Revista USO #1

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#1 ano 1 maio de 2019 revista de literatura, do clรกssico ao vulgar.

uso,



revista uso,

inferno de 2019


Produção Editorial Pedro Mirilli, Santiago Segundo e Thiago Mostazo Projeto Gráfico e Diagramação desenvolvido por Estúdio Pavio Bernardo Brasil e Lidia Ganhito Capa Gravura de Maria Rosalem e layout de Bernardo Brasil Folha de rosto Gravura de Maria Rosalem Literatura Avelino Alves, Georgia Garms, Isadora Lobo, João Mostazo, Mariana Pougy, Marina Mole, Neurastênico de Guadalupe Bezerra, Santiago Segundo, Thiago Mostazo, Tim Bührer e Tomaz Civatti Artes Visuais Anaís Escalona, Anita Lisboa, Cipriano Souza, Mariana Pougy, Maria Rosalem, Matias Vilardaga, Mirilli, Renata Torralba, Santiago Segundo Colaboração Guilherme Ziggy, Moara Brasil e Vitor Campilongo Revisão João Mostazo Impressão Capa em Papel Fcard Canário 180g/m² e miolo em papel Alto Alvura 90g/m². Composto usando as tipografias TT Norms e TT Tricks da fundição russa Type Type. Impresso na gráfica Psi7 em Junho de 2019. Tiragem de 350 exemplares.

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Editorial Aqui está um documento. Ilustrado por Mariana Pougy

Há uma bolha lisérgica que envolve os tempos. Não há nada mais hediondo que o eco sistêmico. A criação é um meio de sobrevivência. A sujeição, um passaporte para a covardia. O que há de infantil em nós não pode ser deixado de lado. A inocência da dúvida como arma contra o desespero. Em suas mãos, um produto. Em movimento, uma ideia: USO Às margens do espetáculo, a literatura nacional inova e se desenvolve. Experimenta-se ao abolir certezas. Os olhos assistem crescer o fascínio e o fascismo. Escritores e artistas resolvem abandonar a posse da linguagem. O uso nos parece mais sápido. A arte é o paladar para o mundo. Temos fome. O aguardo ansioso da goela inchada e o buraco negro do estômago por domar para que o vômito permaneça sempre poesia. O banquete está pronto e estão todos convidados a se lambuzar no óleo quente que escorre das palavras e sangra as gengivas. Aqui estão reunidos textos, ilustrações, colagens e fotografias afaimadas pela destruição da tradição e que não existem sem ela. Um processo cuidadoso de ressignificação que desafia os olhares assustados para enfrentar as incertezas que não podemos admitir e conclama para o ato de ser e fazer poesia. Do clássico ao vulgar é apenas uma orientação que guia uma geração perdida no êxtase de um novo mundo porvir. Use como quiser. Eis o método!, a certeza da combustão espontânea. Da pintura rupestre ao roubo, do código ao som, da razão ao ilusionismo, do teclado ao papel, do material ao imaterial, e todo o curto tempo de uma vida para crucificar, santificar e aniquilar. O zero bate todo o dia na porta. Então, há de ser ninguém e todos, não há lugar para um nome. Não há propriedade. Somente uso.


Dia de Santo

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Pintura de Cipriano Souza

Lampeiros lápides

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Texto de Georgia Garms Ilustrado por Renata Torralba

Era ela era eu

14

Texto de João Mostazo Ilustrado por Renata Torralba

Limítrofe, ou o caminho da borda

23

Texto de Isadora Lobo Ilustrado por Mariana Pougy

Inseticida/Ciúmes 31 Textos de Mariana Pougy Ilustrado por Renata Torralba

Como adubo sirvo à terra

33

Texto de Tomaz Civatti Ilustrado por Maria Rosalem

Os pássaros das suas palavras Texto de Avelino Alves Ilustrado por Anita Lisboa

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Suco de Tramoia com Maracutaia

45

Texto de Neurastênico de Guadalupe Bezerra Ilustrado por Anaís Escalona

1 2 3 de Oliveira 4 Júnior

46

Texto de Santiago Segundo Ilustrado por Cipriano Souza

3. 50 Texto de Marina Mole Ilustrado por Anaís Escalona

Corrimão verde-bosta

65

Texto de Thiago Mostazo Ilustrado por Pedro Mirilli

O caminho de baixo

70

Texto de Tim Bührer Ilustrado por Matias Vilardaga

autocrítica 77

sobre o projeto gráfico

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Dia de Santo



Lampeiros lรกpides Texto de Georgia Garms Ilustrado por Renata Torralba

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Na fragilidade precária, partir-te-ás Enrustido com o oblívio póstumo Anamnese empírica de uma saudade Estonteante com o pretérito presente Neste presente desgraçado. Sobremodo miserável. Conspurquei tempos verbais, pospondo-os Nos seixos sacros sem céu nem cera; De vela? — de lápides ávidas por preces. Acendê-la-ia se soubessem os santos Que a saudade há de ser só e sádica Assim como tu não hás de voltar jamais...

As relvas cobriam nossas quase avenidas Vendei-me com pano verde: ablepsia. Nostálgica e perplexa, confesso, parti Tendo a certeza insegura do reencontro Com teus olhos cor de graxa; Amor, eis-me aqui, novamente combalida. Se o mundo há de matar a vida, que mate pois! Renego o devaneio dos panglossianos: Nem mesmo Voltaire desencovaria a ledice Que tu levastes em tua própria cova. Se o mundo há de matar a vida como Matou a ti, meu amor, que mate também Minha saudade Deixada em terra:

Leve-a ao além, Leva-me, meu bem.

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Era ela era eu Texto de JoĂŁo Mostazo Ilustrado por Renata Torralba

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1. Tem uma corda que pende do céu, ninguém sabe de onde; tem essa corda que baixa do céu até quase o chão, na altura da cabeça, ninguém sabe como ninguém sabe por quê; tem essa corda e no fim pende um gancho de ferro, grosso, redondo como um cadeado aberto, incompleto como um ferrolho aberto, como um cadeado aberto, sem chave; faz sol e tem essa corda que cai do sol ninguém sabe quando; tem um tornozelo na ponta do gancho, e o gancho tem manchas de sangue secas e de ferro de sangue e com cheiro de ferro que é cheiro de sangue; é o tornozelo de um animal pequeno que pende e parece uma isca pendendo do céu (ninguém sabe pra quem); é um cordeiro, um carneiro, uma ovelha, um novilho, o animal pelo tornozelo na ponta de um gancho de ferro e de sangue na ponta da corda que pende do céu e pinga de sal e cheira a suor e a sebo e a ferro e que ninguém vê e que ninguém toca e que é o próprio demônio aberto, na multidão. Alguém abriu o bicho porque eu senti o cheiro; alguém abriu a faca, não sei, a unha, o bicho, o bucho, porque eu senti de longe o cheiro; alguém abriu e deixou aberto, o bicho, o bucho aberto do bicho, aberto, ali, pendurado, alguém que não se importa, alguém que não se comove (alguém que gosta da peste, que quer espalhar a peste), alguém sem alma, com uma pedra no lugar da alma, com uma pedra, alguém com uma pedra no lugar da alma abriu o bicho e deixou o bucho do bicho aberto e todo pra fora e foi embora e não voltou mais, e eu vim depois porque eu senti o cheiro, eu vim fechar o bicho aberto, eu vim fechar o demônio aberto, eu vim costurar as coisas, eu vim encerrar a peste.

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Tem a peste, a peste é o ar; a peste é o osso; a peste é o caroço de ar dentro da fruta estéril; a peste já estava aí, a peste está aberta, a peste não é boa, a peste dói, a peste mata, a peste corrói tudo e não deixa nada pra trás; a peste fica parada; a peste não se move; a peste é o ar ficar parado; é tudo ficar como se fosse terra, como se fosse um afogado na terra, como se fosse um náufrago em plena terra, se afogando; é como se fosse alguém enterrado vivo, durante o dia, em pleno sol, como se fosse o cheiro de sangue e de ferro e de sol no gancho, no tornozelo, na peste aberta; como se fosse estar na frente de um negócio que está aberto e que não dá pra entrar, que você não consegue entrar, eu vim fechar isso, eu vim fechar isso que fica aberto e convida a gente a entrar mas onde a gente não entra porque não consegue, porque não pode, porque é proibido, porque é permitido demais. Tem essa corda e tem esse gancho e tem esse bicho e tem essa peste e isso é a guerra, no fim é a guerra, uma guerra parada, uma guerra não declarada, uma guerra aberta onde a gente não entra porque está aberta, na rua, na vida, é uma guerra na vida, aberta, e ninguém entra em guerra porque é proibido dizer que existe a guerra, porque a guerra não é declarada, porque a guerra é tudo, e dispensa ser declarada, porque o que é tudo, o que é absoluto, ninguém precisa dizer; é a guerra aberta, absoluta, no meio da multidão e ninguém entra na guerra, e todos estão na guerra.

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2. Daí ela viu uma barata – um inseto qualquer, uma barata – ali, embaixo do cordeiro – o cordeiro pendurado caindo do céu –; uma barata, ela vê essa barata; ela ali entre o cordeiro e a barata; entre o cordeiro sacrificado e a barata sobrevivente, e eu entrei de novo nela, que era o nada aberto entre o cordeiro e barata, entre o bicho aberto na ponta da isca que caía do céu e o bicho fechado rastejando no chão, como um tanque de guerra em miniatura rastejando no chão, livre, rastejando livre no chão como um tanque de guerra depois da guerra procurando os corpos, procurando comida, um tanque de guerra triste, fechado, rastejando no chão, depois do apocalipse, depois da guerra, durante a guerra que dura até depois da guerra, durante a eternidade morta que fica, o deserto morto que fica quando só fica o cheiro e o cheiro chama e os tanques de guerra tristes, fechados, encouraçados vêm rastejando, ziguezagueando, tontos, sobreviventes, heroicos, e eu dentro dela vim por causa do cheiro também e ela é meu tanque e eu sou a tristeza dela.

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Vieram então um bando de homens, eles vieram de longe, eles vieram com a peste; eles trouxeram as coisas deles com eles; eles não tinham muita coisa; eles eram uma coisa pura, uma coisa pouca, quase coisa nenhuma, pura que nem uma pedra; vieram, os homens, o bando, e eu era o tanque e recebi eles como um tanque e eles eram um monte de estilhaços, dispersos, andando, atravessando as coisas, sobrevivendo, e eu perguntei o que eles queriam e eles disseram que queriam comida, e perguntaram o que era aquilo, se era comida o bicho pendurado, aberto, o inseto rastejando, fechado, e perguntaram quem eu era, e disseram pra onde eles iam, e perguntaram se podiam passar; e eu, de dentro dela, não deixei.

Eu era o amargo dentro dela, eu era o canino, eu era a ameaça de tudo contra tudo; eu era a guerra, eu era o que tinha sobrado da guerra, eu era a guerra que cancela o passado, eu era a guerra que falava dentro dela, e eu dizia: não; não é meu esse corpo – é dela; não são minhas essas armas – são dela; não sou eu quem morre – são eles, e não era o meu desespero, era o deles, e era tudo um amor muito grande e uma comoção muito grande, e as coisas mudavam aos poucos, e eram tranquilas, e eu não tinha saída senão ser que nem eles, e me dissolver neles, e querer ser todos eles de uma vez, como uma nuvem radioativa, como um perfume, como um perfume radioativo, como um câncer dentro de todos eles. Era um pedaço de comida na garganta, era uma coisa atravessada, era um caroço;

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era uma boca aberta, era uma coisa que não ficava satisfeita, era uma fome; era uma música em pleno silêncio, era um zumbido, era uma tosse; era a boca do cano das armas tossindo; era um canhão apontado pra dentro; era eu, ela e os homens; era eu dentro dela e ela dentro dos homens; era um caminho, era o veneno exalando do bicho; era o tanque e era eu; era eu e o bicho e o tanque e os homens e o silêncio, todos juntos, todos nós uma mesma poeira.

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3. E eu dizia pra ela, de dentro dela, não me pergunta, não me pergunta pelo fim; me pergunta pelo buraco de onde a gente saiu, de onde a gente nasceu; me pergunta pelo meu começo, pela minha semente, pelo barro de onde eu saí; me pergunta desde quando eu estou em você; me pergunta desde quando eu te conheço – e eu te respondo: desde sempre. Me pergunta o que você faz – e eu respondo: eu faço a guerra. Me pergunta o que você vê – e eu te respondo: a guerra. Me pergunta pra onde você vai – e eu te respondo: pra depois da guerra. Eu vou pra depois da guerra. Que é isso que vem por trás de mim, entra na minha cabeça e sai pelos meus olhos, e que eu não sinto, mas vejo, e sinto que senti, e vejo nos meus olhos que eu devo ter sentido, porque eles estão abertos, porque eles estão vivos, ainda que fixos, porque eles estão vazios; que é isso que entra por trás de mim, pela minha cabeça, e que é uma luz, é uma lança de ar que me golpeia, que me atravessa, que me empala e me arrebata, e que eu não vejo, mas sinto quando levo a mão à nuca e verifico que estou ardendo; é isso que me hipnotiza sem que eu saiba, que me derruba, que me anula e me possui e passa e não deixa nada e não volta mais, e que é eu ter olhado pra ela e ela ter me olhado de volta e nós termos sido nós mesmas e termos sido de tudo um pouco também. Vai ser isso: um nada tranquilo, uma calma violenta, inevitável, depois da guerra;

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vai ser uma coisa parecida com o amor, que vai lembrar o amor, mas não vai ser o amor; vai ser menor que o amor; vai ser uma mão que não se mexe; vai ser uma boca que não fala, porque não precisa falar, e um coração que fala com tudo, que tem um pedaço de tudo dentro dele; vai ser um novo começo, isso que começa depois do fim.

