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editorial

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ossa entrevista especial com Martinho da Vila traz o tema da negritude. A valorização da cultura negra é, para Martinho, uma necessidade, assim como uma missão. A cor da pele estigmatiza negros e negras por todo o território nacional. Mesmo que insistamos no eterno mantra de que em nossa miscigenada população não existe discriminação étnica, a repetição da mentira não a torna verdade. Em tal contexto, a ignorância e, sim, o preconceito se mostraram mais do que vivos. Neste começo de ano, viu-se universitários e vestibulandos, tomados pela ilusão da meritocracia (que prega tratamento igual a realidades desiguais), criticarem pesadamente o programa de cotas na Universidade. Uma reforma em todo o sistema educacional é sim necessária, mas não se pode desconsiderar as gerações que sofreram o descaso histórico que manteve nossas escolas públicas, professores e jovens abandonados. Vagas na universidade pública não são questão de mérito, mas de direito e oportunidade. Oportunidade aos discriminados bisnetos da escravidão e aos demais flagelados por um sistema retrógrado que deixa ricos mais ricos e pobres mais pobres. Hoje, vemos o início da justa democratização do conhecimento. Que essa jornada não pare no meio do caminho.

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O artista visual Antonio Vasques nos ajudou a derrubar mais uma barreira: a dos gêneros. Nunca tínhamos visto o Bastião tão feminino como aí em cima. Adoramos. www.last-at-least.deviantart.com

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torre à vista! Redação Arthur Viana, Carlos Machado, Cíntia Warmling, Douglas Freitas, Gabriel Hoewell, Gilberto Sena, Luciano Viegas e Luiza Müller Projeto gráfico e editoração Ana Elizabeth Soares e Ramiro Simch | Revisão Lisiane Danieli Capa Ramiro Simch | Arte André Lacasi, João Filipe Padilha, Lucas Monteiro e Ramiro Simch Relacionamento Ana Paula Neri, Maurício Pflug e Samantha Diefenthaeler Colaboradores Carolina Timm, Rodrigo Steiner e Paulo H. Lange Web www.bastiao.net | www.twitter.com/revista_bastiao | www.facebook.com/revistabastiao Tiragem Mil e quinhentos exemplares Praça Júlio de Castilhos, 74/152 - Porto Alegre - RS - Brasil | (51) 3311.1025 | Janeiro de 2012


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Entrevista Gabriel Hoewell, Luciano Viegas e Luiza Müller Se ao pisar o solo teu coração disparar Se entrares em transe sem ser da religião Se comeres fungi, quisaca e mufete de cara-pau Se Luanda te encher de emoção Se o povo te impressionar demais É porque são de lá os teus ancestrais

Luciano Viegas

KIZOMBA: A FESTA DE MARTINHO

Samba dos ancestrais Martinho da Vila

val da Record. Martinho é autor de mais de uma dezena de livros, entre biografias, temáticas da negritude e política. Além disso, é um dos artistas mais importantes do Brasil e teve importância diplomática nas últimas décadas do século XX, quando promoveu a ligação Angola-Brasil, além de outros países africanos. E, como se não bastasse, foi o primeiro sambista a ultrapassar a marca de um

milhão de cópias vendidas. Mesmo assim, é melhor falar com ele. Bastião - Uma das tuas primeiras canções é O pequeno burguês. Baseado nessa música, escrita há muitos anos, queria que tu falasse da tua avaliação sobre a situação da educação e do acesso a ela hoje. Martinho - Hoje está muito melhor, nem se

