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já vos chegaram as evidências

edição 15 ano 2 2012

bastiao.net

muçulmanos a diferença está no livro

samba

não deixe o morro morrer

júpiter maçã

as várias faces de um ícone do rock


Alf Simch ilustrador, cartunista e designer. Ele colocou-nos lá em cima, sobre as cima, Carlo Carlo Alf Simch é éilustrador, cartunista e designer. Ele nos colocou lá em Carlo Alf Simch énuvens, ilustrador, e designer. Ele colocou-nos lá em cima, sobre as paracartunista que façamos chover histórias no mundo. sobre as nuvens, para que façamos nuvens, para que façamos choverchover histórias histórias no mundo. no mundo. carloalf.deviantart.com carloalf.deviantart.com carloalf.deviantart.com

I

nspiro. Expiro. Conto até dez. Tento manter a calma. Peço que alguém me explique: como chegamos a tal ponto? Desde quando isso tudo é nspiro. Expiro. Conto até dez. Tento manter a calma. Peço que alguém me explique: como chegamos a tal ponto? Desde quando isso tudo é normal? A síndrome do país de terceiro mundo: te enfiam em um ônibus lotado, atrasado e com a passagem cara, apertado feito a virgindanormal? A síndrome do país de terceiro mundo: te enfiam em um ônibus lotado, atrasado e com a passagem cara, apertado feito a virgindade, e tu pensa: “No Brasil é assim, fazer o quê?”. Te assaltam e tu pensa: “É o Brasil... terceiro mundo, né?”. O poder público brasileiro leva de, e tu pensa: “No Brasil é assim, fazer o quê?”. Te assaltam e tu pensa: “É o Brasil... terceiro mundo, né?”. O poder público brasileiro leva a população ao extremo. Até explodir. E a gente sorri, meio abestalhado, sem entender que não precisa ser assim. E é nesse extremismo a que asomos população ao extremo. Até explodir. E aagente sorri, abestalhado, entender não precisa ser assim.oEegoísmo, é nesse extremismo a que submetidos diariamente que está origem dos meio nossos males mais sem íntimos. Não éque à toa a falta de educação, a pressa. Vendo somos submetidos diariamente que está a origem dos nossos males mais íntimos. Não é à toa a falta de educação, o egoísmo, a pressa. Vendo o drama diário da nossa sociedade, eu fico a imaginar: qual é o nosso limite? Uma polícia que se diferencia dos bandidos somente pela farda ojádrama diárioUma da nossa sociedade, eu ficoúnica a imaginar: qual é o nosso limite? Uma polícia que bandidos somente pela farda aceitamos. imprensa que defende e exclusivamente os interesses empresariais já se se diferencia tornou algodos normal. O preconceito velado já aceitamos. Umaque imprensa que defende e exclusivamente os interesses empresariais já se tornou algo normal. O preconceito de uma sociedade se diz igualitária estáúnica incrustado em nós há tempos. Até onde somos capazes de ir? Até onde suportamos? Sim, a velado vida é de uma sociedade que se diz igualitária está incrustado em nós há tempos. Até onde somos capazes de ir? Até onde suportamos? Sim, a vida dura. Mas não precisa ser. Respiro fundo e espero a hora certa. Em breve. Nesse meio tempo, me amparo nos meus semelhantes, naqueles que é dura. Mas não precisaainda ser. Respiro fundo e espero a hora certa. Em breve. Nesse meio tempo, me amparo nos meus semelhantes, naqueles que veem motivos para sorrir. São eles que me fazem sonhar com dias melhores, que hão de chegar. ainda veem motivos para sorrir. São eles que me fazem sonhar com dias melhores, que hão de chegar.

Redação André Warmling, Freitas, Gabriel Rizzo Ingrid Pilar, LuizaTrentini Müller e Sérgio Trentini Redação AndréLacasi, Lacasi,Arthur ArthurViana, Viana,Carlos CarlosMachado, Machado,Cíntia Cíntia Warmling,Douglas Douglas Freitas, Gabriel RizzoHoewell, Hoewell,Gilberto GilbertoSena, Sena, LuizaHaas Müller e Sérgio Redação André Lacasi, Arthur Viana, Carlos Machado, Cíntia Warmling, Douglas Freitas, Gabriel Rizzo Hoewell, Gilberto Sena, Luiza Müller e Sérgio Trentini Projeto gráwfico Ana Elizabeth e Ramiro Lisiane Danieli Projeto gráfico ee editoração editoração Ana ElizabethSoares Soares e RamiroSimch SimchRevisão Revisão Lisiane Danieli Projeto gráfico e editoração Ana Elizabeth Soares e Ramiro Simch Revisão Lisiane Danieli Capa André ArteeAndré Paulo H. Lange e Ramiro Simch Capa Ingrid Lacasi Haas Pilar RamiroLacasi, SimchDante Arte Roman, André Lacasi, Dante Roman, Paulo H. Lange e Ramiro Simch

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Avenida Vicente Monteggia, 2021 - Porto /Alegre - RS - Brasil / (51) 3250-6781 / Novembro de 2012 bastiao.net // facebook.com/revistabastiao / fotiao.tumblr.com facebook.com/revistabastiao /twitter.com/revista_bastiao twitter.com/revista_bastiao / fotiao.tumblr.com

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Colaboradores Ingrid Haas Pilar, Paulo Ziegler e(51) Rafael Puig Tiragem Mil exemplares Comercial 8480.1360 / bastiao@bastiao.net Tiragem Mil ee quinhentos quinhentos exemplares Comercial (51) 8480.1360 / bastiao@bastiao.net Tiragem Mil e quinhentos exemplares Comercial (51) 8480.1360 / bastiao@bastiao.net Praça Júlio de Castilhos, 74/152 - Porto Alegre - RS - Brasil / (51) 3250-6781 / Novembro-Dezembro de 2012 Avenida Vicente Monteggia, 2021 - Porto Alegre - RS - Brasil / (51) 3250-6781 / Novembro de 2012

