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_ficha técnica Editor-in-chief & Director Criativo Jo~o Pedro Padinha

Design Gráfico e Edição Jo~o Pedro Padinha

Editor de Música Rui Salvador

Editora de Cinema Catarina D’Oliveira

Editora de Moda Irina F. Chitas

Editora de Literatura Carolina Chagas

Editora de Teatro Catarina Severino

Colaboradores nesta edição Daniel Matos, Gonçalo Moura, Jo~o Fernandes Silva, Rita Capelo, Sara Lima, Tiago Mour~o

Fotografia Capa João Pedro Padinha Modelo Vanessa Nunes 2


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_índice 5. Editorial

18. Teatro Todas as Terças, {s 19h...

45. Blogs Sítios Encontrados

19. Entrevista Noiserv

46. Literatura Sugestões

9. Música Música + Portugal = Orgulho

25. Fotografia United Styles of Whatever

47. Actualidade Conversas de Sala de Espera

10. Música Rewind

38. Moda Design { Lupa

13. Cinema Um Micro-mini-ensaio sobre o Cinema Português Contempor}neo

39. Moda Calçado { Moda Portuguesa

7. Música Reviews

16. Cinema Rewind

51. Actualidade Ai Portugal... 51. Actualidade Acordo Ortogr|fico

40. Entrevista Os Burgueses

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_editorial

É a última ediç~o deste ano lectivo. Terminamos em grande, com Portugal como tema ou n~o fosse este o mês de todos nós. Foi Camões que nos “deu” a língua, e foi graças a ele que hoje se escreve e fala Português! Nesta ediç~o contamos com o que melhor se faz c| dentro. Entrevistas exclusivas a Noiserv e Os Burgueses, o cinema Português contempor}neo, e tantas outras coisas. Foram quatro edições que me deixam orgulhoso do simples facto de estarem “aí fora” para todos lerem e apreciarem. É sempre um prazer.

João Padinha 5


Men eater_gold

_música

U

ma das bandas mais pujantes do circulo underground português (e diga-se também internacional), os Men Eater, mesmo com alterações substanciais na sua formaç~o, continuam a provar que merecem que o burburinho se espalhe ainda mais. Ao terceiro disco, Gold, os Men Eater apresentam um conjunto de canções que n~o é t~o directo, os riffs que sobressaiam anteriormente est~o desta vez mesclados com os restantes instrumentos que soam musculados como nunca, em temas que se tornam provavelmente menos catchy mas com mais qualidade. Stoner, Sludge, Post-Metal, a cheirar a

Mastodon aqui e ali, ponham os rótulos que quiserem, porque ninguém precisa de rótulos e os Men Eater muito menos, temas como as fortes “Sustain The Leaving” e “Broken Fiction”, bem como os novos caminhos percorridos em “When Crimson Trips”, “Bracara” ou “4:44 am”, fazem de Gold um |lbum que seguramente ser| um dos melhores do género no que { “música mais pesada” diz respeito. Uma maturaç~o evidente, um risco corrido e bem corrido, esperemos que a banda consiga tirar proveito disso. Um disco para headbangers, seguramente.

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primeiro álbum era perfeito para a noite no seu estado mais profundo, num qualquer bar obscuro. O segundo |lbum era perfeito para seguir na estrada, possivelmente ao nascer ou ao pôr do sol. Este |lbum é a continuaç~o da viagem. Mas parece que se preocuparam mais com a pintura do automóvel do que com a gasolina. Os arranjos soam muito bem e s~o até mais arrojados, dando ênfase na primeira parte (“Laying Low”, “Silver”) , mas as canções depois parecem tépidas, sem a chama dos dois primeiros |lbuns. As letras s~o boas, mas o conceito de viagem (“Travelling Fast”, “Cold River”) perde impacto ao longo do |lbum e faz com que nós queiramos apenas chegar ao motel e aterrar na cama. Talvez ajude o facto de “Everything Changes” ser talvez a melhor canç~o do |lbum, onde a entrada lenta do piano d| depois lugar a cordas oscilantes que ajudam a configurar o sentimento agridoce palp|vel. Mas mais valia ter feito um EP, que provaria ter consistência e fulgor. O motel ainda est| a uns quantos quilómetros…

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Disco voador

cla~

It’s been a long night

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Sean riley and the slowrides

_música

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ra bem: um disco para crianças (e alguns adultos). As comparações com Os Amigos do Gaspar de Sérgio Godinho parecem inevit|veis, portanto evitemos falar nisso. O |lbum tem a sua dose lúdico-did|cticadivertida (com ênfase na última), em momentos como “Chocolatando” ou “Arco-Íris”. Ou na nursery rhyme de “A Loja do Mestre Hermeto”. A produç~o, limpída mas sem a intoxicaç~o pouco saud|vel da maioria dos discos para crianças (e alguns adultos). No entanto, nem sempre parece haver qualidade ou algo novo. “Infra-Herói” n~o justifica as expectativas do título, afundandose em clichés (“adio/desisto/n~o insisto/nem persisto”). “Paf e Puf”… talvez tenha um léxico que v| ficar desactualizado dentro de algum tempo (“flash bué da fixe/chau e que se lixe/paf falei e puf/oops entrei em loop”). É um bom disco voador. Mas, infelizmente, n~o faz viagens de longo curso para o outro mundo, esse da imaginaç~o. Só com escalas.

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_música

Música + portugal = orgulho

É

mês de Portugal na RevoltARTE e apraz-me dizer que, dada a situaç~o do país, se o estado económico e social do nosso cantinho estivesse ao nível do que se faz musicalmente, estaríamos a guiar o pelot~o e n~o a correr atr|s de lebres, lebres ? Digo antes tartarugas, porque teimamos em sequer sair do sítio quanto mais chegar mais longe. A música portuguesa est| boa e recomenda-se, j| o tinha dito e volto a dizer, estamos a assistir desde { um par de anos a um boom de música portuguesa, de todos os géneros, de todas as formas, para todos os gostos. Esta frase torna-se curiosa se pensarmos que existe uma espécie de ideia pré-concebida de que n~o se faz boa música em Portugal. Ora, deixem-me dizer-lhes que isso é uma bela de uma aldrabice. O que n~o existe é aposta na música portuguesa, ou quando existe, apenas vos mostram aqueles artistas que s~o feitos de regra e esquadro, porque convenhamos, n~o interessa a muita gente que nos façam pensar. Portanto, desenganem-se. Existem muitas bandas, muitos artistas, muitos cantores, muitos autores por esse país fora com qualidade. Qualidade essa que muitas vezes é mais reconhecia l| fora do que c| dentro, mas enfim, j| sabemos que para os “tugas” o que é “tuga”, nunca presta. Excluo-me j| desse grupo de pessoas que s~o “tugas”. Eu sou português, com muito gosto e com muito orgulho na música que se faz por c|. Orgulhem-se também. Orgulhem-se da música, do risco, da criatividade e da coragem de muitos artistas que est~o a surgir, mas, mas, mas, mas, mas, nunca, mas nunca, mas nunca, se esqueçam dos que ficaram para tr|s, dos que abriram caminho contra ditaduras, contra alguns preconceitos, mas n~o todos, porque ainda vivemos numa sociedade muito reticente em relaç~o { arte. Conheçam os nossos músicos e orgulhem-se deles, porque eles s~o t~o bons, ou melhores, do que muito embandeiramento anglo-saxónico que para aí vai. N~o interessa se cantam em português, se cantam em inglês ou se n~o cantam. Interessa sim que façam boa música para nós escutarmos. Um viva aos músicos portugueses!

