Revista USO #0

Page 1

revista

USO numero zero



expediente _

_ por ordem de aparicao Capa

Poesia Visual

Expediente

Feto de Porco

Mirilli [i]

Pessanha [i]

Luiz Fernando Misao [i]

Santiago Segundo [t] e Mirillv [i]

Editorial

Adeus, Ira

Carmen Lidja [i]

Alex Tajra [t] e Mirillvi [i]

Inspetor

Carta X

João Mostazo [t] e Mirillii [i]

Marcos Sokabe [t] e Mirillvii [i]

Ghost

“Um ronco destrona as leis...”

Pobreza Enlatada

Estação do Entardecer

Aline Bei [t] e Pessanha [i]

Júlia Vita [t] e Carmen Lidja [i]

Tomás Spirandelli [t] e Carmen Lidja [i]

Thomaz Civatti [t] e Paulo Ayres [i]

Eu Falo

AutoCrítica

Semáforo

ContraCapa

Isadora Lobo [t] e Mirilliii [i] Thiago Mostazo [t] e Mirilliv [i]

Mirillviii [t] [i] Mirillix [i]

[t] -Texto | [i] - Ilustração

_

revista uso

Seleção Editorial: Santiago Segundo e Thiago Mostazo Diagramação e Conceito: Pedro Mirillx

numero zero


A solidão ativa é um meio para o banquete coletivo dos ordinários, caídos ou não A solidão passiva é um meio do horror sistêmico para que sejamos vis à nossa covardia, inspetores de nossa condição produtiva e amargos ao nosso dever político Prescrevem nossas cercas e o arame farpado com o melhor coeficiente de segurança Prescrevem o modo do nosso pronome possessivo Oh, Senhor, Deus dos desgraçados, ainda deitado com o analfabetismo do céu e com a indiferença da cabra? A palavra é nossa! Somos porque negamos a simples resposta aos estímulos Somos porque agimos nas noites de ureia, chumbo e bosta Somos porque não somos E não somos porque carregamos todos os rostos do Tempo Não estamos sozinhos Para cada tentáculo teremos a memória do suplício: desde cavalos desmembrando condenados à Sucursal do Inferno Para cada tentáculo teremos a marca das ondas, do ferro, do sal e do suor roubado que navios tumbeiros deslocaram ao pélago civilizatório Para cada tentáculo despertaremos nosso carrasco metafísico nossas dores, nossas contrições diárias e sangraremos por toda a América Latina e por todos os clandestinos Para cada tentáculo teremos as pegadas maternas atrás de ossos no deserto do Atacama teremos todo o carbono calcificado Para cada tentáculo teremos os botecos com seus sonhos mudos teremos todo o esgoto cartografado e talharemos no excremento beatificado uma rosa faminta

E enquanto procuram níqueis na noite sem fim sequestraremos a noite cantaremos junto às bruxas da amaldiçoada peça escocesa beberemos do amor que transfigura o copo seremos amantes corpo-discurso e no fundo da noite os rejeitados terão, em uma mão, a Serpente Cibernética degolada ungida pelo próprio sangue elétrico que a faz real E na outra mão, A Serpente Fascista enrolada com o rabo na própria boca.



0

Inspetor

Desde que eu abri os olhos pela última vez, é assim que estamos: empilhados. Não que tenha sido de qualquer vantagem abrir os olhos - é muito escuro aqui embaixo, nenhum de nós vê nada, e arrisco dizer que a nossa visão há muito já se esqueceu como se vê; ao que tudo indica, estamos cegos, mas não há certeza - há calma e incômodo. Seja como for, cego ou não, eu posso abrir os olhos, posso senti-los abrindo e fechando. E os abro e fecho frequentemente porque a poeira das paredes cai dentro das minhas pálpebras constantemente - e com os braços assim, imobilizados como estão, não tenho outra saída senão piscar rápida e furiosamente para me livrar do frequente incômodo de ter um torrãozinho de terra nos olhos. Somos muitos, não sei quantos, e estamos assim empilhados desde que eu me lembro, ao menos desde que eu abri os olhos pela última vez, depois de lutar contra um torrão de sujeira que há dias me torturava a paciência. Com os pés, que estão descalços, sinto a cabeça do meu companheiro de baixo - sinto o seu cabelo oleoso entre os meus dedos. Sei que é o seu cabelo porque há muito tempo, eu me lembro, ele era careca, e eu sentia a sua cabeça lisa pressionada contra as solas dos meus pés. Hoje, uma vasta cabeleira lhe cobre o topo do corpo, e envolve também os meus

pés - pelo quê eu sou grato, pois os aquece. Além do mais, eu também um dia fui careca - e é assim que o meu entender se completa: sei que o que toca os meus pés é uma cabeça porque sei que o que a minha cabeça toca são as solas dos pés do próximo, do de cima. Sei do outro porque o sinto, e sei dele porque me sei a mim; e a metade do que me sei de nada me valeria não fosse a outra metade, que é senti-lo ao outro, quando me toca. Se o que é verdade para mim for para os outros - e não há por quê pensar ser diferente - somos, porque estamos assim, empilhados, uma corrente de seres que se entendem a si mesmos e uns aos outros pela metade. Mas como sei que o que sei não me engana? Como ter certeza que isso que toca a minha cabeça e pressiona os ossos do meu pescoço são mesmo as solas dos pés do meu companheiro de cima? É verdade que eu sei disso porque sinto os meus próprios pés apoiarem-se na cabeça do companheiro de baixo - mas como, esta é a dúvida que me assola, como posso saber que são pés isso que tenho no limite inferior do corpo, e que é cabeça isso que sinto no princípio de mim? E como sei que começo por cima e não por baixo, se não há razão alguma para crer que não estamos de ponta cabeça, se não há qualquer referência que não sejam os torrões de terra que se desprendem das paredes e os

corpos dos companheiros que me é dado sentir apenas nos extremos, já que estamos assim, empilhados, nos sentindo e nos sabendo aos poucos, como uma corrente, como um fio elétrico? O meu sentido de coisa opaca, de matéria, quer me trair, e o meu senso de gravidade se entorpece no escuro. A esta altura, não fossem as paredes estreitas deste túnel a restringir tanto os movimentos do meu corpo, mesmo o mínimo expandir da caixa torácica, eu provavelmente estaria corcunda, tamanha é a pressão que exerce sobre a minha coluna a coluna de todos os outros que estão empilhados acima de mim, e que eu não sei quantos são, e que só não me esmagaram ainda porque estamos ligeiramente inclinados, ligeiramente deitados, na diagonal, o que é um alívio, pois permite ao corpo que descanse sobre a terra e não exija demais aos ossos, já muito fracos, dos companheiros debaixo. A verdade, eu preciso confessar, é que não me importa muito se tenho pés, nem se tenho cabeça. E nem me interessa tanto saber por onde começo e em quem termino, se no companheiro de cima ou no companheiro de baixo. O que eu realmente gostaria de saber é de quem são os passos que, lá em cima, dão voltas em torno da entrada do túnel, desaparecem, se afastam, detêm-se, e logo retornam para nos inspecionar.



GhosttsohG

a menina aceitou o copo d`água, tomou em grandes goles, depois perguntou, ainda trêmula, por que só as pessoas bonitas tem um lugar no mundo. -isso não é verdade, Nádia. - a professora disse. e a nádia sentindo que era - o que é a beleza, você sabe? a menina sabia, mas não conseguiu colocar em palavras. - vamos fazer assim, pense em alguém que você considera bonito. ela balançou a cabeça positivamente. - e por que você considera essa pessoa bonita? - porque. ela é gentil comigo. - pois então. perceba como a beleza está conectada com sentimentos que são seus, não da pessoa em questão. a beleza é uma leitura, nunca uma verdade absoluta. pra você, o bonito e o gentil caminham juntos, certo? pois pra mim a irmã da beleza é a inteligência. - mas eu queria ser bonita professora, não importa como, seria muito mais fácil vir pra escola, vê a Adriana como está sempre sorrindo, vê a Ângela. sendo como sou eu tenho que me arrastar até aqui porque sei que a partir do momento que eu passar por aquele portão eu vou me sentir um lixo maior do que já me sinto. - sua mãe sabe dessas coisas? - não. - por que você não conta? - ela não entenderia.


- quer que eu conte? - não professora, por favor. - está bem. mas você sabe que pode contar comigo, não sabe? com a Telma também, ela pode te atender amanhã, se você quiser. - não adianta, eu tenho que aguentar até eles cansarem de mim, mas ainda que eles cansem. o jeito que eles me olham nunca vai mudar. - eu sei o tamanho disso que você está sentindo, querida, pode ter certeza de que suas palavras estão chegando aqui em mim. mas infelizmente você não pode transformar as pessoas, a mudança tem que ser sua, você tem que se fortalecer ao ponto de não se importar mais e quando você finalmente deixar de se importar é aí que eles perdem a força, entende? volte pro pátio de cabeça erguida, Nádia. você não fez nada de errado e ninguém é melhor do que ninguém. todo mundo sente medo, todo mundo sente fome. eu queria sentir medo e fome em outro corpo que não o meu, ela ia dizer, mas sentiu que a professora também não entenderia. - agora vai, se não você perde o intervalo. a menina voltou devagar pro pátio, se por acaso aparecesse o gênio da lâmpada dizendo você tem direito a um desejo ela pediria pra ficar invisível sentou-se debaixo de um ipê e ao invés de chorar no banheiro, incontrolavelmente ela começou a chorar ali mesmo na frente de todo mundo, um choro alto, firme, rítmico, chorou de deixar a blusa inteira molhada e o pátio, os alunos do pátio, continuaram fazendo o que estavam fazendo, então sim, pelo menos um desejo ela conseguiu.


