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Ano 12 - n°13 - Salvador/Bahia - 2015

FRAuE MULHERES EM CÁRCERE

as histórias do Conjunto Penal Feminino de Salvador

outros olhares na cidade pelo turismo alternativo boemia nos trilhos do Bar Vagão

Edy Star: poliartista dos anos 1970

o comércio chinês nas ruas do Centro

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Saravá! Afaste-se do azar, porque as cartas estão sobre a mesa. Nos rendemos às jogatinas de sorte e azar com cartas e fraudamos o naipe do baralho, na edição número 13 da Fraude. A simbologia do 13, que normalmente é associada ao azar em algumas culturas, também representa o desmanche da ordem vigente e o recomeço.

de Salvador e trouxeram detalhes do cotidiano e as histórias das presidiárias. Entre idas às avenidas e ruas do centro de Salvador, apresentamos o cotidiano e cultura dos comerciantes chineses. Registramos as formas alternativas de turismo, inclusive em bairros periféricos. Das ruas do bairro de Itapuã, o cenário e memórias musicais são destaque.

Inspirados nessa mudança que o número traz, rompemos o padrão da foto em grupo e cada repórter virou uma carta. No nosso naipe de sorte, cada carta tem personalidade, assim como o número 13, que não nos traz azar, mesmo com os contratempos durante a produção. Do Mágico Ilusionista ao Homem Jornal, fraudamos tudo. Nenhuma carta ficou em branco no baralho da Macaquicha.

No intervalo entre uma canastra e outra, exploramos o universo dos jogos desenvolvidos na Bahia que incorporam elementos culturais do estado e a visão das bandas interioranas de Rock também chegou às nossas páginas. O Selo Fraude percorreu os tabuleiros da cidade e elegeu o melhor acarajé de um real. Entrevistamos o poliartista Edy Star e o casal de cineastas Cláudio Marques e Marília Hughes. Traçamos ainda um perfil do Bar Vagão, lugar de boemia nos anos 1980 no Rio Vermelho, e do grafiteiro Calango. Da literatura, uma poesia inspira outros artistas a criarem em diferentes formatos. Ao nosso leitor: faça as suas apostas e descubra as próximas páginas da Fraude 13!

Nessa edição, exploramos os recursos multimídia e todas as matérias têm conteúdo online disponível e acessível pelo QR Code. As nossas repórteres, em meio às fugas de escadas e espelhos quebrados, foram ao Conjunto Penal Feminino

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10 Vinicius Gericó

6 Roda de som, samba de bairro A musicalidade e memória de Itapuã

10 Avenida dos Imigrantes

Um passeio pelas lojas, lanchonetes e restaurantes chineses de Salvador

15 O jogo virou

Cultura brasileira é destaque em jogos baianos

18 É dy cereja

Pop Star Brasilis: uma entrevista com Edy Star

22 Elas em celas

Atrás das grades do Conjunto Penal Feminino de Salvador

31 Fora da rota

Tours que vão além dos pontos turísticos

33 Tesouros Alternativos

As rotas alternativas de turismo em Salvador

36 Selo Fraude de Qualidade

Selo Fraude de Qualidade elege o melhor acarajé de R$ 1

Música no Vagão: jazz e boemia nos anos 1980

Mallu Silva/Labfoto © 2015

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Luca Castro/Labfoto © 2015

Caíque Bou

38 Decifraudando a cidade

Salvador sob as lentes de Cláudio Marques e Marília Hughes

40 A Natureza de Calangos

O Eder além de tintas e desenhos

28 Vagão fora dos trilhos

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43 Rock ‘n‘ interior

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Além da Capital: as visões sobre o rock do interior da Bahia

46 Terra arte

Telefone sem fio artístico experimenta linguagens e transforma arte em novas obras Marilton Trabuco/Varal do Rock


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Michelle Vivas/Labfoto © 2015

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quem faz a fraude Tutor Petcom: Fábio Sadao Nakagawa Editor-geral: Vinicius Gericó Editor de Fotografia: Matheus Buranelli Editor Multimídia: Matheus Buranelli Editor do Site da Fraude: Vinicius Gericó Diretoras de Arte: Laís Andrade e Michelle Vivas Diagramação: Bianca Bomfim, Laís Andrade, Matheus Buranelli, Michelle Vivas, Renato Meira e Vinicius Gericó Assessoria de Comunicação: Jessica Carvalho (coordenação), Mallu Silva, Michelle Vivas, Tarsila Carvalho e Thiago Conceição Produção do Lançamento: Marco Antônio Correia (coordenação), Lara Miranda (subcoordenação), Laís Andrade, Matheus Buranelli, Paula Holanda, Renato Meira e Vinicius Gericó Repórteres: Bianca Bomfim, Jessica Carvalho, Laís Andrade, Lara Miranda, Mallu Silva, Marco Antônio Correia, Matheus Buranelli, Michelle Vivas, Paula Holanda, Renato Meira, Tarsila Carvalho, Thiago Conceição e Vinicius Gericó Foto de Capa: Michelle Vivas/Labfoto Fotos do Editorial: Taylla de Paula/Labfoto Foto de Contracapa: Michelle Vivas/Labfoto

agradecimentos À Direção da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. À Professora Fátima Aparecida dos Santos pela consultoria no projeto gráfico. Ao Labfoto/UFBA pela parceria para realização das fotografias da revista, especialmente às fotógrafas Milena Abreu, Lara Perl e Taylla de Paula. Ao Centro Técnico do Teatro Castro Alves pelo empréstimo dos figurinos para o editorial. Ao maquiador Marcel Carvalho, pelo trabalho no editorial, e à Valéria Almeida e Luan Bittencourt, pela assistência. À Luz Marina, diretora do Conjunto Penal Feminino de Salvador. À Marta Leiro, integrante do Coletivo de mulheres do Calafate. A Aleco, pelas ilustrações. À Ana Rezende Pires Santana, dona do Barana. Ao professor Leonardo Costa por viabilizar a parceria para o evento de lançamento. Ao Pelourinho Cultural, ao Centro de Culturas Populares e Identitárias e à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia por cederem o Largo Pedro Archanjo e toda a infraestrutura para o evento de lançamento.

Laís Andrade

uzas/Labfoto © 2015

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Alexandre Cabral (Aleco)

A Revista Fraude é uma publicação do Programa de Educação Tutorial da Faculdade de Comunicação (Petcom) da Universidade Federal da Bahia. O PET é um programa mantido pela Secretaria de Ensino Superior do Ministério da Educação. As opiniões expressas neste veículo são de inteira responsabilidade dos seus autores. Ano 12, número 13, nov. de 2015 Salvador - Bahia Tiragem: 2000 exemplares End.: Rua Barão de Geremoabo, s/n, Ondina, Salvador, BA - Brasil. Tel.: 3283-6186 www.petcom.ufba.br petcom@ufba.br www.revistafraude.com.br

Ministério da Educação


Roda d e samb som, a de bairro Das paisagens naturais às composições, o cotidiano musical de Itapuã nas rodas de rua e nos saraus texto Thiago Conceição e Vinicius Gericó

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As mãos batucam a mesa e banquinhos de plástico com agilidade e movimento. No mesmo ritmo e velocidade, garfos e pratos convertem-se em instrumentos musicais. O som no ar é o convite para outras pessoas participarem do coro, que se mistura e forma o samba em praças e ruas do bairro de Itapuã. As mesas parecem crescer, enquanto mais pessoas chegam, sem convite formal, para dar volume à roda. Junto ao som dos pandeiros, atabaques, tamborins e cavaquinhos, os versos sobre o cotidiano e o passado são lembrados e cantados por moradores e visitantes.

desenhos de pessoas em volta do pandeiro, violão e cavaco simbolizam os encontros musicais na comunidade.

Os passos da dança e a sonoridade do samba, que hoje é parte dos bares nas ruas e orla, saraus e praças, surgiram dos rituais e costumes africanos. A convivência com outros ritmos no decorrer dos séculos resultou em variações e particularidades. Próximo à Lagoa do Abaeté, nas praças da rua Alto da Bela Vista de Itapuã há marcas dessa mistura. Na divisa entre essa rua e a Sr. do Bonfim, as paredes verdes com

Embora tenha decidido no início de 2015 parar com as rodas das noites de segunda-feira, desde que abriu o bar, há três anos, ela continua a reunir os amigos e convidados para lembrar músicas antigas. Soninha planeja o retorno dos sambas. “Preciso me organizar de novo. Como estou no meio da rua, não posso esquecer que o movimento pode atrapalhar a vida das pessoas”, conclui.

O bar Recanto da Soninha tem na sua decoração registros do samba de raiz e da velha guarda de músicos sambistas de Itapuã. O ritmo construído sem usar microfones ou caixas de som já ocupou as ruas. “Era no gogó, batucando nas mesas. Vinha muita gente de fora e as ruas ficavam cheias de carros. Eu me perguntava: como vou controlar esse povo?”, expõe Sônia Moreira, 56, a Soninha do Samba.


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A Orquestra de Pandeiros de Itapuã se apresenta na comunidade e mistura ritmos e gerações

RUAS DO SAMBA Há poucos passos do Recanto da Soninha, no quadrado, como é descrita a área do bar O Rumo do Vento por seus vizinhos, está mais uma roda de samba na comunidade. O coreto, que durante a maior parte do dia é vazio, vira um palco nas sextas-feiras de samba, normalmente uma vez a cada mês. O compositor Reginaldo Souza, 72, o Seu Regis, abriu o bar há 31 anos. “Quando montei o bar, as rodas de samba foram acontecendo naturalmente”, lembra. Hoje a tradição reúne moradores de Itapuã, vizinhos e visitantes. “É misturado, mas há mais pessoas de fora do bairro”, descreve Vânia dos Santos, 40, vizinha do bar que sempre morou em Itapuã. Quando decidiu abrir o bar, Seu Regis não imaginava reunir ali pessoas de diferentes idades e classes sociais, nem que os seus vizinhos acompanhariam da janela a música que vem

de lá. “Às vezes procuram assistir mais de casa, da janela e sacada. Se demoro a fazer, eles cobram”, brinca Seu Regis. “Vez ou outra assisto aqui da janela. Não tenho do que reclamar”, conta Sônia Oliveira, vizinha do bar. O movimento de pessoas no quadrado, embora possa incomodar alguns vizinhos por causa do som que às vezes invade a madrugada, ocorre de maneira tranquila. “É um clima bem familiar”, pontua Vânia. As reuniões de moradores e visitantes em torno da música não ocorrem apenas com o samba como pano de fundo. Vizinha às paisagens naturais que cercam a Lagoa do Abaeté, a Casa da Música desenvolve projetos que movimentam o cenário musical do bairro. O Sarau de Itapuã, realizado quinzenalmente às segundas-feiras, mistura ritmos como o jazz, o rap e a MPB, com apresentações de músicos. “Os saraus representam a cultura para a nova geração e aqui dá para encontrar todo mundo do bairro”, conta Daiane Paixão, 34, moradora de Itapuã há um ano. O Sarau entrou na rotina das pessoas que moram nas proximidades. “Geralmente quem frequenta são moradores e pessoas de regiões próximas a Itapuã”, diz Fátima Ribeiro, 55, moradora do bairro de Stella Maris. Fátima, que é funcionária pública e se apresenta como cantora, recorda encontros realizados ao lado da lagoa. “Já fui para Saraus do lado de fora. Em um deles, uma vez fizeram fogueira. É um momento único”.

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RODAS DE MEMÓRIAS Ma th

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O som feito no cotidiano do bairro transforma a memória do lugar em música. O produtor de áudio e músico Joaquim Carvalho, 44, sempre morou e costuma se apresentar em Itapuã. “Seus vizinhos, às vezes, nunca lhe ouviram cantar ao vivo. Nesses momentos eles se apoderam da cultura e história do seu lugar”, conta. Carvalho, que hoje canta MPB, fazia parte da banda de rock Levantamento Cadavérico. Os locais das apresentações estão nas suas lembranças. “Aqui tinha o Castelinho. Foi o primeiro lugar onde me apresentei e recebi a minha primeira vaia”, brinca. Quando adolescente, ele observava as barracas das praias em que acontecia o Sambão. Instrumentos como o timbau, surdo e pandeiro faziam o som tocado na orla. Itapuã já foi uma vila de pescadores, vendedoras e lavadeiras. Em acordes, as imagens do balde de água na cabeça, das conduções que engoliam os moradores e os deixavam no centro da cidade e dos vendedores que caminhavam pelas ruas de Salvador estão imortalizadas. Seu Regis, nas suas músicas, descreve a Itapuã da sua memória. “Elas saem até meio sem querer. Surge um ritmo na mente e começo a compor. Gosto de contar histórias através do samba”, diz.

