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editorial

N

as últimas semanas acompanhamos a descoberta de laços mais do que profissionais entre as revistas Veja e Época, publicações semanais de grande circulação no país, e um contraventor de Brasília. Contraventor esse que já estava sendo investigado por suas ligações com um autoproclamado justiceiro do Senado. Esse episódio, de alguma forma, explicita a influência que a mídia podeter. Por que outro motivo Cachoeira se daria ao trabalho de pautá-las, escolher matérias de capa e entrevistas? A grande mídia - assistida, ouvida e lida por milhões de brasileiros todos os dias - tem seu poder. Um poder não legitimado, mas legitimador, baseado na confiança de quem a procura. E deve honrar esse compromisso. Jornalistas devem sempre se lembrar, ou melhor ainda, serem lembrados, de que fazem um serviço essencial para a sociedade. O jornalismo é muita coisa, mas é principalmente informação. Informação que deve vir e voltar da sociedade, estar a serviço de seu público, e não do ego de poucos. Na comunicação, é fundamental imaginar seu possível público. E imaginálo como uma massa que não critica nem discerne o que lhe chega como informação não é só errado, é idiota.

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Cada cabeça tem sua torre. É desta forma que o Bastião existe e resiste: do mundo das ideias às ruas. O traço é de Paulo H. Lange, nosso usual mestre da contracapa. grandemerecedor.tumblr.com

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torre à vista! Redação André Lacasi, Arthur Viana, Carlos Machado, Cíntia Warmling, Douglas Freitas, Gabriel Hoewell, Gilberto Sena e Luiza Müller Projeto gráfico e editoração Ana Elizabeth Soares e Ramiro Simch | Revisão Lisiane Danieli Capa Lucas Monteiro | Arte André Lacasi, Dante Roman, João Filipe Padilha, Lucas Monteiro, Paulo H. Lange e Ramiro Simch Relacionamento Ana Paula Neri e Samantha Diefenthaeler | Fotografia André Lacasi e Maurício Pflug Colaboradores Gabriel Simch e Thiago Lacerda Web www.bastiao.net | www.twitter.com/revista_bastiao | www.facebook.com/revistabastiao Tiragem Mil e quinhentos exemplares Praça Júlio de Castilhos, 74/152 - Porto Alegre - RS - Brasil | (51) 3311.1025 | Maio de 2012


veja bem

“LET IT BAILE”

A antropofágica, tropicalista e anárquica música de João Brasil

E

m frente ao agitado Club 688, Centro de Porto Alegre, um rapaz já meio bêbado pergunta ao segurança: “O que toca aí hoje?”. “É pop, eletro”, responde convicto. “Hoje? Hoje é indie”, contradiz o outro segurança. Ninguém sabia responder, na verdade. Mas, ainda que soubessem que, em breve, João Brasil assumiria a picape, as respostas seriam as mesmas, ambas estariam corretas e a dúvida persistiria, tamanha a mistura sonora que logo ecoaria pelas pistas. O djidjêi da noite chega pela porta da frente trazendo às costas uma mochila com seu equipamento – não é nenhuma estrela, flutua entre o underground e o mainstream. De fato, João Brasil parece não gostar de distinções como essas. Carioca, como o próprio sotaque denuncia, mistura o funk de suas favelas com o mais clássico do rock. E tudo soa bem para todos. Os mashups de João Brasil tomaram o mundo provocando a anarquia nas pistas europeias e quebrando as conservadoras paredes entre a cultura de massa e a de elite. A inspiração para isso vem das antropofágicas misturas do Tropicalismo e até de Hermeto Pascoal. João é formado em Publicidade e estudou produção de música eletrônica na Berklee Music College. Em 2007, lançou canções como Baranga e, tempo depois, Cobrinha Fanfarrona. Entretanto, foi promovendo o caos com os mashups iniciados na mixtape Big Forbidden Dance, que se destacou. Depois disso, promoveu o caos em sua própria cabeça: arriscou-se a fazer – e fez – um mashup por dia. A efervescente mente de João Brasil se abriu para o Bastião naquela madrugada e o resultado é o que se segue.

