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EDIÇÃO 18 // ANO 3 // 2014

JOVENS GRÁVIDAS PAULINA CHIZIANE MULHERES DA ESQUINA

bastiao.net


© Esta ilustração tem todos os direitos reservados.

DA CAPULANA, TRADICIONAL TECIDO QUE ENVOLVE O CORPO DAS MULHERES MOÇAMBICANAS E REPRESENTA A CULTURA DO PAÍS, VEIO A INSPIRAÇÃO PARA A CAPA DO BASTIÃO. A REVISTA E A MULHER SE FUNDEM NA ARTE DE LETÍCIA HEGER. FB.COM/OHOHLELE

SONHADORA, CURIOSA, ENVERGONHADA. VAIDOSA E ENCALHADA. SÃO AS VIRGENS DE JOTAPÊ PAX. PRA CONHECER MAIS O TRABALHO DELE, ACESSA WWW.PAXART.ORG


// EDITORIAL

No fim das contas, sou um híbrido ou uma modificação genética que não deu certo, um ser pela metade, um “quase lá” que nunca chega. Sou, isso sim, um rabisco do ser mulher. O ensaio que nunca é bom o bastante. Não sou a santa que meu pai, irmão, marido, padres e pastores desejam. Como pretendo sustentar a família, a moral e os bons costumes? Que mulher é essa que não tem o instinto natural das lidas da casa? Que não usa seu sexto sentido para saber a hora de trocar os lençóis sujos e deixar as roupas em ordem? Eu penso em sexo, desejo, tenho tesão e busco sempre saciar todas as minhas vontades da pele, do corpo... Mulher, mas mulher de verdade, é conquistada, espera, é misteriosa. Mulher não sou, não faz sentido. Sou tão pela metade que sinto vergonha dos quilos, pelos, seios, da cor e das pernas – todos meus, mas não de mulher, não do tipo bonito, do tipo de verdade. Sinto medo... Penso que meu desejo me liberta, mas todos me ensinam que não! Ele me reprime. Posso até expressar meu querer, mas de maneira feminina, comedida, delicada. Quando coloco o pé na porta e grito poder exigir, conseguir, conquistar, a resposta é soco na cara ou "veja bem, isso não é para você". A dor é a mesma. Preciso entender, nem tudo é para mim... Minha aptidão é cuidar, acolher. Liderar, mandar, chefiar? Jamais! Sei que um dia terei de escolher: família ou carreira? Certa vez recebi um grande elogio: “Você é tão boa no que faz quanto um homem”. Nunca esqueci. Um dia fui mãe e, aí sim, me senti completa como nunca. Finalmente... era mulher! Mas enfim me explicaram o engano: ainda não era mulher o bastante para ter um filho. Tiveram que me ajudar, então fui cortada, anestesiada, drogada e induzida. Vi (não senti) sair por entre minhas pernas um novo repressor. Homem? Não. O mesmo ser estranho, híbrido, indefinível que eu mesma fui e a quem eu também tentaria ensinar a cumprir seu papel: ser mulher. Ao fim, todo esforço de adequação valeria a pena. Em meu atestado de óbito constava claramente: “Mulher, parda, falência múltipla dos órgãos”.

Ser mulher de verdade.

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Veja Bem

paulina chiziane Redação André Lacasi Arthur Viana Carlos Machado Cíntia Warmling Douglas Freitas Gabriel Rizzo Hoewell Ingrid Haas Pilar Luiza Müller Nádia Alibio Sergio Trentini

Projeto gráfico KBUMM Design

DIaGRAMAÇÃO Ana Elizabeth Soares

Produção gráfica Gilberto Sena

Revisão Lisiane Andriolli Danieli

Capa Letícia Heger

Arte

MiniR repor ta gens

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foto

Especial

A BOLSA ROMPE; A TRAJETÓRIA SEGUE

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Reportagem

farol aceso na rua escura

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Ana Elizabeth Soares André Lacasi Nádia Alibio Ramiro Simch

Relacionamento Ana Paula Neri Luiza Müller

Fotografia André Lacasi Ingrid Haas Pilar

Colaboradores Insekto Jéssica Menzel Marcelo Hailer Jotapê Pax Tuane Eggers Vitor Teixeira

Comercial 51 8480.1360 // 51 3311.1025 Praça Júlio de Castilhos, 74/152 Porto Alegre – RS – Brasil

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A suBsTÂncIA EssEncIAL DO TRABALhO DE vITOR TEIXEIRA É A cRÍTIcA pOLÍTIcA E sOcIAL. nAs suAs OBRAs, ELA sE funDE À suA cRIATIvIDADE E TALEnTO. FB.COM/VITORTEGOM


// VEJA BEM paulina chiziane

Colonialismo, religiosidade, preconceito e feminismo nas palavras de Paulina Chiziane, a primeira romancista moçambicana

O ato de colonizar está nas mentes T

ambores vibram no palco da maior universidade privada de Moçambique. Sentada entre os sete músicos, Paulina Chiziane entoa um cântico evocando os espíritos dos ex-presidentes Eduardo Mondlane e Samora Machel. A música tem a intenção de convocar o passado para convencer os governantes atuais a firmar a paz no presente. Em um país extremamente formal, batucar dentro de uma instituição é uma quebra de tabu. Na verdade, lançar o livro Por que vibram os tambores do além, que conta a história do curandeiro Rasta Pita, dá sequência a uma série de rompimentos de paradigmas que Paulina acumula. Ela é a primeira mulher a lançar um romance em Moçambique (Balada de amor ao vento, publicado em 1990); na juventude foi militante do Partido Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique, partido de esquerda que lutou pela independência do país); é atuante no movimento feminista do país; e possui uma espiritualidade marcante. Por alguns, é chamada de radical. "As pessoas não estão habituadas a questionar. Quando alguém questiona, dizem logo que é radical", rebate ela, sem fazer muito caso. Em uma tarde quente de novembro, Aldino Languana, pintor moçambicano e documentarista, nos guiou de carro até o subúrbio da capital, Maputo, onde fica a casa de Paulina. Conseguimos marcar a entrevista após conhecer Aldino no lançamento do novo livro de Paulina e aceitarmos a contraproposta de nosso encontro ser filmado – ele está preparando o primeiro documentário sobre a escritora. Em pouco mais de uma hora, em um cômodo improvisado na sua sala, Paulina expôs sua visão sobre o colonialismo ocidental em Moçambique, criticou o ingresso de igrejas estrangeiras e de novelas brasileiras no país e expressou a importância de dar voz à quem normalmente não possui. Tudo de forma serena e sem o peso das obrigações. "Só os indivíduos eleitos ou nomeados que podem dizer que têm papéis ou deveres. Eu faço aquilo que posso fazer".