A música tem esse dom de nos aproximar

A sua música História de Itapuã descreve cenas desse cotidiano, como as dificuldades do lugar onde não era fácil o acesso à água. “Água na cabeça eu peguei na cacimba, com minha mulher e as minhas meninas” canta Seu Regis. Em outras canções ele imortaliza as festas na comunidade, como a de São Tomé. A religiosidade afro-brasileira e o samba estão nos versos em que faz homenagem a figuras como a Tia Ciata, mãe de santo e sambista.

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A rotina de trabalho no Abaeté e nas ruas de Salvador deu origem ao coro das 17 senhoras do grupo As Ganhadeiras de Itapuã, em 2004. As mulheres que exerciam atividades de lavadeiras e vendedoras – principalmente de peixes – eram conhecidas como ganhadeiras. “Nós nos reuníamos para recordar e falar do que existia em Itapuã. Nessas rodas de conversas, começamos a cantar algumas músicas antigas”, relembra Maria Hermilina, a Dona Mariinha, 81, presidente do grupo. A personalidade dada às cantigas e composições do grupo mantém a identidade cultural da região. “Queremos preservar as recordações que temos daqui, das pessoas que lavavam, mercavam e andavam com tabuleiros na cabeça”, esclarece Dona Mariinha. O samba de roda é o ritmo mais presente nas canções das Ganhadeiras e também têm influências do Ijexá e do Aguerê, toques usados em rituais do candomblé. “O samba de roda e a ciranda são tradições que juntam o povo brasileiro. As pessoas se olham de frente na roda e cada um tem oportunidade de participar”, explica Amadeu Alves, 48, diretor musical do grupo.

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TOCANDO EM FRENTE Um projeto que começou com a proposta de ensinar alunos de escolas públicas de Itapuã a tocar pandeiro, resultou no encontro de moradores e pessoas de outros bairros. O curso de pandeiro, que acontece na Casa da Música, formou sua primeira turma com 80 pandeiristas em 2011. Dos novos músicos, nasceu a Orquestra de Pandeiros de Itapuã. “No curso tinham alunos a partir de 14 anos, que era a proposta, até senhoras de 70. Foi legal a interação entre as gerações. Desse momento em diante nós não paramos mais”, explica Analu Franca, 55, produtora da Orquestra.

Gosto de contar histórias através do samba Seu Regis

O repertório tem arranjos do côco, samba de roda, embolada, maracatu e cirandas. “Além dos ritmos tradicionais brasileiros, como a ciranda e o baião, a orquestra mescla com os mais modernos, como o funk. Até Michael Jackson já tocamos”, explica Yago Avelar, 33, professor do curso e diretor musical do grupo. A Orquestra de Pandeiros, que tem 12 músicos, costuma se apresentar em Itapuã e na Casa da Música. “A gente caminha e encontra pessoas pelo bairro que passam mensagens de apoio. A música tem esse dom de nos aproximar”, conclui Avelar.

Ao lado, Soninha do Samba reúne amigos e convidados para as rodas de samba. Seu Reginaldo é compositor e participa das tradicionais rodas em seu bar O Rumo do Vento. Abaixo, o Grupo As Ganhadeiras de Itapuã mescla o samba e cantigas às tradições do bairro

Bruna Castelo Branco/Labfoto © 2015

As iniciativas musicais independentes e as rodas de samba pelas ruas de Itapuã indicam um novo momento para o bairro, mesmo convivendo com problemas sociais. “Itapuã hoje passa a ser lembrada não só pelo o que Caymmi, Vinicius e Caetano cantaram. Com o fortalecimento da ideia de pertencimento, temos músicos que buscam diferentes inspirações em suas composições”, pontua Amadeu Alves. Os batuques e coro dos moradores acompanham a antiga vila dos pescadores até hoje. Com notas e arranjos surgem novos grupos que produzem entre si as eternas memórias musicais.

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Avenida dos

Imigrantes Nas ruas e becos, a cultura e comércio chinês se instalam na capital baiana texto Matheus Buranelli e Vinicius Gericó ilustrações Vinicius Gericó

Às sete horas da manhã, as ruas do Centro de Salvador têm sobre si apenas o peso de alguns lojistas a caminho do trabalho. Nesse horário, as avenidas emolduradas por construções antigas recebem aos poucos os imigrantes chineses que levantam as portas de enrolar e preenchem as lanchonetes, pastelarias, restaurantes ou comércio de variedades e importados. No interior das lojas, o dourado predomina entre leques decorativos e balões orientais coloridos, que dividem espaço com imagens de santos católicos e canecas de times baianos. Em uma dessas lojas, entre dois balcões, estão os proprietários Cai Biqiang, 51, chinês de Cantão naturalizado brasileiro e sua esposa soteropolitana descendente de chineses. Juntos, administram uma loja de variedades na rua Carlos Gomes há 27 anos. Na mesma rua, quase sem tempo para conversar, trabalha Zheng Lixnn, 44, natural de Yanping. Enquanto ensaca farinha para servir no seu restaurante de comida bra-

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sileira, lembra que em 1992 chegou ao Brasil para trabalhar com os tios. Durante sete anos como funcionário, economizou e abriu o seu restaurante. Zheng constituiu não só um negócio, mas uma família. Morador do bairro Dois de Julho, é casado com a chinesa Zing Yixin, 37, e pai de Fabiano, 10, filho do casal nascido em terras brasileiras. Há alguns quarteirões, próximo ao Beco Maria da Paz, trabalha Wu Ching Long, 51, filho de comerciantes chineses. Nascido no Brasil, na Cidade Baixa, viveu sua infância e adolescência na China, em Macau – colônia lusa até 1999, cujo português é uma das línguas oficiais. Paulo, como é conhecido, retornou após 15 anos para herdar os negócios da família. No Brasil desde 1995, é tratado como estrangeiro pelos clientes. Mas nas poucas vezes que visitou a China, sentiu que era visto como brasileiro, por não possuir fluência em mandarim e, mesmo de família chinesa, não ter direito à cidadania. Na China não é permitida a dupla nacionalidade.


Matheus Buranelli/Labfoto © 2015

CRÉDITO OU DÉBITO? Durante o dia, as ruas do Centro são marcadas pela presença de distribuidores de panfletos, vendedores que anunciam ofertas nas portas das lojas e ambulantes que destacam ter chips de todas as operadoras. Sem propaganda nas portas, os mais de 50 estabelecimentos chineses nas principais vias do Centro – J.J. Seabra, Joana Angélica, Carlos Gomes e Sete de Setembro – são identificados pelo excesso de objetos nas prateleiras das lojas e os tons de laranja das lanchonetes. Antes da pergunta “crédito ou débito?” os funcionários brasileiros costumam mediar as vendas e suprir as limitações do idioma. A comunicação entre funcionário, cliente e patrão é objetiva. Para evitar conflitos de entendimento, normalmente usam poucas palavras e o verbo no infinitivo, pois é comum chineses virem para o país sem o domínio da língua. Em meio as calçadas movimentadas e estreitas, no subsolo de um prédio próximo ao relógio de São Pedro, trabalha Tiago Lin, 23, natural de Fucheu. Enquanto atende mais um cliente na loja de variedades, conta a sua chegada em Salvador há três anos. Sua irmã é dona de duas lojas no Centro e Lin a substitui na administração quando necessário. Durante a conversa, faz pausas e pede que a pergunta seja repetida ou não seja feita tão rápida. Ele aprendeu português no dia a dia, já no Brasil, através de livros e internet. Quando a língua se torna uma barreira, recorre aos funcionários para que expliquem algo que lhe é estranho. Para imigrantes que não têm funcionários, como camelôs e ambulantes, os colegas vizinhos ajudam na comunicação. Normalmente simplificam a frase do cliente ou o alertam sobre a dificuldade de entendimento do chinês. Próximo à Praça da Piedade,

Zheng Lixnn trabalhava com lanches na China antes de abrir seu restaurante no Brasil

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macau hong kong fucheu Cantão

1987 km 1959 km 1924 km 1888 km

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distância até pequim

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uma ambulante passa o dia de pé com bolsas de longas alças penduradas nos ombros. A pouca fluência no português não a permite entender quando lhe perguntam o nome. “Ela só entende de dinheiro. Se quiser a bolsa azul, tem que apontar”, descreve a camelô brasileira que trabalha ao seu lado e também não se identificou. Todos os dias ela vende chips para celular e acompanha a vendedora chinesa, no país há pouco mais de um ano.

Motivados pelo comércio, a dificuldade inicial em aprender português não impede os chineses de abrirem seu próprio negócio. Cerca de 200 famílias vivem na capital, predominantemente nos bairros do Centro Histórico e 10 chineses chegam todos os anos de uma das seis regiões da China, segundo a Associação Baiana Chinesa. É um traço comum a imigração gradual. Inicialmente um chinês se estabelece e, em seguida, a família se instala. Ao chegarem à cidade, normalmente trabalham juntos. Dividem funções e, não raramente, partilham a administração das lojas espalhadas pelo Centro entre membros da família.

A mediação nas vendas ocorre mesmo no caso em que o chinês é fluente, pois normalmente eles ocupam a posição de caixa. Para trabalhar, Paulo Wu se dedicou a conhecer primeiro os números. “Aprendi a língua por causa do comércio, para entender os valores das mercadorias”. Apesar de fluente, o comerciante de vez em quando interrompe a conversa para perguntar se está se fazendo entender.

Aqui no Centro é mais popular. Já estou acostumado big van

Dudu Assunção/Labfoto © 2015

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1852 km 1496 km 1301 km 417 km

Em uma loja na av. Sete cujas paredes são forradas de bolsas e cintos, trabalham os pais da jovem de 18 anos Qiany Lin, ou apenas Eva. Natural de Fujian, veio para o Brasil há dois anos – oito anos após a saída de seus pais da China. Eva acompanha o cotidiano da loja de trás do balcão junto com seu irmão e primo mais novos e ajuda quando necessário. A migração para o Brasil, segundo Lin Fon, 38, natural de Taiwan e presidente da Associação Baiana Chinesa, ocorre principalmente porque os chineses buscam em outros países trabalhos que permitam crescimento econômico dificultado pelo modelo da economia chinesa. Lin pontua que eles decidem montar restaurantes e lanchonetes devido à facilidade na logística e a não estocagem. Outro fator é a barreira do idioma. “Só precisa falar o nome do produto e o valor”, esclarece. A venda de importados é uma forte opção pela alta produtividade chinesa e facilidade na importação, segundo o presidente.


aprendi a língua para entender os valores das mercadorias paulo wu

O menor custo de produção motiva Yang Hua Wu, 35, conhecido como Big Van, a manter um restaurante na Mouraria. Natural de Cantão, nos seus 21 anos em Salvador teve um estabelecimento de alimentos e outro de informática. Devido ao baixo movimento e dificuldade de estocagem, encerrou o segundo após cinco anos. O comerciante reconhece que a quantidade de pessoas que circulam na região é favorável ao comércio. “Aqui no Centro é mais popular. Já estou acostumado”, lembra. Na Barroquinha, Zheng Faquam, 73, de Hong Kong, há mais de 20 anos no país, optou por abrir um bar-churrascaria. “Agrada mais o povo”, explica. Ele escolheu o nome Bar do China por causa dos amigos e clientes. “É mais fácil para eles”, brinca ao contar o porquê do apelido.

O movimento de imigrantes no Centro fez a Associação Baiana Chinesa, única instituição de chineses no Nordeste, se instalar na rua Chile. O órgão é procurado para solicitar documentos, cursos de português e promove ações culturais. “Chinês não tem tempo. Como trabalham pelo Centro, a Associação deve estar próxima a eles”, lembra o presidente. Os missionários Testemunhas de Jeová também identificaram a presença de imigrantes no Centro e distribuem na região livros religiosos traduzidos e publicações exclusivas em chinês.