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Limítrofe, ou o caminho da borda Texto de Isadora Lobo Ilustrado por Mariana Pougy

Prólogo Naquele dia em que o vi, ele se arrastava por entre as ruas tortuosas da cidade. Tinha raiva, raiva rígida de bolor e nó na garganta, algo podre por dentro que se contorcia como um tigre ao avesso, como quando as extremidades de seu corpo frias, ele tremia daquele jeito que só se pode tremer quando se ama. Pensava na morte e nas coisas doces, ridiculamente doces, que ele não podia deixar de perceber em seu redor, uma náusea, uma náusea de nunca sair, entalado amor, demasiado esférico e não líquido, demasiado não líquido para ser um vômito, demasiado amplo para passar pela garganta.

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Promessa Na sua tentativa por percorrer as sensações, por transitar entre os extremos através dos quais em jura de morte prometeu a seu Deus: o seu Nada, que descobriu tão cedo na vida ao olhar pra morte em suas noites quentes de não dormir verão. Eu prometo, prometo que não darei um passo atrás enquanto não conhecer as fronteiras, os limiares erótico-cortantes da vida, ele me disse. Desde então era um tigre, gritou e urdiu como bem entendeu as fronteiras do mal-bem fazer ou dizer, questionou o que só poderia ser infinitamente inquestionável e me disse assim: sou um doente. Um doente, da cabeça aos pés. Não admito que me maquinem de forma a suavizar os meus princípios, entretanto me dispo de qualquer moral de forma a ser capaz de percorrer todas as necessárias polaridades da vida para que então possa, ele me disse, para que então possa contemplar a Unidade vazia do Universo inteiro. Foi isso que pensou que faria, de forma a contemplar o Todo, ele me disse, eu não volto nunca, não me chamem, não buscarei jamais apagar as rugas e cortes do meu corpo, irei envelhecer e contaminar-me a mim com toda a sujeira que existe pelo simples fato de contemplar, com assombro, que tudo quanto existe no mundo, tudo quanto é podre existe também em mim. Eu não vou mais recusar pois o que recuso se torna sombra, vou enganchar a vida, eu sei! Eu vou morrer. Eu sei que morro e por isso vivo, como a luz nasce da sombra, a sombra que da luz se apaga, ou algo assim, algo assim que contaram a ele, uns homens guru, mulheres de olhos caídos de gravidade aceita e tristeza, também busco esses olhos tristes em um eu futuro ele me disse, esses olhos tristes que sorriem sem sorrir e parecem conter a mais pura verdade de tudo quanto existe. Ele foi outro, outro que se embrenhou na fantástica-fanática travessia dos extremos.

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Banquete Então comeu: comeu todo e possível fruto-sumo que em enegrecidas esquinas sujas pôde encontrar. Comeu e lambeu, ele me disse, lambeu a rua, o poste do sexo que se fazia a tarde enquanto na baixa noite se pensava, enquanto na madrugada mostrava os dentes. Lambeu os dedos, os dedos em que sujas suas extremidades podia sentir suas lembranças cheiros de uma criança que ainda era, e não tão breve deixaria de ser, não enquanto não sentisse em sua boca todos os sabores da maturidade. No caminho percebeu a carne, carne essa que comia do prato, igual a carne de que era feito. Orgânico ele, como um bicho raivoso. E se lhe cortassem a carne, e se lhe cortassem a mão, os órgãos as pernas, e então que seria ele? Com a carne enfim no prato, carne sua, que seria? Consciência eterna de percorrer vertigens, buracos negros, mais um espírito a redondear o mundo? Coração que existe, resiste, amor existe no meu peito de forma que me faço humano, mas coração… poderia ser comida igual. Igual a uma coxa, um seio, uma nádega. Mas o que é isso? O que é isso, ele me disse com seus olhos e bocas a me comer como sempre, a querer falar de um mundo que não entendia, a querer explicar esse assombro que se revelou naquele belo dia de bruscos entendimentos, aquele dia que mudou sua vida, que foi quando entendeu, ele me disse, que pela constituição de seu ser, por toda a conjunção astral do instante bruto em que nasceu, que não poderia nunca percorrer o mundo como os outros, ou o que imaginava que seria isso, o que imaginava que seria os outros, por mais que tentasse não podia. Então parou. De tentar, ele me disse. Buscou buscar, por oposição, outras coisas com que se fazer com a boca, outros sentidos a se confundir em suas sinapses caminhos, vibrações de pé a cabeça que sentia quando as vezes respirava, que era energia mesmo percorrendo, ele sentiu os sabores necessários para a justa liberação, o caminho para uma libertação de todos os sabores, era o que trilhava com convicção. Bebeu-comeu a vida, a vida inteira, se empanturrou de todo quando gosto. De todo fruto vinho sim ou não fermentado, estragado ou puro porque precisava. Porque. precisava. sentir. Ele me disse, precisava sentir.

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Efeitos Mas chega o momento em que é preciso parar, ele me disse, pois do contrário não há, porque por mais que se continue bebendo para não sentir a ânsia, tudo que se pode é adiar. Ele sentia se aproximar o verdadeiro extremo, o das profundezas, o que se segue a todos os outros, pois que a ressaca uma hora vem. Ele previa tudo que se seguiria e por isso ainda devorava o mundo, com raiva, com gula, já empanturrado, mas sem poder parar. Foi num dia normal, um dia talvez como outro, mas tão logo se apressava em iniciar a sua rotina de incontáveis perdições, sentiu não caber mais. Sentiu que se mais comesse bebesse explodiria, que quanto mais um pouco absorvesse os entornos, poderia mesmo morrer. E então se seguiram os seus dias de náusea, os seus dias de esfera encalhada em si a querer sair mas que não suficientemente orgânicos, não suficientemente reais a serem botados para fora como um vômito, pois que não era um bem isso, era um algo maior, constatou: sua vida. Sua vida que precisava sair para fora mas ele não estava pronto para morrer, ele me disse, morrer pela vida como deveria. Quem se encaminha pra morte pensando em renascer ainda não entendeu nada sobre a vida, não entendeu de fato nada, ele me disse. Não, não era assim que queria proceder, precisava morrer mesmo com convicção, paixão, mas todavia tinha medo. Enfastiado, quebrado, cansado, ele me disse, em todos os seus poros, em todos os caminhos vísceras do seu dentro: estava ainda vivo conforme quase morto, era preciso dar um ponto final. Mas o que seria morrer, sim, morrer seria comer um algo a mais, o que quer que fosse, se comesse um algo a mais então vomitaria e morreria, ele sabia, ele sentia, era mais que pensamento.

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Privação E então se seguiram seus dias de recusa. Dias de oposição a tudo quanto vinha vivendo. Não saía, não bebia. Não sentia, não comia. Nada poderia passar garganta abaixo, ele sabia, ele não tentava. Pois sentia que se... Pois sabia que se... E não estava pronto. Ao mesmo tempo sentia que nunca estaria, deveria comer? Pois que bastaria um grão, uma semente, para que tudo viesse abaixo. Mas daquele jeito não poderia viver. Não poderia viver de privação. Ou poderia? Era por de fato o extremo oposto daquilo que vinha vivendo até agora. Então talvez pudesse. Talvez pudesse, ele me disse, pois era preciso percorrer todos os extremos, todos os extremos para que eles enfim pudessem sumir, ele me disse. Estava obcecado. Embarcou da fartura desmedida para a ausência. Ausência completa, mil escudos em seus poros, orifícios, portas de entrada para o mundo que deixavam uma a uma de cumprir o seu papel, entradas saídas que em outros tempos eram fluxo, puro deixar-se incendiar, então agora: caminhos fechados. Encerrados. Não comia mais nada. Privação. Recusa da vida, das relações, de trocas que antes lhe davam a força necessária para continuar andando, agora nada. Nada me fazia correr o sangue, simplesmente pois não havia sangue suficiente para correr, apenas o mínimo, o mínimo possível para sobreviver, se é que se podia chamar aquilo de sobrevivência, ele me disse. Virou um inane, um desprovido. Uma quase não carne pessoa, que se estirava nos limites dos ossos, um sem efeito, um sem nada. Curioso que para não morrer tenha escolhido o caminho da privação, pois que assim também morria. Era, no entanto, uma morte diferente, um morrer não do excesso, mas da falta. A sua morte, inevitável, ele percebia, tinha apenas mudado de rota. Foi novamente de um extremo a outro, como se havia prometido desde o início. Seguia o seu caminho agora obediente a seu destino, estômago desexistente, conformado a sucumbir da fome.

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Aceitação Mas não morreu. Por um milagre, uma chance do inferno céu, continuou vivo. Para o espanto de si e dos outros. Vivo-defunto osso, porém vivo. Coração carne que ainda batia, insistia subversivo ele como sempre fora, coração indócil feroz, insistia em bater ressonando num corpo oco. O que faltava para morrer? Era o desejo, ele me disse, e em um dia talvez como outro, acordou e não mais pensava na morte como símbolo para o renascimento, e sim na morte como fato, como desfecho, circunstância, necessidade. Era então o que queria, acabar com aquele sofrimento, com aquela ausência de tudo. Pois que nada poderia ser pior que aquilo, aquela falta que sentia. Nesse momento soube que estava pronto. Pronto para morrer. E já sabia o que precisava ser feito. Se arrastou até a rua, sua antiga casa e comeu: devorou toda aquela comida, aquela comida da rua risada nervosa de dentes sujeira, corpos caminhantes vivo dejetos apodrecidos, memórias de todos os tempos incrustados na matéria, engolia tudo que havia por onde passava, comida, comida viva de que a tempos se privava, sem distinções. Verde, madura, passante, passada. Comeu os postes, os velhos postes seus conhecidos, o concreto, os vírus bactérias do ar, as margens, as esquinas, pessoas, meios-fios. Comeu tudo e chupou o dedo. Engoliu tudo quanto pode, tudo aquilo de que havia se privado durante esse longo tempo, até o seu limite, até cair de joelhos no chão, seu corpo antigo oco agora explodindo novamente de mundo em si. E então não esperou muito e já veio: o vômito, o jato, o impulso vida-morte lá de dentro que há tanto tempo engolia. Uma duas, mil, quantas vezes foram, toda aquela vitamina, mundo suco gástrico de dentro si, sua raiva medos, impulsos, desejos despedaçados de vida sexo, tantos amores a chocalhar em si, sua infância, aquele contido, enlatado, já não era escolha, necessidade, era o que vinha, não podia conter. Vomitou tudo.

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Posfácio E foi assim que morreu. No dia seguinte, quando abriu os olhos diante de mim que o encontrei, não pude deixar de notar o olhar de olhos caídos de gravidade aceita e tristeza, como os homens guru mulheres de outros tempos, esses olhos tristes que sorriem sem sorrir. Era real? Bancava um papel? Diante da minha dúvida ele parecia se divertir, diante dos meus medos acenava tranquilamente. Não havia um atalho, ele me disse, tampouco um jeito de descascar a verdade dos outros. O único caminho possível, ele me disse, era morrer pra descobrir. Mas morrer mesmo. Sem saber se vai ou se fica.

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Textos de Mariana Pougy Ilustrado por Renata Torralba

Inseticida Aracnídeo antropomórfico me come Barata.

Ciúmes O cigarro dentre teus lábios queima meus lábios O câncer que se espalha deveria ser eu.