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_música

Antes era o rock Parte l

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REWIND

fenómeno dos anos 80 intitulado de “Rock português” era-o apenas por duas razões: 1-porque cantavam em português; 2- por ter sido um fenómeno criado e alimentado pelos media da altura. No entanto, o Rock praticado em Portugal j| existia, e em alguns casos duma forma muito criativo. Abordarei o período 76/79, evitando falar da vertente pós-25 de Abril de car|cter mais interventivo. Ser~o também destacados só e sobretudo aqueles que lançaram material digno de figurar na história Portuguesa da música. Infelizmente, h| nomes importantes que n~o est~o contemplados, como os Petrus Castrus, influenciados pelo progressivo dos King Crimson mais calmos e pelos Moody Blues mais conceptuais, ou os Quarteto 1111, que nesta década se tinham tornado na banda de José Cid. No entanto ser| referido um certo |lbum a solo. 75/78 – Rock na continuidade Na ressaca da revoluç~o, muitos grupos e artistas sentiam-se ligados ao Reino Unido e ao que de l| se importava. Geralmente eram grupos influenciados por Pink Floyd, Genesis, Emerson, Lake & Palmer ou Yes, correspondendo a uma sonoridade progressiva. Em medida diferente, nomes como Lou Reed, David Bowie ou T.Rex complementavam os gostos, ainda que estes grupos n~o tivessem nem o virtuosismo e meios dos primeiros nem a beleza lírica e de persona dos segundos. Mas havia excepções.

carreira. Destaque-se o |lbum de estreia Mistérios e Maravilha, onde est~o presentes tanto pequenos exercícios acústicos como temas sinfónicos explosivos. Fundados por Américo Luís, Manuel Cardoso (que adoptaria o pseudónimo Frodo) Armando Gama e Tozé Almeida (este último futuro baterista dos Heróis do Mar), exerciam em palco uma grande teatralidade. Frodo tinha algo de Peter Gabriel, onde m|scaras intercalavam as performances musicais, nem sempre de qualidade, mas com capacidade de atracç~o. Fora dos ares progressivos, tínhamos, l| est|, Jorge Palma. Ele representou o ponto de ligaç~o fulcral entre o terreno singersongwriter de José M|rio Branco ou Sérgio Godinho e a futura vaga Rock. Tinha começado com o single “The Nine Billion Names Of God” em 1972, mas é de 75 que saiu o seu |lbum de estreia Com Uma Viagem Na Palma Da M~o. Pontuado tanto por vinhetas sociais (“Monólogo Dum Cidad~o Frustrado”) como por temas curtos, quase como sketches, teve uma ediç~o muito limitada (300 exemplares), mas j| mostrava os dotes de composiç~o que seriam expostos em grande em Acto Contínuo. José Cid lançou em 1977 o seu |lbum mais famoso e de melhor qualidade(do ponto de vista da cultura Rock): 10000 Anos Depois Entre Vénus e Marte fazia um grande uso do mellotron e também foi considerado um grande |lbum pela comunidade europeia de f~s de Rock Progressivo, muitos anos mais tarde. Mas, na altura, j| as sonoridades eram outras. 77/79 – Rock na agressividade

Os sons da eclos~o do Punk e New Wave começavam a galgar fronteiras. E Portugal Os Tantra, influenciados pelos Genesis e n~o era excepç~o. 9 por sonoridades orientais, tiveram uma boa


_música António Sérgio, na altura na R|dio Renascença, começou o seu primeiro programa de autor, Rotaç~o. Organizou igualmente, e em conjunto com as suas sessões na r|dio, uma promoç~o muito forte dos sons que surgiam de fora, através duma compilaç~o pirata que lhe deu alguns problemas com editoras como a Virgin. Promovendo nomes como os Sex Pistols, Patti Smith ou The Stranglers, ajudou a dar visibilidade também a alguns nomes que foram surgindo, como os Xutos e Pontapés.

experimental e caótica do “Engrenagem” de José M|rio Branco.

tema

REWIND

O |lbum Música Moderna tem dois lados: o Punk e a parte Experimental, de vertente performativa (tal como muitos dos concertos deles). Abre com “Lisboa (Quem Quer Comprar Um Ferrari)”, que começa com estalinhos dos dedos e uns coros e vozinhas e depois atiram-se a guitarradas com v|rios manifestos (“sou o grito da moda”). Igualmente impressionante é “Férias”, ainda que muitas das expressões j| n~o se usem. Entretanto foi lançado, em 78 o primeiro Mas antes de “Férias”, vem “Kayatronic”. single Punk português. “H| Que Violentar o “Kayatronic “ é: 1- Um tema em crescendo, Sistema”, dos Aqui d’el-Rock, ainda hoje é com um uso experimental electrónico; 2- Uma not|vel, n~o tanto pelas letras (datadas) ou letra abstracta, possivelmente sobre vingança; pela voz (ranhosa), mas pela distorç~o nas 3- Um tema com uma performance vocal que guitarras, um tanto ou quanto lo-fi. Ao mesmo iria influenciar Adolfo Luxúria Canibal, dos tempo, surgiam os Xutos e Pontapés, Minas e M~o Morta (que iriam fazer uma “cover” do Armadilhas e os Faíscas, bem como os UHF. dito tema), e Jo~o Peste, dos Pop Dell’Arte Os UHF, inspirados pelos Ramones, tinham (embora tenham influenciado mais pelas uma genuína atitude Punk de ética “working colagens sonoras). class” (credenciais da Margem Sul) e três Ah, e “Maria” é Vampire Weekend com quase acordes prontos. Lançaram em 79 o single 30 anos de antecedência! “Jorge Morreu”, sobre um amigo que se deu demasiado bem com certas subst}ncias. As Infelizmente, as r|dios n~o prestaram suas credenciais permitiam n~o serem atenç~o. Mas Pedro Ayres Magalh~es, Carlos confrontados pelos betinhos formatados da Maria Trindade e Paulo Pedro Gonçalves, depois do fim do grupo, formariam com Rui Avenida de Roma da altura. Pregal da Cunha e Tozé Almeida (o baterista Entretanto, das cinzas dos Faíscas, liderados dos Tantra, com os quais também colaborou por Pedro Ayres Magalh~es (conhecido na Pedro Ayres) Heróis do Mar. Portanto, acabou altura como Dedos Tubar~o), surgiram os tudo por ficar bem. Corpo Diplom|tico. Acho que s~o o terceiro grupo em termos cronológicos com algo de Depois veio o Rui Veloso com “Chico Fininho”. verdadeiramente original no seio do Rock Enfim… português, depois dos Quarteto 1111 e dos Petrus Castrus. Só lançaram um single e um |lbum. Mas s~o not|veis. O single “A Festa” (conhecido também como “A Festa do Bruno”) é not|vel pelo lado B, uma vers~o

