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Ano 10 - n°11 - Salvador/Bahia - 2013

FRAUDE irmãs massena

TRANS FOR MISTAS arte nos palcos, profissão na vida um olhar crítico ao naturismo e seus contextos

as gêmeas que conquistaram Nova York

cada bairro tem um doido; cada doido, uma história

composição musical é possível conciliar o trabalho comercial e o autoral?


editorial

F RAUDE 11

Se estas são as primeiras páginas que você vê da Fraude #11, ainda não pôde perceber, mas temos uma grande surpresa. Nosso leitor assíduo notará logo a diferença ao virar a próxima página. Já para os novos leitores, explicamos: cores! Comemorando 10 anos de existência da revista, deixamos todas as páginas desta edição coloridas. E nada melhor do que fraudar o Festival das Cores para representar nossa transformação, afinal, não só a revista está colorida, mas todos nós, inclusive a Macaquicha! As novidades não param por aí. Não nos contentamos apenas em colorir a revista para deixá-la ainda mais bonita, como também reformulamos todo o projeto gráfico. A Fraude ficou contemporânea e mais clean, abandonando o padrão de três colunas por página. As matérias continuam se completando no site da Fraude e estamos nos atualizando: nesta edição, é possível acessar o material multimídia através de um QR Code que lhe levará direto a ele. Como em toda edição, temos rostos conhecidos e outros novos entre os repórteres da Fraude. Com eles, novos temas, novas visões e, como não poderiam faltar, novas fraudes! Trazemos para você os desejos e as dificuldades que envolvem a profissão de transformista, discutimos também temas como o desaparecimento das categorias na sexualidade, a produção comercial e autoral de compositores, o naturismo e a produção de documentários autobiográficos. Além disso, você pode encontrar, nesta Fraude, histórias de alguns “doidos” de Salvador, uma entrevista com as modelos Suzana e Suzane Massena e perfis da Ladeira da Montanha e da profissão de curador. Criamos uma nova seção, além do já conhecido Selo Fraude de Qualidade, a Decifraudando a cidade, que traz Salvador na voz do sambista Riachão; e ouvimos sua opinião para uma matéria sobre o sono (ou a falta dele). Só podemos pedir a você, leitor, que venha se colorir com a gente!


35 Os altos e baixos da Ladeira da Montanha

6 Donos da rua, doidos do bairro

Conheça histórias e curiosidades sobre os doidos de bairro de Salvador

10 Entre notas e cifrões

O mercado de composição musical na Bahia

14 Além da nudez total

Questionando o naturismo: valores e desafios do movimento

18 Passarela de mão dupla

Entrevista com as irmãs Massena: das ruas da Federação para as passarelas de Nova York

22 Bonecas de montar

O universo dos profissionais de transformismo

28 Despertando e construindo sentidos

Um passeio do passado memorável à atualidade degradada da Ladeira da Montanha

38 Selo Fraude de Qualidade

Selo Fraude escolhe a melhor cachaçaria de Salvador

40 Desejos sem definições

A sexualidade pode ser definida em categorias? Lorena Vinturini /Labfoto © 2013

43 O que te faz perder o sono?

O que os leitores da fraude fazem quando estão com insônia?

44 Decifraudando a cidade

Riachão solta a voz sobre Salvador

46 Gritos escritos

Frases perdidas e resquícios das manifestações de junho nas paredes soteropolitanas

Um breve percurso sobre o ofício do curador

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32 Olhar para dentro

Uma viagem pelo universo dos documentários autobiográficos

Lucas Seixas/Labfoto © 2013

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Lara Perl/Labfoto © 2013

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Agnes Cajaiba /Labfoto © 2013

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quem faz a fraude Tutor Petcom: Fabio Sadao Nakagawa Editora-geral: Renata Farias Editora de Fotografia: Lara Perl Editora Multimídia: Hury Ahmadi Editora do Site da Fraude: Hury Ahmadi Diretora de Arte: Taylla de Paula Diagramação: Camila Hita de Aguiar, Hury Ahmadi, Lara Perl, Taylla de Paula e Tiago Sousa. Assessoria de Comunicação: Amenar Costa, Diego Yu, Luciano Marins, Renata Farias, Taylla de Paula, Tiago Sousa e Yne Manuella Cardoso. Produção do Lançamento: Camila Hita de Aguiar, Carolina Leal, Hury Ahmadi, Lucas Amado Gama, Nathália Luna, Tamiles Alves e Ygor Souza. Repórteres: Camila Hita de Aguiar, Carolina Leal, Hury Ahmadi, Lara Perl, Lucas Amado Gama, Luciano Marins, Nathália Luna, Renata Farias, Tamiles Alves, Taylla de Paula, Tiago Sousa e Yne Manuella Cardoso. Foto de Capa: Agnes Cajaiba/Labfoto Foto do Editorial: Wendell Wagner/Labfoto

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agradecimentos À Pró-Reitoria de Extensão e à direção da Faculdade de Comunicação da Ufba pela ajuda com as despesas da Fraude. A Luciana Fernandes Souza pela auxílio prestado ao Petcom. A Fátima Aparecida dos Santos pelo direcionamento e auxílio com o novo projeto gráfico. A Chico Brasil pelas ilustrações feitas para a revista e reformulação da Macaquicha para esta edição. Ao Labfoto/Ufba pela parceria para realização das fotografias da revista. A Fabrina Macedo e Gabriela Gomes pela assistência na fotografia do editorial.

Tayse Argôlo /Labfoto © 2013

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Leonardo Pastor/Labfoto © 2013

A revista Fraude é uma publicação do Programa de Educação Tutorial da Faculdade de Comunicação (Petcom) da Universidade Federal da Bahia. O PET é um programa mantido pela Secretaria de Ensino Superior do Ministério da Educação, e foi por meio de um edital da Proext que foi paga a impressão da revista. As opiniões expressas neste veículo são de inteira responsabilidade dos seus autores. Ano 10, número 11, nov. de 2013 Salvador - Bahia Tiragem: 2000 exemplares End.: Rua Barão de Geremoabo, s/n, Ondina, Salvador, BA - Brasil. Tel.: 3283-6186 www.petcom.ufba.br petcom@ufba.br www.revistafraude.com.br


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onos da rua

OIDOS do bairro Hist贸rias, miudezas e curiosidades sobre algumas figuras misteriosas que vivem na loucura das ruas de Salvador texto e fotos Lara Perl/Labfoto

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Samuca já é uma lenda urbana conhecida na cidade. Com aqueles olhos cansados que perambulam pelas ruas de Ondina, sempre acompanhados por um paletó elegante, já virou uma entidade do bairro, assim como as gordinhas que ficam na orla e assistem ao final de todo Carnaval. Samuca toma café todos os dias na delicatessen da Avenida Ademar de Barros, onde é recebido como um velho cliente que nem precisa pagar pelo pão e café com leite de todas as manhãs. “Não seria justo cobrar de Samuca, não é mesmo?”, comenta o funcionário que entrega em mãos a sua refeição diariamente, recebendo como resposta apenas um aceno cordial com a cabeça. O curioso é que Samuca nunca fala; parece que algo o fez desistir. O gerente da delicatessen afirma que Samuca está na rua há mais de quarenta anos e ninguém sabe ao certo o seu passado ou origem. Mas as apostas sobre a origem da loucura de Samuca são muitas. Os porteiros dos prédios residenciais da Avenida Sabino Silva são os que mais apostam: alguns dizem que os seus pais foram assassinados na sua frente, outros dizem que ele viu a mãe sendo estuprada, outros dizem que ele era um menino rico que se envolveu com drogas e ficou assim. Essas histórias vão sendo transmitidas dentro dos prédios, compartilhadas pelos moradores em conversas de elevador. Enquanto isso, Samuca permanece caminhando pelas ruas de Ondina. Quando chove, ele está próximo ao mar, deixa molhar-se e olha para um horizonte mais distante do que a próxima pessoa que aparece para lhe dar uns trocados ou um cigarro. Aliás, Samuca só aceita cigarro se não tiver nada em mãos: o paletó que veste é a sua dignidade.


A moça termina as compras no supermercado e o doido coloca nas sacolas plásticas. O doido pega o leite e coloca no saco. A moça olha para o leite, olha para o saco. O doido pega o feijão e coloca no saco. A moça olha para o feijão, olha para o saco. O doido para e diz: “Tá olhando o que, moça? Acha que eu não sei fazer, é? Depois dizem que eu que sou doido...” O doido do supermercado chamase Ivan. Do lado de fora, tem outro doido, chamado Alessandro, mais conhecido como Gafanhoto. Ivan diz que conhece Gafanhoto, mas nunca conversaram. Ivan já deu uns trocados para Gafanhoto, quando outra moça do supermercado ofereceu cinco reais pelo serviço. Gafanhoto ganha trocados vendendo gafanhotos feitos por ele com a palha que consegue na Praça Igaratinga, quando deixam. Ele tem o rosto molhado, os olhos também. Seu olhar é sempre distante. Usa uma camisa listrada, tem unhas pretas, cabelo “rasta”, recém-cortado pela polícia. “Sou de Paulo Afonso e vim parar aqui de carona. Parei pra ficar um pouco num lugar só”, conta, quando eu pergunto como ele veio parar na Pituba. Gafanhoto mora nas ruas do bairro e tenta vender seus gafanhotos por ali mesmo. “Às vezes, eles não deixam, para não incomodar as pessoas; mas eu continuo tentando”. Quando pede dinheiro, Alessandro toma o mesmo cuidado para não incomodar; jamais bate na janela dos carros, fica apenas na frente deles, olhando, sem piscar. Eu pergunto: “você tem família por aqui?” e ele, sério, responde: “minha família são vocês”.

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DE DOIDO, TODO MUNDO TEM UM POUCO Salvador é uma cidade que transborda loucura: caos e tranquilidade convivem lado a lado. Andando pelas ruas, ouvindo os sons da cidade, esperando o ônibus (ou mesmo dentro dele), passando por certos lugares, é possível perceber. Principalmente, quando esses lugares se misturam com pessoas. Pessoas como a Mulher de Roxo, que virou lenda na cidade: dizem que ela enlouqueceu depois de uma desilusão amorosa e passou a frequentar a Rua Chile todos os dias. Com os pés descalços, bata roxa e crucifixo, ela falava sozinha e pedia dinheiro. A Mulher de Roxo sumiu, mas é certo que dava vida ao comércio da Rua Chile. Assim como ela, muitas outras figuras estão presentes nas passagens, padarias, praças, sinaleiras e nos locais mais cotidianos de Salvador. Todo bairro tem seu “doido”. Mas quem são eles? A palavra “doido” é apenas a forma como são chamados por pessoas que estão imersas em um outro tipo de loucura. A loucura do dia-a-dia, da rotina, do trabalho, da correria nem sempre sabe perceber e aceitar o estranho, diferente, inusitado. Mas cada “doido” um é um indivíduo, com o seu universo próprio, suas relações com os espaços e pessoas que convivem. Quais são as suas histórias? O que eles têm a dizer? Datas, nomes completos e fatos não importam para as fontes dessa matéria; ou melhor, para a inspiração desse ensaio. São apenas observações, reflexões, tentativas de aproximação a um mundo desconhecido que, como diria Foucault, amedronta, mas fascina e, sobretudo, atrai o nosso olhar. “Ele enlouqueceu de amor!” “Ele enlouqueceu de tanto trabalhar!” Estamos sempre em busca de explicações racionais para a loucura. No entanto, Nietzsche já dizia: “Se minhas loucuras tivessem explicações, não seriam loucuras”. A verdade é que a linha entre loucura e sanidade pode ser mais tênue do que parece. Quando Erasmo de Rotterdam dá voz à loucura, ela diz: “só eu tenho o poder de alegrar aos deuses e aos homens”. Será que não estamos enlouquecendo pela falta dela?