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Como adubo sirvo à terra Texto de Tomaz Civatti Ilustrado por Maria Rosalem

Três impactos e em meu crânio algo escorre. Quatro, cinco. Seis. Devolvo na porta a dor ao fechá-la. Escorado permaneço, sentindo as farpas atravessarem-me a camisa. Escancarada então, a boca espera que algo adentre – o quê?, se alvéolos desertaram. A viscosidade desse flagelo derredor não reconhece fronteiras. Me adentra os poros. A vista embaça em luminosidades ácidas. As células desesperadas ingerem mais e mais veneno até agonizar disputando um alimento qualquer. Eu. Dois corpos não ocupam o mesmo lugar, fagocitose. Transfiguram-me as veias em fios elétricos, atando-me em desespero à deidade que julguei me sustentar. Ainda que esteja a pele oca e árida, esta vazão superior me incha e minha cabeça vai explodir. Vai explodir. Merda! Saiam já! Os tecidos rasgam um ao outro, ainda a sede, a fome, afogando-me nessa massa disforme da gordura real, digerindo-me a própria carne, o suco gástrico do mundo. Num lodo inflorescente, matéria sobre matéria, sepultam-me numa saturação que me desnutre a pele e ossos. Um espasmo nevrálgico é o ímpeto que estilhaça essa quarta parede da vida. O barulho seco da madeira espatifada retorna ao meu andar. Dura um segundo, mas vejo. Saboreio a dança da morte para entender, enfim. Um carro alardeia a próxima queda aos demais parasitas. O hospedeiro sulfúrico não liga. A cabeça lateja, algo recomeça. Não é dor e sinto me viciar. Pulverizo um a um esses artefatos predatórios da criação humana. Ainda cá dentro esse vórtice espetaculoso das ferramentas e ofícios da morte, letreiros luminosos das ordens que me foram dadas. A ira me redescobre os músculos e penetro num beco escuro para nunca mais voltar. Há uma gritaria lá fora, no meio da rua aparelhos vitimando máquinas. Grito os setenta e dois nomes da deidade para recobrar o fôlego e as sirenes fervem. Abro as cortinas e oito andares abaixo vejo a plateia que nunca desejei, odeio os palcos. O alvoroço de palavras cessa na mente, a página é um véu a enegrecer. O sorriso me lembra que dentes e garras servem à luta, mas é um momento solene, de paz. Não subirão. O clímax é pequeno e seu impacto inofensivo. Mas preparam uma cama elástica para o núcleo da doença que atiro. Uma comoção se espraia em bocas ovalares. A vazão se inverte na queda, vomito as parafernálias e minhas impressões do mundo. O estômago suspira, antes de meu mergulho na gentil escuridão. Uns últimos espasmos de luz e meus poros reaprendem a função tátil. Está quente e úmido. Passo a mão pela escuridão e ela me acaricia, me devolvendo o rubor à carne. Afundo um braço inteiro e tiro a primeira cor. Um marrom em nervuras, e sua pele abre a minha. Um delicado verde exuberante, tal uma lâmina, transpassa a realidade e me nutre um pensamento. Que perigo existir, então...

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Os pássaros das suas palavras Monólogo em um ato de Avelino Alves Ilustrado por Anita Lisboa

personagem

ei, alguém pode me tirar daqui? Faz um tempão que já estou

uma velha elegantemente

neste sol maldito diante deste asilo recheado de solitários e

trajada com os cabelos um pouco

loucos. Solitários e loucos como sempre fui e ninguém jamais

desgrenhados

percebeu porque eu sempre me esmerei em camisas engomadas, bolos de fubá, jantares com hora marcada. Quando

cenário

todos dormiam, eu me esmerava em cerzir meias. Ah, mas

diante do portão de um asilo,

isso são lembranças que não levam a absolutamente nada.

num final de tarde, os acordes do

Fazem que não ouvem. Esqueceram-me do lado de fora do

Prelúdio das Bachianas nº 1, de

asilo. Miseráveis. Abram essa porta, essa maldita porta, res-

Villa-Lobos, permeiam o texto

peitem os velhos. Ontem, se não se recordam, vou refrescar a memória: tive de dormir ao relento. De novo. E fez um frio dos diabos na noite passada. Aliás, tem feito muito frio ultimamente. E não digam que aqui do lado de fora tem gente comigo. Estou sozinha. Sozinha como vim ao mundo. E do lado de fora. Se estivesse no lugar deles, acho que faria o mesmo. Velho enche a paciência de qualquer um. Ainda mais uma velha como eu. Chata e cheia de memórias. Ah, se meu marido me pega despenteada. Nunca gostou. Adora meus cabelos. Mesmo agora, prateados. Mas não vem ao caso, diabos. Minha família paga. E muito bem. Ou já não paga? Ei, surdas, se tenho de derreter ao sol até que uma enfermeira idiota e ninfomaníaca se dê ao trabalho... Levem-me para dentro. Agora! Olha que faço na calçola, hein? Depois não reclamem. Outro dia fiz. Uma disse: a senhora, por que não chamou? Não me fiz de rogada: chamar pra

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quê, jararaca, claro que chamei. Você que não ouviu. Há algum tempo grito e ninguém me ouve. A bem da verdade gritei a vida inteira mas ninguém me ouviu. Sou das que gritaram para si mesmas, o rosto enterrado nos travesseiros, em gritos surdos. Gritei em sonhos, mordendo o nó dos dedos. Os gritos ecoavam pela casa inteira, mas ninguém ouvia. Sei que o que viam era meu sorriso, minha preocupação com as febres, as menstruações, as notas escolares, meu apreço pelas noras e genros, minha dedicação aos netos. Na noite do primeiro dia da morte de minha mãe, eu estava sentada na cozinha pensando na vida quando meu marido perguntou se não teríamos jantar naquela noite. Fui aprontar o jantar. Alguém aí pode me dizer qual é o luto de uma mulher? Quando eu vivia na... Ora, que bobagem começar assim. Ainda vivo, afinal. Sendo mais precisa: quando estava solta. Não, tampouco posso começar dessa forma. O melhor seria: antes de vir para cá. Afinal, quando vim parar aqui? Que dia é hoje, mês? O ano sei. Mil novecentos e. Não, que esse foi o ano em que me trouxeram. Reuniram-se depois do. Nossa, como faz tempo. Ia dizer que antes de vir para cá eu brigava com todo mundo. Mas não é verdade que ninguém dá a mínima para os velhos? Querem mais é que a gente acorde, tome café, fique na sala (isso se não for dia de limpeza, porque em dia de limpeza a gente ou fica no quintal ou fica no playground do prédio). Depois querem que a gente almoce, durma, acorde, tome chá, assista

tevê (sempre o programa deles), jante cedo e deite cedíssimo. Uma coisa horrorosa. E aí quando o rim pede que a gente urine mais de mil vezes por noite, a filha ou o filho sempre grita do quarto: não deixe a luz do banheiro acesa, não aperte a descarga a essa hora, olha o tapete, o chão foi encerado, não vá escorregar. Bacia de velho quando quebra, adeus! Quando eu ficava na sala, sentada, olhando o nada, muito em silêncio, sempre alguém preocupado chegava perto e dizia: algum problema? Quando eu ia dizer, a pessoa escapava em desculpas do tipo espera aí que já volto. E voltava? Qual o quê. E o jeito de falarem? Além de tipo assim, assassinam a gramática com mós. O pai é mó chato, a vó é mó mala. Eles é que são uns mó merdas, isso sim. E aí, alguém me tira daqui ou não? Meus filhos e genros pagam. E pagam muito bem. Para isso venderam as casas que eu tinha. Para me colocar neste lugar confortável onde eu tenha direito a. A um resto de memória, digamos assim. Engraçado como me lembro dele. Quando você iniciou

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aquela viagem? Não me disse em sonho que voltaria? Ouvi isso dos seus lábios e eles nunca mentiram para mim. Mas que tola sou. Você sempre volta. Todos os dias volta. Nossos filhos é que não têm prestado muita atenção nas coisas que falo ultimamente. Eles tratam bem você? Em que asilo colocaram você? Eles disseram o nome um dia desses. Mas deixa eu dizer uma coisa: um dos nossos filhos disse, não, filho não, acho que foi aquele genro. Nessas coisas é mais fácil acreditar em um genro. Disse: levamos a velha? O outro – filho, sim, filho – olhou feio: se quer, leve para sua casa. Os dois riram. Um rindo da loucura do outro. Da sugestão e da resposta. Deixe seu pai ouvir, eu disse. Aí ele falou: vou contar isso pro pai e ele vai morrer de rir. Tem uma coisa que preciso dizer a você e nem sei se aí onde você está é igual aqui: amanhecemos orgulhosos porque cada qual conseguiu sobreviver na noite anterior. Uma delas já me contou, sim, porque me tornei confidente das velhotas que vivem aí dentro, comigo. Uma delas me contou que é só apagar a luz que ela se esconde debaixo da cama pela simples e pueril razão de que, se a morte passar, não vai encontrá-la sobre o colchão. E me narra isso ao pé do ouvido. Eu me irrito: por que cochicha no meu ouvido? Ela pisca um olho murcho: pensa que a morte não ouve, é? Claro que ouve, eu digo, a morte ouve de dia e de noite, embora ouça mais à noite e fale mais à noite

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também. Para que o morto não enlouqueça com o sol, para que o sol não espante o morto. E outra que se arruma toda, todo santo dia, com direito a perfume e tudo mais para esperar os seus? Fica sentada ali, debaixo daquela árvore. Não, não aquela árvore ali, velha. A outra. A nova. Será ipê? Os ipês florescem tão bonito. Ali espera. Como menina obediente. O povo dela nunca vem. Vejo, no entanto, que se assanha, ri, mexe as mãos, penteia com os dedos – quase gravetos – os poucos cabelos e

confidencia. Depois se levanta e passa por mim: gosto tanto deles! Grito que não vi nada e ela gargalha: não vê porque não quer. E continua sua caminhada de quando em vez olhando para trás e acenando para o portão. Doida. Você é doida. Isso sim. Ninguém te visita. Louca. Besta. Visita sim, ela ri. Estão ali sob as árvores, na sombra. Você lança perdigotos em mim quando fala, e isso eu não admito. Ponha uma maldita dentadura para falar comigo, pelo menos. Ela tira a dentadura do bolso da saia florida: desculpe, temos que rir só com os nossos. Não posso esquecer de pedir a essas enfermeiras meliantes que limpem as minhas unhas. Estão crescidas e sujas de terra. Às vezes escorrego, tropeço. Dei pra isso nos últimos anos. E me amparo em gravetos no chão que se enterram em minhas unhas. À noite, dentro desse asilo de insones, a orquestra é formada de tosses, gemidos, espirros e peidos. Minha sorte é que tenho cópias das chaves do portão (tira um rosário do bolso) conseguida a duras penas com uma enfermeira corrupta. Mas, meu Deus do céu, se tenho as chaves por que não entro? Essas chaves só abrem de dentro para fora. De fora para dentro são outras chaves e essas eu não tenho (guarda o rosário). Uma das minhas amigas que vivia aqui. Ela morreu. Foi triste o dia em que ela morreu. Todo mundo chorou. Até eu chorei. Tinha colocado um aparelho de surdez uns dias antes, conseguido à base de um bingo de uma instituição. No dia em que a moça da instituição colocou o aparelho nela, ela deu um berro. Depois ria e batia palmas. Um riso de gengivas cansadas. Aí começou a correr pelo pátio, entre as árvores, gritando bons dias às – que árvores são essas? Mas ela gritava oi árvore, oi pátio, oi céu, oi azul, eu estou ouvindo. De repente, chove. E a velhinha na chuva, batendo palmas e rindo. Todos nós nos protegendo da chuva. Duas enfermeiras tentam pegá-la. Ela não deixa. Dá bailes, bailarina para si e para o mundo. As enfermeiras ofegam. Torcemos por ela. As enfermeiras, enfim, conseguem prendê-la. Ela ri e beija as enfermeiras na face. E gritava: caralho, façam alguma pergunta para mim. Não tínhamos perguntas para ela. À noite, ardia em febre. O velório foi aqui mesmo. Ela não tinha ninguém. Alguém sugeriu que tirássemos o aparelho dela. Impedi. Vai que Deus faça alguma pergunta. E como não sei ainda que pergunta, bem, que pergunta Deus me fará, eu digo que meu nome é. E o do meu marido, o homem que sempre amei é. Os nomes me escapam. Nós, os velhos, só conhecemos o cheiro. Um nome é tão pouco diante do cheiro da pessoa amada. Um dia meu marido me disse. Não, eu disse para ele. Meu Deus, isso seria tão importante para o entendimento da história. Não, me lembro, não dissemos nada. Só nos olhamos. E passamos pelo portão da escola em sentido contrário. Todos os alunos entrando e a gente no sentido contrário. O sentido contrário. Todos os dias das nossas vidas queremos seguir

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o sentido contrário das coisas. Mas acho que alguma coisa nos impele e quando tomamos coragem já não dá mais tempo para seguir o sentido contrário porque não é mais nossa juventude que incita ao sentido contrário, mas a nossa amargura. Vamos em sentido contrário, rumo ao holocausto de nossa própria vida. Sim, fomos namorar debaixo da lua. Sentados à beira de uma estrada de terra e pela primeira vez tive coragem de abrir a blusa do meu uniforme escolar e mostrar ao amado meu sutiã. Ele desamarrou e tocou meu pequenino seio. Nossas gargantas secas e os dois corações aos solavancos. Disse te amo. Ele disse te amo. E assim nos amamos até hoje. Sobrevivemos aos dissabores e aos filhos. Só não sei onde ele anda. Em que asilo. Fomos separados. Nunca me escreve ou telefona. Os filhos dizem que ele anda cansado e que está sempre descansando. Nossos anos de casados foram de subtrações onde eu insistia em adicionar. O amor tem essa nojenta lógica matemática que, quer queiramos ou não, não é lógica. Vou contar um pouco do casamento com o único e verdadeiro amor da minha vida. As amoreiras. Penso em fazer geleia com as amoras frescas que. Geleia. Não se lembra? Meu casamento recendia a amoras frescas. Falar de casamento é um engano. O que fica são os cheiros. Cheiros. Tão diferentes dos cheiros que agora sinto. E minhas mãos, antes alvas, agora humilhadas por essas unhas sujas de terra, quebradas. Preciso avisar as enfermeiras para cortarem e limparem as minhas unhas. Pena que não possa ir por minha própria conta e risco para dentro dessas paredes. Ah, (tira o rosário do bolso, mexe nas contas) é que essas chaves imbecis só abrem de dentro para fora. De fora para dentro é outro segredo. Juro que não conhecia fechaduras assim. E agora essas chaves já não servem para nada (guarda). As amoreiras ouviriam se eu estivesse em nossa casa de campo.

