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MACONDO revista literária

N.º 3 TRIMESTRAL

agosto setembro outubro 2011

ENTREVISTA EXCLUSIVA manoela sawitzki

apresenta guilherme josé pires, joão rui afonso, ari marinho bueno, germano viana xavier, bruno machado, fabiola weykamp, rosane carneiro, airton souza, leo lobos, ana teresa jardim, leonardo mathias, taize odelli, flávio castorino, mário galdán, giovani iemini, bernardo brandão, caio yurgel, bartolomeu pereira lucena, guilherme gontijo flores, venes caitano marques, thiago cervan, cleverson antoninho, lucas sousa ferreira

POESIA CARICATURA RESENHA POEMA VISUAL CONTO FOTOGRAFIA HAICAI TEXTO +++


expediente

EDITORES

francisco mariani casadore marcos mariani casadore COLABORADORES

os autores dos textos publicados na presente edilçao estão listados, por ordem alfabética, nas páginas finais da revista. IMAGEM DA CAPA

retirada do acervo pessoal dos editores.

não nos responsabilizamos por ideias e demais conceitos expostos pelos autores, bem como pela autoria dos textos. APOIO À PAGINAÇÃO:

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campanha +1: apresente a revista para alguém e consiga mais um leitor para a gente!


Há coisas que acontecem numa língua sem pretérito. Altair Martins


editorial Revendo as anotações feitas quando da idealização de uma revista literária, um abismo se transpõe entre o que primeiro pensamos e a edição que, hoje, oferecemos a vocês. Nomes das seções, número de textos selecionados, formas de divulgação, tudo mudou... Felizmente, muitos escritores compraram a nossa ideia e contribuíram, desde a preparação do primeiro número, com excelentes trabalhos. Graças a eles, aliás, um público de leitores logo se consolidou. A partir de então, é pensando no compromisso assumido, o de oferecer boa arte – de graça! –, que encontramos, em meio a uma rotina às vezes não tão

fácil, a motivação necessária para manter o projeto vivo. Dissertar sobre o caráter independente da Macondo, se não lugar-comum, pode soar como um argumento supérfluo para autopromoção. Pedimos, portanto, a todos vocês, leitores, que destinem atenção ao material exposto nas páginas seguintes. A beleza de cada poema, conto e quaisquer outros textos constituindo, entre si, boa diversidade estética, ideológica e regional; o encontro de extremos, de iguais e de desconhecidos, convivendo em plena harmonia. Todos tendo, em comum, o zelo com as palavras – mesmo quando para, intencio-

nalmente, pretender que se acredite no contrário. Aproveitamos, ainda, para agradecer a todos que enviaram seus trabalhos! Se fosse possível, quereríamos uma edição tão completa quanto os volumes que compõem a Biblioteca de Babel. Diante da impossibilidade, só nos resta pedir: continuem escrevendo e submetendo suas produções. Um novo número significa, sempre, novos nomes de autores a serem lidos, bem como textos inéditos de autores já publicados, mas que merecem, igualmente, espaço; aproveitamos o ensejo para, aqui, deixarmos um obrigado especial a Ari Marinho Bueno, grande

CARICATURA

POEMA VISUAL

ENTREVISTA

página 6

página 23

página 26

CONTOS

HAICAI

RESENHA

página 7

página 24

página 34


poeta-colaborador que já pode ser considerado da casa – esteve presente, até então, em todas as nossas edições. E, após um hiato na edição passada, voltamos com a seção de Entrevista, que acaba de sair do forno: a escritora Manoela Sawitzki aceitou o nosso convite e, prontamente, respondeu a algumas perguntas. Adiantamos, para aguçar a curiosidade, alguns dos tópicos abordados pela autora, que tanto admiramos: a literatura – como não podia deixar de ser –, o teatro, o reconhecimento fora do Brasil, os projetos para o futuro, o impacto dos e-readers etc. As novidades não param por aí: enquanto publicação digital,

estabelecemos um lugar especial para recomendar sites que têm muito a oferecer no que concerne a informações, resenhas, causos e tudo o mais que ronda o mundo literário. Também reservamos uma página para sugerir obras que, por motivos lá especificados, devem ser lidas – outro canal que visa promover a interação e o diálogo do nosso – cada vez maior! – público. Para a estréia, contamos com a participação de ninguém menos do que Taize Odelli, a resenhista mais popular da internet que topou o desafio e enviou sua indicação! Para concluir, complementando o que afirmamos

no início: há um abismo entre o que primeiro se pensou para a revista e o que hoje lhes oferecemos. Todavia, há que ressaltar o fato de que, do tamanho desse abismo, existe uma ponte ligando os dois lados propostos. A ponte, por sua vez, é feita de uma matéria que dificilmente será descrita com exatidão, tampouco explicada de forma convincente: uma matéria que, escapando a tantas ausências da contemporaneidade, permanece intacta desde o surgimento da Macondo, acreditando e insistindo na propagação dos frutos dessa infinita capacidade (re)criativa dos seres humanos.

PROSA POÉTICA

DOMÍNIO

TEXTO

página 37

PÚBLICO

página 66

ESPAÇO VIRTUAL

página 43

BIBLIOPHILIA

página 42

POESIA

página 68

página 47

COLABORADORES

Os editores

página 70


caricatura

venes caitano marques 6

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O último gole do filósofo

N

ão, não era o homem que queria ser. A intimidade sibilina com Aristóteles e sua Grécia Antiga teria feito em profusão esta carne opaca e sem pouco viço, de difícil diálogo amistoso e introspecção exagerada. Encontrava a cura para sua demasiada sapiência e dor em dois goles de cachaça. Dois atrás de mais dois e assim, durante uma noite inteira até o sol despertar, dois goles de pinga era o que ele dizia que havia bebido. O trem partiu sem que ele se des-

pedisse, nem um aceno tímido de longe ele deu. Dois dedinhos, meu caro ele pedia ao garçom magro e acinzentado que fitava o relógio de minuto em minuto aflito para estar em casa e tirar aquele cheiro de desgraça de seu corpo. Mais dois dedinhos aqui, meu fi... soluço. Ezequiel era o nome do garçom, mas os frequentadores daquele bar fétido não faziam questão de saber. Queriam ser servidos. E o serviço tinha de ser rápido, igualmente aos seus lúcidos conhecimentos sobre ética e metafísica. Aflitos em sua desgraça e descrença. Aflitos por não terem para aonde ir. Aflitos por não sentirem outra coisa a não ser essa: aflição sincrônica ao des8

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conhecimento imbecil de suas próprias limitações. Uma mistura de pena de si mesmo com um bocado de pressa. Pressa de quê, exatamente, nunca ninguém soube. Nem eles mesmos, donos de suas próprias aflições agudas manuscritas em exaustivos ensaios acadêmicos. A legião acadêmica, composta por renomados e ilustres donos de uma oratória invejável, pontualmente batiam seu cartão naquele bar. O trem partiu e, da estação, as despedidas eram mais frequentes do que os reencontros. Despedidas zangadas. Despedidas adormecidas no colo das mães. Despedidas agoniadas. Despedidas corrosivas. Despedaçadas, despren-


didas. Aqueles dois dedinhos de pinga mais um dedinho de prosa com o acompanhante misterioso, que a própria física insiste em decodificar seu espectro e sua constituição de cargas elétricas magnetizadas, fizeram com que o último suspiro de adeus não fosse ouvido. Ouviu-se um choramingar baixinho e inconformado. Ouviu-se o som da mala fechando. Ouviu-se um gole de cachaça descendo e queimando a goela seca do moribundo de alma. Não se ouviu um adeus. Ouviu-se um último soluço etílico e um brinde à... Não se ouviu decerto. O copo deslizou de sua mão e o moribundo, cujo raciocínio era tão brilhante quanto de uma vaca, espatifou-se no balcão. E o trem novamente deixou aquela estação. Um último adeus a Platão.

fabíola weykamp

O menino que morreu com o vento - Desce daí menino! - Dá não tia... - Claro que dá, o cê conseguiu subi também consegue desce ué! - Mais quem disse que eu quero desce? Eu quero fica aqui em cima, e daqui ninguém me tira! Preciso descobri uma coisa! - Descobri o quê? Tem nada importante aí não... - Claro que tem, senão eu não tava aqui “ué!” - É algum ninho de passarinho? Dexa eles queto aí então! - Que passarinho que nada, cê acha que eu ia subi aqui por causa de passarinho?! - Que é então? Nessa hora um bem-te-vi que adejava por ali desapareceu dentro das folhas da copa árvore deixando só o zumbido das suas asas pra trás. - Tá vendo? - Tá vendo o quê menino? Cê falo que não tava procurando passarinho! - Mais não tô mesmo! - Ixi... Não tô entendendo mais nada, fala logo ou desce daí, já tá escurecenago set out 2011

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do... - Já percebi, daqui de cima dá pra vê tia! - Então que cê ta esperando pelo amor de Deus!!! - Aquilo que a asa do passarinho tava levando... - As penas?! - Nãããão!!!!!!!!! - Nem sei então... - Era o vento tia! Será que ninguém percebe! - Percebe o quê? - Tia cê sabe se é o passarinho que traz o vento? - Ah, muleque para de bobera e saí daí!! - É ou não é? Eu quero sabe! Ela abaixou a cabeça um instante, mais no instinto de coçar o braço que tinha acabado de ser mordido por um mosquito, do que pra pensar numa resposta, estava mais preocupada com a intempérie que perturbava as folhas secas no chão. - Desce que vai chove! - Vem da onde então? - Vem o quê, os passarinhos? - Não! De o vento vem? - Ah sei lá muleque, vem lá de longe... - Longe onde? Lá detrás daquelas árvores? - É! Ele vem de lá mesmo! Agora desce! 10 MACONDO revista literária

- Então não é o passarinho que traz o vento né? - Não, não é! É o vento que traz o passarinho... por isso que eles podem voar... - E ainda tem vento né tia? - Claro que tem, cê não ta sentindo aí em cima! O menino voltou os seus olhos para o horizonte que estava todo pintado de vermelho e rabiscado de relâmpagos, sentia o vento no corpo todo, imaginou o vento saindo lá de trás daquelas árvores desenhadas tão longe. Como será que acontecia? Mais isso não tinha importância. Outro dia ele iria lá ver, o que valia a pena ele já sabia, era o vento que fazia os passarinhos voarem... ouviu o bemte-vi pela última vez antes da chuva... fechou os olhos, sentiu o vento e ouviu mais uma vez e só mais essa vez... - Desce daí menino... - Já vô...

lucas sousa ferreira


Vinte e dois anos depois, uma piada perde a graça Ela esperava no cruzamento entre a Cidade Jardim e a Faria Lima. Abracei-a com cautela. Tinha medo de que meus gestos estabanados pudessem quebrá-la em mil pedacinhos, tamanha a magreza e fragilidade. Logo ela, semente de eternos temores e inseguranças, agora parecia tão vulnerável. Os cabelos ainda eram louros, mas não como me pareceram em 1988. Nunca tão intensos como naqueles dias. O sinal abriu, carros cortaram a avenida e uma sombra passou pelo rosto dela. Eu me lembrei de quando dezembro chegava e do aperto que sentia por saber que ficaríamos longe. Minha primeira obsessão. Pequena, mas primeira. Você tá diferente, ela falou. E eu não sabia se sorria ou se ficava sério. Nunca sei o que fazer nessas horas. Decidi cortar o assunto. O restaurante fica logo ali, indiquei. No caminho, ela vestiu uma blusa fininha, cor-de-rosa. Ventava e o dia estava nublado.

