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Revista Literatas

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Festival Literatas

r.literatas@gmail.com

calameo.com


ÍNDICE “IDENTIDADES” DEBATIDAS NO LANÇAMENTO DO 3º FESTIVAL LITERATAS

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FORA DOS TRILHOS

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PROSA&CONTOS

DIA-A-DIA

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“OS PILARES DA SOCIEDADE”: UMA PEÇA PARA O NOSSO TEMPO TEATRO

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TEMPESTADE, APÓS A BONANÇA

LITERATURA INFANTIL

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MANIFESTO DESAFIANDO

VAGENS

CRÍTICA LITERÁRIA

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REMINISCÊNCIA

POESIA

FICHA TÉCNICA

Literatas PROPRIEDADE

PROJECTO GRÁFICO E ARTE Mélio Tinga

COORDENAÇÃO GERAL Eduardo Quive Pedro Afo

FOTOGRAFIA Literatas

REDACTORES PRINCIPAIS Elton Pila Lucas Muaga Arnaldo Mosse EDITOR DE POESIA Jaime Munguambe Jr. COLABORADORES DESTA EDIÇÃO Ronaldo Cagiano, Octaviano Joba Clarisse da Costa, Daniel Tinga e Anna Fresu

PERIODICIDADE Mensal PUBLICIDADE Vice-Versa, SA E-mail: viceversa.servicos@gmail.com Telefone: +258 849204944

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Associação Movimento Literário Kuphaluxa Av. 25 de Setembro, Nº 1728 | Maputo, Moçambique Telefone: +258 82 2717645 +258 82 5661276 E-mail: r.literatas@gmail.com

DIRECTOR Nélio Nhamposse

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ESPECIAL

FESTIVAL LITERATAS

FESTIVAL LITERATAS

“IDENTIDADES” DEBATIDAS NO LANÇAMENTO DO 3º FESTIVAL LITERATAS

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oi lançada a 3ª edição do Festival Literatas, que decorrerá nos dias 6, 7 e 8 de Outubro, no Auditório Municipal Carlos Tembe, na cidade da Matola. O evento de apresentação do festival, versão 2017, colocou em debate o tema principal do evento “Pensar Identidades”. Num encontro em que houve espaço para apresentações artísticas, pelo músico Makazani Rodrigues e o coral Anjos do Apocalipse, a mesa de conversa com a artista plástica Huwana Rubi, o bailarino e coreógrafo Virgílio Sitole e o cineasta alemão David Gross, chamou mais atenção. A revista Literatas, patrono deste festival, faz o resumo das intervenções dos três artistas, nas linhas que se seguem.

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MOÇAMBIQUE VIVE “CRISE DE IDENTIDADES”

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Huwana Rubi aponta a globalização como sendo um elemento com grande impacto na questão das identidades sociais. A cultura passa, dessa forma, por várias transformações, permanecendo num es-

tado de eterna readaptação. “A identidade torna-se uma celebração móvel, formando e transformando, continuamente, em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados por vários sistemas culturais que nos rodeiam. É definida historicamente e não biologicamente.” Defendeu a


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FESTIVAL LITERATAS

artista acrescentando que as sociedades modernas são “de mudança constante, rápida e permanente”, a principal diferença entre as sociedades tradicionais e contemporâneas. Para a artista plástica, as artes, amplamente discutidas no Festival Literatas, representam grandes tentativas de expressar a identidade, jamais genuína. Tal deve-se ao facto, historicamente provável, de as manifestações culturais sofrerem sempre influências estrangeiras, com destaque para o Ocidente. No entanto, para a oradora, as diferentes manifestações artísticas tentam salvaguardar o passado de Moçambique, sem o qual, não se pode discutir identidades. “As artes sem dúvida são o elo quase que imprescindível deste processo de rebuscar a nossa historia. Actualmente, a arte tem, de forma ampla sofrido as varias mutações da era globalizada e a busca incessante das outras culturas da disporá” disse Huwana. No fim da sua comunicação, Huwana Rubi, referiu que a arte em Moçambique encontra-se nos extremos de uma pirâmide: primeiro, “a falta de atenção de estudos permanentes, debates, pesquisas e da busca da nossa história.” Segundo, “artistas que se vão introduzindo nas várias esferas sem um acompanhamento devido dos que competem e a não valorização do seu trabalho, do legado, a falta de atenção de lugares históricos.” E por fim, “uma sociedade que ainda vive resquícios de guerra, colo-

nialismo, escravidão, crise de identidades ou transformação de identidades. O bombardeamento da era digital e o neocolonialismo.” Conclui. “DISTÂNCIA CULTURAL MEXE COM A IDENTIDADE” São cerca de onze meses a distância que separam o cineasta alemão, David Gross, da sua terra natal, sendo que durante este período encontra-se a trabalhar como realizador em Moçambique. Gross, entende que o contexto geográfico e cultural tem sido uma barreira a se ultrapassar para o sucesso da sua arte. Por isso, o cineasta alemão acha desafiador que os que a distancia, não somente geográfica, mas também cultural, que mexe com a questão de Identidades. O desafio passa, neste caso, por compreender a cultura e adaptar-se ao contexto. “Quando faço filmagens em África, as pessoas perguntam porquê eu quero lhe filmar.” Exemplifica o cineasta, sobre o que acontece na Alemanha. Mas sendo sua terra natal, há “mais conforto.” “A IDENTIDADE É UMA QUESTÃO DE SOBREVIVÊNCIA” O coreógrafo moçambicano, Virgílio Sitole, autor do livro “Ocultos Sabores em Letras Coreográficas”,

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ESPECIAL

FESTIVAL LITERATAS

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que discute a um pouco da dança contemporânea em Moçambique, defende que o homem tem duas identidades: social e cultural. É confrontado pelas influências do meio social que cada indivíduo define a sua identidade. Por isso afirma: “Cresci como individuo que tem sua própria identidade sobre varias influências sociais, económicas, políticas do seu meio social por onde cresceu.” Conta. Para o jornalista, a identidade social vai ser um ponto de partida para uma espécie de intercâmbio cultural. “A identidade é uma questão de sobrevivência. Se eu saio para Alemanha, enquadro-me na sociedade alemã e faço esforço de perder todos estes elementos em que me identifiquei, então é uma questão de sobrevivência. Mas eu posso sobreviver dentro destes princípios e encontrando meio-termo para poder me enquadrar naquela sociedade e poder-

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mos viver dentro das nossas diferenças sociais e culturais.” Conclui Virgílio Sitole. “PENSAR IDENTIDADES” De referir que, depois de lemas como “Memória: um museu contemporâneo” e “Cidade de Livros” o Festival Literatas-2017, na sua terceira edição, que vai decorrer nos dias 6, 7 e 8 de Outubro, no Auditório Municipal Carlos Tembe, propõe-se a “Pensar Identidades”. Isto, porque “estão com problemas de identidades (…). Estamos a viver uma época em que nos confrontamos com situações que nos levam a questionar se nós não deixamos de ser nós.” Conforme explica Jessemusse Cacinda, que na altura moderou o debate.