ESQUINAS DO COTIDIANO

Matheus Buranelli/Labfoto © 2015

Entre a rua Carlos Gomes e a do Cabeça, destaca-se a lanchonete laranja da família San, no Dois de Julho. Enquanto descasca uma bacia de chuchu, Celina Wu, 35, conta que trabalhou numa fábrica de peças de computador em Cantão, antes de ter a atual lanchonete com o seu esposo, Shum Jin San, 49. No Brasil há 11 anos, ela prefere os pratos de sua cidade natal. “A comida da China é mais saborosa”, diz ao justificar a manutenção da culinária chinesa no dia a dia. Essa preferência também compõe o cotidiano da família Ma. Com a cadeira do lado de fora da lanchonete laranja e branca na rua Nova de São Bento, Ma Ca Guang, 32, natural de Taishan, conta a preferência pelos pratos orientais preparados por sua

Paulo (ao lado) atualmente está no mercado de variedades e importados, mas sua família já administrou lavanderias e pastelarias. Seu pai começou a trabalhar no Brasil como camelô. À esquerda, o comércio de imagens chinesas e religiosas, marcante na rua Carlos Gomes

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Dudu Assunção/Labfoto © 2015

esposa. Mas no momento em que vê seus filhos, Ma Qui Chao, 9, e Ma Qui Feng, 6, lembra o gosto deles pelos pratos brasileiros. No país há 11 anos, nove deles em Salvador, Guang brinca com amigos que passam em frente à lanchonete decorada com enfeites orientais – entre eles, a imagem do Buda chinês, em um ponto alto da loja para trazer sorte. Ao descascar a segunda bacia de chuchu, Celina conta que eles não pretendem voltar para a China devido ao comércio de lanches e a continuidade na educação do pequeno Shum, 10, filho do casal. Ela diz que assiste a programas brasileiros para ajudar o filho aprimorar o português. A família se divide entre os dois idiomas nas conversas do dia a dia e Celina não surpreende ao cumprimentar com um “oi, amor!” uma amiga recém-chegada na lanchonete.

Faixada do Bar do China, localizado ao final da avenida J. J. Seabra. Abaixo, Ma Ca Guang, morador e comerciante do Centro, prefere circular a pé pela região, embora tenha carro

A professora Rosa Santos, 53, frequenta o restaurante de Zheng Lixnn há dez anos e amizade deles mudou seu sonho de viagem. “Antes queria conhecer a França, agora quero conhecer a China”. O interesse de Rosa pela cultura oriental se assemelha ao de Linxx pelas tradições locais. Em seu restaurante, ele mesmo prepara e serve comida baiana nas sextas-feiras.

DUAS CALÇADAS DA MESMA RUA

Dudu Assunção/Labfoto © 2015

Na av. Sete, após atravessar o Beco do Mucambinho, trabalha Ana Yun, 25, que veio de Pequim há três anos a pedido de uma amiga. No fundo da sala em formato de corredor, a vendedora de importados não identifica muitas diferenças entre o comércio nas duas cidades. “Tudo é igual. Só muda o fuso horário”, diz um pouco antes de rever a sua resposta com queixas sobre o hábito brasileiro de trocar mercadorias e a falta de segurança no Centro. “Na China podemos passear a noite. Lá, sábado e domingo tem muitos clientes na rua até meia noite. Aqui tem muito ladrão”. As diferenças entre a China e o Centro não são tão grandes segundo Tiago Lin. Ele vê semelhanças na arquitetura da cidade com a do seu país natal. “Aqui tem muita coisa antiga e cultura, como na China”, expõe o vendedor, que não pretende voltar. Guang, ao contrário, tem planos de retornar para se aposentar. “No Brasil está melhor, mas lá é a minha primeira casa”. Em Salvador, como é comum morar e trabalhar no Centro, a maioria dos chineses da região faz seu percurso a pé. “Aqui tem tudo, médico, farmácia”, comenta Faquam sobre a variedade de serviços durante o dia. No banner do Bar do China há uma placa de “passa-se lanchonete”. O morador da Barroquinha explica a motivação da mudança: “o aluguel está mais caro”. Porém, quando perguntado se pretende permanecer na região, responde assertivo que continuará no Centro.

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O jogo virou r

Games feitos na Bahia incorporam elementos da cultura brasileira em suas narrativas texto Jessica Carvalho e Mallu Silva foto Luca Castro/ Labfoto

“Quem conhece Zeus, deus da mitologia grega? Quem conhece Thor, da mitologia nórdica?”. Em uma palestra sobre desenvolvimento de jogos regionais, no Gamepólitan 2015, maior evento de games realizado na Bahia, as respostas são afirmativas por quase toda a plateia. Para os gamers, o conhecimento desse universo é quase unanimidade. No entanto, o mesmo não acontece quando a pergunta é “quem conhece um deus ligado à cultura brasileira?”. No momento, só uma pessoa se arrisca e, ainda assim, erra.

Reprodução fotográfica: Comunidades Virtuais/ UNEB

Ramon Santos, 27, diretor na startup Alpha Centauri e palestrante no evento do Gamepólitan, lança a pergunta aos jogadores como forma de sondar o conhecimento deles sobre a cultura do Brasil. “Eles sabem tudo sobre fadas, vampiros, mas nada sobre o Caipóra ou o Curupira. Chega um momento em que a criança se aliena da cultura brasileira”, afirma. A empresa baiana desenvolve o jogo de cartas Batalha de Mitos, no qual as personagens são retiradas da mitologia brasileira.


Quando criança, Santos pedia à avó que contasse as histórias de terror que povoavam o imaginário de Bom Jesus dos Pobres, cidade do recôncavo baiano. Esse contato com a cultura brasileira serviu de inspiração para o card game, cujo enredo se inicia mesmo antes da chegada dos portugueses ao Brasil. Na história do jogo, a viagem até o país é justificada como parte de uma investida mitológica do rei em busca de riquezas escondidas por seres místicos que aqui habitavam. Assim como a Alpha Centauri, a empresa Sinergia Games empenha-se em trazer elementos esquecidos da cultura brasileira no entretenimento. “Histórias da Terra foi o primeiro que desenvolvemos, onde os personagens principais viajam do início até o fim do mundo”, descreve Cristhyane Ribeiro, diretora da Sinergia Games. Parte da coleção Histórias da Terra, de 2013, o RPG ( Jogo de Interpretação de Personagens) Omorixá é um jogo online que possibilita a seleção de um orixá para orientar o comportamento dos jogadores através da cosmologia das lendas africanas.

DE ÁFRICA Na tela do dispositivo móvel, um jovem corre desviando de feitiços que lhe são lançados, enquanto uma música com batidas de agogô toca ao fundo. O cenário faz parte do jogo O Feitiço de Exu, da coleção Jornada da Criação, conjunto de jogos sobre a religiosidade afro-brasileira criado pela Sinergia Games em 2014. Na jornada, o jogador acompanha Oxalá, orixá responsável pela criação do mundo, de acordo com o Candomblé. Para evitar incoerências no enredo, durante a construção dos jogos a startup consulta pessoas com conhecimento mais profundo da cultura afro-brasileira, como a ativista e cabeleireira afro Negra Jhô e o rapper Afro Jhow. Adepto do Candomblé, Afro Jhow, 36, vê importância em trazer a temática ao cotidiano. “Seguidor ou não da religião, essa é uma história nossa, uma história de África que conseguimos ver nitidamente em nosso país”, defende. Desde que iniciou o contato com o mundo dos games, Afro Jhow diz nunca ter se sentido representado. A preocupação aumenta por ter uma filha de 12 anos, Kaylane Andrade, que, assim como outras crianças, é cercada de jogos ligados à cultura estrangeira. “Quero que minha filha aprenda nossa cultura não apenas por um livro ou por mim, mas naturalmente. Assim como eu consegui formar parte de minha cidadania através de games. Vejo esses jogos como uma militância”, conclui.

UM JOGO DE ESTRATÉGIAS Ilustração da Iara por The Art of Awvas do jogo Batalha de Mitos

Inspirado em personagens e eventos históricos, o 2 de Julho: Tower Defense tem como cenário o Brasil de 1822. “Jogue para defender a Bahia” é o lema e o jogador deve proteger o estado da invasão de tropas portuguesas. Criado em 2012 pelo laboratório Comunidades Virtuais, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), o jogo, que é compatível com celulares e computadores, foi o de maior alcance dos 11 produzidos pelo grupo. “Não queremos que os jogos sejam livros didáticos. Podemos trabalhar os conteúdos sem colocá-los de forma enfadonha”, explica Lynn Alves, 52, coordenadora do laboratório.

Através dos jogos é possível criar uma referência para a pessoa e para vida Cristhyane Ribeiro

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Juntas, Sinergia Games e Alpha Centauri trabalham na produção do jogo Batalha de Mitos

Mesmo para produtos não ligados à academia, como é o caso dos jogos desenvolvidos pela Alpha Centauri e Sinergia Games, o equilíbrio entre educação e entretenimento torna-se um desafio. “Utilizamos como critério principal o divertimento. Esse puxa os outros, mas não deixamos de ter conteúdo e fundamento”, defende Christyanne Ribeiro. Para os desenvolvedores, o aprendizado precisa ser consequência de uma boa interação entre jogadores e jogos. A intenção reflete-se no design dos games. No Batalha de Mitos, a mitologia brasileira não foi modificada, mas algumas mudanças iconográficas nas lendas foram feitas. A Iara ainda entoa seu canto melancólico aos desavisados que são levados para o fundo dos rios, mas é envolvida por uma armadura que lhe dá a aparência de uma guerreira. “Essa é uma forma de ensinar a cultura por meio do jogo. Se o jogador estiver estudando a cultura brasileira e a história do Brasil, mas num universo gamer, estará aprendendo”, assegura Ramon Santos.

OS BUGS DO MERCADO O laboratório Comunidades Virtuais foi considerado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) o primeiro em produção de games entre as universidades do Brasil e é um local de aprendizagem e formação de profissionais. “Na área de desenvolvimento, sinto a carência de cursos específicos na Bahia. É comum pessoas saírem de outras áreas, como história, para ir desenvolver jogos”, revela Jesse Nery, 25, desenvolvedor de games e professor na área de computação. A falta de qualificação é um dos entraves que grupos do estado tentam contornar com a união entre produtores de games. Em 2014, foi criado o Bahia Indie Game Developers (BIND), uma associação que busca a troca de conhecimentos entre 18 grupos baianos para fortalecer a produção local. Nery explica que há projetos similares no país, mas que na Bahia ainda estão em desenvolvimento. Aos poucos, o quadro torna-se mais animador. Em 2015, a primeira turma de graduação em jogos digitais de uma universidade pública estadual será ofertada na UNEB, por meio de um curso tecnológico. “É preciso atuar na formação e articulação dos profissionais, buscando políticas que possam subsidiar o desenvolvimento de jogos no país”, explica Lynn Alves. Quarto maior consumidor de jogos do mundo, o Brasil é também potencial produtor. Para isso, não basta investir em profissionalização, é preciso aliar produção nacional à regionalização da narrativa, argumenta Ramon Santos. Com as cartas na mesa do desenvolvimento de jogos brasileiros, as próximas jogadas podem servir como via de acesso alternativa para nossa cultura. “Através dos jogos é possível criar uma referência para a pessoa e para vida. Você pode pensar: posso ser tão cheia de virtudes e realizações, como aquele personagem”, completa Ribeiro.

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É dy cereja Artista de Glam Rock dos anos 1970, Edy Star mostra as suas outras faces como estrela texto Bianca Bomfim e Lara Miranda ilustrações Alexandre Cabral (Aleco)

Edy Star, 78, é músico, ator, bailarino, artista plástico e produtor teatral. Na década de 1970, foi considerado pela extinta revista O Pasquim o primeiro artista brasileiro a assumir sua homossexualidade. Juazeirense, passou boa parte da infância e adolescência em Salvador, onde iniciou sua carreira em 1950, levado pelo pai ao programa A Hora da Criança, da rádio Sociedade da Bahia. Formado pela Petrobras, como Especialista em Petróleo, deixou a profissão em 1960 para trabalhar no circo e dali em diante sua carreira artística não parou. Entre seus trabalhos destaca-se o álbum “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10”, gravado em 1971, com Miriam Batucada, Sérgio Sampaio e Raul Seixas – amigos desde a adolescência. No teatro, estrelou em 1975 o musical Rocky Horror Picture Show, na pele da personagem Frank-n-Furter. Em 1961, fez sua primeira exposição como artista plástico, uma das 32 que assina. Passou 19 anos em Madrid, onde trabalhou no circuito alternativo de teatro e na produção de shows do cabaré Chelsea. Referência no estilo Glam Rock no Brasil, atualmente mora em São Paulo onde produz o segundo álbum da sua carreira.

