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ESTRADA DE FERRO DE BELÉM BRAGANÇA

SÃO BENEDITO e a marujada por armando bordallo

CHEF OFIR NOBRE SABOR SELVAGEM

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bragança A POÉTICA DA BRAGANTINIDADE

TEATRO

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FOTOGRAFIA

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LITERATURA

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CINEMA

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DOCUMENTÁRIOS

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ECONOMIA l

ARTES


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ITINERÁRIO

Trilhos: o Caminho dos Sonhos... HISTÓRIA

Edição 26 | 2017

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Bragança: Um olhar por Dário Benedito Rodrigues. Bragança Antinga por Gerson Guimarães

LITERATURA

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Dossiê da Liteatura de Bragança por Carlos Pará

FOTOPOESIA

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Paisagens fluídas de Renato Chalu entre a sombra e a luz, entre o sonho e a realidade, entre o tempo e a eternidade ao encontro do poema Benquerença de Alfredo Garcia.

ECONOMIA Bragança é o polo econômico da Região do Caeté

PERFIL

34 40

Personalidades de Bragança PATRIMÔNIO MATERIAL

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Patrimônio revitalizado e a Indústria do Conhecimento pelo SESI

PATRIMÔNIO IMATERIAL

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O Círio de Bragança

ESPECIAL

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A Festividade de São Benedito por Armando Bordallo

GASTRONOMIA

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Diretoria Executiva Carlos Pará e Fábio Santos Editor Responsável Carlos Pará 2165 - DRT/PA Diagramação Carlos Pará Fotógrafo Flávio Contente Produção Executiva Carlos Pará e Flávio Contente Webdesigner Andrey dos Anjos Revisão Final: Elias Teles Impressão e Acabamento: Gráfica Sagrada Família Distribuição Belém, Pará, Brasil Contatos (91) 98335-0000 email revistapzz2017@gmail.com Twitter @revistapzz Facebook https://www.facebook/revistapzz

cartas A Revista PZZ é uma publicação bimensal da M.M.M. Santos Editora EPP - Av. Magalhães Barata, 391, Belém, Pará, Amazônia, Brasil Cep 66093-400 Cnpj : 07.015.922/0001-11 Issn: 2176-8528 site: revistapzz.com.br

O Chef Ofir Nobre -saberes e sabores de Bragança

ENSAIO FOTOGRÁFICO

76

Paula Giordano: Farinha com Sabor e Amor .

ENSAIO

Parceiros

86

Valdir Sarubbi - O Artista e a Obra

DOCUMENTÁRIO

92

Trilhos: o Caminho dos Sonhos por Leôncio Siqueira

CINEMA

110

O Cinema no Caeté e a projeção atual TEATRO

114

Aviz de Castro

ARTES VISUAIS

116

Artistas de Bragança www.revistapzz.com.br 3


PZZ BRAGANÇA / HISTÓRIA

BRAGANÇA Dário Benedito Rodrigues O historiador DÁRIO BENEDITO trata da gênese de uma cidade, com muitas controvérsias, mas que nasceu de frente para o rio e que foi entrecortada pelas vias de uma estrada de ferro, tratando dos que singraram as águas e abriram caminhos nas florestas.

U

m dos grandes patrimônios do ser humano reside na articulação da memória cultural, política e social de diferentes sujeitos em diversas situações, espaços e contextos. A utilização desse recurso se deve, em muitos casos, às experiências de homens e mulheres que legaram à contemporaneidade os seus sonhos, seus medos, suas lutas, suas paixões... Sua história é feita por pessoas e se apresenta quase sempre numa relação entre o que foi, o que é e o que será. Relembrar, rememorar, sempre nos permite vincular passado e presente, amor e intrigas, vida e morte, sem discurso anacrônico ou prolixo. Embora se permita saudosista, o discurso trata da gênese de uma cidade como Bragança, que nasceu de frente para o rio e que foi entrecortada pelas vias de uma estrada de ferro, pelos que singraram as águas e abriram caminhos nas florestas, acabando por constituir o que pode ser chamado de sociedade caeteuara, comunidade bragantina. Por muito se percebe ainda um tempo ditado pela imaterialidade e uma definição de espaço ditada pelo consciente coletivo. Tipo o tempo da maré, ou o tempo da extinta estrada do trem. Vamos “lá embaixo” quer dizer na feira, e também “vamos subir”, subindo as praças, numa definição de cidade que segue em direção dos bairros mais afastados do centro. Costumes e culturas em comum até hoje, não só aqui, mas em vários lugares do Pará. Essa Bragança se foi um pouco de nós. Permaneceu escrita nos amontoados de documentos, em arquivos particulares e nos acervos de tantas memórias escritas e por escrever. Quem sabe ainda Bragança seja um enigma para a geração de hoje, que não conhece de fato o ser bragantino, que precisa acreditar para ver a beleza e a história desse lugar abençoado, cujo passado envolve nobres, escravos e caboclos, casas reais e casas humildes, política, cultura, economia, trabalho e religiosidade.

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Bragança é um desses lugares que indicam vida e amor. A natureza exuberante e o colorido animal e vegetal dão um toque especial às margens do Caeté, antes Cayté (ou ainda Caité, como se defende que o seja hoje!) por incluir um elemento fundamental na historicidade tão desconhecida por muitos de seus filhos. Nada é tão paradisíaco, bem se sabe, mas real, na sua riqueza natural e cultural, na intelectualidade, no tempo em que grandes nomes, mitos construídos e personalidades estavam entre nós, políticos, burgueses, imigrantes, gente que a geração atual parece desconhecer por ainda não ter a oportunidade de assim o fazer. Em outras palavras, Bragança é um desses lugares que indicam vida e amor. A natureza exuberante e o colorido animal e vegetal dão um toque especial às margens do Caeté, antes Cayté (ou ainda Caité, como se defende que o seja hoje!) por incluir um elemento fundamental na historicidade tão desconhecida por muitos de seus filhos. Algumas reflexões podem nos aproximar desse passado. Eis.

Uma “talvez” Bragança, do século XVII ao XVIII Esse percurso histórico de Cayté à Bragança não é tão fácil de ser descrito, ainda porque precisa conter uma análise das iniciativas que formaram o que hoje temos por cidade, as várias vozes, os vários pensamentos sobre o espaço, os vários cenários e paisagens que fizeram essa história. Um ponto a ser evidenciado é a tentativa euro-

SER BRAGANTINO Quem sabe ainda Bragança seja um enigma para a geração de hoje, que não conhece de fato o ser bragantino, que precisa acreditar para ver a beleza e a história desse lugar abençoado, cujo passado envolve nobres, escravos e caboclos, casas reais e casas humildes, política, cultura, economia, trabalho e religiosidade.


foto: flávio contente

peia de conquistar território pelos franceses, no início do século XVII, quando Daniel de La Touche, com sua expedição, visitou as terras da nação tupinambá em 1613. A exatidão da data não existe, talvez ainda por ser descoberta, mas o território do Cayté já existia. Aqui, La Touche e seus liderados passaram mais de trinta dias, colheram suprimentos, solicitaram ajuda indígena e continuaram a sua viagem, “desenharam” o lugar na documentação e acabaram por fugir dos portugueses, conforme os escritos dos padres Devreux e Betterdorf. Uma origem? Não se pode ter tanta clareza nisso. Os conceitos de colonização e conquista sempre estão em discussão, no percurso historiográfico e nas construções feitas da chamada Amazônia colonial. Essa chamada origem está vinculada à presença dos franceses nesse controverso 08 de julho de 1613. Nesse intento, nessas conquistas se desenvolveu um controle português, a partir da fundação de Belém em 12 de janeiro de 1616, e que pode ser con-

siderada um fator muito importante para a implementação administrativa de Portugal numa evidente interseção com o domínio do litoral e da foz do Amazonas, forçados pelas ameaças de franceses, holandeses e ingleses, mas ainda sob a tutela da coroa de

baram no século XVII. Os tratados de Utrecht, de Madri e de Santo Ildefonso, todos assinados no século XVIII, revelam que os problemas de fronteira se mantiveram por muito tempo. Devemos atentar para o fato de que desde o final do século XVII, o chamado Estado do Maranhão era formado por capiEsse percurso histórico de Cayté tanias reais (Maranhão, Grão-Pará e Piauí) e por várias capitanias particulares (Tapuià Bragança não é tão fácil de ser tapera, Caeté, Cametá e Ilha Grande de Jodescrito, ainda porque precisa conter anes), que mantiveram diferenças quanto à uma análise das iniciativas que forsociedade, cultura e atividade econômica. Segundo informação do Ensaio Corográfimaram o que hoje temos por cidade, co do Pará, criada sob as ruínas da Vila de as várias vozes, os vários pensamenSouza do Caeté, contava com seis palhotos sobre o espaço, os vários cenários ças e para cá (à esquerdo do rio) foi traslada 1644, foi povoada na metade do século e paisagens que fizeram essa história. em XVIII por “famílias e homens solteiros dos ilhéus angrenses e michaelenses”, a vila de Castela (Espanha). Bragança tinha três ruas paralelas ao rio, conE, como nos lembra Rafael Chambo- tornadas por casas cobertas de telha.Tinha-se leyron. Evidentemente, esses conflitos um largo em frente à freguesia e outro maior contra os “invasores estrangeiros” não aca- detrás, onde ficava a cadeia. www.revistapzz.com.br 5


PZZ BRAGANÇA / HISTÓRIA

S

eus habitantes eram qua- com o nome de Vila Sousa do Caeté. tro mil e quatrocentos e Muitos anos depois, o antigo povoado oito brancos, quatrocentos ficou conhecido como Vila Cuera, ou e oitenta e dois escravos e Vila que-era. mil e oitenta e cinco índios Álvaro de Souza, filho e sucessor mestiços livres. Devotavam de Gaspar, foi incansável em tentar à Nossa Senhora do Rosário a sua de- manter o controle da capitania para voção principal, mas o coração já era sua família, permitindo a fundação do bendito, por aquilo que estava por aldeamento missionário de São João nascer. Baptista, onde os padres reuniram Cultivavam aqueles antigos mora- os índios tupinambás e construíram dores da vila um bom café, algodão e a igreja já extinta. Álvaro conseguiu mandioca. Possuíam fazendas de cria- de Felipe IV da Espanha a posse defição nos seus primeiros campos afas- nitiva do território e imediatamente tados da sede, em fundou a Vila Souza pequenas propriedo Caeté, hoje VilaEm 8 de julho de 1613,“Ravardière que-era, ao lado didades, mas com um rio, dentro do do Caeté, mas partiu do Maranhão acompanhado reito território, que exque experimentava de ínúmeros selvagens em viagem dificuldades de acescelente para a multiplicação do gado. e comunicação de reconhecimento a Amazônia, so Contudo, não houcom Belém, mesmo chegando até o rio Pará, a fim de com a possibilidade ve quem estabelecesse ali uma fa- ajudar os tupinambás na luta contra de maior intercessão zenda maior para com o Maranhão. seus tradicionais inimigos Camara- Não faltaram intea pecuária. Captase do documento não faltaram pins [...] Nessa viagem Ravardière resses, certa queixa, certo dissabores, não faltoca nas aldeias de Cumã, Gurupy taram disputas. E descontentamento, certo desejo existiram lógicas oue Cayté encontrando os índios de impulsionar tras, como as desses tupinambás onde passou um mês, donatários. a nova vila, com um comércio am- saindo dessa última a 17 de agosto Essa manutenção plo, com algo que das conquistas porindo aportar à aldeia Meron de a transformasse tuguesas do século “para o qual há XVII, no entanto, só onde demandou, diretamente, à tudo quanto o significavam uma Taba-Pará, a Vigia”. pode permitir”. ocupação no sentiÈ preciso sado militar, religioso lientar que esse e econômico. Seria processo de controle do espaço em apenas no século XVIII, por uma farta que hoje se localiza Bragança se deu historiografia e fontes, que os portucom a ajuda de diversos braços e vo- gueses programariam uma política zes, num lugar em que o cenário po- colonial, por assim dizer, seguramente dia permitir, inclusive, um embate administrativa, graças às iniciativas do rigoroso e subjugo de populações in- Marquês de Pombal, assim como um dígenas, que resistiram e em aspectos projeto de cidade. coloniais, de afirmação dos domínios Chama a atenção o documento de portugueses. Depois, a introdução de 1750: negros na primeira metade do século Em 1750, Manoel Antônio de Souza XVIII, só realiza uma conjunção de es- e Melo requereu do Rei D. João V, em forços para melhorar esse empreendi- carta de 12 de março de 1750, ajuda mento, aliado aos militares, colonos e para administrar a Capitania do Caité, religiosos, como os jesuítas da Aldeia com mão-de-obra de índios, ajuda na de São João Baptista, unindo-se e coleta de sal, além de solicitar condiafastando-se em determinados mo- ções como legítimo filho e herdeiro mentos. de José de Souza e Melo, chamado de O primeiro núcleo populacional da Porteiro-Mor. Com o falecimento do colonização na região do rio Caeté (ou rei em 1750, assume o trono D. José Caité = caa + y + eté = mato bom, ver- I. Sebastião José de Carvalho e Melo dadeiro, na língua tupi), buscou firmar foi nomeado como Secretário de Esa tentativa de controle e dominação tado e em 1751, o irmão de Sebastião nas áreas da União Ibérica na América, Carvalho foi nomeado Governador do

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POVOAMENTO Segundo informação do Ensaio Corográfico do Pará, criada sob as ruínas da Vila de Souza do Caeté, contava com seis palhoças e para cá (à esquerdo do rio) foi traslada em 1644, foi povoada na metade do século XVIII por “famílias e homens solteiros dos ilhéus angrenses e michaelenses”, a vila de Bragança tinha três ruas paralelas ao rio, contornadas por casas cobertas de telha. Estado do Grão-Pará e Maranhão. Era Francisco Xavier de Mendonça Furtado. Tais autoridades tornaram-se referências especiais para os estudos acerca do projeto de consolidação do que era o estado do Grão-Pará a partir do território de Caité e a Vila de Bragança. Contrário ao pedido de Manoel Antônio de Souza, o rei D. José I decidiu retirar dele os direitos sobre a área da capitania pelo decreto de 14 de junho de 1753, o que incorporou todo o território à Coroa, pondo fim à história da Capitania do Cayté (ou Caité, ou ainda Cahité, como está escrito em vários documentos), que passou a pertencer novamente ao Grão-Pará. Motivações não faltaram, como a falta de mão-de-obra indígena para os colonos, entre tantos desentendimentos destes com os jesuítas, aliados momentâneos dos indígenas, como a


FOTO. FLÁVIO CONTENTE

sublevação de 1741, quando os moradores fizeram um motim conspiratório, expulsando dois padres jesuítas da aldeia, cuja notícia o próprio rei D. João V recebeu por carta de 22 de outubro de 1742, do governador João de Abreu de Castelo Branco.

Mendonça Furtado e a Vila de Bragança O Governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado fez um levantamento das condições e das comunidades existentes nessa região para determinar onde se estabeleceria novos núcleos urbanos, de acordo com o projeto do Marquês de Pombal, seu irmão. Em 11 de outubro de 1753, por carta ao rei D. José I, o governador escolheu a Vila de Souza do Caeté como local para a implantação desse projeto, a ereção

de uma primeira vila oficial, sugerindo a fundação de Bragança, primeira vez em que se grafa o nome, em homenagem à família real. Ele relata a existência de uma “vila assentada sobre a terra medianamente empolada na margem

À medida que as ordens religiosas penetravam no interior do vale Amazônico, Francisco Coelho de Carvalho, promovia a distribuição de terra para particulares fundarem capitanias esquerda ou ocidental do rio Caeté, três léguas acima da sua foz jacente...”. Nessa mesma carta, Furtado indica providências para a instalação de casais vindos das ilhas dos Açores a fim

de povoarem a nova vila. O aldeamento indígena, conforme o documento, sustentaria as relações de trabalho suplementar para a agricultura e transporte (terrestre e fluvial) de produtos da lavoura para o comércio e uma escola de Língua Portuguesa seria criada para facilitar a comunicação entre colonos e índios. Diz o documento: Sendo Vossa Majestade servido ordenar pelo seu Conselho Ultramarino que eu fosse distribuindo a gente que aqui se achava das Ilhas pelos sítios que me parecessem mais proporcionados em que podem trabalhar com mais gosto em terra própria e sendo Vossa Majestade servido ao mesmo tempo mandar-me avisar pela sua Secretaria de Estado de que tomara a sólida e importantíssima resolução de incorporar na Coroa as terras que neste Estado pertenciam a alguns donawww.revistapzz.com.br 7


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tários, me pareceu que não devia perder tempo em povoar as poucas palhoças que até agora se conhecia pela Vila do Caeté ou de Sousa, fundando naquele sítio importante e útil sítio uma populosa vila que faço tenção sendo Vossa Majestade servido fundar com o nome de Bragança. E completa: Os moradores desta nova Vila ficam situados numas terras fertilíssimas muito perto do mar Oceano e muito abundante de peixe, e caça, e aonde já há algumas marinhas, e com assistência destas gentes se podem ampliar em forma que provam esta terra de tal de sorte que senão veja fundar com o nome de Bragança. E completa: Os moradores desta nova Vila ficam situados numas terras fertilíssimas muito perto do mar Oceano e muito abundante de peixe, e caça, e aonde já há algumas marinhas, e com assistência destas gentes se podem ampliar em forma que provam esta terra de tal de sorte que senão veja a grande necessidade deste gênero, em que agora se acha. Junto com a criação da Vila de Bragança, Furtado comunica que para sustentar o projeto era preciso articular áreas próximas à Bragança que a ligassem com a capital do Grão-Pará, viabilizando a criação e fortalecimento da Vila de Ourém, próxima ao Guamá como entreposto de comércio e comunicação. Mendonça Furtado considera Ourém importante a fim de garantir o sucesso do novo empreendimento, como se lê: Na chamada casa Forte do Guamá, tenho mandado ajuntar mais de 150 índios que se tem tomado de diversos contrabandistas com intento de fundar naquele sítio, outra nova vila, de gente da terra, que também sendo Vossa Majestade servido, faço tenção de que se conheça pela nova Vila de Ourém, e para que os rapazes se possam criar com civilidade lhe mandei abrir uma escola aonde me dizem que se vão criando muito bem, e aprendendo nela a Língua Portuguesa. Esta nova vila é sumamente importante porque além de nela poder haver trabalhadores, que ajudem aos lavradores do rio Guamá a cultivam as terras, haverá nelas canoas prontas para transportarem os gêneros do Cayté, e facilitar assim a comunicação daquela nova vila com esta cidade. A Vila de Bragança foi palco das experiências que serviriam de base para a implantação das futuras regras do Diretório dos Índios, de dois anos depois (1755/1757), no que se pode perceber na análise documental. A intervenção no trabalho missionário dos jesuítas deu 8 www.revistapzz.com.br

A intervenção no trabalho missionário dos jesuítas deu conta de acomodar os índios junto aos colonos, dando-lhes tarefas e permitindo seu casamento, com o aval da Coroa, para povoar a vila. conta de acomodar os índios junto aos colonos, dando-lhes tarefas e permitindo seu casamento, com o aval da Coroa, para povoar a vila. É fato notório a solicitação para a criação e equiparação do porto do Caeté, a fim de garantir o transporte de gêneros da agricultura da vila através da interseção daqui com o Guamá, o que justificaria o desenvolvimento agrícola desta região e as medidas econômicas adotadas nessa empreitada colonial: Como esta Vila tem um braço do rio que se comunica quase com o Guamá, somente com pequeno trabalho de sete ou oito horas de caminho de terra, faço tenção de por no porto do tal rio Cayté alguns casais para ali terem canoas prontas para a comunicação e fazendo alargar um pequeno varadouro que há por entre aqueles matos, fazendo por ele uma boa estrada, ficarão comunicáveis aqueles rios, e os moradores se poderão livrar dos perigos do mar transportando todos os seus gêneros com grande facilidade pelo dito rio Guamá a esta cidade. É interessante observar também o comportamento do governador Mendonça Furtado em relação aos indígenas, antes mesmo das medidas do Diretório que lhes “concedeu” civilidade e cidadania europeia. Ele afirma a necessidade de manter relações amigáveis com os índios (chamados “naturais”), sugerindo o casamento para fins de povoamento como medida real, avaliando, até aquele momento, o processo evangelizador. É notável a avaliação que Furtado deu a conhecer ao seu rei. O objetivo era de dar a conhecer aos naturais dele, que os honramos e estimamos, sendo este o meio mais eficaz de trocarmos o natural ódio que nos tem pelo mau tratamento, e desprezo com que os tratamos em amor à boa fé (...) sem cujos princípios, não é possível que subsista e floresça esta larga extensão de país. Em 1754, no ofício de 30 de setembro, o Ouvidor Geral do Pará, João da Cruz Diniz Pinheiro, por ordem de

“Tradição é eternidade que o povo traz na lembrança Este marco é de saudade dos que fundaram Bragança”. Verso de Eimar Tavares inscrito na base do obelisco. Mendonça Furtado, relatou seus progressos a Sebastião José de Carvalho e Melo, informando que trouxe um grupo de engenheiros e astrólogos para traçar a estrada até Ourém solicitada pelo governador. Traçaram também as primeiras quadras da nova cidade. Mais uma vez, alguns outubros prevaleceram na nossa história colonial. Em 20 de outubro de 1758, o ProvedorMor da Capitania do Pará, João Inácio de Brito e Abreu, escreveu ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar Tomé Joaquim da Costa Corte Real, descrevendo as duas localidades que deram origem à cidade de Bragança, informando que a nova Vila de Bragança era formada da Aldeia de São João Baptista (dividida por um braço de rio e por uma ponte de madeira) e da área onde hoje é o traçado do polígono histórico de Bragança, onde existia uma outra Igreja de frente para o rio (a então Igreja de Nossa Senhora do Rosário). Essa informação nos determina qual o formato do primeiro traçado


FOTO. FLÁVIO CONTENTE FOTO: RENATO CHALU

urbano de Bragança, com algumas ruas e duas praças, duas igrejas, Casa de Câmara e Cadeia, dezenas de casas e uma população formada por colonos portugueses, açorianos e indígenas. Bragança, portanto, foi constituída pela união da Vila Souza do Caeté (já transferida de Vila-que-era à margem esquerda do Caeté) com a aldeia missionária de São João Baptista, que graças à sua posição geográfica privilegiada, entre Belém e São Luís, ganhou importância política e econômica. E só em 02 de outubro de 1854, através da resolução n.º 252, assinada pelo Presidente da Província Sebastião do Rego Barros, é que vila tornou-se cidade, com o nome de Bragança. Dário Benedito Rodrigues é bragantino, historiador e professor. Exerce a função de Diretor da Faculdade de História da Universidade Federal do Pará, Campus de Bragança.

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POESIA / HISTÓRIA

BRAGANÇA ANTIGA POEMA: GERSON GUIMARÃES FOTOGRAFIA: ACERVO DILAMAR CASTANHO 10 www.revistapzz.com.br


português bem bragantino querendo que na seresta se tocasse a “Pátria Amada”. Bragança do Jovelino com seu olhar penetrante lá na Farmácia Minerva preparando o meu “purgante”. Bragança do Chico Torres, do Augusto e do Otávio, do Figueiro e do Amaral, homens de muita pujança que consideram Bragança uma terra sem igual. Terra do Jorge Abdon, do Cazuzinha Batista lá da fazenda distante; Terra da Tia Silvana, vestida toda bacana, desfilando pelas ruas com seu traje cativante. Terra do Luiz Otávio, do grande Tião Gonzaga que morreu na juventude carregando a sua cruz; Bragança do Malachias do “Zebu” - o Emílio Dias e do mestre Américo Luz. Bragança do seu “Bigu”, do “Munguba” e do Joao “Sete”. Bragança do seu Simplício a alegria da Marujada; do seu Raimundo Rodrigues la da “Boca da Estrada”. Bragança do João “Correte”, bom pescador e pedreiro. Terra do Mário Queiroz e do seu Dico Pinheiro. Bragança do seu Florêncio, - o Puluca do Roial e do Major Benedito Caudilho do Cacoal. Terra do Antonio Pereira, do Juvenal Oliveira e do seu Lulu Belém: Terra do seu Bernardino, do Pessoa - o “Pequenino” do Virgílio e Ze Vieira, do Mário Antunes, também. Terra do Martinho Bruno, do Dirceu Alves Ferreira, do Ciriaco Oliveira amante das poesias; Terra do seu Petrolino, do funcionário Perilo e do velho Zé Farias. Bragança do Elias Rodrigues, do seu Marcelo Castanho, do velho Pedro “Pretinho” proprietário do Riozinho onde se tomava banho. Terra do André Risuenho, Homem bondoso e ordeiro. Terra do seu Turiel,

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na imprensa escrita daqui. Bragança do Zito Cezar, GERSON que fez festa ao Centenário GUIMARÃES e ajudou o proletário a enfeitar seu Tapiri Bragança antiga, Bragança, Terra do Senador Lobão, terra de paz e esperança, do Ramiro - o Capitão de saudosas serenatas ”Comendador do Arimbú”; na doce Bragança do seu Cecim, quadra feliz; turco de bom coração, das feéricas procissões, que ficava a tarde inteira, esperando pelo trem das noites de orações lá na praça da Estação. na velha Igreja Matriz. Bragança do Justo Rosa, Terra de homens de fibra com o seu primeiro ônibus e de almas paternais de modelo original, falando nas praças públicas fazendo horário dos campos nos tempos eleitorais. e trazendo a caboclada Bragança do Rio Caeté pra festinha do arraial. agitando as suas águas, Terra do Armindo Ribeiro, carregando as suas mágoas animando o Cine Olímpia pra longe dos palmeirais. e chamando a mocidade Bragança da Velha Aldeia com seu gesto cordial. do Riozinho e do Morro, Terra da preta Leocádia, do Ora Bolas e Panair, de dona Maria Pretinha e do Perpétuo Socorro, do gostoso tacacá onde o fiel se agita vendido naquela pracinha. ao sol das tardes amenas, Bragança do Zé Bragança, numa contribuição bendita do Almerindo e do Cordeiro, para assistir as Novenas. do Godêncio “Fogueteiro”, Bragança das gerações do velho Alcino Tupy, de bondosos corações o saudoso seresteiro voltados aos semelhantes; que referto de esperança Bragança das noites frias, fazia acordar Bragança dos inesquecidos dias da Aldeia ao Jiquirí. das festas, dos arraiais: Terra do Padre Coroli, Bragança dos que morreram, com o seu cavalo branco que partiram pro outro mundo de cuidada ferradura; pra não voltar nunca mais. Terra do Oscar Acioly Bragança de Augusto Correa, governando a Prefeitura. - a fera deste torrão Terra do Vitaliano, -que causava muito susto o nosso padre e poeta, quando entrava em ação. exímio compositor Bragança do Pedro Sousa, que milhões de bem nos faz; da velha Tipografia, que chegou da velha Europa imprimindo o Bragantino e preparou a “tropa” com o artigo pequenino para representar Bragança, lá no Teatro da Paz. que o Filenilo escrevia. Bragança do Zé Soares, Bragança do “Duca Rosa” na marcação da quadrilha que vendia “todo prosa” nas festinhas sociais. o seu gostoso café, Terra da Luzia Rosa, no mercado da cidade; que com a sua voz maviosa Terra do Padre Luis, despertava os palmeirais. o Sacerdote feliz Terra do De Castro e Sousa que dirigiu o colégio do Rodrigues Pinagé disseminando a bondade. do inolvidável Zezé, Bragança de Dom Eliseu, vindo do Caratateua sempre alegre e sorridente, para fazer serenata o mais brilhante presente na ponte da beira mar; que Pio XII nos deu. O som do seu violino Bragança do Padre Gerosa, falava ao bragantino o dedicado Vigário, fosse grande ou pequenino que morreu com muita idade que devia levantar. abraçado ao seu Rosário Bragança do seu Emídio, Bragança do Cunha Junior,

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BRAGANÇA ANTIGA

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do doutor Simpliciano e do seu Pio Cavalheiro. Terra do seu Vadiquinho do Eduardo e do Sereno, Bené Alves e Amorim, E do seu Elias Sobrinho, morador do “Caeté”. Terra do Padre Machado o Vigário iluminado que aumentou a minha fé. Terra do Luis Antônio da panela que luzia; Terra da dona Diloca; e do Germano Garcia. Bragança do seu Hilário - o grande “Serapião” com jeito de milionário montando o seu alazão. Bragança do “Caramujo”, vendendo carne de gado la no mercado Central; Bragança do seu João Braga, que passava o dia cantando para “espantar o mal’\ Bragança da Maricota, professora modelar; com ela nao tinha história qualquer coisa a palmatória fazia silenciar. Bragança da Theodomira, mestra de grande valor, que com sua “regua gigante” silenciava o estudante corrigindo com amor. Bragança da Dorotéia ensinando no Riozinho com amor e doação; Bragança do Bibiano conduzindo a todo pano o trenzinho da colônia para a antiga estagao. Bragança da marujada, da saudosa cavalhada disputando um Medalhão. Bragança do velho Zuza, o locutor pioneiro que animava a Aldeia com seu modo zombeteiro. Bragança do seu Ormindo, o nosso antigo sineiro que chamava o povo ordeiro pra Igrejinha de São João. Eis, aqui, BRAGANÇA ANTIGA, torrao que a todos abriga, berço fértil e generoso onde o PAI me fez nascer; Quero neste solo amigo, pelo Caeté banhado fazer nele o meu jazigo quando por Deus for chamado.

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PZZ BRAGANÇA / HISTÓRIA

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Eis, aqui, BRAGANÇA ANTIGA, torrao que a todos abriga, berço fértil e generoso onde o PAI me fez nascer; Quero neste solo amigo, pelo Caeté banhado fazer nele o meu jazigo quando por Deus for chamado. GERSON GUIMARÃES

BRAGANÇA ANTIGA Algumas Fotografias do Acervo de Dilamar Castanho

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PZZ BRAGANÇA / PERSONALIDADE

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DILAMAR CASTANHO MEMÓRIA E VIDA

Nascido em maio de 1949, em Bragança, Dilamar Castanho fez de sua casa, um universo particular coletivo. Sua casa é um antiquário de grandes relíquias históricas de Bragança, desde fotografias a objetos raros, oratórios, imagem rara de São Benedito, gramophone, relógios de parede, esculturas, obras de arte, máquinas, brinquedos. Até poltronas do antigo cinema Olimpia da cidade tem em um canto da sala. Desde garoto, gosta de colecionar. Começou com selos. Muita coisa herdou da família. Outras, adquiriu por aí, em Bragança nos interiores, em viagens. É com esse olhar que vê Bragança. “Hoje Bragança é a terra do já teve. O que mais lamento é a questão cultural. Aqui tinha muita cultura. Cinema, Saraus, Discussões, Violões pelas ruas, poetas, escritores, jornalistas. Tudo na mais perfeita harmonia e intensidade. Dando um clima à cidade, uma aura poética e mágica que hoje vai se perdendo. Hoje acontece o descaso com a cultura e com o nosso patrimônio. As autoridades deixando se destruirem coisas que representam a identidade

e tudo está catalogado, segundo seu administrador. Ele conta que, por ver o descaso com as coisas, resolveu adquirir pouco a pouco o imenso acervo. Não recebe ajuda de ninguém e o custo é todo dele que mantém tudo funcionando e limpo. É comum baterem em sua porta e lhe procurarem para saber, pesquisar ou conhecer algo. Mantém a entrada gratuita a todos que se interessam e desejam conhecer o acervo de sua expoNascido em maio de 1949, em sição permanente que conta a história da Bragança, Dilamar Castanho fez de cidade e de sua gente, desde o começo até o contemporâneo. sua casa, um universo particular momento Dilamar é auto-didata, pesquisador e histocoletivo. Sua casa é um antiquário riador, conhece os primórdios da história de de grandes relíquias históricas de seu lugar e se revolta quando imagina que uma terra de muitos intelectuais do tipo CéBragança. sar Pereira, Jorge Ramos, Gerson Guimarães, De Castro Souza, os Irmãos Bordallo, Rodrigues Pinajé e muitos outros, não pode estar lhou no Incra. É apaixonado por sua terra, relegada ao abandono nos seus aspetos hisDilamar Castanho é descendente de espa- tórico, cultural, bem materiais e imaterias. nhóis. A residência dele está em um ponto estratégico da cidade, bem em frente a Praça Antonio Pereira quase ao lado do Teatro Museu da Marujada. Os compartimentos de sua casa estão lotados com fragmentos da memória de Bragança, de ontem e de hoje da cidade. Veja o Palácio da Prefeitura e a Casa da Cultura, estão em ruínas, desabando.” explica Dilamar. Na Bragança da sua infancia e juventude haviam personalidades marcantes, como o poeta, escritor e jornalista Jorge Ramos, o qual tem uma fotografia em sua parede em uma solenidade. Estudou em Belém, traba-

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PZZ BRAGANÇA / LITERATURA

Carlos Pará

DOSSIÊ LITERATURA DE BRAGANÇA

“A divulgação da Literatura de Bragança constitui-se na revelação de obras poéticas que merecem divulgação para o público leitor da PZZ e para as novas gerações conhecerem o valor inigualável dos escritores e poetas da “bragantinidade”, e assim poder serem reconhecidos e admirados pelos seus conterrâneos e ganhar uma janela no cânone da literatura paraense universal.

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ste breve estudo dos poetas e escritores de Bragança constitui-se na revelação de obras poéticas que merecem divulgação para o público leitor da PZZ e para as novas gerações conhecerem o valor inigualável dos poetas da “bragantinidade”, e assim poderem ser reconhecidos e admirados pelos seus conterrâneos e ampliar o alcance do texto literário, em função de um fenômeno mais extensivo que engloba, seja a linguagem, a sociedade, seja a história. As poesias aqui reunidas são recortes da produção de autores que revelam uma existência de reflexões sobre os anseios, o cotidiano, as tradições e amores à terra natal, trazendo para este ensaio “as cores, os sabores e os humores de Bragança” como diz um verso do poeta Jorge Ramos. Trazer ao conhecimento do grande público a coletânea da obra poética de Fernandes Bello, De Castro Souza, Jorge Ramos, Cirene Guedes, Bolivar Bordallo da Silva, Maria Lúcia Medeiros, Aviz de Castro, Gerson Alves Guimarães, Nélio Gonçalves, Lindanor Celina, Alfredo Garcia, e outros é apenas um punhado da farinha literária que Bragança prepara em seus fornos centenários e mágicos, um traço do perfil do rosto da literatura paraense.

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A maioria desses poetas e escritores, personalidades multifacetadas, precisam ser editados e reeditados. No blog do Professor Jorge Reis, aparece que Antonio Cicero Fernandes Bello é o poeta mais antigo da Literatura Bragantina que se tem registro, considerando a literatura como obras artisticamente

Esta publicação, mais do que prestar uma justa homenagem aos grandes poetas bragantinos, propõe-se a resgatar um débito histórico com os poetas dessa região, que desenvolvem ou desenvolveram um trabalho intenso e profícuo ao longo da história bragantina. escritas e classificadas de ficção, poesia e teatro. Paraense da cidade de Bragança, nasceu no dia 18 de maio de 1854. Ingressou na Faculdade de Direito do Recife, onde estudou o poeta baiano Castro Alves (1847-1871), conquistando o título em Ciências Jurídicas e Sociais a 05 de novembro de 1881.

Trabalhou como promotor em Penedo (AL); Juiz de Direito em Água Branca (AL), Pão de Açúcar (AL), Curuçá (PA), Guamá (PA), Mazagão (PA) e Óbidos (PA); Juiz substituto na Vigia (Pará). Não obteve transferência para sua terra natal devido ser um desafeto do governador Augusto Montenegro. Em 1884 a 1888 exerceu o cargo de deputado estadual ao lado do Padre Mâncio Caetano Ribeiro.


BRAGANÇA DE CASTRO SOUZA Depois da fundação (1894) da “Mina Literária” por Álvares da Costa, Alcides Bahia, Acrisio Motta, Eustachio de Azevedo, Euclides Dias, Guilherme de Miranda, João do Rego, Leopoldo Sousa, Licínio Silva, Luiz Barreiros, Marcos de Carvalho, Manuel Lobato, Natividade Lima, Paulino de Brito, Raul Azevedo e Theodoro Rodrigues, fez parte da agremiação ao lado de Arthur Lemos, Antônio de Carvalho, Arthur Viana, Anésia Schüssler, Artúnio Vieira, Albuquerque Mendonça, Antônio de Macedo, Bertoldo Nunes, Bezerra de Albuquerque, Barão de Guajará, Barão de Marajó, Bertino Miranda, Barroso Rebelo, Cantidiano Nunes, Carlos Victor, Duarte Pinto, Euclides Faria, Emílio Goeldi, Esmeralda Cervantes, Frederico Rhossard, Fabiliano Lobato, Fran Paxeco, Flávio Cardoso, Getúlio Santos, Guajarina Lemos, João Malcher, Juvenal Tavares, José Barbosa, João Lúcio de Azevedo, João Baena, Lauro Sodré, Luiz Lobo, Marques de Carvalho, Maria Valmont, Manuel Barbosa, Marcolino Fagundes, Olavo Nunes, Ovídio Filho, Rodrigues Vale, Vilhena Alves e Vasco Abreu. Por causa do naufrágio do vapor Guará, perdeu quase toda a produção em versos. Mas conseguiu preparar Versos d’Outrora, livro desaparecido. Em 1900 publicou Guia de Navegação, um manual em diálogos com base no Regulamento para evitar abalroamentos no mar do Governo Federal. Morreu em 1922 na capital paraense. Como homenagem há um distrito em Viseu (PA) com seu nome. Nesta edição divulgamos seu soneto: No Amazonas. Mas foi no início da década de 20 que destacamos o início dessa vasta literatura bragantina na qual destacamos A Revista Bragantina, órgão do Centro Social Estudantino, que tinha como Diretores, Armando Bordallo da Silva e Oswaldo Pacheco e como Editor, o Bolivar Bordallo da Silva. Depois de uma ano de fundação do Centro, já se sentiam fortes e animados para a publicação de uma revista queveio para suprir uma lacuna no círculo social da época. O aparecimento da Revista Bragantina é a prova inconfundível do esforço e boa vontade de seus diretores, entre eles Armando Bordallo da Silva, Oswaldo Newton Pacheco, José Nonnato Schwartz, Lauro da Cunha Oliveira, Bolivar Bordallo da Silva, Orlando Henrique de Araújo, Simpliciano Medeiros Junior, Pedro Hélio de Mello, Antônio Fernandes Medeiros, Sebastião José da Silva coadjuvados por aqueles que estimavam Bragança, contribuindo para o seu soerguimento. A Revista Bragantina sobreviveu por muitos anos e em várias edições temos o registro intelectual e literário de uma geração que entrou para a história de Bragança e do Pará. A Re-

Terra da Promissão, a nossa terra, ninho de amor, de paz e de beleza, tanta doçura virginal encerra, que até parece o altar da Natureza onde a alma, às vezes, entre sonhos, erra

Onde pulsar um pátrio coração, onde existir um peito bragantino, há de haver sempre um pouco de emoção de um grande afeto, puro e peregrino, ante o esplendor de tanta floração. Perante o seu domínio fascinante, não há quem ante o céu azul nao vibre, nem com seu fulvo sol não louve e cante. E por mais que a imaginação se libre, não há beleza que o Caeté suplante! Nessa planície imensa que êle banha, se repartindo em igarapés sombrios, a força das florestas é tamanha, são tantos os encantos e atavios, que a nossa terra as outras terras ganha!