Caraio, mó trânsito da porra. Todo dia é assim pra quem mora aqui em São Paulo e comigo não é diferente. No meu caso, é uma hora e meia no busão de manhã, nove horas (ou mais) trabalhando e, pra voltar, entre uma hora e meia e duas horas, dependendo de como tá a rua. Tô de saco cheio, pensando em financiar um carro popular. Eu tô ligado que pegaria mais trânsito, se moscar, mas pelo menos eu vou de quebrada, ouvindo um som, faço meu próprio caminho. Nem é pelo tempo, é pelo estresse, tá ligado? Eu moro no Jardim João 23, Zona Oeste, mais pro extremo, mas trampo em Santo Amaro, ali na Zona Sul. Pego busão aqui na quebrada, daí ele vai pela Raposo Tavares. Desço em Pinheiros e, dependendo do horário e do cansaço, ou eu pego o trem e faço baldeação na linha lilás do metrô (vou amassado), ou pego um busão direto pro Largo 13 (demora mais, mas vou sentado, menos mal). Eu sou assistente numa loja de móveis, fico na responsa do estoque, ajudo com entrega quando falta alguém e minha escala é 6x1, de segunda a sábado. Eu ficava em Pinheiros antes, mas a loja fechou e me mandaram pra Santo Amaro. Era pegar ou largar, e com filho pequeno em casa é embaçado ficar escolhendo. Na real, esse que é o problema pra mim. Se eu fosse sozinho, nem ligava pro horário de ir e voltar do trampo, ficava enrolando no boteco pra voltar, ia pro rolê. Mas eu tenho meu pessoalzinho em casa pra dar uma atenção, pô. Minha mina tem 23 anos, eu tô com 26 e nosso pivete tem quatro. É embaçado, mano, ela também trampa, é cabeleireira num salão aqui na quebrada, e o moleque é mó figura, fica me esperando chegar pra jogar videogame, ver TV. Sem contar que de manhã tem que levar ele pra creche, então é mó correria.

Sexta passada foi foda. Eu tava voltando pra casa, o trem deu problema, travou, mó tumulto na linha. Puta que pariu. Desci na Morumbi e fui pegar o Terminal Pinheiros na Marginal, o 637A. Marginal travada também. Tava meio diferente esse dia, a bagunça tava maior que o normal. De repente me chega a notícia pelo zap: protesto no Largo da Batata. Malandro, o sangue subiu! Porra, eu até acho que tem que protestar mesmo, mas bem na hora de pico? Nem sei qual era o tema desse protesto aí, mas, mano, os caras tem que ter noção. A maioria que participa disso aí é boy, tenho certeza.

Pobreza

Cheguei em casa umas 22h00, cansado pra carai, mulher tava de bico, pivete com sono, mó climão chato. Até explicar que nariz de porco num é tomada, cê tá ligado. Mas pelo menos cheguei, tomei uma ducha, assisti uma tela e fui descansar, porque sabadão também é dia -- pelo menos saio às 14h Fim de semana chegou e no domingo eu fui pro campo aqui da quebrada. Jogo do time Goteira, amistoso. Levei meu pivete, trombei os camaradas e, no caminho, encontrei até um mano que estudou no ensino médio comigo, morava aqui no bairro nas antigas. Num era parceiro mesmo, era só conhecido, mas trocamos uma ideia de leve. Papo vai, papo vem, entramos nas ideias de trabalho (costume de quem mora em SP). Eu falei que tava na loja e tal, pensando em fazer uma facul de logística, mas tava sem grana. Ele me respondeu o seguinte: -- Pô, da hora, Eu não tô trampando fixo, trabalho com arte, então é meio aleatório. Tô morando no Centro com uma rapaziada, tipo uma república, tá ligado?

-- República é quando mora uma pá de gente na mesma goma, né? -- Isso, exatamente. Daí tem um povo que faz faculdade na USP, na PUC, outros que também são artistas. A maioria é boy, na real, mas eles têm uma visão mais voltada pro povão, tá ligado?


Enlatada

-- Não necessariamente, mano. Tem uns dois que fazem projeto sim, sobre violência policial, em algumas quebradas, em parceria com institutos dos bairros. Outros se reúnem mensalmente em alguns CEUs pra fazer apresentação musical e teatral. Eu mesmo faço parte desse grupo, trouxe os caras aqui pro CEU Uirapuru pra ver se conseguimos iniciar um curso de música pra jovens. Eu concordei com a cabeça, falei “aham, da hora, pode crer”. Nos despedimos, segui pro campo com meu moleque e ele seguiu pro CEU. Na semana seguinte, eu fui ajudar a fazer uma entrega de um armário e umas mesas ali na Zona Sul mesmo. Não era no perímetro da loja que eu trabalho, mas como nós que tínhamos os produtos e quantidades em estoque, ficamos responsáveis. O endereço era próximo da Vila Mariana, do outro lado da Sul. Um condomínio grande, de alto padrão. O apartamento era de um casal que se mudou para lá havia pouco tempo e estava mobiliando a nova casa. Chegamos lá, o casal era educado, mas eu não tava muito afim de conversa. Não me sinto à vontade falando com esse povo.

-- Ah, ó que firmeza, da hora mesmo, truta! Mas quando você diz isso, é tipo o quê? Os caras trampam em ONG? Ele deu risada, me senti meio tirado de burro no desbaratino, mas me explicou:

Eles quiseram ser simpáticos, ofereceram água, ajudaram, foram gente boa. Começaram a puxar papo, me perguntaram onde eu morava, se eu estudava, se tinha família. Perguntavam pra mim e pro motorista, que já era nego véio. Numa dessas vieram me falar que eram professores universitários. Ela dava aula de Antropologia, ele era historiador. O marido, inclusive, disse que conhecia meu bairro, pois participava de um grupo de resgate da história periférica de SP. No meio da ideia, me marcou essa visão dele:

-- Sabe o que eu acho mais bacana? É que nós estamos notando que a periferia está cada vez mais engajada e comprometida com as lutas populares! Hoje em dia, os protestos, por exemplo, não são mais restritos apenas à classe média, pois todos estão se politizando. O cara me convidou pra conhecer o grupo dele e tal. Eu só afirmei com a cabeça, mas nem dei muita bola. Na volta pra casa, no busão, vim refletindo. Achei da hora essas ideias, mas meio fora da realidade. Sei lá, olha o tamanho da quebrada, maioria só quer saber de baile, balada, moto, drink. Ninguém aqui tá a fim dessas fitas. Eu mesmo, quando tô de folga, prefiro armar um churras com os aliados, colar no campo, ou ir pro rolê mesmo. Nem fodendo que vou perder meu fim de semana com teatro, curso, ONG, porra nenhuma. Esse mano que morava aqui, por exemplo. Ele teve que se virar por conta própria até que fosse aceito num grupo “com visão social”. Ninguém vem dar umas ideias de mil grau em quem tá largado na rotina da quebrada, a gente tem que se redobrar. Os caras esperam a gente se organizar por conta própria pra depois virem falar que tão nos ajudando. Cola aqui uma vez por semana, mas não mora aqui nem fodendo. É embaçado, né? Acho que, no fim das contas, aquela sexta-feira me deixou puto não por causa do trânsito, nem por causa do protesto. O que me deixa puto é o seguinte: se os problemas são nossos, porque a gente tem que protestar na casa deles?


Eu falo dos encontros, e daquela ressaca que parece que não tem cura Do apogeu e declínio que são forças de quem sabe se exagerar Comovida, destoante Eu falo da plateia que nunca existiu Eu falo de falar: falar sem ser correspondida Eu falo de qualquer coisa que me pinga a cabeça Eu falo das fases da pinga bem pingada por quem gosta de mim Falo ainda do ar que invade meus pulmões toda vez que te vejo E da contração involuntária dos meus maxilares Ou mesmo da natureza sinistra que vem da guerra e que a gente guarda no fígado por excesso de caráter.


