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´ CASPER 23 Janeiro, fevereiro, março e abril de 2018

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Roberto Schmidt, Dirceu Lemos, Cândida Almeida e Julio Cesar Fernandes, os professores da nova especialização em transmídia da Cásper em 2018

DIVERSIDADE: Como a comunicação demorou para perceber que o mundo mudou E MAIS: Os 5 anos da LAI, a Oficina Tipográfica, a TV Quase e a arte para quem não vê


´ CASPER ISSN 2446-4910

FUNDAÇÃO CÁSPER LÍBERO PRESIDENTE

Paulo Camarda

SUPERINTENDENTE GERAL

Sérgio Felipe dos Santos

FACULDADE CÁSPER LÍBERO DIRETOR

Carlos Costa

REVISTA CÁSPER NÚCLEO EDITORIAL DE REVISTAS COORDENADORA DE ENSINO DE JORNALISMO

Helena Jacob

EDITOR-CHEFE

Eduardo Nunomura EDITORES

Guto Martini e Rafaela Artero CONSELHO EDITORIAL

Helena Jacob, Joubert Brito, Marcelo Rodrigues, Patrícia Salvatori, Roberto D’Ugo e Sonia Castino REPORTAGEM

Bruna Somma, Carolina Moraes, Gabriel Seixas, Giulia Gamba, Guilherme Guerra, Guto Martini, Henrique Artuni, Julia Gravalos Benini, Letícia Sé, Maria Vitória Ramos, Paula Calçade, Pedro Garcia, Rafaela Artero e Sofia Demarchi COLABORADORES

Cândida Almeida, Heitor Ferraz Mello e João Alexandre Peschanski EDITORA DE ARTE E FOTOGRAFIA

Luana Jimenez

PROJETO GRÁFICO

Giulia Gamba

DIAGRAMAÇÃO

Guilherme Guerra, Henrique Artuni e Luana Jimenez REVISÃO

Cristina Almada e Thiago Bio NÚCLEO EDITORIAL DE REVISTAS Avenida Paulista, 900 – 5º andar 01310-940 – São Paulo – SP (11) 3170-5874/5814 revistacasper@casperlibero.edu.br revistacasper.casperlibero.edu.br

UMA EDIÇÃO DIVERSIFICADA Diversidade é um dos principais ingredientes para fazer uma revista. Significa, no jargão jornalístico, fascinar o leitor com um leque de assuntos interessantes e uma beleza visual em suas páginas. É um contrato renovado a cada edição. A revista CÁSPER assume esse compromisso mais uma vez. Por ser temática, porque trata exclusivamente do universo da comunicação, há o desafio constante de apresentar novos e variados conteúdos. Este desafio se materializou na reportagem de capa, em que tratamos do tema da transmídia. As histórias, para serem bem contadas, não podem mais se limitar a uma só mídia, a uma só plataforma. O storytelling, que inspirou a produção de um belo infográfico neste número, é hoje uma realidade para os comunicadores. A edição apresenta ainda jornadas distintas no campo audiovisual, que vai de uma criativa série para internet feita por casperianos, da TV Quase que “quase” abarca o mundo com múltiplas produções até a combativa TVT, uma pequena emissora feita por e para os trabalhadores. Não nos descuidamos de diversificar as pautas, falando da Oficina Tipográfica, uma ourivesaria que preserva a cultura gráfica no Brasil, e também dos cinco anos da Lei de Acesso à Informação, que revolucionou o jornalismo brasileiro. E já que o assunto é diversidade precisávamos falar dela, a própria diversidade. Como a comunicação tem abordado essa questão? Com essa pergunta em mente, o diversificado time de repórteres e editores da CÁSPER produziu um panorama dos quatro ramos comunicacionais. O retrato não é dos melhores, mas a evolução já se faz sentir. Em vez de vilã, a publicidade com suas peças que mobilizam milhões tem procurado abrir espaço para o diferente e as minorias. Há progressos também nas produções de rádio e TV, e o jornalismo já percebeu que precisa fazer a lição de casa dentro das redações. Boa leitura - ou deveríamos dizer “boas histórias”?

EDUARDO NUNOMURA

Editor-chefe

CAPA

Henrique Artuni IMPRESSÃO E ACABAMENTO

Eskenazi Indústria Gráfica CC

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BY

Se não houver um © explicitado, você pode copiar, adaptar e distribuir os conteúdos desta revista, desde que atribua créditos

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SUMÁRIO 6

:: POR ONDE ANDA ::

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:: POR CONTA PRÓPRIA ::

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O trabalho home office da publicitária Raquel Andrade

Empreendedores inovam para se reinventar na carreira profissional

:: BITS & BYTES ::

O uso da inteligência artificial para a comunicação

10 :: FEITO A MÃO ::

Um guia de etiqueta para não fazer feio nas mídias sociais

13 TIPOGRAFIA

Uma oficina em São Paulo preserva a cultura tipográfica

18 TVT

A televisão de e para trabalhadores resiste a dificuldades

20 TV QUASE

O canal de humor na internet tem agenda cheia em 2018

24 ALAMEDA LACUNA As histórias da ficção que não contam finais felizes

26 TRANSMIDIÁTICOS

Professores da Faculdade Cásper Líbero debatem sobre o conceito de transmídia

38 DIVERSIDADE

NA COMUNICAÇÃO

54 PORTFÓLIO O Brasil segundo as fotografias de Maureen Bisilliat

O tema está na boca do povo e também na dos comunicadores

44 LAI

Jornalistas comemoram: Lei de Acesso à Informação completa 5 anos

48 ACESSIBILIDADE

Deficientes visuais ganham uma chance de sentir uma obra de arte

52 :: GIRO PELO MUNDO ::

O que está acontecendo na comunicação ao redor do globo

58 CASPERIANAS 60 RESENHAS 62 :: PARA SABER MAIS :: 32 STORYTELLING

Um passo a passo de como contar uma boa história


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POR ONDE ANDA

Em qualquer lugar ::: PROPAGANDA ::: Experiente e dona de uma rica trajetória, publicitária casperiana não perdeu o interesse em se renovar e continuar estudando

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aquel Andrade tem descoberto lugares agradáveis para trabalhar em São Paulo. “Bibliotecas e cafés, por exemplo, são ótimos para tocar um projeto ou desenvolver uma ideia”,

contou a casperiana enquanto conversávamos em uma tarde de outubro no Reserva Cultural, na Avenida Paulista. A publicitária está na Lent/Ag, mas não precisa bater ponto, nem tem horário fixo. Pode fazer tudo em home office. É uma forma de reduzir custos para a jovem startup de comunicação e, ao mesmo tempo, dar mais liberdade para os colaboradores. Ela, no caso, atende os projetos paulistas da agência, que está fixada no Rio de Janeiro. Formada no curso de Publicidade e Propaganda da Cásper Líbero no ano de 2002, Raquel conseguiu a primeira oportunidade de trabalho de uma forma inusitada. Ao entrevistar para a extinta Revista Propulsão o então vice-presidente de planejamento da Ogilvy Brasil, ela descobriu que havia um programa de estágio. Mesmo no 2º ano, decidiu arriscar. Conseguiu a vaga, foi efetivada e ficou mais de dez anos por lá. Depois, marcou presença em outras gigantes, como Isobar, DM9DDB e Talent Marcel. Com 16 anos de carreira em atendimento, a publicitária sente uma mudança na qual os novos modelos de agência e as butiques criativas estão se sobressaindo com ideias e projetos inovadores. Para não perder o fôlego criativo, Raquel vive se matriculando em cursos dos mais variados, de MBA em Estratégia e Gestão à Filosofia. “E ainda quero estudar mais. O que me mantém viva é essa vontade de aprender e estar alerta a um mundo inteiro que pode ser conquistado”, afirma. (Guto Martini)

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HENRIQUE ARTUNI

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POR CONTA PRÓPRIA

Ideias de ouro ::: DIGITAL ::: Empreendedores usam a criatividade para mudarem suas vidas POR RAFAELA ARTERO

Um “coach” de texto Com a necessidade de reinventar a função do jornalista e buscar novas formas de ganhar dinheiro na área, o escritor Ferdinando Casagrande lançou o Editor Express, plataforma na web que se autodenomina “o primeiro coach de texto na internet brasileira”. O serviço oferece revisão e edição de texto para pessoas que não são profissionais da área da comunicação. A contratação do serviço ocorre pela web e promete entregar a revisão e/ou edição em até dois dias úteis. Um texto revisado de 6,3 mil caracteres sai por 74 reais e um editado, do mesmo tamanho, 230 reais.

HELPIE - O aplicativo facilita a contratação de autônomos de diversas áreas. Lá é possível contratar professores, tradutores e até Papai Noel. É cobrado um valor de 12% a 15% do pagamento do serviço do profissional. WORKANA - Contratantes criam um projeto e freelancers procuram trabalhos pelo app. Difícil é achar quem pague bem. Um job para escrever num blog de saúde valia menos de 160 reais para um texto de até dois mil caracteres. 99FREELAS - Segue a mesma lógica do 99Táxi: junta o cliente (contratante) e o profissional (freelancer). Quem pagar 29,90 reais por mês pode apresentar a proposta de trabalho antes de quem entrou gratuitamente.

Publicidade mobile Foi a partir do conceito de computação ubíqua (ela está presente em todos os lugares) que André Ferraz e quatro amigos da Universidade Federal de Pernambuco criaram a In Loco Media, uma empresa de publicidade mobile georreferenciada. O celular, como o belo dedo-duro que é, diz quais são os locais frequentados e marcas consumidas em ambientes fechados. Daí, chega uma publicidade ao “gosto” do cliente.

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BITS & BYTES INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

DIVULGAÇÃO

E aí, Robô?

POR GUILHERME GUERRA

:: O FUTURO CHEGOU :: Equipamentos que respondem a nossos comandos serão cada vez mais comuns Ainda não é nada como Rosie, a empregada-robô do desenho Os Jetsons, mas a aposta é que em 2018 as famílias já estejam acostumadas com um robôassistente em casa. São aparelhos fixos com poderosas caixas de som e microfones embutidos para interação. Os maiores concorrentes são o Amazon Echo, da gigante do varejo, e o Homepod, da Apple. E há quem queira inovar: iniciativa de crowdfunding tirada do papel, o Jibo é um robô com carinha simpática, mas com comandos bastante limitados. A inteligência artificial (na abreviação, a IA), ao que tudo indica, veio para ficar. Um jornalista robô

Desde as Olimpíadas no Rio 2016, o Washington Post é pioneiro em inteligência artificial. O robô da redação, o Heliograf, já escreveu mais notícias do que muito jornalista por aí: foram mais de 800 pequenas notas informativas. Nem parecem escritas por um robô. O Post tornou-se referência desde a aquisição do jornal por Jeff Bezos, o CEO da Amazon. Baristas virtuais

Os assistentes virtuais facilitam até na hora do café. O My Starbucks Barista é uma funcionária virtual da famosa cafeteria que interage no estilo da Siri ou Cortana (assistentes pessoais do iOS e do Windows 10). Basta falar com o robô pelo smartphone e buscar a bebida minutos depois na loja mais próxima. Nos Estados Unidos, é claro. RH 2.0

Para quem trabalha com SAC 2.0 ou Social CRM, responder mensagens pode ser uma tarefa cansativa. Há alguns anos, automatizar essa tarefa era o maior crime que se poderia praticar. Mas com o aperfeiçoamento da inteligência artificial, o consumidor pode nem perceber que está falando com um robô.

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FEITO À MÃO

por Luana Jimenez

Os macetes nas redes :: BONS MODOS :: Para quem quer criar uma persona bacana nas mídias sociais, há um caminho de pedras bem acidentado

NÃO FAÇA : Flood

Não publique muito em um mesmo dia. Você quer se divulgar, claro, mas não canse o público. Evite agendar publicações no Facebook: o feed de notícias não prioriza posts agendados.

Foco

Uma mesma postagem não serve para as diferentes redes sociais. Conheça

como cada uma funciona para gerar mais engajamento. No Facebook, Twitter ou Instagram, a vida útil de uma publicação varia de minutos a dias, com diferentes horários de pico.

Não exclua

Errou, errou. O público sempre saberá se algo foi apagado, e provavelmente terá prints do conteúdo retirado do ar. Procure o profissional de Relações Públicas para remediar.

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FAÇA:

TEXTO: GUILHERME GUERRA

Tenha voz

Planejar uma brand persona ajuda a se destacar da concorrência. Um bom personagem ou apelido cativante são as maneiras mais refinadas. Mas passos simples, como uso de gírias, memes e interação com o público também fazem diferença.

Explore

O Facebook tem as reações, o Twitter possui enquetes e o Instagram, stories. Que tal explorar essas novas ferramentas?

Humanize

Estreite a relação com o consumidor ao

mostrar quem são seus funcionários e clientes. Agradeça aos consumidores e eduque seu público. Ou seja: destaque-se e compartilhe a cultura da sua marca.

Monitore

As ferramentas de monitoramento

são cada vez mais comuns, baratas e eficientes. Com um bom relatório, dá para saber qual a tendência do público, prever crises e analisar a concorrência.

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A R T ECSH G AR PÁ ÉF UI C A S

O ESPAÇO DAS PEQUENAS I HATE FLASH

Feira Plana se consolida entre editoras alternativas das artes gráficas, mas ainda busca formar um mercado consumidor POR PEDRO GARCIA

AS PUBLICAÇÕES mais audaciosas do mercado buscam a simbiose entre literatura e artes visuais. Houve um tempo em que a extinta Cosac Naify reinava absoluta. Mas selos como Companhia das Letras, Darkside e Zahar não deixaram de ser reconhecidos pela qualidade de suas edições. Um exemplo é Medo Clássico, o primeiro volume de uma coletânea de contos com o escritor H.P Lovecraft, um dos últimos lançamentos da Darkside. Mas publicar por estas editoras é para poucos. Só que para uma legião de bons autores já existe um mercado alternativo que por conta própria, muitas vezes artesanalmente, edita obras independentes e de um impacto visual comparável aos melhores títulos das grandes editoras. Beatriz Bittencourt é uma dessas escritoras que fazia suas próprias publicações sem precisar da ajuda de um selo consagrado. Em 2011, visitou a NY Art Book Fair, a maior feira de arte gráfica do mundo. Ficou encantada com o formato do evento, que até então desconhecia. Acostumada a colocar a mão na massa quando o assunto é livro, a escritora decidiu pro-

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mover uma feira nos mesmos moldes da que conheceu em Nova York. Os preparativos começaram no ano seguinte, quando voltou ao Brasil e lançou propostas a diversos museus e centros culturais. Depois de quase 15 rejeições, finalmente apareceu um “sim”, do Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. Para a estreia, ela convidou amigos que produziam arte gráfica e algumas editoras. E, assim, nasceu a primeira Plana Festival Internacional de Publicações de São Paulo. De lá para cá, o evento só cresceu. A quinta edição, em março de 2017, aconteceu na Bienal do Ibirapuera com 250 expositores e 22 mil visitantes. Muitos selos alternativos, segundo Beatriz, só vendem seu catálogo nas feiras. Por ser um mercado tão segmentado, editoras médias e pequenas aproveitam da Feira Plana para criar e cativar um público consumidor. “A Feira Plana foi uma espécie de marco zero para o mercado de independentes”, afirma João Varella da editora Lote 42. Daniela Utescher, da Ugra Express, livraria e editora com catálogo focado em histórias em quadrinhos,

considera importante um calendário de feiras por serem uma oportunidade única para divulgar o trabalho de autores independentes. Ela participa desde as primeiras edições da Plana e da Miolos, outra feira do gênero que ocorre na Biblioteca Mário de Andrade. Para Daniela, esses eventos servem ainda para ter encontros entre produtores, nas quais podem trocar experiências. Porém ainda há um longo caminho para a sustentabilidade deste segmento. Há um público crescente, mas faltam consumidores vorazes dispostos a desembolsar algumas dezenas de reais pelas obras. E muitas dessas editoras enfrentam dificuldades na hora de fechar o caixa, inclusive a própria organização. Beatriz conta que apesar de editoras de médio porte terem vendido mais de 10 mil reais na feira, a Plana fechou o ano no vermelho em 100 mil reais. Em 2018, a feira independente vai diminuir de tamanho, ocorrendo na Cinemateca Brasileira, nos dias 23, 24 e 25 de março. Na sexta edição, o mote é “volta ao nada”, claramente uma autocrítica niilista sobre o fazer artístico. @