De Castro Souza vista tinha muito anunciantes: Fábrica Oriental - Saboaria e Extração de Óleos, do Grupo F. Ramos; Companhia Nacional de Navegaçao Costeira que fazia linha Belém Recife e tinha sede em Bragança, Caixa Rural de Crédito - Sociedade Cooperativa de Respónsabilidade Ilimitada que fornecia Empréstimos a Lavradores, e muitos outras fábricas e lojas que anunciavam e ajudavam a manter o projeto do períodico que durou de 1929 a 1950. A mocidade estudiosa, a vida de conhecimentos, que se entrega as lides do estudo, buscando a luz clara e fulgente que os havia de guiar na senda do trabalho e do progresso, teve nessa Revista o baluarte de suas ideias contribuindo para o aperfeiçoiamento intelectual do povo bragantino. Nas páginas da Revista Bragantina foram ensaiados os primeiros passos para a carreira das letras de homens notáveis: Armando Bordallo, Bolivar Bordallo da Silva, Rodrigues Pinagé, De Castro e Souza, Sebastião Silva, Hamilton Torres, Eimar Tavares, Cyriaco Oliveira. Uma geração que entrou para a história fazendo muito alarde e merece o devido destaque. Desses que entraram para o hall dos notáveis, destacamos, o poeta bragantino, Antonio Teles de Castro e Sousa, De Castro Souza, letrista, pioneiro e ilustre, autor do hino de Bragança, era considerado por Vicente Salles um mito e uma figura das mais extraordinárias de quantas se manifestaram entre os criadores da Música Popular Brasileira. A vida passou para esse boêmio, depois de iluminar-lhe a existência, breve e fugaz. Muito jovem, deixou a terra natal. Educou-se na Europa. Passou longa temporada em Paris. “Voltou ao Brasil por volta de 1914, talvez tangido

E quando o rio, feliz, numa cantiga, refresca as matas com preciosas linfas, nos nossos olhos a ilusão se abriga, de ver faunos correndo atrás das ninfas, como nos tempos bons da Grécia antiga.. Na graça da mulher, já nem se fala; que ela é tão linda, esbelta e imaginosa, que, mais que as flores, todo o aroma exala.. É a única no mundo que é dengosa, que as almas prende, que seduz e abala!.. Seja a cabocla cheia de embaraços, ou a moça culta empenhada em zelos, nos olhos trás o brilho dos espaços, tem o negror das noites nos cabelos e o odor das plantas aromais nos braços.. Na boca trêmula, húmida de beijos, tem as tintas vermelhas do verão Na voz possui melódicos harpejos. E quando adora, trás no coração um infinito mundo de desejos! A noite, quando a lua timorata desata a esteira argentea e luminosa Bragança, em reverberações de prata, logo adormece, calma, venturosa, ao som de uma indisível serenata! São os queixumes graves dos Romeus, às Dulcineas reservando sustos em versos tristes como são os meus... São as vozes da brisa e dos arbustos subindo ao céu para falar a Deus! E de Braganca eterna vigilante, a cruz iluminada da Matriz levando o seu clarão léguas distante, mostra como o seu povo é bem feliz e abençoado por Deus a todo o instante. Por isso, nesta lira que não cansa, canto, feliz, alegre, satisfeito, o berço onde nasceu minha esperança... E de joelhos em terra e mãos no peito, rezo pelo destino de Bragança! www.revistapzz.com.br 17


PZZ BRAGANÇA / LITERATURA

Sebastião José da Silva pelos primeiros rumores da I Guerra Mundial e foi morar durante uns 15 anos no Rio de Janeiro, vivendo quase exclusivamente da sua poesia, como declamador e conferencista. Ali publicou a comédia em 2 atos “Abnegação”. Pianista, também tangia o seu violão. No Rio, estudou música com Júlio Mendes Pereira. Publicou poemas e sonetos em várias revistas, principalmente em O Malho, da qual se pode recolher copiosa colaboração. Pertencendo a geração e ao grupo de Álvaro Moreyra, colaborou em Paratodos. Além das Revistas Bragança Illustrada e Revista Bragantina. De Castro e Sousa viveu na época em que o cinema norte-americano começou a impor os gêneros da música popular daquele país. Foi pioneiro e um dos mais fecundos criadores de letras de foxes, Charlestons, swings. Seu nome aparece assim em centenas de edições brasileiras de músicas norte-americanas.Produziu diversas obras sem parceria. Publicou, entre outras, “Garça Branca”, foxtrot, editado pela casa Ceará Musical, de Fortaleza, e “Zélia” (opus 6), valsa lenta, estampada no suplemento n° 105 da Revista Musical Rio de Janeiro, de 15 de novembro de 1927 Poe volta de 1930, retornou ao Pará. Viveu ainda em Bragança e em Belém, produzindo nessa ocasião o Hino de Bragança, musicado por Raimundo Mota da Cunha. Amigo de muitos criadores da MPB, contribuiu com letras de valsas, sambas, marchas, etc. Parceiro de Augusto Vasseur no fox-trot “Anhangá” (Diabos Vermelhos); de Pedro de Sá Pereira no tango-canção “Ao reflorir do amor”: de Luis Nunes Sampaio (Sampaio Careca) no tango “Caridade”, de tantos outros compositores, colheu também parte do seu sucesso como letrista da compositora carioca Serafina Moura do Vale, a 18 www.revistapzz.com.br

celebre Viúva Gerreiro, proprietária da loja de música e casa editora. A dupla produziu principalmente valsas: “Teus sorrisos me encantam”, valsa dolente,- “O amor pode mais que a morte”, valsa triste; “Não penses... em cousas tristes”, valsa apaixonada,- “Virgem da paixão”, valsa sentimental, etc. Em Belém, contribuiu com o fox “Caminho dos Namorados”, para a revista “Gosto de quem me entende”, representada no Teatro Glória, na quadra nazarena de 1933 pela troupe Cantuária. Carregando seu sonho e sua miséria, De Castro e Sousa produzia incessantemente, mas sempre ao meio de uma vida errante e boemia. Desapareceu em circunstancias misteriosas, pouco mais sabendo de sua vida aventureira. Diz-se que também produziu um livro de contos intitulado “Comédias da Vida” . Outro personagem desse contexto que des camos é Sebastião José da Silva, pai de Armando e Bolivar Bordallo, que também colaborava com textos e poemas na Revista. Sebastião José nasceu no ano de 1874 em uma família pobre, portanto não teve oportunidade para grandes estudos, mas, teve sorte ao encontrar na adolescência um médico já cego que o “adotou”, a quem ele lia e guiava, e que lhe ensinou literatura, Francês, e principalmente o gosto pela leitura de grandes autores. No final do século XIX foi parar em Bragança onde trabalhou na loja de tecidos do Sr. Nazeazeno Ferreira, vindo a se tornar sócio, e assim ele passou a ser comerciante. Depois de casado, tornou-se o próspero dono de uma casa comercial chamada “Tupi”. Ele mesmo era conhecido como “Seu Tupi”. Sebastião, como comerciante, participou ativamente na vida da cidade. Foi vogal, uma espécie de vereador, para o triênio 1903-1906, assumindo o cargo a 15 de novembro de 1903. Em 1923, também como vogal, foi o orador oficial do Conselho Municipal na Sessão Magna comemorativa ao centenário de Independência do Brasil, ocasião em que foi inaugurado o Monumento do Centenário situado ao centro da Praça Coronel Batista Júnior, em frente à Igreja Matriz da Paróquia de Bragança. Em 26 de Junho de 1927, juntamente com outros comerciantes, fundou a Caixa Rural de Crédito de Bragança. Esta era uma sociedade cooperativa, de responsabilidade ilimitada, pelo sistema Raifaisen, com o objetivo principal de conceder pequenos empréstimos à lavradores de criadores da cidade e interior. Sendo que esta sociedade foi transformada no Banco Rural de Crédito de Bragança em 15 de Setembro de 1929, tendo ainda Sebastião

José da Silva participado como sócio fundador, juntamente com os mesmos sócios fundadores da Caixa Rural de Crédito. Ele possui diversas poesias inéditas, assim como, Crianças, e uma outra, “Baile na Roça” – 1920, foi publicada em um número da Revista Bragantins. Seus filhos, Armando Bordallo, presidente do Centro Social Estudantino e seu irmão Bolivar Bordallo da Silva, também foram pessoas que atingiram um alto grau de prestígio e notabilidade na história de Bragança e no Pará.

Armando Bordallo Armando Bordallo da Silva nasceu em Bragança em 1906 foi farmacêutico, Médico Obstetra, Sanitarista, Médico do Exército, de Desportos, Inspetor Médico Escolar, pesquisador, folclorista, Diretor do Museu Paraense Emílio Goeldi, antropólogo, professor, membro da Academia Paraense de Letras e de várias outras Associações Científico-Culturais que ele ajudou a fundar ou apenas se associou. Em 1927, ele se formou no curso de Farmácia e, em 1930, concluiu o curso de Medicina defendendo a tese “Das Vitaminas e das Avitaminoses”, analisando a composição química de produtos amazônicos: o açaí, a banha de tartaruga, o óleo de boto e a farinha d’água. No ano seguinte à sua formatura, passou a atuar como médico sanitarista em diversos interiores do Pará – inclusive no próprio Município de Bragança. Essa experiência de proximidade com o povo, seus hábitos e costumes, coletando material que ia encontrando nas estradas percorridas a cavalo, levou-o a refletir sobre a necessidade de investigação e registro da cultura do caboclo paraense. E


CANÇÃO BRAGANTINA (Julho/55)

ao longo de anos de labor e de pertinaz observação escreveu o livro: Contribuição ao estudo do Folclore Amazônico na Região Bragantina. Belém: Falângola, 1981. Percorrendo o município, em todas as direções, acostumou-se a investigar e observar tudo o que diz respeito à terra e ao homem. Assim todos os seus quadrantes foram esquadrinhados, perscrutados, levantado o contorno da costa marítima, e relacionados os hábitos, os costumes, as superstições e crendices dessa gente hospitaleira, boa e simples. A partir de 1933, tornou-se professor: preparador de Física e Química no Ginásio “Paes de Carvalho; Cinesiologia na Escola de Educação Física do Pará; Biologia Educacional no Instituto de Educação do Pará; Biotipologia e Alimentação na Escola de Assistência Social do Pará; Assuntos de Natureza Médica no Curso Intensivo de Educação Física (Departamento Nacional de Educação Física do Ministério de Educação Física e Saúde em Belém); por fim, foi professor Catedrático da Cadeira de Antropologia na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras do Pará (UFPA). A partir de 1938, passou a morar definitivamente em Belém, onde criou a família, firmou-se profissionalmente como médico e professor e, ampliou o círculo de amigos, fazendo parcerias importantes. No ano de 1947, o Dr. Armando e seu amigo Paulo Maranhão, idealizaram e fundaram o INSTITUTO DE ANTROPOLOGIA E ETNOLOGIA DO PARÁ, dedicado aos estudos da região amazônica. Os membros do Instituto eram os mesmos companheiros que o acompanhavam nas reuniões do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Durante muitos anos, o Instituto, que tinha como sede provisória o Museu Paraense Emílio Goeldi, promoveu palestras e publicou 10 títulos, sendo a primeira obra publicada: Aspectos Antropossociais da Alimentação na Amazônia (Trabalho lido em sessão pública do Instituto, dentro do plano de divulgação e educação por este estabelecido) do Dr. Armando Bordallo da Silva em 1949. No ano de 1950, durante reunião do Instituto de Antropologia e Etnologia do Pará no Museu Emílio Goeldi, foi criada a Comissão Paraense de Folclore. E, seguindo as idéias difundidas pela Campanha Nacional de Folclore, criada por Renato Almeida, a fim de preservar e documentar as tradições culturais, antes que a modernização as extinguissem, a comissão criou a I JORNADA PARAENSE DE FOLCLORE. Como Secretário da Comissão, o Dr. Bordallo escolheu Bragança, para sediar o evento que contou com a presença do folclorista Edson Carneiro, representando o ministro Renato Almei-

BOLIVAR BORDALLO Canta povo bragantino, cheio de amor e de fé, glorificando o destino do formoso Caité. Cantigas, simples, bonitas que o povo sabe cantar; são elas como pepitas qual um tesouro a brilhar. Guardam consigo a beleza da tradição popular; são tesouros, são riqueza, e vivem n’alma a bailar.

Bolivar Sebastião JoséBordallo da Silva da, Zaíde Maciel (do Rio de Janeiro), Bruno de Meneses, De Campos Ribeiro, Jacques Flores, Washington Costa, e o jovem estagiário, futuro antropólogo e pesquisador do Museu, Edson Diniz, dentre outros. Em 1951, o Dr. Bordallo foi convidado pelo Governo do Estado para administrar o Museu Paraense Emílio Goeldi. A avidez pelo saber lhe concedeu um conhecimento eclético, passando por diversas áreas do saber. A consciência de seu papel como educador, o levou a escrever sobre diversos assuntos: alimentação, geografia, economia, folclore, etc. Além de suas diversas obras, ainda deixou algumas obras inéditas: Folclore Brasileiro na Amazônia, atualmente entregue ao Magnífico Reitor da Universidade Federal do Pará para sua publicação; e a Bibliografia Antropológica da Amazônia. Bolívar Bordallo, seu irmão, foi o primeiro orador no Centro Social Estudantino que publicava a Revista Bragantina, onde publicou seus primeiros versos, poemas sobre Bragança e suas belezas naturais, sobre a Selva Bragantina, sobre o Amor e artigos de Sociologia Crítica, questionando sobre a missão dos homens no desenvolvimento, ou na evolução propriamente, da sociedade que se debate agonizante na pequena esfera global enfatizando a importância da educação para o desenvolvimento moral e social. Nesse periódico também escrevia sobre Estudos sobre o Comércio falando da sua origem: definição e importância como função social e econômica. Significativa era a sua colaboração intelectual no periódico. Em 1946 publica o livro: “Fatores dos Descobrimentos e Conquistas no Século XV” e

Do “bumbá”, da “Marujada”, das cavalhadas velozes, “da Ladainha”cantada, do caboclo , a quatro vozes; do “Xingue”, do “Tum-tum-pá”, do “Bagre”, do “Retumbão”, falam todos , um a um, da popular tradição. Canta povo bragantino, cheio de amor e de fé, glorificando o destino do formoso Caeté. ******* PIRÃO E CHIBÉ ( 17.04.62) BOLIVAR BORDALLO Crepita, ainda, o fogo no caqueiro sobre o convés daquela igarité; o peixe assado cheira no braseiro, todos comem pirão, bebem chibé. “Eu vou fazer o meu pirão gostoso”; - diz marujo que n’alma não tem mágoa “Quero um bocado grande, generoso, farinha, mais farinha do que água”. “Como é bom este peixe com pirão que a gente come com qualquer comida! No convés de qualquer embarcação o pirão é pirão, a vida é vida!” “E depois do pirão, do peixe assado, numa cuia bem funda e bem pretinha, a gente bebe o chibé distiquarado, com muita água, açúcar e farinha.” Crepita, ainda, o fogo no caqueiro sobre o convés daquela igarité; o peixe assado cheira no braseiro, todos comem pirão, bebem chibé...

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PZZ BRAGANÇA / LITERATURA

para o Professor e Coordenador do Curso de História do Campus Bragança da UFPA, Dario Benedito “Sua maior contribuição para a sociedade em geral, fruto de suas observações foi, com certeza o livro Cronologia Bragantina – um capítulo na História da Amazônia, que ficou sem lançamento e continua inédito”. Para ele “A história de Bolívar começa em 25 de setembro de 1907. Bolívar, como muitos outros, não só por ter lutado pelos interesses econômicos, culturais e educacionais da região Bragantina, mas por ter sido professor em muitas instituições de ensino de sua época, exerceu o ofício de advogado, e também historiador, garimpando em variados registros as informações necessárias para escrever uma parte interessante história de Bragança, como um atento observador. Sua vida foi dedicada à Educação e à produção do conhecimento, tendo Bolívar assumido com fervor a tarefa de educar, como missão pessoal, a fim de promover e elevar a condição cultural, social e econômica das pessoas, especialmente de Bragança. Mas, o conhecimento, o amor aos livros e à História, era algo que ele passava a todos sem distinção, além da sua gentileza e tratamento da família em ocasiões onde estava com irmãos, sobrinhos e parentes. Entre 1950 e 1969 escreveu um livro de poemas inspirado na tradição popular e no canto do povo bragantino que para ele são “Cantigas, simples, bonitas que o povo sabe cantar; são elas como pepitas, qual um tesouro a brilhar, são tesouros, são riqueza, e vivem n’alma a bailar”. O livro ainda inédito é dividido em “Séries” e na Série I inicia com as DANÇAS E DIVERSÕES: Canção Bragantina, Boi – Bumbá, Marujada, Cavalhada, Ladainha, Xingue – Xingue, Tum - tum - pá, Bagre, Retumbão, Paisagem Bragantina. Os poemas Canção Bragantina, Marujada, Bagre e Retumbão já foram publicados num livrinho do Instituto de Artes do Pará organizado por Paes Louereiro em 2000 por ocasião dos festejos da Marujada. Na Série II - BEBIDAS E MANJARES: Açaí, Aluá e gengibirra, Pirão e chibé. Na Série III - UTENSÍLIOS E TRABALHOS DOMÉSTICOS: O ciclo do guarumã - tipiti, paneiro, urupema, tolda, canastra e tupé. Ciclo da palha - cofo e meaçaba. Louça de barro - igaçaba e alguidar. Cuia. A Série IV - ASSUNTOS REGIONAIS, HÁBITOS E COSTUMES: Roçado e queima; A roça do caboclo; Vamos mexer farinha; Ferra do gado, Caranguejo está andando; Pescaria de arrasto. E na Série V - MITOS, LENDAS E ESTÓRIAS, Crendice Popular; Curupira; Lobisomem; O boto da cunhã; A Cobra - grande; A onça e a chuva; 20 www.revistapzz.com.br

Frechado de sapo; O Urutaí e a coruja; O casamento da filha do Maguari. O livro organizado pela Prof.ª Mariana Thereza Athayde Bordallo da Silva além de ser um legado da vida e obra desse notável professor, poeta e ativista cultural é um inventário sobre os saberes e práticas vitais do povo bragantino, da cultura em seus múltiplos aspectos e que precisa ser conhecido e reconhecido como arte e conhecimento.

Rodrigues Pinagé

Benedito Cesar Pereira Sebastião José da Silva

Benedito Cesar Pereira, ex-prefeito de Bragança, além de escrever versos foi autor da Sinopse da História de Bragança compilou de cronistas eruditos, escritores e historiógrafos bragantinos, diálogos e informações dos irmãos Bordallo e muitos outros que menciona no prefácio. Escrever a história de uma terra e de um povo é sempre um processo que vai além da consulta de documentos históricos guardados em arquivos públicos ou privados, exige-se dialogo com os mais antigos, muito que estão no limiar da vida, prontos para levarem consigo toda a vivência e conhecimento sobre a vida e do lugar. Um árduo trabalho em pesquisar livros, compilando trechos para enfeixá-los numa só obra. A pequena história de Bragança, que o estudioso conterrâneo João Araújo tentou descrevê-la, num trabalho bem urdido, porém, não terminado e que intitulou de - PAÌS DOS CAETÉS”, - narrando desde as primeiras fundações das Capitanias do Maranhão e a do Grão Pará, o desenvolvimento do Pará e a Região do Caité e logo após por Benquerença, No capítulo BRAGANÇA FOLCLORICA -

dedicamo-lhe Bruno de Menezes, Rodrigues Pinagé, De Campos Ribeiro, Jacques Flores. fazia parte da geração dos notáveis, autor do poema épico MANI DE URUTA, CONTO CAETEUARA — A LENDA DA MANDIOCA o qual narra a miscigenação do branco e do índio, e a lenda da mandioca, raiz cultuada pelos índios tão presente na cultura do povo bragantino. Inventou o termo sociedade caeteuara, assim como a marajoara possuíam tecnologias sociais, mitos, cultura, arte. Viviam na floresta os TUPINAMBAS. A caça das aves, também embiaras, Outra figura que contribuiu com a produção literária em Bragança foi o potiguar Rodrigues Pinagé, grande poeta, autor de muitos livros de poemas “tornou-se tipógrafo na própria terra natal indo trabalhar em “A República” e mudou-se para o Pará aos 16 anos de idade, em 1911, quando o extrativismo do látex da serigueira ainda impressionava na balança econômica da Amazônia .Pinagé veio tentar uma nova vida se estabelecendo primeiramente em Bragança, onde numa bela noite de luar recitou na ponte sobre o rio Caeté “Caité, em ti repousa,/ Muita cousa sagrada,/ Muita cousa (Pereira, l963) e depois seguiu para a cidade de Belém, lugar onde exerceu o ofício de arrumar as letras no jornal “A Província do Pará”, cujo trabalho pesado abrange segundo Ildefonso Guimarães um “tempo em que esta profissão marcará o início de algumas férteis carreiras literárias entre moços pobres, Machado de Assis foi uma delas e, aqui também, o nosso Bruno de Menezes” Mais tarde o incêndio criminoso no prédio “A Província” como forma de vingança política e alguns jornalistas do quadro funcional acabaram perseguidos sem trela, fez


BRAGANÇA jorge ramos Pinajé mudar de orgão informativo para o matutino “Estado do Pará”. Através da atividade gráfica recebeu forte influencia decisiva ao assumir plenamente a convicção literária por meio de contatos com as figuras importantes das letras paraenses: Humberto de Campos, Vespasiano Ramos, Bruno de Menezes, Ernâni Vieira, Lucilo Fender, Eustáquio de Azevedo, Jacques Flores, Eduardo Filho, Terêncio Porto, Aires Palmeira, Jose Sunoes, Romeo Mariz. irmaos Marques de Carvalho, Alves de Souza, Elmano de Queiroz e outros. Celebrou o laço matrimonial com Raimunda Gomes Pinagé, vindo ao mundo um casal de filhos: Olivar e Odeisa O poeta explorou profundamente as reações humanas e alcançou até o estado do metafisico, apresentando composições itinerantes nas formas presa e livre. Em várias poesias são concebidas o sonho vivido pelo indivíduo mesmo com o passar do tempo e às vezes se aproxima ao tratamento dado por Raimundo Côrrea, discorre o significado da vida e do amor recheados pelas decepções, sensualidade e encantamento” escreve Jorge Pereira na Revista Bragança Ilustrada sobre o poeta. Pinagé tinha amigos e um amor incondicional a cidade de Bragança. Tinha um sítio que sempre frequentava e dedicou muitos poemas e contos sobre o lugar como este que publicamos “BOM DIA BRAGANÇA” Eimar Tavares Ao folhear as páginas da Revista Bragantina encontramos o poema “Nocturno” de Eimar Tavares , diferente no estilo e na forma dos outros poetas de seu tempo, com versos modernos e um olhar sinistro sobre a cidade: “A MINHA RUA, QUANDO DORME, PARECE UM TÚNEL SINISTRO POR ONDE UM TREM VAE PASSAR...” Pesquisando sobre este autor, Olga Savary, o incluiu na Antologia de poetas paraenses - POESIA DO GRÃO PARÁ, Eimar Tavares que nasceu em Bragança no dia 12 de maio de 1909 e faleceu no dia 26 de julho de 1987. Estudou no Instituto Lauro Sodré, formando-se em tipografia, profissão onde fez amizade com escritores, jornalistas e poetas, entre estes Acy Araujo e Rodrigues Pinagé. Eimar auto-intulava-se um “serviçal das letras”, tendo organizado várias pequenas antologias, chegando a publicar, artesanalmente e em pouquíssimos exemplares, duas delas, a saber: Mini-antologia: Poetas da Belém Nova, reunindo poetas dos anos 20, e Poemas Esquecidos, publicados anteriormente A Província do Pará. Além desses trabalhos e de sua militância na imprensa

Jorge Ramos local, publicou um livro de sonetos (perfis) e um folheto datilografado e distribuído entre seus colegas do DMER intitulado Musa Rodoviária. Livros: Amuletos & Bibelôs, Belém, Oficinas Gráficas do Instituto D. Macêdo Costa, 1934; Musa Rodoviária. Folheto artesanal; Mini-antologia: Poetas da Belém Nova; e Poemas Esquecidos. 1986. Inéditos: Janela da Poesia — mini-antologia reunindo poetas publicados na página de arte de O Liberal; Poetas Bragantinos. Antologia; Belém do Para; Antologia Preservativa da Imagem da Cidade; Versos Vadios — Poesias do Tempo da Flor; e Um Assobio no Escuro — Poesia reunida (1940 a 1984). Eimar Tavares colaborava, também, com o PQP-Um jornal pra quem pode — de Raymundo Mario Sobral, hoje transformado em revista, com o qual também colabora desde o primeiro momento. No PQP, Eimar assinava textos humorísticos, trovas e sonetos de duplo sentido. Tencionava, nesse gênero, publicar um livro em parceria com o poeta vigiense José Ildone, intitulado Dama de Paus. O obelisco comemorativo do 1º centenário da cidade instalado na Vila Que Era ou Cuera em Bragança no período da gestão municipal de Cesar Pereira, consta na parte larga do pé do obelisco, os versos do Poeta Eimar Tavares: “Tradição é eternidade que o povo traz na lembrança Este marco é de saudade dos que fundaram Bragança”. Até o momento de concluirmos essa edi-

Bragança beira-rio, cidade presépio, minha Bragança de São Benedito, cheia de sonhos e de poetas: - Onde estás De Castro e Souza? - Em que estrela te escondes Alírio Pinheiro? Eu te pergunto, Bragança minha, onde perdi aquela pureza da infância, onde ficou aquele meu primeiro sonho-fantasia, em que pedra está o epitáfio muito frio e muito triste do meu primeiro desengano?... Ah, casarão colonial de tanta luz, meu berço, de vento batido, sobrado da Rua do Mar, onde aprendi a ser livre como o vento, a ser sentimental com as cantilenas dos barqueiros, a ser poeta com o poente sobre o Caeté e a lua cheia, amarela, como rosa chá, despetalando-se em miríades, encanto mudo que nunca esqueci... Ah, Bragança de meus amores, finados amores, onde a luz do luar haviam violões em serenatas, em que mundos perdi a rara e doce emoção de já não saber te contemplar tranquila e serena nessas noites misteriosas, como fazia outrora!. Ah, a alma de tua tradição afro-ameríndia, cidade cheia de lendas e muitos amores: - Lá vai São Benedito, preto velho, bom e batuta, todo fim de ano na sua esmolação!... (Santo milagroso, Santo do meu povo, a tua casa e a casa da gente cabocla que confia muito na tua proteção!...) São Joao, meu São Joao da Aldeia!... Ah, que saudades, vou passar fogueira novamente, vou acender o meu balão, Meu São Joao, “acende a fogueira do meu coração”, há invernia e tristeza, a tua casa o vento levou, mas em nos, Voz do Deserto, ainda restou a tua sagrada devoção!... São Raimundo da Penca, os trilhos da velha ferrovia eram o caminho e o convite, havia a tua fé, a tua grande procissão e a cabocla brejeira, a mulata festeira, festa do povo que o vento e o progresso levou! Sta. Teresinha, a pálida monja de Antônio, o devoto aos teus pés, na capela do morrozinho, casais enamorados e tardes tão líricas, construíram castelos em sonhos tão puros e tão cândidos!... Recebe o teu devoto que se foi tão contente de te conhecer como a mais santa de todas as santas!... Bragança beira-rio, cheia de sonhos, e sempre havia a menina-moça de cabelos cheios de viração, e no rosto uns olhos doidos cheios de emoção!... Bragança minha, há saudades no coração, eu te trago minha alma, minhas magoas e minhas palavras pobres, eu toco tua terra e me redimo, e nestas ruas encontro a tua madrugada sorrindo para mim, e há a eterna promessa sempre renovada de ser sempre teu, minha doce amante, e sinto, de leve, teu beijo de amor nos meus lábios que sussurram eternamente:

-VIVA A BRAGANTINIDADE!. www.revistapzz.com.br 21


PZZ BRAGANÇA / LITERATURA ção não conseguimos encontrar um retrato seu mas devido ao seu trabalho e sua persononalidade faz parte da composição do rosto da literatura bragantina. Agora, destacamos a grande figura de Jorge Ramos, que nas palavras de Celso Luiz Ramos de Medeiros, organizador da antologia de poemas “Toda a poesia de Jorge Ramos” declara que o poeta foi homem de seu tempo, um dos fundadores da revista trimestral Bragança llustrada, que circulou no Estado do Pará entre 1950 e 1954, recheada de páginas literárias divulgando poetas e contistas paraenses. O poeta Jorge Ramos dedicou-se também ao jornalismo diário e semanal, atuando nos jornais O Estado do Pará e em O Liberal, ambos de Belém, bem como no Jornal do Caeté, de Bragança, exercendo ai os cargos de Secretário Geral e Diretor, até a sua morte, em 1981. O Jornal do Caeté foi inaugurado a 18 de Março de 1964, quando circulou o primeiro número. O seu atelier de trabalho funcionava em prédio próprio, já tendo circulado 587 números até fevereiro de 1963 e seu âmbito de ação não foi somente em Bragança e no interior desse município. Espraiava-se na Estrada de Ferro de Bragança, Belém, Amazônia e outros Estados onde contava com avultado número de assinantes, anuais. Era impresso em prédio italiano, movido à eletricidade ou motor e sua tiragem era de dois mil exemplares. Circulava aos sábados, com variada colaboração (Cesar Pereira, Sinopse da História de Bragança). O Diretor-proprietário era o Senador Lobão da Silveira e, Secretário o Dr. Jorge Ramos, que tendo assumido as funções de Prefeito Municipal, deixou essa secretaria, logo depois ocupada pelo Sr. Gerson Alves Guimarães, também eleito e empossado Vereador à Câmara Municipal bragantina. A direção técnica do Jornal sempre esteve à cargo do inteligente Alacides Lúcio Ribeiro. Alguns dos operários tipógrafos, foram os jovens José da Silva Costa, Maximiano Alves Cunha, José Sousa do Rosário, João Coelho e Nélio Fernando Gonçalves, que emprestaram o labor de suas competências para o maior sucesso do “Jornal do Caeté”. Nesse veículo de Jornalismo da Cultura Amazônica e da Zona Bragantina, Jorge Ramos, poeta primoroso, contista e cronista renomado, foi autor de reportagens jornalísticas de grande repercussão, abordando temas sociais, políticos e econômicos, cujas linhas denunciavam os descasos das autoridades para com as aflições do povo humilde. Advogado militante, especialmente no Tribunal do Júri e na Justiça Trabalhista, foi também professor destacado que marcou 22 www.revistapzz.com.br

a juventude estudantil de seu tempo com seu saber, transmitindo conhecimentos com rara proficiência. Exerceu cargos eletivos de Prefeito de Bragança - mandato não concluído por perseguição política da ditadura militar de 64 - e de Deputado Estadual por uma legislatura. Considerado um grande tribuno, era orador requisitado nas grandes solenidades, quando demonstrava a sua erudição e eloquência. Mas é no seu fazer poético, fundado em grande talento literário e sensibilidade invulgar, que Jorge Ramos derrama, de forma apaixonada, o amor a terra natal, Bragança. Jorge deu provas, falando ou escrevendo, de sua capacidade de traduzir o sentimento humano mais profundo em todas as suas nuances. Em seu poema BRAGANÇA exalta a cidade cheia de sonhos e poetas....Neste poema que exalta a cidade e suas expressões simMaria Lúcia Medeiros bólicas e onde inaugura o conceito de “Bragantinidade”, conceito muito utilizado por estudiosos da cultura de Bragança. deiro”. Leiam, reflitam e naveguem no tempo -VIVA A BRAGANTINIDADE!. passado para conhecer Bragança da Estrada de Ferro, do Fuluca do Roial, da Ponte de Ferro, do Trem do Bibiano e da Marujada de São Benedito. Em cada verso vai um pedaço de sua “Alma Bragantina” Maria Lúcia Medeiros

Gerson Guimarães Gerson Guimarães

Versos inspirados com a “alma bragantina”, pensando na grandeza do Natal de Jesus e na Festa de São Benedito. Brotaram do coração do caboclo do Caeté, que se deleita com o marulhar, o balanço das canoas, com as folhas das palmeiras, com a contagiante alegria do “Rex-Bar” verdadeiro “consulado” para os romeiros visitantes. São recordações dos seus tempos de menino, quando subia no coreto da praça, mexia com o “Rolinha”, apanhava pitomba do quintal do mestre Pedro Sousa, para comer com os colegas na saudosa “Ponte do Cor-

A poeta, escritora e professora Maria Lúcia Medeiros nasceu em Bragança em 15 de fevereiro de 1942. Morou em Bragança até os doze anos, quando mudou-se para Belém do Pará. Licenciou-se em Letras pela Universidade Federal do Pará, onde foi professora e pesquisadora. Estreou na ficção com o livro de contos Zeus ou a menina e os óculos (1988). Depois publicou Velas, por quem? (1990), Quarto de Hora (1994), Horizonte Silencioso (2000) e Céu Caótico (2005) Um de seus contos, “Chuvas e Trovoadas”, foi adaptado para o cinema em um curta da paraense Flávia Alfinito. Neste conto de Maria Lúcia Medeiros, quatro meninas têm aulas de costura nas tardes entediantes que se arrastam nos trópicos da belle époque na Amazônia. Além de escrever poemas e livros, colaborava com jornais, revistas literárias e no Poema Benquerença podemos ver a relação de amor, poesia e filosofia por Bragança. A realização deste breviário da literatura bragantina iniciou numa visita, acompanhado por Leôncio Siqueira, à casa do escritor Nélio Fernandes que reúne em sua biblioteca obras de autores bragantinos, descendentes de bragantinos ou de autores que falam sobre Bra-


sempre que podia comprava um livro dele pois não só se sensibilizava pela situação social do rapaz mas por entender a necessidade do ofício de quem exercia tão nobre tarefa. Nélio sempre teve o hábito de ler, sempre leu muito devido ao seu universo de Bragança, neto de professoras, sempre incentivado a ler por seus pais. Ingeriu, com admirável prazer, todos os livros da romancista maior Lindanor Celina, que passou a viver na França, e que possuia extrema amizade e admiração a ela. Em sua casa encontramos Lindanor Celina todos os livros dela e sobre ela. Conhecimento ele já possuía dessa riqueza literária, pois, quando ainda infante, labutando nas oficinas do famoso Jornal do Caeté, sob a batuta do saudoso mestre Alcides Lucio Ribeiro, pôde absorver, e se deleitar, na faina diária, com o componedor as mãos - utensílio no qual o tipógrafo ia alinhando os caracteres tipográficos (letras), para formar as palavras a escritos de Nélio Gonçalves alguns renomados escritores da época, dentre eles, Jorge Daniel de Souza Ramos e Gerson Algança. Depois do seu retorno às suas origens ves Guimarães. bragantinas, Nélio após mais de duas décadas afastado, e agora por motivos prazerosos vem Academia de Letras e Artes de Bragança lustrando esse feliz volver. Já como autor de algumas obras, o contato e ingresso na Academia A ideia de fundar a Academia de Letras e de Letras e Artes de Bragança permitiu, sobre- Artes de Bragança consagrando os Patronos maneira, e de forma mais enfática, esse mergu- das Cadeiras, ilustreis e notáveis nomes da lilho no rico e empolgante universo literário de teratura bragantina: De Castro e Souza (poeta, Bragança. músico e autor do hino de Bragança), Coutinho Nélio Fernando Gonçalves, nasceu na Vila de Campos, Lindanor Celina, Maria Lúcia Mede Umarajó em Bragança. Formado em Direito deiros, Cesar Pereira, Henrique Lelis, Rodrigues pela Universidade Federal do Pará, exerceu a Pinagé, Heymar Tavares, Armando Bordallo. advocacia e depois ingressou no serviço públiAo ser criada a Academia Bragantina de Arco, vindo a exercer a magistratura no Tribunal tes e Cultura Popular, impôs-se a obrigação de da Oitava Região. Publicou em 1999, Silêncio fazer um levantamento das obras de escritores Transparente, que ganhou o prêmio literário de bragantinos. Ficou surpreso pela quantidade menção honrosa Malba Tahan e em 2004, A Vi- de obras da escritora conterrânea Lindanor Cetória-Régia Mágica. Publica depois o romance, lina. Pela ordem: Menina Que Vem de Itaiara; Pássaro do Crepúsculo, retrato de uma socieda- Estradas do Tempo-Foi; Breve Sempre; Pranto de injusta e transgressora de princípios éticos Por Dalcídio Jurandir; Afonso Contínuo; Santo básicos. Do que a torpeza é capaz de causar às de Altar; A Viajante e Seus Espantos; Diário da pessoas mais necessitadas, como o velho - um Ilha; Eram Seis Assinalados; e os publicados nicho do saber -, vilipendiado, um passadio de após sua morte, Crônicas Intemporais e Para miséria e privações. Da destruição da flora e Além dos Anjos. Foi em Bragança, o doce lar dizimação da fauna, com assassínio de animais de São Benedito, do rio Caeté de águas turvas indefesos para satisfazer a gula insaciável por e reluzentes, da Marujada festiva e das palmeicomida e pelo ignóbil lucro. Mas é, também, ras imperiais, servida por um trem que ligava um relato de amor, o que a amizade verdadeira Belém, que Lindanor Celina encontrou cenário é capaz de construir, o reverdecer do altruísmo, e inspiração para escrever Menina que Vem de da compaixão e da ternura. Itaira, marco inicial de uma fecunda trajetória liNélio quando trabalhava na SUDAM en- terária. “Digo sempre que o bragantino que vive controu uma biblioteca maravilhosa. Lia de em outras plagas e que de repente sinta no peiquatro a cinco livros simultaneamente em sua to a imensa saudade de rever a pátria caeteujuventude. Para onde vai leva um livro. Não lhe ra, não é preciso deslocar-se até lá — embora, cabia apenas o exercício de ler, depois Nélio co- inigualável o prazer de fazê-lo. Basta somente meçou a escrever, e o seu primeiro livro foi um ler o romance, que ali encontrara, com riqueza de Contos no qual tinha a história do rapaz que impressionante de detalhes, a Bragança de anvendia livros retratado no conto “O Mercador do tanho, a bela cidade histórica, com mais de 400 do Saber”, rapaz humilde que vendia livros e às anos, de grande e reconhecida tradição cultural. vezes era hostilizado pelos funcionários mas ele O leitor — que conhece e viveu em Bragan-

Lindanor Celina ça —, fica pasmo de ver esmiuçados ante seus olhos, com tamanha e inigualável precisão, fatos, costumes e tradições locais de uma época áurea da cidade — da infância e adolescência da escritora —, o que revela sua prodigiosa memória. Nas suas obras reflui uma força esplendorosa, algo metafisico, misterioso, o domínio, a sutileza transcendental no discorrer, que eu pondero, seja oriundo daquela pequena palavra a que o homem, se quiser equilibrar-se, mais ou menos, na plataforma do positivismo terreno, tem que cimentar os pés: a fé. Deus, Jesus, Nossa Senhora (as varias) são evocações divinas comuns no seu escrevinhar torrencial. E isso, com certeza, palmilhou toda a existência, fruto, na certeza, da sua formação religiosa. Quem viveu em Bragança conhece bem da força espiritual reinante naquele pedaço de mundo, resultado da forte presença da igreja católica, levandose a aspirar salutar religiosidade por todos os poros. O misticismo que emerge das obras da escritora é fruto da religiosidade haurida em Bragança nos primórdios da sua infância e adolescência. Nelio Fernando Goncalves comenta no texto: “LINDANOR CELINA: UM ASPECTO DA SUA OBRA”. As obras de Lindanor que li — não sei se cometo engano —, todas são autobiográficas. Ela consegue esconder pouco, um fio somente, da realidade. Era transparente demais, um véu branco do mais completo alvejo. Acho que mesmo quando ela diz no “Pranto por Dalcídio Jurandir”, reportando-se a “Menina que Vem de Itaiara”, que “inventou” muito, após notar a preocupação do amigo com a repercussão que poderia ter seu livro em Bragança, com relação as personagens focadas, não é verdadeiro. Dalcídio — com sua fulgurante inteligênwww.revistapzz.com.br 23


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Leôncio Siqueira cia - apercebera-se disso, daí a preocupação manifesta com relação ao romance. Acho que ela nunca conseguiu afastar-se disso, era muito incrente a ela, profundamente entranhado. Seus textos, vigorosos, corajosos, são envoltos por uma aura estranha e muito especial. Era uma escritora de estilo singular. A fogosidade dos seus escritos atira-nos a leitura desembestada. Todo esse conjunto me atraiu. Por que? Pela sua força literária? Quem sabe por seu universo ter sido Bragança da minha infância (o elo mais forte?), por ter vivido em Belém, por ter labutado, em tempos recurvos, na mesma repartição federal que eu (Justiça do Trabalho), onde encontrou fonte de inspiração para seu livro Afonso Continuo, Santo de Altar. É sabido que toda criatura humana tem sua missão terrena. Lindanor tinha a sua, e muito especial - - seus escritos remetem a isso —, e a cumpriu, com toda certeza. Embora fosse de todo lugar — seu espírito irrequieto assim pedia —, a escritora escolheu a França para viver e terminar seus dias. Quem conhece o país, sobretudo, a capital, Paris, sabe a atração que ela exerce (sempre exerceu) sobre os artistas, das mais variadas áreas culturais, em todos os tempos da humanidade. Em 2002 morreu na França, onde seu corpo foi cremado e suas cinzas, por desejo seu, esparzidas sobre as águas da baía do Guajará, em Belém, demonstrando todo o amor que nutria pela terra paraense, uma constante nas suas obras. Afora, evidentemente, os mais novos escritores, além do bragantino Nélio Gonçalves, acrescentamos em bom número: Ubiratan Rosário, Ribamar Oliveira, Alfredo Garcia, Leôncio Siqueira, Amaury Dantas, Reinaldo Gonçalves, 24 www.revistapzz.com.br

