÁfrica. “Retornados” é um tra- a tese de douto- só epifenómicamenmos vislumbrar balho que aborda, com o rigor ramento intitu- te está acordada. as dinâmicas de possível numa obra de ficção, a lada «A Idade do tragédia de quase meio milhão Ouro Branco: o contributo funcionamento de uma cidade de portugueses que se viram da arqueologia pós-medie- ibérica, católica e comerciante, envolvidos numa volta da His- val para o conhecimento de cujo modelo-padrão foi dissetória, à semelhança de mari- Setúbal, uma cidade portuá- minado e copiado em África, na América e na Ásia. nheiros arrastados por uma ria portuguesa.» O autor defende que a ocupaonda imparável. PARABÉNS A SETÚBAL! O neurocirurgião desbrida ção humana é precoce e signifide forma desassombrada uma cativa numa região que foi alvo das feridas mal cicatrizadas de investigações arqueológiAnita Vilar do nosso passado recente. cas desde o Século XVI. Por isso Subdirectora de O SUL


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CULTURA

“A pintura sempre esteve presente na minha vida” entrevista a Rui Ventura

Sul - Como é que a pintura surge na tua vida? Rui Ventura - Eu acho que ela não surgiu, mas sempre existiu. A diferença é que eu nunca a deixei morrer. Quando somos crianças, todos nós desenhamos, pintamos e desenvolvemos o nosso lado mais criativo. À medida que crescemos vamos perdendo essas capacidades abstractas e criativas. Ao pintar mantenho vivo esse meu lado criativo que é fundamental para a minha vida. S - Quando é que começaste a pintar? RV - A pintura sempre esteve presente na minha vida, mas foi em 2004 que decidi come-

MARTA LOUÇADA COELHO

Rui Ventura nasceu em Setúbal, mas podia ter nascido em qualquer parte do mundo. Espírito livre e criativo, é no silêncio da noite que pinta os seus quadros e executa as suas obras com uma ligação perfeita ao nosso imaginário, transpondo ícones da sociedade actual, marcas publicitárias sobejamente familiares, cartoons e tudo o que o inspira. A sua apresentação ao mundo deu-se em 2004 quando organizou pela primeira vez uma exposição, o projecto Urban Pegasus, na Galeria Abraço, em Lisboa. Também participou na exposição A life from Portland, na galeria da EURO RSCG. Este ano já expôs no MUDE, Museu do Design e da Moda, em Lisboa, e participou em Maio na iniciativa Castilho Fashion Street, Spring Art, no parque exterior da Rua Castilho onde podem ver-se actualmente os seus trabalhos numa espécie de “galeria urbana”. Nas suas obras utiliza posters, sobreposição de pequenas imagens fragmentadas que funcionam com um equilibrio perfeito entre as colagens e as, muitas, pinceladas que dão vida às suas telas. Estas contam pequenas histórias urbanas e actuais num estilo street art muito próprio. As viagens, as pessoas, as suas próprias vivências, marcam os seus trabalhos e não deixam ninguém indiferente. Licenciado em Comunicação Social, trabalha na área do Marketing e da Publicidade, mas é nas artes plásticas que dá asas à imaginação e são as suas telas uma das formas mais genuínas de comunicar com o mundo. Um privilégio que não é para todos. çar a partilhá-la com o Mundo. Foi em 2004 que organizei a minha primeira exposição e a partir daí tenho organizado diversas exposições a solo e participado em diversos projectos colectivos. S - Qual foi o teu primeiro trabalho? RV - F o i u m c o n j u n t o de pequenas telas, feitas enquanto estudava, ou melhor, em vez de estudar, que contavam uma história em 24 horas com diferentes personagens e que continham elementos que ligavam toda a obra. No total eram 24 telas e as mesmas foram expostas com Lupas para se poder ver em pormenor cada tela.

S - O que te inspira? RV - O Mundo. As viagens que faço, a música que ouço, as pessoas que conheço, o conhecimento adquirido, a sociedade de consumo, a memorabilia, o mundo das marcas e dos cartoons. É difícil apontar uma área de inspiração apenas.

S - O projecto mais marcante da tua vida? RV - A minha filha.

S - Como é que saltaste do anonimato para as grandes exposições em Lisboa, Porto, NY? RV - Acho que continuo no anonimato. As exposições nesses locais acabam por ser o reconhecimento do meu trabalho.

