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_ficha técnica Editor-in-chief & Director Criativo Jo~o Pedro Padinha

Design Gráfico e Edição Jo~o Pedro Padinha

Editor de Música Rui Salvador

Editora de Cinema Catarina D’Oliveira

Editora de Moda Irina F. Chitas e Joana Vieira

Editora de Literatura Sara Lima

Colaboradores nesta edição António Carvalho, Catarina Severino, Gonçalo Moura, Jo~o Fernandes Silva, Pedro Sobral, Rita Capelo, Rui Bajouca, Sara Aires, Sofia Domingues, Tiago Mour~o

Capa João Pedro Padinha

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_índice 5. Editorial 7. Música Reviews 9. Música Quinta dos Portuguesas 10. Música Como a Internet Salvou A Música Portuguesa 11. Música Rewind 13. Cinema Blue Valetine 15. Cinema Reviews 16. Cinema Rewind

23. Artigo A Cultura de Salazar e o Depois 27. Fotografia O dia em que a Liberdade saiu { Rua 38. Moda Guarda Roupa Sustent|vel 39. Moda Streetstyle 40. Moda ModaLisboa 42. Blogs Sítios Encontrados

45. Literatura Reviews 46. Literatura Locais 47. Literatura Censura no Estado Novo 49. Actualidade Cassete Geracional 51. Artigo P.E.N. - Poets, Essayists and Novelists 51. Actualidade A Educaç~o

43. Entrevista Rui Ramalho

17. Cinema Quinta dos Portuguesas 18. Cinema Aprender no Cinema 21. Teatro Cemitério dos Prazeres Chapitô

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_editorial

N~o somos um Magazine de esquerda ou direita, muito menos partid|rio. Mas gostamos de enfrentar os bois de frente e chamar as coisas pelos nomes. O 25 de Abril foi h| 37 anos, mas parece que j| se perdeu tudo pelo qual se lutou. Recuper|mos a nossa Liberdade mas apenas para cair na dependência de outrem. N~o que o 25 de Abril tenha sido em v~o, muito antes pelo contr|rio, se n~o tivesse acontecido n~o estariam a ler isto. O 25 de Abril foi o melhor que aconteceu { 37 anos. O pior foi n~o ter sido bem aproveitado. A inveja e a sede de poder falam sempre mais alto, esquecendo todos os valores pelos quais se lutaram naquela madrugada. Nesta ediç~o procuramos celebrar essa mesma madrugada, esse dia, esse momento. Momento esse que nos fez sonhar e acreditar que a liberdade é o valor mais importante do ser humano. Porque se n~o lutarmos pela liberdade n~o seremos nada mais do que seres formatados que vivem os seus dias { espera de morrer. Celebramos ent~o o dia em que Portugal foi livre. O dia em que Portugal quis renascer.

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The Strokes_Angles

_música

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o quarto |lbum os The Strokes surpreendem. Depois de First Impressions of Earth, que sinceramente foi apenas mais do mesmo, duvidou-se da capacidade da banda de, porventura, se reinventar. Em Angles isso acontece e logo com a exótica e surpreendente Machu Picchu a abrir as hostilidades, servindo de aperitivo para os diferentes sabores que o |lbum apresenta. No entanto, a essência dos The Strokes continua l|: A bateria, os riffs, a voz de Casablancas, tudo est| l|, mas desta vez de uma forma que n~o é t~o monótona e que se vai disfarçando no estilo de cada tema. Under Cover

Of Darkness, primeiro single, é uma música a la Strokes, com muita qualidade. Two Kinds of Happiness cheira a U2 por todos os lados e as |cidas You’re so Right e Metabolism apimentam um disco que é acima de tudo marcado por influências dos anos 70/80. Com este |lbum , que no seu conjunto é bastante agrad|vel, os The Strokes conseguem sobreviver, estando, no entanto, na iminência de se tornarem vítimas de um conceito que parece estar a esgotar-se. Por enquanto a coisa funciona e as expectativas s~o altas para o concerto no Super Bock Super Rock.

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Lupe Fiasco sofre, nesta altura, o síndroma “já-fui-inovador.-Eagora?”. De facto tem neste seu terceiro |lbum, uma falta de direcç~o e contexto. A produç~o mostra-se agora mais influenciada pelo Europop mais descarado. Mas, enquanto que, no |lbum de estreia Lupe mostrava-se consciente das suas letras e as aplicava a uma produç~o certeira (e com uma boa subtileza), neste Lasers joga contra todas as suas forças e talentos, e faz um |lbum onde as letras entram em clichés ou tentam situações e sentimentos (a realidade alternativa de All Black Everything ou o “bora-lácriticar-todos” em Words I Never Said) e onde o rap é de facto sobre exaustivo, sem espaço nem din}mica coerente para causar impacto profundo. Talvez se possa explicar pela miríade de diferentes produtores, ou pelos convidados, que n~o têm terreno sólido nas suas palavras. Esperemos que Lupe volte ao 1º plano no Hip-Hop. E que se deixe de duetos vazios Pop-Rap que disso j| estamos fartos.

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Este é o |lbum de estreia dos Holy Ghost!. Mas metade dele j| tinha saído (singles Hold On, Do It Again, Wait And See e o muito bom EP Static On The Wire). Neste contexto, uma banda assim pode sofrer do síndroma “encher chouriços”. Acontece, mas n~o é t~o grave. Para além dos singles j| citados e dos dois primeiro temas do EP (o tematítulo e o brilhante Say My Name), poderíamos destacar Jam For Jerry. No entanto, os “chouriços colocam sempre um problema. Slow Motion é pastiche dos New Order ,Hold My Breath n~o aguenta nada na memória de ninguém, e It’s Not Over põe-nos indiferentes. Acaba numa nota ligeiramente inesperada com Some Children, com um bom ritmo disco e uns coros algures entre o espiritual e o recreio, e uma troca de risos e palavras entre o vocalista e as crianças que participaram. Os Holy Ghost! Podem n~o ter o talento composicional duns Hot Chip, mas esperemos que acertem melhor o passo como o fizeram no Optimus Alive. N~o é difícil.

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Amon amarth

Surtur rising

Holy ghost!

Holy ghost!

Lupe Fiasco

lasers

_música

O regresso dos “Vikings” de Tumba (Suécia) demonstra mais uma vez a sagacidade, inteligência na composiç~o simples (mas complexa o suficiente para deixar os f~s dos subgéneros mais técnicos a salivar) melodia e grandiosidade, aliando todos esses elementos a uma brutalidade extrema e louv|vel. É um erro a considerar isto como uma incurs~o nos terrenos do Progressive Metal ou do Technical Metal. Mas este registo é soberbo, perfeito. O |lbum deste milénio no que toca ao Melodic Death Metal e um dos melhores |lbuns do “macro género” do Metal. A fórmula empregue nos |lbuns prévios est|, mais uma vez, presente. Mas os pequenos elementos e derivações que os Amon Amarth empregam a cada capítulo da sua discografia catapultam sempre o ouvinte para uma nova e aliciante experiência sónica. Surtur Rising é um |lbum para a posterioridade. Ir| certamente passar o teste do tempo.

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_música

Quinta dos portugueses

Linda Martini_casa ocupada Desde cedo se percebeu que os Linda Martini iam ser um caso sério de sucesso no nosso país. Ao segundo longa duraç~o, Casa Ocupada, a banda composta por Cl|udia Guerreiro, Hélio Morais, Pedro Geraldes e André Henriques mostra que o burburinho { volta da banda, tal como as salas cheias, est~o para ficar. Lançado j| no último trimestre 2010, ainda a tempo de ser considerado um dos melhores |lbuns nacionais do ano por r|dios, blogs e revistas especializadas, Casa Ocupada tem os temas mais directos, mais punk e mais de acordo com os c}nones de “canç~o” escritos pelos Linda Martini até a data. Depois dos concertos de apresentaç~o do |lbum, da apariç~o no Musicbox e no alinhamento do Super Bock em Stock, isto tudo ainda em 2010, os Linda Martini iniciaram a 22 de Janeiro a Tour nacional de apresentaç~o de Casa Ocupada. Ao vivo, os Linda Martini mostram que est~o na melhor fase da sua curta e promissora carreira. A intensidade e a cumplicidade entre os elementos da banda atingem aos primeiros acordes a “juventude sónica” que os acompanha em cada concerto, pronta para cuspir cada palavra dita por André Henriques, como se a soubesse desde sempre. Ali|s, Casa Ocupada traz as letras a que os Linda Martini nos habituaram: curtas, sentidas e liter|rias. Contudo, neste disco as palavras aparecem de uma forma mais crua, directa e frases como “parecemos putos, n~o temos aulas amanh~” ou “foder é perto de te amar, se n~o ficar perto” ir~o rapidamente tornar-se hinos e frases cliché por onde quer que os Linda Martini passem.

Linda Martini_casa ocupada (2010)

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_música

Como a Internet salvou a música portuguesa.