VOCÊ RECEBEU O TÍTULO DE POP STAR PELA REVISTA O PASQUIM NOS ANOS 70, MAS JÁ ERA CONSIDERADO STAR ANTES DISSO. COMO RECEBEU O TÍTULO NA ÉPOCA? EDY STAR: Antes meu nome era só Edy. Um

COMO ARTISTA DO GÊNERO GLAM ROCK VOCÊ LANÇOU UM ÚNICO DISCO SOLO, O SWEET EDY. QUAIS FORAM AS SUAS PRINCIPAIS INFLUÊNCIAS NA PRODUÇÃO DELE?

dia, na porta da boate São Salomão, disseram “você tem de ter sobrenome, porque Edy é um nome muito simples e você é uma estrela, você é uma Star”, “Então, sou Edy Star”. Dali em diante adotei Edy Star, mas nunca liguei para essa coisa de estrela. Sou uma pessoa escrotérrima, do povo. Vou em festa para roubar doce. Sou da gandaia, de família pobre, morei no bairro do Uruguai [em Salvador]. Sou da esculhambação total, Star é só no nome, não sou da atitude Star.

Acho que a maior influência é o Dzi Croquettes*, o original, com as pessoas que conheci, entre elas o Lennie Dale, criador do grupo. Eles tinham a liberdade de fazer e cantar o que quisessem no palco. Não foi Ney Matogrosso, que é um grande amigo e apareceu na mesma época que eu, nem Cornelius Lúcifer que conheci também em São Paulo. De influência de imagem, foram as coisas que eram moda na época: o David Bowie, o pessoal do Tyrannosaurus Rex [banda inglesa T. Rex].

star é só no nome, não sou da atitude star

*Dzi Croquettes: grupo carioca de teatro e dança que revolucionou os palcos nos anos 70, desafiando o Regime Militar com seus espetáculos e artistas de visual andrógenos.

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DE ONDE VEM O NOME SWEET EDY? O Sweet Edy vem da música de mesmo nome que gravei com Renato Piauí e Sérgio Natureza. “Meu bem, eu sou um bombom de cereja/ Veja, prove, morda, não seja bobão”. Deles também gravei “Bem Entendido”. Naquele tempo, gay se chamava “entendido”, “fulano é entendido”.

QUAL O SEU ESTILO NO TRABALHO COMO ARTISTA PLÁSTICO? Eu pinto por tema. Gosto muito do tema da vida no circo. Pinto o palhaço, mas pinto a mulher do palhaço do lado, por exemplo, cozinhando. Pinto o malabarista, que está ainda se vestindo. Pinto mais para o lado expressionista, figurativo, com cores fortes. Sofri muita influência da última viagem que fiz para a República Tcheca e a Alemanha. Voltei enlouquecido com os tons de vermelho e azul que usam.

meu bem, eu sou um bombom de cereja. veja, prove, morda, não seja BOBÃO QUANDO VOCÊ ERA CRIANÇA COMO IMAGINAVA SEU FUTURO? TINHA ALGUMA ASPIRAÇÃO? Quis ter uma vida melhor, ser artista, cantar, fazer teatro. Mas tive problemas com a minha sexualidade, o que me atrapalhou muito. Como não conhecia outros gays, achava que era o único e que era um castigo de Deus. Depois fui descobrindo mais gente, fui me acostumando e vivendo cada dia. Mas nunca pensei viver até os 40. Hoje estou com 78 anos. Que você quer mais na minha vida? Já vivi tudo, tá tudo ótimo.

CENSURADO Quando Edy deu a entrevista para o Pasquim a capa seria “Edy Star: o rei dos andrógenos”, no entanto, a censura não permitiu o termo “Andrógeno”. No lugar há uma parte em branco. Em Recife, quando fez a peça “Desde que a nossa mãe nos pariu até que a Terra nos engoliu, amém”, a censura proibiu a palavra “pariu”. O título foi trocado para “A memória de dois catadores”.

QUAIS AS DIFERENÇAS DE PRODUZIR TEATRO NA ESPANHA E NO BRASIL? Na Europa existe teatro alternativo, do qual fiz parte. No Brasil não tem. Lá quase toda companhia alternativa tem seu próprio teatro e monta suas próprias peças com o dinheiro do governo ou com qualquer ajuda. É injusto ver as pequenas companhias no Brasil tendo que competir em licitação com as grandes. Poderia ter essa qualificação de teatro das grandes companhias e das alternativas, que não são sinônimo de amador. É teatro profissional, porque vive disto. Agora, no teatro amador as pessoas não devem ser desculpadas por fazerem coisas ruins. Conheço muito amador que é melhor que muita gente famosa em talento e interpretação.

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Na trilha do musical The Rocky Horror Picture Show, gravada por Eduardo Conte – ator que sucedeu Edy Star em sua atuação como Frank-n-Furter, personagem principal da peça –, a primeira música foi retirada, pois proibiram as palavras “travesti” e “transexual”, porque o personagem Frank cantava: “Eu sou um simples travesti/ Transexual, da Transilvânia”. Podia cantar dentro do teatro, mas não podia aparecer em lugar nenhum e a mídia não publicava.

VOCÊ FOI O PRIMEIRO ARTISTA BRASILEIRO A ASSUMIR A SUA HOMOSSEXUALIDADE. COMO FOI ESSE PERÍODO E NO QUE AFETOU SUA VIDA PESSOAL E CARREIRA? Não afetou em nada. Vivo no mundo artístico, onde ser gay, lésbica, não importa. Quando estava fazendo o Rocky Horror Picture Show, uma garota perguntou a mim: “por que você faz tanto sucesso? Você é o artista mais falado do ano”. Em 1974 eu saia todos os dias nas revistas e jornais. E falei: “porque eu assumi o que sou”. Sou isso e acabou. Dá vontade de fazer frescura, faço frescura. No Rocky Horror eu fazia a peça toda com um tapa sexo e um espartilho. Nessa época, saiu uma matéria na qual eu dizia “venci porque assumi o que sou”. Nem tinha lido e a minha ex-mulher comprou a revista no aeroporto, leu no


avião e começou a rir. Chegou em casa e mostrou. Isso nunca me afetou em absolutamente nada, não me abriu portas, como também nunca fechou. Faço até brincadeira, para mim isso já é uma piada.

VOCÊ TEM “BOFÉLIA” COMO APELIDO. DE ONDE VEM ESSE NOME? Eu era uma bicha porradeira, dava porrada nos grupos que vinham bater nas bichas. Juntava umas vinte e botava aquelas turmas para correr. Então era “Bofélia”, porque eu era a bicha mais bofe da turma, a mais macho.

NO SEU BLOG HÁ ALGUMAS DECLARAÇÕES SUAS SOBRE O FILME

TATUAGEM [2013] E SOBRE COMO VOCÊ SE IDENTIFICA COM ELE. QUAIS AS PRINCIPAIS SEMELHANÇAS QUE O FILME TEM COM VOCÊ E SEU JEITO DE SER?

Com minha vida, de cantar no cabaré e montar os espetáculos. O filme é baseado em coisas que realmente aconteceram no Recife. Aquele cabaré Delírio existiu durante anos. Trabalhei em muitos tipos de cabaré, da Praça Mauá, Lapa, Copacabana. Só trabalhei em puteiro, adoro trabalhar em puteiro. Aquele romance com o soldado na ditadura, também já tive aquilo.

COMO FOI ESSE ROMANCE? Está pensando que os soldados na ditadura não trepavam? Nunca tivemos tanta liberdade sexual como durante a ditadura. Eles reprimiam de um lado, mas nunca se trepou tanto. Todo mundo fazia. Soldado, pelo amor de Deus. Cala-te boca. Na época da ditadura todo mundo transava numa boa. Durante, depois e antes da ditadura. Agora estou quieto, mas estou procurando noivo. Tenho um, mas quero outro.

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Cilene Bandeira, 49, mantinha sozinha um abrigo voluntário para animais abandonados em Nazaré das Farinhas. Em 2007, com a falência da loja que sustentava os mais de 500 animais, entrar em uma facção criminosa pareceu uma saída para pagar as dívidas. “A opção de jogar os animais na rua sempre foi a última. Tudo o que ganhei foi para a barriga deles”, declara. Sete anos depois, conseguiu se estabilizar e pediu para sair da facção. Em agosto de 2015, foi presa por tráfico de drogas após ter sido identificada em uma escuta telefônica. Depois da sua prisão, a comunidade se uniu e o abrigo hoje recebe doações e ajuda de empresários locais. “Há males que vem para o bem”, reflete.

As vozes do cárcere feminino em Salvador texto Michelle Vivas e Tarsila Carvalho fotos Michelle Vivas/Labfoto

Cilene é uma das 138 mulheres detidas no Conjunto Penal Feminino de Salvador, segundo dados da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária e Ressocialização (SEAP) de outubro de 2015. A inauguração do Conjunto ocorreu no dia oito de março de 1990, em resposta a uma demanda de mulheres encarceradas que antes dividiam o espaço com homens. “Lutamos muito para nos igualar aos homens, inclusive para enfrentar as mesmas consequências”, diz a interna. “No meu primeiro plantão como agente penitenciária, logo na criação do Conjunto, havia cerca de 30 internas”, lembra Luz Marina, 54, diretora da unidade há quatro anos. Ao longo de sua trajetória, observou mudanças na quantidade e natureza dos crimes. “Antigamente, elas vinham mais por motivos considerados passionais – porque matavam por amor ou porque tinham que levar drogas para o marido. Agora enfrentam mais, estão mais empoderadas, não são mais tão submissas”, conclui.

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PASSAGENS Crimes relacionados ao tráfico de drogas são o motivo da prisão de mais de 50% das mulheres detidas na Bahia. No Conjunto Penal de Salvador, esse número chega a 64%, de acordo com dados da SEAP de agosto de 2015. A unidade contempla regimes aberto, semi-aberto e fechado, além de prisões provisórias. Lana*, 19, é processada por tráfico e homicídio. “Traficava para me sustentar e o homicídio aconteceu porque ele queria invadir o lugar onde eu vendia para tomar minha boca”, conta. Quando estava grávida de oito meses, Irileides Argolo, 34, foi presa por associação ao tráfico. Sem dinheiro, o marido recebera uma proposta para transportar maconha e a chamou, sem especificar o que era a encomenda. “A parte mais difícil é responder pelo que não fiz. Nunca usei e nem vendi drogas, nem sou sócia de traficante”, afirma. Apesar disso, não guarda rancor dele e entende seus motivos. “Pretendo voltar com ele, foi o homem que escolhi, independentemente de ter errado ou não. Mas caso ele volte a fazer isso, não quero”. Mirela*, 32, foi modelo até os 20, quando teve que abandonar as passarelas por causa do vício em crack. Cumpre uma sentença de 15 anos por 18 processos – entre eles tráfico, formação de quadrilha e roubo, após 11 passagens pelo Conjunto. Por tantas idas e vindas, ela questiona a vontade de ir embora. “Aqui eu ainda me sinto melhor do que se estivesse na rua, ou até mesmo morta”. Acostumada aos horários e à falta de autonomia, o que mais lhe faz falta no cárcere é a droga.

as presas aqui não acreditam umas nas outras e a sociedade não acredita na gente

Acima, o teto de uma das celas. Para diminuir a claridade da luz, as internas usam papéis de revista. As frestas atrás servem para ventilação do ambiente. Em dias frios, garrafas de plástico são enchidas com água e colocadas nas janelas

phoenix

Em cada caso, a verdade se desdobra em inúmeras versões. Segundo Luz Marina, muitas internas acreditam que foram injustiçadas, ou, em algumas situações, passam por um estágio de negação. Phoenix*, 39, revela que é difícil as pessoas darem credibilidade ao que diz pela posição em que está. “Não importa o quanto eu diga que é verdade, não acreditam em mim. As presas aqui não acreditam umas nas outras e a sociedade não acredita em nós”. O preconceito contra ex-presidiárias é um de seus medos quando sua sentença terminar, mas espera renascer ao deixar a prisão – por isso escolheu este nome para representá-la na reportagem.