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Mas aqui, sei lá, eu não posso confiar nesses. São ipês? Não fui eu quem os plantou. As árvores que nos entendem são as que plantamos. Me entendiam o lago, os pássaros, os beirais de minha casa. Não enxergo mais direito. A vida e suas imposturas. E você que cisma em visitar os meus sonhos, meu amor? Acorde e venha me ver, oras bolas. Com você – mesmo aqui fora – eu me sentiria mais tranquila e mais serena e mais segura. Na única vez em que deixaram que eu o visitasse – eu fui? – você sequer me olhou. Mas eu o beijei. Os filhos ficaram constrangidos porque o beijei de língua. Como há muito não fazia. É meu homem, à merda vocês. Senti o seu gosto. O gosto da vida inteira. Um cheiro diferente, é verdade. Mas o gosto da vida inteira. Você não me reconheceu quando fui visitá-lo lá no. Eu disse a uma amiga recentemente num final de tarde no pátio do asilo que aquele senhor sentado perto daquela árvore – ipês – bem, que aquele senhor era meu marido e tinha vindo me visitar. Eu só vejo um jovem, ela disse. Eu olhei fixamente e não

tinha jovem nenhum. Que jovem o quê. É meu marido. O velho. O jovem é o filho?, ela perguntou. Não existe jovem algum debaixo daquela árvore que faz sombra sobre seus cabelos brancos, meu amor. Deixei a louca com suas loucuras e fui pegar nas suas mãos. E a primeira coisa que você me disse foi, não, a segunda coisa que você me disse foi: não sei por que vim. Eu vim? A primeira foi um suspiro. Um suspiro que demos juntos. Como há anos atrás dissemos um ao outro numa rua de terra: eu te amo, eu te amo. Eu jurava que nossos primeiros amores, primeiros medos, primeiros suspiros, primeiros filhos, que tudo só tivesse ficado restrito a umas poucas fotografias que os filhos perderam em algum fundo de gaveta, distraídos que são, como é comum entre os filhos, os netos, os bisnetos. Por que insiste em me dizer que sente saudades se vivemos quase. Bem, se podíamos pegar as mãos um do outro sem medo e pressa? Lembra que dizia que meu sonho era assistir televisão com você no final do dia, quando estivéssemos velhos, e nossas safadezas não passassem de uma beliscada no traseiro, de uma passada de mão e que quando nossos sexos estivessem murchos nós riríamos disso como dois adolescentes? Desculpe, é que dei pra esquecer detalhes ultimamente, dei pra ver tudo escuro. Já pedi uma consulta ao oculista. Catarata, vai saber? E me disseram que não, que meu caso não é uma doença dos olhos, é uma doença da alma. Você que sempre entendeu disso pode me dizer o que é uma doença da alma quando gritamos nossas dores e ninguém já pode nos ouvir, nós mulheres que vemos nossos gritos escorrerem pelos nossos corpos, nos azulejos de nossas cozinhas, nos lençóis alvos que nós mesmas aramos? Por que tenho que esperar perder você para sempre para só então fazer perguntas que já se sabe de antemão que não terão respostas? Afinal de contas, meu amor, por que nunca me visita e por que quando me visita não me permite que eu toque seu corpo como nos velhos tempos? Tem vergonha de minhas unhas sujas? Dos meus cabelos um pouco despenteados? Prometo limpar as unhas se prometer me dar um beijo de boa noite. Prometo amar você e respeitar você para sempre mais uma vez, tantos anos depois dessa jura que sepultou em mim a ardência, o calor e, com o passar dos anos, a indiferença e a amargura quando já era uma

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chaga que não tinha mais cura. Sim, o amor é uma grande e maravilhosa flor cheia de viço fadada ao apodrecimento. Ninguém é culpado, ninguém, nem quem colocou essas chaves (pega o rosário), essas chaves em minhas mãos sem que eu pedisse (guarda). É, tem razão, é sobre isso que vim conversar com o senhor. A geriatria, doutor, a geriatria não me interessa. Eu queria, se o doutor me permitir, eu queria falar sobre a eutanásia. Eu já criei meus filhos, se há de me entender. E deixaram o meu amor para sempre dentro de um asilo distante de mim e por isso acho conveniente uma limpeza total

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nesse palco infestado de gritos que já é tarde demais para que alguém ouça. Somos ocidentais e os velhos atrapalham. Sem hipocrisias, por favor. Não pode, não é? Eu já sabia. Falei por falar. Mas se o senhor me ajudasse. Eu escrevo, se quiser, eu escrevo uma carta ao meu único e verdadeiro amor e esclareço de próprio punho que o pedido foi meu, impossibilitada que sou de sair desse asilo embora – é bom que riamos, doutor, riamos juntos – embora eu tenha que reconhecer que nesse exato momento me encontre fora desses portões que dão para um pátio cheio de árvores que não reconheço o nome. Por que sempre pensamos em ipês, doutor? Eu não sei em que asilo colocaram meu marido e sempre que pergunto aos filhos eles respondem com um sonolento: já falamos tantas vezes, mamãe, por que insiste? Eu anoto, quando eles vão embora, doutor, eu anoto o endereço para fugir e ir ao encontro dele, mas sempre perco o papel. Velho e anotações, doutor, são inimigos íntimos. Sei que seu tempo está acabando e tenho que ser breve. Talvez se eu sair daqui, doutor, talvez se eu voltar para minha casa, eu convença meus filhos a trazerem meu companheiro de volta. A gente pode viver na edícula de algum filho, qual sua opinião, doutor? Juntos. Eles venderiam a nossa casa e nos poriam em alguma edícula, mas juntos. Pedi um dia desses a eles que me levassem de volta. Disseram que não tinham dinheiro para me sustentar. Como assim, e as casinhas, a minha aposentadoria, a aposentadoria do pai de vocês? As casinhas, eles perguntaram, e não pararam de rir – ou chorar, porque naquele momento eu já não entendia nada – até que fossem embora. Bem, eu baixei a cabeça e deitei, doutor, deitei pensando na possibilidade real da eutanásia. Eu tenho culpa de não morrer, doutor, eu tenho culpa de não morrer logo? Desculpe, doutor, estou enterrando as unhas sujas em seu braço. Que deselegância. Mas elas não estavam sujas antes, não é doutor? Diga pra mim, elas não ficaram sujas depois? Doutor, então alguém vem sempre com uma tampa e tudo fica escuro. Por que é sempre assim depois? Ei, alguém pode me tirar daqui? Faz um tempão que já estou nesse sol maldito diante desse asilo recheado de solitários e loucos. Solitários e loucos como sempre fui e ninguém jamais percebeu porque eu sempre me esmerei em camisas engomadas, bolos de fubá, jantares com hora marcada. Quando todos dormiam, eu me esmerava em cerzir meias. Ah, mas isso são lembranças que não levam a absolutamente nada. Fazem que não ouvem. Esqueceram-me do lado de fora do asilo. Miseráveis. Abram essa porta, essa maldita porta, respeitem os velhos. Ontem, se não se recordam, vou refrescar a memória: tive de dormir ao relento. De novo. E fez um frio dos diabos na noite passada. Aliás, tem feito muito frio ultimamente. Se essas chaves (tira o rosário) servissem para alguma coisa. Talvez elas sirvam para. Ei, o senhor quem é?

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Vai me levar para dentro do asilo? Não, é a sombra que surge sempre por detrás das árvores e que as minhas amigas insistem em dizer que são apenas as folhas balançando. Não!! Não é possível. Tanto tempo de espera. Vamos para alguma edícula dos nossos filhos? Avisou que viria me buscar a eles? Sempre adoramos surpresas, não é? Desculpe eu estar despenteada desse jeito para recebê-lo. (Tira o rosário e olha pela última vez) Acho que agora eu posso ir sem medo, sem medo que você veja as minhas unhas sujas de terra. Meu amor, por que demorou tanto tempo? (Dá um passo e para).

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Suco de Tramoia com Maracutaia Texto de Neurastênico de Guadalupe Bezerra Ilustrado por Anaís Escalona

Quando deu por si, estava a boiar nu sobre o lodo do manguezal. Constatou, como de instantâneo, que se remexesse com abruptude teria os membros sugados pela terrosa calda-que-cega dum manifesto rhizophora mangle. Desde pequeno nutriu afeições um bocado hipocondríacas pelos penduricalhos da botânica, mesmo sem a fluência de seus domínios. Não que seja tormentoso identificar um mangue-vermelho (ou “sapateiro”) de classe magnoliopsida, já que a mutação indumentária das árvores descobre uma cromia avermelhada, bastante proveitosa à camuflagem dos crustáceos. Com o olfato, tenciona por divisar os aromas mas é obstruído, não por falta de sensibilidade mas por excesso de catarro. Daria no mesmo caso despertasse num berçário como avicennia schaueriana ou laguncularia racemosa — mangue-preto e mangue-branco —, exceto pela amplitude dos propágulos que, em rhizophora mangle, mais fazem lembrar pétalas carnívoras e mesozoicas. Empenhou pensamentos na expectativa de reconstituir a sucessão de fatos que findaram em seu desaguamento, com o agravante da vestimenta deduzida. Talvez por instinto, flagrou-se governado pelos abomináveis ímpetos da estupidez, e passou a pensar no modo pelo qual do mangue subtraíra-se. Abandonou a condição de boia para, em rotações paulatinas, obter a disposição vertical, como todo e qualquer outro bípede. Gelificou-se aterrorizado com a profundidade da brenha de ovos podres. A lama ultrapassava-lhe a traqueia e se espichava até a mandíbula, fazendo de vapor sólido e pegajoso. Ainda que periclitantes, seus gordurosos dedinhos dos pés ameaçavam quedar equilíbrio sobre algumas raízes subaquáticas, feito um urubu submetido ao desossar de sua carniça sem usar o bico. Estendeu o braço esquerdo em direção à raiz que se ramificava da raiz que o salvaguardava de pé. Nada fez com seu braço direito pois que nasceu sem um braço direito. Envolveu a mão ao caule e multiperfurou a palma de lenticelas pontiagudas. É confesso que nenhum outro órgão de arejamento em formato poroso semeou-lhe similar ódio. Ódio que beirava a apoplexia. Ergueu a visão num manear de pescoço para dar com dois aracnídeos pousados sobre o mesmo caule que o seu. Enquanto isso, suas órbitas gravitacionais modulavam-se e remodulavam-lhe conforme o contrabalanceio bamboleante das raízes pneumatóforas. A díade de aranhas era de espécie theraphosa blondi e conjunto theraphosidae, mas pelas bocas dos entusiastas mais devotos sua graça é aranha-golias-comedora-de-pássaros. Apesar da calamitosidade da feita seu pavor foi amortecido, já que a peçonha das aranhas-golias-comedoras-de-pássaros não leva a óbito mas a vômito; à dilatação das quelíceras; à dor-de-ventre e à dermatite seborreica. O tecido epidérmico das endêmicas era quebradiço, como se por culminância da secura que não havia. Esféricas de tão gordas, alaranjadas de tão amarelas e com as patas peludas de tão grisalhas. Distinguia os atordoamentos entre o delinear de um estratagema de locomoção e o exame comportamental das caranguejeiras. Foi então que um brado longínquo retumbou, a princípio condicionando-o à impressão duma alucinação auditiva ocasionada por uma descarga de adrenalina. A velocidade espantosa com que o brado cumulou volume o desmentiu. A ressonância da exclamação começou distante e nebulosa mas com peculiar grandiloquência, e acabou transparente em compasso à proximidade. Era um brado que o chamava pelo nome:

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— Lacrimal!? Lacrimal!? A ocasião era de tal modo inverossímil que perdeu a consciência, antes mesmo de identificar o retumbante. Voltou a despertar por volta das cinco e treze da madrugada, como sugeria o visor esverdeado do relógio que o fazia vista. Anestesiaram-no em demasia, ficou feito geleia de tanto que sedado pela infusão duma dose ornamental de morfina. Ao passo da aclimatação de seus globos oculares azuis clarinhos e das arritmias de seus batimentos taquígrafos e ventriculares, deduziu que repousava sobre um dos leitos hospitalares dum posto público de saúde. Um enorme sujeito no leito vizinho o inquietou quanto a condição clínica que se pode atingir sem desencarnar, estava engessado e enfaixado com tal arbítrio, que lançava a dúvida de se ali ocorrera um procedimento ortodoxo de mumificação, ou uma sessão heterodoxa de tortura. Era Severiano. Durante as horas seguintes, não foi acometido por sono algum. Elucubrava, até a aurora, sobre o acontecimento — deste ou daquele tipo de acontecimento que te desagua em manguezal, sem nem mais pra nem mais qual. Conforme a luz dos raios de sol se incutia pelas dobras, dobraduras e dobradiças do aposento médico, seus pensamentos clareavam em concomitância, feito se numa das mais baratas metáforas de gravurista. Até que, quando o astro enfim reluz em integridade, Lacrimal vê sua noiva atravessar a porta do extenso dormitório, feito se numa das mais blasfemas hipérboles de maturação. Almeja recompor-se, anseia erguer o braço, mas este se apresenta desprovido de movimento. Deu conta que a palma da mão estava embrulhada por um esparadrapo besuntado de pasta curativa e lilás — o que esclarecia se a fonte de sua lembrança no mangue-vermelho era derivada de sonho ou de vida. Tenta dar uma fala mas uma língua sedada por opioides farmaconarcoticoanalgésicos funciona do mesmo modo que funciona uma luta-livre entre uma iguana e um pino de panela de pressão, ou seja, de modo algum ou qualquer. A noiva Dulcineia distingue, duas fileiras à esquerda da fileira do noivo Lacrimal, um jovem conhecido seu que trazia no olho um ferimento. Era pelo menos sete anos mais novo que ela e dez anos mais novo que ele. O nome do jovem era Baltazar, mas nem Dulcinéia, nem Lacrimal e muito menos Baltazar estavam cientes. Dá-lhe um abraço calorento e não caloroso. Beijam-se como beijam os que parecem saber beijar, transam-se como transam os que fraquejam à discrição, gozam-se como gozam os que gozam todas as vezes. Com gingas secas e lancinantes, uma mais tremenda (jamais tremendo) do que outra, apresentam-se meticulosamente como antes do sexo. Despedem-se com microbeijocas no perímetro das bochechas. Dulcinéia não viu Lacrimal — que afinal estava camuflado como os crustáceos do mangue-vermelho de outrora —, dissumulou extrair-se sorrateiramente do posto público de saúde, mas ao invés disso teve uma ideia ao dar com a vista num controle remoto luminescente pela retroreflexão dum prisma. Apertou o botão de ligamento do televisor acoplado à forquilha do teto com o pé-direito. Amplificou o volume ao máximo, hipersaturou o balanço de cor, surrupiou o controle remoto pra dentro da pochete de couro sintético de gaivota, e retirou-se antes de acordar alguém que não o amante caolho. Milésimos após a escapatória de Dulcinéia, o mumificado Severiano deu sinais vitais, como os de quem aciona o desadormecimento. Trovejou um bocejo tectônico. Doeram-lhe os atrofiamentos e as cataratas de escoliose. Ressabiou-se com a comparência de Lacrimal e proclamou: — Xará, vou te fazer um favor já pra aprender a não depender da crueldade médica! Mas ó, guenta que é notícia ruim: Seu braço direito foi amputado! Não sei se numa decapitação que dobrou pela culatra, ou se num distraimento manobrando a serra-elétrica, sei que o que entra e sai de caso daqui é de abrir a imaginação! — após o desfecho feérico, distraiu-se com o programa transmitido pela longínqua tela prenha da vulcânica televisão de chumbo. Constava um desenho animado bidimensional de índole turva. Lacrimal levou vinte e um segundos

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após o início do desenho para perceber que seria cognitivamente intransponível forcejar tamanha ignorância. O desenho era ambientado num planeta em que as criaturas possuíam tentáculos de polvo no lugar dos membros inferiores. Um grande cilindro de vidro esfumaçado no lugar dum membro médio. E um pescoço sobressalente sustentando uma cabeça de girafa no lugar dos membros superiores. Além duma coroa de alcachofras para fechamento com balangandã. O episódio, para não engrenar pelas minucias fantabulosas da vinheta de abertura, começou com o anúncio dum pomposo matrimônio entre duas Polvo-cilindro-girafas. A cerimônia era de qual modo fidalga que absolutamente todas as Polvo-cilindro-girafas vivas foram convidadas. O convite era um envelope de veludo molhado sabor púrpura, que revelava apenas o nome convidado — em alto-relevo com cola-quente e caligrafia estonteante. Era de antemão sabido que a etiqueta de traje prescrita era de galacrista. O miolo do episódio propalava abruptamente sobre a cerimônia seguida da festa de casamento. Festa que mais estava pra pandemônio em matéria de suco de tramoia com maracutaia. Polvo-cilindro-girafas inalando quantidades aviltantes de açúcar temerário; Senhoras-polvo-cilindro-girafas acusando outras Senhoras-polvo-cilindro-girafas de cometer bem múltiplas malfeitorias fiscais; Freiras-polvo-cilindro-girafas desmaiando cautelosamente no discorrer dos votos de confluência e amor; Médicas-polvo-cilindro-girafas desempenhando exames de sangue à troco de alguns contos de réis; Crianças-polvo-cilindro-girafas radicalizando manobras e cambalhotas com artefatos de adornamento; Adolescentes-polvo-cilindro-girafas devorando indelicadamente o banquete de sublimes quitutes; e as Bebês-polvo-cilindro-girafas babando de sono como gárgulas de porcelana manchada. Até que, ao final do episódio sucede algo sobrenatural. Todas as Bebês-polvo-cilindro-girafas pegam no sono sincronizadamente. Para, segundos depois, como se fossem hélio, começarem a levitar lenta mas incapturavelmente. As Mães-polvo-cilindro-girafas que tentaram se dependurar nas Filhas-polvo-cilindro-girafas despencaram de elevadíssimas altitudes, mas conseguiram amortizar as quedas. Todas as Bebês-polvo-cilindro-girafas de meio mês a três anos levitaram, suscitando o derramamento de cinquenta toneladas líquidas de lágrimas de dissabor. O episódio termina propriamente nesse tom de mausoléu, com as Polvo-cilindro-girafas reciprocisando condolências telúricas. Lacrimal ficou profundamente entristecido pelo episódio do desenho, também gotejou lágrimas de modo a empatizar com as Mães-polvo-cilindro-girafas mesmo sem que faça ideia de similar sofrimento. Tudo que conseguiu pensar durante instantes a fio, ou quase a fio, foi no estômago e na digestão das crianças que experienciaram essa peça de angústia em condição tão matinal de nutrição. Como podem agora desprender atenção às divisões de frações, com tanta carga nublada no raciocínio? Ao que esgota o debruçamento, Lacrimal e seus alambiques encefálicos desmobilizam-se. Quando até que enfim prestes a pregar o olho, ulos convulsionam-lhe como se desfibriladores fossem, de modo a retê-lo acordado. Ulos que reverberam pelos corredores transpondo paredes e colunas. Ulos humanos porém disformes. Dialogavam sobre um acidente ferroviário que ocorrera dois dias antes — um trem com sessenta vagões recheados de lixo hospitalar descarrilhou numa curva do relevo; cinquenta e nove vagões despencaram ribanceira a baixo, mergulharam na represa que provém água à cidade e o único vagão que não o fez tombou-se feito bigorna sobre o maquinista, matando-o. — E quem é que fagocitou isso em você? Tem aparência é de groselha de terceira mão. O único que podia contar a estória com conhecimento de causa era o maquinista que virou pasta! — exclamou a voz de cá.

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— Quem me contou foi o bisneto do maquinista, trabalhava com o

bisavô e sobreviveu. O bisavô ficava à proa e o bisneto à popa, sobreviveu por isso e por ter o cu virado pra lua. É groselha mas groselha de primeira mão! — replicou a voz de lá.

Lacrimal, detetivesco e mirabolante, cogitou deflagrar uma dupla

de vozes de jornalistas de oitavo escalão. O que intensificaria a calamidade do acidente, pois que possuidores duma QTC de quais quilates. Ao fazer de detetive, contudo, Lacrimal saiu-se formidavelmente como botânico. Eram jurisconsultos de escopo ambiental e anonimato preservado sabe-se lá pela tinta de qual desembargador alta-cupular. O de cá sente ojeriza por atmosferas hospitalares e o de lá só sente os feromônios estimulados com a contemplação das octogenárias particularmente desocupadas, dando de comer migalhas aos pombos mais obtusos. Trambiques amparando estrambolicamente as famílias lambisgoias.

— E por acaso algum a prole é de menor? — sugerindo ramifica-

ções embaraçadas.

— Completou dezesseis no dia do acidente, então não. Já é impu-

tável, inclusive puxou etapa nas categorias de base, reputação vertiginosa — devolveu a voz de lá.

— O bisavô tinha quantos? 728? — ricocheteou zombeteiro

e jocoso.

— Fez um século no dia do acidente. O bisneto, o neto, o pai, o

avô e o bisavô nasceram todos no mesmo dia — inferiu a voz de lá.

— Pelo menos não nasceram no mesmo ano — rubricou a de cá. —

Mas me esclarece uma coisa, a água que todo mundo bebe e toma banho há dois dias se encontra contaminada de lixo hospitalar e a única testemunha é um delinquente dente-de-leite que viu 59 vagões mergulharem na represa e o único vagão que sobrou matou o maquinista que no caso era seu bisavô e, além disso, era o dia do aniversário de ambos? — abastecimento pós-apneico.

— Precisamente! — contemporizou em concordância a voz de lá.

Ulteriormente, apenas o leilão de órgãos inflamados à preço

de goiabada superaria a infecção das águas doces pelo lixo hospitalar que trouxe o descarrilhamento dos vagões. Um novo jurisconsulto (o de acolá) enfim recebeu alta — após uma cirurgia plástica de enxerto de pele de calcanhar na axila, com desígnio de neutralização dos exalamentos mefíticos —, foi levado para o pós-operatório doméstico pela sua dupla de jurisconsultos ambientalistas prediletos, sumos aplicadores das normas de prevalência.

revista uso, #1


Milímetros antes de ouvir a voz do jurisconsulto de acolá e findar com o

mistério — será o tal de acolá tão estapafúrdio quanto os jurisconsultos de lá e cá? —, Lacrimal apagou sob uma dura camada de sono. O sonho operou de modo que fazia lembrar um mecanismo de centrifugação. Começou em um cômodo cúbico integralmente dourado, o reflexo que produzia era difuso e equivocado. Do solo do cômodo cúbico dourado começa a emergir um denso banho espuma de barbear de tonalidade turquesa. Ao que resvala o pomo-de-adão de Lacrimal, uma elipse imperceptível lança-o numa carteira escolar enquanto a professora de trigonometria checa, por ordem de chamada, as formas no papel-manteiga. A professora está na letra J. No lugar de seu braço direito, ou melhor, no espaço que ausenta um braço direito, Lacrimal possui uma perna esquerda (agudamente diferente de sua própria perna esquerda). Lacrimal utiliza de sua perna esquerda no lugar do braço direito para esbofetear discretamente um colega de exercício concluso em papel manteiga — jamais papel almaço, sob risco de perfuração com compasso. Chegada a vez de Lacrimal entregar o exercício, levantou-se e ao atravessar a sala de aula deu-se conta de estar num sonho, transmutando-o num sonho lúcido. Mesmo assim entregou o exercício e ganhou elogios da professora pelo afinco trigonométrico. Mesmo lúcido, Lacrimal não conseguia deixar o prédio da escola, entrou no banheiro e deu com uma luta entre um Hipopótamo-anão-do-chipre e um Hipopótamo-pigmeu-de-creta. Desmanchavam-se uns aos outros com golpes e violentíssimas mordidas, Lacrimal permaneceu por motivos de instrução biológica mas perdeu a paciência em muito pouco tempo. Ao sair do banheiro foi imobilizado pelo colega do exercício saqueado (ele trazia um diabo-da-tasmânia empalhado no ombro), o colega cuspiu-lhe a cara e rompeu-lhe o ligamento cruzado da perna esquerda no lugar do braço direito. Outra elipse o arremessa pra dentro dum escorregamento de tobogã que, ao invés de água, cascateia refrigerante de nectarina. E, desta vez, no lugar duma perna esquerda no lugar dum braço direito, Lacrimal dispunha de um dilatado tubo poliarticulado de aspiração. Ao que mergulha na sangria de nectarina com urina e abre os olhos, Lacrimal não enxerga nada que não variedades de frutos. Começa a sugá-los com o tubo aspirador poliarticulado, averigua que além da funcionalidade de sucção o tubo poliarticulado também faz as vezes dum triturador. Sugou abóboras putrefadas, peras com caroço, pêssegos insalubres e, até mesmo, uma carambola com um cubo mágico dentro. Em oposição as outras elipses, as daqui em diante incidirão somente sobre o ecossistema narrativo do sonho, e não sobre Lacrimal — que permanece a sugar tudo que vê pela frente. Suga hidrantes, bidês e basculantes; fígados, gorgonzolas e invertebrados; marca-passos, esmeraldas e lamúrias; conchambranças, sabonetes e estilhaços. A derradeira elipse incide sobre Lacrimal, conduzindo-o para uma cirurgia em que é cobaia. Eximido, pois, da aplicação de sonífero, com a finalidade de mensurar a atividade dos cataplasmas. A cirurgia consistia na costura duma catapulta de fibra de moreia frigida no formol ao espaço que ocuparia o braço direito de Lacrimal. Transtorno algum, ainda mais com o humor cáustico dos cirurgiões, que a todo momento resmungavam a Lacrimal que ao invés de catapulta instalariam uma corpulenta lasca imantada, cuja comunicação magnética obstaria o cumprimento de seu quadro social e pessoal. Ao término, os clínicos desvencilharam-se de seus disfarces de humanoide, e disseram a Lacrimal que nada mais eram senão unicórnios sofomaníacos.