Cirene Guedes Quintino Leão, Leila Nascimento, Fernando Vieira, todos com obras publicadas, além de outros. Recentemente, a literatura bragantina perde uma de suas pérolas, a Professora Cirene Maria Guedes da Silva, Cirene Guedes, Membro Efetivo da Academia de Letras e Artes de Bragança, ocupante da Cadeira nº 6, que tem como Patrono D. Eliseu Maria Corolli. Prazer imensurável e, profusso, a qualidade e a quantidade de seus poemas, todos escritos à mão, que permaneciam adormecidos em seus cadernos pautados, afora os que vagavam em folhas avulsas. Num caderno pautado de capa dura, cor azul, ela ia escrevendo seus poemas e numerando suas páginas (174), um poema em cada página. A estes juntaram-se um monte de folhas avulsas, certamente destacadas de outros cadernos aramados e, mais outro caderno, de capa rosa, mais organizado, com 60 folhas. Computou-se, ao todo, cerca ou mais de quatrocentos poemas. Um fato inusitado, contudo, chamou atenção de Nélio Gonçalves, organizador do livro “Versos Molhados de Cirene Guedes”: todos estavam fortemente manchados de água, especialmente o primeiro, de capa azul, denotando-se que em algumas páginas havia muita dificuldade de ler certas passagens dos poemas. Indagando-lhe, então veio a explicação: seus escritos eram sobreviventes de uma enchente do Rio Caeté com o encontro das aguas do igarapé do Riozinho, bairro onde residia, durante um rigoroso inverno, que invadiu cômodos de sua casa. Disse que salvou o que foi possível salvar, ou o que estava ainda legível (no caso, as folhas avulsas destacadas) fácil

Aviz de Castro chegando-se a conclusão de que vários outros escritos certamente foram perdidos. Infelizmente. Depois da enchente, com receio de perdê-los durante outras possíveis, despachou o caderno azul para guarda na casa do Professor Ribamar Oliveira, e o outro, para casa de parentes. Ao reunir e ler, cuidadosamente, todo o seu conteúdo - depois de forma hábil e diligentemente digitado pelo Andrei Gonçalves - Nélio Gonçalves levou um enorme susto prazeroso: “em minhas mãos estavam o produto da maior poeta bragantina de todos os tempos – perdoe-me se cometo injustiça por esta afirmação. Chego a esta conclusão por absoluto conhecimento de causa: há muito procuro acompanhar e colecionar tudo o que se vem produzindo de literatura em Bragança e, nos Encontros Culturais promovidos pela Academia de Letras e Artes procuro sempre, expor todas estas obras para conhecimento do público participante. É imprescindível dizer da surpresa deste público em ver o quanto de literatura já se produziu em Bragança!” A grandiosa e manancial produção poética de Cirene Guedes, e a incrível qualidade dos escritos que agora sairiam do anonimato para deleite do povo de Bragança e de outros rincões. Nos “Poemas Molhados que assim resolvemos intitular, por óbvio, estava a produção parcial de Cirene Guedes, professora de várias gerações caeteuaras, a qual, durante longo tempo, guardou o que a sua genialidade poética produziu, e quase perdida pela referida enchente. Longe de lamentarmos a tragédia, recolhemos a certeza de que seus poemas foram abençoados pelo “batismo” de águas do formoso Rio Caeté - existiria batizado melhor? -, mancomunado, obviamente, com as águas do pequeno riacho


NO AMAZONAS

Alfredo Garcia do Riozinho. Se se acredita em destino não foi à toa (embora se relembre do passamento da sua amada filha Laury, poeta, compositora e cantora) que Cirene mudou-se do Centro para o adorável Riozinho, bairro das mais belas lembranças da minha infância bragantina. Nesta bela e inesquecível obra, a poeta maior de Bragança Cirene Guedes, passeia, de forma prazerosa, por todos os sentimentos humanos, especialmente (e de forma mais enfática) pelo maior e mais significativo de todos: o amor. Além do amor, a sua pena discorre, placidamente, pelos sentimentos da amizade, gratidão, generosidade, religiosidade, fé, natureza, maternidade, paternidade, adoção, urbanidade, justiça e política, plasmados em poemas, alguns transformados em composições musicais gravadas em CD, todos embalados pelo grande amor que sempre dedicou pela nossa querida e amada cidade de Bragança, terra abençoada por São Benedito e de inigualável e resplendente céu azul. Portanto, a literatura bragantina acaba de inscrever, de forma definitiva, em seu rol de escritores e poetas, o nome de Cirene Maria da Silva Guedes, por sua bela obra intitulada de “BRAGANÇA (A PÉROLA DO RIO CAETE) - POEMAS MOLHADOS”. Aviz de Castro é teatrólogo, historiador e poeta. Desde 1974 quando começou a fazer teatro para um grupo do MOBRAL de Bragança, a pedido de uma professora, montou o texto, fez uma mesclagem de textos biblicos e versos para um espetáculo da Semana Santa. Recentemente montou a peça “Morte e Vida Severina” de João cabral de Melo e Neto que há tempo desejava montar. Tem várias poesias e um livro de poesia com versos sobre Bragança que deseja publicar. estes poemas Conversa de Marujo e Vinte e Seis

de Dezembro foram publicados numa Antologia Poética idealizada por João de Jesus Paes Loureiro que publicou uma Antologia sobre a Marujada. Leila Nascimento, escritora jovem, de uma sensibilidade a flor da pele e que dia após dia vem amadurecendo e aprimorando o seu pensamento e a sua escrita. Desde o seu primeiro livro, “Nectar daVerdade” publicado em 1998, já era perceptível o talento de Leila. Maria de Nazaré Lima de Freitas diz que: “Naquela época, ainda mais tímida do que é hoje, dava para sentir que “muito” ainda estava mergulhada no medo de extravasar e que Ihe ia no pensamento: palavras loucas para “boiar”, buscar ar e surgir nas páginas. Hoje, mais madura, mas ainda insegura, é uma maravilhosa promessa a Literatura de Bragança, do Pará e sim, por que não? Do Brasil. Sua caminhada está no início e ainda teremos muitas e boas notícias sobre ela. Henrique Lelis nasceu em Bragança em 15/07/41 formou-se na escola católica Elizeu Carolli, era querido em seu meio social, dinâmico burocrata exerceu funções na prefeitura como secretário, concursado do BASA. Ele deixou obras primas da crônica jornalística cujo acervo consta em parte no Tribunal do Caeté, além de algumas obras escritas, como “Chuva dos Santos - A Crônica Bragantina” no qual ele discorreu sobre aspectos da cultura e folclore bragantino inspirando-se na Marujada de São Benedito, como bibliografia outros vultos literários, como Augusto Corrêa, Zito César e Armando Bordallo. Alfredo Garcia-Bragança nascido em Bragança em 1961, desde 1986 o escritor vem construindo sua história na literatura brasileira com livros de contos, poesia e crônicas, além de diversos títulos em literatura infanto-juvenil. Já publicou 33 livros, até dezembro de 2014, sendo dois deles em parceria: “Cidade das Águas” (2004, Paka-Tatu, esgotado) e “Epifanias” (2009, Paka-Tatu), o primeiro com o poeta Ronaldo Franco e o segundo com o contista H.G. Neto, filho de AG-B. É bacharel em Comunicação Social, especialista em Teoria Literária e Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Pará. Desde 1993 mora no município de Ananindeua com sua mulher Gleice, os filhos Alfredo Neto, Frederick Charles e Glenda, além dos cães Barney e Agatha.

FERNANDES BELLO Ruge caudal o rio, - o sem rival do mundo, As vagas atirando às pedras da beirada, A canarana desce, em grupos enlaçada, E o cedro passa lesto e some-se no fundo. Qual em dia invernoso, horrífico, iracundo, Solta rouco trovão, horrenda gargalhada Tal, das águas a flor, de fauce escancarada, O enorme jacaré se mostra furibundo. O esquivo peixe-boi oculta-se medroso... Arremete-lhe o arpão, com próspera destreza, O velho pescador que o espreita cuidadoso, No entanto, o curumim, ali, na correnteza, Feliz e sem temor, na igara jubiloso, Conduz na sararaca a tartaruga presa.

CEGO HAMILTON TORRES Olhos sem vida, olhos sem luz, parados dentro das órbitas escuras... Cégo: - Sentes o anseio dos desesperançados porque o mundo é um vacuo, é caos, é pégo! Vão-se-te na alma triste, ignorados desejos ... (Ante os males que carrego, seria o mais feliz dos desgraçados, se o meu instincto de homem fosse cégo! ) Na calma de horizontes apagados, na agonia de crepusculos incertos, sentes maior o teu pensar profundo... Que fiques sempre assim de olhos fechados... - Pobre de mim que vou, de olhos abertos, contemplando as miserias deste mundo!

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BRAGANÇA, BOM DIA RODRIGUES PINAGÉ Estás em festas, Bragança ! Venho de longe rever A cidade que não cansa de progredir e crescer; Mas, fere-me esse urbanismo, emudece o meu lirismo que outrora te decantou. Vejo apenas a cidade que aumenta a minha saudade da cidade que passou ! O Progresso encheu de ruas o teu solo que se expande, sepultando as margens ruas do tranquilo Rio Grande; Não há mais lírios nos campos, nem tochas de pirilampos pintalgando a escuridão; Hoje, a lâmpada ilumina a figura pequenina do soturno lampeão. Tudo é novo onde resides, custa, porém, olvidar a quitanda do Aristides, onde eu ia merendar; Naquele tempo, o Comércio dava chuteira ao Propércio e camisa ao Pinagé; Um — defendia o “Bragança”; O outro — cheio de esperança, defendia o “Caeté”. Descubro ao longe um Cruzeiro, dia e noite solitário, como ficára o madeiro sem o Jesus, no Calvario; Entre mangueiras se alteia lembrando a Igreja da Aldeia, onde, ainda jovem, rezei, pedindo, quando eu voltasse, minha igrejinha encontrasse, coitada. . . não encontrei! Nas noites deslumbradoras, Luzia, não canta mais as valsas inspiradoras dos meus ricos madrigais, Nao ha tertulias na ponte, nem há livro que nos conte tudo o que ali se passou! So eu sei dessa beleza! Se outro souber. . . com certeza foi a lua que contou!

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Recordo a festa animada, lá no sítio do “Ferreira” Comia-se panelada, dancava-se, a noite inteira; Mundico Matos, roncava, na rede branca e sonhava com as glórias de São Jose, e despertando, com sede, corria, a lavar a rede nas águas do igarapé! Vejo Vicente Monteiro, ninando o Chumucuí, — o saudoso pioneiro dos violinos daqui; Pelos rios e regatos, escuto Mundico Matos, alegrando o Jiquiri; Uricica — o gênio mago — Cunha Junior e Tiago, no Prata e no Bacuri. Macuica! Surge agora, no teu fogoso corcel; Vamos! Vamos, Tia Aurora, ao cinema do Israel; Vem, Zito Cesar Pereira, traze a tua baladeira, hoje, esta- bem, não chuveu; Vamos caçar passarinho! Onde está meu Riozinho, em que rua se escondeu? Nao sei do Grêmio “Horas Vagas” que o bragantino fundou, — Silogeu que, nestas plagas, um rastro de luz deixou; E o jornalizinho A CIDADE, publicando, por bondade, os versos dos menestréis, e onde Augusto Correia, assinava, às onze e meia, meu vale de dois mil reis! Bragança! Es sempre Bragança, no Presente ou no Passado, És Futuro e és Esperança de um povo civilizado; Pelos espaços se evole a benção de D. Corolli, — fluído das mãos de Jesus — e venha, lá das alturas, redimir as criaturas da terra de Santa Cruz! Quando da vida sumir-me,

para nunca mais voltar; Quando Deus quiser punir-me e Braganca me chorar, quero que as suas palmeiras sejam minhas carpideiras, murmurantes e gentis; Façam por toda a cidade um canteiro de saudade com os poemas que Ihe fiz! benquerença MARIA LÚCIA MEDEIROS Velhas casas com varandas Vou abrir vossas janelas debruçadas sobre o rio... Escutar vossas histórias Penetrar vossos segredos Resguardar vossa memória De um trem rasgando a terra e dos trilhos arrancados de vossa trilha perdida De fumo, arroz e feijão vossa produção perdida. Onde o jornal de Belém no fim da tarde chegando nesse tempo e nesse trem? Virou pó de fantasia? Virou gemido sem grito? Parou na curva o apito? Velhas casas com varandas Vou abrir vossas janelas debruçadas sobre o rio... O rio é minha cidade refletida sobre a tarde e cadeiras de balanço... O rio é minha cidade O rio é vossa memória. O rio é essa janela o terço, o doce, o confeito, (o primo, a tarde e a terra) O rio é minha janela aberta neste poema. Cinema Olímpia da praça Matinées de seriados o mundo visto em pedaços o mundo visto por mim Igrejas, as ruas tortas, meninos brincando à porta, cirandas, manga e jasmim. 0 rio é minha cidade refletida sobre a tarde. O rio é minha cidade


O pai, a mãe, a família, raízes, galhos trançados no tempo que nem sabia. O rio é esse batuque da Marujada chegando espelhos, fitas, gingados Marujos soltos na terra Marujos, sonho e chorado. O rio conta a vossa história longa história desse povo tristeza feito alegria marcada na cantoria. Os corpos, louco bailado As vozes, pranto velado Os pés marcando o compasso dessa negra alegoria. O rio é minha cidade refletida sobre a tarde. O rio é Pedro Pretinho, Cereja, Serra e Lagoa Vem lá das bandas da Aldeia, Vem lá de trás do Riozinho Velhas casas com varandas Me lembram a casa das tias fiapo de manga nos dentes

A REVOLTA DO MAR LÉLIA NASCIMENTO A cidade dormia Envolvida pelo manto da noite E a lua, desnuda e prateada Tentava seduzir o mar. Mas este, doente e enfraquecido Não conseguia refletir em suas águas A beleza do luar. A lua, chorosa e cabisbaixa. Angustiada tentou se apagar Pois sem o espelho do mar Reluzir não teria graça E ninguém jamais Voltaria a ver o luar. O mar, doente e abatido Transbordava lágrimas de poluição Imundícies temperadas de ignorância Manchando suas águas, Sem a menor compaixão. E a cidade, que tanto já perdera Esvaziava-se do encanto do mar E de tristeza a lua se apagava E todos ficariam sem o luar. Seria a vingança mais perfeita, Que o povo não poderia suportar Pois não veriam mais o esplendor das ondas. Não veriam mais os véus do luar. E se o mar morrer,

Morre também o luar Pois a lua, muito vaidosa Sem espelho, onde há de se mirar? E o Homem, sem o mar, meu Deus... Como há de se acabar ORAÇÕES DA TARDE ARMANDO BORDALLO DA SILVA Seis horas. O dia esmaece e declinando vae o sol. Tudo entristece.. De quando em quando, entre os leques farfalhantes dos burutys, distingue-se por instantes as jurutys. No céo azul, alvacenta, a lua desabrocha sonolenta e nua. E cadenciosamente, a vaga vem bater-se fortemente na fraga. Que majestoso quadro e belo panorama! As jurutys modelam bem tristes canções, e aos vagalhões, o mar, extático, rebrama ao céo, rugindo cavernosas orações. Bragança, 8-8-1923 DESEJOS ALFREDO GARCIA No princípio queria ser rio para que ninguém lhe soubesse os caminhos. Após, declinou do insano e adivinhava sementes entre os igapós e canaranas. Depois quis ser pássaro pela incertidão dos voos. Por fim abriu os braços e se quedou plantada árvore que ouve os rios e aonde os pássaros acordam as manhãs.

CANÇÃO AO AMOR PURO A BRAGANÇA (Ao dr. Lobão da Silveira, com apreço e admiração) Eu sou árvore desta terra! Minhas raizes estao profundas neste solo, há mais de trezentos anos que fui plantado aqui e nasci assim liberto, entre o sol e a chuva, sentindo a seiva prodigiosa e eterna da minha santa Bragantinidade. Por isso sou árvore desta terra e os meus bragos são verdes de esperança, que esgalho ao vento e ao beijo da matina. Chamo-me Ramos e ramos sou desta floresta heroica de Bragança, onde descansarei para sempre, um dia. Aqui não há machado que me derrube, porque nesta floresta nao há lenhadores maus. Mas se um dia for preciso o meu lenho, para acender o lume na cabana do caboclo, para construir a casa do meu irmão bragantino ou para levantar pontes puteis ao Povo, ah, podem vir os milhares de machados, que eu serei o alimento da fogueira, as paredes das casas ou o sustentáculo das pontes. Nesta floresta lendária e indestrutível, estiveram as grandes árvores do passado, maiores que eu, mais heróicas e mais santas, que abrigaram ninhos por entre ramos, que deram sombras ao viajor cansado, que deram inspiração aos poetas sonhadores, que sentiram a necessidade de ser árvore para ficar na terra para sempre. Mas um dia também foram abatidas, como eu espero ser, para erguer o futuro e deram de si a própria vida e o cerne, para Bragança, estendida ao sol e a chuva, prosperar, andar e progredir sempre mais. Ser árvore desta terra e o meu maior destino ficar nela sentindo que dela tudo vira: a seiva clorofiliana que me circula nas veias, o Amor, que constrói e dignifica, a União, que eleva e anima e a Paz, que consola e faz sonhar. Eu sou árvore desta terra e nesta terra estarei para sempre, ajudando a erguer nos meus braços verdes de esperança, o orgulho e a dignidade de ser Bragantino!

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PZZ BRAGANÇA / LITERATURA

1. A cidade não é feita de pedra ou calcário, mas sim do meu lembrar sempre tão vário. 2. A cidade não é feita de asfalto ou cimento mas sim do desgarrar do meu sentimento. 3. Esta é a cidade planície da memória onde vão e vêm constantes fantasmas de mim toda hora. 4. A cidade são fragmentos do que eu fui no que eu vou sendo como retratos esquecidos em um álbum amarelecendo. 5. Etérea cidade és um bando de nuvens em aboio livres pairando em mil formas por prados infinitos.

9. Ainda assim, cidade teu nome é alguma coisa que volta e meia me assunta; por vezes te chamo saudade, noutras te alcunho angústia. 10. Então vem um trem de ferro atravessando teus caminhos e longe se ouve o silvo da máquina que vai e vai indo. 11. O trem... eu vi uma vez o bicho resfolegando caminho acima Entre fogo & metal, aquele cavalo medonho Os homens diziam: - Vixe! A mulherada: - Credo! e o tremzão nem aí belo belo belo belo belo serpenteando entre os verdes.

15. 21. (Antes que tudo, Mas muito mais que a memória cidade, escrita no tempo e nas coisas tu pulsas em mim Cidade fragmentada nas entranhas do tempo, o áspero verso do que se vive Nas relembranças, E pairas - estranho pássaro fugidio - está impresso na gente. como um verso dolorido 22. que desssangra Verso que é viço e é fogo o tempo-foi) é faca é foice e fecunda 16. a dorida dor de saber-se Então, revejo memória de tempo algum. O menino em mim Catando palavras 23. No chão ocre Verso catado no barro E juntando sílabas dos idos de manso menino Soprando ao vento que julgava saber do mundo O primeiro poema o que nunca foi aprendido. 17. 24. Então, revejo Verso urdido nos quereres o que fui/fomos e o que fica de sempre sonhados amores é um desenho inútil verso urdido nas entranhas grafite na parede de dias, madrugadas e noites. de uma casa em ruínas.

18. 12. De que é feita Também lembro a tua essência, memória? 6. Que o rio dessa vaga matéria Inauguro-te, cidade Sempre me instigou chamada tempo tantas vezes de mim partida Segredos contares fluídica e dou-te o nome que me acode: e a sonhar com reinos pelos sete que escapa entre os dedos vou te chamar Memória. mares e o que não podemos ver? ou da fortuita dor 7. 13. de lembrar o que é o antes Memória... Também lembro no espelho da face de hoje? por exemplo a lembrança Que contava dos sinos Um a um 19. Com suas vozes e dobrados Os paralelepípedos De todas formas anunciando ladainhas Dos caminhos onde andava eu canto teus desígnios sentinelas as horas da agonia Em um tempo Ó tu cidade das nuvens o Finados. Onde, ainda, pois em mim o que é hoje Não sabia o significado foi moldado 8. Da palavra paralelepípedo. na argamassa do ido Por exemplo, o cântico e em si tem sido das carroças pelas ruas 14 o que sou. e os ecos das cantorias Era um tempo aquele dos meninos anunciando Em dezembro as gostosuras da tapioca, Demorava a chegar da pupunha cozida, E a gente podia tecer do bolo-de-corda. O tempo do dia bem devagar Como se fizesse Um infindável bordado

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25 Verso que, enfim, é pura memória elidida em mim, no tempo, nas coisas, verso de toda uma vida. Versos do Livro “Benquerença” de Alfredo Garcia.


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PZZ BRAGANÇA / LITERATURA

PUBLICAÇÕES

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PZZ BRAGANÇA / SISTEMA SENAI

SISTEMA FIEPA

QUALIFICAÇÃO E QUALIDADE DE VIDA EM BRAGANÇA 32 www.revistapzz.com.br


O SISTEMA FIEPA ATUA 30 ANOS EM BRAGANÇA Por Carlos Pará

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SESI Bragança O Sistema FIEPA atua há 30 anos em Bragança formando milhares de profissionais para atender o setor da Indústria e de serviços. E agora a cidade recebe um prédio revitalizado com um centro multimidia, biblioteca e salas de informática para cursos presenciais e a distância.

ragança, município do nordeste paraense com 120 mil habitantes, é a mais nova cidade a receber uma unidade do Sistema Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA) no estado. O prédio abriga um centro multimídia, biblioteca e salas de informática para cursos presenciais e a distância. A inauguração do espaço ocorreu no dia 28 de agosto de 2015 e a programação seguiu no dia 29 de agosto com uma programação de lazer e qualidade de vida. A unidade Sistema FIEPA Bragança tem como objetivo elevar a qualificação de quem mora na região, dar apoio ao pequeno e micro empreendedor local e contribuir para a qualidade de vida do trabalhador da indústria e seus dependentes, tudo por meio da atuação integrada de SESI, SENAI e SEBRAE. “Reunimos as expertises de cada instituição do Sistema S e mantemos o nosso propósito de unir forças para levar desenvolvimento às mais diversas regiões paraenses. Nossa expectativa é que esse prédio seja um espaço de muito aprendizado para todos”, declarou José Conrado Santos, presidente do Sistema FIEPA. O prédio, localizado na rua 13 de maio, 684, centro de Bragança, foi todo revitalizado, mantendo as características arquitetônicas originais, como os traços da fachada e o piso em ladrilho hidráulico. “A dinâmica da região nordeste mudou bastante. Bragança resgatou sua vocação industrial e isso reforçou nossa intenção de vir até o município. A partir dessa inauguração, nosso desejo é que a própria população abrace este bonito espaço e também ajude a conservar e manter tudo em bom estado”, detalhou o superintendente do SESI Pará, José Olimpio Bastos. A praça Edwaldo Martins, localizada ao lado do prédio, também passou por revitalização com a participação dos alunos do SENAI, que já tem atuação no município há quase 30 anos. Os micro e pequenos empreendedores de Bragança também terão apoio na unidade. O SEBRAE está presente com um ponto de atendimento dentro do Sistema FIEPA Bragança. “Agradecemos pelo convite e o aceitamos como uma missão. Com apoio do Sistema FIEPA chegamos até aqui e certamente vamos avançar mais”, falou Fabrizio Guaglianone, Superintendente do SEBRAE Pará. Histórico - O prédio, adquirido em 1966, possui 170 m² e foi revitalizado mantendo todas as características arquitetônicas, principalmente na conservação e restauração dos frisos da fachada e do ladrilho www.revistapzz.com.br 33


PZZ BRAGANÇA / SISTEMA SENAI

e econômicas de Bragança”. “A principal missão institucional que procuramos ao atuar de forma integrada é dar condições seguras para o trabalhador que concluir um curso, a chance de se ser um empreendedor, seja ele pequeno, médio ou grande. Nossa preocupação é que o trabalhador ou trabalhadora vai aprender e saber ser um bom profissional, preocupando-se com seu negócio e com seu bem estar físico e social. E principalmente gerar oportunidades de crescimento econômico, de geração de emprego e renda para o município. Este é o grande feito do Sistema Fiepa: atender a população de Bragança assim como já vem acontecendo com o SENAI sob a batuta de Gerson Peres” explica o superintendente Regional do SENAI. JOSÉ CONRADO SANTOS “Reunimos as expertises de cada instituição do Sistema S e mantemos o nosso propósito de unir forças para levar desenvolvimento às mais diversas regiões paraenses. Nossa expectativa é que esse prédio seja um espaço de muito aprendizado para todos”, declarou José Conrado Santos, presidente do Sistema FIEPA. gança, que abriga um centro multimídia, biblioteca e laboratório onde estão sendo realizados cursos de educação continuada da REDE SESI de forma presencial e a distância, dialogando e integrando com os cursos técnicos do SENAI Pará e do SEBRAE, para estimular o empreendedorismo e a formação profissional. Dário Lemos, suprintendente regional do SENAI diz que “O Sistema Fiepa atua há 30 anos em Bragança formando profissionais para atender o setor da Indústria e de serviços na cidade. Milhares de pessoas já se pofissionalizaram nas Unidades do SENAI e do SESI na Região, foram formados ou especializados para atuar diretamente no mercado. E hoje, atendem praticamente todos os empreendimentos que chegaram à região como é o caso da Votorantim onde boa parte dos funcionários da indústria se formaram no SENAI. Nosso ojetivo é integrar ações, junto com o Sistema S (SENAI, SESI, SEBRAE, SESC, SENAT) em prol do desenvolvimento regional e das melhorias sociais 34 www.revistapzz.com.br

“O Sistema Fiepa atua há 30 anos em Bragança, formando profissionais para atender o setor da indústria e de serviços na cidade. Milhares de pessoas que se capacitaram nas unidades do SENAI e do SESI foram formados ou especializados para atuar diretamente no mercado. E hoje atendem praticamente a todos os empreendimentos que estão presentes na região.” Ao falar da obra e dos serviços oferecidos pelo SESI, o Superintendente do SESI Pará, José Olimpio Bastos, enfatiza que a população de Bragança está sendo beneficiada com a implantação de um centro cultural digital avançado de tecnologia e formação, uma unidade do SESI que representa uma Indústria do Conhecimento, a exemplo de outras unidades no Brasil. Trata-se de uma iniciativa lançada em 2006 para promover o acesso à informação e à cultura para a população de municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH): “O projeto instala centros multimeios em áreas urbanas de baixa renda, que oferecem acesso gratuito a informações em diferentes meios como livros, periódicos, DVD’s, além de acesso à internet e inúmeras atividades de promoção da leitura, lazer e cidadania. Antes de entregarmos a obra, foram

DÁRIO LEMOS “A principal missão institucional que procuramos ao atuar de forma integrada é dar condições seguras para o trabalhador que concluir um curso, a chance de se ser um empreendedor, seja ele pequeno, médio ou grande. Nossa preocupação é que o trabalhador ou trabalhadora vai aprender e saber ser um bom profissional, preocupando-se com seu negócio e com seu bem estar físico e social. E principalmente gerar oportunidades de crescimento econômico, de geração de emprego e renda para o município. feitas pesquisas e sondagens para verificar e certificar a viabilidade do projeto que, somando o restauro arquitetônico, o laboratório de informática, a biblioteca, a casa em si e a praça Edvaldo Martins, que integra a área do projeto, conta com investimentos de mais de R$ 1 milhão”, relata. Na inauguração da unidade, foram priorizadas a produção cultural e a participação de empreendedores locais como forma de dar um sentido de pertencimento, onde a população de Bragança deve se apropriar e se beneficiar desse espaço público de conhecimento. “Esperamos que contribua para a melhoria econômica e social de Bragança, do Pará e do país”, enfatiza José Olimpio.


“JOSÉ OLIMPIO BASTOS A dinâmica da região nordeste mudou bastante. Bragança resgatou sua vocação industrial e isso reforçou nossa intenção de vir até o município. A partir dessa inauguração, nosso desejo é que a própria população abrace este bonito espaço e também ajude a conservar e manter tudo em bom estado”, detalhou o superintendente do SESI Pará, José Olimpio Bastos.

SESI Bragança A praça Edwaldo Martins, localizada ao lado do prédio, também passou por revitalização com a participação dos alunos do SENAI, que já tem atuação no município há 30 anos.

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PZZ BRAGANÇA / CÍRIO

Dário Benedito Rodrigues *

CÍRIO DE BRAGANÇA Se Bragança possui um dos Círios do Pará mais antigos, isso se deve à organização empreendida pelos padres barnabitas da capital, que se instalaram na cidade bem antes de 1930.

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m Bragança, um turbilhão de Se Bragança possui um dos Círios do Pará fé arrasta milhares de pessoas mais antigos, isso se deve à organização emque em caminhada sob o sol preendida pelos padres barnabitas da capiescaldante da cidade, home- tal, que se instalaram na cidade bem antes nageiam e cultuam Maria, sob de 1930. Por certo, o Círio antecede esse fato. o título de Nossa Senhora de Como a Igreja Matriz de Bragança estava sob Nazaré. Os quilômetros que separam a pe- a administração eclesiástica da Diocese de quena Igreja de São Benedito da Catedral de Belém, os vigários colados eram as figuras Nossa Senhora do Rosário (antiga Igreja Ma- que melhor interagiam com a população, triz), no centro da cidade, testemunham um em nome da religiosidade, morando entre os mistério que só se populares e sendo muito Em Bragança, um turbilhão de benquistos por eles. compreende pela linguagem da fé, Uma fonte em espefé arrasta milhares de pessoas um desafio para os cial, já anunciada numa que em caminhada sob o sol que tentam desvenpublicação de 2003, trata dar a paixão inexpli- escaldante da cidade, homenageiam de um registro antigo do cável na história do e cultuam Maria, testemunham um Círio bragantino. Alguns catolicismo ligada à fatos se confundem com mistério que só se compreende esta fonte jornalística e taljovem Maria de Nazaré, mãe de Jesus pela linguagem da fé, um desafio vez seria oportuno e mais Cristo. da análise histópara os que tentam desvendar a próximo Certamente, rica afirmar que o Círio de como uma festa re- paixão inexplicável na história do Bragança possui bem mais ligiosa e centenária catolicismo ligada à jovem Maria que os cem anos festejanas terras bragantiem 2003, pela obserde Nazaré, mãe de Jesus Cristo. dos nas, a presença de vação atenta ao que traz o ordens religiosas se texto do jornal, “O Caeté”, remonta à fundamental intervenção desses pertencente ao coronel Antônio Pedro, em religiosos no curso da vida social, cultural matéria de primeira página daquela edição, e religiosa do povo bragantino, por vezes acerca do Círio. questionável. Segundo relatos orais, recoUm olhar diferenciado notará que ao deslhidos anteriormente, a festa da padroeira crever o “Noticiário da Festividade da Virgem de Bragança, Nossa Senhora do Rosário era de Nazareth”, o jornal anuncia o costume do bem mais pomposa e participada que as de- itinerário, daí mesmo, ao se aplicar uma anámais, sendo organizada por uma irmandade. lise histórica, não se trata, portanto, do priPor circunstâncias do tempo, a instituição da meiro círio, mas de um registro acerca dele, festa do Círio de Nazaré nas terras do Caeté já que o cortejo tinha percurso costumeiro, o pode ser considerara um aspecto de intensa que não significa ter sido o centésimo Círio, circularidade cultural entre tradições religio- mas possivelmente uma das fontes mais ansas que vinham de Belém. tigas a relatar a festa. 36 www.revistapzz.com.br


FOTOS: lúcio coutinho

PROCISSÃO O Cìrio de Bragança inicia-se com a peregrinação fluvial abençoando os pescadores da região e depois arrasta-se pelas ruas da centenária cidade de Bragança até a Igreja da Matriz.

Para nos informar, diz o jornal “O Caeté” na parte à direita da página inicial, de 29 de novembro de 1903 que “no domingo da festa, ás 5 horas da tarde, sahirá em procissão a Imagem da Virgem de Nazareth, percorrendo o itinerário do costume”. Em virtude da proximidade de datas, em Bragança a festa do Rosário foi perdendo gradualmente o seu esplendor, quando da introdução da festa de Nazaré, no mês de novembro. Em algumas entrevistas se nota que a pompa da padroeira de Bragança, homenageada em uma quinzena do mês de outubro, com preparação de lugar (barraca da santa), procissão, andor, diretoria, irmandade religiosa, votos e promessas cedeu espaço à introdução do culto a Nossa Senhora de Nazaré, mais devotada na capital. Ainda pelo mesmo registro, o Vigário da época era o Cônego Miguel Joaquim Fernandes (1814-1904), sacerdote bragantino e defensor de ideias políticas liberais, muito influente e que, após seu falecimento, fora substituído, segundo fontes, pelos padres Paulo Maria Lecouriex, Eduardo Maria Meda, Florence Maria Dubois e Carlos Maria Rossini, que foram residir no prédio onde funcionaram as primeiras salas do Instituto Santa Teresinha em 1938 e hoje sedia a Fundação Educadora de Comunicação. Essa mesma moradia serviu para abrigar também as primeiras Irmãs do Preciosíssimo Sangue – preciosinas – que vieram em 12 de agosto de 1938 com o padre Eliseu Coroli ajudá-lo nos trabalhos de educação. Esses padres pioneiros, entre os problemas de saúde, idioma, manutenção financeira e dificuldades de comunicação com Belém, retornaram à capital do Estado. Outros faleceram anos depois, como o padre Meda, em 1906. Dezenove anos depois, assumiu a Paróquia do Rosário o então Secretário do Bispado, padre Luiz Borges de Sales, que revitalizou o Círio de Nazaré com uma comissão formada pelos senhores Mariano da Costa Rodrigues Filho, Filenilo da Silveira Ramos e Julião Risuenho. Mais tarde, com o falecimento do cônego Sales, o padre Salvador Tracaiolli assumiu a paróquia, dando prosseguimento com a celebração da festividade nazarena. Em 14 de abril de 1928, o papa Pio XI criou um novo território prelatício, com o título de Prelazia de Nossa Senhora da Conceição do Gurupi, dada à administração dos barnabitas, liderados por Francisco Richard como admi-

nistrador apostólico, sendo Ourém escolhida como sede. Em 1934, Bragança passou a pertencer a esta prelazia, inclusive escolhida como sua sede, sendo a padroeira modificada para o título de Nossa Senhora do Rosário. Um dos fatos curiosos que nos foi anunciado pelo Jornal “Folha do Caeté”, de novembro de 1949, trata da mudança feita no trajeto da procissão. O Círio de Nazaré em Bragança, em face de desentendimentos entre a Prelazia do Guamá e a Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança, à época, teve o trajeto da procissão modificado, cuja trasladação saiu da Igreja Matriz à capela da Maternidade de Bragança e de lá saiu a procissão, diferentemente da Igreja de São Benedito como o é atualmente. O retorno da saída do Círio de Nazaré da Igreja de São Benedito só se deu em 10 de novembro de 1957 por determinação de dom Eliseu Coroli, para contemporizar questões relacionadas a esses desentendimentos. Mas em 1953, a procissão saiu do Instituto Santa Teresinha em 14 de novembro. Dessa década

O Círio de Nazaré em Bragança, em face de desentendimentos entre a Prelazia do Guamá e a Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança, à época, teve o trajeto da procissão modificado, cuja trasladação saiu da Igreja Matriz à capela da Maternidade de Bragança e de lá saiu a procissão, diferentemente da Igreja de São Benedito como o é atualmente. em diante, o Círio de Bragança cresceu e atingiu as vilas congêneres à Bragança, como em Urumajó, por exemplo, em 1958. O itinerário da procissão só foi modificado no ano de 2001, quando administrava a paróquia de Nossa Senhora do Rosário o sacerdote bragantino padre Aldo Fernandes. O novo percurso saindo da Igreja de São Benedito passa por vários bairros (Centro, Riozinho, Morro, Alegre, Cereja, Padre Luiz) e pelas outras duas paróquias de Bragança (Sagrado Coração de Jesus e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro), como num “abraço de Maria de Nazaré” a seus filhos bragantinos. Vários fatos recorrentes ao Círio de Nazaré podem ser aqui lembrados, assim como de suas relíquias e objetos. A berlinda – um tipo de transporte europeu adaptado para receber a imagem de Maria – de mais cento e vinte anos é um deles. Entre os anos de 1955 e 1965, segundo dados da Basílica de Nazaré, por iniciativa da Sra. Benedita Ferreira, sabedora da www.revistapzz.com.br 37


PZZ BRAGANÇA / CÍRIO

construção de outra nova berlinda para a pro- Guarda de Nazaré, criada em 1974, teve cissão em Belém, procurou o então vigário da como seu fundador e primeiro presidenBasílica de Nazaré, padre Afonso di Giorgi pro- te o também barnabita padre Giovanni pondo-se a recuperar a antiga peça em madei- Incampo, que exerceu a função de vigário ra e doá-la para Bragança, com a ajuda do pa- da Paróquia de Nossa Senhora do PerpéSocorro em Bragança e por muitos dre e dom Mário de Miranda Vilas-Boas. Assim tuo anos superior provincial da ordem. foi feito. Esta berlinda em madeira, hoje no Entre outros fatos, citamos a atuação Museu de Arte Sacra de Bragança, foi restau- do padre Luciano Brambilla, sacerdote rada novamente em 1982, por iniciativa do Sr. barnabita colaborador de dom Eliseu CoAfonso Maria de Ligório Cavalcante, fato noti- roli que viveu e trabalhou em Bragança ciado pelo extinto jornal “Folha de Bragança”, entre 1952 e 1978. Quando da sua expedo jornalista Soares Filho. Este carro foi usado riência como vigário da Basílica, em 1981 até 2000, quando outra peça foi confeccionada e juntamente com a diretoria do Círio na e doada à paróquia do Rosário. Abaixo, a foto capital, conseguiu recursos junto ao goda berlinda de Nossa Senhora no Museu de verno federal para a construção do Centro Arquitetônico de Nazaré, inaugurado em Arte Sacra da Diocese de Bragança . Além disso, através de seu trabalho. Outra relíquia importante da festa na- 1982. Em entrevista jornal “Voz de Nazaré”, zarena é a primeira réplica em madeira da padre GiovanniaoIncampo, então Superior imagem de Nossa Senhora de Nazaré, con- da ordem no Norte do Brasil, relatou: feccionada na Itália, a pedido do então vigá“Padre Luciano era rio da Basílica, dom Mimuito ligado espiguel Maria Giambelli, O hino “Virgem de Nazaré”, outro ritualmente com o falecido em 2010. A dom Eliseu peça foi encomendada ícone dessa festa, é originalmente saudoso Coroli e com dom Miao artista italiano Giáguel Giambelli, com um poema de autoria da poetisa como Mussner, que a certeza padre Luciafez em dois modelos. paraense Ermelinda de Almeida no adquiriu uma riA imagem escolhida queza espiritual e de e que foi musicado, por volta dos para o Círio de Belém, em colocada pela primeianos 60, pelo padre Vitaliano Vari, conhecimentos Bragança e trouxe ra vez na berlinda em também barnabita, que era Vigário para a Paróquia de 1969, foi a que não contém em seu enta- de Bragança e professor no Instituto Nazaré”. Padre Luciano foi lho o manto em formaum dos organizaSanta Teresinha. to triangular, ficando a dores de procissões segundo réplica, com o e romarias que hoje compõem a programanto esculpido junto ao corpo da imagem mação da festa nazarena, como a romaria destinada à Bragança. O abrigo da imagem fluvial, ocorrida pela primeira vez em 08 hoje é, há muitos anos, o gabinete pessoal de outubro de 1978 e a romaria rodoviária, de dom Eliseu Coroli, sob os cuidados das realizada inicialmente em 07 de outubro Irmãs Missionárias de Santa Teresinha. Foi de 1989, que ainda saía do Monumento da dom Miguel Giambelli que organizou, por Cabanagem, no Entroncamento. exemplo, a descida da imagem encontraO Círio refletiu (refletirá) a busca pela da pelo caboclo Plácido do altar intitulado valorização da história bragantina, per“Glória” até o presbitério da basílica, já que corremos, enfim, essa “trasladação” hiso evento era feito de forma modesta e sim- tórica até Belém, retornando em “Círio” à ples. Bragança. Reunimos alguns dados, factuFato interessante relacionado ao Círio ais por certo, e os colocamos à disposição, foi a inauguração da Rádio Educadora de leitura e posterior reelaboração, perceBragança, em 12 de novembro de 1960, bendo o quanto imbricado está a história quando o então arcebispo dom Alberto Ra- da religiosidade católica bragantina e sua mos abençoou os estúdios e o padre Miguel influência com Belém, pela presença dos Giambelli iniciou as transmissões sonoras padres barnabitas, pela força do laicato, da emissora. No outro dia, a Educadora re- pelos aspectos que ligam as duas festas alizou um dos seus primeiros grandes desa- religiosas e pela vinculação de Bragança fios: a transmissão do Círio de Nossa Senho- aos títulos de Maria, mãe de Jesus, chara de Nazaré, que se tornou seu trabalho mada de Nossa Senhora, a partir de sua inicial e pioneiro. de Nazaré, ou com o RosáO hino “Virgem de Nazaré”, outro ícone Concei(p)ção, rio nas mãos, abençoando os seus filhos e dessa festa, é originalmente um poema de filhas de Bragança. autoria da poetisa paraense Ermelinda de * Dário Benedito Rodrigues é bragantiAlmeida e que foi musicado, por volta dos no, historiador, pesquisador e docente anos 60, pelo padre Vitaliano Vari, também da Faculdade de História na Universidabarnabita, que era Vigário de Bragança e de Federal do Pará, em Bragança. professor no Instituto Santa Teresinha. A 38 www.revistapzz.com.br


FOTOS: lúcio coutinho

CÍRIO - TRASLADO HISTÓRICO O Círio refletiu (refletirá) a busca pela valorização da história bragantina, percorremos, enfim, essa “trasladação” histórica até Belém, retornando em “Círio” à Bragança.