// Entrevista Douglas Freitas & Marcelo Hailer // Foto douglas freitas

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REVISTA BASTIÃO // JANEIRO OUTUBRO2014 2013

“O colonialismo já se foi há quase 40 anos, mas ainda não tivemos ´tempo´ para termos uma conversa um pouco mais aberta sobre a nossa própria identidade”

Para quem tu escreve, Paulina? No princípio – pois eu já estou na literatura há quase 25 anos –, eu escrevia pra mim. Lembro-me de ter escrito pequenos poemas em cadernos de escola, etc. Depois de certa evolução, publico um romance, que tem muito de íntimo, fruto da minha observação do mundo. E fui evoluindo até hoje. Chegado esse tempo, achei que chegava de me sufocar, de estar a pensar em criar, pois em qualquer esquina, em cada lugar, existem pessoas que têm algo para dar, algo para contar, mas não têm o domínio da leitura e da escrita, que é o caso do curandeiro Rasta Pita. Ele tem uma história magnífica para contar, mas é um indivíduo que aprendeu mais da tradição africana do que propriamente na escola formal. É claro que ele sabe ler ou escrever o básico, mas não para produzir um livro. Para mim, é muito mais fácil pegar um gravador, ouvir a história desse homem e transformar isso em um livro. Foi exatamente essa a tarefa que eu fiz. Mas também não foi só por isso. Eu sou uma pessoa que percebe um pouco das raízes, da identidade e, portanto, acompanho esse conflito que existe entre o pensamento ocidental e o pensamento africano. Gosto de comparar os dois universos e acabei descobrindo que há muitos valores nossos, africa8

nos, que estão a desaparecer, pois as pessoas que detêm esse conhecimento não têm o domínio da leitura/escrita. E então decidi, sobretudo com esse curandeiro, emprestar a minha escrita para alguém contar a sua história. Se for olhar para o livro, da maneira que está formado, é uma biografia dele, a sua visão de mundo, mas escrito por mim. No lançamento, tive a oportunidade de conversar com alguns curandeiros que se surpreenderam, porque a maior parte das pessoas que fazem o doutorado, o mestrado, a licenciatura em áreas como antropologia, para conseguir o seu diploma, vão buscar os conhecimentos nessas pessoas. São perguntas, são questionários muito leves, muito superficiais, mas a partir do conhecimento dado pelo curandeiro, o indivíduo da academia europeia consegue o seu diploma. E essa é a primeira vez, segundo eles, que um escritor coloca um curandeiro em um patamar de visibilidade. As pessoas de Moçambique não conhecem o curandeiro. O que se sabe, se lê sobre eles, foi escrito por antropólogos e sociólogos no tempo colonial. É a visão eurocêntrica falando sobre um africano. Depois surgiu alguns outros livros um pouco melhores sobre esse tema, mas ainda são textos de academias ocidentais, com uma série de estereótipos para descrever esses indivíduo.

É impressionante como muitos moçambicanos frequentam o curandeiro, usufruem do seu saber, mas escondem ou renegam. Por quÊ? Todos os africanos frequentam o curandeiro pelo menos uma vez na vida. A razão é bastante simples: existem soluções que a medicina ocidental não tem. Ao meu ver, a medicina ocidental é quase mecânica, vai tratar do coração, do pé, do olho. Enquanto que a medicina tradicional vai muito mais longe. Portanto, quero até usar as palavras desse curandeiro. Para se tratar um doente, é preciso ter três níveis: o nível do indivíduo, o da sociedade e o de deus. Primeiro, ele faz o diagnóstico, lançando conchas ou pedras e pergunta aos espíritos o que diz o olho dessa pessoa a si própria, o que diz o olho do mundo e o que diz o olho de deus. O curandeiro, para tratar do doente, tem a dimensão individual, vai para a social e também tem a espiritual. A relação doente-curandeiro é diferente da relação doente-médico. O médico está ali, faz o seu trabalho perfeito, mas olha apenas pelo lado do indivíduo que está doente e, de vez em quando, da sociedade que o rodeia. A outra dimensão espiritual não faz parte do mundo ocidental. Todo o ser humano tem um quê de religiosidade, porque há momentos na vida em que tudo que nos rodeia


// VEJA BEM PAULINA CHIZIANE

“O racismo interno em Moçambique é questão econômica”

falha, aí necessitamos acreditar em uma força suprema para poder resistir. Conheço casos de indivíduos que foram diagnosticados com cancro, por exemplo. Uma doença fatal. Essa pessoa sabe, de antemão, que a medicina não tem uma solução para ele; que a sociedade não tem uma solução para ele. Mas, se esse indivíduo tem fé, numa dimensão maior, consegue resistir melhor, pois tem algo de transcende que o segura. E aí entra a figura do curandeiro, que é muito forte. No mundo ocidental, depois do médico, as pessoas vão buscar o padre. Aqui não, quando a pessoa entra nessa fase, busca-se o curandeiro, que faz o indivíduo circular nesse mundo além da matéria.

conversa um pouco mais aberta sobre a nossa própria identidade. Nesse momento, as grandes pressões partem das igrejas, que, para mim, são centros de superstição, mas também são centros de tabus, porque são elas que trazem com muita força essa ideia do diabólico, do satânico. Claro que nas nossas tradições também temos o medo do feitiço, dos feiticeiros. Nós já possuímos essas superstições nefastas, por que as igrejas têm que trazer mais? Para mim tudo que são igrejas de fora, como Assembleia de Deus, Igreja dos Doze Apóstolos, entre outras, trazem dentro de si uma ideologia colonizante. Só que não são tão agressivas como a Igreja Universal.