Justificou que andava meio doente. Não falei nada. Almoçamos comida árabe e ela achou graça da forma como eu quase derrubava tudo na mesa. Sempre o estabanado, o desajeitado, o revoltado. Depois, ela riu diante de minhas tentativas de pedir uma coca-cola à garçonete, que insistia em ignorar nossa presença. Sempre o esquecido, preterido. Posso dar na cara dela?, brincou. Em seguida, ficou séria. Tinha problemas com o namorado, problemas de saúde. Tinha consulta naquele mesmo dia. Medicação e o caralho a quatro. Talvez não precise, tentei remediar. Sempre o conciliador, mesmo com todos os diabos a me cutucar, loucos para sair e tomar a forma de impropérios e atitudes. Vou precisar, sim. Não tinha o que falar. Mordi um falafel e não havia sabor algum. Tomei um gole de coca e senti gosto de guache. Os olhos dela também não eram mais da mesma cor. Do azul mais vívido que eu já havia visto, passaram a uma tonalidade cinzenta. Estavam fundos nas cavidades. Pensei em como coisas ruins acontecem com pessoas boas. Mordi outro falafel. Lembrei do cheiro de massinha de modelar, areia macia e hastes de metal que formavam gaioago set out 2011 11


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las, gira-giras e balanços. Bebi outro gole da coca e senti a areia na garganta, formando um nó que sufocava. Engoli. Quem me indicou esse médico foi uma amiga. Engoli de novo e senti um gosto da massinha, tóxico. Na cabeça, o gira-gira a rodar. Terminamos de comer, paguei a conta e saímos. Vem, vamos passear, eu disse, pegando-a pelo braço com medo de quebrá-la como um cristal. Você está diferente, insistiu. Eu estava mesmo. Gordo, careca, barbado, com problema de coluna, de fígado, de pressão alta. E não havíamos, sequer, chegado aos 30. Estremeci e fui repreendido: Você devia ter trazido blusa. Resmunguei algo sobre o calor do dia anterior. Ali perto havia uma loja que vendia docinhos. Docinhos porcaria, expliquei. Ela não entendeu. Gelecas, dentaduras, cobrinhas ácidas, skittles, enumerei. Gelecas?, perguntou. Gelecas, confirmei. Achamos pirulitos. Chupamos na rua, feito crianças, mas, para mim, eles não tinham o mesmo sabor dos anos 1980. Nada mais tinha, na verdade. Meu paladar anda alterado, comentou. Eu não queria ouvir, mas ela desejava falar. Apenas pousei as mãos sobre seus braços. Fininhos, fininhos. Brancos como alabastros, como caveiras de açúcar. 12 MACONDO revista literária

Os alimentos parecem muito doces, muito salgados, muito amargos. Uma porcaria. Assenti com a cabeça. Daqueles lábios, as frases saíam trêmulas e como se escritas em letras de mão. Todas as cores, todas as vogais e consoantes, tal qual na época em que aprendíamos, juntos, a formar as palavras. Pois sim, as palavras - meu escudo, espada e baioneta para ferir e ser ferido. Fiquei quieto, limitei-me a ouvir, enquanto enxergava o vento dissipar mil e um demônios rabiscados em caligrafia infantil. Uma vez, já no começo dos 1990, ela dissera que gostava de mim. Fiquei roxo de vergonha. Naquele tempo era assim: a primeira série, a segunda série, a terceira série, até a oitava. Depois vinha o colegial. Nessa época - a do colegial -, ela já não estava mais por perto. Ela fazia sucesso entre os caras mais velhos. Consultei o relógio e vi que meu horário de almoço expirara há tempos. Abracei-a, beijei-a no rosto e nos despedimos com a promessa de marcar outro almoço, outros telefonemas, outros tudo. O sinal abriu e a perdi de vista. Um vento frio soprou e fez com que eu me lembrasse de que estava sem blusa. Voltei ao escritório com o açoite da recordação. Lembrei


que a casa dela ficava em frente ao cemitério e ao lado do asilo. Caso aconteça alguma coisa, ou quando eu ficar velha, não terei com o que me preocupar. Era uma brincadeira constante e nós ríamos...como ríamos. Mas naquele dia, tantos anos depois, aquela piada não tinha a menor graça.

bruno machado

O futuro professor de Kant, preso no trânsito da cidade grande Você se lembra de ter estudado Kant e não ter entendido nada – lembra-se claramente de não ter entendido nada porque era tudo abstrato demais, e isso fez com que você percebesse que para grande parte da população, talvez, conceitos aparentemente simples fossem, por sua vez, excessivamente complexos e fora de alcance. Como o conceito de vazio, de esvaziamento da vida, e você pensa que não quer cometer o erro de Kant e pensa que poderia explicar à massa o que é o esvaziamento (o que Kant nunca fez – dentre tantas coisas que ele nunca fez) – você sorri imaginando ser uma pessoa que se dirige ao público, em ciclos de palestras e seminários temáticos; você sorri e se imagina ajeitando o nó da gravata borboleta, porque teme, teme mas aprova, que você seria esse tipo de pessoa se chegasse a participar desse ago set out 2011 13


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tipo de evento –, pensa que poderia explicar o esvaziamento à platéia dizendo que é como dirigir falando no telefone: terminada a ligação, você está mais ou menos onde deveria estar, mas não faz a menor idéia onde você dobrou, quais semáforos cruzou, quantos veículos ultrapassou. Você simplesmente está num determinado local sem saber como, sem um passado recente – apenas as grandes narrativas históricas da semana passada. E você sabe que tem de ir adiante porque um fluxo de carros lhe compele nessa direção, e que você tem de fazê-lo ordeiramente, respeitando as regras do trânsito (objetivas) e da convivência (subjetivas). Mas, no final das contas, é como ler Kant: você tenta, mas não encontra sentido. E a essa altura o motorista do carro de trás buzina violentamente, envia furiosos sinais de luz, canta os pneus, talvez inclusive você tenha causado um acidente grave, fatal, e você desce do carro e pergunta-se por quê – e é aí que seu mundo começa a esfarelar nas bordas.

caio yurgel

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Quatro meninos Quando o menino adiantou-se e levantou o rosto para cantar o hino, todos na igreja católica sentiram uma onda de emoção. As pessoas ficaram mais quietas. Ao mesmo tempo tímido e confiante, ele cantou até alcançar as notas mais altas, e a congregação se fortaleceu em sua fé. A igreja era adornada com imagens religiosas de pouco valor estético, e tinha cheiro de flores mofadas e de madeira velha. Há algumas quadras dali, um outro menino senta-se em um café recentemente inaugurado, diante da mãe. Ela havia sido criada como católica, mas era budista, agora. Estava sempre tentando doutriná-lo, o que ele achava muito chato. Detestava o brilho frio que via nos seus olhos, quando ela discursava sobre as maravilhas da nova crença. A mãe tentava também converter ao Buda as empregadas e o motorista, que apenas escutavam e sorriam, com medo de perder seus empregos. Todas as manhãs, praticava ioga na varanda, sob a orientação de uma instrutora esguia, bronzeada e musculosa. Quando o filho foi reprovado na escola e teve que repetir o ano,


a mãe o entregou aos cuidados de uma terapeuta, que ele via duas vezes por semana. Ele havia temido que a psicanalista fosse mais uma doutrinadora. Mas, para sua surpresa, ela se transformou numa espécie de amiga, alguém em quem depositara sua incerta fé. Sentado no elegante café do shopping, o menino aguarda a hora de subir para o consultório da analista. A mãe vai fazer compras e buscá-lo apenas no final da tarde. A analista o recebe de modo profissional, mas caloroso. Em seguida, como de costume, o conduz para dentro da sala onde atende e o deixa só por alguns minutos, enquanto verifica, no outro cômodo, com a secretária, se alguém havia ligado. A analista parece animada e alegre. É segunda feira. O menino imagina o que ela terá feito durante o final de semana. Teria filhos? Seriam eles mais ajustados e amados do que ele? Tenta afastar os pensamentos ciumentos. A analista sempre lhe sorri com cumplicidade e humor. Ele tem certeza que ocupa um lugar especial na vida dela, acima dos possíveis filhos, dos outros pacientes. Uma vez lhe perguntara se ele era especial para ela, e ela rira, e afirmara que sim. Ele começava a compreender as sutilezas do amor -

que ele podia ser dividido sem perder seu valor, de maneiras múltiplas e complexas. Numa favela não longe dali, um terceiro menino, sentado no chão de terra de um barraco de madeira, abraça os joelhos contra o peito. Tivera sua cabeça raspada na noite anterior, e sua testa ainda está manchada do sangue seco de um pombo com o qual os sacerdotes o haviam ungido. Desde pequeno, esse menino tem sido criado pelo avô, que é pai de santo. Chegou sua hora de ser iniciado. Tem que ficar no barracão durante vinte dias, sozinho. Dorme no chão duro e come e bebe do que alguém, silenciosamente, deposita na soleira da porta, todos os dias. O menino tem fé mas teme ser obrigado a levar uma vida de preceitos e obrigações. Em um subúrbio longe dali, um menino evangélico vai com sua família ao templo enorme, freqüentado por praticantes barulhentos e contestadores. O pastor é jovem e usa um terno de tecido sintético, azul. O menino evangélico tem duas irmãs adolescentes, e uma mãe bonita que é diarista. Seu pai foi despedido da fábrica onde trabalhava e às vezes substitui o servente da noite de um posto de gasolina. No templo, o menino assiste a um ritual de exorcismo. ago set out 2011 15


