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“No mundo, existem dois tipos de pessoas: as normais e as insanas. Você pode ser normal e o mundo vai te aceitar facilmente, mas ser insano é bem mais divertido.” Tenho a sensação de que estou roubando essa frase de algum lugar, mas não consegui achar de onde, portanto, não a tomem como minha. É a segunda vez que falo de insanidade aqui, neste editorial, por isso começo a me perguntar: isso é realmente importante? Claro que sim, não há na nossa equipe um indivíduo normal, um ser controlado, uma pessoa que não tenha traço de doença mental. Somos um prato cheio de diagnósticos, não é a toa que temos até nosso próprio psiquiatra, não é mesmo, RodolfoL. Xavier? Mas nós escolhemos ser assim. Escolhemos sair da normalidade, para fugir do senso comum, para conseguirmos desenvolver raciocínios que a sanidade limitaria logo no início. Ir além em problemas que não necessariamente existem, essa é a essência dos escritores. Somente loucos acreditam na literatura. Somente loucos editam uma revista em véspera de vestibular e continuam na missão de escrever cinquenta mil palavras, sem pensar nas consequências, com uma estranha certeza de que irão ser aprovados mesmo assim. A coragem está nas veias dos loucos. Ser louco é andar à beira de um precipício sem conhecer o perigo de cair lá embaixo, é simplesmente beber uma bebida desconhecida, que poderia ser potencialmente um veneno, e, contra a sorte do destino,sobreviver apenas com uma leve ressaca. Obviamente há riscos em ser louco, mas o que quero dizer é que o louco não conhece seus limites, O louco guiado por um propósito é o mais perigoso inimigo que um homem são pode ter. Bem vindo ao nosso hospício, o mundo precisa de leitores, loucos, sãos, casos clínicos ou apenas uma “frescurite”, precisamos de todos eles. Traga alguém para dentro desse mundo você também.


PULP FEEK - #19 Séries

O dom das sombras: O Perfume... continue a acompanhar Anna, desta vez na busca pelos segredos de Rozan. E comece a sentir até onde vai a escuridão desse mundo. Philippe Avellar ------------------------------------------- Pág 3 Lúcia: QUEIMA... o medo toma conta de Lúcia, enquanto ela enfrenta seu passado e suas dúvidas. Ela conseguirá encontrar o que veio procurar? Amanda Ferrairo ------------------------------------------------------ Pág 17

One-Shot

Bad Trip.... uma tarde normal com seus colegas em um lago, uma excelente oportunidade para fazer desse um dia perfeito. Ou não? ERICA PADRO ------- Pág 25

Extra

Fonte de Inspiração... Eu e o Medo: Acompanhe nosso editor-chefe numa reflexão sobre o medo. LUCAS RUELES ----------------------------------- Pág 37

Como escrever sobre... Nessa coluna aprenda a como não deixar seu leitor boiando em termos que não pertemcem ao seu cotidiano. Rafael Marx - Pág 43 Na próxima semana: Mantenha a calma e continue a série Sob(re) Controle de Thiago Geth Sgobero Continue a acompanha a história no fantastico mundo steampunk de Rafero Olivera na Imperatriz de Ferro. Aproveite também para ler a coluna de nossos editores-chefe e muito mais.


O Dom das Sombras - O Perfume

—S

Philippe Avellar

into muito, não sei quem é... Anna já não tinha mais colegas para interrogar. O responsável pelo quarto escuro não tinha mais qualquer informação a acrescentar. Nem os revisores, que avaliavam quase todos os textos, tinham informações. Aquele nome sempre aparecia, ilustrando qualquer vaga lenda urbana, e ninguém dentro da equipe do jornal podia – ou queria – dizer algo verdadeiro sobre os Rozan. Percebendo sua frustração, Daniel foi quem se aproximou, inseguro e solícito. — Olá, Anna, notei que estava falando com quase todos os nossos colegas. Está precisando de alguma ajuda? Ela sequer havia se dado ao trabalho de recorrer a Daniel, sabendo que este não teria qualquer coisa a acrescentar à sua busca. Não era um repertório especial de notícias, nem parecia ter grande curiosidade por coisa alguma, sempre cumprindo o trabalho designado por qualquer um, sem questionamentos. Mas, com a falta de recursos, a boa vontade do colega seria bem vinda. — Obrigada, Daniel, eu só estava procurando saber mais sobre uma figura que apareceu em minha última matéria. Parece que ele já teve algum tipo de antecedente criminal ou tem a família envolvida em alguma coisa. — Quer que eu ajude com a pesquisa? — Não iria atrapalhar você? — Anna perguntou, tendo um ar preocupado em seus olhos azuis. Medido e intencional. — Não, não! Terminei a matéria que tinha dois dias mais cedo e o leilão que me pediram para cobrir na zona norte foi adiado por alguns

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dias, então, estou livre. Sobre quem precisa saber? — Você é um anjo! — Anna sorriu com delicadeza e o colega olhou para baixo, modesto. — O nome dele é Rozan. Parece que o primeiro nome é Ernest, mas nenhuma fonte confirmou com exatidão. Talvez seja alguma variação estrangeira. Daniel olhou para cima, como se examinasse o sótão de suas lembranças - provavelmente poucas e bem separadas em caixinhas de papel, como seu material sobre a mesa. — Ernest Rozan? Nunca ouvi falar. Não tem mais alguma coisa que saiba sobre ele? — Parece que usa uma rosa vermelha como símbolo. Não sei se é algo pessoal ou se está ligado aos demais Rozan. Parece que formam um grupo fechado de alguma importância no norte ou que são todos da mesma família. Daniel acenou com a cabeça sem qualquer interesse alterando suas feições. — Certo. Vou ver se posso dizer qualquer coisa sobre esse Rosa vermelha dos Rozan o mais rápido que puder. — Eu vou pesquisar em alguma biblioteca que tenha registros familiares da zona norte, ou com matérias de jornais antigos arquivadas sob este nome. — Senhor Forrez? Daniel Forrez? Daniel ergueu a cabeça lentamente em direção à voz autoritária, encontrando Cust postado à entrada de sua sala, a forma apequenada perto da porta de madeira decorada. — Aguarde dentro de minha sala para discutirmos um pouco sobre sua última matéria. Irei encontrá-lo em poucos minutos. Anna viu Daniel morder de leve o lábio inferior, parecendo pouco

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otimista. Por piedade, tentou animá-lo. — Cust às vezes é rigoroso, mas pode ter gostado do seu trabalho. Não desanime. — ela sussurrou, pousando uma mão delicada em seu ombro. Virando para ela seus olhos verdes muito claros, ele assentiu mais uma vez, parecendo mais resignado, antes de se encaminhar para a porta. Cust observou-o entrar e fechou a porta atrás do funcionário. Dirigiu-se, então, para Anna com pequenos passos decididos. Com um gesto discreto, indicou a saleta onde todos faziam suas pausas para tomar um café, que estava vazia àquela hora. — Mais uma vez gostei de seu trabalho, Anna. — Fico feliz, Sr. Cust. Obrigada. — Notei que estava perguntando aos colegas se sabiam alguma coisa sobre os Rozan. Anna engoliu em seco, sentindo-se, de repente, como a criança que é flagrada por um adulto, fazendo alguma coisa que não sabe se é errada ou não. — Eu desaconselharia ir mais fundo no assunto. A jornalista ergueu as sobrancelhas. — Por que diz isso? O senhor sabe alguma coisa sobre eles? — Não muito mais do que a maioria. É muito fácil espalhar boatos sobre os nobres. É um assunto interessante entre as classes mais baixas e as fofocas, especialmente as mórbidas, sempre agradam. E é útil, também, para os próprios nobres. Reforçam sua aura de mistério, podem chamar uma agradável atenção ou criar uma propaganda natural. Outras vezes, inspiram medo. — Então por que me desaconselha, se tudo o que há sobre eles é um