Mas por que ainda há aversão, por que é um tabu? É devido À influência estrangeira, À influência direta de um saber ocidental?

Tu acha que a Igreja impede que a sociedade avance, no que diz respeito, por exemplo, à valorização da mulher e à causa homossexual?

Para mim, começou com a influência do ocidente. E essa pressão continua! E continua em um país independente, através daqueles que se julgam conhecedores do saber científico. Então, quem faz maior pressão hoje são os próprios moçambicanos, e não o colonialismo que já foi. O colonialismo já se foi há quase 40 anos, mas ainda não tivemos "tempo" para termos uma

Para mim, a igreja tem coisas boas. Não há dúvida. Eu faço críticas às igrejas em apenas determinados aspectos. Na história da África, na história de Moçambique, nós encontramos igrejas que dão formação, dão educação, que amparam os órfãos, que fazem uma série de ações sociais importantes. Mas, ao mesmo tempo, trazem uma mentalidade colonizante. Portanto, eles

dão, mas fazem com que as pessoas que se beneficiam e as comunidades em volta deem os seus próprios valores em troca, para olhar apenas para aquilo que é o pensamento ocidental. Então isso não é muito bom!

A senhora viu algum avanço da luta feminista no rompimento de algumas dessas tradições? As coisas estão a melhorar, não posso negar. E falando da minha experiência, quando eu tinha 18 anos, o sonho de uma mulher era casar e ter filhos; ter um empregozinho, casar e ter filhos; fazer um enxoval e noivar. Ou ainda fazer um enxoval e ficar sentada à espera que apareça um noivo. Esse foi o meu tempo de 18 anos. Passados cerca de 40 anos, a situação mudou muito. As mulheres já partem para uma situação melhor, para um profissão melhor. Lutam pela sua própria autonomia. Mesmo nas zonas rurais, em que a tradição é muito forte, se hoje se pergunta a uma mãe o que sonha para a sua filha, ela vai dizer que queria que fosse à escola para ter um emprego amanhã. O que é diferente de 20 anos atrás, quando a mãe dizia que agora que a filha cresceu tem que iniciar os rituais para achar marido e arrumar a vida. Hoje a visão mudou. Portanto, é lento, mas há mudanças.

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REVISTA BASTIÃO // JANEIRO OUTUBRO2014 2013

“Há muitos valores nossos, africanos, que estão a desaparecer, pois as pessoas que detêm esse conhecimento não têm o domínio da leitura/escrita” Me impressionou muito o racismo interno de Moçambique, essa supervalorização do branco. Isso é uma questão econômica, que tem a ver com toda a estrutura de vida que foi deixada pelo sistema colonial. Portanto, vai levar um tempo para se apagar, por isso mesmo é necessário continuar a dialogar à volta desses assuntos. Aqui não se vê isso. Eu trabalhei na Zambézia [província a 1600 km da capital], onde a realidade é bem mais crua. Os melhores postos de trabalho, as melhores posições, casas, são de mestiços e dos negros. E eu escrevi um livro, O alegre canto da perdiz, que fala muito sobre isso, que me chocou profundamente. Porque a questão do racismo, muitas vezes nós olhamos como alguma coisa que vem do branco. Não é verdade. O livro que escrevi fala de uma mulher negra que teve dois maridos: o primeiro negro, com quem teve dois filhos, e o segundo, branco, com quem teve dois filhos. Portanto, ela tem 4 filhos: dois negros e dois mulatos. E o que ela faz? Transforma os dois filhos negros em subalternos dos mestiços. E ela dizia: “Os filhos mestiços são especiais, os negros não”. Porque o pai branco oferece rendas e sedas, pão e queijo, enquanto que o pai negro só oferece bananas e cocos. É uma 10

questão econômica. E isso não é fantasia, eu encontrei uma família assim. Os filhos mulatos são proprietários de bombas [postos] de combustíveis, de empresas, são pessoas ricas, enquanto os negros são serventes dos mulatos. E quem faz a gestão da vida é a mãe negra, que é mais escura que os próprios filhos. Então, a atitude dos próprios filhos não tem a ver com o individuo, é uma questão de poder. Se nós recebêssemos por igual – pretos e brancos – não haveria isso que vocês viram. Claro, o moço que está a trabalhar sabe que ao servir um branco vai receber uma gorjeta, e ao servir um negro não recebe nada. É só por isso.

Tanto o investimento estrangeiro quanto a intervenção cultural são muito fortes aqui em Moçambique. A senhora acha que isso acaba influenciando muito nos rumos que o país toma? Exatamente. Eu não acredito muito nos doadores. Se eles dão, é para tirar alguma coisa. Não sei o que lhes encoraja a dar, porque não há ninguém que dá para nada. Esse país é conhecido há muitos anos e sempre se soube o potencial que Moçambique tem. A partir dos anos 1940, dos anos 1950, sabe-se que o nosso país é rico em petróleo. Sabe-se. É ver-

dade que os estudos anteriores não eram tão desenvolvidos como os estudos que hoje se fazem. Então, os indivíduos ou as instituições que doam é porque sabem que amanhã poderão tirar benefícios. Estão a comprar o país. Nós não temos capacidade técnica nem mão de obra para controlar petróleo, nem gás, nem ouro, nem nada. Não temos nada disso. E os que vêm explorar, vêm, extraem e vão-se embora. A gente não sabe o que tiram, o que fazem. Então, não sei.