“PENSAR IDENTIDADES”


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DIA-A-DIA

REDACÇÃO

GESTÃO DE ESPÓLIO

Debater sobre as obras de Malangatana e Craveirinha

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plataforma cultural Mbenga Artes e Reflexões organizou, no dia 12 de Julho, na Galeria do Centro Cultural Moçambicano-Alemão, um debate subordinado ao tema Gestão do Espólio de José Craveirinha & Malangatana Valente Nguenha

mais atenção de modo que se possa melhor intervir e atrair apoios” entende o grupo. José Craveirinha, Malangatana, Ricardo Rangel, Alexandre Langa, Carlos e Zaida Chongo. A lista é extensa. O que é feito das obras artísticas depois da morte dos autores? Zeca Craveirinha e Mutxini Malangatana, gestores do espólio de José Craveirinha e Malangatana, nomeadamente, partilharam a sua experiência na

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O encontro faz parte do projecto Debate(oficinacriativa) que pretende incrementar as ferramentas e informações sobre as artes e cultura, tendo em vista a melhoria dos conteúdos produzidos nestas áreas. Segundo a organização do evento o debate surge da necessidade de reflectir sobre a administração das obras produzidas e não exibidas pelos artistas, ainda em vida.”O objectivo é despertar a sociedade da importância que este material possui, enquanto património cultural do país e despertar aos jornalistas para a necessidade de tratar este tema com

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DIA-A-DIA

REDACÇÃO

gestão do espólio dos seus progenitores. Na ocasião, quer Zeca, quer Mutxini, defenderam a necessidade de recuperar as obras espalhadas pelo mundo, uma vez que são parte do património cultural e que precisam ser do domínio dos moçambicanos, contribuindo na construção da cidadania e identidade nacionais. Afinal, ao ignorar a produção remanescente destas duas “instituições culturais”, o país corre o risco de perder um importante capítulo da história da arte moçambicana. Zeca Craveirinha conta que recuperar os poemas de Craveirinha tem sido uma grande ginástica. Por exemplo, conta Zeca, quando o seu pai esteve preso em Portugal, em 1965, na famigerada Cela 1, escreveu uma série de poemas e cartas, em papéis higiénicos que enviava para um indivíduo residente, na altura, em Moçambique. No entanto, este indivíduo negou-se e nega-se a devolver os escritos. “Como recuperar essas cartas e poemas?”questionou Zeca, como que prevendo a resposta, exaspera-se”Elas são individuais, são do meu pai, são minhas, porque as pessoas nos tiram o que é nosso? Ficaram com as coisas do meu pai, mesmo as fotografias não aceitam devolver. Normalmente, só me trazem cópias, que legitimidades têm essas pessoas para ficar com os documentos?”

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Mutxini, vai pela mesma via, mas fala duma dimensão Internacional, porque há muitas obras do seu pai que estão espalhadas pelo mundo e que precisam ser recuperadas. “Soube que foram expostas em Portugal uma vez, mas são obras que ele nunca vendeu, são desenhos feitos na prisão”.

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Os dois gestores voltam os olhos para o estado moçambicano, sublinhando que este deve ajudar na intervenção ao nível internacional na recuperação, sobretudo, das obras da colecção privada dos seus pais, já que boa parte dessas obras estão fora do país. “Eu tenho limitações, há processos sobre esses assuntos nos tribunais, mas nada anda. Mesmo as obras da colecção Mário Soares, nós da família temos restrições para ter acesso, mas não devia ser assim, aquele acervo também nos pertence”, disse Mutxini. Por sua vez, a Jurista Jéssica Albertina, presente no evento, disse que, o Estado Moçambicano pode e

deve intervir na recuperação das obras dos artistas em alusão, espalhadas pelo mundo. “Isso significa que temos falsos titulares a enriquecer, mas há plataformas que podem ser accionadas para a recuperação dos bens, há tribunais e deve haver actuação na fiscalização”. Para a jurista, a obrigação do estado é preservar o direito de pertença aos herdeiros, desde que primeiro analise a cooperação internacional que tem com outros países, mas também um olhar objectivo dos factos, para não correr risco de tirar bens que realmente pertence a privados. Noutro desenvolvimento, assumiram os filhos que, um dos grandes desafios é a conservação das obras devido a falta de espaços condignos. Mutxini explicou que há dificuldades, sublinhando que a família está a fazer um esforço “razoável” no sentido de conservar as obras do mestre Malangatana. Por outro lado, a família Craveirinha possui um memorial, localizado no Zimpeto. A iniciativa visa tirar o foco da figura do centro urbano. Entretanto, no que diz respeito a Casa-Museu, explicou que não cabe a sua família dar o estatuto de Casa-Museu, sublinhando que a mesma está disponível para quem queira fazer visita. “Isso ultrapassa a família, houve uma intenção de dar esse estatuto, mas depois a coisa parou. Então, por agora, não se pode considerar o local de Casa- Museu”. Mutxini explicou, ainda, que uma das dificuldades na gestão do espólio do mestre é a questão da falsificação das obras. Segundo ele, a sua família tem feitoesforços na identificação dos infractores, mas alega que não possui capacidade suficiente para acabar com o mal. “Do nosso lado, temos dificuldades em chegar a obras falsificadas ou outras roubadas em instituições. Hoje em dia, até temos casos de obras que as vimos ser comercializadas, mas nunca se fez a sua venda. Para casos em que há informações seguras sempre há processos judiciais” conta para sentenciar “O Estado tem o papel de vigiar obras de todos no que diz respeito a esse assunto, mesmo na travessia fronteiriça das obras desta natureza”


DIA-A-DIA

DANIEL TINGA

MESA LITERÁRIA

“Ler para escrever ou escrever para ler”

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poeta Jaime Munguambe Jr, autor do livro de poesias “As idades do vento” lançado pela Fundação Fernando Leite Couto, em 2017, foi o convidado especial do habitual “bate-papo” sobre literatura que acontece às quartas-feiras no Centro Cultural Brasil-Moçambique (CCBM), em Maputo. A Mesa Literária, uma das marcas do Kuphaluxa e da revista Literatas, do dia 05 de Julho do corrente ano, aconteceu subordinada ao tema “Ler para escrever ou Escrever para ler.”