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ANDANDO EM CÍRCULOS Logo de manhã cedo, a mesa de Luz Marina se enche de pedidos. Os bilhetes vêm das internas, que desejam informações sobre os próprios processos e se inquietam com a espera pelas audiências. “Poucos dias aqui parecem uma eternidade”, desabafa Irileides. A quantidade limitada de atividades também se soma à lista de angústias das mulheres em privação de liberdade. Os trabalhos remunerados foram interrompidos em 2011 com a mudança na administração dos serviços penais do Estado, hoje feita pela SEAP. O som de um apito indica a abertura do pátio pela primeira vez no dia, às 9h da manhã. Antes disso, é preciso coletar a água que será utilizada para limpar as celas, os banheiros e fazer funcionar as descargas. O registro só é reaberto no final da tarde. Nas refeições, o sistema de distribuição de comida funciona com o trabalho das internas: elas mesmas servem as outras em marmitas que são levadas às galerias. Com os turnos alternados, o café é entregue pelas mulheres que tomam banho de sol pela manhã. Após a refeição, Phoenix vai para a sala onde funciona a escola. Ela é uma das professoras e acompanha uma turma de alfabetização. Joselice Ferreira, 65, é uma das alunas. Para quem não participa das aulas, restam poucas opções.

Acima, a cela de uma das mães. Além de gestantes, nessa galeria também ficam as idosas. À esquerda, o bebê de uma das internas na cama da mãe

Para passar o tempo, fico andando para lá e para cá, sentada aqui e ali MATILDE ROMOALDA

No pátio, onde estão as galerias, não há muito o que fazer. “Para passar o tempo, fico andando para lá e para cá, sentada ali e aqui”, relata Matilde Romoalda, 71. Sara*, 29, passa o dia em sua cela, lendo a Bíblia. Algumas mulheres se sentam pelo pátio e fumam, jogam dominó, rezam em uma roda de oração ou apenas conversam entre si. Uma das que não entram no pátio, Mariana*, 28, distrai-se com o ir e vir de outras pessoas, de uma cela mais à frente das galerias. Sua convivência com as outras mulheres é limitada por possuir nível superior, em conformidade com o artigo nº 295 do Código de Processo Penal.

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para as entrevistadas, o significado de liberdade se relaciona a poder fazer o que quiserem, quando quiserem

ENTRE INTERNAS A companhia uma da outra também é uma forma de confortar-se e se distrair. “Aqui a gente se sente muito só”, afirma Julieta*, 22, ao lado de sua namorada, Lana. Há quatro meses, se conheceram no seguro – lugar isolado no qual são colocadas as internas que têm problemas no pátio. “Larguei meu marido para ficar com ela e ela fez o mesmo”, completa Lana. A aproximação aconteceu porque Julieta conseguia assistir melhor à televisão quando deitada na cama de Lana. “Ela ficava agoniada. Fazia cena de ciúme quando vinham conversar comigo, mas não falava nada”, conta Julieta. Foi em uma brincadeira de Jogo da Verdade com as colegas de cela que a suspeita se confirmou. “Inventaram de fazer esse jogo lá na cela, aí pronto”, diz Julieta, com seu sorriso fácil no rosto. Lana replica: “Quem inventou foi você”. Julieta explica que as internas respeitam as relações, pois boa parte se envolve com mulheres. “Muitas até têm marido, mas se envolvem aqui”. Raíssa Luciano, 39, é agente penitenciária há dois anos e explica que um dos maiores motivos de briga são os relacionamentos entre as internas. “Um dos casos mais comuns, além das brigas por ciúmes, é quando uma quer e a outra não quer mais, ou nunca quis. No dia seguinte, com o olho roxo, diz que caiu da cama”. Isnaia Rocha, 24, é de Jequié e conta que a falta de visitas não influencia sua vivência na prisão, mas a compa-

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nhia das outras internas ajuda a enfrentar o cárcere. “Não sei se vão ser eternas, mas fiz muitas amizades. Há pouco tempo descobri que meu pai morreu e elas me ajudaram muito”. Adriana de Freitas, 25, também tem uma relação de companheirismo com as colegas de cela. Para passar o tempo, formaram um grupo de coral e inventam brincadeiras – a última havia sido telefone sem fio com as passagens da bíblia. Outras, entretanto, são mais cautelosas com relação a amizades no presídio. A maioria das entrevistadas prefere não ter contato com as outras mulheres, por medo de se envolver em confusão. “Quando vejo briga, me tranco na cela. Não quero ser testemunha de nada”, explica Carla Falcão, 34, presa três meses após sua mãe, Martha Falcão, 67. Esta pondera que, apesar de preferir que não estivesse presa com a filha, é a única amizade que tem. “Amizade feita no presídio não é amizade”, conclui. Sofia*, 50, não procurava contato com outras mulheres até ter a ideia de organizar um grupo de leitura na biblioteca do presídio, do qual 40 internas participam. O projeto inclui leitura em voz alta para as que são analfabetas. “Aqui, elas têm vergonha de dizer que não sabem ler, mas quando passamos daquele portão, somos iguais”, afirma. Quando sair, pretende ser voluntária para continuar o trabalho. Após a discussão do grupo sobre Cela Forte, de Luiz Alberto Mendes, o autor do mês seguinte já havia sido escolhido: Jorge Amado.


MÃES PRESAS, MÃOS ATADAS Duas mães em privação de liberdade deram à luz no mesmo dia, em julho de 2015. Adenilza Santos, 33, está presa pela terceira vez e passou a gestação do quarto filho encarcerada. “Agora está sendo mais difícil, vocês não têm como imaginar. Ser mãe aqui é diferente. Acho que pega mais amor à criança”. Irileides Argolo teve sua filha quinze dias após ser presa. “Construí uma casinha para ela, meu marido e eu. Planejamos tudo, mas teve o desvio do caminho”, lamenta. Diferentemente de Adenilza, Irileides é mãe de primeira viagem. “Aos poucos me adapto, as primeiras noites foram horrorosas. Ela chorava e eu não sabia se era fome, cansaço, dor. Chorava por ela, por estarmos aqui, pela família que está longe, chorava por ser mãe nessa situação”, resume. Após o nascimento, a mãe tem o direito de manter a criança consigo até o sexto mês, de acordo com o artigo nº 83 da Lei de Execuções Penais. Em seguida, os bebês vão para um centro de apoio, a ONG Nova Semente, ou são entregues à família, se for a preferência da mãe, mas Adenilza e Irileides ainda não pensaram pelo que irão optar. “Nem quero que chegue a esse ponto. Espero poder ir embora antes com ela”, diz Irileides. Assim como a maioria das mulheres encarceradas no Conjunto, seu processo está em andamento. Os bebês da creche são trazidos para ver as mães às terças ou quintas-feiras e Luz Marina conta que algumas preferem entregar antes para não fortalecer o vínculo. O medo de ver a filha sofrer ao ser separada dela, como relataram colegas que passaram pela situação, faz Irileides não descartar a possibilidade de mandá-la para viver com a família longe da cidade. Pelo desejo de estar próxima à filha, espera conseguir o direito à prisão domiciliar. “Não quero que minha filha venha me ver e fique chorando, implorando para ficar aqui”.

LIBERDADE CHEGA LOGO Levando seu colchão debaixo do ombro, com o cabelo desarrumado pelas colegas, uma mulher se dirigia à porta de saída. Na recepção, outra esperava para ser presa. Ainda em suas próprias roupas, a jovem de 18 anos informava seus dados pessoais à agente encarregada. Ambas as movimentações atraiam olhares de funcionários e visitantes. Por conta do tráfico de drogas, Joselice já passou pelo processo de chegada nove vezes, e não deseja voltar mais. “Quando sair, espero ficar quieta, vou me aposentar. Não aguento mais correr com essas pernas”, diz. Para todas as entrevistadas, o significado de liberdade se relaciona a poder fazer o que quiserem, quando quiserem. “Só de saber que vou ver o céu inteiro tá bom demais”, revela Isnaia sobre suas expectativas para após o cumprimento da pena. Nas paredes do Conjunto, a palavra liberdade é escrita várias vezes em lugares diferentes. “Muita gente que está na rua está mais preso do que quem está aqui. Seja um vício, um marido, não poder se expressar ou fazer o que você quer. Eu estou presa, mas a minha mente é livre para pensar e poder me ver de outra forma”, afirma Adriana de Freitas, que não pretende fazer da cadeia a sua casa “Quero é voltar para a minha”. *Para preservar a identidade, algumas mulheres solicitaram que tivessem os nomes trocados na reportagem.

Ao lado, uma das celas. As internas podem levar para as celas alguns materiais trazidos pelas visitas, como comida e utensílios de higiene. As televisões são conseguidas pela prórpria administração do presídio. Acima, os rabiscos tomam as paredes do Conjunto com frases e desenhos

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Vagão fora dos trilhos O bar que movimentou as noites do Rio Vermelho em 1980 texto Laís Andrade e Michelle Vivas foto vagão atual Laís Andrade

A rua Almirante Barroso liga a Cardeal da Silva à rua da Paciência. Ao atravessá-la hoje, é possível perceber uma mistura de cidade grande com interior: casas antigas e pequenos comércios brigam por espaço com condomínios e carros. O bar da Dona Ana, ou simplesmente o Barana, espalha o cheiro de feijoada pela rua. Seu irmão Bandeira acena sentado em uma sombra. China e Davi cumprimentam de trás de um carro na oficina em que ambos trabalham. Ao passar por eles, é possível ver por detrás do muro parte de um vagão de trem abandonado. Quem vê a ferrugem alaranjada, não imagina que há 35 anos era de um vermelho vivo com janelas pretas. Em vez de transportar viajantes, o vagão era um bar que oferecia sete dias por semana de música ao vivo. A estrutura de madeira, que hoje desaba sobre si mesma, não conseguia abrigar todo mundo. O muro que cobre parte da visão foi posto para controlar a entrada dos clientes.

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CHEGADA O vagão do bar fez sua última viagem no final da década de 1970 sobre os trilhos de Aramari, próximo a Alagoinhas, até Salvador. Chegou à rua de tarde, trazido por uma carreta e acompanhado por um guindaste. Só conseguiram colocar no lugar planejado no final da noite. Segundo Davi Andrade, 50, os donos do bar conversaram com os moradores da rua antes do vagão chegar. “O gringo falou para gente tomar conta do vagão, porque ele não conhecia ninguém aqui”, lembra. Davi Andrade ainda conta que durante a chegada todo mundo parou para assistir o vagão ser suspendido e colocado no lugar. “Ninguém nunca tinha visto um trem, imagina um trem antigo chegando para ser colocado numa rua dessas”, completa China. Enquanto o sistema ferroviário declinava no Brasil, o vagão deixava de ser um meio de transporte para se tornar um dos centros da boemia e do jazz em Salvador nos anos 1980.


Segundo o italiano Gini Zambelli, 66, um dos sócios do bar, a ideia de trazer o vagão surgiu do arquiteto alemão Carl von Hauenschild. Depois de instalado, Zambelli passou a administrar o lugar com seu amigo Claus Jake, alemão falecido em 2005. Nos primeiros anos, os dois tocavam jazz, um na guitarra e o outro no saxofone. Eles formavam a banda Cameleon, que mais tarde originaria a Rumbahiana Salsa Bahia.

