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#3 ano 2 junho de 2020 revista de literatura, do clรกssico ao vulgar.


revista uso,

pandemia de 2020


Produção Editorial Lidia Ganhito, Pedro Mirilli, Santiago Segundo e Thiago Mostazo Projeto Gráfico e Diagramação desenvolvido por Estúdio Pavio Bernardo Brasil e Lidia Ganhito Capa Fotografia de Julia Milward Folha de rosto Obra de Cau Silva Literatura Anderson Pimentel, Anielson Ribeiro, Arthur Moura Campos, Bruno Oliveira Fernandes, Caique Melo, Drump Goo, Edimilson de Almeida Pereira, Eduardo Ascenço Peralta, Fernando MDG, Gustavo Oliveira do Nascimento, Gustavo Rocha, Iago Lago, Ines Bhs, Irene Baltazar, Isabela Cordeiro Lopes, Julia Milward, Kaê Leopoldo, Luiza Romão, Natasha Magno, Pedro Vale e Zênite Astra Artes Visuais Ana Helena Lima, Ana Pompeo, Bruno Vital, Caroline Torkomian, Catarina Schiesari, Cau Silva, Hugo Bachiega, Julia Milward, Lidia Ganhito, Luana Carvalho, Manuela Dib, Maria Fernanda Lopes, Maria Rosalem, Natalie Mirêdia, noelodran, Sérgio Silva, Thalê Freitas, Rafaela Fiorini, Santiago Segundo, Sue Elie Andrade-Dé, Victor Alves, Victor Del Franco, Waldomiro Mugrelise Conselho Editorial e Curadoria Iago Lago, João Mostazo, Léo Daruma, Lidia Ganhito, Maria Rosalem, Natasha Magno, Pedro Mirilli e Santiago Segundo Revisão João Mostazo

revista uso, www.revistauso.com facebook.com/revistauso instagram: @revistauso revistauso@gmail.com


Editorial Aqui está um documento. Ilustrado por Waldomiro Mugrelise

Aqui está um documento. A linguagem formaliza a memória. Dependemos das memórias uns dos outros para criar linguagem. Esse conjunto de significados adquiridos, quando em rede, estruturam a sociedade. Rede que se dá no encontro de memórias e que se descobre vazia de sentidos na ausência desses encontros. Estamos interditados. Condenados apenas às próprias memórias que, enclausuradas em seus próprios artífices, apresentam sinais de falha. Memória sem USO. Nova linguagem, signo aflito. Se o que podemos lembrar era alguma coisa ontem, amanhã não passará de um hoje carcomido. Miséria de livro sem páginas. Janelas costumavam representar a ambiguidade do ir e vir, da lúdica importância de compreensão da liberdade. Em si mesmo, o gesto fútil de abrir e fechar se torna a corpulenta objeção à` anteriormente citada, inepta, liberdade. Movimento mais lógico: resignação. A insensatez do momento navega em águas desconhecidas. A história em seus processos sempre nos confundiu. Uma batalha de narrativas que nunca escutou o cessar fogo. Vivemos na constante ameaça de que uma palavra inicie um banho de sangue. Mas, e se o sangue que for derramado for do mesmo vermelho das veias? Não pensemos em sangues de outra cor, mas sim num abismo furta-cor que a cada um espanta onde cada um se planta. A literatura é meio de desbravar o outro e todas as fronteiras dentro de si. Existe uma responsabilidade inerente a essa arte, comumente representada como uma responsabilidade solitária, ou até mesmo, particular e egoísta. Não. É na especificidade dessa solidão que também se gera uma relação coletiva. A submissão ao exercício das memórias afetivas, fronteiriças e do outro é o cruel e necessário combate a uma noção de vida em que impera a busca por uma saída – ela sim, particular.


O gato de Kafka responde às inquietações do rato: “Você apenas precisava alterar a direção da corrida”. Depois o engole, conforme sua natureza. O gato é juiz, mas também é carrasco, e o jugo do aparato humano pela liberdade é de que ela se resume a um extenso mecanismo para buscar salvações pessoais. A Literatura não somente analisa tais miasmas de nossa condição, como é ferramenta de combate. O exercício da angústia é um exercício de humanidade, e através dele encontraremos terra fértil. A escrita: ato contemplativo que apresenta função metafórica com o mundo, como lembra Baudelaire: “A imaginação é a mais científica das faculdades, porque apenas ela pode compreender a analogia universal”. No clamor de uma contemplação bífida, exterior e interior, as artes visuais encontram, senão o maior, um poderoso mecanismo. O artesão funde forças e naturezas descompassadas e ali encontra a paciência. Trata-se, então, de um garimpo. Esse exercício consiste em manejar a desproporção entre a leveza e o horror. É um labor da contradição. O artesão dá forma à memória de um urro pessoal, um urro de ódio e justiça, que verte nos detalhes ao seu oposto. A ressignificação da imagem é vetor de uma nova composição dos afetos e das lembranças. Antonin Artaud, ao escrever o poema-ensaio “Van Gogh, o suicidado da sociedade”, solidifica esse exercício artístico da contradição como intento máximo do registro e da memória: “seus girassóis de ouro brônzeo estão pintados; estão pintados como girassóis e nada mais, mas para entender um girassol ao natural, é preciso agora voltar a Van Gogh”. É no caminho do encontro que essa edição pertence. Uma reunião de memórias colhidas antes da pandemia e ressignificadas após o início do isolamento. O processo de adaptação dessa edição diante das obras serviu-se do diálogo da distância não como causa, mas como efeito. Para suprir de forma orgânica a potência desses encontros no produto final. Arte é corpo. Páginas que podem inspirar algo nesses tempos sufocantes. Lançamento digital e impessoal, resposta aos tempos em que o papel e o tato estão inviabilizados. Hoje somos os inimigos do espaço e do tempo. Sentimos saudades de não saber o que somos. Corroboramos com o fracasso da história. Sísifo tem sorte. A pedra que nos foi destinada ainda não parou barranco abaixo. USO o que posso usar, dou-lhe um nome e na fraqueza de minha humanidade acredito que ainda somos jovens. Louvemos a escrita, processo de interlocução a distância. Chance de reescrever. De apagar de novo. De tecer a linha no papel. Resta o USO do medo como perda do medo.


Editorial6 Aqui está um documento. Ilustrado por Waldomiro Mugrelise

Caçadores de Borboletas

11

Texto por Edimilson de Almeida Pereira Ilustração por Maria Fernanda Lopes

Um conto, seu escritor; e uma canção

15

Texto por Iago Lago Ilustração por Catarina Schiesari

A única resposta para a absoluta falta de resposta20 Texto por Ines Bhs Ilustração por Lídia Ganhito

Tumulto23 Texto por Anielson Ribeiro Ilustração por Manuela Dib

Poema para vomitar

27

Texto por Bruno Oliveira Fernandes Ilustração por Hugo Bachiega

Azul instantâneo

29

Texto por Pedro Vale Ilustração por Lídia Ganhito

Os quase temporários

33

Texto por Irene Baltazar Ilustração por Maria Rosalem

Até onde nossa vontade pode agir sobre o movimento?37 Texto por Julia Milward Ilustração por Julia Milward

f(x)39 Texto por Anderson Pimentel Ilustração por Caroline Torkomian

Rocha41 Texto por Gustavo Rocha Ilustração por Thalê Freitas

Ancient Curses(Antigas maldições) Texto por Eduardo Ascenço Peralta Tradução de João Mostazo Ilustração por Ana Pompeo revista uso, #3

52


O meu nome quer dizer verdade

57

Texto por Zênite Astra Ilustração por Noelodram A

Poemas Pirata

61

Texto por Luiza Romão Ilustração Sérgio Silva

Sua poesia é ruim e você culpa as notícias

64

Texto por Natasha Magno Ilustração por Ana Helena Lima

Feitas, em transporte público

67

Texto por Kaê Leopoldo Ilustração por Bruno Vital

Não inventamos um jogo novo

71

Texto por Isabela Cordeiro Lopes Ilustração por Natalie Mirêdia

Das formas que o silêncio tem

75

Texto por Gustavo Oliveira do Nascimento Ilustração por Rafaela Fiorini

Move-se em imóveis subsolos

77

Texto por Arthur Moura Campos Ilustração por Luana Carvalho

Disarcanos78 Poesia visual por Victor del Franco

Os dias

81

Texto por Fernando MDG Ilustração por Ana Pompeo

Coletânea83 Texto por Caique Melo Ilustração por Sue Elie Andrade-Dé

D / 23022020 / 20:40 

87

Texto por Drump Goo Ilustração por Victor Alves

Autocrítica95 Ilustração por Santiago Segundo

Manifesto Gráfico

98


revista uso, #3


Caçadores de Borboletas Texto por Edimilson de Almeida Pereira Ilustração por Maria Fernanda Lopes Este poema foi extraído do livro homeless (Belo Horizonte, Mazza Edições, 2010), foi gentilmente cedido pelo autor especialmente para esta edição.

: dois

o que avança obedece às normas

prestes a rolar da conversa ao sono

embora a cabeça mire direção

: dos que estão em pé, apenas um

contrária ao previsto

ameaça cumprir seu ofício : dois, outros será uma pausa

sustentam-se na ferramenta

para adiar a selva?

seu braço

desejo de estirar o corpo

mais longo

em outra fenda?

e estranho

um silvo assalta a cabeça

tudo elegante nessa imagem

não há, porém,

branco

gesto

sépia

que o denuncie

esguia como se nenhum estertor cariasse

são testemunhas os que não

a amizade

viram e os que virão

a selva, porém a esse dia

a esse lugar

não se oferece como um passeio de sábado

em que a natura cedeu à ironia deu-se para não

sua calma

se dar a fábrica nenhuma

(e a dos homens na sesta) é repouso depois da sangria

apesar da rede e do reino

ou preparação

bichos visitam as rendas, além

da intempérie?

da pele noturna

líquens vigiam fetos

em meio a lupas e alfinetes

que vivem

se insinuam insetos

de sua altura

prêmio

e garantia de que o mundo

*

tem a medida das mãos outra forma, no entanto que não se decide rói a paisagem, desde o início * 10 | 11


adoeceu o guia

ou as veredas

é que levam a todos e a nenhum

destino?

de certo, apenas

a inutilidade dos mapas

saltou de um nada

e o desafio de apreender

antes que as bestas

num rastro

dessem conta

o continente

se fizeram resto

: em que fenda se aventura

a iara?

entre grumos

de farinha e sal

em que língua xangô

como é possível este

se ofende?

assalto?

o caderno registra

em presteza não perde

o que se descobre

para um cálculo

geométrico

incapturável

quem porá o ouvido

nessa quimera?

de fato, reinventa

a matemática

pelos ossos

quem se dará à rota

caapora?

ou lerá ossaim

saltou ou fizemos saltar

na mata?

essa indagação

que nos devora?

helá, bach

curumim cerzindo o latim

*

a lógica que o viajante transporta

se desnuda

em compasso mélangé

revista uso, #3

*


: dois + dois por sua conta

(ainda que não pareça)

um regato na treva

: dois

Quase Irmãos & Filhos

no comércio do acaso

nossa, de ninguém

uma bebida-rumo

quase

uma Empresa Sem a Vontade

nosso, de ninguém

remoendo à faca

erram ao saquear

nosso, de ninguém

tirada ao inimigo nosso, de ninguém

Ltda.

quase

: dois x dois – sua calma

(e a da floresta) é repouso

depois da sangria

ou preparação da intempérie?

sócios a catar moscas

: dois e dois em contabilidade

incerta

e ainda assim exposta

para dentro da imagem

nos ombros

se enovelam os caçadores –

na aparência,

contratá-los só para serviços

obedientes à cia. razão

de apuração fugaz

ao preço que em moeda

não se mede

capital & fraude

porém, aos rés do trópico

no que não dizem

: dois e dois companhia

(fingida inércia)

(não company)

movem a teia-pensante

ilimitada contra os azares

e czares

: como alcançá-los

na vertigem

alugados para caçar borboletas

que salta os meridianos?

absorvem a ciência

do mato

prestes a rolar do sono à carne

– sus quehaceres

de dois em pois

*

Sugestão de consulta de imagem para referência: lápis e aguada sépia sobre papel, 1825-1826. Autor: Charles Landseer. In: MARTINS, Carlos (org.). Revelando um acervo. São Paulo: Bei Comunicação, Coleção Brasiliana, 2000, p. 6

sem cor nem corte

os borboletas caçoadores: sua

inércia não rende a floresta

rende-se à dúvida

sobre o museu a coleção o clã

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revista uso, #3


Um conto, seu escritor; e uma canção Texto por Iago Lago Ilustração por Catarina Schiesari

“- morreu, dona íris, seu filho! mataram seu filho...!

dona íris olhou bem pra mocinha desesperada que lhe veio avisar. ergueu-se sem

dificuldade, despeitosa da idade que já tinha em tanta, e iniciou caminhar. a mocinha quis explicar, seguindo, aos berros e às lágrimas e babas: umas coisas sobre a polícia, sobre um livro que seu filho carregava debaixo da camisa pra proteger da garoa, e sabe-se lá o quê. dona íris quis mais caminhar que ouvir. pensou, mas, que não tinha percebido que estava garoando.

chegou na casa onde ia e bateu duas vezes. não esperou muito, que a senhora que

morava ali já vinha abrir a porta antes de ouvir os toques: reconhecia ao longe a passada tormentosa de sua comadre. mal aberta a porta, dona íris disse: - comadre, outra vez.