“NÃO ESTOU ISOLADO DA SOCIEDADE ONDE VIVO” Tive a sorte de ler um livro infantil no ensino primário, que tinha como titulo “O Menino Castanho”. É uma história sobre igualdade racial. Nos tempos não percebia o que era igualdade racial, mas hoje percebo. Não me recordo a história que vem no livro, mas acredito que foi bom conhecer um personagem abstracto que também é real. Porque no fundo, todas as personagens criadas existem na

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Jaime Munguambe, membro do Movimento Literário Kuphaluxa, vencedor do Recital de Poesia do Município de Maputo – 2014 e do prémio Literário Banco de Moçambique - 2015, falou da necessidade de se apostar numa literatura “filosófica”, no sentido de procurar responder questões essenciais sobre o Homem. Para Jaime, a nova literatura precisa adaptar-se ao contexto e criar uma ruptura em busca de um estilo próprio.

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DIA-A-DIA

LUCAS MUAGA

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vida real. A diferença é que no livro temos o campo fantástico e na realidade temos o campo realístico. Quando comecei a escrever, recordo que lia muito os textos de poesia de combate, poesia moçambicana. Percebia que a poesia resumia-se em guerra. Não tinha oportunidade de ler outros livros. De facto, a literatura, para mim, era a falar de guerra, racismo, colonialismo. Estar contra o colonialismo. Mesmo não estando no tempo de guerra, escrevia poesia de combate. Há pessoas que ainda fazem isso hoje, sinto. Mas quando tive a oportunidade de conhecer outras literaturas, quando entrei em contacto com a literatura portuguesa, a partir de manuais do ensino secundário tive a oportunidade de conhecer Fernando Pessoa. Enterrei todos os textos que eu havia escrito. Não fazia nenhum sentido escrever sobre a guerra, o país estando em paz. Não estou isolado da sociedade onde vivo. Comecei a ler Fernando pessoa. A partir do Pessoa conheço o Sá Carneiro, que pertencia ao mesmo movimento modernista. Foi assim que comecei a mudar de escrita, porque ia entrar em contacto com novos escritores, que falavam do amor, da tristeza. Escritores melancólicos. Era uma literatura muito ligada à filosofia. Fernando Pessoa enquanto filósofo, a escrita dele nota-se uma influência da filosofia. A partir da literatura portuguesa conheci a literatura francesa e fui cair num movimento que surge em 1920, na França, o surrealismo de André Breton. E a partir dessa literatura, comecei a perceber que é possível, a partir de ferramentas do inconsciente produzir uma literatura que pensa a sociedade. Do surrealismo conheço outros autores. Há um escritor romeno chamado Li, que é o génio da literatura moderna. Escreveu um poema que gosto muito. Compara os lábios de uma mulher a uma cortina. Diz que, “quando a mulher fecha os lábios, a cortina fechouse”. Uma coisa muito diferente. Acho que, não existe na nossa literatura. Tem alguns autores com essas características. Fui nessas literaturas francesas e aprendi a escrever doutra forma. Mas no fundo, não chega a ser uma aprendizagem, porque a partir da loucura dos outros nós aprendemos a inventar nossa loucura. E como inventar essa loucura? A partir de muita leitura. Quando conhecemos as outras loucuras. “A LEITURA É UM INSTRUMENTO DE PARTICIPAÇÃO SOCIAL” Um bom escritor, para mim, é aquele que mais lê do

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que escreve. É a partir da leitura que aprendemos a criar novos mundos. Uma pessoa que lê muitos livros, cria um novo discurso na sociedade. A leitura é um instrumento de participação social, a medida que nós, para além de fazermos parte de uma sociedade, tomamos parte. Fazemos parte, temos parte e tomamos parte das acções da sociedade. Temos um auto domínio de participação social. A leitura, também, traz outras coisas ligadas à crítica social. Quando lemos temos a capacidade de pressentir e criticar. “AS PESSOAS ESTÃO A ESPERA DAQUILO QUE JÁ EXISTE” Quando tu crias um estilo de escrita, tu sofres muitas críticas, porque as pessoas estão a espera daquilo que já existe. Muitos escritores são assim, como tu escreves dessa forma? É preciso persistir. Muitos escritores que trouxeram novas formas, novos paradigmas de escrita, foram recusados. Eles insistiram durante muito tempo e só depois de, se calhar, cem anos. A escrita deles não foi aceite. É o caso do escritor Modiller. Foi negado na sociedade onde estava inserido. Porque trazia poemas eróticos numa sociedade muito conservadora. A sociedade negava aqueles textos. Ele foi preso. Teve que pagar uma taxa. A sociedade não aceitava a literatura erótica, o erotismo literário. “ESCREVO PARA VIVER O PARAÍSO” Eu escrevo para viver o paraíso. Escrevo para me refugiar da sociedade que vivo. A literatura, em si, não tem um objectivo claro, directo. Tenho notado na literatura moçambicana, que algumas questões surgem e estão um pouco distantes daquilo que é o saber literário. Queria convidar João (participante da mesa literária) a ir ao Núcleo de Artes e tentar perceber porquê aqueles que ficam lá a pintar? Será que eles mudam alguma coisa na sociedade? Do ponto de vista educativo, será que aquelas artes mudam? Há um artista plástico que é escultor, que morava no bairro Vinte e cinco de Junho – Choupal – Pintos Mabote. Ele fazia esculturas e pintura. Tinha muitas esculturas que pintura. Na comunidade ninguém percebia o que era aquilo. Fazia muito sucesso na Europa. Será que Pinto Mabote tinha essa mensagem? “Quero transformar a sociedade”. Não sei se transformou a Europa.


TEATRO

ELTON PILA

“Os pilares da sociedade”: uma peça para o nosso tempo

Os Pilares da Sociedade” é uma obra sobre amores, mas com um olho posto na ganância e o outro na corrupção, trazida, a partir de Henrik Ibsen, pelo Mutumbela Gogo. Esteve em cartaz, nos dias 21, 22 e 23 de Julho, no Teatro Avenida. Mas volta, em Setembro, para uma temporada. A peça foi escrita há 150 anos. “Mas o seu conteúdo é sempre actual, tendo em conta que Moçambique está mergulhado num cenário bem explícito de corrupção” apressava-se, o Mutumbela Gogo, a justificar no comunicado enviado à impressa, dias antes da estreia.

Sim, para a Companhia Mutumbela Gogo o teatro só vale, se levar o espectador a reflectir e, porque não, a agir. Sem que isso queira significar um espectáculoenfadonho,pois houve, e não poucos, momentos que o público soltou gargalhadas sinceras, esta nova produção reitera ocompromisso de uma Companhia que não quer se deixar levar pelo teatro entendido

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De facto, a relevância da peça será encontrada, sobretudo, se a olharmos dentro do contexto político e económico que Moçambique atravessa (vide dívidas ocultas que empurrar-

am o país à uma crise económica, sem precedentes, neste século).