LEMBRANÇA DO SENHOR DO BONFIM A minha maior lembrança do Senhor do Bonfim, sem dúvidas, foi ter conhecido Carioca. Aliás, todos deveriam trocar as fitinhas por uma boa conversa com essa figura, que já gosta de um “tralalá”. Carioca é artista, personagem, usa All Star, gravata estilizada, peruca com dreads e o velho paletó preto. Ele fica sempre na Baixa do Bonfim. Desenha, fuma, dorme, conversa. Pinta quadros oníricos e sua marca são as linhas sinuosas em preto e branco, cravadas, com palitos de churrasco, em tábuas de madeira que encontra no lixo. Seu “tema” é a velocidade da luz e os quatro elementos da natureza. Todos os quadros têm a mesma assinatura, que também está na gravata, na camisa e em tudo que desenha. Quando pergunto o que significa, ele diz, com orgulho: “esse é o brasão da minha empresa, herdei do meu pai, que herdou do meu avô; é genético, só a minha família consegue olhar diretamente para o sol”. Carioca é hindu, mas também acredita no candomblé e nos santos da Igreja. Fala de política, apoia o PT e já teve 400 reais em moeda roubados pela polícia. Ele junta trocados vendendo quadros para gringos, que pagam “one hundred, two hundred”, segundo as suas palavras. Carioca veio do Rio para Salvador por causa de uma promessa que fez há mais de 20 anos e acabou ficando por aqui. Lava suas roupas a cada dois dias e guarda chaves que as pessoas deixam cair no chão. Ele espera que elas voltem na praça para procurá-las.

Se minhas loucuras tivessem explicações, não seriam loucuras Nietzsche

O HOMEM DA AVENIDA ARAÚJO PINHO Quem frequenta o bairro do Canela sabe quem é Monga. Negro, cabelos quase grisalhos, boca um pouco torta, mãos sujas, sempre girando uma barra de ferro, com olhos brilhantes. Ele fica na esquina da Avenida Araújo Pinho, em frente à Escola de Teatro da Ufba. Além de girar a barra de ferro, às vezes, também desenha no chão, fala sozinho, lê revistas de cabeça para baixo. O moço da barraca de revistas acha que ele era eletricista porque faz desenhos e gráficos simétricos. Todas as pessoas das barraquinhas ao redor concordam que ele é muito inteligente. Monga tem quarenta e poucos anos e fica naquela mesma esquina há mais de dez. Gira a barra de ferro, anda de um lado para o outro. Fazendo aquele movimento repetitivo, ele gira, gira, gira, gira ele. Anda de um lado para o outro. Desenha. Fuma. Virou inspiração para as aulas de improviso da Escola de Teatro e já foi tema de uma composição feita por estudantes da Escola de Música, também localizada ali perto. E a pergunta que todos querem saber é a mesma: por que ele gira aquela coisa sem parar? Monga me conta que veio pra cá numa missão e que gira aquela barra de ferro porque é arma de guerra. Quando pergunto se pretende continuar ali, ele me responde que essa é a sua casa, gosta daquele lugar e das pessoas, não pretende sair dali. Mas quando a conversa começa a fluir, ele interrompe: “Você vem aqui amanhã? Então conversamos amanhã!”, e a partir desse momento, não é mais possível invadir seu mundo.

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s e õ r f i Entre notas e c O debate sobre música autoral e comercial na carnavalesca Salvador texto Carolina Leal e Yne Manuella Cardoso

Desde a década de 1980, quando Luiz Caldas encantou a Praça Castro Alves com a canção Fricote, até hoje considerada um sucesso carnavalesco, cantamos inúmeras músicas por fevereiros afora sem imaginar que a mesma pessoa que compôs um grande sucesso da Axé Music possa ter criado também letra e melodia para um autêntico Rock’n roll, para um Samba ou uma canção da MPB, como é o caso de Luiz. A capacidade de produzir letras tão diferentes entre si é vista, muitas vezes, com desconfiança por parte do público, que tende a fazer uma distinção entre composição de música comercial e autoral. Enquanto a primeira seria desenvolvida para alcançar grandes vendagens e atingir um grupo de consumidores mais heterogêneo, a chamada música autoral teria como características principais a autenticidade e a segmentação de públicos. Não há consenso sobre o uso de ambos os termos. Alguns compositores rejeitam essa divisão e chegam até a questionar o uso da denominação “música comercial”

como aquela feita apenas para vender. “Minha música é comercial porque agrada muita gente. Se eu agrado, as pessoas podem pagar para ter aquilo. Comercial é qualquer coisa que gere interesse em alguém. Minha música é comercial e autoral”, afirma o cantor e compositor Luiz Caldas. O grande debate em relação à música comercial gira em torno de sua qualidade, ou melhor, da suposta ausência de qualidade. Termos como “empobrecimento das letras”, e “refrãos-chiclete” são comumente associados a essa produção, que, por visar atingir um grande número de pessoas, tende a priorizar as composições e melodias mais simplificadas. Mas são os próprios compositores – e não só o público e os críticos – que defendem a simplificação como uma estratégia necessária na conquista do grande público. “Para fazer sucesso massivo, precisa ser uma música mais simples, de tema mais simples. Assim, é mais fácil chegar ao público de massa”, afirma a cantora e compoLucas Seixas/Labfoto © 2013

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Anderson Cunha, idealizador do Grupo Sertanília, atualmente dedica-se exclusivamente ao seu trabalho autoral


DINHEIRO, ARTE E REINVENÇÃO

Lucas Seixas/Labfoto © 2013

sitora Eva Cavalcante, que possui um projeto autoral voltado para o Pop, mas compõe letras em diferentes ritmos, como o Arrocha, o Axé e o Forró.

A relação entre a arte e o dinheiro sempre gera debates acalorados, justamente pela crença socialmente partilhada de que a produção artística se legitima pela inspiração, sob influência única das subjetividades do artista. Inserir termos como lucro e venda nesse processo ainda é encarado como uma forma de despurificá-lo. Com os compositores, não seria diferente. O público ainda enxerga o ato de compor com uma visão romantizada, de uma criação puramente intimista e espontânea. A capacidade do artista de escrever letras para diferentes estilos musicais continua sendo vista como uma forma de ganhar mais dinheiro, e não como demonstração de um múltiplo talento. Para Eva, a questão financeira teve um papel decisivo na diversificação de seu trabalho como compositora. Ela tentou alcançar o sucesso construindo uma carreira voltada exclusivamente para o Pop, mas, depois de dois álbuns gravados, percebeu que não obtivera o êxito que desejara. A partir daí, precisou modificar toda a sua produção em busca do retorno

Para Alex Góes, compor é um ofício como outro qualquer. Ele reserva o tempo de suas manhãs, quando corre na orla da cidade, para pensar nas suas composições

É difícil desvincular produção criativa de um campo do mercado dentro dessa economia capitalista Jorge Cardoso

financeiro que necessitava, compondo não só canções do Pop, como também de outros estilos. O que, segundo Eva, acabou ajudando na sua reinvenção como artista. “Quando eu me abri para outros estilos e para outros mercados, eu descobri um prazer que eu não tinha antes com a música, ela ficou mais leve pra mim. Quando você começa a trabalhar como uma centopeia, financeiramente e artisticamente, isso vai retornando para você”. Para o professor e pesquisador Jorge Cardoso, que desenvolve estudos na área musical, é impossível desvincular o processo criativo do aspecto financeiro. Mercado e produção artística estariam intrinsecamente ligados, independente do segmento a que essa composição pertença. “O mercado influencia no trabalho de qualquer compositor em qualquer gênero musical. No contexto atual, é difícil desvincular produção criativa de um campo do mercado dentro dessa economia capitalista”.

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Patrícia Marins/Labfoto © 2013

Daniele Rodrigues/Labfoto © 2013

Para Babuca, músico em formação pela Escola de Música da UFBA e que possui um trabalho exclusivamente autoral voltado para o Chorinho e a Bossa Nova, a relação entre criação artística e dinheiro sofre uma forte influência de um terceiro elemento: o tempo. Segundo ele, esse outro fator ajuda decisivamente a determinar a complexidade das letras e melodias. “Hoje em dia existe muita pressa para tornar uma coisa vendável e isso interfere na qualidade do que se faz”.

A VITRINE DA MÚSICA BAIANA Em Salvador, a discussão sobre música autoral e comercial ganha dimensões ainda mais expressivas devido ao Carnaval. A maior festa popular do mundo requer, a cada edição, novas músicas para envolver os foliões. Essas novidades se juntarão aos chamados “clássicos carnavalescos”, músicas lançadas no início das décadas de 1980 e 1990, que continuam a ser cantadas mesmo com o passar dos anos, como “Prefixo de verão”, gravada pela Banda Mel e “Chame Gente”, de Moraes Moreira.

Babuca Grimaldi compõe em contato com a natureza de Terra Mirim e busca sempre introduzir algo novo para o público nas suas composições de MPB, Chorinho e Bossa Nova. Acima, a cantora e compositora Eva Cavalcante. Ela começou compondo apenas música Pop, mas diversificou o seu trabalho em busca de estabilidade financeira

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A grande mudança apontada pelos compositores é a redução no tempo de durabilidade das músicas, ou seja, o período em que ela é veiculada nos meios de comunicação e cantada durante shows e apresentações. Se antes uma música lançada em um Carnaval era cantada durante muitas edições posteriores, hoje ela sequer é lembrada no ano seguinte. “A ideia é fazer a música mais boba possível para que, no primeiro minuto, você já entenda, já goste e, na terceira tocada, já enjoe. Ela também se torna extremamente descartável porque, quando você vai esmiuçá-la,

MINHA MÚSICA É COMERCIAL PORQUE AGRADA MUITA GENTE LUIZ CALDAS


não tem harmonia, não tem melodia, não tem letra, não tem nada que a faça ficar”, afirma o cantor e compositor Alex Góes, que tem como composição de maior sucesso a música de Axé “Desejo de Amar” e possui um trabalho autoral voltado para o Pop.

O trio e o abadá são mais importantes. A música está lá no fim Anderson Cunha

Assim, ao mesmo tempo em que ganham dinheiro de maneira mais rápida, os compositores acabam recebendo menos porque as músicas são veiculadas por um menor período de tempo. Por isso, precisam ter um número maior de composições gravadas para arrecadar a mesma quantidade de dinheiro que ganhariam com outra que durasse mais. No contexto do Carnaval baiano, a tensão entre o mercado e a produção artística fez com que a música fosse vista, prioritariamente, como um produto empresarial, deixando de lado os aspectos plásticos e estéticos que também a compõem.

