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Nº 1 – Junho de 2010

Lousa e laptop Gadgets podem ajudar na educação? Em sintonia O rádio se mantém ainda mais vivo no mundo 2.0 A nova publicidade com Andréa Dietrich Confecom Participantes falam com exclusividade sobre a Conferência Nacional de Comunicação

Cesta básica

digital Como a tecnologia entrou de vez nos lares brasileiros e qual seu impacto na hora de colocar a mão no bolso

Maurício de Sousa: Quadrinhos, animação e publicidade


inovar A tradição de

Fundação Cásper Líbero Presidente Paulo Camarda Superintende Geral Sérgio Felipe dos Santos

Faculdade Cásper Líbero Diretora Tereza Cristina Vitali Vice-Diretor Welington Andrade

Revista Cásper Núcleo Editorial de Publicações Conselho Editorial Adalton Diniz, Carlos Costa, Elisa Marconi, Tânia Baitello e Vilma Schatzer Editor-chefe Gilberto Maringoni Editora Aline Magalhães Reportagem Aline Magalhães, Ana Lucia Silva, Ayana Trad, Danilo Braga, Fernanda Patrocínio, Lidia Zuin, Lucílio Correia e Thiago Tanji Editor de Arte e Fotografia Danilo Braga Assistentes de Arte Celeste Garcia e Natália Junqueira Colaboraram nesta edição André Sollitto, Bia Barbosa, Carlos Costa, Carolina Ribeiro, Cristina Charão, Hugo Passarelli, João Brant, Jonas Valente, Ottoni Fernandes Jr., Pedro Ekman e Walter Vieira Ceneviva Projeto Gráfico Danilo Braga e Gilberto Maringoni Redação Avenida Paulista, 900 — 5º andar 01310-940 — São Paulo — SP Tel.: (11) 3170-5874 E-mail: revistacasper@casperlibero.edu.br Site: http://www.casperlibero.edu.br Capa Fotografia e produção: Danilo Braga

“A educação é simplesmente a alma de uma sociedade a passar de uma geração para outra” Chesterton

No ano de 2009, a Faculdade Cásper Líbero criou um núcleo editorial, do qual faz parte um grupo de professores e alunos, com o objetivo de unificar e padronizar suas publicações laboratoriais, ampliando, assim, o potencial de comunicação da Instituição com os públicos interno e externo. Desse modo, depois do longo processo de reformulação por que passou o Portal da Faculdade (www.casperlibero.edu.br), a Cásper lança um novo veículo. A revista Cásper (acreditamos ser mais do que merecida a evocação do nome do empresário que tão bem soube entender o papel dos meios de comunicação na sociedade contemporânea) irá veicular artigos, notícias, reportagens e entrevistas sobre os mais variados temas ligados ao mundo da comunicação, da cultura e da educação. Desejando fomentar debates, suscitar reflexões e orgulhosamente fazer circular entre os meios acadêmicos e profissionais muitas das sólidas ações que a Faculdade empreende em seu dia a dia escolar - seja no âmbito dos cursos da graduação, seja na esfera da pós-graduação, sem esquecer das atividades voltadas à extensão universitária - a Cásper pretende estreitar seus vínculos com o mercado da comunicação e com o ambiente universitário. Diariamente nas salas de aula, laboratórios e corredores da Faculdade Cásper Líbero, cerca de 3.000 alunos matriculados e 130 professores contratados convivem ativamente, gerando uma atmosfera que funde o desafio intelectual e a ousadia profissional. São as muitas indagações que o mundo da comunicação propõe ao homem moderno e algumas das boas conquistas obtidas pelas coordenadorias de graduação (Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Relações Públicas, Rádio e TV e Cultura Geral), de pós-graduação (Lato Sensu e Mestrado) e do CIP (Centro Interdisciplinar de Pesquisa) que servirão de matéria-prima para a revista Cásper - um jovem veículo assentado sobre a atuação de seis décadas no ensino de comunicação. Boa leitura a todos! Tereza Cristina Vitali Diretora

3 Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


Sumário

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42 Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


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Cesta básica digital

Com a difusão da tecnologia digital há uma mudança no orçamento das famílias brasileiras. Como calcular os novos gastos?

Aula online

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Novas ferramentas digitais interferem no cotidiano pedagógico das escolas. Professores e alunos falam sobre o futuro da pedagogia high-tech

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Sintonia multiuso

O rádio faz 90 anos, buscando seu espaço entre as modernas mídias

Maurício, além da imaginação

As várias faces de um personagem que se destaca nos quadrinhos, na publicidade e no entretenimento

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34

Um mundo a investigar

Incentivo à pesquisa faz a diferença na Cásper e resulta em trabalhos de qualidade

Integração na teoria e na prática

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42 48 51

As cinco coordenadorias da Faculdade buscam articular suas atividades e obtêm reconhecimento público

Vestibular diferenciado

Os detalhes do processo seletivo da Cásper Líbero, um dos mais disputados do Brasil

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A nova cara da publicidade

A carreira de Andréa Dietrich, formada pela Cásper, comandante da estratégia de marketing digital do Grupo Pão de Açúcar

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O abolicionista de papel

As andanças do Angelo Agostini, italiano, radicado no Brasil imperial, que se destacou como caricaturista e agitador político

“Eu prefiro matérias sem pauta”

Eliane Brum, a gaúcha que faz das aventuras cotidianas a matéria prima de grandes reportagens

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A Confecom na voz de seus participantes

58 62

Processo envolve milhares de pessoas e discute novas bases para a democratização da comunicação no Brasil

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Uma história de futuro

Com quarenta anos de janela, a TV Gazeta tornou-se um símbolo da cidade de São Paulo

Resenhas

66

Livros, filmes e sites de destaque na área de comunicação

Crônica

Sobre a desinformação do excesso de informação, por Carlos Costa

Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

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Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

ilustração: danilo braga e gilberto maringoni

CAPA


Cesta Básica

digital A tecnologia entrou de vez nos lares brasileiros. Qual seu impacto na hora do consumidor colocar a mão no bolso? Apesar do crescimento dos serviços, preços ainda impedem universalização Por Aline Magalhães e Danilo Braga

7 Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


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Imagine um mundo em que não haja telejornal para lhe dar as primeiras notícias; a caminho do trabalho, nada de rádio ou jogos no celular para distrair; no escritório, as informações não estão “a um Google” de distância e nem é possível se divertir bisbilhotando a vida alheia no Orkut. Pasme, caro leitor cibernético do século XXI: isso não acontecia na préhistória. Há apenas poucas décadas, nossos pais e avós viviam assim. Em um curto período de tempo, o que era ficção científica passou a fazer parte inseparável do nosso cotidiano e, por consequência, do orçamento familiar. Cada vez mais as pessoas estão à procura de serviços e equipamentos de comunicação que facilitem suas vidas. No Brasil, esse cenário começou a ser expandido em meados do ano 2000, quando a “tecnologia da informação” (banda larga, telefonia móvel e TV por assinatura) se expandiu de forma irreversível. Nas mãos do povo Uma década depois, tal tecnologia deixou de ser privilégio exclusivo de uma pequena parcela da população e caiu nas mãos do “povão”. O que era luxo virou item essencial na “cesta básica” do brasileiro: “Antes eu achava que ter notebook era algo só para executivos. Hoje eu preciso dessa

mobilidade para estudar e abrir meus e-mails do trabalho em qualquer lugar”, conta Thiago da Costa, 22, supervisor de telemarketing, que confessa também utilizar o equipamento para checar com maior frequência os recados das “gatinhas” no Orkut: “Isso também é se manter informado”, brinca. Com um rendimento mensal de R$ 1,3 mil, Costa adquiriu seu primeiro laptop graças às “suaves prestações” oferecidas pelas lojas. Parcelou a compra em doze vezes de R$ 125 no carnê. “E sem juros”, gaba-se. O supervisor ainda gasta R$ 30 para pagar o plano de banda larga de 2 megas, que também alimenta a internet no outro computador, um desktop, em sua casa. O boom da classe C Assim como Costa, milhões de brasileiros agora podem usufruir de tais tecnologias. Isso só foi possível porque a renda da população aumentou. A chamada classe C, cujos ingressos variam de R$ 580 à R$ 1.100 ganhou

>> Conexões banda larga no país

Fonte: Pesquisa Barômetro Cisco Banda Larga Brasil 2005-2010 e Anatel

mais integrantes: cerca de 31 milhões, apenas entre 2003 e 2008. O fenômeno, de acordo com o economista e professor da Cásper Líbero, Adalton Diniz, “não é independente e muito menos um evento natural nos quadros econômicos brasileiros”. Diniz salienta que a mudança é fruto direto das políticas econômicas e de um processo iniciado há décadas. Fim da inflação Entre 1980 e 1994, a economia brasileira viveu os estertores de um modelo de desenvolvimento vigente desde os anos 1930. A crise da dívida, que literalmente quebrou o país em 1982, e a persistência de um acelerado processo inflacionário resultaram em contração econômica, desemprego e falências de empresas. Aumentou a concentração de renda nas classes mais altas, e a parcela mais pobre da população foi atingida por duas recessões que eliminaram milhões de postos de trabalho. Nos anos 1990, as assustadoras máquinas de remarcação de preços tiveram seu descanso com o fim da inflação durante o período FHC e o sucesso do Plano Real na estabilização da moeda. Preparado o terreno, o governo Lula e suas políticas econômicas envolvendo aumentos reais do salário mínimo (acima da inflação) e políticas de transferência de renda provocaram uma ascensão das classes C e D: “Indivíduos antes classificados como de baixa renda agora estão consumindo”, explica Diniz. “Até então, a classe C vivia um estado de consumo vegetativo”, diz Rodney de Souza Nascimento, publicitário e professor no curso de Publicidade e Propaganda da Cásper Líbero. Nesse cenário, as empresas reconheceram a possibilidade de explorar um novo nicho de mercado popular. Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


Thiago desfruta da alta definição enquanto o cunhado e a irmã se divertem na internet. Para eles, tais serviços tornaram-se tão fundamentais quanto gastos com moradia, alimentação e transporte

Criaram-se diferentes marcas para atender o perfil do novo consumidor, como explica Nascimento: “Os empresários preferem pulverizar o mercado a ter poucos compradores”, comenta. “Foi o que ocorreu com a TV a cabo, que agora oferece combos de TV, internet e telefone a preço mais acessível”. Diniz, por sua vez, lembra a importância desse processo para o consumidor: “A elite preza produtos singulares, o que faz com que as mercadorias destinadas a esses segmentos tenham pouca demanda e, assim, preços muito elevados. Por isso a criação de produtos similares com custo reduzido é importante para que as classes populares possam, de fato, encher suas sacolas no supermercado”. A expansão do crédito ao consumidor é outro fator que alavanca as vendas. “É impossível juntar dinheiro para comprar à vista, tem que apelar para o carnê’”, conta o supervisor de telemarketing Thiago Costa. Foi graças Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

ao crédito estendido que sua família adquiriu uma TV LCD de 42 polegadas que será quitada em 18 meses. O preço do aparelho é quase três vezes o salário de Thiago. “Mas valeu a pena, a gente se aperta e paga em parcelinhas até perder de vista”. A preço de banana A revista Cásper fez um levantamento nas principais lojas populares e constatou que a maioria dos itens cujo valor ultrapasse R$ 100 pode ser parcelado em no mínimo dez vezes. Tentação para qualquer consumidor convicto. Confira na página 12 nossa simulação de compra de um “kit básico de sobrevivência” e as opções de parcelamento. Menos de dois salários mínimos já são suficientes para se adquirir um computador. Com R$ 799 é possível levar o equipamento para casa, com 160 Gb de HD e 1Gb de memória. Já os consumidores de melhor renda

não poupam dinheiro para ter o que há de mais moderno na informática. Thaís Fontes, 19, é dona de um poderoso Apple MacBook Pro, que custou R$ 3,8 mil com o desconto educacional do fabricante. “Eu precisava de uma máquina que não travasse enquanto uso o Photoshop”, explica a estudante de fotografia. O potente processador de dois núcleos parece não ser suficiente para a entusiasta das novas tecnologias, que ainda utiliza um smartphone com o plano de dados ilimitado. “Não é barato [R$ 99], mas compensa. Posso até ‘twitar’ de qualquer lugar!”, exemplifica De última geração ou não, o fato é que o computador chegou para valer na maior parte das casas brasileiras. O país possuía, em setembro de 2009, cerca de 45% dos 95,6 milhões de computadores na América Latina, de acordo com a consultoria Everis, voltada para negócios em tecnologia da informação.

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Thaís faz parte dos 6,25% da população com conexão banda-larga. Apesar do aumento de assinantes, o acesso ao serviço ainda é restrito

Fonte: ANATEL

Conexão a toda velocidade Haja banda larga para “turbinar” tantas máquinas! São 15 milhões de assinaturas em todo o país. Contudo, há uma década o cenário era diferente. Para se ter idéia do crescimento do serviço, segundo dados da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), em 2000 existiam apenas 124 mil conexões. À medida que os serviços se popularizavam, os preços caíram. Atualmente, cada mega de velocidade custa R$ 25,50, - valor inimaginável há alguns anos. Existem planos e valores para todos os tipos de gosto e bolso, desde pacotes básicos que saem por R$ 29 aos mais robustos, que esbanjam 12 megas de velocidade por R$ 219. Vale lembrar que até meados de 2005, o cliente deveria optar por comprar ou alugar o modem, que não saía por menos de R$ 100. Hoje o aparelho é fornecido gratuitamente pelas operadoras de telefonia. Ainda há a possibilidade de aproveitar promoções e planos oferecidos pelas empresas. Na tentativa de salvar o bolso, vale até mesmo negociar um precinho camarada: “Eu sempre reclamo que está muito caro e peço

descontos. Acabo pagando menos ou ganhando mais velocidade. Para se ter uma ideia, nem pago mais provedor”, confessa Thiago Costa, que desembolsa R$ 30 pela conexão de dois megas. Para quem deseja mais entretenimento e economia, vale apostar nos combos, que oferecem TV, banda larga e telefone. Os planos vão de R$ 39,90 a R$ 499,90. O consumidor também tem a possibilidade de montar um pacote personalizado de acordo com suas necessidades e interesses. Alô, alô! Dizer que todo brasileiro tem celular não é mais exagero. Em 2009, havia 1,1 celular para cada brasileiro, superando a telefonia fixa, com cerca de 3 pessoas por linha. Por outro lado, falar ao celular é mais caro que em um telefone convencional. Pagase no fixo, em São Paulo, a média de R$ 0,29 por minuto contra R$ 1,02 no móvel, apesar de existirem planos de operadoras com tarifas menores. Para economizar, a dica é optar por planos pós pagos, nos quais a média da minutagem é de R$ 0,89. “Uso um plano de mil miRevista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


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>> Quanto custa?

Em 2007 foram vendidos...

Banda Larga

computadores

por minuto

Promoções Tais promoções, explica o publicitário Rodney Nascimento, não só fazem com que o consumidor encare o valor de recarga como compromisso no orçamento mensal, mas impulsionam também a compra de novos aparelhos: “Não é raro encontrar pessoas que têm dois, três celulares, um de cada companhia. Com um ele aproveita o bônus para falar com a namorada, com o outro ele fala com o amigo, e assim vai”. O mercado não convencional, com os ditos xing lings (produtos importados da China), tornou-se opção para esse consumidor quando trouxe os celulares que comportam dois chips, além de reunirem uma infinidade de recursos atrativos a um custo muito baixo. Enquanto pagamos no mínimo R$ 700 em um celular com MP3, rádio, TV, câmera fotográfica e filmadora no mercado tradicional, um xing ling com os mesmos dispositivos e com o benefício dos dois chips integrados custa R$ 250. Usufruir da tecnologia no Brasil é tarefa mais cara que em outros lugares do mundo. De acordo com pesquisa feita pela consultoria Bernstein Research, estamos entre os três países com as tarifas de celular mais altas do mundo, com média de US$ 0,24 por minuto, ao lado da África do Sul, com US$ 0,26 e Nigéria, US$ 0,23. Na Índia, onde o PIB é próximo ao do Brasil, o valor despenca para US$ 0,01. Nos Estados Unidos e Reino Unido o custo é, respectivamente, Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

de US$ 0,05 e US$ 0,14. A explicação, ainda segundo a consultoria europeia, seria a alta taxa de interconexão, conhecida como VUM (Valor de Uso Móvel), que uma operadora paga para a outra pelo uso de suas redes em áreas em que uma delas não tem concessão. Estima-se que 35% da receita das empresas de telefonia móvel se origina na taxa. O resultado é que 82% dos usuários de celulares optam planos pré-pagos. Assim, o aparelho torna-se o famoso “pai de santo”: só recebe. Com a banda larga não é diferente. O preço do serviço coloca o Brasil na 77ª posição de um ranking com 154 países realizado pela UIT (União Internacional para as Telecomunicações) que relacionou o custo da conexão veloz à renda per capita. Nas terras tupiniquins, devemos desembolsar 9,6% da renda por habitante para assinar o serviço, enquanto nos EUA compromete-se apenas 0,4%; em países emergentes como Argentina e México, os valores são, respectivamente, de 7,6% e 5,3%. Em debate realizado em janeiro deste ano, na Campus Party, evento anual no qual se discutem tecnologia e comunicação, o presidente da Telefônica Antonio Carlos Valente declarou: “O Brasil sempre aparece como um país em que os serviços de telecomunicações, como a banda a larga, são um dos mais caros do mundo. Mas não se fala que a carga tributária é altíssima. No caso do modem, por exemplo, 75% do preço é tornado por imposto”. Além dos impostos nas alturas, o consumidor ainda esbarra com a falta de diversidade de concorrência entre empresas e com o fato de que, para ter acesso

Banda Larga Popular (Telefônica) – 256 kbps

Virtua (NET) 8 megas

Se os valores fossem proporcionais, gastaríamos

R $ 2 5 , 5 0 por megabyte

Telefonia A diferença de preços entre os serviços fixos e móveis ainda é muito alta no Brasil

R$ 1,09

por minuto

R$ 0,29

por minuto Fonte: ANATEL

nutos. A vantagem é que posso dividi-los entre os quatros celulares na minha família. Se for ver, no final sai mais em conta”, diz Thaís Fontes.

em todo o Brasil

Fixo

Celular

ao serviço, é preciso também pagar um provedor. Mesmo descontados os impostos, as tarifas brasileiras seguiriam nas alturas. A banda larga, no final de 2009, só era acessível para cerca de 6,25% da população, de acordo com o documento “Alternativas de políticas públicas para banda larga”, publicado pela Câmara dos Deputados. Embora os números apontem um crescimento animador e bastante significativo no acesso à tecnologia, existe ainda uma imensa parcela da população que vive a chamada exclusão digital.

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>> Fixo ou móvel?

>> Fixo ou móvel?

em milhões de usuários

milhões de usuários

160

150

Número de linhas aumenta na década

milhões

140 120

Telefonia Móvel

86

100

milhões

57,9

80 60

milhões

49,2

milhões

40

50,5

29

20

Telefonia Fixa

milhões

milhões

2002

2008

2005

Fonte: ANATEL

Preços na ponta do lápis Quanto custa se equipar?

Internet

Televisão

Celular

NET Vírtua (500kbps)

Telefônica Pacote Inicial

R$29,90

Claro 45 Minutos GSM

R$ 46,90

NET Virtua Mega Flash (12 Mega)

NET Total HD Mais

Vivo Você Completo 1600 Minutos

R$59,90 R$219,90

Microcomputador Positivo Plus

10x de R$ 79,90 R$ 799,00

R$159,90

R$ 559,00

TV 32" LCD H-Buster HBTV

Celular Samsung GT E2210

R$ 1499,00

R$ 249,00

10x de R$ 149,90

Fonte: Casas Bahia e Ponto Frio; Telefônica e NET; Claro, Oi, TIM e Vivo

10x de R$ 24,90

Preços altos e serviços irregulares das operadoras privadas estão levando o governo federal a planejar o oferecimento de conexões mais baratas e de melhor qualidade. O Estado trabalha em um Plano Nacional de Banda Larga. Definida no início de maio, a medida deve quadriplicar o número de domicílios em todo o país com acesso ao serviço. Atualmente, cerca de 12 milhões de moradias usufruem da internet rápida. As pesquisadoras Lisa Gunn e Estela Guerrini, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo em 31 de janeiro último, afirmam que “os números apresentados pelo Comitê Gestor da Internet (CGi) relativos a 2008 indicam que só 18% dos domicílios têm acesso à internet – na área urbana, a porcentagem de acesso é de 20%, e na área rural, de 4%”. Segundo elas, “a não inclusão dos cidadãos no novo ambiente digital reproduz e aumenta a já inaceitável desigualdade socioeconômica existente no Brasil”. Consumo democratizado A emergente classe C ainda não usufrui plenamente dos serviços disponíveis: “É uma classe que tem o produto, mas muitas vezes não consegue pagar o serviço. Como é o caso de quem tem um televisor de plasma sem TV a cabo”, diz o professor Rodney Nascimento. “Não adianta possuir uma parafernália de equipamentos se não há acesso aos serviços. É preciso dar condições efetivas para que haja esse acesso”, completa Nascimento. O publicitário acredita no potencial educacional da tecnologia: “O uso da internet para essa classe, por exemplo, ainda está muito ligado às redes sociais. Precisamos mostrar o valor educacional contido no serviço”, diz. “Mas as pessoas já estão percebendo isso e valorizando a educação”, continua. Um Brasil para todos os bolsos é a situação com a qual o professor sonha: “O maior acesso à tecnologia é um processo extremamente positivo, que vai se acentuar muito. No entanto, o consumo deve ser democrático. Os bens devem estar ao alcance de todos, pois antes de sermos consumidores, somos cidadãos”, finaliza ele. Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


SALA DE AULA

O uso da tecnologia na educação coloca professores e alunos diante de novas questões. Quais os limites para seu uso? Qual o novo papel do professor? A lousa e o giz estão superados? por Ana Lucia Silva

A tecnologia digital chegou à sala de aula. A convivência do giz, da lousa, do papel e da caneta com notebooks, celulares e outros dispositivos mudará o processo pedagógico ou tudo não passa de um deslumbramento com ferramentas de última geração? A questão não é fácil de responder. Colégios particulares, faculdades e até escolas públicas concordam em um ponto: O uso das tecnologias em classe é irreversível. Alguns educadores não consideram quadro-negro e giz como itens primordiais no sistema de ensino. “A lousa não é insubstituível. Fica mais fácil fazer apresentações em PowerPoint ou usar o material didático presente no YouTube Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

para deixar o conteúdo mais claro”, afirma Mário Abbondati, coordenador de Tecnologia Educacional do Colégio Bandeirantes. A questão é o papel que exercem essas ferramentas. A revista Cásper ouviu professores de vários estabelecimentos sobre o uso crescente de laptops, câmeras e celulares no dia a dia das atividades escolares. Todos os entrevistados foram unânimes

em dizer que a tecnologia não significa achar que ela é um fim em si mesma. “Vivemos em um mundo virtual. Portanto, é inconcebível alguém hoje entrar no mercado de trabalho sem habilidade tecnológica. Os pais cada vez mais se preocupam com o que as escolas oferecem nestes termos para seus filhos”, afirma Márcia Maria Deotto, gerente de Tecnologias de Aprendizagem Interativa da Faculdade Insper-Ibmec. Sonia Bertocchi, professora de Língua Portuguesa e coordenadora de projetos do EducaRede (portal educativo voltado ao uso de novas tecnologias), crê que o principal aspecto positivo do uso da tecnologia na sala de aula é a integração. “Se ela está na vida do cidadão, por que não pode estar na sala de aula?”, questiona. Não existe polêmica sobre a necessidade de as instituições de ensino utilizarem todo tipo de ferramenta colocada à disposição dos alunos.