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conjunto de boatos? — Estou no ramo jornalístico há mais tempo do que você tem de vida, minha jovem, e provavelmente já escrevia enquanto seus pais sujavam os lençóis e as fraldas. Nunca vi um colega do ramo se dar bem ao se meter demais nos assuntos dos poderosos do norte. Um excelente colega foi investigar um caso banal, de passagem de mercadorias pela costa, e acabou esbarrando em coisa muito pior. — Cust esfregou os olhos com os dedos, parecendo mais velho enquanto as rugas dançavam em seu rosto.—O que quero dizer é que nunca sabemos quando seremos inconvenientes para alguém poderoso. É muito fácil sermos silenciados. E seria uma pena perdermos alguém com sua competência nesta redação. Anna respirou fundo. Cust não era o primeiro a dar semelhante conselho e nem sequer sabia da gravidade das situações em que se metera recentemente. Ele debatia uma problemática muito mais comum do mundo em que viviam do que as experiências surreais por que passara nas últimas semanas. De alguma forma, aquilo injetou um pouco mais de força em seu espírito e um pouco da apatia cedeu espaço para uma nova motivação. Tentaria descobrir mais de forma discreta, a mais segura que pudesse. Talvez falasse para Daniel que desistira do caso, apenas para poupá-lo do trabalho e dos riscos, mas seguiria por conta própria. As palavras do Rozan capturado podiam ter sido ditas ao vento, sem qualquer implicação maior de sua parte no caso. Precisava descobrir. E desobedecer Cust era algo muito interessante para não tentar pelo menos uma vez.

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— Tudo bem. É mais sensato deixar as coisas como estão. Agradeço pelo conselho. Cust pareceu aliviado, uma expressão que não se encaixava muito bem na imagem que todos faziam dele. — Não há de quê. *** O retorno até seu apartamento passou bastante rápido, enquanto Anna traçava os itinerários possíveis pra cruzar a cidade o mais rápido que pudesse em seu tempo livre. Conhecia duas grandes bibliotecas que, com certeza, tinham registros históricos e também uma menor, onde passava às vezes a tarde de sua juventude, lendo livros policiais, história antiga e, quando ninguém estava olhando, um pouco de fantasia. O trem naquele dia estava abençoadamente tranquilo e pouco ruidoso. O tempo estava bom e a noite estava inesperadamente mais morna. Voltava mais cedo do que de hábito, algum comércio ainda estava aberto, iluminando a calçada com suas luzes, e até os capangas de Eddie pareciam de bom humor. Será que ainda tinha o cartão daquele senhor simpático com uma relojoaria? Era um excelente observadore ajudou bastante em dois casos anos atrás. Se não estava enganada, mencionou que gostava muito de pesquisar sobre os nomes e a política da cidade. Procurou na bolsa seu bloco de anotações e sua caneta, para organizar melhor os próximos dias, mas sentiu que havia sentado sobre algo que a beliscava sobre o sofá. Um pequeno pedaço de papel.

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Já estou livre do imundo cárcere. Espero ter o prazer de sua companhia em poucos dias. Letras finas e seguras. Do outro lado, a elegante rosa vermelha. Um pouco do medo voltou. Com uma mala de chumbo. *** As pesquisas nada rendiam. Anna pesquisara as notícias dos últimos anos e não encontrara uma sequer que mencionasse o nome Rozan. Procurou em matérias cada vez mais antigas para não encontrar mais do que breves menções, em geral, suspeitas surreais de repórteres mais emotivos que acreditavam – ou fingiam acreditar – que havia algo de terrível nos acontecimentos que lhes eram contemporâneos. Mas estes acontecimentos se repetiam em notícias anteriores e posteriores, o que levava a crer que apenas pincelavam mistério em notícias corriqueiras para angariar alguma atenção para o jornal. Não era uma técnica desconhecida na redação do Grito Popular. Não havia também qualquer árvore genealógica que os mencionasse ou situasse uma família como aquela no quadro geral da nobreza. Nem nos periódicos mais superficiais, que noticiavam mais fofocas do que notícias confiáveis, surgia qualquer coisa. O que era mais estranho era a menção pública que o suposto Ernest

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fizera a este nome. Se era um grupo tão secreto que conseguia escapar intocado pela publicidade ao longo de décadas, por que seu nome seria mencionado com tanta abertura e com jornalistas presentes?No caso de não existirem, por que faria um blefe sem que pudesse ganhar qualquer coisa com isso? E por que Cust daria um aviso de forma tão séria se tudo se resumisse a boatos sensacionalistas? Então a frase dita um pouco antes também veio à tona: “Vejam só! O que disseram deve ser verdade.” Como pude esquecer isso? Ele falou como se já tivesse ouvido falar de mim. Mas não há nada de interessante para ouvir de mim... A menos que tenha ouvido de Yan Garner. Ou que tenha havido mais alguém conosco naquela noite. Alguém que sabia que aquelas coisas existiam. E talvez fosse parte delas. Não era uma perspectiva animadora. A última biblioteca não trazia nada de novo. Estava voltando para casa, de mãos vazias, muito mais cedo do que havia planejado. De repente, não parecia seguro perguntar para mais ninguém sobre suas investigações. O conselho de Cust tinha um novo peso. Será que ele sabe alguma coisa sobre tudo isso? Não era impossível. Era um homem de idade e experiência e, até onde sabia, de alguma cultura. Conseguia informações sobre novas notícias perturbadoramente rápido, quase ao mesmo tempo em que ocorriam. Faria sentido se tivesse olheiros em toda parte, para vigiar o que

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os olhos comuns costumavam ignorar. A mente de Anna começou a formigar de possibilidades fantásticas. E se todo o jornal fosse somente uma desculpa para obter um número maior de informações através de pessoas ignorantes das intenções verdadeiras? Se fosse o caso, quantos mais estariam cientes do caso? Diante daquele ponto de vista, até mesmo a feiura de seu chefe podia ter um novo significado. Não, era tentador, mas era preciso manter a sensatez. Sem descartar de todo a possibilidade, era preciso primeiro encontrar fundamentos para sustentá-la. E descobrir por que teria recebido aqueles conselhos que pareceram tão sinceros. Anna ainda subia as escadas quando percebeu uma tensão diferente no ar. Subiu os últimos degraus em silêncio e pôs, lentamente, a cabeça para fora do vão. Os capangas de Eddie pareciam irritados e alertas. Olhavam diretamente para alguém encostado na parede do corredor, que superava os dois em altura por uma boa diferença. Era estranho vê-lo de novo à luz do dia, já que sua imagem parecia imediatamente associada à noite escura e ao pesadelo. — Finalmente você está aqui. — Ele chegou há um tempão e disse que não iria embora até falar com você. Não quis falar mais nada. Conhece a figura? Quer que a gente ponha ele para correr? — um dos capangas falou, sem tirar o cigarro preso entre os dentes. Sim, eu quero! Faça ele sumir! — Não, ainda não. Eu o conheço. O que quer aqui, Yan?