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TEATRO

ELTON PILA

como humor. Talvez por isto, comummente, tem se dito que o público do Motumbela é intelectual. A ser verdade, se julgarmos pelo primeiro e segundo dia, que a nossa equipe esteve no Teatro Avenida, a cidade de Maputo pode gabar-se da sua classe intelectual. Mas não nos enganemos. O enredo é, verdadeiramente, complexo. A compreensão da peça está refém da compreensão do passado dos personagens (este exercício é constante nos trabalhos de Ibsen). Um passado que nos é dado à conta-gotas. Até o fim do primeiro acto (talvez, quase, até ao fim da peça) temos muito pouco a ideia do enredo. Apenas referências da reputação e dos grandes projectos navais e férreos de Karsten Bernick, personagem principal, encarnado por Jorge Vaz que, também, assina a encenação da peça. É com regresso de Lona (interpretada, magistralmente, por Isabel Jorge) e do seu meioirmão, JohanTonnessen (numa actuação não tão bem conseguida de Hélder Timane. Mas, já vale, porque marca o regresso deste autor aos palcos), que a peça ganha projecção. Os dois trazem do passado uma nuvem negra que se ameaça deixar cair em tempestade sob a vida de Bernick, um homem que se fez pilar da sociedade as custas de trapaças e de silêncios, quando devia falar, pelo meio ainda casara por interesse para salvar a empresa familiar que já ia falida (e se tornar um homem poderoso) com Beth, interpretada por Yolanda Fumo que não pára, ao longo da sua estada em palco, de piscar os olhos (tiques do personagem).

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“Os Pilares da Sociedade” procura confrontar

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o público com os valores que devem ser inalienáveis para a construção de uma sociedade sólida. A corrupção afigura-se o principal alvo da peça. Sem levantar nomes, mas condenando acções que empurram o país para o marasmo económico e social, nos últimos tempos. Mas, a dado momento, a discussão ganha contornos de conflito de género. Como se a questão central fosse: Quem é o pilar da sociedade, o homem ou a mulher? “Vocês as mulheres são os verdadeiros pilares da sociedade”, dirá, nalgum momento, Bernick. A linguagem, embora não possa ser considerada erudita, traz uns termos que, já há muito, desaparecera, das conversas do quotidiano. Tudo bem. É uma peça de época. E o figurino quer confirmar isto: casacos à moda do século XIX e bengalas estilosas. Entretanto (nota negativa), o monólogo de Lona, no final, como que nos explicando a síntese da obra, era escusado. Já que, ao longo da peça são lançadas pistas para que o espectador possa participar na construção do significado da peça, um prazer que lhe é tirado (ao espectador), quando Lona diz, explicitamente, quais são os pilares da sociedade. Título: Pilares da Sociedade Texto: Henrik Ibsen Adaptação: António Cabrita Encenação: Jorge Vaz Direcção: Manuela Soeiro Elenco: Adelino Branquinho, Vítor Raposo, Jorge Vaz, Isabel Jorge, Yolanda Fumo, Félix Tinga, Hélder Timane, Angelina Chavango, Atila César , Yuck Miranda, Júlia Novela, Flávio Mabota, Carlos Zicu.


TEATRO

LUCAS MUAGA

“Sim, eu matei a diferença” - Confessa-se a ré que se vingou, em nome de todas as mulheres violentadas em “Qual é a sentença? A mulher que matou a diferença” do grupo de teatro Katchoro-Kuphaluxa.

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epois de apresentar-se num festival de teatro no passado mês de Junho, em São Paulo, Brasil, o grupo de teatro Katchoro-Kuphaluxa, apresentou o espectáculo “Qual é a sentença: a mulher que matou a diferença”, no auditório Vinícius de Moraes do Centro Cultural Brasil-Moçambique (CCBM). A peça que mostrou-se com outra roupagem depois da sua estreia no mesmo espaço, há dois anos, mantém, no entanto, a sua atemporalidade, apontando os desafios da luta contra as injustiças e violência que muitas mulheres sofrem pelo mundo a fora.

homem e a reduzir-se à “insignificância”. A mulher, que na peça, não se pode perceber o nome, talvez por representar todas as mulheres do planeta, é representada pela actriz Assucena Daniel, ao lado do seu companheiro de costume, o actor Castigo dos Santos, que representa, ora o juiz, ora o marido, ora, em fim, a face do violentador. A personagem, casada com um polígamo aos 13 anos, é a mais nova de dez esposas e mãe de quatro filhos aos dezoito anos de idade. É perante este desgosto conjugal, que esta,

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O espectáculo encenado por Guilherme Roda, pseudónimo de Venâncio Calisto, membro do Movimento Literário Kuphaluxa e recentemente aplaudido em São Paulo, no Brasil, contou com uma experiente assistência na encenação, pelo actor Diaz Santana. A peça representa a estória de uma mulher que desabafa em julgamento. Cansada de sentir na pele o que muitas mulheres sentem e aprendem a esconder perante as adversidades impostas pela cultura da sociedade em que estão inseridas. Aprendem a adorar e a servir o

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TEATRO

LUCAS MUAGA

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cansada de ser humilhada, mata o marido e acaba no banco dos réus. O acto, que dá melhor compreensão do tema que o Katchoro-Kuphaluxa deu à peça que vem sendo readaptada desde 2015, altura em que foi estreada. “Qual é a sentença: a mulher que matou a diferença” é claramente um apelo à igualdade de direitos entre os géneros, um repúdio às injustiças contra a mulher. “Era preciso um basta, um basta. Eu tinha que vingar a honra de todas as mulheres vitimadas durante séculos. Tinha que espetar bem na fuça do mundo. A mim cabia a revolução. A diferença tinha que morrer das minhas mãos e das minhas mãos, tinha que brotar a igualdade. E com ela, um novo ciclo da

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vida humana. Eu tinha que vingar a honra de todas as mulheres desonradas durante séculos.” Pode perceber-se num dos monólogos de Assucena Daniel, que mais adiante volta a gritar, “Sim, eu matei a diferença”. FICHA TÉCNICA Título: “Qual é a sentença? A mulher que matou a diferença” Texto: Guilherme Roda (Venâncio Calisto) Encenação: Guilherme Roda; Assistente de encenação: Diaz Santana; Elenco: Assucena Daniel e Castigo dos Santos; Trilha Sonora: Jó e Black Mouse.


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Foto: VêSo – Bairro Chamanculo, Maputo

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CRÍTICA LITERÁRIA ELTON PILA

Tempestade, após a bonança

Até a década de 60, do século XX, Pittsburgo, na Pensilvânia, afigura-se no maior pólo siderúrgico e maior produtor de aço do mundo, o que lhe valeu o cognome Cidade do Aço, atraindo milhares de imigrantes europeus e afro-americanos.