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ANA lUCIA sILVA

Mário Abbondati, coordenador de Tecnologia Educacional do Colégio Bandeirantes, defende o uso de diversos recursos tecnológicos para deixar mais claras matérias como a Matemática

Para Abbondati, o professor tem de repensar suas atividades, para permitir ao aluno buscar informação e construir conhecimento. Já a professora Valdenice de Cerqueira, coordenadora do Departamento de Tecnologia Educacional do Colégio Dante Alighieri, afirma: “Os alunos já são muito tecnológicos. Os professores aprendem com eles através de trocas e apropriações. Porém isso não significa que fazem melhor. É preciso unir a experiência do professor à expertise do aluno”. O Colégio Bandeirantes começou a aplicar neste ano uma ferramenta à disciplina de Matemática. Trata-se do Adobe Connect, que possibilita a realização de videoconferências entre professores e alunos para aulas de

reforço. A outra aposta do colégio é a sala virtual, um espaço que disponibiliza conteúdo para os trabalhos de casa e material complementar. Além disso, programas de compartilhamento como o Google Docs tem o uso estimulado. “Todos estes recursos não dispensam o professor. É ele é quem faz a mediação”, conta o coordenador. Professor é fundamental Os alunos do Colégio Dante Alighieri desfrutam de uma infraestrutura hightech. As salas contam com lousa digital, deck para notebooks, laboratórios com laptops, câmeras filmadoras, aulas de robótica, oficinas de games,  revista digital, webjornal, além de rede wireless e uma infinidade de ferramen-

Nada ainda é melhor do que ler. Sem preparação ninguém faz nada com as novas tecnologias

tas em seu site. “Estes recursos incentivam o aluno que acaba gostando mais de aprender”, relata a professora Valdenice. A escola tem preferência por programas gratuitos. Através do Skype, o Dante proporciona uma conversa com os cientistas na base brasileira da Antártida. “Tudo a custo zero. Procuramos usar o máximo de programas gratuitos para que os alunos tenham acesso em casa, sem utilizar a pirataria”, explica Valdenice. Rede pública Alguns estabelecimentos conceituados justificam a atualização pedagógica. “Ser tradicional não significa evitar o uso de novas tecnologias. Os valores morais podem partir até da instrução aos alunos de como utilizar tais recursos de maneira ética e conscienciosa”, afirma Kenia Amazonita, responsável pedagógica pelo Portal da Educação Adventista, site que reúne informações sobre rede adventista de escolas. Muitas instituições sofrem com a falta de verba para investir em novidades. É o caso da Escola Estadual Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


Arlindo Aquino de Oliveira, um colégio público rural de Mogi das Cruzes, que atende o ensino fundamental. Segundo Francesli Aparecida Patrocínio, coordenadora pedagógica, a unidade dispõe de uma sala de informática com dez computadores para uso dos alunos durante o período de aula ou eventuais pesquisas. “Apesar das dificuldades com manutenção, feita pela Secretaria de Educação, nossos professores têm se mostrado abertos à utilização da tecnologia como aliada da pedagogia”. Ela conta que as verbas enviadas pelo governo do Estado são pequenas, pois toda a distribuição gira em torno da quantidade de alunos pertencentes a cada unidade escolar. Mesmo assim, o Estado investe em programas de incentivo a inclusão digital, como é o caso do Acessa Escola, que pretende chegar a 3.572 instituições de ensino da rede pública. O objetivo é prover salas de informática abertas o dia inteiro com banda larga, manutenção e monitores que, no caso de 2010, serão 13.086 estagiários provenientes do Ensino Médio. Segundo a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, já foram investidos mais de R$ 75,8 milhões para a ampliação da capacidade de atendimento e manutenção do projeto. “Estamos colaborando para que nossos estudantes possam se preparar para o mercado de trabalho com o acesso às tecnologias digitais, que hoje são indispensáveis para qualquer profissional”, afirma Paulo Renato Souza, secretário de educação do Estado de São Paulo. Ensino a distância As ferramentas de ensino à distância, mesmo nos cursos presenciais, apresentam uma facilidade: acessar conteúdos relacionados ao curso a qualquer hora e em qualquer lugar. Universidades, como a Anhembi Morumbi e a Metodista, utilizam softwares para promoverem aulas semi-presenciais em suas grades. Apesar da grande adesão, aspectos negativos devem ser levados em Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

conta. A banalização dos recursos da web, a mera transposição do analógico para o digital e a resistência dos educadores são alguns dos problemas enfrentados, segundo Sonia Bertocchi, do EducaRede. “O mau uso da internet, principalmente em casa, é uma preocupação. São riscos potenciais como a superexposição. Procuramos orientar os professores para também realizar atividades com outros materiais sempre que possível”, diz Valdenice de Cerqueira, do Colégio Dante Alighieri. Márcia Maria, do Insper/Ibmec, concorda: “Um aspecto negativo é encher a sala de aula com recursos tecnológicos sem ter um objetivo a ser alcançado. Isto causa uma impressão no aluno que o professor está “matando” o tempo em sala de aula. O aluno é esperto e percebe quando o professor domina ou não a tecnologia e o conteúdo”. Dentro da sala Além disso, existe a questão do uso de laptops e celulares dentro das salas. Eles são ferramenta ou objeto de distração? “Os alunos cada vez mais começam a trazer seus dispositivos. No caso dos celulares, fica difícil a proibição. Estes aparelhos estão tão integrados que não funcionam apenas como comunicadores, mas também para funções básicas como a de relógio”, afirma Valdenice. Porém, há outros pontos a se considerar. Segundo Cláudio Arantes, coordenador de Cultura Geral da Faculdade Cásper Líbero, “Temos conhecido uma pressão do corpo discente. É impossível proibir laptops”. Para ele, não há como saber o conteúdo que o aluno está acessando. “Não é o papel do professor”, afirma. Ele cita casos em que estudantes ajudaram o professor com pesquisas feitas em aula e também de alunos que atrapalham fotografando a lousa, sem contar o uso indevido de imagens gravadas em sala e divulgadas de forma descontextualizada. “É preciso bom

1. dIVULGAÇÃO / CECL | 2. DIVULGAÇÃO / IBMEC

A internet virou Deus e a sociedade não discute isso. Vale mais o desempenho do que os meios

Márcia Maria Deotto, gerente de Tecnologias de Aprendizagem Interativa do Insper/Ibmec, e Claudio Arantes, coordenador de Cultura Geral da Faculdade Cásper Líbero, concordam que a tecnologia só deve ser usada se empregada com objetivos bem definidos

senso para o uso de tudo isso, já que os laptops funcionam como caderno de anotações e para pesquisas pontuais a fim de melhorar a aula”, conclui. Outro problema são os casos de plágios e o trabalho extra que a tecnologia acarreta ao professor. “A fraude aumentou através das trocas de conteúdo e do vício de colagem durante pesquisas e elaborações. Além disso, o professor não é pago para tirar dúvidas nem responder emails dos alunos ou incluir as notas e faltas no sistema”, diz Arantes. “A internet virou Deus e a sociedade não discute isso. Vale mais o desempenho do que os meios”, acrescenta. Aula interessante O uso de tecnologia na sala de aula é inevitável para Daniela Ramos, professora de Novas Tecnologias da Comunicação da Cásper Líbero. “Não vejo nenhuma grande inovação em se usar ferramentas com o PowerPoint. Nada ainda é melhor do que ler. As ferramentas são um apoio e podem fazer a diferença, mas sem preparação ninguém faz nada com isso”, afirma a professora. “Sou a favor dos laptops na sala e os alunos já usam o celular. Cabe ao professor estimular todos a prestarem atenção, preparando uma aula interessante. O resto é responsabilidade de cada um. Já a fraude é um ato do homem, a tecnologia só permite que seja feita mais rapidamente”, conclui.

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RÁDIO

montagem sobre foto / danilo braga

SINTONIA MULTIUSO Aos 90 anos, o rádio se atualiza para ganhar espaço diante do surgimento de novas mídias Por Fernanda Patrocínio

Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


natália junqueira

Carro parado, sintonizado em alguma emissora de rádio. Notícias e músicas vêm e vão. Trânsito congestionado. O motorista saca o celular e telefona para a rádio, informando sobre a situação em que

Os estúdios de rádio estão cada vez mais modernos e equipados

se encontra. Ou em outro momento ele pode ainda conectar-se à internet, cedendo informação ou sugerindo programação.

“O público e a forma de fazer rádio mudaram. Mas o meio nunca vai acabar” Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

Seja no carro, em casa, no PC, celular ou aparelho de MP3, hoje é possível sintonizar uma estação de rádio de qualquer lugar. Às vésperas de completar noventa anos no Brasil, o rádio é ainda hoje um relevante meio de comunicação e, sobretudo, um prestador de serviços. O rádio se renova desde a dramática leitura de A Guerra dos Mundos feita por Orson Welles, em 1938, passando pela transmissão das Copas do Mundo no decorrer do século XX, até a instantaneidade da cobertura de conflitos e atentados, como no choque de aviões ao World Trade Center, em 2001. Apesar dos palpites de que com a disseminação da TV e da informática o rádio morreria, este meio tem se adaptado, usando a tecnologia para se expandir. Tecnorrádio “Muita gente faz celular de rádio; os meios estão mais baratos e acessíveis”, diz Magaly Prado. Radialista e professora da Faculdade Cásper

Líbero, ela crê que a radiofonia é cada vez mais interativa. “De qualquer aparelho MP3 você faz um audiocast, ou seja, pode transmitir áudio por intermédio da internet”, comenta. As transformações que o rádio vem sofrendo devem-se às mudanças da sociedade em si. “O público e a forma de fazer rádio evoluiram, mas este meio nunca vai acabar”, sintetiza Magaly. A portabilidade dos novos aparelhos é um aspecto positivo para o futuro do veículo. A maior mobilidade atribuída à rápida obtenção de informações e entretenimento tem proporcionado o consumo dos ditos gadgets. Para a publicitária Priscila Alves, estes dispositivos eletrônicos portáteis, práticos e úteis no cotidiano a mantêm informada. “Não há tempo a perder: eu sintonizo a rádio no carro ou pela internet, ouço as notícias e já ‘filtro’. O que me interessa, eu procuro em jornais, blogs e portais”, explica a publicitária, que assina três podcasts e não tem

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O rádio ao longo do tempo

Galena: o antigo receptor não utilizava energia elétrica e o som era ouvido por um par de fones de cristal

Capelinha: um clássico com caixa de madeira decorada e topo curvo

Década de 20

Década de 30

o antigo rádio “familiar” na sala de sua casa. Priscila afirma ainda que não sai de casa sem um aparelho portátil que grave e reproduza arquivos – MP3, MP4 ou iPod -, além de um cabo USB. “Armazeno músicas e arquivos em geral, como currículo e trabalhos. Faço do meu som um pen drive”, diz. Magaly Prado acredita que essa função multifacetada do rádio aproxima a audiência da programação. O uso de webcams nos estúdios, acredita ela, “quebra o mistério sobre a voz que nos fala, revelando o rosto do locutor, criando um vínculo mais esdivulgação

Magaly Prado: a portabilidade e a internet como aliados do rádio hoje

Console: feito para imitar um móvel decorativo. Era o centro da vida doméstica

treito com o ouvinte”. Ela considera o rádio mais rápido que a internet, pois nesta “você ainda precisa gerar um texto; a fala é muito mais rápida”. A eficiência e o imediatismo das rádios são características que fazem com que este veículo do início do século passado continue útil, apesar dos avanços tecnológicos. “O rádio se fortaleceu. A internet e os recursos que ela proporciona são aliados que acabaram com muitas barreiras”, afirma Filomena Salemme, editora-chefe da Rádio Eldorado e professora da Faculdade Cásper Líbero. Salemme salienta também a importância da participação do público nas transmissões. “O repórter-ouvinte é muito bem vindo. No apagão do dia 10 de novembro de 2009, fizemos a cobertura toda, praticamente, baseada nos depoimentos dos ouvintes de diferentes regiões da capital”, comenta. Na ocasião, ela enfatiza que nenhum aparelho eletrônico funcionava e o que a manteve informada foi o “radinho de pilha”, sempre a postos em sua bolsa. Motos, carros e até helicópteros são usados pelas emissoras para cobrir fatos distantes com maior rapidez. O jornalista Marcelo Cardoso, pioneiro no uso de helicópteros para coberturas noturnas, ressalta, sobretudo, a importância do telefone celular para as transmissões ao vivo, devido à autonomia e à possibilidade de entrar no ar a qualquer momento. “O celular é um marco na história do radiojornalismo,

Rádio a válvulas: com tal tecnologia de alimentação elétrica, os aparelhos tornaram-se leves, menores e mais baratos

Década de 40

devido à mobilidade. Nem sempre era possível ter um telefone público por perto”, comenta o jornalista. Popularizando os conteúdos Ainda no início do rádio no Brasil, em 1922, o médico e antropólogo Roquette Pinto produzia conteúdos para a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, de maneira a aproximar a população da música clássica, orientar sobre higiene e ensinar história e geografia aos ouvintes. Para o jornalista e coordenador da rádio Gazeta AM, Pedro Vaz, a rádio é um forte aliado sóciopolítico, podendo ser considerado um “veículo disseminador de cultura”. A Rádio Sociedade foi incorporada pelo Ministério da Educação em 1936 e transformou-se na atual Rádio MEC. A fim de suprir a demanda de pessoas que procuram o rádio para entretenimento, as emissoras reproduzem músicas, criam jogos de pergunta e resposta e interagem com o público. Irineu Guerrini Jr, ex-produtor, diretor e apresentador de programas jornalísticos e musicais da Seção Brasileira da BBC (atual BBC Brasil) em Londres comenta que, décadas atrás, as emissoras contavam com uma numerosa equipe (roteiristas, diretores, atores, sonoplastas e operadores de som) para realizar a programação ao vivo. Hoje, todas trabalham com um efetivo reduzido. “As dramatizações também apareciam em outros gêneros de programa e, às vezes, contaRevista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


Rádio para automóveis: desde então é um prestador de serviço para as pessoas em trânsito

Transistor: pequeno rádio portátil a pilha ou a bateria

Década de 50

Década de 60

vam até com profissionais que faziam música ao vivo como parte integrante da linguagem radiofônica de muitos programas”, ressalta. Pedro Vaz reforça essa mudança no corpo profissional

Walkman: mudou os hábitos musicais, pois cada pessoa pode ouvi-lo individualmente

Internet: novas possibilidades de ouvir rádio por streaming e audiocast

Década de 80

Década de 80

das emissoras. “Há uma crescente automatização da programação, sendo possível uma rádio transmitir sem a necessidade de um operador junto ao equipamento”, explica. O natália junqueira

Viciada no uso de gadgets, Priscila Alves utiliza o rádio como uma ferramenta para a obtenção rápida de informações

Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

O iPod e os podcasts proporcionaram mobilidade e personalização na programação. O iPhone modernizou o aparelho e reuniu todos os meios em um; o rádio não ficou de fora

Anos 2000

jornalista Marcelo Cardoso completa dizendo que “o repórter é a alma do jornal, mas está sendo substituído pela tecnologia”. O programa da CBN SP, Fim de Expediente, é um exemplo da mescla de informação e entretenimento. Ele é transmitido às sextas-feiras, das 19h às 20h, e visa motoristas presos no trânsito. Ancorado pelo ator Dan Stulbach, o Fim de Expediente conta ainda com o economista Luiz Gustavo Medina, o Teco, e o escritor José Godoy como comentaristas, além de um convidado especial. “Nós fazemos uma espécie de happy hour com o convidado, um papo entre amigos, que busca informar”, esclarece Teco. O economista acredita que as novas tecnologias funcionam como um anexo aos programas de rádio. “Elaboramos a atração, mas as ferramentas não são vitais. O produto é o programa e isso é o principal. Blog, orkut, e twitter são agregados”, explica. Em meio a um tempo de intenso consumo e desenvolvimento tecnológico, o rádio tem usufruído estes recursos ao seu favor. Há agora uma ampla oferta de programas acessíveis em aparelhos de MP3, em rádios estéreos, em celulares ou na internet – pois nem sempre é necessário ter um dial ou frequência para ser uma rádio. Eternamente moderno, o rádio ainda é o mais popular e democrático meio de comunicação do país.

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ENTREVISTA

A história do garoto do interior que adorava desenhar e se tornou um dos maiores sucessos internacionais na área de quadrinhos, animação, publicidade e licenciamento de personagens

Não esqueça de conferir o número da página! > Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


Além da

imaginação MAURICIO DE SOUSA poderia ser um personagem de gibi. Desses capazes de proezas dignas de heróis intergalácticos. Ele desenha, pinta, inventa histórias, filmes, exposições, livros, campanhas, dirige equipes, dá palestras e viaja pelo mundo. Seus números contam-se pela casa dos milhares, milhões e até bilhões. A lista é extensa. Tome fôlego, leitor. Com 50 anos de carreira, este paulista de Santa Izabel coloca mensalmente nas bancas cerca de três milhões de exemplares de revistas, com mil páginas originais em dez títulos diferentes. Em todo o mundo, já foram publicados um bilhão de exemplares com seus personagens. A Turma da Mônica está presente em meios tão diversos como gibis, jornais, livros, games, internet, celulares, vídeos, DVDs, TVs, cinemas, brinquedos, roupas, calçados e acessórios, objetos de decoração, de higiene pessoal, material escolar e de papelaria, produtos de alimentação, shows, peças teatrais e espaços interativos. A equipe responsável por toda essa produção chega a cem profissionais, entre roteiristas, desenhistas e funcionários de artes. Só o personagem Ronaldinho Gaúcho, o maior sucesso internacional, é publicado em 32 idiomas diferentes. Nesses anos todos, mais de cem empresas nacionais e internacionais foram licenciadas para produzir quase 3,5 mil itens com os personagens de Mauricio de Sousa, em cerca de 90 países. Em agosto de 2008, Mauricio lançou, a Turma da Mônica Jovem, uma nova revista que mostra os personagens adolescentes num traço que mescla o estilo do criador ao dos mangás (quadrinhos japoneses). Rapidamente, o título se tornou o maior sucesso editorial do mercado de quadrinhos brasileiros nos últimos 30 anos, com vendas superiores a 300 mil exemplares por edição. Mauricio, aos 74 anos, ainda não está satisfeito. “Vamos chegar a 1,4 mil páginas por mês em 16 títulos logo, logo”, diz com voz calma. Como todo personagem de quadrinhos, Mauricio está sempre com aquela cara de quem acabou de sair do banho, cabelos penteados, expressão tranquila e sorriso no rosto, à espera da próxima missão. Que nada tem a ver com os planos infalíveis da dupla Cebolinha e Cascão contra uma certa dentuça. Numa tarde chuvosa, ele recebeu a equipe da revista Cásper para uma conversa de mais de uma hora em seu estúdio no bairro paulistano da Lapa. A seguir, os melhores momentos dessa eletrizante aventura.

Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

Por Ayana Trad, Fernanda Patrocínio e Gilberto Maringoni Fotos Thiago Tanji

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Revista Cásper - Quando o senhor chega a um hotel e vai preencher a ficha, com nome e profissão, o que escreve? Mauricio de Sousa - Desenhista... Lógico, eu sou desenhista. Minhas outras atividades são decorrência disso.

mas estava longe da esquina da São João com a Ipiranga. A gente sente falta do barulho, do cheiro de fumaça, aquelas coisas que abominamos aqui, mas quando sai lá pro meio do mato fala “Ih, cadê aquela buzina? Cadê aquele burburinho do povo?

