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Expediente Conselho Editorial Bernadete Teixeira Rita Ribeiro Orientação do Projeto Gráfico Joana Alves Organizador Rogério de Souza Projeto Gráfico e Diagramação Gustavo Barbosa Marina Campos Takeishi Douglas Mendonça Desenvolvimento da Marca Mariana Rena Priscila Lie Sasaki Coordenação do Centro de Estudos em Design da Imagem Genesco Alves José Rocha Andrade Apoio Laboratório de Design Gráfico - Escola de Design/UEMG Realização Núcleo de Design e Fotografia- Escola de Design/UEMG Editora Emcomum Estúdio Livre LTDA Escola de Design - UEMG Av. Antônio Carlos, 7545 CEP 31270-010 - Belo Horizonte / MG


EDITORIAL Este quinto número da revista Tangerine é marcado pela diversidade em um sentido amplo. O diverso marca cada ensaio e apresenta uma visão única de cada autor para os temas. Começamos por um ponto de vista particular pela vida noturna mineira nas imagens de Hermano da Matta. Em seguida, as criações insólitas presentes no preto e branco de João Amabile; a representação de misteriosas entidades infernais presentes nos trabalhos de Felipe Messias; a poesia visual nas formas corporais e no delicado olhar de Fernanda Salgado; a limitação técnica transformada em estilo por Lucas D’Ascenção; a abordagem peculiar sobre o corpo nas projeções de Érica Lopes; o registro de imagens inusitadas do tradicional bloco carnavalesco Banda Mole em vinte e quatro fotos selecionadas por Matheus Sá Motta; os múltiplos significados dos sentimentos que habitam as pessoas fotografadas por Rogério de Souza. E finalmente, como é já tradicional em nosso projeto, o registro da super bem-sucedida oficina oferecida à comunidade de Santa Luzia/MG, por meio da parceria firmada entre a Escola de Design/UEMG e a professora Roxane Sidney da IFMG. Tenham todos uma ótima leitura. Revista Tangerine.

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ÍNDICE 06. masterPLANO 24. Cabe a Beça 34. Os Sete Príncipes do Inferno


64. Fragmentos 74. Casulo 84. Ser no Corpo 94. 24 imagens sobre a Banda Mole 128. Ressignificaçþes (dualidades) 152. Oficinas 5.


MASTERp la n o Hermano Lamas

Esse ensaio fotográfico é na verdade uma coletânea de fotos feitas em diversos eventos do coletivo MASTERp la n o, grupo de pessoas que organizam festas de música eletrônica em Belo Horizonte. O interessante desses eventos é o seu conceito de festa-ocupação, que prioriza a experimentação da cidade. O intuito é ativar espaços não convencionais para realizar as festas e ocupar BH com eventos gratuitos e democráticos. Já ocuparam ruas, praças, viadutos, estacionamentos além de parasitarem eventos grandes como a Virada Cultural de BH e o S.E.N.S.A.C.I.O.N.A.L. Os registros foram feitos a partir das edições de Janeiro de 2016, com celular, devida a praticidade e a discrição do equipamento. As edições das imagens, também feitas com o celular, são experimentais e variam de acordo com cada festa.

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CABE A BEÇA João Pedro Amabile

A série reúne fotografias realizadas entre os anos de 2014-2016, que se esbarram pela sugestão (ou possibilidade) de resposta à uma das primeiras indagações recebidas pelo autor no início de sua trajetória: O que passa na sua cabeça?

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OS SETE PRÍNCIPES DO INFERNO Felipe Messias


O projeto teve sua origem no desejo de desenvolver um trabalho que dialogasse com os sete pecados capitais, mas partindo de uma abordagem que fosse além do óbvio e dos estereótipos já conhecidos. Nas pesquisas sobre o tema, cada pecado era associado a um demônio e, por meio do estudo das histórias desses demônios, surgiram abordagens interessantes de serem trabalhadas pela fotografia. O projeto se transformou em uma interpretação pessoal dos pecados em si, das histórias dos demônios e de suas próprias representações visuais já existentes.