BASTIDORES

A OLD SCHOOL DA TIPOGRAFIA Uma ONG preserva o modo de impressão em tipos móveis para experimentar novas experiências na linguagem visual TEXTO: GUTO MARTINI FOTOS: AFONSO MARANGONI

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O CHEIRO ANTIGO DAS MÁQUINAS compete com o da tinta. Entrar na Oficina Tipográfica São Paulo é como dar um mergulho no passado, com a diferença de que estamos perto do fim da segunda década do século XXI. E já se passaram mais de 550 anos desde a invenção de Gutenberg e mais de dois séculos desde que a primeira gráfica chegou ao Brasil, em 1808. Nos fundos de uma espaçosa sala do Senai Theobaldo Nigris, escola especializada em tecnologia gráfica, quatro nada saudosistas artistas da impressão usam o conhecimento construído por gerações para propor novas experiências na linguagem visual. A Oficina Tipográfica é uma organização não-governamental (ONG) voltada para a investigação e pesquisa dessa maneira, digamos, old school de se compor produtos gráficos. Vai de jornais, revistas, livros a folhetos e cartazes. “Procuramos estabelecer um diálogo entre o passado analógico e as técnicas digitais contemporâneas, propondo um hibridismo de linguagem ao compor uma peça”, explica Marcos Mello que, no final dos anos 1990, juntou-se a Claudio Rocha para fundar a ONG. Em 2004, eles iniciaram uma parceria com o Senai e, desde então, a oficina funciona nas dependências da escola, próxima ao metrô Bresser-Mooca, em São Paulo. Esse diálogo passado-futuro é construído, literalmente, peça por peça, nos chamados tipos móveis. Uma página de um impresso, por muito tempo, foi composto manualmente tipo por tipo, linha por linha. Os tipos eram organizados em caixas segmentadas e adequadas de acordo com a língua e cultura, cada letra ou sinal tinha seu espaço. No caso da língua portuguesa, a que mais se aproximava era a francesa, em que todas as letras maiúsculas ficavam dispostas no alto da caixa e as minúsculas na parte de baixo. Então agora você sabe por que “caixa alta” e “caixa baixa” são termos que se referem às letras maiúsculas e minúsculas. Em suas oficinas, os tipógrafos realizavam um trabalho artesanal se comparado aos padrões da tecnologia de hoje. Todas as publicações impressas, incluindo esta revista CÁSPER, não usam mais a composição com tipos móveis. Basta mandar um arquivo digital para a gráfica e a impressão é feita por uma poderosa máquina offset. Mas foi dentro desse modelo de oficina que a tipografia se consolidou e desenvolveu seus princípios fundamentais. Ao longo dos anos, ocorreram adequações e transposições com a incorporação das novas tecnologias. Porém, até o sistema digital acaba simulando o analógico. A palavra tipografia vem do grego typos (“forma”) e graphein (“escrita”). Os tipos móveis surgiram na China por volta do século XI, mas por possuir um alfabeto mais complexo eles não se expandiram rapidamente. Foi na Alemanha, em 1455, que Johannes Gutenberg transformou uma prensa de tipos móveis de metal na primeira produção tipográfica em escala industrial. 14

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Na oficina, um texto é composto tipo por tipo, linha por linha. Pode parecer trabalhoso, mas essa é a rotina do designer Luy Albino (foto ao lado) e de Marcos Mello, um dos fundadores da OTSP (última foto). As imagens da página seguinte mostram parte do processo: a composição, com os tipos organizados na régua e a impressão. Há ainda a distribuição, que consiste na arrumação metódica das peças utilizadas. Cada letra deve voltar para seu espaço correto na caixa.

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Inventou a imprensa e revolucionou a comunicação. A maioria dos tipos (“fontes”) que você vê no computador existem há séculos. A Fraktur foi usada por Gutenberg em 1455. A Garamond nasceu em 1532, a Baskerville em 1760 e a Times New Roman, encomendada para ser o tipo do jornal inglês The Times, é de 1932. “Não olhamos para o passado de forma estática ou apenas nostálgica. A ideia é reaproveitar esse material, ressignificando-o para a linguagem gráfica de hoje”, afirma Marcos. A tipografia deu seus saltos do mesmo jeito que a fonografia evoluiu ao ir dos antigos vinis até chegar ao modelo atual de streaming. Assim como há aqueles que enxergam no revival da “bolacha” um modo de reabsorver particularidades sonoras especiais do som analógico, existem os que encontraram na técnica das antigas oficinas um meio de explorar a linguagem de uma maneira criativa e artistica. O objetivo dos sócios da Oficina Tipográfica passa longe de competir com a tecnologia contemporânea. Os sócios não estão focados em funcionar como um comércio. A ideia é ser um laboratório. No modelo de oficina tipográfica, a ranhura dos materiais, a entintagem e alguns elementos consequentes da interferência humana são imperfeições que podem ser incorporadas ao processo da composição. Cria uma autenticidade que, no meio digital, vale ouro. Para montar a oficina, mais de duas décadas atrás, foi necessário empreender um verdadeiro garimpo. Todas as peças e máquinas que compõem o acervo - salvo poucas exceções - são materiais antigos. Há muito tempo deixaram de ser fabricados. Dessa maneira, para conseguir o maquinário (como o linotipo e a prensa móvel) a dupla teve de procurar até em tralhas descartadas por donos de oficinas desativadas. Não raro, esses materiais tão valiosos no passado foram reduzidos a sucatas ou tiveram seus componentes derretidos a fim de serem reaproveitados para outros objetivos. Com a parceria com o Senai, Marcos e Claudio puderam explorar ainda mais as possibilidades gráficas ao juntar seus equipamentos com os da instituição. Hoje, a equipe de tipógrafos é formada pelos sócios e mais dois colaboradores: o artista gráfico Gabriel Miranda e o designer Luy Albino. Entre linotipos, ludlow machines, prelos e tipos dos mais diversos, a Oficina Tipográfica se empenha em um programa que se caracteriza por preservar o material e a memória tipográfica, servindo como um acervo prático de peças históricas. Outra tarefa é experimentar, na prática, as possibilidades artísticas a partir desses materiais e, por fim mas tão essencial quanto o resto do trabalho -, compartilhar a reunião de todo esse conhecimento por meio de cursos e outros projetos. Quanto a essa última proposta, inclusive, a oficina criou uma unidade móvel para não limitar sua atuação apenas ao espaço fixo dentro da escola. Dessa maneira, os cursos e atividades desenvolvidos pela equipe se deslocam para outras cidades e até mesmo outros estados. @ 16

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INTERNET

QUANTO CUSTA SEU MEME? O que pode parecer só brincadeiras na internet já ganhou um mercado de ações fictício POR CAROLINA MORAES E GUILHERME GUERRA O Brasil é um famoso exportador de memes. A Cuca, personagem de Monteiro Lobato, viralizou nas redes sociais dos Estados Unidos. Nazaré Tedesco, uma das maiores vilãs das televisão brasileira, ilustrou memes com o rosto de Renata Sorrah fazendo uma complicada conta matemática. Essas imagens não circulam lá fora por acaso. Um mercado de ações fictício da internet chamado de MemeEconomy, fórum criado pela plataforma Reddit, catapulta à fama mundial personagens conhecidos apenas nos países de origem. Nele, a principal moeda são os comentários. Os brasileiros têm se destacado, que liberam pacotes de GIFs com caras e bocas de rostos conhecidos. A atriz e cantora Gretchen foi descoberta neles e viralizou. Ótimo para ela, que em seguida recebeu um convite para estrelar um videoclipe da popstar Katy Perry. A onda memética é levada tão a sério que até uma ferramenta de negociação chamada NASDANQ foi criada. @

COMO FUNCIONA A NASDANQ? 1) Alguém determinou que o meme vale a pena ser compartilhado? Se sim, então ele já pode participar da NASDANQ 2) Dentro do mercado, quanto mais curtidas, maior o valor da “ação” do meme, que acaba ganhando uma das seguintes “cotações”: • penny stocks (memes não muito populares, com baixo valor) • memes baseados em textos • memes baseados em imagens

O QUE MAIS VALORIZA UM MEME? Compartilhamentos. Antes os memes circulavam só pelo e-mail, mas agora também conta se ganham repercussão nas redes sociais, como Instagram, Facebook, Whatsapp e Tumblr

MUTATIS MUTANDIS A tendência de uma piada ressurgir nas redes sociais, e até ganhar outros sentidos, é enorme. A vida útil de um meme depende da criatividade das pessoas

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DIVULGAÇÃO

TELEVISÃO

A TV DO PEÃO DE FÁBRICA TVT, a primeira emissora brasileira dos trabalhadores, supera obstáculos desde 2010 POR GUILHERME GUERRA UM PRÉDIO COMERCIAL localizado no centro de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, passa despercebido na estreita rua de mão única. Mas ali 95 funcionários são capazes de dialogar com 120 mil espectadores em horário nobre. Parece pouco, e é, mas para a pequena emis-

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sora de TV o 0,6 ponto de audiência no ranking geral da Grande São Paulo e a 8ª posição no estado inteiro representam uma suada vitória. Desde 2010, a TVT encarna a figura de um David contra vários Golias. TVT vem de TV dos Trabalhadores e é bancada pelos Sindicatos dos

Metalúrgicos do ABC e dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região. “Toda mídia tem lado. E o nosso lado é do trabalhador”, afirma o diretor de jornalismo, Luiz Parise. A emissora é fruto de uma luta de mais de duas décadas. Nasceu primeiro como produtora em 1986. Após ne-


gociações com donos de emissoras em Mogi das Cruzes e São Caetano do Sul, a frequência do sinal (canal 44 no sinal aberto) foi outorgada pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva em outubro de 2009. “Foi um processo muito, muito difícil”, lembra Antônio Jordão Pacheco, que acompanha o projeto desde a década de 1980 e é hoje diretor da programação do canal. A batalha por conquistar um espaço na frequência em megahertz, para a transmissão, já demandou muitas idas e vindas a Brasília, junto ao Ministério das Comunicações. Mas a guerra tem sido encontrar um lugar ao Sol em um país onde a concentração de audiência soma 70% entre os quatro maiores conglomerados de mídia televisiva do país (os grupos Globo, Silvio Santos, Record e Bandeirantes). Os dados são de um estudo publicado em outubro de 2017 pelo coletivo Intervozes em parceria com a organização internacional Repórter Sem Fronteiras. Intitulado Media Ownership Monitor: Brazil (Monitoramento de Propriedade de Mídia, em tradução livre), o documento não mostra o pequeno David entre os gigantes da programação nacional. Sem publicidade e com parcerias de

conteúdo com a TV Brasil, a TVT recebeu apenas quatro anúncios do governo federal em 2016 - que rendeu 227,6 mil reais, segundo dados da Secretaria de Comunicação da Presidência da República. A TV Cultura, mantida com recursos públicos do governo estadual, recebeu 2,5 milhões de reais. Embora ambas sejam mantidas por entidades sem fins lucrativos (as fundações Sociedade Comunicação Cultura e Trabalho e Padre Anchieta, respectivamente), a emissora do ABC não mira na Cultura. Ideologicamente, ela se vê como “concorrente” da poderosa Globo. Parise, funcionário na TVT desde 2010 (após passar pela TV Senac e Globo Esporte), garante que mantém a qualidade da emissora do Jardim Botânico mesmo que com menos audiência, financiamento e equipe. Sob seu comando, desburocratizou o principal telejornal do canal, o Seu Jornal, que possui apenas 5 equipes (com um repórter, cinegrafista e produtor em cada) espalhadas entre São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Em estúdios diminutos e durante 45 minutos ao vivo, as notícias do dia são apresentadas de forma didática e focadas nas minorias sociais e econômicas. É regra falar para e com o brasileiro comum – e o

título do programa reforça isso. Em uma reportagem sobre a reforma da Previdência, o rombo das contas fiscais é apenas um dos panos de fundo. A abordagem foca no impacto que a proposta terá na vida do trabalhador. As maiores cabeças da TVT são dos principais quadros do Partido dos Trabalhadores (PT), mas tanto Jordão quanto Parise garantem que não há censura ou aparelhamento por parte dos sindicalistas. Mesmo que a contragosto dos chefes os jornalistas noticiam projetos de lei e manifestações de outros partidos da esquerda, como o Partido do Socialismo e Liberdade (Psol). O objetivo é abrir espaço para uma diversidade ideológica em contraponto a um discurso monotemático praticado pelos Golias da imprensa. “A TVT é diametralmente oposta à grande mídia”, diz Jordão. No vocabulário dos sindicatos e partidos de esquerda, grande mídia refere-se a grupos midiáticos que concentram a publicidade e audiência. “A grande mídia nunca tratou os trabalhadores de uma maneira respeitosa e sempre demonizou esses movimentos.” Com um tom de voz orgulhoso e ao mesmo tempo solitário, Jordão acrescenta: “Só nós estamos fazendo isso.” @

GUILHERME GUERRA

GUILHERME GUERRA

Produção da televisão dos trabalhadores faz os programas com poucos recursos, porém tenta manter a qualidade

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P R O D U Ç Ã O D I G I TA L

QUASE L Entre a internet e grandes emissoras televisivas, o grupo por trás do canal TV Quase imprime seu humor e repensa formas de produção no audiovisual POR CAROLINA MORAES E GUILHERME GUERRA NÃO É FÁCIL REUNIR todos os membros do canal TV Quase – nem tocar uma entrevista com cinco comediantes. Quando não estão produzindo vídeos para os mais de 78 mil inscritos no YouTube, Daniel Furlan, Juliano Enrico, Caito Mainier, Leandro Ramos, Raul Chequer e David Benincá são as cabeças por trás de projetos que rejuvenescem a comédia brasileira. No começo de outubro, quando o grupo se reuniu em São Paulo, sem a presença de David que vive no Rio de Janeiro, os integrantes dividiam suas atenções entre a primeira animação brasileira produzida pelo Cartoon Network, Irmão do Jorel, e o lançamento do novo queridinho da TV paga, o talk-show de Tatá Werneck, Lady Night. Meses antes, outros projetos de cacife estavam rolando: Adnight, programa da Globo com Marcelo Adnet; Samantha, a primeira série de comédia brasileira da Netflix, a ser lançada em 2018; e participações em longas-metragens de importantes distribuidoras brasileiras como a Paris Filmes. Se esses projetos são os que garantem sustento financeiro, a TV Quase é o espaço de criação de um projeto autoral que extrapola o espaço da internet.