A experiência como jornalista me ensinou a concisão para escrever o que cabe em um balão de fala RC - Sempre trabalhou como desenhista? MS - Não. Eu comecei como repórter policial na Folha da Manhã, apesar de eu nunca ter pensado em trabalhar nessa função. Eu procurava emprego de desenhista, mas não achava. A gente tem de trabalhar para viver, né? Tinha uma vaga, fiz um teste, passei e entrei na reportagem. Eu escrevia bem e lia bastante. Foi bom porque o jornalismo me ensinou a síntese de texto. É aquele negócio de “o que, onde, como, quando e por quê”. Só! Não ponha opinião, não ponha sentimento, não ponha o que foi falado além disso. Se eu não tivesse passado pelo jornal, eu seria apenas um desenhista. Essa experiência me ensinou a concisão para escrever aquilo que cabe em um balão de fala. Foi acidental e ótimo, pois aprendi a ser direto.

Cadê o teatro logo ali, o cinema que está fazendo lançamento? Eu sentia falta disso. Nessa época, eu já fazia tiras para jornal.

RC - O senhor é do interior, não? MS - Eu sou de Mogi das Cruzes e morei em Bauru. A Mônica, minha filha, nasceu lá. Bauru foi minha primeira tentativa de trabalhar fora de São Paulo. Eu já tinha a Maria Ângela. Era gostoso, possuíamos uma casinha. Qualidade de vida eu tinha,

RC - O primeiro contrato de merchandising dos personagens foi o do extrato de tomate Elefante? MS - Não, foi o contrato das placas Vacum Form, feitas para decoração de quartos de crianças. Depois veio cobertorzinho, lençol, brinquedo e só mais tarde chegou a Cica com os comerciais

RC - No início da carreira o sr. trabalhava sozinho? MS - Sim, eu comecei a fazer as tiras em 1959, sozinho. Montei a primeira equipe três ou quatro anos depois. Eram auxiliares para apagar marcas de lápis e passar tinta preta nos esboços. A coisa foi se sofisticando e eu comecei a chamar desenhistas, letristas e mais tarde, roteiristas. Esse processo demorou sete ou oito anos, até eu ter coragem de ir delegando funções para enfrentar a concorrência. RC - A Mauricio de Sousa Produções surgiu nessa época? MS - Sim, nasceu 1963, 1964, por aí.

do Jotalhão. É o mais antigo e o mais extenso contrato de merchandising do mundo. Não existe nada parecido. RC - Naquela época, nos anos 1960, havia alguma pesquisa para determinar que o elefante era a melhor imagem para o produto? O que tem a ver elefante com extrato de tomate? MS - Já existia o extrato de tomate Elefante. Só que era um elefantinho feinho que tinha na embalagem. Eu fazia umas tiras de jornal com paródia e gozação dos comerciais de televisão. Uma das brincadeiras mostrava a Mônica arrastando um elefante e o Cebolinha falando para ela: “Você tem celteza que a sua mãe te pediu um elefante?” Ela havia se enganado. A mãe queria o extrato de tomate Elefante. Isso foi em 1967. O Enio Mainardi, publicitário, viu a tira e me ligou, dizendo: olhe, eu estou precisando de um mote para fazer uma grande campanha para a Cica. A campanha foi um sucesso danado. Firmamos o contrato e em dois anos fizemos 90 filmes comerciais. Foi massacrante! Era o que eu precisava, pois eu já publicava as tiras em 300 jornais. Trabalhei com distribuição nos moldes das distribuidoras norteamericanas, os chamados syndicates. Eu comecei na Folha, passei para jornais da Grande São Paulo e depois, girando, girando, peguei o país inteiro. Mas eu não tinha uma animação. A maneira de eu ter desenho animado na televisão era o comercial. Foi sopa no mel. Era o que eu precisava para andar. Aí, em 1970, com tudo isso, a Abril me convidou para fazer a revista Mônica. E fomos em frente. RC - Sem internet, sem um sistema bancário informatizado e sem as facilidades atuais, como o sr. enviava as tiras, conferia a publicação e cobrava os jornais? Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


“No início, eu desenhava de manhã, vendia à tarde e recebia quando dava”

MS - Era a idade da pedra, pauleira, mas a gente se adaptava. Eu, como jornalista e repórter, estava sempre acompanhando os avanços técnicos na área de cobranças, de envio, de reprodução e tudo mais. Quando eu comecei, a história era copiada a partir de clichês de metal. Depois veio o off set, que nos facilitou a vida. Em seguida vieram outros processos para envio e cobrança. Tinha banco, mas para levar e trazer algumas tiras e alguns originais e receber, eu tinha a minha Kombinha. Meu pai e um auxiliar de cobrança, seu Walter, me ajudaram nisso. E eu desenhava de manhã, vendia à tarde e recebia quando dava. RC - A virada empresarial foi o contrato com a Cica ou a revista Mônica? MS - Não foi virada, foi um processo em que tudo foi se somando. Em 1970 saiu a revista, dois anos depois chegou a segunda revista, três anos depois lançamos a terceira revista, e assim foi. E chegamos ao que temos agora: estamos produzindo umas mil páginas de quadrinhos por mês. Mil originais em 12 revistas na banca. Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

Acabo de voltar de uma reunião, na qual deixei todo mundo apavorado. Nós vamos para 1,4 mil páginas por mês. Serão mais revistas! RC - Depois dos gibis vieram os desenhos animados, no final dos anos 1970, não é? MS - Sim, nessa época começam os desenhos animados. Criei uma empresa e, até hoje, somos os maiores produtores de animações do país. Eu tinha tudo isso planejado. A única coisa que eu não planejei, não sou adivinho, foi a internet. Resumindo, na primeira década, anos 1960, lançamos as histórias em quadrinhos em jornal com tiras, tabloides e suple-

mentos. Eu produzia aqui e enviava o suplemento com quadrinhos e passatempos pronto para ser encartado nos jornais de outras regiões. Eu rodava e mandava tudo pronto, impresso, para encaixar nos jornais. Era uma tiragem de 800 mil exemplares do jornalzinho da Mônica toda semana. Mandava para Alegrete, para Manaus e para todo o país. RC - Era aquele suplemento infantil de domingo? MS - Não, aquele era a Folhinha. O meu tinha só quatro pagininhas, duas coloridas e o miolo em preto. Eram encartados no jornal. Se a tiragem fosse maior do que quatro mil

O extrato de tomate Elefante é fruto do mais antigo e mais extenso contrato de merchandising do mundo. Não existe nada parecido por aí 23


Longa jornada gibi adentro Mauricio de Sousa iniciou sua carreira como ilustrador na região de Mogi das Cruzes, próximo de Santa Isabel, onde nasceu. Aos 19 anos, mudou-se para São Paulo e, durante cinco anos, trabalhou no jornal Folha da Manhã (atual Folha de S. Paulo) escrevendo reportagens policiais. Em 1959, criou seu primeiro personagem, o cãozinho Bidu. A partir daí vieram Cebolinha, Cascão, Mônica e tantos outros. Em 1970, lançou a revista Mônica, com tiragem de 200 mil exemplares. Depois de passar pela Editora Abril e pela Editora Globo, assinou contrato com a multinacional italiana Panini, que publica suas revistas desde 2007. Reconhecido e premiado em todo o mundo, Maurício já realizou inúmeras campanhas de utilidade pública para organismos internacionais e instituições públicas.

exemplares, podíamos personalizar o título, algo como Jornalzinho da Mônica do diário de tal cidade... uma coisa assim. E eu deixava espaço na última página para publicidade local, para o pessoal se virar e ainda conseguir ganhar alguma coisa. Isso era a década de 1960, com histórias em quadrinhos em jornal, tabloide... e também os suplementos que iam prontos. Na década de 1970, apareceram os gibis: Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão... Na década de 1980 veio o cinema e o desenho animado. Na década de 1990, os parques temáticos. Agora nós estamos na transição, terminando o nosso projeto internacional, as bases já estão montadas e a gente vai crescer. E a próxima década é a década da educação. Vamos fazer parcerias com estúdios de animação internacionais. Cada um fará um personagem, pois com a quantidade de figuras que temos não dá para realizar tudo em uma produtora só. A origem é feita aqui. Estou produzindo Pelezinho na Itália e na Índia. A Turma da Mônica para televisão eu vou fazer com a China, o Penadinho será produzido aqui, com a Digital 21, e assim por diante. Vamos espalhando o processo e universalizando. RC - E televisão? MS - Nós tivemos um contrato com a TV Globo entre 1998 e 2000. Não deu certo por diversos motivos. A Globo teve aquele problema, ficou apertada e disse “não posso te pagar”. Daí fiquei a ver navios, né (risos)?. Neste momento estou voltando a conversar com a Globo em um projeto de desenho animado. Mas nós estamos na televisão, no Cartoon Network e somos pico de audiência. RC - O sr. supervisiona a linha de produção de tudo, quadrinho, desenho animado e os demais produtos no mercado? MS - Tento. Hoje há tanta coisa que não dá para eu ver tudo. Tenho pessoas-chave em diversos pontos, com quem eu tenho contato permanente. Eu dou o pontapé inicial nos projetos, designo quem vai cuidar de cada caso e acompanho o processo. RC - O sr. continua desenhando?

MS - Só no Twitter (risos). Infelizmente não está dando tempo de desenhar. Mas, eu estou me preparando um processo de sucessão, para eu ter tempo de desenhar tira de jornal, que é o que eu gosto de fazer. É um material jornalístico, a tira fala hoje de assuntos que acabaram de acontecer. É mais ou menos o que faço com o Twitter. Eu vou voltar a desenhar história em quadrinhos viva, dinâmica, com o que estiver acontecendo. Sem sair do nosso estilo, sem sair do nosso propósito de história, família. Acabo de vetar um projeto que nos foi apresentado para falar com os jovens, porque sairíamos do esquema família. Teríamos que falar de coisas com as quais eu não concordo: sobre sexo, sobre comportamento, sobre coisas amorais. Eu sou caretão, como 60 mil anos de história foram e como 60 mil anos de história serão. Somos caretas de certa maneira, senão a coisa cai. Agora, a experimentação e até uma certa liberdade em temas comportamentais, eu querendo ou não querendo, vai acontecer, principalmente com os jovens. RC - O sr. teve alguma dúvida ou medo antes de lançar a revista Mônica Jovem? MS - Não, sempre quis fazer. Eu tive problema aqui dentro do estúdio. Havia um preconceito. “Está tudo bem, está vendendo bem, porque tem que mudar? Time que está ganhando...” era o que diziam. E eu retrucava: “Não estamos mudando, estamos acrescentando, eu quero somar!” E deu no que deu... RC - A Mônica Jovem vai se desdobrar em outros produtos? MS - Vai. E o Chico Bento jovem, com histórias ecológicas, vai sair neste ano. Vamos fazer, logo mais, uma série de histórias da Mônica Jovem com personagens japoneses, do Osamu Tezuka [1928-1989, o mais importante quadrinhista japonês do século XX], como o Kimba, o Astroboy e outros. RC - Mesmo com várias tecnologias à disposição, sua base é o gibi de banca. É um produto popular, cujo preço equivale ao de uma passagem de ônibus. É isso mesmo? Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


Há tanta coisa sendo feita, que não é possível eu ver tudo. Eu dou o pontapé inicial nos projetos, designo quem vai cuidar de cada caso e acompanho o processo MS - Nós somos os maiores vendedores, individualmente, de gibis do mundo. Mas eu não quero ser o maior, eu quero agradar o público, fazendo as coisas bem feitas. Eu gosto de gibi e tudo gira em torno disso. RC - Houve algum tipo de reação do público por conta dos pais do Xaveco serem separados? Ou pelo fato de haver, no gibi da Tina, o Caio, um personagem gay? MS - Personagem supostamente gay, é bom ressaltar. Nem eu sei se ele é. Mas esse tipo de polêmica, de discussão, me incentiva a estudar mais o comportamento do personagem para

tirar uma coisa positiva, mais humana, com mais mensagem, mais proposta comportamental. A gente tem de fazer alguma coisa de útil na historinha. RC - O sr. faz alguma pesquisa para a criação de personagens ou as situações são criadas com base na intuição? MS - Na intuição. Não é que eu saiba mais que os outros. A gente vai vivendo e acumulando informações. Nem tudo o que eu fiz deu certo. E isso é um clichê, mas a cada topada que você dá, você aprende a se desviar da pedra, a não fazer mais aquilo. A gente sempre aprende alguma coisa com o que não dá certo.

RC - O sr. convive com jovens e crianças de várias idades. A Mônica de 1970 não é a mesma de hoje, seu comportamento mudou, não? MS - Eu tenho filhos de 50 a 11 anos de idade, pegando todas as faixas etárias. Outro dia, eu estava jantando com meu filho caçula e daí, conversa vai, conversa vem, ele me conta o que fez, como é a professora, o que jogou, o que brincou, o quanto brigou... É fácil conversar, você tem que chegar na mesma sintonia deles. Não deve haver preconceito por parte de alguém mais velho para falar “Eu vivi mais que você, eu sei mais, eu sou pai, eu que mando”. Não mando nada. Eu oriento, sou monitor, acompanho e estou aprendendo com eles. Como eu vivo disso, tenho de aprender com eles continuamente. RC - O senhor já teve exposição da Pinacoteca, escreveu crônicas, e experimenta em outras áreas que não de quadrinhos. Como você transita de uma área a outra?

“Nós somos os maiores vendedores, individualmente, de gibis do mundo. Mas eu não quero ser o maior, eu quero agradar o público fazendo as coisas bem feitas”

25 Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


“O Chico Bento é o mais universal de todos nossos personagens”

MS - Tudo é a mesma coisa. Os personagens estão ali, a mensagem está ali, as coisas estão ali. A crônica é o que eu falo. Gosto de escrever tanto quanto de desenhar, ainda mais com as facilidades propiciadas pelo computador. Agora dá para se corrigir tudo rapidamente. Eu não preciso usar o bloguês, mas o português de conversação, o português coloquial é a melhor língua que existe para você se expressar, tanto que as crônicas, se vocês olharem minhas crônicas, não têm palavra difícil, não devem ter. E é começo, meio e fim, não tem volta, é tudo prático para você entender tudo, de um fôlego só. Assim tento alcançar criança, jovem, adulto que não tem tempo, pessoal que não tem vontade de ler. É a mesma técnica de comunicação do balão do gibi. RC - Como foi o processo de adaptação dos livros paradidáticos editados na China? Sua linguagem rápida e fácil se aplicou ao mandarim?

MS - Em todos os países que nós estamos entrando, mandamos os textos originais em português e não em inglês. Se entra o inglês, isso esfria o estilo da gente, dá uma desviada nas construções gramaticais e muda o clima. Somos o único estúdio do mundo que faz isso. Quando eu falei com o pessoal das editoras da China, do Japão e de outros países, expliquei nossa técnica de escrever de maneira fácil. Eu digo para o pessoal imaginar que está conversando com uma criança de uns dez ou doze anos. Se usarmos esse tipo de média, chegamos à maneira correta de nos comunicarmos. Não é nem básico nem sofisticado. Com isso, conseguimos nos comu nicar bem em vários países. RC - Há algum personagem que, por suas características marcadamente brasileiras como o Chico Bento, tenha enfrentado dificuldades de compreensão em outros países?

Tenho dez filhos, de 50 a 11 anos de idade. Aprendo com eles continuamente

MS - Não, Chico é internacional. É um personagem que compete em sucesso com a Mônica. Nos desenhos animados da Itália, por exemplo, quando passa um do Chico, aumenta o pico de audiência das emissoras, justamente por ele ser o mais brasileiro dos personagens. Como dizem os alemães, “é exótico” e a aceitação vai por aí. Na China, o pessoal adora, pois o povo chinês é ligado ao meio rural. Criamos um material universal. Tomamos cuidados, é claro, para não ferirmos suscetibilidades. Nosso escritório em Nova York, dirigido pela Maura, minha irmã, tem uma lista de temas, assuntos, coisas que não devemos colocar nas histórias, para não haver problemas com outras culturas. RC - Então existe uma espécie de manual dos Estúdios sobre o comportamento dos personagens? MS - Existem alguns pequenos tabus, principalmente quanto ao comportamento. Na Grécia, por exemplo, é de extremo mau gosto, que um rapaz assobie para uma moça. Então não pode, eu vetei o assobio. Nos Estados Unidos e no Japão, se o Bidu fizer xixi no poste, a editora é multada (risos). Resolvido, basta o Bidu não fazer xixi no poste. Agora, nos Estados Unidos, Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


está se obrigando que, nas histórias em quadrinhos, que o cachorro use sempre coleira e focinheira, com alguém segurando. E eu estou brigando com o pessoal de lá, porque tudo tem hora. RC - O sr. já fez gibis de diversas campanhas educativas, como de vacinação, de higiene etc. Alguma delas gerou algum problema? MS - Não, porque não fazemos sozinhos. Fazemos sempre em comum acordo com um organismo, uma ONG, as Nações Unidas, algum Ministério ou Secretaria etc. A gente faz com os técnicos e apenas vestimos uma campanha com o nosso jeito, com nossos personagens e com o nosso estilo. Nunca houve problemas. Pelo contrário, conseguimos resultados positivos. Ganhamos um prêmio em Washington por diminuir a mortalidade infantil em alguns países da América Central com uma campanha que usou o Cascão para ensinar a criançada a lavar as mãos depois de sair do banheiro. RC - Há personagens que não deram certo ou que ficaram para trás? MS - Sim. O Nicodemo, por exemplo, um personagem de humor negro, ficou parado por muito tempo, pois esse tipo de humor não bate mais com a nossa imagem. Tinha um outro que se chamava Zé Munheca, era muito miserável e unha de fome. Havia histórias ótimas, mas me faziam mal (risos). Era chato, um cara ranheta, não dividia nada. Decidi aposentar o Zé Munheca. RC - E o Penadinho? Não é personagem dehumor negro? MS - Não, o Penadinho é uma desmistificação do medo e do pavor. É uma brincadeira. Agora o Penadinho vai sair de um outro jeito, em desenho animado em 3-D. Essa série chega em outubro, em um seriado para TV. RC - E mesmo em 3-D, seu estilo de desenho será mantido? MS - Sim. Mesmo quando o cara está fazendo no computador, eu vou lá, uso o tablet e faço as modificações necessárias, falando sobre os movimentos e as proporções. Eu passo para o pessoal os elementos básicos, o esqueleto, a estrutura e a dinâmica. Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

Em todos os países, mandamos os textos originais em português e não em inglês. Se não for assim, nosso estilo muda RC - A Mônica Jovem tem outro tipo de desenho. Como foi a elaboração? MS - Foi diferente. Tive um auxílio maravilhoso e fundamental da Alice Keiko Takeda, diretora de estúdio e minha mulher. Ela aprendeu a ler e a desenhar nos mangás, nas revistinhas do [Ossamu] Tezuka [artista japonês, criador de Astro Boy, entre outros] e tudo mais. O desenho do mangá é parecido com o meu. Juntamos os estilos e deu no que deu. Demoramos quase cinco anos para iniciar a produção. Houve muito trabalho para todos pegarem o jeito das histórias. É um desenho cheio de detalhes e delicadinho, que eu não tenho paciência de fazer. Isso ficou por conta da Alice passar para a equipe, que é composta por jovens que conhecem tudo de manga. Metade do estúdio é nissei e isso facilitou as coisas. RC - Que línguas o sr. fala? MS - Eu não falo inglês. Eu me viro em todas as outras línguas, mas meu inglês é bad, é horrível (risos). É um acidente de percurso, nunca estudei inglês. Tive um bom professor de francês e me viro bem. Se eu vou para um país de língua espanhola, eu me viro também, assim como no Japão e na Itália. Agora, meu inglês é pior do que o do Tarzan. Eu não falo, tenho vergonha. Em uma reunião de negócios, em bom inglês, eu entendo praticamente tudo. Mas eu não sei falar (risos).