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LÚCIFER “Como caíste desde o céu, ó Lúcifer, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações! E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo. E contudo levado serás ao inferno, ao mais profundo do abismo.” Isaías 14:12-15

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ASMODEUS “Ela tinha sido dada sucessivamente a sete maridos. Mas logo que eles se aproximavam dela, um demônio chamado Asmodeu os matava.” Tobias 3:8

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BELZEBU “E caiu Acazias pelas grades de um quarto alto, que tinha em Samaria, e adoeceu; e enviou mensageiros, e disse-lhes: Ide, e perguntai a Baal-Zebube, deus de Ecrom, se sararei desta doença. Mas o anjo do Senhor disse a Elias, o tisbita: Levanta-te, sobe para te encontrares com os mensageiros do rei de Samaria, e dize-lhes: Porventura não há Deus em Israel, para irdes consultar a Baal-Zebube, deus de Ecrom? E por isso assim diz o Senhor: Da cama, a que subiste, não descerás, mas sem falta morrerás. Então Elias partiu.” 2 Reis 1:2-4

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MAMON “Quem é fiel no mínimo, também é fiel no muito; quem é injusto no mínimo, também é injusto no muito. Pois, se nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras? E, se no alheio não fostes fiéis, quem vos dará o que é vosso? Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.” Lucas 16:10-13

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BELPHEGOR “Quando Lúcifer inicia sua rebelião contra o Criador, todos as hordas de anjos aliados ao Senhor pegam em armas para enfrentar as forças rebeldes, porém um dos anjos mais poderosos do paraíso se recusa à participar daquela batalha, seu nome era Bastiel. Bastiel, abandona o sétimo céu e segue as “terras posteriores” onde o combate ainda não tinha atingido. Porém quando a guerra acaba, e as forças celestiais encontram Bastiel, ele é considerado desertor e enviado ao Inferno. Após ser enviado ao Inferno, Bastiel é hostilizados pelas hostes infernais, porém Lúcifer, o Imperador do Inferno, acaba por firmar uma aliança com Bastiel, nomeando Belphegor.”

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AZAEL “O que trabalha com mão displicente empobrece, mas a mão dos diligentes enriquece. O que ajunta no verão é filho ajuizado, mas o que dorme na sega é filho que envergonha.” Provérbios 10:4,5.

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LEVIATÃ “Poderás tirar com anzol o leviatã, ou ligarás a sua língua com uma corda? (...) Eis que é vã a esperança de apanhá-lo; pois não será o homem derrubado só ao vê-lo? Ninguém há tão atrevido, que a despertá-lo se atreva; quem, pois, é aquele que ousa erguer-se diante de mim? (...) Na terra não há coisa que se lhe possa comparar, pois foi feito para estar sem pavor. Ele vê tudo que é alto; é rei sobre todos os filhos da soberba.” Jó 41:1-34

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FRAGMENTOS

Fernanda Salgado

‘’Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora. Continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto é um espetáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu.’’ Fernando Pessoa

Fragmentos perdidos de uma personalidade. Esta série foi inspirada em um estado de anulação que o ser humano se encontra em certos relacionamentos. Deixa-se que partes importantes se desfaçam em prol de outrem. Esta crítica, faz com que a artista ressalte fragmentos de corpos como possibilidades de reencontro quando identificados com fragmentos alheios. O outro é o motivo da perda e do encontro de si.

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CASULO Lucas D’Ascenção

o ser humano, encasulado em seus preceitos e seus estandartes. o corpo, andrógino, ósseo, prisão de desejos, que permeia entre o plural e o intrínseco. uma constante sobreposição de imagens, técnicas de glitch e o pensamento da dualidade do ser, suas transcendências e os contrastes do humano. este ensaio foi concebido no primeiro semestre de 2016, numa tarde de quarta-feira. agradecimentos à Ian Souza Barbosa e Giulia Brito.

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SER-NO-CORPO Érica Lopes

O ser humano é ser-no-corpo. O corpo é visto como habitável. A função do habitar se mostra primeiro no corpo e na psique, uma vez que um é habitado pelo outro. A proximidade desta experiência, o homem em sua totalidade, pode se abrir para a casa e habitá-la, estabelecendo uma relação entre corpo, espírito e casa. A casa deixa de ser física, ela se mostra como ponto sobre o qual construímos a nossa história e desbravamos o nosso mundo. Sintetiza se no verbo incorporar. Somos corpo em transformação. Este ensaio foi inspirado no livro “O homem e seus símbolos”, de Carl Jung.