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Internet está a matar a indústria musical, colocando-lhe os maiores desafios e as maiores mudanças de sempre. Regularmente, vemos artistas e autores nacionais queixarem-se e com raz~o, mesmo que as vezes através de discursos um pouco retrógrados, dos downloads ilegais, tentando também sensibilizar os jovens para n~o fazerem. Até aqui tudo bem. Agora digam-me, quantos de vocês é que tomaram conhecimento de bandas portuguesas através da internet? Mais, quantos de vocês teriam conhecimento da música dessas mesmas bandas se tivessem que a comprar? Melhor, quantas pessoas estariam depois nos concertos, pagando bilhete e comprando t-shirts, se vocês n~o tivessem sacado o |lbum de um sítio qualquer? Passo a responder: Os More Than a Thousand, os Linda Martini, os Peixe:Avi~o, Murdering Tripping Blues, PAUS, Glockenwise, Noiserv, You Can’t Win Charlie Brown, Riding Panico, Salto, Golpes, Smix Smox Smux, doismileoito e os Dead Combo, entre outros, n~o teriam metade das pessoas nos concertos, nem metade dos f~s, nem metade da (pouca) visibilidade, que lhes d~o. Porque para o caso de ainda ninguém ter reparado, os CD’S são caríssimos (shiu! Não contem a ninguém). Na TV é quase nulo e apenas um par de r|dios v~o tentam mostrar nova música portuguesa e boa música que portuguesa, que sim, existe ! Podem mandar { merda esse estigma de quem em Portugal n~o se faz música de jeito, que muitas vezes só existe porque a “juventude” gosta da papinha toda feita e de preferência que lha dêem { boca, porque têm a cabeça t~o vazia que n~o cabe l| mais nada. Mas isso, no entanto, não é agora a questão. De certo que muitos artistas est~o gratos pelas portas que a internet lhes abriu e estar~o certamente chorosos pelo dinheiro que a internet lhes tirou do bolso. Pessoalmente e enquanto aspirante a melómano, acho que a net fez maravilhas pelos nossos artistas. Agora esperem um bocadinho que tenho o Miguel Guedes e o Jo~o Gil a baterem-me { porta.

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_música Como os Alemães conquistaram o Mundo (parte l)

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REWIND

lemanha. 1945. O final da II Grande Guerra deixou milhões de mortos e um país silencioso acima de todos os outros. A morte de Adolf Hitler é celebrada sobre a angústia daqueles que perderam os entes queridos. A divis~o do país em 4 partes, para a URSS, os EUA, a França e o Reino Unido constitui a machadada (quase) letal no orgulho germ}nico.

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Alemanha. 1968. 23 anos depois, os grandes tumultos que começaram em Paris alastram-se pela Europa. E, enquanto a Primavera de Praga promete um novo futuro, em Berlim um muro continua a dividir e um pesado passado continua a pesar sobre a cabeça dos mais jovens, desejosos de desobedecer aos hipócritas que continuaram a ocupar os seus lugares em escolas, empresas ou no Estado. Os pais tornaram-se mudos e surdos. Mas, a pouco e pouco, surgem grupos que, ainda que inspirados pelos grupos ingleses e americanos (dos Beatles aos Velvet Underground aos Pink Floyd), começam a construir uma nova identidade, sem conson}ncia com grupos ingleses ou americanos e lixando-se para o passado folk e pop germ}nico. No entanto (consequência do passado recente), os tops alem~es, quando n~o dominados pelos discos brit}nicos ou americanos, eram invadidos pela schlager music, uma forma de Pop inofensiva e estupidificante, bem como embaraçosamente…azeiteira. Felizmente, estes grupos n~o se importavam com tais mesquinhices. Alguns destes, para além da música, interessavam-se pela política. Tal como os Amon Düül,

surgidos em 67, uma comuna de músicos (11 adultos e duas crianças) com alguns dos membros interessados em política. Surgidos em Munique, e com o objectivo de fazer uma música que mais ninguém tivesse pensado na altura, eram compostos por duas versões: os Amon Düül I, mais focados na política, e os musicalmente mais interessantes Amon Düül II, que faziam longas “jams”, mas com certos elementos desenvolvidos ao vivo e depois gravados, como em “Kanaan”, que abre o |lbum de estreia Phallus Dei, ou no tematítulo macabro e espectral de 20 minutos. No entanto, demorou um certo tempo até serem aclamados, tanto por causa da difícil internacionalizaç~o bem como pelo facto de três dos amigos deles se chamarem Ulrike Meinhof, Andreas Baader e Gundun Ensslin. Estes três, entre outros, fundaram o grupo terrorista de extrema-esquerda mais temido da Alemanha: Baader-Meinhof. O que levou ao corte de relações entre eles e ao aprofundar da divis~o da comuna. Contudo, noutras cidades, novas linguagens se formavam no horizonte. De raiz europeia, a música electrónica começava a entrar na sua fase modernista. Os grandes respons|veis foram a maior acessibilidade de sintetizadores Moog e Farfisa e, claro, Karlheinz Stockhausen. Stockhausen pode ser considerado o primeiro compositor pioneiro da música electrónica moderna, pelos seus sons totalmente inovadores, sem ligações ao passado e com o futuro disponível e aberto. O facto de tal forma musical n~o ser propriamente americano ou brit}nico (algumas excepções: os Silver Apples em Nova York nos anos 60 ou a Radiophonic Workshop da BBC), também deu imensa motivaç~o a Stockhausen e aos músicos influenciados ou ensinados por ele para desenvolver todo um novo som. 11


_cinema

U

ma autópsia de um casamento falhado que contrasta o brilho do namoro com o triste desenlace depois das disfunções arrasarem as bases da esperança e da novidade. O realizador Derek Cianfrance caracterizou-o como uma história de amor no passado, e uma

tragédia no presente. As duas volatilidade da vida real. metades s~o intercaladas e d~o O resultado tem tanto de resposta a algumas perguntas, penoso como de profundamente deixando outras em aberto. cat|rtico – a audiência n~o só se vê a si mesma em pedaços No papel, o filme parece uma daquela história quebrada, mas seca (perdoe-se o termo): um também cria significados casamento que se desfaz, mesmo diferenciados para a espiral de quando o casal revisita cansaço e infelicidade do casal. desesperadamente os momentos felizes dos primeiros tempos de Blue Valentine é guiado pelo namoro. Mas Cianfrance mostrou di|logo e alimentado pelas ser um realizador atento { beleza performances dos protagonistas. da mais aguda das dores e n~o O par (Ryan Gosling e Michelle teve receio em levar os seus Williams) é fant|stico, dando a actores ao extremo emocional e Dean e Cindy uma natureza físico, permitindo-lhes criar um genuína que torna a sua felicidade mundo que possui toda a prazerosa e a sua infelicidade

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GOOGLE IMAGES

Blue valentine_derek cianfrance

_cinema

Se existe uma falha é na frequência das viagens ao passado que por vezes quebram o ritmo l| mais para o final da fita. Contudo, quando se fala de um produto com tamanha intensidade e sensibilidade, acaba por ser um problema menor. N~o é um filme f|cil, mas é uma experiência poderosa e inesquecível. Blue Valentine é tão honesto e terrível como por vezes o Amor é. É o antídoto perfeito para os romances ocos e sem alma de Hollywood. Todavia, esta última frase coloca este delicado mas intenso filme numa companhia que simplesmente n~o o merece.

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_cinema

N

um mundo asfixiado do cinema de animaç~o, começa a ser realmente complicado ser original ou magnífico. Ainda assim, e logo na sua estreia em animaç~o, Gore Verbinski matou três coelhos de uma cajadada só sendo n~o só magnífico e original, como n~o tendo necessitado do truque 3D para fazer vender o seu peixe. O grande aplauso tem de ir para o realizador Gore Verninski e a equipa de autênticos magos dos efeitos visuais da Industrial Light & Magic que de pixels fizeram paisagens quase perturbantemente semelhantes ao real: o melhor elogio que lhes podemos fazer é que, de facto, em muitos momentos, este parece um autêntico filme liveaction, e não uma animação. A pele escamosa dos répteis e os pêlos pejados de sujidade dos roedores têm a si associado um realismo quase t|ctil. No que respeita a storytelling, Rango vai saquear e depois misturar variados elementos de filmes cl|ssicos, desde Chinatown aos westerns de Clint Eastwood, dando uma lufada de ar fresco { j| de si familiar história do herói por engano e conveniência. Este dever| ser um deleite para os amantes do bom Western. O di|logo incorpora falas (ou adaptações das mesmas) do passado, a filmagem imita

momentos cl|ssicos, a banda sonora utiliza elementos sonoros conhecidos. O que parece, no entanto, é que se apoia demasiado nas referências intermin|veis, tanto de filmes cómicos como dram|ticos, que acaba por, descuidadamente, empilh|-los sem nenhuma base ordeira. Com muita pena minha, este Rango, ainda que revolucionário em termos técnicos, acaba por ser uma espécie de continuaç~o do trabalho de Verbinski ao longo dos anos: uma fita que d| muito prazer de ver, mas que faz uma mistura frustrante de um enredo algo desleixado, uma atitude marota e muita acç~o.

rango

É

um daqueles filmes simplesmente queridos, ainda que para chegarmos a esta conclus~o tenhamos muito sexo pela frente, e diz-nos mais naquilo que faz, do que naquilo que prega ao longo das duas

horas . Ashton Kutcher e Natalie Portman n~o brilham mas s~o competentes e utilizam de forma bastante inteligente a diferença de alturas entre si, resultando em alguns bons momentos de slapstick comedy. A química existe mas Kutcher n~o é capaz de acompanhar o ritmo e de manter o seu personagem interessante por toda a trama, tornando Portman a figura mais dominante, e perturbando consequentemente o equilíbrio de um j| n~o muito forte. Infelizmente, parece que uma estranha obsess~o por ditos espirituosos obscenos estraga tudo - é que a premissa até n~o é m|, nada m|, mas o material acaba por sofrer por um desejo desesperado de se encaixar nas convenções e o di|logo deixa muito a desejar, roçando muitas vezes o vulgar. N~o podemos nem em mil anos dizer que revoluciona o género como o fez (500) Days of Summer, mas na melhor das hipóteses, é uma alegre jornada sexual trazida até nós por um elenco sólido (ainda que subaproveitado). J| se viram coisas piores, é verdade, mas Hollywood consegue fazer melhor.

