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Cinquenta anos atrás estreava na BBC a série Doctor Who. Um ano antes, chegava às bancas americanas a revista em quadrinhos JourneyIntoMystery de número 83, estréia do personagem Thor, que viria a ser um dos personagens mais populares da Marvel. Nessa edição, aproveitando o aniversário do Doutor e a chegada do novo filme do deus nórdico, a coluna Como Escrever Sobre fala sobre a série de televisão de ficção cientifica mais antiga ainda no ar, enquanto a coluna Fonte de Inspiração fala do filho de Odin. Além disso, claro, temos a continuação de A Imperatriz de Ferro e Sob(re) Controle. O one-shot dessa semana é de autoria desse editor-chefe que vos fala, quebrando a regra não escrita de que um editor não escreve na semana que edita. É bom romper certas ideias, de vez em quando. Por fim, mas não menos importante: Essa é a última semana do NaNoWriMo. Hora daquele esforço final, do pique próximo à linha de chegada. E, daqui um mês, você poderá petiscar o que foi produzido por nossos autores durante o mês na nossa Edição Especial de Natal.


PULP FEEK - #16 Séries

A imperatriz de Ferro - v... Aventuras têm que começar. Mesmo que você não queira se meter muito em confusão elas tem que começar. Mas à vezes era bem melhor observar qual caminho se está tomando não é? - Rafero Oliveira -------- Pág 3 Sob(re) Controle - TIRANDO O DIABO... Anjos e demônios começam a se meter na sua vida? Às vezes o melhor a se fazer é seguir em frente mandando tudo pro inferno. A menos é claro, que você já esteja dentro dele Thiago G. Sgobero - Pág 17

One-Shot

A mesa de pedra... Os mais velhos bem avisaram para os garotos não se aventurarem pelas florestas, mas eles não escutaram, e o resultado, bem o resultado você tem que ler para saber. - Rafael Marx ---------------------------------- Pág 29

Extra

FONTE DE INSPIRAÇÃO - Thor: 2... Confira a análise de nosso, agora não mais barbudo, editor-chefe Lucas Rueles, sobre o filme com mais barbas por metro quadrado do cinema, mas que tem como destaque maior dois caras peladas. --------------------------------------------------------------- Pág 41 Como escrever sobre... Na coluna dessa semana confira uma incrível análise de nosso amigo de sempre Rafael da fórmula de Doctor Who e porque ela continua funcionando mesmo depois de tanto tempo ---------------------------- Pág 49 Na próxima semana: Mais um capitúlo da série A Queda de Aqueron, por Marlon Teske. Continue com Toras em sua jornada fantastica na série Rixa. Aproveite também para ler a coluna de nossos editores-chefe e muito mais.


A Imperatriz de Ferro - V

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Rafero Oliveira

ma cidade inteiramente nova.

Não que a outra cidade fosse familiar a Andrei. Unterlegene, ela se chamava. Mas ela tinha sido a primeira cidade que ele conheceu quando chegou “nesta” Alemanha, que ainda era Prússia e não parecia que deixaria de ser tão cedo. Ficava cada vez mais confuso quando tentava pensar a respeito, então Andrei logo aprendeu a parar de tentar entender, pelo menos por enquanto. Agora estavam em Zenturio. Dörthe, Egon e ele haviam chegado no trem, espremidos entre as caixas e barris com as mercadorias do Nórdico. Os três estavam em uma esquina agora, em uma rua suspeita e vazia atrás de um galpão de manutenção de vagões. Egon havia batido em uma porta, apertada entre o que pareciam alojamentos de trabalhadores, e sussurrado duas palavras por uma portinhola. Agora esperavam por resposta. Estavam em silêncio, sem muito que conversar. Tiveram bastante tempo para formalidades durante a viagem, após conseguirem acordar Andrei. Tinha sido só um susto, um desmaio de fome. Alimentado e em movimento, as perguntas começaram. Andrei contou do orfanato. Tentou esconder a mágoa o máximo possível, mas talvez tenha deixado escapar alguma coisa, principalmente quando falou de como Amy, que todos consideravam a criança mais desordeira do orfanato, tinha sido adotada antes dele. Ao fim do relato daquele dia frio, que parecia ter sido há meses mas tinha sido só anteontem, ele viu nos olhares dos dois que não acredita-