Isso acabou interferindo na durabilidade das canções, que chegavam ao público cada vez mais simplificadas. “Essa história de que a carência das letras acontece porque o público só quer músicas assim é mentira. É a incapacidade de fazer algo melhor. O trio e o abadá são mais importantes, a música está lá no fim”, relata o compositor Anderson Cunha. Autor de sucessos como “Festa” e “Tudo a Ver”, conhecidos nacionalmente na voz das cantoras Ivete Sangalo e Aline Rosa, dedica-se atualmente ao grupo musical Sertanília, que possui letras e melodias influenciadas pelo universo sertanês.

COMERCIAL E AUTORAL SE ENCONTRAM Tayse Argôlo/Labfoto © 2013

Assim como no panorama mundial, o mercado fonográfico brasileiro vive um momento de crise, em decorrência da desvalorização dos fonogramas e maior apreciação dos espetáculos ao vivo. Enquanto esse modelo de produção entra em decadência, o cenário de música independente em Salvador tem crescido e se propõe a reinventar e retirar o público do lugar de conforto proporcionado outrora pela música baiana. Nomes como Lettieres Leite e a Orkestra Rumpilezz, Cascadura, BaianaSystem e Vivendo do Ócio têm se apresentado em diversos palcos e ruas da cidade e do exterior, alcançando frequentemente a lotação máxima dos ambientes por onde passam. Essas bandas tinham, originalmente, uma produção segmentada, voltada para um público mais restrito, mas conseguiram expandir seu alcance e atingir um número maior de ouvintes, mesmo sem recorrer ao empobrecimento de suas letras. “Às vezes, a música faz sucesso dentro de uma turma, mas quando ela transcende e passa a ser conhecida no geral, ela vira comercial”, afirma Alex Góes. Essas bandas estão passando por um processo de mudança. Aos poucos, o que era essencialmente autoral, passa a incorporar estratégias da música comercial para se inserir com mais força no mercado musical e alcançar públicos maiores. Ainda é cedo para saber como o aumento de público vai influenciar a produção desses artistas que, embora ainda sejam ignorados pela grande mídia, têm conquistado cada vez mais fãs. “A música baiana nunca viveu um momento tão bom”, afirma Anderson Cunha.

O cantor e compositor Luiz Caldas, há mais de 30 anos na estrada, transita entre o Axé e a MPB ao longo de sua carreira

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Além da nudez total

O naturismo na Bahia e os desafios do movimento texto Luciano Marins e Tamiles Alves

No município de Entre Rios, a 93 km de Salvador, está o único reduto naturista oficial da Bahia e uma das oito praias naturistas do Brasil: Massarandupió. O naturismo em Massarandupió está sob a responsabilidade da Associação Baiana de Naturismo (Abanat), uma das 37 entidades naturistas integradas à Federação Brasileira de Naturismo (FBrN). O movimento é comumente confundido pelas pessoas com o nudismo, mas o naturismo vai muito além da nudez encontrada nas praias. “Há muita diferença entre nudismo e naturismo. Não sabemos só ficar nus. As pessoas acham que ficar nu é crime, mas elas têm que olhar o naturismo como ele realmente é”, diz Miguel Calmon, 64 anos, um dos fundadores da praia de Massarandupió e da Abanat. É considerado nudista quem simplesmente gosta de tirar a roupa sempre que possível, principalmente quando está em contato com a natureza. Já o naturista traz consigo uma filosofia que inclui atitudes de respeito e um relacionamento harmonioso com a natureza e o próximo, como afirma João Olavo Rosés, 70 anos, presidente da FBrN.

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Segundo o presidente João Olavo, a nudez naturista é completamente diferente da seminudez das praias comuns. “A nudez parcial acaba atraindo os olhares com segundas intenções e os fetiches sexuais, enquanto a nudez do naturismo é coletiva e isso gera respeito mútuo, afinal, todos estão pelados”. Ele também afirma que o naturismo prega uma vida simples e solidária, diferentemente dos valores capitalistas. “Dentro da ambiência naturista, as pessoas são críticas e não dão relevância aos padrões de beleza que estão imersos na sociedade”, acrescenta João.


Amana Dultra/Labfoto © 2013

Embora a ênfase maior do naturismo sejam as praias, principalmente na região Nordeste, no Brasil existem outros trinta lugares naturistas, como sítios, clubes, pousadas, ilha nudista em Paraty, redutos na Amazônia, entre outros espaços onde grupos se reúnem. O movimento também vem ganhando destaque na mídia e possui veículos destinados ao assunto, entre eles o portal Brasil Naturista, que traz fotos e informações dos lugares visitados. “Criamos o Portal e a Revista Brasil Naturista para informar não só os naturistas, mas todos que têm interesse em saber mais sobre a filosofia familiar do naturismo praticado no Brasil e no mundo”, revela Marcelo Pacheco, 40 anos, editor do site.

ENTRE REGRAS E DESAFIOS

O naturista Edilson Santos nas águas quentes do rio que corta as dunas da praia. Abaixo, casais em visita à praia naturista de Massarandupió (BA). Grande parte dos frequentadores da praia são casais heterossexuais

Leonardo Pastor/Labfoto © 2013

Ao mesmo tempo em que desperta o interesse e a curiosidade, o assunto chega a ser um grande tabu e traz questionamentos. Para frequentar ou viver em uma comunidade ou praia naturista, todas as pessoas estão sujeitas às regras do Código de Ética, que é uma legislação internacional seguida pelas praias do gênero. “O Código de Ética é como qualquer outro, pois o que você não pode fazer no ambiente naturista é o que também não pode fazer em outro ambiente ou praia”, declara Rayssa Neves, 24 anos, esposa de João Olavo e diretora secretária da FBrN. Entre as normas do Código de Ética estão a proibição da prática sexual e de atos obscenos em áreas públicas, da presença com roupas em locais e horários exclusivos de nudismo e do comportamento desrespeitoso ou discriminatório perante outros naturistas e visitantes. Quem infringir as regras pode ser advertido, suspenso e até expulso das áreas regidas pelas entidades ligadas à FBrN. Não há uma norma específica no Código em relação à permanência de homens solteiros ou casais homossexuais, por exemplo, mas existem registros e questionamentos relacionados ao assunto. Em 2004, na praia de Massarandupió, uma denúncia feita por dois

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Marcelo Cerqueira / Arquivo GGB

homens que se sentiram constrangidos por terem sido proibidos de acessar e permanecer no local fez com que o Grupo Gay da Bahia (GGB) organizasse um protesto. Com a frase “Nenhuma nudez será castigada”, ativistas do GGB seguiram até o local e tiraram a roupa para protestar contra a proibição imposta pelas pessoas que estavam na praia. “O GGB recebeu essa denúncia e achamos isso um absurdo. Não queremos privilégios, apenas igualdade. Acho importante que o naturismo cumpra sua filosofia, sem nenhum tipo de discriminação”, enfatiza Luiz Mott, 67 anos, antropólogo e fundador do Grupo Gay da Bahia. Waldo Andrade, 58 anos, frequentador de Massarandupió há 12, diz que esse fato se originou de uma própria defesa dos casais da praia, que não permitiam os solteiros. “Nessa época, foram dois jovens e o pessoal pediu que eles se afastassem por serem solteiros, e não por serem homossexuais. O solteiro entra na praia, estando federado, e o casal homoafetivo (masculino ou feminino), ao se identificar,

Há muita diferença entre nudismo e naturismo. Não sabemos só ficar nus Miguel Calmon

Em relação aos homens solteiros, Rayssa menciona que é normal um homem ir à praia naturista pela primeira vez e ter uma ereção, porém o que importa é o comportamento dele em relação às pessoas que estão no mesmo ambiente. “Se esse homem entender a filosofia do naturismo, ele achará normal ver mulheres nuas e não se excitar”. Ela e João Olavo afirmam que algumas restrições devem sofrer mudanças, como a da nudez obrigatória e a dos solteiros não federados, e que já existe um movimento interno reavaliando isso, pois assim as pessoas se sentiriam mais acolhidas e não afastariam os futuros naturistas. De acordo com João, as praias que têm mais proibições possuem um número maior de denúncias e casos de desrespeito ao Código de Ética. No que se refere aos questionamentos da nudez, ele afirma que depende do local e da

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Leonardo Pastor/Labfoto © 2013

é bem-vindo. Inclusive, temos vários homossexuais que fazem parte do movimento nacional”.

Ativistas do Grupo Gay da Bahia durante protesto a favor da permanência de casais gays na praia de Massarandupió. Abaixo, Waldo Andrade, fundador do Ecoparque e da Ecovila da Mata, em uma das trilhas construídas para o projeto


região, pois em alguns lugares ela é obrigatória – a exemplo de Massarandupió – e em outros lugares não, como na praia da Galheta, em Santa Catarina. Para as pessoas que ainda não se sentem à vontade em se despir, existem áreas de adaptação em alguns lugares, como na praia de Massarandupió, perto da área naturista. Nesse espaço existe um segurança que controla e orienta a entrada dos visitantes.

ACREDITANDO EM UTOPIAS João Olavo menciona que o naturismo quer conquistar os jovens para que eles possam dar continuidade ao movimento. Segundo ele, a juventude torna-se importante para o naturismo porque ainda acredita nas utopias e teria a chance de resgatar o sentido mais genuíno do movimento, dando novos rumos. Para isso, o naturismo vem buscando se aproximar do ambiente acadêmico, através de um protocolo de intenções, já aderido pela FACCAT (Faculdades Integradas de Taquara/RS). Esse protocolo abre espaços para que o naturismo seja estudado e sejam criadas pesquisas sobre o assunto. Fazendo parte dos anseios naturistas, a Ecovila da Mata, situada perto de Massarandupió, surge como uma nova opção de naturismo local. Sendo o primeiro condomínio naturista no Norte e Nordeste brasileiro, ela apresenta um projeto de moradias ecologicamente corretas e autossustentáveis. Mariana Oliveira, 27 anos, filha de Waldo Andrade (fundador da Ecovila e do Ecoparque) e formada em Arquitetura pela UFBA, construiu o projeto, aliando arquitetura e urbanismo com o tema “Ecoparque e Ecovila Naturista”. Para Celso Rossi, 52 anos, fundador da Associação Amigos da Praia do Pinho/SC (AAPP) e da FBrN, o principal desafio do naturismo brasileiro é conscientizar o maior

número de naturistas a respeito do conceito de naturismo. “Acima de tudo, penso que os naturistas deveriam meditar sobre o que significa uma vida em harmonia com a natureza, para descobrir aí a satisfação para suas buscas, ofuscadas pelas luzes da mídia e do sistema de vida consumista”. O movimento vem aderindo diversos adeptos, incluindo padres, comunidades evangélicas, etc. Para tornar-se um naturista federado, é necessário se apresentar a alguma entidade oficial do Brasil, informar o interesse em fazer parte do movimento e assim ter o Passaporte Naturista ou Cartão INF (produzido pela Federação Internacional de Naturismo), que possui 34 países filiados. Com essa identificação, o naturista pode ter acesso a todos os espaços oferecidos nacional e internacionalmente e será registrado qualquer problema ou desvio de conduta que ocorra.