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Capa Ingrid HaasAna Pilar ePaula Ramiro Simch ArteDiefenthaeler André Lacasi, Fotografia Dante Roman, Paulo H. eLange eHaas Ramiro Simch Relacionamento Paula Neri e Samantha André Lacasi Ingrid Pilar Relacionamento Ana Neri e Samantha Diefenthaeler Fotografia André Lacasi e Maurício Pflug Relacionamento Ana Neri ePaulo Samantha Diefenthaeler Fotografia Lacasi e Maurício Pflug Colaboradores Carlo AlfPaula Simch, Mathias Jalfim Maraschin, Rodrigo SteinerAndré e Wesley Borges Colaboradores Ingrid Haas Pilar, Ziegler e Rafael Puig

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veja bem

Doses de humor e surrealismo em uma conversa sem modéstia com o ícone da contracultura gaúcha, Júpiter Maçã entrevista Douglas Freitas, Gabriel Rizzo Hoewell e Wesley Borges

Gabriel Rizzo Hoewell Ramiro Simch

S

entamos os quatro no chão acarpetado, encostados em duas paredes, logo na entrada de uma salinha no topo de um prédio comercial no Centro de Porto Alegre. Formamos um quadrado, sem muito espaço para esticar as pernas. Em uma das pontas, iluminado por uma luz azul, Flávio Basso, conhecido e reconhecido como Júpiter Maçã, mas que também atende por Júpiter Apple, fuma cigarros e toma goles de Coca-Cola em uma caneca que estampa o Big Ben. Ele relembra seu precoce começo no mundo da música, com o sucesso da TNT, aos 16 anos, e, três anos depois, em 1987, d’Os Cascavelletes. Reflete sobre si e sobre os rumos de sua intensa vida, divaga sobre suas composições, cantarola quando menos se espera. Faz tudo isso com seu marcado sotaque porto-alegrense que mistura com “vocês” e “mans”, herança dos anos que vem vivendo como nômade entre Londres, Nova York, Porto Alegre e São Paulo. Foi no outono de 2011 que visitamos esse ambiente azulado, que, como Andy Warhol, Júpiter chama de factory – um “pequeno cerebrozinho”, onde ele se instalaria por um período, organizando e administrando sua carreira, que há mais de 15 anos toca solo, tendo o auge com A sétima efervescência (1997), eleito pela crítica como o melhor álbum do rock gaúcho. De nossa conversa para cá, Flávio trocou de cabelo algumas vezes, fez mais algumas memoráveis e caóticas apresentações pelo solo rio-grandense, lançou novo single e voltou aos noticiários após se machucar seriamente em uma queda do segundo andar de seu prédio. As frases que seguem são cheias de humor, sinceridade e, sem nenhuma modéstia, reconstroem a personalidade e a história de um dos principais ícones da música gaúcha. “Sai cara essa entrevista, hein?!”, avisou.


Logo no início da tua carreira tu chegou a tocar heavy metal, né? No Pesadelo. Era um som pesado, gostava de ser baixista. Aliás, comecei a me aperfeiçoar no baixo tocando heavy metal, apesar de minha escola ser super [Paul] McCartney. Minhas influências são McCartney, Bob Dylan, Mick Jagger, Syd Barrett e John Lennon, e Bryan Jones nas guitarras base. Porque eu não vejo John Lennon e Bryan Jones como guitarristas base. Eu os vejo como artistas minimalistas. Acho que John é um cara que toca uma coisinha, uma notinha, e traz um sonzinho especial para o The Beatles, aquele sabor. O George [Harrison] não é aquele solista exibicionista, bem pelo contrario, é como uma moldura do quadro, ele fica colocando detalhes, acordes de bossa-nova, de jazz. E é mais importante para ele colocar isso que o próprio solo – ao menos parecia num período. Eu acho o solo dele fantástico, quando ele resolve solar, como em Something. Eventualmente eu traduzo essas minhas influências para contemporaneidade. Não aparece mais tanto, n’Os Cascavelletes você via bem mais claro a influência. “Essa é bem The Beatles, Little Richard”, meu jeito de dançar: bem Stones. Agora eu sou completamente autêntico, tenho certeza disso. Pode ser que lembre lá no fundo uma coisinha que eu fiz. Mas, realmente, tá bem diluída minha influência. Entre Os Cascavelletes e tua carreira como Júpiter Maçã, tu passou pela fase Woody Apple, que foi bem curta, mas determinante no desenvolvimento da tua composição. Exatamente, porque daí nessa impetuosidade de ser o Bob Dylan, nessa paranoia que eu me coloquei... Bom, vamos relembrar que a internet estava para começar, mas era muito lento e mesmo o CD engatinhava. Mas eu ainda era do vinil, então eu pegava o vinil – que agora eu acho do caralho, e todo mundo acha fantástico −, o Highway 61 Revisited (1965), o próprio disco da Columbia, pesado, eu ouvia aquele disco e tentava entender as letras, jogar com aquilo tudo e também escrever junto. Eu pensei: poesia é isso. E a gente tá falando do inicio dos anos 1990. Depois Bob Dylan foi moda com o lançamento destes filmes todos sobre ele, de uns 5, 6 anos para cá. Mas eu estava lá perdido, só eu queria ser o Bob Dylan, daí eu usava o apoio para gaitinha, tocava o violão acústico e escrevi coisas belíssimas. Eu vejo aí As doenças da alma, O meninho órfão – acho que tem pérolas do Woody Apple. Mas foi realmente ali nesse período que eu catalisei, desenvolvi, queimei neurônios, no bom sentido, para trazer esse poeta mais para fora. O Luciano Albo, ex-baixista d’Os Cascavelletes, disse que, se tu ficar trancado numa salinha menor que essa aqui, em um dia tu compõe um álbum. Gentileza dele. Apesar da gentileza, eu faria um álbum triplo, né? Nessa sala aqui eu faço três. Três aqui, dois ali e um compacto lá.

quarta página

Mas dentro das brincadeiras, é realmente assim, né? O Uma tarde na fruteira (2008) tu compôs... O Uma tarde na fruteira é muito legal a historia. Nesse

“Cada vez mais eu acredito, inclusive, que eu fundei um stream. Porque tem o mainstream, o underground, o independente, mas será que eu sou um desses?”