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Vários crentes se jogam no chão, gritam, os olhos esbugalhados, as bocas espumando. Um dia, em casa, o pai o pegara vendo na televisão um filme com heróis que possuem superpoderes, e fez um discurso nervoso, fechado, repetitivo, sobre a falsidade daquele universo, tão atraente para o menino, agora interditado. O universo de fantasia passa a ser para ele uma distração da danação eterna. É fim de dia, quase noite, na cidade. Na igreja católica, o menino que cantava se sente mal. É levado para a sacristia onde lhe dão leite quente. Logo será levado para casa. A analista do menino rico deixou uma xícara de café fumegante sobre a mesa. Com o risco de ser descoberto, mas sentindo-se invencível, o menino pega a sua xícara, toma um grande gole, e a coloca de volta no lugar. Sente-se, assim, perigosamente mais próximo dela. No barracão no alto do morro, o menino encerrado escuta os gritos dos botequins ali perto, conversas e músicas. Ele se lembra de algo perturbador. Há alguns dias, o avô tentara acender o charuto. Suas mãos tremiam. Por alguns segundos pareceu fraco, perdido, as mãos 16 MACONDO revista literária

fracas segurando a chama suspensa no ar. O menino tem um vislumbre profundo da velhice, algo que não experimentará tão cedo. Fica por alguns segundos velhíssimo, depois menino novamente. O menino evangélico volta para casa, vindo do templo. Ele tem um segredo que suas irmãs acobertam, porque o amam. De pé, ele saúda a imagem de Wolverine colada na parte de dentro da porta do seu guarda-roupa. E se sente, por um momento, apenas um menino.

ana teresa jardim


A verdade e o senhor desumanizado O senhor desumanizado deu entrada no serviço de cardiologia durante uma incerta manhã caótica de Maio: os ventos caíam de nordeste para soprar as árvores na vertical e não lhe restava outro passo: ia cuidar do seu peito feito bolor. Apresentou-se de cabeça baixa, não tinha bilhete de identidade nem impressão digital nem fotografia lambida nem data, e tão-pouco lhe ofereceram, e nunca aceitaria. Foi entregue a terapeutas ocupadíssimos com distintos monólogos sobre a precisão do pensamento e das palavras cogitadas que preparam as jazidas à poesia, acenavam na cadência dos argumentos uns dos outros e enfiavam as mãos nos bolsos das batas, de onde retiravam blocos de papéis numerados e pré-escritos, que depois assinavam.

O paciente gosta de se apaixonar e sofre de vertigem compulsiva pela ausência e distância do seu outro coração. Deverá ruminar duas am-

polas completas de razão, de noite a noite, até que se lhe extingam as patáforas e recupere o bocejo. Era Maio, as andorinhas raiavam os céus e um homem corria pelos calabouços do serviço de cardiologia: a turba de branco tocava-lhe os calcanhares mas não lhe agarrava as carnes, era vê-los a vê-lo saltar para a rua de onde viera, ingénuo, em busca do calor perdido, tinha gelo no peito e ninguém corre por quem respira de coração inverno. A verdade: o senhor desumanizado receia que o coração lhe caia maduro, vai dia, vem dia, como as maçãs fazem às macieiras, sem prenúncio nem ditame. vai dia, vem dia, como as maçãs fazem às macieiras, sem prenúncio nem ditame.

Felicidade «João, o tempo urge, tornaste a não atender quando te telefonei e não posso deixar-te ignorante da nossa decisão, ninguém te encontra, onde andas? Sabe-

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-se agora que os primeiros efeitos do surto foram leves tremores no espírito, diferenças no deitar do pó pelos objectos, falou-se apenas de uma noite muda nos serviços de urgência dos países afectados. Começou no Norte, mas estes relatos têm ecos já no centro do mundo: há que fugir. Foi durante a madrugada que a doença se desenhou nas pessoas. As primeiras notícias descreviam um surto de felicidade espontânea: as gentes desligavam-se lentamente das rotinas, afirmando-se livres, despreocupadas; dobrada a manhã, terão rejeitado a pele, assumiram a forma das sombras, lívidas perante os objectos, as mobílias, as máquinas. Embora respirem, não sabemos se pensam, porque não falam, não escrevem, não comem, não bebem, e as notícias cessaram. Temos de pegar pela mão em quem nos quer bem e partir para Sul; é por isso que te escrevo, João, já que não atendes o telefone. Desde que a noite caiu, sinto nos lábios um sorriso bom, combato-o com fita-cola e alfinetes-de-dama; mas também as coisas sem vida parecem mais leves, e ouço-me por dentro a dizer sim. Acho que vi um livro pousado 18 MACONDO revista literária

no ar, entre a mesa da sala e a alcatifa, tinha azul na capa: pareceu-me ver um pássaro azul. Estarei a enlouquecer? Já não sei o porquê desta missiva, mas não irei reler os primeiros parágrafos. Prefiro olhar para o tecto. Quão bela é a imensidão! O tudo é perfeito. Ah, silêncio. g.»

guilherme josé pires


Entre o som e a luz A noite não te foi simpática, Amélia, um borrão de sangue pisado abraça-te o pescoço e elide o carreiro de sinais que te une a nuca à orla do peito. Tu não sabes, estás atada à vida por tubos que te enchem de ausências e esquecimentos, mas eu sim, sei, vejo. Gosto de estar aqui, sentado a teu lado, as horas passam e não me custam, compreendes-me, não compreendes? É assim o mundo dos velhos, um retorno ao anterior, casas brancas, o Alentejo no depois da pele. E não se pense que é labor simples o cuidado das memórias, há sempre uma parede que se esboroa, ou uma janela descomposta, um amarelo que se quer azul no friso que ampara o telhado. Ainda agora caiei o muro da Igreja, branco sob o branco do Sol, recordas-te do muro da Igreja, de nos abrigarmos das tempestades de Verão? «Ouve a trovoada, João, escuta-la?, quando ela é assim, como se despejassem batatas no soalho do forro, não tenho medo algum, mas

quando me lembra o machado a rachar a lenha chamo logo pelo Jesus.» Por ora já não ouves a trovoada nem contas os minutos que separam o som e a luz. Desconheces também o homem da cama ao lado, o que todas as noites grita e se despe antes de ser amarrado, o que agora nos olha, o sexo exposto respirando pela algália, ausente, desumanizado. Talvez seja melhor assim.

Gabriel Não era um gabinete, ou uma esperança de guichet, mas uma mesa só num sovaco do escritório, Porque te morreram os olhos, Gabriel?, concedera-lha o sogro, no depois do divórcio, quando a dor lhe esfarelou o orgulho e vê-la lhe aparecia como única paz, Porque desististe de ti?, interrogava arquivos, arredondava cartas, marcava golos de papel numa baliza de clipes amarelos, Eu queria, eu quis tanto, Gabriel, e todas as manhãs, quando as nove aconteciam, escolhia não dar pelos sorrisos enlaçados ou pelas mãos que se sussurravam e reago set out 2011 19


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cortava da realidade a elegância da gravata, as unhas arranjadas, o Luís, Sabes bem que te avisei, que te preveni, acreditara, como lera em menino, que o amor era para sempre e que ela saberia afeiçoar-se aos livros olvidados no bidé e aos pratos exclamando bolores no ventre do lavaloiças, que lhe perdoaria a falência dos sonhos, o mundo que não conquistara, Vai-te embora, Gabriel, não percebes que me incomodas?, se, como dizes, gostas de mim, vai-te embora!, deixa de ser cobarde, deixa-me em paz, só quero seguir com a minha vida, mas o amor, ou a dependência fingida de amor, ali o mantinha, naquela mesa, o corpo afundando-se no corpo, a vontade contentando-se no hábito, a vida, a vida.

joão rui afonso

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Cerveja, fumaça e amor Os livros estão todos na estante, com pó, sem pó. Com ela. São todos fragmentos de momentos ao lado da garota que está tanto neles quanto em mim. Sabe o lance do vire a página? Aqui se tornou o lance do incinere os livros. A saída foi destruir tudo o que tinha dela em mim. Estou no décimo sétimo andar de um prédio qualquer, de uma cidade qualquer. No apartamento número qualquer. Onde tínhamos a nossa vida. Regada a cerveja, carne (nos dois sentidos), música, filmes, livros e discussões. Um relacionamento trivial. Pelo menos pra gente. Tudo era tão normal e tão perfeito. Certezas que se vão. Juras, clichês postos sobre a mesa. Breguices tão verdadeiras. Planos tão sólidos. Amor verdadeiro. O fogo alcançou os filmes em cima da estante. Todos vistos ao lado dela. Acho que começamos bem. Tudo começa bem né? Só que acho que depois de ter tomado tanta pancada, simplesmente não me


lembro mais onde começamos e onde nos perdemos. Onde acabamos. Não sei definir. Tudo é tão incerto. Acho que a fumaça está me deixando meio zonzo. Ainda bem que tenho cerveja aqui do meu lado. Gelada. Ela sempre preferiu tequila, vivia a me zombar por eu ser mais fraco que ela em relação a bebidas. Adorava isso nela. Assim como todo o resto. As calcinhas lisas de algodão, o sorriso contido, o gosto musical diferente do meu; porém aceitável, a maneira como deitava sobre o meu peito, as olheiras pela manhã. É, tudo era bom. Agora, aqui sentado na janela, escrevendo, bebendo e tonto devido a uma fumaça que não é a boa. Não tenho mais certeza nenhuma, não sei de mais nada. Só queria fazer tudo aquilo novamente. Acertar, errar, ser bom, ser uma merda. De novo e de novo. Sem me importar que estávamos fadados ao erro, simplesmente começar, dar merda… E começar novamente. Acho que é isso o que quero. Assim como a quis, desde o inicio. Ela parecia ser a minha idealização de mulher perfeita. E depois veio a continuar sendo. Só não soube