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O brasileiro é herdeiro sociocultural da África. O Brasil, um grande kizomba – festa de identidades, união de cores, confraternização dos orixás e santos padroeiros. Nosso país é filho do continente coração do mundo; Martinho da Vila é um dos guardiões dessa herança. Além de palavra de dialeto angolano, Kizomba também é o nome dado aos Encontros Internacionais de Arte Negra, promovidos durante os anos 1980 e 1990. Uma das grandes cabeças pensantes que trabalharam por essas reuniões culturais (e, acima de tudo, encontros de afirmação) foi Martinho, o da Vila. Que vila? Vila Isabel. Lá, Martinho, o partideiro devagar, também é grande. O compositor foi responsável, em parceria com outros letristas, por alguns dos mais conhecidos sambas-enredo da escola, como Sonho de um sonho, de 1980, exemplo de poesia batucada e que rendeu o título à Vila Isabel. Ainda no clima natalino de dezembro, o Bastião conversou com Martinho. O discípulo de Noel Rosa não estava em seu habitat: deixara o Rio de Janeiro para uma apresentação em Porto Alegre. Em princípio, pedimos que falasse de sua carreira, de início tardio. Bem humorado, o sambista retrucou entre risos: “Minha carreira está toda por aí, em tudo quanto é canto, é só ver na internet. É melhor do que falar comigo”. Pois bem, fizemos nosso tema de casa: o sambista surgiu no ano de 1967, no III Festi-


veja bem

Como é a situação hoje, então? O acesso é mais fácil. A universidade é muito cara, a particular, né? Já as federais, estaduais – municipais nem sei se tem por aqui – foram criadas mais para as pessoas carentes, que não podiam pagar a universidade, os oriundos de escola pública, mas acontece que não funciona assim. A maioria de vocês que têm condição melhor e estudaram em colégios melhores concorrem e ocupam as vagas. E a política de cotas? É por isso que existe a política de cotas; porque as vagas são ocupadas por pessoas mais privilegiadas. Então tu é a favor? Completamente. Hoje em dia foi implantado no currículo das escolas o ensino da cultura e história da África. Tu trabalhou muito nessa questão da ligação Brasil e África. Qual a importância disso? Há uns dez ou quinze anos, mais ou menos, vocês não tomariam conhecimento desse assunto. Não sei por que, o ensino brasileiro, e a formação de maneira geral, ocultaram tudo relativo à África. O pessoal da minha geração, por exemplo, estudou muito o Egito, a América, a história da Europa, em particular Portugal e Espanha. Tinha que saber até a data de nascimento do “Rei não sei tal” (risos), mas a África não existia. Aí vieram os movimentos negros, que brigaram muito por isso, e hoje está nos colégios e até nas universidades. E o projeto Kizomba? O Kizomba foi feito nesse sentido também, por-

que havia vários segmentos no movimento negro, e cada um com uma linha de atuação. Eu incorporei o Kizomba na linha da cultura e da informação, pra gente fazer, além de música e essas coisas, também debates sobre isso.

“Em Vila Isabel, para os moradores, a escola de samba é tudo” E dentro dessa ideia de integração dos países africanos tem o teu CD, o Lusofonia, com artistas de todos os países de língua portuguesa. Por que fazer essa aproximação cultural? Se conhecer é fundamental. O intercâmbio cultural, de maneira geral, é fundamental. Como eu tinha uma intimidade grande com os países africanos, principalmente os de língua portuguesa, eu resolvi fazer aquele CD. A gravadora não queria, foi uma dificuldade porque ninguém tinha conhecimento do assunto, e depois eu fui descobrir que eles não queriam porque era um assunto que eles não dominavam (risos). Depois que eu lancei e conversando com vários colegas seus [jornalistas] que vieram me entrevistar sobre o assunto, vi que não sabiam absolutamente nada. Aí eu escrevi um livro, Os lusófonos, porque interessava explicar um pouco. Porque as pessoas não sabiam! “Cabo Verde o que é? São Tomé e Príncipe são duas ilhazinhas pequeninhas que nem a Nicarágua e tal...” (risos). Mas hoje a informação já avançou bastante. E, na tua visão de artista e de negro, qual é a situação do negro no país hoje? Ela já avançou bastante. Falando um pouquinho dos movimentos negros, tivemos várias fases. A primeira fase era a de reclamar. Os primeiros ativistas eram aqueles que tinham coragem de reclamar. Aquilo era um ato de coragem – lamentar. Depois se passou para uma fase de protestar, a fase Abdias do Nascimento e tal. Depois veio a fase da afirmação: lutar para que se conheça a cultura negra, a importância do negro no Bra-