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“Aqui, todo mundo faz tudo”, resume Daniel Furlan, o mais conhecido rosto do grupo. Produzem, roteirizam, dirigem, atuam, editam e cuidam do canal. No programa de maior sucesso, o Choque de Cultura, quatro motoristas de van bem ao estilo “homem chucro” fazem o papel de críticos de cinema e comentam sobre os lançamentos da semana. A partir de uma encomenda do site de notícias e entretenimento Omelete por um programa que falasse de cinema, os comediantes resgataram uma esquete de Caito e Leandro em que criavam personagens motoristas. Rogerinho do Ingá, personagem que apresenta Choque de Cultura, já aparecia em episódios de O Último Programa do Mundo, última produção da falecida MTV. O denominador comum dessa porosidade de programas que transitam entre TV e internet é a autoria que imprimem em todos eles. O clima de reencontro em um domingo à tarde, o único dia possível para se verem em uma rotina dessas, mostrava o bom relacionamento de um grupo que se conhece há

mais de uma década. Apesar de ainda distante do audiovisual, a primeira produção de Daniel, Raul e Juliano levava o nome Quase e já era, sem que quisessem, uma peça de comédia. Os quadrinhos do zine, produzido em 2002, brincavam com seu próprio universo. Durante a graduação em Comunicação na Federal do Espírito Santo, a publicação impressa foi pontapé para Raul, Daniel e Juliano arriscarem as primeiras esquetes de humor. Não era consenso: “Ele [Daniel]


GUILHERME GUERRA

Caito Mainier e Daniel Furlan em gravação de mais um vídeo da TV Quase

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GUILHERME GUERRA GUILHERME GUERRA

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GUILHERME GUERRA

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tinha prazer em carregar uma mala de 500 quilos com revistas que ninguém comprava”, brinca Raul sobre a resistência do colega em começar as produções audiovisuais. Talvez as experiências anteriores na área contribuíssem para a desconfiança. “Se você não é filho de um milionário que nasceu estudando fora, começa no audiovisual fazendo filmagem de festa de 15 anos. Foi essa a nossa formação acadêmica”, comentou Caito. As filmagens de festa de formatura ao som de Capital Inicial e Jota Quest e de abertura de prédios à beira-mar com nomes como Beverly Hills aumentavam a resistência de Daniel ao audiovisual. Mas mais que isso: a famosa plataforma de vídeos que movimentou aproximadamente 25,6 bilhões de dólares no ano passado só surgiria três anos depois e mudaria radicalmente as possibilidades de produção e circulação de projetos audiovisuais. Era o surgimento do YouTube, o passe de entrada para os estúdios televisivos anos mais tarde. “Na época, a internet não era um caminho óbvio”, diz Juliano Enrico, relembrando o nascimento da Quase. Celebridade era sinônimo de ator de novela, apresentadora de programa infantil ou cantor de programas dominicais. Mas, uma década depois, a TV absorve talentos e rostos já conhecidos nas redes para impulsionar sua programação. Seja em canal pago ou aberto, as emissoras possuem um modus-operandi para manter seus funcionários. No currículo, eles registram passagens pela TV Globo, MTV Brasil, Multishow, Canal Brasil e FX. Com a TV, ganharam o salário que o reconhecimento na internet não gerou. “A TV já é um mercado consolidado”, explica Caito Mainier. No YouTube, quem dita as regras de financiamento é o Google. Um canal de milhões de inscritos pode faturar até 5 dólares a cada mil visualizações, mas somente se o espectador clicar no anúncio ou assisti-lo até os 30 segundos finais. Para um canal com menos de 100 mil inscritos, não dá para viver da plataforma de vídeos.


GUILHERME GUERRA

Da esquerda para a direita: Raul Chequer, Daniel Furlan, Juliano Enrico, Leandro Ramos e Caíto Mainir

E o jeito é buscar parcerias com marcas ou esperar por reconhecimento do público e, consequentemente, dos chefões dos canais de TV. “É importante estar sempre produzindo e vivo na internet”, acrescenta Daniel. O modelo de vídeo da TV Quase é de baixo custo para os padrões televisivos. Um chroma-key, lapelas e câmeras já dão conta de criar uma legião de fãs. Não raro, eram duas pessoas em frente às câmeras e somente uma, responsável pela direção e som direto.

E esse formato é uma versão de baixo custo de outro contemporâneo do YouTube, a também produtora Porta dos Fundos. Depois do estouro na audiência entre 2012 e 2013, o Porta hoje conta com elenco variado, produção de ponta e parcerias com outras marcas, uma forma de merchandising que a produtora carioca dominou ao longo dos anos. Juntos, a TV Quase e o Porta são filhos da internet e alçaram voos maiores ao abrir as portas das TVs paga e aberta para a web.

As maiores referências estão no grupo britânico Monty Python (que também transitava entre os meios disponíveis na época, a TV e o cinema) e na TV Pirata, programa de comédia da TV Globo durante os anos 1980. Mas o humor dos rapazes da Quase é muito mais peculiar ao abordar situações incomuns e não fazer graça para determinados grupos. E a razão é que eles estão sempre tirando sarro deles mesmos. “Como vão dizer que eu não posso me zoar?”, brinca Leandro. @

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AUDIOVISUAL

DIVULGAÇÃO

Casperianos misturam diferentes gêneros em websérie antológica POR HENRIQUE ARTUNI Em cada endereço, uma nova história. É essa a proposta de Alameda Lacuna, websérie idealizada por Lucas Nascimento e Martha Assumpção, casperianos recém-formados de Rádio, TV e Internet. No fim de 2017, em seu segundo ano de vida, a produção ganhou uma nova temporada. Sem se limitar a um só gênero, ela vai de ficção científica a uma trama melancólica. Lucas e Marta estavam no 3º ano, quando participaram da Noite de Kino, uma atividade criativa do Kinofest que prevê escrever, gravar, editar e finalizar um curta em no máximo 24 horas. Daquela experiência, a Esfinge Produções – grupo criado para uma atividade da Faculdade –, nasceu o curta-metragem Selfie com a Múmia. A inspiração natural foram programas antológicos da TV, como Além da Imaginação. Inspirada, a dupla já voltou para casa pensando no argumento para mais dois episódios. Como os enredos são livres, Lucas – cinéfilo e ávido espectador de séries de TV – conseguiu desenvolver em cada episódio uma abordagem de sua preferência. Loveware (uma história de amor futurística) e A Pior Noite do Mundo (um suspense com vampiros brasileiros), os dois primeiros filmes têm argumentos inspirados em Westworld e Sin City. Buscar ideias em outras opções, diga-se, não é raro nesse meio muito influenciado pela cultura pop. Lucas e Marta conseguiram cenários e figurinos capazes de valorizar os roteiros, sem pesar no bolso de ninguém. Apesar de também usar em estúdios e chroma key (fundo verde para aplicação de efeitos), a metrópole paulistana é figura em boa parte dos cenários. Percebe-se bem esse detalhe quando uma rampa de skate da Praça Waldir Azevedo (conhecida como as “Tetas do Mirante”), em Pinheiros, transforma-se num local místico em Réquiem para Júpiter.

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O que começou sendo produzido apenas com amigos e colegas da Faculdade expandiu-se rapidamente, e os criadores passaram a realizar castings em grupos de Facebook. Os aparelhos, como câmeras, luzes, microfones e drones (para realizar planos aéreos), também foram emprestados de conhecidos. Mesmo com a atividade nas redes sociais, Alameda Lacuna conta com poucas centenas de visualizações por episódio. Mas acumula vitórias singulares. O ponto de virada foi participar do Rio WebFest, campeonato internacional de webséries que ocorre no Brasil. A série foi indicada por dois anos consecutivos aos prêmios de Melhor Direção para Lucas, por Réquiem para Júpiter e Loveware, e Melhor Atriz para Giovanna Marcomini e Paula Spinelli, as protagonistas dos episódios. Em 2016, a equipe toda foi para o festival para apresentar o trabalho e participou de uma sessão de perguntas e respostas. Com a abundância de conteúdo na internet, parece difícil emplacar uma produção ficcional. Mas não é impossível. Foi a partir de um piloto em três partes no YouTube que 3% conseguiu se tornar a primeira série brasileira produzida pela Netflix, e a produção distópica que trata da meritocracia virou um sucesso nos Estados Unidos. Nem Lucas nem Martha elegeram a Alameda Lacuna como trabalho de conclusão de curso. Os dois optaram por documentários em curta-metragem. Para 2018, Lucas conseguiu uma bolsa para realizar o curso de Filmmaking na Vancouver Film School, no Canadá, deixando incerto o destino de uma terceira temporada. Segundo ele, há uma gaveta cheia de ideias. Quando voltar, pode ser que consiga enxergar uma Alameda Lacuna ainda maior, em que cada história seja uma viagem pelo universo da ficção. @


CHAPÉU

POR COMUNICADORES PARA COMUNICADORES A Cásper é sinônimo de cultura ,comunicação e atualidades. Sempre com reportagens de grande profundidade, investindo na boa apuração e no debate de ideias.

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revistacasper.CASPERLIBERO.EDU.BR revistacasper@casperlibero.edu.br

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ESPECIAL

UNIVERSO

ERA UMA VEZ... NO REINO DAS MÍDIAS A transmídia sob a ótica de quatro pesquisadores e profissionais da Cásper POR GUTO MARTINI E RAFAELA ARTERO

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FOTOS DE PEDRO CARAMURU


EXPANDIDO

VAMOS CONTAR uma história nesta e nas quatro páginas seguintes. Durante sua leitura, você participará de um universo construído por repórteres e entrevistados. Estamos em uma narrativa elaborada para a mídia impressa, o que significa que sua experiência será baseada nas particularidades deste tipo de plataforma. Texto, fotos e títulos foram pensados para conduzi-lo a uma breve jornada no mundo transmídia. Em termos de linguagem jornalística, estamos oferecendo uma reportagem especial. No entanto, é possível que ao término de sua experiência, queira imergir ainda mais nas questões levantadas. Se for o caso, vamos revelar um segredo: este conteúdo não acaba aqui.

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O que vem a seguir é um bate-papo entre quatro professores da Faculdade Cásper Líbero que darão início a um curso para a pós-graduação lato sensu intitulado Produção, Criação e Gestão Transmídia. Este encontro rendeu um debate que optamos por dividir em duas plataformas: além desta reportagem, haverá uma produção audiovisual que será veiculada no site da Faculdade. Reportagem e produção audiovisual surgiram da mesma fonte, mas cada uma com suas particularidades. São conteúdos complementares que, como explicam nossos entrevistados, podem ser consumidos isoladamente ou em conjunto. Pensar transmídia é não se limitar a uma única plataforma, é imaginar desde o início do projeto (no caso, esta pauta jornalística) os diferentes meios e como usar o melhor de cada plataforma para contar uma boa história. Com mediação de Cândida Almeida, professora que estuda processos transmídia, o bate-papo teve participação de Roberto Schmidt (diretor de marketing da TV Globo), Julio Cesar Fernandes (coordenador de produções da TV Globo) e Dirceu Lemos (produtor de TV). A equipe da CÁSPER filmou o descontraído encontro e separou para o vídeo os professores contando vários cases transmidiáticos. Já no texto, bem, esta história você começa a ler a partir de agora:

Julio Cesar Fernandes: O diferencial de um projeto transmídia é pensar desde o começo no melhor para cada uma das plataformas. Pensar o que a internet pode proporcionar de mais interessante ao se contar uma história. Ou, senão, a televisão, cinema, rádio...enfim. Mas transmídia é uma narrativa em que os pedaços isolados de uma história fazem sentido, e o público consegue consumir todo esse universo expandido. Ao todo, ele terá uma experiência muito mais ampla. Pensando na parte de produção de um roteiro, acho que é bom para o autor pensar que ele pode contar a história e desenvolver um personagem principal ali na “nave-mãe” – a principal plataforma dele – ao mesmo tempo em que pode desenvolver o núcleo secundário na internet ou em uma HQ, por exemplo. É mais trabalhoso? Pode sair mais caro? Sim, claro, mas acredito que também possa ser mais rentável. Professor Dirceu, o Julio pontuou uma questão fundamental para a transmídia: o storytelling. Como você analisa o storytelling e a convergência das mídias nas várias lin-

“O conteúdo transmídia não precisa ser somente por meios digitais, pode ser algo presencial, como um show ou uma exposição.”

Como transmídia, estamos falando de uma cultura participativa em que quem irá conPROFESSOR DE JORNALISMO sumir o produto vai escolher qual caminho da narrativa seguir e qual plataforma usar. No fundo, guagens e nos formatos atuais? Dirceu Lemos: Todo projeto coestamos produzindo possibilidades e o público está fazendo escolhas. meça com uma boa história. Vou usar Nesse sentido, como pensar a pro- como exemplo a saga Star Wars. Ela dução em suas mídias específicas? surgiu em 1977, só que antes disso foi Dá para visualizar algum mapa ou, lançada em formato de quadrinhos. em cada projeto, isso é feito de uma Essas publicações não necessariamente contavam a história do filme, maneira diferente?

JULIO CESAR FERNANDES,

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CÂNDIDA ALMEIDA Professora da disciplina Convergência Midiática no curso de pós-graduação lato sensu da Faculdade Cásper Líbero. É mestre e doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Pesquisa nas áreas de artes, design, tecnologia, comunicação digital, semiótica, teorias de sistemas, redes e mídias sociais. Além de lecionar na Faculdade Cásper Líbero, é professora do Centro Universitário Senac-SP e da Fecap-SP.

ROBERTO SCHMIDT Professor da disciplina Estudos de caso: Aproveitamento Comercial de Projetos na pós-graduação lato sensu da Faculdade Cásper Líbero. Atua no mercado como diretor de marketing da Rede Globo. É mestre em Artes e doutor em Semiótica na PUC-SP. Formou-se em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

mas uma história do mesmo universo. O sucesso foi tão grande que elas são editadas até hoje. A mesma coisa acontece com a criação de jogos de tabuleiro e aplicativos para celular. Quando você cria um produto transmídia, desde o início já é preciso pensar em como essa narrativa pode


DIRCEU LEMOS Professor da disciplina Criação, Formatos, Linguagem e Bíblia Transmídia na pós-graduação lato sensu da Faculdade Cásper Líbero. É mestre em Comunicação Social com ênfase em programação de TV, e doutorando pela Universidade Metodista. Produtor de televisão por 19 anos, também leciona na pós-graduação do Centro Universitário Belas Artes.

ser aproveitada nos diferentes meios e como usar o melhor de cada plataforma. Como o Julio disse, você pode consumir cada uma delas independentemente, sem ter necessariamente consumido todas. Mas se consumir todas, terá uma experiência completa. O maior desafio para quem cria um projeto transmídia é a arquitetura disso, porque é quase um trabalho de engenheiro. O autor de uma série tem que ter uma equipe transmídia para pensar a melhor maneira de passar isso para as outras plataformas. Lost foi um exemplo muito interessante. Eles usavam episódios feitos para celular em que tinham personagens que não estavam na série da TV. Eram desconhecidos, mas importantes para mostrar o passado das personagens principais. Explorar todas as possibilidades e pensar em todas essas plataformas no ato da criação já são um desafio. E você pode utilizar isso tanto para narrativas ficcionais de entretenimento quanto para outras narrativas, como no jornalismo. J.C.F.: Teve uma temporada em 2015 de Malhação, a Malhação Sonhos, que trouxe a questão das fanfictions e a cultura da participação. A Globo fez um concurso em que os fãs poderiam escrever uma cena e a melhor seria postada no portal deles, o GShow. A cena ficou tão bem escri-

“Você pode utilizar [a transmídia] tanto para narrativas ficcionais de entretenimento quanto para outras narrativas, como no jornalismo”. DIRCEU LEMOS,

PROFESSOR DE RTVI ta que acabou passando na televisão. E o conteúdo transmídia não precisa ser somente por meio dessas mídias, pode ser algo presencial, como um show ou uma exposição. Professor Roberto, você que atua em marketing, como a adoção de estratégias transmidiáticas pode mudar o cenário de comercialização nas grandes indústrias de comunicação? Roberto Schmidt: Estamos em um momento de convergência. Os grandes produtores de conteúdo começam a pensar em convergir as mídias desde a origem do projeto. Já se é pensado como cada personagem e como cada trama da narrativa pode se desdobrar em várias mídias diferentes. Por outro lado, os anunciantes e as agências de publicidade também pensam dessa forma, ou seja, em como o consumidor está inserido em diversas plataformas e como é possível atingi-lo em todas elas. Esse momento de junção é favorável para todos os envolvidos no processo de comercialização: desde o desenvolvedor de conteúdo, passando pela agência e chegando ao consumidor, que terá uma experiência mais relevante em cada plataforma. Para nós, os pensadores, existe uma matéria ampla, com vários exemplos para discutir. E acredito que seja importante para a criação pensar na maneira de monetizar tudo isso, pois nem

todo o engajamento é lucrativo. R.S.: Exatamente. É importante pensar como em cada plataforma pode surgir uma forma de monetização. Você pode pensar em formas de branded content em que o anunciante ou patrocinador paga a conta, por exemplo. É importante ter esse pensamento de que há formas que você pode criar do zero e ter lucro. Estamos falando aqui de uma narrativa transmídia controlada, mas perdemos esse controle quando vamos para as redes sociais e elas ganham certa autonomia. Por

JULIO CESAR FERNANDES Lecionará a disciplina Produção de Transmídia na pós-graduação lato sensu da Faculdade Cásper Líbero. É mestre em Comunicação Social com ênfase em televisão pela Universidade Metodista. Também é professor no curso de Jornalismo da Graduação na disciplina Telejornalismo. Autor do livro A memória televisiva como produto cultural da coleção PróTV. Atualmente na TV Globo, tem passagem pelas emissoras TV Mundo Maior, TV Cultura, Band e Sportv.