O Vagão foi talvez o primeiro espaço cultural da cidade jorge galeano

VIAGEM Para atravessar a rua Almirante Barroso, nos anos 1980, era preciso se acotovelar com uma multidão e resistir à música tocada no bar. Apesar de ser escutada tranquilamente do lado de fora, entrar no Vagão era uma experiência à parte. Ao passar pela bilheteria, que funcionava em uma casa ao lado do bar, os clientes deparavam-se com as mesas ao ar livre. No palco de cimento, ao fundo do terreno, apresentavam-se músicos de Salvador.

gêneros musicais podiam ser ouvidos, a depender do dia. A semana do bar começava segunda-feira com música andina, tocada também às quartas por Jorge Galeano. A terça trazia músicos de Salvador que vinham atrás do jazz tocado pelos donos. Quinta-feira, o forró lotava o bar e animava a rua. As sextas e os sábados contavam com a voz e o violão de Idaleu Bittencourt e, eventualmente, shows de Gerônimo. Domingo fechava a semana com voz e violão também de diferentes cantores.

No interior do vagão, a equipe formada exclusivamente por mulheres preparava os drinks. Da cozinha, vinham panquecas mexicanas e linguiça com mostarda alemã, servidas em mesas e bancos preservados do vagão original. Diferentes

Ir embora cedo era difícil: a noite no vagão começava 20h e só acabava no dia seguinte. Jorge Galeano, 65, relembra que ouviu falar do Bar Vagão em Buenos Aires, através de músicos e artistas amigos. “O Vagão foi talvez o primeiro

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Como o Bar Vagão não tinha espaço para abrigar todo mundo, as pessoas ocupavam a rua, hoje pacata. Dona Lêda, 67, moradora desde criança, lembra que precisou alugar uma vaga em outro lugar para colocar o carro, por não ter espaço. “Só tinha elite”, lembra. Segundo ela, os mais “ignorantes” furavam os pneus quando estacionavam na frente de suas garagens. Apesar dos incômodos gerados pelo público, Lêda se juntava com a família na varanda para dançar ao som que saía do bar e chegava à sua casa. Além de Lêda, seus filhos e os outros moradores da Almirante Barroso, que até hoje vivem lá, aproveitavam as noites do Vagão. China, 42, conta que se sentava no passeio para resenhar com os amigos, sem precisar sair do lugar onde morava para se divertir, apesar de ter apenas sete anos na época. Dona Ana, 60, lamenta não ter aproveitado o bar por ser muito nova. “Mulher não ia para essas coisas, mas meu irmão ia muito”. Para Bandeira, 65, o melhor era “o dia do forró com o ceguinho”, Fel, um acordeonista que tocava nas quintas.

Gini Zambelli/Arquivo pessoal

espaço cultural da cidade, além do jazz, tinha o forró. Ninguém tocava forró naquela época e o bar enchia”. Galeano não só fazia parte da programação musical, como também colaborava com a identidade visual do bar, criando cardápios, cartazes e camisas.

Gini Zambelli no bar, dentro do vagão (1980)

PARTIDA A ruína do Bar Vagão foi o seu próprio sucesso: nem todos os moradores gostavam quando a rua lotava. De pequenas casas passadas de geração a geração, os moradores do Almirante Barroso passaram a integrar prédios altos e condomínios. O primeiro prédio a ser construído na rua, nos anos 1970, foi o Condomínio Mirante do Rio Vermelho, exatamente em frente ao Vagão. Heitor Valle, 66, morador desde 1979, relembra que o bar trazia transtornos. “Naquela época as pessoas tinham dificuldade de entrar aqui no condomínio por causa das fileiras de carros”. Além da grande movimentação de pessoas que o bar trazia, ele conta que até um abaixo assinado foi criado entre os moradores do prédio a fim de resolver o problema da poluição sonora.

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Cartazes feitos por Jorge Galeano

Hoje, silencioso e esquecido, o vagão degrada-se. As telhas são amarradas com cordas para não serem levadas pelo vento e a única coisa que sobrou foram os bancos. Em suas três vidas transportou passageiros, movimentou o cenário musical soteropolitano e agora permanece parado, no fim da sua viagem.

Artes: Jorge Galeano/Arquivo pessoal


Fotos: Caíque Bouzas/Labfoto © 2015

fora rota

Elevador do Taboão

da

Casarão abandonado no Comércio

Basílica Nossa Senhora da Conceição da Praia

Formas diferentes de conhecer Salvador possibilitam experiência com a cultura local texto Jessica Carvalho e Tarsila Carvalho

Para quem deseja conhecer Salvador por meio dos roteiros turísticos, os caminhos são os mesmos. Terreiro de Jesus, Praça Anchieta, ladeiras do Pelourinho, Praça da Sé. As variações têm um raio de alguns metros. A Baía de Todos os Santos e a Cidade Baixa também constam nos itinerários divulgados por guias turísticos e feitos repetidamente pelos visitantes. Talvez isso explique a confusão no olhar dos agentes de limpeza ao encontrarem oito turistas descendo pela ladeira do Taboão, no Centro Antigo de Salvador, entre ruas e becos, em direção à Cidade Baixa, após passarem alheios às lojas de suvenires que lhes aguardavam. O passeio pelas ruas menos conhecidas do centro da cidade é uma das maneiras de vivenciar Salvador para quem não está muito interessado nas rotas de praia ou em uma passagem meramente informativa pelos principais monumentos da capital. Apesar de Salvador ser amplamente conhecida pela atividade turística, este tipo de roteiro é um dos poucos que fogem à regra, juntando-se ao turismo comunitário em bairros populares e algumas iniciativas de agências de turismo responsável.

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TURISMO NO BAIRRO A casa da moradora mais antiga do Calafate, comunidade pertencente à Fazenda Grande do Retiro, é o primeiro ponto de parada em uma visita às ruas de um dos bairros mais populosos de Salvador. Dona Maria Magdalena, 81, recebe os turistas, ocasionalmente com a filha e a neta – membras do Coletivo de Mulheres do Calafate – intercalando a conversa sobre a história da comunidade com os afazeres do dia a dia. “Para ter esse vínculo com uma residência, deve haver uma sensibilização do proprietário, de estar disposto a receber e permitir que, de certa forma, sua casa seja invadida”, explica Marta Leiro, 47, filha de Dona Magdalena e uma das fundadoras do Coletivo que promove o tour. O passeio foi pensado pelo Coletivo e se atualiza pela Comissão de Turismo Comunitário do Calafate, grupo formado pelos residentes e que se dedica à discussão da proposta. Ao trazer visitantes para a comunidade, ela revela suas virtudes – indo de encontro à abordagem dada pela imprensa, frequentemente relacionada à violência. “Tivemos a ideia do turismo como forma de desmistificar o olhar que as pessoas têm dos bairros populares como lugares violentos. Resgatando a história e a cultura, fortalecemos a autoestima local”, diz Marta Leiro.

O atrativo turístico mais importante é a história de vida das pessoas MARTA LEIRO

Segundo Leiro, a maioria dos visitantes são jovens, estrangeiros e estudantes de cursos da área de humanas. Ela ressalta que o turismo comunitário não pretende maquiar os problemas locais, mas sim ressaltar os seus aspectos positivos. “Não preparamos o bairro para o visitante, ele tem que ver a comunidade em sua maneira de ser e viver. O atrativo turístico mais importante é a história de vida das pessoas”. A memória dos moradores, que se confunde e complementa os fatos oficiais, é apoiada na oralidade e fortalece a construção da identidade do bairro. Dona Magdalena recorda-se de quando saiu do colégio interno e foi morar no Calafate, após 12 anos de internato. “Quando cheguei, me espantei logo. O lugar era sem luz, tinha até barro dentro de casa. Tinha lixo, muita mosca e não era asfaltado”. Ela conta que hoje não tem vergonha do bairro em que mora, embora nem sempre tenha sido assim. Dona Magdalena lembra de um dia voltar do trabalho e se embaraçar diante da pergunta de uma colega sobre onde morava. “Eu fiquei toda sem jeito. Tinha vergonha. Hoje não ligo mais”, diz, delineando a imagem de 60 anos atrás. Em Salvador, o tour comunitário está presente em outros bairros populares como Plataforma, Uruguai e Liberdade. O turismólogo e pesquisador do tema Alberto Viana explica a diferença entre um turismo feito na comunidade, popular em cidades do Rio de Janeiro, e o feito pela comunidade. “No primeiro, a população simplesmente deixa entrar as pessoas, que são mediadas por uma agência. Já no turismo comunitário, os moradores são participantes do processo”, afirma. Nessa modalidade, os moradores são ao mesmo tempo guias e um convite para conhecer suas histórias e o local em que vivem.

Moradora do Calafate há 47 anos, Marta Leiro mostra o bairro aos visitantes como se apresentasse a própria casa Matheus Buranelli/Labfoto © 2015

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texto Renato Meira e Thiago Conceição ilustrações Renato Meira filmagens Renato Meira e Thiago Conceição

Sua viagem começa agora. Nesse mapa você vai encontrar trilhas pouco exploradas, lugares onde existem vários baús de tesouros alternativos. A chave desses baús? Um leitor de QR code.

Nos mapas turísticos convencionais de Salvador, distribuídos por agências de viagem ou por órgãos de turismo do estado, os visitantes encontram, na maioria das vezes, apenas referências aos cartões postais mais famosos da cidade, como o Mercado Modelo, Elevador Lacerda, Forte São Marcelo e aos caminhos que conectam esses pontos. Para conhecer os locais alternativos à essas rotas, é preciso ser mais do que um turista, mas ser um explorador disposto a ir além e descobrir os tesouros que o turismo alternativo pode oferecer. Nessa jornada, casas, ruas e esquinas são partes da experiência de interação entre o viajante e a cultura dos bairros, riquezas que são escavadas durante a caminhada.


Fotos: Caíque Bouzas/Labfoto © 2015

VIVÊNCIA GENUÍNA Também de encontro a um roteiro convencional, o grupo Salvador Free Walking Tour (SFWT) usa as ruas do Centro Histórico menos frequentadas por turistas para formar um roteiro no qual o principal atrativo é o cotidiano das pessoas que ali vivem. Assim como no turismo comunitário, a rota é mais procurada por estrangeiros em busca de uma vivência na cidade. “Em geral, o turismo não permite que exista diálogo genuíno entre os visitados e os visitantes. Os primeiros querem vender e os segundos comprar. As relações são muito superficiais”, explica Pedro de Abreu, criador do SFWT. A turismóloga Mônica Santana, fundadora e sócia da agência Turismo & Afins, vê no contato próximo uma forma de garantir o retorno do turista. “O turista volta, mas não pelos pontos turísticos e sim pelas relações que constrói”, considera. Entre uma parada numa antiga sapataria e uma subida pela ladeira da Conceição da Praia, na Cidade Baixa, os turistas ouvem histórias, vêem os problemas sociais e logísticos da terceira cidade mais populosa do Brasil e raramente são abordados por ambulantes. Um dos poucos brasileiros presentes, o carioca Rodrigo Goyena, 29, estava sentado nas escadarias da Fundação Casa de Jorge Amado quando o chamado

do guia despertou sua atenção. “Sou brasileiro e, por isso, sinto maior familiaridade que os estrangeiros. Ao mesmo tempo, há uma sensação muito grande de aprendizado. É uma visão mais íntima da cidade”, defende. Na Gamboa, bairro conhecido pela concentração de tráfico de drogas e violência, um turista pode se juntar aos pescadores em um passeio de barco e participar de aulas de culinária ministradas por uma moradora. A francesa Anne Simonet, responsável pela agência de turismo que realiza o passeio em parceria com a comunidade de pescadores, Bahia Metisse, explica que tenta mostrar ao turista o que não encontrou de imediato ao chegar em Salvador. “Na primeira vez que vim ao Pelourinho, detestei. Alguém me xingou porque me pediu dinheiro e não dei. Estava vindo buscar um contato com as pessoas e saí decepcionada”, lamenta. Evitar a impressão ruim de sua primeira vinda à cidade é um dos objetivos. “Queremos mostrar o que poderia representar a mentalidade do brasileiro: pessoas com dignidade, que são tranquilas e educadas”, defende. O turismólogo Alberto Viana lembra que o abandono das atividades comerciais usuais dos moradores para a dedicação exclusiva ao turismo não é benéfico para a comunidade. “O turismo é sazonal e deve ser complementar à atividade principal”, afirma Viana. “Nosso objetivo é de não transformar os lugares que a gente vai, queremos que continuem independentes”, defende Simonet.