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sil, essas coisas todas. É nessa fase aí que eu entro. Foi a luta cultural, vocês devem notar que o movimento negro hoje é mais tranquilo, porque hoje a luta é por inclusão social, o pessoal quer mesmo é trabalhar (risos), quer emprego, quer igualdade, entendeu? Ainda há um monte de empresas, aqui mesmo [Rio Grande do Sul], que não emprega negro. Esse que é o grande lance. O Brasil tem uma certa cultura de vender turisticamente para os outros países que no Brasil não há preconceito. Houve um tempo que só se falava isso. Hoje não. Hoje não se fala mais isso. A gente fez muito movimento nesse sentido, até os governantes reconhecerem isso, até criarem secretarias voltadas pra isso. Martinho, eu queria falar um pouco da tua relação com a Unidos de Vila Isabel. Qual a importância da escola não só pra ti, mas também para a comunidade? A escola de samba tem muita importância também nessa luta contra os preconceitos de uma maneira geral. A posição que ela teve... ela era uma atividade marginal, depois foi ganhando posição e todo mundo que chegava era bem recebido. A escola inclui em suas fileiras negros, gays, tudo (risos). Os grandes carnavalescos quase todos eram gays. Num desfile de escola de samba, na mesma ala, tem gente de classes sociais diferentes, de raças diferentes... Isso foi uma postura que ajudou muito. E a escola tem importância também dentro de sua comunidade. Em Vila Isabel, para os moradores, a escola de samba é tudo. Hoje que está começando a chegar o poder nas favelas, mas pra eles a escola é tudo; é o clube, é onde se encontra, se festeja aniversário... Essa pacificação promovida pela polícia, na tua avaliação, é positiva? Claro, com certeza. Ela está muito atrasada, devia ter sido feita há muito tempo. Pra finalizar, então: Já teve mulheres de todas as cores, de várias idades e muitos amores? Não, isso é só na música (risos).

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compara... Eu fiz aquela música num tempo em que houve um movimento chamado “explosão universitária”. Todo mundo resolveu fazer vestibular. O grande problema era os excedentes, inclusive nas faculdades particulares. Então, as pessoas faziam vestibular, tiravam nota alta, mas não alcançavam o número de vagas. Hoje é outro tempo, nem se compara.


André Lacasi

“Hoje a luta do negro é por inclusão social, o pessoal quer mesmo é trabalhar, quer emprego, quer igualdade”

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especial

EM BUSCA DO BOM SENSO Reportagem André Lacasi, Gabriel Hoewell e Luciano Viegas Texto André Lacasi e Gabriel Hoewell Na década de 1970, Tim Maia pregou a Cultura Racional, constatou que somos seres extraterrenos e que todos devem ler o Universo em desencanto. Hoje, a cultura fundada por Manoel Jacintho Coelho ainda segue viva e se mostra muito maior do que se imagina.

Manoel Jacintho Coelho. Tempos depois, fazia milagres: aparecia simultaneamente em vários lugares, curava moléstias incuráveis, flutuava... Tais relatos, presentes na biografia de Pai Manoel, escrita por Jorge Elias, lembram a história de Jesus Cristo. “São dois avatares, cada um a sua época cumprindo a sua grandiosa missão” compara a estudante Vera Cabrera. Em 1933, quando um arco-íris de luzes cintilantes apareceu em frente a Manoel, uma voz anunciou: “A fase do pensamento está para terminar”. Uma mudança se aproximava e ele seria o mensageiro de um novo mundo – racional, real e verdadeiro. A partir de 1935, o mundo não seria mais governado por energias elétricas e magnéticas, mas pela Energia Racional, o raciocínio. Obedecendo aos pedidos do chamado Racional Superior, o “Grão-Mestre Varonil”, Manoel, “o maior homem do mundo, homem sábio e profundo”, foi semear conhecimento escrevendo o Universo em desencanto, obra base da Cultura Racional e composta por infindáveis mil livros. Centenas de milhares de páginas divididas entre Obra básica, Réplica, Tréplica e Históricos.