Tu acha que essa mistura entra bem na pista de dança, mas pode se difundir para fora dela? Claro, com certeza. Você tem, por exemplo, música eletrônica para o cara ficar ali viajando e tal – que é uma forma de diversão também. Diversão você muitas vezes associa a pular, né? Mas às vezes divertir é estar em transe, sentado, tendo uma experiência sensorial. Então acho que pode qualquer coisa. Essa ideia é difícil de ser aceita por muitos. Tu teve um reconhecimento grande fora do Brasil. Tu percebe uma diferença grande na recepção entre aqui e lá fora? Cara, acho que isso rola em todos os cantos. A cena indie, por exemplo, é sempre a cena indie, sendo no Brasil ou lá fora. Os movimentos se protegem, eles têm um espaço, mas acho que aos poucos vai existindo esse espaço da mistura. Qual a diferença entre tocar aqui e lá? Lá fora é igual, óbvio que você tem que trocar alguns elementos para se comunicar melhor com a galera de lá. Então tem coisas que faço aqui

que a língua portuguesa faz com que as pessoas compreendam o que tu tá fazendo. Então, lá, às vezes, não faz sentido. Mas a batida sendo funk – mesmo às vezes o vocal de funk junto com pop internacional, com Beatles – eles entendem, cara. Porque o funk é muito a origem, o tambor, a África. A recepção é muito boa, é transcendental. Por que tu acha que deu tão certo na Europa? É uma tendência, como aconteceu com a Cansei de Ser Sexy? Cara, eu acho que para acontecer lá, você cantar em inglês facilita, você já tá se comunicando com outras pessoas que estão entendendo o que você quer dizer. Acho que a Cansei fez mais ou menos o que estava sendo feito, mas de uma

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Bastião - Uma das coisas mais legais do teu trabalho é a mistura de cultura de massa e de elite. Como tu vê essa divisão, se é que ela existe? João Brasil - Eu tento justamente quebrar essas divisões todas, saca? Botar o indie para dançar

com o cara que gosta de axé, misturar tudo. Porque música nenhuma é melhor que outra em estilo, você tem às vezes um funk que é melhor que um jazz, ou um jazz que é melhor que um rock. Você tem coisas boas e ruins em todos os estilos, então é besteira você falar que não pode misturar. Eu acho que tem que ser aberto, a pista de dança é um lugar para se divertir.

André Lacasi

entrevista André Lacasi, Dante Roman e Gabriel Rizzo Hoewell


veja bem forma muito mais legal, divertida, um show quebração. Eles têm esse mérito, são uma puta banda. Acho que eles ganharam porque cantam em inglês e porque o show deles é bom pra caralho. E por que tu ganhou? Cara, não sei nem se ganhei, sacou? Mas estou tentando, em busca, sempre desafiando. Acho que pego pelo ritmo, pela batida e pela audácia de botar pop para o público que não é de pop, e indie para quem não é de indie. Acho que isso causa uma anarquia em qualquer lugar, no Brasil, lá fora. Misturar Beatles com funk é um negócio meio antropofágico. Quando tu produziu tu tinha isso como inspiração? Total, tem inspiração do movimento Tropicalista. Tem tudo isso que traz essa liberdade. A gente vive num mundo “vamo-misturar-o-que-a-gente-conseguir”. E o negócio dos Beatles com funk foi porque eu estava no meio do projeto dos 365 mashups, fazendo diariamente. Já não estava nem pensando, estava em transe, fazendo todo dia qualquer coisa, sabe? Aqui, ali, aqui, ali, até que veio os Beatles e veio o funk. Depois que eu fiz o primeiro é que eu realizei o que tinha feito. Logo depois que fazia tinha que criar outro para dar sequência no disco. Quando acabei é que veio o raciocínio: “Cara, isso dá pra fazer uma coerência, isso tem uma importância.” Como tu acha essa coerência, como percebe o que dá pra misturar? Cara, experimentação e audácia, eu acho. Você pensa em misturar e acha que isso não vai dar certo. Aí você tenta uma vez e “ih, não rolou...”. Você vai tentando, tentando, tentando, até chegar ao ponto.

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Esse teu projeto 365 mashups, um por dia... Como foi trabalhar sob pressão? Cara, foi um dos maiores trabalhos da minha vida, em termos de ser trabalhoso. Foi diário, não descansava, era todo o dia com aquilo na cabeça. É como te disse, você vai entrando no meio de um transe, então não tem aquele senso de organização, de fazer cinco em um dia para

descansar cinco dias. Então era sábado, domingo, segunda, terça, todo dia. Tem uma música tua que se chama Baile Parangolé [que mistura Daniela Mercury, Luiz Caldas, Ratos de Porão, Caetano Veloso e mais todo o Brasil em um baile funk]. Esse conceito (Parangolé) é do Hélio Oiticica, uma ideia de antiarte... É de todo o movimento Tropicalista. É! Total... Naquela época tinha acabado de ler o livro do Caetano [Veloso], Verdade Tropical, e eu estava com aquele negócio do movimento Tropicalista forte na cabeça. Aí pensei que precisava fazer algo nessa linha. Então, onde posso expandir ao máximo, sabe?