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ram que Andrei simplesmente foi dormir em um lugar e acordou em outro. Sobre seus motivos, Egon só disse que havia se cansado de ver os problemas do povo serem ignorados pela realeza. Todos amavam a Rainha, mas ele tinha conseguido perceber que pouco a pouco os direitos dos nobres aumentavam, enquanto os pobres eram empurrados cada vez mais para baixo. Dörthe Dietrich, como ela se apresentou, era filha de um junker, um dos muitos que possuíam algum traço de nobreza no sangue, mas que estavam tão abaixo na linha de sucessão que nunca conseguiriam qualquer lugar na corte, por menor que fosse. Mesmo assim os Dietrich gozavam de uma posição confortável, para desagrado da garota. Quando seus pais não deram sinais que mudariam de ideia e apoiariam o grupo rebelde de Unterlegene que ela tinha ouvido falar, Dörthe resolveu fugir de casa e se afiliar. A conversa terminou ali, quando eles sentiram o trem desacelerar para chegar na estação. Pegaram suas coisas e esperaram o sinal do fiscal do lado de fora de que era seguro saírem. Parados ali do lado da porta, Andrei ainda conseguia ver o trem ao longe. Imaginou quantas estações ele visitava por dia. Quantas pessoas embarcavam, quantos sonhos e objetivos aquela máquina ajudava a entregar. Começou a pensar se poderia mudar alguma coisa pra que esse sistema ficasse mais eficaz. Talvez mais locomotivas? Mas aí ele teria que ter mais trilhos também. Ou quem sabe melhorar a locomotiva em si? Se em vez de simplesmente fazer que os pistões empurrassem os braços das rodas, ele usasse o vapor para…

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A porta se abriu, interrompendo seus pensamentos. Quando os três olharam para a entrada, viram uma figura de boina afundada na cabeça, quase escondendo os olhos. Usava uma capa de chuva pesada e botas de borracha. Um forte cheiro de peixe fugiu de lá de dentro. O homem mediu todos eles, com uma expressão que de tão carrancuda, parecia enojada. — Ele tá esperando só você. — O homem disse com uma voz roufenha, apontando para Egon com o queixo. — Eles não podem entrar. — Sem problemas. — Egon disse e depois se virou pra Andrei e Dörthe. — Vão dar uma volta. Não fiquem parados aqui. Depois eu espero vocês perto da estação. E entrou pela porta, sem esperar resposta. O homem deu outra olhada pra eles e também entrou, fechando a porta atrás de si. Os dois ficaram em um silêncio perdido, por alguns segundos. Tinha tudo sido brusco demais. — Bom. — Andrei disse. — Você conhece Zenturio? — Não! — Ela disse, virando as costas e caminhando com passos duros, na direção da estação. — Hã, Dörthe? Que foi? — Nada! Me deixa sozinha! E Andrei não teve o que fazer, vendo-a andar daquele jeito. Faltou-lhe coragem para insistir. Sem escolha, ele se virou e caminhou na direção oposta. Dörthe gostava demais de Egon, ao que parecia. Isso causava uma sensação estranha em seu estômago, que ele não conseguia decifrar completamente. Passou por perto do galpão e procurou uma janela para ver lá den-

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tro. Ficou alguns minutos vendo os funcionários rolarem eixos de ferro, martelarem placas de metal amassadas ou rasparem ferrugem de cantos de vagões. Estranhamente, não viu nenhuma pilha de entulho ali dentro. Começou a dar a volta, tentando achar um lugar onde conseguisse uma visão melhor, quando sentiu uma mão bater em seu ombro. — O quê você tá procurando aqui, garoto?! Andrei olhou para trás e viu um guarda. Não os de Unterlegene, mas um normal de uniforme azul, chapéu alto e sem pernas mecânicas. Ele estava com um cassetete de madeira nas mãos, contudo. — Hã, nada! Eu só estava olhando! — Olhando o quê?! Tá querendo roubar alguma coisa?! — N-não! Eu não! — Então por que você tava espreitando pelas janelas, como um gatuno? — Eu tava procurando a pilha de entulho daqui! — Pilha de entulho? — O guarda aliviou o aperto no ombro de Andrei junto com a expressão desconfiada. — Você é de fora? Eles jogam o entulho em outro galpão. — Ah. — Ele engoliu em seco, procurando coragem. — Será que eu podia olhar lá? O guarda retomou o olhar desconfiado, mas já havia soltado Andrei. — Você é o garoto da Rainha? O delegado disse que era pra te deixar ir lá sim. Daqui dá pra ver, olha. Aquele telhado de metal, crescendo por cima das outras casas, tá vendo? — Estou sim. Obrigado, eu acho. — Sem problemas. Um bom dia, garoto.