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_cinema Um Micro-Mini-Ensaio sobre ^ o Cinema Portugues ^ contemporaneo

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artir do princípio que o cinema português é mau, é j| de sim um mau princípio. Faz um pouco parte dos nossos maneirismos por de lado o que se faz em Portugal, especialmente na |rea das artes e entretenimento. “O que é nacional é bom”, j| dizia um tal anúncio das massas, mas parece que na nossa cabeça as coisas n~o funcionam bem assim. Como em tudo na vida, generalizar pode causar injustiças. Subentender que o cinema português é mau porque tivemos apenas m|s experiências é errado. Isto porque, se virmos bem, n~o h| assim tantos de nós a consumir avidamente cinema português. E a verdade é que quem manda mais bitaites s~o aqueles que só viram a Bela e o Paparazzo ou o Crime do Padre Amaro.

grande parte { produç~o de conteúdos portugueses nas nossas televisões, nomeadamente a TVI, que apostou forte nas telenovelas portuguesas na viragem do milénio. Parece ridículo, e ninguém est| aqui a discutir qualidade, mas a verdade é que com as telenovelas da TVI e o impacto destas na populaç~o portuguesa, torna-se ent~o importante habituar o povo português a ouvir a nossa língua, o que durante muitos anos pareceu ser uma barreira intransponível. Falo das Telenovelas da TVI como posso falar do Gato Fedorento, Levanta-te e Ri e outros. Por outro lado, o cinema português também se est| a alterar no que respeita { relaç~o com os próprios espectadores. A noç~o de intelectualidade elitista dos filmes de autor começa a ser menos presente (o que n~o significa que estes n~o tenham também o seu valor ou que os argumentos tenham de ser menos inteligentes, claro). Deve-se é tentar atingir um meio-termo entre os filmes de autor e os filmes comerciais, porque, quer queiramos quer n~o, os filmes têm de gerar lucro e n~o podem ser para ser mostrados só aos amigos.

Confesso que vi os dois filmes acima, e também confesso que n~o sou a maior conhecedora de cinema português, mas quero desde j| referir que nos últimos anos a produç~o cinematogr|fica portuguesa tem evoluído bastante. Ainda n~o podemos dizer que é E para n~o escarrapachar aqui uma lista excelente ou excepcional, mas aos poucos, com que parece mostrar que só os filmes antigos pequenas vitórias, estamos a formar o nosso portugueses é que s~o bons, deixo-vos algumas caminho. sugestões de bons filmes lusos produzidos na Este crescimento pode ser atribuído em última década. grande parte ao facto de nos estarmos a habituar aos poucos a ouvir a nossa língua. Este fenómeno, embora inacredit|vel, deve-se em

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_cinema ALICE, de Marco Martins, 2005 Uma primeira e muito celebrada longa com uma coerência estética azul-cinza e as interpretações memor|veis de Nuno Lopes e Beatriz Batarda.

DELFIM, de Fernando Lopes, 2002

AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO, de Miguel Gomes, 2008

A obra-prima de José Cardoso Pires e o Portugal O filme-fenómeno e completamente híbrido que bolorento de Salazar, no melhor filme do fez um percurso invej|vel pelos festivais de realizador, depois de Belarmino. cinema de todo o mundo.

QUARESMA, de Álvaro Morais, 2003

GOODNIGHT IRENE, de Paolo Marinou-Blanco, 2008

Último filme do realizador, antes de morrer, «uma odisseia em circuito fechado», esteve Uma história de amizade, com di|logos dos mais presente na Quinzena dos Realizadores, em bem escritos dos últimos anos, óptimos Cannes. momentos musicais e visuais

OS IMORTAIS, de António Pedro Vasconcelos, UM AMOR DE PERDIÇÃO, de Mário Barroso, 2003 2009 O cinema nacional conseguiu alcançar outro A convers~o do drama passional do romantismo (relativo) sucesso em termos de bilheteira. Um num filme de acç~o do século XXI, cheio de cenas filme com um enredo de investigaç~o cativante e bem idealizadas e estetizadas. muita intriga. Recomend|vel, sem reservas.

NOITE ESCURA, de João Canijo, 2004 “Eurípedes num bar de alterne na província.” Numa imensa escurid~o, Jo~o Canijo dirigiu esta arrepiante tragédia Portuguesa sobre uma família ligada { gest~o de um bar de alterne, que se vê envolvida nos tent|culos do Destino. Canijo escreveu o argumento com base na tragédia grega, daí todo o misticismo. Uma obra maior.

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_cinema

Sim, é uma curta-metragem, mas é mais uma raz~o para o verem. S~o os 15 minutos que nos valeram uma Palma de Ouro em Cannes. E que n~o se pense que isso é coisa pouca.

MISTÉRIOS DE LISBOA, de Raoul Ruiz, 2010 O filme sensaç~o do ano. E o hype n~o foi de todo despropositado. Uma obra cheia de pormenores a descobrir, e apesar da longa duraç~o, vale mesmo a pena.

http://close-up.blogs.sapo.pt/

ARENA, de João Salaviza, 2009.

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_cinema

O julgamento

Leonel vieira

REWIND

O Julgamento” (2007) de Leonel Vieira (“Sombra dos Abutres”, “Zona J”, “Arte de Roubar”) traznos uma história que decerto despertar| a emoç~o mais corrosiva e em simult}neo mais natural que o ser humano pode ter, junto daqueles que encontrarem semelhanças entre a sua vida e a das personagens: o desejo de vingança camuflado de sentido de justiça.