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gilberto mARINGONI

PRODUÇÃO DA CÁSPER

A Cásper não teria o prestígio atual se, junto da atividade em sala de aula, não contasse com várias frentes de investigação

Um

mundo a investigar Programas de pesquisa na Cásper articulam graduação e pós-graduação Por Lidia Zuin

Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


“Ensino e pesquisa devem sempre se retroalimentar”, afirma a professora Maria Goreti Frizzarini, coordenadora do Centro Interdisciplinar de Pesquisa (CIP) da Cásper Líbero, um órgão que é um exemplo de estímulo à pesquisa entre as faculdades particulares. Há quase uma década, o CIP fomenta a pesquisa acadêmica voltada ao mundo da Comunicação, tanto em âmbito docente quanto discente, oferecendo bolsas aos professores e aos estudantes da graduação. “A iniciação científica é uma ótima oportunidade para os alunos amadurecerem intelectualmente, levando-os a desenvolver mais tarde bons trabalhos de conclusão de curso”, afirma Maria Goreti. Atualmente, o setor acompanha o desenvolvimento de 22 projetos docentes e 15 de iniciação científica. Além de prepararem os alunos para os TCCs (trabalho de conclusão de curso), as pesquisas de iniciação científica costumam inaugurar a trajetória de interlocução de seus jovens autores com os meios acadêmicos e intelectuais, podendo ser publicadas, na forma de artigos, em revistas científicas ou apresentadas em congressos. “Foi muito bom apresentar meu trabalho na Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação)”, comenta Pedro Zambarda, aluno que concluiu sua iniciação científica - O jornalista Albert Camus - em 2008. Para divulgar as atividades do CIP entre o corpo discente, são promovidas quatro oficinas de elaboração de projeto de pesquisa durante o ano. Goreti ressalta ainda que uma ter uma pesquisa de iniciação científica no currículo constitui um diferencial para quem pretende estudar fora do país ou para aqueles que desejam Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

seguir carreira acadêmica. Os professores também têm oportunidade de desenvolver pesquisas, com bolsas de dois anos de duração. Vários dos trabalhos realizados no âmbito do Centro se desdobram em cursos na Faculdade, apresentações em congressos e na publicação de livros. Um exemplo é o trabalho de Irineu Guerrini, A elite no ar, comentado na página 63. Para o professor de Relações Públicas Bruno Hingst, “a bolsa do CIP permite ao pesquisador uma dedicação maior à atividade acadêmica, aprofundando temas que vão além da atividade docente cotidiana”. Pós-graduação O setor de pós-graduação da Cásper desenvolve dois programas distintos: lato sensu (especialização) e stricto sensu (mestrado). O primeiro oferece especialização nas seguintes linhas de pesquisas: Comunicação Jornalística; Teoria e Prática da Comunicação; Comunicação Organizacional e Relações Públicas; e Marketing e Comunicação Publicitária. O novo programa de stricto sensu

completou no ano passado seu primeiro triênio. Para ingressar nele, há um processo seletivo constituído por uma prova baseada em bibliografia específica, um teste de proficiência em idioma estrangeiro (inglês, espanhol ou francês) e uma entrevista sobre o projeto de pesquisa do candidato. Segundo o prof. Dimas Künsch, coordenador da pós-graduação, a especialização é mais voltada para o mercado, enquanto o mestrado tem como meta a academia. “Apesar das diferenças, isso não significa que um mestre não possa atuar no mercado de trabalho. Ele vai trabalhar com ensino e pesquisa, enquanto, na especialização, o profissional possui um vínculo mais direto entre o estudo e a atividade profissional”. O professor Dimas também é o responsável pelo grupo de pesquisa Comunicação, Recepção e Identidade da Faculdade, que estuda o pensamento complexo, na acepção do intelectual francês Edgar Morin. De acordo com o docente, “nós vivemos num meio que cobra a capacidade de negociar, de colocar os conhecimentos em diálogo constante”. A fim de fazer circular publicamente os resultados das pesquisas desenvolvidas, a Faculdade promove anualmente o Fórum de Pesquisa Cásper Líbero. Trata-se de um seminário público organizado em dois dias inteiros, no qual são apresentados projetos de iniciação científica, pesquisas docentes, trabalhos de conclusão de curso, monografias do lato sensu e trabalhos de professores que concluíram mestrado, doutorado ou pós-doutorado em outras instituições. A pesquisa na Cásper procura articular as ações desenvolvidas na graduação e na pós-graduação, a fim de resultar em práticas pedagógicas concretas. Evocando a afirmação inicial da professora Maria Goreti, a Instituição não teria o prestígio atual se, além das atividades em sala de aula, não contasse com várias frentes de investigação teórica.

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Nas próximas páginas, algumas das pesquisas desenvolvidas recentemente na Faculdade Por Lidia Zuin

PESQUISA CIP A metáfora da conversação e as trocas simbólicas no ciberespaço, de Liraucio Girardi Jr.

Web sociológica Estudo mapeia desenvolvimento e perspectivas de conversação na Internet A pesquisa A metáfora da conversação e as trocas simbólicas no ciberespaço, realizada no Centro de Interdisciplinar de Pesquisa (CIP), traz as reflexões feitas pelo professor de sociologia da Cásper Liráucio Girardi Jr. A investigação acompanha o desenvolvimento das redes apresentando seu ponto de vista sobre obras clássicas a respeito do surgimento e desenvolvimento das redes, como os livros de Pierre Lévy, Girardi trabalha a idéia de conversação na web e as metáforas que transitam pela cibercultura, muitas delas importadas de outras ciências. A partir do conhecimento acerca das relações de valor, autoridade e poder, o pesquisador afirma que as trocas simbólicas são hierarquizadas e “dependem do

acesso a certos capitais simbólicos”. Muitas das teorias estudadas pelo autor não partem da antropologia ou da sociologia, sua especialidade. Liráucio estuda pesquisas nas áreas da ciência da computação, neurociência e biotecnologia porque estas “passaram a falar da sociedade”. A transposição desses campos para as ciências humanas não era novidade para o professor, mas, segundo ele, isso não pode ser feito sem mediações: “As críticas que tentei realizar visavam um melhor esclarecimento das teses de autores como Lévy e Benkler”. Girardi afirma que as Ciências Sociais têm o costume de se apropriar de conceitos e metáforas de outras áreas do conhecimento,

mas que isso põe a compreensão em risco quando se trata de pensar numa teoria da ação humana e da produção social de sentido. Integrante do grupo de pesquisa Comunicação, Novas Tecnologias e Cultura de Rede, atualmente coordenado pelo professor Walter Lima, o sociólogo participou de reflexões sobre experiências sociais produzidas no ciberespaço. A sociedade de controle, possíveis desdobramentos do pós-humanismo, como os tratados por Lucia Santaella em Culturas e Artes do Pós-Humano, os dispositivos de compartilhamento online (Peer to Peer), a produção colaborativa (Creative Commons) e a hierarquização de informações foram alguns dos temas debatidos.

TCC Drogasil, de Cata-Vento Comunicação

Drogarias em rede Agência experimental planeja estratégia de empresa tradicional Com o reconhecimento de uma empresa que está há 74 anos no mercado varejista de medicamentos, a agência Cata-Vento Comunicação, formada experimentalmente por alunos de Publicidade e Propaganda, realizou um projeto sobre a rede de farmácias Drogasil. Os alunos de Relações Públicas Daniel Betti, Fernanda Dias, Flábia Janotti, Gabriela Pereira, Mariana Geocze e Naline Suzigan tiveram como objetivo consolidar a reputação da marca

e garantir a continuidade do cliente no mercado. Para isso, buscaram informações a respeito da trajetória e do universo em que se insere uma das maiores redes de drogarias no Brasil. Sob a orientação de Mônica Costa, o trabalho envolveu pesquisas quantitativas com funcionários e com o público consumidor, sendo analisados também os hábitos de consumo da terceira idade. Estão organizados dados como ações estratégicas

de aprimoramento, concorrência, perfil de mercado, análise de tendências, atuação do Twitter da empresa e outros meios de comunicação como o blog Antenados na Saúde, Revista Drogasil, campanhas e publicações voltadas para a área. Os pareceres foram feitos a partir do Modelo de Excelência da Gestão (Fundação Nacional da Qualidade), baseado em 11 fundamentos e oito critérios que definem os pilares e a base teórica de uma boa gestão. Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


TCC Brasil Nikkei, de Camila Taira, Cézar Hirashima, Eduarda Peccinatti e Philip Almeida

REPRDODUÇÃO

Do outro lado do mundo Alunos de Jornalismo apostam em revista eletrônica voltada ao público nipo-brasileiro como projeto experimental Em 2008, com as comemorações do centenário da imigração japonesa, Cézar Hirashima e Camila Taira começaram a idealizar um TCC voltado para o país oriental e sua influência no Brasil. Mais que contar a história da chegada dos japoneses, já bastante tratada pela mídia, a dupla queria produzir um telejornal sobre os dois países. Com a orientação de Tatiana Ferraz e com a entrada no grupo de Eduarda Peccinatti e Philip Almeida, o grupo resolveu mudar o formato. Decidiram realizar a primeira revista eletrônica produzida num TCC da Faculdade. A inspiração de Brasil Nikkei veio de programas como Fantástico. As pautas escolhidas pelo grupo abordam

temas como economia, culinária, moda e diversão. Uma delas trata da volta dos dekasseguis. São trabalhadores de ascendência nipônica que oferecem seus serviços no Japão e enviam dinheiro para a família brasileira. Com a crise econômica, essas pessoas voltaram para o Brasil e encontraram dificuldades para conseguir um novo emprego. Os recém-formados agora têm como perspectiva vender a ideia para emissoras como Multishow ou GNT, tal como sugeriu a banca avaliadora. Um dos principais pontos apreciados pelos avaliadores é que nenhum dos integrantes teve apenas um papel: todos desenharam as pautas e houve diálogo entre as obrigações.

O trabalho foi pensado para um canal direcionado ao público nikkei

MESTRADO Café com o presidente, de Eliane Calixto

Ricardo Stuckert

Política nas ondas do rádio Pesquisa de dois anos analisa relação entre governo e sociedade

Presidente Lula recebe pesquisadora Eliane Calixto

Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

Tendo como foco o período entre 2003 e 2007, a dissertação de mestrado Café com o presidente: o programa de radiojornalismo com o presidente Lula analisa o uso do rádio como difusor de ideias políticas. Ainda que o uso de meios de comunicação já faça parte do universo político, a autora do trabalho, Eliane Calixto, conta que a temática é inédita, fator que a motivou a desenvolver o projeto. A autora é bacharel em Direito e jornalista, além de ser pós-graduada em Marketing Político e Propaganda Eleitoral. O trabalho trata de países como Estados Unidos, França, Argentina e Cuba, os quais também tiveram líderes que usaram o rádio para se comunicar. Nos 24 meses de pesquisa, a jornalista entrevistou Eugênio Bucci e Luiz Henrique Romagnoli, produtor do programa. Também conversou com o pesquisador Rosenthal Calmon Alves sobre a linguagem coloquial, além de examinar vasta bibliografia. “Posso afir-

mar que o tema foi bem aceito tanto no âmbito acadêmico como profissional. Transformei contatos em amigos e o trabalho em satisfação profissional e pessoal”, comenta Eliane. Segundo o orientador, Professor José Eugênio Menezes, “A dissertação é leitura essencial para a compreensão da crítica da comunicação do presidente com os brasileiros”. Calixto chegou a se encontrar com o presidente Lula, através de um amigo comum. Em dezembro, a mestre foi convidada a participar de um evento em Brasília no qual o presidente receberia em mãos sua pesquisa. “Ao final, o próprio Lula conversou comigo em uma sala reservada, acompanhado por seus assessores. O presidente ficou muito interessado no material, fez diversas perguntas e, num bate-papo tranquilo, ficou bastante feliz com o resultado”. Café com o presidente foi divulgado no Blog do Planalto a pedido do presidente Lula.

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PESQUISA CIP Através da cultura pop e o que Alice encontrou lá, de Gabriela Silva do Nascimento

País das maravilhas Iniciação cientifica investiga clássico literário de Lewis Carroll

reprodução

Por que as aventuras de Alice no país das maravilhas, quase 150 anos depois de lançadas, continuam a despertar interesse nos mais variados públicos? A monografia de iniciação científica de Gabriela Silva do Nascimento busca responder a esta e outras questões em uma obra que já foi interpretada sob o ponto de vista histórico, literário, social, matemático e até psicanalítico. A futura jornalista desvendou, após uma série de adaptações e versões já realizadas, como a obra de Lewis Carroll

(1832-1898) sofreu modificações para ser melhor compreendida e para que fossem mantidas as expressões idiomáticas e jogos de palavras de mais de um século atrás. A produção escolhida para análise foi a animação Alice no País das Maravilhas, de Walt Disney, de 1951. Com orientação do professor Welington Andrade, Gabriela vasculha a construção do nonsense e da comicidade do livro para então compreender os desdobramentos do filme.

KARINA SÉRGIO GOMES

“Passado, para mim, tem apenas duas semanas”, revela Regina Silveira

TCC Revista DZ, de Samantha deTommaso, Nathália Moraes, Mariana Pasini, Geoffrey Scarmelote e Gabriella de Lucca

Revista de design

Projeto de alunos foge do estereótipo de guia de compras O protótipo da revista DZ apresenta uma abordagem ainda não vista no mercado editorial de design. Enquanto os veículos existentes recorrem a um formato semelhante a um guia de compras, o trabalho de conclusão de curso de Samantha de Tommaso, Nathália Moraes, Mariana Pasini, Geoffrey Scarmelote e Gabriella de Lucca se volta aos profissionais da área e ao público interessado em artes industriais. Com uma pauta que abrange designers novos, entrevistas e aspectos históricos, além de pesquisa de materiais, o trabalho orientado por Carlos Costa traz informações sobre o processo de criação e discussões sobre a atividade. O projeto gráfico, concebido por Fabiana Caruso, valoriza reportagens que envolvem arquitetura, moda, arte urbana e sustentabilidade. TCC Flickr, de Suricato Propaganda em Construção

TCC Regina Silveira – um esboço biográfico, de Karina Sérgio Gomes

Detalhe e rigor investigativo Estudante produz biografia analítica da artista plástica Regina Silveira Ainda que ciente das dificuldades de estudar um personagem vivo, a estudante de Jornalismo Karina Sérgio Gomes persistiu na ideia de escrever um livro reportagem sobre a artista plástica Regina Silveira. O desafio de traçar um esboço biográfico da artista exigiu de Karina grande esforço de apuração. No total, 45 fontes foram ouvidas, reunindo nomes das artes plásticas e do circuito cultural, como poetas, músicos, historiadores, alunos e pessoas próximas à Regina. O rigor metodológico da estu-

dante a levou ao Rio Grande do Sul, estado natal da biografada. Sob orientação do professor Celso Unzelte, o trabalho recebeu nota 10. Karina buscou inspiração no trabalho de Gay Talese, famoso por seus perfis biográficos. O resultado é um livro rico, com uma narrativa farta em detalhes que, segundo a própria perfilada, não vai ser lido por ela: “Passado, para mim, tem apenas duas semanas. Me interessam apenas o presente e o futuro”, revela a artista.

Fatos e fotos

O projeto analisou o mercado e o público-alvo da rede social Flickr, do Yahoo!

A agência Suricato Propaganda em Construção transformou hobby em trabalho sério. Tomando o Flickr, site de hospedagem de fotos e rede social, como objeto de estudo, o grupo foi contemplado nota dez. Além de traçar um grande histórico sobre o Flickr e delinear suas funções e características, o trabalho possui análises sobre o público-alvo, a relação entre o homem e a fotografia, sobre os usuários e os sites concorrentes. Constam também estatísticas, cronogramas físicos e informações a respeito das finanças do site. Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


REPRDODUÇÃO

TCC Estúdio em casa de Aline Guimarães Alhadas, Pamella Gachido e PaulaVilhena Gonçalves

Estúdio em Casa

Reality show musical busca emissoras interessadas

O piloto de Reality show musical, projeto de rádio e televisão orientado por Elisa Marconi, possui 20 minutos de persuasão sobre a possibilidade de se fazer música boa num estúdio caseiro. Voltado para a televisão, o projeto das alunas Aline Guimarães, Pamella Gachido e Paula Vilhena foi feito em parceria com o músico pernambucano China. A ideia é trazer diferentes convidados a cada programa, gravar uma música na hora, com a ajuda de apenas um microfone, um computador e alguns instrumentos. Os primeiros convidados foram o paulista Daniel Beleza, os pernambucanos Yuri

Queiroga e o grupo Mombojó, velhos conhecidos do idealizador do projeto. Com um site (http://www.estudioemcasa.com.br) e um Twitter (http:// twitter.com/estudioemcasa), China divulga o trabalho feito em companhia das formadas em RTV pela Cásper. O site, que mais serve de portfólio para as empresas e possíveis interessados, também hospeda as músicas criadas no programa e vídeos teasers. Os exalunos indicam que o programa só será divulgado na íntegra quando estiver passando na TV. Estúdio em Casa ainda procura por alguma emissora que abrace o experimentalismo.

Daniel Belleza e Yuti Queiroga foram convidados para participar no piloto do programa

PESQUISA CIP O diálogo metalinguístico no cinema de Guilherme de Almeida Prado, por Gabriel Henrique Carneiro

Nas bocas do cinema paulista Trabalho realça produção dos anos 1980-90

O diálogo metalingüístico no cinema de Guilherme de Almeida Prado, iniciação científica de Gabriel Henrique Carneiro, destaca um cineasta paulista pouco lembrado nos últimos anos. O estudante de Jornalismo examina produções dos anos 1980 e 1990, mostrando influências do filme noir, do filme B e das produções da Boca do Lixo no trabalho de Almeida Prado. As obras examinadas foram os longas As taras de todos nós, Flor do desejo, A dama do cine Shanghai, Perfume de gardênia, A hora mágica e Onde andará Dulce Veiga?. O conjunto tem como cenário básico a cidade de São Paulo e de cidades próximas. Cinéfilo inveterado, Carneiro consegue mostrar que, apesar de buscar uma linguagem popular, Almeida Prado enfrentou a crise da Embrafilome, o que prejudicou a difusão de sua obra. Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

MESTRADO O jornal e a prisão: uma análise da cobertura dos ataques do PCC, de Jairo Camilo

São Paulo em pânico

Análise de jornais relaciona mídia e sistema carcerário A partir das revoltas e atos de violência promovidos em 2006 em toda cidade de São Paulo pela facção PCC (Primeiro Comando da Capital), o jornalista Jairo Camilo escreveu a dissertação de mestrado em Comunicação O jornal e a prisão: uma análise da cobertura dos ataques do PCC em 2006 pela Folha de S.Paulo e o Estado de S.Paulo. A análise dos jornais utiliza publicações de 13 a 21 de maio de 2006 para relacionar a mídia e o sistema carcerário. O intuito é confirmar a

hipótese de que a imprensa, além de apoiar a manutenção da “ordem” em detrimento dos direitos individuais, crê no sistema prisional como reformador de indivíduos. Como pano de fundo, há a defesa do endurecimento penal, desconsiderando problemas sociais. Sob orientação do Professor Laan Mendes de Barros, Jairo Camilo discorre sobre a necessidade de melhorias nas representações da realidade, sugerindo consciência crítica, estruturação da democracia e redução das desigualdades.

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COORDENADORIAS

Açãoarticulada Conheça o trabalho das cinco coordenadorias responsáveis pelos cursos da Faculdade Por Thiago Tanji

As habilitações do curso de Comunicação Social da Faculdade Cásper Líbero – Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Rádio e TV e Relações Públicas – são referências na academia e no mercado de trabalho. As coordenadorias que organizam os cursos estruturam a formação pedagógica e atividades para os 2.621 alunos da graduação.

O curso de Jornalismo, pioneiro no Brasil, foi criado em 1947. Com a incorporação das habilitações de Publicidade e Propaganda e de Relações Públicas, em 1972, a escola tornouse a Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Em 2002, foi a vez da habilitação de Rádio e TV integrar a grade regular de carreiras oferecidas pela instituição.

RÁDIO E TELEVISÃO PRof. Marco Vale Coordenador de Rádio e tv

Criatividade e olho no mercado Com caráter inovador, o curso de Rádio e TV forma profissionais versáteis e antenados às inovações Em um mundo no qual novas tecnologias do audiovisual não param de se desenvolver, os futuros formandos em Rádio e TV (RTV) devem estar preparados para a nova realidade. Este é o pensamento do coordenador do curso, Marco Vale. “Procuramos proporcionar ao aluno uma formação que reflita esse mercado em transformação, em que caminhos vão sendo abertos e novas oportunidades surgem a partir dessas mídias”, afirma. Dessa maneira, os 346 estudantes matriculados no curso entram em contato com projetos práticos desde cedo. No 2º ano, os alunos trabalham ao lado dos colegas de Publicidade e Propaganda (PP) na criação do Projeto Virtual. Na atividade, eles produzem um comercial para rádio ou TV. Os estudantes de PP são responsáveis pela criação da

campanha, enquanto os de RTV realizam a produção dos comerciais, em um trabalho conjunto. Segundo Marco Vale, esses projetos estimulam a criatividade e a autonomia dos estudantes: “O curso oferece uma grande liberdade criativa orientada. Os alunos produzem os próprios roteiros e podem escolher os temas, sempre acompanhados de um professor. Essa é uma meta: eles devem estar preparados para as diversas etapas de suas carreiras”, diz. Isso pode ser notado nos Projetos Experimentais, entregues como trabalho de conclusão de curso. Neles, os estudantes têm a possibilidade de desenvolver roteiros com base nas diferentes vertentes do audiovisual, como cinema, rádio, televisão, internet e conteúdo para celular. Em outubro passado, pelo sétimo ano consecutivo, a Faculdade Cás-

per Líbero realizou o workshop de Telejornalismo, em parceria com o consulado dos Estados Unidos. Jornalistas norte-americanos acompanharam durante uma semana alunos de Jornalismo e de Rádio e TV, com o objetivo de produzir um telejornal. Desde sua criação, o workshop conta com um experiente time de profissionais: a diretora Margie Rutenberg, o produtor Charlie Bragale, o repórter Miguel Almaguer e o cinegrafista Luiz Urbina, que já passaram por grandes emissoras de TV, como a nova-iorquina NBC. Sílvio Barbosa, professor nos cursos de Jornalismo e de Rádio e TV, coordena o evento. Ele comenta a importância da atividade: “Este exercício traz todo o estresse do dia-a-dia de uma redação de TV para a semana dos estudantes. E o resultado é muito positivo para todos”, afirma. Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


RELAÇÕES PÚBLICAS Prof. Tânia Baitello Coordenadora de Relações públicas

Antecipando tendências Alunos colocam seus conhecimentos em prática logo nos primeiros anos de estudo Ao ingressar na Cásper, o futuro profissional de Relações Públicas (RP) aprenderá as bases teóricas de sua formação, realizando paralelamente projetos práticos, unindo efetivamente o estudo acadêmico com a abordagem do mercado. “Temos sempre a preocupação de observar o que está sendo discutido ou o que será discutido, porque o grande objetivo é antecipar tendências e levar ao aluno as novidades do universo da comunicação”, afirma a coordenadora Tânia Baitello. Com 617 estudantes matriculados, o curso promove um dos mais tradicionais eventos da área, a Ferp (Feira de Relações Públicas). Voltada para o 2º ano, a promoção possibilita aos es-

tudantes criarem uma empresa fictícia. Assim, os grupos devem divulgar a marca e expor as principais características de cada companhia, produzindo painéis e realizando uma apresentação no auditório da Faculdade. Com a participação de 23 empresas de diversos setores, a edição passada da feira inovou ao explorar a divulgação de marcas através de mídias sociais, representadas por ferramentas como blogs, Twitter e orkut. Após a Ferp, o aluno realiza um outro projeto prático no 4º ano. Contudo, a responsabilidade em desenvolvê-lo é maior, já que os clientes são empresas reais, grandes companhias nacionais e multinacionais como a HP, Drogasil, WWF e Fundação Abrinq.