Se ma fo ro Não conseguia evitar. A cada luz vermelha era obrigado a desafivelar o cinto e retirar-se do carro em um resmungo. Jogar fora a bituca que escorria nos dedos. E levantar para a ingrata tarefa de sentir-se em movimento. Por várias vezes, as putas da esquina se entreolhavam em risadas pelas tentativas, muitas vezes ridículas, de alcançar o topo da redenção. Agentes da lei o interpelavam ao menor descuido, o que rendia uma boa pitada de inanição dentro das celas noturnas. Os SUVs rapidamente buzinavam e escoravam sua raiva até perceberam que também se valiam deste ato irracional. Em uma oportunidade, precisou se desprender do valor à vida para sustentar seu vício. O excelentíssimo de uns 50 anos abriu a porta blindada de seu veículo para apontar-lhe o pau reluzente que, durante anos, garante a virilidade dos homens. Continuou executando sua tarefa, calmamente, enquanto as veias salientes do dedão do excelentíssimo escorregavam junto ao gatilho. Não se moveu nem um centímetro diferente do que havia planejado, apostando na covardia dos homens, especialmente daqueles que mais têm. Funcionou. Os motores saíram arrancando e o homem, antes raivoso, tascou-lhe um beijo, o que lhe possibilitou socar o rosto rosado do cidadão de bem. Não era uma atividade deveras difícil. Já possuía toda a prática necessária e aprendeu a ignorar os estímulos alheios. Fossem a torcida desengonçada dos inúteis, fossem os apelos desesperados dos perdidos, fossem a valentia supremacista dos covardes. Tudo passava ao largo de sua missão. O porquê? Talvez nunca tenha se perguntado. Só sabia que não gostava de ficar parado. Ainda mais por forças às quais dispensava o mais genuíno desprezo. Odiava as leis de trânsito como um leproso odeia carne moída. Sabia que a obediência tolerante aos códigos estabelecidos poderia ocasionar seu destino. Mas nada disso importava também. Ele tinha uma missão, disso sabia. E não deixaria de cumpri-la. Por mais que os deuses se zangassem. Por mais que os homens o abatessem. Por mais que as mulheres se regozijassem. Sabia o que tinha de ser feito. Naqueles momentos, não havia pai, mãe, jazz, buceta ou aditivo que o parasse.

E a cada luz vermelha, levantava-se do carro e, sem qualquer motivo aparente, abria a caixa elétrica dos semáforos e os tornava verdes. E dava a partida feliz rumo a lugar nenhum.


nav a a no o lh o



coça entre o testículo direito e a coxa, vulgo virilha. depois passa para o períneo e, finalmente, se entrega ao espaço entre a base da peça e o começo do saco escrotal. faz isso com extrema decência e privacidade, e cheira os dedos como um homem comum, saudável e preguiçoso.

mas existem flatulências e alentos, derrotas e prazeres, vitórias e procrastinações, válvulas de escape que arrancam um sorriso de qualquer defunto teimoso. e, entre cães e lanças, Adalberto Morgado ainda respira.

recentemente, a morte de seu último parente vivo lhe rendeu um apartamento de um quarto no centro de São Paulo - onde reside - um carro e uma pequena adega. o carro ele vendeu para usar o dinheiro no dia-a-dia. os vinhos ele bebe enquanto olha a rua pela janela e espera a noite cair sobre os transeuntes.

um amigo meu, esses dias, foi internado por ter colocado no bolso uma nota de dois reais e uma caneta prateada largados no chão da rua. justiceiros quebraram o seu joelho com uma barra de ferro, cuspiram dentro da sua orelha, enfiaram o dedo e uivaram: “João Molhado”. são tempos extremos que fazem jus à raça humana. no horário de almoço, escroques batem punheta na televisão. pessoas estão sem emprego. burros de carga clamam por um cassetete militar na bunda. os caminhoneiros pararam o país. o governo é mais frouxo do que todos os esfíncteres de um asilo esquecido. pessoas estão brigando pelo último litro de gasolina, pelo último refrigerante na prateleira do mercado e por tudo que há fetiche, e está em falta. estão todos esperando uma guerra que não seja mascarada o inimigo que não chega, o inimigo de todos os dias. enquanto isso, as igrejas evangélicas e as propagandas vendem um espaço no céu. acalmam os nervos dos cães com raiva.

desde o acidente, Morgado largou o emprego de corretor e mantém os miolos em banheira com água morna. escuta Schubert em um disco empoeirado de sons da natureza, lê esporadicamente alguns poemas, bebe legal, treina estralo de dedos ritmado e batuque na caixa de fósforos, joga tranca nas terças-feiras, sinuca de sexta e, nas quartas-feiras, o vizinho lhe paga para cuidar do aquário, limpar a piscina, e podar o jardim. ora ou outra, o vizihho também paga Morgado para fazer amor com sua esposa. o vizinho gosta de filmar toda a cena por de dentro do armário de roupas, a esposa gosta de Morgado e Morgado gosta da esposa. certa vez, depois do sexo, Morgado ficou olhando para o aquário e perguntou para o vizinho qual era o nome do animal. um peixe não precisa de nome, respondeu o vizinho. Morgado foi para o bar e pensou sobre isso durante um bom tempo. não chegou em nenhuma conclusão.

depois de acordar, coçar todo o perímetro de sua genitália e cheirar os dedos, resolveu que era hora de tomar um banho. o chuveiro é a gás, então teve de esperar um pouco a água esquentar. abriu uma cerveja e fumou uma ponta de maconha para isso. tirou o roupão e os chinelos e, pisando com a ponta dos pés no azulejo frio, entrou embaixo da água quente. começou lavando os cabelos que, perto dos quarenta anos, já estão ralos. ensaboou o corpo e aproveitou cada gota de água fumegante que encostou em sua pele. por fim, no canto esquerdo inferior de sua barriga, lavou com copioso capricho a cabeça de feto de porco: um conglomerado quase vivo de carne esponjosa com um pequeno tubo metálico enfiado no meio, que, quando pressionado, mesmo que levemente, expele um líquido viscoso. saiu do banho, colocou uma camisa e preparou um arroz com ovo. o telefone tocou:


“Morgado?”, pergunta a voz do outro lado da linha. “sim, quem fala.?” “é o Samuel, porra!” “Salário Mínimo?” “sou eu, porra.”

“por onde anda?”, pergunta Morgado. talvez não haja necessidade de descrever o tal amigo de Morgado. mas as más línguas na literatura, ou seja, as línguas exigentes, em um mundo que a exigência não é lá conhecida pela ética, pregam a minuciosidade, a origem e o caráter das personagens, como se fôssemos todos importantes ao mundo. farei o meu papel, porém, serei breve para manter a leveza que essa história, em particular, solicita. Toni Sorrentino, pai do Samuel, filho de imigrantes italianos operários, era um lutador de boxe sem muito talento. depois de lesões recorrentes e um princípio de Parkinson, abandonou o esporte. conseguiu um emprego de funcionário público como amanuense. não é preciso dizer o motivo de Toni nunca ter conseguido uma foto na parede do funcionário do mês. com o rosto arregaçado pelas lutas e uma mão pesada, se tornou cobrador de dívidas para pagar as contas de casa. por questões que me fogem ao conhecimento, morreu cedo, antes dos cinquenta. depois de sua morte prematura, Samuel tomou as rédeas da casa. fazendo bicos para um bicheiro, cuidou da sua mãe, acometida pela malária, da sua irmã mais nova, que hoje é freira e vive em recluso, e de sua prima de segundo-grau, enteada da família, Helena. Samuel Sorrentino e Morgado são amigos de infância. Salário Mínimo é um apelido que a moçada o presentou por ser baixinho. nitidamente, Samuel não puxou a estatura do pai, mas sempre foi bom em procurar e ganhar uma briga. quando Salário Mínimo casou pela primeira vez, saiu do ramo dos jogos e agiotagem. ambicioso, entrou no ramo da publicidade, onde está bem-sucedido até hoje.

“lembra que saí do país?” “faz o que, sete anos?” “por aí, o que tem feito?” “ah, você sabe, né? batendo perna, caçando vento, e você?” “tenho trabalhado bastante. fiquei sabendo do seu acidente, mas com tanto trabalho, esqueci de ligar. depois achei que tivesse ficado tarde”. “relaxa, cara. sem problemas”. “e a saúde, como está?” “melhor impossível”, responde Morgado enquanto enfia uma colher de leite condessado puro na boca e prepara uma limonada. “vou me casar. gostaria que você viesse.” “quando é a festa?” “depois de amanhã.” “não tem como, bate-pronto.”

assim,

de

“pega o voo de amanhã” “não tem como” “porra, pelos velhos tempos. até Helena vai estar aqui.” “Helena, como ela está?” “o marido dela faleceu. ela ficaria feliz em te ver” “morreu, é?” “assassinado.” “sinto muito.” “não sinta, ele era um filho da puta.”


Helena foi abandonada por pais que não queriam abdicar da juventude e do zelo pela irresponsabilidade. com a poupança que as respectivas famílias fizeram para ajudar na formação da criança, foram atrás de uma vida de trepadas em ferrovias abandonadas, álcool, expurgo, estrada e de toda uma propaganda americana. hoje, vivem num asilo público em Belo Horizonte em estado próximo da demência. comem e falam muito pouco. gostam mesmo é de cagar nas mãos e tacar merda em quem tiver a pachorra de se aproximar. são inseparáveis. Helena nunca foi visitá-los e tampouco fez menção alguma sobre eles desde quando foi morar com a família Sorrentino. Morgado e Helena conviveram muito tempo juntos. descobriram a puberdade brincando de médico - mais do que um clichê, um costume. infelizmente para a carne, em contrapartida, ao bel-prazer da inocência, não conheciam as especialidades da urologia e ginecologia. ou seja, não chegaram no convenhamos, ficaram na convenção. Morgado bateu muita punheta. na glande da vida, detentora de uma única propriedade, continuar, aos poucos pararam com as preliminares e se afastaram. aos dezesseis anos, Helena se casou. entre idas e vindas, engravidou. o pai sumiu. com as costas sob o mundo e o peso na garganta, perdeu a criança aos seis meses de gestação. sangue para todo o lado. meses depois, o pai foi encontrado num quarto de motel barato com uma corda no pescoço, com a mão no pau e dois tiros na barriga. dizem que a criançada da região usou o defunto como alvo. depois surgiu algum responsável, com o mínimo de crédulo e nada de senso de humor, e botou ordem até a polícia chegar.