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exemplo, existem os spoilers que podem ser detratores dessas narrativas. Como lidar com situações desse tipo? J.C.F.: Se uma personagem está rendendo o que ela pode render e fazendo sucesso, o autor pode explorar o por quê de ter dado determinado fim para ela por meio de outras plataformas. A narrativa transmídia possibilita explorar a história e conseguir fazer com que o público fique saciado com algo que não gostou antes. Acreditam que esses produtos transmídia tendem a uma efemeridade enquanto processo midiático ou eles se estabelecerão cada vez mais forte como tendência no contexto sócio-cultural? R.S.: É importante entender com quem estamos falando. O brasileiro típico se sente representado pelo nosso digital? Ele está no nosso conteúdo? Acredito que esse seja um dos desafios, principalmente para os estudantes: é necessário não olhar o público com quem ele vai falar a partir da sua perspectiva individual. Para mim, a palavra que responde isso é engajamento. Engajamento não é só um like. É chegar ao ponto de colocar o nome do seu filho por causa de um personagem de novela. Em 2015, os nomes dados para crianças mais comuns foram os de personagens da novela Império. É um pouco louco pensar o quão relevante aquela narrativa

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foi para os brasileiros para que eles a marcassem nas suas vidas por meio de seus filhos. Para mim, essa é uma das discussões mais interessantes quando se fala em transmídia, porque o material produzido se manifesta de formas muito diferentes. J.C.F.: Existe um artigo de Marsha Kinder, se eu não me engano de 1991, em que ela analisa o próprio filho. De manhã, o garoto assistia As Tartarugas Ninjas na televisão; depois, à tarde, ele costumava brincar com seus bonecos de tartarugas ninjas e, com eles, construía sua própria história com as personagens. À noite, Kinder o levava ao cinema para assistir ao filme de...As Tartarugas Ninjas. Veja só, isso foi no começo dos anos 1990. A transmídia sempre existiu e está ficando cada vez maior. Vai chegar uma hora em que será comum nas grandes emissoras, até mesmo em projetos menores, produções que já nasçam pelo menos com um “DNAzinho” de narrativa transmídia. Inclusive na própria academia. R.S.: O mundo da comunicação humana sempre foi (com muitas aspas) transmídia. O que se tem hoje é uma forma de estudar a metodologia, encontrar normativas para fazer esse tipo de análise que ajuda na composição e no planejamento. Mas a história sempre foi transmídia. Como exemplo vamos pegar a Igreja Católica: o padre fazia a missa em latim e, para os que não entendiam o idioma, ti-

nham os vitrais para ilustrar o que era falado. Depois alguém ainda recontaria essa história [as narrativas da missa] em outro momento. Se vivia isso o tempo todo. Ainda hoje, nesse contexto, você leva seu presépio para casa, conta sua historinha do nascimento de Jesus e faz suas orações. O Dirceu falou de contar histórias, o Joseph Campbell começa assim, dizendo que tudo se inicia com uma história. Tudo é uma história e nós somos os seres humanos que vivem nelas. O que precisamos fazer é planejar isso: abrir espaços, preparar para que a produção e os pensamentos estejam juntos e dar o encaminhamento para a narrativa acontecer da forma que gostaríamos e também estarmos preparados para os desdobramentos que não tínhamos planejado. Esse é o momento de “vamos continuar essa trilha? Vamos continuar!” Efêmero, eu acho que não vai ser. D.L.: Em termos comerciais, há uma exigência para um estudo maior sobre a transmídia, porque as plataformas digitais são uma estratégia de mídia. Acredito que isso não vá diminuir e que já está consolidado. Há uma parte da audiência da TV aberta indo para o digital. A própria Globo investindo no Globo Play e na Globosat Play para concorrer com as outras plataformas de vídeo sob demanda, como a Netflix. Então, há uma mudança de comportamento. A pós-graduação que a Cásper está fazendo é


AUTORES E PRINCIPAIS OBRAS

exatamente no momento de transição em que o mercado pede por isso. O momento em que estamos vivendo é uma questão que sempre existiu e que hoje se complexifica. Atualmente, todos somos produtores de conteúdo em uma cultura participativa que é cada vez mais aberta. Essa complexidade toda cai nos nossos colos para a gente entender, formatar, pensar, criar e comercializar... J.C.F.: Este é um assunto que não está sendo discutido apenas no mercado e na academia, mas também nas casas das pessoas. É importante que a gente entenda esses consumidores para que nós, produtores de conteúdo jornalístico, de entretenimento, ficcionais ou não, possamos cada vez mais produzir com foco. Acredito que um curso de especialização, de pós-graduação, voltado para conceitos como este vão poder preparar e formar profissionais cada vez mais capacitados. R.S.: Concordo, acho que o curso vai trazer toda a complexidade do núcleo transmidiático nas suas diferentes óticas. Para mim, isso é o mais rico desse processo: o fato de não olhar só do ponto de vista teórico, de produção, de elaboração e criação ou apenas do comercial; mas entender toda a mecânica. Estar pronto para entender todo esse mecanismo te coloca no mundo profissional de uma forma diferente. @

Henry Jenkins Cultura da Convergência, Editora Aleph Cultura da Conexão: criando valor e significado por meio da mídia propagável, Editora Aleph Invasores do Texto: fãs e cultura participativa, Editora Marsupial

Carlos A. Scolari Narrativas Transmedia: cuando los medios cuentan, Editora Deusto Transmedia Archaeology: Storytelling in the Borderlines of Science Fiction, Comics and Pulp Magazines, Palgrave MacMillan

Marsha Kinder Playing with Power in Movies, Television and Video Games: From Muppet Babies to Teenage Mutant Ninja Turtles, University of California Press Transmedia Frictions – The Digital, the Arts, and the Humanities, University of California Press

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N A R R AT I V A S

O ‘STORY’ E Como o mundo das comunicações pode contar histórias para cativar audiências TEXTO: RAFAELA ARTERO ARTE: LUANA JIMENEZ SABER CONTAR UMA HISTÓRIA é tarefa de todo bom comunicador. Parece simples, já que pais fazem isso diariamente para os filhos e sempre tem aquela pessoa que prende a atenção em uma roda de conversa de bar. Só que, na prática, o storytelling virou uma panaceia entre os comunicólogos. Muitos vendem a ideia de que é a receita mágica para prender a atenção do público. Faz sentido. É melhor falar de um personagem com quem as pessoas se identificam do que tentar empurrar um produto, como o marketing se acostumou a fazer. Em um mundo repleto de narrativas, contar uma história memorável se tornou um dos grandes desafios da comunicação. E isso vale do jornalismo a rádio e TV, das relações públicas à publicidade. A seguir, um passo a passo do que é o storytelling.

Mudar a chave O cliente quer emplacar um novo produto a todo custo. Mas o consumidor parece não querer comprar mais nada. Será que uma boa história sobre esse cliente (que vende este produto) não tem mais efeito? O storytelling começa por uma mudança de pensamento dos comunicadores.

Fontes inspiradoras O storytelling busca referências de clássicos da literatura, filmes e séries, que servem de inspiração para que o comunicador arquitete as estruturas narrativas de sua história. Muitas vezes, elege-se um personagem, o herói, e por meio da jornada dele, transmite-se a mensagem.

Afetividade Na publicidade, é preciso transmitir uma mensagem de amor, amizade, felicidade ou algum sentimento. O storytelling é uma comunicação emocional. O consumidor tem mais chances de ter afinidade com uma marca que associa valores que o público acredita.

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Referências: O guia completo do storytelling, de Fernando Palacios e Martha Terenzzo (Alta Books, 2016), Storytelling: as narrativas da memória na estratégia da comunicação, de Rodrigo Cogo (Aberje, 2016), Storytelling in the new Hollywood : understanding classical narrative technique, de Kristin Thompson (Harvard University Press, 2000).


O ‘TELLING’ Dentro do contexto Não dá para falar ao vento, ou seja, fugir

Participação Lembra do herói? O

do objetivo principal

receptor da mensagem

e contar uma história

precisa se conectar a ele.

que só faça sentido

É necessário engajar o

ao público. É hora de

público, já que um bom

pegar as referências

argumento é só uma

e a mensagem que

parte do sucesso de

se quer passar e

um storytelling. Muitas

transfomá-las em uma

vezes, deve-se recorrer a

real narrativa.

narrativas não-lineares e também a produtos transmídias.

Múltiplas mídias Com a história sem o típico começo-meio-e-fim abrem-se opções para

Não para, não para

diferentes finais e possíveis

Um projeto de

expansões do universo.

storytelling pode

O consumidor, que já

durar muito mais do

foi “fisgado” pelo herói,

que apenas uma

decide qual é a mídia

campanha publicitária

de sua preferência. O

ou um projeto de

comunicador precisa

rádio e TV. Por isso,

pensar amplo.

é possível pensar em

e múltiplas plataformas,

uma continuidade. A história ganhou vida própria.

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USER EXPERIENCE

SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO ESTUDADO Agradar o consumidor se tornou a regra de ouro para qualquer produto ou serviço que almeja o sucesso POR GIULIA GAMBA

EXPERIÊNCIA, no mundo do consumo, virou uma palavrinha da moda. Os gurus do marketing repetem ela o tempo todo. Ou se oferece ao cliente uma experiência única ou o negócio está fadado ao fracasso, profetizam. Nos anos 1990, o designer da Apple Donald Norman trouxe à tona o termo UX (experiência do usuário), adaptando conceitos já estudados antes pela psicologia e pela ergonomia. Para vender mais, seria preciso priorizar o bem-estar do consumidor pensando na interação mais intuitiva, rápida e agradável possível. Cliente satisfeito, compra realizada e a série de produtos da companhia cobiçados pelos jovens mostra que essa lógica tem funcionado. A UX está por toda parte e certamente o smartphone que carrega tem alguns bons exemplos. Aplicativos como Dafiti (site de comércio eletrônico de moda), Airbnb (serviço de hospedagem) e Uber (empresa de transportes) oferecem, por meio de aplicativos ou sites, formas simples e rápidas de adquirir produtos e serviços. O próprio aparelho que tem em mãos, um modelo Apple, Samsung, Sony ou Motorola, foi desenvolvido para que sinta uma boa experiência ao usá-lo. Ele é bonito, fácil de usar, permite trabalhar remotamente e, quase sempre, traz satisfação. Afinal, não há quem se oponha a fazer as tarefas necessárias no menor tempo possível e com o máximo de facilidade.

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“É como ir a uma loja”, explica o professor da Faculdade Impacta Tecnologia e líder UX Eurípedes Magalhães. “Se você é bem assessorado no processo, vai gostar do serviço e vai voltar mais vezes”. Não só isso. Vai também indicar para outras pessoas a experiência que teve, um fenômeno potencializado pelo mundo digital. Os comentários da compra de um produto ou do uso de um serviço têm uma repercussão muito maior e atingem uma quantidade gigante de pessoas nos dias de hoje. “A voz do consumidor ganhou força através das redes sociais”, afirma David Arty, fundador do blog Chief of Design. O mercado acirrado também contribuiu para a ascensão da UX entre as empresas que procuram ser a melhor opção e escolha para o público. “A UX constrói e valida coisas que vão não somente facilitar a vida das pessoas, mas também democratizar a comunicação, o acesso à informação e à educação, elementos essenciais para a emancipação da sociedade como um todo”, defende Arty. Essa busca incessante por avanços tecnológicos e produtos cada vez mais eficientes é resultado de um olhar que busca as necessidades dos usuários. Não é mais a empresa que dita as regras sozinha. Produzir com uma visão de UX requer repensar e remodelar os próprios negócios, para os tradicionais, ou começar já com uma visão voltada para satisfazer o consumidor. Pesquisas quantitativas e qualitativas, a arquitetura


de informação de uma plataforma digital, o design de interação ou a usabilidade viraram peças-chave na construção de produtos. Um site de comércio eletrônico, por exemplo, deve ser desenhado para que o comprador entre e, em poucos minutos, tome a decisão de levar uma mercadoria. O produto é bom? Não necessariamente, mas a UX foi capaz de criar um design visualmente atrativo em que prevalecem a sedução das imagens e a forma fácil de efetivar a compra. “O design é uma parte importante que compõe a experiência do usuário, mas não são exatamente a mesma coisa. Os dois trabalham juntos e um basicamente trilha, cria e direciona aquilo que foi pensado pelo outro”, diz Arty. Para Eurípedes Magalhães, a UX se assemelha com outros conceitos, como o design thinking, um conjunto de ferramentas e métodos para solucionar problemas. A conexão entre os dois é facilmente estabelecida, uma vez que ambos buscam projetar e compreender produtos a partir da perspectiva e da participação do usuário. Uma confusão frequente é crer que a UX se resume à chamada interface do usuário. Evidente que esta é a parte mais visível e de primeiro contato do comprador. Uma televisão LED de última geração pode oferecer uma grande experiência, enquanto o trambolho de um aparelho com tela tubo já deixou de ser uma referência. “A interface representa um dos pontos de contato dentro da experiência

com o produto ou serviço”, afirma Edu Agni, fundador da empresa especializada em User Experience Mergo. “Dentro do trabalho de um profissional ou de um time de UX, a interface é apenas a ponta do iceberg, e, sendo assim, existe todo um conjunto de etapas submersas - pesquisa, ideação, prototipação, testes - antes de chegarmos definitivamente na interface pronta”. Mesmo no ambiente digital, a UX vai muito além da interface. Imagine usar um aplicativo para solicitar um táxi. A parte relevante da experiência estará em pedir o veículo e o trajeto até seu destino, e não no visual do aplicativo utilizado para acionar a corrida. Porém, um aplicativo que trave constantemente, não seja de fácil manuseio ou é inferior ao do concorrente dificilmente terá vida longa. “A experiência do usuário vai desde o site até o atendimento”, explica Arty. A UX parte da ideia de um trabalho em equipe e demanda à mão-de-obra de diversos setores para ser eficiente. Só com uma equipe multidisciplinar pode-se criar bons projetos que tragam benefícios para os usuários. “A pessoa que vai trabalhar com o conceito precisa ter empatia para desenvolver algo que realmente ajude as pessoas a terem uma boa experiência, facilitando a vida delas em geral”, explica Arty. A boa notícia é que o número de profissionais da área, porém, ainda é pequeno, e os egressos da comunicação também deverão integrar esses times. @

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TCC

E DEPOIS DA BANCA? Trabalhos de Conclusão de Curso casperianos que saíram da universidade e se estabeleceram no mundo POR HENRIQUE ARTUNI

SOY LOCO POR TI

JO

Era para ser um TCC, o famigerado Trabalho de Conclusão de Curso, de Jornalismo sobre a América Latina, mas acabou virando um negócio próprio. Em 2014, Ivan Longo, Naiara Araújo, Rosana Pinheiro e Victor Aguiar criaram uma agência de notícias feita para e por latino-americanos, com pautas relevantes e que dessem voz às populações locais. Durante a produção, eles publicavam reportagens em um site e nas redes sociais. Foi o suficiente para despertar a curiosidade de uma comunidade de fotógrafos e jornalistas latinos. No ano seguinte, já formados, eles foram procurados por alguns desses profissionais. A Agência Plano (Portal Latino-Americano de Notícias) entrou no ar de vez e hoje conta com o apoio de mais de 50 colaboradores entre jornalistas, fotógrafos e cidadãos de diversas cidades da América Latina.