Porém, tempos volvidos, a produção das indústrias entra em declínio, em parte devido a grande depressão de 1929, mas agravada pela concorrência das siderúrgicas estrangeiras. Já na década de 70, assiste-se a um encerramento compulsivo das indústrias, deixando milhares de pessoas desempregadas.

É neste ambiente de fábricas abandonadas, maquinarias obsoletas, edifícios em ruínas cobertos de trepadeiras que discorre Ferrugem Americana (Bertrand, 2011), obra de estreia do escritor americano Philipp Meyer (n. 1974). É o reflexo da tempestade, após a bonança. “Durante cem anos, o vale fora o centro da produção de aço do país, de todo o mundo, tecnicamente, mas, pela altura em que Poe e Isaac nasceram, a área perdera cento e cinquenta mil postos de trabalho (…)” (pág. 18).

No entanto, uma chuva, deixando-se cair em catadupa, obriga-os a abortarem à viagem. Os dois acabam abrigando-se num armazém dentro no qual envolvem-se num assassinato.

Esta morte é o elemento vital do romance. Mas não no sentido de uma trama policial que se assenta no trinómio crime-investigaçãosolução. Pois, tempo depois do assassinato, Poe vai à prisão no lugar de Isaac. Isaac (re) empreende a sua fuga. Lemos isto, antes de folhearmos a metade do romance. Há, ainda, muita história por ler.

O homicídio parece ter sido usado, sobretudo, como pretexto pelo escritor para reflectir sobre as relações humanas em situações adversas, a divisão racial e a violência nas prisões norteamericanas. São todos cenários para fazer-nos pensar em valores como amizade e lealdade, num mundo de pessoas preocupadas apenas com o próprio umbigo.

O título do romance quer, também, fazer alusão a degradação do tecido social norteamericano (recrudescimento da violência, desestruturação da instituição família, êxodo e desesperança) fruto de um ideário de prosperidade frustrado. “(…) Estamos a andar

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Constitui o núcleo duro do romance a história de amizade e lealdade entre dois jovens adolescentes: Isaac English e Billy Poe. O primeiro, 20 anos, uma espécie de génio (são 167 de Quociente de Inteligência) que após o suicídio da mãe e a ida da irmã à Universidade

na Califórnia, deixa-se em Buell (cidade fictícia) a cuidar do pai paralítico, vítima de acidente de trabalho numa das siderúrgicas. No entanto, já cansado da vida na vila, Isaac enceta uma fuga. O segundo, 21 anos, uma antiga promessa do futebol americano, é o típico menino problema, envolve-se, constantemente, em confusões. O carrinho por Isaac fá-lo-á acompanha-lo na evasão da cidade.

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Numa América irreconhecivelmente miserável, Philipp Meyer constrói uma história de amizade em que a lealdade pode confundir-se com o masoquismo

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CRÍTICA LITERÁRIA ELTON PILA para trás como nação; provavelmente pela primeira vez na História (…)” (pág. 238) diz um personagem a dada altura.

Quando terminamos as 409 páginas da narrativa, rendidos à prosa meyeriana, voltamos ao inicio, à frase de Albert Camus: “... O que aprendemos em tempo de pestilência: que há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar.” Esta epígrafe diz quase tudo deste romance.

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A narrativa vale-se muito do fluxo de consciência. Quando a voz muda, são-nos apresentados os pensamentos, os desejos, as angustias, o desespero, os demónios dos personagens que se afiguram peças-chave para completar o

sentido do romance.

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literatas Foto: VêSo – Bairro Chamanculo, Maputo

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Foto: VêSo – Bairro Chamanculo, Maputo

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Foto: VêSo VêSo –– Bairro Bairro Chamanculo, Chamanculo, Maputo Maputo Foto:


POESIA

MARIO FORJAZ SECCA Nasceu em Moçambique, onde viveu ate aos 17 anos tendo ai aprendido a sonhar e sido contaminado pela poesia. Foi de seguida para Inglaterra estudar Física, apesar de passar grande parte desse tempo imerso e a ler poesia. Ficou depois fascinado pela viagem, passando 8 meses em 1986 a dar a volta ao mundo sozinho. No final do périplo foi viver para Portugal onde passou muitos anos a ensinar na Universidade e a fazer investigação em imagem medica, particularmente sobre o cérebro.

da morte aprendi

nem isso trouxe o silencio

a obsessão incómoda

a memoria sorriu

para acender a luz nos dedos

de te rever

as frases sempre foram inacabadas

faltou a sombra

e crisálida suicida

Poemas de Forjaz

te prender

não te cansas de me procurar

nem todo o fogo me traz a esperança

a água despediu silêncios

a mim e a morte

de um dia perdido

ávida

por todas as arvores

uma hora marcada

de folhas apodrecidas

entre vinganças.

na pele dançaram as chamas

a vermes exigentes

In: A Criação da Memória

em ti toquei a música do desespero

mas eu sou já borboleta nas flores que ainda restam.

In: A Criação da Memória

In: A Criação da Memória

literatas

Direitos Reservados

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POESIA

HIRONDINA JOSHUA Nasceu em Maputo, Moçambique, a 31 de Maio de 1987. Está integrada em várias antologias. E colaboradora de várias revistas, jornais, sites, blogs nacionais e internacionais. Foi distinguida com a menção extraordinária no Prémio Mondiale di Poesia Nósside edição 2014.

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Metáfora

Minhas primeiras letras foram o ceu e

À noite, as mãos tem outra boca

o chão.

no poema:

a dicção

Leio religiosamente na carne das

dedos que silencio.

menção

plantas

erudita

nos versos da agua

maldita

na pele do Sol

dita

nos resíduos do vento

honra

Leio intuitivamente

do autor.

antes de me existir.

meto

literatas

fora

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Direitos Reservados

moram

no


POESIA

M. P BONDE M. P Bonde – Macvilde Pedro Bonde nasceu a 12 de Janieiro de 1980 em Maputo. Foi membro do projecto Jovens e Amigos da Cultura (JOAC) entre 2003-2004. Em 2004 e convidada para fazer parte do grupo Arrabenta Xithokozelo onde animam as noites de poesia e Musica no Teatro Avenida. Tem textos publicados na coletânea Arqueologia da Palavra e Anatomia da Lingua. Tem um livro publicado Ensaios Poéticos (2017).

• Corro

A terra seguia na sucessão dos dias, trazendo consigo a sombra

às vezes o exílio

não sinto a pressa

da morte

e uma arvore aberta

divido em dois

na imponderável noite

nas pulsações

e uma esperança tênue numa noite que não fora.

Reminiscência

da sombra, e nada espreita a estrada larga

rio do cansaço que arde em meus pés.