“então, você vem?” “não tem como, tô sem grana”, diz Morgado. “eu vou pagar a passagem. passa sua conta e vem amanhã.” “mas isso você não tinha comentado”. “então, te espero, abraço! venha de terno, não se esqueça.”

o voo de três horas foi tranquilo. sem turbulências... sem bebês berrando pelo rabo. Morgado, que não é o maior entusiasta de um bípede sair voando pelos ares, bebeu algumas doses para se conter. de terno cinza e amassado, óculos escuros e uma malinha pendurada nas costas, Morgado visualizou uma plaquinha com seu nome. o motorista levou-o até a festa sem nenhuma abertura para diálogo: “Senhor, a família Sorrentino pediu para não te incomodar”. o convidado deu de ombros e fumou um cigarro até chegarem.

a casa, imensa. paredes brancas, inúmeras plantas e diversos cômodos, externos e internos. aliás, não haviam muitas separações, vidros e portas. predominantemente, vãos e mais vãos. todas as pessoas estavam de terno - a diferença é que os funcionários não levantam os olhos. Samuel demorou a aparecer e cumprimentar seu amigo de infância. o homem não perde nenhuma oportunidade para fazer contatos e negócios. “esse é o novo mundo do Salário-Mínimo”, pensou Morgado sorrindo. nesse novo mundo, não há sobras para a crosta cívica que sobrevive entre a derrota diária e o paraíso dos outros. sem nenhum sinal de Helena, Morgado e Samuel tomaram algumas doses e lembraram de casos antigos. sem apresentar o amigo à noiva, Salário Mínimo inventou alguma desculpa e foi tratar de negócios. Morgado, um pouco ressentido com o amigo, escorreu até o bar e por lá ficou... bebendo, batucando a caixa de fósforo, fumado um cigarro aqui, outro lá, e contemplando, por debaixo dos óculos escuros, os barões, os empresários e os publicitários, todos lá, com os trejeitos de quem se leva a sério, com suas taças, com seus bigodes, todos rodeados por conversas sem fim, embaixo de quiosques, cifras e dentes brancos. todos muito bem vestidos, usando os melhores perfumes e preenchendo perfeitamente o manual de um pedaço de merda. com seus cabelos de vendedor de pia, desfilam de um lado para o outro distribuindo cartões e críticas ardilosas pelas costas uns dos outros. Morgado evita contato visual para que nenhuma conversa se torne demasiadamente demorada. quando encurralado pelos predadores com gel no cabelo, responde jargões higiênicos, como: “é isso aí, cara”, “como não?” e, o despretensioso, porém magis-


tral, “é verdade”. aliás, muito perspicaz da parte de Morgado utilizar nesse cenário o “é verdade”, pois dá às feras exatamente o que querem para se deliciarem, a afirmação, seja ela genuína, seja ela vazia, seja ela um deboche silencioso, uma vingança: o prato frio de um indivíduo preguiçoso que entende a sociedade como uma aberração e tem de conviver, por mais ínfimo que seja esse tempo, com um dos principais agentes dessa miséria exponencial. o que diverte Morgado nessa festa, é procurar, separar e catalogar as cobras e os ratos. procurar nos convidados os que comandam - e, por isso, sabem o seu papel fraudulento na sociedade: alquimistas do mito - e os que seguem ordens, aqueles seres que lamberiam o pé de um defunto em busca de uma promoção, aqueles seres odiosos por serem formados na vergonha, aqueles seres que cospem figuras fantasmagóricas, melancólicas e inseguras pela boca todas as vezes que besuntam com saliva as bolas de um superior qualquer. bonifrates que sobrevivem através dos séculos, dos sistemas econômicos e dos hecatombes. ao lado do bar, dois homens jogam sinuca e conversam sobre sexo. alguns outros assistem. um dos jogadores, alto, magro, lívido e dentuço, erra uma bola pifiamente e, sem noção da altura da voz graças ao fígado sem treino, conversa com o amigo enquanto a moça que trabalha no bar o mede numa mescla de comiseração e nojo: “eu consigo bater uma punheta e gozar em menos de um minuto. talvez em um minuto, não sei. a questão é que consigo fazer um procedimento rápido e eficaz quando bem me bater na veneta. mão, membro e imaginação. é uma dose homeopática para encarar a vida e os desafios sem cerimônia.

o que eles não sabem, é que não sou conhecido por lavar as mãos. é uma situação engraçada, sorrir e conversar, manter a confiança alheia num nível plausível enquanto apertam a mão de um punheteiro. eu sou um viciado em punheta. na terapia cheguei na conclusão de que é um costume um tanto quanto solitário nas minhas atuais quantidades estratosféricas. mas eu não me importo. é uma delícia. todo o ato é uma delícia. por exemplo, quando você está com uma mulher, imagine o seu sonho, faça esse exercício comigo, vamos, imagine o seu grande sonho sexual, certo? caso ela queira fazer você gozar no menor tempo possível, por causa de estarem atrasados para um jantar de família, ou por qualquer outro problema, será um processo demorado. eu tenho uma teoria. os homens sempre vão falar que gozam mais rápido numa punheta porque conhecem suas próprias rolas como ninguém. mas não é esse o motivo. você pode estar explodindo de porra, sua parceira pode ser um ícone da sedução e do poder como a Cleópatra, mas os dois estão, mesmo que nus e entregues ao coito, inibidos pelo o mistério. é tudo parte da tensão, do fetiche, do corpo, do outro, tudo isso, torna impossível a velocidade e a praticidade no sexo, exceto por um acidente traumático, que não é o meu caso”. “acidente traumático?”, gunta o amigo.

per-

“ejaculação precoce”. “não é o seu caso...”, pensa Morgado. “o que eu não entendo, cara, é o motivo dessa vontade pela velocidade”, disse o amigo. um ser que teve uma noite ruim, uma gozada rápida e pauta a vida num ciclo dantes-

co para retomar, a cada instante, este imprevisto. pobre ou rico, publicitário ou motorista, somos animais dementes, aficionados, ou pelo menos, atraídos sexualmente por nossos fracassos. mas Morgado, que não é de longos devaneios, pois todos eles antecipam agruras, estacionou no “a vida é mesmo uma sinuca de bico, camarada” e, fingindo que não se aguentava nas próprias pernas de bêbado, entrou no jogo valendo dinheiro. não teve outra. depois de sete jogos, Morgado havia ganho a noite. trezentos e cinquenta reais. bater nos escroques era um sentimento realmente bom para ele, muito bom, que sorria de canto de boca para o teto, pensando: “é que nem tirar doce da boca de criança. não tão com nada. ganhei e ganho fácil em qualquer planeta, de Júpiter à casa do caralho. um bando de bunda mole. pode ir embora, punheteiro cem metros rasos” Morgado foi até o bar e pediu um copo de uísque. a garota do bar lhe chama a atenção: “vi você lá, bonitão... você é bom mesmo.” “viu só?” “e vai rolar uma gorjeta?”, pergunta a moça aproximando o rosto um pouco jururu, típico de alguns jovens que aprofundam seus mecanismo estéticos com um certo desaforo escorrido por tudo o que é do mundo. “claro... me arranje mais uns clientes na sinuca que a gente divide cinquenta cinquenta”, responde Morgado, que vai até um sofá de dois lugares revestido por camurça e senta com elegância particular de quem tem trezentos e cinquenta reais no bolso sem nenhum esforço razoável.


do outro lado da imensa sala, Helena. estatura média e postura esguia. vestido preto com um decote sutil nos seios delicados e na coxa direita. conversa com um homem. seus olhos castanhos, simultaneamente, desconfiados e serenos, o fitam com ternura. os lábios finos e suavemente compridos promovem um sorriso meigo, tentador e superior. ela está extremante gostosa. Morgado não a vê há muito tempo. desconhece suas excentricidades, suas simplicidades e seus costumes. uma mulher de instintos fortes que se interessa por tudo e por nada ao mesmo tempo. uma criatura muito diferente da vasta e medíocre linhagem humana: inteligente e direta. os dois conversam um pouco e vão para outro lugar da casa. Morgado, com a boca entreaberta, pensa no passado, nas brincadeiras de médico e na morte da bezerra, até que a bexiga grita e ele vai ao banheiro. quando ele abre a porta e funga o aroma de lavanda de sanitário burguês, sente um solavanco nas costas, tropeça num tapete rosa, cai de bunda no chão e olha para cima. uma mulher fecha a porta rapidamente, tranca e diz com uma lascividade forçada:

“você é o bonitão da sinuca?” pasmo, Morgado não responde, apenas observa a mulher. “o gato mordeu a sua língua ou você é frouxo mesmo?”, insiste mulher. “sou eu”, responde laconicamente após julgar que a chance de ser chamado de bonitão da sinuca pela terceira vez em sua vida é menor do que reviver. “olha, vou ser direta. quero transar com você.” “por quê?” “você parece meio burro.” “eu acabei de bater a cabeça.”