NAS ONDAS DO RÁDIO

RTVI

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DIVULGAÇÃO

Tudo começou quando Alan Eliezer, durante sua estada em Londres, percebeu que embora a cena musical alternativa na cidade fosse ampla e ramificada, ela era bem unida e forte – bem diferente das “panelinhas” que encontrava em São Paulo. Anos depois, Alan traria todas essas influências para a Solid State Radio, uma webrádio colaborativa que se tornou seu TCC do curso de Rádio e TV, em 2014. A SSR contou com a participação de dezenas de pessoas que nem eram do rádio, produzindo diversos programas semanais, desde a idealização até a execução dos diversos programas semanais.


INDIE ROCK DIVULGAÇÃO

PP

O João Rock, um dos principais festivais de música do país que ocorre em Ribeirão Preto, foi “adotado” pelo TCC dos alunos Daniel Bello, Felipe Aranha Rodrigues, Guilherme Gentil, Mayara Mattioli, Paulo Neto, Rafael

Brasilino e Waldir Ward, de Publicidade e Propaganda. Poucos meses depois da entrega final do trabalho, em 2012, a equipe apresentou a campanha offline para o cliente. Podia ter ouvido um “não”, mas em vez disso recebeu a contraproposta de realizar um trabalho digital, focado nas redes sociais e na produção de conteúdo. A partir daí, a agência que tinha nascido como Bamboo, tornou-se a Hash, hoje focando em clientes do interior paulista. O TCC “Fortalecendo a Cena” defendia que o festival criasse um espaço para os músicos independentes. Isso só veio a ocorrer quatro anos depois, quando foi criado um palco exclusivo para a cena underground.

A VANGUARDA PAULISTA

JO

DIVULGAÇÃO

A pesquisa para o livro-reportagem Os Dentes da Memória, de Renata D’Elia e Cláudio Willer, começou com uma série de entrevistas que Renata fazia para o site da Faculdade com personalidades como os poetas Roberto Piva e Cláudio Willer. O livro é um panorama da vanguarda poética paulista, e sua trajetória no contexto da arte marginal. A obra é narrada de maneira não convencional, lembrando a costura de vozes do livro Mate-me por favor (LP&M). Um mês depois da apresentação do TCC, em janeiro de 2010, a dupla já tinha a minuta do contrato com a Azougue Editorial. Antes de publicar o livro, Renata e Cláudio foram coletar material por mais dois anos, totalizando 70 entrevistas com mais de 40 personalidades.

CÁSPER EM NÚMEROS Foram feitos

550

TCCs, entre os quatro cursos

NOS ÚLTIMOS TRÊS ANOS...

68%

foram realizados em grupo

Foram feitas

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monografias CÁSPER

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PA N O R A M A

A NOVA ECOLOGIA DA COMUNICAÇÃO

A diversidade se faz cada vez mais presente nos processos comunicacionais, mas ainda há um longo caminho até que a representatividade da sociedade não fique só no discurso 38

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ARTE: LUANA JIMENEZ FOTOS: DIVULGAÇÃO

Diversidade, na ecologia, é definida como o conjunto formado pelos ecossistemas, pelas espécies, pelas populações ou pela multiplicidade genética em determinada área. É o que dá vida ao planeta em que vivemos. Mas no campo comunicacional esse verbete ainda não existe, pelo menos não na 2ª edição do Dicionário da Comunicação, organizado por Ciro Marcondes Filho. Na prática, poucas iniciativas podem se dizer partidárias da diversidade. Mas as que existem já podem ser consideradas promissoras. As redes sociais foram apropriadas por grupos marginalizados e a consequência é que discussões sobre raça, feminismo e LGBT+ não ficam mais restritos à militância. Esses temas reverberam por todos os lados. Profissionais e empresas de comunicação perceberam que chegou a hora de rever discursos e passaram a incluir diferentes corpos, cores, identificação de gênero e sexualidade. A diversidade ganhou as campanhas e produções. O caminho até uma real diversidade é longo e repleto de obstáculos. Mas a primeira e primordial etapa, que inclui a percepção de que esse assunto não pode mais ser ignorado, foi concluída. É impossível fazer comunicação, hoje em dia, sem pensar de forma aberta, ampla e justa. Nas próximas páginas, mostramos como a diversidade tem sido encarada pelos quatro principais ramos da nossa “ecologia”.

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PUBLICIDADE

POR PAULA CALÇADE Maquiagens para pele clara, xampus e condicionadores para cabelos lisos, cervejas para homens e roupas da moda para pessoas magras. A publicidade investiu nesses tipos denominados de “perfis”, mas pode chamá-los de estereótipos. As coisas, no entanto, parecem estar mudando e pela força dos consumidores. O Dossiê BrandLab, do Google, apontou que, em cinco anos, os brasileiros pesquisaram duas vezes mais sobre a diversidade na internet. Apenas no Youtube, 600 mil novos vídeos sobre racismo, feminismo e temática LGBT foram postados em 2017 no país. As marcas não iam querer ficar de fora dessa tendência. Maria Guimarães, uma das fundadoras da agência de consultoria sobre gênero 65/10, lembra que há dois anos o incômodo sobre propagandas “limitadas e preconceituosas” contra as mulheres havia se tornado uma questão de fato. A publicidade só teria a lucrar se aproveitasse essa vontade de superar os estereótipos e promover uma evolução que acompanhasse a emancipação feminina. “São marcas e agências que querem falar diretamente com as consumidoras e estão assimilando muito bem as mudanças”, garante. A consultoria 65/10 atuou no filme promocional “Meninas Fortes”, da Nescau, que mostra como o esporte pode empoderar. Na peça de 1 minuto e 30 segundos, o lema é “assim como o esporte faz do menino homem, faz da menina mulher”. A marca e as idealizadoras ganharam o prêmio Cannes Lions 2017, maior premiação mundial sobre criatividade na propaganda. “Representatividade dá bons retornos, principalmente nas redes sociais”, aponta. No início de 2017, a marca Skol da cervejaria Ambev assumiu a “importância de evoluir”. Pôsteres desenhados por ilustradoras e filme promocional com elenco de pessoas negras foram exemplos da mudança de tom. “Já faz algum tempo que algumas imagens do passado não nos representam mais”, publicou nas suas redes sociais. Era uma resposta à série de críticas que recebeu por propagandas de dois anos antes. Na ocasião, a marca sofreu represália por campanhas que sugeriam às pessoas deixarem o “não” em casa no carnaval. Em uma guinada de 180 graus, a campanha publicitária “Skol: redondo é sair do seu quadrado” tirou de cenas as mulheres de biquíni e shorts curtos e começaram a aparecer pessoas de diferentes cores e casais homossexuais. A diversidade virou um tema. “O momento é agora, e algumas marcas estão alinhadas com essa fala”, diz Camila Cornelsen, diretora de fotografia que participou da montagem da nova publicidade da Skol.

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Os anúncios se diversificaram

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Representatividade lucrativa

Mas, segundo Camila, as agências brasileiras ainda precisam contratar mais mulheres e negros para compor suas equipes. As criações publicitárias podem adquirir mais representatividade e apresentar trabalhos plurais estáveis para ir além dos discursos. “Tomar ações internas são essenciais para que as marcas não caiam em oportunismos”, alerta. Para ela, um exemplo de incongruência de discurso foi a Coca-Cola, que recebeu críticas por ter um comitê da diversidade, mas que em uma foto publicada pela empresa só estampava homens brancos nesse departamento. Faculdades de Publicidade e Propaganda também estão preocupadas com a questão. A Universidade Federal do Rio Grande do Norte, por exemplo, elaborou um Manual da Diversidade, em um projeto compartilhado entre os alunos. O objetivo da cartilha é “concluir sobre as melhores formas de tratar a representatividade dos gordos (as), sujeitos LGBT+, negros (as), idosos (as), indígenas e das pessoas com deficiência nas campanhas publicitárias”. Na Cásper Líbero, o coordenador Joubert Brito afirma que os novos alunos demandam cada vez mais conteúdos que respeitam a diversidade e pedem por rabalhos e discussões em aula.


JORNALISMO Por mais diversidade dentro das redações

Como mudar a visão dos jornalistas

POR PEDRO GARCIA

MANUAL DE DIVERSIDADE NO JORNALISMO um guia aberto e não definitivo para uma prática mais consciente

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“Coisa de preto” virou hashtag, trending topics mundial, dezenas de colunas na mídia, moções de repúdio em legislativos do país e o afastamento do apresentador William Waack do Jornal da Globo. Jornalista veterano, Waack viu ainda seu programa Painel, no ar havia 17 anos, ser extinto pela Globonews. O episódio foi revelador para mostrar algo que redações costumam jogar panos quentes: o racismo entre quem produz notícia. Com equipes formadas predominantemente por brancos, os principais veículos de comunicação têm cada vez mais procurado a pluralidade e a diversidade nas pautas, mas não a exercitam internamente. O Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Geema) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro descobriu que 1% dos colunistas do Estadão são negros, na Folha de S.Paulo esse número vai para 4% e em O Globo fica em 9%. Nos telejornais, é raro ver apresentadores negros. Há consequências evidentes quando uma maioria da população não tem voz dentro dos veículos. O mesmo Geema constatou, em outra pesquisa, que em 2015 pautas de raça e gênero estavam muito longe de ser representativas nas revistas de bordo da Gol, TAM, Azul e Avianca. Nas últimas décadas, a clientela de passageiros se tornou mais diversa, mas esses não podem se ver nas publicações. A editora de treinamento da Folha de São Paulo, Suzana Singer, conta que no período de aprendizado de novos jornalistas pautas ligadas às minorias são abordadas junto a outras questões éticas. No manual de redação de 2018, a temática terá um destaque maior. Suzana relata que a equipe da Folha acredita que a pluralidade nas redações seja benéfica para o jornal, porém não adota nenhuma cota na contratação de funcionários. Em junho de 2017, a Escola de Jornalismo da Énois, que ensina a profissão para jovens da periferia, publicou o Manual de Diversidade no Jornalismo. Nele, a Énois defende a pluralidade de vozes nos veículos midiáticos. A ideia surgiu enquanto a Énois produzia um guia gastronômico da periferia e percebeu a falta de representatividade. O manual traz dicas para processos seletivos de contratação de jornalistas, diversificação de fontes nas reportagens e diálogo com a sociedade. Questões raciais e cotas, identidades de gênero, novas configurações familiares, direitos sexuais, direitos reprodutivos, trabalho sexual são temas cada vez mais assíduos no jornalismo. A redemocratização ampliou o número de vozes no país, mas foi a internet que alavancou de vez esse

debate. Se antes a mídia tradicional era a principal responsável pela circulação do discurso, hoje qualquer cidadão é um produtor de informação. O resultado é que não param de surgir veículos de nicho ou preocupados com essa temática (como o Jornalistas Livres, que teve como um de seus colaboradores o homem trans Léo Moreira Sá). Em julho de 2015, a jornalista Maju Coutinho, formada pela Cásper Líbero, foi alvo de comentários racistas na internet. Por causa da repercussão nas redes sociais, os apresentadores do Jornal Nacional, William Bonner e Renata Vasconcelos, saíram em defesa de Maju. A revista digital AzMina nasceu, em setembro de 2015, da vontade de romper com a crença da neutralidade jornalística, pois com ela essa vem a ideia de que não importa quem está contando a história. Para Letícia Bahia, diretora de relações da publicação, a grande mídia trata as minorias como se elas fossem universais, quando nem todas as pessoas pertencentes a um grupo são iguais ou têm vivências parecidas. É preciso fazer recortes. Mas Letícia não deixa de fazer uma autocrítica: a direção da publicação ainda é formada só por mulheres brancas.

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RÁDIO, TV E INTERNET Luz, Câmera e Diversidade! A representação de LGBT+ nas produções audiovisuais vem crescendo. Nas emissoras da TV aberta nos Estados Unidos, 4,8% dos personagens são homossexuais, bissexuais ou transgêneros, segundo a Aliança Gay e Lésbica contra a Difamação (GLAAD, sigla em inglês). É pouco, mas ao mesmo tempo um recorde dos últimos 12 anos. No Brasil, as novelas da Rede Globo apresentaram de 1970 (primeira aparição de um personagem homossexual) até abril de 2017 um total de 126 personagens identificados como LGBT+. Desde 2010, apenas uma telenovela do horário nobre (das 19 às 22 horas) não teve a representação. O aumento de aparições, contudo, ainda esbarra na qualidade. A jornalista Fernanda Nascimento, autora do livro Bicha (Nem Tão) Má e doutoranda em estudos de gênero pela Universidade Federal de Santa Catarina,

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Nas novelas, só gays brancos

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constatou que de 126 personagens LGBT+ retratados nas novelas globais, 62 eram homens homossexuais e apenas 4 de todos eles eram negros. Já houve personagens travestis e transexuais nas novelas. Ziembinski fez Stanislava, a primeira travesti das telenovelas, em O Bofe, no ano de 1973. De lá para cá, outros atores encararam o desafio: Ney Latorraca (Anabela, em Um Sonho a Mais, 1985), Jandir Ferrari (Gina, em Deus nos Acuda, de 1992), Floriano Peixoto (Sarita, de Explode Coração, 1995), Matheus Nachtergaele (Cintura Fina, em Hilda Furacão, 1998) e Miguel Magno (Dona Roma, de A Lua me Disse, 2005). O primeiro personagem identificado como homem trans surgiu na novela A Força do Querer, de 2017. Mas a pouca visibilidade não é exclusiva do Brasil. Entre as produções norte-americanas para televisão aberta e fechada, além dos sites de streaming, existem 16 personagens trans, segundo a GLAAD. Em 2016, havia 7. “A mídia está em consonância com a sociedade e, dentro do segmento LGBT+, os homens gays são os mais privilegiados”, explica Fernanda. Os temas tratados nas produções seguem os padrões existentes na sociedade. Ao se falar de relacionamento, sempre é um casal monogâmico. A pesquisadora pondera que, apesar de existirem falhas a serem contornadas na representatividade, as novelas são assistidas por diversas classes sociais e, ao abrirem a discussão, contribuíram para que o debate chegasse à população. A representação de negros nas telenovelas da Rede Globo também é pífia. De 1995 a 2014 apenas 10% das tramas foram protagonizadas por atores pretos ou pardos, segundo estudo do Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ações Afirmativas, vinculado à Universidade Estadual do Rio de Janeiro. O Observatório Brasil da Igualdade de Gênero, iniciativa da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, era bastante ativo até maio de 2016. Naquele mês, foi publicado seu último boletim, que revela como o crescente setor audiovisual brasileiro ainda é um território dominado por homens. A partir de dados de 2015 do Anuário Estatístico do Cinema Brasileiro, descobre-se que 19% dos 2.606 produtos audiovisuais foram dirigidos por mulheres e 23% tiveram uma roteirista. Obedece a uma tendência mundial: na Alemanha, o índice é de 22% dos filmes dirigidos por mulheres, na China são 16,7% e na Índia apenas 9,1%. Na Cásper Líbero, os alunos do curso de Rádio, TV e Internet são estimulados a abordarem assuntos ligados a diversidade. Desde o primeiro ano, alunos produzem documentários com temática relacionada a algum segmento à margem da sociedade e a criação de filmes publicitários, jingles e spots que devem lidar com algum tema social. O coordenador do curso, Roberto D’Ugo, ressalta a necessidade de formar um nova geração de comunicadores que não se contenta em reproduzir preconceitos e estereótipos, mas que busca fugir deles e realizar uma representação midiática mais digna. (P.G.)