- entra, minha amiga, e senta.

a comadre encheu de água a leiteira e acendeu uma das bocas do fogão. fizeram silêncio por muito tempo.

a comadre olhava praquela companheira sua de tanto e lembrava mui facilmente

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dela bem nova, roupas largas, lavando brancos lençóis no córrego que àquela época inda era limpo de haver camarõezinhos. uns olhos pequenos, naquela mocinha, que olhavam com muita atenção o que as mãos faziam. e aqueles pés enormes que sempre teve! há quantos anos desta imagem? comadre não sabia, e nem íris saberia. a vida corre lenta-e-longe, comadre pensava sempre assim; e que o tempo toma grande fôlego e vem, sem olhar pra trás nenhum (mas sem chegar, também). e toda coisa tão igual a toda outra! comadre olhava íris agora, ali, e aqueles olhinhos dela, brilhantes e insistentes, mirando no chão algo que não se fazia presente; e a comadre olhava seu cabelo, que era o mesmo, embora penteado doutros jeitos; e olhava suas mãos, agora ali uma cruzada com a outra em gesto delicado: as mesmas mãos de sempre, a não ser algumas manchinhas que se-lhe desenhavam nova constelação; e a comadre olhava a boca grave de íris, que quando raro abria era pra falar bem baixinho; e olhava os pés de íris, muito grandes.

dona íris o tempo todo olhava o nada e não murmurava nenhum som.

percebendo a água ferver, comadre montou o filtro sobre o bule, pôs pó de café no filtro, pôs açúcar no pó de café, e com movimentos circulares foi passando a água. serviu e tomaram as duas, e viram o entardecer crescer e envelhecer em noite. assim que se percebeu que a lua crescente brilhava amarela, ao horizonte, dona íris perguntou, quase num sussurro e não sem alguma cautela: - comadre, a senhora… me diga, estou tão cansada... a senhora... acha que devo fazer outro? - ora, minha comadre, outro filho? - claro, comadre, outro filho. - ora, íris!... e a senhora tem escolha? (...)”

revista uso, #3


era a oitava vez que relia e, insatisfeito, reescrevia o conto do zero. come-

çava a se sentir à semelhança de joseph grand, aquele personagem d’a peste do camus que reescrevia várias vezes a primeira frase de seu romance; e reescrevia com minúsculas alterações; e aí se orgulhava; mas no outro dia relia e iniciava repetir o ciclo: sempre sem sair da primeira frase. frase, uma, que concentra, em toda versão sua, movimento e imagens de um lirismo desacorde com a tragédia do fedor de morte que trouxe o flagelo. é joseph grand, ele vai se lembrando, que ao longo do romance cresce, vai se vestindo de cores de herói conforme a peste avança: este mesmo joseph grand é quem apresenta os maiores gestos de resistência. não!, ele não tem nada que ver com joseph grand: pois ele não tem a coragem de ficar na primeira frase: ele começa seu conto de qualquer jeito e segue escrevendo como quem está correndo desequilibrado e em vez de cair logo prefere continuar correndo - só pra cair depois, mais feio. arte exigente, esta, a da escrita, ele pensa: que qualquer ideia, sendo cliché ou kitsch, pode o escritor, com diligentes dons de artesão, transformar em coisa de profundeza ou de agradável paladar; mas ideias astutíssimas sem cuidado e calma e respeito podem ser, na língua, chiclé de tutti frutti, destes que ninguém compra; destes que o caixa dá quando não tem troco.

pois bem: a ideia se-lhe veio nesta forma simples: um menino (pobre;

negro, nem precisará dizer) é morto pela polícia, como tantos são (ele crê que o absurdo está à solta!), por uma confusão: é que o menino carregava um livro debaixo da camiseta, pra não molhar, e a polícia errou pra mais, achando que era revólver. sabia dos riscos de contar uma história tão verossímil, com tema tão delicado. escolheu prosseguir, todavia, como sorte de desafio para praticar escrever.

entre cada tentativa ia pensando em coisas novas. iniciou lembrando que

quem resta, de quem morre jovem, é normalmente a mãe (lembrou de deus e de maria, arquétipos plausíveis do pai e da mãe, no poema da anna akhmátova: “o fogo, na abóbada celeste, se alastra. / o coro dos arcanjos glorifica o grande fim. / ele diz ao pai: ‘por que me abandonaste?’ / e à mãe: ‘oh, não chores por mim…’”). à ideia se-lhe acrescentaram outras ideias: a de que esta mãe deste filho que

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morre assassinado pelo estado está mais exausta do que capaz de desesperos; e que este não é seu primeiro filho que morre - e sabe-se lá quantos, antes dele; e que existe uma obrigação desta mãe, dada, incontestável, de que siga, persista em sua função de reprodutora (reprodução, ele pensou, palavra ótima!, nas suas várias potencialidades); e foi querendo que o leitor, lendo, vá se esquecendo que morreu um filho de uma mulher, e por um engano tão inconcebível quanto cotidiano; e foi considerando algumas imagenzinhas, como a leiteira, objeto que sustenta em si o nome da nutrição maternal por essência, sendo usada para ferver água; e quis que houvesse, por enquanto, um primeiro e único pensamento da protagonista à mostra: o de que ela não reparou que estava chovendo...

nesta última reescrita do conto, pensando escreveu assim em seu diário

de escrita: “saído do zero, o árduo é o contrário de ter ideias: o árduo é curá-las, isto seja, fazer delas a curadoria (e, vá, curar delas seus excessos - estéticos e éticos). a obviedade é inimiga da boa literatura, óbvio - e a metáfora mais fácil é a mais eficaz: pediríamos, em restaurante, comida já mastigada? ao escrever é preciso ir sabendo, no enredo e na linguagem - correndo o risco de ir ficando muito insatisfeito -, o que nutrir e, principalmente, de quê abdicar.

o tema deste conto, infraestrutural, é a banalização do absurdo. eu que-

ria, juro que queria, queria mais que quero qualquer coisa, poder falar essencialmente de belezinhas, de singelezas, de cores, de cheiros. queria ser joseph grand! e dizer de uma amazona, de uma uma égua, do bois de boulogne… talvez

revista uso, #3


conquiste, ainda nesta vida, cínica ou heroicamente, poder justamente isto. entanto que sou jovem e tenho, sob uma minha crosta de niilismo e pragmatismo (paradoxalmente, uma mistura nada paradoxal), muito idealismo! acredito só com a pele, no amargo, que o mundo não tenha conserto; na carne, no âmago, gosto de pensar que a palavra certa, o jeito certo de dizê-la, vai desatar o górdio do nó do caos. voltemos: o tema infraestrutural é este porque este é um problema atualíssimo, o da impermeabilidade nossa ao trágico, dada a insistência do trágico. não acho que o mundo esteja pior, exatamente, do que já esteve; porém com certeza nosso sentimento de mundo vem estando lastimavelmente muito ruim: é muita câmera, muita tela, é muita gente, muito herói, muito inimigo - é muito tudo, sendo que continuamos tendo não mais que duas mãos, e a quantidade média de dedos nelas duas não passa nunca de dez. se o argumento ainda não está bom, faça a experiência: diga a seu filho pequeno: ‘filho, tenho dez reais e vou te dar cinco reais’; ao outro, irmão gêmeo deste primeiro filho pequeno, diga: ‘outro-filho, tenho dez milhões de reais e vou te dar cinco reais’; e compare a angústia do último à alegria do primeiro. voltemos mais uma vez: o tema, merecedor de que a mensagem se transmita, requer que se apresente pouco óbvio e não tão sutilmente: o equilíbrio é que garantirá sua potência; requer que efeitos emocionais sejam causados: pois só assim o indivíduo se permeabiliza e a literatura se faz eficaz; requer que mostre unidade, sob as regras da verossimilhança e da necessidade, ainda que no fantástico de que faça uso - ou seja, que neste universo criado, os personagens e os eventos sejam consistentes: o fantástico é também um caminho para a incontestabilidade: pois (...)” paramos de espiar o diário dele e prestar atenção em seus pensamentos de escritor em crise porque ouvimos, na casa do vizinho, uma canção começar, cantada por uma mulher cujo nome não sabemos e cujo timbre de voz nunca ouvimos. a canção nos encantou de pronto. só em voz e violão, a melodia tinha movimentos passionais, de notas longas e altas, mas momentos de muito dinamismo e muita potência grave. uma pena que o escritor não pudesse ouvir, ali donde estava, e tão absorto que estava… cantava assim:

quando eu morrer, mãe bota fogo no meu corpo e chora quando eu morrer veste o vestido que você adora quando eu morrer, mãe come um tacho todo de geleia de amora quando eu morrer compra três fogos de artifício e estoura (...)

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A única resposta para a absoluta falta de resposta Texto por Ines Bhs Ilustração por Lídia Ganhito

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Poema paralisado na ponta da faca colocarei sua bochecha. sentirá, entre inspirações dificultosas como se a mais fina lâmina de erva-cidreira lhe fizesse carinho. que dá também um bom chá, mas só se colhida com destreza e certa paciência. é uma avaliação de paciência ter que esperar que o tempo passe, para poder enfiar a ponta desta faca em você, fazendo de ti um mero picadinho de mandíbulas. É nisso que eu penso também quando tiro a pele do grão-de-bico, um-por-um e minha vontade é morrer e te matar.

Biscoito da sorte Foram tantos os seus tristes fins: - atropelado por um caminhão de contêineres cheio de patinetes amarelos, - tocado pelo espinho de uma flor de apartamento, - envenenado pelo vinho que foi um presente de um presidente, - engasgado com as pequenas peças do tabuleiro do seu filho, - atingido pela diarreia de um pássaro vistoso e nativo, - mutilado por uma bala dentro do seu olho que fez dele uma flor desabrochando, - soterrado por uma pilha de propriedades de outros moradores ansiosos, ainda que você não morasse no primeiro andar, ou nem mesmo em um prédio. Todos os dias vamos inventar novos finais, não adianta, não adianta tentar, tudo vai te matar.

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Tumulto Texto por Anielson Ribeiro Ilustração por Manuela Dib

é inútil qualquer verso agora pois nem mesmo vinte poemas e uma canção de amor desesperada equivaleriam às pequenas rugas que surgem quando você sorri mas sento e me esforço em vão como qualquer um na vida mesmo distantes agora seus olhos pairam sobre mim do teu desmaio intoxicado ao teu telefonema de tua cama de hospital há algo nas tardes do sertão nordestino no seu vento quente do norte que sussurra a saudade de um tempo imemorável que não nos deixaram viver nesta manhã de outubro no Barro Alto estão jogando terra sobre o caixão da minha tia e a família deve estar derramando

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suas últimas lágrimas reservadas junto ao pedaço de chão onde Manoel e Dora cresceram

onde eu morreria eternamente

onde meus olhos resistem sem fôlego

onde os pássaros caem mortos

e os porcos comem

onde deixei minha avó sozinha em sua segunda xícara de chá no quarto sem sua filha sem seus netos sem seus nervos já desintegrados

enterrar mais uma filha ô meu Deus minha Dircinha minha Dircinha ô meu Deus minha Dircinha segura firme minhas mãos enrugadas não solta não não solta a enfermeira tenta operar o tumulto checa a pressão de todo mundo e diz não não chá de maracujá demais é ruim pro fígado

minha irmã com pressão baixa

minha mãe com hipertensão

minha madrinha desmaiada no outro quarto

enquanto a tarde passa sem história somente há essa decisão entre quem eu amo intensa & lentamente e quem eu corro para amar antes de esmaecer na memória mas eis-nos aqui persistindo por todas essas horas sob a luz branca do hospital com nossos corpos arquejados apoiados um no outro sobre um leito silencioso de tranquilidade injetada em suas veias guiando substância até as pálpebras estou mirando para cima através da janela

um céu sem nuvens

com os fios elétricos cortando o horizonte alaranjado enquanto as parabólicas agora estão em outra sintonia & os postes permanecem apagados esperando seus olhos se abrirem para redimirem toda a criação

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revista uso, #3


Poema para vomitar Texto por Bruno Oliveira Fernandes Ilustração por Hugo Bachiega

De bronze, grande, pesado como um sino, mas menos que minha sina, aquele cinzeiro, o depositório das angústias. O garfo corta o ovo frito Gordura excessiva, gema mole escorrem Maço inteiro vinte cigarros queimados e apagados ali no meu prato de bronze menos pesado que minha sina. Caldo espesso de vida real

sobre o pedaço de carne língua,

frio

entre meus dentes

escorrendo

amarelo-cinzentos,

daqueles pedaços borrachudos.

regadas, a cada garfada,

Clara, gema, gordura e cinzas

por uma golada

Substantivos,

de batida de pêssego

substâncias reviradas,

vagabunda.

salivadas

E rio de ti. Eu sempre quis ser a nódoa de lama de que fala o Bandeira, manchando a brancura exemplar da tua vida virtuosa virtual com a sujeira real da vida, tinta dos bons versos.

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revista uso, #3


Azul instantâneo Texto por Pedro Vale Ilustração por Lídia Ganhito

I É preciso viver sem paixões. Mergulhar no absoluto anonimato, Permanecer morto ou vivo até ao fim. Aclamar o tumulto escuro e bruto. Encenar o drama clemente e lento. Sentir um amor ideal por anjos nebulosos. Descobrir um novo fundo de poesia e aguardar

Porto

uma voz que nos ordene docilmente: - Não te movas, nem te inquietes,

Porto

nem traias o que

A poesia vai

ainda não

Pela rua,

és.

Nua. Esconde-se Nas manhãs mais Frias. E é à noite que lhe foge A voz. Lenta E lenta, Lentamente, Até Desembainhar Na F O Z

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Luz(a) alma

IV

Luz(a) alma

Hoje acordei com uma andorinha

Sossega e vive do ar

no estômago.

A cómoda alma, armário espacial.

A noite era de tempo limpo e sono.

Plana e cisma a esmola pintada

Sabia a quebra milenar, cabelo solto.

Na rua nua e perfumada.

Nenhuma angústia, lei, mato ou

Sonha a universal fundação, À beira-rio, navio-fantasma e fruição. Entoa, na guitarra infantil, dramática gente,

víscera defronte. O prédio seguia o seu curso normal de vida, espécie de abrigo impune.

Num acorde simples, medieval.

Gineceu.