“vou te contar. adoro ver o meu marido perder dinheiro. ele casou comigo para herdar a empresa do meu pai... você tirou cento e cinquenta reais dele, o que você está esperando?” “isso é dinheiro de pinga para ele, moça” respondeu falsa modéstia. “você é burro mesmo... deve ter uma rola, pelo menos. ah há! aqui está! me chupa, seu filho da puta. só não esquece, essas pessoas não perdem” a mulher sentou na pia e gozou no rosto de Morgado, que a chupava com dedicação. depois trocaram de posição. treparam rapidamente, por pedido da mulher, e se lavaram. “obrigado, querido. outro dia a gente repete.” “quando?”

a mulher foi embora. no bar, Morgado, sonhando com seus inesperados êxitos recentes, é pego de surpresa por Helena. “como vai, querido?”, ela pergunta, sorrindo. “ei, quanto tempo. você está bonita. muito bonita”, ele diz, avoado e um perdido nos olhos de Helena. “muito tempo”, ela confirma, colocando a mão na parte de dentro da coxa de Morgado. “e aquela senhora no banheiro, quem é?” “uma amiga.” “e você estava fazendo o que? estralando as costas dela?” “não precisa ser má.” “não sou má.”


“e como vão as coisas? o Salário Mínimo me contou, meus pêsames.”

“ei, cara, por quê você não vai tomar no cu?”, responde Morgado.

“não precisa gastar saliva com o passado.”

o homem empurra Morgado, que revida com um soco no meio da boca do marmanjo e diz:

“certo. e aquele rapaz que estava com você, quem é?” “um amigo publicitário” “bom amigo?” “ótimo, o melhor da festa. o que você quer beber?” “uma cerveja”, responde Morgado. ela pega duas cervejas e diz: “fiquei sabendo do seu acidente. está tudo em ordem? vai ficar tudo bem.” “tudo em ordem”, ele responde e depois, sutilmente, aperta com intimidade e carinho o conglomerado de carne. “é isso, querido, o diabo nos abandonou e fomos deixados como órfãos.”, ela diz, se levanta e vai embora com suas curvas, deslizando como água nos limites do vestido. os publicitários continuaram a beber por horas. perto do bar, na televisão, passa um jogo de golfe. Morgado, que nunca entendeu o prazer em assistir pessoas com suéteres atrás de bolinhas e buraquinhos num campo de grama continental, xingou avulsamente, apontando para a tela e rindo: “um idiota com um taco de golfe é pior do que um idiota sem um taco de golfe, é menos ridículo”. “amigo, por quê você não coloca isso na boca e fica quieto?” um homem pergunta para Morgado e lhe entrega um guardanapo com catarro.

“sim. fique aqui comigo, só mais um pouco”.

“volta pra casa”. surge outro homem, também de terno e com o mesmo manual do gel no cabelo, e vai para cima. também apanha. o número cresce, mais três publicitários surgem, quatro, cinco... Morgado, um pouco estabanado, toma alguns socos, se debate, tenta se livrar e, mirando um de seus oponentes, quebra uma garrafa na cabeça de uma criança. um berro materno de desespero toma conta da casa, e é quando uma voz aveludada se destaca entre os agressores, “o seu motim acabou, bonitão”, e quebram uma cadeira nas costas de Morgado. ao som de música eletrônica de elevador, tudo escurece. “vai ficar tudo bem”, diz Helena acariciando o rosto de Morgado. “o que está acontecendo, onde estamos?”, ele responde. “estamos num quarto aqui da casa do Samuel. eu vou cuidar de você.” “cuidar de mim? eu estou ótimo. foi só uma briguinha, um acidente.” “acidentes não existem, nem coincidências. são erros e acertos simultâneos, variáveis.” “não concordo, o mundo é cheio de acasos. você tem algo para beber?” “cachaça...” “está ótimo.” “você está bem?”

deitados juntos, Helena coloca a perna por cima de Morgado e aperta o seu pênis. ele não resiste e investe. procura o clitóris, encontra. ela sorri e diz que ele não consegue lhe dar prazer, que ele é fraco. aos poucos, ela se entrega, geme. os dois corpos balançam juntos, e é quando a barriga dela pressiona o conglomerado de carne. Morgado, com a camisa levemente molhada, é tomado por breves alucinações, vozes, desvios de cores e contrastes protuberantes, um prazer ancestral que não pertence somente a ele, a ela, mas também ao feto de porco. a língua de Morgado penetra a orelha de Helena. os dois gemem. e quando a penetração começa, depois de três metidas, Helena recua e pede para parar. diz que ela o vê como um irmão. Morgado também a vê de certa forma como parente, mas ele aceitaria qualquer incesto como conivência, está com o cacete duro, sedento, quer consumar um desejo mais do que íntimo, um desejo antigo e pueril.


“quero você sempre do meu lado. eu vou cuidar de você...”, ela diz. “tem algo estranho... a minha barriga dói.” “eu sei, meu amor, eu sei. eu não vou te abandonar” “o quê está acontecendo aqui?” pergunta uma silhueta no fim do corredor do quarto. “nada, o amigo do Samuel está passando mal e estou tentando ajudar.” “depois volte para o quarto, Helena.” “é o seu amigo?” pergunta Morgado. bêbado e confuso, Morgado não entende o que está acontecendo e logo se esquece, dorme, como todos nós fazemos quando nos convém, e quando não nos convém também, pois a vida trata-se mais de esquecer do que recordar.

a noite acaba, a festa acaba. os convidados procuram seus carros entre toneladas de lixo deixados para trás. os funcionários começam o trabalho pesado. e pela janela de um quarto de uma clínica particular, longe da cidade, longe da casa de Samuel, é possível contemplar a aurora que ilumina as nuvens de baixo para cima, tornando-as parcialmente amarelas. o céu está azul gelo. a televisão está ligada em uma voz aveludada: a CIV não quer somente

o melhor para você, nós somos o melhor de você! o nosso trabalho é combater as mazelas e conquistar os desafios da humanidade. convenhamos, não optamos por uma simples tarefa, mas não é por esse motivo que pretendemos jogar a sujeira debaixo do tapete, e, para esse íntegro objetivo, a inovação é solução. a partir de profundos avanços científicos promovidos por nossos especialistas do mais alto escalão, avançamos, dia após dia, faça sol ou faça chuva, na luta humana por alimento em um planeta com dias contados, em um planeta machucado. os recursos são limitados, mas a criatividade é ilimitada! como todos os pioneiros, precisamos desbravar novos mares, alcançar novos horizontes e atingir o melhor de nós mesmos! não é um caminho fácil, existem estorvos, tempestades e burocracias, mas a ciência prevalece. sim, a ciência, aquela que nos divorciou da Idade das Trevas, que nos trouxe a luz da civilização e da tecnologia, que nos separou de nossos ancestrais.

após um sono profundo, a luz matutina rompe o sossego de Morgado, que, ao perceber que está em um quarto estranho, com aspecto hospitalar, de uma fluorescência violadora, pulou da cama e caiu de boca. o corpo está dissimuladamente fraco e um tanto corcunda. cuspiu sangue e, como um animal acuado, tentou se levantar. beijou o chão novamente. coçou a barriga e não sentiu a saliência. levantou a camisa. o tubo e a carne não estavam ali, somente uma sobra de pele seca, como um balão furado e descolorado pelo tempo. puxou a pele que se desfez aos poucos. olhou para a sua barriga e notou que estava lisa. sozinho e em pânico, tenta se erguer. se segura em uma mesa que vira e se parte em duas no chão. embaixo da cama hospitalar, com a bochecha colada no habitat natural de nossos pés, avistou o tubo metálico que ficava no seu conglomerado de carne. grunhiu, esticou todo o corpo para pegar o objeto, a última lembrança do seu feto, do seu acidente. os braços não reagem aos pedidos do cérebro, a sua perna direita escorrega nos azulejos. Morgado se debate como uma barata depois de uma seção de inseticida. o céu ainda está azul.


“ele acordou”, diz uma voz atrás da porta do quarto. quatro enfermeiros entram no quarto, pegam ele pelos quatro membros e o colocam na cama. “eu não sou um frango para vocês me segurarem assim, seus filhos da puta! onde está a porra da minha carne?”, berra Morgado com os olhos vermelhos, babado e com os pulmões arrebentando a caixa torácica. “calma, querido, eu estou aqui com você”, diz Helena. a televisão continua: (...) nos separou de nossos ancestrais. na Cibum In Vitro LTDA, o foco é solução e alimentação, e esse é o nosso slogan para o futuro. Com os músculos da nossa família, da nossa força de trabalho, e com o cérebro de nossas áreas de pesquisa e desenvolvimento, compramos, para todos nós, uma passagem sem volta à vida. “onde estamos, seus... seus, seus desgraçados?”, berra Morgado aos enfermeiros, que colocam remédio em sua veia. “vai ficar tudo bem, estou com você”, diz Helena, depois olha para um homem de terno, perto da saída. “quem é esse arrombado, seu amigo? quem eles acham que são com essa porra de terno, deuses? você caga de terno, ô, cretino?”, berra Morgado, suando e babando, mastigando cílios com os olhos submersos numa vastidão extremamente incômoda de branco irrigada por finíssimas veias. “está tudo pronto e definido”, diz o amigo de Helena no celular. “estou aqui com você, isso que importa. vou aumentar o som da televisão para você relaxar.” televisão: e como fazemos isso?

qual é a nossa ideia de atuação na

sociedade? hoje, estamos despendendo nossos férteis esforços na biotecnologia. a partir da alta capacitação na área de genética, utilizamos a vida embrionária suína para multiplicar e alcançar estágios estratosféricos de alimento. queremos paz! buscamos uma sociedade que merece o planeta onde vive. em breve, nossos produtos nos melhores mercados dos melhores bairros! e você, jovem empreendedor, está interessado por nosso projeto, por um futuro melhor? ligue para nós e agende uma visita!