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eia o livro Universo em desencanto”, assim filosofou Dom Maia. Tim filosofou, leu, leu mais um monte e atingiu o bom senso. Pregou a Cultura Racional pelos quatro cantos do mundo – por Guiné-Bissau, Moçambique e Angola. Durante aproximadamente um ano, Tim Maia entrou de cabeça na cultura do cosmo, do Mundo Racional. Cortou a maconha, o álcool, a barba, o cabelo e o bigode. Seguiu subindo o morro, não para buscar drogas, mas para divulgar a Cultura Racional. Na metade da década de 1970, o síndico do Brasil tornou popular a cultura fundada pelo carioca Manoel Jacintho Coelho, em 1935. Até hoje, os ensinamentos de Pai Manoel são conhecidos basicamente por aqueles que acompanham a obra de Tim Maia. A Cultura Racional, no entanto, ainda sobrevive firme e se mostra muito maior do que aparenta ser. Para que se tenha noção da dimensão: mais de 30 livrarias racionais vendem, em todas as regiões do Brasil, a obra escrita por Manoel, inúmeros estudantes – assim se definem aqueles que acreditam e estudam a cultura –, participam das diversas bandas racionais espalhadas pelo país e uma sede em Nova Iguaçu (RJ), reúne dezenas de milhares de pessoas várias vezes ao ano. A história que encantou Tim Maia e que é sabida de cor pelos estudantes, começa em 30 de dezembro de 1903. Naquela noite, o Rio de Janeiro viu uma estrela azul descer do céu e os sinos tocarem, enquanto todos se abraçavam nas ruas: uma nova era de amor e bem se anunciava. Acabara de nascer o Cavaleiro da Concórdia,

André Lacasi

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PR’ONDE VAI E DE ONDE VEM Bumbos, pratos e metalizados acordes ressoam pelos corredores do Centro de Comunidade Parque Madepinho, zona sul de POA, na manhã de sábado. É a banda Racional Universo em Desencanto, que ensaia os cânticos que são apresentados em praças por todo o Brasil para divulgar a Cultura Racional. Ao menos no ensaio, nada de Tim Maia, mas sim hinos racionais, como Os guerreiros ou Apoteose racional. Na banda, as mais variadas idades representam a diversidade presente entre os estudantes. Aqui ninguém é superior ou inferior, todos são iguais e todos contribuem para a construção da música e do conhecimento acerca do universo. A diversidade é uniformizada pelas roupas brancas – do boné aos calçados. Nas camisetas, símbolos racionais estampados. Em algumas delas, discos voadores indicam a resposta para as mais clássicas e atordoantes questões da vida: “de onde viemos?”, “quem somos?” e “para onde vamos?”. A resposta, cantou Tim Maia, está no livro: “Nele sei o que fui e o que sou./ Como também de onde vim e pra onde vou./ Vou me ligando ao meu mundo natural./ E me afastando do fluido animal”. O que Sebastião transformou em samba, Vera Cabrera, responsável pela livraria racional Quero-quero, explica com a facilidade de quem estuda a cultura a 12 anos. Estamos no mundo de passagem. Nosso fluido – eterno – veio ao mundo aprisionado em nossos corpos. Na realidade, o fluido seria oriundo de outro plano, extraterreno: um Mundo Racional. “A Terra é o fundo do poço”, diz Vera. E explica: quando passamos desse plano para a Terra, nossa energia se


André Lacasi

divide em sete partes, que originam o Sol, a Lua, as estrelas, a água, a terra, os animais e os vegetais. São as partículas de energia desses seres que formam o que somos. Durante essa passagem, no entanto, nos degradamos, graças às forças elétricas e magnéticas. Segundo os estudantes, é para isso que precisamos da leitura do Universo em desencanto; é somente assim que estimularíamos o raciocínio e atingiríamos a Imunização Racional. A explicação científica estaria na glândula pineal, ou epífise. A ciência tradicional ainda desconhece todas as suas funções, mas sabe-se que atua na regulagem de ritmos biológicos (como o sono) e regulagens fisiológicas (como a reprodução). Em tamanho, é como um grãozinho de ervilha localizado entre os dois hemisférios do cérebro, bem ao centro, e é chamada pelos estudantes de “Célula Racional” ou “Glândula do Raciocínio”. Contudo, ela não está presente apenas na Cultura Racional. Ao longo do tempo, já teve vários nomes: “Sede da Alma”, “Glândula do Saber”, “Olho Pineal”, “Antena Humana”, entre outros. O fato é que muitas culturas acreditaram ou ainda acreditam nas potencialidades dessa glândula. Para os hindus, é um centro de força que acumula e distribui energias pelo corpo; para os ocultistas é o responsável pela vidência, telepatia e mediunidade. Seria como um olho, um terceiro olho, que enxergaria o interior de nossas mentes e o mundo espiritual, servindo como um elo entre eles; para os estudantes, têm um significado ainda maior: é o que nos dá capacidade de raciocínio, é a ligação com o Mundo Racional, para onde deveremos retornar quando estivermos suficientemente evoluídos. Ela nos mantém em contato com ele e nos permite ouvi-lo – e aqui podemos reaplicar o conceito de antena. E é nesse contato, desenvolvido através da leitura do livro, que a glândula começaria a se desenvolver, assumindo suas verdadeiras funções e abrindo caminho para o mundo de origem, o Mundo Racional. Para levar a cultura que Tim Maia levou a James Brown e John Lennon, estudantes já traduziram o Universo em desencanto para as mais di-