período – acho que estamos falando de 2004, 2005, 2006... Você vê que tem um certo espaço entre meus álbuns, porque às vezes eu sou mais um artista plástico, um cineasta e não exatamente um record maker. Então, o que acontece: eu fico muito em função da inspiração. Muitas pessoas poderiam me associar a um estágio de decadência naquele período, de não tá apropriadamente colocado e explorando meu status do Flávio Basso, d’Os Cascavelletes, e do Jupiter Maçã, com já um reconhecimento nacional e até algum internacional, do início dos anos 2000, certo? Porque eu tinha isso, mas o que eu fazia: havia a tal da república aquela, a Casa dos Artistas, que era um apartamento enorme, antigo, cheio de malucos, rachando o aluguel e discutindo sobre a conta da luz, “não demora no chuveiro!”, sabe essas coisas? Coisas que eu não precisaria mais, mas eu estava vivendo ali. Um pouco por uma comodidade, outro pouco porque era poema puro, poesia pura. Então, parte do Uma tarde na fruteira foi escrita na Casa dos Artistas. Outra parte na casa da minha mãe, morando de favor por comodidade. Eu podia tá com uma agenda repleta, mas eu não era um vagabundo, e sim um poeta exagerado. Exageradamente poeta. O que me deixava assim, a dar muita vazão para o poema e para a essência do ser, de praticamente viver como um filósofo. Então, na verdade, na fruteira eu tinha uma conta, em que anotava drinks. Às vezes eu passava a tarde na fruteira e lá eu bebia sem cédulas (risos). É isso... E Casa da mamãe foi escrito na casa de mamãe. Foi o primeiro episódio da guerra, olhando os mísseis na TV. Tudo isso é factual. Beatle George é porque as pessoas na república estavam ouvindo muito George Harrison, All things must pass. Eu acordava com George Harrison e dormia com George Harrison, com o álbum triplo. Então eu estava com aquela canção e resolvi começar a falar sobre mim e queria homenagear o beatle. Eu achei perfeito, lindo o resultado, realmente gosto muito dessa canção e me sinto orgulhoso de ter feito ela. Foi isso que aconteceu. E eu bebia muito lá nessa casa. Tu sempre flutuou entre o mainstream e o underground. O que tu quer ser? Bom, eu acho que não sou mais underground. Eu já quis ser mais underground do que o estágio em que me encontrava. Também já quis brincar de megamainstream, de supermainstream, só pela delicia, pela brincadeira mesmo. Brinquei de pop music de certa forma com Modern kid e Calling all bands. Deixei isso muito claro através das texturas, das cores, dos clipes e dos sons. Mas o feedback foi fantástico, porque esses apreciadores de arte chegam junto com o feeling que estava pairando em mim. Ótimo, muito bom. Mas nunca maquinei uma migração pessoal e artística de um stream para o outro. Cada vez mais eu acredito, inclusive, que eu fundei um stream. Porque tem o mainstream, o underground, o independente, mas será que eu sou um desses? Acho que não. Eu tenho aquela fatia que eu acabei criando desde o TNT. Que fatia? Não é ultrasuperpop, não é a de consumidores de arte, de mercado – quase pejorativo −, mas não é a fatia da Sandy, não é a fatia do Renato Russo, é um pouquinho da do Raul,


um tanto quanto da dos Mutantes, dos apreciadores da arte mais apurada, legal, elegante, sim, tem isso. Mas é pop. Pop music ao mesmo tempo. Pop art. A Marchinha psicótica de Dr. Soup brinca que tu compõe a marchinha que é cult, underground, mas lá por 2020 ela vira hit nacional. Tu acha mais importante ser cult underground ou hit nacional? Importante, importante, importante... Um pouco de cada coisa, acho que bem dosado, como um coquetel mesmo, como um prato elaborado. Como uma gastronomia finíssima, francesa, bem elaborada. O prato pode ser simples no sabor e ser fabuloso. Eu só conheci a verdadeira gastronomia francesa estando na França – não digo comendo comida francesa por aí. Agora, em Paris... Então, acho isso importante, no meu som. Acho isso importante na minha arte. Que o minimalismo seja compreendido com uma grandiosidade tal que não coubesse naquele pacote de elogios que pudesse vir a gerar, entende? Sendo bem prático, fui autoirônico quando disse na marchinha isso do cultuado, já acostumado com algumas coisas minhas, que, ironicamente, e nenhuma modéstia à parte, acabei antevendo alguns movimentos e algumas formas de arte. O visual Oasis a gente fez antes do Oasis. A própria postura. Mas aqui... tão distante... é muito mega dizer uma coisa dessas! Mas enfim, na musicalidade... às vezes escrevo alguma coisa e ouço o riff muito parecido 2 ou 3 anos depois. Hoje, com a web, é muito fácil que as pessoas fiquem sabendo disso mundo a fora. A música francesa quando eu ouço alguma coisa, a música inglesa, existem coisas que vem depois do que eu fiz. Então, legal, gosto disso e não tô sendo modesto, mas o aspecto geográfico influencia bastante. Mas eu tô aqui, sendo um poeta gaúcho, mas que trabalha de uma maneira bem mais solta, voltada para o mundo enquanto pequeno. Mesmo assim eu gosto desse toque irônico do: “Ah, tudo bem, eu fiz, né, mas lá por 2020, então, vai ser hit nacional”. Sabe? Um teatro repleto de pessoas de bom gosto aplaudindo e cantando juntas. Um pub inglês para 200, 300 pessoas aplaudindo muito a marchinha – no caso do Buffalo, quando eu toquei em London isso. Alucinados com a marchinha... eles não entenderam uma palavra que eu disse, era som e autoexplicação. Essas tuas viagens para o exterior tem te ajudando a analisar melhor teu trabalho... Eu sempre pensei o mundo, mas acontece que agora eu pensei em nível administrativo, de certa forma. Cuidando um pouco mais do meu quinhão. E também você acaba percebendo o respeito que sua obra alcançou e começa também a dar valor ao artista que tu é. Logicamente, aí tem todo um trabalho de se autorrespeitar, cuidar, administrar, tratar, dar uma polida na sua obra não tem nada a ver com subir nas tamancas. Mas o fato é que eu tenho admirador pelo mundo todo. Eu só quero situá-los, onde achar, onde me encontrar, onde adquirir o meu valor artístico palpável, ou seja, “o produto”, a obra, a peça. E isso inclui o Brasil, que eu acho um verdadeiro continente. Eu sei que tem gente no meio do mato que gosta de mim. Tem gente no meio da selva que gosta de mim. Crocodilos! [Imita um crocodilo atacando]. Tem banda cover minha no Amazonas – e não é só uma, parece que tem duas. Muito louco isso, cara. Como é tua relação com a Tenente Cascavel, banda formada por integrantes do TNT e d’Os Cascavelletes e que toca os clássicos dos dois grupos? Eu gosto de várias canções. É legal, divertido, for fun, ok. Making money, mas having fun. Talvez não topasse participar, porque eu gosto de mistérios. Não vejo nisso máscara. Mas uma das situações mais