O turista volta, mas não pelos pontos turísticos e sim pelas relações que constrói Mônica Santana

A cada parada, o guia explora as histórias não oficiais de ruas e vielas da cidade

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Caíque Bouzas/Labfoto © 2015

Matheus Buranelli/Labfoto © 2015

CAMPO MINADO Ao caminhar pelas ruas do Calafate, pelas casas em ruínas no Centro Histórico ou pelas escadarias da Gamboa, a impressão varia de uma normalidade vista pela comunidade familiarizada com o turismo ao estranhamento, como é notável pelos olhares dos locais durante um tour do coletivo SFWT. A sensação se explica pela delimitação e divisão do espaço na qual se insere Salvador. Os cones de trânsito no final da Praça do Pelourinho indicam o fim dos roteiros acompanhados de uma viatura de polícia. É lá também onde terminam as lojas e cartões postais convencionais. “Aqui não devemos transpassar”, aponta Pedro de Abreu. Acima, a casa de Dona Magdalena, ponto de partida do tour no Calafate. À direita, Pedro de Abreu, que começou a explorar a cidade pelo Dois de Julho, hoje guia os visitantes por partes escondidas do Centro Histórico

Apesar disso, desde o início dos tours, em agosto de 2013, Abreu conta que nunca vivenciou uma situação de risco ou violência ao ultrapassar o limite dos cones. Da mesma forma, em suas visitas guiadas à Gamboa, Anne Simonet diz que os estigmas negativos relacionados ao local não atrapalham o trabalho. “Não queremos ficar olhando o tráfico, nem a pobreza das pessoas, pois o local é cheio de cultura interessante”, garante. A aparente sensação de insegurança é um dos aspectos apontados por Mônica Santana quando explica o desconhecimento dos próprios moradores da capital sobre as ruas e os bairros periféricos. “O soteropolitano precisa ocupar a cidade. Salvador é maravilhosa, mas há resistência à mobilidade”, diz. Para um lugar em que a vivência diária é um desafio, Santana considera que as possibilidades de exploração são muitas. E tanto quanto turistas, habitantes podem ser os exploradores da própria cidade.

Matheus Buranelli/Labfoto © 2015

Eunice Souza, 41, moradora do Calafate, recebe sem aviso os turistas em sua casa

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SELO FRAUDE DE QUALIDADE Selo Fraude vai às ruas descobrir o que é que a baiana tem por um real

texto Laís Andrade fotos Caíque Bouzas/Labfoto ilustração Michelle Vivas

Nesta edição, o Selo Fraude de Qualidade foi às ruas em busca do melhor acarajé por um real. De bairro em bairro, tabuleiro em tabuleiro, buscamos o bolinho de feijão mais saboroso à venda por esse preço em Salvador.

ACARAJÉ DOS BAIANOS AV. JOANA ANGÉLICA

De origem africana, o acarajé é uma das receitas mais tradicionais da Bahia. Na língua iorubá é chamado de àkàrà, que significa bola de fogo, enquanto je significa comer. Comer uma bola de fogo hoje pode custar até oito vezes mais nos pontos tradicionais e turísticos da cidade. Quando o Real foi implantado, em 1994, com uma notinha verde era possível comprar uma cerveja ou 1,8 litros de gasolina. Em Salvador esse valor era equivalente a quase três passagens de ônibus (35 centavos, cada). Hoje entre as poucas coisas que podemos comprar com um conto estão os acarajés, geralmente encontrados em tamanho mini e com pontos de venda localizados em bairros populares e pouco turísticos. Para indicar onde comer o melhor acarajé com uma única moeda de borda dourada, foram avaliados o sabor, o tamanho e a variedade de acompanhamentos de uma dezena de estabelecimentos de venda.

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Por volta das 14h na av. Joana Angélica, os primos Daniel e Alisson começam a montar o tabuleiro que permanece atrás do ponto de ônibus em frente a Praça Carneiro Ribeiro até às 19:30. O acarajé de tamanho pequeno é servido com vatapá, salada e pimenta. Para acrescentar camarão é cobrado mais um real. Macio e gostoso, é ideal para quem tem pouca fome e não se importa com a crocância do bolinho. O local oferece alguns banquinhos e o abará sai pelo mesmo preço. Com mais um real é possível comprar um refrigerante de 250mL.


ACARAJÉ DA EVA ENGENHO VELHO DE BROTAS

ACARAJÉ DA TIA DIRA SETE PORTAS

Próximo ao Solar Boa Vista, no Engenho Velho de Brotas, o tabuleiro da Eva faz fila durante a noite. Enquanto os clientes esperam, Eva serve e seu marido frita os bolinhos. Apesar de pequeno, o acarajé ganha disparado no quesito crocância e o casal conquista os clientes pela simpatia. Para acompanhar, uma latinha de refrigerante geladíssima saí por mais dois reais.

No canteiro central da av. Heitor Dias, em frente a Cesta do Povo, o acarajé preparado pela Tia Dira é vendido por sua sobrinha. Apesar do tamanho pequeno, como da maioria dos acarajés de um real, o tabuleiro destaca-se pelo delicioso vatapá. Lá é possível comprar o refrigerante por também um real. Com o troco do buzu dá para fazer o lanche completo.

ACARAJÉ DA VÂNIA LARGO DO TAMARINEIRO Entre os bairros da Caixa D’água, Pau Miúdo e IAPI, o acarajé da Vânia se destaca. Crocante e gostoso, o bolinho menor que a palma da mão pode ser comido com caruru, vatapá, pimenta e salada. Por mais 50 centavos a baiana adiciona uma porção razoável de camarão. Infelizmente, para tirar o dendê da garganta, você vai precisar comprar a bebida em outro estabelecimento. Também não há onde sentar no local, o tabuleiro ocupa o passeio e o cliente divide o espaço com os carros na pista, enquanto espera o bolinho fritar.

ACARAJÉ DA LÚ LIBERDADE Ao descer a Estrada da Liberdade, após o Plano Inclinado, há uma sequência de três tabuleiros. O acarajé da Lú, classificado com cinco estrelas, é grande e redondo, uma verdadeira bola de fogo que forma fila a partir das 16h. No tabuleiro também é vendido por um real o abará, mas para adicionar camarão o cliente deve desembolsar o dobro do valor. Localizado entre dois outros acarajés do mesmo preço, o bolinho da Lú se diferencia do primeiro pelo tamanho e do seguinte pelo sabor.

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Decifraudando a cidade Os cenários soteropolitanos de Cláudio Marques e Marília Hughes texto Marco Antônio Correia e Paula Holanda fotos Lara Perl/Labfoto

Codiretores de seis curtas e um longa, Cláudio Marques e Marília Hughes são referência quando se trata da nova geração de cineastas da Bahia. Marília Hughes estudava Psicologia na Universidade Federal da Bahia (UFBA) quando produziu “Loná de Asfalto” (2002) e “Pelores” (2004), seus primeiros trabalhos audiovisuais. Cláudio Marques participou da idealização da Sala Walter da Silveira e revitalizou em 2008 o Cine Guarani, atual Espaço Itaú Glauber Rocha. Representantes do Brasil em Cannes com “Depois da Chuva” (2013), filme que se passa em 1984, o casal demonstra um forte laço com a história de Salvador. O QUE VOCÊS PENSAM SOBRE A ESTÉTICA DA CIDADE? Marília: Acho péssima a nova estética proposta, que destrói o antigo. Ouvi falar que vão mudar as calçadas de pedra do Santo Antônio para cimento e granito. O Mercado do Peixe, reformado recentemente, foi destruído quatro anos depois. Não se debate o projeto. O resultado, na maioria das vezes, não é o que queremos, muito menos o que propõem. Vi uma foto linda da antiga Praça da Sé, é incrível como o senso estético era mais interessante. Cláudio: Centro Histórico, Barra, Ribeira, Subúrbio e Rio Vermelho eram os bairros com os quais mais me identificava. Já destruíram a Barra, vão destruir o Rio Vermelho e o Centro Histórico está em ruínas. O Centro foi considerado patrimônio da humanidade em 1986 para incentivar seu cuidado, mas não se faz nada por ele há três décadas. Escondem rios, cortam árvores, colocam cada vez mais concreto, destroem a cidade. A graciosidade de Salvador está se perdendo.

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COMO MORADORES DE SANTO ANTÔNIO, COMO É A RELAÇÃO DE VOCÊS COM O BAIRRO? Cláudio: Comecei a vir ao Centro por conta de um grupo anarquista chamado Inimigos do Rei. Era um local abominado pela classe média, minha família ficava horrorizada, meus amigos não acreditavam que eu vinha para cá. O Santo Antônio sempre me pareceu um dos bairros mais interessantes da cidade. Ele tem uma ligação com o passado com pessoas que estão pensando no futuro. Salvador é uma cidade pobre, é inaceitável a ideia de viver em um lugar e construir uma bolha. Marília: Eu morava no Jardim de Alah. Minha rua não tinha nada além de prédios, era deserta. Chegava em casa à noite e morria de medo. Quando me mudei para o Dois de Julho, redescobri Salvador. O bairro é uma cidade dentro da cidade, tem tudo ali, faz tudo a pé. Foi lá que comecei a gostar de morar em Salvador. O Santo Antônio me lembra o Dois de Julho nesse aspecto, tem museu, teatro, cinema. É um bairro tranquilo.

COMO FOI O PROCESSO DE ESCOLHA DOS CENÁRIOS DE “DEPOIS DA CHUVA”? Marília: Tem quatro espaços fundamentais para o enredo. A escola, a casa onde o protagonista vive, o casarão onde convive com seus amigos e, por fim, a fábrica que aparece no desfecho da narrativa. O filme tem como

base as vivências de Cláudio. Nesse período, ele vivenciou muito o Centro. Escolhemos filmar a escola no Colégio Central por ser bonito e histórico. Foi onde Glauber Rocha estudou, onde vários movimentos culturais aconteceram. O Centro Histórico foi local de formação do protagonista, então decidimos usar a Casa Preta, no Dois de Julho, para as cenas do casarão. Cláudio: Nos anos 80, o Pelourinho era mais habitado e tinha o aspecto decadente. As partes que filmamos tentam remeter a esse Pelourinho, um ambiente ancestral, que pode ser usado como cenário para os séculos 16 e 17. Evitamos cartões-postais e, quando filmamos um possível cartão-postal, buscamos não retratar os signos já saturados que Salvador carrega.

COMO SE ARTICULA A PRODUÇÃO DE AUDIOVISUAL EM SALVADOR? Marília: Vejo muita gente interessada em audiovisual que acaba na publicidade, na campanha política. Temos um cenário forte de audiovisual, mas não de cinema. Nos esforçamos para que isso mude. Se manter como cineasta não é só escolha, é também militância. Quem não faz coloca a culpa por fora, no estado ou porque precisa de 100, 200 mil para fazer um curta. Quando se tem engajamento, fome, encontra-se modos de se fazer um filme. Sinto falta de pessoas com fome de cinema.

Salvador tem um cenário forte de audiovisual, mas não de cinema Marília Hughes

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A Natureza de Calangos Entre tintas e imaginação: o Calangos detrás dos muros da cidade texto Bianca Bomfim e Marco Antônio Correa fotos de Éder Milena Abreu/Labfoto fotos dos grafites Lara Perl/Labfoto

Em frente ao Mercado Souza na Vila Canária, local do encontro, estava o personagem do imaginário soteropolitano, Calangos. Moreno descamisado e descalço, de estatura mediana e dreads que vão até o final de suas costas. Suas diversas pulseiras chamam atenção, assim como as tatuagens. Sem demora ele nos guia por ruas estreitas até o seu atelier. No percurso os nossos olhos encontravam suas obras pelas paredes e registravam os sorrisos e cumprimento das pessoas que habitam o seu dia a dia desde que nasceu. Nininho. Muniz. Calangos. Eder. O primeiro é o menino que desenhava palitinhos, escrevia cartas de amor, era coroinha e sonhava ser biólogo. O segundo, adolescente temperamental e decidido. O terceiro, e mais conhecido, é o grafiteiro profissional, desenvol-

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vedor de uma estética artística e cada vez mais reconhecido no Brasil e no mundo. O último é um pai coruja, que cozinha como hobby e segue filosofias do hinduísmo e xamanismo. Os quatro são partes de um só Eder, de uma história que se escreve por muros e telas há 15 anos, em Salvador, Roma ou Nova York.