- Ó alma lusa,

Observava sem capacidade estrelada o

Acorda e sente,

céu, quando a miúda astronomia me

Mesmo que à tangente,

Espantou a inocência.

O que é ser filha de Portugal.

A circular impressão se revelara. Tal como no meu estômago, assim uma via-andorinha, se alongava, qual fita emprestada, distraidamente, no ar.

revista uso, #3


V

VI

VII

No

Cisma

Beber tanto azul

Silêncio

Em mim um

Até limpar

De ouro da

Conceito,

A neurose.

Ponta do pargo,

Quase uma

Por um fio não

Ordem estabelecida.

Desci para a

- o desejo.

Gruta ida

Quanto

De t

Menos o

I Pratico, Mais se manifesta e me surpreende por excitante e novo. Glicínias.

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revista uso, #3


Os quase temporários Texto por Irene Baltazar Ilustração por Maria Rosalem

chegando à beira formaram-se os grupos, nem antes disso: depois havia o abismo. os que voavam, os que andavam, os que nadavam fundo – que logo desceram, mergulharam. no fundo do abismo há sempre o rio, há sempre água. os que voavam subiram e foram, que atravessar é melhor por cima do que por entre – onde não há, o que é buraco. os que andavam se abraçaram e sentaram, decidiram construir uma cidade. até ali era deles até depois o limite. à esquerda havia um bosque onde moravam certos animais, se peçonhentos se carismáticos ainda não sabemos, saberemos? na banda direita estavam as pedras que iam e subiam ali mesmo, logo à frente. morros intransponíveis. como os que nadavam sabiam da água? o vazio era escuro o vazio. no fundo há sempre um rio? para trás estava o claro, o deserto morno e didático – nem frio nem quente - de onde vinham os que andavam, os que sofriam. no caminho, as mortes, e era um rastro seco a cor da morte. o mistério ébrio e sóbrio, fruto impreciso e não sabemos se amargo ou doce. ali o corpo todo, estendido, estirado. os braços que outrora eram movimento lento e esparso, mas movimento. um segundo um milésimo e se viu já foi. os que voavam prometeram notícias, os que nadavam não quiseram nem saber. os que andavam ficaram ficando: a cidade. queriam breve a cidade, ou melhor, a vila, ou melhor, a aldeia. até construírem a ponte e transpassarem o abismo. foram misérias os dias. comida não havia nem pra trás nem pra um lado, o da montanha. para o outro havia o bosque, quase floresta. uns umas foram atrás, logo nas quintas manhãs – o vento certo, o clima exato. sondaram, sondaram. cheiraram o ar, fungaram. uns umas se olhavam entre si, se perguntavam: e ali, o que há? as árvores densas ocas densas, e se via não se via o meio, por entre. os troncos lado a lado, como que se embrenhando em diferentes frascos, formas. o sol estava alto – o tempo. não podiam temer nem nada, era o mistério e só mistério. uma vez dentro uma vez fora, só que diferente: o já conhecido. é certo? não entraram. colheram plantas, fungos, frutas caídas na relva. no dia propício juraram retorno. tiveram medo? uma que disse, é melhor esperar, os que voam vem voltando e vão nos proteger. sabe-se lá o que há, sabe-se lá o que houve.

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voltaram à vila quase em bando completo. ficaram dois, o casal de enamorados, namorados. deixaram o escuro bem escuro, a lua nova lua. e mesmo chegaram a dormir, relaxados-se-é-que-me-entende. temiam os perigos? nem chegaram a. não deu tempo. eram retas, linhas curvas e retas que saíam se erguiam do chão, aos poucos aos muitos esforços isso sim, como sombras quadradas, espíritos. num reluz tomaram os corpos, ambos os. e que na aldeia deram falta e discutiam solução: retornavam logo assim, no escuro escuro mesmo? a chefe decidiu decidido. os mais corajosos as mais sem temor que procurassem. se entreolharam, escolheram. honra não era honra, dever: os que ficaram, namorados enamorados, sofressem punição exemplar no tempo exato do retorno. o que desconhecido era, desconhecido ficou. saíram uns umas num bando ainda menor, reduzido. as caras as faces verdes do medo. bem que quiseram, mas não lograram: culpa da lua não lua? a que é nova, que é escura. a noite alta noite. preocuparam-se? sim, como não. mas retornaram. e que dormiram também, exaustos exaustas. o ainda viria, se redizeram. e não é que veio? logo na manhã mais próxima. a criança que avistou primeiro gritou a dar notícia, no que tudo estava bem. o horizonte longe não mentia, mentia? ambos os, e de mãos dadas. as mães vieram aos prantos e choravam e elevavam os dedos aos céus: os braços bem esticados, os ombros descontraídos. num piscar, a multidão no entorno, à espera do esporro. as crianças correndo e brincando. qual surpresa: na exata distância de se ouvir a voz sem muito esforço, os dois pararam em silêncio. a chefe observou, à frente do povo. o susto suspenso no ar. nenhum quase barulho, as crianças também pararam, as mães com cara de sem entender. num tom brando, os dois abriram a boca e cantaram. aaaaaaãããã aaaaaaaãããã iiiiiiiiiiiiiííííí iiiiiiiiiiiiiiíííí oooooooooôôôôooooo

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oooaaaaiiiiiááá

aaaaaaaãããã aaaaaaaãããã. a chefe fez que, e riu. as crianças

e as velhas foram tomadas pela dança e os corpos soltos corpos se desjuntavam num ritmo tranquilo. foi homem quase homem que bateu a primeira palma. eco e como eco, ecoou. se seguiu o esperado, e todas as mãos começaram. menos a chefe, não fez que, de pirraça. era estranho estranha a margem, o ocorrido. e que dançavam, todos as. os sons ons sons subiam e desciam: ampliavam. o espaço curto, no piscar iscar dos olhos. assim também o fim, o silêncio. ambos os, os lábios encostados um no outro, cerrados. as que dançavam, prostradas no chão, os que palmavam, deitados de bruços. a chefe não, a chefe sim. permaneceu, aguentou. ergueu a cabeça virou pra frente falou bem alto, que saiam e não retornem que fujam e não se encontrem que percam e não se achem. e saíram e fugiram e perderam: eram retas, linhas curvas e retas que se erguiam dos corpos, ambos os, aos poucos aos muitos esforços. no imediato após, cavaram: sumiram no breu da terra. do próprio céu a boa nova, os que voavam voltaram voando, e os alimentos entre os pés patas pés. avisaram, avistaram o oásis, no ali além mesmo. a travessia, ia aos poucos – primeiro as velhas velhos primeiro as crianças. a chefe pediu que costurassem um grande lenço, os que voavam segurando as pontas. e assim fizeram. no sexto dia terminaram as vezes, e já continuavam a marcha no outro lado do fundo. e que ficaram, ambos os. sossego sossegado, o resto é o resto. as árvores estavam os bichos as flores também. a que lugar se ir, insatisfeito? esqueceram. ficaram ficando, sentados deitados. o céu divino céu, azul turquesa. e o porvir era o já visto, o não-falado. e nus nunca se perceberam, nem no claro nem no turvo. no sussurro anterior à noite que encontraram: então o ali o aqui o agora era isso e nada mais, o justo pendor do tempo na superfície da vida. a terra imemorável – o último paraíso.

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Até onde nossa vontade pode agir sobre o movimento? Texto por Julia Milward Ilustração por Julia Milward

Um junto de palavras Reforma o relance de um seio cansado Exposto na desfiguração da queda. O fragmento pendente de um corpo Passado Imêmore Obumbrado

nas nuances pardacentas do pavimento comum.

O rosto embaciado Dentro de um elevado móvel Inscreve em traços obscuros A cena mal vista Fingindo uma dor

oferecida em vocábulos

numa poesia atônita construída para edifícios.

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f(x) Texto por Anderson Pimentel Ilustração por Caroline Torkomian

o pivete era uma incógnita formava com os outros um sistema linear na função não tinha limite sabia de outra balística mesmo fora da reta uma 32 mm o encontrou não sabia de onde derivava caiu imóvel num quadrado perfeito.

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Rocha Texto por Gustavo Rocha Ilustração por Thalê Freitas

I. ROCHA ARCAICA – EXPOSIÇÃO 1. “... Os horror movies dos anos 80 começam portanto a se popularizar por duas razões principais: 1) a introdução da fita VHS, que ampliava o número de cinéfilos de sofá; e 2) o modelo de cinema do jeito como o conhecemos hoje, que permite a convivência de filmes da maior barbaridade com comédias e dramas. Uma das características desse renovado gênero, que agora infiltrava casas americanas, era o contraste entre a vida burguesa perfeita e a presença do monstro, sorrateiro. Até mesmo porque a violência que sempre ocorreu fora dos subúrbios nunca interessou àqueles que faziam os filmes; apenas quando havia perigo de eles saírem de lá. Teóricos como John Kenneth Muir e cineastas como Stuart Gordon associam esse medo do Outro à era Reagan. E não é à toa que muitas vezes ele é produto de meio social e reivindica algo seu. Pois ele se sente roubado. E nós herdamos essa dívida. É a ideia não de todo equivocada de que as crises têm surgido em berço esplêndido”. - Henry Linke, historiador do cinema, O filme de terror americano

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2. “Parece que a imagem de nosso cérebro em expansão exponencial negativa é a que de imediato melhor ilustra o atual conhecimento que temos sobre as funções do cérebro humano. Por exemplo, a ciência já descobriu muito sobre a maneira como ele aloja memórias: sinapses nervosas acontecem em determinadas regiões e são traduzíveis em informações. Os neurônios podem se tornar mais sensíveis a determinadas sinapses, de modo que quando as revisitamos, isto é, recordamos, o caminho já fora percorrido antes, e por isso é mais eficientemente retomado. Porém não nos é ainda claro de que maneira a informação é alojada na sinapse em si, ou ainda, o que essa informação é de fato. A comunicação entre algumas células foi e permaneceu modificada para que nos lembremos da informação dali x anos, mas não há explicação para o que exatamente naquela modificação significa que, por exemplo, a mãe do meu amigo não gosta de ser chamada de senhora. As sinapses funcionam como gavetas que nós abrimos para guardar informações, mas o que são as informações, concretamente? Na verdade, são associativos: esta modificação = esta informação. É quase alegórico.

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Será que nossas células conseguem de fato entalhar informações em variadas substâncias, como se escrevessem em cavernas? Será que conseguiremos fazê-lo, ora, em uma molécula de água? Já conhecemos o suficiente sobre a Vida no nosso planeta para entender que, para que ela surja, essencial é que o ser vivo saiba ler as informações disponíveis no seu habitat. Ainda não nos vemos livres do elemento divino quando falamos de ciência. E é o ato de preencher com deus as lacunas entre objetos de conhecimento que cada vez mais precisamente conseguimos observar que chamo de Shamprashárana. Estamos sempre um passo atrás, como se estudássemos a existência de planetas observando seus efeitos nas ondas. E a Vida espera até que alguém saiba ler, por exemplo, o que estará escrito em absolutamente todos os objetos naturais do nosso planeta, das rochas até o tungstênio”. - Rajpatri Ashram, O homem: ciência e fé 42 | 43


3. Jovem da favela Vila Kennedy é morto indo à escola

Na manhã de ontem (14), um jovem foi morto por bala perdida na favela Vila Kennedy,

na zona oeste do Rio enquanto ia para a escola. “O corpo ficou jogado por um bom tempo antes de ser recolhido”, diz Joelson, um dos primeiros a chegar à cena do crime. Antônio Marcos Vinícius fazia parte do programa de reforço escolar da prefeitura do Rio de Janeiro.

“As manchas de sangue ficam encharcando o asfalto, servem de memória”, ele

comenta. Para uma comunidade que vive entre a violência do tráfico e a da polícia militar, o acontecimento não é incomum.

Dois suspeitos foram mortos. Arthur da Silva, da ONG Favela Mais Humana, diz que

estão “de luto”. A Delegacia de Homicídios da Capital afirmou que estão averiguando de onde veio a bala.

Histórico

A favela Vila Kennedy foi local do primeiro conjunto habitacional da cidade, fundado

em 1964 pelo então governador Carlos Lacerda. Este conjunto abrigou pessoas removidas de outras favelas. Sua população atual é de 41.555, segundo dados do Instituto Pereira Passos (IPP). A facção dominante é o Comando Vermelho.

No início do governo de Lacerda, em 1960, o sociólogo José Arthur Rios foi indicado

ao cargo de coordenador de serviço social e responsável pela Operação Mutirão. Já em 1965, no entanto, ela foi extinguida, e nos cerca de dez anos seguintes, a Coordenação de Habitação de Interesse Social da Área Metropolitana do Rio de Janeiro retirou muitas pessoas de suas casas na região sul do Rio de Janeiro. Durante o período do “milagre econômico” dos anos 70, apontam muitos especialistas, a negligência em relação à “questão das favelas” e o estímulo à compra de casas na região foi um evento central na história das favelas. Outros historiadores reforçam que suas origens remontam à Guerra dos Canudos, de 1897. Foi também nos anos 70 que o tráfico se tornou um crime organizado, assim como as facções criminosas. Em 1983 Leonel Brizola é eleito governador do Rio, com um discurso a favor dos pobres. A criação, no mesmo ano, do Conselho de Justiça, Segurança Pública e Direitos Humanos significou maior atenção “àqueles que permaneciam excluídos da sociedade formal e permaneciam sem ter respeitados os direitos básicos garantidos por lei”, segundo o próprio Brizola. Ao mesmo tempo, os grupos criminosos armados e as disputas pelas “bocas de fumo” cresciam cada vez mais. Nessa época ocorre uma mudança no tráfico, que é a substituição da maconha pela cocaína, que passa inclusive a ser utilizada por pessoas mais pobres. Durante essa gestão, o então renomeado Projeto Mutirão pela primeira vez pagou aos moradores pelo seu trabalho.