“A gente vive num mundo ‘vamo-misturaro-que-a-gente-conseguir” Tu acha que teu projeto é antiarte? Acho que mais que antiarte, é terrorismo poético. Acho que é mais que isso. Não é anti nada. Uma amiga me disse que eu era terrorista poético. Eu gostei. Eu gosto dessa anarquia, de misturar as coisas, de ter diferentes pessoas, umas gostando e outras estranhando. Umas dançando enlouquecidas e outro olhando a pessoa enlouquecida e se desorientando. É o que eu gosto, e ao mesmo tempo tento unir dessa maneira. Tu citou o movimento Tropicalista. Essas bandas, como Holger, Uó e, agora, a Gaby Amarantos... Tu acha que isso é um movimento? Cara, acho que mais que um movimento, acho que... É que não vejo isso como uma coisa organizada, de “gente, vamos montar uma coisa!”. Não tem esse pensamento organizado, mas é, naturalmente, a necessidade de pessoas que estão expostas a esse tipo de som de se expressar. É o que vem na cabeça. A Gaby é de Belém, aquilo é dela. A Uó é de Goiânia, mas gostam do brega. O brega é muito forte, acho que acima de ser

techno, o brega é o que liga essas coisas todas. O brega é forte e sempre foi, só acho que ele não teve o respeito que sempre mereceu. De artistas de carreira longa, desde Waldick Soriano, sabe? Tem toda essa galera, é um movimento que sempre esteve ali. Há algumas gerações já se flertava com o brega. São formas diferentes, mas acho que tudo faz parte de uma coisa só. Acho que é a necessidade, você ouve, é exposto aquilo, então você devolve. Tu acha que ainda tem o preconceito com o brega, assim como com o funk? Acho que sempre vai existir, cara. Mas eles [o brega e o funk] são grandes, eles existem, saca? Às vezes tem gente que vai ficar chateada, “pô, a gente não tem o lugar que precisa na mídia”, mas eles nem precisam, são maiores que isso. A mídia é só um jeito de reportar uma coisa grande que existe, e eles são enormes. Por que tu acha que esses movimentos rotulados como de periferia, como funk e tecnobrega, têm ganhado tanto espaço? Eu acho que pela tecnologia. Eles são sons que usam a tecnologia pra se expressar. Não é uma coisa nova, porque a gente tinha essa ferramenta um tempo atrás, mas você começa a ver diferentes coisas surgindo, que realmente não existiam. Quer dizer, existiam, mas de forma diferente. O funk foi se modificando. A batida, a célula-mãe do funk é o tamborzão, depois vira o tamborzinho. Só que aquilo está sempre em mutação, então é um fenômeno legal de se estudar, porque a gente está vivenciando um progresso do nosso lado, e isso cativa. Isso cresceu com a internet, assim como tu. Como tu vê a disponibilização de musicas grátis, esse novo mercado? Cara, é o que existe. Não sei se é a solução, mas acho que a gente não pode negar nosso environment, o que está do nosso lado. É isso que existe, as pessoas dão de graça, a troca é outra. Acho que a gente está virando muitas pequenas subcategorias que um dia vai se unir e vai virar só um

Jornalismo Travessia

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grande organismo, de tão segmentado. Agora eu viajei... (gargalhada) Os mashups se proliferaram no Brasil. Por que tu acha que deu tão certo aqui? No Brasil dá certo porque a gente já tem essa cabeça de mistura, a gente é um povo misturadaço, está no DNA. O povo é aberto e engraçado, a galera se diverte, sabe? E eu acho que é uma expressão, cara. O mashup é alegria, mistura todo mundo, tem hétero, tem gay, tem negro, tem branco, todo mundo se diverte. Não tem diferença de raça, de opção, de nada. Então isso cria uma liberdade, uma alegria, que é demais. As festas grandes que têm no mundo todo você vê que a galera é a favor da mistura. É muito legal.