viver sem tal projeto em minha vida. Teve uma época em que começamos a discutir por coisas bobas. Eu me surpreendia com a capacidade que tínhamos de nos irritar. Mas no fim do dia acabávamos nos acertando e terminávamos melhores do que jamais estivemos. Só que um dia estes acertos no fim do dia simplesmente acabaram não vindo mais. E ficávamos restritos ao fator cama. Nada como uma boa foda pra fazer perdurar um relacionamento desgastado. Era tudo tão cômodo, continuávamos com nossas vidas, tínhamos nossos momentos, mas éramos tristes, insatisfeitos um com o outro. Não me peça uma explicação lógica pra isso. Ainda éramos os mesmos, mas separados. Não éramos juntos um. Éramos duas pessoas acima da média, que tinham perfis condizentes para um bom relacionamento. Mas que simplesmente não funcionavam mais juntas. Mas continuavam a terem fodas excepcionais. O sexo e o respeito por nosso passado nos mantinha juntos. Fui eu quem tomou a iniciativa que viria a me arrepender tanto. Disse pra ela que não queria ficar com uma pessoa por o que vivemos e sim por o que vivíamos, e que o que tínhamos atualmente não era o suficiente. Não ago set out 2011 21


contos

era justo com nenhum de nós. Nós merecíamos mais que aquilo. Bosta, aquilo o que tínhamos atualmente, era justamente o que eu mais queria, ainda que fosse daquela maneira. Ela chorou. E quando questionada o porquê de tal choro, ela respondeu que eu havia insinuado uma separação e ainda esperava que ela não chorasse? Beijei as lágrimas caindo sobre o rosto dela. Disse que a amava, pedi desculpas, trepamos e fizemos em silêncio um acordo de que as coisas iam ser diferentes, íamos melhorar. Não melhoramos. O fogo começou a alcançar o rack e a TV. Será que tem alguma coisa na TV que em contato com o fogo possa causar alguma explosão? Espero que não. Essa fumaça está me deixando confuso, mas vou tentar ir adiante. Realmente não lembro o motivo da discussão, mas lembro exatamente no que ela culminou. Ela foi embora. Depois disso nos vimos mais vezes, transamos novamente. Era bom e triste. As despedidas eram estranhas, não tinha mais o eu te amo e o te ligo quando chegar em casa. Era apenas um “até mais.” Cheio de incertezas e arrependimentos. Mas com vontade de que acontecesse novamente. 22 MACONDO revista literária

Puta merda. Nunca pensei que um tapete pegasse fogo tão rápido. Acho que tem um carro de bombeiros virando a esquina. A cerveja já nem está mais tão gelada. Acredita que ela me deu uma foda de despedida? Foi a última vez que a vi. Depois que transamos, ela disse que tinha conhecido um novo cara. Eu pedi detalhes, ela disse que não queria me machucar. E foi embora. O fogo nas cortinas. Você pode por fogo em uma TV e ela não vai explodir. A cerveja quente está acabando. Os bombeiros estão falando alguma coisa no megafone lá embaixo. Também tem câmeras e pessoas sedentas por um pulo. Muitas pessoas. Depois que ela se foi, eu conheci e comi outras. Mas não era ela. Isso não fazia sentido pra mim. Ela mudou de telefone, endereço, trabalho e de vida. Simplesmente era como se ela fosse abstrata. Mas ainda estivesse sólida, aqui dentro de mim. E por isso, após dois anos sem esquecer a minha garotinha, eu escolhi estar aqui. Basta um pulo pra baixo e você sai do fundo do poço. Preciso terminar a cerveja.

cleverson antoninho


poema visual

“perdida�, por thiago cervan ago set out 2011 23


haicai


na cor de minha pele suor brilha salgado souvenir do sol

Ăł de onde?

Ă reticĂŞncias demolida cheia de ardor e amor a estrofe construĂ­da

ari marinho bueno

ago set out 2011 25


entrevista

MANOELA SAWITZKI

QUANDO ESCREVO O MUNDO ME INTERESSA MAIS


entrevista

M

anoela Sawitzki, gaúcha de Santo Ângelo, já transitou pelos mais variados estilos literários. Seu primeiro romance, Nuvens de Magalhães, foi lançado em 2002; há dois anos, Suíte Dama da Noite chegou às livrarias e agradou bastante o público e a crítica – não só no Brasil, mas também em Portugal. Nesse meio tempo, trabalhou com teatro (sendo contemplada com o Prêmio Açorianos de Melhor Dramaturgia de 2006, pela peça Calamidade), escrevendo roteiros e também críticas para revistas; participou de diversas coletâneas de contos e produziu roteiros para a televisão. Nos próximos anos, a autora pretende lançar seu terceiro romance; e tem em seus planos, ainda, trabalhar com cinema! Enquanto aguardamos, ansiosos, pelos próximos trabalhos de Manoela, apresentamos, com um imenso prazer, um pouco da autora para vocês.

28 MACONDO revista literária


Você é uma escritora muito jovem e bastante promissora, principalmente se considerarmos toda a “bagagem” que já traz consigo nesses últimos anos – não só em relação à produção escrita, mas, principalmente, ao reconhecimento que já obteve nos mais variados gêneros em que escreve. Dentre tudo o que já publicou, qual considera ser o trabalho mais significativo para você? Qual a sua relação com seus próprios escritos, depois de publicados? Quando meu primeiro romance foi publicado, eu tinha 24 anos e foi nessa época, há quase uma década, que comecei a ouvir que era “muito jovem e bastante promissora”. Que essa condição permaneça, não deixa de ter sua graça. Mas não sei se entendo bem o que isso quer dizer. Que continuo de alguma forma sendo uma promessa que alguém espera que se cumpra um dia? Que ainda não cheguei a um “lá”, um lugar que ainda não é nem aqui nem agora? Mas o que faz com que alguém deixe de ser promissor para apenas ser? Não falo de estar pronto, de processo concluído, longe disso, o processo, a transformação e a procura precisam continuar até o fim, falo de, enquanto isso, apenas ser. Porque não prometo nada a ninguém, só escrevo o

que preciso escrever. O fato é que cada trabalho é um organismo vivo, sobretudo no que diz respeito à sua relação com quem escreve, mas também depois, aos olhos de quem lê. Algo que tem um ciclo de vida muito preciso. E cada fase de cada ciclo é sempre aqui e agora. Digressões à parte, quero dizer que, pra mim, cada texto é dotado da maior importância enquanto sua escrita se processa. Quando estou escrevendo um romance, quando alguém me pede um conto, enquanto me dediquei a pesquisar uma linguagem dentro da dramaturgia, nada era, nada é mais significativo que aquilo que tive e tenho nas mãos no momento. Sobre os trabalhos publicados... Li há pouco um texto de Maurice Blanchot sobre o “Interminável e o incessante”, forças que normalmente afetam e torturam aqueles que escrevem. Porque o escritor sempre acha que pode, deve fazer mais, ou melhor, que há mais a se fazer. Se não percebe hoje o que é, amanhã, talvez... Esse é um problema com que temos que conviver. Mas, no que me diz respeito, o grau de neurose varia de um trabalho pra outro. Como minha relação com o primeiro romance é um tanto atrapalhada, é estranho quando ago set out 2011 29


entrevista

alguém me fala sobre ele hoje. Não abro esse livro há anos porque me dá desespero por reescrever. No Suíte Dama da Noite reconheço mais a escrita, a linguagem, o fluxo, as escolhas do presente. Releio quando é preciso e quase serenamente. Com o teatro a questão é bem mais complexa. Qual é a sensação de ter um romance publicado fora do Brasil? E, ainda, como é sua relação com Portugal e os leitores de lá?

Ed. Mercado Aberto. 2002. 30 MACONDO revista literária

Portugal é um país que cedo começou a fazer parte do meu imaginário de uma forma meio mítica. Um território povoado por Camões, Pessoa, Florbela, Cesário, Sá-Carneio, Saramago, Lobo Antunes... Ser publicada por um editora especial como é a Cotovia, e ser levada até lá, digo, fisicamente, pela primeira vez por um livro, foi mesmo lindo. E foi uma surpresa muito feliz encontrar recepção tão calorosa. O Suíte Dama da Noite recebeu boas

Ed. Record. 2009

críticas, eu recebi e ainda recebo uma porção de mensagens de leitores entusiasmados, tocados de alguma forma. Portugal é um lugar pra onde sempre quero voltar. Diz-se muito que a escrita de ficção também carrega consigo um aspecto “catártico”, intrínseco à sua produção. Você concorda com isso? A escrita, para você, às vezes tem um aspecto, mesmo que aproximado, de “expurgar a alma”? A escrita pode se processar como catarse, mas não necessariamente acontece assim. Costumo dizer que quando escrevo o mundo me interessa mais. Entre o eu e o mundo, escolho o mundo, quero esse outro que desconheço ainda. Entrando em contato com ele, claro, cedo ou


tarde volto pra mim e esse regresso é mais rico do que se ficasse orbitando só ao redor de questões pessoais. Recentemente comecei um texto novo que partia de uma experiência minha, tentando esmiúça-la. Não levou muito até que isso me sufocasse e eu entendesse que não é o meu caminho. Pelo menos não ainda. Toda a atenção do mercado editorial está, atualmente, voltada para o crescimento dos e-readers que, em alguns países, fizeram com que as vendas digitais já superem os livros impressos. Como você acredita que essa nova maneira de ler vá impactar a literatura? No mês passado falei para estudantes numa Feira do livro no interior do Rio Grande do Sul. Por causa da greve dos Correios e outros motivos que me escapam, não havia meus livros no lugar. A ideia inicial – os alunos trabalharem os livros anteriormente em sala de aula – não foi possível. E nessa cidade, como em muitas outras, praticamente não há livrarias com acervos abrangentes. Falar para não-leitores é, infelizmente, muito comum. O problema maior é que às vezes, nessas horas, pode acontecer do escritor conseguir, quase que

miraculosamente, acender pequenas fagulhas que talvez serão perdidas na dificuldade de acesso aos livros. Amo livros feitos de papel, que posso carregar comigo por toda a parte e dispensam qualquer outro recurso (não precisam de bateria, e nunca ouvi falar de um assaltante que roubasse o livro de alguém numa praia, numa praça, num ônibus...). Não quero que essa possibilidade tenha fim. Mas sei que aquela geração pra qual eu falava naquela pequena cidade passa a maior parte do tempo diante de computadores, celulares, etc. Leitores são entidades preciosas demais para serem perdidas por uma greve ou pela desatenção de um livreiro. Ter acesso a um livro por um valor baixo e imediatamente através dessas mídias, impacta a literatura ampliando as possibilidades de encontro com o leitor. Como me opor a isso?! Você pode nos adiantar algumas informações acerca dos seus projetos vindouros? Estou escrevendo um romance que espero publicar no final de 2012, ou no começo de 2013. E tenho uma vontade enorme de trabalhar com cinema.