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No strings attached

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_cinema

Donnie Darko

guiada por eles, sendo apenas beneficiada pela sua presença.

Richard kelly

Donnie Darko foi e continua a ser um imensamente original filme que combina um enredo intrigante e complexo com uma espécie de ficç~o científica de alta categoria, permanecendo impenetr|vel { lógica analítica.

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REWIND

om apenas 26 anos, Richard Kelly escreveu e realizou um filme que, apesar da fraca recepç~o na altura, é hoje um dos mais respeitados filmes de culto da década. O estilo é confiante e único, dando Traços de sonho e pesadelo muitas vezes a ideia que a c}mera flutua acompanham o dinamismo numa peça que juntamente com os personagens, e a celebra dez anos e que tem muito a dizer narraç~o segue lenta e compassadamente; sobre a vida...e a morte. só o suficiente para construir um enredo t~o rico que poder| ultrapassar a humilde compreens~o e apreens~o lógica do espectador. O que vemos é o mundo aos olhos de Donnie. Além dele, somos os únicos a presenciar os seus actos violentos e as suas confusas alucinações. Só assim e fazendo uso de elementos que alguns poder~o considerar "sobrenaturais" ou surreais podemos entrar na cabeça de Darko. O que vemos é o que ele vê, o que um jovem imensamente perturbado e fragmentado vê. Um mundo a desfazer-se { sua frente. É uma corrosiva crítica social que condena os estereótipos juvenis incorporados na exclus~o intelectual e relacional de Donnie; os estereótipos que a escola e os pais tentam todos os dias implantar nas cabeças de alunos e filhos, numa lavagem cerebral que os torna tantas e tantas vezes...vazios. Donnie é o grito de libertaç~o, o antónimo dessa const}ncia. Um "rebelde" que só quer aprender por si mesmo o que é a vida e o que ela realmente significa em todo o seu espectro de complexos sentimentos agrad|veis ou desagrad|veis. Os efeitos especiais s~o de surpreendente avanço e qualidade que partem de um reduzidíssimo orçamento de 4.5 milhões de dólares. A história nunca é

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_cinema escolhas políticas, mas também num espectro social em que a inacç~o parecia ser a melhor soluç~o se se pretendia bem-estar e conforto (Agora digam-me lá se isto não parece daquelas frases do Eça de Queirós que se aplicam ao Portugal de hoje...) O contraste que é feito entre a devastaç~o europeia e a relativa pacificidade portuguesa é muito interessante e demonstra na perfeiç~o como é que a nossa neutralidade, desprovida de moral e ideologia, prova que é sempre melhor viver numa fantasia pacífica que numa realidade violenta, ainda que sejamos nós a acreditar nela e n~o os que s~o visados – os estrangeiros. Um filme mais que obrigatório por toda a sua riqueza cultural, e por nos mostrar que muito do que fomos como povo em ditadura, n~o deix|mos de ser como cidad~os de Estado de Direito.

Fantasia lusitana

Quinta dos portugueses

Joao canijo

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bertura do IndieLisboa 2010, “Fantasia Lusitana” é o venturoso empreendimento cinematogr|fico de Jo~o Canijo que documenta todo o comportamento social de uma Naç~o Portuguesa desenraizada de uma identidade nacional, nas décadas de 40 e 50. O trabalho de pesquisa de imagens efectuado pelo realizador e pelo respons|vel de montagem Jo~o Braz merece ser referenciado, pois sendo grande parte das imagens proveniente de arquivos públicos e jornais de actualidades cinematogr|ficas da época, toda a atmosfera em que o filme documental se processa leva o espectador a vivenciar o que a tela transpõe, a sentir um elo de pertença a um povo com o qual n~o privou, a interiorizar a nostalgia de algo que nunca viveu... Todo o ambiente de época que as imagens fornecem, que se inicia com as preparações da Exposiç~o do Mundo Português e finda com a inauguraç~o do Cristo Rei, é contraposto com os testemunhos de três reputados estrangeiros que pelo país passaram na altura da II Guerra Mundial - Alfred Döblin (o autor de “Berlin Alexanderplatz”, na voz de Rüdiger Vogler); Erika Mann (filha de Thomas Mann, na voz de Hanna Schygulla); e Antoine de SaintExupéry (o autor de “O Principezinho”, na voz de Christian Patey). O contributo destes testemunhos é esplendoroso, na medida em que nos mostra que a neutralidade portuguesa no conflito n~o residiu só em

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_cinema

Aprender no cinema

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empre tive uma m|xima: tirar o Ensinamento nº 3 m|ximo de tudo o que faço. E se a) Os computadores nunca s~o lentos, nem posso aprender enquanto faço algo nunca crasham, nem encravam. que gosto, porque n~o? Nunca se deram conta de como pode ser b) Ao ligar um computador n~o esperem enriquecedor assistir a um filme? Quantas coisas encontrar nada que n~o seja “insira a sua úteis podemos descobrir, coisas fant|sticas! password”. Nem cursor do rato sequer; (para quê?) J| que a educaç~o anda em t~o maus pés no nosso país nos dias que correm, a RevoltARTE e c) Para escrever um texto no computador, o Close-Up resolveram dar uma m~ozinha e n~o é preciso utilizar a tecla “space” ensinar importantes lições de vida {s gentes lusitanas que frequentam o ISCSP! Ensinamento nº 4 Quem poderia pensar que aprender é t~o Os hisp}nicos falam inglês perfeito sem f|cil? Que comece a lição! cometer qualquer erro. A única excepç~o é a incapacidade geneticamente transmitida de aprendizagem das palavras: “Senhor” e Ensinamento nº 1 “Obrigado” - [“Señor” e “Gracias”]. Quando se utiliza Código de Morse, o intérprete vai traduzir imediatamente palavras e n~o Ensinamento nº 5 letras. Para tornar tudo mais f|cil, quer as Explosões no espaço (leia-se, no v|cuo) fazem palavras sejam grandes ou minúsculas, s~o uma barulheira ensurdecedora. enviadas sensivelmente { mesma velocidade. Vejamos como funciona: Ensinamento nº 6 É mais f|cil enganar sistemas complexos de segurança de instituições (super-)secretas do beep-beep-be-beep... governo do que um miúdo de 5 anos. "Ajudem...”

be-beep beep beep… "Enviem..." be-be-be-beep beep… "Reforços..." beep be- beep… "Rápido..." etc. F|cil, f|cil; n~o tem nada que saber!

Ensinamento nº 7 Quando alguém p|ra de respirar ou deixa de ter pulso, basta seguir o seguinte procedimento: - fazer umas 20 compressões cardíacas { bruta; - soprar duas vezes na boca da vítima; - apresentar um ar extremamente agitado enquanto se grita desesperadamente “v| l|! N~o morras! Volta!”.

Ensinamento nº 2 L| pela segunda vaga de "sopros" para a boca da Todos os sacos de compras têm pelo menos vítima, ela acorda. uma ou duas baguetes a sair de fora. Ensinamento nº 8

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_cinema Ensinamento nº 9 Ensinamento nº 19 Excepç~o feita a situações cómicas Se nos apetecer começar a dançar { maluca no propositadas, as mulheres têm SEMPRE a meio da rua, toda a gente { nossa volta depilaç~o feita. Até as mulheres das cavernas. começar| automaticamente a imitar os nossos passos e ouvir a mesma música na nossa Ensinamento nº 10 cabeça. Quando alguém é alvejado mortalmente, a quest~o resolve-se logo ali sem mais demoras. Ensinamento nº 20 Os seus corpos n~o sofrem nenhum tipo de Quando est~o sozinhos, os estrangeiros choque, nem têm movimentos musculares preferem falar inglês entre si. involunt|rios, nem nada que se pareça. Ensinamento nº 21 Ensinamento nº 11 Num bar ou restaurante, h| um empregado que Evitem festas com muita gente. É que, segundo nos atende no exacto momento em que os filmes de terror, é l| que se morre. queremos/precisamos de alguma coisa. Ensinamento nº 12 Os c~es ladram sempre para as pessoas m|s.

Ensinamento nº 22 N~o importa qu~o devagar os zombies andem… apanham-nos sempre.

Ensinamento nº 13 O som da trovoada e o raio visível no céu Ensinamento nº 23 acontecem ao mesmo tempo. Respeitando agentes secretos/espiões Ensinamento nº 14 a) Estamos mal arranjados se encontramos Quando olhamos através de binóculos vemos a um homem que diz o último nome primeiro, o forma de dois círculos, e n~o um. primeiro nome em segundo e o último nome em terceiro. Se as iniciais forem JB ent~o…upa upa. Ensinamento nº 15 Temos duas opções: Nos tempos medievais as pessoas estavam - Confiarmos nele e, provavelmente sempre sujas, despenteadas e com roupas acabamos na cama velhas; também tinham dentes perfeitos e - N~o confiarmos nele e… bom aí é branquinhos. prov|vel acabarmos mortos. b) Os agentes secretos nunca se afogam Ensinamento nº 16 porque têm pulmões especiais que lhes As pessoas nunca se assoam ou espirram. A permitem respirar sempre e em todo o lado. única excepç~o é uma tosse carregada, que normalmente significa que est~o a morrer. Ensinamento nº 24 É possível guiar em segurança durante longos Ensinamento nº 17 períodos com os olhos completamente Qualquer porta pode ser aberta com um cart~o desviados da estrada, quer a ver um mapa quer de crédito ou um clip, praticamente de olhos a ter uma conversa com o “co-piloto”. fechados. Ensinamento nº 25 Ensinamento nº 18 a) Todas as bombas que s~o montadas têm Quando um “patinho-feio” tira os óculos, solta o uns números gigantescos para que toda a gente cabelo e veste uma roupa bonita, passa sempre saiba exactamente quando v~o explodir. a ser um sex-symbol. b) Nunca tentem desarmar uma bomba ao n~o ser que falte 1 segundo para ela explodir.