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— Preciso conversar com você. A sós. — ele não parecia nem um pouco constrangido em pedir. — Então vamos falar no meu apartamento. Anna pegou sua chave, abrindo a porta e entrando logo depois. Nem sequer se lembrou de pedir a um dos capangas que vistoriasse os cômodos antes dela; com Yan ali, já estava ao lado do maior dos perigos, ou do mais assustador protetor. — Por favor, fiquem aqui fora. — Pode deixar, moça. A repórter fechou a porta atrás de si, sem trancá-la. Yan ficou parado ao lado da janela, passando os olhos pelo vidro, de pé. — Como me achou? — ela falou em tom baixo. A resposta veio da mesma forma: — Depois que Andru e seu mestre a atacaram, achei sensato descobrir onde morava. Mas nunca fiquei perseguindo-a por toda parte, antes que venha a se preocupar. — É pouco tranquilizador. Todos parecem saber qualquer coisa a mais sobre mim. — Anna disse, sentando-se no sofá. Não estava disposta a recebê-lo como boa anfitriã. — Soube que um Rozan foi preso e que você publicou uma matéria sobre ele, tirando também fotos. O que mais aconteceu? Anna sorriu sem prazer. — Finalmente alguma coisa que você não sabe. E por que deveria confiar em você mais do que nele? — Já lhe disse que não tenho interesse em vê-la morta e já te salvei uma vez. — Achei que fosse dizer que os Rozan eram os vilões malvados.

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— E são, mas não sei o quanto sou melhor do que eles. A crueza de suas respostas tinha qualquer coisa de fascinante. — Muito bem. Eu fui cobrir um caso de contrabando de armas, que era financiado por um nobre. Apareceu aquele homem de casaca que, entre uma foto e outra, disse que tinha ouvido boatos sobre mim e que eu poderia despertar interesse nos Rozan. — Qual era a cor? — O que disse? — Qual era a cor da rosa? Ele tinha qualquer coisa ligada a rosas e uma cor? As coisas ficavam interessantes. — Sim. Uma rosa vermelha. Estava em sua lapela e também nos simpáticos cartões que aparecem em meu apartamento, sem que ninguém tenha forçado a entrada ou a janela. — Anna buscou os dois cartões guardados em sua gaveta e os estendeu para Yan, que começou a analisá-los com atenção, da caligrafia ao desenho da rosa no verso. — Isso não faz sentido. — Nada tem feito muito sentido, não é? Mas, se eu estou sendo perseguida de novo, acho que mereço qualquer informação melhor do que essa. — De fato o rosa vermelha parece chefiar o setor das armas, atuando em contrabando. E, se as estimativas que tenho estiverem certas, o que você fotografou não é mais do que 1% do que ele tem estocado para comércio. Mas ele nunca apareceu em público. Não poderia ser pego tão facilmente. E ele deveria ser mais velho do que o homem que você fotografou. Pelo menos uns 25 anos a mais.

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— Acha que este é uma farsa? — É possível, mas improvável. Ninguém pode fingir ser um Rozan e sobreviver por muito tempo. Já é difícil saber quem eles são e passar essa história para alguém. — Você sabe bastante coisa e está aqui, não é? — Anna brincou, mas o outro nem ergueu o olhar. — Talvez ele tenha mudado de estratégia e queira aparecer em público. Algum tipo de tática. Ou talvez haja mais do que um ‘rosa vermelha’. — Isso seria errado. Não deveria haver duas rosas iguais. — Acha que ele tem interesse em mim pela mesma razão que... aquilo que estava com o Andru? — Não posso afirmar com certeza. Alguns Rozan sabem, no entanto, que aqueles seres existem. Dominam qualquer coisa da arte. — Arte? — Magia, se quiser chamar assim. Dominar uma força cedida por um ser de outro plano. Mas não é uma boa hora para passar todas estas informações. Anna massageou as têmporas, como se adivinhasse uma dor de cabeça futura. — Então pode ter sido assim que ele escapou da prisão? — Improvável. Se for realmente um Rozan, deve ter pagado a fiança. — O que sugere que façamos então? Yan refletiu por um longo tempo, concentrado. Seus olhos se moviam apressados, sem se fixar em ponto algum. — Se ele propor um encontro com você em um dia próximo, aceite. — O quê?!

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A exclamação de Anna chamou a atenção dos capangas de Eddie do lado de fora, que bateram imediatamente à porta. — Está tudo bem, moça? — Está... está sim. — ela aguardou que as sombras visíveis por debaixo da porta se afastassem antes de falar novamente aos sussurros. — Está louco? — É uma maneira segura de encontrá-lo. — Segura para você! — Será segura para você também, se agir com inteligência. Estarei lá para protegê-la. Anna soltou um suspiro, exasperada. Todos tomavam decisões em seu lugar. Todos pareciam querer protegê-la, fazendo-a se sentir como uma donzela em perigo. Ao mesmo tempo, não se sentia segura com nenhum deles. — Vou pensar. — Seja rápida. Ele deve procurá-la em pouco tempo. Yan encaminhou-se para a porta, sem despedidas ou cerimônia, e já quase alcançava a maçaneta quando Anna o impediu. — Espere! — correu até seu quarto, vasculhando seu guarda-roupa. Meio amassado no fundo do cabideiro, estava o que procurava. — O casaco que me emprestou. Da noite com o Andru. — Não preciso dele. — Eu também não. Fica enorme e eu seria assaltada antes do fim de semana. — Estendeu-o de novo, e Yan dobrou-o no braço. — Quando meu supervisor me propôs cobrir o caso envolvendo o Rozan, deu como alternativa investigar uma família nobre que parecia

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inofensiva. Os Garner. Se eu tivesse aceitado, não estaria metida em tantos problemas, não é? — ela contou, com um sorriso cansado. Yan fixou nela os olhos cinzentos, claros durante o dia, como se fossem feitos de mercúrio. — Se fosse atrás dos Garner, aí sim, já estaria morta. O nobre saiu pela porta com passos mecânicos, enquanto Anna ficava sozinha, sem saber o que fazer com o sorriso morto nos lábios.

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Lúcia: Queima

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L

úcia caíra nos braços de Phelipe. — Cordas! — Murmurou Lúcia, com suor frio escorrendo pela

testa. — O que tem cordas, Lúcia? — Perguntava Phelipe, com um tom desesperado, enquanto segurava seu rosto. — As crianças... Cordas. Elas pulavam corda, sempre... Cordas. Tira. Não! — Lúcia, olha para mim! Que cordas? Tira de onde? — Dizia ele, chacoalhando a cabeça dela, numa tentativa frustrada de trazê-la de volta. “Os tentáculos já davam voltas ao meu redor. A escuridão me abraçava e se embrenhava em mim, como uma jiboia que abraça sua presapara quebrar-lhe os ossos, facilitando a digestão. Eu pude ouvir alguns cracks e já sentia meus pulmões cansados da força que eu fazia para respirar. O espaço era cada vez menor e eu contava os minutos que faltavam para que meu corpo explodisse como uma bexiga que é apertada e precisa extravazar seu conteúdo. O mundo se pintou de preto e não havia nada que eu pudesse enxergar, não havia um só tom distinguível. Eu estava trancafiada em um universo monocromático, que tentava me engolir.Os tentáculos, agora, me balançavam e, não fossem minhas mãos estarem presas à altura da cervical, meu pescoço teria se quebrado. Em uma das voltas que dei no ar, pude ver o que estava perturbando a escuridão: havia uma grande chama, que se movia em minha direção como se estivesse caminhando, afastando a escuridão que havia por onde passava. Meus olhos se fecharam quando a claridade já estava bastante próxima e uma voz aveludada disse: — Você encontrou o que veio procurar, Han’or.