Em confidência, acerca do sucedido, a Miguel (José Eduardo), um antigo companheiro da luta contra o salazarismo, assistimos ao início da mutaç~o de Jaime; o seu maior medo e o seu maior sonho fundem -se agora sinergicamente uma vez que finalmente encontrou aquele que h| mais de trinta anos lhe provoca insónias e lhe d| os motivos para comprar uma garrafa de whisky.

Jaime Ferreira, interpretado por Júlio César, é um professor universit|rio, escritor de policiais, antigo activista do partido comunista na clandestinidade na época do Estado Novo. As feridas e m|goas desse tempo de activismo materializam-se na actualidade, num alcoolismo crónico que este mascara de boémia, munindo-se de um perfil típico do professor universit|rio com quem qualquer um de nós gostaria de “mamar uma jola e rebentar uma broca”. Atormentado recorrentemente por pesadelos que o levam de volta ao dia em que o seu camarada Marcelino foi detido pela PIDE-DGS para nunca mais ser visto, Jaime, que mantém uma relaç~o que roça a indefiniç~o amorosa com Joana, a filha do falecido amigo (Alexandra Lencastre), reconhece o inspector da antiga polícia de segurança que deteve Marcelino, quando resolve ir ao tribunal visitar a sua filha (Fernanda Serrano) e trava conhecimento com o cliente desta, arguido num caso de atropelamento.

Num impulso irreflectido, Jaime embarca num caminho sem retorno: rapta o ex-PIDE e leva-o para a sua casa de campo, um lugar recôndito e aprazível que, pouco a pouco, se transforma numa arena onde as emoções mais intensas andam { solta. A intensidade psicológica de cada uma das personagens é contrastante com o espaço físico em que elas se encontram e numa situaç~o em que a exigência m|xima é sinceridade e verdade, o desenrolar da relaç~o entre os antigos

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_cinema Como se sentiriam e o que fariam todos os portugueses que sofreram atrocidades {s m~os da PIDE, muitos deles nossos avós e amigos dos nossos avós, se sem a intromiss~o da polícia ou do tribunal, lhes dessem a oportunidade de confrontar cara a cara aqueles que um dia os impossibilitaram de viver, sem que o passado da dor infligida afectasse a ideia de um futuro de cabeça erguida?

REWIND

Num impulso irreflectido, Jaime embarca num caminho sem retorno: rapta o ex-PIDE e leva-o para a sua casa de campo, um lugar recôndito e aprazível que, pouco a pouco, se transforma numa arena onde as emoções mais intensas andam { solta. A intensidade psicológica de cada uma das personagens é contrastante com o espaço físico em que elas se encontram e numa situaç~o em que a exigência m|xima é sinceridade e verdade, o desenrolar da relaç~o entre os antigos

nem sequer sabíamos da existência de uma mentira.

activistas e o antigo inspector faz com que desçamos aos infernos pessoais de cada um deles. “O Julgamento” é um filme que foca bem que só nós mesmos podemos estipular quais s~o os limites da liberdade, pois em última inst}ncia, é isso que nos distingue de meros animais sem vontade ou consciência própria; quando os factos se tornam suposições, o que é certo assume-se como duvidoso e a verdade surge sempre em alturas em que

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_teatro

Todas as as 19h `

Q

tercas, ,

uero uma Terça-feira. As Quartas s~o entediantes, das Quintas j| me fartei e de Sexta para a frente afogo-me em mares de gente. Uma Terça-feira. E c| a tenho…

Cumprimento Alfredo Cortez, o autor da peça. Entre Guerras Mundiais e inícios de Ditadura, com a qual Cortez simpatizava, apresenta, em 1934, Gladiadores. Escandaliza o público de ent~o com uma s|tira de símbolos sociais, mitos da sociedade moderna embebidos num Expressionismo ent~o t~o desconhecido { sociedade portuguesa. Como tal, reprimendas n~o lhe faltaram, como a de um crítico de um Jornal de Lisboa: “Ando j| h| algum tempo desconfiado – e do facto quero prevenir imediata e lealmente o Dr. Alfredo Cortez – de que n~o sou absolutamente burro. (…) Eu n~o percebi patavina do que ontem vi e ouvi l| em baixo no Teatro Nacional.” O feminismo, o machismo e o combate entre eles, o sexo, a invasão da imprensa na vida pessoal, o sabor doce e amargo do dinheiro, a ideologia, a política e, no fim, o prevalecer do ineg|vel desejo entre dois que se querem que, sem o desligar da s|tira, concilia os desvairos t~o humanos retratados em personagens despersonalizadas. Um final que, fazendo contas, n~o fascina nem entusiasma, arrastando a peça a um término forçosamente “feliz”, sem, no entanto, lhe retirar o valor de toda a restante acç~o. J| tive uma Terça-feira, agora quero-as a todas. Para os curiosos sobre a diversidade do teatro português do século XX convido-vos a, também, querer uma, ou todas as Terças-feiras. [s 19 horas, na Barraca (entrada livre).

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_entrevista

NOISERV Palavra a palavra, instrumento a instrumento, nota a nota‌

Entrevista e texto Rui Salvador Fotografia Rita Carmo

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_entrevista

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_entrevista

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impossível falar de música portuguesa, neste momento, sem trazer { conversa um nome incontorn|vel nos últimos anos: David Santos. O nome n~o diz nada? Tudo bem, provavelmente conhecem melhor a outra “vers~o” deste jovem: Noiserv. Criatividade é o adjectivo que melhor assenta a este artista que tem primado pela construç~o de temas bastante minimalistas e intensos, através do uso de v|rios instrumentos, objectos e com o uso recorrente de loops e samples. No mês em que se dedica apenas ao que acontece em Portugal, a RevoltARTE pôs-se { conversa com um dos músicos que mais tem impressionado, n~o só nas salas portuguesas mas também além fronteiras! Afirma que Jeff Buckley, Yann Tiersen ou Sigur Rós s~o influência, explica-nos de onde surgiu o seu nome e como conjugou o sonho da música com o seu curso superior, entre outras coisas.