A partir dos anos 90 as tentativas de urbanização ainda estão nos planos dos polí-

ticos. O programa Favela-Bairro surge em 1995. Desde então, diversos programas têm sido experimentados, e a própria comunidade se mostra cada vez mais disposta a mudar a situação.

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Algumas obras, no entanto, são vistas com ceticismo, como o recente teleférico na favela da Rocinha, que não seria uma prioridade, de acordo com muitos moradores. Eles veem no gesto algo mais “político”. Neste contexto, a presença de ONGs também supre a lacuna que o Estado deveria preencher, a exemplo da Alfazendo, uma ONG educacional sediada na Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Em 2008, a primeira Unidade de Polícia Pacificadora foi instalada na favela

de Santa Marta, zona sul do município do Rio de Janeiro. Em 15 de maio de 2014 é instalada uma UPP na Vila Kennedy, no bairro Bangu, onde Antônio Marcos Vinícius foi baleado. Esta é a 38ª, terceira da zona oeste, e beneficia mais de 40 mil moradores.

As UPPs

O objetivo das UPPs é acabar com o controle das favelas pelo narcotrá-

fico. Para isso, o BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) ocupa regiões estratégicas onde há muita violência e miséria, pouca infraestrutura, presença de drogas e armas, assim como baixo nível de escolaridade, e grande trânsito de pessoas, e ali instala uma UPP, que trabalha com a Polícia Militar mais próxima. A partir de 2010, as UPPs deveriam ser seguidas da instalação de uma UPP Social, que foca no desenvolvimento urbano, social e econômico da região, na pacificação e promoção de direitos humanos e na integração da respectiva região ao conjunto da cidade. De acordo com a própria Prefeitura,

“A UPP Social tem como missão mobilizar e articular políticas e serviços municipais nesses territórios e para isso coordena esforços de vários órgãos da Prefeitura do Rio e promove ações integradas com os governos estadual e federal, a sociedade civil e a iniciativa privada, sempre em favor do desenvolvimento e da qualidade de vida nas comunidades em áreas de UPP”.

Este esforço significa grande avanço, historicamente falando, uma vez que

entende que os problemas de violência e tráfico estão ligados a questões sociais, e por isso políticas públicas tendem a ser progressistas quando trabalham em sinergia. Porém os moradores muitas vezes apontam para a inexistência, em termos práticos, de uma UPP Social. Uma das críticas é que não há integração nenhuma – apesar de ter passado por tantas mãos: criadas pelo governo estadual durante a gestão de Sérgio Cabral, foram passadas para a Prefeitura, gestão de Eduardo Paes, que por sua vez transmitiu a responsabilidade para o Instituto Pereira Passos.

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A Prefeitura insiste que as UPPs são efetivas e defendem o programa. Por

exemplo, apresenta dados mostrando de que o número de mortes diminuiu após a instalação das Unidades. Por outro lado, alguns dizem que as UPPs foram impostas sem o trabalho de criar base comunitária.

Com essa análise concorda o ex-subsecretário de Segurança do Estado do

Rio de Janeiro (1999-2000), Luiz Eduardo Soares, que denuncia a simples reprodução de violência e corrupção que já acontecem em outras esferas. Um dos motivos seriam as condições de trabalho dos policiais. Em muitos casos, ele afirma, há parceria entre tráfico e polícia, o que tira toda a legitimidade do programa de pacificação. Matias Dias, um morador da Vila Kennedy, afirma que “está entre a violência do tráfico e da polícia, sem poder denunciar nenhuma das duas para ninguém”. A parceria entre polícia e tráfico poderia, inclusive, explicar a diminuição do número de mortes. E alguns moradores atestam a conivência dos próprios membros da comunidade, como diz Arthur da Silva, da Favela Mais Humana.

Hoje em dia na Vila Kennedy Em geral, ocupações não são vistas com bons olhos pelos moradores, pois elas tendem a aumentar as incidências de violação de direitos humanos. “Tem a ocupação e tudo mas logo já volta ao normal. Mas a gente ainda tem que prestar atenção para tiroteio”, atestou Leticia Novaes Lima. “Não pode achar que a violência é só a arma. É falta de escola para a criançada, por exemplo”, insiste.

Enquanto isso, em 2017, 6.731 pessoas morreram violentamente no Estado

do Rio; a polícia matou 1.124; 134 policiais militares foram assassinados, em serviço ou fora. Essa situação contribui para uma enorme estigmatização do Rio em geral e das favelas especialmente. Diário da Oeste, 15/02/2018

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4. “A ideia de que encontrar novas formas de vida em outros planetas seria uma aventura divertida não passou muito tempo sem ser contestada. Alguns filmes traziam narrativas que eram quase como alegorias da colonização – quando não referências diretas. Havia já antes, claro, tramas que representavam vida alienígena como antagonista. Mas ainda assim poderíamos dizer que esses exemplos pertencem ainda à visão romantizada da viagem espacial pois insistiam que a humanidade prevaleceria no final, não sem conotações de predestinação, de que nós no fundo somos bons. Ou seja, se era para ser um comentário sobre a colonização, passaram longe. A trilha sonora desses filmes geralmente era composta de orquestras que frequentemente massageavam o espectador predominantemente com composições bélicas, na verdade como qualquer filme de ação. Hoje em dia não é rara uma trilha sonora mais minimalista e desconcertante, sem o dénouement. Um exemplo que está mais para esta ponta atual do sci-fi do que para aquela é Distrito 9. Pois talvez sua maior conquista seja exatamente não ser uma alegoria ou representação da colonização, mas sim se passar no mesmo universo em que ocorreu o Apartheid, isto é: ele apresenta a perspectiva de termos deixado isso acontecer novamente. O filme o faz flertando com outros filmes alegóricos ao marcar algumas coincidências com a experiência segregacionista sul-africana, mas começa, sem forçarmos demais a nota, a se descolar do modelo anterior. Em defesa dos primeiros filmes de alienígenas, no entanto (e de sci-fi em geral), até que fazia sentido eles serem repletos de ação, pois parte do medo era exatamente não ter tempo de descobrir de onde vinha o inimigo nem qual seria sua lógica: a falta de explicação gerava um clima ainda maior de tensão. Hoje em dia, no entanto, o espectador já vai com tramas na cabeça quando começa uma sessão. E em resposta, os filmes mais atuais às vezes nem têm mais alienígenas, exceto no seu horizonte, pois a batalha não é a parte mais interessante, mas sim o debate sobre o que seria o encontro entre nós e eles. E à medida em que os filmes sci-fi de alienígenas vão – por inúmeros motivos, como a tentativa de inovar – deixando de uma forma ou outra de ter alienígenas, vemos que a questão não se trata mais – e há quanto tempo já não era assim – de aliens de outro planeta”. Jack Gardner, Sci-fi: dos anos 80 até hoje

“67. Aqui e lá me convidariam nos lares se eu não precisasse de comida nas refeições; ou dois presuntos estariam pendurados no lar de um amigo leal onde eu tivesse comido um”. 67º conselho do “altíssimo Odin”, do livro Hávamál

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II. ROCHA FRESCA – EPISÓDIO 1. Zédi olha sua mão. Há três verrugas na parte interna, duas na parte externa. As primeiras, nas juntas das falanges. As segundas, no peito liso da mão. Sua forma redonda, sua cor mais clara, sua altura até, tudo faz parecer uma torre de vigilância numa colina. A rua lá em baixo está sendo recapeada. De novo. Uma das poucas ruas aqui da zona oeste que são pavimentadas. E apenas as mais próximas da rodovia. Mas não adianta. Mês que vem eles estão aí de novo para recapear.

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Zédi foi direto da escola para o centro. Fazia o frio típico da manhã. Rasgava, como se não houvesse ar. No ponto estava o moleque esperando a ambulância no chão. O sangue continuava a entrar na terra porque, pelo jeito, ela aguentava absorver mais. Será que ela lembra da última pessoa que lhe foi alimento? Aquele cimento é vampiro, não é desse mundo. As pessoas olhavam no sentido do corpo esperando o ônibus. No caminho, ninguém conversa. Sobre cimento de outra avenida Zédi avistou o consultório. Pode demorar um pouco, diz a médica, até alguns meses, mas é preciso eliminá-las. Eles fazem isso aplicando nitrogênio líquido na verruga. Chama-se “crioterapia”. Se você pesquisar, “crio” significa temperaturas abaixo de -150°C. Mas dor é de queimado. Ela habita o espectro correspondente a tanto dano à pele que não se pode separar quente do frio. O pior dos dois mundos, a expressão diz. Um homem que fizera de um tapete seu palco frente à igreja falava sobre o apocalipse. Nós não ouvimos. Ora, mas ainda há chance, ele diz. Deus nos deu a terra, mas ele a quererá de volta. O que iremos entregar? O que este homem chama de terra? Onde Zédi mora o barro às vezes é levado colina abaixo. Sobram, quando sobrevivem, os homens de lá para reconstruir. Zédi volta para casa, já é hora do trânsito. Todos conversam, faz barulho e o ar está quente. Ele está em contato direto com nossas peles. Às vezes andar de ônibus é ser como água numa garrafa. Água numa garrafa, dentro de uma mochila. Dentro da mochila do Zédi. Do Zédi, que tem a pele toda esburacada.

2. A segunda sessão dói ainda mais porque a pele está sensível. Hoje chove muito. A favela fica no morro, que é a torre de defesa. Contra outras torres e contra o que está lá embaixo. Os homens vieram retirar o caminhão que ontem recapeava a rua com a justificativa de que terão que estudar mais o lugar porque ficar recapeando e recapeando era desperdício de dinheiro. Às vezes eles vêm e vão rápido de medo. Alguma coisa ali naquela rua não estava funcionando. A água era sugada direto para os buracos deixados no asfalto. O dia já está quente demais e o contato com a água faz com que vapor saia dos bueiros. Quão profundo será que ela vai? Aquela rua é uma quimera, é mais que humano. A água é seu alimento ou habitat? No ônibus as janelas estão opacas por causa da condensação. Sob o curativo há uma coloração amarelada. O dedo de Zédi treme por memória involuntária quando a médica o desembrulha. Eu vou receitar algo para você usar no período entre nossas sessões, ela informa. Trata-se de um ácido mais fraco do que o utilizado por ela. O ácido dela é material bélico. Não é o Ministério da Saúde, mas o Exército, que regula. Mas o mais fraco vai ter que dar. As verrugas são um vírus. Um vírus que não funciona em simbiose com o corpo humano e de

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eliminação relativamente simples. Mas há outros vírus que parasitam tanto seus hospedeiros que acabam matando-os, e dessa forma também a si mesmos. Não sobram muitos indivíduos. Uma mulher reclama com o motorista que o trânsito não anda. Mas indiretamente elege todos como interlocutores falando alto. Ela já estava ansiosa há um bom tempo. Fala consigo, sem coragem de falar alto. Uma segunda mulher informa que a rua foi interditada, por motivo de obras. Contrariada, não vê outra saída a não ser se revoltar ainda mais. Isso é totalmente injusto pois os personagens não estão sujeitos à composição de ângulos, ambientação, trilha sonora etc. como o espectador. É por isso que não se pode aprender com filmes.

3. A terceira sessão será a última. Os homens voltaram. Continuam o trabalho, mas é diferente. Eles realmente não querem abrir muito a boca quanto ao que está acontecendo. A rua amanheceu com uma montanha de concreto estilhaçado. Concreto é basicamente uma mistura de cimento e água. Ninguém sabe como apareceu ali. O engenheiro responsável tem medo, até de se deter muito com as pessoas. Ele repete que não sabe, não sabe o que está acontecendo. Parece que ele está sendo substituído por uma mulher que chega e enfia uns cabos de amplificador nos buracos da rua. O que se revelará estar sob aquele terreno? Aquilo é uma múmia, ainda é humano? Se eu não fosse humano, Zédi pensa, nada justificaria eu tentar erradicar essas verrugas da minha derme. Alguns vírus aguardam em forma de esporos por um momento de condições propícias para renascerem. A médica lhe assegura que as verrugas não são esse tipo de vírus. Algumas regiões do corpo são mais difíceis de se livrar deles. Não tem explicação, ela diz, é simplesmente assim. Ao voltar para casa Zédi quase nem consegue entrar na sua rua. Primeiro o param, depois insistem que ele faça o que queria fazer. Os carros não param no farol vermelho, e o Exército regula o movimento dos ônibus. Os rádios estão falando sobre isso. Há algum problema nessa terra e eles discutem uma solução. Zédi se pergunta como irá para uma eventual quarta sessão.

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Ancient Curses (Antigas maldições) Texto por Eduardo Ascenço Peralta Tradução de João Mostazo Ilustração por Ana Pompeo

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Traffic sign One of this days I caught myself staring at my nails. It’s been quite a long time since I’ve last noticed them. Look at them.  They are dirty. Broken.

Sinal de trânsito

Dull. Um dia desses Lots of things happened since the last time That I cut them off.

Me peguei olhando minhas unhas. Faz tempo Que eu as notei pela última vez.

I got a parking ticket from Hernandez, The most annoying and republican police officer I’ve ever met.

Olha para elas. Estão sujas.

I saw my son after 5 months and

Quebradas.

Even through my cellphone’s screen

Tediosas.

I can swear to you that I felt his smell. Muita coisa aconteceu desde a última But these things are now in the past.

vez

The dice keep rolling.

Que eu as cortei.

From these memories

Tomei uma multa do Hernandez,

I just keep Hernandez’s hate and

O policial mais irritante e republicano

Father’s caring.

que eu já conheci.

And they are growing.

Vi meu filho depois de 5 meses e

Just like my nails.

Mesmo pela tela do celular Posso te jurar que eu senti o cheiro dele. Mas isso tudo está no passado, agora. Os dados continuam rolando. Dessas memórias Eu só guardo o ódio do Hernandez e o carinho de Pai. E eles estão crescendo. Como as minhas unhas.

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The resilience of a canvas You are a brand new white canvas. Every time in a different color. Everyday in a different style.