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Lúcia: Queima

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Eu jamais confundiria aquela voz e aquele tom presunçoso, então abri os olhos na certeza de que estava a salvo. Phelipe ardia em chamas e iluminava todo o lugar. Os tentáculos se afrouxaram, me permitindo respirar e olhar ao redor. O pátio era o lugar mais bonito do orfanato. Havia uma fonte no centro, que era rodeada por bancos de concreto, com janelas de vidro cobertas por trepadeiras atrás de si. O chão, cinzento e áspero, estava sempre riscado de giz que roubávamos da saleta das freiras para desenhar nossas brincadeiras. Haviam cinco saídas para lá, o que nos permitia traçar sempre o caminho mais curto, na corrida desesperada para a hora mais alegre do dia. Me senti em casa, de novo. Fechei os olhos, pude ouvir o sinal do fim das aulas tocando e a gritaria das crianças em direção às cinco portas. — Lúcia, o que você está fazendo? Abri os olhos. Não estávamos sozinhos. Em cada porta havia uma criança, com seu uniforme cinza, tão cinza quanto o olhar que me lançavam, segurando cordas, como aquelas que usávamos para pular. Cordas que tomaram o lugar dos tentáculos e davam voltas ao redor do meu corpo. — Você é adulta agora, Lúcia. — Disse a garotinha de tranças nos cabelos loiros, enquanto me circundava, apertando a corda. Era Pietra, minha melhor amiga. Seus pais morreram quando ela tinha dois anose sua tia se recusou a criá-la — É, Lúcia. Você é um deles agora. — João. Retirado dos pais aos cinco anos, seus braços, cheios de queimaduras de cigarro, mostravam um pouco do horror que vivera. — Você é ruim como eles, Lúcia? — Ana, uma garota mirrada, como todos os asmáticos. Um bebê prematuro, retirado às pressas da barriga

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da mãeviciada em crack. — Você não pode mais brincar com a gente. — Elisa. Foi trazida ao orfanato com quatro anos, depois de assistir seu pai, tomado pelo álcool, assassinar sua mãe. — Já que você é um deles, fala para mim, Lúcia. Por que meu pai me batia tanto? — Perguntou Caio, um garoto grande, que costumava fugir do quarto e deitar comigo no chão do pátio, para ver as estrelas. — Por que minha tia preferiu me jogar aqui a me criar, Lúcia? — Por que meu pai achava que eu era um cinzeiro? — EU NÃO SEI! EU NÃO SOU ASSIM! — As cordas se apertavam cada vez mais, na ciranda que eles faziam em volta de mim. — Por que minha mãe me expulsou até da barriga dela, Lúcia? — Por que meu pai bebia tanto, Lúcia? Por que tirou minha mãezinha de mim? As cordas davam voltas e mais voltas ao meu redor e as crianças choravam enquanto me atacavam, me apertavam e me sufocavam. — Você é como eles! — Não sou! Eu não sou como eles, eu não sei porque eles fizeram isso. Parem de chorar! As lágrimas se acumulavam, formavam poças no chão e os murmúrios de choro estavam por todos os lados. Ecoavam pelos corredores do orfanato e batiam, num ruído surdo, nas portas fechadas. — Não chorem! — As portas e janelas já estavam estremecendo — Parem de chorar! — O chão do pátio já se lavara. — Eu não sou... — Eu podia ver água escorrendo por baixo das portas. — EU NÃO SOU COMO ELES! As portas estouraram. As janelas estouraram. A água, furiosa, tomava os corredores, correndo em direção ao pátio. Correndo em direção a

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mim. Pietra, João, Ana, Elisa e Caio derreteram, como pedras de gelo. A água, vinda de todos os lados, me atingiu em cheio e com tamanha força que invadiu meus pulmões. Não sei por quanto tempo fiquei inconsciente, mas, quando acordei, ainda estava embaixo da água, sufocando. Eu tentei nadar, mas ainda estava presa, enrolada. Não eram mais cordas, mas grandes tentáculos róseos e pegajosos, como de um grande animal marinho, que eu não podia ver qual era. Phelipe sumira novamente e eu não podia ver sequer uma possibilidade de sair viva dali. Não sabia como estava viva até agora, diga-se de passagem. Percebi movimentação atrás de mim, mas, o que quer que fosse, não poderia piorar a situação. Pelo contrário, talvez fosse a minha única chance. Usei toda a força que me restava para afrouxar os tentáculos o suficiente para que eu levasse minha mão à cintura, onde eu havia guardado uma pequena faca. Comecei a cortar um dos tentáculos, já sem muita força. Quando passei a faca pela última vez, uma boa parte de mim estava livre, da cintura para cima. Pude me virar e ver que a movimentação que eu havia percebido era Phelipe, lutando com o que quer que fosse aquela coisa enorme e rosa atrás de mim. Mais dois cortes e eu estava livre. Nadei até o ralo, no qual os cabelos da cabeça solta de Pietra, estavam embrenhados e puxei, com força. Permitindo que toda a água escorresse lentamente, enquanto o monstro simplesmente evaporava. Finalmente, pude respirar. Phelipe veio ao meu encontro e me abraçou. — Você está bem? A ânsia por oxigênio era tamanha, que eu não pude sequer soltar

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uma palavra, mas assenti com a cabeça. — Ele fugiu, de novo. Você acha melhor voltarmos outro dia? — Não! Vamos matar esse maldito! — Eu disse, categoricamente, enquanto me levantava e prendia os cabelos que escorriam, encharcados, pelo meu rosto. — Acho que eu sei onde encontrá-lo. — Em qualquer lugar, não? — Se ele pode fugir, não encontramos o ninho dele. — Faz sentido, Han’or... Mas calma aí! Respira um pouco, se recupera. — Eu to ótima. Como você faz aquilo? — O que? — Queimar. Como você vira uma chama? Você é algum super-herói ou algo do tipo? — Eu sou um Han’or. E você é A Han’or. Ache a fogueira, Lúcia! — Disse ele, dando-me uma piscadela. — Onde estamos indo? — Você tem se comportado muito mal, Phelipe. As irmãs desaprovam a sua atitude e eu vou te levar aum lugar para você refletir por um tempo. — O castigo? — O castigo. — Sorri — Brilhante! Chegamos à porta estreita da sala que ficava ao fim do corredor. Eu olhei para ele, respirei fundo e decidi que era melhor terminar aquilo de uma vez por todas. — Se você sumir de novo, eu te mato. — Disse, enquanto abria a porta, com a lanterna na mão. A saleta, que nunca fora muito bem iluminada, estava mais escura que nunca. Segurei a mão do Phelipe, para garantir que ele estava ali,

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Lúcia: Queima

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quando comecei a ouvir o barulho de giz riscando a lousa, na qual escrevíamos centenas de vezes a mesma frase de disciplina. — Você não tem sido uma boa menina, Lúcia. — Dizia a voz da madre superiora — Você sabe o que acontece com meninas más. Eu estremeci. Soltei a lanterna, soltei o Phelipe. — Sei sim, elas matam você! — Já chega, Lúcia! — Minha mãe. Era a voz da minha mãe, igualzinho ela dizia pouco antes de me pegar no braço e me arrastar para o quarto. A porta da sala bateu, como se tivesse passado uma corrente de vento. E Phelipe começou a bater, do lado de fora. — Lúcia! Você está bem? — Gritou. Não deu tempo de responder antes que algo grudasse em meu pescoço e me levantasse, me prensando na parede. Eu não podia respirar, não podia me mexer e sentia minha vida se esvair, como se escorresse pelo ralo, mas ainda podia ouvir Phelipe batendo na porta e gritando. — Não deixa ele te pegar, Lúcia! — Ele já havia me pegado. Eu sentia como se estivesse engolindo minha própria garganta e minha cabeça parecia estar afundando na parede. — Queime, Lúcia, queime! Eu não tinha idéia de como fazer isso. Esses malditos Han’or! Sempre falam tudo pela metade! Cada segundo que eu passava nas garras do monstro, me lembrava de tudo o que passei, de todas as crianças e de como aquele lugar as fazia mal. Era isso que ele fazia: te lembrava as piores coisas pelas quais já havia passado, te destruindo pouco a pouco. Me destruindo. Me devorando. Me queimando. E eu, finalmente, achei a minha fogueira. Minha fogueira ardia de

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Lúcia: Queima

Amanda Ferrairo

raiva e, quanto mais ele me lembrava de todos os horrores que vi e vivi, mais a chama aumentava. — Queima, Lúcia! Queima, Lúcia. As chamas tomaram conta de mim, e de toda a sala, incendiando tudo o que havia dentro dela. A escuridão grunhia enquanto era dizimada. Phelipe empurrou a porta com força e entrou pela sala como um trator, pisando nas cinzas que forravam o chão. — Han’or! — Disse ele, se ajoelhando. — Ah! Levanta daí, caralho! — Você não muda, mesmo, né? — Disse ele, sorrindo e vindo ao meu encontro. — Já mudei mais do que você pode imaginar.”