Essa tua formação musical influencia como? Influencia demais, porque eu aprendi tudo sobre software, sampler, tudo na faculdade, então é uma ferramenta que uso diariamente. E também no jeito de raciocinar. Você chega também sem a Academia, cara. Eu sou a favor dela, porque é um shortcut [atalho], sacou? Às vezes você iria gastar muito mais tempo batendo cabeça em prego, então a Academia faz isso, te dá o caminho mais curto. Tu disse uma vez que o Hermeto Pascoal te influencia. Como? Demais, cara. Eu sou fã do experimentalismo dele, sabe? Ele fez o calendário do som, que compôs uma musica por dia durante um ano. Então ele é uma influência muito forte. Sou louco pela música dele, já fui em vários shows.

André Lacasi e Dante Roman

O mashup também é composição? É uma forma de se compor, é colagem. Colagem sonora é uma forma de compor. Eu estudei composição e em uma das aulas eu tinha que fazer colagem sonora, então isso, academicamente, é considerado composição.

Tu te considera um ícone do underground? Não me considero, não (risos). Mas, cara, minha cabeça, minha formação é toda do underground, saca? E é natural o underground virar mainstream depois de certo tempo, porque precisa vir outro underground. Senão, não tem graça. Então agora tem moleque no quarto fazendo coisa que a gente não imagina.

quinta página

Pelo teu trabalho se vê que tu é bastante eclético. Tem alguma coisa que não rola? Cara, gosto de tudo. De repente, canto gregoriano, não. Não tenho muita paciência, nem gaita de fole. Concerto de gaita de fole não rola.


especial

Despertando para a vida texto e reportagem Carlos Machado e Gilberto Sena

“Quero ter uma vida normal. Fazer o que os outros fazem: estudar,

trabalhar.

Quero

ter renda para não ficar dependendo apenas do meu pai e da minha mãe.” Com este

e Flert

tuno ante opor vibr a m l M N’a o razã a r r a e u se tont o me d n A es a empl Cont ira Pere e n ueli Jacq

desabafo, Marta revela as

to omen

dificuldades que enfrenta para ser considerada uma pessoa normal. Portadora de

uma doença psíquica incurável – a

esquizofrenia –, ela quer ser reconhecida pela sociedade como cidadã que é. Assim como Marta, aproximadamente outros 2 milhões de brasileiros sofrem com essa doença que causa delírios e alucinações. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que 1% da população sofre desse mal. Segundo o psiquiatra Paulo Abreu, os esquizofrênicos têm a sensação de estar sendo vigiados. “Eles acreditam que há chips e microfones escondidos, que tem agentes os seguindo, que as buzinas dos carros são combinações de código para deixá-los loucos”, explica. A doença, que geralmente começa no homem por volta dos 18 anos, e na mulher dos 25, já foi retratada no cinema em duas grandes produções hollywoodianas: Cisne Negro e Uma mente brilhante. Na vida real, essas pessoas são tachadas por loucas, drogadas e deficientes, mas o que querem, na verdade, é acordar deste longo sonho.


A

té os 18 anos, Marta Schneider era uma jovem sem problemas de saúde. Namorava, ia às festas, participava do grupo de jovens da comunidade e tinha muitos amigos. Alegre e simpática, ela viu seu mundo ruir quando coisas estranhas começaram a entrar em sua mente, deixando-a perturbada e sem rumo. Hoje, com 37 anos, Marta foi deixada para trás pelos amigos das festas da juventude. Convivendo com a doença há 19 anos, ela já foi hospitalizada quatro vezes por surtos psicóticos. Na última internação, em 2009, a família não foi avisada pela clínica particular de que não havia leitos disponíveis e Marta ficou em um colchão no corredor da clínica durante dias até conseguir um leito. Nessa crise, a mais grave, Marta tentou suicídio. Ela não aguentava mais viver com o problema crônico. Hoje, tratando a doença, ela percebe que cometeu um erro em tentar tirar sua vida: “Agradeço a minha mãe, que se ela não estivesse em casa, eu não estaria viva.” Milhares de pessoas sofrem com esse transtorno mental crônico em todo o mundo. De acordo com a OMS, cerca de 14 mil pessoas sofrem de esquizofrenia apenas em Porto Alegre. No mundo, são 70 milhões de pessoas, mais que a população da França ou da Inglaterra.