ago set out 2011 31


entrevista

Quais são suas “condições ideais” de escrita? Como, geralmente, você trabalha um texto? Tem alguma mania, ritual, ambiente ou contexto específicos, ou aspectos imprescindíveis para escrever? O ideal é poder escrever. Isso nem sempre é possível porque outros trabalhos me roubam da literatura. Aprendi a escrever nas condições mais adversas, mas certo grau de silêncio sempre é bem vindo.

divertido que escrevi uma porção em pouco tempo. Mas teatro exige tanto envolvimento, há tantas vidas e uma demanda enorme em jogo pra que ele se realize, digo, pra que o texto vire cena, que em algum momento entendi que voltaria a escrever quando tivesse algo relevante pra dizer, ou encontrasse uma forma que não fosse só repetição de fórmulas que já não me caem bem, ou tivesse acesso a um coletivo, um grupo com que pudesse trabalhar dramaturgias em processo. Espero que isso tudo aconteça Como surgiu seu interesse pelo teatro? Desde quando começou como um dia. Agora um amigo, parceiro escritora, já pensava em compor peças querido e talentoso, o poeta Ramon Mello, tem projetos de adaptação e trabalhar com dramaturgia? Gosto de teatro desde criança. Cheguei de textos literários para o teatro que me interessam. Mas com o Ramon é a ter um grupo na escola e eu, muito covardia, é o tipo de pessoa que quero ditadorazinha, queria escrever, dirigir, escolher trilha, cenário, interpretar... Na ter sempre por perto. Também tenho muita vontade de fazer algo com o época, minha irmã mais velha, Márcia, que é artista plástica, me estimulava Biño, que hoje é ligado à performance e à dança-teatro e tem desenvolvido muito. Mas depois isso ficou de lado. Outro irmão, o Biño Sauitzvy começou um trabalho que me tira o chão. a trabalhar com teatro em Porto Alegre, e logo se revelou uma potência rara. Quais autores/livros você está lendo, O teatro passou a ser, tacitamente, nesses últimos tempos? E, se tratando território dele. Embora sempre tenha de leitura, qual seu tipo preferido de sido leitora de peças, só escrevi alguns literatura? textos entre 2005 e 2007. Como um Agora estou lendo os contos completos exercício, uma busca sem muita da Flannery O’Connor e acabo de pretensão. Enfim, foi tão estimulante e passar por livros do Péter Esterházy e 32 MACONDO revista literária


e do Bolaño. Leituras excelentes e muito distintas entre si. Carola Saavedra, João Paulo Cuenca e Tatiana Salem Levy são autores contemporâneos de quem gosto especialmente, mas há outros, claro. Faço sempre questão de voltar ao Guimarães Rosa e ao Beckett, assim, como se corresse pros braços de alguém importante, desses que te salvam a vida.

que nunca leram nem parecem ter a mínima curiosidade sobre quem possa vir a ser um Drummond, uma Clarice Lispector, um Guimarães Rosa, uma Hilda Hilst, um Borges, um Dostoiévski, um Bolaño... Quando menciono esses e outros autores ou livros, muitas vezes vejo que o tal brilho se apaga, como se aquilo tudo não lhes dissesse respeito. Acho triste essa distorção. Principalmente porque a gente vai aprendendo aos poucos, e às vezes de formas muito dolorosas, que, pra Como é de praxe, gostaríamos de pedir, para finalizar, que você deixasse escrever, é fundamental ter não só talento, mas uma curiosidade infinita e algumas palavras aos novos escritores que lêem a revista e que têm, em maior muita humildade. ou menor grau, uma ligação especial, um interesse íntimo e muito próprio com o “ler” e “fazer” literatura. É preciso ter paciência, porque a escrita tem de vir acompanhada de muita leitura e passar pelo tratamento do tempo, sujeitar-se repetidas vezes ao processo árduo da reescrita, da seleção e do desapego. A pressa é exterior à 3 livros inesquecíveis para Manoela: > Crime e Castigo - Fiódor Dostoiévski escrita (só diz respeito ao sujeito que digita ou segura a caneta), quanto mais > Grande sertão: veredas - Guimarães Rosa > Livro do desassossego - Bernardo Soares cedo a pressa puder ser descartada, (Fernando Pessoa) melhor. Às vezes sou surpreendida por gente muito jovem que me diz, com brilho nos olhos, que está FOTOGRAFIAS: ACERVO PESSOAL DA A. escrevendo um best-seller. Quando tento ir mais fundo nisso, descubro ago set out 2011 33


resenha


da arte e das estrelas Mário Galdán

Estrela distante, Roberto Bolaño Companhia das Letras, 144p. (2009)

A narrativa, mais que envolvente, e o narrador, mais que envolvido, só poderiam mesmo fazer parte de uma quase obra-prima de Roberto Bolaño. Não é à toa que “Estrela Distante” exala o que há de mais próximo ao sublime, do início ao último ponto. Poderíamos, por um lado, dizer que o romance é sobre arte e estética: ou seria sobre um artista e sua estética? E a arte, aqui, misturar-se-ia com morbidez, perversidade, crueldade? Limitaríamos, ainda assim, a obra de Bolaño, por não situarmos num mesmo patamar o lado investigativo do enredo, as outras personagens com histórias marcantes ou, ainda, todo o peso histórico do cenário pré e pós-ditatorial chileno que perpassa a trama. Além do mais, nosso narrador estava preso por conta ago set out 2011 35


resenha

do regime fascista quando, pela primei- criador, algum tempo antes: “que estrera vez, viu nos céus a arte original de la cai sem que ninguém a veja?”. Carlos Wieder. E não demorou muito a ele perceber categoricamente que aquele Wieder, o piloto de avião que escrevia versículos dentre as nuvens do firmamento e ficara conhecido nacionalmente, era Alberto Ruiz-Tagle, um soturno e enigmático colega que também frequentava oficinas de literatura antes do golpe militar. Eis que nosso narrador, um poeta detetivesco “quase-Bolaño”, se envolve em investigações aprofundadas sobre o fascinante personagem duplo que, logo, mistura-se também a um assassino assombroso e inatingível, envolvido de perto com o governo nacional. Que tipo de produção artística extrema era aquela, e que artista era esse? Alberto Ruiz-Tagle, Carlos Wieder ou, até mesmo, Ramírez Hoffman, o infame, último dos “literatos nazi-fascistas da América” publicados previamente pelo autor num curto espaço de livro e, agora, com a centralidade e toda a atenção voltada à sua história: eis um deslumbrante, distinto e distante personagem de Bolaño. O livro é uma obra fantástica de um inestimável escritor latino contemporâneo. Faulkner já parecia prefaciar não só o romance, mas também seu 36 MACONDO revista literária


prosa poĂŠtica


prosa poética

ONZE POETAS “O essencial da arte é exprimir; o que se exprime não interessa” Fernando Pessoa.

I O primeiro poeta estava escondido atrás de uma grande porta branca, e fazia de seu batente uma expectativa de redenção; com seu corpo defenderia o corpo vivo (eram um só, assim cria) dos outros dez. Uma porta é um lugar que separa dois outros, ele dizia. O fundo deste quadro pode ser verde.

II Um corredor à direita da porta, e que conduzia ao outro lado (seria a um dos lados do real?) - , era onde estava o segundo poeta. O palco (verde) era para si ir e vir, e rápido. Assim, egocêntrico dos outros dez, dali exauria-se até protegendo, até atacando. Queria saber tal qual os números, tal qual o tempo.

38 MACONDO revista literária


III Último homem a destruir, se preciso for; se preciso for último homem sobre a face do chão verde à frente do homem atrás da grande porta branca. A marca que traz no braço poderia ser uma cicatriz, mas enfaixa apenas sua alma. Sua altivez tem algo de drástico, sabem os outros dez. Este é o terceiro poeta. Perdoai-o, Senhor, ele não sabe o que faz.

IV Atônito à própria presença ali, o quarto poeta é mais jovem e mais alto que todos os outros dez. Súbito entre os escolhidos que o duvidam, sabe conduzir-se como deles poucos no plano, o verde. Será protagonista de uma obra inacabada, sabemos, que é impedir a criação do alheio contrário a si, a vós. Ele é experimentado, para menos.

V Pela esquerda da grande porta branca, correndo risco o quinto poeta. Ser agredido ou agredir, sinal de ruindade? Prefere vencer a ser esquecido. Cabeça baixa, fixando o verde, jaz sua habilidade - lado esquerdo de seu corpo, o muito que lhe querem os outros dez. O lado esquerdo de seu peito não é estar recuado. Recusa a ser recusado.

ago set out 2011 39


prosa poética

VI Meio caminho entre a grande porta branca, sobre o tapete verde, e o limitado dos seus recursos, ainda assim o sexto poeta sabe o que fazer. Ocasião para mostrar, sem falta, sua experiência. Chamaremos a isso valentia. Tem fôlego para gritar e gritar pelos dez outros, nós a desfazer. Quereríamos mais criatividade, mas não é obrigado a ser o que precisamos.

VII Nos seus olhos de águia antecipam-se as ofensivas. Daí que os outros dez, quando postado onde deve, confiam. Pode livremente distribuir - tem destreza para - as estocadas contra a obra em aberto. Será esta uma vitória? Uma derrota? O sétimo poeta é um postulado presente em todos os cantos do local, piso em verde, passos dinâmicos, rumo a uma grande porta branca. Outra.

VIII Nada tem de ideológica aquela centro-direita: o oitavo poeta ali é feito um relógio. Pelo seu ritmo os demais, os dez outros, se aventuram. Da fluidez com que as coisas se desenrolam, não há revolta diante da posição assim ocupada. Chão verde de passos, na velocidade da lentidão. Destra confabulação de mágicas, seus passes.

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IX O nono poeta: sua condição é a ponta de uma lança. Não há abrigo que aconchegue a grande outra porta branca, quando à sua frente. Crivada em sua metade esquerda, a argumentação se sustenta, crença nos outros dez. Ao desfilar seu rigor no improviso, faz do tapete verde um lugar, uma audiência. Sem igual, saem dali parecidos heróis e vilões.

X Salvo engano, tem ele liberdade para toda parte. Pela direita, pela esquerda. Pelo meio, entre os outros dez, até o escancaro da grande porta branca (seu batente). É demais a redenção do décimo poeta – limpar o caminho rumo ao salto que evitará ou será inútil. É ele ou eles vingados, no tentar de um plano prenhe, verde de sentidos. Os nomes de fora e as cores, a fase.