esquisitas foi em Caxias. Eu estava em uma dessas minitours aqui no Sul – quinta, sexta e sábado. É quase que um circuito inglês de autogestão. Você tem períodos artista-na-van. Então em Caxias eu senti que estava concorrendo comigo mesmo. Eu ia tocar com meu material inédito e lembrar de umas antigas e o Tenente Cascavel estava tocando em outra casa em Caxias. Ali eu pensei: quem vai levar mais público – Júpiter Maçã ou Flávio Basso? Aí fiquei no camarim, “tomara que venha todo mundo me ver. Mas todo mundo vai me ver se eles forem lá no outro. Eles vão me ouvir...”. Como minha casa estava lotada, fiquei refletindo sobre o outro Flávio Basso. That’s it. Na época do Cascavelletes tu tinha composições sacanas, quase juvenis. Tu acha que agora tu segue com essas composições, mas desenvolveu mais o lado metafórico? Exato. Perfeitamente. Exatamente. Ponto. Acertou em cheio. É o mesmo cara, com mais estrada, com mais acesso a galerias de arte, enfim, passando pela vida, morando em São Paulo, em Londres, um período em Madri, outro correndo em Paris. Você fica mais apurado. Não tô dizendo que ficando em Porto Alegre você não vai ficar apurado. Para mim aconteceu assim. O Barea, ex-baterista d’Os Cascavelletes, diz que tu é um cara que vive de arte e que tu é o maior e talvez o único grande artista com quem ele trabalhou. Como é tua relação com a arte? Tu vive disso... Eu vivo disso e chego a viver super bem em alguns momentos. E vida de artista, enfim, em outros. Vai de Modigliani a um Andy Warhol em um período bom, mas nunca vivi como – acho, não sei – Rod Stewart, Elton John – não, definitivamente, não! Mas, sim, vivo das artes. Não uso aquela expressão “sobrevivo”, “dá para sobreviver”, não é verdade. Tem momentos que aperta, que solta um pouco. Ou seja, invisto em arte, trabalho com arte. Tu diz que o que alimentava Os Cascavelletes era vocês estarem sempre rindo. O que te alimenta hoje? É o sucesso da comunicação. O sucesso da comunicação bem feita com the audience. Conectou, entenderam, bateu, teve feedback. Isso alimenta. Procuro fazer isso sendo verdadeiro. Sei que parece uma coisa politica, mas é isso. Sendo, sentindo, “bah essa obra precisa ser exteriorizada”. Será que é uma pintura? Uma foto? Mais um single? Um clipe? Uma sonoridade eletro ou será que é só acústica? Será que chamo meu amigo citarista, umas flautas? E a plateia “yes!”, eu digo “yes!”. Como foi tua ida para a MTV, com o Júpiter Maçã Show? Isso surgiu de um convite. Mandaram um e-mail para o meu produtor e eu fiquei sabendo do que se tratava ali nos bastidores. Então eu entrei, tinha esquecido meus óculos de grau e não conseguia ler a pauta. E eles: “Vai lá que ‘cê’ tem o jeito! Vai lá, man!”. Quando eu vi: “Câmeras, ação!”. E ficou aquele espetáculo maravilhoso. Tiveram só seis programas e depois mais dois, quando a fita foi totalmente picotada. O outro podia ser plano-sequência porque o surrealismo estava pairando. Mas o que acontece? Eu tenho o dom para a coisa e talvez venha a desenvolver um próximo show.


especial

Mais próximos do que se pensa

Em meio ao Centro de Porto Alegre, se localiza a mesquita Abu Bakr, onde todas as sextas-feiras o primeiro xeque convertido do Brasil faz seu sermão. Entre os fiéis, a diversidade de rostos e origens chama a atenção e desconstroem o estereótipo do muçulmano. reportagem e texto Gabriel Rizzo Hoewell, Ingrd Haas Pilar e Sérgio Trentini

Alexandre Gomes conheceu Rodrigo Rodrigues no exército. Ele era major; Rodrigo, soldado. Alexandre tem uma volumosa barba grisalha, se interessa por teorias da conspiração e não morre de amores pelos Estados Unidos. Rodrigo é colorado fanático, fez parte da torcida organizada Camisa 12, era daqueles que pegavam o ônibus lotado para ver jogo no pior lugar do estádio, a coreia, “só pela zoação”. Leva sempre consigo seu celular, pelo qual alimenta suas redes sociais. Só se casou com uma mulher. Alexandre é evangélico, apelidado de reverendo; Rodrigo, muçulmano, o primeiro xeque brasileiro convertido (ou revertido – segundo a crença muçulmana, todos nascem muçulmanos, mas são desviados do caminho pelos pais). Naquele final de tarde de quarta-feira, Rodrigo recebia o velho amigo na mesquita Abu Bakr. Tomavam um chá oriundo da Jordânia, feito pelo marroquino Chariq, que