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_cinema

Ensinamento nº 27 A maior parte das investigações policiais vai implicar pelo menos uma cena num clube de strip ou bordel. Ensinamento nº 28 Se uma pessoa n~o nos atender o telefone, o voicemail aparece automaticamente depois de 2 toques. Ensinamento nº 29 Os cemitérios têm os seus microclimas próprios. Normalmente, grandes chuvadas; e n~o é uma chuvinha miúda, normalmente é quase uma tempestade bíblica. Ensinamento nº 30 Num encontro emocional - daqueles mesmo fortes - em vez de uma conversa cara-a-cara, é muito mais profundo ficar atr|s da outra pessoa e falar-lhe para as costas.

E porque pensar demais também faz mal, atingimos o término do nosso período escolar. Esperamos que tenham aprendido muito e que vos seja útil em situações futuras o que aqui partilh|mos convosco. Agora v~o l| estudar a liç~o!

http://close-up.blogs.sapo.pt/

Ensinamento nº 26 Os arqueiros têm um stock intermin|vel de flechas {s costas.

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_teatro

Cemitério dos prazeres_chapito

em realizar tudo o que a criaç~o lhes proporcionava era uma constante, e a envolvência neste processo foi tal que por vezes se questionavam, nas palavras de Jorge, “Onde é que eu estou j|?”.

Quando se juntam palavras como “prazer” e Os prazeres e até fogosidades e violências da “cemitério” o aguçar da curiosidade é vida mundana s~o moldados pelo cheiro defunto incontrol|vel. Longe de uma alus~o ao da morte de um cemitério do qual se revela Cemitério dos Prazeres da qual a existência difícil sair. Desde a violência doméstica ao vulgarmente se conhece nascimento de um ser em Lisboa, “Cemitérios humano, estes actores dos Prazeres” toma encarnam toda uma forma numa brilhante e panóplia de figuras e macabra circunst}ncia, situações que, tal como onde contrariamente ao fantasmas, com a rapidez que é sugerido pelo que emergem do ch~o cartaz, o espect|culo voltam a desaparecer e se reside em dois actores: transformam em trapos Jorge Cruz e Tiago arrastados pelas p|s dos Viegas. Estes encarnam coveiros “de serviço”. mais de dez personagens, que Apinhada de tons t~o emergem de um cen|rio horripilantes como cuja concepç~o abunda hilariantes, esta em simplicidade negra e encenaç~o de John inteligência. Mowat confunde-nos quando nos Ao contr|rio do que questionamos sobre a é comum em teatro, a espessura da linha que construç~o da peça divide o terreno do além. partiu, em maior parte, dos actores e n~o do encenador. A criaç~o de todas as personagens, de cada identidade, foi impulsionada por um grande trabalho de experimentaç~o que durou cerca de três meses. Partindo de sons e gritos de guerra foram despontando v|rios seres, humanos e n~o humanos, de entre os quais mais tarde se recolheu a trama. [ pergunta “Qual das personagens é a vossa preferida?”, tanto Jorge Cruz como Tiago Viegas centraram a sua preferência n~o numa personagem específica, mas sim nas diferenças existentes entre as personagens, diferenças essas em grande escala, como por exemplo, entre um padre e uma menina de oito anos. A dificuldade técnica

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A cultura de salazar e o depois. “Deus, Pátria, Autoridade, Família e Trabalho”.

E

stas eram as cinco grandes certezas nas quais repousavam os valores morais transmitidos durante o regime autorit|rio de António de Oliveira Salazar que conservava e auxiliava a sua acç~o através de um aparelho repressivo. Esta censura estendia-se tanto a nível social como a nível cultural, sendo por isso inevit|vel que a produç~o cultural nacional fosse submetida a esses ideais. Se “politicamente só existe o que o público sabe que existe”, Salazar sentiu necessidade de criaç~o de um projecto cultural a que se chamou “política do espírito” que pretendia elevar a mente dos portugueses e alimentar a sua alma, cuja finalidade residia na criaç~o de uma arte nacionalista promovendo uma uni~o polémica entre o conservadorismo e a vanguarda. Fazendo das letras e das artes mecanismos difusores de todos os ide|rios do Estado Novo, este projecto cultural devia ser aberto ao seu tempo através de uma estética moderna (“Ser modernos sem deixar de ser portugueses” António Ferro). Os artistas ao serviço do SPN (Secretariado da Propaganda Nacional) tinham que seguir um padr~o cl|ssico, e espalhar o “Bom Gosto” na busca dos traços mais singulares e “pitorescos” da “raça lusitana”. De

forma a impulsionar os valores de irreverência e aud|cia da arte moderna eram atribuídos prémios e patrocínios aos artistas mais irreverentes, no entanto se essa ousadia se mostrasse excessiva, rapidamente se impunha uma ordem disciplinar. Toda a encenaç~o propagandística do regime começava pelo mais simples, isto é, qualquer organismo que estivesse directa ou indirectamente subordinado ao Estado detinha a sua própria propaganda sectorial: O grande espect|culo político-cultural com os prémios liter|rios, as exposições coloniais, a Exposiç~o do Mundo Português; O “p~o e o circo” populares com as “marchas populares”, os “desfiles históricos” e as comédias cinematogr|ficas; A encenaç~o do fomento harmonioso e equilibrado através das aparatosas inaugurações das novas obras públicas; A exaltaç~o do poderio do Estado Novo através da grandeza reencontrada do “império” e dos seus heróis; A exteriorizaç~o da autoridade e da força militar com os desfiles navais no Tejo, as paradas do exército e os desfiles da Legi~o e da Mocidade Portuguesa; culminando, como n~o poderia deixar de ser, na Igreja Católica, com as concentrações fatimistas, as missas campais, a bênç~o das tropas e das milícias. O cinema era mais um dos modos de difus~o de mensagens ideológicas do regime. A trilogia indiscutível de Salazar era constantemente relembrada nos grandes ecr~s nacionais: a propaganda (A Revolução de Maio), o ruralismo pitoresco (Aldeia da Roupa Branca), o Império (Chaimite, Feitiço do Império) e a história do país vista como um conjunto de feitos gloriosos pela m~o dos antepassados portugueses (Camões e Inês de Castro).

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_artigo No entanto, este género de filmes n~o foi t~o bem acolhido por parte dos telespectadores uma vez que a comédia nacional teve uma funç~o de divers~o que se traduzia como um escape ao que se vivia diariamente. Este género cinematogr|fico esteve sempre associado a uma operaç~o de ocultamento, isto é, estes n~o retratavam uma imagem real da época em quest~o no sentido em que importantes greves, motins camponeses ou miséria social n~o estavam incluídos nesta tem|tica cinematogr|fica. Todavia, o regime n~o acarinhava muito este género de fitas, tendo António Ferro proferido num importante discurso que a comédia era o cancro do cinema nacional, propondo que se fizessem filmes históricos e de raiz folclórica.

É neste }mbito que se regista a primeira intervenç~o do SPN na produç~o cinematogr|fica aquando do lançamento d’ A Revolução de Maio em Junho de 1937. O filme narrava a história de César Valente, um agitador que chega a Lisboa vindo do estrangeiro, com o intuito de organizar uma revoluç~o que depusesse o ditador. É neste momento da acç~o que se realça a fraudulenta passividade da polícia política que lhe segue os movimentos mas insiste em n~o actuar pois sabe, que Valente “é apenas um homem que se engana”. No decurso do filme, o protagonista vai até Monç~o visitar a terra onde nasceu e é aí que descobre a paz, a alegria dos campos e uma história de amor, que aliados { evidência da unidade entre o povo e Salazar v~o conduzir Valente a um processo de convers~o, que acaba por l| ficar.

Outra longa-metragem de ficç~o com contornos de propaganda na sua componente colonial foi o Feitiço do império. Um pouco à semelhança do que acontecia com a personagem central d’ A Revolução de Maio esta trama narra novamente a convers~o de um português a um ide|rio face { evidência de uma realidade. Neste caso a história centra-se num lusoamericano, filho de pais portugueses emigrados nos Estados Unidos, que decide naturalizar-se americano. Este resolve empreender uma viagem a \frica, aliciado pela caça grossa de que era entusiasta. De passagem por Lisboa, tudo o aborrece, com particular referência ao fado que encontra por toda a parte. Mais uma vez embarcado para \frica, este acaba por se render { portugalidade quando se depara com a paz social, a multirracialidade, a grandeza da paisagem e os portugueses que aí habitam. O pós-guerra e a queda dos fascismos e de todos os ideais democr|ticos neles implícitos levaram

{ erradicaç~o da Política do Espírito, dado que se apresentava uma crescente dificuldade em enquadrar as novas gerações de modernistas com a ideologia do regime, dando assim lugar a uma estratégia cada vez mais repressiva do Secretariado.