A resiliência de uma tela

But, You don’t pick the color. And

Você é uma tela branca, nova em folha.

You don’t choose the style.

Toda vez numa cor diferente.

You are just there.

Todo dia num estilo diferente.

Cubistic.

Mas,

Abstract.

Você não escolhe a cor.

Never realistic.

E Você não escolhe o estilo.

In your sad horizontally way.

Você só está ali.

Laying down on an easel painting. A creature that never stands up.

Cubista. Abstrata.

We couldn’t have Mussolinis,

Nunca realista.

Thatchers, Francos or Reagans Without you.

No seu triste jeito horizontal.

The huge amount of canvas made them big.

Deitada num cavalete. Uma criatura que nunca se levanta.

Like a symbol. Very useful to the others.

Não teríamos Mussolinis,

Disposable for yourself.

Thatchers, Francos ou Reagans Sem você.

But who am I to say those things about you

A enorme quantidade de telas fez eles

If not

ficarem maiores.

Just another painter. Como um símbolo. Muito útil pros outros. Descartável para si mesma. Mas quem sou eu pra dizer essas coisas de você Senão Só outro pintor.

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O meu nome quer dizer verdade Texto por Zênite Astra Ilustração por Noelodram A

o banheirão só era divertido mesmo quando eu encontrava a vera.

eu lá no chuveiro e ela entrava, me via e abria o sorrisão. abria o chuveiro do meu lado e sussurrava “travesti disfarçada!” e a gente cascava o bico. ela tinha acabado de começar com os hormônios e os peitinhos já despontavam em mamilos otimistas no peito agora pelado. a gente se atualizava, batia um papo animado no que era em outros momentos um reino de silêncio. nos chuveiros a palavra é coisa proibida. o som do vapor quente é a única música que toca nesse domínio de olhares furtivos. se um extraterrestre espiasse o que se passa entre aqueles azulejos, chegaria à conclusão de que o homem é bicho que não fala. a vera iluminava aquela brancura com a risada que cortava qualquer regra. a navalha-língua da vera era outra. se vinha alguém, o papo era cotidiano. se a gente estivesse a sós, a gente jogava o jogo que tinha ido jogar ali. claro, sempre tinha espaço pra um carinho: a gente se ensaboava os ombros e as costas, fazia espuma uma nas espaldas da outra. todo mundo precisa de toque, e a gente silenciosamente sabia disso. uma hora a mão ia descendo e... o esquema era pra ser rápido, e logo a gente esporrava. quase sempre era noite, vestiário vazio, mas não dava pra dar bobeira. lavada a porra, a gente ria. gozar é isso né. a gente terminava o banho e ia vestir as roupas de menino, porque ninguém entra no vestiário masculino se não estiver disfarçada. partíamos pra fumar um cigarro sentadas nas escadas que davam pra pista de corrida. um dia vera virou pra mim e disse, o meu nome quer dizer verdade. não queria continuar nessa de ser homem por muito mais tempo: a mentira tem pernas curtas.

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passo pelo espelho e paro pra olhar meu corpo nu, toalha nos ombros e nada mais, além das unhas pintadas e das tatuagens. me imagino com a cintura um pouco mais larga. os possíveis peitinhos despontando. ainda que a nudez nem sempre seja a regra no caminho até o chuveiro, gosto de passar nua por aí. acho que se pudesse, toda travesti seria um pouco exibicionista. o espelho também é um jeito de ver quem me vê e quem está dentro do jogo. dá pra pescar muitos cantos de olho com a ajuda do reflexo. dessa vez chego no chuveiro e lá tem dois caras, ambos com as bundas viradas. preciso ver se eles estão dentro. primeiro eu acho que não, mas logo reparo que um dos caras, de braços grandes, tatuados com tribais, fica de pau duro enquanto me olha. e o bonito vira de costas de tempos em tempos pra esconder a piroca. talvez esteja escondendo do outro. talvez seja um iludido que acha que dá pra esconder aquilo. seja o que for, está jogando o jogo fechado. pra mim, o jogo tem duas modalidades: aberto e fechado. percebi depois de um tempo que os machos preferem o jogo fechado. suspeito que eles até têm mais tesão fingindo que tão enganando alguém. punheta disfarçada. o jogo é fechado quando as costas estão viradas pras outras pessoas, corpo virado pro chuveiro e ligeiramente inclinado pro lado de outra pessoa. uma olhadinha de vez em quando, sem muito olho no olho. eu pessoalmente prefiro o jogo aberto – foi assim que eu aprendi. diferente dos machos, as bichas preferem essa versão. no jogo aberto, as costas dão pro chuveiro, todos os envolvidos virados de sempre uns pros outros. todos se vendo, jogo limpo. só começa a acontecer se todos virarem, é o primeiro sinal. daí algum começa a ensaboar muito o pinto (homem só lava o pinto direito se tiver segundas intenções) e as mãos ficam por lá. começa a endurecer. outros seguem. se possível, alguém fica no chuveiro estratégico, de onde consegue ver se está chegando alguém. se for o caso, vira o corpo pra sinalizar pros outros que vem gente. se a nova pessoa entrar e estiver dentro, recomeça. não é o caso dessa vez. o macho me come com os olhos enquanto disfarça a movimentação suspeita. não vejo direito seus olhares por causa da falta de óculos. ser míope dificulta o jogo. logo ele goza e sai, evitando me olhar. fico esperando pra ver o que o outro vai fazer. acho suspeito que ele esteja lá faz tanto tempo. tem caroço nessa vontade de cu. quer dizer, é fácil pra mim perder a noção de tempo, e me oriento por um novo cara que entra nesse meio tempo e toma um banho rápido. olho também pra ponta dos meus dedos, já enrugadas. se eu ficar mais tempo, o cloro dessa água vai deixar minhas unhas esbranquiçadas. dessa vez sou eu que estou no chuveiro estratégico. eu gosto de ver o movimento. enquanto me faço água, um cara vestido vem várias vezes pro lixo que fica na entrada para os chuveiros. mesmo míope consigo ver que ele me olha, ele dá muito na cara. aproveito pra ser vista, estou ali pra isso. dou um sinal: uma

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esfregadinha no pau. ele responde e agarra o dele com força. pra mim já deu dessa espera. furtiva vou, só de toalha, até as cabines. logo identifico a cabina em que ele está. entro e ele já tá lá, de pau duro pra fora. um senhor caralho, diga-se de passagem. ele parece ter o dobro da minha altura e largura. uma vez o wesley me chamou a atenção que em vários pornôs o ativo fica de roupa enquanto o passivo fica pelado. o contrário nunca acontece. ficar vulnerável é coisa de passiva. e cá estamos. ele sinaliza pra eu sentar na privada logo que eu entro. eu faço que não entendo. por que? pra chupar o pauzão dele, é óbvio. pra ele é bem evidente que ninguém perderia a oportunidade de chupar aquele caralho. eu faço que não quero e continuamos a bater um pro outro. ele insiste de novo. eu faço que não, obrigado. por que não? porque eu não quero. continuamos. ele me olha com uma cara que é um misto de por favor e de vai, eu sei que você quer. é óbvio que ele sabe mais sobre o que eu quero do que eu. nisso eu só quero socar a cara dele, mas ele não sabe disso. eu pego nos meus peitos, na minha coxa, já que o corpo vestido dele nem dá vontade de tocar. os machos não entendem que ficar vulnerável dá tesão. ele fica aflito e afoito com cada som. ele vê meus suspiros surdos e faz com os lábios, goza. e eu gozo. ele não. olho com olhos que são um misto de pena e um bom, é isso que tem pra hoje. teve uma maricona umas semanas atrás que queria me comer. eu falei que não e ficamos na punheta. ele virou uma hora e falou, eu sou casado, ninguém pode saber disso. perguntei, com uma amapoa? não, não, com um viado mesmo, e rimos. depois que gozamos ele falou, queria mesmo era, e fez com os punhos fechados e estendidos o sinal universal de meter. falei, paciência, enquanto me enxugava. demos uma risadinha enquanto eu saía. por bem ou por mal, na maioria os viados entendem limites de um jeito que os machos parece que não. às vezes os machos precisam de um toque. lembro de um outro que vi uns meses atrás. já conhecia ele de outros banheirões, pelo jeito ele é frequentador assíduo. enquanto eu vigiava, ele chupava outro cara e eu batia uma praquela cena. o outro cara gozou e ficamos só eu e esse viado da tatuagem de sol em uma das coxas. a gente se masturbou e gozou rápido, como tem que ser. na saída eu elogiei o novo corte de cabelo dele, ficou bem bonito. ele abriu um sorrisão e agradeceu. na saída ainda passou e deu uma piscadinha bem camarada. nada como a gentileza entre bichas. no caminho pra casa, enquanto acendo o cigarro, matuto. o carinho, o elogio e a risada: sinceros, veros, quando têm que ser. todo mundo precisa de um toque. penso em vera e em onde estará. quero ver vera voando livre e viva.

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Poemas Pirata Texto por Luiza Romão Ilustração Sérgio Silva

Para Sérgio Silva

1. o olho é uma porta giratória

2. sempre achei jacksparrow o pirata mais bonito do mundo mesmo ele sendo ianque ou melhor uma abstração vertiginosa de algum estagiário hollywoodiano que frente a incompletude existencial de um donnut sabor chocolate deu origem a esse estranho heterônimo que lhe renderia preciosas selfies com johnnydeep e uma fortuna maior que o território de bermudas sempre achei jacksparrow o pirata mais bonito do mundo mas eis que chega você e esse desejo

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de construir uma ilha bem no meio do atlântico um carregamento de areia grande demais pro meu caminhãozinho tatuar uma âncora bem no meio das ancas arremessar ao mar todas as longnecks e encher uma banheira de puro malte

e ali naufragar

redemoinhos em ti

sempre achei jacksparrow o pirara mais bonito do mundo mas meu inglês é horrendo e toda vez que digo jacksparrow parece que digo jackspere, espere por mim, jack, please, don’t go! o que me acorrentaria eternamente a imagem de uma neoduquesaelizabethana eternamente a ver navios sempre achei jacksparrow o pirata mais bonito do mundo mas não sou robmarshall meu filme emsuper 8 você correndo na praia sem tapa-olhos um guaxinim ruge eos créditos saltam em queda-livre até o espólio de todos os celulares roubados na última virada cultural e então wallstreet um saque para deixar hakimbey no chinelo você TAZ entendendo o que é o amor? Você TAZ-TAZ-TAZ entendendo o que é o amor? sempre achei jacksparrow o pirata mais bonito do mundo mas sou muito mais os clássicos das banquinhas da augusta

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3. sua pálpebra descansa no meu peito

4. te amar como quem desossa um frango dedos engordurados asa partida ao meio na boca o sabor agridoce do coágulo violeta domingo é dia de feira cachorros babam a cada volta da televisão dois por trinta sonho com beatrix kiddo sua carne é fibrosa demais para a sutileza de uma espada

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Sua poesia é ruim e você culpa as notícias Texto por Natasha Magno Ilustração por Ana Helena Lima

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Agora você me diz que não é nostálgico e me dá outra palavra para isso eu costumava achar que você era bom com as palavras, mas no limite era o que eu precisava tudo volta tão claro agora a vaidade era o seu combustível quanto mais você tem mais as pessoas te bajulam Desde pequena fui ensinada a venerar os homens, feche as pernas, você não tem irmãos em casa? Eles te diriam que só vagabundas sentam de pernas abertas vestindo saias Sim eu te amei, como quem ama a última tábua que flutua após o naufrágio destroços, corpos, deriva você me ofereceu ( alguma coisa ) Aceitei, comi, bebi, trepei, viajei Hoje eu sei que você buscava por cadáveres, Dom Pedro, Príncipe de Portugal, filho do Rei Afonso IV durante toda a sua vida você buscou casos tristes e dinos da memória, assim como Camões, Que do sepulcro os homens desenterra, Naquele dia no cerrado aconteceu da mísera e mesquinha Que despois de ser morta foi Rainha rainha das desquitadas, das estupradas, das abusadas, das submissas, das que abortaram, das que somente acompanharam Mas agora Inês é morta é preciso renascer Ó, tu que tens de humano o gesto, o abraço e a buceta incendeia os portos, destroça os navios que dentro carregam homens que buscam por cadáveres Até mesmo as feras mais cruéis já demonstraram clemência aos corpos em putrefação assim, não ponha-nos entre os homens, onde só exista crueldade pois lá veremos que neles não se pode achar a piedade, aquela mesmo que não encontramos nos corações humanos

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Feitas, em transporte público Texto por Kaê Leopoldo Ilustração por Bruno Vital

Freima e fastio O 875C, o 576M, o 702U e o 7411: Todos estes têm gentes que eu desapaixono assim que desço e paro de ver. Embriagados no livro, os zóinho esquadrinham, discretos e tristes, imbuídos em arquétipos de marmeladov, certas diversas apresentações de um mesmo sofrimento: a desubiquidade. O que simultaneamente nos assepara e nos proxima é humanidade, essa muita humanidade que eu tenho, que eu fungo, que eu tusso e que eu retorno. Desculpa os chicotinhos de olhar, Desculpa as sobrancelhas circunflexas, e o silêncio que ressoa “Eu te peço perdão por te amar de repente”. Fora as monções da minha cabeça, eu não tenho casa.

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Capixaba Foi assim: o carro da frente brecou e o carro de trás tentou desviar. Foi aí que ele bateu no meu filho, que voou e morreu espatifado no guarde-reis.