– junto com o estudante egípcio Ahmad – conversava com os dois brasileiros, sentados descalços, em círculo, sobre o carpete. A cena que parece distante de nossa realidade acontece em plena Dr. Flores, uma das mais movimentadas ruas do Centro de Porto Alegre. Enquanto alguns passam pela rua de cabeça baixa, a passos apressados seguindo sua rotina, outros entram num discreto prédio e sobem ao décimo andar para rezar. Lá funciona o Centro Islâmico de Porto Alegre, que também é mesquita. Aquele que parar na portaria na tentativa de distinguir quem toma o elevador para seguir ao templo de quem entra no prédio simplesmente a trabalho, fracassará na maioria dos palpites. O que mais chama a atenção ao entrar no centro islâmico é exatamente a diversidade de rostos que se apresentam, desconstruindo logo de cara a imagem do muçulmano barbudo.


do corpo. Há muçulmanas que não usam diariamente o lenço (hijab), mas o usam na mesquita como sinal de respeito. Há uma forte preocupação com a aparência. Todas acham inadmissível saírem mal-arrumadas, pois não estarão mostrando a verdadeira imagem da mulher muçulmana: bonita, charmosa e vaidosa. Mas, como Hanan fez questão de frisar, sempre se vestindo de acordo com as regras da religião: de forma modesta, recatada, sempre cobrindo o corpo, evitando exageros e luxos, sem perder a feminilidade. Quanto ao preconceito, ela acredita que exista, mas somente porque as pessoas não conhecem o islamismo. “Tudo que é desconhecido gera preconceito. No momento em que você conhece, acaba virando respeito.” De fato, são valores bem diferentes da dita “sociedade ocidental”. O que poderia parecer machismo e opressão, para elas é proteção. As mulheres são separadas dos homens para que sejam protegidas: elas são frágeis, delicadas. A submissão é, para as muçulmanas, uma virtude. Os homens são fortes, eles devem trabalhar para sustentá-las. Eles as protegem. Ingrid Haas Pilar

N

a sexta-feira, por volta das 13h, o movimento no local é intenso. Cerca de 60 muçulmanos entram na não muito grande sala transformada em mesquita, retiram seus sapatos, lavam-se, passam por cima de uma pequena proteção, composta por duas linhas de tijolos à vista e sem acabamento, e pisam no carpete azul. Sentamse de frente para o xeque Rodrigo. Ele dá a primeira metade do sermão em árabe. A articulação da língua que fala é hostil. Aqueles que não entendem pensam ser um sermão raivoso, algo tempestuoso. Os gestos ríspidos com as mãos acompanham a voz cortante. Meia hora depois, emenda sem pausa a fala em português. Os gestos com as mãos continuam os mesmos, mas o sermão é afável e articuladamente agradável, como apenas os grandes líderes religiosos conseguem ser. O xeque barbudo veste uma longa bata branca com detalhes em dourado, fala sobre a religião, os conflitos do Oriente Médio e o controle da mídia sobre a opinião pública. No momento da oração – uma das cinco diárias, com horários marcados, mas com alguma flexibilidade –, os fiéis se levantam e alinham-se seguindo as listras brancas em diagonal no carpete. São elas que os posicionam em direção a Meca para rezar. Lado a lado, formam linhas com 10 a 15 pessoas de diversas idades e etnias. Senegaleses que mal entendem o português vêm da Região Metropolitana somente para ouvir o sermão e orar. Aqueles que não podem estar na mesquita rezam em casa ou no trabalho. Durante a oração, por diversas vezes, os fiéis se agacham, prostrados: joelhos e rosto no chão, com a testa tocando o solo. Essa posição, explicam, é a razão para as mulheres não estarem juntas aos homens nesse sermão. Para evitar constrangimentos, na mesquita Abu Bakr, elas ficam atrás de uma divisória de madeira, na parte de trás do local. Naquele dia, não eram mais de cinco mulheres, que durante todo o sermão estavam alheias ao que acontecia do outro lado da divisória. Era possível ouvir o que o xeque Rodrigo falava, mas ficaram conversando sobre assuntos do cotidiano e cuidando das duas crianças presentes no dia. No momento da oração, entretanto, se posicionaram alinhadas às listras brancas diagonais pintadas no carpete e rezaram da mesma forma que os homens. Havia, porém, uma mulher sentada do lado de fora do carpete. Ela logo explicou o porquê: estava menstruada. Segundo a crença muçulmana, mulheres menstruadas estão impuras. Como a reza é sagrada, é proibido misturar os dois. De acordo com as regras da religião, mulheres menstruadas, que tenham fluxo pós-parto ou estejam em período de Junub (quando estão em estado de impureza por conta de atividade sexual) não podem entrar na mesquita, a menos que seja muito necessário. As mulheres na mesquita Abu Bakr estavam sorridentes para a câmera, mas não conversavam muito sobre a religião. Apenas uma, Hanan Mustafa, brasileira, de 25 anos, revertida há seis anos ao Islã, sentiu-se à vontade para falar. Contou sobre as vestimentas e sobre como ela adequa as roupas brasileiras às regras da religião: busca sempre tapar o corpo, não andar com roupas transparentes e não marcar as curvas

Conceitos errados vêm das escolas Os estereótipos criados a respeito do islamismo vêm acompanhados de uma série de conceitos equivocados que ajudam a construir um preconceito sobre a religião. É exatamente “a desinformação e o condicionamento da mídia que geram o preconceito”, afirma o xeque Rodrigo. “Esse preconceito foi construído, não é natural no brasileiro”, acredita Alexandre. Não só da mídia, no entanto, partem as informações erradas. Elas surgem até mesmo nos livros escolares. O principal equívoco se refere ao conceito de jihad. O xeque explica que a palavra significa “sacrifício, empenho, esforço”. No entanto, é comumente traduzida para os idiomas ocidentais como “Guerra Santa”, como uma forma de submeter os outros ao islamismo. O historiador Luiz Salgado Neto, em seu artigo Discursos sobre o islã e os muçulmanos em livros didáticos (2010), apresenta o caso do livro Toda a História: História Geral e História do Brasil (2004, ed. 12), de José Jobson Arruda e Nelson Piletti. A obra diz que “em pouco tempo,