Como você vê a aproximação do Brasil com Moçambique – assim como com outros países da África? Eu acho uma aproximação essencial. O Brasil não seria Brasil se a África não existisse. Ah, isso está claro. Quanto às empresas brasileiras, eu não conheço muito as atuações delas, então não vou dizer muito, mas às vezes é bom fazer essas críticas, que é para prevenir os problemas que podem vir no futuro. Ora, o Brasil é uma potência, o Brasil é forte e quando chega a um país como o nosso pode haver tendências para colonizar, pois a colonização não está restrita à Europa, é uma questão humana. O indivíduo tem tendências de suprimir o outro. E isso é algo que se tem que prevenir.


// VEJA BEM PAULINA CHIZIANE

“Tudo que são igrejas de fora, como Assembleia de Deus, Igreja dos Doze Apóstolos, entre outras, trazem dentro de si uma ideologia colonizante” Como as novelas brasileiras chegam a Moçambique e como elas influenciam na criação de um imaginário da sociedade, principalmente dos jovens? Acho que vocês estão aqui há algum tempo e devem ter observado as novelas que aqui passam. O gerente da empresa, na novela, o milionário, o cientista são brancos. O carregador, o matador são pretos. Há uma mudança nos últimos tempos, não sei a partir de que ano, mas agora, por exemplo, há uma novela em que uma branca tem uma amiga mestiça. E passeiam juntas, vão a festas, vão a lugares públicos juntos. Isso não se via nas primeiras novelas que apareciam aqui. A negra ou a mulata faziam as limpezas. Era bem isso, a mulata na prostituição, nas drogas. A negra a varrer, o negro a carregar, a cozinhar, a servir. E o branco em um status muito mais alto. Há uma tendência para a mudança, há um pincelamento nas últimas novelas, mas muito pouco mesmo. Portanto, a imagem que se passa é realmente a de um Brasil branco e poderoso. Isso cria um estereótipo de um Brasil diferente. E achei muito interessante essa abertura com o Brasil que permite que nós, com muito mais facilida-

de do que antes, nos desloquemos até lá e nos comuniquemos com os brasileiros, porque nós conseguimos captar a imagem do verdadeiro Brasil. Antes não era possível, nós criávamos a imagem de um Brasil parecido com a Europa. Quando, afinal, as coisas não são assim.

Já que a senhora acha que a morte é só uma passagem de mundo, o que acha que deve deixar aqui – se é que precisa deixar algo aqui? (Risos) Acho que a esperança de vida em Moçambique são uns 35 anos [de fato, segundo o Banco Mundial, a expectativa de vida é de 49,5 anos (2011)], eu tenho 58, então já estou fora do prazo (risos). Estou no lucro, então acho que fiz o que pude fazer. O que eu deixo não sei. Não sei se aquilo que andei a fazer tem algum valor. Mas tenho essa preocupação de deixar alguma coisa.

Fora escrever e pensar novos projetos, o que você gosta de fazer? Sentar na minha varanda, olhar o vazio e tomar o meu copo de cerveja. (Risos)

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Inovação social + artivismo Que equação é essa? Sonhar com o impossível e realizar o que for necessário – esse é o objetivo do Visionários da Cidade, um percurso voltado para a realização de projetos de inovação social através da economia criativa e do artivismo.


Visionários da Cidade O Visionários da Cidade é um percurso integrante do TransLAB, um laboratório cidadão e ambiente de co-criação para quem acredita no poder de transformação das pessoas. A atividade utiliza-se da observação urbana, da crítica social, da aprendizagem e da co-criação para multiplicar as possibilidades de transformação social. A proposta é preparar pessoas, ferramentas e suportes, para colocar os projetos de impacto positivo na rua. Da criação de ações artivistas à prototipação de novos potenciais negócios sociais, serão 8 encontros de trabalho intensivo e muita mão na massa. Os encontros serão na casa Duplan 146 (Rua Professor Duplan, 146. Bairro Rio Branco, Porto Alegre/RS).

Vem participar! Envia um email para oi@translab.cc. Conta pra gente tuas motivações, expectativas e experiências. Investimento: entre R$600 a R$900 (quanto tu sentires que vale) Condições: parcelado em até 04 vezes Se tu tens desejo de participar, mas não tem condições de investir agora, não tem erro. Pensa em alguma alternativa e nos envia uma proposta.

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www.translab.cc fb.com/transvencaolab oi@translab.cc 51. 41011960


// FOTO DOUGLAS FREITAS

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REVISTA BASTIÃO // JANEIRO 2014

A BOLSA ROMPE; A TRAJETÓRIA SEGUE // Texto e reportagem Arthur Viana, Gabriel Rizzo Hoewell & Sergio Trentini // Fotos Creative Commons

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// ESPECIAL

CC BY 2.0/Sari Dennise

Geração após geração, adolescentes engravidam. o ciclo, entretanTo, pode não implicar na quebra da trajetória de vida das mães

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REVISTA BASTIÃO // JANEIRO 2014

A camisinha que estoura, ou sequer é usada, a menstruação que não vem. A barriga que cresce. A bronca da mãe e o desespero do pai – mas ainda é uma criança! –, ambos esquecendo que não muitos anos antes eram eles que engravidavam antes da hora. Meninas desde cedo preparadas para a maternidade, cuidando dos irmãozinhos e da casa, engravidam e completam um ciclo incômodo, que faz com que jovens – em especial as de baixa renda, com pouco acesso a métodos contraceptivos – tenham filhos antes mesmo de deixarem de ser criança e de possuírem estrutura para ser mãe. A gravidez na adolescência, nesses casos, pode não implicar em ruptura de planos de vida: apenas são parte de uma trajetória diferente da imaginada pela classe média e consequência do que o meio oferece.