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_artigo Também a música teve um papel muito importante na transiç~o democr|tica que o nosso país sofreu. Antes do 25 de Abril, encontravam-se muitos músicos entre os presos políticos de Portugal. Diz-se que Carlos Paredes, um dos mais conhecidos guitarristas cl|ssicos portugueses, quando estava preso, fingia que praticava tocar guitarra com um pente de cabelo, para n~o perder a pr|tica. Até mesmo o humor sagaz de Raúl Solnado tinha de ser muito bem disfarçado para n~o haver outra hipótese de censura, mas acho que no fundo muita gente percebia do que é que se referia o humorista.

voltou no 25 de Abril como quase todos os outros.

José Afonso, ou Zeca Afonso, como gostava que o tratassem, foi provavelmente o mais conhecido compositor português, tanto no fado de Coimbra como na música de intervenç~o. A sua música “Gr}ndola Vila Morena” foi usada como senha pelo Movimento das Forças Armadas, mesmo antes do golpe do 25 de Abril. Em 1963 termina o seu curso de Ciências Histórico-Filosóficas na Universidade de Coimbra e começa a escrever músicas com car|cter político, vendo assim o seu disco censurado. Em 1967 começa a tornar Foi então no final dos anos 60 e no início -se um símbolo da luta democr|tica contra o dos anos 70 que a música de intervenç~o se regime salazarista. começou a fazer ouvir em Portugal. Uma Todos estes músicos marcaram uma música de protesto, que se baseava em canções populares que visavam chamar a geraç~o e continuam ainda presentes na atenç~o para questões económicas, políticas e actualidade, ainda que em espírito. Abriram sociais. Muitos músicos portugueses ficaram portas para novas tendências musicais que famosos por se oporem ao regime de Marcelo pudessem estar para vir, mas ser| que é Caetano e apesar de muitos terem j| falecido, possível projectarmos estas músicas e estes outros continuaram este tipo de música, artistas para os tempos de hoje? De certa forma sim. Podemos ver que j| em 1982, José mesmo após o 25 de Abril. M|rio Branco cantava acerca do FMI e olhem agora… ele est| de volta… Todos estamos Alguns dos músicos de intervenç~o: conscientes da crise que Portugal est| a Adriano Correia de Oliveira, intérprete atravessar, n~o só Portugal, também a Europa do fado de Coimbra, estudou Direito na e o mundo mas estamos numa situaç~o que se Universidade de Coimbra, morreu em 1982. tornou j| impossível de apagar, e muito difícil de corrigir, ent~o temos assistido a casos em Brigada Victor Jara, que ao contrário da que tanto os músicos como os humoristas tendência, fui fundada depois do 25 de Abril, sentem necessidade de aproveitar o seu tempo em 1975 também em Coimbra. de antena para se fazerem ouvir e apelarem a melhores condições, j| que a PIDE foi extinta, a Janita Salomé, irmão do também Censura acabou e vivemos numa democracia, músico Vitorino, nascido no Alentejo. ainda que por vezes n~o nos sintamos como tal. José M|rio Branco, nascido no Porto e ainda bem vivo e actual, estudou também em Coimbra, foi perseguido pela PIDE e teve de se exilar em França, voltando apenas após o 25 de Abril. Sérgio Godinho, que é também origin|rio da cidade do Porto, e viveu muitos anos no estrangeiro, na Suíça, no Canad| e

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_artigo Est| a acontecer um fenómeno que eu tenho certas dúvidas de que o possamos apelidar de ‘a nova música de intervenç~o’, porque essa música est| associada a uma geraç~o, ao contexto do Estado Novo e a uma altura da história onde havia necessidade de intervir. E eu percebo que haja muita gente com vontade de intervir, até eu tenho, quem n~o

tem? Os Deolinda resolveram tocar ao vivo uma música inédita, da sua autoria, Parva Que Sou, que alguém filmou e pôs no youtube. O vídeo rapidamente se tornou viral e se multiplicou fazendo com que a comunicaç~o social se manifestasse apelidando a banda de ‘a nova música de intervenç~o’, rótulo este que até mesmo a banda nega, e que se deve a apenas uma música, cuja letra fala sobre as injustiças sociais e sobre a geraç~o actual. Outro fenómeno que eclodiu recentemente foi o dos “Homens da Luta”. Jel e Vasco Duarte, irm~os, começaram a sua carreira de humoristas no programa Vai Tudo Abaixo da SIC Radical onde faziam uma série de sketches caricaturando uma série de estereótipos e contra-sensos que a nossa bela cultura portuguesa consagra. Um desses sketches era sobre dois

revolucion|rios que, no contexto actual era como se ainda vivessem no PREC (Período Revolucion|rio em Curso) que se seguiu ao 25 de Abril. As personagens s~o caracterizadas pela presença de um megafone e uma guitarra. Mesmo longe das c}maras do programa, os homens da luta marcavam presença em todas as manifestações, protestos e em 2009 decidiram dar um grande passo e construir uma banda através dos Homens da Luta e bem recentemente foram bastante noticiados porque se candidataram e ganharam o Festival da canç~o e v~o representar Portugal na Alemanha no próximo mês. Ora, ser| que isto torna os Homens da Luta músicos de intervenç~o? Eles intervêm bastante, e com bastante sucesso, conseguem mobilizar centenas de pessoas só com a sua presença, mas ser~o eles músicos, ou apenas humoristas? O próprio Jel também j| veio negar o rótulo de música de intervenç~o e referir, para acalmar os }nimos que os Homens da Luta s~o apenas personagens e que ele n~o tem quaisquer intenções de se intrometer na vida política.

sd&jfs 25


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_moda

Guarda-roupa

H

sustentável

| uns anos atr|s, a ecologia estava na moda. Reciclar era trendy e sustentabilidade era a palavra de ordem. Com estes tempos conturbados, o vocabul|rio corrente foi-se alterando: crise, poupança, low cost. A procura pelo mais barato foi-se generalizando e outras questões foram empurradas para baixo do tapete. Ser|? Talvez n~o. Enquanto em 2006 n~o se sabia até que ponto a preocupaç~o com o bem-estar do planeta era genuína ou estava apenas na moda, hoje em dia j| se começam a distinguir as marcas que se empenham realmente em tornar o nosso mundo num lugar melhor.

Esta designer britânica é já bem conhecida pela sua política sustentável. (muitas das marcas movem as suas fábricas para países subdesenvolvidos, onde fornecem postos de trabalho e sal|rios justos), mas também a pegada carbónica. Mas vamos ao que interessa: como contribuir para um desenvolvimento sustent|vel? H| inúmeros sítios na web que se dedicam única e exclusivamente { Moda Sustent|vel, mas deixo-vos aqui um que considero bastante completo. H| j|

Katharine & Hamnett

Assim surge a Eco Fashion, ou a Moda Sustent|vel, directamente associadas a conceitos como Moda Ética e Responsabilidade Social. O produto é criado e produzido tendo em conta o impacto ambiental e social que ter| durante todo o seu ciclo de vida. Estas preocupações incluem a matériaprima (como o algod~o org}nico, as fibras naturais e as fibras recicladas), a m~o-de-obra

STELLA MCCARTNEY

http:// www.ecofashionworld.com também uma Eco Fashion Week!

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_moda

Streetstyling,,, over and over again

M

Pessoas reais (mas de preferência bonitas ou vistosas), excêntricas, com o seu quê de proximidade, que estejam de bom humor e sintam uma certa necessidade em aparecer.

esmo quem n~o fala fashionês já ouviu falar em streetstyle. H| quem considere que, mais que os fantasiosos editoriais das revistas de moda, s~o as rubricas de streetstyling que dar~o aos nossos seguidores o panorama real do aspecto estético da sociedade contempor}nea. Desde o precursor Bill Cunningham (do The New York Times), ao t~o famoso e influente The Sartorialist, ou, se quisermos navegar para terras lusas, O Alfaiate Lisboeta, o formato n~o Se tiverem criatividade e consigam se altera, e antes da saturaç~o do conceito, era vergar a fórmula de forma inédita, peguem na uma fórmula para o sucesso instant}neo: m|quina e percorram os caminhos bravios e inexplorados do streetstyling (se é que o há). 1 fotógrafo Por ser real, captado num sítio e com bom situações palp|veis, o streetstyle é inspiração olho e di|ria para milhões de pessoas, é a esperança de alguma lata que as ruas das cidades ainda estejam decoradas de beleza e bom gosto.

1 boa máquina fotogr|fica: uma compactazinha tira credibilidade { coisa

http:// thesartorialist.blogspot.com/ http:// oalfaiatelisboeta.blogspot.com/

1 cidade emblemática: se não tiverem New York ou Paris, Lisboa ter| de servir

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_moda

ModaLisboa “Wear Love”

modalisboa

diferentes. Desde o vermelho, verde, rosa

T

entre outras paletes de cor, os collants udo começa no P|teo da Galé, com um discurso inspirado no amor, que se deu inicio a mais um ModaLisboa.

Alexandra

Moura (a mente criadora do evento)

opacos coloridos foram uma presença obrigatória em quase todos os looks apresentados pelo estilista assim com os chapéus, pretos ou brancos contribuindo para um visual mais cuidado e chic.

começou por saudar todos os presentes, com um discurso de amor e de paz

Ana Salazar foi outras das estilistas que

incentivando-os literalmente a "usarem amor" em todo o seu guarda-roupa e na nossa forma de encararmos a vida, pois o tema central desta ediç~o dava pelo nome de LOVE. Toda a plateia aderiu ao seu discurso, e se sentiu motivada a criar um look diferente para a estaç~o vindoura (OutonoInverno 2011-2012). Com os nervos à flor da pele, começa o

marcou pela sua singularidade, trazendo

desfile inaugural pela m~o de Ricardo Preto,

novamente o encarnado e o preto para a

onde assistimos a uma colecç~o cheia de cor

estaç~o de Outono-Inverno, juntamente

e vida, recheada de texturas e tecidos

com peças mescladas em verde seco e castanho. Mais do que vestidos a sua colecç~o define-se pelas calças com um corte moderno e actual. Os blusões, casacos e capas s~o também um ponto alto da colecç~o, muito met|lica na sua essência.