Edilson aprecia o final da tarde na frente da Barraca do Juvenal Amana Dultra/Labfoto © 2013

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Passarela de dupla mão dupla Uma conversa com as irmãs Massena, modelos baianas, negras e gêmeas, destaques no cenário da moda internacional

texto Nathália Luna e Tamiles Alves fotos Lorena Vinturini/Labfoto

Do bairro Federação para as passarelas do mundo. É assim que a vida das irmãs gêmeas Suzana e Suzane Massena, 17, está se configurando. Desde crianças, durante a infância humilde, sempre gostaram de dividir o mesmo espaço. Tanto que compartilharam as mesmas expectativas e despontaram cedo numa carreira promissora de modelo. As irmãs Massena não possuem só similaridades na aparência, mas também no nome e nas escolhas. Estudantes da escola pública Edgar Santos, tentam conciliar o estudo e o trabalho, que é fortemente influenciado pelas raízes baianas e negras. Suzana e Suzane são cúmplices, além da beleza, e é essa relação que tem encantado e conquistado as passarelas e revistas de moda mais importantes do mundo. Revista Fraude: Como se iniciou a carreira de vocês? Suzane: Quem começou primeiro foi nossa irmã mais velha, Suelen, aos 16 anos. Nós duas estávamos com 11 anos na época e a acompanhávamos nos desfiles e nos castings. Ganhamos uma bolsa em uma agência [One Models, antiga L.A. Models], onde ficamos por um ano. Nossa mãe começou a notar que estávamos gostando da área e, quando percebemos, estávamos completamente envolvidas. Depois mudamos de agências, mas ainda éramos muito novas para trabalhar profissionalmente. Quando tínhamos 14 anos, a Xuxa nos descobriu [durante o concurso de modelos Monange Fashion Dream] e, a partir disso, começamos a trabalhar como modelos profissionalmente.

O que aconteceu com vocês após serem descobertas pela Xuxa? Suzane:Ganhamos visibilidade no Brasil, nessa época não éramos conhecidas internacionalmente. Após a Vogue Japão, muitas pessoas de lá se interessaram pelo nosso perfil, por sermos brasileiras e, principalmente, por sermos gêmeas e negras. Algumas revistas italianas gravaram entrevistas conosco depois do desfile que fizemos na São Paulo Fashion Week, para a Cavalera. Fizemos também uma entrevista para a Fashion TV e outra para um jornal Francês.

Como foi entrar em um mundo tão diferente do que conhecem? Suzane: Quando a gente vê tanta roupa bonita, dá vontade de pegar todas e sair correndo (risos). Temos que nos controlar e pensar que o valor das peças é muito alto e podemos pedir para uma costureira fazer igual! As agências oferecem permutas para as modelos em salão de beleza, restaurantes, baladas, mostramos nosso DRT e pagamos 10% do valor das contas. Às vezes nem pagamos, vamos direto para a área VIP. De certa forma, a gente se torna um público atrativo para aquele local. A carreira de modelo tem pontos positivos e negativos, mas como eu amo minha profissão, olho mais os pontos positivos e deixo passar os negativos. Suzana: É muito diferente, viemos de uma família simples e humilde e, no trabalho, convivemos com pessoas “tops”. Sabemos que temos que voltar para a nossa realidade, chegar em casa e lavar os pratos (risos).

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Ser baiana influencia o trabalho de vocês? Suzane: No desfile da Cavalera, por exemplo, tivemos que dançar. Quando chegamos ao casting, as pessoas diziam que, por sermos baianas, iríamos tirar de letra, diziam que tínhamos “axé”. Acho que isso é verdade mesmo. Baiano tem um jeito só dele e mostramos isso na passarela. Suzana: Quando contamos que somos da Bahia, é uma festa, uma alegria contagiante.

Como é voltar para casa depois de viver tudo isso? Suzane: Percebo que estou chegando em casa quando vejo a ladeira. Tiramos o salto alto para subir, voltamos para a nossa realidade. Mas isso é tranquilo, nós conseguimos ser mais humildes no que fazemos. É bom ter contato com esses dois mundos.

Como conciliam a escola e o trabalho? Suzane: Dá para conciliar. A agência envia atestados de trabalho para a escola. Já fiquei em recuperação várias vezes, mas nunca perdemos o ano. Pegamos emprestado os cadernos de alguns amigos e estudamos nos desfiles quando dá tempo. Suzana: Atrapalha, mas temos que nos esforçar para conciliar. Muitas modelos abandonam os estudos, e isso não é indicado. A carreira de modelo é temporária, o que fica depois são os conhecimentos, minha mãe sempre diz isso.

Quais são os planos de vocês para a carreira? Suzane: O sonho de toda modelo é estourar em sua profissão, ser reconhecida internacionalmente. Quero ser um diferencial, quem sabe até uma inspiração para futuras modelos, fazendo desfiles e revistas importantes. Suzana: Em qualquer profissão você quer atingir o sucesso.

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Surgem mais trabalhos por serem gêmeas? É um diferencial? Suzane: Nosso diferencial é que somos gêmeas e negras com o cabelo cheio e olhos puxados. Trabalhamos bem separadas, mas nosso trabalho funciona melhor quando estamos juntas, sabemos nos complementar nas fotografias. Tem também a questão da confiança. Se minha irmã diz que meu cabelo não está legal, vou acreditar. Se outra modelo me diz isso, desconfio, ela pode não ser sincera. Entre modelos isso acontece muito. Suzana: É mais comum ver modelos gêmeas brancas, principalmente na região Sul, porém gêmeas negras é mais raro. Uma vez fiz um editorial em São Paulo para a Revista Gloss, inspirado em Solange Knowles, irmã de Beyoncé. Sugeriram que colocassem nós duas, mas fugiria da proposta e se tornaria um editorial para as


Percebo que estou chegando em casa quando vejo a ladeira. Tiramos o salto alto para subir, voltar para a nossa realidade suzane massena

gêmeas. Mesmo apenas uma de nós aparecendo, a imagem da outra é atrelada, até hoje algumas pessoas pensam que as fotos foram feitas com nós duas (risos).

Em quantos países vocês já trabalharam? Suzane: Estamos fazendo contrato com uma agência internacional em Nova York. Eles querem a gente para a próxima temporada de moda. Suzana: Vamos passar cerca de três meses lá. [As irmães desfilaram nas passarelas do New York Fashion Week em setembro].

Vocês já fizeram uma Vogue internacional. Como foi no início da carreira fazer parte de uma publicação tão importante na área da moda? Suzane: O sonho de toda modelo durante sua carreira é fazer parte de um editorial como o que fizemos com Anna Dello Russo [atualmente um dos nomes mais importantes do cenário da moda]. Eu ainda estou no começo e já fiz! Suzana: Vejo meninas que estão na carreira há mais tempo e que têm esse sonho, e eu acabei fazendo primeiro que elas. Com apenas 17 anos, já fizemos três edições, duas para o Brasil e uma internacional.

Existem cotas para negros na profissão? Suzane: Se existem cotas, não vejo funcionar. A maioria dos modelos que vemos são brancos. Atualmente tem surgido mais espaço para nós, mas ainda é difícil ver muitos negros em desfiles. Isso não deveria existir hoje em dia, não deveríamos precisar de cotas. A modelo deveria ser selecionada por ser boa, não pela cor da pele. Infelizmente, o conceito é que “negro é verão e branco é inverno”. Nos desfiles para o verão, têm mais negras, mas a preferência ainda é por brancas que são bronzeadas com maquiagem.

Vocês encaram essa questão como um traço cultural ou como preconceito? Suzana: Eu encaro como preconceito. Isso acontece mais no Brasil do que fora. O preconceito está aqui. Muitos estilistas sequer fazem casting com negros, mesmo se um negro participasse, não seria selecionado. Se isso não for preconceito, é o quê, então?!

Embora exista preconceito, vocês estão conseguindo ganhar destaque. Estaria acontecendo uma abertura maior do campo para as modelos negras?

As irmãs Suzana e Suzane Massena, aos 10 anos, já queriam modelar

Suzane: Espero que a gente possa contribuir e mostrar que não só um padrão de beleza que é bom. O negro também sabe fazer seu trabalho bem feito. Suzana: Queremos ganhar nosso espaço, não somente por conta das cotas. Queremos mostrar nosso valor e que somos boas no que fazemos.

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Bonecas de montar A arte transformista como profissão texto Renata Farias e Tiago Sousa fotos Agnes Cajaíba/Labfoto

Entre uma maioria homossexual, alguns heterossexuais, frequentadores assíduos, marinheiros de primeira viagem e alguns curiosos, admiradores da arte transformista se aglomeram na fila para assistir ao grande espetáculo da noite. Ao entrar, a música eletrônica toma conta do ambiente e cria um clima animado, mas o ápice ainda está por vir. Duas horas da madrugada. As luzes do palco começam a brilhar, anunciando a todos que a estrela chegou. O apresentador, com leves batidas no microfone, começa a atrair a atenção das pessoas, que logo se voltam para o palco, até que surge aquela personagem. Uma mulher? Um homem? Uma travesti? Linda! Uma boneca. O show está prestes a começar. Assistindo àqueles pouco mais de 60 minutos de apresentação, não dá para imaginar que a arte transformista carrega uma história de mais de 200 anos. Com origem no teatro, onde homens se vestiam de mulheres para interpretá-las, já que a atuação era proibida para elas, o transformismo ganhou vida própria quando passou a ser protagonista de apresentações cheias de glamour, deixando de existir apenas por uma limitação imposta às mulheres. Construída ao longo de séculos, a arte transformista foi incorporando elementos das diversas áreas artísticas, desde o teatro, até a dança e a música, sendo esta última uma forte característica desse tipo de show. O século XX foi um momento de grande apogeu para essa arte, que passou a ser realizada e apreciada, em maior parte, pela comunidade LGBTT. A partir da década de 1920 e com ápice na década de 1990, o show de transformistas começou a invadir as casas de shows e boates LGBTT de todo o mundo, arrastando, assim, um público diferente daquele que assistia aos homens vestidos como mulheres nas grandes produções teatrais.

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COMO NASCEM AS BONECAS Hoje, alguns homens resolvem trocar o sapato social por belos e finos saltos, seus paletós por figurinos cobertos de brilho e paetê, seus cabelos convencionais por perucas de diversas cores e tamanhos para, travestidos dessa forma, subirem em palcos de casas noturnas e interpretarem verdadeiras divas. É importante não confundir esses homens que atuam como mulheres com travestis, afinal, travestis se sentem mulheres, enquanto o transformismo é a arte de encenar esse papel, um trabalho como o de qualquer outro ator. “O transformismo é uma expressão artística. O travestismo não é uma expressão artística, é uma identidade. A pessoa é travesti 24 horas por dia, e não apenas em cima do palco”, explica Leandro Colling, professor doutor da Universidade Federal da Bahia, fundador e coordenador do Grupo de Pesquisa Cultura e Sexualidade (CuS), com estudos em Sexualidade, Gêneros e Culturas. Sendo o transformismo considerado um trabalho como outro qualquer, surgem algumas dúvidas: é possível viver apenas com essa atividade? Como manter todo o encanto das personagens, com vestidos e maquiagens caras, sem ter que abdicar dos próprios desejos? Jean Carlos, 23 anos, há quatro anos mais conhecido como Mitta Lux, conseguiu alcançar uma posição de prestígio nesse meio de forma que, atualmente, tem como principal trabalho o transformismo. “Eu vivo basicamente do transformismo, até porque os trabalhos de web design e de maquiagem que eu faço são por causa do transformismo”. Jean, que mora em Salvador há quatro anos, começou a interpretar Mitta Lux em uma peça escrita por ele mesmo, enquanto ainda morava em Brasília, intitulada “As moças do sabonete”, de onde vem o sobrenome da personagem. André Silva, 45 anos, conhecido pelo público LGBTT como Bagageryer Spielberg há 28 anos, é outro que vive apenas do trabalho de transformista. Dividindo-se entre apresentações em saunas, concursos que realiza para senhoras da “melhor idade” e eventos fechados, André diz se sentir feliz e realizado com a profissão.