A

barriga redonda que parecia não combinar com o rosto daquela jovem menina sinalizava os oito meses de gestação. Ainda assim, Aline, 14 anos, falava com autoridade sobre o bebê que estava por vir, demonstrando uma maturidade precoce, talvez forçada pela gravidez. Ela conta que foram os pais que descobriram que ela estava grávida: “Eles notaram que eu estava mais redonda e desconfiaram”. Exames confirmaram mais tarde que o chute fora certeiro: Aline já estava com cinco meses e meio de gestação. Questionada sobre a reação dos pais com a descoberta, a jovem esboça um sorriso; a mãe, Ana Carla, sentada próxima, interfere e responde pela filha: “Não foi fácil, abalou a família. Mas estamos entendendo”. Para ajudar nos cuidados ao bebê que está por vir, Ana Carla cogita mudar de emprego e ter, assim, um turno livre, podendo ficar em casa mais tempo, auxiliando no que for necessário. Não que Aline peça por ajuda, afinal ela diz que a gravidez não assusta e que sabe cuidar de criança, lembrando que ajudou na criação da irmã mais nova, de 8 anos. Mas a jovem mãe ainda precisa ir para o colégio – em 2014, ela vai cursar o primeiro ano do Ensino Médio – e, nesses momentos, o bebê precisará de alguém. No caso, Ana Carla. A gravidez veio após uma relação sexual sem camisinha com o namorado, Leonardo. Aline não tomava pílulas contraceptivas. A jovem conta que a gravidez não afastou o casal: eles estão juntos há um ano, mesmo com a resistência de Ana Carla. A mãe de Aline se resigna e diz aceitar o relacionamento, uma vez que não pode impedilo. “A família do pai é muito humilde. Ele é um menino

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pobre que mora com a avó aposentada, e não trabalha. Eu acho que ele não vai assumir e, se for assim, prefiro que suma. Quanto menos problemas pra nós, melhor. Condições de criar a gente vai ter, sempre se dá um jeitinho”, ela afirma. Mãe de três filhas (Aline é a mais velha, as outras têm 12 e 8 anos), Ana Carla sabe bem se virar nessas situações: além de também ter sido mãe cedo, aos 19 anos (“naquela época era diferente”, se defende, acrescentando que já estava casada desde os 17), ela já teve uma creche em sua casa, onde cuidava de oito crianças simultaneamente, e, ainda criança, aos 9 anos, ajudou no parto do sobrinho, que nasceu em casa. Aline vai ter um menino, o João Gabriel. Mexendo no celular, ela mostra fotos do quarto dele, que já está pronto. A parede azul, o berço e a banheira com trocador esperam pela criança.

Evasão escolar é anterior Assim como Ana Carla diz que ela e Aline “darão um jeito”, Vitória, 16 anos, também não demonstra medo do bebê que já pede passagem (são nove meses de gestação). Quando perguntamos sobre a questão financeira, ela responde que vai “estudar e trabalhar, que é o melhor que eu faço”, acrescentando que seu marido trabalha e ajudará nas despesas. Apesar de o estudo e o trabalho serem “o melhor que faz”, Vitória não está realizando nem um nem outro no momento. “Larguei o colégio na sétima série, de ‘sem vergonha’ que sou”, conta, revelando planos de voltar para a escola em 2014. Uma pesquisa elaborada e executada em 2008 por


Uma pesquisa elaborada e executada em 2008 por pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Universidade Federal da Bahia, da Federal do Rio Grande do Sul e do Institut National d'Etudes Démographiques, de Paris, aponta que os jovens pais pobres não ficam excluídos da escola e do trabalho por causa da gestação: eles já estão fora desse meio antes mesmo da gravidez. A Gravad, como foi chamada a pesquisa, mostrou que 40% das mulheres e 48% dos homens que tiveram o primeiro filho com até 19 anos já não estavam mais no sistema escolar e assim permaneceram. Entre as mães, 18,4% pararam completamente de estudar e, entre os pais, 14,8%. Vitória mora no bairro Navegantes e divide a casa com a tia, Solange, o tio, um primo e o marido. Não faltarão cuidados para a Isadora, nome da menina que vai nascer em breve: Vitória diz ter experiência com bebês, pois ajuda a cuidar de seu irmão de 2 anos desde o seu nascimento. Solange, que é na verdade tia-mãe de Vitória, pois cuidou dela desde que esta saiu do hospital pela primeira vez, também auxiliará nos cuidados à pequena Isadora. A mãe de Vitória a entregou ainda bebê para Solange porque não teria condições para criá-la, uma vez que trabalhava e o pai bebia demais, além de ser usuário de drogas. Nessa época, a mãe de Vitória tinha “vinte e poucos anos”, conta Solange, mas a primeira gravidez dela foi mais cedo, aos 14 anos.

CC BY 2.0/inorganica

// ESPECIAL

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REVISTA BASTIÃO // JANEIRO 2014

Trajetória de vida é uma construção social Hanna, 15 anos, descobriu no último novembro que estava grávida. Não foi surpresa: durante uma relação sexual com o namorado, a camisinha havia estourado, o que deixou a jovem preocupada. Ela não usava nenhum anticoncepcional. Para a avó, Eloí, a gravidez da neta também não foi nenhuma novidade, afinal, ela nunca estava em casa; dizia sempre estar na casa das amigas. “Agora está feito, não adianta se escabelar”, se conforma a avó. Hanna também foi concebida cedo – seus pais tinham 18 anos. Mães jovens acabam por se tornar avós antes da hora, um ciclo incômodo que as histórias de Aline, Vitória e Hanna comprovam. Para a professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Andréa Fachel Leal, trata-se de uma questão anterior à gravidez. Tendo que trabalhar, muitas mulheres deixam as crianças mais novas aos cuidados da filha mais velha, e assim as meninas vão sendo “socializadas” para serem mães. “Com muita frequência, quem está em situação de maior vulnerabilidade está sendo socializada para ser mãe. Elas vão aprendendo, têm atribuições domésticas, cuidam dos irmãos. As meninas não sofrem tanto a ruptura”, diz Andréa. A concepção de “ruptura” na gravidez adolescente, aponta a professora, aproxima-se muito do projeto de vida pensado pela classe média. “A trajetória de vida constituída por estudos seguidos pelo casamento e, depois, pela gravidez é uma construção social que nem sempre condiz com a realidade”, afirma. Os planos são outros e se adaptam ao que o meio oferece. Em populações mais pobres, a gravidez durante a adolescência pode não ser indesejada. Em alguns casos, essa é uma forma de passagem para a vida adulta e de reconhecimento social. Este pode ser um valor muito mais importante do que a carreira escolar, por exemplo. “A maternidade pode ser um valor. Se não oferecermos perspectivas concretas para a menina, aquilo é interessante”, completa a professora.