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Armando Bordallo da Silva

SÃO BENEDITO

& A MARUJADA O culto divino de São Benedito é um dos maiores e mais antigos de Bragança. Remonta a 1798, quando foi fundada a Irmandade, que desde então tem mantido esta festividade com o mesmo brilho e fervor religioso.

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ste ano comemora-se 183 (cento e oitenta e três) anos de fundação da Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança, da instituição da Festa e do aparecimento da Marujada. É uma comemoração festiva que o povo de Bragança se assola alegremente para realizá-las anualmente, graças ao profundo sentimento de fé e de culto a lembrança de seus antepassados. Felizes os povos ou as comunidades que se apegam ao seu Folclore, com o mesmo ardor com que cultivam a Fé, porque, como a Esperança, a Fé e o Folclore devem ser as últimas coisas a morrer no seio do povo. Eis porque esta trindade de sentimentos consolida o amor, a terra, a família, sociedade e a religião. Este amor a terra deve ser um salutar bairrismo com que as instituições seculares são mantidas, a Economia consolidada, a Sociedade congregada, a Família mantida coesa, o Comércio próspero e finalmente o Progresso em evolução crescente, caracterizando a Civilização. Esta é a Cultura que herdamos dos nossos antepassados. É a civilização que se exterioriza evoluindo em hábitos e costumes próprios da comunidade. O culto divino de São Benedito é um dos maiores e mais antigos de Bragança. Remonta a 1798, quando foi fundada a Irmandade, que desde então tem mantido esta festividade com o mesmo brilho e fervor religioso. Reza a tradição que os escravos pediram permissão aos seus senhores

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para erguerem uma Igreja ao Santo, de profunda devoção entre os negros, bem assim uma confraria. O primeiro Compromisso da Irmandade é de 3-9-1798, assinado pelas seguintes pessoas: — Pedro Amorim, Simiam da Costa, Pedro Rodrigues, Luciano de Amorim, Francisco Pereira, Francisco Ferreira, Matheus Ferreira, José Manuel, Xavier Felipe, Barnabé Pinto, Domingos Ribeiro, Antônio da Cunha, João Divino e Calisto da Costa. Tempos depois organizou-se um segundo Compromisso ou Estatuto, porque o primeiro era “escaço em provi-

A maior manifestação cultural e religiosa da Irmandade da Marujada é durante a realização da festividade do Glorioso São Benedito que inicia oficialmente em 18 de dezembro como ápice no dia 26 do mesmo mês quando é celebrado o dia de São Benedito dências que se acham neste; e não estar aprovado pelo poder temporal como é de lei”. Traz a data de 1-5-1853 e o assinaram: — José Albano de Melo a rogo de Raimundo Antônio Vieira, Agostinho de Brito a rogo de Athias Antonio da Sllva Ribeiro, Antônio da Silva Nery a rogo de Miguel Arcanjo da Silva e muitos os outros. Finalmente surgiu um terceiro Com-

promisso que é aprovado em Assembleia Geral da Irmandade em data de 7-7-1946. Por motivos óbvios tornou-se uma sociedade de personalidade civil, de acordo com as leis brasileiras, com o apoio de Flodoaldo de Oliveira Teixeira, Benedito Augusto Cezar, Li Paulino dos Santos M6rtires, Tomás dos Santos Martins, Manoel Serapião da Mota, Sebastião Ancho Barbosa, Manuel Inácio Martins Pereira, Cândida Maria das Mercês, Odorico Antônio do Nascimento e muitos outros. Em épocas recuadas dezesseis Irmãos Constituidores eram incumbidos de sua administração. Usavam, como insígnia, uma Imagem de São Benedito, em prata, de mais ou menos quinze centímetros, presa ao peito, por uma fita. Ao que parece os últimos Irmãos Constituidores foram estes: — Raimundo Pretinho (pai de D. Serafina), Veríssimo, Roberto, Mestre Belém e João Luz. A Igreja de São Benedito, se nos louvarmos na tradição, foi a primeira desde o tempo da fundação de Bragança. Tendo 08 escravos construído sua Igreja, que é a atual Matriz foi por consentimento recíproco dos interessados trocada propriedade dos templos. Os negros conservaram a então Matriz e a paróquia investiu-se na posse da novel Igreja erecta pelos pretos. Transfluídos 183 anos da instituição da Irmandade as festas tem sido celebradas, sem interrupção, desde aquela época. Possui valioso patrimônio e a sua Igreja apresenta um aspecto de esmerado trato. Durante esse dilatado tempo, outras Irmandades fundadas, desapareceram com vultosos bens.


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FOTO: RENATO CHALU FOTOS: RENATO CHALU


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festa inicia-se a 18 de dezembro e termina a 26 do mesmo mês, dia consagrado a São Benedito, sendo há longos anos, a mais brilhante e a mais concorrida do município. Os atos religiosos são efetuados pelos padres da paróquia e constam de novenas, missa cantada a grande instrumental, no dia 26, procissão a tarde e ladainha à noite. A Igreja ergue-se na frente da cidade, ao alto do barranco do rio Praça Primeiro de Outubro. Por ocasião da festa o “Largo” recebe vistosa ornamentação. Ao centro do arraial, um coreto de madeira é destinado a banda de música e ao lado um pequeno barracão para os leilões. A esquerda da Igreja é construído o barracão da Marujada, onde dançam todas as noites. Fronteiro a Igreja, entre as palmeiras reais, plantadas no cimo do barranco do rio levantado o mastro votivo do santo, no primeiro dia da festividade. Após a alvorada, às seis da manhã, a banda de música e a Irmandade vão buscar o mastro, que é trazido processionalmente até o local designado. Este mastro a exemplo dos das demais festas, é todo enfeitado de folhas, frutos e encimado por uma bandeira branca, com a efígie do Santo. Os porta-estandarte vem a frente e atrás os esmoladores e os tocadores rufando os tambores, caixa de santo, tamborins e “onça”. Desde junho três grupos de esmoladores recebem imagens de São Benedito. Percorrem o município nos seus mais remotos pontos e até os municípios vizinhos, angariando espórtulas dos devotos. O primeiro grupo visita a região dos campos e a costa marítima do Caeté ao rio Quatipuru. O segundo grupo o alto Caeté e o terceiro grupo penetra a costa oceânica do Caeté ao Gurupi e a parte central dessa região. No primeiro domingo antes do começo da festa, chegam os santos a cidade. A recepção é pomposa. No “Padilha”, local à margem direita do Caeté e a pouca distância, se reúnem os esmoladores, em hora de pendente da maré 44 www.revistapzz.com.br

Felizes os povos ou as comunidades que se apegam ao seu Folclore, com o mesmo ardor com que cultivam a Fé, porque, como a Esperança, a Fé e o Folclore devem ser as últimas coisas a morrer no seio do povo. de enchente do dia. Saem da cidade inúmeras canoas, barcos e lanchas em busca do santo, numa verdadeira procissão fluvial. É um espetáculo grandioso; na vanguarda do préstito a lancha “Gurupi” conduz o santo, os esmoladores e tocadores. Em pé, na proa da embarcação, dois porta-estandartes fazem o entrelaçamento das bandeiras. Na cidade a banda de música executa alegres dobrados e o espocar de girandolas de foguetes e os vivas da incomputável massa que se comprime em toda a margem do rio, dá uma nota festiva a recepção. O glorioso Sao Benedito é recebido na residência do Sr. Caramujo e daí, dias depois, e recolhido à sua Igreja. A Igreja é de estilo colonial, com uma torre lateral esquerda e a sacristia do mesmo lado. A fachada é um quadrilátero encimado por um triângulo isósceles, tendo no ápice superior uma cruz de ferro iluminada. Há uma só porta de acesso ao salão, com janelas do coro ao alto. A torre, de cerca de 20 metros de altura, sustem dois sinos. Nas paredes externas e internas e nos pequenos altares, nada existe de escultura nem digno de especial reparo. Encravado no fundo do salão está o altar-mor, de feitura singela. Não sendo o primitivo, pois há poucos anos sofreu radical restauração. Os últimos procuradores da Irmandade foram os Srs.: — João da Cruz Pacheco, comerciante, já falecido; Flodoaldo Teixeira, industrial, também falecido; o notário público Antonio D. Miranda; Ocimar Fernandes e, presentemente, Arsênio Silva, aos quais foi confiada a missão de guardiães e zeladores de precioso patrimônio.


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MARUJADA

Bolivar Bordallo da Silva Alegres bimbalham os sinos na Igreja de São Benedito; e o povo entoando os seus hinos louvores cantam ao Bendito. O grupo festivo de dança, com os seus chapéus emplumados, recorda da antiga Bragança escravos pretos irmanados. A "Capitoa" vai a frente, com o seu pequeno bastão, e as marujas, saudando a gente, perpetuam a tradição. Miçangas, espelhos e fitas, blusas brancas, saias de cor, levam as marujas catitas para o batuque do tambor. Ao som da rabeca estridente, e na cadência do tambor, choram as violas tristemente, ronca a onça no marcador. Dançam o "Bagre" e o "Retumbão”, quadrilha, lundu e o "chorado", no terreiro do Barracão ao lado da Igreja arrumado. Alegres bimbalham os sinos na Igreja de São Benedito; e o povo entoando os seus hinos louvores cantam ao Bendito. 16/12/60

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M

arujada é dança conhecida em todo o Brasil; trata-se de um auto dramatizado na tragédia marítima da nau Catarineta e onde predomina o canto sobre a dança. Do folheto “A Marujada”, publicação da Divisão de Educação e Recreio do Departamento de Cultura de São Paulo, que nos parece ser de autoria de Nicamor Miranda, transcrevemos o seguinte trecho: — É sabido que desde a época das navegações, estas foram celebradas em bailados e entremeasses, em Portugal. Tais tradições, transportadas para o Brasil fixaram-se num bailado popular que provavelmente em fins do século XVIII ou princípios do seguinte, recebeu organização mais ou menos erudita de poetas certamente alfabetizados. Generalizou-se então com o

Há uma origem comum da Marujada com a Irmandade de São Benedito. Quando em 1798, os senhores acederam ao pedido de seus escravos para a organização de uma Irmandade e foi realizada a primeira festa em louvor de São Benedito, os negros em sinal de reconhecimento, incorporados, foram dançar de casa em casa dos seus benfeitores. No ano seguinte nova manifestação de agradecimentos, com danças a porta, ficando como praxe, daí por diante essas exibições coreográficas. título de “Chegança de Marujos”, nome ao que parece já completamente esquecido da boca do nosso povo. Mas no Nordeste, o bailado persiste ainda bem vivo, de feição nitidamente popular e mesmo folclórico, dotado de peças musicais anônima e de movimentação coreográfica e dramática tradicional, exclusivamente organizada por pessoas do povo”. E a seguir: — Abandonamos a denominação “Chegança de Marujos”, usada em livros eruditos como os de Silvio Romero e Melo Morais Filho, não só por não existir mais atualmente no povo, como porque nada prova ser ela uma denominação folclórica. O bailado atualmente tem diversos nomes que variam de região para região, chamam-se “barca” na Paraíba e “Fandango” no Rio Grande do Norte, outro nome bastante espalhado é o Marujada, 50 www.revistapzz.com.br

por nós escolhido definitivamente”. Escreve Melo Morais Filho (1946, pg. 206): — “É o cordão dos marinheiros que puxando um navio conduzindo uma âncora, um mastro, etc. anuncia nas ruas a chegança dos marujos. Caboclos, cabras, crioulos e pardavascos, lindos, ágeis, vestidos à maruja fardados, fantasiados com propriedade, incumbem-se de seus papéis, indo desempenhar a chegança numa praça. Imitando o balanço do bordo, seguidos das

figuras principais, lá passam cantando uma cangaço, que prenuncia o combate: Ó nau fragata, ó marcha para a guerra!... Ê lô... Se não for por mar, há de ser por terra!... Ê lô...”

nau

fragata,

A Marujada de Bragança em nada se asse-


MULHERES A Marujada é constituída quase que exclusivamente por mulheres, cabendo a estas a sua direção e organização. Os homens são tocadores ou simples acompanhantes. Não há número limitado de marujas, nem tão pouco há papéis a desempenhar.

melha ao auto marítimo existente em todo o Brasil com o nome de “Chegança de Marujos , “Barca”, “Fandango”, etc. Ela é uma manifestação folclórica tipicamente bragantina. Constitui uma organização profana a parte da Irmandade de São Benedito, amparada pelos atuais Estatutos. Há uma origem comum da Marujada com a Irmandade de São Benedito. Quando em 1798, os senhores acederam ao pedido de seus escravos para a organização de uma

Irmandade e foi realizada a primeira festa em louvor de São Benedito, os negros em sinal de reconhecimento, incorporados, foram dançar de casa em casa dos seus benfeitores. No ano seguinte nova manifestação de agradecimentos, com danças a porta, ficando como praxe, daí por diante essas exibições coreográficas. Esta é pois a tradição da origem da Marujada em Bragança. E tanto e assim que a Marujada somente sai para dançar nas ruas de Bra-

gança, no dia de Natal, no de São Benedito e no dia 1.° de Janeiro, muito embora desde o início da festa compareça aos seus barracões, para ensaios, e dança, todas as noites. A Marujada é constituída quase que exclusivamente por mulheres, cabendo a estas a sua direção e organização. Os homens são tocadores ou simples acompanhantes. Não há número limitado de marujas, nem tão pouco há papéis a desempenhar. Nem uma só palavra é articulada, falada ou cantada, como auto ou como argumentação. Não há tão pouco dramatização de qualquer feito marítimo, nem qualquer referenda a nau Catarineta. A nossa Marujada é estritamente caracterizada pela dança, cujo motivo musical único é o retumbão. A organização e disciplina é exercida por uma Capitoa por uma Sub-Capitoa. A primeira Capitoa foi eleita pelas marujas em assembleia mas daí por diante é a Capitoa quem escolhe a sua substituta, nomeando a SubCapitoa, que somente assumirá o bastão de direção por morte ou renuncia daquela. As Marujas se apresentam tipicamente vestidas: — usam uma blusa ou mandriao branco, todo pregueado e rendado e a saia, encarnada, azul ou branca com ramagens de uma dessas cores, e uma grande saia rodada indo quase ao tornozelo. A tiracolo cingem uma fita azul ou encarnada, conforme a ramagem ou o colorido da saia; na cabeça ostentam um chapéu todo emplumado e cheio de fitas multicores e no pescoço trazem um colar de contas ou cordão de ouro com medalhas. A parte mais vistosa dessa indumentária é o chapéu cuja base ou chapéu propriamente dito era antigamente feito de feltro, coco ou cartola; os de fabrico moderno são de carnaúba, palhinha ou mesmo de papelão. Seja qual for o material empregado na estrutura básica do chapéu, ele é forrado na parte interna e externa. A aba com papel prateado ou estanhado; lateralmente com papel de cores; e em torno, formando um ou mais cordões em semicírculo, presos nas extremidades, em pontos equidistantes, são colocados voltas ou alças de casquiIho dourado, prateado ou colorido. Entre as algas, por cima das voltas, são também colocados espelhinhos quadrados ou redondos. Ao alto plumas e penas de aves de diversas cores, formam um largo penacho com mais ou menos cinquenta centímetros de altura. Da aba, na parte posterior do chapéu, descem ao longo da costa da maruja, numerosas fitas multicores. O maior numero ou largura das fitas, embora não indicando hierarquia, e reservado às mais antigas. Os homens, músicos e acompanhantes, se apresentam de calça e camisa branca ou www.revistapzz.com.br 51


PZZ BRAGANÇA / ESPECIAL de dor, chapéu de palha de carnauba revestido de pano, tendo a aba virada de um dos Iados, fixada com uma flor de papel encarnada ou azul, e são dirigidos por um Capitão. Os instrumentos musicais são: — tambor grande e pequeno, a “onça” ou cuíca, pandeiros, rabeca, viola, cavaquinho e violino. Na rua, as marujas caminham ou dançam em duas filas indo a frente de uma delas a Capitoa, e a frente da outra a Sub-Capitoa, empunhando aquela um pequeno bastão de madeira, enfeitado de papel, tendo na extremidade superior uma flor. Atrás e no centro, fechando as duas alas vão os tocadores e os demais marujos. Em fila a dança é de passos curtos e ligeiros, em volteios rápidos, ora numa direção, ora noutra, inversamente. Assim elas caminham descrevendo graciosos movimentos, tendo os braços ligeiramente levantados para frente a altura da cintura como se tocassem castanholas. Dançando obedecem a música plangente do compasso marcado pelo tambor grande em ritmo de “bagre”. A Marujada dança preferentemente nos seus barracões situados, um ao lado da Igreja e o outro próximo a casa do juiz ou juíza. Sai a rua nos dias de Natal, São Benedito e 1.° de Janeiro e não recusa os convites, para dançar, em casas de família, iniciando as mesmas, com a reverência tradicional de seus antepassados. A 26 de dezembro, consagrado a São Benedito, há na casa do juiz um lauto almoço do qual participam todas as marujas e pessoas especialmente convidadas. O jantar é oferecido pela Juíza, a noite desse dia. A 1.° de Janeiro o juiz escolhido para a festa seguinte é o anfitrião do almoço desse dia. Durante o ágape é transmitido ao novo Juiz da Festa, o bastão de prata, encimado por uma pequena Imagem de São Benedito, que é o emblema do juiz, usado nos atos solenes da festividade. Da descrição da Marujada ressalta quanto ela é diferente das “Cheganças de Marujos”, das demais unidades federativas. Por que então o nome de Marujada? É termo ainda não explicado. Pensamos todavia que a palavra foi empregada, pela analogia certamente encontrada, pelos bragantinos de então, com as festas de Marujada, Chegança de Marujos, Barca e Fandango, de outros pontos do País, anteriores a nossa Marujada e certamente no conhecimento das nossas populações daquela época. Ocuparam o cargo de Capitoa, desde a sua fundação até o presente, as seguintes pessoas:

Silvana Rufina de Souza, nascida em 10 de julho de 1867 e falecida em 26-11-1948. Maria Agostinha da Conceigao, atualmente Capitoa, sendo que sua Sub-Capitoa era Candida Maria de Morais, falecida em 31-4-1957, sendo substituída por Benedita Tamanquinho. Exerceram o cargo de Capitao, dirigindo os homens: — 1.° Estevao; 2.° Calixto; 3.° Jorge Leocadia Maria da Conceigao, escrava de Jose Francisco da Silva; e 4.°, atualmente, RaimunCaetano da Mota. do Epifanio. Serafina Maria da Conceigao, ate 1928, quando faleceu. Olimpia Maria da Conceigao, deixou a fungao em 1933, por sua vontade, sendo substituida por: 52 www.revistapzz.com.br

Felizes os povos ou as comunidades que se apegam ao seu Folclore, com o mesmo ardor com que cultivam a Fé, porque, como a Esperança, a Fé e o Folclore devem ser as últimas coisas a morrer no seio do povo.


“Olhando a Marujada, era feliz, alienava por momentos as mortificações que agora castigavam os meus dias. Só ver a Tia Joana sair dançando o Retumbão, volteando no ar a bonita saia encarnada, cheirosa! Tia Joana, capitoa vitalícia da marujada, me entendi vendo-a naquele posto, gente lhe tomando benção com todo o respeito. Mal comparada a um padre, uma freira, uma madrinha muito estimada. Mesmo fora do São Benedito, quando era apenas uma pacata cidade. Quando assumia não mais o comando de uma legião de marujos, mas o governo do tabuleiro de broas, sequilhos, roscas de tapioca, de sua banca de tacacá. Mas ainda ali, se impunha. Pessoas chegando, saudando-a com reverência e estimação: "A benção, Tia Joana" "Deus te abençoe, minha filha. O que vai hoje?" Dezembro, o seu tempo áureo.Nesse mês, rainha era ela. Que não havia - desde canoeiros, carregadores, às mais altas autoridades - quem não comparecesse a barraca de solo batido, ao lado da igreja, a vê-Ia dançar. E os marujos? Ai, para eles, que por mais requestado senão ela? Dançar com Tia Joana, o privilégio, que não era para qualquer novato, não senhor. Não era com duas risadas que um merecia ser aceito como seu cavalheiro. Sim, rainha era ela. Seu traje o mais rico, a saia, da roda a mais ampla, a anágua mais rendada, o chapéu, o mais cintilante de espelhos e pedrarias, fitas que dele pendiam e lhe chegavam aos pés, as mais abundantes, de mais variado colorido; preso à alvura de sua blusa, o ramo de cravo e alecrim mais perfumado. E o cordão de ouro, as pulseiras e brincos, a faixa a tiracolo? Pesar da idade (quando a conheci, já netos tinha) quem mais ágil no passo do lundu, no maneiro, ingênuo requebrar das danças tão encantadoras no seu primitivismo? Porque assim é a marujada. Rememorando os volteios do típico bailado regional, eu me espanto de como neles não se descobria lascívia alguma, nem sequer o quente langor de certas danças tropicais. Tudo tão puro, entre eles, uma alegre, respeitosa reverência, como num ritual. Mas Tia Joana, dizia eu, era a invicta. Qual, mesmo dentre as mais jovens, persistia dançando sem parar, por tanto tempo? Os marujos, os mais graduados,

sucediam-se com seus pares. lam cansando, empapando a camisa de suor, davam lugar ao seguinte que, por sua vez, bailava a não mais poder. Vinha outro e mais outro, e Tia Joana volteando sempre, machucando de leve o chão, os ligeiros passos sutis, o sorriso de Cândida vitória, inocente desafio ali, soberana, no meio do salão. Duas grandes atrações, na marujada: Tia Joana e a cantoria dos marujos. Me deixassem, eu ficaria horas esquecidas junto deles, embevecida, atrás de decifrar-lhes os versos, muitos descosidos, desconexos, sem aparente sentido, mas

“Sim, rainha era ela. Seu traje o mais rico, a saia, da roda a mais ampla, a anágua mais rendada, o chapéu, o mais cintilante de espelhos e pedrarias, fitas que dele pendiam e lhe chegavam aos pés, as mais abundantes, de mais variado colorido; preso a alvura de sua blusa, o ramo de cravo e alecrim mais perfumado. E o cordão de ouro, as pulseiras e brincos, a faixa a tiracolo. Pesar da idade (quando a conheci, já netos tinha) quem mais ágil no passo do lundu, no maneiro, ingênuo requebrar das danças tão encantadoras no seu primitivismo? Porque assim é a marujada. Rememorando os volteios do típico bailado regional, eu me espanto de como neles não se descobria lascívia alguma, nem sequer o quente langor de certas danças tropicais. Tudo tão puro, entre eles, uma alegre, respeitosa reverencia, como num ritual.” de um encanto! Beleza nas vozes incultas, na entrecortada estrofe que saia do peito dos homens rudes. Sempre achei beleza no cantar dos homens. Das raras coisas que tinham poder de me botar quieta, ouvir cânticos, mormente masculinos. Nesse tempo, que sabia eu de um coral, de um conjunto orfeônico? Que escutara além das serenatas das gaiatas trovas dos "Filhos da Candinha", das ladainhas a quatro vozes tiradas pelos pretos velhos? E a toada dos marujos. Caboclos recendendo a suor e aguardente, eu ficava juntinho, os olhos pregados nos rostos brilhan-

tes, bebendo-lhes as palavras. Como os admirava, assim, os olhos meio fechados, a cabeça um tanto pendida para trás, e o canto saía, meio grito, meio chamado, lamento ou prece. Difícil aquilo para mim. Mais que me esforçasse, conseguia assimilar apenas alguns versos, por vezes informes, truncados. Uma quadrinha quando a repetiam, enxertavam-Ihe novas expressões, palavras outras, um final diferente. Bem fazia o Dário, colega nosso do grupo, menino ainda e com fama de poeta, de pesquisador. De nós, o de maior talento, não sei como até hoje não disse palavra a seu respeito, o mais brilhante, o mais arteiro da escola. No quarto ano, possuía cadernos inteirinhos de poesias, de sua lavra. Pois esse Dário, tempo de marujada, sua mãe sabia dele? Parece até que se mudava pras barracas da Juíza e do largo, as noites passava-as acompanhando-os, ouvindo-os, escrevinhando coisas, até o amanhecer. Apanhando no ar os versos que eu aprendi tão poucos. De memória guardo os mais conhecidos, os que mamãe cantava, os que a Rita, mais as filhas moças da Domingas, quando meus pais saiam, libertas de todo respeito e temor, iam para o quintal, entoavam em roda, imitando os marujos: "Oi já chegou são Benedito nesta noite de alegria (bis) Oi senhora dona da casa vá rezando ave-maria" (bis) Os circunstantes fazendo o tambor: Tempo de cupu, peixe-pedra baiacu oi tempo de cupu, peixe-pedra baiacu" Vinham os petitórios, na voz fina, um tanto esganiçada da Nádia, a mais velha da Domingas: "Oi quando eu entro nesta casa (bis) vou olhando para cumeeira Oi senhora dona da casa (bis) traga logo a manicuera" Trecho do romance: “A Menina que veio de Itaiara” de Lindanor Celina

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PZZ BRAGANÇA / ESPECIAL

RETUMBÃO A dança de preferência da Marujada é o Retumbão. O seu compasso musical e rítmico é o do lundum. Parece-nos que o Retumbão é o próprio lundum, que nos ficou com aquele nome, insulado neste grupo, em Bragança, sem ter sofrido as influências da civilização, que o modificou progressivamente da senzala ao salão aristocrático. Comparando-se o nosso Retumbão ou o lundum primitivo, como pensamos nos, com as descrições feitas sobre o lundum dançado nos salões aristocráticos do Brasil ou da Europa, em que ele apareceu com características extremas de uma música é uma dança exótica, lubrica e sensual, o nosso Retumbão é menos cheio desses requebros excitantes, predominando sobre isso, a preocupação dos passos coreográficos. As maneiras e o donaire com que é dançado, Ihe dão certas características próprias, embora se possa reconhecer na música cadenciada pelo tambor grande e no estilo da dança, um ritmo primitivo. Se o lundum, em Bragança, ficou insulado, nesse isolamento, manteve as formas primitivas da dança original. Assim, menos influenciada de ritmos estranhos, essa dança formalística e mais de acordo com a indole dos negros, e dançada no compasso dos instrumentos musicais africanos, introduzidos pelos escravos. No lundum os circunstantes formam roda, batem com as mãos o ritmo e um só par dança. No Retumbão os circunstantes também fazem roda sem no entanto, marcar o compasso por meio de palmas e geralmente dois pares dançam de uma só vez. O homem vai, em primeiro lugar, sozinho, dançar no salão; executando rápidos volteios, convida a dama fazendo ligeiro aceno com a mão e batendo mais fortemente o pé em direção da escolhida. Dançam sempre dois a dois, separados, fazendo círculos, em torno do salão em volteios ligeiros, ora para a direita, ora para a esquerda, estalando fortemente os dedos como castanholas. Os homens acompanham as mulheres, ora na frente, ora atrás, seguindo-lhes os passos como se fosse uma fuga interrompida bruscamente ora numa direção ora noutra, incitados pelos meneios da mulher. Assim dançam muito tempo; dançam até um cansar, quando então, batendo duas vezes com o pé no chão se retira da roda o que está fatigado. O que fica dançando faz sozinho alguns volteios pelo salão após o que escolhe o seu par batendo o pé no chão fortemente e com a mão Ilhe fazendo ligeiro aceno. As mulheres geralmente dançam muito bem e melhor do que os homens. No final da dança as mulheres para fazerem galhofa ou mostrarem sua agilidade e pericia costumam, a um descuido do cavalheiro mete-lo debaixo do rodado de sua grande saia, enlaçando-o com os braços e o apertando a altura do pescoço. Quando isto ocorre sai o dançarino apu54 www.revistapzz.com.br

pado pelos circunstantes, sob o motejo dos companheiros e dificilmente volta ao salão. As músicas executadas pelos tocadores, nos barracões são as mesmas que qualquer jazz tocaria nas festas da cidade, mas de quando em vez tocam o Retumbão, em que o tambor grande, a "onça" e o pandeiro predominam, marcando o compasso e o estilo dessa dança que se choca com os ritmos das danças modernas. Esse ritmo pode ser reproduzido de memória, pelo dizer onomatopaico, do seguinte versinho: É tempo de cupu, peixe pedra, baiacu. O lundum toma vários nomes na Zona Bragantina. Assim, em Bragança e Quatipuru e Retumbão; Carimbó, Corimbó ou Curimbó nas demais regiões da zona, especialmente em Capanema, Salinópolis, Marapanim, etc. com pequenas variações? de ritmo e denominações de passos, como: "dança do peru", "banho", etc.

Uma outra dança quase desaparecida em Bragança, e o "Bagre"; espécie de quadrilha, dançada em roda, marcada em trances deturpado e com grande número de participantes. Os pares formam círculo e o marcador comanda, determinando os passos: — "Eia avante" — os pares, pelas mãos, vão até ao centro do círculo e voltam a posição primitiva. "Granchê de duble", grita o marcador e os cavalheiros metem o braço direito no braço direito da dama dão uma volta e enfiam o braço no braço da dama seguinte, até a terceira dama, quando o marcador avisa — "Já cheguei". Daí, em seguida, sempre comandando o "granchê de duble" prossegue o marcador, até alcançar o seu par e igualmente, os demais participantes. Neste ponto o marcador comanda novamente,— "Ei Chavá"— e o cavalheiro dá uma volta com a sua dama e dança igualmente com a seguinte, avançando sempre, até alcançar o seu par. Restabelecida a roda pelos pares, dançando sempre, pelo apoio simples de uma das pernas e largando a outra, alternadamente, vão os pares, ao comando do marcador, "en-


FOTO: FLÁVIO CONTENTE

fiando o bagre", isto é, se entrelaçando, seguros pelas mãos, enfiando a cabeça por debaixo do braço do par seguinte, até voltar à primitiva posição. O "bagre" é uma dança em que o compasso musical é o binário simples, em ré maior, sendo o ritmo o mesmo do Retumbão, no entanto mais “alegro”. Os tocadores, para dar mais ênfase a esse ritmo e mais entusiasmo a dança, cantam versinhos de improviso e os cavalheiros de quando em vez batem os pês com o mesmo propósito. Há também uma dança denominada "Chorado" em que os participantes fazem roda e uma mulher sai sozinha para dançar. Decorridos alguns momentos, ela escolhe o seu par, batendo mais fortemente com os pés no solo, em direção ao eleito e com os dedos Ihe fazendo ligeiro aceno. Um os par dança de cada vez. O ritmo e o Retumbão, em sol maior, e o sapateado repinicado em gestos propositados, é a nota dominante desta dança. Infelizmente, por falta de aparelhagem, deixamos de incluir, no presente trabalho, o registro sonoro e gráfico destas danças, apresentando tão somente a música escrita do retumbão.

BAGRE

RETUMBÃO

BOLIVAR BORDALLO

BORDALLO

A manhã já vai raiando e o salão ‘inda está cheio: a música - está tocando, e os pares - em revolteio. O Chorado e o Retumbão são as danças preferidas; mas, conforme a tradição outras não são esquecidas. Dançaram a noite inteira, e a manhã já vai raiar; agora, a dança primeira, e o Bagre, para enfiar. “Atenção! Muita atenção!” Grita, ao centro, o marcador; e os pares pelo salão formam todos em redor. “Cada qual com o seu par!” - Que esta dança se inicia, e o Bagre p’ra se dançar com prazer, com alegria. Várias ordens, pela frente, se sucedem no salão: O “Eia! Avante!”, de repente, leva os pares pela mão. O marcador se perfila e, no comando que presta, ordena aos pares em fila o melhor de toda a festa: “Eia. avante! Enfia o Bagre...” Os pares se entrelaçando, seguindo o mesmo caminho, vão a cabeça enfiando sob os braços do vizinho. Formam comprida enfiada, com jeito tão natural, como se fossem cambada do peixe bem regional. É uma quadrilha nativa que a festa vai encerrar, ficando n’alma festiva O Bagre para enfiar”. 16/10/61

BOLIVAR

Retumba, ah, a música dolente, dançadores começam a chegar; a “Marujada”, vem festivamente para a sua “barraca”, vem dançar. A “capitoa”, airosa, surge a frente; suas marujas seguem seu bastão; o tambor-grande chama toda a gente, e os dançadores entram no salão. O cavalheiro bate o pé no chão; no meio do terreiro ele se lança; maneia com a cabeça e com a mão, chamando sua dama para a dança. A dançarina alegre e satisfeita, pisando miudinho no salão, trás a saia rodada que lhe enfeita e sobre seu corpinho o cabeção. Em gráceis revolteios a donzela procura se esquivar aos galanteios do exímio dançador que se revela, também afeito aos rápidos volteios. Rodando em volta a dama o cavalheiro, persegue sempre o par pelo salão, com um jeito de galo de terreiro que lhe arrastasse as asas pelo chão.... Às vezes, um detalhe engraçado se registra. Não é fácil se dar. É um golpe de astucia exagerado (continua) que “p’ra exemplo” a mulher vai aplicar! Um passo a frente e outro para trás, em viravolta simples e ligeira, o cavalheiro dá um passo a mais para ficar bem junto a companheira. A saia enfunada, e o pé ligeiro, a dançarina espera o tempo azado para enlaçar com a saia o companheiro, que fica sobre a mesma, embaraçado ... E o dançador que fica sob a saia, apupado por toda aquela gente, encabulado, quase que desmaia e nunca mais se vê surgir-lhe a frente. *(E o dançador que fica sob a saia, pegado de surpresa, não protesta; apupado e tristonho sai da raia, e nunca mais se vê dançar na festa). A música é simples e não cansa; os pares se sucedem no salão; na alegria e prazer daquela dança o tambor continua o “Retumbão”. 14/05/58 www.revistapzz.com.br 55


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ESMOLAÇÕES DE SANTO E LADAINHAS Quem vê pela primeira vez uma comissão de santo em esmolações, pelo nosso interior, e ouve o bater cadenciado e plangente de uma caixa de santo, acompanhada pelo flautim de imbaúba (Moracea — Cecropia palmata e outras), certamente não se esquecera jamais. Os grupos por vezes numerosos andam por determinada zona do município, quando se trata de um santo de Igreja ou capela local e por várias zonas do município, quando se trata de santo da cidade, como as esmolações em benefício de São Benedito. Estes grupos são solicitados a visitar as residências dos promesseiros. Não raro as famílias fazem promessas dando animais ao santo devoto, como por exemplo: — galinhas, patos, carneiros, bois e cavalos. As promessas quando pequenas, são entregues as comissões na ocasião da visita; as outras maiores são entregues diretamente ao Procurador da Irmandade, as vésperas do dia de São Benedito, para o grande leilão, depois da missa. A mesa de leilão, nessa ocasião parece mais um grande bazar, tal a variedade de coisas a leiloar: desde o franguinho, boi ou cavalo ou desde o cacho de pitombas, a um número as vezes considerável de arrobas de tabaco. As comissões de santo obedecem, durante as caminhadas a pé, a seguinte ordem: a frente, dois porta-bandeiras com os estandartes do santo, os quais vão entrelaçando os mesmos em movimentos típicos, ora para um lado ora para outro; logo após um homem ou mulher, melhor vestido, com uma grande toalha branca, de magnifico bordado e renda, a tiracolo, levando nas mãos o Santo e a seu lado uma pessoa com um guarda-chuva aberto para abrigar do sol ou da chuva; atrás os tocadores: uma caixa de santo, um flautim, a viola, a "onça", tambores e pandeiros. As viagens se fazem a pé, a cavalo, em montarias ou em canoas a vela, conforme a região que percorrerem. É um dia festivo a chegada dos esmoladores. Eles são generosamente obsequiados nas residências dos promesseiros. O dono da casa hospeda não somente os esmoladores como os acompanhantes durante um ou dois dias. Os vizinhos se reúnem trazendo também as suas oferendas. As mesas 56 www.revistapzz.com.br


de almoço e jantar se sucedem e o café é oferecido a intervalos regulares e frequentes. Ao chegar a casa de um devoto, só a caixa toca cadenciadamente — bem-bam, bem-bam, e assim levam o santo para a saia da casa, onde é logo improvisado um altar sobre uma pequena mesa. Se é tarde do dia, ai fica para passar a noite. Mal escurece, depois do jantar, os tambores são percutidos chamando os moradores da vizinhança. Em dado momento, anunciando o início da ladainha, a caixa de santo batida - bem-bam, bem-bam, reclamando silêncio. Há um certo quê de místico, no toque dessa caixa, pois impõe silêncio e provoca respeito a todos os circunstantes. Os rezadores ajoelham-se em frente ao altar improvisado, geralmente três homens, iniciando a ladainha, a três vozes, cantando a folia e fazendo coro as mulheres. Em seguida é rezada a ladainha propriamente dita e finalizando o bendito, sempre fazendo coro as mulheres e demais assistentes. As ladainhas, nas residências de nossos caboclos do interior, ou são feitas pela presença de uma comissão de esmoladores ou em dia de santo da devoram da família, em dias fixados, anualmente. Os vizinhos de toda a redondeza são convidados com bastante antecedencia e muitas vezes, durante alguns dias são rezadas, logo ao anoitecer e em sequencia, em barracões adrede preparados, os bailes, noites e dias seguidos. Depois da ladainha, em certas ocasiões há leilão de oferendas ou de coisas especialmente confeccionadas para isso, predominando os produtos de mandioca e macaxeira, como sejam: — alqueires de farinha dagua e seca, beijus, bolos, roscas, etc. Enquanto isso, é vendido ou distribuído aos presentes a manicuera, o mocororó e até mesmo, as vezes, a maniçoba. A cachaça nem sempre e parcimoniosamente distribuída ou consumida, dai não raro, estas reuniões, terminarem em "esgrú”) e cacetadas, facadas e até morte. Os nossos caboclos, essencialmente católicos por tradição, rezam essas ladainhas geralmente, imbuídos do maior respeito e fé. A doença, os insucessos na lavoura e até mesmo epidemia em animais são causas predominantes de suas promessas, constituídas especialmente em dádivas,

ladainhas ou receber esmoladores e os manter um ou dois dias em suas residências. A ladainha, no entanto, e por vezes cantada pelo simples prazer de cantar alguma coisa, quando trabalham em conjunto. As companhias de lanço dos Pescadores, navegando os nossos rios, em busca dos pontos de pesca, descem em suas canoas, junto a margem e a sombra dos mangais, ao bater cadenciado dos remos, quebrando a monotonia e o silêncio do rio enluarado. Em dado momento, cessando aquele ruído, os Pescadores em três ou quatro vozes começam a cantar uma ladainha, enchendo de sons e ecos, os estirões do rio, de ponta a ponta. No silêncio da noite, ao sussurrar da brisa e do marulho da correnteza do rio, este cantochão tem a sublimidade de um ato de fé a chocar-se com a natureza exuberante e iluminada, para receber, da humildade dos sentimentos desses Pescadores, esse hino de alegria, esperança e fé, com que lá se vão cantando, horas a fio, descendo o rio, ora na cadência dos remos, ora cantando uma ladainha, ora na toada de cantigas de "boi”. ***

Para entrar irmao devoto Filho da Virgem Maria. Vamos dar a despedida Em cima do sacramento Entrou com alegria Apartai com sentimento Deus vos pague e agradeça Quem nos fez este favô No reino do céu se veja Nos pés de Nosso Sinhô. Sr. Sr. Sao Benedito é nosso [Imperador Deus salve. Deus salve Eu quero que ele me salve Quando deste mundo eu for. Lá vai, lá vai São Benedito em sua bandeira voando Deixando o dono da casa Com seus filhinhos chorando Sr. Sr. São Benedito é nosso [Imperador Deus salve.Deus salve Eu quero que ele me salve Quando deste mundo eu for. Meu mano vãmo cantá como irmão O Sinhô São Benedito há de nos dá a salvação. Meu companheiro me ajuda, meu companheiro me ajuda, Deus Ihe bote em bom lugar. Meu sinhô São Benedito me ajudai tenha muitos anos de vida neste mundo.