Nesses projetos experimentais, o “controle de qualidade” das agências é muito grande: “Nem todo mundo vai para a banca pública. A responsabilidade de concluir o curso com um índice de excelência é grande, por isso fazemos uma peneira considerável”, conta Baitello. Os projetos de área têm resultado em reconhecimento público. Em novembro de 2009, foi realizada a 27ª premiação da ABRP (Associação Brasileira de Relações Públicas), que indicou os trabalhos da Cásper Líbero em sete diferentes categorias. Dentre mais de 200 projetos avaliados, a habilitação de Relações Públicas conseguiu cinco primeiros e dois segundos lugares.

PUBLICIDADE E PROPAGANDA Prof. vilma schatzer Coordenadora de publicidade e propaganda

Qualidade aprovada na prática Estudantes de Publicidade se destacam pela boa colocação no mercado e por premiações internacionais “A qualidade de nossos alunos é reconhecida pelas grandes empresas.” A afirmação do vice-coordenador de Publicidade e Propaganda, Rodney Nascimento, reflete a preocupação da Faculdade em formar profissionais preparados para os desafios do mercado de trabalho. Os 823 alunos do curso têm a oportunidade de conhecer e realizar atividades práticas nos diversos gêneros da publicidade e propaganda, como atendimento, planejamento, Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

criação, mídia, produção, além do marketing. “A partir do momento que o aluno tem a oportunidade de conhecer outras áreas, ele se especializará naquilo em que identificar maior interesse”, diz Nascimento. Os estudantes entram em contato com a realidade do mercado desde o primeiro ano. O Projeto Inicial tem o objetivo de desenvolver uma campanha de marketing para profissionais autônomos, como marceneiros, sapateiros, professo-

res particulares ou donos de pequenos restaurantes. A coordenadora do curso, Vilma Schatzer, destaca o empenho dos alunos: “O pessoal pôs a mão na massa, reformando restaurantes, pintando fachadas, fazendo cartões de visita, enfim, dando a oportunidade para que o pequeno comerciante se apresente melhor para o mercado”, diz. Após realizar outros projetos, o futuro publicitário coroará seu aprendizado com o Projeto Experimental,

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desenvolvendo campanhas para empresas e agências reais, como a Fischer, Unilever, Thompson, Agência Click, Lowe, entre outras. Apesar da ênfase em atividades práticas, o vice-coordenador Rodney Nascimento destaca ainda que parte do sucesso dos alunos casperianos se deve à formação humanística. “Não estamos interessados apenas em uma formação técnica voltada para o mercado, nós levamos em conta o indivíduo e esse é o diferencial que as empresas têm buscado”, conclui ele. Cásper em Cannes Em junho de 2009, ex-alunos da Cásper concorreram a premiações no Festival de Publicidade de Cannes (Cannes Lions International Adver-

tising Festival), o mais importante evento da área. Realizado um mês após o conhecido festival de cinema, o prêmio tornou-se uma referência para os publicitários que, desde 1953, se reúnem na cidade francesa para debater as novas tendências e prestigia os destaques do ano. Os casperianos Rodrigo Jatene, da agência Wunderman, e Kauê Lara Cury, gerente de mídia da portuguesa ID/TBWA, concorreram na categoria Young Lions, premiação para os profissionais com menos de 30 anos. Ricardo Chester também fez sucesso em Cannes. Formou-se em Jornalismo pela Cásper e hoje é diretor de criação da agência Babel. Chester já venceu 12 prêmios no Festival, incluindo três Leões de

Ouro, mais importante categoria da premiação. Toshio Yamasaki, professor nos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda, também participa regularmente do evento. Ele reconhece a magnitude da premiação, apontando que “aquilo que é premiado em Cannes torna-se uma referência no mundo inteiro”. Vencedora do prêmio Talento da Mídia, no 12º Prêmio de Mídia do Estadão em 2009, a aluna do 4º ano de Publicidade e Propaganda Nathalia Capistrano do Amaral foi convidada, por conta de seu desempenho no concurso, a participar da edição 2010 do Festival de Cannes, que acontecerá entre os dias 20 e 26 de junho desse ano.

JORNALISMO Prof. CARLOS COSTA Coordenador de JORNALISMO

O melhor jornalismo do país Curso lidera ranking entre 340 instituições

REPRODUÇÃO

A Imprensa Editorial, especializada em tratar de temas ligados à comunicação, publicou em outubro passado o Guia Imprensa – As melhores faculdades de Jornalismo do Brasil. A seleção colocou a Cásper Líbero no topo da lista, entre 340 faculdades de todo o país. Em seguida, está o curso da Universidade de

Capa do Guia Imprensa – As melhores faculdades de jornalismo do Brasil, que deu o prêmio máximo à Cásper

São Paulo, o da Universidade Católica de Brasília e o da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Os critérios de avaliação englobaram qualidade do corpo docente, infra-estrutura, projeto pedagógico, produções laboratoriais e nível de empregabilidade dos formados. Além disso, o Guia Imprensa, encarte da revista de mesmo nome, fez um levantamento sobre a formação acadêmica dos profissionais que trabalham nas principais redações de todo o país. Os casperianos também lideraram nesse quesito. Segundo o Guia, a chave de sucesso da Cásper são seus órgãos laboratoriais, que contemplam diferentes tipos de produção. Ao todo, são cinco espaços dedicados ao aprendizado, nos quais alunos-monitores e professores-editores orientam os trabalhos. Os 835 estudantes de Jornalismo são convidados a participar dessas atividades já no primeiro ano e podem

fazer reportagens para as revistas Esquinas e A Imprensa e para o site de Jornalismo. A Rádio Universitária Gazeta AM tem sua grade produzida e apresentada por alunos. Já o programa de TV Edição Extra, apresentado mensalmente no primeiro domingo do mês pela TV Gazeta, é produzido e editado pelos discentes. Vale destacar: o Edição Extra é a única produção laboratorial do país exibida regularmente em canal aberto. O ranking da revista Imprensa reconheceu também que a Cásper é uma referência no mercado jornalístico. Celso Unzelte, professor de Técnicas e Gêneros Jornalísticos, comenta que é “muito comum encontrar alunos da Cásper no mercado de trabalho antes de completarem o 2º ano”. A Central de Estágios da Faculdade, coordenada pelo professor Walter Freoa, mantém convênio com cerca de 200 empresas do mais alto nível. “Até novembro de 2009, tínhamos Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


1.964 contratos assinados em um universo de 2,6 mil alunos. Em toda a Faculdade, cerca de 92% dos estudantes no 3º e 4º ano estão estagiando em alguma empresa”, diz ele. A revista Imprensa apontou ain-

da a qualidade do corpo docente da instituição, formado por jornalistas que mantiveram ou ainda mantêm uma posição de destaque no mercado. Apesar disso, o coordenador de Jornalismo, Carlos Costa,

alerta: “Temos de tomar cuidado, pois quando se acha que está tudo muito bom, há uma tendência a se cair na repetição. As coisas devem ser feitas hoje para colhermos bons resultados amanhã”.

CULTURA GERAL Prof. cláudio arantes Coordenador de cultura geral

Coordenadoria transversal Coordenadoria presente em todas as áreas, dentro e fora da sala de aula

Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

Paulista e conta com parcerias do Colégio Dante Alighieri, a Editora Paulus, a Gráfica Copy Laser e a Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente. Coordenado por Francisco Nunes, professor de Filosofia, o Café sempre apresenta dois convidados

para debater um assunto. O destaque fica por conta de sua realização em um espaço público, dando a oportunidade para a população entrar em contato com o debate de idéias. “Os freqüentadores do parque juntam-se aos alunos da Cásper para assistir aos encontros”, diz Arantes. DIVULGAÇÃO / CECL

Para manter a qualidade acadêmica, as quatro coordenadorias da Faculdade precisam de articulação e diálogo. Para isso, contam com uma quinta coordenadoria, a de Cultura Geral, transversal às outras e detentora das cadeiras teóricas de Ciências Humanas e Comunicação. “Ela existe para dar o mesmo padrão a todos os cursos, além de evitar a formação de enclaves técnicos, ou seja, cada departamento fechado em si e sendo dirigido de um modo centralizador”, afirma o coordenador da área, Cláudio Arantes. Além de ser responsável por parte da formação pedagógica dos estudantes, a Coodenadoria de Cultura Geral promove eventos relacionados à sua área. No ano passado, foi realizado o 7º Ciclo de Cinema. Sob o tema “Comunicação: Questões Éticas e Profissionais”, foram apresentadas produções cinematográficas que giravam em torno do assunto, como os clássicos A montanha dos sete abutres e Rede de intrigas. A Coordenadoria também faz pré-lançamentos de alguns filmes para os alunos da Faculdade, como o documentário Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, exibido em 2009 e a ficção Histórias de amor duram 90 minutos, dirigido por Paulo Halm e lançado em 2010. Visando à reflexão sobre temas da contemporaneidade, a coordenadoria promove o Café Filosófico. O evento, que acontece há oito anos, é organizado mensalmente no parque Trianon, localizado na avenida

Francisco Nunes, professor de Filosofia, coordenador do Café Filosófico

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PÓS-GRADUAÇÃO

Tradição e excelência

Prof. DIMAS KÜNsCH Coordenador da pós-graduaçãow

Criado em 1975, o curso de pós-graduação da Cásper passa por reformulação para melhor atender às exigências do novo cenário da comunicação A Pós-Graduação da Faculdade dospões de programas de lato sensu (especialização) e stricto sensu (mestrado) que oferecem para o profissional a oportunidade de se destacar em um mercado de trabalho cada vez mais seletivo. O lato sensu, com sua estrutura formatada desde 1975, conta com 370 alunos cursando disciplinas neste semestre, nas quatro grandes áreas de concentração: Comunicação Jornalística, Comunicação Organizacional em Relações Públicas, Marketing e Comunicação Publicitária e Teorias e Práticas da Comunicação. Este último é voltado para os graduados que pretendem seguir na academia, sendo um pesquisador ou docente. Nesses 25 anos, formou 2.022 especialistas. O Prof. Dimas Künsch, coordenador da Pós-Graduação, elogia a estrutura do setor, que permite ao aluno montar sua grade de disciplinas. Dessa maneira, o pósgraduando tem a oportunidade de

entrar em contato com os diferentes campos da comunicação. Além disso, Künsch destaca a qualidade do corpo docente, formada por professores com experiência acadêmica e trajetória no mercado. Para 2010, algumas mudanças começaram a ser introduzidas: com o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício profissional de Jornalismo, o curso está passando por reformulações na Pós-Graduação. Dessa maneira, a especialização estará especialmente focada nessa área, contendo disciplinas específicas como “Processos e Produtos Jornalísticos no Ambiente Digital” e “Apuração e Produção da Reportagem em Tempo de Comunicação Instantânea”, já em andamento. O programa de stricto sensu, apesar de ter sido criado em 2006, também reflete a excelência acadêmica da Cásper. A pós-graduação já formou 62 mestres e tem o seu tema central de pesquisa em “Comunicação na

Contemporaneidade”, a partir de duas linhas de pesquisa: “Processos Midiáticos: Tecnologia e Mercado” e “Produtos Midiáticos: Jornalismo e Entretenimento”. O programa possui duas publicações específicas: a revista digital Contempo e a impressa Líbero, com artigos dos renomados pesquisadores da comunicação. Além disso, são realizados eventos que buscam aprofundar as pesquisas dos pós-graduandos. Em 2009, Bernard Miège, da Université Stendhal Grenoble 3, e Dov Shinar, do Colégio Acadêmico Netanya de Israel, vieram à Faculdade para ministrar palestras. No mesmo ano, foi desenvolvido o Seminário “Cidadania e Redes Digitais”, que contou com pesquisadores brasileiros e estrangeiros para debaterem a comunicação e o mundo virtual. Dentre os convidados, estavam Alexander Galloway, da Universidade de Nova York, Tim Wu, da Columbia Law School, e Langdon Winner, do Rensselaer Polytechnic Institute. DIVULGAÇÃO / CECL

Pós-graduação organiza palestra com o professor Dov Shinar. Na mesa, Carlos Costa e Dimas Künsch

Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


Mais espaço para a aprendizagem Cásper Jr. e Rádio Universitária oferecem a experiência profissional dentro do universo acadêmico DIVULGAÇÃO / cásper jr

Alunos da Cásper Júnior, empresa firmou recente parceria com a SanFran Jr.

Além das coordenadorias, a Faculdade tem a Rádio Universitária Gazeta AM, única emissora aberta a ser totalmente destinada a uma instituição de ensino superior. Há também a agência de comunicação integrada Cásper.

Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

Uma rádio para os alunos A Rádio Gazeta , uma das mais tradicionais emissoras paulistanas, foi fundada em 15 de março de 1943. Em 1996, os alunos da Cásper começaram a compartilhar os microfones que já pertenceram a grandes nomes como Milton Peruzzi, Flávio Araújo, Zé Italiano, entre outros. Transmitida em ondas curtas, a Rádio Universitária ocupava apenas alguns horários da grade. Em 2001, os programas da Faculdade ganharam a transmissão AM, ampliando seu espaço na emissora. Finalmente, no ano passado, a programação da Gazeta passou totalmente às mãos da Faculdade. O professor de Rádio e TV e Jornalismo, Pedro Vaz, é o gerente da emissora.

A equipe da Gazeta AM comemora a premiação do XII troféu São Paulo Capital Mundial da Gastronomia

DANILO BRAGA

Com cara de gente grande A agência de comunicação Cásper Jr. foi criada em 2003. Contando com a orientação do professor de Publicidade e Propaganda Walter Freoa e estruturada por oito alunos, a agência se destaca por trabalhar com os cursos de graduação: Jornalismo, Publicidade, Rádio e TV e Relações Públicas. Ali são desenvolvidas campanhas como desenvolvimento de sites, assessoria de imprensa, produções de vídeos, além de estratégias de publicidade e marketing. O contato com os clientes é tratado de modo profissional. Empresas de médio e grande porte, como a FEA Jr (da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo), a Votorantim Metais e o Graac (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer) procuram a agência, que faz um planejamento estratégico, além de estipular gastos e prazos dos clientes. As remunerações recebidas pela Cásper Jr. são revertidas em melhorias na

estrutura da própria agência. Atualmente, uma parceria está sendo firmada com a SanFran Jr, agência especializada em direito empresarial da Faculdade de Direito da USP. “Como não podemos ter uma receita que cubra serviços jurídicos, buscamos essa parceria. Eles cuidam da nossa área jurídica, enquanto nós trabalhamos com seu o planejamento de comunicação”, conta Felippe Murer, Diretor Presidente da Cásper Jr e aluno do 4º ano de Rádio e TV.

Para que a estação alcance um alto padrão de qualidade, os monitores e colaboradores são orientados por uma equipe experiente de redatores, operadores de som e apresentadores. “A rádio tem o objetivo de ser um celeiro, formando profissionais preparados para trabalhar em qualquer veículo”, conta Vaz. E esse “celeiro” tem conquistado o reconhecimento por sua qualidade. Em 2009, a Gazeta AM venceu o “XII troféu São Paulo Capital Mundial da Gastronomia”, na categoria “reportagem por emissora de rádio”. Orientado pelo professor Pedro Vaz, os alunos produziram, uma série de reportagens que contavam sobre os mercados municipais da cidade. Recentemente, a emissora ganhou um novo site, com transmissão via streaming, que possibilitará alcançar um público ainda maior, explorando novos programas e investindo no atendimento ao ouvinte. Em seu testamento, o jornalista Cásper Líbero, patrono da instituição, declarou que sua Fundação deveria ser “aparelhada dos inventos e aperfeiçoamentos que o progresso for engendrando”. Ao que parece, o sonho foi respeitado.

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SELEÇÃO

divulgação / cecl

divulgação / cecl

Em 2009, 4189 candidatos disputaram 640 vagas

Vestibular diferenciado Candidatos devem buscar contextualizar informações, estabelecendo relações históricas e culturais entre elas por Thiago Tanji

A prova da Cásper dá atenção especial para as humanidades e às questões contemporâneas

O processo seletivo para os estudantes que desejam estudar na Cásper Líbero tem algumas particularidades. Uma atenção especial é dada à redação, que vale 50% da prova. Além disso, são incluídos quatro filmes em sua lista de obras obrigatórias. O coordenador do vestibular, professor Antônio Roberto Chiachiri explica o motivo. “Não queremos alunos que apenas decorem conteúdos, mas que saibam entendê-los”. Para 2011, a estrutura da prova deverá sofrer alterações. O vice-diretor da Faculdade, Welington Andrade, comenta as mudanças: “Tentaremos abolir os blocos internos que a prova possui, deixando as questões com um caráter interdisciplinar e integrado, que é o objetivo de todo bom vestibular”. Atualmente, a provaenvolve quatro eixos temáticos: Língua Portuguesa, Língua Inglesa, Estudos Sociais e Matemática. Além disso, novos livros e filmes irão compor a lista para o processo seletivo. As obras literárias compreendem produções brasileiras, portuguesas e africanas: Auto da barca do inferno, de Gil Vicente, Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Al-

meida, 50 poemas escolhidos pelo autor, de Manuel Bandeira, Dois irmãos, de Milton Hatoum, Os das minha rua, do angolano Ondjaki e Laços de família, de Clarice Lispector. Filmes escolhidos Quanto aos filmes, foram selecionadas quatro produções, duas nacionais e duas estrangeiras. São elas: os documentários Arquitetura da destruição, de Peter Cohen e Santiago, de João Moreira Salles, além dos ficcionais Rede de intrigas, de Sidney Lumet e O Bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla. Welington Andrade, integrante da comissão que escolheu as obras para o vestibular, indica como essas produções comporão a prova: “O aluno deve pensar no assunto a ser debatido não de forma estanque, mas estabelecendo relações históricas e culturais que a obra suscita”, conta. Antônio Roberto Chiachiri lembra que “O candidato deve estar atento às coisas do cotidiano e aos acontecimentos contemporâneos. Não fazemos pegadinhas: queremos um aluno que saiba pensar e refletir”. Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


PERFIL

“O que mudou na Publicidade foi a forma de fazê-la: menos massa, mais o indivíduo, mais customizado”

Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


danilo braga

A nova cara da

publicidade Formada pela Cásper, a publicitária Andréa Dietrich aposta nas redes sociais para encabeçar a estratégia de marketing digital do Grupo Pão de Açúcar por Aline Magalhães

Sorridente, Andréa Dietrich não impressiona apenas pela beleza e simpatia evidenciadas em um primeiro olhar.