RELAÇÕES

PÚBLICAS Mudanças que começam de dentro POR RAFAELA ARTERO

RP: o “profissional da empatia”

BEATRIZ VECCHI

Ricardo Sales, pesquisador na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, concluiu um mestrado sobre a questão da diversidade LGBT+ no ambiente corporativo. Ele levou a pesquisa para o mercado de trabalho com a Mais Diversidade, consultoria que auxilia a transição das empresas. Por exemplo, Ricardo ajudou no caso de uma funcionária trans que revelou para a empresa sua identidade. “Estamos cuidando para que tudo ocorra de maneira natural e respeitosa, para ela sobretudo”, explica. Desde 2016, a Mais Diversidade trabalha para a Skol e participou do reposicionamento da marca no mercado. Ele explica que a mudança culminou em melhorar o diálogo com o público: “Hoje falamos de temas que tocam diretamente aos jovens, levantando discussões sobre preconceitos e as barreiras que impedem a conexão entre as pessoas”, afirma. As empresas não são os únicos lugares em que um profissional de relações públicas pode atuar. De acordo com a professora e coordenadora do curso de Relações Públicas da Cásper Líbero, Patrícia Salvatori, existem duas formas para atuar com a inclusão social. Além do corporativo, há o engajamento por parte dos profissionais em trabalhos com ONGs e outras associações. Neste segmento, os profissionais da área trabalham para melhorar a comunicação das organizações para que consigam receber atenção para a sua causa. Esta área humanizada da comunicação recebe atenção e está sendo incluída na grade do curso. Ela cita o exemplo de um projeto realizado pelos alunos em que, durante um ano, trabalham para ONGs. Apesar dessas iniciativas, o quadro geral ainda se mantém insatisfatório. Um exemplo é a exposição “Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, que continha obras com as temáticas LGBT+. Protestos nas redes sociais do Movimento Brasil Livre e grupos religiosos repudiavam a mostra. A primeira posição do Santander Cultural, no dia 8 de setembro de 2017, foi a de apoio, afirmando que “justamente para nos fazer refletir sobre os desafios que devemos enfrentar em relação a questões de gênero, diversidade, violência entre outros”. Mas dois dias depois, a instituição voltou atrás e cancelou a exposição. Em nota ao público, vinda com um pedido de desculpas, os organizadores disseram que acreditavam que algumas obras “desrespeitam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo”.

A polêmica levantou a discussão sobre como as empresas se apropriam dessas identidades para conquistar o público consumidor. Guilherme de Moraes, pesquisador do programa de pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero, analisou as campanhas publicitárias de empresas como Skol, Rede Globo e Bradesco para saber se os discursos eram, de fato, incorporados na cultura corporativa. Guilherme encontrou três possibilidades. A primeira é que algumas marcas incorporam o discurso na publicidade, mas não internalizam a posição no ambiente de trabalho. Mesmo assim, em números as iniciativas não correspondem à diversidade da sociedade. A segunda é que a empresa se apropriou dos valores e se relaciona com o público, tornando-se uma aliada. A última é que, mesmo cientes da cultura corporativa, não há um posicionamento. Para ele, as campanhas que trazem a diversidade são uma questão de justiça. “São poucas as iniciativas de comunicação interna e de recursos humanos focadas na criação de um ambiente de trabalho mais amigável para a diversidade”, diz. Na última edição da RP Week, que ocorreu em julho de 2017 na Cásper Líbero, uma das mesas-redondas foi sobre diversidade. Um dos pontos de consenso entre os debatedores é que o RP como um “profissional da empatia” tem enorme responsabilidade para a construção do diálogo e o aprendizado das diferenças étnica, de gênero e de sexualidade. “Diversidade não pode ser só uma palavra que está na mídia e que vai perder a força com o passar do tempo”, alertou Ariane Feijó, co-fundadora do coletivo Todo Mundo Precisa de Um RP. @

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LEGISLAÇÃO

O SALVO-CONDUTO DOS JORNALISTAS Em 5 anos, a Lei de Acesso à Informação se tornou uma grande aliada dos jornalistas na apuração de histórias que muitos preferiam que jamais fossem publicadas POR MARIA VITÓRIA RAMOS

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ANGEL DÍAZ/ EFE

AOS 12 ANOS, Gabriel Langkamer tinha sua vida nas mãos das Forças Armadas. Em Brasília, onde estava internado, o menino aguardava por um coração. Em meio às preocupações, uma boa notícia: havia um órgão em Minas Gerais. Todas as condições eram favoráveis ao transplante. Mas a Força Aérea Brasileira (FAB) se recusou a buscar o órgão saudável e Gabriel morreu 14 dias depois. Repórter do jornal O Globo, Vinicius Sassine acompanhava o caso e, respaldado pelo editor, foi mais fundo na investigação. Durante a apuração, o repórter havia escutado que a história de Gabriel não era isolada. Entretanto, os detalhes dos outros casos e os dados das recusas de transporte de órgãos pela FAB estavam sob sigilo. Nesse momento, a Lei de Acesso à Informação (LAI) foi um salvo-conduto no campo de batalha da transparência entre governo e sociedade. Com o pedido da LAI, Vinícius cruzou as informações dos órgãos recusados com as das viagens feitas por parlamentares e magistrados do Supremo Tribunal Federal (STF) — dados já públicos graças à mesma lei. Descobriu o furo jornalístico. Entre 2013 e 2015, a cada cinco autoridades transportadas de carona pela FAB, um órgão fora desperdiçado. No dia seguinte à publicação da reportagem, o presidente Michel Temer, então interino, editou um decreto obrigando a FAB a disponibilizar uma aeronave exclusiva para o transporte de órgãos. O assunto se estenderia ainda pela série especial Saúde em Segundo Plano, que acabou vencendo em maio o Prêmio Rei da Espanha de Jornalismo na categoria Imprensa. O jornalista Fernando Rodrigues, diretor de redação do blog Poder 360 e responsável pela publicação do Panama Papers no Brasil, foi um dos que batalharam pela importação do conceito legal de transparência dos Estados Unidos. Por muito tempo correspondente internacional da Folha de S. Paulo, Rodrigues trabalhava de perto com a Lei de Acesso americana e percebeu seu valor para a sociedade e para a democracia. Em 2003, junto da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Transparência Brasil, Artigo 19 e outras entidades, conseguiu criar o Fórum de Direito ao Acesso a Informações Públicas para pressionar a fundamentação e aprovação de uma lei de acesso nacional. A cada dia, mais jornalistas se apropriam da LAI nas apurações e como fonte inesgotável de matérias. Entre maio de 2012, quando a Lei 12.527/2012 foi sancionada por Dilma Rousseff, e abril de 2017, já foram realizados mais de 158 mil pedidos. “Desde a Constituição de 1988, você pode fazer qualquer questionamento ao governo. O problema é que, sem a LAI, não existia uma forma de obrigar o governo a cumprir prazos e a própria lei”, explica o jornalista Leo Arcoverde. Em 2015, ele largou seu emprego na Folha de S. Paulo para lançar o site Fiquem Sabendo, cuja proposta é produzir uma reportagem por dia usando dados obtidos por meio da lei de acesso. Enquanto ainda era repórter da Folha, Arcoverde acompanhou a crise hídrica que atingiu São Paulo durante

O repórter d’O Globo Vinicius Sassine é autor da série Saúde em Segundo Plano

2014 e 2015. Ele suspeitava que o Estado passava por uma grave crise de escassez de água e, em parte, era causada por decisões tomadas pelo governo de Geraldo Alckmin, que negava sistematicamente as acusações. Todo mundo sabia, mas ninguém tinha como confirmar. Arcoverde fez o pedido, esperou os dados “amadurecerem” e publicou uma reportagem simples: uma tabela com os dez bairros com mais casos de falta d’água. “O pessoal pirou porque ninguém tinha os dados e de repente tinha por bairro”, conta. Com a insistência, o jornalista quebrou a “barreira da lentidão”. Fazendo pedidos diários, até pelo celular no metrô, já conseguiu material para mais de 450 reportagens. Por meio de histórias curtas e frequentes, ele expõe dados que posteriormente podem ser retrabalhados por outros comunicadores. “Acredito muito mais em fazer uma plataforma de transparência do que uma agência de notícias para competir com outros veículos”, explica Arcoverde. Por isso, cede parte das respostas recebidas para o Achados e Perdidos, iniciativa da ONG Transparência Brasil e da Abraji, que reúne milhares de pedidos e respostas obtidas via LAI. Em certas ocasiões, foi necessário que os jornalistas denunciassem a falta de transparência dos governantes em

O Freedom of Information Act (FOIA), dos EUA, é de 1966 e vem sendo desenvolvido desde então. O primeiro marco legal é da Suécia, em 1766, inserido como direito fundamental na Constituição do país. Na América Latina, o pioneirismo é da Colômbia, com o seu Código de Organización Política y Municipal de 1888.

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HENRIQUE ARTUNI

GABRIEL CABRAL/ FOLHAPRESS

relação a informações que deveriam estar, independente de quaisquer requisições públicas. Um exemplo são os dados sobre as mortes de presos em São Paulo. Arcoverde prestou atenção no rodapé do Levantamento de Informações Penitenciárias (Infopen) de 2015 e observou que não constavam os dados do Rio e de São Paulo porque os próprios Estados não os forneceram. Em um e-mail, colocou em pauta a equidade entre poderes e questionou como o Estado não respeitava nem o Ministério da Justiça, autor do estudo. “O governo do Estado mudou a postura. Questionar a transparência dos caras dá certo”, atesta Arcoverde. Em sua reportagem mais emblemática usando a LAI, o repórter da Folha de S. Paulo Artur Rodrigues valeu-se da mesma estratégia. Ele havia pedido os dados de produtividade do monotrilho da linha prata para uma reportagem sobre sua ineficiência, mas o pedido foi recusado. A justificativa: os dados eram “ultrassecretos”. Descobriu então que o governo estava tentando driblar a LAI se apropriando indevidamente do artigo 23 da lei, que prevê o sigilo sobre informações que coloquem em risco a soberania nacional ou a privacidade de cidadãos comuns. Não apeArtur Rodrigues, repórter da Folha de S. Paulo, afirmou que quando o governo não nas aquele documento, mas centenas de outros estavam responde também rende matéria escondidos: “Eles esconderam até a filmagem da banca do guarda no Metrô”, revela Rodrigues. Isto é, a não-resposta também rende matéria. “Às vezes, é pior para eles não responderem. E aqui no jornal a cultura é sempre fazer matéria explicitando a violação da lei”, garante. O governo Alckmin passou a ser acusado por falta de transparência por todos os lados e o desgaste gerado levou à abertura das informações. Negar um pedido não é a única forma que as autoridades utilizam para manter a informação distante da sociedade. O governo muita vezes não responde o que foi de fato requisitado, responde de forma parcial, ou ainda fornece os dados de forma a dificultar sua organização. “O PDF é o inimigo número um da LAI”, comenta Artur Rodrigues, explicando que o formato não permite o processamento dos dados em uma planilha universal. Isso continua a ocorrer, mesmo que o texto da Lei de Acesso seja claro e pleiteie a transparência ativa. “Sites dos organismos sujeitos à LAI devem fornecer um rol de informações de forma espontânea, sem que seja preciso fazer um pedido de informação”, como consta no Guia Prático da Lei de Acesso à Informação, publicado Leo Arcoverde, jornalista e criador do site Fiquem Sabendo pelo Artigo 19. Por ser nova e exigir conhecimentos mais sofisticados de manipulação de dados, a LAI pode ser um dife-

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“Desde a Constituição de 1988, você pode fazer qualquer questionamento ao governo. O problema é que, sem a LAI, não existia uma forma de obrigar o governo a cumprir prazos e a própria lei” LÉO ARCOVERDE, FIQUEM SABENDO

MATHEUS REZE

rencial para novos jornalistas darem o pontapé que precisavam. Foi o que aconteceu com Luiz Fernando Toledo, repórter do Estadão. A partir da conversa com um amigo surgiu uma curiosidade e ele fez o pedido à Polícia Federal: “Quais foram as drogas apreendidas nos últimos três anos e que nunca tinham sido pegas antes?” Com os dados obtidos o jovem emplacou duas capas seguidas no jornal mais tradicional de São Paulo. “É interessante ver que um repórter com não muita experiência, que nunca cobriu o assunto, pode conseguir grandes reportagens via LAI sem grandes contatos na Polícia Federal, nem nada”, comemora. A exclusividade das informações obtidas pela Lei de Acesso é outro atrativo para os profissionais. Todos os repórteres entrevistados para esta reportagem afirmaram trabalhar apenas com dados colhidos por eles mesmos. Como as respostas são enviadas apenas para o autor do pedido, os jornalistas podem esperar o tempo necessário para construir as histórias da maneira como preferirem. No caso de Leo Arcoverde, os primeiros dados indicando a crise na Sabesp já estavam em suas mãos três meses antes da publicação da matéria inaugural. Mas ao esperar, pode compilar mais dados e constatar uma tendência valendo-se de fatos. A LAI tem se mostrado especialmente útil para quantificar algumas questões que povoam o senso comum, mas que carecem de comprovação. Exemplo disso é a matéria “SP dá a professores 372 licenças por dia; 27% por transtorno mental”, escrita por Luiz Fernando. “Todo mundo sabe que existe professor doente e muitas faltas, mas eu nunca vi isso ser quantificado”, explica. Na tentativa de persuadi-lo a abandonar a história, a assessoria de imprensa da Secretaria de Educação tentou lhe vender uma pauta

Com uma pergunta para a Polícia Federal, Luiz Fernando Toledo, repórter do Estadão, emplacou duas capas no jornal

sobre atestados falsos. Ele ignorou e obteve o que precisava independentemente dos assessores, via Lei de Acesso. Um ponto que prejudica a transparência de dados entre governo e sociedade é a mediação da assessoria de imprensa. “Essas informações sempre foram tratadas como moeda de troca com jornalistas; para agradar aquele que faz uma matéria mais favorável, o assessor passa um dado exclusivo”, explicita Artur Rodrigues. Afinal, o assessor está ali para “ser um porta-voz do governo, buscando um lado positivo de um assunto que não tem nenhum”, completa Leo Arcoverde. Existem outros esforços para impedir o funcionamento da LAI por parte dos políticos. O jornalista Luiz Fernando Toledo publicou em novembro de 2017 as tentativas da gestão do atual prefeito da cidade de São Paulo, João Doria, de impedir que jornalistas consigam acessar informações através da Lei de Acesso. De acordo com a gravação oficial da reunião da Comissão Municipal de Acesso à Informação, Lucas Tavares, chefe do gabinete da Secretaria Especial de Comunicação, disse que iria dificultar o acesso das informações obtidas pela lei para os jornalistas através de vias legais. Após a divulgação da gravação pelo Estadão, o assessor foi demitido e está sendo investigado pelo Ministério Público. A Lei de Acesso oferece um caminho direto, capacitando assim a quebra do monopólio de dados para a fiscalização e o funcionamento adequado da democracia representativa. @

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CHAPÉU

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EQUIPE PINACOTECA

Na Pinacoteca, mulheres tateiam a escultura Leda, de Lélio Coluccini, 1950, que representa o mito de Leda e o cisne.