A história do xeque Rodrigo Rodrigues não vem de família muçulmana. Descobriu a religião por volta dos 15 anos de idade, quando acompanhava pela televisão as notícias da Guerra do Golfo. Naquele período ouviu pela primeira vez falar em islamismo. Resolveu pesquisar o que era a religião. Foi a fundo, leu muito, comprou o alcorão traduzido. Descobriu que na Avenida Venâncio Aires havia uma série de pequenos comércios comandados por árabes praticantes do islamismo. De porta em porta, bateu à procura de quem estivesse interessado em ensiná-lo um pouco mais da religião. Isso não fazia sentido para aqueles comerciantes. Um menino de 15 anos querendo entender sobre islamismo. A busca fracassou. Os estudos, entretanto, continuaram. Por volta de 1996, em uma pequena sala de um escritório de advocacia, ele e mais quatro muçulmanos realizaram aquele que provavelmente foi o primeiro sermão da religião em Porto Alegre. Hoje, o xeque reconhece pela mesquita os rostos daqueles que visitou 20 anos atrás. Nessas duas décadas, Rodrigo estudou a língua árabe no Líbano e na Arábia Saudita e, após frequentar a Universida-

Ingrid Haas Pilar

a nova crença, apoiada no princípio da ’Guerra Santa’ – se expandiria por extenso território, conquistando terras na Ásia, na África e na Europa” e, posteriormente, afirma que Maomé pregou “a Guerra Santa – jihah em árabe”. O conceito de jihad, no entanto, nada tem a ver com a ideia de guerreiros impondo a religião, mas sim com a luta para seguir o que o Islã prega. O historiador francês François Massoulié define o termo como uma luta espiritual entre as obrigações do crente para cumprir os cinco pilares do Islã e as vicissitudes de sua vida. A confusão com relação ao islamismo chega ao ponto de não se saber qual deus é seguido pelos fiéis. Muitos autores afirmam – e grande parte das pessoas segue repetindo – que Alá é o deus dos muçulmanos, dando a entender que eles adorariam um deus diferente de cristãos ou judeus. Na verdade, essa é apenas a tradução da palavra “deus” para o árabe. Xiitas e sunitas também são conceitos frequentemente entendidos e ensinados equivocadamente. O livro de Arruda e Piletti explica que “as conquistas territoriais levaram à divisão do islamismo em duas seitas principais: xiitas e sunitas. Os xiitas, mais radicais, repudiam os valores do mundo ocidental moderno. Defendem a preservação, a qualquer custo, dos princípios fundamentais do islamismo. Atualmente, a principal força xiita é o Irã. A facção dos fundamentalistas islâmicos pertence à corrente xiita. [...] Os sunitas, embora preservem regulamentos básicos da religião, são mais moderados em suas manifestações religiosas e políticas”. Para a maioria da população a explicação parece correta, contudo, classificar xiita como radical não faz sentido. Salgado Neto acredita que o fato de a maioria dos xiitas estar no Irã, historicamente um inimigo do Ocidente, temido por “patrocinar o terrorismo”, pode ter gerado essa visão. Um dos símbolos do radicalismo islâmico para o mundo, por exemplo, os atentados de 11 de setembro, não foram realizados por xiitas, mas por sunitas. Jamais um xiita sequer integrou a Al-Qaeda, organização a qual se atribui a operação. Tampouco os sunitas podem ser classificados como radicais, já que o radicalismo independe da vertente. De acordo com o xeque Rodrigo, sunita, como aproximadamente 95% dos muçulmanos brasileiros, os xiitas podem ser considerados ”uma seita que se desviou da essência do Islã”. No entanto, não se enquadram no conceito ocidental de radicais.

de de Riad, tornou-se o primeiro dos hoje 30 xeques brasileiros revertidos. A conversão para o Islã, conta, é um processo bem mais complicado para quem não está inserido na cultura. “Quem se converte absorve a religião de outra forma. O convertido precisa se adaptar, não tem o sentimento cultural e religioso da família.” São, segundo ele, duas barreiras: identificar-se internamente como muçulmano e na comunidade. Dentro desse processo, há também uma mudança de hábitos para se adaptar à charia, o código de leis que rege a religião. Os muçulmanos no Brasil, no entanto, não parecem enfrentar o preconceito que encaram no resto do mundo. Ao menos é o que afirmam o xeque, Ahmad e Chafiq. O marroquino está no Brasil a trabalho há 15 anos, já tendo passado pela Bahia e pelo Rio de Janeiro antes de chegar a Porto Alegre. Aqui foi bem acolhido, respeitado e encontrou uma cultura semelhante à de seu país de origem, conta. Nas vezes em que esteve na França, por exemplo, Chafiq disse ter sofrido muito mais com a discriminação, provavelmente devido a grande população muçulmana no país. No Brasil, o Islã conta com 35.167 seguidores, de acordo com pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2010. As maiores comunidades islâmica estão em Foz do Iguaçu e em São Paulo. Não há um levantamento, mas estima-se que, em Porto Alegre, entre 500 e 1.500 sigam a religião que mais cresce no mundo, sendo de 40 a 50 revertidos.


UM NOME PARA A DEMOCRACIA por Luiza Müller ilustração P. H. Lange dissimulado cultural, a fundação do Partido Operário Comunista. As ruas eram palanques a jato – qualquer caixote era púlpito suficiente para um discurso libertário, panfletos não eram capazes de agregar todas as atrocidades que uma ditadura de milicos é capaz. "A guerrilha foi a alternativa que encontramos", refletia. A militância o levou ao exílio. Contudo, no cone sul os inimigos eram muitos e, de 1975 a 1979, ele sentiu o peso das grades argentinas e o coração em pedaços de morte. “Flávio Koutzii, apenas um de tantos Flávios a cair”, isso era o que eles pensavam...