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Bad Trip

Erica Prado

Nota de um sensacionalista jornal local de uma cidade no interior da Inglaterra:

Mais um desaparecimento! O comerciante Alex Harrison desapareceu esta manhã (26) nas proximidades do lago Tessa. Conhecido como Lago das Seis Horas, o local tem a fama de ser uma das águas mais perigosas da região de Bristol. Mais de doze desaparecimentos foram registrados naqueles arredores, além dos mais de vinte registros de afogamento. Fica evidente a existência de fatores desconhecidos rondando a área e a redação alerta aos cidadãos para ficarem longe daquele lugar a partir das seis da tarde — horário em que todos os incidentes supracitados foram registrados. Aguardamos que as autoridades locais tomem medidas para selar o local definitivamente e evitar que acidentes como este continuem ocorrendo.

V

ou lhes dizer o que é loucura. Loucura é quando seu corpo está atado e não lhe permite caminhar para a morte. Loucura é quando o desespero lhe embaça os sentidos e os outros não conseguem compreender, nem acreditar. Loucura é ser diferente e assumir todas as consequências desse ato. Existem várias maneiras de ser louco. Naquela época, éramos jovens que queriam caminhar na corda bamba de olhos vendados. E era essa a nossa loucura. A formatura do Ensino Médio não permite a sensação de férias. Só existe a expectativa de faculdade e o futuro para o qual não estamos preparados.

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E nós queríamos quebrar isso. Imagine você viajando num grupo de vinte adolescentes sem supervisão. E também que em seu círculo de amizade estão as pessoas que citei anteriormente: jovens que queriam caminhar na corda bamba de olhos vendados. E a corda bamba daquele local era o lago das Seis Horas. Fazer sexo, beber e se drogar não era o suficiente, era só o que a gente fazia para abrir as portas das outras coisas. É claro que se estivéssemos sóbrios iríamos apenas rir dessas histórias que os moradores contavam a todo turista que ia lá, para impedi-los de visitar o lago que julgavam mal-assombrado. Mas não estávamos e o efeito das drogas nos fez acreditar que aquele era o lugar em que deveríamos estar às seis. Vou explicar o que acontece quando você se droga. Seus sentidos ficam apurados, você consegue sentir o sangue correndo em suas veias e o coração batendo mais forte. Você escuta coisas que acontecem a metros de distância. É leve, muito leve. Essa é a coisa boa. Eu recomendo. De verdade, eu recomendo. Maconha sozinha não dá bad trip. Só que queríamos uma coisa diferente. Vejam bem, o ecstasy faz você ficar leve, agitado, você se sente capaz de qualquer coisa, você tem coragem para tudo. Ácido te faz ver tudo muito melhor, você flutua, flutua e verdade, e não dá pra acreditar nos seus olhos. Os dois juntos dá bad trip. Bad trip é quando você viaja pro lugar errado. Resolvemos fazer nossa bad trip no Lago das Seis horas. Um grupo de cinco pessoas. Toby, o Coringa, com seus cabelos cacheados e sorriso enorme na boca. Millie, a Mimmy — de Mimosa — com seus peitos enormes e redondos. Oscar, o Alho, com seus dentes enormes e separados uns dos outros. Joe, o Jonas, o cara que sempre bancava a bebida, mas cobrava em dobro depois. E eu, Mark, o Timão, com meu corpo magro e comprido.

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Acho que eu deveria ter me identificado antes. No começo do texto. Não me chamem de Timão. Chamem-me de Mark. Só Mark. Naquele dia pegamos uma trilha que um cara nos informou dar no lago. Caminhamos sob o sol por entre um monte de árvores e arbustos e não nos perdemos porque só tinha um caminho. Àquela altura já estávamos meio altos e com as mochilas cheias de ácido e ecstasy. O chão era cheio de lixo. Achamos um monte de bugigangas. Uma bolsa cheia de maquiagem. Um violão quebrado. Uma corrente com dois cadeados, um em cada ponta. Carregamos tudo, sem saber muito o motivo. Enchemos Mimmy de maquiagem, borramos seu rosto inteiro. Acho que pegamos nos seus seios também. Mas não fizemos sexo. Todos queríamos fazer sexo com Mimmy, mas não fizemos, porque sentimos uma vontade louca de nadar. — Você não vai entrar na água — disse Mimmy para mim. — Você não sabe nadar. — Claro que eu sei nadar — retruquei. Não sabe não... Eu estava escorado em uma árvore e ela estava em cima de mim. Acho que não estava pensando direito por causa disso. — Eu vou nadar — falei. Nessa hora, Toby e Alho já estavam pulando na água de roupa e tudo. Mimmy ainda estava em cima de mim. Ria de se acabar. Jonas estava do lado dela, rindo também. — Você tá muito noiado, cara — ele falou. — Você nem tá vendo a parada. Mimmy disse: — Ele não tá vendo, cara, hahaha. — Eu to vendo seus peitos — falei, irritado. — Tem mais nada pra ver. Jonas olhou pra ela.

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— Será que é alucinação? Mimmy quase engasgou de tanto rir. — Nossas alucinação estão compartilhadas, cara, hahaha. — O que vocês estão vendo? — perguntei. Eles só riram ainda mais. as coisas estavam girando. As risadas ecoavam. O rosto de Jonas parecia derreter. — Você tá horrível — falei. Jonas ficou rindo e se escorou na árvore ao meu lado. Ficamos os três olhando Alho e Coringa nadando. Mas então eles sumiram. — Onde estão os caras? — perguntou Mimmy. — Que louco... — falei. O centro do lago parecia estar formando um redemoinho. Coringa e Alho estavam girando e girando no redemoinho, tentando nadar contra o fluxo da água ou pelo menos se manterem na superfície. Comecei a rir. A bocarra de Coringa estava aberta e ele se mexia como se estivesse tendo ataques. Eu conseguia ouvir a voz dele bem de longe, gritando e gritando. Você acharia engraçado. O lago parecia uma pia muito grande com o ralo aberto. — Vocês estão vendo isso? — perguntou Jonas. — Que louco... — falei novamente. — A gente tem que ir pra água — Mimmy sussurrou. Era verdade, eu também sentia isso. Então entrei em pânico. — Eles tão morrendo! — gritei. — A gente tem que ir pra água, eles tão morrendo! — Para de gritar! — berrou Mimmy, tapando os ouvidos com as mãos. — Eu to querendo ouvir, para de gritar! — Mas eles tão morrendo! — eu gritei. — Tão morrendo, cara, bora lá! — Cala a boca — bradou Jonas. — Eu to querendo ouvir também, cala a boca.