Rapazes e Raparigas, aprumem os ouvidos, Noiserv. RevoltARTE: Quando é que decidiste que ias fazer música “sozinho”, rodeado de muitos instrumentos e não com uma banda? Noiserv: Não foi uma decisão que tenha tomado de um dia para o outro, foi um conceito que foi sendo desenvolvido ao longo de v|rios anos. No início as músicas eram apenas de voz e guitarra, mas rapidamente percebi que deveria incluir algo mais e assim tudo foi crescendo e tomando as dimensões de hoje. R : Quais são as tuas principais influências e se são claramente identificáveis na tua música? N: Não sei se as influências são identificáveis pois nunca faço uma música com o objectivo de

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_entrevista parecer algo, muito pelo contr|rio, tento R - És reconhecido fora de Portugal ? É um sempre excluir qualquer semelhança que surja objectivo claro atingir outros mercados ? quando estou a escrever uma música. No entanto e respondendo { tua pergunta, se tiver N: O objectivo é chegar ao máximo possível de fazer uma lista de banda/músicos que admiro, de pessoas, dentro e fora do nosso país, j| que é certamente os Sigur Rós, os Radiohead, o Jeff para elas e para mim, que escrevo as canções. Buckley, o Yann Tiersen e muitos outros far~o parte. R: Como conjugaste a vida de estudante com a carreira na música e quando é que R: Um artista que te tenha deixado achaste que podias mesmo ir em frente como completamente surpreendido (pela positiva) artista ? nos últimos tempos ? N: Conjuguei como qualquer pessoa que sente N - Patrick Watson! necessidade de fazer v|rias coisas ao mesmo tempo, dessa forma fui conciliando da melhor forma possível o curso que tirei e posterior trabalho na |rea, com o meu sonho desde míudo: a música. Acho que n~o existe um ponto em que decidimos ser artistas a sério acho que todos sonhamos um dia poder viver e fazer apenas aquilo que gostamos, depois é o tempo e o feedback de, neste caso, quem nos ouve a definir essas mudanças. No meu caso senti no R: Os instrumentos todos que te início deste ano, 2011, essa necessidade de me acompanham foram surgindo ao longo do teu dedicar 100% | música e a tudo o que ela envolve percurso ou são planeados e pensados ? R: Existe o estigma de que a música N: Foram surgindo ao longo do percurso e portuguesa não tem qualidade. Ambos continuam a surgir (sorriso), acho que ser| uma sabemos que isso não é verdade mas o que é busca eterna pelo som perfeito, e pelo que é preciso fazer para mudar esta opinião, instrumento mais bonito de todos! quer no nosso país, quer no estrangeiro ? R : De onde surgiu o nome Noiserv ? N: Se reparares é muito parecido com VERSION, mas lido no sentido oposto, surgiu por aí! A troca do E com o R, fez sentido para ter a palavra noise, o que seria de certa forma uma antítese com o género de música.

N: Em Portugal, eu acho que isso está claramente a mudar, h| cada vez mais e melhores bandas, as pessoas sabem disso e valorizam esse facto. Para o estrangeiro é tudo um pouco mais complicado, h| mercados muito fortes e que vivem h| muitos anos para a industria da música, o que n~o é o caso de Portugal, que sendo um país pequeno viu apenas

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_entrevista benefício em, entre aspas, vender a sua tradiç~o, por tudo o resto poder ter uma concorrência maior. No entanto acho que o futuro est| na internacionalizaç~o independente dos artistas e aos poucos a opini~o exterior ir| mudar. R: Dada a situação actual do país, que papel achas que os artistas podem ter nas mudanças e nas lutas sociais ? N: Eu acho que os artistas independentemente da |rea em quest~o, têm de continuar a fazer o que est~o a fazer, mostrar que independentemente das crises económicas e da sociedade consumista ridícula em que vivemos, o que realmente interessa s~o as emoções e as relações humanas, que é com isso que vivemos e nos sentimos vivos.

Fotografia Rita Carmo

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M贸nica barros

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Ana NasciMento

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Catarina Guerreiro & catarina campos

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Catarina campos & catarina guerreiro

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Isabel palma

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Isabel palma, Vanessa nunes & m贸nica barros

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m贸nica barros

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InĂŞs Maria & Ana Nascimento

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InĂŞs Maria

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` Lupa “M&M. MUDE & MNAA / MNAA & Design a MUDE. Artes e Design” é fruto de uma ~

Novas exposiçoes do MUDE

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MUDE- Museu do Design e da Moda, Colecção Francisco Capelo, inaugurou no mês passado duas exposições (uma permanente, outra temporária). "ÚNICO E MÚLTIPLO. Dois Séculos de Design" é a nova mostra permanente que propõe uma viagem aos diferentes contextos do design nos últimos 200 anos. Conta com mais de 300 peças singulares, que vão desde peças únicas, a edições limitadas e produções em série (como esferográficas BIC ou tupperwares). Entre muitos outros, encontram-se nomes como Marco Sousa Santos, Filipe Alarcão, Miguel Vieira Baptista ou Fernando Brízio. O equilíbrio entre o único e conceptual e o mercado do quotidiano.

parceria entre o MUDE e o Museu Nacional de Arte Antiga, e já foi eleita pela Time Out como a “Exposição de nome mais esquisito do ano”. Dois museus, uma exposição. Um conceito, duas perspectivas. O objectivo não é acentuar o contraste, mas sim realçar a simbiose entre o design e a arte, e a sua parceria desde a génese. A exposição no MUDE pode ser vista até4 de Setembro, e a do MNAA até 2 de Outubro. Entrada gratuita no MUDE, no MNAA custa 5€.

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_moda

Calcado , `a moda portuguesa

campanhas sucessivas para associar uma imagem de confiança, qualidade e luxo ao calçado nacional.

N

Portugal exporta quase 95% da sua produç~o, e um mês de elogio ao nosso país, s~o os sapatos de luxo (com valores entre os realçamos o que de mais 200€ e 300€) que comportam maior retorno. prestigiante h| na produç~o É uma realidade desconhecida para muitos. O nacional: o calçado. produto nacional é mais aclamado no exterior do Sabias que na última ediç~o dos Óscares que dentro de fronteiras. Mas as reformas desfilaram 18 pares de sapatos portugueses? começam de dentro, e o processo contínuo da credibilizaç~o do calçado português j| tem Sabias que a irm~ e a m~e de Kate Middleton pernas para andar. usaram sapatos produzidos em Portugal no casamento real? Os sapatos portugueses est~o na moda. O Made in Portugal começa a competir no exterior com o valor acrescentado de uns sapatos italianos. A APICCAPS, associaç~o industrial do sector, tem travado uma luta contra o estigma da nossa “pequenês” e lançado

ifc 38


_entrevista

Os burgueses

muito pequenino, mas o cliente j| procura mais moda nacional. Mais no Porto do que em Lisboa. Mas a Internet abriu muitas portas, e o português

L

começou a interessar-se muito mais por moda er uma entrevista é como que antigamente. tentar ver um filme lendo apenas as legendas. 90% é perdido. E é por isso que

transcrever a conversa que tivemos com Os Burgueses é t~o penoso. As restrições da palavra escrita impõem-se, escondendo emoç~o, riso, cumplicidades e brilhos no olhar quando se fala em novos projectos. E as regras editoriais obrigam-nos a seleccionar informaç~o quando a vontade era descrever a meia hora ao mais ínfimo pormenor.