01: André Silva se transforma em Bagageryer Spilberg e realiza apresentações para um público de senhoras; 02: Jean Carlos se transforma em Mitta Lux. Os seus trabalhos como webdesigner e maquiador surgem a partir do transformismo; 03 e 05: Luiz Santana se transforma em Rainha Loulou; 04: Dino Neto interpreta a drag queen Sfat Auermann há 22 anos

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Não quero viver só do transformismo, não me satisfaria profissionalmente viver só disso luiz santana

VIDA DUPLA

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No entanto, nem todos os atores transformistas se sustentam apenas com sua arte. Os baixos cachês oferecidos pelas casas de shows, as precárias condições de apresentação e a crescente decadência desses locais são capazes de fazer do transformismo uma área profissional de difícil crescimento financeiro. Em certos casos, o dinheiro não é o maior fator para que os artistas tenham outra profissão, mas o desejo de se realizar em outras áreas de interesse leva muitos a optarem pelo transformismo como uma segunda ocupação. Esse é o caso de Luiz Santana, 33 anos, também chamado de Rainha Loulou. Envolvido com as artes desde a juventude, representou o primeiro papel feminino em uma peça realizada pelos estudantes de teatro da Universidade Federal da Bahia. Nascia a Rainha Loulou, personagem que Luiz carrega há 12 anos, fazendo shows em boates de Salvador. Apesar da longa trajetória como transformista, sua principal renda vem da profissão de figurinista e maquiador, que realiza no Teatro Castro Alves e como freelancer. “Não quero viver só do transformismo, sou um profissional de figurino. Não me satisfaria profissionalmente viver só disso”. Luiz já fez muitas apresentações para empresas, aniversários, eventos LGBTT como transformista e não está sozinho nessa dupla jornada de trabalho. Marcelo Souza é Suzy Brasil, uma conhecida transformista do país. Atualmente, mora no Rio de Janeiro, onde trabalha, durante o dia, como professor de Biologia – formação que foi financiada com o trabalho de transformista – e como Suzy Brasil nas noites cariocas. “Mesmo dando aula dois dias da semana em um colégio e fazendo show de quarta a domingo, o que me sustenta hoje é a Suzy”. O número de casas de shows que abrigam apresentações de atores transformistas no Rio de Janeiro é muito maior, quando comparado a Salvador, que possui cerca de seis casas do tipo. Com isso, a possibilidade de viver apenas desse trabalho é maior, pois há mais demanda por shows.

NA PONTA DO LÁPIS – E DO SALTO Além da quantidade de casas noturnas que realizam shows transformistas, os valores pagos por apresentação, entre Salvador e Rio de Janeiro, são diferentes. Enquanto Marcelo diz receber uma média de R$ 200 por noite, realizando dois espetáculos, um transformista dificilmente consegue mais de R$ 60 por show na capital baiana e é difícil realizar mais de uma apresentação por noite, já que os estabe-

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lecimentos são bastante próximos. “Eu queria atender a todo mundo, mas uma pessoa pode não querer que eu faça show em outra casa, porque vai acabar levando os clientes”, conta Jean Carlos, que completa afirmando que as casas noturnas funcionam como vitrines e, a partir do contato com os artistas, são convidados por outras pessoas, principalmente heterossexuais, para realizar eventos fechados, como aniversários, bodas e despedidas de solteiros. “Os ‘héteros’ pagam muito melhor e até respeitam mais que os gays”. Os donos de estabelecimentos onde ocorrem shows de transformismo reconhecem que não é possível viver apenas com o cachê oferecido por eles, mas também que a arte transformista deve ser valorizada. “Eu costumo pagar o mesmo valor [R$ 50] para todos, que é um valor pago em uma boate que cobra entrada. Acho pouco, queria poder pagar mais, mas não cobro entrada, então não posso”, afirma Aldo Zeck, intérprete da personagem Gina de Mascar e dono do All Club Lounge Bar, localizado no Beco dos Artistas e que, desde sua inauguração, trabalha com shows transformistas. Os cachês, apesar de baixos, podem ser considerados uma conquista. Há poucos anos, costumava-se pagar, em média, R$ 30 por apresentação. Mudar esse cenário de Salvador foi um dos objetivos do espetáculo “Soul transformista”, dirigido por João Figuer, que trabalha como ator e diretor, e idealizado pelo site Dois Terços em 2011. “O espetáculo fala justamente desses baixos cachês pagos aos transformistas. Por causa disso, acabei me tornando uma persona non grata dos empresários da área. Para os atores, é muito difícil viver do transformismo assim”, afirma João.

HOMEM FEMININO Não só roupas e acessórios são levados do universo feminino para os shows transformistas; em alguns casos, é possível confundir transformistas com mulheres, tamanho o empenho que é feito para interpretá-las, com todos os seus trejeitos

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Acima, Rainha Loulou em uma de suas apresentações no All Zeck Bar. Ao lado, uma apresentação de Mitta Lux. Mitta tem um público consolidado em diversas casas noturnas de Salvador, como a Ancora do Marujo e o Melancia Blue

Os ‘héteros’ pagam muito melhor e até respeitam mais que os gays Jean Carlos

e personalidade. Uma confusão comumente observada acontece quando se compara performances de transformistas e drag queens. O principal ponto de diferenciação está justamente na tentativa de parecer uma mulher. “A transformista fica na melhor essência da mulher. Uma mulher mais bonita, mais glamurosa. A drag queen não tem esse compromisso. Você sabe que é um homem, um overlook, com maquiagens exageradas, roupa mais exagerada”, explica Dino Neto, 45 anos, que interpreta a drag queen Sfat Auermann há 22. Independente das dificuldades enfrentadas para se manter como transformista, seja para bancar a personagem com figurino e maquiagem, pelo preconceito que pode ser sofrido, pelos baixos cachês ou pela necessidade de conciliar essa atividade com outra, é inegável que o transformismo é uma profissão e uma arte. É necessária muita dedicação, cuidado e paixão para exercer de forma quase natural o papel de uma mulher. E então as cortinas se fecham. Ainda são quatro da manhã e as pernas da estrela já doem. A correria começa para limpar aquela pesada maquiagem do rosto, tirar os saltos, vestir um jeans e uma camisa básica e correr para casa, afinal, no dia seguinte, é preciso acordar cedo para maquiar, vestir, ensinar, estudar, atuar, atender, entreter... O show não pode parar.


Dúvidas sobre conceitos relacionados a gênero e identidade? Transgênero: indivíduo que não se identifica nem como homens e nem como mulheres, já que não acolhe o que a sociedade construiu como identidades masculina e feminina. Está sempre construindo novas combinações de gênero e transitando entre um gênero e outro. Cisgênero: indivíduo que se identifica com seu gênero de nascença. Travesti: indivíduo que se identifica como o gênero oposto, mas não deseja mudar o sexo biológico, pois sente-se bem com seu órgão sexual. Transexual: indivíduo que se identifica como o gênero oposto e, em geral, sente desejo de mudar o seu sexo biológico. Transformista: indivíduo que se veste com roupas e acessórios do gênero oposto durante apresentações artísticas. Drag queen: homem que usa roupas e acessórios femininos durante apresentações artísticas, mas sem o compromisso de se parecer com uma mulher, usando o exagero como característica principal. Crossdresser: indivíduo, geralmente heterossexual, que se veste com roupas e adereços do gênero oposto. Andrógeno: indivíduo que possui características físicas e comportamentais de ambos os gêneros, sendo difícil identificar a que gênero pertence apenas pela aparência.

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Despertando

&

construindo sentidos

Curadoria: a arte pela arte

texto e colagem Camila Hita de Aguiar

Festivais, exposições, bienais, apresentações, ciclos de conferências, instalações e mostras de cinema, música, dança, literatura, em suma, eventos culturais, de maior ou menor porte. Com o advento da Indústria Cultural e a dinamicidade da própria esfera da cultura, a demanda pelo setor aumentou e popularizou-se. À medida em que se intensifica a escala de produção de distintas linguagens, o quê e como dar a ver e a perceber passa a ser mais acentuado. No século XXI, crescem os prospectos do papel dos curadores. Estes “saem da simples administração de coleções para tornarem-se administradores de projetos curatoriais”, afirma Stephen Welsh, curador do Living Cultures no Manchester Museum. Talvez isso explique, em parte, a hipervalorização atribuída hoje ao profissional da área de curadoria. Contudo, o curador é um dos signos que fazem parte do sistema das artes no processo de legitimação, seja ele da obra ou do artista. O sistema pode ser dividido em dois pólos dialógicos: o cultural e o de mercado. Assim, do primeiro, fazem parte os artistas, o crítico, o curador, o historiador, certo tipo de colecionador (com interesse, sobretudo, cognitivo), a pesquisa universitária, o museu, etc. No segundo, têm-se o galerista, o investidor, o colecionador, os bancos, os empresários, as casas de leilão, o antigo marchand.

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o ready-made colocou a ação de criação e ação de seleção no mesmo paradigma elaine caramella

PLASTICIDADE PROFISSIONAL Não mais restritos aos museus, muitos curadores passaram a trabalhar com eventos culturais diversificados, explorando possibilidades de caráter mais organizacional. É comum, portanto, encontrar curadores formados em distintas áreas como administração, dança, teatro, filosofia, arquitetura, comunicação, história. Frente a projetos de maior porte, o curador-chefe se ocupará de gerenciar equipes, valendo-se de assistentes curatoriais, como em uma espécie de direção. Parece natural fazer uma associação com o perfil do produtor cultural. Para a curadora do Festival Internacional VIVADANÇA e também coreógrafa Cristina Castro, trata-se de uma simbiose. Ela afirma ser “importante o curador e o produtor estarem próximos, caso sejam cargos exercidos por pessoas diferentes. O curador monta um projeto conceitual, sabe que aquelas coisas juntas darão um caldo legal, o produtor coloca isso em atividade”. A depender da extensão do projeto, torna-se indispensável a divisão de cargos. Mas não se deve suprimir o campo de interações, já que a curadoria também se refaz, longe de ser algo intocável, pensado apenas durante a pré-produção, e é bom que tenha potencial para alargar-se durante a produção e execução final.

Cartaz de divulgação de projeto curatorial de Cristina Castro. Abaixo, de Elisa de Souza Martinez

A produção está associada a uma atividade executiva. A programação diz respeito a uma escolha, a uma seleção. Mas nem todo processo de seleção pode ser considerado curadoria. “O curador não só organiza o material que tem na mão, mais ele contextualiza e o conceitualiza. Às vezes, constrói um conceito para justificar uma escolha”, afirma Andréa Bardawil, curadora da Bienal de Dança do Ceará e do Festival Joinville. Busca-se, através de uma rede de articulações cognitivas, ultrapassar os limites da montagem, que por si só bastaria um programador para realizá-la. O perigo das diferenciações é querer estabelecer hierarquias entre elas. Como bem reforça Andréa, as pessoas opõem muito o trabalho intelectual com o braçal. Um curador, assim como um criador e um produtor, cada um em sua função, precisa de uma bagagem cada vez mais larga de experiências e exercícios de partilha. É certo que o mercado costuma exigir especificações. Mas quanto maior a competência em estabelecer conexões, maior a capacidade de enfrentamento, maior será a plasticidade para lidar com as coisas que estão ao redor.