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1 2 3 de Oliveira 4 Júnior Texto de Santiago Segundo Ilustrado por Cipriano Souza

I indecifrável ignoto para si, 1 (dois, três?) heterozigoto loquaz encontra-se num momento crucial da vida: decifrar.

revista uso, #1


II Do eu quanto todo baba gugu dadá, ivo viu a uva, copiar é recordar, recordar é mimese, mimese é beleza ‘é’ é ‘é’, Bom dia!, CYP2E1 esse cara sou eu (avó materna escuta o rádio) não pronuncia muito bem o ‘ERRE’ e têm o pé chato, para o pé a gente faz uma bota ortopédica e para o ‘ERRE’ a gente reza quero mamar eu sou o leite o leite quer mamar tá gripado de novo essa é sua amiga Adelaide? pergunta idiota resposta na ponta da língua distraiu e a gente espera os adultos pararem de conversar e de beber e coloca essa mesa no corredor quando eles querer ir no banheiro a gente fala pedágio e cobra dois reais eles não querer pagar é natal papai noel profissional do sexo orelhão da rua ASDF na altura 1 24 4 6 é amigo do padre da catequese e da professora de educação física quem disse foi a amiga Lurdes que namora o Zequinha pra fazer ciúme na Adelaide eles já pegam na mão a minha mão sua bastante quando eu vejo a Adelaide canja é quente ler dá sono & a dama admirou o rim da amada & o kê significa isso? socorro eu Marrocos por quê? socorram-me, subi no ônibus em Marrocos não existe k no pt-BR boa noite mãe eu não sou sua mãe hora de dormir ciranda cirandinha vamos todos cirandar posso usar o celular? Muscae volitantes pesadelo diante 1 sou 1 vamos todos cirandar

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voz mecânica tísica: “no sul de outro norte, no sertão mineiro do novo leste! pradarias inexistentes

III Do eu que rejeita

enfim oeste e algum cachaceiro” as pradarias não ianquezadas contornam as raias na pista um nado de 145 quilômetros por hora as pradarias dos sertanejos ofuscados do sol lambuzando a tua fuça zumbindo informando quanto vento e coisas não cabem na sua face você pode estar nas pradarias

acentoevinteacentoetrintaventoempopaacentoequarentaacentoesessenta quilômetros por hora

voz lânguida:

reticências.

“inventaram o carro alguns anos

cupinzeiros

atrás, inventaram as estradas

cupinzais!

alguns bons anos atrás, e me

os anais da história!

pergunto, e a necessidade?

cupins

não falo da necessidade

somos a carne que

ungida pelo magma do ácido

carece à cruz

desoxirribonucleico, nem

e não nos cansamos?

pela necessidade de diminuir

preciso…

o tempo no mesmo espaço,

AH!, sim, fadiga.

mas falo da necessidade

reticências

quantificada, clara,

digam-me espectros turvos

não absurda”

digam-me fantasmas da pradaria erguidos nos cavalos da pista e nos

tela de giz verde acinzentado pequenas formas arrastadas

digam-me algo!

compõem contrastes brandos

digam-me algo!

de movimentos ínfimos perante

e vocês,

outro ponto da não-galáxia

espectros tristes

vamos cordeiros de deus NADA

revista uso, #1

bois do cangaço

contem-me sobre seus sonhos que

divinos, VAMOS! seguir em

os assola

frente (com isso?)

minha cerveja esquenta no sol duro


das pradarias e por isso bebo rápido e bebo para não sonhar contem seus sonhos para as pradarias cretinos solitários, contem sobre seus sonhos mesquinhos não há nada que supere o contentamento campestre pradarias, caso o inferno sejam os outros há de agradecê-los! pois teço no brasão ardente e assim sou um felizardo: H²O, breve insatisfação me edifico sob afiações e códigos porém o que seria

curvas da serpente mineira!,

se marginalizado fosse

vos digo

dos doentes, maníacos e febris

haveria apenas um

e de seus legados

péssimo cachaceiro,

sim, estaria num bar pictórico

mas não estamos assim

sonhando

a sombra

e na segunda dose de cachaça

o duplo que tropeça na noite

estaria descrente do

bêbada

conhecimento — esse já perdido por si

chega em casa e

só —

nota como a música de sua

estaria despejando a

bebida soa mais bonita que a

ânsia no silêncio:

do outro

injurias e

é minha e é

amarguras! abraçado com a blasfêmia apenas

digna de desgosto e brada para que seja anotado:

por não aguentar

não vos quero por atenção

cachaça

quero pelo

apenas por terem falado — por

maldito.

gesto servil ao medo —  que a vida é boa e somente isso apenas por terem sorvido uns aos outros através de tubos de cálcio semi-ocos não haveria então a plenitude e a simplicidade a incógnita da natureza não haveria a confusão da insignificância e os sabores esmáticos duma longa duna maldita

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IV Do eu que rejeita a própria reprodução Ctrl + C, Ctrl + V - Ausência de direitos autorais Pegue um jornal. Pegue uma tesoura. Escolha no jornal um artigo com o comprimento que pensa dar ao seu poema. Recorte o artigo. Depois, recorte cuidadosamente todas as palavras que formam o artigo e meta-as num saco. Agite suavemente. Seguidamente, tire os recortes um por um. Copie conscienciosamente pela ordem em que saem do saco. O poema será parecido consigo. E pronto: será um escritor infinitamente original e duma adorável sensibilidade, embora incompreendido pelos vulgares.

revista uso, #1


Sem título (foto da colagem deletada da lixeira eletrônica)

condenado por excesso 09 ligação insistente vigilante afirma ter renda não comentou confissão REMUNERAÇÃOO FINAL R$ 3.180,00 BENEFÍCIOS (produtos e serviços) MECÂNICO DE Oportunidade minimiza BICHO capital sinalização CONDICIONADOR DE AR

postado às 41:98 horas no século XXI. comentário: só eu acho problemático que

TÉCNICO Bandeirantes

assexuados gostam de bolo? eu acho isso um apagamento dos

será Desemprego InstitutoCONTRATAÇÃO PELA CLT paralisação ninguém no mundo.” Todos os direitos reservados.

veganos assexuados que nem eu. comentário: eu faço bolos veganos deliciosos. comentário 2: bolo elitista você quis dizer?

crescer para atritos O resultado defendeu distribuição

comentário 3: 99% dos bolos escravizam galinhas e vacas.

o buraco da fechadura é a webcam, isso é uma

comentário 4: bolo meritocrático.

denúncia! o furto do método: corrompendo o acaso:

comentário 5: existe uma comunidade no

para distribuir seus pedaços no servidor online esco-

Sul de uma pequena vila da costa

lheu palavras e, quando totalmente entregue à fabri-

da Romênia que vivem a partir da

cação em tempo real, escolheu logos frases inteiras: o paradoxo – O eu feito por todos, O eu ninguém – O eu feito por mim, O eu de todos

fisiologia e filosofia do bolo. comentário 6: O regime fascista de Ion Antonescu desempenhou um papel importante no Holocausto na

condenado por excesso nove ligações insistentes,

Romênia. (via Wikipédia)

vigilante afirma ter renda. confissão: REMUNERAÇÃO FINAL R$ 3.180,00 mais BENEFÍCIOS. consegui um emprego ontem. é longe. Coigangui é uma grande cidade, nobre e rica, situada na entrada da província de Mangi. Os naturais são idólatras e queimam os cadáveres. Pertencem ao Grã-Cã – e os sábios que entendem de nigromancia vos pode confirmar. MECÂNICO DE Oportunidade minimiza BICHO: “inclusive jogou ao ar o cavalo e o cavaleiro, como para oferecê-los ao sol”. capital girando, estou com fome, comprei um bolo. tive de arrumar o meu ar-condicionado, aprendi sozinho. será desemprego, ninguém no mundo. Todos os direitos reservados: crescer a partir dos atritos

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V DO EU EM RECONCILIAÇÃO, 1ª ETAPA encontrou auxílio espiritual em uma postagem: A lua está em Peixes e passa por um eclipse, simultaneamente atravessamos pelo período conhecido por Mercúrio retrógrado. Essa rara combinação é famosa por trazer maus logros à existência por meio de fragilidade e insegurança. Caso você esteja sôfrego por caminhos para cessar o desequilíbrio emocional, escreva nos comentários “Fruto maduro no meio da estrada dá ‘bichada’, Têmis e Ghrytã, ou tem vespa no pé”, que enviarei algum dos provérbios e aforismos de Küorã, que trazem antigos ensinamentos para o alcance da paz e equilíbrio. Para explicar melhor essa mitologia e a respectiva frase, encontrei esse texto em um livro que trata sobre astrologia e ciência nas culturas antigas: “A partir de 17 de setembro adentramos no ciclo conhecido quanto nos países ocidentais, quanto nos orientais, quanto nas regiões renegadas pelas atrocidades imperialistas e até mesmo nos locais inexistentes aos respectivos leitores e locutores, chamado: a ressurreição de Küorã. Esse ciclo tem como estopim o eclipse lunar com a lua em Peixes e o Mercúrio retrógrado. Küorã foi uma entidade renegada pela mãe, deusa Têmys- responsável pela ordem nas esferas jurídicas-, e pelo padrasto, o deus Ghrytam- responsável pela justiça cármica. Os deuses cansados pelos enfados da criação abandonam Küorã nos mundanos portões de Munigue- o portal entre a dimensão divina e a dimensão mortal. Desamparado, Küorã iniciou sua peregrinação em um interminável deserto cáustico buscando o verdadeiro sentido da existência devido o trauma não cicatrizado do abandono familiar. Amantes da preponderância do céu e seus astros, os mongóis habitavam essas remotas regiões quando são datados os primeiros vestígios de alusões ao mito de Küorã. Na época, o império mongol era governado por Cublai, o quinto grã-cã da Mongólia unificada; em termos históricos, estamos situados aproximadamente 1245 anos depois de Cristo. A insegurança e a fragilidade são próprios da Lua cheia em eclipse no período de Peixes. A condição de Mercúrio não interfere nas aflições que nos são empurradas, mas apenas as intensificam. Esses curiosos fatos sobre os astros representam o mito da ressurreição de Küorã. Ao longo de milênios a fio, submergido na sua silenciosa peregrinação, Küorã depara-se com um sublime oásis, onde se banha e se alimenta pela vez primeira

revista uso, #1


de frutos concebidos por uma árvore colossal, ali presente. Nesse íntimo momento, Küorã alcança um estado de Nirvana e do fundo do seu âmago profetiza em plenos pulmões aos céus (tradução literal) ‘Fruto maduro no meio da estrada dá bichada, Têmis e Ghrytã, ou tem vespa no pé’. Nesta simples frase, Küorã torna-se a entidade cultuada pela sabedoria e equilíbrio expressados na sapiência de seus provérbios. A respeito do provérbio, o premiado historiador da cultura Mongol e dos

postado às 41:98 horas no século YYN comentou: Fruto maduro no meio da

relatos do viajante Marco Polo, Marco Silves-

estrada dá ‘bichada’, Têmis

tre da Cunha, ponderou: ‘(...) ou seja, o mito

e Ghrytã, ou tem vespa no pé

trata da insegurança humana representada

resposta: às vezes os sonhos

pela figura de Küorã, que calha nas condições

orientam, noutras eles

astrais discutidas anteriormente, pois no exato

enganam e distorcem uma

dia de seu famigerado abandono, a lua cul-

realidade que poderia

minava no ciclo T-Square envolvendo Marte

ser apreciada de outra

e Sol. Quando somos empurrados ao desfila-

forma, com a cabeça no

deiro emocional, que a vida nos reserva, não

devido lugar. Use sempre o

importa o que nos é concebido, nossa visão

discernimento, mantenha

será restritamente pessimista’. Nitidamente

domínio sobre sua vida. (via

podemos notar que existe uma moral oculta

horóscopo donna).

no mito da ressurreição de Küorã: seu estado físico e psicológico eram frágeis e sorumbáticos. Milênios se arrastam e seu estômago mantém-se exaurido pela ausência de alimento. Quando felizmente encontra sossego e frutos no oásis, Küorã apenas nota os infortúnios da possível ‘bichada’ e das possíveis vespas no seu pé, ignorando o alimento. Após esse episódio, a relatividade do pensamento lhe é concebida, e Küorã se ergue do subsolo e se consolida essa figura iluminada e cultuada eternamente.