ARTE

OUTROS OLHOS, OUTROS SENTIDOS

POR JULIA GRAVALOS BENINI

Recursos de descrição de obras de arte permitem que pessoas com deficiência visual possam interagir com pinturas e esculturas ENTRE AS REPRESENTAÇÕES do apóstolo São Paulo feitas no Brasil, uma delas é a da escultura de Décio Villares (1851-1931). A história bíblica conta que Saulo – como era chamado antes de se tornar apóstolo – perseguia os cristãos e os condenava à morte. Na estrada para Damasco, um resplendor de luz vindo do céu cegou o esculpido. Nesse momento, ele teve uma revelação. Ao som da voz de Jesus, que repetia “por que me persegues?”, Saulo se converteu ao cristianismo. O trabalho em bronze, exposto na Galeria Tátil da Pinacoteca de São Paulo, junto a outras 11 peças, reproduz a reação de veneração de Saulo. As pessoas com deficiência visual que tateiam a escultura ouvem essa passagem por meio de um audioguia que recebem na entrada do museu. A voz masculina da gravação questiona como seriam as expressões deles se tivessem no lugar de Saulo. Enquanto percorrem os dedos pelos olhos arregalados do apóstolo, os visitantes erguem as sobrancelhas como se estivessem diante de um espelho. A visita com o recurso do audioguia é uma das iniciativas do Programa Educativo para Públicos Especiais, desenvolvido na Pinacoteca desde 2003. Para a assistente

de coordenação e uma das responsáveis pela instalação do projeto, Margarete de Oliveira, o maior desafio foi “pensar em como trabalhar a linguagem artística de maneira acessível às pessoas com deficiência visual”. Isso tem sido possível por meio de reproduções em resina e em alto contraste ou maquetes táteis. Ao poder “tocar” a representação da pintura, esta passa a ser compreendida. “Não é o quadro, mas o conteúdo dele, que todo mundo discute. Isso que é importante, porque a pessoa se sente inserida nesse contexto e pode participar dessas discussões”. O prédio histórico da Pinacoteca e os arredores dela podem ser sentidos por meio de uma maquete tátil, na primeira de três visitas recomendadas. Segundo Margarete, o ideal é que os grupos retornem mais de uma vez para que “o contato com as obras e a mediação não se tornem cansativos”. Nas visitas programadas, os profissionais que guiam as pessoas com deficiência visual recuperam a memória afetiva do público a partir de elementos da peça artística que podem ser relacionados à vida dos visitantes. O uso de essências aromáticas que remetem ao ambiente da obra ajuda a aprimorar a experiência museológica.

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EQUIPE PINACOTECA

EQUIPE PINACOTECA

Com auxílio do audioguia, os visitantes conhecem pelas mãos a escultura Apóstolo São Paulo, de Décio Villares, sem data.

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Há outras formas de participar de exposições de arte, além do exercício da observação. Regina Lopes, que possui deficiência visual, começou a ter contato com espaços culturais ao integrar a equipe da Fundação Dorina Nowill, onde atua como assistente social. Ela relembrou o trabalho que desenvolveu com a museóloga Viviane Sarraf, no qual “levava a orientação de como se relacionar com a pessoa que tem deficiência visual” aos funcionários dos museus. Uma das funções de Regina e de outros membros da equipe da Fundação é fazer com que cada pessoa tenha o máximo de independência e autonomia. Assim, ela auxilia os videntes – termo usado para pessoas que não apresentam deficiência visual – a compreender o universo dos que não enxergam e permite que as pessoas com deficiência visual não dependam tanto de terceiros. A confiança com a qual Regina segura a bengala e caminha até a sala de atendimento condiz com a ideia que ela prega. Quando era criança, porém, lidava com dificuldade com a cegueira que aos poucos se desenvolvia: “Antes de entrar aqui na Fundação e trabalhar essas questões da deficiência, eu procurava fugir disso e não deixar as pessoas perceberem que não enxergava bem”. Ao integrar o universo que até então recusava, Regina libertou-se desse trauma, porque descobriu que “a forma de ver agora é outra.” Para ela, a pessoa com deficiência visual também vê, mas com os outros sentidos. Quando conhece um lugar novo, ela não se envergonha de pedir para que alguém o descreva com precisão de detalhes. No caso das audiodescrições, Regina afirma que a apresentação dos detalhes das obras auxilia muitas vezes, mas em outras elas podem ser “desnecessárias” e “cansativas”. Depois que começou a assistir a peças de teatro e a musicais, ela passou a se interessar mais pelo enredo e pelas canções da produção. “Quando começavam a descrever os movimentos do pessoal dançando, até tirava o fone do ouvido. A música é muito alta e tenho que aumentar muito o volume do fone, então acaba confundindo tudo”, explica. Apesar disso, reconhece a importância da audiodescrição, afirmando que “de modo geral é necessária”, ainda que não agrade a todos. Para o professor da Cásper Líbero Marcelo Santos, estudioso da audiodescrição, há riscos de a técnica destruir a experiência estética e a apreensão sensorial da pessoa com deficiência visual. Isso pode acontecer porque a premissa desse modelo consiste em descrever as produções artísticas objetivamente, tratando a arte como uma forma de expressão de interpretação única. O pesquisador apontou que uma maneira de superar o problema seria a inclusão de pessoas com deficiência visual no desenvolvimento da audiodescrição: “É preciso trazer a pessoa que não enxerga para participar desses processos, porque só ela pode falar o que funciona ou não”. A guarulhense Emilia Navas, que nasceu com catarata congênita e consequentemente cega, relembrou uma boa audiodescrição de uma peça que assistiu. “Eles iam des-


crevendo a dança e a música de um jeito que parecia que eu estava participando”, afirma. Ainda assim, essa não foi uma das obras mais significativas para ela. Em 1979, quando estudava no Instituto de Cegos Padre Chico, Emilia foi a uma exposição de arte pela primeira vez. “Ficamos muito impressionados com esculturas que não tinham cabeças, braços, ou com os seios à mostra, porque isso para nós era uma coisa disforme”, ela descreve, afirmando que, naquela época, “o que era bonito era o certo.” Para as pessoas que estudavam com Emilia, tatear esculturas que retratavam nus femininos provocava risadas envergonhadas. “Achavam graça nesse contato com uma parte do corpo que a gente normalmente não podia tocar, principalmente por estudarmos em uma escola religiosa.” Depois de visitar mais museus, Emilia se desfez dessas primeiras impressões e começou a achar a beleza das obras, sobretudo nas que podia “sentir as texturas, os formatos e os contornos”, ou, simplesmente, ver com as mãos. O marido de Emilia, Marcos Navas, que também nasceu com catarata congênita, encontrou o significado de beleza pelas mãos, quando pôde acariciar os animais de um

zoológico na Argentina, em 2016. A possibilidade de tatear aquilo que Marcos não conhece é, para ele, fantástica e bem mais valiosa no que diz respeito à forma de enxergar. Ao visitar o Museu da Companhia Paulista, apreendeu a história dos ferroviários tocando nos objetos que compunham o acervo. “Gosto de conhecer museus para traçar um paralelo entre o que era e como está, porque a história é o ponto de tudo e a gente deveria valorizar mais isso”, afirma. O apreço por museus é o principal motivo pelo qual Rogério Ratão já viajou por grande parte da Europa. O escultor e professor, que perdeu a visão aos 18 anos, precisa “ver as coisas que existem para poder criar” e, para isso, visita galerias de arte onde pode tocar nas peças expostas. Inspirado, Rogério ensina que para produzir uma escultura é preciso “explorar o que se tem no próprio corpo”. Quando quer conhecer uma obra que não foi feita por ele, porém, prefere ir além do toque. A audiodescrição permite que ele compreenda integralmente as pinturas que conhece. Ratão quer ver a arte que vem dele e dos outros, e deseja algo que não depende de uma boa visão: “É a necessidade de estar no mundo”. @

A maquete tátil do prédio da Pinacoteca é disponibilizada para as pessoas com deficiência visual.

EQUIPE PINACOTECA

CÁSPER

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GIRO PELO MUNDO COMUNICAÇÃO GLOBAL

Discursos circulantes :: EM ALTA :: Iniciativas de governos e empresas mostram que o crescente fluxo de dados traz soluções, mas também ameaças

DE OLHO NO BIG DATA

O termo “América Latina” foi cunhado pela Cepal, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, em 1948. Vinculada à Organização das Nações Unidas, a instituição apresentava um olhar focado sob os aspectos econômicos, mas a caracterização que ajudou a perpetuar foi a de que os latinos pertenciam a um bloco homogêneo de nações subdesenvolvidas. De lá para cá, muita coisa mudou, mas os estereótipos permanecem. E a Cepal mantém sua política de atuar na região, como fez agora com o lançamento do projeto “Big Data: Grandes Dados para a Economia Digital na América Latina e Caribe”. A iniciativa visa orientar políticas de investimento e

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ALÉM DA IMAGINAÇÃO

A INVASÃO COREANA

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impulsionar a produção de tecnologias digitais por meio do “big data”. O mercado na América Latina faturou 2,5 bilhões de dólares em 2016 e deve atingir 7 bilhões de dólares em 2022, com Brasil e México como líderes. Segundo a consultoria Frost & Sullivan, a região representa 5% do mercado global de análises de dados. Em 2016, o Brasil representou 47% desse investimento. A principal aplicação dos big data na região é o chamado “Socialytics”, para captura e análise de dados gerados nas redes sociais - uma verdadeira mina de ouro para empresas, diga-se de passagem. A Cepal promete aos países mecanismos para elaborar estatísticas sobre produção, consumo e penetração das novas ferramentas de comunicação e informação. (Paula Calçade)

Nos anos 2000, o SBT importou do México um dos maiores sucessos de sua audiência, a novela juvenil Rebelde. Agora, os dramas adolescentes que estão sendo febre no Brasil vêm da Coreia. Os chamados de K-dramas ou doramas são romances água com açúcar juvenis que viralizam na internet. As novelas pegaram carona nos sucessos da música coreana, as badaladas K-Pops. Alguns sites especializados no assunto legendam as séries para o público brasileiro. A Netflix não perdeu tempo e, além de colocar alguns sucessos em seu catálogo, já está produzindo obras originais desse universo, como o drama Atelier. (Rafaela Artero)


NO AR

O ‘JABÁ 2.0’

Sabe aquelas playlists para a festa com os amigos? A romena RedMusic descobriu que poderia ganhar dinheiro ao mapear os acessos a videoclipes veiculados no Youtube. A empresa possui uma rede de canais com centenas de playlists. Agora, o investimento deles é comprar as seleções musicais de um dos ritmos brasileiros mais rentáveis no Brasil: o sertanejo universitário, que chega a ter bilhões de acessos na plataforma. O valor pago por canais com playlists chega a 30 mil reais. Cantores sertanejos se empolgaram tanto com a ideia que estão pagando para entrar nessas listas É o “jabá 2.0”. (R.A.)

“TRUMPETEAR”

Nas eleições dos Estados Unidos, em 2016, o editor do site Slate Group, Jacob Weisberg, fez um podcast sobre Donald Trump. O que ele e os ouvintes não esperavam era que o alvo do programa fosse eleito. Inconformado, o editor decidiu transformar o Trumpcast (o nome do programa) em uma das produções diárias da Slate. O resultado foi proporcional à rejeição do presidente: um sucesso. Com comentários ácidos e muito humor, o podcast fala sobre os pronunciamentos de Trump. Weisberg também promove um grupo de leitura com os ouvintes em que são estudados paralelos das atitudes do presidente com obras literárias (geralmente, distopias). (R.A)

APURAÇÃO EM APUROS

APOIO AOS JORNALISTAS Como enfrentar os constantes ataques pessoais que diversos jornalistas pelo mundo recebem apenas por estarem fazendo o trabalho deles? A On The Line é uma iniciativa da International Press Institute (IPI) que contra-ataca esse tipo de assédio virtual aos jornalistas, como difamação, perseguição, ameaça de morte ou até hackeamento de contas. A ideia do projeto é coletar e organizar os dados e trabalhar para antecipar essas investidas, além de fornecer assistência jurídica e técnica. O site, hospedado na Suécia, disponibiliza um formulário no qual o jornalista pode enviar documentos – analisados e, por questões de segurança, apagados depois de determinado tempo – e relatos em texto para pedir auxílio. A partir dessas histórias, a IPI busca contato direto com os setores jurídicos responsáveis de cada país, além de outras instituições internacionais e ONGs, para resolver os problemas. (Henrique Artuni)

LA VÉRITÉ Com todo o burburinho sobre fake news nas redes sociais, o jornal francês Le Monde lançou uma ferramenta para detectar mentiras online: o Décodex. Basta jogar o link do site suspeito na caixa de pesquisa e em poucos segundos sai a resposta dizendo se o endereço online é confiável ou não. Também existe uma equipe do jornal responsável por analisar informações compartilhadas na rede. Um exemplo foi em novembro de 2017, quando a ferramenta desmascarou uma falsa notícia de que pessoas negras haviam sido proibidas de usar o transporte público em Argélia, na África. (Pedro Garcia)

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PORTFÓLIO

VEREDAS DA MEMÓRIA Os Brasis visitados e construídos nas fotografias de Maureen Bisilliat POR CAROLINA MORAES E GABRIEL SEIXAS A psicóloga e escritora Ecléa Bosi escreveu que a memória “permite a relação do corpo presente com o passado e, ao mesmo tempo, interfere no curso atual das representações”. Na vida de Maureen Bisilliat, as imagens que produziu são essa relação de reminiscência. Quando o Instituto Moreira Salles adquiriu suas fotos em 2003, a fotógrafa estava anos afas-

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tada da produção fotográfica. “Estava em outros projetos absolutamente envolventes, mas a partir disso comecei a fazer exposições e reavivei isso”, conta Bisilliat. “Lembrei que era fotógrafa”. As mais de 16 mil imagens incorporadas ao acervo retratam as entranhas do país em que vive desde 1952. Nascida em Englefield, na Inglaterra, Maureen estudou artes plásticas em Paris e Nova York

na década de 1950, mas se fixou em São Paulo. Foi no Brasil que encontrou um país acolhedor e que conseguiu “criar um pouco de raízes”. Nele também se fixou em um caminho sem volta: a fotografia. Entre 1964 e 1972, Maureen fez trabalhos para as revistas Realidade e Quatro Rodas, momento em que sua investigação fotográfica deu forma à parte de seus grandes ensaios.


O sertanejo, o índio e a drag queen, retratos de vários Brasis pelo olhar da fotógrafa Maureen Bisilliat

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Os povos do Xingu, o samba carioca, mulheres catadoras de caranguejos, sertanejos e sertões passaram pelas lentes de Maureen. Enquanto atuava como fotojornalista na Editora Abril, ela tocava seus trabalhos orquestrados com a literatura. Orquestrado é usado pela própria fotógrafa para expressar o diálogo de seu trabalho com outras obras. Rumo ao universo de Guimarães Rosa, ao trajeto pelas águas amazônicas feito por Mário de Andrade e por tantos outros caminhos, Maureen travou diálogos com autores que mergulharam na construção do imaginário brasileiro. “Durante muito tempo fotografava tendo me encantado com autores: Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, João Cabral, Jorge Amado…” Parte desses lugares em que esteve foram revisitados na produção de uma série voltada para o passado. O documentário, chamado Equivalências, registra essas viagens 50 anos depois e retoma a vida da fotógrafa com o suporte que mais usa atualmente: a filmagem. Ainda na década de 1980, a artista já se dedicava à produção de vídeos, como o longa Xingu/Terra, documentário feito na aldeia Mehinaku, no Alto Xingu. “Me faltava, em um certo momento, o movimento e a palavra”, justifica o abandono da câmera fotográfica. Mas seja em vídeo ou fotografia, a obra de Maureen não está restrita ao momento em que foi feita. Seu trabalho parece ser também o de evocar constantemente esses registros.