“onde está o Samuel?”, berra Morgado, que começa a revirar os olhos com o efeito do remédio. “está trabalhando. disse que vai vir o quanto antes.” “o que aconteceu com a porra porco? aquilo era importante para mim. é como algo de estimação, caralho, onde está?” “o médico disse que é uma insuficiência rara oriunda de um trauma do seu acidente. é um processo rápido, não se preocupe. a dor está melhor? o remédio fez efeito?”

a televisão muda de programação: e agora voltamos para a novela As Sombras do Estrelato. será que Joaquina vai ter sua vingança? e Beto, será que ele consegue descobrir a verdade sobre sua empregada? “fiquei sabendo que o Beto vai perder toda a sua fortuna”, diz um enfermeiro para um dos outros.

“a dor está melhor, sim, está melhor, minha querida...”, diz Morgado para Helena. “que bom, meu querido”, diz Helena enquanto coloca um pote na mesa de cabeceira da cama do hospital. “e os publicitários?” “mais um dia normal para eles, querido. e a sua dor, passou?” “para que é esse pote?” “para você descansar mais tarde. e a sua dor? estou preocupada...” “a dor está melhor, sim, está melhor, minha querida...”, responde Morgado enquanto afunda nas cobertas que vão se espalhando por cada pedaço do seu corpo... olhar de bêbado no teto, definhando, sorrindo como uma válvula de escape, pensando na tranca, na sinuca, na esposa do vizinho, quarta-feira é logo ali...


A palavra amador vem do latim amator. Os italianos, eficientes nos gestos, absorveram o termo original, lhe acrescentaram uma vogal e o incorporaram em seu vocabulário. Os oriundos da bota deram mais fôlego ao vocábulo; passaram a associá-lo ao amor, à admiração, ao estudo, à amizade. Os franceses fizeram valer os estereótipos e mantiveram o amateur na circunscrição da paixão: quem ama, o amante. O tempo corroeu e moveu as letras para o campo da independência, do pensamento auto-infringido, atingindo a informalidade do conhecimento popular.

O primeiro contato que tive com Philp Roth foi em uma entrevista casuísta ao programa Fresh Air, da rádio nacional estadunidense. Era dois mil e seis, meus quatorze anos embriagados por sandices ideológicas (via em Lula o auspício de Stálin - no bom sentido, se é que há um) contatos iniciais com cigarro, álcool e masturbação. Passava longe da leitura, a via como um monstro interno a ser domado. O professor de literatura, uma mistura de Chico Buarque com Juremir Machado da Silva, se dizia intoxicado pelo trabalho de Roth, e o título da matéria nunca mais saiu da minha cabeça.

“Começo todos os livros como um amador”. O manchetismo crônico por vezes cega os jornalistas, as palavras podem ter soado de outra forma, em outro contexto, significando outro significado. Na rádio, todavia, Roth queria dizer justamente aquilo. Acabei entendendo essas palavras só doze anos depois, quando esbarrei com a morte do escritor. A mesma entrevista me caiu em mãos no dia em que Philip Roth morreu. Dentre os paradoxos, o fato é que ele estava lançando seu Homem Comum, púlpito bem talhado sobre a morte.


Amador nada tinha a ver com inexperiência, ignorância, imperícia. Compreendi que não era Roth falando ali, e sim Nathan Zuckerman, seu principal heterônimo, um nadador exímio das águas turvas do verbete literário. A criança que descrevia cadeiras, ruas e papagaios com a minúcia que Antônio Houaiss utilizara na semântica brasileira. Há uma linha sórdida entre o eu lírico e seu criador. Do mesmo jeito que o Criador assistiu às criaturas regozijarem de sua inocência na construção de Adão e Eva, os heterônimos se transformaram em escudos intransponíveis dos autores. Com razão. A crueldade humana nada tem de Criador, o grande mar de fezes que serve de correnteza às caravelas da vida é resultado da liberdade concedida aos humanos. Essa liberdade não é o cântico da sereia do mercado, é o signo superior que rege a literatura, que a livra dos dogmas do mundanismo. A liberdade de fazer merda, de viver as contradições sem o dedo indicador alheio apontado pra si. Roth entendeu isso como poucos, não construía barreiras com seus personagens narradores. Todos sabiam que Zuckerman era Roth, como sabemos que Chinaski é Bukowski e que Caeiro é Pessoa. Por isso foi taxado, colocado dentro de uma caixa de misoginia pouco criteriosa, acusado de construir personagens femininas superficiais. Na verdade isso é só boa literatura. Não há uma fórmula, um bocado de insanidades que se colocam no liquidificador e aí vem o livro. Não. Tem de se escrever porque a escrita vem a mão, é um impulso maior que sua vontade de viver, de fumar um baseado ou tomar um trago. Rilke e Schopenhauer classificariam os detratores de Roth

como os comerciantes de palavras, escritores ou aspirantes à escrita que querem fazer disso um holerite. Escrever para os outros é o suicídio na literatura, mais violento que o ato normal. Invariavelmente quem se mata tem bons motivos para tal, agora quem escreve por dinheiro se cobre das piores motivações possíveis. Não à toa que as livrarias brasileiras estão submersas na auto-ajuda, nos manuais para conquistar a felicidade em cento e vinte páginas. Philip subverteu a ordem do furo; no jornalismo medíocre, tem-se a publicação pregressa como troféu, os ovos de ouro do rei. Não precisou dizer explicitamente que os repórteres da contemporaneidade são meões obedientes, invariavelmente reféns do ego que exala das redações. Só escreveu. E assim conseguiu dizer, com doze anos de antecedência, que um espectro rondava a América. E não era o comunismo. Por convicção ou mera aposta, Complô Contra a América se transformou no maior furo da história. Doze anos separaram sua publicação da ascensão do fascismo na América do Norte, transbordando para as outras américas. Charles A. Lindbergh, o presidenciável nazista dos anos 1930, tem pouco de Donald Trump. Tinha relevância, era mais que um Tio Patinhas. Até por isso sua eleição, contemporizada no livro, não soa nada inverossímil. Se Roosevelt tivesse morrido de câncer, ou engasgado com uma amêndoa, a estátua da liberdade poderia muito bem ter uma suástica em sua mão. O trumpismo, por outro lado, tem muito de Lindbergh. O apelo popular, o surfe na onda da recessão. Não à toa o surgimento do nazismo se dá na quebra da bolsa. Seu renascimento, em forma de fênix

alaranjada e portadora de um curioso topete, segue o mesmo roteiro. O furo de Roth é o maior porque tem tentáculos. O polvo apanhou Washington, e Brasília deve ser a próxima. O mito Bolsonaro foi construído com bases fixadas na mesma pelota de argila que Trump e Lindbergh (na ficção). É o herói de uma nação desnutrida, dependente da boa vontade do chão da fábrica. Roth foi preciso no furo: “Assim, concluíram os especialistas, os americanos do século xx, cansados de enfrentar uma crise a cada década, ansiavam por um clima de normalidade, e o que Charles A. Lindbergh representava era a normalidade elevada a proporções heróicas, um homem direito com um rosto honesto e uma voz nada empolgante, que havia demonstrado a todo o mundo, de forma cabal, ter coragem para assumir o controle, resolução para influenciara a história e, claro, força para transcender as tragédias pessoais.” A morte de Roth é a morte de um bocado de células desse corpo bizarro, mancomunado e desmilinguido chamado texto. Ira Ringold classificaria sua partida como mais um atentado do capitalismo. Faria um comício numa praça de Newark, chamando as massas para destruir esse sistema sórdido. Seu irmão, Murray, levaria uma flor e um poema a seu túmulo. E David Zuckerman, iria se recrudescer dentro de um quarto esperando sua outra morte chegar. Depois de saber de sua morte, passei uns dias imerso em cannabis e Aperol, não que isso importe. Adeus, Roth.

A deus, I ra


carta X U m e st u d o s o b r e n o s s o f i m Introdução Pesadas cargas de magenta no fim de tarde enquanto o Sol descendente me chama a pensar. É cruel pois lembro de ti. Não há nada capaz de conter tua memória de repente; fatal consome o instante, a frase, um poema; pandemônio escarlate. Jamais serás poente em mim, querida.