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VI DO EU EM RECONCILIAÇÃO 2ª ETAPA - Baú da Alegria Online Diversos Prêmios Escolha Qualquer Animal Entre Papagaio (X) e Capivara (Y)

X: O papagaio do gênero Amazona é um psitacídeo de pequeno porte e robusto. Tem cabeças grandes, asas largas e arredondadas. A cauda é curta, de formato arredondado ou quadrado. O bico é robusto, típico dos psitacídeos e a área em torno do olho é desprovida de penas. A plumagem é variável de acordo com a espécie, mas o verde predomina em todas. Muitas espécies desse gênero são criadas como animais de estimação, principalmente o papagaio-campeiro e o papagaio-verdadeiro. São conhecidos pela sua grande habilidade vocal, alegria e destreza com os pés. São leais e conhecidos por serem boas companhias. Alguns dizem que criar um deles é como ter um filho de dois anos, mas que pode chegar aos cinquenta. Entretanto, algumas espécies são agressivas (principalmente na época do acasalamento) e exigem mais atenção do que o necessário a um animal de estimação comum, como um gato ou um cachorro. São aves muito inteligentes e precisam de atenção diária para mantê-los mentalmente saudáveis, além de precisarem de atividades estimulantes para mantê-los ativos. Em particular, como os papagaios nidificam em árvores, seu desejo para mastigar madeira é bastante forte e eles precisam ser providos de objetos para que possam mastigar e saciar esse desejo inato. (via Wikipédia)

Y: A capivara é um roedor incluído na família Caviidae, subfamília Hydrochoerinae. Tal subfamília foi considerada por muito tempo, uma família separada (Hydrochoeridae), mas estudos genéticos claramente consideram que as capivaras devem ser incluídas em Caviidae, tornando Hydrochoeridae uma subfamília. Alguns estudos apontam Kerodon (ao qual pertence as duas espécies de mocós) como o grupo de roedores mais próximo evolutivamente do gênero Hydrochoerus, apesar de que tal relação ainda não está bem resolvida. Considerando a relação com o gênero Kerodon, pode ser válido considerar Hydrochoeridae como uma família. Mas é inquestionável, até o momento, que a capivara é um roedor caviomorfo, dentro da superfamília Cavioidea, que representa uma importante radiação de roedores Hystricognathi no Novo Mundo, ao qual fazem parte as cutias, a mara, a paca, a pacarana, os preás e o porquinho-da-índia também. Atualmente, não são reconhecidas subespécies da capivara. Até 1991, alguns autores consideravam Hydrochoerus isthmius, que ocorre no Panamá, norte da Colômbia e Venezuela, como uma subespécie da capivara (Hydrochoerus hydracheris), mas é classificada como uma espécie separada desde esta data. (via Wikipédia)

revista uso, #1


VII DO EU AUTOSUFICIENTE

“TOCA” “TOCA” “TOCA”

mantra: colocar a palavra

colocar a palavra

palavra

antes da palavra pensada.

sobre qualquer perspectiva

diante qualquer diálogo toca planeta toca arca toca leve toca big-bang toca tempo elevado a negativo toca minhoca toca cheguei toca oca toca ca toca toca toca otorrinolaringologista toca galinha

PASSO 1:

toca tarde Coloque o

toca boa tarde

Papagaio (X) e a Capivara (Y) no

toca trupe

plano cartesiano.

toca digital

PASSO 2: Coloque o Papagaio (X) e a Capivara (Y) no Cogito.

RESULTADOS:

toca nuvem toca montanha toca fogo toca água toca gando - “gando” não é uma palavra

-PAPAGAIO, LOGO EXISTO - PENSO, LOGO PAPAGAIO. - PENSO, PAPAGAIO EXISTO. - CAPIVARA, LOGO EXISTO. - PENSO, LOGO CAPIVARA.

- “gando” está escrito - pergunte ao “gando” - Gando não responde, Gando é - Gando tem um argumento

- PENSO, CAPIVARA EXISTO.

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VIII DO EU PROJETO decifre o código binário: 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨 🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨 🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨 🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨🔥 🔨

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IX MANUAL

I: TEMA II: INFÂNCIA. RELAÇÃO CONFUSA ENTRE SER E O MUNDO. III: SUJEITO SE VÊ NA MORAL VIGENTE, SUJEITO REJEITA A MORAL VIGENTE. AO REJEITAR, REPRODUZ OS VALORES DESTA MORAL POR USAR AS MESMAS FERRAMENTAS. IV: PROCURA NOVAS FERRAMENTAS PARA RECRIAR-SE. ASSUSTADO AO SE ENCONTRAR, A PARTIR DE UM MÉTODO CAÓTICO, COMO O REFLEXO DA CIDADE E DA ALEATORIEDADE PARCIAL DA VIDA, CORROMPE O MÉTODO PARA CRIAR A SI MESMO. V: COM SEU NOVO EU EM BUSCA DE AJUDA, RECONCILIA-SE COM A SOCIEDADE CIBERNÉTICA. VI: INCORPORA O MÉTODO BASE VII: PROXYS VIII: A HISTÓRIA IX: ISTO NÃO É UM MANUAL

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3. Texto de Marina Mole Ilustrado por Anaís Escalona

o ronco da minha barriga parecia dizer ‘don’t worry’ depois de ter apertado send na mensagem 'go to hell com seu coração de sacola plástica’ & de jantar cachaça são francisco com limão e tabaco. eu também roubei do neal cassady a estrada da auto-intriga e outras coisas assim. eu faço parte desse clube e ele me faz lembrar do grito estridente dos meus demônios que me tornam uma bagunça de pessoa limítrofe do splish splash uma vez por semana. meu amor trash sagrado é a única coisa que posso dar pro mundo. god knows i’ve been beat up. minhas palavras já foram anti-bacterianas e quando eu pergunto pro i ching porque cobro tanto de tudo i really mean it. ao menor sinal da volta incorporo todas as minhas vidas passadas e é preciso muita coragem para escrever certas palavras. por isso não escrevi. it used to be alright. what happened? quando cruzei com você parece que cruzei comigo ou com a putinha reclamona que eu costumava ser e que fez de algumas almas um grande TARGET POINT SHOOT ME PLEASE. deus conserve o iggy pop porque no meio dessa loucura a única coisa mais alta do que a porra da minha indignação insensata foi o grito dele em fun house. ano que vem vou montar uma banda punk que fale do amor universal e do ódio incontornável pra ver se equilibro todas essas forças que me atingem feito bala. eu sei porque o arnaldo baptista chorou eu fui as lágrimas do arnaldo baptista na minha vida passada. ele falou que estava cheio de buracos e que todas aquelas pessoas passavam por dentro deles. elas também passam por dentro de mim. por dentro da minha serenidade de vidro. hoje virei as palmas das mãos para o céu porque estava tão azul e chorei um pouco. disse 'obrigada, quero dividir’. você está proibida de falar com o céu, menina. ele escuta e você já sabia que logo a noite chegaria e você cuspiria balas de prata na cara deles. eu preciso dizer que meus sentimentos são populares. nnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnn. eu preciso dizer que não tem nada a ver com você baby. tem a ver com essa coisa maluca que mora comigo que anda comigo que é paz que se entrincheira que me levanta no ar que me joga ladeira abaixo. você tirou um pouco de sangue de mim e naquele momento eu senti o meu rosto ficar mais quente e uma vontade de dar significado. era tudo tão vermelho e se espalhava no tecido da minha camisa em padrões lindos. eu ainda sou aquela garota loira que beijou a boca de um cara na fila do banheiro mesmo sabendo que estava de batom vermelho. e que a namorada dele o esperava do lado de fora. eu estive me acabando desde sempre. hoje me acabo um pouco mais. e te peço. as mais. sinceras. desculpas.

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revista uso, #1


Corrimão verde-bosta Texto de Thiago Mostazo Ilustrado por Pedro Mirilli

Pendia sobre um corrimão verde-bosta levemente inclinado para a esquerda. Não era bonito, por certo. O objeto amarelo e viscoso tinha detalhes pretos e uma consistência não muito consistente de aspecto jaqueta velha que fica abandonada no armário, com um leve odor de podridão e doçura, como se pudesse, em uma simbiose inesperada, confundir qualquer juízo de valor about the sweet and rot. Às vezes eu não conseguia deixar de pensar em inglês, sintoma da mente entupida de John Wayne’s e Adam Sandler’s & Co. Enfim, era amarelo o objeto, e verde-bosta o corrimão. Eu passava alheio a tudo aquilo, e não teria reparado nesse detalhe não fosse a cusparada do velho, que estava num bom dia. Nos piores, ele nem se dava ao trabalho de responder aos acenos humanos. Era um maldito, mas por alguma razão lhe era permitida a existência. Cuspiu e abriu um largo e sincero sorriso. Eram 11 horas e vinteecinco da manhã. ..fim da primeira sessão de treinos.. eu e minha toalha de rosto já esboçávamos uma reação quando me deparei com a cena. Será possível isso?, indaguei ao velho Pfff..., respondeu ainda sorrindo A gente passa anos estudando as coisas, observando o mundo ao redor pra de repente ter de lidar com isso? Não é justo, meu deus, não é justo seu filhadaputa. Respirei fundo diante da insuficiente tarefa de mudar a realidade e me coloquei a pensar. Ora, se até jesus chorou, então como não contestar, diante dessa anomalia, tudo que nossa experiência como homo sapiens modernos criou e ensinou? Não, minhas enciclopédias não se colocam a serviço de mentiras. Isso não. Melhor ligar pro Joca e acalmar um pouco minhas angústias. Mas e se ele achar que estou louco e começar a mandar os cachorros e porcos atrás de mim? Por certo não vai acreditar na minha palavra... mas reside nele a minha única esperança em explicar essa aberração. O Joca é entendido das coisas, sempre sabe o que dizer pra renovar nossas crenças e trazer a mente de volta pro caminho da verdade: o trabalho e os exercícios. Será que ele está saindo pro almoço e pode dar uma passada aqui? É isso, ele precisa ver com os próprios olhos.