versas línguas – do italiano ao árabe, do alemão ao japonês. Se para o síndico do Brasil a Cultura Racional foi só uma febre passageira, que proporcionou um ano de intensa produção musical, inspiração, fanatismo e, em muitos mo-

mentos, de loucura em excesso até para seus padrões, para milhares de estudantes ao redor do mundo, os livros de Manoel Jacintho Coelho continuam servindo de luz para a Imunização Racional.

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ANTES QUE EU MORRA E SEJA FAMOSO A saga dos escritores independentes texto e reportagem Arthur Viana e André Lacasi

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ublicar um livro, hoje, é razoavelmente fácil. Razoavelmente caro, também. É cada vez menor a chance de que uma editora tradicional leia um texto e aceite custear os processos de edição, impressão e divulgação da obra. Elas preferem se manter fiéis a nomes de talento já reconhecido, e o espaço para apostas diminui publicação após publicação. Uma prática cada vez mais difundida é o “selo” – a editora não banca os custos do livro, apenas orienta e encaminha o escritor durante o processo de publicação. Em tempos modernos, a internet, que insiste em ter respostas para tudo, se mostra uma alternativa viável para que novos nomes fujam da indesejada independência: editoras online vendem livros pela rede e as obras são impressas apenas quando alguém efetua uma compra. Existe, ainda, uma última opção: imprimir o livro diretamente em gráficas especializadas, sem intermediários, situação onde o escritor é, também, vendedor da sua obra. Aí está um grande problema enfrentado pelos novos autores: depois que o livro é publicado, ele precisa ser vendido. Sem o suporte de uma editora, parar nas prateleiras das grandes livrarias é tarefa árdua. O que leva a outro obstáculo enfrentado pelos escritores de nome desconhecido: a mídia. Os lugares ao sol já estão todos ocupados, e os veículos de comunicação em

geral tendem a mantê-los assim. Não há esforço para que novos nomes sejam introduzidos nesse espaço que é centrado em um grupo privilegiado de artistas, e a oportunidade de descobrir novos talentos acaba deixada de lado. Neste cenário pouco animador, há aqueles que buscam proporcionar um espaço para a divulgação de novos trabalhos. É o caso do presidente da Sociedade Partenon Literário, Benedito Saldanha. Ele trabalha todos os anos com novos autores, organizando antologias de escritores que procuram a entidade no intuito de terem seus textos publicados. Dizer “novos autores” não faz referência à idade, explica Saldanha. Ele diz lidar tanto com adolescentes espirituosos quanto com idosos que decidem tornar real um sonho juvenil. Trazendo contos, crônicas e, principalmente, poesias, esses autores são incentivados a dar continuidade a seus trabalhos, sendo que muitos, após a publicação coletiva, tomam coragem e partem para publicações individuais. Além disso, o Partenon Literário organiza diversos eventos culturais, como o Sarau Com Ritmo, que reúne artistas para interpretação de poesias, debates e apresentações musicais, buscando fomentar discussões literárias e difundir o gosto pela leitura. Saldanha é funcionário público e tem seis livros publicados. Escrever, explica, não é sufi-