Eleutério: Vivemos ainda o estigma do status que vestir um Armani d|, do que vestir uma Ana Salazar d|. A nossa peça até pode ser melhor confeccionada, até pode ter um design mais interessante, mas é portuguesa. Mas as críticas n~o podem ser só feitas do lado do consumidor. Nós, designers, deixamos levar por esse estigma, lamentamo-nos e n~o fazemos nada para mudar. Ou realmente nos juntamos, e fazemos as pessoas compreender que somos um produto v|lido, ou continuamos a batalhar cada um para

O tema é a moda portuguesa. Os escrutinados seu lado, que é o que acontece hoje em dia, e n~o s~o Pedro Eleutério e Mia Lourenço. S~o Os conseguimos chegar muito mais longe. Burgueses, e a sua (por enquanto) pequena saga j| circula pelas bocas do povo. O conceito é roupa us|vel apresentada de forma artística: a Ópera Urbana j| conta com quatro actos, impregnados de camadas com mais significados do que o olhar atinge. [ conversa com a nova geraç~o do design de moda português. RevoltArte: Como caracterizam a moda portuguesa em termos de comportamento no mercado? Ou seja, está em fase de gestação, dá os primeiros passos ou já tem raízes? Mia: O mercado da moda portuguesa ainda é

39


_entrevista Mas agora também est| a surgir uma nova vaga de designers e entre todos temos uma política diferente: de companheirismo, de entreajuda, queremos que os outros tenham sucesso. E temos todos consciência de que os produtos

s~o

diferentes,

n~o

somos

concorrência. E nós, os designers mais jovens, trocamos muita informaç~o. É um processo longo e contínuo de mudar a forma como as coisas s~o feitas.

R: Como é vista a moda portuguesa no exterior?

E: A moda portuguesa, ali|s, Portugal ainda n~o é visto l| fora. Continuamos a ser a província de Espanha. E nós relacionamo-nos imenso com amigos estrangeiros e quando dizemos que somos de Portugal eles respondem “Ahm… Portugal?”. E é uma sensaç~o estranha,

comunicação social da especialidade têm alguma influência nisso, bem como na pouca divulgação do vosso trabalho?

porque nós j| temos o euro, a Expo, que deviam ter propagado o nome de Portugal como país! E

M: Claro, mas ainda assim est~o a publicar

como tal a moda portuguesa n~o é propriamente muito mais peças de produto nacional do que uma moda que as pessoas saibam e comentem antes. Mas ainda h| edições onde n~o aparece “É a semana da moda em Lisboa, n~o posso uma única peça, um único artigo de um designer perder”. Acontece na imprensa especializada, nacional. mas n~o na generalidade do público.

Este

é

um

dos

factores

mais

importantes, e a imprensa tem também de mudar.

R: Mas essa cooperação não é transmitida para o exterior. Pensam que os meios de

E: Mas l| est|, é um esforço conjunto.

40


_entrevista E: Se as duas organizações se juntassem, e juntassem esforços para fazer realmente um grande evento, que misturasse o lado da confecç~o, como é mais o PortugalFashion, ao lado social mais agregado { ModaLisboa, seria perfeito. Contudo eu acho que os dois fazem um bom trabalho, cada um para o seu segmento. Mas eu acho que esse estigma do distanciamento entre as duas entidades est|-se a perder.

R: Em termos de apoios e incentivos aos criadores, são provenientes na sua maioria do Estado, ou de apoiantes privados?

E: A quem, a nós? (risos). A ModaLisboa faz um serviço aos criadores que é fant|stico: ao fazermos parte da ModaLisboa, temos direito a Enquanto as marcas internacionais enviam os press kits para as revistas, os criadores nacionais esperam que a revista v| ter com eles. Mas que efectivamente falta haver produto nacional, e este n~o estar aglomerado numa p|gina, estar integrado na leitura geral, falta. E nós estamos a tentar conquistar esse lugar.

R: Se as entidades responsáveis pela moda (como a ModaLisboa e o Portugal Fashion) se unissem, não conseguiriam um maior apoio,

uma sala de desfile, com o sheeting e o sitting pago por eles, com o som, a iluminaç~o, o backstage, o coordenador do backstage, as manequins, maquilhagem, tudo isso é-nos oferecido. Nós, que apresent|mos as três colecções com dinheiro próprio, sabemos o que custa.

M: E também no pós-ModaLisboa, em que eles d~o acesso ao clipping todo que foi saindo na imprensa.

tanto do Estado como de apoiantes privados?

41


_entrevista E: quem gere uma marca n~o deve ser o R: Consideram que a moda portuguesa tem criador (que é tudo o que n~o acontece em capacidade de se aclamar como uma indústria Portugal), deve ser alguém focado em vender o criativa?

produto, que usufrui de um serviço que é o criador, para potencializar essa marca e trazer-lhe

E: n~o só tem como j| devia ter esse estatuto mais-valias, e trazer realmente um espírito único h| muito tempo, e devia ser pensada nesse a essa marca. Só que na nossa maioria estatuto.

Porque

acho

que

nós

ainda continuamos a pôr o papel principal no designer.

continuamos a separar muito a moda de autor E isso faz com que a vis~o comercial se perca. das marcas comerciais, ou seja, Fly London, Salsa Ali|s, nos temos algumas marcas que j| s~o marcas: j| n~o é a história do artista que funcionam assim, mais ou menos. Por exemplo, a desenha umas roupas. E eu acho sinceramente Ana Salazar j| funciona um pouco como marca. E que nós temos de mudar essa filosofia e pensar o Miguel Vieira j| tem um gestor a sério, no em nós enquanto marcas. Ainda pensamos muito Tenente a irm~ é a gestora, e nota-se que as na moda como ‘Ahhh, somos criadores’. É tudo marcas j| s~o mais coesas. Mas ainda falta a muito filosófico mas a realidade é que a moda ponte para o cliente, o entregar o produto. E é precisa de ser uma indústria, porque nós estamos isso que nos falta. E aí j| entramos muito na parte aqui n~o só a apresentar o nosso lado artístico do Marketing, e nós somos péssimos em mas também a subsistir e pagar as rendas ao fim Marketing. do mês, porque sen~o é uma bolha fictícia. E n~o é necess|rio optar por uma das partes. Temos como exemplo Alexander Mcqueen, que era um puro artista, e era uma marca, ou Margiela, sem dúvida um dos maiores extremistas artísticos, e é uma marca que vende muito. E acho que o nosso problema em Portugal é ainda n~o pensarmos no lado comercial, só nos encararmos como artistas.