Quando o amado não dá a pedida atenção Eu falava das acusações que li sobre A arte de escrever (1); de que se tratava duma coletânea editorial; pouca sustância, logos; reclamações sobre Hegel e divagações que pouco contribuem ao recém-nascido escritor, naturalmente em busca de conselhos práticos. Um absurdo que eu teria concordado, se hoje já não sentisse repulsa às cartas de Rilke ao jovem poeta (2). Mas noto seu olhar passeando pela sala, lento e distante, (está com a cabeça na lua?), como se sempre espiasse alguma coisa nos arredores. Interrompo-me, até que após um longo silêncio, ela diz: “[...] Continua, eu estou escutando[...]” (3). Não está, não esteve. Em algum momento, a mariposa bêbada colidindo com a lâmpada pareceu mais interessante; eu fiquei menor e perdera meu artigo definido. Há outras possibilidades de afastamento. Quando o cônjuge te diz “espera” diante de uma tarefa que você entende banal ou julga menor que seu pedido de atenção. Interpretação: “eu não sou a primeira coisa em que pensa?”. Sensação: ocupação social de uma cadeira. Zonas de acústica morta, recantos por onde o som é incapaz de circular, na intersecção Outro-Eu, o espaço afetivo. Lugares que não chego em você. Momentos. Contextos. Utopia sobre um relacionamento amoroso: construir uma cápsula ao nosso redor, sítios de maior ressonância, “[...] espaço de uma sonoridade total” (4). Um caso de amor deve ser como uma boa música: por um lado exata, feita com precisão matemática, portanto justa, e por outro, conservar uma espécie de misticismo, uma capacidade de inspiração artística, crença e festa nas coincidências. A dramaturgia do ‘feitos um para o outro’ será legítima, então.

Quando a ira para de mover Um aforismo nietzschiano diz que não se pode odiar algo que, de alguma maneira, não se importe. Odeio aquilo capaz de me afetar, desprezo o que reconheço como desprezível; desprezível: dar valor moral a uma quantidade. Respondo, e como a política, o amanhã, mesmo longínquo, conserva-se. Quando o companheiro abdica de discutir: anúncio do término. Como o caçador-de-tesouros perdido na floresta, ele desistiu de chegar ao outro lado desejado, gasta todo o tempo agora pensando em como escapar.

‘eu não sinto ciúmes de você’; respondo indevidamente: ‘por que?’.


O que é o amor Dividir a pia para escovar os dentes. Esquentar a água, mergulhar o sachê de chá de camomila, seu preferido, servir com as duas mãos. Escrever dedicatória na primeira página do livro. Preocupar-se com um bonito embrulho. Colocar um lençol novo. Acompanhar o amado ao cemitério num domingo fúnebre. Afastar uma abelha insistente. Pedir um sabor de sorvete que é sempre a segunda opção do amado. Colo nas salas de espera. Inventar nomes para animais domésticos imaginários. Dar o lugar perto da janela no ônibus. Segurar o guarda-chuva. Levantar da cama no inverno e ser quem apaga a luz. Amor é práxis.

J-t-aime ‘eu-te-amo’, se te amo porque é ato contínuo, sentimento conjugado em hoje; se te amo porque o verbo, o objeto e o sujeito formam um nó sintático, ‘amo’ transitivamente ‘tu’ posto que ‘eu’ se ‘nós’. (a única suposição do ‘eu-

te-amo’ é a de apostrofar, de dar-lhe a expansão de um nome próprio), Ariadna, ‘eu-te-amo’, disse Dionísio (5).

Cardiocentrismo Infelizmente, sou um homem primitivo. Espécie em que o coração é o núcleo do Ser. Um indivíduo que ao observar o Sol passa a cultuá-lo. Um dos primeiros mitos, após o pão com o significado do alimento, que outro representa tão bem a capacidade de sentir? Ele falha, acelera, é o movimento do desejo, órgão diretor da humanidade dentro. Situação de taquicardia na conquista de quem oferece o beijo e o outro pensa se o recebe: arritmia, disparo, sensação de fundura, contração muscular, pulso na goela. O apaixonado não-correspondido sente o coração pesado, ele se faz presente.

Finalmente Jaz minguante nesta carta, mas cheia e brilhosa quando fecho os olhos. Assim como no luto, a falta só se dá pela ausência de um objeto específico, (daí as pessoas só entenderem o que é perder quando perdem). Há indícios que se pode captar, como a ideia da mortalidade, a ideia da tristeza, a ideia da tragédia, mas quando o ente morre, não me revolto por conta da finitude da vida, não rasgo a noite com a voz irada constatando que tudo morre, (até passo a aceitar, na verdade), mas sim: chamo por um nome. (1) - A arte de escrever. Schopenhauer. (2) - Cartas a um jovem poeta. Rilke. (3) - Fragmentos de um discurso amoroso; Sem Resposta, I. Barthes (4) - Fragmentos de um discurso amoroso; Sem Resposta, I e II. Barthes (5) - Fragmentos de um discurso amoroso; Eu-te-amo, I. Barthes


Um ronco destrona as leis gritos de olhos grandes, um porco revela a casa -- há pão e amor migalha Sozinha quando penso a fome ao pedirem amor gigante com olhos ocultos de malhas, um ronco destrona, valei-me de fibras deito na frente de duas pupilas faço coisas e ainda respiro Tendo aprendido a abrir, abro e por ter aprendido a nascer, nasço enquanto finjo que outro crio A primeira vista retorna de nós crianças recém latinas na cama -- fazendo coisas como nossas antigas miradas Caçando mães, pais, pitangas caçando a vista perdida na fechada fresta das cercas que é para deitar aqui, que deito com rosto descoberto das vezes ainda frescas e, frente a frente, aberturas como quem produz o princípio dos roncos fecundos Amor, pão, migalhas -- vejo fazer coisas com olhos somados de sumos.



-

Estacao do Entardecer

nada ver, ao invés dos peitos e, repetidamente, o estômago. Não os tive, por isso abandonei as redes sociais e o convívio. Tinha medo da cruz, da espada, da fogueira. E adiantou?

Ao longo daquela inóspita semana, os mesmos rostos doentios, carcomidos pela ganância, pairavam junto a suas pelancas grisalhas, pelas ruas, ruelas e avenidas. Aparições. Uma delas vigiava meus passos.

Futuro pretérito, futuro distópico. Custou-me, depois daquele incidente, aprender a enrolar meus tranquilizantes com uma só mão. Falta-me tempo e motivação. Talvez os tivesse a noite.

Deus zombava, na figura daquelas múmias de enormes cabeças, de nossa desaventurança. Via o novo século, que chegou, trazendo-me bons presságios, rapidamente recebendo os dentes dos sanguessugas desse mundo cravados em seu pescoço.

Para o dia, nada pensava. Não, não aquele. Moro neste fragmento de malogrado aguarde. É que não me aconselho pensar no futuro, para conseguir viver o que dá. É preciso a maconha e esta precaução para descer da cama para o mundo. Um moço de gel no cabelo analisava minha estagnação profissional, gráficos de mudança de atitude e connections, ele e meu possível eu numa saleta da mente, planejando a escada dourada para a prosperidade.

Da imensidão de dúvidas que pacificava a cidade tal um nevoeiro, uma única certeza resplandecia: aquele era um país crente. Daí a ausência dum desespero desordenado na porta dos palácios dos governantes. Há tempos, pastores, padres, bispos ou apenas orações tradicionais das famílias tradicionais diziam que viria o tempo da abundância, bastava conformar-se ao próspero aguarde. E trabalhar, claro. De fato, o medo mantinha tudo em ordem. O silêncio. E eu, que não acreditava mais no ressurgimento dum messias, estava a flor da pele e com a mente em turbilhão. No começo, os mais próximos falaram de um possível revide, um susto coletivo que devolvesse os fantasmas ao porão. Mas ninguém sabendo exatamente como aquilo aconteceria, o tal dia do troco foi perdendo-se de vista. Passaram meses, que mais pareciam penitência - queria ter meus olhos arrancados para

A mão se confunde com essa estilhaçada, o sangue pisoteado pelo salve-se quem puder. O clarão. Mesmo acordada, é só às 10h37 que encaro os currículos e os olhos do velho. Sem toda a tecnologia criada pelos mais próximos desse deus em best-seller, a comida que escolheram para que eu comesse teria o gosto do veneno que é. Nos enganam em cada detalhe. Espio o mundo da janela do banheiro, nada se move. É como um sonho distante, mas que nunca envelhecerá. Às vezes, o estilhaço do fervordos ditadores. A carne fatiada, vendida sob interesse dos cães dos donos de tudo. Minha rescisão só vai durar duas semanas. Quer dizer que já querem mais um pedaço de mim?