As imagens de Maureen Bisilliat, sob propriedade do Instituto Moreira Salles, percorrem o Brasil de Norte a Sul: o menino-anjo, em São José do Rio Pardo, em 1963; índia no Parque do Xingu, no Mato Grosso, em 1975; bumba-meu-boi na Festa de São João, em 1978

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Na foto do alto, jovens e velhas pescam na lama em 1968 em Livramento, na Paraíba. Acima, um ilustre desconhecido no Centro do Rio de Janeiro

Apesar do amplo reconhecimento que o trabalho de Maureen recebe, há uma generosidade de sua parte ao avaliá-lo. Ela afirma que o motivo da repercussão “é um certo carinho que as pessoas têm com o passado deste país. Quando se vê as pessoas retratadas, me dizem sentir essa espécie de carinho. Então digo: alguma coisa, talvez, pude oferecer”. Maureen não se considera artista, “prefiro a palavra fazedor. Eu fazia”. Mesmo que distante do ato de fotografar, a obra de Maureen ainda se faz; agora, em um processo de rememoração pouco nostálgico. Ela é enfática ao afirmar que não voltaria no tempo. Como no trecho do texto que escreveu sobre o ensaio baseado no livro O Turista Aprendiz, de Mário de Andrade, exposto na XVIII Bienal de São Paulo, ela dialoga também com seu presente: “O tempo é um elemento fundamental no fazer das coisas”. @

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Ponte para o mundo Evento imersivo trará experiência real do mercado de comunicação aos alunos dos quatro cursos da Faculdade

CASPERIANAS

OMNI CAMP Em agosto de 2017, Everton Vasconcelos almoçava com colegas de trabalho quando, pelo celular, viu a programação da Semana de Comunicação Integrada da Faculdade Cásper Líbero. O casperiano e atual Diretor de Atendimento do CDI, um dos dez maiores grupos da área no Brasil, considerou que o evento trazia ao debate temas relevantes, mas que faltavam palestras abordando de maneira concreta as exigências para um profissional da comunicação corporativa. Como ainda segue as redes sociais da Faculdade, aproveitou para publicar um comentário com sua opinião. Seus colegas pensaram que, talvez, a postagem fosse apagada. Não foi o que aconteceu. “Eu estava apontando uma questão sensível, mas de maneira

muito corajosa a Cásper não apagou o comentário. O próprio diretor Carlos Costa viu e decidiu me chamar para uma reunião”, lembra. Foi desse encontro que nasceu a ideia de um evento realizado em parceria entre o Grupo de Comunicação CDI e a Faculdade Cásper Líbero. O objetivo é trazer aos alunos a experiência multiplataforma da comunicação. Trata-se de um projeto no formato bootcamp em que, durante quatro dias, os casperianos terão a oportunidade de fazer uma imersão em problemas reais de grandes empresas. Nas palavras de Everton, será uma verdadeira gincana do conhecimento focada nas exigências do mercado. Os quatro cursos da Faculdade poderão participar da atividade. Em

abril de 2018, serão selecionados 40 alunos que formarão oito equipes de cinco participantes. O evento ocorrerá de 7 a 10 de maio nas dependências da Cásper Líbero. Os alunos terão palestras com profissionais do mundo corporativo que os prepararão para o grande desafio: elaborar estratégias de comunicação para problemas reais de empresas clientes do Grupo CDI. Ao final, os alunos apresentarão seus projetos para o público e uma banca técnica que definirão os vencedores. As melhores soluções serão premiadas. Para o diretor Carlos Costa, essa será uma grande oportunidade para os alunos irem além do universo acadêmico e entender, por uma experiência concreta, o dinamismo da comunicação. (Guto Martini)

INVASÃO NERD Não era a Comic Con nem a Brasil Game Show, mas havia otakus, gamers e fãs de George R.R. Martin (autor de As Crônicas de Gelo e Fogo, que deu origem à série Game of Thrones) andando pelo 5º andar da Cásper Líbero. É que a sala Aloysio Biondi da Faculdade estava sendo palco do Seminário Cásper Geek. Foi a oportunidade para os alunos mergulharem no universo da cultura nerd, muito admirado por eles, mas sob uma perspec-

tiva técnica e acadêmica. O evento foi idealizado pelo professor do curso de Publicidade Eric Carvalho, coordenador do Centro Interdisciplinar de Pesquisa, e ocorreu nos dias 26 e 27 de outubro de 2017. Foram discutidos o passado e presente da representação do material nerd, os efeitos da transmídia na evolução das narrativas e a representação cultural japonesa em personagens pops de mangás. “Finalmente senti

o reconhecimento da cultura nerd. E, ao mesmo tempo, pude aprender mais sobre coisas de que tanto gosto”, afirmou o aluno de jornalismo Henrique Dentzien, fã de Deathstroke. O professor da Cásper Líbero Luís Mauro Sá Martino, um confesso geek, explicou a razão de se olhar com seriedade esse universo. “Se não falarmos sobre essa cultura, estaremos deixando de cumprir o nosso papel”, disse o mestre jedi casperiano. (Bruna Somma)


DEPOIMENTO

O SÉRIO PELO LÚDICO O tom era descontraído. E não podia ser diferente, já que estamos falando do Fórum Acadêmico de Estudos Lúdicos (Fael), em que a ordem é quebrar com a austeridade do meio científico. Para abrir a 4ª edição do evento, a Faculdade Cásper Líbero recebeu o comediante Michel Weber, que, logo após um discurso do diretor Carlos Costa, levou a plateia aos risos com uma sessão de stand-up. Para além da comédia, temas

que buscam a interdisciplinaridade do conhecimento lúdico, como jogos de viés jornalístico e ferramentas digitais, também tiveram bastante espaço. Durante os três dias do evento organizado pela Rede Brasileira de Estudos Lúdico (Rebel), que ocorreu entre 16 e 18 de outubro de 2017, a Comunicação foi pautada pelo seu lado mais descontraído sem, contudo, perder o foco em sua importância. (Sofia Demarchi)

A SOCIEDADE DE DEBORD Meio século depois da publicação de “Sociedade do Espetáculo”, a obra Guy Debord continua moderna e cortejada por pesquisadores da área de humanidades. Para comemorar o aniversário de lançamento do livro, o Grupo de Pesquisa do Mestrado da Cásper Líbero organizou uma edição especial para o 4° Seminário Comunicação, Cultura e Sociedade do Es-

petáculo. Do dia 19 a 21 de outubro de 2017, os pesquisadores e convidados se reuniram para refletir os conceitos de Debord aplicados aos movimentos artísticos e produtos da mídia. Entre os palestrantes do evento, estava a professora Maria Ribeiro do Valle (Unesp) e a professora Rosana de Lima Soares do Programa de Pós-Graduação da ECA-USP. (Rafaela Artero) DIVULGAÇÃO

A Comunicação pode até ser considerada uma ciência tardia, mas o seu espaço cresce, principalmente com os congressos voltados apenas para o assunto. Como é o caso do XV Ibercom, um evento bienal Íbero-americano organizado pela Associação Íbero-Americana de Comunicação (Assibercom). E a Cásper não poderia ficar de fora dessa. Giselle Freire, estudante do mestrado da Fa-

Letícia Sé, aluna do 4º ano de Jornalismo

FCL

PESQUISA IBÉRICA

Embora um clichê, não deixa de ser uma verdade dizer que só se pode compreender uma experiência se a vivermos na pele. Em contrapartida, acredito que narrativas podem ajudar a aproximar os lugares distantes de quem ficou. Pela Cásper Líbero, cobri duas edições da Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas. A primeira foi em 2016, no Marrocos. Um ano depois, tive a oportunidade de repetir a experiência na Alemanha. Na edição deste ano, trabalhei no grupo de Mídias, realizando uma grande reportagem junto de 11 colegas, tendo como editora-chefe a professora Cilene Victor. Havia também outros dois grupos de trabalho: de Telejornalismo, com a professora Tatiana Ferraz e Radiojornalismo com a professora Filomena Saleme. A Conferência geralmente se divide em duas zonas: uma de encontros oficiais para coletivas de imprensa e, outra, destinada à stands dos mais diversos países em que representantes não-governamentais fazem palestras sobre suas comunidades.

culdade Cásper Líbero apresentou o seu trabalho “História de Crianças com Deficiências: o Jornalismo que Narra e Dá Voz”. “Foi incrível ter trocas de experiências com pesquisadores, principalmente doutores e pós-doutores. Repartir esse conhecimento, frequentar os DTIs (Divisões Temáticas Ibercom) foi um crescimento acadêmico muito grande”, comenta a pesquisadora. (R.A.) Letícia Sé entrevista Francine Roboty na COP 23, em Bonn

CASPERIANAS

Mesa no XV Congresso Internacional Ibercom

JORNALISMO SEM FRONTEIRAS: A CÁSPER NA COP 23


RESENHAS

NAZISTAS E

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INTEGRADOS Nazistas entre nós: A trajetória dos oficiais de Hitler depois da guerra Marcos Guterman Editora Contexto 192 páginas

Livro vencedor do Prêmio Jabuti 2017 mostra que ainda há muito a se dizer sobre o nazismo POR JOÃO ALEXANDRE PESCHANSKI

Nazistas entre nós movimenta-se em duas tradições literárias. Na primeira tradição, a pesquisa histórica, o livro contribui para a literatura da derrocada do Grande Reich da Alemanha. De maneira geral, documenta e sistematiza as práticas políticas e sociais de integração dos “vilões” do nazismo principalmente no pós-1945. A pergunta que inquieta o historiador Marcos Guterman é: quais os mecanismos que garantiram e até facilitaram o esquecimento ou em alguns casos a indiferença do passado nazista de pessoas como Klaus Barbie, Josef Mengele, Albert Speer, Franz Stangl, Gustav Wagner e Adolf Eichmann e lhes permitiram integrar-se de modo ativo na esfera pública e privada fora do nazismo. As experiências de integração dos nazistas documentadas por Guterman, professor de Jornalismo na Cásper Líbero, têm diferenças marcantes, mas duas características normalmente recorrentes nos casos descritos chamam a atenção. Em primeiro, os mecanismos de esquecimento e indiferença, que beiraram a cumplicidade como diz o autor, foram especialmente ativos na América Latina. Assim, Stangl, um criminoso de guerra, desembarcou em 1951 no Brasil e teve uma carreira de relativo êxito na indústria. Não mudou de nome, apesar de constar na lista oficial de criminosos do nazismo. Em segundo, a integração dos nazistas não se deu como mera aceitação, mas normalmente em contextos de reconhecimento e prestígio. É o caso de Barbie, contratado pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos na luta contra os comunistas. Na linha da proposta de Guterman, teria sido interessante investigar em que medida tipos de países e sociedades foram impermeáveis aos nazistas. Parece ser o caso do bloco comunista, cujos países não são citados como acolhedores dos oficiais de Hitler. Comparar situações de integração e bloqueio aos nazistas teria talvez permitido especificar mais os mecanismos gerais que o

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livro investiga e entender como se articularam com decisões práticas na Guerra Fria. O livro movimenta-se ainda numa segunda tradição, o jornalismo investigativo. Aqui, o repórter narra os acontecimentos da história, do nazismo e dos nazistas, como se realizasse uma grande reportagem, expondo “a trajetória dos oficiais de Hitler depois da guerra” — no subtítulo da obra — como uma sequência de fatos, com um fio da meada. Nessa verve menos acadêmica, o autor permite-se mobilizar, heterodoxamente, referenciais de várias disciplinas, como psicanálise, ciência política, filosofia, ética, sociologia, investigando por meio de várias leituras e interpretações por que se permitiu na prática que os nazistas não fossem punidos apesar de terem sido os agentes do nazismo. É o jornalismo que permite a Guterman contribuir, num dos pontos mais brilhantes da obra, na compreensão da trajetória de Eichmann, objeto de uma análise, agora clássica, da filósofa Hannah Arendt. Guterman investiga, e com isso complementa a autora de Eichmann em Jerusalém, o cotidiano nazista do não nazismo, uma certa disposição de agir sem consequência para os limites da moral. Nota-se aqui uma certa tendência do autor de deixar de lado grandes conceitos e realmente descrever, de maneira até metódica, acontecimentos na vida de Eichmann. A aclamação do livro, por sinal vencedor do Prêmio Jabuti em 2017, na categoria Reportagem e Documentário, está provavelmente associada à estratégia ambiciosa de Guterman, que cruza jornalismo e história. O resultado dessa estratégia é um livro instigante e, contra uma certa tendência a se achar que nada mais há a se dizer sobre o nazismo.

João Alexandre Peschanski é professor de Ciência Política para os cursos de Jornalismo e Rádio, TV e Internet da Faculdade Cásper Líbero


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A ESCRITA AO RÉSDO-CHÃO Canal no Youtube dá dicas sobre a arte de escrever literatura ficcional POR HEITOR FERRAZ MELLO Enquadramento simples. O rosto da professora em primeiro plano. No fundo, os elementos de uma casa: uma pequena estante, um vaso de plantas e algum quadro, como uma pintura que representa um pasto verde com cavalos e aves brancas, e uma casa colonial isolada ao fundo. Esse despojamento inicial já ajuda a caracterizar a proposta do excelente programa “Exercícios de Criação Literária”, da escritora, roteirista e professora Sabina Anzuategui, no Youtube. Professora de Roteiro do departamento de Rádio, TV e Internet da Faculdade Cásper Líbero, Anzuategui é autora dos romances Calcinha no varal (Companhia das Letras, 2005) e O afeto ou caderno sobre a mesa (7 Letras, 2011), e roteirista dos filmes Jogo das Decapitações (Sérgio Bianchi, 2013), Como esquecer (Malu de Martino, 2010), A casa de Alice (Chico Teixeira, 2007) e Desmundo (Alain Fresnot, 2003). É toda essa experiência de criação que ela procura levar para os quadros do seu programa, que começou a ser veiculado em abril de 2017. Cada um desses encontros virtuais dura em torno de 10 a 15 minutos. E vale como uma bela introdução à intrincada arte da narrativa ficcional. Anzuategui já mantinha, desde 2012, a página “Exercícios de Criação Literária”, no Facebook, na qual postava informações sobre literatura, processos criativos e também sugestões de exercícios práticos. No começo de 2017, essa página chegou ao YouTube, com uma simpática vinheta e o cenário doméstico. Ao escolher um cantinho de seu apartamento para as suas aulas, Anzuategui parece desfazer qualquer imagem pomposa do trabalho da escrita. E também imprime um certo tom informal aos encontros, com postagens semanais. Com isso, ela procura atingir um público interessado em escrever, mas que ainda tem um pé atrás com a assus-

Exercícos de Criação Literária, YouTube, Terças-feiras

tadora palavra “romance”. Ela traz a literatura ao rés-do-chão, ao alcance de qualquer um. As apresentações de Sabina são bastante claras e didáticas, com exemplos de autores diversos e também da sua própria vivência com a escrita. A cada programa ela aborda um tema específico – a criação da personagem, a descrição de uma cena, a escolha do vocabulário, a composição de um espaço etc. – e propõe um exercício breve, de poucas linhas. Os participantes são convidados a enviar o texto realizado para o canal do programa. Um deles será escolhido e comentado num vídeo posterior, no qual ela procura tirar elementos que sirvam para todos os participantes. Nem todos os programas são estritamente literários. Ela também trata de aspectos práticos do trabalho com a escrita, como a organização de uma agenda pessoal que contemple pelo menos dois horários por semana para o embate com o texto, passando pela revisão dos originais, pelos caminhos tortuosos do mercado editorial e pelos canais alternativos de divulgação, como o aplicativo Wattpad, de compartilhamento de textos. Seja comentando um filme, seja falando sobre roteiristas, ou ainda entrevistando a youtuber Isabella Lubrano (formada em jornalismo pela Cásper Líbero), criadora do canal “Ler Antes de Morrer”, Anzuategui traz para as suas oficinas aquelas características que encontramos em seus dois romances: uma linguagem direta, delicada e bem-humorada, de quem vai tratando de assuntos teoricamente cabeludos da maneira mais natural do mundo.

Heitor Ferraz Mello é escritor e professor de Jornalismo Especializado e Técnicas de Redação na Faculdade Cásper Líbero

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PARA ENTENDER MAIS

Tipo por tipo O trabalho da Oficina Tipográfica São Paulo é prolífico. Se você gostou do que viu na matéria, siga o Instagram da ONG e fique interado de seus projetos: @oficinatipograficasp

Todos inclusos O Manual de Diversidade no Jornalismo do Énois e o Manual DIV.A.S são publicações que podem guiar um comunicador na hora de pensar a representatividade.

Caminhos cruzados :: CONEXÃO :: Para ter uma experência ainda mais imersiva nos assuntos desta edição, siga nossas dicas

Para contar uma boa história O Guia Completo do Storytelling, de Fernando Palacios e Matha Terenzzo e O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell são leituras obrigatórias para quem quer fazer um bom storytelling. Entre plataformas Para entrar no universo expandido da Transmídia, veja o nosso vídeo com conteúdo exclusivo da entrevista com os professores. Acesse: http://cspr.me/ reino-das-midias Curte seriados? Uma boa experiência transmidia é o norueguês Skam.

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Revista Cásper #23  

Revista Cásper #23  

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