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A FORMAÇÃO EXTENSIVA De uma adaptação do inglês curator, que deriva do latim tutor, obtivemos a palavra “curador” para designar o protetor, aquele que tem uma administração ao seu cuidado. Os riscos justificam o empenho do curador em sua formação extensiva. É um profissional multifacetado, que junto ao seu caráter inquisitivo, busca, continuamente, reunir um repertório diversificado acerca do fenômeno trabalhado. “Seu olhar vai se voltando para uma análise profunda do objeto”, conclui a estudante de museologia Maria Cristina Martins. Por isso, deve ser ressaltada a importância de uma formação crítica. O curador não é um todo poderoso que está para instruir o público, para determinar o que tem ou não valor. Diante dos distintos modos de fazer e dada a condição instável e subjetiva de definição do objeto artístico, como então classificar, ordenar, atribuir-lhe um valor? Da mesma forma que um pesquisador, tem que assistir, ler, discutir, ampliar visão de mundo. Quem quer se aventurar na curadoria depara-se com uma trajetória de uma vida inteira. “Cada exposição ou evento nos apresenta uma situação a ser analisada em suas especificidades”, certifica Elisa Martinez, membro do Comitê de Curadoria da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas e docente no Programa de Pós-Graduação em Arte, na Universidade de Brasília. Não há tutorial a seguir, tampouco uma rotina específica de trabalho. Ao selecionar uma obra, por exemplo, inevitavelmente se exerce algum tipo de julgamento. Aqui vale ressaltar a importância do juízo recair acerca da obra, e não do artista. Julgamentos podem sofrer mudança com o tempo, mas nem por isso significa que tudo o que um bom artista faz é bom. Um curador há que ter critérios artísticos, éticos. Na condição de mediador cultural, trata de estabelecer a ponte com o público. Ele é um formador de opinião e, antes de tudo, precisa refletir ante suas escolhas. “Não há problema em defender uma corrente, mas defender pontos de vista sem convicção, por conta de um comprometimento de mercado ou de interesses escusos, expõe os limites do ofício”, avalia o atual curador do Palacete das Artes, Murilo Ribeiro.

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PARCELA AUTORAL Existem curadores de caráter público ou privado, atuando em fundações culturais, museus, galerias ou determinados eventos. Elaine Caramella, uma das idealizadoras do Curso de Arte: História Crítica e Curadoria da PUC/SP amplia a relação de categorias, explicando que “depois de Marcel Duchamp, a esfera do curador e a do artista se equivalem, à medida que o ready-made colocou a ação de criação e ação de seleção no mesmo paradigma”. Por sua vez, com a instalação, vemos emergir a figura do curador independente. O artista que realiza a instalação recicla. “Não se trata de fazer, mas de problematizar, eleger, conceituar, organizar”, diz ela. De mente aberta, em determinado momento, o profissional esforça-se até mesmo em desfocar objetos para poder pensar em processos. Se procura pensar em um modo de interpretar o conjunto, sem preterir das singularidades. O exercício torna-se mais complexo a partir da inclusão de elementos como o espaço e a linguagem, que também precisam produzir harmonia. Ainda que se apresente com coesão e coerência, nenhuma análise é definitiva. O que faz exatamente com que a interferência de determinado curador seja apenas uma entre as possíveis infinidades de diálogo. Ao envolver-se com o produto cultural, o curador acaba por ressignificá-lo, incrementa-lhe particularidades, e isso faz parte de seu trabalho. É curadoria construir um princípio organizador dos elementos selecionados e, com isso, produzir uma forma de representação do espaço capaz de elaborar um modo artístico de perceber o mundo. Consiste no trabalho de organizar politicamente, gerenciar espaços de encontro, vozes e ação, entendendo que arte e política estão originalmente imbrincadas. Valendo-se do potencial artístico de impactar os sentidos, o curador está a inventariar poéticas e, com elas, contribui para o cultivo do espírito. Em um mundo em que tudo é excesso - imagem é excesso, ruído é excesso -, destacar inflexões exige um exercício muito fino de sensibilidade.

Ready-made feito a partir de colagens de obras de arte consagradas

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Eliza Capai / divulgação

Olhar para dentro

As particularidades dos documentários autobiográficos texto Hury Ahmadi

Elena, Mataram Meu Irmão, Tão Longe É Aqui, Os Dias com Ele. Todos esses filmes – entre tantos outros – são produções nacionais que estão sendo exibidas, neste ano, entre festivais e salas de cinema comerciais. Apesar de estarem carregados das mais diversas peculiaridades, fazem parte de uma mesma linha de documentários autobiográficos que envolvem uma abordagem na primeira pessoa e, principalmente, o desafio de fazer com que uma questão particular diga respeito ao outro. Desde o início dos anos 2000, nota-se, no Brasil, um maior fôlego para a produção de documentários voltados para as experiências pessoais do realizador. O país vive um momento privilegiado para o gênero, que tem alcançado maior visibilidade e, hoje, em meio ao forte mercado de ficção, já consegue aparecer com mais frequência no circuito de cinema comercial, algo que não se via cerca de quinze anos atrás, respingando na criatividade e teor de inovação do audiovisual.

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A relação dicotômica produzida pela técnica da entrevista, característica do documentário tradicional, é tratada pelo teórico e crítico brasileiro Jean-Claude Bernadet em seu livro Cineastas e imagens do povo, de 1985. Para ele, “a entrevista se generalizou e tornou-se o feijão com arroz do documentário cinematográfico e televisivo.” Chamando, assim, atenção para a necessidade do documentário nacional aprimorar-se também na linguagem, encontrando outras formas de narrar, não só a história do outro, mas a sua própria. Nos anos 1960, o documentário fortalecia-se com o enfoque da denúncia. Havia certa vontade de contar a história do outro para denunciar mazelas Brasil adentro, com uma abordagem de conscientização da sociedade, que foi muito explorada e acabou tornando-se muito comum. Nesse contexto que o falar de si ganhou uma força maior por trazer uma narrativa com perspectivas e temas diferentes para as telas. Para a professora de Cinema da UFRB e curadora do CachoeiraDoc – Festival de Cinema de Cachoeira, Amaranta César, “as relações entre o sujeito documentado e o outro são tão intensas que passaram por um esgotamento. Chega um momento em que os cineastas brasileiros começam a voltar-se para si mesmos”.

ALÉM DO AUTOBIOGRÁFICO Ao indagar os diretores sobre a sua relação com o tema abordado, há um consenso de que toda história contada sempre carrega um pouco de quem a conta. Logo, todo filme tem a sua parcela autobiográfica, seja ficção ou documentário. No entanto, quando se discute a dimensão do gênero autobiográfico, o que muitas vezes é acenado é uma visão de filme que parte de uma questão particular do indivíduo e faz uma reflexão para além da autobiografia. Questionar o realizador sobre o que o leva fazer um filme, seja sobre a sua própria vida ou não, é uma pergunta vaga que deixa uma grande lacuna com a resposta. “Eu achava que esses silêncios e essa forma silenciosa de se operar diante das emoções e das feridas, tanto pessoalmente como publicamente, deveria ser rompida, questionada. Fui com o coração aberto. Senti a necessidade de contar”, esclarece Maria Clara Escobar, diretora de Os Dias Com Ele, quando questionada sobre seu filme, que traz à tona memórias do período da ditadura militar no Brasil através de conversas íntimas com o pai. No entanto, ainda é possível questionar-se sobre o que faz um filme ter sentido não só para quem narra como para quem escuta? Muitas vezes, a extensão que uma história atinge só é percebida por quem a faz depois, ou nem mesmo isso, já que não há como medir a dimensão de qualquer produção artística. Cada um, a partir das suas próprias experiências e repertório, que versa de significá-la.

Registros da viagem da diretora Eliza Capai à Africa. Tão Longe é Aqui traz para as telas as inquietações e o desejo de se encontrar através do outro

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foto divulgação

Cena de “Mataram Meu Irmão”, filme de Cristiano Burlan sobre o irmão assassinado na periferia paulistana em 2001

somos sempre personagens de nós mesmos maria clara escobar

“Perguntaram um tempo atrás se eu tinha consciência de tudo que estava ali, no sentido, se eu dominava emocionalmente o filme que tinha feito. Eu acho que não, e talvez isso também me proteja de ter algum senso mais crítico sobre a minha própria exposição. Acho-a bem sincera, sou confortável com ela”, conta Maria Clara. A jornalista e cineasta Eliza Capai cruzou o Oceano Atlântico para contar, através da história de mulheres de diferentes grupos étnicos da África, a sua própria história. E foi durante a montagem do filme que encontrou, a partir de uma carta, a maneira de narrar suas inquietações. No documentário Tão Longe É Aqui, uma particularidade da ficção fez o que a diretora chama de “entrar com o verbo”. “Ficcionalizei o que não conseguia verbalizar”. Durante uma entrevista, logo após a exibição do seu filme, Eliza dizia estar se sentindo nua, mas tranquila por estar sendo sincera sobre a sua exposição e a história que estava contando. Tão Longe É Aqui consegue, ao mesmo tempo em que transporta o personagem para longe, em algum lugar da África, trazê-lo para perto, cumprindo a afirmação do título e também do próprio gênero. A marca do autobiográfico se dá ao trazer algo de longe, do outro, para o eu que vê e se identifica.

BUSCA PELO REAL Tudo o que não é ficção costuma ser colocado na categoria de documentário. Para o professor do PósCom/Ufba, José Francisco Serafim, “não há uma grande diferença entre a ficção e o documentário. Ambos são construções”. O que vai criar uma empatia entre a obra e o público é o pacto que se faz ao apresentar uma história, seja ela real ou não.

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O diretor de Mataram Meu Irmão, Cristiano Burlan, acredita que considerar o real como objetivo do documentário gera certa ingenuidade e que talvez o interessante esteja em assumir que aquilo é um artifício. Se o real surgir, que seja a partir de uma relação de verossimilhança entre os agentes. “Acho que a busca inicial não é pelo real, ninguém é natural diante de uma câmera. Existe uma representação de si mesmo quando você liga uma máquina.” Maria Clara, ao falar da presença e protagonismo de si e do pai no filme, usa o termo “personagem-pessoa”, pois acredita que, ao colocar-se no filme, cria uma imagem de si mesma que funciona como uma “personagem-pessoa”. “Vejo-nos como personagens mesmo, porque, afinal, somos sempre personagens de nós mesmos”. Embora não tente se defender, nem esconder os seus próprios questionamentos, mesmo dizendo que acha alguns um pouco bobos. Talvez a identificação através da voz de quem narra seja um dos pontos mais instigantes do documentário autobiográfico. Fica claro que é necessário mais do que uma boa biografia para sair do lado invisível e transportar-se para frente da câmera. Exige coragem e o exercício constante de criar outras formas de extrapolar a própria história ao contar para o outro.