Farejam. Eu sei. Um vento gelado congela minhas expectativas. A rua deserta. Os produtos das lojas se perdem no escuro de sua extensão, que engole os lojistas. Ninguém dobra a esquina. Houvesse ainda céu. É só brancura, carvoaria. E mesmo assim, os anjos metálicos. Golpe, além de tudo, é viver nesses dias apodrecidos, doentes deixados para morrer. A cidade engole nossa humanidade. A Lapa se parece com o filtro vermelho que acendo e trago longamente. É aos quarenta minutos de espera que me dou conta de que o ônibus não virá. Os prédios me vigiam com sua onisciência. A fuligem industrial impregnada em suas fachadas. Virando as ruas, sempre sumindo às esquinas, o rastro de presença humana. Tudo me espreita. É a avenida Guaicurus, entupida de máquinas e motores, que me alerta de que talvez ainda esteja afogada no mesmo cotidiano. Não há soldados nas guaritas. Ninguém serve almoço nos botecos. Nas oficinas, os carros são como os infelizes nas filas do SUS. Nas escolas, o recreio foi abolido. Todo ponto de ônibus vazio. Ainda assim lá, figurando na única parcela não poluída do céu, aquele velho carcomido. E as garras dos anjos metálicos procurando carne humana para alimentar os fornos industriais. Pairam todos sobre a estação de trem. Uma delas me vê. Não, não sou nenhum tipo de heroína. Estou tão refém quanto todos. E as pessoas se julgam, cada uma, a mais es-

pecial, emissária do próprio cristo, herdeira da verdade universal. Não, não sou hipócrita, também me julgava especial. Sou branca, vai ver é isso. É essa doença, tal o anthrax, com a qual contaminaram nossa gente, vírus introduzido pelas bolhas dos refrigerantes. Nosso povo é egoísta. Querem, qualquer um e eu, fugir só. Mas estamos atrasadas. O país, grávido, já deu cria de novo ao Deus da ganância. Era a primeira vez que via gente no dia. Quase me alegro, naquela clareira de concreto que antecedia e confundia-se com a entrada da estação. Pernas e braços cheios de feridas, trajando fome, derrota, solidão. Rajadas de vento e grosseiras gotas de chuva derrubam os mais teimosos. Não se vendiam cigarros no beco, nem bugigangas. Sempre tão quieto, o instituto de medicina, orgulho daquele velho, tinha em suas grades todos seus pacientes, deficientes em “reabilitação”, implorando comida à multidão que fazia de tudo para cruzar as catracas antes do aguaceiro. Reabilitação, como se este deus fosse doar perfeição a nós, tortuosos demônios. Os soltaria. Não por pena ou para tirar vantagem da caridade, mas por identificação. Cães fardados rosnavam, liam-me as intenções suspeitas. Suas boinas pretas e uniformes grená decoravam a estação - uma face mais sincera para o Natal. Não discernia uma única frase, um único corpo, desbravava os empurrões. Vidas roubadas latejando pelo cruzar das fronteiras, me faziam andar quase carregada. Ainda umas várias

fileiras de pessoas atrás de mim se encharcaram. Por todos os lados, multidão comprimida pelos boinas. O terceiro trovão derrubou a ordem. Os boinas e os burocratas atrasavam a entrada checando se ali haviam terceiros usando passes pessoais. São intransferíveis. Os infratores eram então escanteados para terem os bilhetes do pai, irmã, tio, mãe, irmão bloqueados. A ética geral mediu-se pela intensidade do tormento da tempestade. O contingente era ínfimo diante da multidão. Sempre seria. Em dois minutos, não havia ninguém na tempestade e três catracas feridas. Eu também havia pulado, e foi por esse critério que fui distinguida pela multidão, seus olhares mediam minha condição de estar à altura, me pesavam, me julgavam. Uns se repugnavam. Outros sentiam pena. Tão jovem, tão bonita, deficiente. E ainda lésbica, diriam se soubessem. O azar não estava em já não poder competir para ser a perfeitinha, o azar estava nesta fome encomendada, que eu ou qualquer outra pessoa, nos submeteríamos aos maiores suplícios e à escravidão para saciar. Ora e labora, ora e labora. O trem, sua chegada que santificaria a jornada ao trabalho, já se demorava, tal um apavoro. Entre os pingos estalando nos trilhos, o alto-falante berrava. Havia muita gente ali. A falta do automático, do planejado, despertava o bestial nas pessoas. A ansiedade empurrava os primeiros, já ensopados, de encontro aos trilhos. O latejar de minha mão ferida era mais confiável que os relógios, enlouquecidos como todos ali. O inesperado, bloco por bloco de concreto, demo-


lia a razão de existir que se tinha construído. O clique veio à todas as pessoas. A chegada era agora temida. As escolhas relembravam o que poderia ter sido feito e o desperdício. Era preciso que houvesse culpados. Era preciso que houvesse quem em pior situação estivesse. A sobrevivência, a vida conferida, obrigava cada uma ali, a ter provado da carne de uma semelhante. Há escolhas que fazemos, há outras, maiores. Enumerá-las os fariam desistir de me dar atenção por enfado, aflição ou ultraje. Essas, polêmicas, é este deus que realiza. Mas há o jardim ao fim dos trilhos, todos alimentam esperanças pela glória alcançável. O que mais poderíamos fazer com esse longo tempo que nos atraca? Aquela velha senhora precisava não ser posta nas mesmas páginas da história que as depravadas, daí o olhar enojado às pernas desnudadas em pecados. Ainda que a juventude lhe ocupasse, sem hipocrisia é claro, mas com nostalgia, a mente. E o jovem de gravata amarela tal o sol que anunciava que já se tornava tarde para o dia? Por toda sua curta vida, um retorno à essa estação, um esforço para provar à deus que não se assemelhava aos já perdidos pelo vale das sombras, entregues aos fáceis ofícios da morte. Infecto-me, quem nunca? Somos todos culpados, é preciso aguentarmos a duras penas para nos redimirmos e termos nosso lugar ao sol, ao lado d’Ele. Ou será que são Eles? Cabeças no ponto mais inalcançável do céu. Mérito, dizem. Como tal toque tão cheio de amor causaria tanta revolta e indignação no meio de nós que aguardamos nosso destino? A

garotinha acariciava a deformação no lugar de minha mão, “Pobre moça, deve ter doído tanto” e me beijava, “você é linda moça, não liga para o que eles dizem”. Mas e as minhas preocupações e esses tantos pecados dos quais preciso me arrepender, com que direito essa garotinha me consola? “O que aconteceu com você, moça?” Quis empurrá-la. E pude? Foi a ordem, pequena. Antes de atender o chamado das outras, viu os boinas. É um mundo violento, não é moça? Algum dia ninguém mais poderá dar esse tipo de ordem e você poderá vir conosco. Me perdoariam dos pecados se respondesse que a represália é apenas àqueles que caminham nas sombras? Não sirvo para o que esperam de mim neste trabalho, não sirvo para a glória, é tudo profano sobre mim, mesmo nos meus desejos. E a criança pula com as companheiras sobre os trilhos, se espraia uma comoção, mas elas já sabem. Correm sobre as pedrinhas, chupam as pedrinhas pois afinal tudo é pedra, beijam os corpinhos das outras, se deleitam com o que sobrou do mundo, para que a moral não as afogue - e mesmo em choque e repulsa não há nada que os adultos possam fazer, impossível caminhar onde elas se regozijam. O que faço aqui? Desconfiam de mim, não as puni, não as ensinei corretamente. Jamais poderia motivar essas crianças a se salvarem, ficarem quietas esperando o trem, quietas trabalhando. Por eles nunca mais seria contratada. Se elas fossem livres, o sofrimento dos outros seria banalizado. Os alto-falantes berram: não se preocupem, trabalhem. E nada acontecia. E o que haveria de novo sob o sol para acontecer?

As cabeças se acercavam, me olhavam, vendo a marca de transgressão em minha mão perdida, em minha vagina que nunca transpassada por um homem. Às outras e outros o mesmo olhar, mas a tantos, o convite. Em uma mirada conseguem. Dentro de um restaurante com o nome da morada dos donos do mundo, vejo alguém em meu lugar parando o trânsito. Vagabundos. Meu pai conversa comigo sobre sua empresa, um dia irei assumi-la - se tiver a garra e a malícia dos homens. Como com garfo e faca um hambúrguer gourmet e tagarelo meus planos de casar com meu atual namorado. Atiram balas de borracha e bombas naquela que ocupa meu lugar, diversos professores feridos. A polícia protege as minhas gargalhadas, as de meu pai e de todos ali dentro. Ainda a multidão esperando o trem. Mas sou outra. Cabeças esmagadas por pés que sobem mais e mais degraus de ouro. Lá embaixo, o monte de escombros humanos. Não se preocupem, trabalhem. Os mais fortes escalam os que já pereceram. Dgladiam-se, mordem-se, socamos a cara uns dos outros, roubamos vidas para chegar ao topo. Tenho duas mãos e um nome de família. Ascendo aos céus com minha força de vontade. A boca ao nosso alcance, as pelancas me ajudam no passo final em direção à glória, seus olhos, cataratas de orgulho. Caio pela garganta e lá está o deus e os portões dourados, um possante, a chave de minha cobertura e malas e malas de dinheiro lavado. Sou agora imaculada. E o cara engomadinho de cabelo com gel se orgulha também e pede sua comissão.


Antes que seja tarde, pulo nos trilhos. A menina me vê, sou ela, não ligue para os adultos, estão mortos e deus não virá nos buscar. Lá estão à espera do dia. Atrás dos prédios deve haver alguma coisa, deve ter sobrado um pedaço de horizonte.

É que sempre fui de sonhar acordada, parada ali, como todos, fantasio-me das mais diversas maneiras, heroína, pioneira, me admiro vendo-me ir achar o horizonte perdido. A criança orgulhosa é meu maior troféu. Iria. Iria, mas não consigo. Lá de cima, vejo refletido nos olhos, um mar de cruzes e coroas com espinhos. E deus? Espero encontrar alguém de confiança que o substitua.



Feito às Coxas ; Breve traço da história. Basta uma rapida pesquisa e se descobre como quando e porque chegamos até aqui. Mesmo cientes da problemática ainda vemos no outro a esperança de mudarmos a si. Difícil tarefa. _________________________________________________

Contra Expediente : ou quem (ainda) não está aqui. envie seu TEXTO | PORTFÓLIO | CRÍTICA | SUGESTÃO para =

revistauso@gmail.com

revista uso numero zero



Millions discover their favorite reads on issuu every month.

Give your content the digital home it deserves. Get it to any device in seconds.