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Então eu percebi que havia mesmo um sussurro. Era uma mulher sussurrando. São seis horas, ela dizia. — Éé... São seis horas. Eu tinha que ir pra água. Era o Lago das Seis Horas. Eu sentia que tinha que ir pra água. Quando dei por mim estava levantando. Vi Mimmy passar por mim se jogar na água como quem se joga num abismo. Eu precisava ir com ela. Depois vi Jonas correndo até o lago e se jogando também, gritando feito o Tarzan. Eu precisava ir com ele. Mas eu não chegava. Estava andando, andando, andando, mas eu não chegava. Nunca chegava, e andava e andava, eu queria a água. Então percebi que tinha alguma coisa enrolada na minha cintura. Era um galho da árvore, eu tinha certeza que era, aquele lugar estava me puxando, a árvore estava me prendendo, eu tinha que ir pra água se eu quisesse me salvar, na água eu ia ficar salvo. Comecei a gritar. — ME SOLTA! ME TIRA DAQUI! ME SOLTA! Segurei na coisa que me prendia e puxei, mas não era o galho da árvore. Não, era uma corrente. Onde a gente arranjou uma corrente? Porque tinha uma corrente em mim? Tava apertando minha cintura. Tava presa com cadeado. Eu tava preso na árvore. Foi Mimmy, aquela puta. Aquela vadia, aquela cachorrinha desgraçada. Ela me prendeu, ela não queria que eu fosse nadar, mas eu precisava nadar... — Mimmy! — gritei, tão alto que sentia minha garganta rasgando. — Mimmy sua puta me tira daqui! Mas Mimmy tava no rodamoinho com os outros. Eu a via estendendo a mão enquanto passava por mim, toda encharcada, o rosto grotesco. Ela tava gritando alguma coisa, mas eu não queria ouvir. Eram seis horas, era a hora do lago, eu tinha que ir pra água, tinha monstros ali, eu ia

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ficar seguro na água. — Mimmy, volta aqui! — berrei. Estava com raiva. Eles estavam seguros enquanto eu estava aqui, uma presa para o que quer que houvesse ali naquele lugar horrível. Eu precisava sair dali, eu não conseguia olhar para os lados, porque dos lados com certeza tinha alguma coisa má, alguma coisa que se eu olhasse ia vir me pegar. Tava ficando escuro, eu não conseguia mais ouvir Mimmy gritando, eu não via mais ninguém. Tentava ir pro lago, eu tinha que ir pro lago. Empurrava meu corpo contra a corrente como um cachorro que tenta se livrar de uma coleira quando vê o carteiro. Eu precisava... Rasguei minha roupa, rasguei minha pele, rasguei tudo o que as minhas unhas conseguiam rasgar. A corrente na minha pele tava me machucando, tava machucando muito, mas eu precisava ir pra água, eu tinha que quebrar a corrente. Eram seis horas, era a hora do lago, eu tinha que nadar. Eu tinha que quebrar a corrente com o meu corpo, eu sentia que podia, era só forçar. Se eu forçasse eu ia quebrar a corrente, sabia disso. — Pessoal! — berrei, desesperado. — Me tirem daqui, eu quero sair! Volta! Volta, porra! A corrente não quebrava. Então pensei que deveria derrubar a árvore. Puxei ela com os braços, dei cabeçadas, chutes, arranquei o que pude arrancar de sua casca. Ela tinha olhos, a árvore tinha olhos, ela olhava pra mim e me prendia. — Me solta — gritei pra ela. Estava corajoso. Era corajoso. Era corajoso. Eu enfrentei a árvore. — Me solta! Mas ela não me soltava, nada me soltava. Tentei novamente quebrar a corrente com o corpo. Por que não quebrava? Nem era tão grossa. Tinha que quebrar. Então o lago se levantou. Eu sorri pra ele e entendi. Se eu não ia até o lago, então o lago deveria vir até mim. Uma grande onda se ergueu acima da minha cabeça e me molhou todo. E de novo. E de novo. A água

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me golpeava. Eu a sentia jogando coisas em mim. Jogou botas. Jogou garrafas. Jogou o corpo de Mimmy. Não sei por quanto tempo fiquei ali, mas depois do que me pareceu uma eternidade, senti que era tarde demais. O lago parou de fazer ondas. Eu tava respirando de novo. Mas eu não fui, eu não fui pra água, nada conseguia soltar aquela corrente. Nada fazia ela soltar. Meus pulmões estavam cheios de água, mas eu não estava no lago. A hora passou, pensei, e então caí no chão. De barriga para baixo. Chorando. Eles foram e me deixaram ali. A hora passou. O portão fechou. Tudo fechou. Eu não passo mais. Era pra eu estar no lago. Era pra eu estar dentro, não fora. Mas agora era tarde, muito tarde, tarde demais. O vento fazia barulho. Já estava de noite. A árvore ficava olhando para mim, maldita. Maldita! — Voltem — sussurrei para o lago, para os meus amigos que estavam lá. Mas eu já sabia que era tarde. E lá estava eu. Acorrentado à beira de um lago louco, sem saber se era real ou se era só uma bad trip, todo arranhado pelas minhas próprias unhas, com a roupa rasgada, com hematomas por ter batido na árvore. Senti a corrente na minha barriga. Tinha entrado na pele como uma mão afundada em um travesseiro. Fui tentar tirar. Ardeu. Estava em carne viva. E eu tava todo molhado. Tinha água no meu pulmão. Eu tava com uma sensação constante de afogamento. Respirar doía. Eu chorava descontroladamente. Mas isso não era tudo. Nesse momento Alho saiu da água. E ele estava todo branco e inchado, muito inchado. Ele ficou lá boiando pateticamente, com a barriga pra baixo. — Alho! — berrei. — Alho, seu imbecil, sai daí, vem me soltar. Mas alho não se mexia. Depois de Alho veio Coringa. Sua boca enorme aberta, boiando com

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a barriga pra cima, todo pelado, todo preto de podridão. Por último, Jonas. Jonas estava inchado, muito inchado, todo rasgado, de barriga pra baixo que nem o Alho, só que mais inchado que ele. — Saiam! — eu estava gritando. — Saaaaiam, seus idiotas! Vocês tão morrendo! Vocês tão morrendo! Me tira daqui, eu to morrendo também! Eu to morrendo também! E a corrente me impedindo de avançar. Mas eu já não queria mais ir pro lago. Comecei a tremer. Não queria olhar pro lado, era escuro. Mas não queria olhar pro lago também, era horrendo, os três ali, boiando igual bonecos. Os três. Um, dois, três. Onde estava Mimmy? Olhei pro lado. E dei um berro. Um berro enorme. Mimmy estava do meu lado, de pé, parada. Tava feia. Seus olhos não estavam mais nas órbitas, sua boca tava cheia de lama e uns insetos ficavam andando sobre ela. Ela tava feia. Tava inchada. Seus peitos estavam murchos, tava toda rasgada, toda inchada. Os dedos pareciam salsichas, e estavam contraídos, como se ela tentasse dobrar, como se fossem garras gorduchas. A pele dela refletia a luz do luar que batia na água. Fiquei paralisado, ali, esperando ela vir me pegar. Mas ela não veio. Só ficou lá, balançando. Ela tava flutuando. E então percebi que ela tava pendurada em um galho da árvore pela cabeça. Os próprios cabelos a penduravam. Pronto. Agora sim: lá estava eu. Completamente fodido, com o cadáver da minha amiga pendurado ao meu lado, olhando pra mim — ou estaria, se ainda tivesse olhos. Vozes uivavam ao redor de mim. Será que tinha lobos lá? Será que era bad trip? Não podia ser, não pode ser tão ruim assim, tão doido assim. Eu queria sair dali. Tentei dormir, mas era impossível. Era impossível...