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...99347... Mas calma, e se a mulher dele ficar puta comigo porque eu impedi seu confortável ritual de almoçar em casa? A senha dos casamentos felizes e o castigo dos desajustados. Melhor deixar o Joca fora dessa, ele já disse que eu tô ficando paranoico e sei lá se ele vai chamar a Patrulha pra me buscar. Capaz de convocar a Patrulha ainda hoje, porque ele tem um amigo do sogro dele que trampa lá e eles ficam enviando mensagens engraçadas um pro outro no Whatsapp o dia todo, ele já me contou, e até saem para a infidelidade noturna juntos algumas vezes. Boa relação essa, queria eu conhecer alguém da Patrulha que fosse tão bondoso comigo e permitisse as minhas dúvidas com relação ao tripé. Caralho, isso aqui é muito pesado, pode ser o anti-tripé, uma prova real de que Família, Pátria e Crossfit não seriam os pilares essenciais de nossa civilização ocidental. (!) ... (cuidado Gerson, o velho ainda está aí, só te ouvindo cara, e se ele for da Patrulha, e se de repente você se fode, hein?! Vai-te embora, volta pra sua vida miserável rapaz)... É verdade que tenho 6 filhas pra pagar e um bocado de contas pra sustentar. Por que eu fui comprar a sexta... é algo que não consigo explicar. Só sei que meus olhos brilharam quando disseram que ela tinha mais chances de virar doutora do que as minhas outras cinco compras. No duro, mostrei a nota fiscal das outras e tudo e o cara da loja me garantiu que dessa vez eu não comprava um gato por lebre. Aliás, o que serão essas lebres? Meu vô contava algo sobre elas, mas não estou mais autorizado a ouvi-lo desde que completou 65 anos e passou a devanear. Essas lembranças de gente velha podem ser uma faísca na cabeça de algum traidor da pátria, obeso, sem bens familiares. Eu já tratei de garantir os meus, ninguém pode me chamar de ingrato. Comprei quatro das seis filhas no início do aluguel de minha esposa para não ter que arcar com o reajuste de preços. A outra veio no segundo aluguel depois que minha esposa se afogou com a minha mão na privada de casa. E agora comprei mais essa pra ver se me sustenta quando eu ficar que nem o velho – por que mesmo que o velho está vivo? Mas eu sempre amei, eu sei que é obrigatório amar. Quando não amo mais, eu me desfaço, aprendi direitinho. Meu pai estaria orgulhoso hoje. A fome de quê? As mucosas de quem? O objeto amarelo viscoso continuava me encarando e eu imaginei a minha vida, a minha morte e as guerras que passamos até hoje. Encostei. E nada aconteceu. Logo passa uma moça. Admirável

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e solitária, ela também se intriga pelo corrimão verde-bosta e o objeto amarelo dependurado por ali, levemente inclinado para a esquerda. O velho logo se anima, levanta e faz uma oferta por ela. Recusada. Já foi alugada por outro e o velho não teria dinheiro de qualquer forma, gostava mesmo era de se divertir à custa dos outros. Um sádico. Não sabia como alugar uma mulher e tenho certeza que no fundo ele não acredita mais no amor. No verdadeiro amor de trabalhar duro durante anos para adquirir o seu par perfeito, a mais bela das moças, do modelo mais recente e bem avaliado pelo Googlenetycs. Esses velhos ainda não entenderam o mundo de hoje. Mas tudo bem, uma hora eles morrem. Oi. Olá, você sabe o que é isso?, perguntei. Sim, é uma casca de banana. Como? As bananas têm casca!? E é permitido essa bagunceira toda dependurada em um corrimão? Eu achei que fosse algo legalizado, você tá querendo me complicar aqui não é? Cadê... cadê os homens da Patrulha?! Estão chegando, não estão? Eu sabia... que merda, vou ser levado por culpa de um velho e uma mulher, caralho, que destino! Não sei se entendi seu desespero. Mas as bananas têm casca, sim, você não sabia? Além disso, deve ter sido um descuido de alguém que deixou os restos por aí... Descuido?! Descuido é o meu ovo, isso foi armado. Estão querendo nos contar coisas que não podemos saber! Além do mais, não existem “restos por aí”... não existe mais excedente, resto, desperdício. Não se faça de tonta, você sabe o que aconteceu com aqueles que desperdiçavam... querem me levar embora porque estou incomodando, falando demais nos jantares, me atrasando 5 minutos para as compras do mês, fazendo uma série de exercícios menor do que antes... deve ser isso, ou aquele filhadaputa do Joca... Pfffff..., respondia o velho já entediado. Você não sabia?, me consolava a moça. Os de cima desperdiçam sim, e muito. Eu não podia ouvir aquilo. Que as bananas tenham casca, vá lá, pode ser uma falha de entendimento minha. Um lapso da minha

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capacidade de observação diante deste fálico e nutritivo alimento que ingeria, sempre com aveia e mel, depois de uma das duas sessões diárias de Crossfit. Elas já vinham no pote e eu não teria como saber mesmo. Além do mais, com a ração controlada e tudo, às vezes a gente não entra em contato com alguns tipos de alimentos. Mas isso não. Desperdício dos de cima?! A gente aprendeu história, sabe que foram exterminados os malditos de baixo, os que alegavam fome. E a Patrulha nos mostrou que, afinal, eles não se alimentavam porque desperdiçavam. Reproduziram vídeos e imagens em cadeia nacional desses de baixo jogando fora um resto de refeição, catando no lixo o que jogaram por arrependimento, e agora eles querem insinuar que o desperdício que quase levou ao colapso do planeta é culpa dos de cima?! Ah, tenha dó... parece até papo daqueles conspiradores medievalescos que insinuavam que o planeta ia esquentar até explodir. Que nada. – termômetro: 47 graus, tempo agradável sem previsão de chuva ácida e corrosiva no dia de hoje... Culpados, logo eles, os 327 mil escolhidos para sobreviver? Nossos antepassados, os que nos geraram e fazem das mulheres os mais belos produtos, e dos homens os mais dedicados crossfiteiros, todos servos raça pura dos de cima. Servos não, serventes, pois que um dia chegamos lá... lá em cima. Eu não desperdiço. Tu não desperdiças. Vós não desperdiçais. NÓS NÃO DESPERDIÇAMOS. Eu tinha que reagir. Cala a boca! Como você ousa falar assim dos de cima? Eles te dão tudo, te conseguem a melhor oferta com essa bunda aí que te deram, esse jeito abusado... e você agradece como? Blasfemando. Quem te comprou afinal, hein? Ninguém, sou sozinha. Sozinha?!! Você tá maluca? Eu vou ligar já pro Joca pra ele avisar aquele amigo da Patrulha, quem sabe com isso eu me livro dessa merda em que me enfiei... ...99347... A moça pegou a casca de banana e jogou no chão. Incessante, andei de um lado ao outro, tentando teclar os números enquanto ela estendia a mão e ajudava o velho a se levantar. Ela pegou um lenço do bolso e limpou a boca do velho - ainda suja da noite anterior - apontou para mim e sussurrou algo no seu ouvido.

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Minha visão ficou turva. Passei a cogitar a possibilidade de que ela estivesse certa. Afinal, se fosse assim, porque estamos nosexercitandocomoloucos,trabalhandohorasafio,oferecendonossosesforços aos de cima em agradecimento aos seus esforços para preservação da raça? Da raça pura, é claro, eliminados os malditos. - o que o velho está fazendo aqui afinal? –. Quem somos nós? Poderia ser verdade?... Ai jesus, onde estás tu em meu smartphone? amor dúvi da sabor banana

Escorreguei na tal casca de banana, caí e acordei por aqui. Estão reprisando esse episódio da minha vida pela 17ª vez, só esperando meu relatório. ... Pendia sobre um corrimão verde-bosta levemente inclinado para a esquerda.

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O caminho de baixo Texto de Tim BĂźhrer Ilustrado por Matias Vilardaga

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se eu abro o messenger a fila do zap respostas não dadas se eu olho na janela enquanto tudo tudo vai e passam fotos passam as propagandas no túnel passam eu sei, você sabe, todos nós sabemos tudo parado que tem um objeto na linha do trem aquela coisa alguém deixou todas as manhãs alguém esquece quase todos os dias a linha inteira fechada como esse povo é desastrado como as coisas acabam assim veja bem objeto, linha, tudo acaba ali mas também tudo começa ali eu abro o jornal tomando um café do monster dog eu ligo o celular o spotify tocando belchior eu sei que quando a gente demora um tempinho para sair eu sei que quando eu pego no meu bolso um pão de queijo é porque tem um vagão esquecido no objeto eu sei que um trem derradeiro já passou hoje; em São Paulo as manhãs são mornas são tenras inúteis as manhãs em São Paulo nas filas do RH meu currículo em São Paulo eu pulo de manhã em manhã no strictu sensu quais línguas eu falo minha experiência anterior, não, não eu sei lidar com a pressão É só atingir a jugular no meio tempo, tenho experiência é só pular da ponte eu tenho experiência é só apertar o gatilho é só pisar em falso no hiato é só Job sem antecedentes; os lugares comuns entre o vagão e a plataforma a máquina de refrigerantes, saco de pipocas, pãezinhos de queijo por $2 um café com leite ruim o trilho, o túnel e o objeto Decisão longa, 1:30 para a próxima ideia um rastro de linha vermelha objeto Contra fluxo do dia; eu ouço o meu peso saindo dos seus lábios todos os dias, balança exposta

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parece que a morte do pai não foi suficiente, que o tempo parou que tem um objeto na linha do trem que alguém foi diferente ver o sol hoje que alguém deixou cair algo, celular, pombo, alguém deixou cair o olhar e sem querer parece parece que meus dedos estão secos. lambo as pontas, abro a sacola, seis bisnaguinhas o trem parado esperando a situação normalizar paciente outras pessoas ouvindo música de ir embora outras de ir trabalhar, o objeto lá eu sei que tem alguma coisa, pessoal, alguém entrou com pressa, deixou cair o fone o carregador a caixinha do óculos alguém pisou em falso na vida, pagou $4 na passagem integração na luz, não cobra, bilhete, atualmente nas linhas vermelha e verde tocam arranjos calmos guardinhas não chegam em ambulantes de propósito eu sei que minha vida é um estorvo porque estou sentado na cadeira preferencial botaram fé demais em mim e por isso é claro que existe um trem no objeto da plataforma 10 minutos, nada que uma lavadora de alta pressão, nada que uma sacola preta, silêncio obtuso, nada que não se resolva assim é claro que todo mundo sabe, por isso os fones eu não tenho o direito a tratamento, bússola inerte, afirmações eu não tenho direito a terapia, não tenho dinheiro a terapia Ações afirmativas, alternativas são plausíveis, exercício físico salto com vara entre o trem e a plataforma deixar cair objetos tropeçar no caminho, silêncio, alguém vai retirar alguém vai entrar aqui no meu canto agora, xiu não é nada demais, haha, hehe, isso aham é, é que eu estou criando uma nova fórmula, nada demais mesmo, poema espasmo é uma figura de linguagem para uma referência de um livro que eu gostei muito quando li; não leia sobre meu ombro o meu celular pode te contar o que está acontecendo.

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autocrítica

não sei quantos dias se passaram , de certo mais do que deveria . acendo um cigarro e dou tragos, dois ou três , e logo em seguida preciso ir trabalhar.

escrevo quase como obrigação. Se deixasse para outro, esse sentimento ainda seria presente, mas invisível. Estranha a forma de se maquiar um cadáver… o que nos mostra que a última impressão sobrepõe todas as outras, é claro, até a tampa do caixão sobrepor a cara de quem vai, ou foi…

o processo de criação dessa revista não difere em muitos níveis do que é se pensar arte no país. Se imagina uma boa quantidade de colaboradores e se manipula gramas d’um ouro-de-tolo ainda em pó. de certo demos um salto após o prelúdio, mas mesmo assim resiste a zorra . hipocrisia sutil de quem pretende comunicar.


em muitos momentos parecíamos discutir com o liquidificador, pobre eletrodoméstico, nunca pode nos mandar tomar no cu.

Você com certeza acha lindo, e se não acha apenas balança seus gestos em anuência à Deus… acreditando ou não na figura. O trabalho do acaso costuma exterminar a crítica. Então te desafio, não seja bobo... não deixe que sua amizade ou falta de esperança permita às páginas que passaram o direito de serem nulas.

de certo demos um salto após o prelúdio, mas mesmo assim resiste hipocrisia sutil d’um liquidificador . volto na semana seguinte e percebo cinzas brancas sobre o teclado . Com certeza o resto dos tragos que esqueci de tragar. revistauso@gmail.com

autocrítica


Das predisposições gerais do projeto gráfico

Da simbiose entre texto, imagem e layout (assemblage) Define-se que ambos os três elementos constituintes de uma peça impressa equivalem-se em gravidade, prestígio e/ou influência. Assim, relacionam-se despudoradamente, inter vindo-se descaradamente,

Da demanda geral do projeto (de um

sobrepondo-se depravadamente,

projeto gráfico e suas peculiaridades)

transmutando-se indecorosamente.

A demanda foi por uma revista que

Do logo e sua vírgula

fosse continente para pluralidade. De tal forma concebe-se o projeto gráfico

No que concerne a marca, π ογότυλ ,ο ou como

(PG): modular, de forma a ser flexível.

preferir, foi criado uma manifestação

Flexível, por isso modular.

que convida ao uso. Stencil é parede, é intervenção, é onipresente e ano-

Do formato e da escolha do suporte

mia. E quanto à vírgula; ah, esta é o contraponto do ponto (bem como

Uma vez que a revista uso, funda-

uso, é o contrário de posse.) uso, é

menta-se no ideal da rua, torna-se

não determinista, passível de inter-

mister a facilidade de transporte. Tal

venção, grito – maximalismo de qual-

formato propicia a vocação da revista,

quer procedência.

que existe para ser usada, amassada, largada, dividida, emprestada, perdida.

Sobre a transparência e colaboração

Uma vez que feita para vagar, opta-se

do processo

por um formato fino, em algum lugar escondido na solidez da 5ª justa e da

Entende-se que é imperativo da hori-

6ª menor adstringente (BRINGHURST,

zontalidade a divisão de tarefas de

2008, p.162-163): uso, cabe nas mãos.

acordo com expertise, vontade, disponibilidade, tesão; contudo, impera

Tipografia

também a vontade de trabalhar abertamente com arquivos fechados para

Define-se uma tipologia de contrastes

diminuir a distância entre especialistas

tipográficos e inversões que, apesar

e especializados.

de parecerem ousar definir o gênero do texto, contemplam a possibilidade híbrida já prevista por Preciado no Manifesto Contrassexual.



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maio de 2019


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