Fonte do olhar • principia como um homem multidões de vento a terra enxague o grito arável.

Ontem sonhei outro diluvio trazendo o resto da espécie saltava na canoa do Noé. – Um par de deuses e anjinhos, e vi-me alegre, com a lembrança do primeiro golo da infância.

Então, as espigas nocturnas se quebraram ao destino, pois, nada se perdeu no desabrochar.

E o crânio enchera-se-me de nodoas enquanto, o sangue escorria sob o joelho cravado das faltas quando despertei, o meu destino estava no fio de questões efêmeras, e o vazio palpitava de fome. quero em mim o alvor, o cântico do devir, que não se cale ao sol, guardião que entoe o silencio.

In: A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua

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Foto: VêSo – Bairro Chamanculo, Maputo

Foto: VêSo – Bairro Chamanculo, Maputo

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PROSA&CONTOS

MÉLIO TINGA

Fora dos trilhos

Não me lembro exactamente quando tinha recebido aquele misterioso telefonema vindo de um diabo qualquer pela madrugada, informando que teria de ir fotografar um dos piores acidentes ferroviários da história do País. A primeira coisa que aconteceu foi um congelamento repentino no cérebro, nos órgãos genitais e um frio que me deixou instável por mais alguns minutos, seguiu um medo profundo e uma transpiração inesperada.

Era a primeira vez que fotografava mais de duzentos mortos e quinhentos feridos no

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O acidente tinha sido causado por um pequeno automóvel azul-escuro, que até hoje me recordo do pedaço da chapa de matrícula: MMS 22 17, essa imagem continuou atormentando-me durante vários dias e noites, após sair do local, vivia como um fantasma na

minha mente, se mexia e remexia na minha mente como um som exageradamente alto, se misturava com vozes de gente conversando alto e dando gargalhadas, me atormentava como um verdadeiro diabo, as vezes vinha em sonho, por vezes eram os próprios mortos a carregarem a chapa de matrícula, com seu ar de cadáver cantando hinos do Reino dos Céus, todos segurando a chapa de matricula. Havia aprendido a lidar com a morte de maneira animal, tinha aprendido a insensibilidade, mas, me sentia devastado, no fundo aquele medo infantil de enfrentar vários mortos vinha à tona como quando uma diarreia cai das fraldas. Lembre-se que há adultos que põe fraldas!

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PROSA&CONTOS

MÉLIO TINGA

mesmo lugar, foi tão pesado para a alma de criança que tenho que foi necessário passar todas as horas de trabalho naquele lugar, a qualquer direcção onde clicasse havia um morto, um ferido um pedaço do corpo humano, tinha sido um dia difícil, o cheiro do sangue humano em toda parte, enjoos sucessivos e um tremendo desânimo ao pensar sobre o luto em várias famílias e aquelas que se foram todas, ficava pensando sobre o que poderia ser pior, se era quando todos morriam ou quando uns iam embora e os outros cagavam-se de tanto choramingar feito velhos procurando um mínimo de tesão. Sou de alma sensível, e a primeira coisa que fiz ao chegar foi que uma lágrima caiu-me discretamente dos olhos sem me aperceber, qualquer humano na minha posição, faria o mesmo, ou pior. Há homens que se põe como porcos a gritar quando se encontram perante um morto, atirando- se pelo chão, agitandose a espera que alguém se aproxime e os diga: - Irmão, calma, eles não são da nossa família. Ou dizendo “Mano, não se assuste, esse é o nosso caminho todos iremos morrer. Os ladrões, os amantes de nossas esposas, os putos que fodem nossas filhas, os velhos que olham para o rabo de nossas amantes, todos mano, levante-se e celebre os dias que tens vivo”. Só aí levantam-se, sacodem-se e limpam as lágrimas.

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Agora, lembro-me com toda perfeição possível nas palavras do editor chefe depois de atender o seu telefonema. Ele era quase velho e sua voz saía com um tom de obrigação, como se uma pedra tivesse sido instalada nos seus pulmões e ele fizesse todo esforço para se pronunciar. Costumava aparecer na redacção de chinelos velhos e calças jeans velhas, que só as trocavam quando alguém outras, tinha sido um jornalista durante décadas e tinha uma escrita cuidada, arrogante, fria e cruel, diziam que tinha estudado línguas na Universidade Pedro Simon, e ele, sempre recusou a tudo

que diziam sobre si, gostava de putas, e se metia com uma em cada quinze dias, fumava ocasionalmente e só deixava de beber também ocasionalmente, era um homem separado e dizia ter três filhos, porque o quarto tinha morrido de tuberculose por negligência e teimosia em medicar, e vivia gritando que tuberculose matava apenas pobres que o sistema imunológico fraquinho como vermes. Ao me ligar naquela madrugada, num tom sóbrio e muito a baixo daquilo que é o seu normal, achei-o estranho de mais, porque o esforço para falar era maior que o normal. Depois de atende-lo, disse com sua voz morta: - Terás um árduo trabalho, hoje… há vários mortos, e tens de os fotografar, saímos em três horas. E desligou, sem me dar tempo de perguntar ou de agradecer. Depois de uma hora tinha-me aprontado para sair, fiz a minha oração matinal e sentei-me sobre a cama a imaginar quantos mortos teria de fotografar hoje. Tenho vinte e sete anos, com apenas três como fotógrafo do Jornal Libertino que funciona numa casa arrendada de dois quartos, que funcionam como escritórios e a sala que funciona como redacção, não temos recepcionista porque a última acabou na cama de todos jornalistas, na minha e por fim na cama do editor chefe, o Libertino como dizem os leitores fieis, com acima de quarenta anos na maioria, fica na esquina entre as avenidas pombas brancas e viagem, esta última vai dar a uma zona conhecida como “o paraíso”. Na verdade é uma zona de compra e venda de sexo, onde solitários como eu, o editor e tantos outros, depois das longas horas de trabalho podem tomar um ou dois copos de cerveja e comer umas putas profissionais sem camisinha e a um preço bem barato. Tinha sido contratado depois de participar numa exposição com quatro fotografias que expunham a fundo a precariedade humana;


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uma tinha sido feita a dois anos antes da exposição, mostrava crianças magras comendo ossadas humanas numa zona em que ainda havia surtos de guerra pelo país, a segunda era de um bebé no momento do parto, esta consegui graças ao Franqueline, um velho amigo que é parteiro, a terceira era de uma família pobre que aguardava uma ambulância, com um doente morrendo em cima da mesa de madeira que abanava a cada gemido seu, a outra mostrava detalhes assustadores de um homem esfaqueado no banco do hospital central, a espera de atendimento. Nunca casei, e não pretendo, passo a vida entre a fotografia, a cerveja, as putas e a felicidade. Depois do editor chefe me ter ligado, cheguei meia hora antes da marcada e saímos os três, eu, o editor e um velho motorista do jornal para o local. Nos encontramos a quase um quilómetro do jornal. A primeira coisa que identifiquei ao chegarmos ao local foram pedaços do comboio, vidros pertences das pessoas, descemos rapidamente do carro ao encontro do director da empresa ferroviária que parecia não ter cabeça para nos receber, disse apenas: - Se quer há resto do maquinista. Fiquei pasmo, abri a pasta e comecei a fotografar com um peso enorme na alma, porque eram aqueles cadáveres humanos, de homens e mulheres. A terceira fotografia foi da chapa de matricula do pequeno automóvel, e depois pedaços de gente, cestos, roupas, mortos e feridos.