O cérebro entra em colapso De acordo com o médico Paulo Abreu, chefe do serviço de psiquiatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, a doença quebra a capacidade do cérebro de balancear o funcionamento das diferentes áreas do sistema nervoso. O cérebro é dividido em conexões/circuitos que regulam as funções de humor e de raciocínio, por exemplo. “O cérebro normal é como se fosse um circuito de computador. Se falha uma área, o próprio sistema ativa outra”, explica o médico. O cérebro do paciente que tem esquizofrenia não consegue fazer esse contrabalanço das informações. Ele perde a capacidade de compensar e entra em colapso. “A pessoa perde a capacidade de raciocinar e de testar a realidade, confunde coisas, se atrapalha, parece que está num está-

gio de sonho, porque ela vê coisas fantásticas”, diz o psiquiatra. Outro problema é que os pacientes que sofrem com a doença acreditam que os seus pensamentos estão sendo captados por outras pessoas e objetos. “O paciente acha que o pensamento dele está sendo captado por ondas de rádio, que algo de fora entra na mente. Imagina que os ruídos dos automóveis e que os locutores de televisão estão mandando mensagens para a vida pessoal dele”, complementa Paulo Abreu.

“O que eu preciso é aceitar o tratamento e o apoio da minha família” Foi dessa forma que Leonardo Coelho Cruz, hoje com 45 anos, conheceu a doença. Quando os primeiros sintomas começaram, aos 22 anos, Leonardo trabalhava na empresa que sempre havia almejado: a VARIG. Formado como técnico em Eletrônica, ele fazia a instalação de equipamentos eletrônicos em aviões. Os problemas começaram com o baixo rendimento no trabalho. Ele não conseguia ficar acordado e adormecia durante o expediente. Começou a ouvir vozes, ter visões de pessoas que não conhecia. “Eu chorava. Não entendia porque isso estava acontecendo comigo. Não sabia qual era o problema”, recorda Leonardo. Foram quatro internações hospitalares. Em uma delas, ficou um ano fazendo testes com vários tipos de medicamentos. Junto com a doença, o vício do cigarro também se tornou mais compulsivo: “Chegava a fumar 20 carteiras de cigarro por semana.” Passados 23 anos do problema, Leonardo aprendeu a conviver com a doença. Amparado pela família, que sempre o deu apoio, ele diz que aprendeu a administrar a sua vida. “Graças a minha mãe e a minha família, me sinto uma pessoa feliz dentro da minha possibilidade.”

O apoio da família Nos relatos de Leonardo e de Marta é possível

perceber a importância da família para o enfrentamento da esquizofrenia. Ambos frequentam semanalmente a AGAFAPE – Associação Gaúcha de Familiares de Pacientes Esquizofrênicos. A entidade surgiu da necessidade dos familiares de unirem esforços para o trabalho voltado à saúde mental e à melhoria da qualidade de vida daqueles que convivem com a doença. Marília Coelho Cruz é mãe de Leonardo e vice-presidente da Associação. Juntamente com o filho, ela frequenta a AGAFAPE há doze anos em busca de conforto para ele e para os demais pacientes que frequentam o local. Marília relembra que, no início do problema do filho, ela e o marido ficavam tristes, pois não sabiam como ajudar e se perguntavam o porquê de terem a doença na família. Passadas duas décadas, a família comemora a união. “Se a gente chegou até aqui, falando abertamente disso, é porque a gente não cruzou os braços e ficou sentado. Foi uma caminhada superdifícil, muito complicada, mas a gente venceu. Se eu recebi essa doença na família, junto eu recebi um dom de cuidar e ajudar a tratar.” Entretanto, nem todas as famílias são compreensivas e entendem que a pessoa com esquizofrenia precisa de apoio. Em uma das reuniões entre familiares e pacientes que a Associação promove, um dos doentes disse que gostaria de “alugar uma família”. Questionado sobre o motivo, ele relatou que nem sempre recebe o apoio e o afeto que gostaria e de que precisa para viver bem. Esse paciente, que preferimos não identificar, tem 41 anos e convive com a doença desde os 15. “No passado, todo o dia eu pensava em curar essa doença. O médico disse pra eu parar com essa ideia, que eu só sofria. O que eu preciso é aceitar o tratamento e o apoio da minha família”, relata. Levar a vida com normalidade não é problema para parte dos pacientes com esquizofrenia. Segundo o psiquiatra Paulo Abreu, um terço dos pacientes tem pouco prejuízo nas atividades cerebrais e conseguem estudar e trabalhar. “Desse um terço, vários melhoram e, inclusive, nem se