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Eu disse pra vocês no começo o que era loucura. Loucura é quando seu corpo está atado e não lhe permite caminhar para a morte. Loucura é quando o desespero lhe embaça os sentidos e os outros não conseguem compreender, nem acreditar. Loucura é ser diferente e assumir todas as consequências desse ato. Eu não sei por que sobrevivi. Eu queria morrer. Ninguém no mundo queria mais isso. Eu fiquei a noite inteira. Queria saber como fazer pra morrer, mas não conseguia pensar em nada. Não naquele escuro. Não com aqueles uivos. Não com o cadáver de Mimmy pendurado ao meu lado, e com Alho, Coringa e Jonas boiando miseravelmente na água. Mimmy, sua puta, foi culpa sua. Você me prendeu. Era pra eu estar morto. Eu preferiria estar morto. Eu daria tudo nesse momento para estar morto... Amanheceu. Eu ainda estava acorrentado, com o olhar vidrado feito um louco. Queria sair dali. Ouvia vozes. Ouvia passos. Não!, pensei. Não sabia quem eram, não sabia o que eram. Se fossem fantasmas eu não queria. Se fosse resgate eu também não queria. Eu só queria morrer. Entrei em desespero. Precisava morrer. Como faz pra morrer? Ninguém nunca morreu de vontade de morrer? Comecei a roer os pulsos. Nas primeiras tentativas eu só mordia e parava por causa da dor, mas os passos ficavam mais perto. Eu não queria encarar isso. Não queria encarar a vergonha, as pessoas, os fantasmas, os medos, eu não queria encarar nada disso. Eu não queria contar pra ninguém essa história. Ninguém. Quando chegaram, disseram, eu tinha acabado de roer o primeiro pulso e estava completamente ensanguentado. Essa é a parte da loucura em que ninguém te entende. Ninguém quer te entender. Eles falam que foi tudo bad trip. Que foi coisa da minha cabeça. Que bad trip deixa a pessoa doida mesmo.

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Mas bad trip não faz redemoinho no lago, bad trip não pendura Mimmy pelo cabelo depois de morta, bad trip não faz isso. Nenhuma loucura é capaz de tudo isso. Existem vários tipos de loucura. Naquela época, éramos jovens que queriam caminhar na corda bamba de olhos vendados. E era essa a nossa loucura. Nada mais. Era só isso. O lago me matou naquele dia, mas não do jeito que eu queria morrer. Foi sorte deles. Existem vários tipos de loucura. Você pode ter só um desses. Você pode caminhar na corda bamba de olhos vendados. Ou você pode ir pro lago Tessa às seis da tarde e esperar para conhecer um pouquinho mais do assunto.

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Fonte de Inspiração

Lucas Rueles

Nesta semana vou falar da evolução do medo, mas não irei fazer uma busca histórica. Quem sabe outro dia? Irei falar dos medos que temos ao longo da vida, baseado em mim mesmo. Desde que me entendo por gente eu tenho medo, as pessoas costumam me dizer constantemente que eu sou corajoso, mas, no fim, o máximo que eu consigo ver dentro de mim é um cara que conhece seus medos. Por isso, falar deles vai ser um tanto interessante. Aproveitem ao máximo, meus medos me inspiram muito. “Na infância eu tive medo de perder e tive medo de estar sozinho” Quando era criança, tinha medo do escuro. Acho que esse é um medo comum nas crianças, mas, para mim, o escuro significava mais do que um medo. Para mim, o escuro era o momento em que eu me sentia perdido, era quando minha mãe me deixava sozinho. Preciso explicar um pouco de onde veio esse medo. Essa é uma coluna reflexiva, afinal, não expositiva. Eu nasci em uma família que teria seu destino trançado por um monte de infortúnios. Entre estes, alguns de faziam eu me sentir sozinho. Enfrentar o escuro era então um mistério grande. Nestes momentos, eu tinha comigo minha mãe e minha religião, como principais fatos para enfrentar esses medos, mas muitas vezes eles não eram o bastante, o escuro tirava tudo de mim. No escuro, era impossível ver e isso por si só era amedrontador. Mas a coisa mais estranha era que eu não conseguia diferenciar a cabeceira do pé da cama, o que me fazia não saber onde era o chão e o teto. A consequência disso era eu não levantar da cama, nem mesmo pelo pesadelo mais assombroso, minha única saída era sentar na cama solitá-

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Fonte de Inspiração

Lucas Rueles

rio e chorar, chorar muito. Mas eu chorava de forma silenciosa, eu não sabia que monstros espreitavam no escuro, que queriam me devorar se me encontrassem. Com o tempo, eu fui crescendo e criei a solução definitiva para o meu problema com o Sr. Escuro: eu passei a dormir com os pés tocando a cabeceira da cama – jeito que eu durmo até hoje, aliás, mais por costume do que por medo – e, desde, então superei o medo de dormir. “Não que eu crescesse rápido, mas eu diria que minha infância se transformou em outra coisa quando eu tinha sete anos, foi então que eu passei a ter medo de perder meus entes queridos” Minha mãe sofreu de uma doença, na verdade, descoberta quando eu tinha três anos de idade, mas que se expressou em sua pior fase, quando eu tinha meus sete anos de idade. Nesse momento da minha vida, todos meus medos se concentraram nela, em meus sonhos, demônios vinham de noite e a levavam para sempre, eu era o único capaz de enfrentá-los e eu nunca conseguia vencê-los. Me sentia fraco, miúdo, por isso eu falo que minha infância acabou nessa idade, eu tinha medo da minha própria fraqueza, isso quando eu tinha sete anos, nessa fase eu comecei a engordar. Não aceitava perder uma briga na escola, não aceitava levar desaforo para casa, minha família tinha problemas demais. Tornei-me um acumulador de problemas e de medos. Um dos meus medos era que ligassem para minha casa e contassem que eu andava brigando na escola, mesmo sabendo que estes medos, muitas vezes, se concretizavam.

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Mas, ainda assim, meu maior sofrimento era sentir que perdia minha mãe, este medo eu não superei, eu simplesmente tive que esquecê -lo. Ele se concretizou no dia dez de janeiro de dois mil e quatro, encerrando de vez a minha infância. Nascia então a minha segunda fase, a que eu começava a temer outra coisa. “Dos meus onze anos em diante, eu tinha medo de ser eu” É estranho admitir isso, mas, dos meus onze até meus dezenove anos, eu tinha medo de ser eu. Tinha medo de ter sonhos, objetivos e planos, eu simplesmente me foquei em pegar o que estava a minha frente. Foi bem fácil seguir em frente, eu diria. Uma das coisas que compunha esse complexo medo era meu medo de enfrentar as pessoas. Se alguém quisesse que eu fosse de um jeito, eu seria. Eu era exatamente o que as pessoas ao meu redor desejavam de mim, mesmo que não conseguisse ser isso por completo ou soubesse que não era aquilo que eu queria ser. Estas exigências me faziam mal? Foda-se, vamos em frente. Por quê? Caramba são os meus amigos, o que os meus amigos querem de mal de mim? Não, eles não eram os meus amigos, eu fui começar a ter algo como amigos ali pelos quatorze anos, mas era difícil para eles aguentar isso tudo. Isso e uma depressão contida. Era a segunda parte do meu medo: eu tinha medo de não ser o melhor, eu tinha medo do que eu era e, para mim, eu era um merda. Não, eu não era, mas o que valia mesmo era minha autodepreciação. A pena para esse segundo medo foi uma vida um tanto conturbada,

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sempre em segundo plano, sempre apagado, sempre brigando e discutindo com alguém, sempre com muitos problemas sem solução, sempre infeliz. Fui começar a ter conquistas com quatorze anos, quando venci meu medo de desafiar pessoas, e com quinze, quando venci pela primeira vez minha depreciação para dar atenção para mim mesmo.