- Amor, acorde, está atrasado. Parecia um dia de sol vivo, meu corpo tremia e transpirava, o lençol estava enrolado na minha perna direita. A voz de Analúcia estava tão fina como quando a conheci a três anos e dois meses numa manifestação popular, em que ia fotografar para a vigésima edição do Jornal Libertino. Ela estava ali em pé, com seu vestido transparente que ajudava a ver a zona onde as coxas de juntam para construir o seu corpo enorme como uma estátua no meio do quarto. Então acordei, porque tinha tido um dos piores sonhos dos últimos tempos e seria notícia para o Libertino.

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O director tinha adiantado que normalmente o comboio levava mais de mil pessoas, e não tinha ainda recebido a informação de quantas pessoas viajavam naquela madrugada porque o comboio acabara de sair a quase meia hora e não entendiam até aquele momento como é que o acidente foi acontecer, os destroços

do pequeno veiculo é que os fez pensar que uma colisão podia ser a mais provável causa do acidente. Ambulâncias e bombeiros chegavam numa corrida que não resultaria em nada porque haviam tantas pessoas gritando socorro, outras chorando outras apenas com lágrimas no rosto, no início procuraram levar os feridos de ambulâncias, e não resultou. Mandaram chamar mais médicos e enfermeiros e decidiram que fariam os tratamentos possíveis por baixo das sombras próximas, e foram momentos doloridos, porque era necessário fotografar o fim de algumas vidas, gemidos de mulheres, crianças e homens, era necessário fotografar cabeças decepadas, sangue e todo horror possível. O comboio podia transportar pelo menos mil passageiros, tinha saído pela madrugada, o maquinista era um homem respeitado, experiente e profissional.

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LITERATURA INFANTIL

Criançarte CURIOSIDADES

ARNALDO MOSSE

Ler, brincar, aprender Histórias infantis: O Crocodilo e o Macaco

Advinhas 1.Existe uma bola redonda à sua volta de cor branca, rodeada de pelos que abrem e fecham-se e por vezes sai água de dentro dela. É o olho. 2.Qual é a coisa qual é ela que nasce em pé e morre deitada. É a chuva. 3.Qual é a coisa qual é ela que quando está prestes a morrer beija a mãe. É o palito. 4. Qual é a coisa qual é ela que está sempre molhada e serve para saborear. É a língua. 5. Qual é a coisa qual é ela que é nome de uma mulher que quando tiramos as primeiras duas letras iniciais fica o nome de um homem. É Isabel ( Is- Abel)

Antigamente o Crocodilo e o Macaco eram amigos. Certo dia, o macaco pediu ao crocodilo que lhe levasse ao colo para atravessar um rio, uma vez que o macaco não sabia nadar. O crocodilo aceitou o pedido do seu amigo macaco, tendo, em seguida, iniciado a viagem de travessia para outra margem. Entretanto, no meio do rio e o macaco já no colo do crocodilo, este lamenta a fome e da preferência a carne, pedindo ao seu amigo macaco para lhe comer. Eis que o macaco, responde dizendo que eram amigos e perguntou – lhe donde provinha uma ideia estranha como aquela... O crocodilo respondeu - lhe que estava com fome e apetite e que naquele momento precisava de comer uma carne saborosa. O macaco pediu ao crocodilo que lhe levasse a outra margem e lá havia uma sala para comer, ao que ficaria mais gordo e daí poderia – lhe comer boas gorduras e saborosas.

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Pois isto, o crocodilo aceitou a proposta. Todavia, o macaco ao chegar a outra margem pulou do colo para o mato dizendo ao seu amigo que deveria ficar na margem do rio até ao seu regresso. O crocodilo aceitou a recomendação do macaco, tendo ficado na margem do rio, só que o macaco nunca mais voltou. É por isso que até aos dias de hoje os crocodilos ficam nas margens dos rios à espera dos macacos, acabando, deste modo, devorando qualquer animal que se aproxime à margem do rio.

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LITERATURA INFANTIL

ARNALDO MOSSE

Ler, brincar, aprender Histórias infantis: O porco e o milhafre

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O porco era grande amigo da ave de rapina, o milhafre. Certo dia, o porco ficou entusiasmado por ver o seu amigo, o milhafre, a voar e a pousar na terra e resolveu conversar com o milhafre para lhe dar a conhecer que ele também gostaria de fazer o mesmo. O milhafre disse ao porco que, sendo amigo, gostaria também de o ensinar a voar para permitir que passeassem juntos no espaço. O milhafre disse ao porco que deveria arranjar penas de galinha ou de outros pássaros e alcatrão e colar-se ao corpo para assim conseguir voar.

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O porco acatou a ideia e fez – se o trabalho e mais tarde começaram a voar juntos. Um dia que fazia muito calor, o porco e o milhafre, já no percurso de voo, o alcatrão que ligava as penas do porco começou a cair um a um, tendo o porco caído pelo focinho, ficando com a boca empenada. Todos os porcos apresentam – se com o focinho redondo diferenciando – se dos outros animais quadrúpedes.