XI Eu sou um poeta. Eu sou aquele que faz. Eu sou o único que pode decidir. Eu sou melhor que todos juntos. Eu garanto o nível deste espetáculo dantesco. Eu sou mais que tudo o que já quiseram ser um dia. Eu sei que eu sou uma coisa, e eu sei que os outros são outras coisas. Eu já fui um cara, agora eu sou maior que vários. Eu sei que todos queriam ser como eu sou. Eu sou quem tem que resolver. Eu sou um alvo. Eu sou um matador.

Setembro, 2011

ari marinho bueno ago set out 2011 41


espaço virtual

www.blogdacompanhia.com.br Além de ficar por dentro dos lançamentos da editora, o blog da Companhia das Letras publica notícias, links e conta com as exclusivas colunas de Luiz Schwarcz, Tony Bellotto, Michel Laub, Joca Reiners Terron, Erico Assis, Carol Bensimon, Vanessa Barbara, Andre Conti e Júlia Schwarcz. [No twitter: @ciadasletras]

http:/ /autoreselivros.wordpress.com O espaço, criado e mantido por Eduardo Coelho, traz novidades sobre o mercado editorial, reportagens, entrevistas, vídeos, música e informações sobre diversos eventos (cursos, palestras, conferências) para os que se interessam pela cultura, em geral. [No twitter: @autoreselivros]

www.manualpraticodebonsmodosemlivrarias.blogspot.com Criado em maio de 2011, o blog já virou mania na internet. Trata-se de uma série de situações inusitadas e vivenciadas por livreiros de todo o país, que compartilham tais episódios com a autora - fã de Hilda Hilst, protegida pelo pseudônimo de Hillé Puonto - também livreira e, portanto, vítima de diversas das irreverências que descreve de forma singular. [No twitter: @_hille]

http:/ /blogcasmurros.blogspot.com Rafael R. é o responsável pela manutenção da página, sempre atualizada com notas acerca do que acontece no mundo literário.: prêmios, lançamentos, perfis de escritores, eventos etc. Também no endereço encontram-se os links para o download dos dois números de fanzine lançados, com textos que valem a leitura. [No twitter: @casmurros]

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domínio público

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domínio público

Álvares de Azevedo Manuel Antônio Álvares de Azevedo, precursor do romantismo em nossas letras, nasceu em São Paulo (SP), a 12 de setembro de 1831. Autor de “Noites na Taverna”, “Macário” e de copiosa produção poética, muito influenciada pela obra de Byron, morreu no Rio de Janeiro (RJ), a 25 de abril de 1852, quando aluno do quinto ano da Academia de Direito de São Paulo. É o patrono da cadeira nº. 2, da Academia Brasileira de Letras. Autor de versos de grande vibração dramática, como os que escreveu impetrando clemência para o capitão Pedro Ivo, herói da revolução praieira, por vezes feriu também a nota humorística. Os versos acima são uma prova disso. Disse dele Edgard Cavalheiro: “Faltou-lhe para ser gênio, exclusivamente isto: tempo. Fez vibrar todas as cordas da lira, do mais ingênuo lirismo ao mais desabusado erotismo. É zombeteiro e irônico, alegre e triste, vibrante e meigo, sensual e pudico. Devemos-lhe a introdução do humor na poesia brasileira.” *Extraído do livro “Humor e Humorismo”, Editora Brasiliense - São Paulo, 1961, pág. 94, antologia organizada por Idel Becker. (Fonte: www.releituras.com.br)

Para a presente edição, selecionamos um poema que explora uma faceta por vezes esquecida pela crítica e grande parte dos materiais didáticos. Com vocês, um Álvares de Azevedo “zombeteiro e irônico”, como bem definiu Idel Becker.

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É ELA! É ELA! É ela! é ela! — murmurei tremendo, E o eco ao longe murmurou — é ela!... Eu a vi... minha fada aérea e pura, A minha lavadeira na janela! Dessas águas-furtadas onde eu moro Eu a vejo estendendo no telhado Os vestidos de chita, as saias brancas... Eu a vejo e suspiro enamorado! Esta noite eu ousei mais atrevido Nas telhas que estalavam nos meus passos Ir espiar seu venturoso sono, Vê-la mais bela de Morfeu nos braços! Como dormia! que profundo sono!... Tinha na mão o ferro do engomado... Como roncava maviosa e pura! Quase caí na rua desmaiado! Afastei a janela, entrei medroso: Palpitava-lhe o seio adormecido... Fui beijá-la... roubei do seio dela Um bilhete que estava ali metido... Oh! De certo ... (pensei) é doce página Onde a alma derramou gentis amores!... São versos dela... que amanhã decerto ago set out 2011 45


domínio público

Ela me enviará cheios de flores... Trem de febre! Venturosa folha! Quem pousasse contigo neste seio! Como Otelo beijando a sua esposa, Eu beijei-a a tremer de devaneio... É ela! é ela! — repeti tremendo, Mas cantou nesse instante uma coruja... Abri cioso a página secreta... Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja! Mas se Werther morreu por ver Carlota Dando pão com manteiga às criancinhas, Se achou-a assim mais bela... eu mais te adoro Sonhando-te a lavar as camisinhas! É ela! é ela! meu amor, minh’alma, A Laura, a Beatriz que o céu revela... É ela! é ela! — murmurei tremendo, E o eco ao longe suspirou — é ela!

Encontre outras produções de Álvares de Azevedo e de diversos autores em www.dominiopublico.gov.br

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poesia


poesia

Facilitaê, ô reflita: a ideia adversa que te irrita é só o que você não aceita digo: aceita verá que a briga aflita é tolice controversa se tolerar facilita

Chatos que resolvem das pessoas que conheci, as interessantes eram grossas, pedantes, chatas e arrogantes absolutamente desagradáveis. os bonzinhos sempre foram entediantes que contribuem com nada à revolver tantos maus costumes. se acha este pensamento radical lembro: os radicais são grossos, pedantes, chatos e arrogantes.

giovani iemini 48 MACONDO revista literária


Rios? De onde surgiram esses rios? gesticulando esperanças desmedidas? nasceram quem sabe da saudade! por serem capazes, como qualquer outro, de seguirem viagens prolongadas, sozinhos, atravessando ondas límpidas... servindo de caminho, para as canoas cansadas. surgem crescidos, para entregar-se ao mar, como o poder da canção comovente. retém para si, poderes de decifrar o chão, perambulando em seu curso vital, cumprindo o seu dever maior, como o ofício único de amar, aceitando por horas águas impuras, que nas funduras escondidas, às vezes muda seus movimentos, sem abandonar a essência de um rio, que entre um momento e outro segue seu destino, construindo o grande encontro, com o vasto oceano sem fim. que rios que somos? entre carne, ossos e água? Se não um pensamento preste a se tornar, somente saudades!

airton souza

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poesia

Vestido branco A tarde apressa-se a abrandar o dia a despejar vermelhos incandescentes e trazer ao ar ondas divertidas de ventos como o bailar das folhas caídas crisântemos pendem solenes aromas as flores exalavam o caminho e lá vem ela menina no fim da perspectiva a brilhar entre os raios de sol os cabelos soltos possuem o ritmo da sua alegria ao passar por entre as sombras estas iluminam-se em reflexo ao branco do vestido curto segundos são eternos entre o zigue zague das suas atenções e o divertido chutar as pedras e levantar a poeira da minha imaginação por trás do vidro da janela não há vento é cálido ambiente cercado de penumbra é contemplação da sua beleza a aproximar-se das batidas do meu coração areja as dores da minha solidão e vem sedutoramente a sorrir sabedora do meu olhar envidraçado a cada passo em minha direção trás um pulsar de vida e um espantar alegre a minha nostalgia

50 MACONDO revista literária


e um espantar alegre a minha nostalgia perco-me no espaço da sua caminhada soturno em pensamentos vagos só desperto quando por trás da cerca branca em pernas torneadas e seios amanteigados sorri e maliciosamente grita a chamar-me para ver a lua aquela nossa a surgir no mar e faz-se noite em seu vestido branco deixado delicadamente na areia é farol a nos indicar o caminho de volta.

flávio castorino

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poesia

un homme qui dort no dorso do dia mordente adormecido na vanguarda da vida onde ante sua vontade rasga e remonta a mentira o poeta pode desistir

para Waly Salomão SENTA O CANTE do reinvente onde ir adiante é sempre excedente O POEMA precipita tudo (pressão dentro do crânio) a cena sem moldura se apresenta; sento-me e o poema me pressente. O CORPO esconde dentro o corpo

leonardo mathias

52 MACONDO revista literária


Paisagem - Miragem Ao escritor britânico Artur C. Clarke in memoriam

As ovelhas que pastam distante são chacais um trem estremece a cidade e os anjos do cemitério choram pó As palavras são portas que abrem e fecham suas asas as palabras são múltiplas e contraditórias e possuem o ritmo do trote de um cavalo na campina Um dia vem depois de outro dia e para mim um dia nunca é um dia qualquer são estas as responsabilidades do ser em uma paisagem deserta de humanidade

ago set out 2011 53


poesia

Sonho tenaz Ao escritor chileno Roberto Bolaño in memoriam

Um diário descontínuo que abre e fecha com uma orquestra que acompanha poesia vertiginosa e sincopada comovedor romântico Rimbaud em fuga perpétua E já sabes como és Cesaréa disse uma vez para além do ano 2600 queimando as mãos e os pés por cada poema exalado O que há por detrás?

leo lobos tradução: geruza zelnys de almeida 54 MACONDO revista literária


Alegria, Pura dos bêbados dos náufragos dos santos abandonar-se ao manancial das circunstâncias

Bêbados e Ascetas têm isso em comum desprezam toda glória esquecida no futuro respiram o outono misturam-se a mendigos que celebram o raiar do sol como libertação buscam o amor em lugares ocultos e por vezes o encontram mas só deixam a taverna quando embriagados de néctar

ago set out 2011 55


poesia

Venha forte a madrugada silenciar, entre livros e um bule de chá o olhar esquivo da saudade venderam nossa rua os sonhos, tolos, ficaram encharcados do ruído das máquinas de construção mas nos feriados de abril mas no dia do Natal que eles retornem renovados nos coroem de flores nos perfumem os cabelos e a face nos façam rir às gargalhadas e aguardar o encontro entre o céu e as águas na ilha de Patmos

Epistrophé o sol escapa do azul do mar um pescador fita o infinito

bernardo brandão 56 MACONDO revista literária


O par de botas Se os olhos pesam, Dispensam comprimentos, ruas inteiras. Fotografam paisagens esquecidas, Não alcançam chapéus, Chaminés ou copas de árvores. Aquele par de botas de Van Gogh É o auto-retrato de uma alma pesada.