M: até porque se cada peça vale duzentos ou trezentos euros n~o é comercial.

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_entrevista A mudança estrutural de que a nossa moda tanto precisa só pode ter início com a evoluç~o dos pilares que constituem o pensamento português. O “é mais f|cil”, “se eles n~o me procuram, também n~o os vou procurar” e “somos uns coitadinhos” n~o pode, na opini~o d’Os Burgueses, continuar a ser listado como prato do dia.

«A moda é um veículo para a cultura»

Com novos projectos que incluem a expans~o da marca em terras de Camões (j| com uma proposta desafiante para um showroom em Paris), o guarda-roupa de um filme português de ficç~o científica, cursos de consultoria de imagem, um leil~o de fotografias da NokiaArts j| no próximo dia 30, Os Burgueses partem agora para um novo caminho. Com um ponto final na Saga de Jane Doe, a Ópera Urbana toma agora outras notas, e outros personagens. Mais um acto, sem epílogo previsto.

Texto e Entrevista IFC 43


_blogs

sítios encontrados http://www.indiscritivel.blogspot.com/ O autor de indiescritível é mais um amante. Mais um que ama, tanto quando se pode e consegue amar, Fernando Pessoa. Este blog segue também, aquilo que n~o se deve perder de vista num blog: a identidade sentimental do eu. Isto é, quando n~o se sente fisicamente, sente-se através destas palavras soltas e públicas, para que outros possam sentir connosco. A experimentar e saborear.

http://semprequemeencontro.blogspot.com/ “Apenas poesia, coisas de uma vida”, diz Rovisco – o autor desta poesia t~o escorregadia nos nossos olhos que custa parar de ler. Depois de parar, recomeçar noutro dia e reflectir uma vida noutra vida que é a sua poesia.

http://everthinglooksperfect.com Mais que um blog, é um motor de buscar com opini~o própria para os amantes da cultura alternativa músical, fotogr|fica e por aí adiante. É bom, alias, muito bom. Preza-se por um rigor e uma imagem detalhada e fixa, que nos deixa a ver e a desejar conhecê-lo { muito mais tempo.

SL&jp 44


_literatura

P

assado recentemente um ano sobre a morte de José Saramago, a RevoltARTE recomenda a leitura de “A Viagem do Elefante”. Este livro conta precisamente a história de um elefante oferecido pelo rei D. Jo~o III ao arquiduque da \ustria. De Lisboa a Viena, a caminhada deste elefante acaba por ser uma met|fora { vida humana, em que “acabamos sempre por chegar aonde nos esperam” e que é, invitavelmente, a morte.

A Viagem do Elefante Autor: José Saramago Editora: Editorial Caminho Preço: 12,37€

J

osé Branco sonha desde pequeno poder ser médico para ajudar os outros. Quando formado em medicina deixa Portugal e vai para Moçambique, onde conseguiu criar v|rias infra-estruturas para poder tratar aqueles que precisava do seu auxílio. Ao longo deste percurso, “O Anjo Branco” enfrenta alguns problemas com o antigo regime, pelo facto de ajudar todas as pessoas, independentemente do lado político em que se encontravam.

O Anjo Branco Autor: José R. dos Santos Editora: Gradiva Preço: 24,5€

cc 45


_actualidade

Conversas de sala de espera H| dias fui { minha consulta semestral do dentista, ali no Marquês de Pombal. Enquanto aguardava que alguém gritasse o meu nome, ouvi na sala de espera dois tipos na conversa, enquanto folheavam o jornal que estava em cima da mesa. Foi mais ou menos assim… - Ouviste falar naquela coisa do Bin Laden ter sido apanhado num bairro fino do Paquist~o? - Passei os olhos em algo do género no jornal, num destes dias. Até { data nem sabia que havia bairros finos no Paquist~o. - Se passares no Martim Moniz vais ver do que falo. Em todo o caso, acho estranho tomarem-no no deserto rodeado de bosta de bodes montanheses e ele afinal estar t~o perto da cidade. O tipo agora est| no fundo do mar mas nem assim o Obama deixa de intervir em tudo o que é país naquela zona. Temer~o que o Isl~o invada os Estados Unidos? - O Isl~o n~o é um país. - Também o Benfica n~o é, mas tem mais força e apoiantes que a Igreja Católica em Portugal! Quando o Benfica joga o país p|ra. Devia ser feriado nacional! - Feriados j| nós temos que cheguem… - Descanso nunca é demais. E a maioria deles s~o católicos. Bendita Igreja! - Gostava de saber o que diriam os islamitas disso… - Pois ent~o!, s~o uma minoria, têm de se sujeitar. Metade das pessoas que eu conheço s~o católicas. - Ora essa, o Estado é laico. Que conversa é essa de minoria? E se eu for um judeu com vontade de trabalhar e n~o souber o que é a Assunç~o de Nossa Senhora? Ninguém sabe, de qualquer das formas. Toda a gente vai festejar a P|scoa para o Algarve. H| que respeitar as antigas tradições existentes no país.

- Continuo sem perceber para que serve o festejo do Dia de Todos os Santos se a seguir comemoramos em festas de outros santos específicos… E o que faz dos feriados tradições nacionais? - Tradiç~o é tudo o que fazemos pelo menos em dois anos seguidos. - Ent~o tudo seria feriado… - Mas olha l|, queres acabar com o Natal também? - O Natal é óptimo para receber prendas. Mas n~o deixa de dar que pensar: qual é o sentido de escrevinhar na Constituiç~o que o Poder n~o se mistura com a religi~o se a seguir comemoramos a nível nacional acontecimentos de santos e ressurreições? - O que é que sugeres? Arranjar um punhado de feriados favor|veis a todas as religiões? Ninguém mais trabalhava! - N~o, n~o, mas um país deve comemorar acontecimentos que lhe digam algo historicamente, e n~o o Santo António. Que os católicos continuem a festejar, que eu gosto sempre de beber uma cervejinha em Alfama no 13 de Junho. Mas não é justo conceder uma folga { malta. J| quase ninguém vai { missa ao Domingo, os praticantes e os que ligam a isso n~o podem ser assim tantos. - Ao sétimo dia, o Senhor descansou! N~o me digas que queres abolir os Domingos! - De maneira nenhuma, o próximo fim-desemana é grande, vou com os miúdos e a patroa para Vilamoura. É o Corpo de Deus. Olha, é a minha vez. Vemo-nos por aí. - Se Deus quiser!