Os altos e da BAIXOS Ladeira da Montanha texto Renata Farias fotos Yuri Rosat/Labfoto

“Não desça, não!” Essa foi a frase mais ouvida por mim, até mesmo de moradores e trabalhadores locais, ao pensar em, sozinha, aventurar-me Ladeira da Montanha abaixo. Muitos soteropolitanos conhecem a fama de local perigoso, abrigo de bordéis, lar de traficantes, mas poucos sabem a verdadeira história da ladeira que liga a Cidade Alta à Cidade Baixa e que já foi palco de diversas festas boêmias. O projeto de implantação da “Rua da Montanha” – como era chamada inicialmente – foi elaborado, em 1873, pelo engenheiro Francisco Pereira Aguiar e aprovado cinco anos depois, com o nome de Rua Barão Homem de Melo, em homenagem ao presidente da província da Bahia. O maior objetivo da obra era construir uma ligação longitudinal entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa para facilitar o acesso. Anteriormente, já havia a Ladeira da Misericórdia e a Ladeira da Conceição da Praia, ambas extremamente íngremes. Foram contratados, inicialmente, 100 operários e 18 carroceiros – para transporte de entulho, que acabou acumulado na Praia da Preguiça, inutilizando-a para banhistas e gerando protestos –, chegando a 500 trabalhadores em dado momento da obra. Em março de 1879, os 23 arcos que sustentariam a ladeira estavam prontos, mas ainda faltavam muitos detalhes da construção que desapropriou diversos imóveis e só foi concluída no princípio de 1880, com gasto de 200 contos de réis por parte do governo – 80 a mais que o previsto. Antes e depois: Ladeira da Montanha vista do Elevador Lacerda.

No entanto, não é o processo de construção dos 894 metros de comprimento da Ladeira da Montanha que mais

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Fotos de arquivo / Fundação Gregório de Mattos

O “meia três” tinha a fama de abrigar as meretrizes mais bonitas de SalvadoR

chama atenção. Além do seu referencial histórico e vista inigualável de parte da Cidade Baixa de Salvador, todo aquele ajuntamento de concreto e alvenaria guarda muito da memória antropológica e cultural da capital baiana, alternando momentos de grande destaque e outros de grandes tragédias e descaso.

BORDANDO NA LADEIRA

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Pela grandiosidade dos sobrados que compõem a paisagem, é possível imaginar parte da história. Os prédios, de até quatro andares, serviam de residência para os ricos moradores da capital baiana, assim como todo o centro. Com a expansão da cidade, essas famílias se mudaram para bairros como Graça e Vitória, deixando os casarões da Montanha, que foram ocupados pela classe

média e, posteriormente, pela parte mais pobre da população. As suntuosas propriedades passaram a ter uma funcionalidade diferente. Devido à proximidade do porto, logo se estabeleceram bordéis em toda a sua extensão, tornando-se refúgio da boemia da época, incluindo políticos e artistas. Todos os casarões possuíam saídas nas ruas abaixo da Ladeira da Montanha. Essas saídas eram estratégicas para “proteger” os homens importantes e também os casados que frequentavam as “casas de tolerância”, facilitando alguma fuga necessária e evitando exposições indesejadas. O imóvel de número 73, onde funcionavam dois conhecidos bares, é uma das primeiras ruínas encontradas ao descer pela Praça Castro Alves. A casa seguinte é o bar de Mide, 58 anos, que iniciou sua vida de prostituta aos 13, em Ilhéus, e vive na

Montanha há cerca de 20 anos. Atualmente, tira seu sustento do bar e afirma que a vida ali é tranquila, mas, ainda assim, tem medo dos criminosos que transitam pela ladeira. “O governo não cuida. Tem casarão desabando, teto caindo, chão rachado”, conta Mide sobre o descuido com a ladeira e completa citando um caso de 2010, quando o assoalho de um imóvel desabou sobre quatro pessoas, ocasionando a necessidade de amputação do antebraço de um homem. Porém, essa não foi a única, nem a maior tragédia da Ladeira da Montanha. Em junho de 1978, devido às fortes chuvas, houve um deslizamento da encosta que resultou no soterramento de um posto de gasolina, desabamento de sete casarões e mais de uma dezena de mortos. Descendo mais um pouco, é possível encontrar resquícios do que já foi um dos mais famosos e badalados prostíbulos da cidade. O “meia três” – na casa 63 – tinha a fama de abrigar as meretrizes mais bonitas de Salvador, que eram obrigadas por


1949: Ladeira da Montanha em obras. Ao meio, a ladeira entre os seus altos e baixos. Hoje, é basicamente local de passagem e estacionamento. Na direita, arcos de sustentação da ladeira da montanha, localizados na Ladeira da Conceição da Praia

China, a dona do estabelecimento, a se vestirem sempre bem. De acordo com moradores, o bordel funcionou até cerca de 40 anos atrás.

DE CRIMINOSOS A GENEROSOS Um dos maiores problemas para as “mulheres da vida” que trabalhavam na ladeira era enfrentar o Professor Clóvis. Delegado da extinta Delegacia de Jogos e Costumes, prendia as prostitutas que encontrava em suas rondas. Atualmente, a área é de responsabilidade da Delegacia de Proteção ao Turista (Deltur). Gonzaga Silva, 52 anos, é policial da Deltur há seis anos e conta que muitos criminosos atuam em outras regiões da cidade e se escondem nos casarões abandonados da Ladeira da Montanha. Uma dessas mulheres que já passou por transtornos com o Professor Clóvis é Maria Davina Rodrigues de Oliveira, a conhecida e sempre lembrada pelos moradores Mãe Preta. Natural de Andaraí, a 414 km de Sal-

vador, fugiu para a capital e acabou se tornando prostituta na Ladeira da Montanha. Depois de algum tempo, abandonou o ofício e passou a recolher crianças e adultos moradores de rua em seu abrigo. A casa funcionava a partir de doações que recebia de personalidades como Irmã Dulce e Jorge Amado. O casarão foi desapropriado e, atualmente, Mãe Preta vive com uma das netas, no bairro do Pau Miúdo. Desde o período em que Mãe Preta vivia na Montanha, há uma promessa, vinda do governo, de desapropriação e indenização dos moradores para que seja realizada a revitalização do espaço. Muitos proprietários de imóveis aguardam esse dinheiro, na esperança de uma possível mudança de vida. A Ladeira da Montanha está incluída no projeto de revitalização do Centro Histórico, que foi criado em 2006, pela Fundação Mário Leal Ferreira. Ainda não há nenhum indí-

cio de andamento do projeto, a não ser uma proposta de pavimentação e calçamento da via para uma melhor acessibilidade. Entre momentos de apogeu e outros de queda, habitada pela alta sociedade que, posteriormente, frequentou seus bordéis e onde os pais levavam os filhos homens para se iniciarem sexualmente, mas também palco de descaso, tragédias e criminalidade, a Ladeira da Montanha compõe um retrato da sociedade de distintas épocas de Salvador. Para a maior parte da população soteropolitana, essa é apenas uma ladeira de passagem, mas suas estruturas têm muita história para contar, principalmente através dos moradores que dali tiram seu sustento. É lamentável permitir que mais de um século de história role ladeira abaixo.

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Selo Fraude de Selo Fraude de Qualidade escolhe a melhor cachaçaria de Salvador

texto Carolina Leal foto Ana Paula Santos/Labfoto

Este ano, o Selo Fraude de Qualidade foi descobrir qual o melhor lugar especializado na venda de cachaças em Salvador. Atualmente, de acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), essa é uma das bebidas mais produzidas e consumidas no mundo. Em 2002, a cachaça foi declarada, por um decreto presidencial, um “destilado de origem nacional”. A quantidade de apelidos que a bebida possui é grande – pinga, caninha, branquinha, marvada, levanta defunto, aguardente e por aí vai – assim como os variados modos de consumo à escolha do freguês, pura, acompanhada por cafés, frutas ou ainda em batidas e caipirinhas. Trocando os passos, da Feira de São Joaquim ao Aeroporto, o Selo Fraude degustou muitos tipos de cachaças disponíveis por onde passou. Mas não se engane, não há aqui nenhuma cachacier. Foram avaliados preço, atendimento, diversidade de rótulos e infraestrutura para indicar o melhor lugar para se apreciar esta iguaria.

BOTECO DE SEU VICENTE Foi andando pela Feira de São Joaquim que o Selo Fraude descobriu o Boteco do Seu Vicente, um barzinho – não o mais limpo do mundo, como a maioria dos lugares dentro da feira – chefiado por Seu Vicente, um senhor de meia idade. Abarrotadas nas prateleiras, é possível ver muitas garrafas, diversas delas são infusões com frutas, ervas e até mesmo pimenta, que dão um colorido especial ao espaço. O lugar é frequentado por senhores já aposentados e que gostam de uma boa prosa entre uma dose de cachaça e outra. Os preços variam entre R$ 1,50 e R$ 4 a dose; as garrafas não são vendidas. Rua Engenheiro Oscar Pontes, Feira de São Joaquim

POINT DA CACHAÇA O Point da Cachaça é um quiosque especializado na venda de cachaças, localizado no aeroporto de Salvador. Apesar de não ser um bar, é possível bater um papo enquanto se degusta algumas doses da iguaria. O atendimento é bastante agradável, Dona Diana, dona do estabelecimento, conta a história dos rótulos e fala um pouco a respeito dos sabores. Pequeno, mas abriga uma gama de títulos, sejam eles envelhecidos ou puros, com preços que variam entre R$ 3 e R$ 5 a dose, e garrafas que vão desde R$25 até R$600. Aeroporto Luís Eduardo Magalhães, 2º andar


Qualidade O CRAVINHO

A PORTEIRA

O bar d’O Cravinho fica localizado no Centro Histórico de Salvador, Pelourinho. O bar é mais conhecido pela bebida que dá nome ao estabelecimento, uma mistura de cachaça, cravo, mel e limão. São mais de 40 opções de misturas como Senzala, Gabriela, Jatobá, entre outras, que podem ser encontradas e compradas em doses ou garrafas de 500 ml, que custam R$ 2,50 e R$ 10, respectivamente. Além das misturas, é possível encontrar cachaças puras. O lugar é uma parada obrigatória para os frequentadores do Pelô, mas não é indicado para os que não gostam de lugares cheios e barulhentos.

A Porteira faz parte de uma franquia distribuída em diversos bairros da cidade, como a unidade visitada, localizada no Dique do Tororó. Apesar de ser procurada, na maioria das vezes, como restaurante, o lugar conta com uma carta com 14 tipos de cachaças com preços salgados, que variam de R$ 6,60 a R$ 37,80, a dose, além de caipirinhas que custam R$ 11. O atendimento não é dos mais atenciosos e ágeis.

Praça Quinze de Novembro, 3, Terreiro de Jesus

Avenida Marechal Costa e Silva, s/n, Dique do Tororó

MOCAMBINHO O Mocambinho é um boteco pequeno, tranquilo e aconchegante no bairro Dois de Julho. Além dos 150 rótulos de boas cachaças, baianas, mineiras, maranhenses e cearenses, o cliente pode escolher dentre as cachaças de infusões de raízes preparadas por Dona Ilza, proprietária do estabelecimento. As doses custam entre R$ 3 e R$ 20. As garrafas são vendidas com preços em torno de R$ 20 e R$ 30. Sentado na calçada ou no interior do bar, é possível desfrutar de um atendimento bem atencioso. O Selo Fraude aprova e recomenda. Rua da Faísca, 12, Dois de Julho.