Das ruas e suas estórias Há ruas que são sérias, Rua: Padre Inocêncio, Rua: Coronel Cabrestão Neto. Outras lembram episódios tristes, tragédias, Ferem sem culpa coitadas. Eu prefiro as engraçadas, feitas de sabão, Onde velhotas deslizam como dançarinas.

bartolomeu pereira lucena

ago set out 2011 57


poesia

Fotograma Janela deitada para o céu noite irrompe no quarto Pelas paredes gritam azuis cinzas prateados maresia celeste cintila argamassa lunar para sonhos a povoar versos insones no cômodo encantado Arrebenta de plúmbea luz a indolência vã da madrugada No radiante breu o poeta resplandece revelado

Parte a minha outra em ti guardada anseia ser inteira quando em mim tocar a face tua de meu corpo habitada

58 MACONDO revista literária


Calçada Explode magnífico botão a flor imita a bomba – versão inversa cor aroma beleza pétalas haste pistilo estilhaçam a certeza do homem Questão de segundos : contemplação De delicadeza implode a história dentro dele universal – guerras conquistas poderes propriedades tecnologias capital e desterrado parado ali ele ama aquilo Em destroços de si resgata o sobrevivente possível: um menino Soberana, perfumada e aberta a bomba sorri

rosane carneiro

ago set out 2011 59


poesia

Noite de neve (mentira) no fundo do olho (nada se encontra nada resta pra além de uma palavra feito undo noutra língua noutrora que não esta) noite de neve paira sobre o mundo (mentira cadavérica não presta não desfaz a miséria deste mundo nas brancuras do gelo (mera estafa – feitio de metáfora – mera imagem do silêncio mera estátua calcinada nos olhos do futuro) mentira gorda mentira fátua mero cabresto sobre besta-fera) noite de neve (noite de monturo)

60 MACONDO revista literária


Cortina de banheiro na barra horizontal em circulares voltas – cinco talvez – arredondadas cinco presilhas quase irregulares formando este quadrado arredondadas soltam desencontrados seus colares que nada mais circundam das paradas quadraturas opostas entre os ares fumegantes dos banhos embaçadas. dispostas em seqüências aos meus olhos no enquadramento lógico da vista que insiste em ver no caos uma figura: nelas figuro o preto e o branco – escólios de uma ilha, num mar casualista – e no calor das ondas só ternura.

guilherme gontijo flores ago set out 2011 61


poesia

Rayuela num divertimento para Luci Collin, voz que diz (gramática histórica para se chegar ao céu em poucos passos)

faço permutas e perguntas e “Por que acredito em minha cidade natal?” é uma delas. no povo, a identidade, a formação. toda essa escroqueria? tem certeza? conheci um poeta que lutou corpo e vida. o jogo da Amarelinha com, assim mesmo, letras maiúsculas, o jogo. Rayuela. a moral universal de todos os homens tragicômicos, a soltura, os males que se aqueixam, exíguos são. digo um “quem”?, decimônico? O soneto existencial que não quis escrever hoje tão de tão no chão que estou e me sinto. Meus subterfúgios não me auxiliam. Tomo um banho depois do leite. Eu estou branco. 62 MACONDO revista literária


Cheguei. De frente do fronteiro, atiro o caco quebrado da telha. Crianças eternizadas jogam comigo. Vai caindo a tarde. Casa 1 - Penso no porquê de tudo isso. O bloco com a dedicatória da minha mãe que está longe demais pra ter algum sentido. Hoje fez um dia incrivelmente igual ao de ontem. Isso está me matando. A natureza. A canção. O canto imanente. As hostilidades iniciais das manhãs grávidas, selvagens. Uma mulher! Exclamei mesmo. Mas só abundosa, que é pra servir. Digamos, o feminino à mancheias. Quero a tartamudez depois do excesso. O balbucio. O Cio. O céu está distante daqui, mas não sei se é já ilusão o meu ver. Casa 2 - A separação e a união. Há pronomes em mim, tanto singulares como plurais. Mais plurais. Hoje estou plural. Cismado, imbuído, endogâmico, tautológico, eu penso. Casa 3 – Pode ser o fim, já adianto. Não continue. Piso com um só pé. Não sou Saci pra acreditar em tudo. Você leu sobronegrinho? Casa 4 – Interpelar o leitmotiv. A Ana morreu de fé. Cartesianamente. Minada eivada frisada espúrio. Meu sentimento é de falência. Mas tudo passa. Ontem passou. Hoje também logo já se vai. Pensar me afunda. O pensamento mais afeito a elucidações. Suscetível. Castigo indizível. Miscelânea? Que reveses são alterados por mim mesmo ao sair de casa sem beijar minha porta? Sou audacioso demais, você acha? Mas você tem sempre esses achaques. Por que não se cala de uma vez? a noite foi escura. insônia. livros e faltas e faltas e faltas. Basquiat também se afundou na lama. aí penso que sou feliz e vou ao leite outra vez. essa escroqueria toda, que inferno! o maior impasse é se autodenominar crítico de tudo. deu na veneta o mundo é mesmo um moinho e as pessoas, ah, uma interjeição de dizer enfatizando, ahhhhhh as pessoas, as pessoas não sabem que “deus não joga dados”. ele, se assim o posso chamar, com minúsculas mesmo, ele poria extenuantes percursos na mais cândida travessia. aquilo a que costumo chamar de arraigamento. se não desvelasse o tempo, deus não seria nadica de nada. estaria atulhado e com remorso de ago set out 2011 63


poesia tantas e tantas cotidianas redenções. Casa 5 – mais longeva que a quatro, o equilíbrio treme. espocam tiros de dentro de mim. sou outros. você só pensa que me conhece. só há um alguém que me conhece assim, coitado. você é de usar mata-borrão? folhas de maculatura? intervenientes quaisquer? retortas? eito? me diz qual é a tua hercúlea vontade. no ano de 1959 você foi empalado na Índia? não me diga... embolia aporias guinadas irremissivelmente niilista você é um crítico safado um idiota que janta preciosismos Casa 6 – ucasse político. deslanchei desperdiçando ingentes recursos. Casa 7 – número ímpar não prefiro mais que o par. Perfil distintivo: Matizes rosas, alaranjadas, avermelhadas, pomo-de-adão, roxos, socos, amarelos, pretos, negros, moçambicanos, o português, a dona Geni, o conjunto gregário. vai, abole! Casa 8 – entro trôpego e quase déspota. Camarilhas. Eu acho o teu anacronismo uma beleza de creuza. mas creuza é uma tonta de feia. ela só sabe ser reduto, entende? ela se vende. é quitanda. o mundo é mesmo um moinho e me avisaram tarde demais. já beiro o céu azul. vão me dar um lugar no céu, meu pai! Eu não mereço isso! (Quanto castigo, esta lembrança emblemática e infantil). 64 MACONDO revista literária


Casa 9 – quarteladas e caudilhos. não escrevo literatura pujante. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. Casa 10 – espero o gênio sair da lâmpada. o gênio não sai. posso fazer um último pedido, deus? DEUS DIZ SIM olho todo o percurso e o mundo é mesmo um moinho uma divina comédia humana de desumanidades então que me mostre o inferno! eu mato críticos, pois não

germano viana xavier

ago set out 2011 65


texto

A aventura de escrever

A

literatura é uma arte solitária e coletiva. No fazer literário, na hora da criação, o escritor se isola, se enclausura, se tranca em seu mundo e cria, inventa, recria, fantasia. Nessa hora a solidão se casa com ele. Na editoração, publicação, distribuição, divulgação e venda é o coletivo que impera. Quando a obra chega às mãos do leitor, volta ao estágio do indivíduo. Leitura se faz no aconchego, na proteção da solidão.

Seja no sofá da sala, num banco de jardim, no sacolejo do ônibus, trem ou metrô, no planar calmo de um avião ou no vai e vem de um barco, a atenção isola o leitor do mundo ao redor. Em Salvador e região temos vários exemplos de pessoas ou organizações, registradas ou não, que atuam no incentivo à leitura e no fazer literário como o Projeto Fala Escritor, Academia de Cultura da Bahia, Academia de Letras da Bahia, ArtPoesia, Fundação Òmnira, Núcleo Baiano da União Brasileira de Escritores, Projeto Alma Brasileira, Poetas na Praça, Amantes do Conhecimento, Círculo de Estudo Pensamento e Ação, Caruru dos Sete Poetas etc. 66 MACONDO revista literária

E aí o ciclo se fecha, da criação à leitura. Mas, paradoxalmente, se abre um novo contato do leitor com o mundo, pois, através da “viagem” que o livro lhe proporciona ele, leitor, pode manter contato com outros mundos, outros pontos de vista e experiências, sem precisar sair do lugar. O fascínio da leitura está justamente aí, no proporcionar e possibilitar que culturas diversas circulem mundo a fora. Em cada página, em cada prefácio, em cada capítulo há infinitas possibilidades de mundos e de vidas. No meio do caminho está o escritor, tido como a antena do mundo, que capta a essência do viver, transforma realidade em fic-


ção, traduz para sua língua, filtra pelo seu modo de ver e passa adiante. Esse aventurar-se em letras, pontos, vírgulas, interrogações, exclamações, reticências, acentos, palavras, sentidos, metáforas, conotações e denotações que faz a magia da literatura permite perpetuar pensamentos, fantasias, sonhos e realidades. A missão do escritor, mais que simplesmente relatar seu tempo ou fantasiar sobre ele é, primordialmente, eternizar a paisagem, o olhar, o sentir. Ele, escritor, tem, portanto, uma responsabilidade além de compor e decompor realidades em forma de palavras. Nas mãos dele está a missão de proporcionar o sonho a muitos, de levar sua mensagem a lugares inimagináveis e de manter viva a chama da fantasia por toda a eternidade. Fonte: A TARDE, 20.01.2011, pág. 4

Populares,

valdeck almeida de jesus

ago set out 2011 67


bibliophilia

Manual prático de levitação JOSÉ EDUARDO AGUALUSA EDITORA GRYPHUS,

161P.