Vida de universitária O prédio localizado no número 900 da avenida Paulista traz boas recordações para Didi, como é apelidada. Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

Além de ter feito bons amigos e participado das festas promovidas pela Atlética e do Juca (Jogos Universitários de Comunicações e Artes), parte da vida universitária casperiana, Andréa adquiriu vasto conhecimento e maturidade. “Na Cásper, conhecemos as mais diversas áreas da publicidade, desde planejamento e criação até fotografia e tecnologia. Me formei com a certeza de que queria investir em planejamento” e completa: “A Faculdade dá liberdade para sermos criativos. Em meu meio há muitos profissionais saídos da Cásper. Ela forma bons publicitários”, destaca. A ex-aluna conta que a interação com os estudantes das outras áreas da comunicação foi muito positiva e lembra com carinho das aulas de Fotografia lecionadas pelo professor Toshio Yamasaki: “Eu adorava, ele era muito bacana”. Logo no 2o ano, Andréa começou a estagiar no portal ObaOba, onde trabalhou até a conclusão do curso e obteve posição de destaque, ganhando a liderança da área de marketing da empresa: “Ali iniciei a formação de minha expertise profissional. Se não tivesse uma base forte de estudos, cursado uma faculdade tão boa, não

ARQUIVO PESSOAL

Aos 28 anos, a publicitária lidera a nova estratégia de marketing digital da maior rede varejista da América Latina. O Grupo Pão de Açúcar planeja investir cerca de R$ 10 milhões na operação, que engloba a criação e otimização de portais na internet e aplicativos para celular. “Os clientes estão online. Para atingi-los, as empresas também devem ir para a web. A companhia apostou nessa idéia, montamos um time que hoje forma o GPA Digital (Grupo Pão de Açúcar Digital) e, desde 18 de janeiro, trabalhamos na empreitada”. Formada em Publicidade e Propaganda pela Faculdade Cásper Líbero em 2004, Andréa conta que sempre se interessou pelo universo da propaganda, tanto que, quando criança, protagonizou algumas campanhas como atriz. “Mas gostava mesmo do backstage, da produção”, lembra. Não teve dúvidas ao escolher a profissão. “Na época do vestibular, procurei pelas melhores instituições e a Cásper estava entre elas”, diz.

teria conseguido um estágio tão rápido e bom o suficiente para alavancar a carreira”. Para ela, a Faculdade foi uma combinação de crescimento profissional e, sobretudo, pessoal. “Comecei a ganhar meu próprio dinheiro e a pagar a mensalidade. Na época meu pai ficou desempregado e nós não tínhamos condições. Tive de me virar”, revela. O esforço valeu a pena. Assim que se formou, Dietrich foi trabalhar no Grupo Pão de Açúcar, onde começou como assistente de marketing e passou por outros cargos num

Andréa, ao lado da amiga Camila, comemorando a graduação

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No Grupo Pão de Açucar Digital, a ex-casperiana coordena uma afiada equipe de 15 funcionários

constante crescimento. “Em 2009, fui convidada para assumir novos desafios dentro da companhia. Retomei o início da minha carreira, que também era na esfera digital”, conta a atual gerente. Hightech com orgulho Entusiasta assumida das novas tecnologias e das redes sociais, @DidiDietrich, nome de usuário no Twitter, confessa passar de dez a doze horas por dia online e conta com quatro computadores em casa: um no escritório, outro ligado na televisão e dois notebooks. “Estou nas redes sociais não só por conta do trabalho, é também o

meu lazer. Amo o que eu faço”, diz. Apesar de não criar um perfil estritamente profissional nas páginas das redes, a publicitária ressalta a importância de se manter um comportamento adequado na web: “Tudo que é dito lá pode tomar proporções gigantes, é impressionante o que 140 caracteres podem fazer. Você precisa de um filtro do que vai expor. Há algumas políticas de bom uso a serem seguidas”. As páginas pessoais são tão importantes para ela, que Andréa costuma visitar os perfis dos candidatos nas mais diversas plataformas sociais para selecionar seus

As redes sociais tornaram-se uma grande fonte de pesquisa aberta. O cliente está online

funcionários: “É possível conhecer a personalidade das pessoas através da internet. Consigo saber se ela é desleixada, se fala mal dos outros. Se uma menina está fazendo pose de biquíni, por exemplo, não acho que seja alguém bacana para integrar minha equipe. Boa postura é indispensável para quem deseja ter uma boa trajetória profissional”, revela. Ela se mantém sempre atualizada por meio de seus dois celulares. “Eles têm funcionalidades diferentes. O Blackberry é muito mais prático e o iPhone é melhor para navegação e muito mais interativo”, conta. A nova publicidade As redes sociais tornaram-se, na opinião de Dietrich, uma “grande fonte de pesquisa aberta”, na qual os profissionais têm a oportunidade de conhecer o que as pessoas buscam e os motivos que as levam a escolher ou não determinado produto. Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


Na Cásper, Andréa e as amigas Lizandra e Camila DANILO BRAGA

Em todos os momentos sempre conectada ARQUIVO PESSOAL

Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

ARQUIVO PESSOAL

DANILO BRAGA

“O cliente está online”, afirma. Para acompanhar tal realidade, Dietrich crê que o seu setor vem passando por mudanças. “A publicidade estava acostumada a trabalhar como uma via de mão única, na qual a informação vem pelo jornal e pela televisão, de uma maneira apenas informativa. A internet traz uma comunicação de via de mão dupla, na qual o consumidor diz o que deseja e também se quer fazer parte da construção de um produto ou campanha”, e acrescenta: “Hoje em dia, se você não tem mais diálogo com o cliente, ele tende a te esquecer”. Segundo Andréa, “os consumidores estão mais desenvolvidos do que as empresas”, que estão em processo de adaptação para entrar no mercado digital. “Ainda não existem profissionais com tanta expertise nesse meio. A tendência agora é montar grupos que atendam a essa necessidade. Não há mais online ou off-line, tudo irá conver-

gir para uma coisa só”, pondera. Nesse sentido, Dietrich ressalta seu trabalho à frente do GPA Digital, que disponibiliza para o cliente serviços que oferecem entretenimento, produtos e informação. Um exemplo é o aplicativo para celular que localiza a loja Extra mais próxima do consumidor. Pela web, ainda é possível fazer compras de supermercado e recebê-las em casa pelo serviço delivery. “Queremos colocar a cultura digital na cabeça das pessoas”, conta. Andréa compara o mercado nacional com o de outros países: “A única coisa que falta no Brasil é o desenvolvimento veloz das tecnologias, o acesso, a mobilidade em si, que ainda é maior no exterior”, opina. “A publicidade vem crescendo muito aqui [Brasil]. Em nossa empresa, o orçamento destinado ao marketing tem atingido patamares cada vez mais altos. O que mudou foi a forma de fazê-la: menos massa, mais o indivíduo, mais customizado, mais personalizado”, sintetiza. Tempo livre Comandar a equipe de 15 funcionários que compõem o GPA Digital exige esforço de Andréa, que costuma acordar às 7h30, entrar às 8h30 no escritório, localizado no bairro paulistano dos Jardins, e só ir embora às 20hs. Com quase doze horas de seu dia dedicadas ao trabalho, ela ainda consegue dar um jeitinho de jogar squash e frequentar o salão de beleza para cuidar dos cabelos e das unhas. O casamento de três anos com Cristiano Nóbrega ainda não lhe trouxe filhos. Toda a dedicação do casal volta-se para o vira-lata Zequinha, fiel companheiro da paulista em seus passeios no parque. “Mas quando vou caminhar, o celular está junto”, brinca a grande fã de animais e natureza. Em 2009, Andréa concluiu o MBA em Negócios pela Fundação Getúlio Vargas, com o intuito de aprimorar seu conhecimento administrativo. Aliás, para os novos profissionais, a publicitária afirma ser imprescindível a boa formação e conhecimento constantemente atualizado. “Aconselho a quem deseja ser publicitário se manter sempre online e antenado, caso contrário a pessoa tenderá ao insucesso”.

Andréa relaxa ao lado da família, com o marido Cristiano Nóbrega e o cão Zequinha

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HISTÓRIA

O abolicionista

de papel

As andanças de Angelo Agostini, caricaturista, fotógrafo, pintor, jornalista, editor e sobretudo agitador político, morto há cem anos por Gilberto Maringoni

Na tarde quente e abafada de 23 de janeiro de 1910, morria no Rio de Janeiro o mais notável caricaturista do período imperial e um dos mais destacados militantes da causa abolicionista. Seu nome era Angelo Agostini, um italiano nascido em 1843, que aqui chegara ainda adolescente.

REPRODUÇÃO

Ao longo de 43 anos - entre 1864 e 1907 - ele construiu uma das mais longas carreiras da imprensa nacional. Seu legado é uma obra vasta, diferenciada e, sobretudo, irregular, cujos traços estão fixados em pelo menos 3,2 mil páginas de jornais e revistas.

A brutalidade das torturas contra escravos em desenho de 1886, no auge da campanha abolicionista

Chamá-lo de caricaturista é uma forma genérica de tentar resumir um talento multifacetado. O italiano desempenhou atividades tão diversas como as de caricaturista, quadrinhista, pintor, fotógrafo, repórter, crítico de costumes, editor, empresário e

agitador político. Um azougue o sujeito, como se dizia naqueles tempos. Agostini fez sua estréia em São Paulo, um pouco antes do início da Guerra do Paraguai (1864–1870), e logo mudou-se para o Rio. Seus últimos trabalhos foram publicados quando a República oligárquica se consolidava. Através de seu lápis, temos um testemunho vibrante da decadência do regime imperial, assentado no trabalho escravo e na grande propriedade da terra. Ao longo dos anos, o artista colocou no papel suas visões sobre o advento da República e da nova inserção do Brasil no mercado mundial. O país se notabilizava como fornecedor de matérias-primas aos países centrais e como importador de manufaturados e de capitais. Cronista visual Durante a maior parte de sua carreira, Agostini planejou, coletou dinheiro, reuniu equipes e colocou na rua suas próprias publicações. O maior sucesso foi a Revista Illustrada (1876-1898), um semanário de oito páginas. A pauta era variadíssima: política, costumes, salões artísticos, vida mundana, livros, viagens do Imperador, temporadas teatrais, companhias de ópera, sujeira das ruas, fofocas e o que mais acontecesse naquela Corte de verões infernais. Agostini era sobretudo um cronista visual. A combinação dessa sensibilidade com a de cidadão indignado geraria a parte mais contundente de seu trabalho, as denúncias de torturas, mutilações e assassinatos cometidos por senhores Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


REPRODUÇÃO

REPRODUÇÃO

O carnaval de 1880 nas páginas da Revista Illustrada; a sensibilidade de um cronista visual REPRODUÇÃO

contra seus escravos. Seus traços escandalizaram a Corte e várias Províncias, alcançando repercussão até nos Estados Unidos. O artista começa sua carreira num tempo em que a imprensa era produzida de forma quase artesanal. Na virada do século, o panorama se altera. A chegada da máquina rotativa, de novas formas de reprodução e a ampliação do público leitor a transformam em empreendimento capitalista de porte. Agostini deixa de ser dono de pequenas publicações e torna-se colaborador de grandes empresas editoriais. Mais do que uma mudança funcional, estavam em pauta duas fases decisivas da consolidação da imprensa brasileira. Intolerância Nos últimos anos de sua vida, o artista mostrou-se paulatinamente intolerante com manifestações populares. Reclamava, em suas páginas, dos gritos dos vendedores ambulantes, exibia um surpreendente racismo em suas opiniões e clamava por reformas urbanas no Rio de Janeiro. O que poderia representar uma trajetória incoerente com sua militância antiescravocrata, expressava o Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

comportamento de uma vertente importante do movimento abolicionista entre a elite intelectual e política do Império. A libertação não se fez apenas por motivos humanitários, mas como parte de um difuso projeto de desenvolvimento, que pressupunha trabalho assalariado, imigração européia e mercado interno. Sob tal ponto de vista, a escravidão era cara, ineficiente e pouco produtiva. Não havia, assim, uma identidade maior com a população negra. Quando Agostini morreu, seus desenhos rebuscados e quase acadêmicos foram deixados de lado por uma nova geração de artistas, influenciada pelo maneirismo do art decó e pelo expressionismo. O avanço técnico na imprensa abria novos caminhos para as artes na imprensa. A revista A Illustração Brasileira de 1º. de fevereiro de 1910, fez uma longa matéria sobre Angelo Agostini: “Ele andava por aí, pobre, considerado pelos ‘novos’ um arcaísmo, um antigo... Que lhe importava isso? (...) Esqueceram-no, ele deixou-se ficar a um canto, sem rancor e sem amargura. Considerava natural que nada lhe oferecessem, pois ele nada pedia, nada esperava”.

Aos meus assinantes Trecho do último editorial do jornal Don Quixote ,em janeiro de 1903, a derradeira publicação editada por Angelo Agostini

O jornal é feito para os assinantes. Não tem cor política, como nunca tive desde que trabalho em jornais. Trata dos acontecimentos importantes como sempre o fez, em ilustrações e caricaturas, dos retratos dos mortos notáveis. Trata das questões gerais, desejando sempre o bem do país, censura e louva os que merecem; sempre foi esse o meu sistema. (...) Creio que ninguém tem queixas da folha. Tenho os maiores louvores de todos os jornais do Brasil e de todo o povo. Se alguns murmuram, a culpa é deles próprios e não do jornal. Não tive outro fim, se não dizer a verdade, com o sentido de corrigir os defeitos. É esta a minha missão. – Se puser anúncios, poderá fazer o jornal mais barato. O anunciante paga as despesas, dirão alguns. É verdade, mas não faço jornal de anúncios, para isso há outras folhas.

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REPÓRTER NA REAL Eliane em 2001 com indíos ianomâmis. O encontro aconteceu para escrever “Guerra do Começo do Mundo”, terceiro capítulo do livro O Olho da Rua

Prefiro matérias

SEM PAUTA

Fora da grande imprensa, Eliane Brum fala da carreira, do estilo e lembra curiosidades de suas reportagens Por Hugo Passarelli

Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


Lilo Clareto

Eu sempre tive esse olhar para o cotidiano, me interesso pela vida, pelas pequenas coisas que se repetem

Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

No cotidiano das grandes redações, o jornalismo ideal, aquele estudado nas faculdades, às vezes parece não existir. Por conta da pressa em fechar um caderno ou em publicar na versão online do veículo a repercussão de um assunto, uma entrevista pode ser feita por telefone e não cara a cara. Ou pior. Se um veículo concorrente dá um furo, ocorre aquele esforço para se recuperar a história, como se o leitor padrão lesse diariamente mais de um portal ou jornal. O foca, jornalista em início de carreira, pode se decepcionar com o jornalismo como ele é. Mas longe de ser uma utopia, há espaço no exercício da profissão para um trabalho mais aprofundado, menos factual e, por que não, mais sensível. É o que faz Eliane Brum. Após mais de 20 anos trabalhando na grande imprensa, a jornalista acaba de deixar a revista Época (onde era repórter especial desde 2000). Ela continua com a coluna semanal Nossa Sociedade no site da publicação, mas passa a se dedicar a projetos pessoais, além de escrever crônicas de ficção para o vidabreve.com. Antes disso, ela trabalhou por 11 anos no jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Prestes a completar 44 anos, a gaúcha de Ijuí se especializou em falar sobre os pequenos acontecimentos do cotidiano e em tornar temas difíceis como morte, velhice e dramas pessoais em raros exercícios de reflexão e sensibilidade. A jornalista tem três livros publicados – Coluna Prestes, o avesso da lenda (1994), A vida que ninguém vê (2006) e O Olho da rua (2009). As obras são compostas por seleções de suas grandes reportagens. Com mais de 40 prêmios de jornalismo, sendo o mais recente o Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha (pela reportagem “O Islã dos manos”, de 2 de fevereiro de 2009), Eliane é categórica: “Eu prefiro matérias sem pauta, acho que são as melhores que eu faço”, diz. A afirmação anterior poderia muito bem virar piada se fosse feita em grandes redações de qualquer parte do mundo ou para os autores de manuais de jornalismo. Mas é difícil debochar quando ela vem na voz de Eliane. “Eu sou repórter ainda que não esteja trabalhando em lugar nenhum”. É verdade. Mesmo

quando é a entrevistada, Eliane não deixa de enxergar o outro, e pergunta, por exemplo, se o repórter quer comer ou tomar alguma coisa e ainda se preocupa que ele more longe. No relato a seguir, Eliane fala de seu processo de criação, sobre como um jornalista pode conseguir seu espaço e do que ainda gostaria de escrever futuramente: Pequenos acontecimentos “Eu sempre tive esse olhar para o cotidiano, sempre me interessei pela vida, pelas pequenas coisas que se repetem”, diz ela. Mas foi somente após dez anos como repórter das editorias geral e policial no jornal gaúcho Zero Hora, em 1999, que Eliane pode falar exclusivamente sobre o tema, antes coadjuvante de muitos de suas reportagens. Para o primeiro texto da coluna que depois viraria o livro A Vida que ninguém vê, sobre um homem que comia vidro, Eliane recorreu ao que sabe fazer melhor: saiu para a rua. “Fui para o centro de Porto Alegre e fiquei olhando. Tinha muita gente nessas rodinhas e ele [o homem que comia vidro] estava sozinho. Fiquei olhando, fui chegando perto e ele estava com sangue na boca. Primeiro, eu achei que ele estava machucado, que a ferida estava doendo. Mas não era isso. Ele estava sofrendo pela invisibilidade. A arte dele era comer vidro e ninguém o notava”. E completa: “Entender o que doía era a chave para entendê-lo e era a chave da vida que ninguém vê”. Aos poucos, o processo ficou mais ‘industrial’, com as sugestões que Eliane recebia de leitores e dos próprios colegas de profissão. Mas ela revela: “Quando estava desesperada porque não tinha pauta, ia para o centro”. Por tratar de figuras comuns, a coluna recebia diversas manifestações dos leitores: “As pessoas achavam muito bacana o fato de que a vida delas era interessante”, diz.

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DIVULGAÇÃO

“Não existe repórter que não vai para a rua e repórter que sai para a rua. Existe repórter. E repórter sai para a rua”

Leitor não é burro “Nem o cara que ganhou o prêmio Pulitzer escreve uma boa reportagem sem uma boa apuração. O jornalismo é diferente da ficção, nele não se inventa. Não tem milagre. Se você não apurou muito, você não conse-

Angústia de não saber “Tem determinado momento da matéria em que eu penso ‘ferrou, não estou entendendo mais nada. O que eu vou fazer com isso, o que está acontecendo?” Mas hoje, com mais de vinte anos de carreira, já consigo ter alguma calma para pensar ‘não, em algum momento eu vou entender’. É sempre algum detalhe muito pequeno, às vezes alguma coisa que o fotógrafo disse. E aí fica tudo claro. O legal da reportagem é isso, né? O povo valoriza muito você saber, ter certeza, o que não tem graça. O bom é não saber”. Repórter na rua “Não existe repórter que não vai para a rua e repórter que sai para a rua. Existe repórter – e repórter sai para a rua. Quando eu comecei, a revista Realidade já tinha fechado há um bom tempo e as pessoas ainda choravam por ela [por acreditarem que não havia mais espaço para o jornalismo aprofundado na imprensa brasileira]. Projeto pessoal Se ir para a rua é uma das atividades essenciais do jornalismo, Eliane

lembra que o início da carreira de um repórter não é nada fácil. “No jornalismo você tem de ter projeto. Se você não sabe o que quer fazer, você vai fazer o projeto dos outros. Se você não tiver pauta boa para oferecer na reunião, você vai fazer a pauta do chefe. E não vai poder reclamar, porque não tinha nada melhor pra apresentar. No começo a gente come muita carne de pescoço mesmo. Mas aos poucos, se você voltar da rua com coisa boa e o seu editor ver que você ralou, ver que você não é uma fraude, ninguém é louco de negar matéria boa, todo mundo precisa disso pra ter credibilidade. É uma conquista gradual. Cada vez mais a gente precisa de repórter mesmo. Porque a internet já faz essa coisa rápida e de graça. É preciso gente que faça”. Espaço garantido “Quando eu cheguei na Zero Hora, lá atrás, tudo que eu fazia era errado, as pessoas falavam que não era nem jornalismo o que eu fazia. Quando cheguei aqui [em São Paulo], 11 anos depois [2000], as pessoas queriam que eu fizesse aquilo que eu já fazia. Já entrei com um espaço mais garantido”. África, um sonho “Tem milhares de coisas que eu gostaria de fazer. A minha angústia hoje é que eu vou fazer 44 anos e não vai dar tempo. Mas eu quero viajar pela África, fazer matérias, quero entender pelo menos um pouco mais do que eu entendo”. ARQUIVO PESSOAL

Poucas palavras “Eu pergunto muito pouco. Acho que as perguntas atrapalham. Por mais abertas que sejam, elas acabam direcionando a resposta”. Mais uma vez, a repórter salienta a importância dos detalhes: “Tem aquilo que é dito nas palavras, mais formalmente, mas tem aquilo que é mais sutil. A questão da escolha. Por que ele falou sobre isso ao invés de falar sobre aquilo?”. Em 2009, a jornalista pôde comprovar que uma pergunta pode mudar o rumo da entrevista. O caso se deu ao fazer uma reportagem sobre as psicanalistas Michele Kamers e Carla Cumiotto, o primeiro casal de mulheres a conseguir registrar seus filhos, gêmeos, após recorrerem a um banco de esperma. “A gente [ela e o fotógrafo Marcelo Min] sentou na casa delas e a Michele perguntou por onde nós começávamos. Eu disse que por onde ela quisesse. Ela começou pela adolescência dela e da mulher, Carla. E me falou um monte de coisas sobre elas e sobre como vivem. Se eu tivesse perguntado, eu não ia saber disso”.

gue, ninguém consegue. Aí o texto fica sem informação, capenga, você acaba fazendo floreios e colocando adjetivos. O leitor não é burro. Acho que quando eu escrevo bem, é porque eu apurei bem. É porque ralo pra caramba. Eu vou naquelas minúcias, cada detalhe”.

Porto Alegre, 1989: com 23 anos, a aprendiz Eliane fazia uma reportagem sobre um homem que morava dentro de uma árvore

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EXCLUSIVO

divulgação

Mesa de abertura da Confecom. Da esquerda para a direita: Rosane Bertotti, da CUT, Celso Schröder , do Fórum Nacional de Democratização da Comunicação (FNDC), Ministro Luiz Dulci, Michel Temer, presidente da Câmara dos Deputados, Presidente Lula, Ministro Helio Costa, Ministro Franklin Martins, João Carlos Saad, presidente do Grupo Bandeirantes, e Marcelo Bechara, da comissão organizadora.