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Carlos Machado

especial

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Marília, Iracema e Marta em reunião na AGAFAPE

tratam mais”, diz o médico. O problema são os outros dois terços dos pacientes: metade deles precisa de assistência médica e familiar, mas conseguem viver com normalidade. Como é o caso de Marta, que recebe o apoio da mãe, Iracema, e de Leonardo. A outra metade são tratados como deficientes, tamanha a força dos sintomas psicóticos. Para controlar os efeitos da doença, os pacientes utilizam antipsicóticos que reduzem a dopamina do cérebro. A dopamina é um neurotransmissor que provoca o exagero das atividades em áreas profundas, causando a psicose. O problema é que a medicação diminui as atividades desse neurotransmissor em áreas que nada tem a ver com a esquizofrenia, trazendo possíveis efeitos colaterais, como a disfunção sexual, a falta de vontade de fazer qualquer atividade, o aumento da fome, sintomas semelhantes aos da doença de Parkinson, dentre outros. Os medicamentos que os esquizofrênicos necessitam são fornecidos pelo Sistema Único de Saúde. De acordo com o médico, o Ministério da Saúde repassa aos Estados praticamente to-

dos os tipos de remédios de controle da doença, inclusive os mais caros. “O Brasil é um exemplo, porque em vários países as pessoas não conseguem esses medicamentos pela rede pública”, diz o especialista. Para ter acesso aos remédios, os pacientes precisam cadastrar-se nas Secretarias Municipais de Saúde.

Reinserção social Apesar das dificuldades financeiras, a AGAFAPE recebe diariamente os portadores de esquizofrenia para atividades culturais. Através do projeto “Atelier da vida” os pacientes têm aulas de dança, teatro, música e trabalhos manuais. Marília diz que o projeto, criado em 2003, surgiu da necessidade de reinserção social dos pacientes: “A Associação é um local de convívio, de reabilitação social. Antes, eles ficavam em casa dormindo, sem fazer nada.” Cerca de 20 pessoas por dia participam das oficinas, que são ministradas por professores voluntários. Um desses pacientes é Eduardo Lobanowsky, de 41 anos. Nas reuniões da Associação, ele é acompanhado pelo pai, Eduard. O paciente, que

começou a ter sintomas de esquizofrenia aos 17 anos, “descobriu” a AGAFAPE há pouco mais de três anos, através do Hospital de Clínicas. “Eu pensava que o problema dele era as drogas. Ele surtou, tentou suicídio, ouvia vozes, se agredia”, recorda o pai. Durante esse período, Eduardo foi hospitalizado quatro vezes por surtos. Quando os sintomas começaram ele fazia faculdade de Engenharia Civil e estudava música. Tudo foi abandonado. Hoje, ele encontra os amigos da Associação duas vezes por semana. “Não tenho projeção de futuro. Só passeio e leio livros. Gosto das atividades manuais aqui na AGAFAPE”, conta Eduardo. Os recursos de manutenção da AGAFAPE provêm do programa “A nota é minha”, do governo do Rio Grande do Sul. Os frequentadores da Associação e colaboradores recolhem notas fiscais e digitam os dados dos cupons no site da Secretaria Estadual da Fazenda. De acordo com critérios pré-estabelecidos pelo governo, as entidades participantes recebem pontos, que são convertidos e repassados em dinheiro. O programa “A nota é minha” tem dois objetivos: incentivar que


Gabriel Simch

a sociedade peça nota fiscal em suas compras, fazendo com que o governo arrecade mais impostos, e repassar verbas às instituições da sociedade civil que precisam de ajuda para se manter. Contudo, os valores arrecadados ainda são baixos. Dados do governo apontam que desde o início deste ano a Associação recebeu R$7.679,81, média de R$1.500 mensais. Um valor baixo para uma entidade que precisa ter um funcionário administrativo e um profissional da área de Serviço Social para manter-se como instituição de Assistência Social. A sala que a AGAFAPE ocupa no Centro de Por-

to Alegre, desde 2002, é uma área do INSS que estava desocupada e cheia de lixo. A prefeitura cedeu o espaço à Associação e outras organizações, como a SOS Rim e a Igualdade RS. No entanto, as entidades correm o risco de despejo a qualquer momento. Em 2009, o INSS iniciou um processo para leiloar as salas, que estão localizadas na Galeria Malcon, na Rua dos Andradas. Na justiça, as organizações conseguiram impedir o leilão, mas não sabem até quando poderão ficar no local.