Uma comissão de esmolação de santo ao chegar em uma casa, primei- Se ajuntá costa com costa ro canta a folia; a noite a novena e o quem apanha num é só eu. bendito, e para sair, novamente a folia de despedida. Vou subindo para o céu, pelo um fio, pelo um cordão, Recolhemos os versos de folias: numa ponta vai São Pedro, na outra vai Sao João, Deus salve a dona da casa no meio vai um rosário, quem encontrou São Benedito da virgem da Conceição. Na sua casa de aurora Bom Jesus seja consigo. Abre a rosa gira-sol, do botão acende a luz, Abre a porta do sacrário nasceu um cravo e uma rosa Que eu quero rezar lá dentro no sacrário de Jesus. Eu quero pagar uma promessa Eu devo pro casamento. Cheirou cravo e cheirou rosa, cheirou flor de laranjeira, Quando eu vejo cantoria O sinhô São Benedito, Na cantoria tambem vou é o nosso pai verdadeiro. Valha-me, valha-me a Virgem [Maria Vamos cantá a despedida, Que é mãe do Salvadô. nós queremos apartar, adeus oh! pombinha branca Abre-se a porta do céu e adeus oh! pomba do ar. Para ver o que havia Havia uma formosa luz Vou-me embora, No rosario de Maria. vombora, vamos andando, eia, eia! Abre-se a porta do céu a despedida estou dando. A muito tempo não se abria

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CAVALHADA

Largo da Aldeia, ornamentada com bandeiras e cordões de bandeirinhas. No centro desta, A véspera do dia de São Joao ou de São de dois postes laterais e diametralmente oposPedro realiza-se a Cavalhada. O Jogo das Ar- tos, a uma altura conveniente, e estendido um golinhas, do Brasil-colônia, admiravelmente fio de arame do qual pendem as argolinhas de descrita por Jose de Alencar em "As Minas de prata. Chegam os cavaleiros e estacam no começo Prata", por Luiz Edmundo em "O Rio de Janeiro ao tempo dos Vice-Reis", por Manuel Querino do Largo. A banda de música toma posição perem "A Bahia de outrora" e em outros autores, e to da linha das argolinhas onde já se encontram praticado em Bragança, ate o presente, com a as autoridades, a Diretoria da Festa e pessoas denominação de Cavalhada, nome vulgarizado gradas. A Cavalhada apresenta um aspecto garboem todo o país. Entre nós, por todas as suas características, so, com os cavaleiros ostentando camisas de isto é, por ser primitivamente realizado no pe- cores variadas, calças brancas, gorro de tecido ríodo das festas juninas, como porque seus branco na cabeça ou chapéus de palha, alguintegrantes eram caboclos, sem influência dos mas vezes, cobertos de pano e ornados de flonegros ou seus descendentes, era um jogo res de papel, azul ou vermelho. Suas montarias, deste ciclo. Todavia perdeu esta característica, bem tratadas, se apresentam com arreios simpois também, por ocasião da festa de São Be- ples ou bem ajaezados. A praça está literalmente cheia. Cavalos e nedito, vem o mesmo cavaleiros desfilam em sendo efetuado com a saudagao as autoriparticipação de negros O auto popular em que eram dades. Voltam depois ou mulatos. a primitiva posição, rememoradas as lutas entre O auto popular em que eram rememoradas cristãos e mouros, e justas entre no início da praga, e, ao sinal do juiz, em as lutas entre cristãos e desabalada carreira, cavalheiros e cavaleiros, não mouros, e justas entre as duplas, uma cavalheiros e cavaleiestá mais na reminiscência dos saem apos outra; a seguir, ros, não está mais na participantes da Cavalhada; ou novamente aos pares reminiscência dos participantes da Cavalhada; porque esta festa popular já aqui partem os cavaleiros abraçados até o fim ou porque esta festa popular já aqui tenha tenha chegado incompleta no en- da praga. Terminada chegado incompleta no redo do auto, o fato e que a sua esta primeira exibição inicia-se o jogo propriaenredo do auto, o fato origem e ignorada. Do entrecho mente dito. Em veloz e que a sua origem e ignorada. Do entrecho somente a disputa das argolinhas arrancada os cavaleiros levando na mão somente a disputa das permaneceu. Por isso os propri- direita uma pequena argolinhas permaneceu. de madeira, porPor isso os proprietários etários de cavalos aproveitam lança fiam una após outros, de cavalos aproveitam essa oportunidade para essa oportunidade para exibirem para enfiar e tirar a argolinha, exibirem as excelentes as excelentes qualidades e os disputada numa demonstração qualidades e os bons andares de suas monta- bons andares de suas montarias. invulgar de agilidade. A argolinha conquistada rias. Por vezes aparecem e oferecida &s senhoainda dois partidos — o azul e o vermelho participando dessas disputas. ras e senhoritas, que retribuem essa gentileza Presentemente a competição reveste mais um amarrando no braço esquerdo do cavaleiro uma vistosa fita, que comprovara as argolinhas caráter pessoal que partidário. Um inquérito analítico seria infrutífero, pois obtidas. Assim prossegue o tornelo ate a ultima nenhum dos participantes seria capaz de for- argolinha. É interessante notar-se entre os cavaleiros necer dados objetivos sobre a gênese do jogo um palhaço, correndo desengonçado e com nesta região. Como veremos na descrição, nenhuma luta trejeitos ridículos, ora sentado de frente na sela, existe, nem passos, nem danças, nem diálogos, ora de costas, ora tentando tirar uma argolinha etc. Tudo se passa como se fosse apenas a dis- ou causando atrapalhação entre os disputanputa de uma argolinha de prata e a vaidade. tes. É a parte cômica do jogo. Findo o torneio os cavaleiros não deixam alias muito natural de vaqueiros, de apresentar escapar o ensejo para por em destaque as quaboas montadas, com bons andares. A tarde do dia 23 ou 28 de junho, vésperas lidades de seus cavalos. Estabelecem-se as porde São Joao e de São Pedro, os cavaleiros oriun- fias em marcha baixa, em meia marcha e em dos dos Campos e os da cidade, se reúnem em marcha alta ou esquipado sob a admiração e os casa do Juiz da Festa e precedidos pela banda aplausos dos circunstantes . de música, dirigem-se a Praça da República ou 58 www.revistapzz.com.br


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PZZ BRAGANÇA / ESPECIAL

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SANTO PRETO BENEDITO LADAINHAS MELODIOSAS DE LOUVOR E FÉ CELEBRANDO O PATRONO DA IRMANDADE SANTO PRETO BENEDITO. FITAS COLORIDAS EM CHAPEUS DE PALHA ADORNADAS, RABECA ARTESÃ EM HARMONIA, SONORIZANDO MARUJADAS BRAGANTINAS, RAÍZES AÇORIANAS FINCADAS NO CAETÉ. SEGUE EM FRENTE A ROMARIA CABOCLA, ANDOR COM SANTO PRETO BENEDITO EM OMBROS FORTES CARREGADOS, PASSOS RITIMICOS EM CANTOS CADENCIADOS, PISANDO VELHOS CAMINHOS, RUAS CENTENARIAS COM JANELAS E SACADAS ENFEITADAS. NA BRAGANÇA, PEROLA DO CAETÉ E A MARUJADA PELA CIDADE SE ESPALHA, LEVANDO ALEGRIA EM BATUQUES RITIMADOS, ENERGIA DE SECULAR TRADIÇÃO, ORLEANDO AS MARGENS DO VELHO RIO. MASTRO SANTO, COM FLORES DO MATO ENFEITADO, ZIGUEZAGUEANDO ATÉ O FINAL DE SUA TRAJETÓRIA, EM PASSOS TROPEGOS POR CAJUÍ ENCHARCADOS

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CULTURA POPULAR

MANI DE URUTÁ CONTO CAETEUARA — A LENDA DA MANDIOCA

POR BENEDITO CESAR PEREIRA 62 www.revistapzz.com.br


MANI DE URUTÁ .. . .. . .. . .. . .. . . . .. . .. . . . .. . .. . . . .. . .. . . . .. . .. . . . .. . .. . . . .. . .. . . . .. . .. . .. . ... . .......................................................................... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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PLANO DE ESTADO “Não é um plano de governo. É um plano de Estado, que define metas e apresenta determinados princípios”. Assim definiu o governador Simão Jatene o programa “Pará 2030”, lançado na manhã desta quarta-feira (29), no Hangar Centro de Convenções e Feiras da Amazônia. Entre as principais propostas do programa, Simão Jatene destacou o incentivo ao crescimento da produção de minerais e de recursos de solos, da floresta e biodiversidade, a partir de processos sustentáveis de integração.

......................................................................... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O índio guerreiro do morto cacique da taba Caeté, herdara o tacape chamado Urutá, de dono da tribu. depois de beber da CUIA PITINGA Um dia, no serão, o trago gostoso na oca do chefe, do forte CAUIM, que fuma cachimbo pegou de suas flexas, e masca tabaco, também do bom arco, por ele foi dito sumiu-se na mata a taba guerreira, espessa e tão brava ali reunida: do seu Camutá. — "Darei por esposa É que nos ouvidos ao índio mais bravo sentira bem longe a minha Mani, miado de onça se ele trouxer, mais brava da selva. ou morta ou bem viva, ou de qualquer forma, O índio Urutá a onça feroz." jurara três vezes ao grande Tupã, Por isso, Urutá traria bem cedo iurara a Tupã aos pés de Mani, trazer "CANGUCÚ" a índia faceira, aos pés da Mani. dengosa e bonita, a presa feroz Sentia por ela, da mata bravia, bem dentro do peito que nunca guerreiro os baques contínuos tivera coragem, de seu coração. de dia ou de noite, Sonhava acordado, da fera enfrentar. deitado no chão, olhando pra lua, "CANGUÇÚ" era das onças com olhar azedo a que nunca dava tréguas de ira e ciúme a qualquer índio da tribu do outro guerreiro, no aprumo de sua flexa. que Ihe disputava a doce fragrância E mais de dezenas de sua preferida. de bravos guerreiros tombaram sem vida Mandu era o índio, nas garras da fera. esbelto e jeitoso, que Ihe cubiçava De olhos brejeiros, a índia gracil. a linda Mani, Trazia a Mani Irma do Tucháua, TUCUNS e batatas, que é muito estimada, pitombas das matas, estava aguardando ERVAO DO IGAPÓ voltasse Urutá, . trazendo-lhe a presa Uruta sentia ódio nos ombros hercúleos. do guerreiro seu rival, Não era essa a primeira, Mas, em tudo nesta vida morena CAETEUARA, há um traço de maldade, que Mandú se apresentava traiçoeiro e pertinaz. .. em tomar-lhe a dianteira. CÍ, PORANGA, ARACÍ, Nesse Camutá, lendário, belas joias de valor promontório que herdara da taba dos Caetés do velho Tuchaua o nome, disputadas foram todas era a sede, a residência pelo índio traiçoeiro, do grande chefe Caeté, ao amor da Urutá. cuja taba era na "ALDEIA". Esse índio invejoso, Agora, Mutaca, não era estimado... o filho mais velho

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Mandú tinha iras, ciúmes danados por ver que Mani não dava atenção ao sou forte amor. JUROU POR DEZ DEDOS haver de vingar-se daquele desprezo da índia bonita qua amava Urutá. *** Pé, ante-pé, sem fazer ruído nas folhas caídas das árvores tão amigas, dando sombras e abrigo, — Urutá, com o olfato que era também sua visão, estaca, célere, atrás do secular, SAPOPEMA. É que sentira, bem perto da SUCUPIRA em flor, a JAGUARÉ dos temores da taba de seus maiores De fauces abertas, mostrando a dentuça, qual um jacaré, a onça pintada encolhe o seu dorso, dá o bote fatal. É quando Urutá distende o seu arco e a flexa, partindo, encontra no espaço a onça ferina que o vinha matar. A flexa penetra, lhe rompa a garganta, traspassa intestinos, e a ponta na cauda metade da lança. Ao solo baqueia o corpo da onça, que urra e dá uivos, estremece e morre... *** Um silvo estridente invade a floresta A flexa certeira penetra no peito do jovem Urutá,

Mas ergue o seu arco, a flexa estendida, reteza o cordame, no fim do estertor. E a flecha, partindo, nas costas penetra do índio Mandú, no órgão do amor... Assim teve epilogo o drama de ódios, também de ciúmes desses dois rivais. *** TRES LUAS passaram.. A taba procura os jovens guerreiros, sem os encontrar. Mas num certo dia, Mani, finalmente, Achou seu amor— E lá, mais na frente, o corpo, bem rijo, do índio Mandú... A dor penetra na Taba. Mutaca estima Urutá. Mani não pode viver sem a luz dos olhos seus. Que dor! Que tristeza! Que mágoas e ais!...

Para dentro da IGAÇABA, — a sepultura dos índios — São trazidos da floresta os corpos dos dois rivais. Silenciaram os tambores na cadencia dos batuques Todos os olhos choraram Pela morte de Urutá Maraca não tocou mais... A taba chorou de luto!!l *** Lua cheia passou por MAIS DE DEZ VEZES por sobre a floresta.... TRÊS LUAS passaram A Taba procura os jovens guerreiros, sem os encontrar Mas num certo dia Maní finalmente Achou seu amor E lá, mais na frente, O corpo bem rijo, Do índio Mandú.

Para dentro da IGAÇABA, - a sepultura dos índios São trazidos da floresta os corpos dos dois rivais. Silenciaram os tambores na cadência dos batuques Todos os olhos choraram Pela morte de Urutá Maracá não tocou mais... A Taba chorou de luto!!! *** Lua cheia passou por MAIS DE DEZ VEZES por sobre a floresta... CARÍUAS chegaram na VILA CUERA, ao som de tambores, clarins e morteiros, bandeiras no ar, penachos vistosas, da cor do GUARÁ. A taba dos brancos ali foi criada. O chefe geral, que fora enviado, é Álvaro de Sousa. A nova capitania, do VALE DO GURUPÍ, dada ao Sousa por seu pai, o chefe Gaspar de Sousa, Governador do Brasil, fora um vasto território, repleto de rios e matas, desde o TURÍ a Bragança, e daqui até metade do CAMINHO PRA BELÉM. O Sousa gostava das plagas daqui, e à noite, cantava, na sua guitarra, endeixas ao luar.. O resto da tropa, porem, não seguia as normas do chefe... E tanto é verdade, que o povo nativo sentia pelo branco alguma amizade, E que ao mudarem suas residências da VILA CUÉRA, pra onde habitamos, o nome foi dado, vistoso, atraente, - de SOUZA DO CAETÉ ***

Em seiscentos e quarenta, uns seis anos são passados. da vinda do povo luso. A notÍcia, estão, chegou, de revolta em Portugal, da guerra separatista dos domínios de Castela. De Aviz — a dinastia —, que perdera, destrocada, em ALCACER QUIBIR, o seu último herdeiro, Infante D. Sebastiao, não tinha mais sucessor. E o ramo vitorioso da causa de Portugal, nesse ano foi sagrado, — um Bragança foi reinar. Fazendo homenagem aos novos senhores, a terra de SOUSA chamou-se Bragança. *** E tudo marchava, assim, dessa forma, em muita harmonia. Os nossos nativos se uniam, em paz, vivendo em promíscuo com os bons luzitanos. Andavam na selva armando ARAPUCAS, tecendo paneiros, tecendo fazendo MUTÁS, para espera da caça, de carne gostosa, que ia ao MOQUEM, depois do tempero. E Mani muito sorria, vendo o branco atrapalhado, ante a CUIA de farinha de paladar esquisito. Nao suportavam os CARÍUAS comidas com tal “farelo”. Chamavam, assim, a torrada FARINHA DE MANDIOCA. Alvaro de Sousa com os de suas glebas da VILA CUERA, remando em canoas ate CAMUTÁ, em rota batida, vinham a convite do chefe da tribu, que era Mutáca. Ali os guerreiros da taba da “ALDEIA” estão reunidos em grande porção, pois querem amizade de todos os brancos; para essa conquista da santa união há grande interesse. Assentam os guerreiros brancos e tambem muitos nativos

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E todos na taba sabiam da ida do jovem guerreiro à fera enfrentar.

No último alento, o bravo Urutá, avista, correndo, nas brenhas da mata, fugindo ao seu crime, o índio traidor...

A dor penetra na Taba. Mutáca estima Urutá Maní não pode viver sem a luz dos olhos seus. Que dor! Que tristeza! Que mágoas e ais!...

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Mani bem queria, com satisfação, unir o seu corpo ao de Urutá

varando nas costas e entrando no caule da SAPOPEMEIRA...

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Só mostrava desejos de infames pecados...

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A dança começa dos índios guerreiros, em tíipicos passos até o raiar da luz minguante por sobre a floresta. Primeiro surgiu, formando uma roda de grande aparência catorze CUNHÃS seguram as embiras de côr, matizadas, saídas do centro, do topo do mastro, que e conduzido por um CURUMIM. Três guerreiros vem tocando na viola, gaita e ONÇA, a cadência dessa dança cujo nome e XINGRE-XINGRE.

Vem a frente, voltam atrás, tornam a vir, tornam a voltar, entrelaçam-se nas fitas de EMBIRAS, matizadas, forma tranças bem compridas, xadrezes originais. E desmancham de repente as trancas que foram faitas. E Sousa vê, abismado, a fecunda inteligência dos nativos do Brasil. Tirando do bolso algumas PATACAS vai dar as cunhãs da dança bonita, que estavam aprovadas na indigena festa, em coregrafia. Mas, estas raclamam logo: querem espelhos e missangas, pentes, cheiros de vidrinhos, iguais aos que já lhes deram... O branco promete dar-lhes...

São doze valentes guerreiros da tribu, que são destemidos em qualquer acão. E vem bem risonhos mostrar aos CAÍRUAS a dansa — BATUQUE — de sua tradição. Dois a dois, bem frente a frente. ouvido atento a cadencia do MARACÁ e tambor, dao tres baques no terreiro, e mais dois, e outro no ar, no cacete de seu par. Outras filas bem atraz das duas que estao no centro, respondem a eles, que voltam, o baque com seus cacetes. E “TUM-DUM-DUM”, na cadencia. Cadencia do “tum-dum-dum”! “Tum-dum-dum Tum-dum pá!...” “Tum-dum-dum Tum-dum pá!...” CARíUAS acharam alguma aparencia na rústica forma dos índios daqui, do jogo que usam no seu Portugal, — o jogo das varas, que é sem igual.

No terreiro os índios formam grande roda. Ao centro, a música. Nos volteios batem palmas e estalam os dedos no ar...” A dança do “BAGRE” foi sempre estimada, e o canto dolente ao som do tambor mexeu com os brancos, que nao resistiram, vieram para a liça gozar do batuque.

É servido o saboroso mingau de milhho com côco. O branco repete a cuia, por achar delicioso. E quando Maní, sentada no banco, conversa com Álvaro, e explica-lhe coisas que ele ignora e quer já saber... Pergunta-lhe Álvaro por que a FARINHA de tal MANDIOCA, que tanto desgosta, é bem recebida “por todos daqui?”... Maní lhe responde que é tradicão, é culto nativo do povo das selvas. Comungam da CARNE de ANTEPASSADA, porém não exercem antropofagia. E ante o espanto do nobre CARÍUA, Ihe explica, a morena, de olhos faceiros lenda da taba: — Nos tempos antigos, MIL LUAS passaram. Viviam na floresta os TUPINAMBAS. A caça das aves, também embiaras, a pesca dos peixes, as tenras raízes de arbustos rasteiros serviam de alimento cosido, ou assadO/ às tribus guerreiras daquèle lugar... Maní, ancestral, de outra que fala, é filha mais nova do antigo TUCHAUA. Um die foi raptada, por tribu contrária que era inimiga das selvas daqui.,.

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“Jacamim”, o índio velho, mais velho do que surrão, a Mutáca faz entrega do seu “CACHIMBO DA PAZ”. Este sorve um longo trago, e, passando-o vai adiante, à direita, ate o último da esquerda dar o trago. Está “Selada a concórdia”.

Agora aparecem com grosses cacetes, robustos caboclos de TANGA e COCAR, trazendo nos pulsos e nos tornozelos roldanas de couro com penas de garça.

Maní convida a Álvaro a dançarem o “RETUMBÃO O tambor entrou em cena. E os requebros da morena tontearam o Capitão. A dança endoidece e faz ficar tonto quem não tem costumes de nela ingressar... Sentou-se no banco para descançar, enquanto os nativos estão no terreiro dançando o “LUNDÚ”

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É servida a GENGIBIRRA a todos que ali estão, e a lendária fogueira é acesa por Maní.

que visitam CAMUTÁ.

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no terreiro que circunda a OCA do bom Mutáca.

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Os CAETÉS, em procura, de sua doce companheira, passaram tempos enormes sem achá-las em parte aguma. As guerras centinuaram entre as tribus da floresta Eram lutas de extermínio na procure do Maní. Êsses guerreiros, então, numa dessas incursões, encontraram em plena mata uma planta desigual. Tiveram, então, a ideia de conduzirem consigo esse arbusto original, verdo como a esperança e como as ondas do mar. Cavaram bom fundo, das grossas raízes, e então descobriram ossadas humanas.

E juraram por Tupã serem os ossos de Mani: — as folhas, os seus cabelos os tubérculos, sua carne. Tomados de grande unção assaram as grossas raízes, envoltas em várias folhas de SORORÓCA da várzea, e acharam sabor gostoso. Muito tempo decorrido, inventado o TÍPITÍ, espremeram nele a massa e tiraram o TUCUPÍ. E a massa bem seca, aos raios do sol, formou a farinha torrada no fogo. Daí que proveio o conhecido alimento das gentes indígenas, dos povos do Norte. E a lenda ficou, para sempre contada, pelos velhos pagés, nos serões da taba... FARINHA DE MANÍOCA OU CABANA DE MANÍ assinalando o seu túmulo FIM Cidade de Bragança, 1958, Pará

“Cabeça de BAGRE não tem que chupá. Saem da cena as CURUMINS, Minha mãe é pobre, que tanto aplauso ganharam não tem que me dá.” dos filhos da Pátria lusa, *** ......... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .................................................................................. . . . . . . . . . . . . . . . www.revistapzz.com.br 65


PZZ BRAGANÇA / GASTRONOMIA

Carlos Pará Eduardo Souza

CHEF OFIR NOBRE

Chef Ofir Oliveira atua há mais de três décadas na divulgação, valorização e resgate da culinária da Amazônia, a qual tem origem indígena com forte influência africana.Ele também é reconhecido por utilizar a gastronomia como meio de conscientização para a preservação do meio ambiente.

O

Chef Ofir Oliveira há mais de institutos e a sociedade como um todo. trinta anos atua no ramo da O reconhecimento e a certificação do tragastronomia. Recentemen- balho, a experiência de vida desse nobre te foi proposto a ele, o títu- Chef, que foi convidado a ser o coordelo de Doutor Honoris Causa nador do Curso de Gastronomia que será pela Faculdade do Pará – ESTÁCIO/FAP implantado no Pará, faz o diferencial na em decorrência de sua contribuição cul- área da Gastronomia. A partir da gênese tural, científica e acadêmica para o desen- da gastronomia amazônica é que falamos volvimento e disseminação dos valores da gênese da gastronomia Brasileira. inerentes à Região Amazônica. Título que o próprio chef destina ao povo braganti- ORIGEM no de onde adquiriu os conhecimentos, a insOfir nasceu den“Nasci em uma pequena cidade do tro do mato, piração de seus principais pratos e de sua interior da Amazônia, onde convivi dentro da flodevoção ao santo pro- com rios, animais, florestas e costumes resta amazônitetor dos pretos, São ca, em CalçoeBenedito, santo mila- indígenas de uma Amazônia intocada, ne, no Amapá, greiro que favorece a sua mãe nasceu que deixaram em mim conteúdos fartura e multiplica o lá também. Seu afetivos que seriam importantes alimento da mesa dos pai nascido na para minha expressão artística anos Bolívia, era fibragantinos. Atualmente grandes univerlho de imigrandepois...”. sidades do Pará, do Rio te nordestino. Grande do Sul e Santa Depois vai para Catarina, através de seus alunos, estudam Bragança e se torna regatão e leva tabaco as propostas, ideias e experiências do para trocar por Ouro nas minas de Oiapomestre Ofir. O fato de terem outorgado que. Foi em Bragança que Ofir cresceu e a maior condecoração que uma institui- descobriu a Gastronomia. “Nasci em uma ção pode conceder a uma personalidade, pequena cidade do interior da Amazônia, aprovado por unanimidade, favorece para onde convivi com rios, animais, florestas a construção de uma política pública unin- e costumes indígenas de uma Amazônia do e integrando governos, universidades, intocada, que deixaram em mim conte66 www.revistapzz.com.br

údos afetivos que seriam que seriam importantes para minha expressão artística anos depois. Minha mãe era professora de culinária, cozinhava com maestria. Ela fazia banquetes em Bragança e eu ajudava a fazer e servir. Lembro de um banquete para umas 400 pessoas em decorrência da consagração do Bispo Dom Miguel Maria Gambeli quando foi encomendado para ela fazer. Tudo foi feito de forma impecável e eficiente” lembra Ofir. “Meu pai foi o primeiro a montar uma fábrica de rádio em Bragança, o único que estudava eletrônica em Bragança, montava aparelhagens há 60 anos atrás, logo no início das aparelhagens. Criou uma geração ensinando eletrônica. E a sua mãe ensinou uma geração dando aulas de culinária em Bragança” relembra o Chef.


FOTO: RENATO CHALU

da origem do negro, do índio e do português na cidade. Toda a cultura é bragantina, uma Católico de família e por tradição, Ofir conhe- cultura que vem de dentro da floresta, seu ceu em Bragança, a Marujada, uma das mais conhecimento, sua vivência, mesmo sem ter belas festividades do Estado em devoção ao São Benedito, santo protetor dos escravos e Devoto de São Benedito prepara os símbolo da multiplicidade dos alimentos, dipratos como um ritual de agradeciz-se, a mais forte expressão cultural e religiosa de Bragança, e uma das mais tradicionais mento aos feitos em sua família. Peixe e antigas do Pará, introduzida pelos escravos a Capitoa com o Sururu, foi o carro em 1798. Devoção e servidão ao Santo, Ofir chefe de se cardápio, o Retumbão, os prometeu e seguiu, já foi esmolar por semapratos que falam a história de Branas nos campos do interior da região. Vestiu-se de Marujo e acompanhou a Marujada gança, da origem do negro, do índio e por muitos anos da sua vida. Devoto de São do portuga na cidade. Benedito prepara os pratos como um ritual de agradecimento aos feitos em sua família. Peixe a Capitoa com o Sururu e o Retumbão, vivido diretamente na floresta, mas seu penforam os pratos principais de seu cardápio. samento vem de dentro dela. Esses pratos falam a história de Bragança, Devoção que se enraíza na família, na qual DEVOÇÃO

sua filha, Luana de Souza Oliveira, Mestra em Turismo e Hotelaria, Docente e Pesquisadora do Instituto Federal do Tocantins – IFTO. Desenvolveu “Uma proposta de Interpretação patrimonial para a Festividade de São Benedito como alternativa para a melhoria e desenvolvimento da atividade turística em Bragança-PA”, observamos que esta manifestação cultural realizada a mais de dois séculos não é alvo de uma política de valorização, divulgação e preservação enquanto patrimônio cultural e atrativo turístico! Principalmente, por falta de iniciativa do Poder Público e em algumas situações de parte da própria população. O que gera falta de informações e infraestrutura disponíveis aos turistas que vão para esta localidade com o intuito de conhecer esta tradição. Na tese de Luana Oliveira, propõe a aplicação de técnicas interpretativas que colabowww.revistapzz.com.br 67


PZZ BRAGANÇA / GASTRONOMIA

rem com o desenvolvimento local e melhoria da experiência turística, fundamentada no sentimento de cidadania ligado ao de pertencimento, encorajando a conservação e defesa da memória cultural, histórica, social, política e ambiental da região.

PROJETO AJURUTEUA Propomos as Universidades do Pará e as que possam se interessar o projeto: “Antes na Terra depois em Marte”. Com a notícia de que a humanidade está pensando em começar a partir de 2030 viver em Marte depois que a situação no planeta houver se exaurido as fontes alimentares e de matérias-primas. Ofir propõe a proposta de valorizar os mangues e os ecossistemas, no primeiro momento a praia de Ajuruteua. Além disso na praia serão desenvolvidas pesquisas e um laboratório de gastronomia pela riqueza e diversidade de produtos, espécies vegetais e animais do lugar. Utilizar a gastronomia como meio de conscientização para a preservação do meio ambiente, uma vez que em suas palestras, oficinas e nos festivais, enfatiza o valor dos produtos advindos de rios e florestas para o preparo de diversas iguarias, ressaltando que ao poluir os rios, a natureza e ao devastar as florestas, elimina-se a única condição de degustar esses exóticos sabores. “A primeira preocupação de um Chef em exercer o seu ofício é a conscientização da preservação da Natureza porque o Chef precisa como elemento vital desses elementos para poder compor seus pratos e exercer seu ofício. Hoje a figura do Chef ficou numa glamourização e pouca conscientização ambiental. Então o nosso projeto é uma proposta reestruturação e como deve ser pensada e reformulada uma política ambiental sustentável para “Ajuruteua” e as áreas dos manguezais. Fazer uma nova Vila, reconstruída e buscar sua identidade do que era Ajuruteua. Realizando credenciamento de famílias de pescadores, contextualizar o pescador dentro de toda a realidade contemporânea e globalizada. Para que o pescador continue a permanecer na sua profissão com uma política de valorizar o pescador artesanal. Ao exemplo de outros países e outros estados 68 www.revistapzz.com.br

brasileiros que realizam politicas sustentáveis. Bragança está perdendo seu potencial turístico e gastronômico” certifica o Chef. Ofir trabalhou veemente para transformar em área de preservação ambiental a praia de Ajuruteua. Proferiu palestras em Coimbra, Algarve, Bragança de Portugal em cima desse discurso, articulando pelo Brasil e mundo afora todo um conjunto de políticas para realmente se realizar algo que nunca se fez, pois o que vem sendo feito em cursinhos de receitas e pratos típicos não resolvem nada. A ideia é fazer um pool de instituições e institutos para poder trabalhar com territórios e territorialidades em prol do desenvolvimento socioeconômico e do fortalecimento das identidades culturais. A partir da diretoria do Ministério do Trabalho podem desenvolver também uma política voltada para a geração de emprego e renda. No momento o maior reconhecimento do Chef Ofir é no sul do país e fora do Brasil. Nós fomos convidados a dar aulas e palestras de culinária da Amazônia nas

Universidades do Sul do país UNIVALE, UNISINO de Porto Alegre, sudeste UNIRIO e sendo homenageado no Palácio Piratinin no Rio Grande do Sul, a partir do reconhecimento do seu trabalho, dessa forma uma ponte entre entre o Norte e o Sul é firmada. Recentemente houve um encontro com representantes de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul, em Belém do Pará, organizado pelo Governo do Estado do Pará, coordenado pelo professor Álvaro do Espírito fundamentando a gastronomia e a culinária com a agricultura, o turismo e a educação. Alavancar esse processo e esse procedimento a partir das Universidades onde possa estruturar uma política de cultura, economia e gastronomia amazônica. A ideia é transformar Ajuruteua num Centro de Pesquisa trazendo alunos do Pará, de outros estados ou do mundo para se engajarem desse propósito e estudar biologia e conhecer toda a complexidade de um ecossistema fértil e rico que são os manguezais e levar esse conhecimento a todas as Universidades. Divulgando esse


tainha, bagre, corvina, pratiqueira, gó, cação, mero e outros. Viu a pesca artesanal em veleiros, igarités e vigilengas, viu a transformação das embarcações que passaram para o motor e para os grandes barcos de pesca predatória.

HOMENAGENS

conhecimento para outras universidades nacionais e internacionais e formar alunos nos campos de pesquisa para que possam ter essa conscientização ambiental mas saber trabalhar com outras espécies é isso que vai fundamentar uma política.

PRAIA DE AJURUTEUA Quando Ofir conheceu a Praia de Ajuruteua, um dos lugares mais bonitos do Pará com uma praia de quase 100 quilômetros na costa atlântica e o maior mangue do planeta, quando não tinha nada, apenas umas três barracas de pescadores, dentre eles o Sr. Domingos Melo, um dos primeiros moradores da ilha, onde passou uma temporada na praia, brincando nas ilhas e manguezais, ecossistema fértil de alimentos, animais e vegetais, berço de espécies marítimas, lá conheceu o avoado com limão, pimenta, sal e farinha, aprendeu a preparar e a comer muito peixe, caranguejo, mexilhão, camarão, turú, com chibé. Lá conheceu a diversidade de peixes da região do salgado: bandeirado,

Ofir já foi homenageado pelo governo do Rio Grande do Sul dentro do Palácio Piratinin com toda a cadeia produtiva desse Estado durante a copa do mundo. Rio Grande do Sul e Santa Catarina reconhecem o seu trabalho de professor e pesquisador, os alunos o reconhecem como Mestre e tem-se notabilizado com o ensino e aprendizagem. O chef é fundador da Associação Sabor Selvagem e criador das expedições amazônicas trazendo alunos de universidades de gastronomia do Brasil e do exterior para interagir com as comunidades ribeirinhas da Amazônia, líder do Convivium SlowFood. “Estamos preocupados em trabalhar uma culinária autêntica do Brasil nas universidades. O ensino de gastronomia se preocupa em plagiar, em copiar as técnicas dos outros. Ou seja, a francesa, a inglesa, chinesa e outras de qualquer lugar, menos da Amazônia” explica o Chef. O Chef Ofir Oliveira já participou em Faro (Portugal) das comemorações do Ano do Brasil em Portugal dando aula magna em Coimbra, levando os sabores e saberes do caboclo. Foram esses posicionamentos que proporcionaram ao Chef um reconhecimento local, regional, nacional e internacional.

SLOWFAST FOOD ‘Hoje trabalhamos o conceito do SlowFast Food, uma política ecologicamente correta. Todo o meu trabalho é fundamentando na culinária e na cultura Amazônica como um todo e acaba se tornando um referencial da gastronomia” comenta Ofir. “Nós colocamos as técnicas amazônicas que possuem o nosso conhecimento ancestral e inovador em alguns casos, para o contexto atual. Essas técnicas poderão serem usadas pelo mundo a fora. Porque são resultados de milhares de anos sendo executadas com eficiência. Ou seja, além do aproveitamento dos produtos dentro de tecnologias amazô-

nicas. A ciência que desenvolvemos tem um papel fundamental e preponderante no processo de elaboração de um prato, mas o que nós propomos, não é o que vai ser servido na mesa do almoço ou do jantar, de forma colorida ou bem apresentada, nem tão pouco só um festival, mas sim, através dos festivais, das aulas de gastronomia de cozinha e cultura amazônica podemos executar uma política pública. O conceito novo do SlowFast Food, envolve o trabalho familiar e comunitário, gerando renda para os pequenos produtores (agricultores e pescadores) e garantindo o consumo próprio, o excedente de todo o

O SlowFast Food tem como principal característica o uso de ingredientes de procedência natural. Ou seja, na minha cozinha dou prioridade para produtos não industrializados, que venham da floresta, de pequenos produtores. pescado na safra é jogado fora para não reduzir o preço. Se perde e não se aproveita. Na proposta do slowfast food vamos aproveitar o excedente, industrializá-lo com um produto de altíssima qualidade e valorar as espécies que não são cotadas no mercado mas que possuem uma riqueza de nutrientes e sabor incondicional como o Bagre, o Cangatão, Dourada, a nível de sabor são excepcionais. O SlowFast Food tem como principal característica o uso de ingredientes de procedência natural. Ou seja, na minha cozinha dou prioridade para produtos não industrializados, que venham da floresta, de pequenos produtores. Esta é mesmo a minha sina: aproveitar o que temos de melhor e encontrar a combinação perfeita destas riquezas em pratos que são elogiados em qualquer lugar. O que quero com isso é ver cada vez mais nosso país e, principalmente, nossa região ganhando o mundo! Meus projetos sempre tiveram relação com a minha terra e meu povo, com a nossa cultura mesmo. Acredito que é aqui que temos que crescer, até mesmo para fortalecer a economia local. www.revistapzz.com.br 69


GASTRONOMIA

MANIHOT ESCULENTA E O ARUBÉ Por Eduardo Souza A mandioca, aipim ou macaxeira são os nomes populares da Manihot esculenta, um arbusto cultivado em mais de 80 países e que constitui um dos principais alimentos energéticos consumidos no Brasil, por poder ser cultivada sem necessitar de recursos tecnológicos. O Brasil contribui com 15% da produção mundial da mandioca, que está entre os nove primeiros produtos agrícolas do país. Em nosso território o hábito de cultivo e consumo da raiz continua, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Nestas regiões a mandioca é muito utilizada para a fabricação de farinhas que geralmente são produzidas de forma artesanal nas Casas de Farinha, envolvendo o trabalho familiar e comunitário, gerando renda para os pequenos produtores e garantindo o consumo próprio (SLOW FOOD, 2009). De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária-EMBRAPA, o Norte é o maior consumidor de mandioca [farinha de mandioca] no país. A nosso ver esta condição relaciona-se ao fato da região ter sido a última a ser povoada, prevalecendo assim por mais tempo os costumes indígenas. O Pará é o estado brasileiro que mais consome farinha de mandioca em domicilio, são 70 www.revistapzz.com.br

43,988 Kg/ hab./ ano (EMBRAPA, 2009). No entanto não se pode limitar o consumo da mandioca a sua farinha já que existem tantos outros derivados, os quais também são consumidos comumente, como: beijus (tapioquinha, beiju cica, membeca, curuá, beijo de moça), tucupi, maniçoba, a farinha de tapioca, a mandicuera, bolo de macaxeira, o arubé entre outras iguarias que são feitas aproveitando desde a raiz até as folhas deste tubérculo. O Chef Ofir em suas oficinas destaca a valorização e difusão do consumo do Arubé, como o Molho do Brasil, para que possa ser reconhecido como o primeiro molho brasileiro dado os registros históricos de sua existência, sendo mencionado por Hans Staaden, Levy-Strauss, Nunes Pereira e Câmara Cascudo. O Arubé, usado inicialmente pelos índios para conservar a caça, é feito a partir do sumo da mandioca, o qual é extraído com o uso do tipiti (artefato indígena considerado uma das primeiras prensas no mundo). Este sumo chamado tucupi é reduzido e engrossado com a própria massa da mandioca. Possui sabor semelhante ao da mostarda e serve para temperar aves, carnes, vermelhas e mariscos, podendo ser usado diariamente em qualquer cozinha do mundo. Atualmente o Arubé é pouco conhecido e consumido pelos brasileiros, o que justifica ações que venham colaborar para

inversão dessa realidade, pois a valorização e consumo dessa iguaria preservará não só um sabor, mas também parte dessa cultura e seus saberes. Colaborará também para a preservação do meio ambiente, uma vez que na região sul do Brasil, e até em outras regiões do mundo, o sumo da mandioca não é consumido por questões culturais sendo todo lançado na natureza causando sérios problemas ambientais devido sua forte concentração de ácido cianídrico. Com a produção do Arubé este problema seria largamente reduzido e ao mesmo tempo revertido em alimento, emprego e cultura. Percebe-se então que a valorização e difusão deste produto incidirão sobre questões sociais, econômicas, ambientais e culturais. Atualmente temos catalogados produtos de uso gastronômico que são desconhecidos até mesmo pelos chefs da região, muitos desses vegetais, frutas, óleos e azeites foram identificados em pesquisas junto a comunidades indígenas da Amazônia, como: manteiga de pracaxi, azeite de patauá, farinha de buriti, mostarda de arubé, fois gras de tamuatá, espumante de caju-açú, mamorana, o famoso cacau amazônico, entre muitos outros produtos de sabores requintados e exóticos que serão apresentado no Festival Gastronômico


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ENSAIO ETNOFOTOGRÁFICO

Flavio Contente

O LEGADO HISTÓRICO NA PRODUÇÃO DA CERÂMICA CAETEUARA Ensaio realizado na comunidade da FAZENDINHA, Bragança, no Atelier de produção de cerâmica Caeteuara do Sr. Claudio e esposa. BRAGANÇA/NORDESTE PARAENSE

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N

os estudos histórico-sociológicos da região amazônica brasileira na percepção dos ciclos extrativos da economia, a sociedade CAETEUARA compõe um dos cinco mundos aquáticos (Tapajônico, Marajoara, Tocantino, Guajarino), diferenciados por suas fisiografias principais, fauna, flora, rios e baías que caracterizaram as comunidades urbanas rurais, onde o surgimento desta sociedade foi um contraponto a “sociedade do látex”, contudo sem deixar de estar conectada ao processo de formação da sociedade amazônica. Importante ressaltar que a base territorial de abrangência da sociedade CAETEUARA ultrapassa limites políticos do município de Bragança, compondo às margens do rio Caeté até próxima ao oceano atlântico. Atualmente, a lembrança desta sociedade pode ser vista nas estruturas dos Casarões ainda existentes; nos traços ferroviários e através da produção de peças de cerâmicas em algumas comunidades, onde se destaca a comunidade da Fazendinha, com suas tradicionais peças e vasos decorativos. Os itens produzidos na Fazendinha têm como características diferenciadas o uso de sementes coletadas na comunidade para criar o grafismo e o uso de essências de plantas da região para dar o tingimento no produto final, que origina uma cerâmica com design que se distingue de outras culturas existentes no Estado do Pará. A técnica de fabricação é artesanal onde é utilizada a força humana para dar movimentação aos maquinários em todas as demais etapas de produção. Durante algum tempo as famílias da comunidade da Fazendinha viviam principalmente da produção do artesanato de cerâmica, contudo, hoje cerca de 90% das famílias deixaram de produzi-lo em consequência da falta de incentivo e apoio, o que levou muitos artesãos a seguir outros caminhos. Assim, busca-se neste trabalho fotoetnográfico chamar a atenção para a cultura CAETEUARA, socializando com a sociedade contemporânea, a técnica da criação das peças de cerâmica que diariamente são produzidas pelas poucas famílias que vivem e ainda acreditam na valorização de sua cultura. Bibliografia: ROSÁRIO, Ubiratan. Saga do Caeté, (ColeçãoCaeté 2). Belém.Cejup, 2000. 266p TRABALHO PUBLICADO NA REVISTA ELETRÔNICA DE ANTROPOLOGIA VISUAL – VISAGEM: http:// www.ppgcs.ufpa.br/revistavisagem/Belém, vol.1, n. 1, p. 43-48, março 2015

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Dados do Autor: Fotógrafo de Sociobiodiversidade realiza projetos em comunidades registrando cotidianos no contexto etnofotográfico e fotoetnográfico. Sócio Proprietário da LF-FOTOGRAFIA E MAPDRONE. Atualmente atua como diretor de relações institucionais do INSTITUTO ARIRI VIVO – IARI, desenvolve o projeto LENTES NA ESCOLA no qual incentiva o uso da fotografia como ferramenta de aprendizado em parceria com o PROJETO AMA na Escola de Referencia em Educação Ambiental – Escola Bosque. www.revistapzz.com.br 77


ENSAIO FOTOGRÁFICO

Paulo Vergolino

Farinha com amor e sabor Fotografias de Paula Giordano.