Esplendor e sepultura céu azul-algo Um avião espalha-se no vidro dos prédios espalhaçados da faria lima. nos olhos não cabe o sentimento

Jambo amarelo

de mudo On O cru

Eu acrescimento São Paulo,

Ox

São Paulo onde os prédios usam agasalho, naonde as pessoas vêm pra usar agasalho,

hoje, eu sou aquela casa

e eu frio os prédios com olhar de jambo amarelo.

embaixo do prédio. Uma vez eu desliguei a máquina de cortar grama, tirei a luva, botei os óculos protetores acima da aba do boné, peguei um jambo que eu vi cair ali, e comi. Tudo lícito e merecido. Tudo aa futuros amantes, desvãos. Eu baco os prédios Eu tranco os prédios Eu balouco os prédios Eu acudo os prédios Tudo aa teclado sem cedilha

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Eu vi a minha vó na rua Éramos nós na cozinha fazendo pão de minuto. Na verdade, vernáculo, não sei se de minuto ou diminuto. Quando o primeiro, esqueçamos que a feitura descompassa umas duas horas – o que importa é o tempo que demora pra comer. Quando o segundo, lembremos que – como por entre fragmentos de futuro – a vida dura curta demais pra entrar de cabeça nessa coisa de humanidade. Agora somos nós na garganta.

Preamar Muito interessante ligar a tv e ver que o rio madeira extravasou -se E o avô, eletricista, duro, trajando roupa de trabalho no carnaval fala assim imagina um rio 18 metros acima do normal e o absurdo na voz. Daí, dois pulinhos de matuto: Eu sou o rio madeira e isso vô é só o

pré-amar;

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Não inventamos um jogo novo Texto por Isabela Cordeiro Lopes Ilustração por Natalie Mirêdia

Vai ser um dia desses dias de ar saturado cheios de notícias grudadas na retina. Algumas horas, nada pra fazer. E eu vou te dizer: vamos jogar um jogo? E você vai responder: vamos. Uma charada, minha sugestão é essa, e você vai desconfiar da ideia, porque as charadas são todas iguais sempre, e você vai me dizer isso. As coisas se repetem sempre, vai dizer isso assim. Eu vou pensar que é justamente por causa da repetição que as charadas são um bom jogo. Que é repetindo e repetindo que de repente você se lembra do que não está ali. É aí que você acerta a charada. E eu vou te dizer que: - Tem um jogo que é assim: um homem está morto, enforcado, e tem uma poça debaixo dele. Eu conto essa cena pra você, você me faz perguntas e eu respondo: sim ou não. Esse é o jogo. Eu espero que você procure saber a verdade por trás do corpo. É a premissa do jogo, é claro: não dá pra jogar se você não se importa com o corpo e com a poça. Mas alguém se importa, nesse jogo alguém sempre se importa. Porque tem um homem enforcado e uma poça. Porque tem uma manchete, uma notícia dada cedo demais pela manhã, um grito abafado, a mão que vem ao rosto: não, não pode ser. E então nos tornamos, eu e você, uma cena de uma peça feita de um diálogo muito longo, toda a plateia sabe do que falamos, nós não. Uma cena de um filme ruim de investigação policial, você detetive me interrogando; eu, uma testemunha meio louca ou meio poética, monossilábica: sim ou não. - A causa da morte foi o enforcamento? - Sim. - Tem alguma outra coisa na sala? - Não. - A corda está pendurada no teto? - Sim. - Ele está vestido? - … Sim. É um pudor meu. Eu poderia dizer que não, que não importa, que ele está tão nu quanto veio ao mundo, ou que veste apenas umas asas de anjo feitas de plástico, ou que realmente

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não importa, mas prefiro deixá-lo vestido, e me envergonho disso também. - Alguém fez isso com ele? - Sim. - Foi um assassinato? - Sim. - O assassino agiu sozinho? - Não. - Tem alguma forma de identificar quem é o homem? - Não. - É possível escutar alguma coisa na sala? - Sim. Eu escuto, em um canto da minha cabeça, e tento tirar a música de lá, um pensamento rápido de que você pode acabar escutando também. Não consigo, não devia pensar que conseguiria. Ela toca. Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui. - Alguém sabe que ele está lá? - Não. - Alguém está procurando por ele? - Sim. - Ele está em algum porão? - Sim. Talvez agora você se lembre de já ter ouvido essa charada, um eco da adolescência, uma história repetida em outras esperas. Mas são várias essas histórias, e você nunca escutou direito. As coisas se repetem sempre, você vai pensar de novo. A charada é um pedaço de alguma história que você já ouviu de novo e de novo, contada pelos cantos por parentes velhos. Mas lembrar agora seria acabar o jogo, e o jogo de tentar se lembrar é mais embaralhado, mais difícil. Sim ou não? Você nunca tem certeza.

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- A poça de água já estava lá antes? - Não. - A poça de água tem a ver com a morte do homem? - Sim. - A poça é de água pura? - Não. - Ela é de urina? - Sim. - O homem se mijou quando foi enforcado? - Sim. Agora dividiremos um breve silêncio respeitoso. Vesti o homem e molhei suas calças. Me envergonho de um crime que não é meu, queria voltar e lhe dar asas de penas de ganso. - Ele foi encontrado por alguém? - Não. - O homem foi sequestrado? - Sim. - A morte dele foi rápida? - Não. - Ele foi torturado? - Sim. - Ele morreu em junho ou julho de 1974? - Sim. - O nome dele é Epaminondas? - Sim. - O nome dele é João Araguaia? - Sim. - Walquíria Afonso? Uirassu? Pedro Pereira? Lúcio Petit? Batista? - Sim. - Ele morreu há cinco anos? - Sim. - Ele morreu no ano passado? - Sim. - Ele era Vinícius, Jota, Dhenison, José Ítalo, Valdenido, Werick de Souza, Denys, Luara Victoria, Anderson? - Sim. E aí você vai começar a chorar, eu acho que você vai começar a chorar. E eu vou te dizer que não. Que sim. Que essas histórias são só um jogo. Que essas histórias são de verdade. Que não importa, que o jogo é esse. E que as pessoas, elas são de verdade. Sim.

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Das formas que o silêncio tem Texto por Gustavo Oliveira do Nascimento Ilustração por Rafaela Fiorini

Um grilo lá fora come o silêncio come-o como se brincasse na gangorra com ele ora come, ora não come, ora só ora na hora serena E devora manso mas sempre solta e deixa embora como quem pesca, também como quem sonha e em seguida se esquece. Coisa bonita de se ver pela janela: Num balançar perfeitamente equilibrado, hoje O silêncio ganha um pouco da forma da barriga do grilo.

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Move-se em imóveis subsolos Texto por Arthur Moura Campos Ilustração por Luana Carvalho

nas raízes insossas arranja algum

desfia um desafio num fiasco

mantimento

só um fiapo dessa fé

mantém

Um fiapo fincado entre os dentes

mantém

arrastado pela língua

mantém

para cima para baixo

o alicerce

Até tento tirá-lo com a unha

do térreo

e uma bala pulula na tela,

que algum prédio

não é minha cara que fura

ainda será erguido

ou meu peito que abala

do corpo roído

Vai rasgando

caixão caixão

sutilmente me encurrala

Caixão que me abraça

no beco

Mas antes gasta

do meu olho

e goza pra manter a máquina

que acusa uma lágrima

mantenha

Ela cai dentro da lata

mantenha

enquanto o comercial da churrascaria

o que importa é a manutenção entre um acidente e outro

dá um zoom na salada

entre um bug e outro entre um truque de sobrevivência e a esperança da decadência QUE TEATRO QUE TEATRO e não tinha pedido papel nessa peça já caí no ato aplauso “não esqueça de bater o cartão” Forçosamente fraco

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Disarcanos Poesia visual por Victor del Franco

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Os dias Texto por Fernando MDG Ilustração por Ana Pompeo

Todos os dias pulo pela janela do nono andar ontem tentei um mergulho e bati com as costas hoje caí sentado, como se fingisse ler um livro Trinta metros uns poucos segundos de rosto contra o vento (e eu posso senti-lo aos meus ouvidos,

Todos os dias tiramos

como na janela aberta de um carro

a poeira de cima dos móveis

na estrada)

mas ela sempre volta, sempre aqui

Lá de cima olho de novo para o chão

às vezes mais grossa (poeira nova?),

antes cinza e agora vermelho sangue

às vezes a mesma poeira fina

e posso sentir na língua sua textura

de todos os dias

áspera, temperada de retalhos de pele e osso e miúdos

Parece que é o horizonte fraturado quem olha e me pergunta

tento sentir o gosto da cidade

como vai ser amanhã?

além dos muros da minha casa, prédio, condomínio particular Sempre me pergunto se o vento no nono andar deste bairro é o mesmo do centro velho e dos subúrbios arborizados e das vielas, quebradas, - bairros que não conheço, vidas que não conheço

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Coletânea Texto por Caique Melo Ilustração por Sue Elie Andrade-Dé

Paisagem incansável Brisa. Aves rasgam o céu sem pretensões de permanência. Ora beijam os ares, puro afeto derramado. Detalhe. Feixes de luz contentam-se repousar sobre as nuvens. Há risco de chuva. Galhos secos ameaçam lançar-se sobre o solo da cidade em construção. Bravata. Debaixo d’água não existe vida. Talvez pela obstrução dos campos de sentido (falo de dentro). Das possibilidades do ser desejo-me, aqui e agora. Sai de cena.

Preso num retângulo de baixos muros inofensivos à procedência da queda. E elas gritam signos inabitados por sentidos sobre o silêncio do ar. E sobre a sua cabeça há uma camada de atmosfera. E abaixo do corpo uma camada de concreto sobre a qual não deslizam os sapatos. Rajadas de vapor no espaço suspendem a atividade da visão. No rosto, os olhos abertos.

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Cronologia devo tê-las deixado (as convicções) nas estantes de livros científicos (onde permaneço às seis ou sete) pouco antes destas imagens desmedidas e infectadas pela pretensão de ser-lhe envoltória

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– papel macio e opaco.


Ménage à trois perder seu amor é como acordar todos os dias em ressaca. falta-me disposição para ficar calado. ao contrário movimento pés e a cabeça enquanto construo a cena: um homem chamado herberto come carne crua e cospe da boca os ossos.

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D / 23022020 / 20:40 Texto por Drump Goo Ilustração por Victor Alves

Sei lá amor, é a pessoa que falei tudo tá? Se fosse. Ele tentou comunicar: é expressa sua coragem, quase a grafite, quase teve com Maria e Maria em roubo de carro. Por que estou 23 de fevereiro de Carnaval? Só queria que essa alegria tivesse a ver com a sua idade. O fantástico está no ar para explicar o que é uma curva da Felicidade. No que às vezes ela se afasta da gente, mas acaba voltando. Xbox, Rio de Janeiro, centro, bairro de Santa Teresa, 3 bilhões, chave da culpa daquela cidade. Mateus no começo: tenho 21 anos, aluno de direito, também estágio. Hoje: meio que não tenho 42 anos. Foi descoberto no fim: tenho 55 anos e uma empregada doméstica. Não vou Carnaval, igual as pessoas, todas juntas numa celebração do arquivo. E agora é a hora de esquecer. Chatice se preocupa, ações, mas acaba que voltar à rotina pode ser melhor ou pior, dependendo da sua idade. A gente está no auge da Felicidade por volta dos 20 anos, quando o mundo tem cheiro de novo. Mas a vida adulta é cheia de frustrações, que ali pelos 4748 anos uma pessoa nunca se sentiu tão baixa. A boa notícia é que é também a hora de uma virada, por favor. Uma outra Felicidade se apresenta: envelhecer é bom né, essa curva é estudada desde o começo do certo. A mais nova pesquisa foi feita em 132 países e publicada em janeiro. O Brasil está na lista. O trabalho é dirigido pelo economista David Blanchflower, da universidade de dar mal dos Estados Unidos. Envie um questionário sobre padrões de comportamento que as pessoas pensam, nem pra mim, e se gostam dos seus empregos independente de diferenças socioeconômicas entre os países. O desenho da cor se mantém. Todos. Talvez a explicação esteja nos nossos genes, existem trabalhos científicos que demonstram a mesma corrente, pois eles, o Brasil a entrada no mundo adulto, porque o tempo dos possíveis, tempo em que você pensa que tudo ou quase. É, pôs-se o Mateus, tá bem ali, pega o metrô lotado. Eu vou pro escritório, saio do escritório, vou pra faculdade, muitos planos, muitas opções. Na fase 2 só na rolha real é o momento em que esse campo do possível realmente fecha, no farol. O especialista conta do Calligaris. Felicidade é um grande bem-estar, abrir a vontade de fazer as coisas que a gente está fazendo, é isso que começa a faltar depois de anos de rotina. As mulheres dizem né, porra, eu não tenho tempo pra mim, eu não tenho liberdade e eu não tenho reconhecimento dos outros. A antropóloga Mirian Goldenberg que estuda a curva da Felicidade na realidade brasileira, aí você tem um filhinho pequeno normalmente tem 2 aqui no Brasil e aí os filhos ficam adolescente, chegamos ao fundo. Quase 3, o impulso de volta, eu não sei ainda qual vai ser o futuro eu sei que eu não quero para o meu futuro a mesma coisa que eu, que eu vivi até agora. Não comeu. Ter sido bom ajuda, não trabalhou durante 25 anos fazendo a comunicação corporativa de grandes empresas? Agora água. Ganhava bem ele, começou a te incomodar. Parece que eu não cabia mais naqueles marços. É parecer que eu estava sendo a cada dia, a cada amanhecer, amarrada numa camisa de força. Em janeiro saiu do emprego virou friv. A ânsia está cheia de projetos, meus olhos estão brilhando. Elas fazem uma faxina existencial, tirar da vida tudo aquilo, nossa roupa, ficar careca. É umas pessoas, o primeiro mandamento: dizer não. Não quero, não gosto, não vou ser feliz no casamento. Está jogando, inventava desculpas quando perguntavam sobre maternidade, até que mudou: falei publicamente que eu não queria ter. Ficando. Assumir isso. Como é que você se sentiu? Rápidos momentos, ou menos ruim, dona de si. É um instituto que a atriz Suzana Pires criou para acelerar a carreira de mulheres. Não, mas acho que é onde eu estou. Próximas a serem líderes das protagonistas para os projetos. Fotos de trabalho, menos. Ela escreveu no cinema uma adaptação da peça, de perto ela não é normal. O filme estreia em abril e é sobre mulheres de meia