S - Trabalhas na área da Comunicação, tens uma vida muito agitada, como é que ainda tens tempo para pintar? RV - “O tempo é o que se faz com ele”, e, de facto, tento utilizar o tempo que disponho da melhor forma. É ver-

S - Novos projectos? RV - Estou a preparar novos trabalhos para uma nova exposição em que o tema será a Máfia. Mas não posso adiantar muito mais.

dade que o meu trabalho é muito absorvente, mas normalmente pinto à noite, uso o silêncio e a calma da noite para criar. S - Como descreverias as tuas obras? RV - São intensas, são contemplativas e são o que quem as vê quiser. S - Qual o teu maior sonho? RV - O meu maior sonho. Poder viajar por todo o Mundo e pintar em cada um desses locais. Marta Louçada Coelho

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CULTURA “Que força é essa amigo?” A rua da Misericórdia é o cartão de visita do Bairro Alto, pedaço de uma Lisboa cosmopolita, vanguardista, metamoderna e contra-cultural. Passado e presente misturam-se de tal forma que é quase impossível destrinçálos. Os eléctricos atravessam os seus caminhos prédeterminados, os turistas calcorreiam-na, os maçónicos adoptaram-na como sua, com museu, instituições e imóveis que na sua história se inspiraram, os noctívagos de há muito lhe pertencem, bem como lá está, sempre, a leitaria da Dona Matilde, húmus popular onde assenta toda esta misógina construção social e cultural. O loteamento do bairro data de 1513. Em 1527 já tinha 408 edifícios e 1600 habitantes, na maioria ligados a actividades marítimas. Nos inícios de seiscentos existia um povoamento diferente: clero com conventos, nobreza com quintas e palácios austeros, e várias ruas, com prédios que chegavam ao quinto andar, e casebres, bem como actividades comerciais e outras, consequência Y.F.L.B.A.T.F., Francisco Noá, Impressão em Clear-film, 40 x 50 cm da atracção fortíssima exer- integração europeia e conti- quer, mas quem tem algo de minha admiração pelo mesmo, cida pela Companhia de Jesus. nuísta da natureza inclusiva original, criativo e de quali- já exposta em outros artigos, No final do século XVIII aí do tecido social e mental da dade; quem é, na sua essên- onde o apelidei de artista nas cidade de Lis- cia, verdadeiro artista. Foi a trincheiras da periferia, que se instalaram as encerra todas boa. A par sur- consciência disso prostitutas e seu a expressivias incongruêngem centros de mesmo que me séquito relaciocias da guerricultura, lojas levou à dita rua nal. No século dade foi potencia(...) onde o lha do quoticaras e cria- da Misericórdia, apelidei de artista XIX, decai com da, a comunicação diano de vida tivas, vivên- a o i m p o n e n t e evidência o nível tornou-se poderosa nas trincheiras da dos subúrc i a s f u g a - edifício da Assosocial do Bairro e eficaz, num novo zes, momen- ciação 25 de Abril, periferia, que encerra bios. Porém, Alto e, com ele, este espanto tos de fusão para ver Colec- todas as incongruse instala o fado. conjunto de obras perante a sua entre o antigo tivo SSS. Essa ências da guerrilha O final do século explosivas, onde a obra é mais XX trás um novo crueldade e fealdade e o pós-mo- exposição conta do quotidiano de vasto. Por derno, que só com Rita Fra- vida dos subúrbios. cariz – o turismo humana se aliam à exemplo, Ferali se casam. À zão, Guilherme nacional e estranredenção e à beleza nando Baptista portuguesa, ali Almeida Ribeiro, geiro, com as se reúnem os Jaime Raposo, para além de Pereira, acerca da sua procasas de fado e restaurantes típicos. Uma múltiplos ingredientes, com um natural de Setúbal, Fran- dução plástica, diz-nos que: paisagem de cultura urbana um ligante imaterial que a cisco Noá. Sobre Noá não há “raras vezes deparei com uma muito a dizer que já não tenha tão radical irredutibilidade do nocturna, de cosmopolitismo todos congrega. Lá, não expõe apenas quem sido sublinhado. Confesso a eu à própria ideia de arte, à internacionalista, fruto da

própria obra, ao próprio gesto que a produz.” O artista que se revela nesta apresentação a um dos públicos mais exigentes do nosso país está muito diferente daquele que arrebatou, sem qualquer contestação possível, o primeiro prémio do 1.º Concurso de Artes Plásticas da RESARTE. Trata-se de um jovem artista talentoso, com um estilo próprio e cheio de potencialidades. As obras de então, parecem agora esboços ingénuos do que outrora se revelava. As quatro peças que estão na A25A são bem distintas. A sua dimensão foi condensada, a expressividade foi potenciada, a comunicação tornou-se poderosa e eficaz, num novo conjunto de obras explosivas, onde a crueldade e fealdade humana se aliam à redenção e à beleza que todos os seres encerram, na encarnação da “tragédia sublime”. Perturbantes e hipnóticas, há nelas um eco comum ao que nos comove nas cavalgadas de Wagner, nas radicalidades de Nietzsche; emanam um sentir Faustiano. Há o risco, há uma fronteira, e há que saber reconhecer quem a ultrapassou. A linguagem plástica de Noá universalizou-se. Racionalista e emocional em simultâneo, é agora compreensível em qualquer lugar do denominado mundo Ocidental, a quem interpela, a quem questiona e, mais do que nunca, acusa. É justo reconhecer-lhe o seu lugar de direito entre a vanguarda artística portuguesa, nesse bairro que é o recreio da arte avançada lusitana. Para além das mistificações e mal-entendidos, é preciso entender claramente, que com Noá dá-se início à nova revolta dos escravos. José Luís Neto jose.neto@jornalosul.com

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