Paula Giordano investiga para além do mero registro, o detalhe - notamos em seu sensível trabalho, alguns pontos que não podem ser desconsiderados, entre outros a busca quase que obsessiva pelo detalhe, onde nada escapa à essa atenta lente.

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ENSAIO FOTOGRÁFICO

A

lgo nos chama a atenção quando vemos aqui para a região Sudeste do Brasil, um grupo cada vez maior de profissionais da culinária, a nos confessar que não podem prescindir deste ou daquele produto importado do Norte do País. Seria porque hoje a região está finalmente saindo do tão esperado e longo sono do esquecimento? Certamente não. Somos um País de dimensões continentais e ao longo dos anos foram se criando verdadeiros micro-países dentro de um mesmo país. Assim é o Pará, o Amazonas, o Ceará, o Rio Grande do Sul e toda essa pluralidade de estados que forma o que chamamos a nossa grande Casa. Precisamos apenas olhar para dentro e não cultivar e consumir a história dos outros. Assim aconteceu com o grande visionário Mário de Andrade (1893-

“Atualmente os chefs, designers, artistas, historiadores estão, junto com a modernidade, percebendo que voltar ao passado e reaprender com o que foi feito, redescobrindo-o mais e mais vezes, faz muito bem. Basta misturá-lo com o presente, salpicando um cadinho de pimenta, que o futuro passa a ser bem melhor, ou menos insosso. ” 1945) que, em suas viagens pelas regiões na época fora do eixo Rio/São Paulo, já pregava a valorização do que verdadeiramente era nosso – a Cultura. Atualmente os chefs, designers, artistas, historiadores estão, junto com a modernidade, percebendo que voltar ao passado e reaprender com o que foi feito, redescobrindo-o mais e mais vezes, faz muito bem. Basta misturá-lo com o presente, salpicando um cadinho de pimenta, que o futuro passa a ser bem melhor, ou menos insosso. Em se tratando de Norte, região importantíssima para a coroa portuguesa desde a criação e fundação das 14 primeiras capitanias hereditárias, durante o período colonial 80 www.revistapzz.com.br

nos séculos XVI ao XVIII, junto com a horda de novos habitantes que por aqui chegavam - portugueses, franceses, holandeses, espanhóis e africanos (vindos como escravos do atual Senegal, de Gambia, da Nigéria, de Angola, Tanzânia e Moçambique) encontravam-se os indígenas – comedores de mandioca, de tartaruga, de peixe, de frutas, de gente e de toda sorte de alimentos que esta vasta, rica e recém descoberta terra pudesse produzir. Ora, não é novidade para nenhum de nós que a miscigenação tão ventilada e cantada em verso e prosa, quando se trata de ser brasileiro, só pôde existir, porque havia comida em abundância para suprir a instauração de uma nova Portugal. E assim se fez e assim se faz até hoje. O alimento é algo que ultrapassa fronteiras e se torna indispensável pelo simples fato de sermos humanos. Entre muitos alimentos que hoje fazem parte do nosso cotidiano estão alguns que são imprescindíveis para o bom humor à mesa de qualquer cidadão nascido por aqui. O milho, o café, a banana, o coco, a cana de açúcar, o feijão e a mandioca, apenas para chamar a atenção para alguns. Segundo pesquisas recentes e consultas à publicações e aos mais variados sites especializados, só o último dessa lista é verdadeiramente brasileiro. Relatos sobre a mandioca são identificados desde 1615, como na publicação francesa do acervo da Biblioteca Nacional de Paris “Suite l’Histoire des choses plus memorables advenuës em Maragnan ès années 1613 & 1614” em que integrantes de uma expedição daquela nacionalidade relatam ter sentindo-se mal ao ingerir farinha sem o costume de fazê-lo, ou mesmo em Turim, no ano de 1911, quando tipitis são usados para decorar um dos interiores do Pavilhão Brasileiro na Exposição Internacional, realizada naquela cidade e com grande participação dos produtos da indústria florestal do Pará, sobretudo do município de Bragança, que para lá enviou seus produtos. Em 1963 encontramos o autor do livro “Santa Maria de Belém do Grão Pará”, Leandro Tocantins, a reproduzir receitas de pato no tucupi, açaí e maniçoba, todos saboreados, segundo ele, com farinha de mandioca


ou farinha d’água. contribui com certa poesia e tipicidade, O que percebemos depois desses in- tão raros nos tempos atuais. teressantes relatos, é que a mandioca Esse olhar, voltado para o que é ge– assim como a farinha feita dessa raiz nuíno, por incrível que possa parecer, tuberosa, vem acompanhando o de- é recente. O cotidiano passa através senvolvimento das gentes do Norte há do olhar de quem tem capacidade de centenas de anos - só no Brasil já foram enxergar algo corriqueiro e/ou até coidentificadas cerca de 4.000 varieda- mum, para se tornar coisa que beira o des, segundo dados da extraordinário. EMBRAPA (Empresa Assim foi a descoberBrasileira de Pesquisa Giordano investiga para além ta da fotógrafa Paula Agropecuária) - a próque nos do mero registro, o detalhe Giordano, pria farinheira, tão copresenteia com essa - notamos em seu sensível exposição sobre a mum nas mesas nortistas e nordestinas é trabalho, alguns pontos que farinha de Bragança uma peça de design - como paraense, a arbrasileiro, criada para não podem ser desconsider- tista foi buscar um dos suprir o mercado naados, entre outros a busca muitos aspectos do cional. Esse amor pelo é pertencer a essa quase que obsessiva pelo que produto em questão terra e, esse pertenremonta a costume detalhe, onde nada escapa à cimento a levou a retão arraigado na alma gistrar momentos de essa atenta lente. do povo brasileiro e, quem trabalha a prosobretudo do paraense - comer e ser- dução da farinha. O seu conjunto fotovir bem. A farinha, que complementa gráfico está aqui reunido e condensado magistralmente o queijo e a goiabada, por conta das limitações do próprio esé usada também para engrossar sopa, paço, a uma pequena constelação não enfeitar doces de bacuri, cupuaçu e superior a 20 trabalhos, selecionados está, paulatinamente, sendo descober- de um conjunto de mais de 600 fotos. ta pelo turista estrangeiro, ávido de no- Giordano investiga para além do mero vidades. registro, o detalhe - notamos em seu Em que pese uma crescente demanda sensível trabalho, alguns pontos que pelo produto, a produção caseira resiste não podem ser desconsiderados, entre até hoje. Regiões como o município de outros a busca quase que obsessiva pelo Bragança, criado por decreto em 1854, detalhe, onde nada escapa à essa atensão produtoras dos melhores tipos. ta lente. Portanto, saltam aos nossos Percebemos que a produção não se in- olhos as formas da palha que trançada dustrializou ali porque, do contrário, é forma o tipiti, o negrume dos tachos prezada por ser feita dessa forma – ca- de ferro que esquentam e torram a seira – e ensinada através das gerações farinha, a mão amorosa do produtor de produtores, o que de alguma forma que mistura a pasta da mandioca e em www.revistapzz.com.br 81


ENSAIO FOTOGRÁFICO um gestual constante e quase sagrado produz seu sustento, enfim, aspectos que são trazidos para a capital do Pará, só possíveis por quem decidiu não desligar seu passado. Até porque certos aspectos, não podem ser esquecidas ou apagados de nossa memória cultural. Nada mais justo do que homenagear essa gente que trabalha e derrama o fruto do seu trabalho em nossas refeições. Paula optou por isso - voltou as suas origens, encontrou o nascedouro do elemento fotografado e o trouxe graciosamente para nós através do seu labor. Outro aspecto que nos pareceu relevante na obra da artista, foi a importância dada ao colorido, presente em cada uma das peças aqui expostas. Paula Giordano gosta da cor e sabe registrar o contraste entre o foco e o não foco. Sentimos quase que uma explosão de colorido que se justifica quan-

A fotógrafa não se coloca como um elemento alheio ao momento e sim, por amor ao que faz, segue retendo esses momentos mágicos onde a história é viva e a cultura acontece sem aborrecer o que e quem é fotografado. do em conjunto com a sombra. O processo de trabalho não é esquecido pelo seu olhar - que parecem não interferir na feitura da farinha mais do que o necessário. A fotógrafa não se coloca como um elemento alheio ao momento e sim, por amor ao que faz, segue retendo esses momentos mágicos onde a história é viva e a cultura acontece sem aborrecer o que e quem é fotografado. Acreditamos que as práticas artísticas, de um modo geral fazem bem, assim com o conhecimento que nunca se esgota. Aqui juntamos alguns elementos históricos e artísticos para que em conjunto e em constante diálogo, possam contribuir um pouco com este trabalho de fotografia que nasce com a certeza de sucesso. Longa vida à farinha do Pará e a quem, ao molde de Paula Giordano, dela não se esquece, enchendo a boca de água só em recordar de tal preciosidade. Paulo Leonel Gomes Vergolino – Curador independente e Membro da Associação Paulista dos Críticos de Arte - APCA . Inverno de 2015.

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PAULA GIORDANO

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ENSAIO FOTOGRÁFICO

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ENSAIO FOTOGRÁFICO

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FOTOS: bob menezes

PAULA GIORDANO Tem como enfoque do seu trabalho, o homem e suas diversas formas de expressão. Fotografia precisa ter emoção. Sempre manteve relação com diversas formas de arte como pintura, dança e teatro; contudo, é no estudo da fotografia e no desenvolvimento de suas habilidades nesse universo, há cerca de três anos, que vem encontrando espaço para seu desenvolvimento artístico, pessoal, e a expressão de sua sensibilidade. Sofre certa influência da temática social e cultural das obras de Portinari e Di Cavalcanti, do retratar a emoção. E ainda o cotidiano, a espontaneidade presentes na fotografia de Henri Cartier Bresson. Procura não se prender a regras ou estéticas simplesmente, busca desafios a cada novo trabalho, o que lhe faz produzir trabalhos diversificados. Investe seu olhar qualificado na procura incansável pelo que há de sentimento na imagem. Em novembro de 2013 teve sua primeira participação em concursos de artes, sendo selecionada para a XXII Mostra de Artes Primeiros Passos CCBEU, com a fotografia entitulada “Sem Farinha não há trabalho”. Em dezembro de 2013, foi contemplada com o terceiro lugar no concurso de edital de pautas para 2014, da Galeria Theodoro Braga do CENTUR. Em novembro de 2014, apresentou sua primeira exposição individual, entitulada "Casa de Farinha", nessa galeria. Em dezembro 2014, participou com 2 obras, da exposição coletiva "Instâncias da Luz", na Galeria Fidanza do Museu de Arte Sacra de Belém. Possui obras no acervo de ambas as galerias. Em abril de 2015, foi selecionada pela galeria Urban Art Belém e seus curadores, para participar da Exposição Coletiva "Eu Vivo Belém", com a obra "Torre de Rapunzel". Em Junho de 2015, foi convidada pelos curadores Adan Costa e Rodrigo Barata a participar da exposição "De Vagar - Coletiva sobre o silêncio e seus resgates", apresentando o tríptico da série "Ouvindo a solidão". Atualmente, cursa pós graduação em "Arte Fotográfica" na Faculdade Estácio-IESAM e desenvolve projetos fotográficos voltados para a religiosidade, a relação do homem com o divino. Em maio de 2016 realizou a exposição “Entre Luz e Escuridão – Fotografias”,na Galeria Theodoro Braga.

paulagiordano@yahoo.com www.revistapzz.com.br 87


ENSAIO

Mariana Bordallo

VALDIR SARUBBI

V

O ARTISTA E SUA OBRA

aldir Evandro Sarubbi de Medeiro, nascido em Bragança em 10 de outubro de 1939, era descendente de uma família tradicional de políticos. Seu pai, Simpliciano Fernandes de Medeiros Júnior foi ex-prefeito da cidade e seu avô, o Major da Guarda Nacional, Simpliciano Fernandes de Medeiros, era o Intendente de Bragança quando da inauguração da Estrada de Ferro Belém-Bragança em 1913. Sarubbi viveu a infância e a juventude perto da família, mas, ao iniciar sua carreira como artista plástico, mudou-se para São Paulo onde foi apresentar sua instalação Xumucuís na XI Bienal Nacional de São Paulo (BITAR, 2002, p. 06). A obra é uma expressão de sua memória cultural, evocando os brinquedos de miriti do Círio de Belém, os papeis de seda picados e as faixas horizontais nas cores branca e vermelha são as cores da Marujada, a centenária procissão em homenagem a São Benedito , festa que ocorre na cidade de Bragança no final de dezembro. Em São Paulo, Sarubbi passou a dedicar-se exclusivamente à arte e, ao longo 88 www.revistapzz.com.br

dos anos seguintes, construiu uma carreira sólida como professor, desenhista, gravador e artista plástico reconhecido e estimado. A crítica de arte e professora Ernestina Karman considerava Sarubbi um desenhista paciente, meticuloso na limpeza do trabalho, pesquisador constante (...) sem dúvida alguma Valdir sarubbi integrou-se já entre os melhores desenhistas nacionais. (BITAR, 2002, p.36). O crítico Olívio Tavares assim se refere ao trabalho de Sarubbi (...) leituras metafóricas para outras realidades do rio; talvez o fundo, se visível; talvez a água ao microscópio pululante de vida. Outra,

itação Labiríntica e se inicia em 1972. Trabalhando com aquarelas e nanquim, formando labirintos, fitas e arabescos, esses traços lembram os desenhos decorativos da cerâmica marajoara, caminhos ou rios. Nesse momento surgem também as mandalas (processo de individuação, de identificação com a totalidade da personalidade com o self (JUNG; 1998; p.114). Com as mandalas, Sarubbi ganhou diversos prêmios importantes em Salões Brasileiros (BITAR, 2002, p. 34) e afirmava que: Foi a partir daquele desenho que me senti artista... (BITAR, 2002, p. 34). M a i s tarde esse tema reaparece na criação do painel do metrô de São Paulo. Na segunda Série, Este Rio é Minha A água, sempre presente na obra Rua, os labirintos se transformaram no próprio rio, ou, nos rios de sua infância, de Sarubbi, é a matiz que não e trouxe para seu trabalho os símbolos se via na série anterior, ... a cor relacionados ao rio e a sua afetividade: amazônica, as cores, os povsurgiu mais audaciosa e declarada, aospaisagem indígenas (canoas, remos, tangas, embora os coloridos fossem sóbrios muiraquitãs). ... ( ) seus labirintos da fase anterior e exatos transformaram-se em uma paisagem vista a partir de detalhes símbolos da poptalvez, a própria superfície, observada de ulação ribeirinha amazônica, juntamente certa distância, pontuada por fragmen- com o rio visualizado em toda a sua antos da selva; insetos pequeniníssimos, cestralidade. (BITAR, 2002, p. 40) animais, folhas secas... (Olívio Tavares de Araújo apud BITAR, 2002, p. 61). A água, sempre presente na obra de Sarubbi, é a matiz que não se via na série Neste ponto, a arte de Sarubbi já esta- anterior, ... a cor surgiu mais audaciosa e va consolidada e definida em sua vida e declarada, embora os coloridos fossem trazia de seu passado na pequena cidade sóbrios e exatos (BITAR, 2002, p. 41). Aqui da Amazônia o material para compor ele faz uma homenagem ao poeta Ruy trabalhos plenos de memórias culturais. Barata através do verso de um de seus Assim, as primeiras fases de seu trabalho poemas transformado em canção: Este tiveram uma forte influência amazônica. rio é minha rua/ Minha e tua mururé/ Piso A primeira série, assim determinada no peito da lua/ Deito no chão da maré. no site oficial do artista , é nomeada MedNa terceira série, intitulada: Antiguos


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Sem título (série Antiguos Dueños de Las Flechas)


ENSAIO

Xumucuis – XI Bienal Nacional de São Paulo, 1971

Dueños de Las Flechas, o artista passou a usar a pintura a óleo mais intensamente, realçando a cor e destacando a textura (BITAR, 2002, p. 47) e passa também a utilizar um recurso novo: a aerofotogrametria . Sobre aerofotogrametrias, mapeei poeticamente as aldeias desaparecidas nas beiras dos rios. Minha pintura mostrava artérias fluviais vegetalizadas, resguardadas por flechas, e artérias vegetais que se fluvializavam, encimadas por fitas de um colorido puro (Sarubbi apud BITAR, 2002, p. 47). Nesses trabalhos, Sarubbi sinalizava nos mapas os locais onde antes deveriam existir aldeias indígenas com manchas vermelhas como sangue e complementava com a imagem de flechas, o que dava uma ideia de luta e de morte desses povos. As fitas de Meditações Labirínticas que antes saiam do desenho, agora se misturam às flechas e recebem novo enfoque. Esta série foi nomeada com o título de uma

Em todas as fases de seu trabalho, Sarubbi colocou suas saudades e suas lembranças nas obras que produziu. Como afirmou no livro de Rosana Bitar: é a nossa memória que faz com que façamos arte

Mistério da Estrela (série Meditações Labirínticas)

Painel na Estação da Barra Funda no Metrô de Sâo Paulo 90 www.revistapzz.com.br

música interpretada pela cantora argentina Mercedes Sosa que homenageia os índios da tribo Toba, e assim, relembra todas as tribos indígenas das Américas massacradas pela colonização, a floresta massacrada pelas derrubadas ilegais, os rios poluídos e toda a destruição da natureza. Na quarta série: Geofagia, a ênfase não estava na cor, mas na abstração. Geofagia deu início a um progressivo e incansável exercício de abstração, onde as rasgaduras eram os rios que o acompanharam por toda sua obra (BITAR, 2002, p. 52). Formando um grande painel composto por elementos nativos, combinando pedaços de mapas com secções de troncos e matérias orgânicas, abstraindo a forma dos rios como se fossem rasgaduras, numa verdadeira arqueologia da memória, tracei, através de uma geofagia sensual, os rumos de minha obra. (Sarubbi apud BITAR, 2002, p. 52) O artista tirava da terra os elementos para compor seus trabalhos, abstraindo formas, usando mapas para falar de suas memórias. O termo geofagia quer dizer exatamente: alimentar-se da terra . Imagens que contavam sua história, imagens que alimentavam sua afetividade e sua memória. Raízes, rios, troncos, mapas são metamorfoseados e abstraídos. Sarubbi universalizou a região amazônica através do desenho contemporâneo, ultrapassando a linguagem regionalista, conseguindo manter a pureza do seu caráter primitivo (BITAR, 2002, p. 53). A quinta série: Memoriae – o resgate do rio,


concentra-se em uma memória voltada ao interior do artista, relacionada ao processo de amadurecimento pessoal e estético. Minhas obras recentes são pinturas e desenhos que deixam entrever uma outra visão do rio. Não mais o rio e seus elementos concretos e figurativos, mas uma visão abstrata do rio. Me importa agora outro tipo de memória, que se refere à poética dos elementos mutantes e cambiantes da água do rio, transformados em luz. Tento chegar à essência da pintura através da cor (BITAR, 2002, p. 59). Assim, dando continuidade ao tema central de sua obra, Sarubbi apresenta o rio, ou, as águas do rio, vistas sob uma nova perspectiva. É o rio visto de perto, muito perto, de dentro mesmo: o reflexo da água, o fundo do rio, a areia, etc. Com esta série, o artista recebeu o prêmio de melhor pintor do ano (1992) pela APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte. Foi também premiado no VII Salão Brasileiro de Arte (Fundação Mokiti Okada/ São Paulo) com o prêmio “Viagem ao Japão” (BITAR, 2002, p. 60).

A sexta séries: Memórias de Alexandria. Nesta série Sarubbi uniu as artes plásticas com a literatura. Ele fez uma releitura da obra “Quarteto de Alexandria” do escritor britânico Lawrence Durrell. Unindo desenho e gravura, relevos e lápis de cor, o artista privilegiou a recriação de climas relativos aos personagens, sentimentos e emoções ressaltam mais que o ambiente externo . Sem título (série Este Rio é minha Rua)

Sem título (série Este Rio é minha Rua)

A sexta séries: Memórias de Alexandria. Nesta série Sarubbi uniu as artes plásticas com a literatura. Ele fez uma releitura da obra “Quarteto de Alexandria” do escritor britânico Lawrence Durrell. Unindo desenho e gravura, relevos e lápis de cor, o artista privilegiou a recriação de climas relativos aos personagens, sentimentos e emoções ressaltam mais que o ambiente externo . Essa interação entre elementos de natureza diversa cria texturas ricas e ambíguas, que podem remeter o espectador à obra literária sem fazer nenhuma literatura, já que o trabalho possui um valor pess oal e intransferível, sem depender de apoios de interpretação (BITAR, 2002, p.56) Com esta série ele recebeu o prêmio APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte de melhor pesquisa do ano (1988) e na International Art Competition de Nova York , foi premiado com o Certificate of Excelence for outstanding achievement in Works on paper . A sétima séries: Outras Memórias, pinturas, aquarelas e desenhos, abstrações coloridas como uma forma de aprofundamento em seus próprios sentimentos e emoções. Perwww.revistapzz.com.br 91


ENSAIO A sexta séries: Memórias de Alexandria. Nesta série Sarubbi uniu as artes plásticas com a literatura. Ele fez uma releitura da obra “Quarteto de Alexandria” do escritor britânico Lawrence Durrell. Unindo desenho e gravura, relevos e lápis de cor, o artista privilegiou a recriação de climas relativos aos personagens, sentimentos e emoções ressaltam mais que o ambiente externo .

mitindo que sua obra surja naturalmente como resultado de sua vida interior e sem se preocupar com modismos, interesses de crítica e de mercado . Em outras memórias, Sarubbi continuou como simples espectador, verificando os resultados impregnados de lembranças, ao mesmo tempo que retirava elementos do real para a criação de um mundo surreal. (BITAR, 2002, p. 65) O artista identificou esta série como sendo Outras Memórias, mas, subtendidas, eram as mesmas memórias que acompanharam o artista por toda sua obra, a paisagem amazônica, reveladas em cores fortes mais contundentes que nas séries anteriores, em aquarelas, a pintura a óleo, a tinta acrílica, o nanquim, o lápis de cor e a colagem (BITAR, 2002, p.65). A carreira internacional de Sarubbi iniciou com participação na Bélgica em 1973, mas não se restringiu a isso. Ele participou de diversas exposições na Espanha, Alemanha, Chile, Romênia, Japão, México, Cuba, Portugal e outros países na Europa, na Ásia ou nas Américas. Em 2000, Sarubbi ganhou uma bolsa da Pollock-Krasner Foundation dos EUA em reconhecimento à excepcional qualidade de seu trabalho (BITAR, 2002, p. 25). Marina Marcondes , contou que o Atelier em que ele trabalhava foi muito elogiado ao ser visitado pela comissão: organizado e vivo, simples e essencial . Sarubbi aproveitou o prêmio para tratar de sua saúde antes de seguir para os Estados Unidos realizando a troca da prótese cardíaca, que havia sido adiada por tantos anos. Infelizmente, essa cirurgia apressou sua morte e ele não teve a oportunidade de usufruir o prêmio recebido, além de ter deixado muitos trabalhos inéditos.

Sem título (série Antiguos Dueños de Las Flechas)

Tapete Inacabado, 1987 (série Memorias de Alexandria) 92 www.revistapzz.com.br


Memoriae (série Memorias de Alexandria)

Sem título (série Geofagia)

Pedras Azuis (série Outras Memórias) www.revistapzz.com.br 93


ENSAIO

SARUBBI MEMÓRIAS AFETIVAS E ORIGENS CULTURAIS

V

aldir Evandro Sarubbi de Medeiros (1939-2000), pintor, desenhista, gravador e Arte Educador, assim como sua prima Maria Lúcia Medeiros, escritora paraense, nasceu na mesma pequena cidade do interior do Pará com um trem de ferro e um rio na frente e, como ela, teve uma infância bem brasileira: quintal, primos, frutas, tios, igreja, cinema Olympia . Ambos conviveram bem de perto com a casa identificada em Bragança como Casarão da Família Medeiros - com azulejos portugueses, desenhos perfeitamente simétricos nas ripas do telhado e nas tábuas do assoalho, com uma mãe d’água no poço do quintal e o sentar-se à porta no fim da tarde para longas conversas, hábito que remontavam aos tempos de seus avós. Nasci em uma pequena cidade do interior da Amazônia, onde convivi com rios, animais, florestas e costumes indígenas de uma Amazônia intocada, que deixaram em mim conteúdos afetivos que seriam importantes para minha expressão artística anos depois... (Sarubbi in BITAR; 2002; p.19). Sarubbi foi criança em uma Bragança da década de 40. As moças que vinham dos interiores para trabalhar nas casas de família, os trabalhadores das roças, das fazendas e dos sítios, conviviam com as famílias, com as crianças e traziam suas crenças e práticas culturais, além de muitas histórias para contar. Em 1945, Sarubbi deixou o sítio do Lontra e foi morar com as tias Sabasinha e Didi, irmãs de seu pai, e por toda vida, ele ressaltou a ligação que tinha especialmente com a tia Sabasinha. A tia Sabasinha gostava de contar as histórias da família aos sobrinhos e a quem mais as visitasse no Casarão com um horror de janelas e um quintal e tanto (CELINA, 1963, p. 09). Seu pai Simpliciano Fernandes de Medeiros havia sido Major da Guarda Nacional e era Intendente de Bragança na inauguração da Estrada de Ferro em 1908. A vida da família Fernandes de Medeiros e a vida da cidade estava enredada, isso não só era motivo de orgulho, mas, principal94 www.revistapzz.com.br

“Nasci em uma pequena cidade do interior da Amazônia, onde convivi com rios, animais, florestas e costumes indígenas de uma Amazônia intocada, que deixaram em mim conteúdos afetivos que seriam importantes para minha expressão artística anos depois...”. mente, motivo para muitas histórias que a tia Sabasinha gostava de contar. Ela foi uma personalidade marcante na vida do artista, com o seu carinho e com suas histórias fez a ligação entre o passado, os avós e a família e o presente na vida de Sarubbi. Enquanto vivia na casa das tia, ele ouviu muitas dessas histórias contadas depois do almoço, sentado na calçada de tarde, depois do jantar ou mesmo numa conversa do dia -a-dia. Até porque, as pessoas acreditavam nelas (e até hoje, muitas ainda acreditam). Em Bragança Valdir viveu a realidade dos igarapés, da mãe-d’água que puxa para o fundo das águas e da Matinta Pereira que pede tabaco e leva as crianças que saem à rua nas horas soturnas. Ele ouviu histórias de pessoas que foram assombradas por visagens e as que ficaram perdidas na mata por ação da curupira (em Bragança, apesar de curupira ser um menino com os pés para trás, talvez por associação com a mãe-do -mato, ou com a Matinta Pereira, Curupira é chamada de “a” curupira). Ouviu relatos de pessoas que juravam ter visto ou que foram perseguidas pela cobra-grande que, em Bragança e arredores é bem provável que tenham existido nos poções dos igarapés. Viveu sob a influência de um rio que regula a vida da cidade, o rio Caeté, além da exuberância da paisagem amazônica que qualquer viagem de barco para as inúmeras praias da região pode oferecer. Ele participou dos festejos de São Benedito nos finais de ano e a Marujada era parte integrante de seu “ser

CASA DA FAMÍLIA CASAMEDEIROS DA FAMÍLIA Casa identificada em Bragança MEDEIROS Casarão Família MeCasa como identificada emda Bragança - com comodeiros Casarão da azulejos Família portugueMeperfeitamente deirosses, - comdesenhos azulejos portugueripas do telhado ses, simétricos desenhos nas perfeitamente e nas tábuas do simétricos nas ripas doassoalho, telhado com mãe nocom poço do e nas uma tábuas do d’água assoalho, e o sentar-se uma quintal mãe d’água no poçoà porta do no fim tarde para converquintal e da o sentar-se à longas porta no sas, hábito que remontavam fim da tarde para longas conver- aos tempos avós do Sarubbi. sas, hábito quedos remontavam aos tempos dos avós do Sarubbi. bragantino”, como ainda hoje o é aos que vivem em Bragança. Em Bragança Sarubbi, irmãos, primos e amigos, fundaram a Associação Cultural Recreativa dos Estudantes de Bragança – ACREB, aproximadamente em 1955, entidade que teve uma participação ativa na vida social e cultural da cidade até meados da década de sessenta. No período das férias escolares, a ACREB promovia teatro, shows com artistas locais, artistas de Belém e nacionais: Guiães de Barros, Alberto Mota e Luiz Gonzaga. Lúcio Mauro chegou a se apresentar em Bragança declamando o famoso monólogo “As Mãos de Eurídice” . Além do time de futebol e mesas de ping pong na sede da ACREB, no mês de julho, havia a exposição-feira de trabalhos manuais. Cada associado fazia um trabalho pra vender na exposição. Era uma forma de arrecadar dinheiro para realizar as festas dos finais de semana, onde toda uma geração se encontrava pra namorar, flertar e de onde saíram muitos casamentos. Nessa fase, Valdir alternava com o irmão José Be-


Em Bragança Sarubbi, irmãos, primos e amigos, fundaram a Associação Cultural Recreativa dos Estudantes de Bragança – ACREB, aproximadamente em 1955, entidade que teve uma participação ativa na vida social e cultural da cidade até meados da década de sessenta. nedito a presidência da Associação. Em 1958, surgiu a Campanha Nacional de Defesa do Folclore , convocando todos a se empenharem na valorização das tradições ameaçadas de desaparecimento pela modernização acelerada. A Comissão Paraense de Folclore, cujo secretário-geral era o bragantino, dr. Armando Bordallo da Silva, em consonância com a campanha nacional, organizou a I Jornada Paraense de Folclore

em Bragança, bem no período da Festa de São Benedito e da Marujada: 22 a 27 de dezembro. Equipes de trabalho foram formadas e Sarubbi, com 19 anos à época, integrava a comissão especial responsável pela organização da Exposição de Trabalhos Rurais realizada no bairro da Aldeia (casa de pescador, casa do campeiro, casa da farinha). Esse evento contou com a participação de nomes de destaque na política e no meio intelectual de Belém (Lopo de Castro, Bruno de Menezes, Washington Costa, Jacques Flores, etc) e Bragança (Zito César, Simpliciano Jr. Rodrigues Pinagé, etc), além dos convidados especiais, o dr. Edison Carneiro , representando o Ministro Renato Almeida, e ainda a folclorista carioca Zaíde Maciel. As palestras versaram sobre vários temas, mas, a tônica era sempre a valorização da cultura local, das tradições e de todas as manifestações culturais do povo. A Jornada causou impacto pelas novas ideias sobre coisas que para o bragantino, pare-

ciam tão banais: seus hábitos, costumes, suas crenças, suas rezas, suas festas. Isso tudo foi apresentado como algo especial e que valia a pena ser preservado. Foi nesse clima de valorização da cultura local que Sarubbi, o jovem e futuro artista plástico esteve envolvido naquele dezembro de 1958. Os anos que Sarubbi viveu com a família, o tempo das férias escolares, ou da faculdade, foram os anos de gênese de seu imaginário pessoal, ligado à afetividade e à identidade cultural amazônica. Assim, ao se tornar um artista e, como “ser amazônico” revestido de uma percepção estética impregnada pela visão de mundo amazônica, matizou suas obras com as “tintas” de seu imaginário. Em Belém, como aluno do Colégio do Carmo, foi convidado a participar do Norte Teatro Escola, grupo teatral criado por Benedito e Maria Sylvia Nunes e com o grupo atuou em diversas peças. Em 1960, na inauguração da Tv. Marajoara, Sarubbi foi convidado por

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ENSAIO Maria Sylvia Nunes para participar como realizador, adaptando textos literários para o teleteatro apresentados na TV aos domingos de noite. Em 1962, Sarubbi formou-se em Direito pela Universidade Federal do Pará, mas, o coração de artista o levou a repensar a vida ao descobrir um problema cardíaco. Ele decidiu seguir seu coração e passou a se dedicar à Arte. Em 70, participou da seleção para a XI Bienal Internacional de São Paulo tendo sido aprovado para compor um grupo de 30 artistas brasileiros que iriam representar o Brasil na Bienal. Ele apresentou a obra intitulada Xumucuís, uma instalação composta por uma série de bastões de pau-de-chuva

Em todas as fases de seu trabalho, Sarubbi colocou suas saudades e suas lembranças nas obras que produziu. Como afirmou no livro de Rosana Bitar: é a nossa memória que faz com que façamos arte feitos de miriti e cobertos por papel de seda, brancos e vermelhos. Ao lado, um aviso para que as pessoas movimentassem os bastões a fim de produzir sons que pareciam com chuva, cachoeira, etc.. Assim, Valdir assumia uma tendência moderníssima no Brasil naqueles tempos, o da arte interativa. Em São Paulo, o fato de estar longe da família, da cidade natal e de sua cultura deve ter despertado no artista uma necessidade de “retorno às origens”: Bragança – mundo afetivo permeado de família e da identidade cultural amazônica. Por mais adaptado ao novo ambiente e à nova cultura, a criança e o jovem que ele um dia foi, ainda estavam afetivamente presos à sua cultura primeira. Assim, a obra produzida por Sarubbi, nesse primeiro momento em São Paulo, é cheia de símbolos que identificam as memórias afetivas de seus primeiros anos. Os desenhos detalhados, transformados em azulejos e Mandalas da fase Meditação Labiríntica que lembram os detalhes da casa azulejada de seus avós em Bragança.

Sarubbi, com 19 anos à época, integrava a comissão especial da I Jornada Paraense de Folclo sável pela organização da Exposição de Trabalhos Rurais realizada no bairro da Aldeia. Na fot Sarubbi (casa de pescador, casa do campeiro, casa da farinha).

obra da Série: Esse Rio é Minha Rua 96 www.revistapzz.com.br


ore (1958) responto a instalação de

REFERÊNCIAS BITAR, R. Sarubbi. Belém, 2002;

CELINA, Lindanor. Menina que vem de Itaiara. RJ: Conquista, 1963; PAES LOUREIRO, João de Jesus. Obras Reunidas: vol. Cultura Amazônica – uma poética do imaginário, SP: Escrituras, 2001;

OUTRAS FONTES

MEDITAÇÃO LABIRÍNTICA Os desenhos detalhados, transformados em azulejos e Mandalas da fase Meditação Labiríntica que lembram os detalhes da casa azulejada de seus avós em Bragança. Abaixo, obra permanente exposta no Metrô de São Paulo.

Em todas as fases de seu trabalho, Sarubbi colocou suas saudades e suas lembranças nas obras que produziu. Como afirmou no livro de Rosana Bitar: é a nossa memória que faz com que façamos arte (2002, p. 76). Sua obra é sua vida, seus afetos, suas lembranças. Sarubbi traduziu essas reminiscências em arte com uma linguagem universal, plenamente compreensível em Belém, em São Paulo, na Alemanha ou no Japão.

CENTRO NACIONAL DE FOLCLORE/ Museu/ Quem Foi Edison Carneiro <http://www.cnfcp.gov.br/interna. php?ID_Materia=162 > acesso em 17.10.2013; CENTRO NACIONAL DE FOLCLORE/ O Centro/ Histórico < http://www.cnfcp. gov.br/interna.php?ID_Secao=1 > acesso em 17.10,2013; Relatório da I Jornada Paraense de Folclore – realizada em Bragança/Pará, de 22 a 27.12.1958, não assinado, mimeografado em papel timbrado com o símbolo da Jornada (Maruja), 02 cópia – Acervo Bordallo da Silva; Impresso da I Jornada Paraense de Folclore (equipes e programação) – Acervo Bordallo da Silva; MEDEIROS, Maria Lúcia. A Escritura Veloz. 1994 em < http://www.ocaixote. com.br/caixote18/ 18cx_contos_ mlmedeiros.html > acesso em 17.12.2008; METRO DE SÃO PAULO < http://www. metro.sp.gov.br/cultura/arte-metro/ livrodigital/arquivos/assets/basic-html/ page185.htmlC > acesso em 08.09.15.

Preso a essas memórias afetivas dos primeiros anos de vida e à bagagem cultural amazônica, Sarubbi transcendeu o regional e se tornou um artista universal, transformou sua arte em obras de infinita elegância e beleza, frutos de um conhecimento estético sem acasos, sedimentado na pesquisa, no talento, na disciplina e na paixão pela vida da ‘umidade’ amazônica (BITAR; 2002; p. 15).

Mariana Bordallo recentemente defendeu no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA/UFPA) sua Dissertação de Mestrado no Programa de Pós-Graduação na área de Letras em Linguagens e Saberes da Amazônia (PPLSA), que trata da vida, arte e obra de Valdir Sarubbi, obtendo conceito excelente.

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DOCUMENTÁRIO

Leôncio Siqueira

TRILHOS: O CAMINHO DOS SONHOS O PESQUISADOR E ESCRITOR LEÔNCIO SIQUEIRA LANÇA NOVA EDIÇÃO DE LIVRO. UM MEMORIAL DA ESTRADA DE FERRO DE BELÉM - BRAGANÇA E COLABORA PARA A IMPLEMENTAÇÃO DE POLÍTICA PÚBLICA PARA O TURISMO TRILHOS: O CAMINHO DOS SONHOS do com os conflitos da Adesão do Pará à (Memorial da Estrada de Ferro de Bra- Independência e em seguida à Revolta gança), é uma trilha, percorrida minu- da Cabanagem. ciosamente pelo pesquisador e escritor No momento em que o embrião Leôncio Siqueira, um caminho de ferro da Belle Époque aflora no solo da Provínque transportou por cinco gerações o cia do Grão Pará, a Colonização Paraense desenvolvimento sócio econômico e cul- se en¬contra totalmente esfacelada; não tural de toda uma região, que plantou o havia comida para tantos que chegavam diferencial miscigenado de tantas raças à caça da seringueira, a “Árvore da Fortuali instaladas, que na”. interagiu, entre os O audacioso po¬vos distribuídos O audacioso projeto foi colocado projeto foi colocado em todo o percurem prática: Transformar a área em prática: transso, en¬trelaçando a área geogeográfica central do Nordeste formar famílias, aproxigráfica central do do Pará em um grande celeiro Nordeste do Pará mando-os cada vez mais, germinando a em um grande ceagrícola. semente da paz. leiro agrícola; cons Foi o “Caminho de Ferro” que truir uma estrada de ferro, possibilitando permitiu o escoamento de toda a produ- o deslocamento das pessoas e o escoação agrícola e pecuária do Nordeste do mento da produção e interligar a linha Pará, transformado-o no “Celeiro Eco- férrea às localidades litorâneas através nô¬mico do Estado”. de vicinais rodoviárias. “A FUMAÇA E AS MARCAS Hoje, para alcançar esta históDOS TRILHOS NO CHÃO”. Difusas lem- ria, você tem que seguir “Os Trilhos” desbranças, dilapidadas pela amnésia do se caminho e conhecer em detalhes um tempo. O retrato da transposição de período de maior relevância da “História uma época em que a colonização, desen- de Nosso Estado”. volvida inicialmente pelos jesuítas, é aniquilada por determinação do Ministro de Portugal, Marques de Pombal, culminan98 www.revistapzz.com.br


No céu a fumaça e as marcas dos trilhos no Chão...