P.H. Lange

O ano era 2008: após a série de fatos que o levaram ao exílio, à prisão e à supressão de seus direitos políticos, Flávio Koutzii era finalmente absolvido. Em uma quinta-feira de inverno, o ex-militante do PCB recebia as desculpas oficiais do Estado que um dia cerceou seus direitos mais básicos, inclusive o de ser cidadão de seu próprio país. Entre os “ganhos”, o direito de retornar ao último semestre de Economia na UFRGS, que havia sido obrigado a abandonar mais de três décadas atrás. Na memória, a Porto Alegre e o Brasil dos anos 60: a agitação política nos centros universitários, o protesto

Tempo certo por Sérgio Trentini O silêncio da noite faz com que o barulho do relógio, na parede, seja estrondoso. A cadeira é deveras confortável e o homem sentado pesa quilos suficientes para – em outra época – ser considerado um membro da burguesia escravocrata – não fosse a cor de sua pele. É seu último dia no trabalho, seus pensamentos estão organizadamente rápidos. Serenamente nostálgicos. Todos altos como o som do relógio. Toda vez que manifestava sua vontade de, um dia, ingressar na faculdade de Direito e seguir carreira na magistratura, virava motivo de piadas; ou, ainda, de algum amigo que o olhava por cima, colocava a mão em seu ombro e, com pequenas palmadas de consolação, dizia: “Impossível, meu querido, impossível”. Não foram poucas vezes que o menino negro, morador de rua, ouviu que não conseguiria. Olha em volta, o retrato da família, as flores e os presentes que recebera na homenagem estão sobre a mesa. A identificação metálica em sua mesa entrega: Desembargador Sejalmo Sebastião Nery. Conforme o silêncio avança na noite, o tiquetaquear do relógio aumenta de tom, assim como os pensamentos do

Desembargador. Pensa nos obstáculos que passou. No racismo, câncer impregnado na humanidade, um pouco abrandado e dissimulado pelos novos tempos. Matuta sobre o quanto o negro está cada vez mais vencendo pela cultura e não pela força bruta. Acredita que somente a luta apaixonada por democracia, igualdade de oportunidades e liberdade será capaz de acabar com esse monstro anacrônico e ridículo chamado racismo. Levanta de sua mesa. Está na hora de sair do gabinete pela última vez. Tira o relógio de parede que sua mulher lhe dera de presente, junta alguns documentos de sua mesa e guarda em uma caixa, junto com o jornal do dia. Antes de apagar as luzes, analisa a capa do jornal. A foto do homem magro, negro, sorrindo para a câmera, fez com que abrisse o rosto em um sorriso. Obama e Sejalmo continuam sorrindo enquanto o barulho do relógio ecoa no corredor. Talvez o tempo não esteja passando, pensa Sejalmo, talvez o tempo esteja evoluindo. Talvez as coisas estejam andando para frente, como os ponteiros, desses que não fazem barulho só no silêncio.


cifrada

Em tempos de sertanejo universitário e de pagode, uma vila de Porto Alegre celebra os 30 anos da festa em que o samba de raiz é a estrela principal. No alto do morro da Vila São José, onde se tem uma das melhores vistas cidade, clássicos ecoam para não deixar o samba morrer. reportagem e texto Carlos Machado

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odo domingo é dia de samba. Pelo menos para aqueles que moram na Vila São José, em Porto Alegre, onde dezenas de pessoas se reúnem no bar do Floriano para cantar clássicos de Alcione, Zeca Pagodinho, Uma visita ao mundo do pós-pornô Noel Rosa, Cartola e Lupicínio Rodrigues, dentre tantas outras lendas da música brasileira. Aqui não existe divisão por raça, sexo ou crença. “O importante é a diversão”, como texto e reportagem Giberto Sena afirma Nara dos Santos, que sai da Zona Norte da cidade, perto do Sambódromo, para cair na graça do samba. “Todo domingo é sagrado. Sou fã de carteirinha e eu adoro toda essa comunidade”, complementa a dona de casa, que diz frequentar a roda de samba há mais de dez anos. O samba corre nas veias desta gente que ama a música brasileira. Gente apaixonada como Léia Fernandes, de 67 anos, que diz frequentar a festa desde o início. Ela, que já foi diretora da ala das baianas das escolas Praiana e Candinha, mora na comunidade vizinha, mas não deixa de frequentar a festa: “Isso aqui representa harmonia, paz e a união das nossas comunidades.” Hoje, ela trouxe uma amiga para a festa: a Idalga, de 77 anos. Sambando como uma adolescente, Idalga veio de Gravataí, Região Metropolitana. Ela também desfila na ala das baianas e conta que não cansa de sambar e ser feliz. “Desfilo em Porto Alegre, Guaíba, Uruguaiana. Faço tudo que tenho direito”, diz. Quem pensa que samba é para gente velha, está enganado. O local reúne pessoas de todas as idades, desde crianças bem pequenas até aqueles que são considerados da velha guarda. Douglas Apolinário, de 18 anos, é um dos vários jovens que participam da comemoração. “A festa representa nossa cultura”, diz o jovem com a mesma consciência daqueles que já estavam na roda antes dele nascer. Contudo, este domingo é especial: são 30 anos de festa que começou com o Seu Floriano, um apaixonado pelo samba e pelos amigos. A Festa do Escorpião acontece todo segundo domingo do mês de novembro e surgiu para comemorar o aniversário dos amigos do Seu Floriano, que eram do signo que dá nome à festa até hoje. Seu Floriano já não está por aqui com os companheiros, muitos dos quais ainda continuam sambando. O filho dele, o também Floriano Flores, mantém a tradição do pai e comanda a festa. “'Tô' dando continuação e fazendo aquilo nescentes desse estilo, em que predominam as escolas de que ele gostava, que é a alegria e o prazer da música”, diz o samba. Nas décadas de 1960 e 1970 havia mais de dez agreherdeiro . miações que disputavam o título de melhor tribo do CarnaTudo começou na tribo carnavalesca Os Comanches. A val porto-alegrense. Hoje, são apenas duas, que se revezam mais antiga das tribos foi criada em 1959 e é uma das remaentre campeã e vice da maior festa popular da cidade.