ciente para o sustento familiar. Nesses anos todos trabalhando com escritores, jamais chegou a ver algum de seus colegas alcançar a façanha de viver dos livros. Muito pelo contrário, testemunhou a falta de retorno financeiro causar muitas desistências. “Viver apenas de livros é cada vez mais uma utopia”, relata. Alguns poucos nomes consagrados da literatura podem se dar a esse luxo. E não dedicar-se inteiramente a carreira de escritor não é exclusividade dos neófitos: Lygia Fagundes Telles era advogada, Guimarães Rosa foi médico e Drummond, farmacêutico. Em estados como São Paulo e Paraná, com leis de incentivo à cultura mais abrangentes, novos escritores encontram formas diferentes de apoio para suas publicações e, até mesmo, maior receptividade na hora das vendas. Não é raro que novos artistas vendam seus trabalhos na rua, no boca a boca. Já em Porto Alegre, segundo Saldanha, a prática da abordagem direta é bem menos comum, recebendo um respaldo inferior ao de outras partes do país. A diferença também se mostra nos grandes eventos culturais, como na Bienal de São Paulo, onde é permitido aos escritores que exponham e vendam suas obras sem grandes burocracias. Na Feira do Livro de Porto Alegre, essa prática só é permitida mediante parceria com livrarias, que sugam boa parte do lucro


Independência por opção DUBLIN - Vem da Irlanda um bom exemplo: Pat Ingoldsby, escritor e poeta que vende seus livros pelas ruas de Dublin. Ex-celebridade, é arredio com a mídia: “A única coisa que eu tenho a dizer para um jornalista”, disse ele no nosso primeiro encontro, já olhando para outro lado, “é que não tenho nada a dizer para um jornalista”. Foi só depois de explicada a independência do Bastião que a bengala carregada firmemente em suas mãos deixou de ser uma ameaça e a gargalhada forte, quase um latido, mostrou quem era de fato aquele exótico senhor. “Eu gosto de coisas independentes”, disse, antes de mais uma estrondosa risada. A raiva aos jornalistas não é gratuita: por muitos anos, Ingoldsby foi apresentador de TV e colunista de um jornal de grande circulação na Irlanda. Porém, a falta de liberdade o incomodava. “Prazos, prazos, prazos. Tudo tinha prazo”, reclama, lembrando dos dias apressados nos estúdios televisivos. Uma vida rápida e pouco reflexiva no jornalismo o levou à literatura, mas foi outro motivo que o levou às ruas: “Na rua eu tenho contato com pessoas. Não são jornalistas que vêm aqui; não são médicos; são pessoas”. Pessoas essas que acabam virando personagens das suas poesias, desde o policial que o aborda desconfiado de que estaria vendendo produtos ilícitos até o mais casual transeunte, tudo é poesia para esse irreverente senhor. Ao ver o reflexo das nuvens em um prédio envidraçado, ele diz: “Eu as vejo ali, presas àquele prédio. Eu sei que não podem sair. As nuvens viram a esquina e seguem seu caminho, aprisionadas”. Ingoldsby optou pela independência das ruas. Optou pelo contato direto com o consumidor. Tem sua própria editora, a Willow Publications, nomeada em homenagem a um falecido e estimado gato. (Gatos que exercem papel importante na organização: são os gerentes da empresa.) Com toda a estranheza que se espera de um grande artista, é na sua loja a céu aberto que

Ingoldsby resiste à perversa realidade do mercado editorial, vendendo seus livros, conhecendo pessoas e se divertindo. Para atrair a freguesia, faz uso de uma publicidade nãoconvencional: como sabe bem que não é qualquer senhor simpático que atrai os olhares na rua, Ingoldsby pendurou cartazes com dizeres como “alerta de saúde: todos esses poemas contêm imaginação” e “compre-me antes que eu morra e seja famoso” em volta de seus livros. A fama dos tempos de televisão ele recusou, e eu não vou esperar que ele morra para comprar um dos seus livros. Figura inspiradora, Ingoldsby é exemplo claro de que toda rua tem saída.

André Lacasi

das vendas, o que torna a empreitada financeiramente pouco vantajosa.