Aprovado pelo Selo Fraude de Qualidade, o boteco Mocambinho fica no Largo Dois de Julho e oferece variedade e bom atendimento


Desejos sem definições Descategorizando a sexualidade

texto Taylla de Paula e Yne Manuella Cardoso illustração Chico Brasil

Mais de 7 bilhões de pessoas no mundo para afirmar sua sexualidade entre duas categorias: heterossexuais ou homossexuais. Observando o tamanho e a diversidade da população, percebeu-se, já no século XX, que essas duas opções eram escassas. Já que a sexualidade humana é definida por tantos desejos, pensamento e hábitos diferentes, tornou-se inviável reconhecê-la em apenas duas nomenclaturas. Foi então que os termos “assexualidade” e “bissexualidade” surgiram, numa tentativa de contemplar também as pessoas que não sentem atração sexual por nenhum gênero sexual ou a sentiam por indivíduos de ambos os sexos. Porém, essa ampliação no número de categorias não diminuiu a discussão sobre elas. Além da quantidade, surge, cada vez mais forte, um debate acerca dos limites de cada uma e, principalmente, da necessidade dessas divisões existirem. “É natural do ser humano a necessidade de dar nome às coisas, de enquadrar”, afirma a psicanalista Sheyna Vasconcellos, coordenadora do setor de psicologia do Hospital Universitário Professor Edgard Santos. A ânsia por definições em grupos e nomenclaturas ganha uma dimensão ainda maior em um contexto onde as pessoas têm experimentado sua sexualidade de uma maneira abrangente e diversificada.

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O professor Matheus Berlink, de 22 anos, sente atração e se relaciona com pessoas de ambos os sexos, mas não se considera homossexual, nem bissexual. Ele prefere não utilizar categorias para definir sua sexualidade. “A categoria talvez seja boa no momento em que a pessoa ‘se descobre’ nesse novo mundo. Nesse momento, ela vira uma forma de autoafirmação, mas, depois que a pessoa se conhece melhor, eu já não sei se as categorias são tão válidas assim”.


A negação de uma nomenclatura para a orientação sexual é um indicativo de uma mudança de comportamento. No lugar de qualquer nomeação, os indivíduos alegam, cada vez mais, simplesmente “gostarem de pessoas”. O psicólogo Gilmaro Nogueira, integrante do grupo de pesquisa Cultura e Sexualidade (CuS) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), acredita que não existem categorias puras para definir sexualidade. Para ele, cada indivíduo teria uma maneira diferente de lidar com esse âmbito da vida e, justamente por isso, as categorias são muito reduzidas para abarcar as preferências de tantas pessoas. Para Gilmaro, o verdadeiro problema não é a existência de categorias, mas a rigidez que existe dentro das nomenclaturas. “Se um homem gay ficar com uma mulher, nós continuamos considerando ele gay. Se um heterossexual ficar com um homem, ele já é considerado gay. Homossexual é uma categoria muito rígida, que você não pode sair, enquanto heterossexual é uma categoria muito frágil. É muito fácil sair dela”.

ALÉM DOS GÊNEROS A estudante de Oceanografia Caroline Felidae, de 28 anos, sempre preferiu se relacionar com mulheres, mas descobriu aos poucos que também poderia sentir prazer nas relações com homens. “Eu não curtia muito homens, mas com o tempo comecei a vislumbrar a maturidade das práticas, entender que ambos têm seu lugar e ter a dignidade de viver cada experiência. É uma questão de autopermissão”. “Se permitir” é a expressão que domina o vocabulário de pessoas que, assim como Caroline, escolhem seus parceiros levando cada vez menos em conta o gênero a que estes pertencem. A inteligência e a personalidade seriam os fatores que realmente importariam na hora de iniciar uma relação, seja ela um namoro, um casamento, ou apenas uma “ficada”. Colocar o gênero sexual como fator inicial a ser considerado, na visão dessas pessoas, seria uma maneira de restringir as múltiplas possibilidades existentes nos relacionamentos. Matheus acredita que a diferença entre ficar com um homem e uma mulher não está na parte física, mas na personalidade. “Até um tempo atrás, eu achava que tinha preferência por mulheres, mas hoje em dia, eu vejo que é igual.” Até os 16 anos, ele ficava apenas com garotas, mas após ter um beijo roubado por um garoto, começou a se relacionar também com pessoas do mesmo sexo. O que aconteceu com ele aos 16 anos pode acontecer com outras pessoas em diferentes idades. O ato de mudar ou ampliar sua orientação sexual ao longo da vida é, para o pesquisador Gilmaro, mais um item que questiona a rigidez das categorias. “Nós não temos como garantir o desejo, o que vai acontecer amanhã ou daqui a 50 anos. Cada corpo tem a possibilidade de se conectar com outros corpos. O desejo não é algo que podemos controlar, mas a cultura faz uma limitação no desejo”.

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ENTRE O PRIVADO E O PÚBLICO

Sexualidade é uma língua, cada um fala a sua gilmaro nogueira

Por mais que atração, desejo e relacionamentos pertençam à dimensão pessoal do indivíduo, esses aspectos sofrem uma grande influência dos juízos sociais, da cultura vigente e, consequentemente, do preconceito compartilhado. Mesmo que estejamos inseridos em um ambiente de maior flexibilidade, ainda há uma oposição às pessoas que não priorizam a definição sexual na hora de escolher seus parceiros. Muitas vezes, essas pessoas são vistas como promíscuas e indecisas, incapazes de manter um relacionamento “normal”. “Sofremos até mais preconceitos que os gays, porque é ainda mais difícil entender como alguém pode gostar dos dois sexos”, conta a estudante de Publicidade Bianca A., de 19 anos, que pediu para não ter seu sobrenome divulgado. Além do preconceito por se relacionarem de uma maneira mais “aberta”, mulheres como Bianca ainda precisam enfrentar a forma machista como algumas pessoas encaram esses tipos de relacionamento. Parte considerável da sociedade ainda vê duas mulheres juntas como algo erótico, fruto de uma decepção amorosa com um homem ou uma oportunidade para o sexo masculino ter à sua disposição duas mulheres. Mesmo com oposições, a diversidade sexual sempre irá existir. Comportamentos além da homossexualidade ou heterossexualidade não se restringem à sociedade atual. Eles sempre existiram, mas em muitos contextos, tiveram que ficar confinados ao privado. “A internet e redes sociais têm tornado o privado público”, afirma Sheyna Vasconcellos. “Hoje, as pessoas sentem mais a vontade para se manifestar e se relacionar abertamente”.

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Com discussões mais abrangentes, muitos acreditam que um futuro com menos enquadramentos está se construindo. Mas será possível existir uma sociedade sem categorias para opção sexual? Para Gilmaro, não estamos no caminho para o fim das categorias, pois elas conferem um lugar de pertencimento aos indivíduos. O que existirá é uma espécie de flexibilidade e ampliação dessas classificações. “Sexualidade é uma língua, cada um fala a sua”.


texto Hury Ahmadi e Tiago Sousa foto Thamires Tavares/Labfoto

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Decifraudando a cidade

Salvador na voz de Riachão

revista fraude:

Salvador sempre

foi uma cidade de desigualdades.

Elas seriam as mesmas hoje?

Riachão: Hoje o pobre é rico. Porque no meu tempo, era uma pobreza que não tinha tamanho. Naquele tempo, era casa de bofetão e adobo. Chamava-se casa de bofetão porque pegava o bolo de barro e “bufo”! Juntava todo mundo e fazia a parede. Era isso a pobreza daquele tempo, mas tinha uma riqueza que era o coração. A diferença hoje é a falta de amor. Não quero generalizar, porque ainda tem muita gente boa em cima da terra. Era uma coisa linda a pobreza do passado. Os negociantes traziam o pão, o leite, a carne e penduravam em nossa porta, em todas as casas da pobreza. Eu ficava brincando na rua quando os homens chegavam. texto Camila Hita de Aguiar e Lucas Amado Gama fotos Tayse Argôlo/Labfoto

Até que ponto a crescente sensação de falta de segurança restringe as possibilidades de encontro?

Aos 92 anos, Riachão segue cantando e compondo sambas. Suas mais de 500 músicas retratam episódios e figuras do dia a dia de Salvador. Através delas, é possível reconstruir parte da história da cidade. Como um personagem, ele era o malandro – e permanece assim. Vivia fora de casa. Agora, pouco sai. Fiel ao seu discurso, costuma contar os carros que passam à noite pelo Garcia, bairro onde nasceu e sempre morou.

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A humanidade não pode viver sem aquela alegria de conversar em uma praça. Hoje a mesma alegria, a mesma vontade de se distrair continua, mas você sai e não sabe se volta. O que tem passado na TV não está de brincadeira! O mais seguro é quando vai para a casa de um amigo ou da família. É uma coisa triste você ver sua casa toda trancada, cheia de gra-


Riachão na sacada de casa, de frente para o Garcia, bairro onde mora desde que nasceu. Abaixo, de sua varanda, Riachão vê a cidade

Era uma coisa linda a pobreza do passado

de! Antigamente, amanhecia-se o dia no passeio. Eu fui o maior cachaceiro dessa terra, mas fui um cachaceiro de linha, só para o bem: cantar, levar alegria. O povo passava, via o camarada ali e seguia seu caminho. Quando se trata de mudança, eu lhe digo: a vida é essa mesma. A palavra aqui é desenvolvimento. Só que, nesse desenvolvimento, aparecem coisas desagradáveis.

a diferença hoje é a falta de amor

E quanto ao desenvolvimento dos meios de transporte? Como o avalia ao longo desses anos? Olha o tamanho da Bahia e o que está crescendo. No meu tempo, além do burro, tinha o bonde. Era um sofrimento, tínhamos que terminar o percurso a pé. E hoje tem o ônibus. Melhorou! Mas, do ponto de vista de transporte, está muito longe. Nêgo está andando a pé e está chegando mais rápido. Seria uma beleza andar de carro, chegar rápido, em paz. O trabalhador quer o carro para ir para seu trabalho, sua empresa. Eu ainda não comprei meu carro. Você também ainda não comprou o seu e está ansioso para comprar. Aí, vai piorando. O metrô? Qual o governo que vai terminar o metrô, eu não sei. Temos os estudos, mas nada de sair. Que vai ter, que vai sair, galinha assada... Eles fazem as coisas na base do interesse.

Salvador é conhecida como um lugar de encontro das religiões. Haveria um motivo especial? E na prática, como se dá essa mistura religiosa? Aqui no nosso querido Brasil, não tem guerras de religião. Candomblé, católico, crente, espírita... vive tudo em paz. Eu sou católico, mas não sou fanático do catolicismo por causa de coisas erradas dentro da Igreja. Eu falo que hoje minha religião é a terra, o céu, a Lua, as estrelas, o Sol, o trovão, o relâmpago. Esse vento maravilhoso. Apesar da raiz do candomblé, eu como tudo, acarajé e abará, pois vem da terra. Qualquer um pode fazer dentro de casa, é só aprender. A Bahia vive em liberdade. Essa é a questão: cada um faz o que bem entende. Tem o lado positivo e o negativo nisso. É como eu digo em uma música: cada macaco em seu galho. Eu estou no meu galho.


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