A Conferência de Comunicação na voz de seus participantes Processo discute legislação, circulação e democratização da comunicação no Brasil Resoluções serão debatidas no Congresso Nacional. Principais participantes analisam com exclusividade a importância do evento por Gilberto Maringoni Realizada entre os dias 14 e 17 de dezembro de 2009, a I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), convocada pelo governo federal, constituiu-se em um feito histórico. Pela primeira vez, empresários, representantes da sociedade e o poder público colocaram-se frente a frente para debater uma política abrangente para a área. Cerca de 1,6 mil delegados, eleitos em 27 conferências estaduais que envolveram cerca de 60 mil pessoas, discutiram e aprovaram centenas de propostas. Estas agora serão encaminhadas ao Congresso Nacional e podem gerar novas leis para o setor. Embora a circulação de informações seja cada vez mais decisiva no dia a dia dos brasileiros, nunca houve no país um debate amplo e democrático sobre as políticas de comunicação, seus marcos regulatórios, suas possibilidades e limites. A televisão e o rádio atingem praticamente a totalidade do território nacional, a internet é utilizada por quase um terço da população e a convergência de mídias possibilitada pela tecnologia digital coloca perspectivas quase ilimitadas para a circulação de informações. Apesar de tudo, a legislação encontra-se defasada. O Código Brasileiro de Telecomunicações é de 1962, quanRevista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

do a televisão estava em seus primórdios. A Lei do Cabo é de 1995. Com seus prós e contras, a Lei de Imprensa foi revogada em 2009. Tais fatores só ressaltam a importância da I Confecom. Alguns setores, especialmente aqueles associados à Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) e à ANJ (Associação Nacional dos Jornais) decidiram não participar do processo, apesar de convidados. Entre outras, tais entidades representam a Rede Globo, o SBT, a Rede Record, a RBS, a Editora Abril e os jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e Zero Hora. Tomaram parte da Conferência a Abra (Associação Brasileira de Radiodifusores) e a Telebrasil, que envolve a Rede Bandeirantes, a Rede TV!, a Brasil Telecom e a Telefônica, entre outras. Vários movimentos sociais ligados à comunicação também participaram. A revista Cásper publica a seguir avaliações exclusivas de membros dos três setores representados no evento. São eles: Ottoni Fernandes Jr., da Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência da República), Walter Vieira Ceneviva, da Rede Bandeirantes, e Beatriz Barbosa, do Coletivo Intervozes.

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GILBERTO MARINGONI

GOVERNO

Rumo a um novo marco regulatório da comunicação A meta é consolidar as conquistas e avançar na construção e na pactuação de um novo marco legal condizente com a evolução das comunicações por Ottoni Fernandes Jr. Secretário Executivo da Secretaria da Comunicação Social da Presidência da República

No momento que o Brasil tem pela frente enormes desafios e oportunidades na nova era da digitalização, da internet e da convergência de mídias, o Governo Federal não poderia deixar de estimular o debate franco e aberto sobre um tema essencial para a democracia e para o exercício da cidadania do país: a comunicação social. A realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) foi uma importante contribuição para oxigenar a discussão pública sobre a democratização da comunicação, da informação, do entretenimento e das manifestações artísticas e culturais de interesse da sociedade. Ao convocá-la, o Governo Federal se dispôs a estar presente como minoria porque o processo conferencial deve ser um legitimador das visões da sociedade e uma fonte de referência para as políticas públicas. A exemplo das 63 conferências nacionais realizadas desde 2003, a 1ª Confecom foi marcada pela pluralidade, diversidade de temas e qualidade dos debates. Outro mérito da Conferência foi abrir um maduro canal de diálogo entre o poder público, a sociedade civil e a sociedade civil empresarial e colocar a questão da comunicação de novo na

agenda do país. Ela estava fora da pauta desde a promulgação da Lei do Cabo, em 1995, e da Assembléia Nacional Constituinte de 1988. Com espírito público, os três segmentos que participaram da Conferência, independentemente de suas mais diferentes e naturais demandas e convicções, estabeleceram uma interlocução de respeito, responsabilidade e profissionalismo. Convergências foram construídas para que a maior beneficiada fosse a sociedade brasileira. O interesse coletivo se sobrepôs ao corporativo mesmo em situações mais tensas. Sucesso de iniciativa Não é exagero afirmar que a 1ª Confecom foi um sucesso. Apesar de alguns segmentos empresariais terem se retirado no início do processo de realização do evento, os setores que permaneceram declararam publicamente, ao término do encontro, que se sentiram contemplados e avaliaram positivamente a iniciativa. Mais de 1,6 mil delegados de todas as unidades da Federação aprovaram 702 propostas, sendo 601 diretamente em 15 grupos de trabalho, o que demonstra o consenso em boa parte delas. Em todo o processo envolveram-se cerca

de 60 mil brasileiros e foram formuladas 6.101 proposições, que sistematizadas tornaram-se 1,5 mil na etapa nacional. São resoluções que vão desde a regulamentação de artigos da Constituição Federal referentes à comunicação social até a criação de um novo marco regulatório e normativo para o setor da comunicação e das telecomunicações no Brasil. É importante avançar na direção de um modelo regulatório das concessões de espectro eletromagnético, na lógica da convergência digital. Mas é preciso, também, regulamentar dispositivos da Constituição de 1988 relativos à comunicação social, como os definidores de cotas para o conteúdo regional nas emissoras sob concessão, ou os que estabelecem limites para a veiculação de publicidade. Além disso, é essencial estar atento aos modelos regulatórios implantados em outras partes do mundo, por exemplo, no âmbito da União Européia, onde a diretriz “Televisão sem Fronteiras” merece ser estudada. E o Governo Federal não foi omisso nas discussões. Com o objetivo de fomentar o debate sobre importantes temas para o campo da comunicação, defendeu 58 proposições, além das duas acima mencionadas. Desse total, mais de 90% foram aprovadas. Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


com a evolução das telecomunicações e com a necessidade de democratizar, cada vez mais, os meios de comunicação no país. A atual legislação que disciplina a radiodifusão tem quase 50 anos e com a convergência de mídias ela ficou ainda mais defasada. Normatização e regulamentação Mesmo não tendo caráter deliberativo, as diretrizes aprovadas na Confecom têm o respaldo democrático necessário para subsidiar a formulação de políticas públicas e projetos de lei na área da comunicação, além de mudanças em leis, emendas constitucionais ou elaboração de legislação infraconstitucional. A implementação de grande parte das propostas aprovadas dependerá dos encaminhamentos do Congresso

Nacional e do seu empenho em debruçar-se sobre o tema da comunicação social com a urgência e importância que ele requer. Outras podem ser executadas pelo Poder Executivo, por meio de normas e decretos. A Conferência terminou, mas o processo que ela deu início não se encerra com o evento. Os temas debatidos na 1ª Confecom são muito complexos para serem resolvidos apenas por um ou outro segmento. É fundamental a participação de todos para que o resultado das discussões seja o melhor para a sociedade brasileira. E esse democrático encontro contribuiu significativamente para dar transparência e ampliar o processo institucional de diálogo sobre os melhores caminhos e soluções para a comunicação do país, um setor estratégico para o desenvolvimento do Brasil.

divulgação

A maioria das contribuições dos órgãos federais tratou da regulamentação e fiscalização de itens já existentes na legislação que ainda não foram normatizados. É o caso da aplicação dos limites legais do tempo de publicidade na programação de emissoras de radiodifusão e do respeito ao número máximo de concessão de outorgas. Outras propostas do governo foram a descriminalização e a regularização das rádios comunitárias e a adoção do critério de mídia técnica na publicidade institucional e de utilidade pública, com incentivo à regionalização e verificação de circulação, o que já vem ocorrendo no âmbito da administração federal. A meta agora é consolidar as conquistas obtidas na 1ª Confecom e avançar na construção e pactuação de um novo marco legal condizente

Um dos 16 grupos de trabalho reunido na Conferência. Ao todo, estiveram presentes 1,6 mil delegados Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

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GILBERTO MARINGONI

EMPRESÁRIOS

A vitória do diálogo A Confecom disseminou a percepção de que o tema é determinante para o dia-a-dia dos brasileiros e que algumas ações são necessárias para que o futuro da comunicação no país seja melhor por Walter Vieira Ceneviva Vice-Presidente Executivo do Grupo Bandeirantes de Comunicação e consultor jurídico da Abra (Associação Brasileira de Radiodifusores)

As comunicações são estruturantes para um país: a economia se desenvolve com base na comunicação entre agentes econômicos; o processo político é amplamente baseado na comunicação; a segurança pública e a segurança privada empregam mais e mais comunicação; a educação emprega cada vez mais a comunicação; a própria presença do Estado brasileiro se manifesta pela existência (ou pela ausência) de comunicação no território nacional. Portanto, cada brasileiro deve se preocupar com os desdobramentos da comunicação no Brasil, a evolução de seus meios, a revisão de suas regras, a compreensão dos impactos da tecnologia e da mundialização da economia que

traz agentes econômicos estrangeiros para atuar em comunicação no país. Nesse contexto, a realização da 1ª Confecom teve grande importância, porque colocou a comunicação no centro da atenção pública. A Conferência foi importante para disseminar a percepção de que o tema presente é determinante para o dia a dia dos brasileiros e que algumas ações são necessárias para que o futuro da comunicação no país seja melhor. A Abra (Associação Brasileira de Radiodifusores) aceitou o convite do Presidente da República, certa de que a discussão da comunicação, num evento de abrangência nacional e com participação equilibrada dos setores envolvidos (poder pú-

blico, sociedade civil empresarial e sociedade civil não empresarial), seria muito rica e muito importante para orientar as futuras decisões do Brasil no setor da comunicação. Cláusula pétrea Houve uma reação importante contra ativistas que pretendiam acabar com a liberdade de expressão do brasileiro. A liberdade de expressão é uma cláusula pétrea da Constituição e não precisa de “novos marcos regulatórios”. As centenas de propostas aprovadas e as milhares de propostas rejeitadas pela Confecom são referências importantes para o Congresso Nacional, para o Poder Executivo FeRevista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


Preocupação com desnacionalização No futuro das comunicações brasileiras, os meios gratuitos devem ser fortalecidos para evitar que a TV paga (um privilégio dos que têm dinheiro para pagar por ela) não termine aniquilando a TV aberta, gratuita, brasiRevista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

leira e de abrangência nacional. Os diversos sistemas devem conviver, em ambiente harmonizado. Essa preocupação contra a desnacionalização e contra a predominância dos meios pagos de comunicação marcou todo o processo de debates da Conferência. As principais convergências, durante os debates, estiveram ligadas à necessidade de proteção aos conteúdos e produtores de conteúdos brasileiros. Foi interessante o momento, durante a plenária, em que todos os presentes (governo, empresários e não empresários) cantaram “Saci Pererê! Saci Pererê!” numa homenagem unânime a esse ícone da cultura do Brasil. Por outro lado, houve profunda divergência quanto às demandas por interferência na programação da TV aberta; quanto à obrigatoriedade de falar de certo assunto, ou à proibição de falar de certo assunto. Essas propostas revelaram um grau enorme de desconhecimento, pelos conferencistas, do estágio atual da televisão no Brasil: poucos participantes se deram conta de que, em cada cidade do Brasil, o governo federal dispõe de dez canais de televisão digital, os quais, multiprogramados somam quarenta canais por cidade! Com tanta oferta de televisão aberta, pelo

poder público federal, o que falta são conteúdos brasileiros, cuja produção e distribuição a Abra defende, junto com os conferencistas. Futuro Para que o debate futuro seja mais produtivo, a Conferência Nacional deve ter mais tempo para sua realização (os debates foram muitas vezes suprimidos pela falta de tempo); além disso, a sociedade não organizada deve ter meios de participar. Foi lamentável que os analfabetos não estivessem representados, assim como os habitantes da zona rural. A sistematização dos trabalhos também precisa evitar os milhares de erros da 1ª Confecom. Nos debates das conferências estaduais e na Conferência Nacional, a Abra enfatizou a necessidade de abandonar propostas mirabolantes, desconectadas da realidade. O que se pretende é que as propostas aprovadas sejam tornadas em ações concretas, leis e regulamentos. Para tanto, é preciso deixar de lado as proposições meramente programáticas ou de impossível implementação prática. A Abra acredita no debate e estará presente nas discussões em que o futuro das comunicações esteja em questão. GILBERTO MARINGONI

deral, assim como para os Executivos estaduais e municipais, quanto ao princípio de que não se pode toldar, confinar, tingir nem moldar a liberdade de expressão. Esse saldo deliberativo da Confecom, somado à sólida jurisprudência do Supremo Tribunal Federal são uma vitória da democracia. Além disso, propostas importantes para consolidar a cultura brasileira e produção brasileira de conteúdos foram aclamadas. A televisão aberta e o rádio são de enorme importância para o Brasil, na medida em que distribuem, gratuitamente, informação e entretenimento a cada brasileiro, de qualquer condição econômica, de qualquer recanto do país, com o que integram os brasileiros ao processo informacional, ao processo político, ao processo econômico, além de fortalecer a unidade nacional. O fortalecimento da radiodifusão se dá por diversos meios: a. a garantia de distribuição de conteúdos brasileiros nas plataformas pagas (cabo, satélite etc...), de modo que, em qualquer pacote de televisão paga, pelo menos metade dos canais sejam brasileiros e, desta metade, nenhum grupo econômico possa mandar em mais do que um quarto dos canais, essa democratização da distribuição foi aprovada pela plenária; b. a garantia de obtenção de investimento publicitário suficiente. Isso se dá pela não imposição de novas restrições ao investimento publicitário, pelo aperfeiçoamento do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamntação Publicitária) e da autorregulamentação do setor, o que foi acatado nos grupos de trabalho; c. a multiprogramação (possibilidade de irradiar mais de uma programação no mesmo canal de transmissão) nas plataformas digitais, como ferramenta futura para incrementar as receitas da radiodifusão aberta e para aumentar a oferta de plataformas de distribuição foi igualmente aclamada.

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SOCIEDADE CIVIL

Hora de organizar a luta para garantir resoluções Espera-se que a Confecom seja um primeiro passo no caminho da institucionalização de um modelo de participação popular na área da comunicação no Brasil por Bia Barbosa, Carolina Ribeiro, Cristina Charão, João Brant, Jonas Valente e Pedro Ekman do coletivo Intervozes

A Conferência Nacional de Comunicação abriu uma fenda no Estado brasileiro, inaugurando um debate realmente público sobre o tema. O processo envolveu diretamente de 20 a 30 mil pessoas e outras milhares de forma indireta, e seu conjunto de resoluções pode ser visto como um avanço diante da ausência histórica de uma regulamentação democrática dos meios de comunicação no país. Deste ponto de vista, a realização da I Confecom pode representar uma vitória para a luta daqueles que há décadas defendem a democratização da mídia brasileira. Justamente por isso, é tarefa urgente dos movimentos sociais e das organizações da sociedade civil criar uma agenda comum para a implementação dos seus resultados, cobrando do Estado, dos Poderes Executivo e Legislativo, a

garantia do direito à comunicação. Não será uma caminhada fácil, assim como não foi a caminhada para garantir que a Confecom acontecesse, diante das chantagens impostas pelo segmento empresarial ao longo do processo. Como instrumento de consulta democrática, a Confecom destoou bastante dos modelos adotados nas mais de cem conferências nacionais já realizadas no país. Entre os principais problemas estão o estabelecimento de uma proporção desequilibrada na representação dos segmentos – os empresários abocanharam 40% das vagas de delegados; o estabelecimento da regra de quórum qualificado para a votação dos chamados “temas sensíveis”; e a proibição de votação das propostas nas etapas estaduais, o que retirou parte do peso político dos

processos estaduais e deixou as verdadeiras disputas para a etapa nacional. As imposições dos empresários também impactaram o conjunto dos movimentos sociais, a ponto de constranger organizações a tomarem determinadas posições sob a suposta ameaça da Confecom não acontecer ou não contar com a participação empresarial. Diferentes entendimentos sobre a natureza da Conferência refletiram-se em visões diferentes sobre como conduzir a interlocução com o governo e os empresários. Prevaleceu a idéia da “Conferência possível”, realizada dentro dos limites dados pela pressão empresarial e governamental, o que significou, por vezes, ignorar uma parte importante dos setores mobilizados historicamente por sua realização.

divulgação

Durante quatro dias, quase duas mil propostas foram defendidas. No fim, 702 delas foram aprovadas

Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


sindjorce

Uma das votações finais. Em primeiro plano, a deputada Luiza Erundina (PSB-SP), da Comissão de Comunicação da Câmara. Governo, empresários e sociedade civil chegaram a vários consensos Debate público Apesar disso, a Confecom colocou o tema em debate público e aprovou resoluções importantes para a construção de novas bases para a comunicação no país. No debate programático, a partir de um esforço reconhecido de todos, foi possível construir importante pontes entre as formulações dos três segmentos, sem escamotear as divergências. E esta conquista deve ser celebrada. Por isso, é urgente criar uma agenda positiva em torno das suas resoluções, de forma a garantir que algumas sejam implementadas ainda em 2010 e outras sejam articuladas no Congresso, enfrentando, inclusive, o ataque dos setores empresariais que se retiraram do processo. Sobre este ponto, é importante lembrar que a relação com os setores empresariais que permaneceram mostrou que o debate público proporcionado pelas conferências nacionais e as resoluções que se transformam em Programas Nacionais não são o “monstro da censura”, como propagandeiam de forma absurda e orquestrada entidades como a Abert, a ANJ e a Aner, que se retiraram da Confecom. São, ao contrário, fundamentais para Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

apontar políticas públicas legitimadas por um diálogo possível e necessário, prática defendida pelos movimentos sociais que historicamente lutam pela liberdade de expressão. Agenda positiva Para esta agenda positiva, alguns eixos de resoluções aprovadas nos parecem prioritários e sua implementação deve se iniciar imediatamente: a regulamentação dos artigos constitucionais referentes à comunicação; as medidas relacionadas à revisão dos processos de concessões de rádio e TV; as que preveem o fortalecimento do sistema público de comunicação; as que estabelecem mecanismos de diversidade e pluralidade na mídia e as que visam a universalização do acesso à banda larga, incluindo a prestação deste serviço em regime público, o que exige tão somente a assinatura de um decreto presidencial. Tão importante quanto estes pontos é implantar o Conselho Nacional de Comunicação, como instância central para a formulação e o exercício do controle social das políticas de comunicação, além de

espaço de garantia da implantação das próprias resoluções da Confecom. Conselhos como este já funcionam em outros setores e em dezenas de países. Faltava ao Estado brasileiro reconhecer sua importância no desenvolvimento e implantação da política de comunicação do país. E esta foi mais uma vitória da Confecom. Outro desafio é consolidar o processo de mobilização da sociedade civil em saldo organizativo para o movimento de comunicação em todo o país. Neste sentido, não se pode ignorar a Comissão Nacional Pró-Conferência e as comissões estaduais, que reuniram centenas de organizações e movimentos sociais do Brasil e que seguem mobilizadas, como referências de articulação e diálogo sobre o tema. O processo de realização da I Confecom aponta que a construção política não pode prescindir das diferenças. A democracia consagra a legitimidade do dissenso. E é dentro destes parâmetros que se espera que a Confecom seja um primeiro passo no caminho da institucionalização de um modelo de participação popular na área da comunicação no Brasil.

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TV GAZETA O repórter-abelha (ou videorreporter), característico do TV Mix em frente à fachada da Gazeta.

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Uma história de futuro

anos

Há quatro décadas a TV Gazeta iniciava suas transmissões. A trajetória de pioneirismo e grandes momentos fizeram dela um símbolo da cidade de São Paulo Por Lucílio Correia

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gazeta press

Situada num dos pontos mais tradicionais da capital, a mais paulista das emissoras de TV completa 40 anos, em meio a vários projetos de renovação.

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Nascia assim uma tradição que unia pioneirismo ao trio jornalismo, esportes e variedades, que se tornaria a essência de sua grade, como destaca a superintendente de programação, Marinês Rodrigues. “Somos uma emissora pequena frente a outras do mercado e temos de basear nossa programação naquilo em que temos mais competência”. Ela conta que a emissora definiu uma linha editorial focada na produção de conteúdo de variedades, fortemente dirigida ao público feminino, mas sem deixar de lado o jornalismo e os esportes. Abertura de conteúdo Nos anos 1980 a Gazeta passou por uma fase de abertura ao conteúdo para criadores externos à emissora. Produtores independentes como Goulart de Andrade, com seu 23ª Hora e Fernando Meirelles, com o TV Mix, compunham a programação. Sua qualidade pode

Esporte no ar A tradição nos esportes está presente na programação desde os primeiros anos de transmissão. O pesquisador Elmo Francfort lembra que em 1971 a emissora foi líder de audiência, superando a TV Globo, durante a transmissão do mundial feminino de basquete. Na época, não era comum a cobertura televisiva de outras modalidades que não o futebol. Essa experência inovadora acentuou a vocação esportiva da emissora. “A Gazeta herdou essa tradição esportiva da Gazeta Esportiva, talvez o maior expoente dessa expressão seja a Corrida de São Silvestre”, lembra Elmo, referindo-se à corrida que é realizada na cidade no último dia do ano, transmitida pela Gazeta desde a criação da emissora. “A prova foi uma criação do próprio Cásper Líbero em 1925 e antes era exibida pela TV Tupi. Desde os anos 1980 é veiculada também pela TV Globo”, lembra.