Ricardo preto Colecção Outono-Inverno 2011-2012

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Imagens: Arquivo ModaLisboa / Fotografia Rui Vasco

Ana Salazar Colecção Outono-Inverno 2011-2012


Pedro Pedro,

Katty Xiomara,

Luís

Bouchinho, Nuno Baltazar, Maria Gambina entre

apresentado na estaç~o passada, e que a meu ver vêm para ficar.

outros, apresentaram colecções

Os must have da estaç~o: Collants

recheadas de cor e de vida (ao contr|rio do

coloridos, casacos luxuosos (em pele ou

que seria esperado, numa estaç~o fria) cheia

pêlo), e vestidos! Para o público masculino,

de diferentes inspirações e formas de

as tendências passam também pelas cores,

abordar a moda. Muitos vestidos, um pouco

pelas calças pelo tornozelo acompanhadas

mais longos (abaixo do joelho) do que o que

de camisolas cheias de padrões ou formas

foram apresentados na estaç~o anterior,

geométricas. Os casacos compridos foram

calças

presença obrigatória na colecç~o masculina

na

linha

da

cintura,

camisas

transparentes, malhas, luxuosos casacos de

de Nuno Gama, Maria Gambina e Alexandra

Imagens: Arquivo ModaLisboa / Fotografia Rui Vasco

_moda

pêlo, transparências, entre muitas outras tendências. O mais interessante nesta estaç~o

s~o

as

cores

quentes,

que

geralmente n~o s~o associadas a este período do ano, mudando assim a nossa perspectiva do que se deve usar apenas no Inverno e apenas no Ver~o, porque na realidade podemos usar todas as cores,

Nuno gama Colecção Outono-Inverno 2011-2012

geométricas

e

continuaç~o

do

minimalistas que

j|

foram tinha

a

Moura. Os blazers e as camisas, s~o um must

sido

have intemporal, que mais uma vez foi reforçado ao longo desta semana de Moda Lisboa. De toda esta semana, absorvam que acima das tendências o mais importante é sermos nós próprios e apreendermos a criar os nossos próprios looks. Por isso não se esqueça, WEAR LOVE!

Maria gambina Colecção Outono-Inverno 2011-2012

jv

modalisboa

sempre! As linhas direitas e as formas

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_blogs

sítios encontrados http://www.filtrodecartao.blogspot.com/ Um escrita que parece em si uma insónia. Uma doce, crua, sincera insónia. Sob a letra de M|ximo se desenvolve este filtro de cart~o, envolvendo todo um pensamento no fumo lento do tabaco. Para ler sozinho e reflectir diante da janela, onde só restam palavras, nós, e o universo.

http://livreiranarquista.tumblr.com/ É bom. É muito bom. A Livreira Anarquista desabafa com os leitores as suas desventuras, ou o riso compulsivo, que provem do atendimento aos seus clientes. Nós, meros observadores, n~o temos outra hipótese sen~o ler e agarrarmo-nos { barriga ou { cabeça, mediante o que se passar na livraria. A Livreira Anarquista partilha conversas observações e mais e tanto. A espreitar, duas vezes por semana!

http://www.flickr.com/photos/kaizfeng/ A fotografia de moda parece-nos sempre toda igual. Poses aqui e ali, expressões vazias e uma informalidade exagerada. Este Flickr, mostra-nos o contr|rio, d|–nos aquele toque pessoal, o sentimento de presença. Porque o que est| na foto s~o as pessoas, e n~o s~o as pessoas que est~o na foto.

http://www.flickr.com/photos/tesourinho/ Nos dias que correm mal conhecemos fotografias que n~o sejam em formato digital, ou que n~o estejam totalmente manipuladas pelas garras terríveis do Photoshop. Mas felizmente ainda existem os resistentes, que remam contra a corrente e fotografam em filme, com toda a crueza que isso implica. Porque as coisas mais cruas e fiéis s~o também as mais bonitas.

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_entrevista para publicar alguma coisa.

R

ui Ramalho é um benjamim de 18 anos que se estreia este ano com um livro de poesia intitulado “Barba Por Fazer - Poesia Disforme”. A RevoltARTE , sentou-se com ele e por entre prosas e poemas pudemos conhecer um pouco melhor o escritor em ascensão. RevoltARTEOuvi dizer que começaste a escrever com 14 anos, o que é que leva um rapaz dessa idade a se interessar por poesia? Rui Ramalho É verdade. Acho que todos nós temos uma fase “crítica”, especialmente no auge da adolescência, que nos cria um certo impulso artístico. Aos 14 anos, para além de escrever, passava horas a tocar guitarra, a compor músicas, {s vezes desenhava… E a escrita foi ficando, ficando… Além disso, como pessoa, considero-me altamente perme|vel e transparente, e a escrita poética começou por ser um meio fant|stico para dominar uma personalidade em conflito. RA - Como foi a passagem do primeiro poema para vários num livro editado? RR - Acho que foi uma coisa, em primeiro lugar, muito natural. Comecei, como j| descrevi, sem grande compromisso, entretanto, aquela vontade e aquele gosto v~ose enraizando e deixando marcas. A criatividade e a maturidade começaram a crescer a olhos vistos e, dada uma certa altura, comecei a fazer uma triagem e a separar o joio do trigo. Foi aí que vi que podia ter potencial

RA - Hábitos de escrita que consideras essenciais? RR - Eu n~o acho que a escrita seja como a higiene, onde DEVE mesmo haver cuidados intensivos diariamente. Mas, fora de brincadeiras, é claro que é importante – isto para quem quer realmente levar a escrita como algo sério – haver um treino, ali|s como em todas as outras coisas. Só a pr|tica é que leva ao sucesso. Agora, n~o se pode dizer é que haja uma “dieta” rigorosa para chegar a determinado ponto. Cada um deve avaliar-se a si mesmo e, se assim entender, disciplinar-se mais ou, simplesmente, n~o se preocupar e continuar como est|. RA - Entendo que escreves tanto, poesia como prosa – o que é que te atrai mais em cada um deles? RR - Sim, para mim toda a escrita me fascina. S~o coisas muito distintas e quase impossíveis de conjugar, tanto que h|, e houve, grandes poetas que se fossem escrever um romance, provavelmente, nem se ouviria falar dele e vice-versa. Para a poesia, acho que é essencial uma grande dose de sensibilidade. Quando me refiro a sensibilidade, n~o me refiro meramente a uma quest~o emocional e afectiva. Longe disso. Uma sensibilidade para o trocadilho, para amontoar as palavras, para fazer com as letras alguma matem|tica, usar a propriedade comutativa desta, para a própria pontuaç~o (que fala muito acerca do poema), para a inovaç~o, por aí a fora… O que principalmente me atrai na poesia é a liberdade que ela me concede, o que no fundo é visível em toda a escrita mas, especialmente, na poesia.

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_entrevista Na prosa, o verdadeiro fascínio é a compatibilidade entre ambos os géneros. Para mim prosa é “tudo ao molho e fé em deus”. Uma vez que eu tenho uma espécie de síndrome da escrita (aquele que dificulta imenso a contenç~o do exagero, ou seja, só d| é vontade de acrescentar mais alguma coisa aqui e acol|), eu e a prosa podemos ser bons amigos porque nos completamos fantasticamente. RA - O que é que para ti faz a diferença entre um poema bom e um poema…menos bom? RR - Esta pergunta é daquelas que trazem uma dose de veneno camuflada. Se me permitem, mudaria o “bom” e o “mau” para “rico” e “pobre”. Como em todas as outras expressões de arte, é impossível encontrar uma definiç~o consensual e un}nime de belo (bom). Seguindo a etimologia que propus, é importante dizer que a riqueza do poema n~o tem a ver com o seu tamanho, nem com o “preço” das palavras que s~o usadas, nem com o facto de ter rima ou n~o. O poema tem que ter alma, n~o pode ser um campo vazio cheio de flores { volta, tem que ser uma flor com um campo vazio { volta, para ser plantado pelo leitor.

procurar perceber se realmente o est~o a fazer porque é mais forte do que vocês ou se porque vocês s~o mais fortes que isso. Sem dúvida que aconselho a segunda. É preciso ter uma enorme disponibilidade, n~o em termos de tempo, mas uma disponibilidade intelectual. O importante é desejar escrever e n~o deixar que seja um desejo ou “feeling” a conduzir { escrita. Depois, para aqueles que j| d~o passos mais largos e n~o se ficam pelo gatinhar, é indispens|vel perder o medo, a vergonha e a dúvida. A minha escassa experiência, ainda assim, diz-me que é bom que levemos o que é nosso aos outros porque, muito pouco provavelmente, ser~o os outros a vir ao que é nosso. Se querem publicar, insistam, procurem, sejam pró-activos e, a n~o ser que tenham muita sorte, preparem-se para trabalhar nas férias de ver~o e juntar uns trocos! EscreViver!