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SINDICALISMO EM TEMPOS DE CRISE Texto e reportagem: Carlos Machado e Carolina Timm

Rodrigo Steiner

“O ser humano constrói grandes civilizações através de seu trabalho”

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ano de 2011 foi marcado por vários movimentos sindicais pelo Brasil. Bancários, professores, funcionários do poder judiciário, das universidades federais, servidores da saúde, dos transportes, dentre tantos outros cruzaram os braços para reivindicar por melhores salários e condições de trabalho. Somente os professores estaduais de Minas Gerais ficaram 112 dias paralisados no ano passado. Segundo a professora Beatriz da Silva Cerqueira, coordenadora-geral do Sindicato Único dos Tra-

balhadores em Educação de Minas Gerais (SindUTE/MG), o movimento pedia apenas a implantação do piso nacional dos professores, que, em 2011, foi de R$1187 para uma jornada de 40 horas semanais. “A educação é prioridade para 10 em cada 10 candidatos a qualquer cargo público, seja no Poder Legislativo ou Executivo, mas a prática ainda é distante do discurso, as prioridades são outras”, afirma Beatriz. Em Minas Gerais, o piso salarial do magistério era de R$369. Na contramão dos movimentos sindicais, exis-

tem formadores de opinião que tentam caracterizar as atividades dos trabalhadores de forma preconceituosa, dizendo que o sindicalismo chega a ser um retrocesso para o país. Para o presidente da Força Sindical no Rio Grande do Sul, Cláudio Janta, essa tentativa de desgaste com o movimento sindical e com o trabalhador vem desde o início da reorganização dos Sindicatos no país, na década de 1980. “Nos rotularam de anarquistas, comunistas, baderneiros; e agora, com esses tempos modernos, nos chamam de


dinossauros, de atraso”, afirma Janta. Para o juiz do trabalho Francisco Rossal de Araújo, criminalizar o movimento sindical é um grande equívoco. “Os países mais desenvolvidos do mundo, casualmente, são os que têm o sindicalismo mais desenvolvido e são os que têm a negociação coletiva mais avançada”, rebate o jurista. Sobre a acusação de o sindicalismo ser o culpado pela não evolução do país, o juiz contesta: “também seriam culpados a concentração de terra em mãos de uma minoria e a concentração de riquezas, que não tem nada a ver com o sindicalismo”. Por conta da severidade da crise econômica atual, em âmbito mundial, o momento histórico não é favorável ao movimento sindical, sobretudo pelo agravamento do desemprego em vários países, principalmente os europeus, e pela descrença geral da população na capacidade dos governantes de encontrarem soluções eficazes para a crise nos próximos meses. Entretanto, os sindicatos foram grandes forças de influência nas grandes manifestações ocorridas em várias nações, no ano passado, como no Egito, onde representaram uma das maiores forças sociais no processo de luta por democracia (até então, os sindicatos eram fortemente reprimidos pela ditadura de Hosni Mubarack). Segundo Cláudio Janta, as razões das graves crises econômicas estão na falta de uma união entre os trabalhadores. “No Chile, na Espanha e em Portugal [países fortemente enfraquecidos pela crise econômica], existem sindicatos por empresas, por setores. Assim, os trabalhadores ficam divididos e não têm estrutura para nada. Nós pregamos a unidade na base. E a força vem da união”, afirma o presidente da Força Sindical/RS.

Sindicalismo e a crise econômica

marxismo, os governos militares reprimiram duramente as organizações sindicais. O ano de 1978 foi marcado pela volta do sindicalismo à cena brasileira: os trabalhadores da indústria do ABC paulista cruzaram os braços. Era um sinal de que eles não poderiam mais continuar vivendo à margem das negociações e da política nacional. Segundo Holzmann, a partir de então, surge um novo sindicalismo, reorganizado e livre da tutela estatal, liderado por figuras como Luiz Inácio Lula da Silva. Já no início da década seguinte, foram realizadas as primeiras conferências dos trabalhadores e foi criada, em 1983, a Central Única dos Trabalhadores (CUT).