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DOCUMENTÁRIO

U

Prédio da antiga Estação Ferroviária de São Brás, demolida em 1972.

ma grande solenidade marcou o começo da realização de um sonho, conforme o relato de Ernesto Cruz em A História dos Municípios Paraenses: “Às 8h30m chegaram ao lugar designado para a cerimônia, onde hoje está localizada a Estação Rodoviária de São Brás, numerosas pessoas, especialmente convidadas, conduzidas em 12 bondes da Companhia Urbana Paraense, puxados à tração animal”. No primeiro veículo iam S. Excia. Revdma. Dom Antônio de Macedo Costa e o Sr. Bernardo Caymari, da empresa concessionária. Nos demais, o que Belém possuía de mais representativo nos diferentes círculos: social, econômico e político. Era um acontecimento digno das alegrias que todos deixavam transparecer. Reunidos o Visconde de Maracajú e as principais autoridades da Província, foi iniciada a cerimônia de colocação dos primeiros trilhos, feita pelos engenhei¬ros Batista Weawer e Moura de Campos, sobre dois dormentes de mármore. Neles estavam gravados os seguintes dizeres: “Estrada de Ferro de Bragança” – Primeira estrada de ferro construída na Província do Pará, inaugurada em 24 de junho de 1883, sendo Presidente o Exmo. sr. General Visconde de Maracajú– Estrada de Ferro de Bragança – Organizada e construída por B. Cayma¬ri, sendo Engenheiro Chefe M. B. Batista; Primeiro Engenheiro H. E. Weawer; Engenheiro Ignácio B. de Moura, A. O. R. da Costa Martin, F. Martin; Auxiliar H. Sholl; Contador Elkin Hime Júnior; Diretores Barão de Mamoré, Otto Simon e Michel Calógeras”.

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O assentamento do primeiro trilho, fixado com oito pregos de bronze prateado, cada um deles cravado por uma autoridade, dava início à construção da tão esperada ferrovia. A mãe natureza abria seus braços para aqueles que a agrediam, rasgando suas entranhas, derruban¬do suas árvores seculares. Assim seguiam os cassa¬cos, como foram chamados os desbravadores, com seus terçados, machados, picaretas e serras, abrindo picadas para o assentamento dos dormentes e dos trilhos. Paralelamente eram colocados os postes da rede telegráfica, responsável pela comunicação entre as estações. Dentre as muitas alterações, acontecidas durante a construção da ferrovia, a primeira delas foi a mudança do lugar onde seria construída a estação de Belém, saindo da Av. Tito Franco (atual Av. Almte. Barroso) com o Boulevard da Câmara (atual Dr. Freitas), para o Largo de São Brás (atual Praça Floriano Peixoto). Poucos são os que ainda lembram com detalhes a história de nossa ferrovia, quando muito, sabem apenas que havia uma estrada, que se interpunha entre Belém e Bragança, por aonde um trem ia e vinha. A história foi relegada, o delicado momento de sua extin¬ção em 1964, início de um governo ditatorial, diretamente interessado na consumação desse fato, favoreceu ainda mais que a amnésia do tempo acelerasse o processo de esquecimento. Os trilhos foram arrancados; as magníficas estações, construídas ao longo de todo o percurso, símbolos arquitetônicos da cultura moderna, que fazia parte da revolução mecânica, foram covardemente demolidas e devastadas pela força insensata e irresponsável de outra revo-


PRIMEIRA ESTAÇÃO Trem partindo pela Avenida Tito Franco, atual Almirante. Barroso, em frente ao antigo Inst. Agronômico do Norte (demolido).

lução. O abandono irresponsável de um incalculável patrimônio da Rede Ferroviária Federal, que somente a partir de 2007, começou a ser levantado pelo IPHAN, ou seja, quarenta e seis anos depois do acometimento dessa insanidade já seria suficiente, entretanto, a desarticulação da agricultura, responsável pela economia de todo o nordeste do Pará, o abandono do povo e suas lavouras que se perderam sem ter como escoar, as cidades e vilarejos que eram tocados única e exclusivamente pelo trem e que tiveram que rasgar caminho até alcançar a rodovia que passava a quilômetros de seus centros, transformaram-se em cicatrizes perenes. A região estacionou no tempo por quase trinta anos, transformando a realidade, que parecia um sonho, em pesadelo. Apenas a fumaça paira teimosamente no céu, confundindo-se com as nuvens, avistada pelos sonhadores, que ainda veem e escutam o trem e seu apito.

INAUGURAÇÃO DO PRIMEIRO TRECHO

Ferroviários em frente à Estação de São Brás.

Em 09 de novembro de 1884, aconteceu a viagem inau¬gural do primeiro trecho, um percurso de 33 quilômetros entre as estações de Belém e Benevides, com o tempo de 10h8min. Nesse mesmo trecho foram construídas as paradas e as estações ferroviárias de Entroncamento e de Ananindeua. Era uma bela manhã de domingo. O primeiro trem saiu exatamente às 8h00 da manhã e o segundo as 14h00, conduzindo autoridades e convidados das esferas política, social e administrativa, dentre eles o Presidente da Província Conselheiro João Silvestre de Sousa, o Bispo Dom Antônio de Macedo Costa, Corpo Diplomático residente em Belém, os engenheiros Weawer, Moura de Campos, entre outros, e as classes: empresarial e social, como um todo. Coube ao Engenheiro Pinto Braga, diretor da colônia, organizar todo o cerimonial da festa e receber os convidados. O destaque da festa coube ao Engenheiro Bernardo Caymari que, apesar de não estar presente naquele grande acontecimento, por motivo de doença, encaminhou, através do Conselheiro Tito Franco, Presidente do Clube Amazônia, ao seu representante Domingos Olímpio, as cartas de alforria, concedendo liberdade a vinte escravos residentes na região, comungando com os acontecimentos de 30 de março de 1884, quando foram libertados seis escravos, em uma solenidade presidida pelo Presidente da Província Visconde de Maracajú, gerando uma conotação com repercussão nacional, facultando à Benevides o honroso título de “A Terra da Liberdade”, traduzindo o espírito fraternal e humano dos quais os responsáveis por tão grande obra estavam revestidos. Para se imaginar o grande passo que havia sido dado, basta comparar o tempo de oito horas que se gastava através de rio e mata, única forma de acesso, até então, para se chegar à Benevides, com o tempo do trem. www.revistapzz.com.br 101


DOCUMENTÁRIO

N

o retorno à capital, às proximidades do quilômetro 14, entre Marituba e Ananindeua, por volta das 17h30m, aconteceu o primeiro descarrilamento na Estrada de Ferro de Bragança. O acidente foi provocado devido a uma chave da agulha do desvio, que funcionava nesse local, achar-se meio aberta, provavelmente devido à ignorância de algum transeunte. O acidente provocou o recurvamento de dez metros de trilhos e dormentes, obrigando os passageiros a retornarem à Benevides, e outros prosseguirem a pé até Belém, numa estafante viagem de 5h. Quatro meses depois da inauguração do primeiro trecho, os trilhos chegaram à Santa Izabel, sendo, em 16 de março de 1885, aberta ao público. No final do mesmo ano, chegou ao Apeú. O gigantesco passo era apenas o começo de uma grande realização, que ficou estacionado durante dez anos na Estação Ferroviária do Apeú, período

O audacioso projeto foi colocado em prática: Transformar a área geográfica central do Nordeste do Pará em um grande celeiro agrícola. em que o Governo Pro¬vincial acelerou o processo de colonização, iniciado em 13 de junho de 1875, quando da inauguração da Colônia de Benevides, vanguarda no processo de colonização da “Zona Bragantina”. Novas iniciativas foram tomadas: a primeira foi a encampação da estrada de ferro pelo Governo Provincial, a segunda foi a construção da Estação Central, localizada na Rua de São José Liberto, atual 16 de Novembro, esquina da Rua Almirante Tamandaré; interligada a S. Brás por um ramal de 3.500 quilômetros e, por último, a extinção da colônia de imigrantes de Benevides em 1877, sendo criada em sua área uma nova colônia de emigrantes nacionais, flagelados da seca do nordeste, denominada Colônia de Nossa Senhora do Carmo de Benevides. O tempo se encarregou das alterações. Assim, em 15 de novembro de 1889, foi proclamada a República. O primeiro governo Republicano tomou posse com Lauro Nina Sodré e Silva, substituído em 1897 por José de Paes de Carvalho. Em relação à estrada de 102 www.revistapzz.com.br

ferro, esses dois go¬vernos investiram na abertura de novos núcleos coloniais e na imigração, para a ocupação dos mesmos. O Governador Paes de Carvalho iniciou a construção da Estrada de Ferro de Benjamin Constant em 1900, interligando Bragança à colônia do mesmo nome, sendo esta concluída no governo de Augusto Montenegro. Finalmente, em 1º de fevereiro de 1901, o Dr. Augusto Montenegro assume o Governo do Estado e, em duas memoráveis administrações, conclui a estrada que, em 18 anos de administrações que o precederam, construíram apenas 118 quilômetros, encontrando-se em Igarapé-Açú, metade da linha principal a ser concluída, sem incluir nesse cálculo a extensão dos ramais que, somados a linha principal, totalizaram 293 quilômetros. No espaço geográfico entre Santa Izabel e Igarapé-Açú foram criadas, do final do período provincial ao final do governo de Paes de Carvalho, várias colônias agrícolas: Araripe e Ferreira Pena (Vila de Americano), Apéu, Castanhal, Marapanim (São Francisco do Pará), José de Alencar, Anita Garibaldi, Ianetama, Inhangapi, Jambu-Açú (Igarapé -Açú) e Santa Rosa, na Estrada da Vigia.


CASSACOS Os cassacos, como foram chamados os desbravadores, com seus terçados, machados, picaretas e serras, abrindo picadas para o assentamento dos dormentes e dos trilhos.

GOVERNO DE AUGUSTO MONTENEGRO

MARITUBA 22 de junho de 1907 - Fundação da Vila Operária de Marituba. Busto erigido na Praça Augusto Montenegro em homenagem ao Governador.

Via permanente — O tráfego da estrada estava aberto desde 31 de dezembro de 1900, até à Estação de Igarapé-Açú, no quilômetro 118. Segundo o relatório do chefe interino da 3ª secção, apresentado ao Diretor Geral dos Trabalhos Públicos, a linha achava-se em péssimas condições de conservação, tornando-se necessária uma substituição quase geral dos dormentes. Os acidentes causados pelo seu mau estado sucediam-se, com uma frequência assustadora. As condições em que Augusto Montenegro recebeu a E. F. B, eram realmente lastimáveis, o retrato do descaso administrativo na manutenção do trecho construído era um sinal de descrédito na conclusão da obra. Foi necessária muita determinação para que a obra, colocada como plano de meta de seu governo se concretizasse. As estações, em geral construídas sem arte, mal suportavam reparos. As obras de arte não possuíam a devida segurança; enfim, o aspecto geral da estrada gerava má impressão, tanto ao público como ao governo, e urgia providenciar, em primeiro lugar, relativamente, a segurança da linha. Apesar de a Província do Pará viver o período fausto da borracha, o caixa do Tesouro Provincial estava descoberto, não havia reservas para cobrir os gastos, que se multiplicavam na reconstrução da ferrovia, no prolongamento da estrada e na cobertura de todas as outras despesas, ineren¬tes ao governo. Um empréstimo de 650.000 Libras esterlinas, feito na Inglaterra, permitiu que as obras fossem conduzidas de forma célere, conforme o planejado: • Foram executadas todas as obras de recuperação da estrada: trocas dos dormentes, nivelamento da pista, diminuição das curvas, reconstrução de pontes e bueiros. • Recuperação da estrada. • Reconstrução das estações.

AUGUSTO MONTENEGRO Finalmente em 1º de fevereiro de 1901, o Dr. Augusto Montenegro assume o governo do Estado e em duas memoráveis administrações, conclui a estrada que em 18 anos de administrações que o precederam, construíram apenas 118 Quilômetros. uma extensão de 80 quilômetros, diminuindo consideravelmente a extensão e o custo da obra; e autorizar a construção do Ramal de Pinheiro (Icoaraci), das Oficinas de Marituba e consequentemente a Vila Operária de Marituba.

MARITUBA - Na língua Nhengatu significa: lugar abundante de “Mari ou Marís”. Árvore da família das icacináceas de excelente fruto comestível; ”tuba” significa abundante. A fusão dos termos deu origem ao topônimo do lugar. Inserida na gleba cedida pelo Governo Imperial para ser loteada pelo Governo Provincial, Marituba caracterizava-se como mais uma extensão do Núcleo Colonial de Benevides. A antiga fábrica de papel destruída por um incêndio em 1898, localizada em Marituba, foi entregue ao governo para pagamento de seu débito, no valor de 142 contos de réis. Depois, em 18 de setembro de 1903, foi repassada à Estrada de Ferro de Bragança, para que fossem construídas as oficinas mecânicas, que até então funcionavam precariamente na estação de São Brás. A área possuía 1.580 hectares, às quais foram anexados mais 200 de mata virgem. ALTERAÇÕES DO PROJETO ORIGINAL O projeto para a construção das oficinas Augusto Montenegro resolveu cance- em Marituba foi aprovado em dezembro de lar a construção do Ramal de Salinas, com 1903, sendo elaborados os trabalhos prewww.revistapzz.com.br 103


DOCUMENTÁRIO paratórios: roçado, desmatamento, nivelamento do terreno, assentamento de desvio para as novas oficinas, um poço para o fornecimento de água e assentamento do girador, que ficou concluído em fins de 1904. Em seguida, iniciou-se a edificação da casa da caldeira, com o teto construído com trilhos Decouville; forno de fundição, prédio para serraria e carpintaria com três hangares, ligados por 10 metros de vão cada um, com 75 metros de comprimento sobre colunas de aço forjado. Sobre o igarapé, perto do pontilhão, às margens da linha, a casa da bomba, reservatório d’água em alvenaria, com 12 metros de altura para conservar 32.000 litros de água e mais seis grupos de barracas para moradia provisória para 12 famílias, enquanto durava a construção da vila, sendo, mais tarde, pintadas e rebocadas para os aprendizes. Em 1905, estava todo o pessoal operário instalado em Marituba. Os mecanismos foram desmontados e transportados anteriormente, pouco a pouco, para Marituba, onde os instalou o mecânico Ezequiel Monteiro do Sacramento. Os mecanismos de carpintaria foram instalados pelos próprios operários. No ano de 1905, o assentamento dos trilhos corria célere em direção à Capanema. O então Governador Augusto Montenegro autorizou a construção da vila e da estação ferroviária. A estação do tipo 3ª classe, de madeira e tijolos, com beirais longos, coberta de fibrocimento, para abrigar as plataformas, sendo a estação locada entre duas linhas e entregue ao público, em 1º de fevereiro de 1907. A vila foi inaugurada em 22 de junho de 1907, em cerimônia presidida pelo diretor da estrada de ferro, Dr. Schindler. Com a presença de outras autoridades e futuros moradores da vila, teve início o Povoado de Marituba. A vila foi construída com toda a infraestrutura necessária: 17 grupos de duas casas, cada um para moradia dos operários, um grupo para escola, residência dos professores e farmácia, outro para armazém de comestíveis e moradia do pessoal do armazém, uma casa para o chefe das oficinas e outra para o posto policial.

Vila Operária de Marituba . Caixa D’agua para esfriar os motores

Oficinas da EFB

Estação Ferroviária de Pinheiro (hoje Icoaraci) 104 www.revistapzz.com.br


Antiga Estação Ferroviária da Vila Pinheiro Em 1869, o local onde hoje se encontra Icoaraci foi registrado e loteado ainda com o nome de Vila Pinheiro. Só em 1943, o nome Icoaraci foi oficializado, depois de a vila ter se tornado Distrito de Belém no ano de 1938. O edifício foi inaugurado em 1906, para servir de estação principal do Ramal de Pinheiro e está situado no quilômetro 22, a partir da Estação do Entroncamento. Depois de desativada em 1964, o prédio da estação serviu para abrigar um mercado municipal, até 1978. Hoje, funciona como um centro de vendas de artesanato e se encontra em péssimas condições, precisando ser restaurado. Antiga Caixa D’água da Ferrovia e Oficinas - MARITUBA A área onde hoje se situa o Município de Marituba nasceu como Vila Operária da Estrada de Ferro. Possui diversas edificações que, de alguma forma, estão relacionadas à antiga Estrada de Ferro de Bragança, como: caixa d’água, oficinas, casas dos operários, garagem de locomotivas e marco. A caixa d’água é uma edificação que, juntamente com as construções citadas anteriormente, forma um conjun-to arquitetônico e situa-se à margem da Avenida Fernando Guilhon, sendo ladeada por praças, residências e comércios. Representa um dos principais símbolos do município. Os prédios, onde funcionavam as oficinas da antiga Estrada de Ferro de Bragança, estão situados à margem da Rodovia BR-316 e, juntos, compõem um conjunto arquitetônico, que contava também com o edifício garagem das locomotivas e, estendendo-se ao outro lado da rodovia, o conjunto de casas da Vila Operária e a caixa d’água. É uma importante representação da história local. Antiga Estação ferroviária de Benevides A primeira Estação Ferroviária de Benevides foi inaugurada com a chegada da estrada de ferro em 09 de novembro de 1884, sendo a primeira estação e o primeiro trecho inaugurados na ferrovia. Em 1953, foi substituída, sendo uma das poucas ainda existentes. Poucos anos depois do fim da estrada de ferro, a estação se tornou Seminário de Igreja Protestante Norte Americana, o Seminário Bíblico Batista Equatorial. Oito anos depois passou a ser administrada pelo município, com a função de Biblioteca e Secretaria de Educação. Atualmente está incorporada ao patrimônio municipal, funcionando como “Casa do Cidadão”. A construção tem um estilo eclético simplificado, de planta retangular e volumetria constituída de apenas um pavimento,

Ruínas da 2ª estação de Santa Izabel. com aproximadamente 7,00 metros de altura, do solo até à cumeeira. Ruínas da Antiga Estação ferroviária de Moema Uma das obras arquitetônicas mais importantes, construída no final do século XIX, pelo então Intendente Municipal Antônio José de Lemos, dentro da área geográfica disponibilizada para a instalação da Colônia de Benevides, permanece teimosamente erguida, aguardando o reconhecimento de sua importância e quiçá o seu tombamento. Dentre tantas obras, construídas em seu governo, esta foi com certeza, a mais importante, construída com o coração e lapidada com a alma, na plenitude de sua emoção. Seu filho Tibiriçá contraíra a “Lepra”, na época incurável, provocada por um bacilo que penetra no organismo, provocando a necrose do lugar onde se aloja. No inicio do século, o único local adequado para receber os pacientes era o Leprosário do Tucunduba, de onde nenhum paciente saía com vida. Assim, buscando preservar a dignidade do filho, construiu o retiro, que o acolheu até à morte. Ainda hoje, pode ser observado o requinte do complexo arquitetônico, com os seus “chalets”, casarios coloniais, igreja em estilo gótico e praça alinhavada de postes ingleses. Praças que lembram em tudo a Praça Batista Campos, construída na sua administração. Uma obra de arte, que caracterizou o mais alto grau do acabamento aristocrático, na suntuosidade de uma Belém da “Belle Époque”. As ruínas, observadas às margens da

Br. 316, são restos da parada rodoviária, surgida juntamente com a rodovia. A ferrovia passava por detrás, saindo da localidade de Cupuaçú, até alcançar o Colégio Antônio Lemos, na entrada de Santa Izabel. Antiga Estação Ferroviária de Santa Izabel Em Santa Izabel, foram inauguradas três estações, a primeira delas com a chegada da estrada de ferro, em 1885, construída em taipa, substituída em 1907 por uma totalmente importada da Inglaterra. Na década de 1950, por falta de manutenção, foi demolida e a nova estação foi construída em outro endereço. A estação já foi sede do Rotary Club, junto com o SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto), posteriormente Casa da Amizade e Biblioteca e, atualmente, abriga uma escola de ensino infantil. Antiga Estação Ferroviária de Americano Inaugurada no ano de 1885, a Estação de Americano está implantada em um terreno plano, elevada em relação ao nível da rua, na esquina do cruzamento de duas vias, sendo a principal no local por onde passavam os trilhos da antiga estrada de ferro e a segunda sendo responsável pela ligação do distrito com a BR-316. Antiga Estação ferroviária do Apeú O edifício da antiga estação ferroviária foi inaugurado em 1885, como ponta de trilhos da estrada de ferro, até então com 61 km. É uma edificação isolada, que se situa à margem da Avenida Barão do Rio Branco, sendo ladeada por praças e residências. Está implantada no terreno com sua maior www.revistapzz.com.br 105


DOCUMENTÁRIO

dimensão na fachada frontal, voltada para a praça, e a fachada posterior voltada para a Avenida Barão do Rio Branco. Esta avenida, originalmente, advém da estrada de ferro, portanto sua atual configuração mostra o percurso do trem e o seu desvio. A estação foi o motivo do crescimento do comércio, configurando-se como núcleo da vila. Locomotiva e Vagões A locomotiva de nome Castanhal, assim como o vagão que se encontra atrelado a ela, percorreu os caminhos da antiga Estrada de Ferro de Bragança, mas hoje repousa no Município de Castanhal, sob uma gare que não é a original e sim uma réplica, construída na Praça do Estrela, já que a estação original ficava situada onde hoje é a Avenida Barão do Rio Branco. A locomotiva ali se encontra por esforço do Prefeito Pedro Mota, que lutou para que ela permanecesse na cidade após o término da ferrovia. A locomotiva e o vagão são os únicos objetos no entorno, que se relacionam diretamente à estrada de ferro, e atuam como elementos decorativos na praça. A locomotiva é toda em ferro, sendo composta basicamente de três partes principais: a base, onde estão as rodas; a caldeira, onde estão afixadas as peças que fazem parte do sistema de funcionamento a vapor; e a cabine do maquinista.

cisco do Pará, iniciou-se com a chegada da estrada de ferro, possivelmente em 1897, ano em que foi aberto o trecho Apeú/Jambu-Açú. Em 1963, o município passou a se cha¬mar São Francisco do Pará; porém, já em 1944, era considerado município. Hoje o que resta da ponte é apenas o embasamento em pedra, de ambas as margens do igarapé. As medidas das bases são 4,80m x 5,40m, com uma altura de 4 metros.

Antiga ponte de ferro sobre o Rio Jambu -Açú A Vila de Jambu-Açú, que deu origem ao Município de Igarapé-Açú, era também um ponto de parada das locomotivas. A vila, que existe até hoje, situa-se ao longo da PA-320, tendo fim no igarapé onde está localizada a ponte; esta, por sua vez, é um elemento isolado, implantado paralelamente à PA-320, no local onde, obviamente, seguia a antiga Estrada de Ferro de Bragança. Em seu entorno encontra-se a vila, no sentido Bragança-Belém, e áreas descampadas no sentido oposto. O aterro que dá sustentação ao seu embasamento, em pedra, está parcialmente desterrado, deixando à mostra parte da estrutura metálica da fundação. A ponte apresenta uma composição rítmica, com simetria rígida, em decorrência da padronização das peças de sua estrutura. Sustentando-a em meio ao igarapé, encon-tram-se duas estruturas Ruínas de Ponte sobre o Rio Marapanim em concreto, que, em suas faces frontais, O Município de Anhangá, hoje São Fran- formam triângulos vazados. Quatro vigas em 106 www.revistapzz.com.br

ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE CASTANHAL A Estação Ferroviária de Castanhal era imponente, destacando-se no centro da Avenida Barão do Rio Branco (antiga Augusto Montenegro), entre as transversais Maximino Porpino e Magalhães Barata. As duas plataformas de embarque e desembarque totalmente cobertas davam a impressão de o trem estar entrando em um túnel. ferro formam a base, onde se sustentavam os trilhos, essas bases são interligadas por peças metálicas que se cruzam em forma de “X”, tanto horizontal quando verticalmente, garantindo a estabilidade da estrutura. Mercado Municipal de Igarapé-Açú No ano de 1932, o Governador Barata visitou a Cidade de Igarapé-Açú, deu ordem ao Intendente Coronel La Roque para demolir o mercado municipal, construído no ano de 1919, em paredes de tábuas, já que este prédio encontrava-se em péssimas condições de uso. Em Igarapé-Açú, havia uma estação do trem, com um grande número de pessoas que ali passavam em viagem e, por isso, não poderia ter um mercado municipal na situação precária em que se encontrava. O Coronel La Roque achou por bem entregar ao Engenheiro da Secretaria de Obras do Estado


Antiga Estação Ferroviária de Nova Timboteua do Pará, o suíço Schumandek, uma foto de um prédio, que ele mesmo fotografou, em uma das suas visitas à Suíça, para ser o modelo do novo Mercado Municipal. Realizadas as devidas adaptações na confecção da planta, o engenheiro Schumandek deu inicio à construção do mercado. No ano de 1934, La Roque deixa o prédio em paredes levantadas e cobertas. Só em 1939 é retomada a obra de construção do prédio. Após oito anos, ou melhor, em 08 de junho de 1940, o Prefeito José Germano de Melo inaugura o novo Mercado Municipal de Igarapé-Açú. Antiga Caixa D´água Ferroviária - Livramento O Distrito de Livramento, localizado no Município de Igarapé-Açú/PA, tem esse nome devido ao rio que corta o local; entretanto, o rio que outrora foi conhecido pelo nome de Livramento, hoje é denominado Maracanã. A estrada de ferro chegou à localidade no ano de 1906, logo, pressupõe-se que a caixa d’água data da mesma época. A caixa d’água está situada à margem esquerda do Rio Maracanã, junto à ponte e, com esta, formava o conjunto de equipamentos necessários para a continuação das viagens, já que a água que armazenava servia para encher as caldeiras das locomotivas. Seu partido arquitetônico é simétrico, sua volumetria corresponde a pédireito duplo com 7,15 metros. A estrutura é formada por quatro pilares delgados, de seção retangular, travados por um vigamento quadrado, que a partir do solo

seguem em direção ao centro da caixa, sendo interrompidos por um vigamento circular, que sustenta a base da caixa d’água propriamente dita, também circular. Toda a estrutura é em concreto armado. O tubo de queda está localizado em uma das extremidades e na outra, existe uma escada de acesso ao reservatório. A caixa d’água apresenta um estado de conservação ruim, com trechos faltantes e alguns quebrados. Antiga Ponte da Estrada de Ferro sobre o Rio Livramento A ponte está situada sobre o Rio Maracanã, que alaga as suas margens nos primeiros meses do ano. Forma conjunto com a caixa d’água em concreto armado, que está situada em uma de suas cabeceiras. Seu partido é retangular, apresentando simetria formal rígida. Sua volumetria corresponde a uma altura de 4,50 metros em sua parte mais alta, os pilares em concreto. Sua estrutura de embasamento é em pedra e concreto. Nas margens do rio, encontram-se estruturas de sustentação em concreto armado, de onde saem os pilares, também em concreto, que demarcam o ponto onde a ponte já não está mais em contato com o solo e atravessa o rio. Entre essas duas estruturas, nas margens, estão localizadas as vigas longitudinais em ferro, que dão sustentação à toda a estrutura superior de fechamento lateral da ponte. Essa estrutura de fechamento lateral é de peças metálicas, que se cruzam e formam desenho geométrico constante e padronizado, de

acordo com o tamanho e a disposição das peças. As peças, que sobem verticalmente, sem inclinação, dão origem aos pórticos, que se repetem por toda a ponte, de forma rítmica e simétrica. Os pórticos são cobertos por vigas treliçadas. O seu piso é formado por entabuamento, que repousa sobre as vigas metálicas de sustentação; esse piso é estreito, possibilitando a passagem de apenas um veículo por vez. A estrutura metálica está pintada com tinta esmalte sintética na cor preta, sendo que algumas peças diagonais da estrutura de fechamento lateral apresentam-se pintadas na cor amarela. Os pilares e a estrutura de sustentação de concreto estão pintados com tinta à base de água na cor branca, estando essa pintura bastante desgastada, principalmente na base. Antiga Estação Ferroviária de Nova Timboteua Em 1888, Serafim dos Anjos Costa requereu, junto ao governo provincial, a área de ter¬ras onde hoje se localiza a sede municipal de Nova Timboteua. O local atraiu novos moradores e, em 1892, o núcleo já estava instalado. O Povoado de Timboteua foi reconhecido em 1895, porém, a população entrou em decadência e o povoado acabou se extinguindo em 1906, em função da construção da Estrada de Ferro de Bragança, que passava a alguns quilômetros dali. Com a estação ali erigida, surgiu um núcleo às margens da estrada de ferro, que foi denominado de Tabuleta, por causa da existência de um marco www.revistapzz.com.br 107


Prédio da da antiga Estação Ferroviária de Bragança demolido após a extinção da E.F.B. da quilometragem da via férrea. A estação, no entanto, já se chamava Timboteua, desde a inauguração. Era essa, aliás, a estação com a localização mais alta da rede bragantina, estava a 50 metros de altitude. Em 1915, devido ao progresso, Tabuleta atingiu a condição de povoado. Essa denominação não perdurou, optando os moradores pela nomenclatura de Nova Timboteua, para diferenciar da “velha” Timboteua. O Município de NovaTimboteua foi criado em 1943. A estação é uma edificação isolada, que se situa à margem da Avenida Barão do Rio Branco, sendo ladeada por praças, residências e pontos comerciais. Está implantada no terreno, de forma a ter a sua maior dimensão na fachada frontal, voltada à Avenida Barão do Rio Branco. Antiga Estação Ferroviária de Peixe Boi A Estação Ferroviária de Peixe-Boi foi inaugurada em 1° de março de 1907, no quilômetro 163. Era do tipo 3ª classe, constituída por um triângulo de reversão, desvio de 150 graus. A edificação está implantada num terreno levemente inclinado, que aumenta asua cota em direção ao rio e ao Norte. A construção fica na esquina da Rodovia PA242 (Avenida Marechal de Ferro), com a Travessa Plácido de Castro. Essa é atualmente usada como centro comercial municipal e Sindicato dos Trabalhadores Rurais, no qual também funcionou um gabinete odontoló108 www.revistapzz.com.br

gico, inaugurado no ano de 1998. O estado de conservação geral da antiga estação é bom, apesar das modificações adotadas para a adaptação aos novos usos. Antiga Estação Ferroviária de Tauari A primeira estação de Tauari foi inaugurada no dia 1° de janeiro de 1908, no km 191. Sendo o conjunto ferroviário composto ainda, por um desvio e duas casas geminadas para funcionários da estação. O prédio da antiga estação existente, hoje substituiu a edificação anterior e possui estilo de características do ecletismo simplificado. Tauarí tem seu nome originário do grande número de árvores de tauarizeiros, no início da ocupação da vila, que em 1906, possuía somente quatro moradores caboclos. Os nordestinos foram os primeiros imigrantes a chegarem, ainda na primeira década. Com a implantação e o advento da ferrovia, a economia mostrou mudanças, com a instalação das primeiras casas comerciais, junto com a facilidade de transporte para escoar a produção de arroz, algodão, milho e feijão. Assim também era a facilidade de acesso à região, quando, na década de 1920, chegam os estrangeiros, advindos principalmente do Líbano, Turquia, Portugal e Espanha. O fim da Estrada de Ferro de Bragança levou embora a oportunidade de desenvolvimento da região.

tratava de uma vila bastante pequena, com moradores basicamente advindos do nordeste e de algumas tribos indígenas. A estrada de ferro chegou naquela localidade no ano de 1908, ano em que foi construído o edifício que serviu de estação; apresentava volumetria constituída por um único pavimento, com pé direito de aproximadamente 5,45m (hoje não possui mais o forro). O seu partido é regular, e originalmente a planta era simétrica. Hoje, pelas alterações sofridas devido às reformas, a planta não apresenta essa simetria, apesar de volumetricamente ainda manter essa característica. A edificação é eclética, com pequena influência “art decò”, perceptível em seu sobressalto na volumetria central e sua marquise em concreto.

Antiga Estação Ferroviária de Tracuateua A antiga estação ferroviária do Município de Tracuateua foi inaugurada em 1908, no qui¬lômetro 211; era do tipo 3ª classe, constituída de um desvio de 150 metros. A edificação tem estilo eclético simples e rústico, com características predominantes na simetria e na hierarquização dos espaços internos. A antiga estação situa-se no centro da cidade, às margens da PA-253. Nas suas imediações, encontramos uma pequena praça arborizada, comércio de pequeno a médio porte e prédios institucionais. As construções do tipo alvenaria não passam de dois pavimentos, na maioria de apenas um, Antiga Estação Ferroviária de Mirasselvas com pouco afastamento ou nenhum na fachaO Distrito de Mirasselvas, antes da che- da frontal, assim como nas laterais. gada da estrada de ferro já existia, porém se


ESTAÇÃO DE BRAGANÇA Prédio da da antiga Estação Ferroviária de Bragança. No detalhe a Marujada desfilando em dia de Festa ao lado da estação.

Antiga Caixa D’água da Ferrovia - Bragança A estrada de ferro chegou à Bragança no ano de 1908, com a conclusão das obras dos trilhos e da Estação da Estrada de Ferro de Bragança. A caixa d’água está situada às margens da antiga ferrovia, hoje área urbana de Bragança no Bairro do Taíra, sendo ali elemento isolado, não formando conjunto com nenhum outro equipamento da estrada de ferro. A água que armazenava, servia para encher as caldeiras das locomotivas, que passavam por ali rumo à estação, que hoje não mais existe. Seu partido é simétrico, sua volumetria corresponde a pé-direito duplo, com 7,15 metros. A estrutura é formada por quatro pilares delgados, de seção retangular, travados por um vigamento quadrado, que a partir do solo seguem em direção ao centro da caixa, sendo interrompidos por um vigamento circular, que sustenta a base da caixa d’água, também circular. Toda a estrutura é em concreto armado. O tubo de queda está localizado em uma das extremidades, e na outra existia uma escada de acesso ao reservatório. BRAGANÇA — Sobrenome de origem geográfica e transposição toponímica de Portugal. Origina-se do latim “Brigantia”, por intermédio de “Bregança”, forma lusitana de um nome céltico de povoação fundada por Brigo, significando Castelo, Fortaleza; Dinastia reinante em Portugal e Algarves, de 1640 a 1910. Debruçada à margem esquerda do Rio Caeté, “Mato Bom”, na língua tupi, Bragança

conserva até hoje o cheiro nativo de cidade do interior. Ao retornar às origens através dos relatos de Armando Bordallo da Silva, encontramos Diogo Leite e Baltazar Gonçalves realizando as primeiras explorações na região, onde mais tarde surgiria a Pérola do Caeté. Cronge da Silveira, entretanto, afirma que os franceses, liderados por Daniel de La Touche, Senhor De La Ravardière, foram os primeiros a explorar a região bragantina. No dia 02 de outubro de 1854, através da Resolução nº-252, sancionada pelo Presidente da Província, Conselheiro Sebastião do Rego Barros, foi elevada à categoria de cidade, com o nome de origem portuguesa Bragança. Inauguração de E. F. B., em 03 de abril de 1908 - (Relato). “Às 23 horas do dia 02 de abril de 1908, o Senhor Governador Augusto Montenegro partiu em comboio especial, de uma parada na Gentil Bittencourt com a 22 de junho, com destino à Bragança, acompanhado de sua comitiva. Às 6 horas e 45 minutos, o trem se aproximou de Bragança. Antes mesmo de entrar na cidade, o povo se aglomerava às margens da estrada, saudando o governador, que, postado na plataforma, agradecia com efusivos gestos.” “Todos reunidos, no final da linha férrea, o Senhor Comendador José Barbosa dos Santos Sobrinho, pela firma Pereira e Barbosa & Cia., falou, dirigindo-se ao Governador Augusto Montenegro: “Como acabais de verificar, a firma Pereira

e Barbosa & Cia. chegou com os trilhos da Estrada de Ferro de Bragança até seu ponto terminal. Deixou ela de colocar o último grampo para que seja colocado porV. Exª., para cujo ato vos convido, felicitando-vos por ter sido no governo deV. Exª. que esta grande obra teve fim.” Numa salva de prata, o Visconde de Monte Redondo ofereceu ao governador um grampo e um martelo de prata, colocando o Dr. Augusto Montenegro o grampo no dormente. Feito isso, o Desembargador Santos Sobrinho retirou o grampo do dormente para em seguida colocá-lo em um estojo de madeira, sobre cuja tampa se lia os seguintes dizeres: *Conclusão da Estrada de Ferro de Bragança, saudações dos construtores do último trecho, Pereira Barbosa & Cia., ao Exmo. Sr. Governador do Pará Dr. Augusto Montenegro*. Terminado esse ato, o Governador Augusto Montenegro falou que era com o mais vivo prazer que realizava naquele momento o último ato de assentamento dos trilhos da Estrada do Ferro de Bragança. Acrescentou que, desde 1875, se cuidava levar aquelas duas fitas de aço até a importante e rica Cidade de Bragança. Agradeceu o auxílio prestado pela firma construtora e os esforços do Dr. Inocêncio Hollanda, engenheiro chefe de obras. Terminou o seu discurso brindando o povo. Encerrada a sessão, foram erguidas vivas ao Governador e ao Senador Antônio Lemos.

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DOCUMENTÁRIO

EXTINÇÃO DA ESTRADA DE FERRO O déficit da ferrovia foi a grande arma encontrada pelo Ministro da Aviação, General Juarez Távora, no Governo Militar do também General, Humberto de Alencar Castelo Branco, para justificar sua assinatura no Ato que extinguiu a Estrada de Ferro de Bragança no ano de 1964. Apesar de toda a luta do povo bragantino, dos políticos da terra e do Estado como um todo, o Governo Federal não abriu mão de sua decisão e, de maneira inflexível, determinou a data máxima para o funciona¬mento da ferrovia: 31 de dezembro de 1964. De acordo com os relatórios do Coronel Roberval Silva, Presidente do Grupo de Trabalho da Estrada de Ferro de Bragança, relacionamos os números e os respectivos nomes das locomotivas existentes na época da extinção da Estrada de Ferro. Trinta locomotivas, sendo quatro a diesel, não identificadas. 1 – Santa Izabel; 2 – Belém; 3 – Crespo de Castro; 4 – São Braz; 5 – Lauro Sodré; 6 – Pará; 7 – Apeú; 8 – Bragança; 9 – Peixe Boi; 10 – Caripi; 11 – Jambu-Açú; 12 – Quatipuru; 13 – Maracanã; 14 – Pinheiro; 15 – Augusto Montenegro; 16 – Marituba; 17 – Sá Pereira; 18 – Joaquim Távora; 19 – Timboteua; 21 – Açaiteua; 22 – Desmontada; 23 – Rio Branco; 24 – Anhanga; 25 – Capanema; 26 – Cametá; 27 – José Serrão; 28 – Castanhal; 29 – Igara110 www.revistapzz.com.br

pé-Açú; 30 – Tauarí. O levantamento da situação econômica das ferrovias do Brasil, realizado a partir de 1964, no Governo de Juscelino, tinha como re¬sultado o déficit de todas elas. Apesar do pla¬no de metas do referido governo ser: “Quanto mais rodovias, maior o desenvolvimento”, as ferrovias foram mantidas. O Presidente Jânio Quadros, em seus discursos de campanha na Capital Paraense e em Bragança, assumiu o compromisso de revitalizar e manter a Bragantina; chegou, in¬clusive, a enviar quatro locomotivas a diesel, renunciando logo depois. O país vivia um momento de transição política, com a subida ao poder do regime militar. A data 31 de março de 1964, determinava o marco inicial do Governo Ditatorial. O Presidente Humberto Castelo Branco é empossado, para, em seguida, dois meses depois, autorizar a extinção da Estrada de Ferro de Bragança. A subserviência e a dependência do Brasil, junto ao Governo dos Estados Unidos, foram determinantes para a extinção da nossa ferrovia. Os americanos estavam produzindo transportes automotivos em grande escala, precisavam vendê-los, e a custo do sacrifício do mais importante meio de transporte de nos¬so Estado, a Estrada de Ferro de Bragança, o Pará foi o escolhido para receber a frota de veículos americanos.

ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE BRAGANÇA Prédio da da antiga Estação Ferroviária de Bragança. No detalhe a Marujada desfilando em dia de Festa ao lado da estação. Diversas justificativas foram feitas: “A fer¬rovia deficitária era apenas de transporte de cargas”, ou “A Belém Brasília estava chegan¬do para interligar o Pará ao resto do Brasil”. A covardia insana de nosso governo não se preocupou com a população, com a produção agrícola das várias colônias, que se estendiam de Belém à Bragança, que, a partir da extinção, perderam-se por falta de trans¬porte para escoá-las, obrigando o agricultor a abandonar o campo e mudar para a área urbana, em busca de outra forma de sobrevivência. No dia 31 de dezembro de 1964, a “Maria Fumaça” fez sua última viagem, seu apito soava com lamento de despedida, restando apenas: “NO CÉU A FUMAÇA E AS MARCAS DOS TRILHOS NO CHÃO”.