Vencendo preconceitos Jacqueline Pereira, de 44 anos, formou-se em Ciências Sociais na UFRGS, em 1993. Faltando apenas um ano para concluir a graduação teve o primeiro surto psicótico e trancou a faculdade. Com esforço, dedicação e apoio da família, voltou à faculdade e concluiu o Ensino Superior. Outros dois surtos ainda atrapalharam a vida de Jacqueline. Ela chegou a entrar em coma por síndrome neuroléptica maligna, que é uma reação ao uso de substâncias relacionadas à dopamina. Já após a terceira crise, que ocorreu em 2007, e quando teve risco de suicídio, a socióloga entendeu os problemas da doença e resolveu que queria viver. “Esquizofrenia é uma doença do cérebro, assim como existe a pressão alta e a diabetes, que se controla tomando remédio. Esquizofrenia é uma doença como outra qualquer”, explica. Jacqueline participou do Concur-

so Nacional de Pintura e Poesia – Arte de Viver. Ficou em 11º lugar e teve sua obra publicada em um livro. Na busca para vencer o preconceito e os estigmas da doença, a vice-presidente da AGAFAPE não só apoia o filho Leonardo e coordena reuniões de autoajuda, como também se tornou uma especialista no assunto. “Meu marido compra as revistas sobre mente e a gente troca ideias, informações. Nós entramos na luta junto com o Leonardo. Nós somos atores principais do processo, não coadjuvantes. A família não pode ser coadjuvante”, afirma Marília. Devido ao seu apoio no tratamento de pacientes com esquizofrenia, em 2002 ela foi convidada para palestrar na II Conferência Mundial de Psiquiatria em Barcelona, na Espanha. De acordo com o médico Paulo Abreu, a inclusão das pessoas que sofrem de esquizofrenia e outras doenças psíquicas no mercado de trabalho deve se dar a partir da criação de uma lei que obrigue as empresas privadas a reservarem vagas para pessoas com esse tipo de problema, nos mesmos moldes da reserva de vagas para portadores de deficiência física ou mental. “Se entrar em vigor uma lei assim vai ser uma grande ajuda, pois vai aumentar a chance de emprego pra pessoas que ficam com déficit [de capacidade mental]”, diz o médico. Sobre o futuro, os pacientes diagnosticados com esquizofrenia sabem que a cura é impossível. Apesar das dificuldades, eles lutam por dignidade e uma vida melhor. Marta, que já enfrentou tantos preconceitos, hoje quer apenas ter uma vida normal: poder estudar e trabalhar. “Quero ter renda para não ficar dependendo apenas do meu pai e da minha mãe”. Como ela, há outros tantos que sonham com um futuro melhor: longe dos estigmas e dos preconceitos da sociedade.

A esquizofrenia no cinema Já Uma mente brilhante é uma história real que conta as dificuldades enfrentadas pelo matemático John Nash, que é atormentando pelas visões causadas pela esquizofrenia. Para levar sua vida adiante, o matemático usa toda a sua racionalidade para distinguir o real do imaginário. Após anos enfrentando a doença, sempre acompanhado da família, o matemático ganhou o “Prêmio de Ciências Econômicas em memória a Alfred Nobel”.

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No cinema, a esquizofrenia já foi retratada em dois grandes filmes norteamericanos: Cisne Negro (2010) e Uma mente brilhante (2001). O primeiro relata a história de uma bailarina que desenvolve os sintomas em um momento de estresse psicológico. De acordo com o médico Paulo Abreu, o início da doença pode ser desencadeado por fortes estresses – como morte de alguém, conflitos – e às vezes por traumas, como infecções, traumatismo craniano, abuso de drogas psicoativas. “São crises de colapso mental”, explica.


o mundo é bão

O BARÁ DO MERCADO A ancestralidade africana assentada no Mercado Público texto e reportagem Cíntia Warmling e Luiza Müller

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É

na segunda metade do século XIX. Não só pelo fato do Mercado ter sido construído por escravos, mas também porque o espaço era bastante frequentado pelos negros na época. “A outra versão, talvez a mais aceita pelos religiosos, é a de que o Bará teria sido assentado pelo Príncipe Custódio”, explica o historiador Pedro Rubens, que pesquisa a história do Mercado Público. O Príncipe Custódio morou em Porto Alegre no começo do séc. XX. Nascido em Dahomey, atual República de Benim, no noroeste da África, era considerado, por sua nobreza, um tipo de cardeal das religiões africanas, e foi responsável pela formação de outros sacerdotes no Rio Grande do Sul. Paulo Fernando Rosa, o Pai Paulinho de Xoroquê, de 45 anos e 33 de religião, confirma a segunda hipótese: “Ele [o Príncipe Custódio] já fazia um trabalho que as pessoas admiravam, foi quando houve esse envolvimento e essa firmeza: um ponto de segurança, guarnecimento, que é a parte central do Mercado Público, e ali está firmado o Bará.” Segundo ele, também existem outros locais onde foram assentados orixás para proteção, como no Palácio Piratini (onde não se sabe se o objeto estaria nas paredes ou enterrado) e na Igreja da Nossa Senhora das Dores. Construída por negros, a igreja também teria recebido um assentamento simbólico. A tradição Bará do Mercado é vital para as religiões afro-brasileiras em Porto Alegre, pois elas são calcadas em sua ancestralidade. Pai Paulinho conta que “O Bará do Mercado Público é muito importante porque o assentamento foi feito em uma época de muito preconceito, e, além disso, ali foi plantada uma energia muito grande da África, trazida pelos nossos antepassados, é a nossa história.”