“Meus medos atuais são um tanto dispersos, pois é difícil ver medos em fases que estamos vivendo”

Hoje eu tenho medo de muitas coisas, parece até que tenho mais medo do que nas outras fases. Mas prefiro confiar nos amigos que me ajudaram a vencer todos esses medos, hoje eu tenho menos medos. Deve ter algo a ver com crescer, crescemos e abandonamos medos. Não conseguimos deixar eles para trás, ou vencemos eles, ou eles nos vencem, evoluindo ao próximo nível. Meu medo é ser incapaz. Ser incapaz de satisfazer o que as pessoas esperam de mim é um medo que me assombra mesmo sabendo que este medo, às vezes, é infundado. Tenho medo de mim mesmo e tenho medo do amor. É um medo que assola a maior parte das pessoas da minha idade. O amor tem seus mistérios e não gostamos de mistérios. A maior parte dos nossos medos são construídos em cima disso: medo do desconhecido. Queremos ter nossa vida sobre controle, queremos ter tudo sobre controle, temos medos que os humanos à nossa volta tirem de nós esse poder de manter tudo sobre controle. Por isso, começamos a ter medo desses humanos. Temos medo de que o ambiente nos destrua, por isso começamos a

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Lucas Rueles

ter medo de suas mudanças, medo de subir demais, de descer demais, de estar em lugares fechados. Não que as fobias sejam infundadas ou bobas. Mas é isso, temos medos do desequilíbrio, medo do caos, exatamente por isso tememos a morte. Vemos a morte como desequilíbrio porque, para nós, a morte fere nossa rotina. Mas a morte cria uma nova rotina, uma rotina que é eterna. Portanto, porque temer a morte? E se os eventos da natureza vêm? Não podemos simplesmente restaurar a ordem após um tempo? E, uma vez mais preparados, evitar da próxima vez este desequilíbrio? Quanto às pessoas a nossa volta, não é possível aprender a lidar com tudo isso? Sempre que me deparo com meus medos, eu faço estas perguntas. Sempre que escrevo um texto sobre eles é isto que tento refletir e lembrar. Medos são a essência da coragem, são onde nascem qualquer avanço da humanidade, estar preparado para o dia de amanhã, estar preparado para a efemeridade dos dias. Tudo isso vêm de medos. É incrível a amplitude que o medo toma, não?

NC:Peço desculpa pela coluna extremamente curta e divagante, ela foi feita em uma reflexão sobre meus medos. Espero que tenham gostado. Semana que vem, voltamos com a programação normal. E, caso gostem, em breve teremos mais dessas reflexões.

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Como Escrever Sobre

Rafael Marx

Por favor, façam um pequeno esforço e tentem ler e compreender o que está abaixo: “Em  física, a  experiência da borracha quântica  ou  experiência do apagador quântico é uma experiência de dupla fenda que demonstra várias leis da mecânica quântica, incluindo a dualidade onda-partícula e o  entrelaçamento quântico. Visa explicar certas propriedades da  matéria - tanto de onda como de partícula -, o princípio da complementaridadee a interpretação de Copenhague, esboçando a ideia de que a mecânica quântica, para obter uma medição precisa de um aspecto de certas disciplinas experimentais, deve, em contrapartida, perder a sua precisão (tal como é impossível ver os dois lados de uma moeda de uma só vez). O experimento utiliza um cristal especial (não linear) de (beta borato debário, pela sua capacidade de produzir pares de fótons a partir de um único fóton, e um interferômetro para explorar a natureza do tipo onda de um objeto.” Entendeu? Se você não é um físico ou possui alguma profissão que trabalha com física quântica, é altamente improvável que tenha entendido completamente o parágrafo acima. Trata-se de um pedaço do artigo da Wikipedia em português sobre a Experiência da Borracha Quântica. O seu entendimento ou não da descrição acima depende do conhecimento de termos e conceitos da física. Na ausência desse conhecimento nosso acesso ao conhecimento contido dentro do artigo será barrado. Nos livros, estamos sempre lidando com conceitos e conhecimentos das mais variadas espécies. Um livro de ficção científica, por exemplo, pode falar de teleporte, clonagem, artes marciais, invasão de privacida-

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Como Escrever Sobre

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de, direito legal, mercado de armas, indústria de fabricação em massa, dentre outros assuntos da infinita lista disponível. Entretanto a partir de certo ponto a inclusão de um determinado conhecimento pode ultrapassar a barreira da ajuda e passar a ser um empecilho. Por exemplo: artes marciais. Ao lidar com artes marciais numa história, você pode claramente partir do pressuposto que todos os leitores saberão o que é um soco, um chute, um agarrão, ou qualquer movimento mais básico. Entretanto, ao se falar de um triângulo, de um armlock ou da postura do cavalo, você estará perdendo parte dos leitores, que não conhecendo aquele elemento não poderão imaginar a cena. Existem ao menos quatro formas simples de resolver esse problema. A primeira é a “extensão”. Trata-se de descrever o conceito ou elemento da história que você acredita que muitas pessoas não conhecerão. Em uma história recente, por exemplo, eu escrevi sobre o flibustaria. Trata-se da pirataria que prefere o uso de navios menores e mais ágeis, os flibusteiros. Esses, por sua vez, recebem esse nome devido a uma associação com o inglês flyboats. Sem a explicação sobre o termo eu provavelmente não atingiria o leitor da forma que eu esperava, e ele demoraria a entender o porquê de ser inviável fugir de maneira rápida dos flibusteiros. Por outro lado, na mesma história eu cito um bacamarte. Sendo esse termo relativamente conhecido e associado a uma arma de fogo de porte alto do período da pirataria, e buscando mesmo surpreender os leitores pelo poder da arma, eu decidi por não explicar explicitamente do que se tratava, mas sim fazer com que o leitor tivesse a compreensão através do

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uso de palavras chaves, como “disparo”, “munição”, “fogo”. Esse método é chamado de “associação”. Por fim, podemos ignorar o problema ou ignorar o conceito. Ignorando a existência do problema, estamos aceitando que a obra alcançara um nome menor de leitores, mas ganhamos uma poderosa ferramenta na busca de um público alvo específico, uma vez que, por exemplo, um artista marcial achará enfadonho ter de ler sobre o que é uma guarda em peek-a-boo. Por outro lado, ignorando o conceito fazemos o oposto: expandimos o público. Nesse caso, perdemos algo em qualidade, claro, uma vez que as descrições específicas daquele assunto se limitarão a ser genéricas. Uma luta, por exemplo, se limitará a repetitivos socos e ponta-pés. Mas por outro lado, essa é uma forma de encarar a coisa quando se escreve para crianças que podem ainda não entender o conceito ou ainda para um público com menor carga cultural. Dois exemplos de mestres a acessibilidade são Tom Clancy e Dan Brown. Clancy transformou seus livros em verdadeiras odes ao militarismo, demonstrando o funcionamento da cadeia de comando militar americana e mesmo os sistemas de espionagem e contra-inteligência de forma não apenas detalhada como interessante. Brown, por outro lado, fez com que a grande massa criasse interesse sobre as obras de grandes artistas do passado, fazendo uso para isso de uma técnica descritiva precisa e pouco floreada. Em ambos os casos, os autores se especializaram em fazer com que o interesse nos conceitos apresentados extrapolassem aqueles ligados a obra e invadissem a vida pessoal das pessoas. Afinal de contas, é muito provável que alguns de seus maiores hobbies e interesses tenham surgido em meio a uma história que lhe tocou.

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EDITORES-CHEFES LUCAS RUELES RAFAEL MARX

EDITORES SEMANAIS ERIC PARO JOÃO LEMES LUIZ LEAL DIOGO MACHADO

DIAGRAMADOR JOÃO LEMES

REVISORES ANDRÉ CANIATO IARA SPADREZANE

REDATOR ALAN PORTO VIEIRA


AUTORES: SEMANA FANTÁSTICA

SEMANA HORROR

Fantasia Épica: Marlon Teske

Horror: Amanda Ferrairo

Espada e Magia: Victor Lorandi

Noir: Philippe Avellar

Semana Científica

SEMANA FANTASIA MODERNA

Ficção Científica Social (Cyberpunk): Steampunk: Rafero Oliveira Alaor Rocha Ficção Científica Space Opera: Rodolfo Xavier

Fantasia Urbana: Thiago Sgobero



Pulp Feek #19