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“A trajetória de vida constituída por estudos seguidos pelo casamento e, depois, pela gravidez é uma construção social que nem sempre condiz com a realidade”

Aborto clandestino mascara números Responsável pelo Programa de Assistência Integral à Gestante Adolescente (Paiga) no Hospital Materno Infantil Presidente Vargas, em Porto Alegre, Ezaltina Panziera conta que o acesso ao aborto clandestino por parte das jovens de classe mais alta mascara os números da gravidez na adolescência. Meninas mais pobres acabam obrigadas a lidar com a barriga e o bebê. Táticas preventivas, afirma a médica, são insuficientes: “Muitas vezes falta anticoncepcional nos postos de saúde”, diz. Ezaltina afirma que as farmácias mais próximas às principais escolas particulares de Porto Alegre estão entre as maiores vendedoras do medicamento. Andréa corrobora a visão de Ezaltina: “A invisibilidade da gravidez na adolescência entre as classes mais altas se dá pelo fácil acesso ao aborto um pouco mais seguro”, afirma. Segundo pesquisa de 2010 da Universidade de Brasília (UnB), o índice de mulheres que abortam, independente da idade, é significativo em todos os estratos: 23% delas ganhavam até um salário mínimo, 31% de um a dois, 35% de dois a cinco e 11% mais que cinco. A Pesquisa Nacional de Aborto (PNA), também de 2010, ressalta o risco que abortos clandestinos representam: segundo o estudo, 55% das mulheres que fizeram aborto ficaram internadas em razão do procedimento. A PNA indica que o aborto é tão comum no Brasil que, ao completar 40 anos, mais de uma em cada cinco mulheres já fez aborto.


// LITERATURA

NO RITMO DELA // por Sergio Trentini

O

problema é encarar a máquina mercado sem tremer. A máquina mercado assusta qualquer um. A máquina mercado come até pequenos judeus. E pra cada judeu a máquina mercado exige três chineses pequenos e ágeis para limpar suas válvulas das tripas. A máquina mercado execra seus membros e coloca pequenos chineses pra limpar. A máquina mercado está totalmente posicionada à direita, mas gosta de dançar para a esquerda. Dois pra lá, um pra cá. Valsa. A máquina mercado dança valsa em carteiras de couro e neurônios que saibam o nome de mais de seis tipos de sapato. A máquina mercado dança pra caralho. A máquina mercado dança com quem quiser dançar com ela. Se você quiser, é só segurar na cintura da máquina mercado, ela nem parece se ofender quando sua mão escorrega. A máquina mercado não se ofende. A máquina mercado te tira pra dançar. A máquina mercado deixa escorregar a mão pela sua cintura. Você se ofende. A máquina mercado te ofende. A máquina mercado te obriga a dançar com ela. Dois pra esse lado, dois pra trás. Tango. A máquina mercado dança tango com você. Você acaba se divertindo. Tudo bem. Você está acostumado a dançar com ela. Que bom. No ritmo dela. A máquina mercado nem deve comer judeus e chineses. A máquina mercado é boa. O problema é encarar a máquina mercado sem tremer.

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REVISTA BASTIテグ // JANEIRO 2014 // FOTO TUANE EGGERS

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© Esta ilustração tem todos os direitos reservados.

// LIVRARTE

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REvIsTA BAsTIÃO // OuTuBRO 2013

FAROL ACESO NA RUA ESCURA

// texto e RePoRtageM JÉssIcA MEnzEL & nÁDIA ALIBIO // fotos InGRID hAAs pILAR // ilustRações nÁDIA ALIBIO

Na avenida, o fluxo constante, o trânsito caótico, os barulhos dos carros e das pessoas se misturam num ruído incompreensível. Eles seguem rápido, sem parar e com pressa de chegar. A rotina segue todos os dias igual. Amanhece. Anoitece. Ali perto, nas ruas paralelas, o ritmo é outro. As buzinas dos carros já não são tão altas. Na parte escura das ruas, rostos se escondem. O corpo é iluminado pelo rastro dos faróis. Dá para sentir o silêncio. Silêncio de uma exposição velada. 24


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o sonHo da casa viRa a esquina

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ivian tinha dois sonhos. Queria ser bailarina quando criança e se formar em engenharia elétrica na juventude. Ela estudou um ano de contabilidade por causa de seu bazar. A loja foi montada com o dinheiro que adquiriu ao longo dos três anos de boate e seis de avenida. Foi com a prostituição que Vivian comprou seu carro, construiu sua casa e abriu a loja. Alguns sonhos foram deixados pra trás.