As lutas sindicais A greve é um instrumento de pressão utilizado para que haja um melhor atendimento das reivindicações de uma categoria profissional. É possível estabelecer três razões fundamentais para as greves: salários, jornada de trabalho e condições de salubridade no local de trabalho. Segundo a coordenadora-geral do Sind-UTE/MG, “há um tripé indissociável [nas discussões trabalhistas]: organização sindical, negociação coletiva e direito de greve”. Para Carmen Padilha, diretora-geral do Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (SIMPA), “a categoria precisa estar na rua, pressionando e denunciando”. Por representar várias categorias, o SIMPA procura mobilizar os trabalhadores em seus próprios locais de trabalho, com a entrega de materiais e a convocação para as assembleias. Segundo a presidente do SIMPA, por conta do comprometimento da grande mídia com os patrões e os setores dominantes, o Sindicato procura dialogar diretamente com a população, para evitar a marginalização dos movimentos sindicais ou o silêncio dos meios de comunicação diante das paralisações e manifestações. “A mídia defende o Estado, a burguesia e os patrões”, salienta. Segundo o juiz Francisco Rossal de Araújo, apesar dos problemas e das acusações, o sindicalismo é um bonito fator social porque reúne trabalhadores. “O trabalho é o que modifica a natureza. É um dos fatores de produção; não existe riqueza se não houver trabalho”, afirma o juiz. “Por mais simples que seja [o trabalho], por mais humilde, ele é uma das expressões mais bonitas do ser humano. O ser humano constrói grandes civilizações, a vida, a dignidade de seus filhos através do seu trabalho”, complementa.

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A grave crise econômica que se alastra pelo mundo desde 2008 contribui para a diminuição do número de empregos, principalmente em empresas multinacionais. Para contornar essa situação, os sindicatos se organizaram para enfrentar as grandes corporações e garantir os direitos dos trabalhadores, que são os responsáveis por fazer a roda da economia girar. Para comprovar essa afirmação, basta comparar os dados das principais economias do mundo hoje e seus índices de desemprego. O Brasil, que ocupa a posição de sexta maior economia do mundo, ultrapassando a Inglaterra, em 2011, registrou 5,2% na taxa de desemprego, em novembro do ano passado, de acordo com a Pes-

quisa Mensal de Emprego (PME), do IBGE. Para o doutor em Economia Cássio Moreira, professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), “o emprego eleva a demanda agregada e, por consequência, pressiona a expansão do PIB [Produto Interno Bruto]”. Isso significa que, havendo emprego, a população consome mais e o país precisa produzir para arcar com este consumo. Já os países que acumulam os efeitos mais desastrosos da crise, onde a economia parou de gerar riquezas, são aqueles em que os índices de desempregos estão se tornando alarmantes. É o caso da Espanha, que encerrou 2011 com 23% da população desempregada e Portugal, com 13%. A Inglaterra está a caminho. No país da rainha Elizabeth, o desemprego já atinge 8,1% da população e faz com que os trabalhadores saiam às ruas para protestar contra as medidas neoliberais do governo. Foi para combater os excessos da economia liberal, dos empregadores e garantir o emprego com boas condições, que os trabalhadores começaram a se organizar em associações que pudessem os representar. A Revolução Industrial do século XVIII iniciou uma nova era nas relações trabalhistas do mundo moderno. Contudo, no Brasil, os sindicatos foram reconhecidos como uma instituição organizada apenas na década de 1930, quando Getúlio Vargas assumiu a presidência do país e criou o Ministério do Trabalho. Os sindicatos, então, passaram a ser vistos como um instrumento de mediação dos conflitos entre empregados e empregadores. Segundo a doutora em Sociologia Lorena Holzmann, professora da disciplina de Sociologia do Trabalho da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), apesar da inegável importância histórica que Vargas representou para as causas trabalhistas, é necessário ter em mente que os sindicatos já existiam antes da década de 1930, sem serem reconhecidos oficialmente e, em geral, ligados aos anarquistas e aos comunistas. “As primeiras organizações sindicais foram surgindo conforme a ascensão e o estabelecimento dos próprios setores de trabalho”, complementa. De acordo com os relatórios das organizações de defesa dos Direitos Humanos e das Comissões da Verdade, a classe sindical sofreu uma extensa perseguição durante as ditaduras civis e militares vigentes nos países do Cone Sul a partir da segunda metade do século XX. Sob a alegação de que era necessário proteger as nações contra o


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Paulo H. Lange


Bastiao #6