Transcrição do Aviso da Rede Ferroviária Federal, publicado em BIOGRAFIA JOSÉ LEÔNCIO FERREIRA DE SIQUEIRA nasceu em 16 de outubro de 1946, na A Província, em 31 de dezembro de 1964. Extinção da Estrada de Ferro REDE FERROVIÁRIA FEDERAL S/A ESTRADA DE FERRO DE BRAGANÇA AVISO AO PÚBLICO A superintendência da ESTRADA DE FERRO DE BRAGANÇA, em obediência à decisão da Diretoria 187/64, de 18 de dezembro de 1964, da REDE FERROVIÁRIA FEDERAL S/A., avisa aos seus usuários que suspenderá o tráfego de seus trens de carga e passageiros, a partir do dia primeiro de janeiro de 1965. Belém, 26 de dezembro de 1964. LOURIWAL REI DE MAGALHÃES Superintendente Substituto em Exercício (Ult. Pág. E. 17.058) Oitenta e dois anos!... Tempo que o próprio tempo não pode apagar. Caminhos rasgados no coração da floresta e dilacerados no peito de cada um que viveu esse período de transformação. A fumaça expelida pela chaminé da “Velha Maria Fumaça” transformou-se em cúmulos e goteja até hoje lágrimas de saudade. A insensatez torna o homem mesquinho; quando movido por interesses particulares, expõe o povo por quem ele é responsável sem se importar com as consequências. Trilhos: O caminho dos Sonhos é na realidade um auto reencontro, enlevado de lembranças maravilhosas, colorido com poesias indescritíveis, fragmentos do grande amor que sinto por Bragança. Uma viagem no tempo. Retorno a uma época de grandes realizações. Responsável pelas mudanças sociais, econômicas e culturais de toda a região do Nordeste do Pará, principalmente da zona bragantina, delimitada dentro dos 12.317 quilômetros quadrados, destinados para a construção da Estrada de Ferro de Bragança. Doar-se integralmente, “Garimpar” incansavelmente cada fragmento que a história pode mostrar e montar o infinito quebra cabeças, pois a cada peça encontrada, cria-se a necessidade de 1000 outras peças para responder a pergunta que ele, aquele pequeno Fragmento contém.

Cidade de Vigia, no Estado do Pará. Filho de Abelardo da Conceição Siqueira e Almerinda Monteiro Ferreira de Siqueira. Seu genitor, funcionário público federal do IBGE, onde exerceu a função de Agente de Estatística, atuou em vários municípios do Nordeste Paraense. Dessa forma, o Autor, desde a mais tenra idade, pode desenvolver o seu conhecimento da “Zona Bragantina”, convivendo com os costumes e culturas regionais. Residiu nas Cidades de Vigia, Salinas, Maracanã e Bragança; viajando por toda a extensão da estrada de ferro e por vicinais, que interligavam as cidades litorâneas à linha tronco da Estrada de Ferro de Bragança. Profissionalmente, atuou até o ano 2000, em quatro empresas multinacionais: Olivetti do Brasil S/A, Xerox do Brasil S/A, Isapel – Indústria de Sacos de Papel S/A, e Jolimode Roupas S/A (Du Loren), cobrindo os Estados do Piauí, Maranhão, Pará, Amapá, Amazonas, Acre, Rondonia e Roraima. A partir do ano 2000, iniciou sua trajetória literária, fundamentando-se na Literatura Histórica, iniciando as suas pesquisas pelo Nordeste Paraense, em especial pela Estrada de Ferro de Bragança, a grande responsável pelo desenvolvimento da Zona Bragantina, um celeiro histórico dos mais importantes do nosso Estado, que começa com a sua colonização, a construção da Bragantina: Estrada de Ferro de Bragança; o surgimento de todas as cidades hoje existentes na área central do Nordeste Paraense e a interligação das cidades litorâneas à estrada de ferro, através de rodovias vicinais. Em 2008, lançou a primeira edição dessa embriagante pesquisa, com o título “Trilhos: O Caminho dos Sonhos” (Memorial da Estrada de Ferro de Bragança), patrocinada pela Prefeitura Municipal de Bragança. No mesmo ano, a convite da CELA – Centro de Estudos Luso Amazônicos, da UFPA, coordenado pela Dra. Maria de Nazaré Paz de Carvalho, acompanhou como cicero¬ne da comitiva de Bragança de Portugal, que visitou pela primeira vez Bragança do Pará, no período de 22 à 27 de dezembro daquele ano. Na oportunidade, sua recém-lançada obra foi entregue como referência histórica do Município. Nos dias 2 e 3 de abril de 2012, participou, na nossa Bragança, do encontro acadêmico internacional entre as academias de Bragança do Pará e Bragança de Portugal. Recentemente, no período de 6 a 9 de junho de 2013, participou em Bragança de Portugal, como palestrante, do “Artes e Livros – Encontro de Academias”, em Trás-os-Montes de Bragança de Portugal. Em 4 e 5 de junho de 2014, participou, em Bragança do Pará, como pa-lestrante e Mestre de Cerimônia do II Encontro de Lusofonia, entre as Academias de Bragança do Pará, Academia Paraense de Letras e Academia de Trás-os-Mon¬tes de Bragança de Portugal. Dia 15 de maio de 2008, foi empossado Membro da Academia de Letras e Artes de Bragança. Ocupando a cadeira de nº 19, Patrono Dr. Armando Bordallo, e recebeu da Câmara Municipal de Bragança o Título Honorifico de Cidadão de Bragança. Em 2009, foi convidado pelo IPHAN – Instituto de Pesquisas Histórica e Artística do Pará, através da Superintendente Regional Dra. Maria Dorothéa Lima, a colaborar na localização dos bens patrimoniais da antiga Estrada de Ferro de Bragança, vinculada à Rede Rodoviária Federal, pertencente à União. O trabalho resultou na elaboração do Espólio da Estrada de Ferro de Bragança. Na oportunidade, recebeu o reconhecimento literário da obra “Trilhos: O Caminho dos Sonhos”, obra que serviu como base para a localização dos referidos bens, e o convite para compor um grupo de escritores, escrevendo matérias selecionadas a respeito da estrada de ferro. Coube ao autor de “Trilhos”, o trabalho sobre a Estrada de Ferro de Alcobaça e os Ramais da Estrada de Ferro de Bragança, com 25 páginas para cada assunto e que, em breve, fará parte de uma edição especial lançada pelo Orgão. No mesmo ano, a convite da Prefeitura Municipal de Benevides, iniciou as pesqui¬sas sobre o Município de Benevides, para a elaboração do livro do município. Em outubro de 2011, a Fundação Cultural do Pará “Tancredo Neves”, através da Diretoria de Lei¬tura e Informação, sob a direção do Dr. Sérgio Massoud, creditou à Obra “Trilhos: O Caminho dos Sonhos”, um novo reconhecimento da riqueza literária da obra, cuja reedição fora lançada naquele ano, no Auditório David Mufarrej, da UNAMA, Campus Alcindo Cacela. O Projeto Lei Semear aprovou por dois anos consecutivos, 2010 e 2011, a reedição especial da obra “Trilhos: O Caminho do Sonhos” (Memorial da Estra¬da de Ferro de Bragança), em tamanho A4, acrescida de 80 páginas de textos e 40 fotos inéditas. A aprovação reflete a potencialidade de tão importante trabalho. Infelizmente, o autor não conseguiu captar os patrocínios autorizados, para concre¬tizar o trabalho. No dia 27 de janeiro de 2012, foi empossado como Sócio Efetivo do IHGP – Instituto Histórico e Geográfico do Pará, ocupando a cadeira de nº 39, Patrono Dr. Theodoro Braga. Em 25 de fevereiro seguinte, assumiu o cargo de Diretor da Comunicação Social, de tão importante instituição. No dia 28 de março de 2014, lançou a obra “TERRA DA LIBERDADE – Benevides: História e Colonização”, com o parecer de tres doutores da UFPA, UNICAMP e USP, credenciando o trabalho de 472 páginas, como obra de Pesquisa.

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TURISMO

Israel Pegado

ROTA TURÍSTICA

A Setur prepara o Mapa de Oportunidades de Negócios da Rota belém bragança, que será feito com base nas informações documentais e pesquisas de campo dos inventários das oferta turística dos 13 municípios que compõem a rota.

O

processo passa pela organização do Estado, mas fundamentalmente do empresário e do cidadão, no que possa significar desenvolvimento, a partir de uma estratégia, que é a rota turístico cultural Belém-Bragança, trazendo cada vez mais impactos positivos para a economia local. A ideia é que o fluxo que passa pela BR-316 possa ser desviado para os atrativos dos municípios, através da sinalização turística, promoção e divulgação da rota, além de informações disponibilizadas a partir de aplicativos móveis, que servirão para estimular e motivar as pessoas a conhecerem esses destinos. As oportunidades de negócios são muitas. Incluem restaurantes, cerâmica, pontos de venda de artesanato, hortifrutigranjeiros, especiarias como queijo caseiro, compotas, entre outros e balneários com infraestrutura de serviços, que poderão se beneficiar diretamente com um tempo de permanência maior dessas pessoas em seus municípios. O turismo é um setor que agrega valor na maioria das demais atividades produtivas, e abrirá inúmeras oportunidades aos 13 municípios que compõem a rota. “Uma rota turística, como a Belém-Bragança que estamos construíndo, precisa ser trabalhada sob a óti-

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ca do tempero cultural, porém deve ser também dimensionada numa visão da paisagem, dos produtos que possam ser adquiridos e daqueles que possam ser consumidos. Trata-se, na realidade, de desenvolver um trabalho sob o princípio da eco-

“Uma rota turística, como a Belém-Bragança que estamos construíndo, precisa ser trabalhada sob a ótica do tempero cultural, porém deve ser também dimensionada numa visão da paisagem, dos produtos que possam ser adquiridos e daqueles que possam ser consumidos. Trata-se, na realidade, de desenvolver um trabalho sob o princípio da economia e da mobilidade das pessoas.” nomia e da mobilidade das pessoas. Neste sentido, é fundamental a participação de empresários, em todos os seus níveis, através das associações comerciais, no fortalecimento dos negócios já existentes e naqueles que ainda possam ser criados.” Uma das formas que a secretaria planeja para fomentar negócios na

rota é a construção de barracas ao longo do percurso das PA’s, em formato de vagões de trem, que serão utilizados para espaços de alimentação e venda de utensílios de produção associada das comunidades no entorno da rota turística, em parceria com as prefeituras locais, que ficarão responsáveis pela gestão dos espaços. Para isso, a Setur prepara o Mapa de Oportunidades de Negócios da Rota, que será feito com base nas informações documentais e pesquisas de campo dos inventários das oferta turística dos 13 municípios que compõem a rota. No momento, os diagnósticos de Santa Izabel, Benevides e Bragança estão concluídos e a secretaria trabalha para finalizar o de Peixe-Boi, Tracuateua, Igarapé-Açu, São Francisco do Pará, Belém e Marituba, que já foram iniciados. A Setur costura ainda com o Sebrae uma parceria para capacitação profissional e qualificação na prestação de serviços ao longo da rota turística Belém-Bragança. Nos planos, atenção especial para a formalização, gestão empresarial e ambiental, e inovação. A secretaria também agiliza o processo da sinalização turística complementar do percurso com 230 novas placas de boas vindas, indicação e atrativos nos 13 municípios que compõem a rota. A sinalização


ADENAUER GÓES

“Uma rota turística, como a

Belém-Bragança que estamos construíndo, precisa ser trabalhada sob a ótica do tempero cultural, porém deve ser também dimensionada numa visão da paisagem, dos produtos que possam ser adquiridos e daqueles que possam ser consumidos. Trata-se, na realidade, de desenvolver um trabalho sob o princípio da economia e da mobilidade das pessoas” explica Adenauer Goes.

principal foi feita em parceria com a Setran com a instalação inicial de 108 placas indicativas de atrativo turístico, trânsito, pórticos, semi-pórticos, painéis e ainda 7 tótens metálicos em localidades dos 13 municípios que compõem a rota. Os tótens são instalados em lugares onde haviam antigas estações do trem. São dois em Belém e um nos municípios de Ananindeua, São Francisco, Igarapé-Açu, Capanema e Bragança. O estudo histórico e documental da rota contou com a parceria do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

História econômica - Para o historiador Leôncio Siqueira, de certa forma a rota turística contribuirá para reproduzir o desenvolvimento econômico que a extinta ferrovia Belém-Bragança permitiu entre 09 de novembro de 1884, quando teve seu primeiro trecho inaugurado, até 30 de dezembro de 1964, quando foi desativada. “Historicamente, a estrada de ferro nasceu para escoar a produção dos municípios que a compõem a região, mas acabou por se transformar num corredor de desenvolvimento, através da troca de informações, conhecimento, mercadorias e a interação de pessoas. Benevides ainda tem muito dessa história”, garantiu ele. “Esse trabalho da Setur com as prefeituras mostra a importância do resgate da história e da cultura da Estrada de Ferro Belém-Bragança. Esperamos com a rota agregar valor a todos os municípios que a compõem, e fortalecer suas economias, gerando emprego e renda, e com isso melhores condições de vida para a população”, ressaltou o prefeito de Benevides, Ronie Rufino da Silva. O prefeito de Santa Izabel do Pará, Gilberto Pessoa, disse que a oportunidade “é uma parceria muito importante, que vai gerar recursos em nossos municípios através do turismo”. www.revistapzz.com.br 113


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CINEMA

Carlos Pará

CINEMA NO CAETÉ

Bragança viveu intensamente a época do cinema, um momento de sonhos que fascinava os espectadores de Bragança. E agora retoma suas atividades com projetos que incentivam o acesso, a pesquisa, a formação e a produção.

D

e Acordo com o poeta, teatrólo- “Assisti muitos filmes e lia sobre cinema. go e pesquisador Aviz de Castro, Adorava a dinâmica e o formato dos filmes o primeiro cinema de Bragança clássicos do cinema mudo com Charles foi o Cine Recreio que funcionava Chaplin, que pela força gestual e sua inteno canto da rua “Marechal Floriano” com a gração de ator com elenco, me fascinava. travessa “Vigário Nota” no Largo da Praça Os grandes atores de Hollywood, Gregori Antônio Pereira, um dos principais pontos Peck, Bridget Bardo, Sophia Loren, Marlon de encontro da cidade. Lá onde morou o Brando, Kirk Douglas, e toda aquela projeprefeito José Maria Cardoso e a professora ção, colorido e o movimento, também me Isabel Ribeiro de Almeida, da Escola Mâncio seduziram. Também assisti muitos filmes Ribeiro. de terror entre eles os famosos “Bonecos Mas o principal de Cêra” e “O Frankstein” cinema que Bra- Assistia-se no Olímpia: “E o Vento além de outros” lembra gança já teve, foi Aviz de Castro que chegou Levou, Quo Vadis, O incêndio o Cinema Olímpia menino em Bragança em que funcionava 1951 quando o cinema já de Roma, A ponte do Rio onde atualmente é a moda de Bragança. Kuwait, Sanção e Dalila, Os 10 era o Teatro Museu da Nos últimos tempos do Mandamentos, Tarzan, Lenda de Cine Olimpia eram exibiMarujada, bem ao lado onde era o Cidos filmes pornográficos Tróia, filmes brasileiros como nema Recreio. com pouca frequência o “Pagador de Promessa”,“O O Cinema Olímpia abrangendo os jovens da era uma casa de es- Cangaceiro” e filmes do humor da periferia e de quem gostapetáculos que esta- época com Ronald Golias, Oscarito, va desse gênero. va em evidência na década de 50 e 60. Grande Otelo, Zé Trindade, em Preto O Cine Avante e o Cine Em cartaz, os gran- e Branco que eram a coqueluche Vargas des filmes de diverdas telas do cine Olímpia. O Cine Avante e o Cine sos gêneros: históricos, de bang bang, de humor e de terror. Vargas funcionaram na rua Justo Chermont Assistia-se no Olímpia: “E o Vento Levou, esquina com a Vigário Mota onde hoje funQuo Vadis, O incêndio de Roma, A ponte ciona a farmácia do Sr. Jorge Cardoso e onde do Rio Kuwait, Sanção e Dalila, Os 10 Man- era o Cine Recreio. Os maquinários eram de damentos, Tarzan, Lenda de Tróia, filmes propriedade dos irmãos Rosa que foram o brasileiros como o “Pagador de Promessa”, baluarte do Cinema em Bragança, sempre “O Cangaceiro” e filmes do humor da época a frente dessa atividade por várias décadas. com Ronald Golias, Oscarito, Grande Otelo, Existiu também em Bragança o Cine Nazaré Zé Trindade, em Preto e Branco que eram que funcionou onde é a Loja Radisco na Traa coqueluche das telas do cine Olímpia. Foi vessa Marcelino Castanho. exibido também o filme colorido “Seara Ver- José Leôncio que chegou em Bragança em melha”. Tinha-se esses filmes nos finais de 1958 quando era criança, frequentou as masemana. tinês do Cinema Olímpia. “Quando tocava

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a música do Cinema que anunciava o início da sessão, batia uma cuíra para querer ir ao Cinema. De 58 a 64 estava sempre presente nas sessões quando podia e dependia da vontade de meus pais. Naquela época havia uma característica nas exibições que eram os seriados, como se fosse hoje as novelas. Passava um capítulo de suspense ou aventura e que causava expectativa pelos capítulos sucessivos. Tinha o Capitão Marvel, Capitão Kid, Durango kid, seriados de faroeste e ficção científica. Capital Marvel era um super herói que se transformava com os 12 poderes do Hércules que voava e tinha super força. O Batman também era exibido nas telas do Cine_Olimpia desde 1953, um Batman sem os efeitos especiais de hoje, tudo ainda bem elementar nos trajes, no carro (batmovel), mas na época era o que tinha de mais fabuloso e moderno. Depois as grandes chanchadas, período de grande Otelo, Oscarito, Zé Trindade, produtos da Atlântida que produzia os filmes e que eram exibidos


FOTO: ACERVO DÁRIO BENEDITO

no circuito nacional. Carlos Manga era fruto dessas grandes produções. Filmes históricos como Ben Hur, Neo Cid, eram os grandes atrativos do público. O cinema era a porta aberta do lazer e do entretenimento, pois não havia televisão nessa época. A população nos finais de semana tinha as opções das sessões vespertinas, noturnas e as matinês aos domingos. Uma época de sonhos que fascinava os espectadores. Fica a memória, rolos de filmes se decompondo” lembra Leôncio Siqueira. Na Sinopse da História de Bragança, compilada e organizada por César Pereira, publicado em 1970, encontramos uma referência ao Cinema em Bragança que diz: “Dois importantes centros de diversões cinematográficas nossa cidade possui: “OLIMPIA”, de propriedade do Sr. Luiz Silva, ao lado de seu “Bar São Benedito”, situados a Praça “Deodoro da Fonseca” e o outro, “CINE AMAZÔNIA”, de propriedade dos herdeiros do falecido e saudoso conterrâneo, Perilo Rosa. É geren-

te deste cinema o jovem herdeiro, José Ribamar Rosa, que pretende mudar o nome “Amazônia” para o de seu pai. Esses cinemas possuem telas panorâmicas e moderna aparelhagem. Todos os filmes que se exibem em Belém, vem em escala, para os nossos cinemas. É situado o “Cine Amazônia” no canto da rua “Marechal Floriano” com a travessa “Vigário Nota”. Está, por enquanto paralisado o seu funcionamento, porque a gerência resolveu introduzir nele melhoramentos, inclusive mudança completa de mobiliário já encomendado e prestes a chegar, para o melhor conforto de habitues que superlotam o grande salão de projeções, público esse que está ansioso pelo reinicio das atividades do futuro “Cine Perilo Rosa”, se, de fato, o gerente desse cinema resolver a mudança para esse novo nome, o que é de justiça. Houve uma época em que o Cinema Olímpia entrou em reforma, e Bragança não poderia ficar sem a principal diversão e entreteni-

mento. Por isso, foi inaugurado o Cine-Avante, que tinha como seu proprietário o dinâmico empresário Ribamar Rosa, um dos donos do Olímpia, que num esforço de boa vontade oferecia ao público bragantino um cinema, tipo popular, com projeções quase diárias, inclusive, matines aos domingos. O referido cinema foi sendo instalado no prédio do antigo Cine Recreio, onde também funcionou a Agência dos Correios e Telégrafos desta cidade, à Praça da Prefeitura. O Jornal do Caeté do dia 29 de maio de 1954, em reportagem realizada por Fernando Ramos fala desse acontecimento: “Com o fim de trazermos os nossos leitores bem informados das cousas boas que estão realizando em nossa terra, trazemos uma Visita ao Cine Avante, onde fomos encontrar o seu proprietário Ribamar Rosa em grandes atividades, dando ordem e preparando as engrenagens dos aparelhos de som e projeções para o teste de experiência. www.revistapzz.com.br 117


CINEMA FOTO: ADRIANA LIMA

Um momento de mudança gradativa como num eclipse. Aos poucos as salas de cinema foram se esvaziando gradativamente. Fica a memória, rolos de filmes se decompondo. A retomada do Cinema em Bragança vem com outros formatos e outros projetos. A Caravana da Imagem

Ribamar Rosa , um dos donos do Cine Olímpia de Bragança

Ribamar nos recebeu amavelmente, conduzindo-nos a todas as dependências do cinema, explicando-nos tudo, numa demonstração de perfeito conhecedor do assunto, cujo esforço que ali está empregando, pera ser correspondido pelo público bragantino, cooperando com sua presença para incentiva-lo no prosseguimento do seu trabalho, oferecendo a Bragança mais uma casa de diversão no gênero que todos nós apreciamos o cinema. Interpelado, disse-nos o sr. Ribamar, que em virtude do salão de projeção do seu cinema ser um pouco estreito, irá dar duas sessões para que os frequentadores possam assistir os filmes com melhor comodidade. Os preços das entradas serão a preços populares para adultos e crianças e de preferência, haverá entradas especiais para estudantes, isto é, abatimentos para as entradas, bastando o estudante apresentar sua caderneta de estudante que deve ser fornecida pelo estabelecimento de ensino onde estuda. Assim sendo, notamos que Ribamar Rosa não está medindo esforços, para dotar nossa terra de um cinema ao alcance de todos, apesar das dificuldades que tem encontrado para a instalação do seu cinema que é um produto todo do seu árduo trabalho; as boa vontade e de espírito progressivo. Sem dúvida essa era uma época de sonhos que fascinava os espectadores. O cinema acaba na década de 80 quando chega a televisão e vai tomando conta das residências, quando as imagens vão entrando gratuitamente nas casas e invadindo o universo íntimo das famílias. 118 www.revistapzz.com.br

O projeto cultural “A Caravana da Imagem”, propunha oficinas de roteiro, direção e produção cinematográfica além de promover exibições pela cidade, e como resultado os alunos produziram um vídeo de sete minutos, editado e finalizado pela equipe. Tal projeto suscitou o interesse do bragantino novamente pela linguagem, agora indo mais que somente ver, ele queria fazer cinema. De acordo com Glauco Pinheiro que trabalha na Secretaria Municipal de Cultura de Bragança: “Alguns projetos foram formatados entre os alunos mas nenhum realizado pela falta de estímulo e recurso. Em 2013 um projeto nascido dentro da secretaria municipal de cultura visava a exibição, a formação e a implantação de um núcleo audiovisual local, projeto que também ficou pelo caminho pela falta de recurso. No entanto foi possível realizar de maneira autônoma algumas exibições na cidade e em comunidades rurais, e através de parceria com o IAP através da diretoria de audiovisual, as oficinas de direção de fotografia, roteiro e captação direta de som. Iniciamos ainda para aproveitar essa demanda iniciada na formação um projeto de produção de um vídeo inventário com mestres da cultura popular local, que mais tarde ousaríamos lançá-lo como um programa de televisão. Ousamos mesmo extremamente limitados e ficamos mais uma vez pelo caminho” conclui Glauco. Em termo de técnicas e expressão audiovisual, o filme Bragança com Farinha revela de forma artística elevada e documental os saberes e sabores da cidade. Dirigido pelo diretor de fotografia Renato Chalu, o vídeo mostra a feitura da manicoera, o artesanato de guarimã, a feitura da farinha, do chibé e do avoado. Mestres de Cultura, campos e praias. Todo o potencial turístico e gastronômico de Bragança. Para Renato Chalu que também trabalha na SEMED, “A cultura digital estimula o diálogo entre tecnologias da informação e comunicação, cultura e arte. Mas as produções artísticas e culturais resultantes desse diálogo precisam de ambientes de encontro e de compartilhamento que acolham essas experimentações. Por isso, a Secretaria Municipal de Cultura participa do edital de Audiovisual para criar o Núcleo de

Casarão onde funcionava o Cine Vargas


Produção Audiovisual de Bragança voltado para desenvolvimento, formação, pesquisa, produção audiovisual e experimentação, que atuem nesse diálogo entre cultura, comunicação, arte e tecnologia. O município de Bragança busca através deste edital a oportunidade de trabalhar com uma formação em área cultural de forma adequada, experiência que sozinho o município vem tentando a três anos e não consegue. Esses equipamentos darão sentido à formação, que terá caráter de continuidade a cada módulo e principalmente fomentará a criação e a produção local. Promoverá a fruição, a difusão e ainda formará profissionais qualificados em audiovisual, diretrizes inclusive presente na formatação de nosso SMC, aprovado este ano” enfatiza Renato. Festival Independente de Cinema FICCA Podemos ainda citar alguns movimentos que ocorrem na cidade de maneira esporádica no entanto, persistentes como dois cineclubes, e o Festival Independente de Cinema FICCA organizado pelo poeta e diretor de Cinema Francisco Weyl, realizado a partir de 2014 em Bragança no mês de dezembro. O FICCA destaca o papel do cinema, do vídeo e da produção audiovisual em geral na construção de uma sociedade mais justa e solidária, sendo, portanto, uma jornada cultural sem fins lucrativos que tende a inverter a lógica do mercado audiovisual para potencializar a liberdade criativa. A iniciativa nasce da necessidade de se criar mais uma porta para o intercâmbio entre realizadores e produtores das mais diversas origens e com as suas infinitas propostas de linguagens estéticas e de formas de captação, fora dos mercados tradicionais e mais próximos das comunidades locais. O espaço é aberto para filmes e/ou vídeos curtas, médias e longas metragens de qualquer gênero ou temática. Este ano o evento acontece entre os dias 8 a 11 de dezembro.

Recentemente Bragança recebeu a VI Mostra de Cinema da Amazônia que aconteceu em quatro importantes cidades da Amazônia brasileira: Belém, Bragança, Manaus e Rio Branco, no período de 14 a 27 de setembro de 2015. Nesta edição, o evento trará oficinas, palestras, debates, encontros e lançamentos de filmes da Amazônia brasileira e internacional. Tudo acontecerá em espaços diversos, desde salas de cinema e teatros, a escolas públicas, universidades, institutos culturais e centros comunitários. Em Bragança, aconteceram exibições no Instituto AMA (espaço destinado a projetos sociais e culturais para jovens do nordeste paraense), no Museu da Marujada, além de uma exibição pública na Praça da Bandeira. O projeto é realizado pelo Instituto Cultural Amazônia Brasil, tem o patrocínio do Banco da Amazônia e do Ministério da Cultura, através do edital Amazônia Cultural e contou com o apoio da Prefeitura de Bragança, Secretaria de Cultura do Acre, Amazonas Film Comission, Cine Olympia, Projeto Biizu, Instituto Ama, Festival de Cinema Pachamama, Sabor Selvagem e Revista PZZ.

FOTO: RENATO CHALU

Mostra de Cinema da Amazônia

Eduardo Souza, Coordenador da Mostra de Cinema da Amazônia, no Teatro da Marujada, em palestra após a exibição do filme Olhos D’água, de sua autoria que fala sobre a origem do Cinema na Amazônia www.revistapzz.com.br 119


TEATRO

FOTO: renato chalu

Autodidata em teatro há mais de 30 anos, o teatrólogo, poeta e pesquisador da história de Bragança, Aviz de Castro é um realizador irrequieto e inconformado.

M

anoel Aviz de Castro, filho de Raimunda de Aviz Castro e Manoel Castro Corrêa desde cedo vivenciou o mundo como vontade de representação. Sua mãe fazia “Cordão de Galo”, cantava e rezava nas capelas das Igrejinhas do interior em Araí, atual município de Augusto Corrêa. Seu pai era desenhista e artesão, tocava violão e declamava poemas para sua mãe, faleceu quando Manoel Aviz tinha apenas um ano. Segundo sua mãe, seu avô fazia poesias de cordel, traz na veia o sangue poético. Aviz cresceu e se inspirou para a poesia e a declamação nessa origem. Autodidata em teatro há mais de 30 anos, o teatrólogo, poeta e pesquisador da história de Bragança, Aviz de Castro, como é conhecido, é um realizador irrequieto e inconformado. Montou seu primeiro grupo “Palco e Plateia” entre as décadas de 80 e 90 que encenava o “Auto da Paixão de Cristo”, peças infantis “A Bruxinha que era boa” “ O Boi e o Burro no Caminho de Belém” e outras peças. Além de shows que o mesmo produzia com pessoas do grupo que declamavam e cantavam bem. Ele escolhia algumas músicas da MPB e poemas de autores bragantinos e nacionais, fazia uma miscelânea, um caldo cultural e entornava na praça pública. Esse grupo durou uns 10 anos, depois que se 120 www.revistapzz.com.br

desfez por conta de integrantes saírem para as universidades, começou e formou o “Grupo Espaço e Arte”, que há quinze anos também encena a Paixão de Cristo na Semana Santa e percorre várias cidades do nordeste paraense...Capitão Poço, Ourém, Traquateua, Augusto Corrêa. Chegou a participar de um Festival de Capanema com a peça “Pluft – O Fantasminha” tendo alcançado o segundo lugar simplesmente

Autodidata em teatro há mais de 30 anos, o teatrólogo, poeta e pesquisador da história de Bragança, Aviz de Castro é um realizador irrequieto e inconformado. por questões políticas, uma vez que estava com a certeza de que ganharia o primeiro lugar. A jovem Daniele Mello do grupo, ganhou a medalha de honra ao mérito como a melhor atriz de todo o Festival. Com o “Grupo Espaço e Arte” fizeram espetáculos em praças públicas, escolas públicas, na Escola Mâncio, na quadra grande, no Museu da Marujada, na Orla e muitos outros, inclusive no palco da Casa da Cultura Senador Lobão da Silveira que se encontra em ruínas. Agora ensaiam

“Pluft – O Fantasminha” indo para a quarta edição com um novo elenco jovem unindo atores urbanos e interioranos. “Antes de mim, fizeram parte da história de Bragança, o vigário de Bragança, o Padre Miguel Maria Giambelli que comandava e encenava a Via Sacra no pátio da atual residência do Bispo com o elenco formado com senhores e senhoras ligados a paróquia. Podemos citar Antonio Pereira, fazendo papel de Pilatos, Amilcar Vasconcelos fazendo papel de soldado romano, a jovem Olga Macedo fazendo o papel de Maria Madalena e Antônio Rosa fazendo um apóstolo da Ceia. O padre italiano Vitaliano Maria Vári, professor de francês e música no Instituto Santa Teresinha, além de dirigir o Coral Santa Cecília que cantou na inauguração da Rádio Educadora de 1960, produziu o espetáculo “A Branca de Neve e os 7 anões” com alunos do Santa Teresinha tendo se apresentado no Theatro da Paz em Belém. Depois tivemos o jovem Manuel Barros montando e dirigindo várias peças de Teatro entre elas, “A Tragédia da Família Frank” um drama sobre drogas e “Hotel Gurijuba”, peça de humor. Peças que arrancaram muitos aplausos do público, encenadas no antigo circulo operário, atual Instituto AMA. Na década de 80, tivemos o Jorgelino Soeiro com algumas peças de teatro na Casa da Cultura que produzi-


FOTOs: ACERVO AVIZ

ram peças em Bragança”. Já na década de 80 e 90 vem o jovem e talentoso Rafael que fez oficina comigo e com o grande Geraldo Sales, dirigiu varias peças de tetro sobre Semana Santa por vários anos na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Alguns outros espetáculos, inclusive um texto de Natal em 2014, na Escola Bolivar Bordalo da Silva”.

Tributo a Jorge Ramos

Com o “Grupo Espaço e Arte” Aviz de Castro realizou o Tributo ao poeta, jornalista e escritor Jorge Ramos. “Uma homenagem a um dos maiores ícones de Bragança que eu cheguei a conviver e o admirava muito. Além de ter sido meu professor e incentivador para eu que escrevesse poesia. Com ele, colaborei como tipógrafo no Jornal do Caeté. Conversávamos muito sobre a história e a cultura de Bragança. Realizamos o Tributo, na casa onde ele nasceu e morou, no prédio do Cartório Oscimar Fernandes. Os atores declamavam as poesias das janelas do casarão. O Gerson Guimarães Júnior, a Fernanda Costa, o Aurimar, declamaram poemas. A Diana Ramos declamou o poema “Canção de Amor Puro à Bragança” de forma esplendorosa e eu declamei o poema “Monólogo das mãos” deGiuseppe Artidoro Ghiaro-

ni como homenagem póstuma. A Nádia Bragança e o Pedro Paulo Scerni fizeram o roteiro musical, executaram uma canção popular do Sergio Reis para a apresentação de dança do casal de marujos Rosa e Cauê que dançaram a música “Você Vai Gostar” cantada pelo Almir Sater. Teve também a projeção de alguns depoimentos, entre eles o da Professora Zuleide Costa, que falou da sua amizade com Jorge Ramos e da sua obra voltada para sua terra natal. Na mesma linha falou o Dr. Milton Mateus, médico bragantino, muito amigo do Dr. Jorge Ramos. Foi uma noite memorável com um público seleto reunindo quase duzentas pessoas. O evento encerrou com um coral de professores, gestores e funcionários da Escola Municipal Jorge Daniel de Sousa Ramos, cantando “Amigos para Sempre”.

Morte e Vida Severina

A ideia surgiu quando entrou em contato com a poesia, depois de formar-se no magistério. Foi quando deparou-se com o poema “Morte Vida Severina” do João Cabral de Melo Neto escrito entre 1954 e 1955. Tocou em suas entranhas a dramaticidade do poema. O sofrimento nordestino dos personagens foi vivenciado por Aviz quando ele veio do Maranhão em 1951 e aqui

no Pará é comum também o êxodo rural e a dura trajetória de migrantes, retirantes em busca de uma vida melhor e mais favorável na capital. Em seus poemas é marcante as questões sociais e o drama existencial do povo do interior. Outra fonte de inspiração de Aviz é o Cinema, assistiu em Bragança no Cine Olimpia os clássicos o “Pagador de Promessas” e o “Cangaceiro” que contribuiram para sua formação. Encenar Morte e Vida Severina foi um desafio e um sonho distante. No Pará essa Adaptada como peça teve sua primeira encenação, autorizada pelo autor, no final da década de 1950, pelo vanguardista grupo Norte Teatro Escola do Pará composto por Benedito Nunes e Maria Sylvia Nunes. No teatro brasileiro tem sido constante apresentações do poema, tendo se tornado um clássico no teatro brasileiro. Mas o que motivou mesmo Aviz encenar a peça foi depois que viu o filme “Morte Vida Severina” com a Elba Ramalho, Drummond, resolveu encarar o desafio. Montou um elenco com atores amadores, estudantes do ensino médio que angariava pelo interior e da cidade, fez uma oficina de teatro descobrindo vários talentos . A ideia é realizar uma apresentação como um Auto de Natal desse clássico. www.revistapzz.com.br 121


ARTES VISUAIS GESIEL Graduado em Pedagogia pela UFPA em 2013 e Pós-Graduado do Curso de Especialização em Educação de Jovens e Adultos para a Juventude na Amazônia UFPA - Campus de Bragança em 2014. Foi Eleito Presidente da Associação dos artistas plásticos de Bragança ”Maré de Cores” em 2012. Organizou e participou da I Mostra de Artes Caeteuara-Salão Beneditino-Bragança e muitas outras entre elas: - Exposição coletiva “São Benedito das Cores” na Praça do Coreto Praça Antônio Pereira – Bragança-Pa. 2013-Exposição Bragança 400 anos-Barracão da Marujada-Bragança -Exposição Bragança 400 anos-Parque Shopping Belém-Belém do Pará -Exposição coletiva “São Benedito das Cores” na Praça do Coreto Praça Antônio Pereira – Bragança-Pa. 2014- Exposição coletiva “São Benedito das Cores” na Praça do Coreto Praça Antônio Pereira – Bragança-Pa.

GESIEL Bragança, (PA) (91) 9 89448949 -Watsap:984315390 gesielmelo3g@gmail.com

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GERO Valfredo dos Santos Melo ( Gero ) é um artista natural de Ajuruteua, Bragança, estado do Pará, nascido em 110769 faz parte da Associação MARÉ DE CORES (Assoc. dos Artistas Plásticos de Bragança) na qual foi o seu primeiro presidente, é autodidata, hoje na associação ocupa o cargo de vice-presidente na direção deste movimento de artes. Tendo como nível escolar o ensino médio completo, começou sua trajetória artística participando da primeira feira da Cultura Bragantina na década de 80, e daí em diante já participou de valiosas exposições de artes em Bragança, como no Banco do Brasil, I e II noite do Artista Bragantino, em eventos realizados pela secretaria municipal de Cultura e de Turismo, Exposição de Artes Sacras no Palácio Episcopal e Museu de Artes Sacras de Bragança, Exposições no museu da marujada, trabalhos expostos na Festividade de São Benedito, Universidade Federal do Pará e Exposição no Park shopping (Belém) em escolas estaduais e municipais. E hoje é membro da ACADEMIA DE LETRAS DO BRASIL (seccional Bragança-Pa) cadeira nº 15 e conselheiro tutelar desta cidade.

GERO Bragança, (PA) (91) 981361773 leonmelo97@hotmail.com

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ARTES VISUAIS

MOACIR CARDOSO Moacir Cardoso artista visual, músico, compositor, pooeta natural de Salvador BA.Participou de oficinas de artes e decorações carnavalescas tendo como mestre Juarez Paraíso nos anos de 1977/78 em Salvador. Enraizou-se na terra e no espírito de Bragança onde desenvolve aulas e sua arte. Desenvolveu seu estilo influenciado pelas obras de Caribé,Edmundo Simas,PortinaryTarcila de Amaral,entre outros Artistas Cubistas. É um artista que preza muito pela espiritualidade e pela sua relação com a natureza e o universo.

MOACIR CARDOSO Bragança, (PA) (91) 988649076 - 998199775

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MIGUEL LIRA Artista Visual, Presidente da Associação dos Artistas Plásticos de Bragança Miguel Lira é pintor autodidata que pesquisa e produz há mais de 30 anos, experimentou os mais diversos estilos, do abstrato ao surrealismo, do primitivismo ao contemporâneo, utilizando várias técnicas entre elas, o giz de cera, acrílico, óleo, mistas, argila, objetos e materiais reciclados. A necessidade de fazer arte fez com que o artista abandonasse lugares anteriores e emprego. E voltar a Bragança, lugar ideal para buscar a inspiração com o olhar sensível a percorrer a cidade e o interior se envolvendo com os costumes e a cultura popular. E com a exuberante Natureza transferindo todo esse universo para seus trabalhos.

MIGUEL LIRA Bragança, (PA) (91) 98341-1422

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ARTES VISUAIS

B LUZ Bragança é o berço do artista plástico Benedito Luz, B. LUZ expõe suas obras desde 1986, retratando a Amazônia, especialmente Bragança. Autodidata, compõe suas obras de forma livre e sem academicismos. Participou de todas as Feiras de Cultura de Bragança Participou do I, II, III Salão de Artes Plásticas do Banco do Brasil em Bragança-Pa, Participou do I, II, III e IV Salão de Artes Plásticas da Caixa Economica Federal de Bragança-Pa. Realizou o I, II,III e IV Salão de Artes Sacras em Bragança. Participou da I Coletiva de Artes Plásticas “Beira do rio” em Bragança-Pa. Possui obras em muitos locais da cidade inclusive no Fórum Cível de Bragança.

B LUZ Bragança, (PA) (91) 99908-6376

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MARCOS CASTRO MARCOS CORRÊA CASTRO natural de Santa Luzia -PA. Trabalha como Editor de Vídeo e Designer em uma emissora de TV em Bragança. Reside em bragança desde sua infância. Pintar é seu melhor passatempo e usa suas técnicas de edição de video para aprimorar suas obras, trazendo um efeito realístico em suas pinturas pintadas a óleo.

MARCOS CASTRO Bragança, (PA)

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ANĂ&#x161;NCIO

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