Nasceu no Rio de Janeiro, mas veio parar em Porto Alegre, anos depois, onde conheceu seu primeiro marido. Foi ele quem sugeriu que ela fosse trabalhar na boate, para ajudar a terminar de construir a casa em que os dois morariam juntos. Ele faleceu e Vivian ficou com as dívidas da casa para terminar de pagar. Sua opção foi a prostituição. Do casamento, veio Reizinho, seu maior orgulho. “Reizinho não aceita, mas respeita. Se ele teve estudo, se formou na faculdade e tem as coisas que precisa esses anos todos, foi através do meu trabalho.” Sentada na esquina, Vivian tem tatuado na perna o nome do filho. É a única parte da sua vida fora das ruas que está à mostra. As roupas curtas, os decotes, a maquiagem carregada e o salto alto são seu uniforme de trabalho. Vivian sai de casa de calça comprida e rasteirinha. Na esquina já veste seu traje: “Não vou ganhar nada de calça comprida.” Na boate em que Vivian trabalhou, beber era regra. Era uma maneira de realizar os desejos dos clientes e de incentivar o consumo do bar. Esse foi o motivo pelo qual Vivian foi trabalhar na rua; ela não usa drogas e não queria ser obrigada a beber para trabalhar. “Tu ganha muito mais lá dentro, e as lá de dentro são mais bemvistas. Aqui tem tanta mulher drogada, tanta mulher que sai com traficante. Então nós não somos bem-vistas aqui fora, mas trabalha muita gente legal aqui pra construir alguma coisa como eu e algumas que eu conheço.” A autonomia da rua tem seus contras. Vivian não aceita que controlem o ponto. Só vai pagar por

ele quando vierem com um papel provando que compraram a rua. Enquanto a rua for pública, ela não aceita se submeter a cafetões. Já houve uma tentativa de lhe cobrarem pelo seu local de trabalho, Vivian denunciou. No fórum, recebeu um pedido de desculpas por parte da cafetina. Cordialmente, ela retirou a queixa e apertaram as mãos, mas as leis das ruas funcionam de outro jeito: ao sair do fórum, um grupo já aguardava Vivian para o acerto de contas. Ela apanhou tanto que perdeu o bebê de três meses que estava esperando. Na avenida, um carro para. Vivian vai receber os três universitários, mas não eram clientes. Eles apontam um extintor de incêndio para o rosto de Vivian e atiram. Foram 26 dias com tampões nos olhos e uma lesão na retina queimada pelo pó químico. “Prestei queixa, só quis provar pra eles que eu sou tão humana quanto qualquer outro. É como queimar um mendigo. Por que queimar um mendigo? O que ele fez pra ser queimado? Por que ele é um mendigo? Não, não existe isso aí. Isso é preconceito. Quando morrer, todo mundo vai virar pó igual. Preto, branco ou amarelo”, diz Vivian. Na delegacia, a mãe de um dos garotos fala ao delegado: “Meus filhos nunca foram parar em uma delegacia e vem parar por causa de uma puta?”. Em maio, Vivian fez 42 anos. No mesmo mês saiu da avenida para viver o sonho do casamento. O relacionamento não deu certo e ela voltou à rua, mas ainda espera achar seu “pé torto”. Vivian segue nas esquinas com o objetivo de guardar um dinheiro para manter seu negócio: “A loja ainda não tá me

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dando lucro. Se eu não depender dela agora, eu consigo colocar ela do jeito que eu quero, cheia de mercadorias. Aí eu deixo um dinheiro guardado lá no banco para caso houver algum problema, para quando eu largar, largar de vez.” Começa a anoitecer na Avenida Farrapos. É só o começo do expediente de Vivian.

NA RUA UMA PESSOA, EM CASA OUTRA Ciça é discreta, não desfila, e espera os interessados parada, calma, ouvindo música no seu fone de ouvido, mascando chiclete. Ela tem 32 anos e trabalha há 5 na rua. Prefere trabalhar na avenida por não precisar cumprir horário – e pela independência. Ciça não paga nenhum cafetão. Prática e séria, não é de muitas palavras. Sua postura se difere das outras, “eu tô quietinha no meu canto. Com fone de ouvido, analisando o movimento. Eu não chamo, se o futuro cliente quiser ele vem falar comigo. A questão da segurança vai muito da postura da menina. Também é aquela coisa: não se misturar com gente que não presta. Se afastar de droga, se afastar de bebida. Já diz o ditado ‘diga com quem andas que te direi quem és’.” Ciça conheceu seu marido num programa. Eles se apaixonaram e casaram. “Nós estamos juntos há quase dois anos. Como ele sempre diz: aqui na rua tá uma pessoa, ao lado dele é outra. Tem que ter esse discernimento. Lá eu sou uma mulher casada, eu sou mãe, eu sou dona de casa. Aqui é a profissional.” Ciça não saiu das ruas mesmo 26

casada. “A coisa que eu mais quero é sair daqui, mas é aquela coisa: onde vou conseguir um emprego que me pague o que eu ganho aqui? A prostituição tinha que ser ‘legalizada’, sem sombra de dúvida. A gente tá aqui pra trabalhar. Não somos vagabundas, não pensa que isso daqui seja vida fácil, porque não é. É uma carga horária alta, e não temos nenhuma garantia.” Ciça se preocupa com o futuro, em como vai ter sua aposentadoria. Mesmo ajudando nas contas dos familiares, ela ainda lida com o preconceito deles. “A família do meu atual marido virou as costas pra mim por causa do meu trabalho. Eu pensei em me separar por causa disso, porque acabou dando muito conflito. A relação dele com a família – que já não era das melhores – ficou pior ainda por minha causa. O meu maior sonho é que o preconceito acabasse. Minha família sabe que eu me prostituo, mas não falam sobre isso. Pra eles eu sou a pessoa mais errada do mundo. O preconceito é muito grande. A gente paga um preço muito alto por isso.”