RA - Duas grandes influências e porquê? RR - Ao nível da poesia Fernando Pessoa e Alexandre O´neil, o primeiro por causa do bucolismo fabuloso, o outro por causa da aud|cia e do atrevimento. No campo da prosa, José Saramago, e nem é preciso dizer porquê: uma influência e um ídolo. RA - Conselhos para quem está a começar, para quem já começou e quer tentar editar, para quem já começou e tem medo de mostrar? RR - Primeiro que tudo, aconselho qualquer um a certificar-se que o acto de escrever lhe proporciona bem-estar e autonomia. Ou seja,

Texto jp&sl Entrevista s&l 43


_literatura

D

este dizem ser um ‘hino { mulher’, ao seu corpo, { sua magia. “A lua no teu umbigo” é a poesia que n~o consegue evitar ser escrita ou lida, depois do primeiro verso. Peguei-o por acaso e só nos separ|mos quando a loja fechou. Bom para ler e para ouvir, que só de ler e ouvir j| nos sentimos parte dessa magia e t~o enfeitiçados quanto o autor. S~o 128 p|ginas que devem ser lidas devagar (numa espécie de 5 por dia, nem sabe o bem que lhe fazia), e com cuidado para ser só amor e coisas bonitas e n~o lamechices desnecess|rias. Agarra-lo e lev|-lo a passear, assim que o sol aparecer outra vez.

A Lua no Teu Umbigo Autor: Alberto Riogrande Editora: Esfera do Caos Preço: 11,72€

P

orque ERA proibido usar biquíni, acender um isqueiro na rua sem licença, ir de míni-saia para o liceu, beber coca-cola, jogar {s cartas nos comboios, andar de bicicleta sem licença e beijinhos só “debaixo de telha”. Para esta última, conta o livro, a soluç~o foi f|cil: quem se atrevia andava com uma telha no bolso, e quando quisesse dar uns beijinhos punha a telha por cima da cabeça. Agora é bom rir disso. Felizmente. Um livro cómicosarc|stico que é bom ler, mais n~o seja para nos

Proibido Autor: António C. Santos Editora: Editora Guerra & Paz Preço: 17,16€

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_literatura

locais Dia 27 de Abril A poesia Portuguesa Hoje (Fnac Colombo às 18h30) Dia 2 de Maio A Poesia e Criatividade (Biblioteca-Museu República e Resistência)

Feira de Artesanato (com ban cas de livros em segunda m~o a 1€), junto à estação da Amadora

Feira do Livro, Parque Eduardo VII

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_literatura

Censura no estado novo (ou “os Comunistas comem crianças ao pequeno-almoço” porque sim) Porque falar de Literatura anos 70 pré-25 de Abril em Portugal é falar da falta dela, falemos do p~o-nosso de outros tempos: a Censura (também conhecida, mais “artisticamente”, por l|pis azul). Mas o que é isto da Censura? Um órg~o do regime? Um edifício para onde tudo o que era palavra seguia? Sim, mas n~o. Sendo tudo isto verdade, a Censura, para além do palp|vel, era o controlo e o juízo puro e duro. O cérebro. A fonte da juventude da Velha Senhora, o creme que n~o rejuvenesce, mas que vai tirando uma ruga aqui e ali. Voltando ao palp|vel ou material: o que “queimavam” os Torquemada portugueses? Tudo! Tudo? Nem tudo: bastava ser (melhor, parecer) contr|rio ao pensamento das cabeças da elite. Pensemos bem: o que têm em comum Althusser, René Andrieu, Boukharine, Karl Kautsky, Annie Kriegel, Lenine, Rosa Luxemburgo, Maiakovski, Ernest Mandel, Mao, Marx, Pietro Nenni, Alan Paton, Joan Robinson, Sartre, Estaline, Trotsky ou Peter Weiss? São todos estrangeiros! Mas estrangeiros distinguidos. Sim, sim. Porque todos estes foram revistos, revistados e expulsos. Sem direito a contradiç~o ou julgamento. Mas n~o s~o todos do mesmo pote. Mao desconfiava de Estaline e Marx nunca chegou a conhecer pessoalmente Rosa Luxemburgo. Uns foram mortos a mando dos seus aliados, outros nem puderam defender as suas teorias. Mas todos tiveram o mesmo fim: “CENSURADO!” E n~o foram só frases… Perguntem aos anciões que ainda c| andam quantos deles leram o “Manifesto Comunista” (livremente claro): nem o título!

E os escritores portugueses? Igual? N~o. Pior! Se os estrangeiros tinham a obra censurada e continuavam a viver (e vender) por outros lados, o mesmo n~o sucedia aos nossos compatriotas. Perseguições, arrestos, expulsões eram dos piores castigos. Mas ver a sua obra rasurada, rasgada e destruída também n~o era em nada um bom sentimento. O livro é a alma do poeta e ninguém gosta que lhe desarrumem a alma, muito menos pelos piores motivos. Exemplos? Dou-vos alguns: Manuel Alegre, Jorge Amado, Henrique de Barros, Sottomayor Cardia, Papiniano Carlos, Comiss~o Nacional de Socorro aos Presos Políticos, Orlando da Costa, Vergílio Ferreira, Tom|s da Fonseca, José Magalh~es Godinho, Soeiro Pereira Gomes, Manuel Teixeira-Gomes, Bento Gonçalves, Cunha Leal, Pacheco Pereira, Cardoso Pires, Alves Redol, Afonso Ribeiro, Aquilino Ribeiro, António de Almeida Santos, António José Saraiva, António Sérgio, Antunes da Silva, M|rio Soares, Castro Soromenho, Luandino Vieira, Salgado Zenha, Sousa Tavares, Jorge Sampaio, José Vasconcelos Abreu ou José Vera Jardim - fora os jornalistas, comentadores, colunistas que tantas vezes tentaram, sem sucesso, um lugar ao sol para as suas letras. E nem os sexólogos tinham liberdade de publicaç~o… (disparate pensar que n~o, haver| tema mais político que este?)

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_literatura Segurança dedicar um cuidado particular» [{ relaç~o de livros] «suspeitos – pornogr|ficos ou Preto no branco a situaç~o era esta: subversivos» e «impedir efectivamente a contestaç~o política, presos políticos, impress~o de textos susceptíveis de proibiç~o». colonialismo, conflitos externos, política económica, reforma agr|ria, história, religi~o, • [A PIDE-DGS estava encarregada de ideologia socialista, pobreza, condições de vida, assegurar] «o serviço de vigil}ncia de entrada no desigualdades sociais, moral e costumes, País de publicações pornogr|ficas e suspeitas» e emancipaç~o da mulher, erotismo e sexualidade «a visita regular {s livrarias de todo o País para eram temas tabu. A n~o ser que se arriscasse o sequestro de livros, revistas e cartazes suspeitos dificil mercado negro (e aí a PIDE – com as suas e para apreens~o dos que j| est~o proibidos». “brigadas especializadas” – era a dor de cabeça). Tudo em nome da «defesa dos bons Se existiam livros que passavam? Claro! costumes, da ordem social e da ordem pública». Nem tudo era pró-mudança. Existem sempre os Sim, sim… Mas n~o te esqueças que vives no fieis aos regimes (volunt|riamente ou n~o). Um século XXI. bom caso: o pasquim “Agora” onde variados intelectuais atacavam ferozmente a chamada «ala liberal» (corporizada, entre outros, por Pinto Leite, S| Carneiro ou Pinto Balsem~o) que, bem ou mal, era o mais próximo de defensores da democracia que existiam oficialmente. E se ainda tivesse existido quem caiu na fal|cia da «Primavera Marcelista», a partir de ínicios de 1970 as vozes descontentes começaram a juntar-se e explodiram. E felizmente para o lado certo. Portugal começou a sua travessia do deserto e, apesar de se ir olhando para tr|s com nostalgia de inf}ncia, nunca a vontade de regresso ao passado tomou forma. Ufa e ainda bem. Para o bem de todos, é bom que n~o mais se volte a compactuar com frases como esta: • «embora a censura não se aplicasse aos livros, estes podiam ser frequentemente retirados do mercado por ordem das autoridades. Neste caso, tanto autores como editores podiam estar sujeitos a castigo»; • «tendo-se verificado o aumento substancial de publicações que atentam contra a sociedade e a ordem e ofendem os bons costumes, dever| a Direcç~o Geral de

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_actualidade

Cassete geracional

A

opinião deste mês será apresentada em formato cassete, com um Lado A e um Lado B. Músicas diferentes mas que s~o farinhas do mesmo saco, |gua da mesma nascente, cordas da mesma guitarra e toda e qualquer demais analogia de que se recordem.

Lado A: Música à rasca Abril é mês de revoluç~o no nosso país e em 2011 é também o mês a seguir ao mês da geraç~o { rasca (a qual também parece que j| perdeu o tempo de antena). Diz-se por esse país fora que os Deolinda s~o a cara de uma geraç~o, que s~o o futuro da música da intervenç~o, que s~o os cabecilhas de um ajuntamento de gente inconformada que nem exerce o direito de voto. Pois bem, a mim parece-me que toda esta campanha é ridícula. E aqui, os menos culpados, s~o os elementos banda em quest~o, que se limitaram a fazer uma música sobre uma situaç~o. Os meios de comunicaç~o acharam piada e resolveram ent~o começar a cuspir todas estas barbaridades j| acima referidas. Pior, h| quem acredite nelas e pense que estamos perante uma banda que est| ou vai mudar alguma coisa. É só uma canç~o. Ultrapassem isso. É quase uma ofensa para temas que mudaram mesmo alguma coisa no mundo e que foram levados bandeira por gerações com uma vontade muito forte e desculpem-me os mais sensíveis, muita gente da nossa geraç~o n~o é assim.