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24 IMAGENS SOBRE A BANDA MOLE Matheus Sรก Motta


O carnaval é o momento de inversão dos rituais cotidianos, especialmente para os cidadãos comuns, que cristalizam, qualificam e quantificam suas relações, dividindo seu dia entre o cumprimento de suas obrigações e o descanso físico e psíquico. Neste momento, liberados de suas obrigações reorganizam as regras que orientam sua vida. Seu comportamento outrora condicionado e organizado é inundado pela teatralidade que expressa o abandono da rotina, muitas vezes opressora, do dia a dia. Essa transformação é parte de uma liturgia que demanda o abandono das postulações e hesitações comungadas no cotidiano, incorporando, neste movimento, um espírito aventureiro que almeja a imprevisibilidade como meta fundamental. A mais bela inversão carnavalesca, que pude testemunhar, no espaço do hipercentro de Belo Horizonte está inserida no tradicional Bloco da Banda Mole.

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Diferente de outros blocos que percorrem esta área, compostos por artífices da cultura, da intelectualidade e outras dimensões pequeno-burguesas, a Banda Mole tem uma adesão verdadeiramente popular. Uma atmosfera de paraíso artificial se instaura em Belo Horizonte, ao longo da Avenida Afonso Pena, entre as ruas Goiás e Bahia. Neste espaço, por algumas horas, a tradicional família mineira dissolve seus conservadorismos para ver e conviver com a diversidade social contemporânea. Personagens, outrora antagônicos, dividem a construção de uma atmosfera urbana utópica, onde a alegria prevalece. Que assim seja.


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RESSIGNIFICAÇÕES & DUALIDADES

Rogério de Souza

O Eu e o Outro a parte e o todo o subjetivo e o objeto o viver e o não viver o uno e o múltiplo o sentir e o afastar o próximo e o infinitamente distante o tempo e a ilusão do passado memória e fragmento Todas as pessoas em uma, toda a unidade fragmenta-se em muitas.

Participaram desta série: Tatiana Gabriella, Pâmela Kanoko, Estela Queiroz, Endy Andrade, Izabella Gonçalves, Franciele Gomes, Ani Fernandes, Jéssica (Teka), Mima Amie, Larisse Faria, Vitória Neves, Amanda Alves, Cristiane Leite, Tici Paiva, Milena Gomes, Yasmin Silveira, Jay Bo, Luiza Izabel, Patrícia Amaral, Betinha Gontijo, Rinara Pontes e Vanessa Rodrigues.


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PROJETO DE EXTENSÃO OFICINAS Como parte das atividades do NUDEF (Núcleo de Design e Fotografia), foram ofertadas duas oficinas de fotografia. A primeira no IFMG, com o tema “A fotografia como narrativa visual”, a outra aconteceu durante a primeira Semana Acadêmica de Arte e Design da ED/UEMG, com o tema “Mobgrafia: fotografia mobile e instagram”.


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Fotografias produzidas durante a oficina.


...“a fotografia como narrativa visual�

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Fotografias produzidas durante a oficina “Mobgrafia: fotografia mobile e instagram�


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O que pode a fotografia? Tatiana Pontes Um caminho possível para refletir sobre esta pergunta é inventar um diálogo entre autores distintos que se conectam por suas diferentes reflexões acerca da fotografia. Juntar fotógrafos, escritores e filósofos, fazedores e pensadores da fotografia num texto construído pela montagem, e que é absolutamente inspirado no Livro das Passagens de Walter Benjamin. Nesta obra inacabada, Benjamin se propõe a construir conhecimento como numa “constelação”, aproximando citações e trechos de autores distintos: “Método deste trabalho: montagem literária. Não tenho nada a dizer. Somente a mostrar. Não surrupiarei coisas valiosas, nem me apropriarei de formulações espirituosas. Porém, os farrapos, os resíduos: não quero inventariá-los, e sim fazer-lhes justiça da única maneira possível: utilizando-os (Benjamin). A apropriação desse método para pensar a fotografia gerou a pequena coleção de trechos a seguir, que também pode ser entendida como um diálogo imaginário entre os diferentes autores: Ela (a fotografia) nos abre, pela primeira vez, a experiência do inconsciente ótico, do mesmo modo que a psicanálise nos abre a experiência do inconsciente pulsional. [Walter Benjamin]. Toda fotografia é, antes de espelho, especulação, já que é essencialmente uma manipulação mais ou menos inconsciente. [Joan Fontcuberta]. As imagens técnicas (fotografias) não são espelhos, mas projetores: projetam sentido sobre superfícies, e tais projeções devem constituir-se em projetos vitais para os seus espectadores. [VilémFlusser]. A fotografia não nos indica a transparência da realidade, mas, ao contrário, sua opacidade, seu enigma, seu segredo. A longo prazo, ela nos ensina o que, por outras vias, ciência e filosofia nos trouxeram: não conhecemos o real, mas devemos interrogar e continuar a interrogar os fenômenos para ser menos cegos. [François Soulages]. Eu fotografo o que não desejo pintar e pinto o que não posso fotografar. [Man Ray]. Eu fotografo para descobrir como a coisa ficará depois de fotografada. [Garry Winogrand]. Toda fotografia é uma ficção que se apresenta como verdadeira. (...) A fotografia mente sempre, mente por instinto, mente porque sua natureza não lhe permite fazer outra coisa. (...) O bom fotógrafo é o que mente bem a verdade. [Joan Fontcuberta].


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As pessoas acreditam na realidade das fotografias, mas não na realidade das pinturas. O problema é que os fotógrafos também acreditam na realidade das fotografias. [DuaneMichals]. Fotografia é imagem, e imagens pertencem ao mundo da ficção. [Luiz Carlos Felizardo]. As fotos não mentem, mas também não contam a história inteira. [Paul Auster]. As fotos são indícios não só do que existe mas daquilo que um indivíduo vê; não apenas um registro, mas uma avaliação do mundo. [Susan Sontag]. Uma fotografia é um segredo sobre um segredo. Quanto mais ela te conta, menos você sabe. [Diane Arbus]. A fotografia é o retrato de um côncavo, de uma falta, de uma ausência. [Clarice Lispector]. Uma foto sempre esconde outra, atrás dela, sob ela, em torno dela. Questão de tela. Palimpsesto. [Philippe Dubois]. A fotografia é inclassificável. [Roland Barthes]. Tenho me interessado ultimamente, pela passagem do tempo dentro de uma fotografia. [Richard Avedon]. O tempo da fotografia não é o do tempo. [Denis Roche]. Ninguém jamais descobriu a feiura por meio de fotos. Mas muitos, por meio de fotos, descobriram a beleza. [Susan Sontag]. O passo entre a realidade que é fotografada na medida em que nos parece bonita e a realidade que nos parece bonita na medida em que foi fotografada é curtíssimo. [Italo Calvino]. No fundo, a Fotografia é subversiva, não quando aterroriza, perturba ou mesmo estigmatiza, mas quando é pensativa. [Roland Barthes]. É por isso que a fotografia é interessante: ela não fornece uma resposta, mas coloca e impõe esse enigma dos enigmas que faz com que o receptor passe de um desejo de real a uma abertura para o imaginário, de um sentido a uma interrogação sobre o sentido, de uma certeza a uma preocupação, de uma solução a um problema. [François Soulages]. Por entre essas citações, nas entrelinhas que surgem pela aproximação desses fragmentos, pode estar um conhecimento que, pela via das associações e conexões, evidencia que a fotografia, entre outras tantas possibilidades, pode traduzir e projetar; mostrar e esconder; registrar e fabular; encantar e enganar; reportar e manipular; narrar e mentir; memorizar e criar; inventar e documentar... Pode fazer ver, sonhar e perguntar.


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Tangerine #5  

Tangerine é uma revista de fotografia da Escola de Design-UEMG

Tangerine #5  

Tangerine é uma revista de fotografia da Escola de Design-UEMG

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