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idade ao abandonar os estudos, eu tinha filhos, mas agora também tinha. Todos os grandes nem sempre queremos chegar em algum. Sempre tinha mais uma coisa para fazer, sempre tinha a boca da maconha. Eu fiz. Nesse nunca-sabe, vou sentar sua cor da felicidade. Eu acho que eu tô saindo aqui de baixo, começou a subir. É, eu acho que é sim, tá aqui embaixo. Pra mim não é a tristeza, é um conto. Com você, “quem sou eu” é sempre uma ótima pergunta. Não era com você. Hoje partiu o mágico, responsabilidade, falei com a liberdade à minha família em casa. Em mim, voltado, mas eu não ligo pra gente, mas quando vocês eram mais novos estavam escutando o que eu digo. Bem, eu estou deixando te matar agora, agora. Vocês, para conhecerem, é que na maturidade a gente faz as fases com a nossa história. Saiba mais, a partir do campo dos possíveis, mas é a capacidade de gozar. Porque a gente é o que conseguiu, é o que a gente consegue, a gente acaba deixando o sonho de lado e partindo pra realidade que é melhor coisa, né. E não uma coisa que é um tempo, né. Eu tenho que... Lu, cheguei aos 50, metade da sua vida já passou, né. O que que você fez na sua vida em que você quer fazer pra frente? A Lisbela é engenheira especializada em ferrovias superbem sucedida, continua a trabalhar todo dia, das 8 às 5, mas há 3 anos, quando fez 40, tem um jeito de acrescentar umas coisas ainda a essa rotina de viveiros, família, trabalho. Eu decidi retomar o piano e eu falei: eu vou resolver voltar àquelas paixões, lá do passado, que estavam escondidas. Sem culpas você acabou mostrando também os seus filhos e os de seu marido que isso é normal e é importante. Você ter tempo pra você. Me achei completamente de novo no balé, é cobrança pela perfeição, acho que é um pouco melhor um abraço. A gente já tem um Monte, nem em outro campus da tua vida. Aí você quer muito prazer, você sabe o tempo, esta escolha eu tenho: o que eu quero para... Segundo estudo americano essa virada no Brasil acontece por volta dos 40 anos, abaixo da média mundial, então a gente trouxe culturas, como hoje, pra saber como é que está a felicidade dos brasileiros. Está descendo, está acontecendo, não aparecendo, porque Pedro, acho, que aqui ainda é uma faculdade, então não ganho dinheiro trabalhando bastante, né. Você tá numa fase difícil. Ela falou que vai ficar nacional, então você vê o dólar a 4 e 31, rapaz. E 70 pra mim te conhecer diretamente. Eles, o coronavírus de carga na China. Todos parados. Eu acho que estou reconstruindo o que você está reclamando pra ir, eu acho que a minha vida como um todo o que teve essa foto. Vontade de militar, você é mais feliz. Vitor está com um corpo agora. Matheus: no começo eu sou uma pessoa feia. Queima você. Compra nenhuma família, por isso que eu já tinha. Espera o fim. Eu sinto mais feliz hoje do que nunca. Café da Felicidade é um padrão médio com uma quebra. A pesquisa foi amplamente séria mesmo. Não é uma camisa de força, idade não é condenação, o que recebo, por exemplo. Tem gente de todas as idades, de todo mundo misturado e fora de ordem. O que individualmente cada um de nós é o principal responsável pela nossa felicidade. Tem qualquer momento, o que pode melhorar. Você se lembra que essa recuperação começou descendo. I am tudo que desce. Sobe carex, bom, vou CGU Cayo. Estou... olá, muito boa noite, estava felicidade. Também que a gente está aqui com você dessa Terra maravilhosa que é o Carnaval por Felicidade. Nesta semana você trabalha no metrô, cante uma música para passarela do samba. sync: ventrículos, seu dano no dia 30. Assunto pelo país. Idalino da Tim, no entanto para Deus Elza Soares x vem vindo. Uma boa, tu não é bem assim, é uma lata de sardinha isso aqui, né. Essa passageira foi incomodada durante... o que reclinou o seu assunto quem estava atrás não gostou. O final quem tem mais riscos em algo, como agia o professor mesmo em São Paulo acusado de pedofilia. Com certeza de vezes esse homem calculou ponto certo para captar imagens íntimas de suas alunas dentro da sala de aula, assim que era, sem ninguém perceber. Se sentar tipos de luxo em leilão, incluindo iate. O Fantástico vai mostrar a vida mansa de máquina acusada de desviar 400000000 de reais de contas bancárias. PM da continuidade em madrugadas com ela. Mude de violência no Ceará agora meia-noite e meia e são 7 municípios, é praticamente um assassinato por ora. Ainda, os detalhes do episódio que marcou a semana de crise de segurança no estado. O clube, pois os comerciais, as informações sobre o fim da quarentena dos brasileiros que vieram da China. Escolas que brilharam no segundo dia de

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desfiles em São Paulo. A elite do samba se prepara para tomar a marquês de Sapucaí. É daqui a exatos 40 e a gente volta a funcionar sync: mais um dia existe, um jeito novo pra tu, pra voltar pra casa de casa, pra ouvir a minha listinha de letras, assistir aos nossos programas favoritos, seu tempo está perto dos amigos, Senhora. Como nossa alimentação não é diferente dá pra continuar sempre. Ando que a gente mais gosta, só que de um jeito novo, por isso sociais e a empresa que mais inova no setor de alimentos. Acaba a viagem, vou ficar com a exclusiva lá embaixo fazer tudo de si, mas está muito escura de carne para pratos e não consegue vegetais. Você é incrível, cenário do jeito novo de se desintegrar. sync: realeza do samba vai tomar naquele apartamento. Começa daqui a pouco a primeira noite. Eu fiz, fiz do meu, prefeitura do Rio de Janeiro para a Copa é uma ligação que está na concentração da Estácio de Sá. Quer falar com a gente? Ao filho boa noite e obrigado e boa noite a todos. Nós estamos aqui com emoção dos componentes que se preparam para desfilar. Lá na marquês de Sapucaí, o público já toma conta dela, que vai dadas. Esse ponto que eu vou chegar contigo. 7 desfiles. A primeira escola está sendo. Esse cara tem um enredo que fala sobre a importância de entrar para a história da humanidade. Esse carro aqui, eu abro ele, que tem essas figuras que representam fósseis de dinossauro. Olha que curioso também essas culturas. Confesso que lendo com aquelas taças é da capivara, o parque nacional no sul do Piauí. Hoje tem também Viradouro, mangueira. Para mim eu não tenho tido grande... viu, o Marília em Portela no desfile da Estácio de Sá, que você pode acompanhar pelo G, um portal de notícias da Globo. Logo mais, depois do fantástico, a transmissão é ao vivo aqui na Globo. A gente agora vai ver como foi o último dia de desfiles do grupo especial no Sambódromo de São Paulo. Garota não assusta quem resistiu a um dos maiores temporais que atingiram São Paulo, a tempestade 12 dias antes do desfile alagou barracão da Pérola Negra, danificou centenas de fantasias. Poderia mandar uma para cada componente salvar a amada por decisão da liga dos jurados, não se pode punir a escola por problemas de acabamento. A nos atingir está Pérola, voltou ao grupo especial falando dos povos. Siga-nos na temporada do braço por você, à frente da bateria uma das muitas reuniões de família do Carnaval a mãe e minha filha Isabelle de 10 anos. Nessa você, né. O enredo sobre o sumiço do rei português dom Sebastião fez a escola dar uma volta pelo mundo na avenida. Tem escola que levou ao topo coisas mesmo, de começar o desfile, nesse caso porque junta 2 baixas. O Carnaval, futebol e educação são de amor da Gaviões da Fiel, que vai falar agora histórias de amor como a de Romeu e Julieta, de Zumbi e Dandara, foto de Lampião e Maria Bonita e, é claro, que o amor que todo corintiano não conhece bem, né. Moção Monique, só quem é corintiano. A comissão de frente, a tela abaixo que pega fogo, cante o hino da Mocidade Alegre sobre uma jovem orixá que tenta salvar o mundo. Era uma ideia antiga da ex-presidente da escola que morreu no dia 77 anos atrás, era irmã da dona desse cara. Procura agora. A gente assopra mulheres moderadas, como buscar do... Teve água jorrando de uma fonte da área de ouro, disse uma história da ciência ou da arte no fornecimento de nomes que estão nos livros com os Santos do bom Leonardo da 20. Emily é muito sábia porque é Emília, tão sabida. Diz, esse ano nós seremos campeões. Ai, você falou o contrário. A escola mostrou que o conhecimento também pode ser usado para destruir este carro alegórico, que representou a explosão da bomba atômica de Hiroshima. É, a gente tem ouvido muito falar da China, velho mesmo, que a gente ouvia sobre o local ou na veia das guerras comerciais, protestos em Rondônia. A escola da Vila Maria não se lembra que há muito mais. Para a sede dos núcleos de defesa, grande agradecimento por todas as coisas boas que a China fez; comunidade, pulso na pipa, pólvora, papel do leque do samba, os guerreiros vieram em agonia. As bandas ficaram ainda mais graciosas, bodas de ouro fez uma crítica ao uso da tecnologia, como ela nos faz deixar de lado a humanidade pelo amor, né. A escola usou a tecnologia para... teria saído de concurso, só fantasia mesmo que máquina alguma substituí o coração de uma escola de samba. No vou shovel hoje o professor acusado de pedofilia que filmava alunas em sala de aula. Agora o pesadelo do novo coronavírus chega ao fim para os brasileiros vindos da China. Foi uma comemoração rápida com despedidas, é, homenagens,

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em troca de lembranças. Quem é essa? Foi a última cerimônia que, dentro da base aérea de Anápolis, ficou com o perigo do novo coronavírus. Passou, não foi preciso usar máscaras, eles puderam interagir com o rosto descoberto. A liberação dos 34 repatriados e das 24 pessoas da equipe de resgate só foi possível depois que o resultado terceiro eso, que detecta o novo coronavírus, deu negativo. Além do laboratório central de Goiás, a fundação Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro também analisou 58 amostras coletadas na sexta-feira e depois de 16 dias de quarentena, agora, todos puderam vir pra casa. Unido quando o Carnaval e agora só quanta gente, depois de abraços, de despedidas o GRU para embarque para casa. 18 estados são o Distrito Federal mineiro. Victor Neves de 28 anos não marcou, ele decidiu ficar em Goiás na companhia do pai que veio de Belo Horizonte para buscar o filho. Isso é uma coisa assim gente, tem que valorizar de fato porque é aquele. Sentia nada, né, agora eu não sei. Se um dia livre de agradecimento à vida. Dos 2 aviões da FAB que decolaram da base aérea de Anápolis perto do meio-dia o primeiro voo chegou à base aérea de Brasília com 20 passageiros, de lá um repatriado foi levado pela família para a Serra do cachimbo, no Pará, em outros 2 vão seguir em voos comerciais para o Maranhão, ir pro Rio Grande do Norte. O segundo avião da FAB fez a primeira escala no parque aeronáutico de Lagoa Santa, na região metropolitana de Belo Horizonte, e deixa 13 repatriados. Hálito que estava doido pelo Carnaval e para reencontrar a família é um dos mineiros que estavam na China. Eles da zona da mata mineira haviam deixado no Brasil para estudar. Só de estar perto da família a gente se sente melhor e eu, a viagem para casa agora, com certeza vai ser só um final menos dessa jornada, enfim casa. A casa que eu estava vindo pelo caminho. Aí tá falando, mas outras usadas para milhares, estava falando, para mim é um novo renascimento dele, hoje estou me sentindo assim, como se eu tivesse também. Não falou bosta de Minas. Um avião seguiu para o Rio de Janeiro onde deixou 11 militares, em seguida foi para São Paulo, 13 pessoas desembarcaram. O reencontro dos repatriados com os parentes: fui à sala de autoridades da base militar no momento reservado sem a presença de jornalistas, o Márcio piloto na China, e disse que pretendo voltar depois que a doença for controlada no país porque eu quero pagar a minha família, né, que descansar um pouco de liberdade, porque a gente não tem nada de São Paulo. O avião seguiu para o Paraná onde desembarcaram 5 repatriados, todos os repatriados receberam uma declaração do Ministério da saúde atestando que estão livres da doença pelo coronavírus, no Brasil 53 casos suspeitos foram descartados até agora, 2 seguem em investigação. Do Rio de Janeiro, de São Paulo para todos que voltaram para casa domingo foi dia. Aí só médica então, assim, o meu papel, principalmente ele, foi dada a baixa de saúde e todos é patriciado, então, se eu falo que a gente pede: doutor resolve esse processo, até um vídeo pra todo mundo. É uma sensação de missão cumprida a parada final dos últimos 4 passageiros foi em Florianópolis onde houve o reencontro emocionante entre Isabela, de 1 ano e meio, e o pai. A mãe levou a menina para o ranho, outubro do ano passado, porque a família que mora na China conhece Isabella. O retorno para o Brasil seria em janeiro, mas só hoje a família pode ser e abraçar de novo. Quanto mais de 4 meses longe; YouTube, ouvir música computadores chegando ali, aí eu perguntei, mas ela disse que não acreditava que eu achava que vai ser um sonho. É, não pode ser assim, né, chegando. Aí eu senti que era real, foi um alívio, alívio talvez a palavra, palavra certa. Meu coração se acabou né gente, na Itália o governo publicou um decreto com medidas para conter o avanço do novo coronavírus, já são 3 mortos e mais de 150 graças da doença no país. 50000 pessoas em 11 cidades estão totalmente isoladas. No norte do país, Milão é Veneza. Ficaram de fora apesar de ter em casos da doença. Decreto também estabelece o cancelamento de atividades em cidades com doentes. O famoso carnaval de Veneza termina mais cedo e aulas foram suspensas. Na Coreia do Sul o alerta chegou ao nível máximo, o número de doentes passa de 600 com 6 mortes. O Iran confirmou a oitava morte pelo novo coronavírus, vários países restringiram viagens nas fronteiras com o Irã. Subiu para 122 o número de assassinatos no Ceará em 6 dias de motim de policiais militares. Tropas do exército reforçam a segurança. No cenário de férias de Carnaval soldados ocupam várias... hoje em Fortaleza e nas cidades da região