POR NÃO QUERER LEMBRAR DE COMO CONSEGUIU O DINHEIRO, NÃO GUARDOU NADA Enquanto nenhum carro parava, ela retocava o esmalte. Já era noite, mas ainda cedo para o trabalho. Bem-humorada e sorridente, Daiane nos pede para nos encontrarmos outra hora. A conversa veio uns dias depois, na padaria que Daiane sempre frequenta. Ela pediu o de

sempre: uma empadinha de frango e um café com leite. Apesar de muito diferentes, o clima que se estabeleceu era o da confidência feminina. Começamos perguntando como Daiane começou a trabalhar nas ruas. Ela coloca mais azeite de oliva na empada, talvez para tirar aquele gosto amargo da boca e lembra: “Faz tempo, mas nunca vai sair da minha memória. Eu tinha uns 17 anos, vivia uma situação complicada com a minha mãe e fui viver num abrigo, mas também não me adaptei lá. Eu tinha um namorado, estava apaixonada, era virgem e nós transamos uma vez e ele terminou comigo – ainda me disse que era noivo depois da nossa primeira e última noite de amor. Entrei em depressão. Eu tinha uma amiga que fazia programa na Borges de Medeiros, fui morar com ela e eu precisava ajudar a pagar as contas, então decidi que ia fazer o que ela fazia. Talvez por querer me punir ou por ver ela ganhar horrores de dinheiro. Eu não tinha experiência, então fomos naqueles cinemas pornô pra eu aprender como fazer a mão. Meu primeiro cliente era um velho, gordo, o cheiro dele era nojento. Eu só conseguia chorar. Enquanto ele tirava minha calcinha, eu só conseguia chorar. Ele não percebeu. Era a segunda vez que eu fazia sexo. Não era assim que eu tinha imaginado. Ele acabou, deixou o dinheiro – 150 reais –, foi embora. Foi uma das minhas primeiras experiências com sexo, foi horrível. Quando eu vi que podia conseguir coisas com isso, me deslumbrei. Pela primeira vez na vida tinha dinheiro pra fazer o que eu quisesse: comprar perfume, ir a restaurantes, comprar


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roupas. Eu comecei a gostar. Então quando eu fiz 18 anos, passei a trabalhar em boate. O problema é que quem trabalha lá precisa consumir droga e bebida. Eu morava lá também. A casa abria às duas horas da tarde e fechava às cinco da manhã. Eu cheirava pra aguentar tanto tempo de trabalho – trabalhava de segunda a segunda. Me diverti muito, fiz muita festa, usei muita droga, quase não dormia. Eu precisava sair de lá. Então consegui juntar uma grana e ir morar com uma amiga. A gente tava perdida, viajando na batatinha, se drogando muito. Era pra eu ser podre de rica, eu ganhava mil por noite, mas nada durava muito tempo na minha mão. Eu poderia guardar aquele dinheiro, mas eu queria gastar ele logo para não lembrar de como tinha conseguido ele. Passei anos em uma casa noturna, mas a maior parte do dinheiro ficava com a dona. A escolha de vir trabalhar na rua foi por ninguém ficar com lucro pelo meu trabalho, mas foi difícil conseguir este ponto, cada esquina tem seu dono, seus limites e suas regras. Essa esquina aqui eu conquistei, não roubei de ninguém. Não é fácil se virar na rua, a polícia não protege, muito pelo contrário. Assim, o cafetão é quem te cuida, te defende. É complicado

pra quem tá começando, o ambiente é hostil, tu tem que ter uma cabeça muito forte. O que rege esse mundo é a sobrevivência. Cada dia é uma batalha. Tu não tem certeza se vai voltar pra casa quando entra num carro pra fazer o programa, mas a gente se protege, conheço todo mundo que trabalha aqui, em bar, loja, boteco e na rua, mas a gente nunca sabe o que vai

acontecer. Tem pessoas que não estão procurando sexo, mas alguém para quem contar suas frustrações. Não tenho vergonha do meu trabalho, sei que é importante. Já salvei muito casamento, inclusive. Sou quase uma psicóloga, às vezes alguns clientes me procuram para desabafar, não só pelo sexo, mas por não conseguirem conversar com suas esposas. Esse é meu trabalho, mas não a minha vida. A minha vida é meu guri, que entrou agora na escolinha, ele tá aprendendo a escrever, é o meu maior orgulho. Depois que ele nasceu, eu passei a ver as coisas mais claras, fiquei mais responsável. Eu sei que eu tenho alguém que depende de mim me esperando em casa. É por ele que eu vivo.”

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MINIRREPORTAGENS Em 1960, o Brasil tinha 38,3 mil quilômetros de ferrovias. Restam hoje 29,8 mil quilômetros. A extensão da malha é semelhante à da África do Sul, país 7 vezes menor que o Brasil, e à da França, 15 vezes inferior.

A cada 11 cadeiras no Congresso Nacional, uma é ocupada por mulher. É a menor proporção da América do Sul. Na Argentina, a cada 3 cadeiras, uma é feminina.

1/4 da população carcerária brasileira está na cadeia por alguma relação com entorpecentes.

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Arte: Ramiro Simch

O imposto que incide sobre a bicicleta no Brasil é de 40,5%. Sobre os carros, o tributo é de 32%.

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Em 2013, o Governo Federal arrecadou R$ 4,7 bilhões com a Mega-Sena. No período, foram realizados 106 sorteios, nos quais foram distribuídos R$ 1,5 bilhão em premiações. O lucro do Governo com a loteria no período foi de R$ 3,2 bilhões.


// MINIRREPORTAGENS

Para cada R$ 1 exportado em bananas, o Brasil exporta R$ 8,81 em armas e munições. O Brasil é o oitavo maior exportador de armas e munições, respondendo por 3,23% da exportação mundial.

413,4 mi $ R 51,6 mi R$ 27,8 mi R$

Os maiores compradores de armas e munições do Brasil são EUA, Cingapura e Estônia. O Brasil responde por 5,88% das importações de armas e munições dos Estados Unidos, sendo o sexto maior exportador para o país. Das armas e munições que chegam a Cingapura, 3,79% são brasileiras. O Brasil ainda é o maior exportador do setor para a Estônia, respondendo por 63,69% das importações do país europeu.

Países em conflito também importam armas brasileiras. O Brasil responde por 11,7% das importações de armas e munições da Colômbia. É o segundo maior exportador para o país. O Brasil responde por 11,48% das importações de armas e munições do Paquistão. É o terceiro maior exportador para o país.

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Para entender melhor esses números, acesse bit.ly/minirreportagens18 29 29


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Revista Bastião #18