Lado B: Geração sem interesses N~o gosto de generalizações. Portanto, este texto só ofender| quem eu pretendo “atingir”. Aos demais, que se demarcar~o dos estereótipos aqui apresentados, servir| também para aprender alguma coisa, mas n~o de forma t~o directa. Muito bem, começo ent~o por dizer que muitas vezes sinto que faço parte de uma geraç~o que n~o sabe e n~o se preocupa em saber, que n~o tem espírito crítico, que vai com o rebanho. N~o quer aqui dar a entender que sou algum supra-sumo de alguma coisa, n~o o sou, mas interesso-me, preocupo-me e o que vou dizer a seguir sobre os jovens e a música é passível de ser copiado para definir a relaç~o entre os jovens e a cultura ou os jovens e a política. “A malta papa tudo”, literalmente. E aqui n~o tem a ver com gostos, porque n~o vamos discuti -los, tem a ver simplesmente com o conservadorismo (sim, leram bem) que vai nas mentes juvenis, que n~o s~o abertas, n~o est~o dispostas a tudo e est~o sim de baterias apontadas para coisas feitas numa f|brica e que n~o lhes d~o as ferramentas necess|rias para tentar apreender mais do mundo do que somente o que lhes é mostrado. Gente, interessem-se, preocupem-se, tirem a areia dos olhos mas n~o sacudam a |gua do capote.

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_artigo

P.e.n. O passado, a liberdade e a escrita.

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pesar do organismo internacional ter nascido em 1921, com o objectivo de defender a liberdade de express~o no mundo e os escritores, o P.E.N. (abreviatura para Poets, Essayists and Novelists) apenas chegou, em força, a Portugal em 1974, com a Democracia ainda recém-nascida. Se é verdade que este j| existia n~o-oficialmente, também é verdade que só após v|rias tentativas é que o P.E.N. Português viu a luz do dia. N~o obstante, é longa e rica a actividade em que o P.E.N. esteve embrenhado na literatura nacional a partir dos anos 30. Prova disso s~o as muitas cartas que s~o facilmente encontradas e que mostram as conversações, os encontros, as ideias e os projectos. E os convites também, principalmente no que toca a entrevistas e a depoimentos. Convém n~o esquecer a Censura que imperava por estas bandas. Nem a 2ª Guerra Mundial, que funcionou como retardador da realizaç~o de muitas dessas iniciativas (e da sua saída do papel, por assim dizer). A Política é, sem surpresas, um dos temas mais abordados e os principais déspotas europeus (nomeadamente Salazar, Franco,

Mussolini e também Hitler) os alvos maiores. Um bom exemplo, presente em cartas do organismo internacional aos congéneres: «Os membros dos P.E.N. Clubs usar~o, em todas as circunst}ncias das influências que possam exercer, pessoalmente e através dos seus escritos, a favor da compreens~o e do respeito mútuo dos povos». Raz~o: a invas~o da Etiópia pelo exército de Mussolini. Em Portugal a história n~o diverge muito. Após a Guerra v|rios intelectuais juntam-se numa Comiss~o (primeiramente associada ao MUD e que mais tarde se torna independente) que tem como objectivo desenvolver uma intensa actividade de divulgaç~o cultural, a fim de «defender a cultura e o espírito democr|tico». Entre esses contam-se os nomes de Adolfo Casais Monteiro, Irene Lisboa ou ainda Jo~o Gaspar Simões. Começa a caminhada para um P.E.N. Português… O caminho? Demorado, lento, perigoso e cheio de retrocessos e avanços. Logo de imediato { criaç~o da Comiss~o, muitos desses intelectuais sugerem ao organismo internacional uma filial portuguesa. A ideia colhe bastante simpatia e o processo começa. Criam-se os estatutos, designam-se os primeiros membros e cria-se uma Comiss~o Executiva. Parece simples, mas n~o o foi. A censura era um osso duro de roer e, principalmente, de distrair, o que vai atrasando tudo o que é processo. Era o tempo do «orgulhosamente sós» e Portugal seguia na direcç~o contr|ria { do seu P.E.N… E quando este começa a aparecer como Centro de pleno

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_artigo Seguem-lhe desistências e constantes renovações das Comissões Executivas. A estabilidade deixa de existir. O clima político agudiza-se. Muitos membros chegam ent~o a uma triste conclus~o: «n~o dispõem das condições mínimas indispens|veis { existência de uma acç~o livre e fecunda». O projecto começa uma penosa e longa hibernaç~o de que só acordar| em 74. Até que chega esse dia, e com rostos diferentes (como os de Sophia de Mello Brayner, José Cardoso Pires e Eugénio de Andrade). N~o existindo agora o Regime para os impedir, o P.E.N. chega finalmente (e oficialmente) a Portugal no ano de 1978. Rapidamente se torna numa das mais reputadas associações liter|rias e de escritores, chegando a ter um papel importante em v|rios assuntos delicados, como o processo de independência de Timor-Leste (onde durante mais de dez anos foi prioridade da filial portuguesa em todas as reuniões), mas onde ainda se pode ver um papel dominante na criaç~o da Declaraç~o Universal

dos Direitos Linguísticos (onde Ana Hatherly, membro portuguesa, foi presidente). E apesar de muitos direitos terem sido conquistados e garantidos pelos europeus no que diz respeito { liberdade de express~o e consciência, em grande parte do mundo essa n~o é a regra mas sim a excepç~o e é aí que tanto o P.E.N. Português, como o Internacional têm os seus maiores projectos, com vista a um mundo n~o utópico mas real de liberdade e respeito. O P.E.N. ainda funciona hoje, ao mesmo g|s com que sempre funcionou. Apesar de falarmos todos sempre de papo cheio que a democracia conquistou o mundo, nem todo o mundo se sente j| conquistado pela democracia. Muitos escritores s~o ainda perseguidos ou ameaçados de morte (muitas vezes por alas do próprio governo) por descreverem aquilo que vêm. A p|gina escrita ainda é das armas mais poderosas que pode existir e é por isso que muitos têm medo dela. O P.E.N. aponta assim uma lista de escritores que, apesar de tudo, continuam a querer denunciar muita coisa de que nós n~o fazemos ideia. O P.E.N. aceita volunt|rios e pedidos de ajuda. É triste ver que afinal, este nosso século XXI n~o é assim t~o diferente de séculos anteriores quanto queríamos acreditar. A quest~o é, tomando consciência da realidade, qual ser| a nossa atitude?

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_actualidade

~ A educacao

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Recorda-se nesta ediç~o o dia que assinalou uma viragem histórica. O 25 de Abril, dia que assinala a queda de um regime ditatorial e a libertaç~o de um povo oprimido. A democracia vence, o Estado Social é aclamado, os ide|rios da Revoluç~o Francesa s~o resgatados do passado. Nas ruas ressoam gritos triunfantes, as vozes outrora contidas, clamam agora a liberdade. O Estado responde vigoroso { euforia dos homens livres, através da “providência” de v|rios serviços públicos, um dos quais a Educaç~o. Ora na lógica de uma democracia recentemente adquirida, o alargamento da oferta educativa mais do que incontorn|vel, assumia-se enquanto medida necess|ria face o “atraso” português, relativamente ao panorama internacional. O que n~o se previa era que tal medida viesse a integrar a lógica expansionista de um “modelo único” de ensino que estaria longe de servir o mero interesse pedagógico. Se “o essencial, na educaç~o (…) é o despertar”, o aumento significativo da oferta educativa pública, evidenciado a partir dos finais do século XIX, n~o seguia esta linha de conduta. A massificaç~o do ensino para além de potenciar a universalizaç~o da instruç~o, permitiu uma progressiva uniformizaç~o dos modelos educacionais que, através da aproximaç~o progressiva de concepções mundanas, reforçou amplamente a ideia de “superioridade” civilizacional. Ora tal superioridade implica a existência de um “outro” mundo que justifique tal posicionamento e, n~o raras as vezes, esse outro é tido como “inimigo”.

H| três décadas atr|s, o analfabetismo assombrava Portugal. Hoje é na própria educaç~o que paira a neblina. O véu ilusório da neutralidade é ténue, mas constitui um verdadeiro impedimento { clara percepç~o da subjugaç~o da liberdade do pensamento em prol de um regime tido como perfeito – a Democracia. Tomamos por garantido o seu alcance, esquecendo porventura o est|gio embrion|rio em que se encontra e, até, os mecanismos (“democr|ticos”?) que asseguram a sua continuidade. Foram criados os mecanismos necess|rios { propagaç~o de uma ideologia assente numa lógica que lembra os imperialismos do passado. A progressiva decadência das humanidades no ensino é consequência directa de tal lógica. O predomínio da economia, da gest~o, e das engenharias inform|ticas enquanto escolhas curriculares garantidoras de sucesso n~o é mero acaso impulsionado pela expans~o tecnológica. Parecemos esquecer com regular frequência uma liç~o histórica quanto ao progresso. A Idade das Luzes preconizava a ascens~o do Homem “iluminado” através do domínio da ciência, esquecendo a falta de domínio que este ainda tinha sobre si próprio. O resultado disso foi a superaç~o do Homem pela tecnologia. Sendo ainda hoje refém do gigante monstro virtual, que expõem ao ridículo qualquer ideia de convivência democr|tica. Queremos jovens mais criativos e din}micos, mas esquecemos de ensinar a música, a dança e a educaç~o visual, com o mesmo rigor com que se ensina a matem|tica e a física. Queremos um futuro brilhante para os jovens. Desejamos seres críticos e consequentes, mas desde a inf}ncia se estigmatiza o erro. Questionamos a liberdade, mas nunca a essência do ser livre.

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RevoltARTE Abril #2  

2ª Edição do Magazine Cultural AEISCSP, Abril 2011.

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