dm 46


_actualidade

Ai portugal “Ai Portugal, Portugal… de que é que tu est|s { espera?” Perguntou-se o músico Jorge Palma no ano de 1993 numa das suas músicas. Eu tinha dois anos de idade quando a música foi escrita e o que é que mudou na realidade desde essa altura? A nível tecnológico, muita coisa como seria de esperar. Aos outros níveis? É difícil dizer. Mas é precisamente por esta necessidade constante de olhar para tr|s que Portugal continuar| na mesma: um país nost|lgico, sonhador e cosmopolita. Tenho a certeza que vision|rios como Luís de Camões, Fernando Pessoa, Camilo Castelo Branco, Gil Vicente, entre outros preferiam que olh|ssemos em frente e perseguíssemos o nosso futuro tal como eles o fizeram, do que olhar para tr|s e suspirar “Ai, que isto dantes é que era bom…”. Enganam-se amigos, dantes nem tudo era bom, tal como nem tudo é bom agora. Basta de saudosismos, encaremos o nosso futuro de braços abertos e lutemos com aquilo que temos para podermos poder continuar a sonhar com os próximos feitos. Faz-me confus~o a import}ncia que os portugueses d~o ao passado, s~o quase prisioneiros do passado. O passado serve para nos ensinar que o que correu mal n~o deve ser repetido e nunca nos devemos esquecer dele. No entanto, desprendam-se de um passado do qual nem sequer fizeram parte e ponham as m~os { obra na construç~o de um futuro de que se possam orgulhar. J| estamos todos fartos do discurso de que Portugal est| a passar por um momento difícil. Todos nós queremos o melhor para nós e para os nossos mas enquanto eu e tu n~o nos mobilizarmos e lutarmos por nós, enquanto ninguém lutar por aquilo que quer,

Portugal vai viver sempre com um pé no fundo Oceano Atl}ntico, a vangloriar-se pelos feitos dos Descobrimentos e vai ter sempre uma língua afiada sempre que se fala em austeridade. NÃO, isso n~o é patriotismo! Se queres ser patriota, n~o idolatres um Portugal conformado, desempregado, burlado, descontrolado, antiquado, malfadado, retardado, com o bolso despejado e crente no passado. Luta por ti, pelos teus e pelo nosso futuro, sai { rua se tiveres de o fazer, deita-te no ch~o no largo do Rossio, acampa no Terreiro do Paço, bate { porta do Pal|cio de S. Bento, mas n~o deixes que o teu destino te passe ao lado. “De que é que est|s { espera?!” N~o tens vontade de mudar? Est| nas tuas m~os, nas minhas e na de tantos outros. Nós, os jovens, porque o passado j| l| vai e o futuro nos pertence. “É f|cil falar…” dizes tu, “A culpa n~o é minha” diz o outro. N~o interessa quem és, de onde vens, o que fazes, de quem gostas, a tua idade. Est|s sempre a tempo de mudar alguma coisa, nem que seja insignificante e nesta altura n~o interessa saber de quem é a culpa, tal como n~o interessa pensar que s~o os culpados que têm de resolver o que n~o est| bem. Cabe-te a ti resolver isto, para que n~o sejas mais um culpado daqui por dez ou vinte anos. N~o fiques { espera de que os outros tomem a iniciativa por ti se queres um emprego, se queres uma casa, uma família, umas férias, se queres mostrar o teu valor e vingar na tua |rea. Mexe-te, por ti, por um futuro menos escuro, menos duro. Mexe-te pelo teu país, por Portugal.

jfs 47


_actualidade

Acordo ortográfico Achei ótima a temperatura do dia de ontem, apesar de um pouco úmida. Era dia de ato eleitoral e l| fui eu, de carro, preencher o meu papelinho. Virei { esquerda, depois { direita, depois { esquerda outra vez, que a tarde assim o pedia, até chegar a uma interceção na estrada, onde estacionei. Votar, dizem, é um dever de todos nós, e aquela ação fez-me sentir cumpridor dos meus. E com esforço redobrado, pois hão de tentar conduzir um carro com uma infeção na perna! Se não melhorar depressa terei de cancelar o meu voo para o Egito. Pois é, caros leitores, n~o faz muito sentido, pois n~o? Para quê tirar o hífen ao “h~o-de”, o P ao coitado do Egipto, que j| é pobre por si, ou até mesmo o trema { lingüiça brasileira? N~o quero deixar de escrever “lêem”, passar a escrever “veem” ou “antirreligioso”. A língua é um arquivo, e a pluralidade de ortografias em vez de criar complicações, como muitos gritam por aí, vem apenas torn|-la mais rica. A nossa ligaç~o com países como o Brasil, Angola ou Cabo Verde é muito forte, ligam-nos a História e, claro, a Língua. N~o obstante, no nosso crescimento e na construç~o da identidade de cada país, a vivência e os costumes atiraram-nos em direcções (ou direções?) opostas, levando-nos a usar expressões diferentes, nascidas de formas de estar, de contacto com climas t~o diferentes como o tropical ou o nosso, mais fresquinho. Ao que sei vivemos uma fase de adaptaç~o, em que o acordo é aconselh|vel mas não obrigatório (pergunto-me em diversas situações da minha vida o que querer| isto dizer), e só apenas daqui a uns anos se tornar| oficialmente oficial. No entanto, muitos n~o gostam de

perder tempo, e edições di|rias como o jornal Record ou o Correio da Manh~ (este último ainda parcialmente) j| anunciam orgulhosamente e de peito cheio a aplicaç~o do ajuste internacional. Até mesmo a RTP j| entrou no esquema. Nestes termos, apelo ao bom senso e espírito contestat|rio que sei que existe em cada um de vós e proponho um boicote liter|rio em grande escala {s publicações aderentes, como forma de press~o para a mudança e, no caso do Correio da Manh~, para que deixe de ter leitores, de todo, j| que é horrível. Este acordo veio abrasileirar o português, torn|-lo uniforme, é certo, mas deslocado de realidades e culturas como a portuguesa ou dos longínquos timorenses, que v~o ter de o aprender no matter what. O objectivo de tanto tormento é, dizem, a promoç~o da leitura e da circulaç~o de livros entre os países mas o que se vê, de facto, é uma imposiç~o linguística do país mais forte – o Brasil – aos restantes mais fracos. Assim, termino com este pensamento, que pertence a Vasco Graça Moura mas que podia ser meu: "Alguém imagina os Estados Unidos a ditarem { Inglaterra as regras ortogr|ficas da língua inglesa? Ou o Canad| a ditar as do francês { França ou a Venezuela as do espanhol a Espanha?" Se hoje em dia vemos tanta gente em tropeços e encontrões na língua que aprende desde que nasceu, custa-me vaticinar um futuro feliz para esta coisa a que se chama o novo Acordo Ortogr|fico.

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RevoltARTE Junho #4  

4ª Edição do Magazine Cultural AEISCSP, Junho 2011.

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