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metropolitana são 2500 militares do exército e 150 homens da força nacional, ontem as autoridades registraram 34 homicídios. Sexta-feira foi um dia mais ou menos e seguinte ao motim de policiais militares, com 37 homicídios. O principal batalhão do estado, 18º em Fortaleza, continua fechado de... pneus das viaturas foram furados e os veículos bloqueiam a passagem. Pelo -9 cidades do Ceará cancelaram o Carnaval por conta da crise na segurança pública. No fim da manhã o senador licenciado Ciro Gomes do PDT teve alta depois de 5 dias de internação, ele levou 2 tiros depois de tentar entrar com uma retroescavadeira em um batalhão da PM em Sobral. Cid Gomes já está em casa aqui em Fortaleza se recuperando, confira: terapia respiratória de antibióticos. Ele continua com o projeto em um fragmento alojado, que não devem ser retirados. Os policiais militares querem reajuste salarial, o governo anunciou um aumento de 1300 BRL, a serem pagos de forma progressiva até 2022, 2 das 6 associações recusaram, querem um aumento de uma vez, ainda este ano. BM, os policiais civis, bombeiros e agentes penitenciários são proibidos de fazer greve. Está na busca do estão eu. O entendimento foi reforçado por uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Momentos como estes são considerados motivos, policiais militares identificados estão sendo punidos, quase 170 já foram afastados por 120 dias. De bom aí pra mim. Outros policiais são investigados, podem responder a processos disciplinares. 37 policiais do Ceará que deveriam trabalhar neste Carnaval foram presos, considerados desertores. Também foi criado um batalhão provisório para custódia de crimes militares no estado, a madrugada de sexta para sábado foi uma peça mais violentas da história do cinema. O fantástico acompanhou o enterro de policiais civis em Fortaleza, 12 horas de meia-noite, amigo, de um silêncio quebrado pelo pagamento das sirenes. Sou eu que isso aconteceu, mais um preto, sou muito medo à noite. A gente acabou de receber a informação de duas jovens, foram assassinadas. Tem que ser pra lá, pra ver o que aconteceu. As vítimas são os irmãos Andreza e Abri da Silva Mendes de 20 e 17 anos, elas conversavam na calçada quando foram atingidas por disparos feitos por 2 homens em uma moto. Você lembra de ter outro, rotina desde curtinho de policiais militares, foi anunciado na terça-feira. Homens encapuzados citaram esvaziar os pneus de várias viaturas e mandaram que comerciantes fechassem as portas. Nos alguns batalhões ficaram assim, com a entrada bloqueada por carros da polícia. Minhas análises do estado dispararam, bom a minha noite e meia, mas o sétimo dia é praticamente uma cidade por hora, desta vez a vítima é um homem assassinado dentro de casa. Imagina uma casa, embora alguma coisa chegue direto no iniciar calculadora. Toda palavra: que horas, okay, essa tabela, é isso que nós queremos e vamos defender, mas aí houve uma reação de parte dos policiais nas redes sociais e no dia seguinte ele começará. Uma volta atrás na palavra negociadores que estava lá, entendeu naquele momento que era melhor. Mais parte da data, só que não aceitou também, toda a categoria, disse, rechaçou aquele acordo fechado na Constituição brasileira. Proíba que servidores da área da segurança pública... passou um prego entre outros motivos, porque presta um serviço essencial à sociedade, porque tem um poder de coação maior. Muitas outras categorias, festa não é a primeira vez. Uns policiais usam os dados: em fevereiro de 2017 a PM do Espírito Santo ficou 20 dias parada. Pelo número que eu me senti. Também um momento com muita interação ao mesmo mês do ano anterior no setor, dos mais abrangentes já feitos no Brasil, mostra que é uma tendência o crescimento do número de paralisações de policiais dos últimos anos. É, a principal motivação geralmente é um aumento de salário, reivindicar salário, supergente, mas fazer essa utilizando as mesmas táticas, mesmas técnicas, que o crime organizado faz pra apavorar a população é perder a razão logo de partida, isso a gente não pode aceitar. 3 exatamente com cada respiração, né, esse é o medo que se tem no país. No caso de Paulo Taques não sei direito, tem que se esconder. O Ceará, rodamos mais de 100 km acompanhando as equipes do departamento de homicídio, é seu oitavo homicídio, é a primeira vez que a gente encontra a polícia militar no local da ocorrência, a presença dos pMS, nobre, explicada. A ocorrência envolveu um policial militar de folga, ele teria trocado tiros com 2 homens que estavam neste carro, para lá, e pegar o comércio. Já fecharam a ele, EI Cortana, Ah, foi rápido cm.

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Ah, então vieram para matar um policial, pra matar ele, não entendi. Essa nesse ao dado não ficou ferido, mas 2 homens morreram, são tantas mortes que mesmo com chuva o departamento de homicídios não fala. É um tempo inteiro assim, nessa correria de um lado pro outro da cidade, aumento menor do que é social. Locadoras de agora só aparecem à noite, né, só não resolva o Ceará. Não é o único estado que enfrenta a pressão da polícia por aumento de salário, de acordo com associação nacional dos praças 14 estados estão negociando com os policiais e outros 5 concluíram as negociações dos últimos meses, deles, foi Minas Gerais que na semana passada anunciou um aumento de 41%, a medida causou polêmica porque Minas é um dos estados mais endividados do Brasil, isso pressiona todos os demais a perguntarem, as polícias a reivindicarem condições semelhantes, ou seja, Silo Minas, que é Minas, com as pontas tão quebradas conseguiu, por que os outros Pablo não conseguiram? Espera um pouco, as madrugadas, vários momentos da história do Ceará, chuva não ter, as ruas ficam cada vez mais desertas. Essas mortes não pago, dessa vez a vítima é Samuel Garcia de 21 anos. Eu vou dormir aí pessoal, queria pesada nesse único inscrito, você, 3 horas da manhã e bota a gente acompanhado o trabalho da perícia numa cidade vizinha. Sem perto aqui, no carro da polícia civil foi atingido por vários tiros no dia 23. Do comboio que estava participando foi recebida a bala, o senhor verificou? Metralhadora, aquela que passa e pega. No grupo policial, no pé da criança, na sede do departamento de homicídios da movimentação intensa, na rua Carlos do IML, que estão parados, já não há mais espaço para tantas vezes abrir outra cidade. Um homem é morto junto com a filha a tiros, um bebê de 1 ano e 11 meses, os técnicos que participaram do motim querem ver a Kira. Se negocia ações na proporção de pelo -7 dias, logo ele que não tem feito pra te ver. Agora não tem mais negociação, olha a negociação foi feita, né, todos acordamos. O tempo agora é impossível. Você negocia com pessoas de calçadas para crianças. No período de 12 horas entre, o fantástico circulou pelas ruas do Ceará, foram registrados 30 assassinatos, mais de 2 por hora. Na semana anterior com essa merda, tinha sido de 11 por dia. sync: por isso que eu perdi meu irmão, tem banheiro? não tem, nada tem, não tem nada aqui, não tem nada, quem Sobral é repatriação do Torres, reconstituiu passo a passo o confronto que por pouco não terminou em tragédia sync: semana de crise no Ceará, valorizam o que aconteceu na quarta-feira. Todos precisamos de português, mesmo policiais amotinados no quartel da polícia, unidade de Sobral Xbox Bing. Os acusados não tinham ordenado que o comércio fechasse as portas, todo mundo apavorado fechando as pontas, todo mundo. Os ídolos aqui passando mal na calçada, foi um terror. Currículo Gomes, prefeito de Sobral, irmão do senador, descreveu o clima da cidade. Parece assim: que você tava lá no Afeganistão as ruas são tomadas pelos talibãs, pelas aquelas pessoas em caçambas, mascaradas, com armas na mesa, mais de 200 km, né. É mesmo de andar mais, não pode, pela nossa conversão, fazer greve. Ele percorreu as ruas da cidade em cima de uma retroescavadeira-parricídio, grupos de apoiadores foram para o papel do povo, bate boca e atenção. Aumentou depois que ele deu retorno algum no sync: número da voz de prisão para o líder do movimento dos policiais em Sobral do sargento da reserva, Helton, ele, o único que não estava encapuzado, ele acorda a cidade, o partido solidariedade. Depois previsões: não tenho duas tardes pra saber se vou te dar um soco no rosto, de cid Gomes, que são servidos normalmente até o momento que foi agredido fisicamente com socos, é, puxões de blusa, que tem um companheiro que na mesma. Passar na taça, na ameaça, né, burra é os outros meses, que tinha, né, para poder fazer o que eu te disse. Assim, em seguida, o senador avança com a retroescavadeira contra o portão e as pessoas, vários dias paradas. Vou resumir o caso: ele passa pelo executivo. Vou apertar os que existem. Uma parte daquela natureza foi uma coisa muito grosseira, é muito profissional. A gente foi pra conversar e aí foi dado momento surpreendido com a ação: um disparo de arma de fogo começou, mas é como eu disse, espere, eu vou passar a namorada dele. Mais de 1 hora de carro, com equipamento derrubando, tá pegando o patrimônio público, então, já imaginou muletas, cadeira? Você falou com a próxima, encostada na... não, não aqueles profissionais daquelas famílias que pela lei não toque a mais seriam um desastre. As

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pessoas ao chão ali, notas na forma violenta, nomeadores da torre também não têm nada, ficaram feridos. Tivemos lá, é, policiais, é, pai, Leonardo, ouvir uma perna faturada, outro também, inclusive com outro também, ferido no seu dia-download-sociais. Para se despedir inicialmente a especialista em armas de segurança pública, a pedido do fantástico, ela analisou as imagens sync: 78 disparos que foram muito altos, Vinícius também contou o número de atiradores, 2 menos 3, do que foram os primeiros disparos ainda próximo do portão, do Você como mãe, o terceiro faz pelo -4 disparos. Não passou o tempo, faz estilo romano. Você chegou e foi levado para o hospital de Sobral e depois transferido para Fortaleza. Nós conversamos com o médico que atendeu os senadores Sobral, ele chegou a trazer algumas pessoas, já com dificuldades paratória, uma queixa de dor, é, toques foram. 2: cheiro doce, letras de fogo, mesmo projeto, não houve atração na caixa de graça, certamente deve ter esbarrado com vidro Tatuí, perdeu força, certamente no vidro. A outra bala parece-me exame de raio x, alojada entre as costelas, do lado esquerdo, perto do banco abaixo do trailer, do o que pode ser um pedaço da bala que se partiu... e não, não compromete estruturas novas. Não, não tem nenhuma indicação formal de fazer uma retirada do projétil, nem do fragmento. Depois de passar por eles, da polícia civil, da polícia federal, a área 3 cavaleiros foi trazida para este canteiro de obras sem coberta. Por uma lona é das cadeiras, estava sendo usada da palavras em torno dela, como aos próximos. A cidade era normal, o senador Cid Gomes teve alta hoje, não quis gravar entrevista da polícia civil do Ceará, abriu inquérito para tentar identificar os atiradores no senador, pela polícia federal Xbox desligar. Os dados continuam, a quantidade máxima nova de local, agora saiu. Queda no prédio onde funciona a Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas no Cruzamento de Rondas Ostensivas. Serão estantes, briga no avião, uma mulher terminou a 101 passageiros atrás dela. Resolve se vingar da pessoa, tem direito. A que eu confundi, eu acho uma falta de consideração, vou acordar surpresa toda de empatia e intimidade. Não é o Candangão, rei dos contatinhos, eu só tô vendo o Brasil.

* transcrição automática do primeiro bloco do programa Fantástico

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Autocrítica Ilustração por Santiago Segundo

Caro Usuário, Acabamos de inaugurar nossa seção de 'Achados e Perdidos'. A partir deste momento estamos aceitando emails com descrição precisa do onde e do quando seu objeto favorito foi perdido. Prometo mover montanhas e sofás para verificar se o relicário não se encontra sob nenhum deles. Até vejo se consigo verificar um ou outro trono por aí. Mas antes, por obséquio, pense nos passos a seguir: colocar o dispositivo 'cabeça' no aparato 'privada' e esperar a ação 'descarga' levar o óbvio a seu paraíso. Uma vez chegando lá é bem provável que a procura se encerre. Um ano e meio e nenhuma mensagem sua. Falando bem a verdade, isso é quase um alívio, como se a loucura se confirmasse e tudo o que temos de fazer é particular e seguro. Mas a lógica em nossa estupidez faz o contrário, escrevemos e pintamos sobre papéis incertos. A palavra Revista também sugere um novo exame, uma segunda vista. Nem tudo o que você vê é proposital, como desejamos. Poderíamos defender até o final, caso esta obra finalizasse alguma coisa. O fato é que, se nada acontecer no meio do caminho, uma nova edição surgirá, puxando seu braço por veredas tortas mas cheias de flores. Imagem linda que se acabará junto ao ponto final. Antes de nos despedirmos, meu gato andou me surpreendendo esses dias. Esqueceu para que servia sua caixa de areia e nela construiu um belo castelo. Hoje caga aonde lhe dá na telha. Eu também acredito em você.

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Manifesto Gráfico Não há muito o que dizer quando não temos com quem conversar. A USO sempre foi pensada para a rua. Agora é, temporariamente, tela. Em tempos duvidosos, cedemos ao digital. Mas mimetizamos o papel. Nós, que aqui estamos, por vós esperamos.

† Todo sistema falha.


#3

junho de 2020

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Revista USO #3 - Pandemia de 2020

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