De pai pra filho Antônio Moller, ou Nego Tonho para os amigos, é o membro mais velho da banda da casa. Aos 77 anos, Nego Tonho toca o maracanã, um instrumento com som semelhante ao surdo. Ele é um dos criadores da roda de samba no morro da Vila São José e da tribo Os Comanches. Como um sinal dos deuses, enquanto converso com ele, ao fundo toca uma das mais clássicas canções do Brasil, eternizada na voz de Alcione. Ao ouvir “Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar...”, Nego Tonho se emociona e diz :“Meu filho é quem puxa a nossa banda.” O filho dele é Marco Antônio Moller. Durante a semana, Dione, como também é conhecido, trabalha como segurança e há 12 anos é o líder da banda da casa. Fã do sambista Carlos Medina, falecido no ano passado, Dione se orgulha de falar que canta ao lado do pai e ver que a festa cresce a cada domingo: “É gratificante ver o pessoal subir o morro pra participar. Pessoas de outros bairros vêm aproveitar.” Dione, que já foi puxador de escola de samba – quatro anos com a Praiana e três com a Imperadores do Samba – não tem vergonha de dizer que falta tempo para a banda ensaiar. Na verdade fala o contrário: “A gente não ensaia. É na raça. A gente se reúne todo final de semana e toca.” Outro que deixa sua marca no morro é Flávio Bigode. Aos 78 anos, ele é dono de uma prole que deixa qualquer um de queixo caído: são 16 filhos e 65 netos. Com sorriso fácil e esbanjando simpatia, Flávio se orgulha de dizer que, além de ser pai de tantos filhos, também é um dos pais da festa. “Aqui é só alegria. Em vez de confusão, é só festa. É meu segundo lar”, afirma sorrindo e saindo para cantar com os amigos o clássico “Isto aqui, o que é?”

Do morro para o mundo

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O Bar do Floriano e da Salete, esposa dele, fica em frente à tribo, na esquina das ruas João da Cosa e Borborema. Salete relembra com carinho do esforço do sogro para reunir os amigos e comemorar. “Até um tempo atrás, a festa encerrava com um sopão pra todos que participavam, mas como é muita gente, o sopão teve que ficar pra trás”, diz ela. Com muito orgulho, ela conta de onde vem o sucesso do evento: “A festa sempre foi com samba de raiz.” Para manter a tradição, a comunidade criou a própria banda, a Scorpion, que toca todo domingo no final da tarde no bar do Floriano. Adair Antunes, presidente do Sindicato dos Músicos do Rio Grande do Sul (Sindimusirs), reforça a importância desses encontros semanais em um momento no qual as músicas da moda tomam conta dos espaços que deveriam servir como pontos de cultura. “O samba de raiz aqui na Vila São José é uma resistência, e a cultura é muito importante pra tirar as pessoas da miséria e da marginalidade”, conta o músico, lembrando que lembra que grandes sambistas gaúchos saíram das periferias, como Lupicínio Rodrigues, Túlio Piva e Zilah Machado. Ainda segundo o presidente do Sindimusirs, falta investimento público e privado na cultura brasileira: “Cultura popular não é só Rio-São Paulo. É Brasil. O samba é tão grande que não é privilégio do morro carioca ou das escolas de samba do Rio de Janeiro.”

“A periferia é um grande manancial para a cultura do Brasil”. Com essa frase o presidente do Sindimusirs resume a riqueza cultural dos morros do País. Na Vila São José não seria diferente. Aqui, surgem destaques do samba e do Carnaval gaúcho. É o exemplo de Cláudio Barulho, que conta da carreira começada no Comanches, há muito tempo, “nem lembro quando”. Suas várias moradas e seus seis casamentos nunca o impediram de visitar a Vila: “A ‘Sanzé’ é meu berço.” Antes de fazer história no Carnaval porto-alegrense, Cláudio passou pela Banda Militar do Exército, na década de 1960, quando desceu o morro. Em quase 30 anos de desfiles, ele foi considerado por diversas vezes o melhor intérprete de samba enredo do Carnaval. Nos últimos tempos, Cláudio Barulho voltou a cantar nas casas noturnas da cidade, as mesmas que o consagraram como um dos grandes sambistas gaúchos décadas atrás. Outra celebridade do morro é a estudante Joselaine de Jesus. Por onde passa, Josi arranca suspiros dos homens. Passista dos Comanches, em 2008 foi coroada 2ª princesa do Carnaval de Porto Alegre. Era a primeira vez que a tribo disputava o título e a musa da São José tornou-se parte da corte mais importante da Capital gaúcha. Com samba no pé, ela explode de elogios à comunidade onde cresceu. “Esse amor pelo samba é de toda a comunidade e cresce cada dia mais. É bonito ver, e eu me orgulho muito de ser dessa comunidade”, conta a eterna soberana. Contudo, o maior ídolo do morro não estava na festa. Everton da Silva estava participando de um dos maiores reality shows musicais do País, o Ídolos, da TV Record. O ascensorista de 23 anos foi o grande campeão da competição, na qual concorreram mais de cem mil pessoas de todo o Brasil. Ele canta com maestria clássicos do samba e orgulha a comunidade ao receber elogios dos jurados do programa. Na primeira vez cantando, Éverton foi comparado a Cartola e Zeca Pagodinho pela jurada Fafá de Belém, que não segurou as lágrimas ao elogiá-lo. Na final do Ídolos, ele cantou com Martinho da Vila. No samba do bar do Floriano, encontro Luiz Carlos da Silva, antigo professor de música do jovem cantor. O mestre – que ensina voluntariamente crianças e jovens da comunidade a tocar clarinete, violão, flauta e cavaquinho – conta que ajudou a construir a musicalidade do cantor mais famoso da Vila e diz que o “garoto” vai longe porque é humilde e canta com o coração. “A música é como uma família. Seja pro branco, seja pro preto, ela faz a gente feliz”, afirma Luiz Carlos, completando que o talento de Éverton vem da própria dedicação do jovem. Assim como Éverton, milhares de jovens estão espalhados pelos morros desse país em busca de uma oportunidade. E a periferia, ao contrário do que muitos imaginam, pode impulsionar esses talentos. Para Adair, “o importante é que o músico estabeleça a relação com a periferia, porque lá tem compositores, artistas plásticos, cênicos, de circo”. Ou seja, para ele, é na periferia que estão os artistas do Brasil. Cláudio concorda e complementa dizendo ser preciso incentivar a arte e a música brasileira. “O lugar do samba é no Brasil todo. Tudo quanto é lugar do Brasil tem samba. Se tem samba até no Japão...”.



Bastião #15