2005

Indicação de Marcos M. Casadore Impossível não gostar do que se encontra em Manual Prático de Levitação, livro de contos do angolano José Eduardo Agualusa. São 20 textos relativamente curtos e diversos, mas saborosa68 MACONDO revista literária

mente bem escritos e carregados com uma mistura de originalidade e simplicidade própria dos grandes autores. A coletânea reúne, em sua maioria, escritos que até então já haviam sido publicados mundo afora; divididos em três grandes categorias “espaciais” – Angola, Brasil e Outros Lugares de Errância –, nos trazem assuntos que variam da seriedade e contundência da crítica social ao humor inteligente e irreverente associado a situações pitorescas. Para além da “localidade” de cada conto, temos em mãos textos que, em comum, nos convidam a pensar e apreciar e nos agarram com rara suavidade, quase imperceptível, daquelas que, tenramente, não nos deixa escapar da leitura. Agualusa traz, ainda, referências ilutres do mundo literário em algumas excelentes narrativas: um pescador pernambucano

leitor assíduo de Clarice, Fernando Pessoa e um anjo do futuro, um livro perdido de Alberto Caeiro ou, ainda, os “céus” e “infernos” de Borges e Márquez. Deste modo, a recomendação desta última linha aparece, por fim, quase como uma redundância. Tem de ser lido!


bibliophilia

Me roubaram uns dias contados RODRIGO DE SOUZA LEÃO EDITORA RECORD,

336P.

2010

Indicação de Taize Odelli Obra póstuma do escritor carioca Rodrigo de Souza Leão, “Me roubaram uns dias contados” é um livro que confunde, e por isso mesmo é mui-

to bom. Confunde porque essa é a natureza do próprio escritor, esquizofrênico que colocou no papel as loucuras que o atormentavam. Separado em quatro “livros”, o autor apresenta uma gama de personagens estranhas, perturbadas, esquisitas que são e não são ele mesmo. Sim, o escritor é, no fim, a personagem principal desse livro. Ou melhor, ele é quase todas as personagens – ao mesmo tempo em que não é, e isso faz sentido sim, de alguma forma inexplicável. Primeiro conhecemos Weimar, um homem que vive trancando em casa com muitos telefones, ou “gozafones”, que utiliza para praticar sexo com desconhecidas com quem conversa o dia todo, até que seus amigos mortos o incentivam a se suicidar. Outras personagens são o homem solitário que narra sua masturbação, e um pintor

já velho que encontra um sósia jovem que lhe irrita e “rouba” seu talento. E há o momento em que todas se encontram, todas se viram contra o próprio escritor, o(s) Rodrigo(s) contra o Rodrigo. É uma leitura pesada, desafiadora, que insere o leitor dentro desse mundo difuso e depressivo, em que todas as personagens se depreciam, são obsessivas, paranóicas, e envolvem tudo e todos em suas reflexões marcantes e lúcidas dentro de toda essa perturbação. Resumindo: um livro louco e surpreendente.

ago set out 2011 69


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Airton Souza ::: nasceu em Marabá (PA), em 1982, é poeta e professor de rede pública de ensino, licenciado em História, pela UNIASSELVI e Acadêmico de Letras da UFPA. Já publicou Incultações Noturna e O cair das horas, dois livro de poemas e já participou de mais de 40 antologias.

Bruno Machado ::: é jornalista e redator publicitário. É autor de “Porão: um retrato da cena hardcore em São Paulo” e prepara a compilação “O Evangelho e outras histórias”. Também faz parte do coletivo de autores “Corrosivo Coletivo” (www.corrosivocoletivo.blogspot.com), onde escreve sob os pseudônimos de Voltaire de Abreu e Guinea Pig. O livro “As melhores histórias do Corrosivo Coletivo” tem previsão de lançamento para fevereiro de 2012, pela ed. Navilouca. E-mail: bhmachado@hotmail.com

Ana Teresa Jardim ::: publicou A Cidade em Fuga (1997), No Fio da Noite (2001), A Mesa Branca (2002), e contos avulsos. Seu texto infanto-juvenilSacopenapan está no prelo. Seu e.mail de contato é anateresajardim@gmail.com e seu site/ Caio Yurgel ::: Mestrando em Teoria da blog é www.anateresajardim.com. Literatura / Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio GranAri Marinho Bueno ::: natural de Ouri- de do Sul (PUC-RS). Em 2010, recebeu nhos, SP. Autor. Mantém o blog http:// os prêmios OFF-FLIP de Literatura, com vacasnoceu.blogspot.com; contato: ari- uma obra curta de ficção, e III Concurso mabueno@hotmail.com. Mário Pedrosa de Ensaios sobre Arte e Cultura, com um ensaio sobre o filósofo Bernardo Brandão ::: é mestre em Filoso- alemão Walter Benjamin. Contato: caio. fia Antiga pela UFMG e professor de Lín- yurgel@gmail.com gua e Literatura Grega Antiga na UFPR. Cleverson Antoninho ::: é um nada. E Bartolomeu Pereira Lucena ::: Graduado nunca publicou nada, em nada. Blog: em Filosofia pela UEPB, 25 anos, nasci e http://contosdemerda.wordpress.com; moro atualmente em Malta-PB. E-mail: cleversow@gmail.com Email: bartolomeupe@gmail.com; blog de poesias: http://gavetadecego.blogs- Fabíola Victória Weykamp ::: nasceu em pot.com Brasília - DF em setembro de 1988. Mudou-se para o Rio Grande do Sul ainda ago set out 2011 71


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pequena, onde vive até hoje. Estudante - em reta final - de Licenciatura em Letras pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), possui o blog Epílogo, onde publica seus textos, e recentemente é colaboradora do jornal Amigos de Pelotas. http://versodigital.blogspot.com Flávio Castorino ::: Sou de São Paulo, capital. Formado em Psicologia, trabalho como Designer Gráfico e Artista Plástico. Escrevo poesias desde a adolescência. Publiquei pela Editora “Clube dos Autores” o livro, “Poemas de um amor rabiscado” e já participei de várias antologias poéticas do Congresso Brasilheiro de Poesia. Facebook: http://facebook.com/ FlavCast Blog: http://armazenpoetico. blogspot.com

não tem muito o que fazer. Foi publicado nuns livrinhos, nuns sites, nuns sacos de pão, mas nunca ganhou concursos de literatura nem dinheiro por seus textos. É anarquista, ateu e embriagado por conhecimento. Ainda não viajou pelas estrelas. www.bardoescritor.net; http:// giovaniiemini.blogspot.com/ Guilherme Gontijo Flores ::: É tradutor e professor na UFPR, publicou As janelas, seguidas de poemas em prosa franceses, de Rainer Maria Rilke (Ed. Crisálida, em parceria com Bruno D’Abruzzo), e A anatomia da melancolia, de Robert Burton (Ed. UFPR, primeiro volume). Paricipa do blog coletivo www.escamandro. wordpress.com Guilherme José Pires ::: nascido em 1982, conheceu-se na Quinta das Pedras, em Castelo Branco (Portugal). É artífice de livros e pastor de nuvens. Co-autor em “Histórias Daninhas”, de Portugal: www. historiasdaninhas.pt.

Germano Viana Xavier ::: 1984; Natural da Chapada Diamantina, é graduado em Jornalismo e Letras, autor de Clube de Carteado (Editora Franciscana - 2006) e do livro-reportagem Iraquara - Em memória de Nós, ainda não publicado. Escreve em http://www.oequadordas- João Rui Afonso ::: nascido em Castelo coisas.blogspot.com e http://www.pa- Branco, é coleccionador de porquês e ginacultural.com.br amador de palavras. Co-autor em “Histórias Daninhas”, de Portugal: www.hisGiovani Iemini ::: é candango, forma- toriasdaninhas.pt. do em História pela UnB (Brasília, DF) e criador do Bar do Escritor. Escreve pois Leo Lobos ::: Santiago/Chile, 1966. Po72 MACONDO revista literária


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eta, tradutor e artista visual. Entre suas obras figuram: Nueva York en un poeta, Marnay. Notas de un cotidiano, Devagar, Turbosílabas. Poesía Reunida 19862003, Mar esmeralda y Un sin nombre. Traduziu autores brasileiros contemporâneos como Roberto Piva, Claudio Willer, Helena Ortiz, Tanussi Cardoso, Hilda Hilst e Claudio Aguiar, entre outros. E-mail: tallerleolobos@yahoo.com

Rosane Carneiro ::: publicou Excesso (1999, edição da autora), Prova (2004, Ibis Libris editora) e Corpo estranho (2009, Editora da Palavra). Já integrou antologias e periódicos literários impressos e virtuais diversos. É editora, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e integra o corpo editorial da revista eletrônica Aliás.

Leonardo Mathias ::: vive em São Paulo. Poesia, Artes Visuais e Design são lugares nos quais também habita. Oscila. Via linguagem se exercita. Poemas publicados no livro De Pé pela Editora Patuá, em 2011. e-mail para contato: leonardomathias@hotmail.com Site: http:// leonardo-mathias.blogspot.com

Taize Odelli ::: estudante de jornalismo, publica suas resenhas em http://rizzenhas.com; também escreve para os sites Amálgama e Blog do Meia Palavra, além de colaborar com o Artilharia Cultural e o Ambrosia.

Lucas Sousa Ferreira ::: “O menino que morreu com o vento”, por Lucas Souza Ferreira, 27 anos, de Guaxupé, Minas Gerais; esse é um de vários outros textos que eu tenho escrito, sendo que nenhum deles ainda foi publicado, é a primeira vez que envio algum deles para um lugar mais especializado. E-mail: sferreira_lucas@hotmail.com

Thiago Cervan ::: e-mail: under.ago@ gmail.com Valdeck Almeida de Jesus ::: e-mail: poeta.baiano@gmail.com

Venes Caitano Marques ::: caricaturas descubra o seu lado engraçado agora mesmo! http://twitter.com/mim_venes; http://venescomw.blogspot.com; http://www.worldcartoonists.blogspot. com/; http://www.brazilcartoon.com/ Mário Galdán ::: nascido no estado de blog/venes/; e-mail: wenescaetano@ SP e radicado em já outros três, preten- hotmail.com de aumentar o número de destinos. ago set out 2011 73


www.revistamacondo.co.cc www.revistamacondo.co.cc

2011 2011

Revista literária Macondo #3  

Terceira edição - ago/set/out 2011

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