NININHO Véspera de São João, dia 23 de junho de 1982, nascia Eder Silva Muniz. Desde cedo, o contato com a religião era forte. De família católica, foi coroinha e estudou em escola evangélica e espírita. Hoje, prefere a versão pagã do seu nascimento, e explica que o dia representa também o Festival Pagão da Colheita.


Sensível desde menino, tem empatia por animais e abomina presenciar maus-tratos. “Ele segurava sapo com a mão e colocava na camisa, não deixava matar cobras”, conta Dona Luisa, 49, sua tia materna. “Enquanto as pessoas liam romance, eu estava no livro de Biologia”, lembra Eder que, apesar de empolgado, desistiu da carreira por acreditar que teria que dissecar animais vivos. Mais tarde, transformou esse afeto e conhecimento nas características mais presentes no seu trabalho. Filho de duas mães, a biológica e a tia materna, encontrou nelas sua primeira inspiração artística. “Minha tia pintava os panos de prato, as toalhas de mesa e minha mãe desenhava”. Nos seus primeiros seis anos era filho único e aprendeu a aproveitar sua própria companhia, por brincar sozinho e descobrir o prazer pelo desenho, até a chegada dos seus dois irmãos.

MUNIZ Aos 15 anos, pixou a escola evangélica e igreja que frequentava por obrigação e, como consequência, foi expulso de ambas. “Você foi expulso, agora irá buscar onde estudar”, lembra Dona Maria, 50, sua mãe biológica. Dessa forma, teve que estudar longe da Vila Canária, onde sempre morou. No colégio público Paulo Brandão, em Cajazeiras, teve contato com novas pessoas e gangues. Ele entendeu aos poucos o contexto da pixação hip-hop dos anos 1990. Também conheceu Marcelo, O Verme, que com mais idade e experiência no pixo, logo se tornou seu guia e grande amigo, levando-o para grafitar na rua pela primeira vez.

CALANGOS Sob o nome Calangos de Rua, começou a trabalhar junto com O Verme em 2000 nesse movimento contracultural formado com o objetivo de reafirmar a cultura local frente à cultura hip-hop. Os dois promoviam eventos de grafite, música e teatro em comunidades da cidade. “Não era uma gang, era um movimento para unir amigos através do fomento cultural no bairro, valorizando de forma orgânica o que era representado”, explica. Durante os eventos, grafitar não era sua única função, quando necessário, desempenhava também os papéis de fotógrafo, produtor e assessor. Em 2006, conheceu a americana Carly Fox, recém-formada em urbanismo em Nova York, que visitava o Brasil pela primeira vez por causa do projeto da prefeitura, Salvador Grafita. Quando ela precisou retornar, foram juntos para Nova York. Durante os quatro anos que morou na cidade, palestrou em universidades e teve acesso a novas bibliotecas onde adquiriu novos conhecimentos. Pesquisou, estudou, se aperfeiçoou e trouxe outras técnicas para o seu repertório. Teve oportunidade de grafitar em muros de NY, Roma e Sicília, após esse processo de aprendizado, recorda: “Voltei para o Brasil mais forte, sabendo o que queria”. Durante a viagem, o movimento Calangos de Rua perdeu força, mas sua amizade com O Verme se mantem até hoje. Passou então a fazer parte da “gang de um homem só” e ser reconhecido como Calangos. Dentro desse novo contexto escreveu em

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se morresse hoje, morreria feliz, não ia ter essa culpa do que não fiz

2009, com Carly, o livro “Riscando Nossas Almas nas Paredes”, uma compilação de 38 entrevistas bilíngues, com biografias de grafiteiros do Brasil.

EDER Quando é apenas Eder, gosta de estar em casa na companhia da família e dos amigos. “O lugar não importa, mas as pessoas com quem você compartilha o momento”. Opondo-se ao seu lado caseiro, gosta de se colocar em situações de risco e busca a adrenalina na proximidade com o novo. Defende que viajar é não estar acomodado e apegado a um só lugar, além de ser uma forma de conectar-se com outros espaços e pessoas. Devido a sua relação com a natureza, prefere viajar para lugares que estimulam essa conexão. Dessa forma, de dois em dois meses, sai em busca do que diz ser sua renovação: “Se for ter contato com a natureza melhor ainda, porque este é meu templo de meditação, minha cura e renovação que me inspira”. Outro ambiente que lhe traz boas sensações e experiências é a cozinha. Frequentador assíduo da cozinha de sua tia desde pequeno, em meio as risadas e segredos, desenvolveu suas habilidades culinárias observando-a: “a cozinha é um lugar particular nosso”, conta Dona Luiza. “Lá podemos fugir dos ouvidos dos outros, conversamos de tudo, sem preconceitos”, acrescenta ele. Uma de suas maiores alegrias é sua filha Zaya, 5, que mora com a mãe Carly em Nova York. Desde os dois anos sai para pintar junto com pai, e, apesar da distância e saudade, tenta visitá-la algumas vezes por ano e acompanha seu crescimento com a ajuda da tecnologia. Amoroso, mostra a foto da filha enquanto conta que, na sua ausência, ela reconhece suas obras na cidade e aponta com o dedinho: “Papai! Papai!”. Nos seus 33 anos de vida, não é o tipo de pessoa que reclama das coisas e da falta delas. Diz estar satisfeito com o que tem e não ter arrependimentos, além de perceber que o seu trabalho o faz questionar sobre seu papel na sociedade. “Se morresse hoje, morreria feliz. Não teria essa culpa

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do que não fiz, sinceramente, falo de coração”. Quando reflete sobre sua existência e permanência no mundo, conclui: “me cuido muito bem em relação a saúde, tenho preocupação com alimentação mas não espero viver por muito tempo, nos meus 50 está bom. É muita pretensão nossa achar que a gente tem esse direito de viver tudo que deveria viver”.


Rock’n’interior Profissionais comentam sobre o cenário do rock independente no interior baiano texto Lara Miranda e Paula Holanda

Há mais de três décadas, o rock ’n’ roll, sobretudo subgêneros como o hardcore e o heavy metal, está presente no interior da Bahia. Desde então, em busca de superar dificuldades como a falta de apoio e de locais para ensaios e eventos, profissionais e admiradores articulam-se para fomentar o rock em seus municípios, através da formação de coletivos culturais e de incentivo do público. Para apresentar a cena, músicos e produtores opinam sobre o gênero e trazem diferentes olhares quanto ao cenário.

Foto: Marilton Trabuco/ Varal do Rock


O QUE É SER MEMBRO DE UMA BANDA INDEPENDENTE?

É trabalhar a semana toda, chegar em casa morto de cansaço e ainda assim sentir vontade de tocar. Hilmar Oliveira, 27, vocalista e guitarrista da banda Monocromático, de Teofilândia

QUAIS AS DIFERENÇAS ENTRE

OS PÚBLICOS DO INTERIOR E DA CAPITAL?

QUAL O MAIOR DESAFIO EN-

FRENTADO NA PRODUÇÃO DE ROCK INDEPENDENTE NO INTERIOR BAIANO?

O público da capital é contemplativo, o do interior é participativo. A galera de Salvador é mais passiva, em outras cidades as pessoas dançam mais, entram na festa. Jorge King Cobra, 46, músico e produtor, de Valente

No interior, o carinho é outro. O público é sedento, muitas vezes carente de acesso ao que é produzido. Ele nos recebe de coração aberto. Pablues, 40, vocalista da banda Clube de Patifes, de Feira de Santana

A rivalidade. Quando todos perceberem que temos o mesmo objetivo, o cenário terá força para crescer. A luta de egos é o câncer do rock independente. Faustino Menezes, 19, vocalista da banda Elefante Grego, de Camaçari

A monotonia nos eventos. As atrações não podem ser as mesmas. Há poucas opções de casas de show. O público é assíduo e acaba enjoando das mesmas coisas. Nicole Oliveira, 17, do

É ter dedicação ao seu trabalho, fazer o que faz da melhor maneira possível dentro das suas limitações. Felipe Costa, 28, baterista da banda Inventura, de Alagoinhas

É compor, gravar, correr atrás. Não é só tocar cinco músicas da década de 1990 em um show. Há uma parte trabalhosa que deve ser feita. Armando Rafael, 25, vocalista e guitar-

O público do interior é mais atencioso, quer comprar uma camiseta, pegar a palheta do artista, apertar a mão do cara e dizer que o show dele foi massa. Big Bross, 44,

rista da banda Sanitário Sexy, de Juazeiro

produtor musical soteropolitano

Fotos: Mallu Silva/Labfoto © 2015

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coletivo Nalata, de Alagoinhas

No interior é mais difícil conseguir bons equipamentos ou locais para ensaio. Geralmente, as bandas ensaiam na casa de alguém ou dividem um centro cultural, como em Valente. King Cobra


A SONORIDADE DO INTERIOR É DIFERENTE DA CAPITAL?

O QUE INCENTIVA O CRESCI-

MENTO DO CENÁRIO DE ROCK INDEPENDENTE DO INTERIOR?

A palavra-chave no cenário independente é parceria. Quando faço intercâmbio com uma banda bacana, trocamos informações sobre equipamento e lugares visitados, para nos inspirar e melhorar. Pablues Acho maravilhoso nessa geração a capacidade de união por um propósito. É muito ‘faça você mesmo’, isso vem do grunge, punk, e ainda corre nas veias do rock. Zé Neto, 18,

No interior, A galera nos recebe de coração aberto pablues

vocalista da Limbo de Alagoinhas

Sim. No interior, não seguem tendências de mercado. Fazem o rock de Juazeiro, Itabuna, Camaçari. Nota-se influências de Strokes, um pouco de The Smiths, mas são bandas autênticas. Big Bross

Não. O que se produz no interior é parecido com a capital. A linguagem musical é bem difundida, o homem contemporâneo é semelhante em todo lugar. Paulo Dantas,

Trabalho. Para atingir o ápice, tem que se endividar no banco, colocar amplificador nas costas e pedir dinheiro emprestado para gravar EP. Paulo Roberto D’Errico, 42, organizador do

30, guitarrista da Inventura, de Alagoinhas

Dia Municipal do Rock de Camaçari

Na foto da página anterior, Siddhartha Gautama, vocalista e guitarrista da banda Calafrio, de Feira de Santana. À esquerda, Lucas Costa, vocalista e baixista da banda Inventura, de Alagoinhas. Abaixo, Selo #Aquitemrockbaiano, trinca formada pelos selos Brechó Discos, BigBross Records (SSA), São Rock Discos

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terra AUTOPSICOGRAFIA O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração

Reler um trabalho artístico pode ser como brincar de telefone sem fio. Arte sussurrada ao pé do ouvido, passada adiante para virar criatividade em outra voz. As obras semeiam os olhos com diferentes interpretações de si mesmas e germinam em novas formas. A partir de sua interpretação da poesia Autopsicografia, uma artista criou uma ilustração que serviu de inspiração para a obra seguinte. Cada artista do nosso jogo só teve acesso ao trabalho da artista anterior e sua produção logo seguiu para a próxima polinizadora. Nessa brincadeira, como a poesia havia previsto, duas pessoas nunca contam a mesma história do mesmo jeito e os versos de Pessoa entretêm a razão e se transformam a partir da linguagem e da percepção de novas artistas.

POESIA FERTILIZADORA Autopsicografia Fernando Pessoa

SEMEADORAS ilustração Luana Vellame mandala Juliana Pina tatuagem Gabriella Brito pintura Vitória Croda fotografia Juh Almeida poesia Cecília Guimarães

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arte

texto, curadoria e ilustrações Mallu Silva e Matheus Buranelli

A PARTE QUE CABE A mão cor de cobre, cobre a face O coração cobre o cobre da mão que cobre a face nas linhas que se inscrevem na pele da mulher de haste de flor no punho Gira sol Gira mundo Que raios saem dela a todo instante Os elementos e as cores primárias O cabelo sol-to de sol recém-nascido Cachos no amanhecer do poema Claros Como as brechas dos dedos Que raios não a partam Que raios não a partam tão cedo.

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APOIO:

www.revistafraude.com.br 48

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Revista Fraude 13  

Revista de Jornalismo Cultural de Salvador/BA, do grupo Petcom/Ufba

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