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barca

Cíntia Warmling

e presença. “Isso torna o Mercado Público um lugar sagrado para os adeptos das religiões africanas, e, ao mesmo tempo, protege o próprio mercado”, explica Viviane Vedana, antropóloga e realizadora do documentário Os caminhos invisíveis do negro em Porto Alegre: a tradição do Bará do Mercado. O Bará é o orixá mais novo e representa os caminhos, as encruzilhadas e a fartura. É o responsável pela comunicação entre os orixás e seus fiéis; é o mensageiro e, por isso, é sempre o primeiro a ser reverenciado durante os rituais. Todo novo iniciado na religião deve ser apresentado ao Bará. Em Porto Alegre, o local para essa prática é o Mercado Público. Lá, um passeio simbólico é realizado e uma oferenda é ofertada ao orixá. Entretanto, durante muito tempo, essa prática foi silenciosa, quase invisível. O tiritar das moedas deixadas ao chão por um fiel em agrado ao Bará mal era escutado. O religioso passava rápido e desDentro do sincretismo religioso, a imagem de Santo Antônio percebido. Durante a metade do representa o orixá Bará século XX, inclusive, uma banca habitava o centro do mercado, impossibilitando no centro do Mercado Público de Porto a prática. Alegre, na encruzilhada formada pelos Não se sabe exatamente a origem do assenquatro corredores, que está assentado o tamento. Entre as diversas hipóteses, duas são Bará, um dos orixás das religiões de matriz afrimais conhecidas: a primeira é de que o assencana. Assentar alguma entidade é um ato simbólico. Significa que naquele local existe algum obtamento teria sido feito por escravos que trajeto, pedra ou imagem que representa sua força balharam na construção do Mercado Público,


André Lacasi

A tradição do Bará do Mercado sempre existiu, mas passou a ter maior visibilidade a partir das reformas que ocorreram nos anos 1990, quando algumas pessoas reivindicaram a retirada da Banca Central. “Hoje existem manifestações não só de religiosos, mas também de pessoas que conhecem a tradição do Bará do Mercado”, conta Pedro Rubens. Além do orixá, também existem quatro floras no local, uma em cada ponta do Mercado. Cada uma delas seria dedicada a um orixá. A flora é um comércio de artigos para rituais e oferendas das religiões africanas. Entre elas está a “Flora Bandeira”, uma das bancas mais antigas do Mercado e a primeira a ter um negro como proprietário, ainda no séc. XX. Atualmente, porém, nenhuma das floras tem proprietários negros, muitos nem sequer seguem religiões de origem africana. Eles vendem e têm conhecimento dos produtos devido ao próprio negócio. “Gera uma circulação econômica por causa disso [a tradição do Bará]. Porque se tu compra aqui, tu compra com o axé do Bará, uma energia ligada ao Bará”, explica o historiador Pedro Rubens. Pai Paulinho foi um dos que começou a organizar as comemorações em homenagem aos orixás dentro do Mercado Público. “Fiz isso com a intenção de aproximar mais o povo afro-umbandista”, explica. Segundo ele, é comum que fiéis de religiões afro-brasileiras frequentem igrejas católicas para fazer oferendas, por exemplo, no dia de Iemanjá. Na data, quem não pode fazer uma oferenda no mar vai à Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes. Alguns padres católicos relatam que os fiéis africanos na verdade estariam louvando santos católicos, numa espécie de transferência. Foi por isso que Pai Paulinho começou a organizar manifestações no Mercado Público, para dar outra opção aos fiéis além das igrejas católicas, em uma ação de afirmação da tradição ancestral de sua crença. “Não é uma divisão de povo, não é uma divisão de fé. Mas uma divisão para as pessoas entenderem, a sociedade principalmente, que os deuses africanos existem, santos católicos existem, e a nossa fé existe também.”

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Paulo H. Lange


Bastiao #10