VAGENS

Lepota L. Cosmo

ESPECULAÇÕES POÉTICAS E FILOSÓFICOS

Manifesto Desafiando si, e a velha máxima conhecida. Carácter cria uma obra, poema decora um poeta. Os poemas são palavras reais, formas de beleza em comunicação com todo o mundo. Eles conduzem, motivam ou criam. Os poemas são ornamentos do discurso. A poesia é a linguagem superior, a forma mais elevada com que uma civilização se expressa. O homem é uma cultura cantus homo, homo ludens. Satisfação de uma sociedade se mede pela presença da poesia, e a intensidade da poesia. A poesia é uma empresa da sociedade. A abertura da pessoa com o discurso literário. A poesia é um jardim urbano em que nos movemos, tudo é poesia. Os poetas são os rouxinóis de pedra, leões de penas, deuses, filósofos assumidos, eremitas na cidade mondo, o Rei Kongs de Piccadilly, girafas de Buenos Aires, zebras de Marrakech, golfinhos de Gibraltar, caranguejos japoneses. Nos caminhos de Santiago, com Osiris em Pamplona. Os poetas são malabaristas, prozivaci, trovadores. Os poetas são os moderadores. A poesia se canta com paixão equaly em Poetry Slams, outdoors telas de New Jors em frases do Tweeter, em livros electrónicos, a poesia é realmente toque no iPhone, os bondes são bibliotecas, teatros são subterrâneos. Livros reais tornaram-se em aquários intangíveis, abrangente Eldorado, bola de circo onde vemos através de vidros de alta prescrição. Quem lê o poema e o que diz o poeta. Todos nós fomos engolidos por um peixe, e com os peixes estamos a namorar. Viajamos com escombros, dos trópicos, Síria à Argélia Ray Cadiz, desde Sri Lanka à Mallorca. Europa com as matemáticas eslovenas e nas cozinhas bizantinas. Mirall de trobar de Barcelona e Partimen de Catalunha. Tudo o que é a poesia. Poesia tende a significado conglomerado, abundância de recursos e sinais. No entanto, a poesia não perde, em vez de colhê-los e usos. Não se perdem na proliferação da realidade notada, mas podemos usá-lo para

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A verdadeira questão é o que é a poesia. Fazer poesia realmente existe, ou é o produto de alguns entusiastas. No entanto, a poesia está em toda parte, no momento em que vivemos, na cidade em cujas ruas e as pessoas, encontro a inspiração, a poesia surge como uma estética necessária, melhor dizendo, como um imperativo da vida. A arte é uma forma de comunicação, a estética é algo real, algo ainda mais durável do que real. Não escrevemos porque queremos, podemos escrever porque temos que fazê-lo, somos a força rouxinol, com jaula ou fora da jaula, com o poema que nunca está em uma jaula, o poema, assim como o amor é a unidade. Estamos Orfeo fluorescente dos poetas desafiadores. Somos uma geração de perseguidores implacáveis, pintores da vida quotidiana, os menestréis egípcios, com a canção que estamos a procura de um deserto artificial, em forma electrónica. Nós não fazemos a paz com o quotidiano, com forma exclusiva, com a ausência de sínteses, com um paradigma simples, a ausência de significado, a degradação dos movimentos, os tempos pós-modernos, criamos poesia como uma linha recta. Não permitimos a história a cantar para nós. Não permitimos que as teorias pós-modernas, do futuro todavia não realizado façam o passado real. Este é um passo para trás. Estamos a lutar pelo tempo em que estamos. Com beleza original criamos poesia. Nos encanta e esforçamos o intransigente, estático, infinito. Peculiaridade é a nossa poética e o imediatismo é a nossa filosofia. A principal diferença entre a teoria e a poesia é a emoção, teorias da poesia tiram a emoção, e isso para os poetas é mais valioso. A emoção que está a melhorar como a mais alta poesia da civilização. Singularidade, a busca da beleza que é natural, é certo, inovador, peculiaridade que é criativa como discurso único, a tangente inicial da realidade. A originalidade que sai do monitoramento em

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o poema. Para utilizar os recursos dinstinctive e inúmeros recursos, modernidade, no artificial, cantando com compaixão, excepcionalmente, intuitiva. Canta avant-garde, metamodernidade. A poesia tem possibilidades técnicas ilimitadas para um grau até que começam a perder a emoção. A poesia é existencial, natural e renovável. Isto significa que a poesia não perde o contacto com a sua metafísica e sua metafísica do original. A metafísica é um sentimento, uma sensação que nós cantamos. Esse é o seu amoderna e anamoderna. No entanto, sua modernidade é amor, três condições imperativas da poesia anamoderna. Citar não é a realidade, o pós-modernismo não elimina o homem não nega a necessidade de sua existência, o homem é a ontologia do poema na pós-modernidade existencial. Os bardos cantam no amor unilinear enquanto pastiche é linear. A existência não é paralela, porém única. Portanto a postpostmodernidade é derivada e natural. Não há metafísicas paralelas, por causa da sensibilidade do anamodernidade. Nós poetas somos capazes de sentir na ausência da natureza em áreas urbanas, e esse é o nosso metamodernity, metafísica da nossa escrita. Os sentimentos podem ser simples ou complexos, ser natural, mas em nenhum caso pode ser apenas complexa. Os valores básicos são gerais e lineares. A poesia não destrói. A evolução é uma síntese. Estamos a nos mover através de um mosaico do absurdo, mas a cantar lindamente. Cantamos o amor no linear, e cantar naturalmente. Metafísica significa o absurdo não é uma coisa em si artificial, mas é um sinal de que desenvolve futher na poética. O sinal em que o poeta atribui a metafísica, no entanto metamodernity da poesia é original, não existem objectos em si, eles têm sentimentos e não estão nas emoções que interactuam até que o poeta strart a use. Imperativo da sensibilidade na poesia é a singularidade da unidade da sociedade, a unidade como tal. A poesia é a lei. A poesia é tudo. Poesia sem sentimento é o postrenaissance de pseudopoesia. Nossa geração tem uma tendência crescente e a necessidade de verdade, no sentido de um diálogo aberto e directo. No tempo certo da realidade

artificial, pseudoveridade e engano em uma era de democracia, as expectativas, os verdadeiros ideais e possibilidades falharam, esta geração de poetas têm, especialmente uma necessidade expressa pela verdade, pela ambivalência, por natural e moderno, para o desenvolvimento, por aglomerações dos sentimentos, das sínteses. Pela paz, a convergência, a interacção criativa. É a meta objectivo intelectual, e que é o valor real do presente sistema. En el folleto de deberes finas. Las rimas extrañas. La trivialidad de apelar. La generación que quiere, busca, se siente, se tambalea, tiene algo que decir. La generación que no se ajusta a la presunción pasado sobre el presente. Generación de intransigente, original, significativo. Generación de verdaderos desafiantes. En el intercambio de experiencias, en en la catálisis creativa constante. En la tesis de la creación, de la superación, el desarrollo y la supervivencia; nosotros estamos obligados a darle la poesía las palabras excepcionales. No libreto de deveres finas. As rimas estranhas. A trivialidade do recurso. A geração que quer, olhar, sentir, cambaleando, tem algo a dizer. A geração que não se conforma com pressupostos anteriores sobre o presente. Geração intransigente, original, significativo. Geração do verdadeiro desafio. Na troca de experiências, a catálise criativo constante. A tese da criação, do aperfeiçoamento, desenvolvimento e sobrevivência; somos obrigados a dar à poesia as palavras excepcionais.

Tradução: Literatas


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Revista Literatas #72  

Revista de Artes e Letras de Moçambique

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