Ronnie Von, convidado do programa Mulheres em desfile, em 1990

gazeta press

Ao longo desse tempo, as escadarias do número 900 da avenida Paulista tornaram-se uma espécie de monumento e ponto de referência na história da cidade. Desde 1978, quando a grande bandeira de São Paulo que adornava a fachada do Edifício Gazeta foi substituída pela inscrição em pedra da palavra Gazeta, os frequentadores acostumaram-se a referir-se à sede da Fundação Cásper Líbero pelo nome que identifica os veículos de comunicação instalados no local: as rádios Gazeta AM e FM, a GazetaEsportiva.net e a TV Gazeta. O aniversário de quarenta anos foi comemorado no último dia 25 de janeiro com uma programação especial que relembrou o pioneirismo da emissora e que incluiu o lançamento de um livro com sua história - Av Paulista 900: a história da TV Gazeta - escrito pelo pesquisador Elmo Francfort. A Gazeta, que transmite no canal 11 (VHF) de São Paulo, foi inaugurada em 1970, nas comemorações pelo aniversário de 416 anos da capital paulista. Com um parque de equipamentos avançado em relação às concorrentes, a TV desde o início pautou-se pelo pioneirismo e pela tradição esportiva herdada dos outros veículos da Fundação Casper Líbero, sobretudo a Gazeta Esportiva. Em 14 de março de 1972, a emissora veiculava o primeiro programa regular em cores na TV brasileira, o semanal Vida em Movimento, apresentado por Vida Alves. No dia 30 do mesmo mês ia ao ar (com retransmissão pela Rede Globo) o 1º Grande Premio Brasil de Fórmula 1, direto do autódromo de Interlagos. Com a experiência adquirida, a Gazeta colaborou na implantação da TV a cores na Argentina. Foi uma equipe da emissora que, em 1975, levou as imagens do primeiro Festival Internacional do Folclore para os telespectadores do país vizinho, através da TV Belgrano, de Buenos Aires.

ser avaliada pelo peso dos nomes que passaram pelas câmeras da emissora, como Fausto Silva, Sérgio Groissman, Astrid Fontenelle, Luís Nassif, Paulo Markun e Silvia Poppovic. Essa também foi uma fase marcada por problemas administrativos.

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imagens: gazeta press

A cineasta Aline Sassahara e o apresentador Serginho Groisman, em 1988

Ione e Claudete recebem Chitãozinho e Xororó em 1988 Condessa Giovana Chivetta em 1989 no

A Gazeta foi a pioneira na TV a cores no Brasil, em 1972, antes mesmo da Rede Globo A Gazeta ainda inovou com o primeiro programa de debate esportivo. Precursor do atual Mesa Redonda, o programa Futebol é com o Onze reunia onze personalidades para discutir futebol, sob o comando do apresentador Milton Peruzzi. “Imagine o clima de uma mesa de debate de futebol com onze pessoas, se hoje, com metade disso já é difícil”, diverte-se Elmo. Em 1985, entra no ar o dominical Mesa Redonda, atualmente apresentado por Flávio Prado. Para Francfort, “a Gazeta se tornou um canal especializado em esporte muito antes de a TV Bandeirantes se auto declarar o canal do esporte”.

Claudete e Ione recebem Chacrinha na festa do 1º aniversário da emissora

Novas atrações Os programas que tiveram longa vida na emissora não se limitam à área esportiva e nem são obras do acaso. Marinês Rodrigues ressalta a importância do planejamento antes de colocá-los no ar: “Fazemos isso para não lançar inúmeras atrações que daqui a três ou quatro meses nós tenhamos de cancelar porque não deram certo”, explica. A superintendente crê que o ideal é evitar o excesso de mudanças, muitas vezes comum nas outras emissoras comerciais. Uma atração retirada do ar nessas circunstâncias é um incômodo para o público e para os anunciantes. Exibido desde 1980, o Mulheres é o maior exemplo de longevidade na

casa. O programa começou, de fato, na década de 1970 com Clarice Amaral em Desfile. A apresentadora havia entrado como garota propaganda e acabou fazendo sucesso na TV ao vivo. Após sua saída, o programa foi rebatizado como Mulheres em Desfile, sob o comando de Ione Borges e de Ângela Rodrigues Alves. Ainda no primeiro ano, Ângela foi substituída por Claudete Troiano. As “parceirinhas”, como ficaram conhecidas, atualmente apresentam o Manhã Gazeta. Juntas, consagraram Mulheres, hoje comandado por Cátia Fonseca. Alta definição Marinês ainda avisa que a rede está às vésperas de uma nova fase: 2010 será marcado como o ano da TV em alta definição. Apesar de já transmitir em sinal digital high definition, a emissora aguarda agora a chegada de equipamentos que irão permitir a captação e edição dos programas já nesse formato. “Vai mudar a maneira de se produzir televisão. Estamos ansiosos para viver essa transição e a partir daí poder reavaliar nossa capacidade de produção de novos conteúdos”, explica. A superintendente ressalta ainda que, além de reforçar a programação atual, a emissora busca novos horizontes: “Mantendo sempre os pés no chão estaremos preparados para novos desafios”. Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


RESENHAS

reprodução / Arquivo pessoal

No front

de guerra

Coleção Jornalismo de Guerra reúne histórias de repórteres que ultrapassaram os limites da redação e foram para o campo de combate

Por André Sollitto Nações entram em guerra como uma extensão das rivalidades políticas, percebeu Carl Von Clausewitz (17801831) em seu célebre Da guerra. Para além das disputas entre países e classes sociais, os conflitos sempre trazem à tona os sentimentos extremos dos indivíduos em luta, do egoísmo mais atroz a manifestações de forte solidariedade. Vários comportamentos exacerbados são mostrados na coleção Jornalismo de guerra da Editora Objetiva. Com organização dos jornalistas Leão Serva e Sérgio Dávila, ela reúne coberturas realizadas por alguns dos mais importantes repórteres que se aventuraram pelos fronts de batalha nos séculos XX e XXI. Os brasileiros aparecem em dois momentos distintos. Na Segunda Guerra, Joel Silveira foi enviado pelos Diários Associados à Itália para acompanhar o dia-a-dia dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Antes de partir, recebeu uma intimação de Assis Chateaubriand, o proprietário do conglomerado: “O senhor vá, mas não me morra, seu Silveira! Repórter deve mandar notícias, e não morrer!”. Joel assim fez. Mandou relatos durante os nove meses em que esteve na Europa, entre 1944 e 1945. O inverno da guerra (2005, R$ 30,90) reúne 35 textos de sua cobertura. José Hamilton Ribeiro é outro brasileiro que figura na coleção. Enviado pela revista Realidade à guerra do Viet-

nã, ficou por lá durante quarenta dias. No último, a pedido do fotógrafo japonês Kêi Shimamoto, um freelancer que o acompanhava, foi cobrir uma última pauta. No caminho, pisou em uma mina terrestre e perdeu parte da perna esquerda. O gosto da guerra (2005, R$ 29,90), relato de sua passagem pelo Vietnã, foi, durante muito tempo, um item de colecionador procurado em sebos por jornalistas. O livro é uma verdadeira aula de jornalismo, com um texto preciso e veloz. A coleção ainda tem outras preciosidades. A face da guerra (2009, R$ 45,90), de Martha Gellhorn, é uma delas. A jornalista americana, esposa de Ernest Hemingway entre 1940 e 1946, cobriu vários conflitos – desde a Guerra Civil Espanhola até a invasão do Panamá, passando pela Segunda Guerra Mundial, pela Guerra dos Seis Dias e por conflitos na China, em Java e na América do Sul. O livro reúne 34 reportagens que mostram a sensibilidade de Martha. Sua preocupação com as pessoas tragadas pelo caos pode ser sentida em cada página. É um olhar diferenciado sobre períodos tensos da história mundial. Um escritor na guerra (2008, R$ 52,84), do russo Vasily Grossman, é mais um livro que merece ser conferido. Depois de ter sido rejeitado pelo serviço militar russo em 1941, o autor de Vida e destino passou os três anos

seguintes acompanhando o temido Exército Vermelho. Registrando os fatos em cadernos que serviram de base para suas matérias, Grossman acompanhou a marcha dos soldados que mudaram o curso da Segunda Guerra. Completam a coleção os títulos A queda de Bagdá (2004, R$ 44,90) de Jon Lee Anderson (o qual expõe a vida devastada de pessoas comuns no Iraque após a invasão americana), Despachos do front (2005 –R$ 39,90), de Michael Herr (relato feito para a revista Esquire sobre a Guerra do Vietnã, que mostra o conflito em seu contexto de revolução cultural nos EUA, com a disseminação no uso de drogas, do amor livre e do ativismo político) e Diários de Guadalcanal (2005 - R$ 44,90), de Richard Tregaskis (uma cobertura pioneira sobre o front no Pacífico que mostra os jovens soldados americanos enviados para enfrentar os japoneses). Com exceção de alguns deslizes na revisão dos textos, as edições são bonitas e caprichadas. São exemplos de jornalismo de primeira qualidade para qualquer aspirante à repórter. Coleção Jornalismo de Guerra Sergio Dávila e Leão Serva (org.) Editora Objetiva, RJ 2004-2009

Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


Óperas, concertos e sinfonias na Rádio Gazeta de São Paulo Irineu Guerrini analisa a trajetória da Rádio Gazeta entre as décadas de 1940 e 1960 Por Ayana Trad música dos mestres, Teatro de opereta, A sala e o Concurso de piano Schwartzman  – criando uma visão geral do funcionamento da emissora. O autor explica que, apesar da maioria dos programas ser voltada para o clássico, músicas de cunho popular eram tocadas. A Rádio Gazeta era identificada como “emissora de elite”. O autor frisa que era “de elite” e não “da elite”. Deste modo, a audiência não era formada por uma classe socioeconômica elevada e sim, por um segmento apreciador de cultura erudita. A chegada da televisão colaborou para o fim do modelo de programações ao vivo. A emissora passou a transmitir somente músicas gravadas, modelo que até hoje prevalece. Por fim, Guerrini compara a Gazeta com as rádios Eldorado, de São Paulo e com as fluminenses Jornal do Brasil e Opus 90.

reprodução

O livro do professor da Faculdade Cásper Líbero Irineu Guerrini Jr., A Elite no Ar – óperas, concertos e sinfonias na Rádio Gazeta de São Paulo, recupera e analisa a trajetória da emissora entre 1943 e 1960. Em doze capítulos, o autor descreve o funcionamento da rádio, fala sobre seu público alvo e explica como uma emissora de programação predominantemente erudita conseguiu ter a terceira maior audiência da grande São Paulo. A obra começa com a história da transição da Rádio Educadora para a Rádio Gazeta. A análise é enriquecida pelos comentários de Mário de Andrade e pela exposição das atividades de Cásper Líbero, fundador da Gazeta, entre outros personagens. Guerrini traz exemplos de como seria uma semana típica na rádio e explica os principais programas – Cortina lírica, Grande soirée de gala, A

A elite no ar Irineu Guerrini Jr. Terceira margem Editora 2009

Vide bula Coleção ensina o caminho das pedras para as técnicas do jornalismo

reprodução

Por Gilberto Maringoni

Colçeção Introdução ao jornalismo Magaly Prado (org.) Editora Saraiva - 4 volumes Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1

Parem as rotativas! A jornalista e professora da Cásper Líbero Magaly Prado está organizando um eficiente curso de jornalismo, com auxílio de profissionais de primeira. Os quatro livros iniciais da coleção Introdução ao jornalismo exibem o rigor de uma boa cobertura com o texto fluente de uma reportagem emocionante. Todos têm um ponto em comum: são trabalhos voltados para a atividade prática. Luiz Caversan, veterano da imprensa paulista, por exemplo, disseca o trabalho cotidiano de uma redação de jornal diário, desde a estrutura da redação, até a função de cada profissional. Lastreado em sua longa trajetória, Caversan conta saborosos aspectos do pique incessante para se colocar um jornal na rua. Já Patrícia Ceolin do Nascimento

volta-se para sua especialidade: limpar e trabalhar o texto, marcando a especificidade do fazer jornalístico em relação a outras modalidades de escrita. O trabalho de apuração, de relacionamento com fontes, a dinâmica de uma entrevista, o trabalho do correspondente e a seleção do que é essencial na produção de informações é detalhado no volume de Cleide Floresta e Ligia Braslauskas. Finalmente, Celso Unzelte mostra as artes e partes do jornalismo esportivo ao relatar sua própria experiência de vinte anos no setor. No fundo, o que vale são sempre as expectaivas de “um garoto que amava seu time e seus ídolos”. A coleção não ficará apenas nesses volumes iniciais. Em breve, devem sair Teorias da comunicação, Fotojornalismo, Jornalismo econômico e Como fazer títulos.

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ROTEIRO

LIVROS Teoria da Comunicação – idéias, conceitos e métodos Luís Mauro Sá Martino, 288 pág., Vozes, 2009, R$ 41,80 A obra é um panorama das principais vertentes da teoria da comunicação. É dividida nas seções: a produção da comunicação, do texto ao contexto, estudos de recepção e moderno/pós-moderno. O livro discorre sobre os modelos históricos da pesquisa saxônica, apresenta as principais visões da escola de Frankfurt e passa pelos pensadores marxistas. O trabalho se referencia na teoria da dissonância cognitiva e discute a relação entre a comunicação e a linguagem. Administração em publicidade: a verdadeira alma do negócio reprodução

Fotojornalismo: uma viagem do analógico ao digital Erivam de Oliveira e Ariovaldo Vicentini, 208 pág., Cengage Learning, 2010, R$ 49,90 Escrito pelos fotógrafos Arivaldo Vicentini, professor da Cásper Líbero, e Erivam de Oliveira, que também lecionou na instituição, a obra descreve a história do fotojornalismo, da invenção da máquina analógica até as novas tecnologias aplicadas ao gênero. São examinados os principais equipamentos, as manipulações fotográficas e os direitos autorais de imagem.

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Turbine o seu negócio: propaganda para a pequena empresa

Marcela Lupetti, 232 pág., Thomson Learning, 2ª edição, 2010, R$ 49,90 O livro descreve o universo de uma agência de comunicação, da concepção de uma marca até a realização de um plano de negócios. O texto trata da estrutura, da organização e da prestação de serviços aos anunciantes, além de explicitar os tipos de meios e de fornecedores, as verbas de comunicação e a busca do lucro.

Celso Figueiredo, 144 pág., Cengage, 2010, R$ 20,90 O livro é destinado à pequenas empresas que desejem crescer com o auxílio da propaganda. Apoiado pelos conceitos básicos de marketing e de mídia, o foco da obra é esclarecer e ensinar como o sistema de comunicação funciona e procedimentos para conquistar e convencer clientes.

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Relações Públicas e Marketing: convergências entre Comunicação e Administração Manoel Marcondes Machado Neto, 344 pág., Conceito Editorial, 2008, R$ 42 O trabalho analisa a comunicação organizacional no Brasil da década de 1990 até os dias atuais. O autor fornece uma visão integrada da disseminação de informações para diversos cursos universitários, iniciando na comunicação interna chegando até a otimização da publicidade comercial.

Relações públicas: teoria, contexto e relacionamentos Maria Aparecida Ferrari, 272 pág., Difusão Editora, 2009, R$ 54,00 Destinado a professores, estudantes e profissionais da área, o livro difunde a aplicação das teorias de relações públicas nas organizações contemporâneas e explicar como estas podem ser utilizadas de maneira estratégica na interatividade com seus públicos de interesse.

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FILMES

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O Comerciante (Commercial Man, 2001)

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O quarto poder (Mad City, 1997) Costa Gravas - Arnold Kopelson Productions/Punch Productions - Warner Bros História de Max Brackett, repórter de televisão incumbido de fazer uma cobertura sobre a falta de pagamento dos empregados do Museu de História Natural. Em meio ao trabalho, ele testemunha um ex-funcionário armado invadir o lugar para tentar recuperar o emprego. Na sequência, várias pessoas tornam-se reféns do rapaz. Brackett vê na situação a chance de fazer uma reportagem exclusiva e incentiva a ação. O filme discute o poder da mídia sobre a opinião pública.

Lars Kraum - Deutsche Columbia TriStar Filmproduktion/VVF - Sony Pictures Comédia sobre a integridade ou a falta da mesma no universo da Publicidade e Propaganda. Viktor Vogel vai procurar emprego em uma agência publicitária e acaba entrando em uma reunião na qual o cliente gosta de seus palpites e o encarrega de desenvolver uma idéia para a propaganda de um carro da Opel. No entanto, a idéia apresentada pelo protagonista foi inicialmente desenvolvida por sua nova namorada, Rosa, para uma exposição artística que mudaria a carreira dela. Entre discussões com o diretor de arte e com a amada, Vogel tem de escolher entre ganhar dinheiro ou preservar o caráter.

Obrigado por fumar (Lions for lumbs, 2006) Jason Reitman/Fox Filmes Comédia sobre o poder da argumentação. Nick Naylor (Aaron Eckhart) é porta voz de uma fábrica de cigarros e seu papel é convencer a sociedade dos benefícios de fumar. Paralelamente, ele tenta ser um bom modelo para seu filho. O filme também aborda questões polêmicas como o papel da propaganda, a produção de bebida e o porte de armas.

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Comunique-se (www.comuniquese.com.br)

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Portal voltado para profissionais de comunicação que noticia inovações no mercado e promove reflexões sobre a mídia. O registro é gratuito e o usuário pode consultar o banco de empregos. O site também disponibiliza ferramentas para a otimização do trabalho de assessorias.

Luís Nassif, um dos mais conhecidos jornalistas brasileiros, edita uma página interativa com auxílio de centenas de leitores. Diariamente são postadas informações econômicas, políticas, além de comentários sobre mídia, música e artes em geral.

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Blog do Nassif (www.luisnassif.com.br)

Observatório da Imprensa (observatoriodaimprensa.com.br) Entidade civil que acompanha a atuação da mídia brasileira. Organizado pelo Labjor (Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp), é um fórum permanente para usuários participarem ativamente do processo de cidadania no campo midiático.

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CRÔNICA

Sobre a desinformação do excesso de informação Por Carlos Costa Produzido praticamente no último ano antes que a internet se tornasse acessível ao grande público, o filme Denise Está Chamando, de 1995, ficou datado. Dirigido por Hal Salwen, apresenta um grupo de “amigos” que se relaciona por telefone. O filme começa com a decepção de um dos personagens, que preparara uma festa a que nenhum dos convidados compareceu. Depois, todos se justificam por telefone. Há, ao longo dos 80 minutos da película, uma série de encontros marcados a que ninguém vai, pois as relações se dão no mundo pré-virtual das conversas telefônicas. A Denise, que dá o nome ao filme, fez inseminação artificial por meio de um banco de sêmen – e consegue descobrir quem é o pai do bebê. A conexão da personagem título com o restante do grupo se dá por intermédio desse fornecedor de espermatozóides. Até o parto dela é acompanhando, via telefone, por todos, que dão “a maior força”. Cercados de fax e telefones, diz o release do filme, eles se relacionam apenas por meio de aparatos eletrônicos e a desculpa para não se encontrar é sempre a mesma: excesso de trabalho.

Ninguém mais folheia revistas ou preenche palavras cruzadas. Todos falam ao celular, anotam dados no computador ou chateiam. De algum modo, lembra a cantora Ivete Sangalo, quinze anos depois, alertando no twitter a partida para a maternidade... “Crianças, agora vou parar de twitar porque acho que chegou a hora de ter meu baby. Obrigada pelo carinho de todos. Um bju enorme”, postou a melhor amiga da Xuxa. O pesquisador argentino Daniel Ivoskus, em seu livro Vivir Conectados, aborda esse tema da vida vicária que hoje vivem os “viciados em internet”. Segundo ele, possuir um iPhone ou seu congênere o Blackberry representa adicionar duas horas diárias às rotinas de trabalho. Basta circular pela Avenida Paulista ou observar as salas de espera de aeroportos: ninguém mais folheia revistas ou preenche palavras cruzadas. Todos falam ao celular, anotam dados no com-

putador ou chateiam. Recentemente, a revista Veja publicou (24 de março) reportagem sobre os viciados em blogs e sites de relacionamento, com um teste para medir se “você tem uma relação saudável com a web?” Esta edição inaugural da revista Cásper traz como tema de capa os custos de viver antenado hoje. Um tema atual. Há sete anos, o falecido Gilberto Dupas, que presidia o Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais e coordenava o Grupo de Conjuntura Internacional da USP, citou, em entrevista à revista Diálogos&Debates, pesquisa que mostrava que “a dona de casa de classe média de São Paulo, que dispunha de R$ 530 por mês para despesas de alimentação em supermercados, gasta hoje R$ 430 para poder pagar o celular dela e das crianças. Está comendo menos para ter o celular”. Ivoskus discorre sobre a verdadeira síndrome de “crackberry” que ataca os “antenados”: supõem ouvir um celular que não tocou, chegam em casa e imediatamente ligam o computador para checar mensagens de e-mail, numa corrida contra o tempo para estar informados. Ivoskus conta que o editor da revista Forbes, Dennis Kneale, perdeu um desafio proposto pela rede de TV NBC: o repto era ficar 168 horas (uma semana) sem acesso às ferramentas digitais. Kneale não conseguiu ultrapassar a marca das 48 horas, implorando para falar com a filha pelo celular. Em seu livro Ansiedade da Informação, Richard Saul Wurman escreve que “Uma edição do The New York Times em um dia da semana contém mais informação do que o comum dos mortais poderia receber durante toda a vida na Inglaterra do século XVII...” Em outro trecho, ele diz: “Quando eu era criança, em Filadélfia, meu pai me disse que eu não precisava decorar a Enciclopédia Britânica; só precisava saber como encontrar o que ela contém...” Uma bela lição. Informação demais é desinformação. Como diz outra argentina, Beatriz Sarlo, “Sabemos de tudo e, ao mesmo tempo, não sabemos o que precisamos saber”. Fica a proposta para uma boa reflexão – de preferência longe dos gadgets eletrônicos. Carlos Costa é coordenador do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, e doutor em Ciências da Comunicação pela ECA-USP Revista Cásper – Junho de 2010 – Nº 1


Revista Cásper #1  

Primeira edição da Revista Cásper, publicada pela Faculdade Cásper Líbero