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— Hã, bom dia. E o guarda saiu assoviando e girando o cassetete pela rua, deixando Andrei ainda mais confuso. Após um segundo, a animação afastou a confusão. Um galpão inteiro, cheio de peças e partes, esperava por ele! E dessa vez, ele podia entrar lá! Começou a andar apressado na direção que o guarda havia apontado, quando escutou alguém correndo às suas costas. Era Dörthe que chegava esbaforida, vermelha e descabelada. — An… Andrei… — Ela se segurou em seu braço, curvada e sem fôlego. — No trem… Rainha… Escravo… — … Quê? *** — Como assim escravo, Dörthe? — Fica quieto, Andrei, que droga! A gente tá com sorte que ainda tão carregando o trem e que os vagões de carga pra rainha são os últimos. Eles haviam testado a porta do último vagão, apenas para descobrir que estava trancada. Andrei, ainda relutante, ajudou Dörthe a subir no teto do vagão, antes de se içar logo atrás dela. Agora rastejavam até uma portinhola no topo do vagão. — Tá, eu vou primeiro. — Sussurrou Dörthe. — E vejo se tá tudo bem lá dentro. Se for seguro, eu te aviso e você vem atrás. — Claro que não! — Andrei disse. — Deixa que eu vou primeiro. — Isso é algum tipo de cavalheirismo idiota?

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— Hã… Não. — Sim, era. — É que você não ia conseguir subir de volta, caso algo desse errado. — E você consegue? — Bom, já pulei muito muro antes. — É mesmo? — Bom, sim. Teve uma vez que… — Tá, tá. Vai logo. Qualquer coisa grita. — Tudo bem. Antes de se jogar pela abertura, Andrei ponderou quão habilmente havia sido manipulado. Nem mesmo perguntou como Dörthe soube o que havia nos vagões da Rainha. Mas essas dúvidas ficaram para trás, quando ele se deixou cair devagar no chão atapetado do vagão. Olhou ao redor, levantando os óculos de maquinista, conforme seus olhos se acostumavam com o ambiente levemente mais escuro. E teve um choque. Placas finas de metal empilhadas e ordenadas. Engrenagens. Válvulas. Montes e montes de material. E não eram sucata, mas peças novas, nunca usadas. Em outra parede, um balcão cheio de ferramentas. Andrei andou até elas. Chaves de boca e chaves de fenda. Um alicate de pressão e vários alicates de corte, de diversos tamanhos. Andrei pensou nas velhas ferramentas dentro da sua bolsa, comparando-as com aquele paraíso que estava na sua frente. Poderia conseguir muito mais dinheiro com aquelas ali. Consertaria coisas com mais facilidade e rapidez. Poderia até montar sua própria oficina! Chega de passar fome, ele… — Andrei! — Dörthe chamou baixinho do teto, colocando o rosto

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pra dentro. — Cadê você?! — Eu… — Oi? — Uma voz veio do fundo do vagão. Andrei se virou e viu um rapaz, que não devia ser um ano mais velho ou mais novo que ele mesmo. Usava calças com suspensórios por cima de uma camisa branca. Tinha os cabelos grandes, presos em um rabo de cavalo. Estava com uma expressão mais curiosa que assustada, enquanto ajustava seus óculos de grau no rosto. — Quem são vocês? — Hã… Andrei escutou um thump atrás de si e se virou, para ver que Dörthe havia pulado para dentro do vagão também. Ela se levantou e se dirigiu ao outro garoto: — Você que é o Fievel? — É… Sou eu. — Ele respondeu, coçando a cabeça. Conversava com dois estranhos que acabaram de entrar pelo teto do vagão, mas achou tempo pra ficar encabulado de estar falando com uma garota. — Como você sabe? — Eu ouvi os guardas na estação falando que você já tinha voltado pra cá. Que você tinha ido pegar entulho não sei onde. — Isso, eu fui procurar peças na sucata dos trens, mas não achei nada que fosse melhor que o que já tinha aqui. Aí eu voltei e eles trancaram a porta de novo. Mas o que… — A gente veio salvar você. — Me salvar? — É. Você foi vendido como escravo pra Rainha, não foi?

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— Não! — Fievel parecia constrangido. — Não como escravo! É… É complicado, tá?! — Tudo bem, então. — Dörthe disse, se aproximando. — Que seja o nome que for. A gente veio te tirar daqui. — Não, mas eu não posso sair! — Como não? — Se eu sair, eles… Eles… Não importa! Eu fico! Eles ficaram em silêncio por alguns segundos. Dörthe não parecia estar acreditando, encarando Fievel com a boca semiaberta. Fievel parecia irredutível, com os punhos fechados dos lados do corpo. Parecia estar com os olhos marejados também. Andrei não sabia o que dizer. — Hã… — Começou. — Então, vamos embora? — Vamos. — Dörthe concordou. — Mas primeiro… Andrei deu um passo à frente, ficando entre ela e Fievel. — O que você tá fazendo, Dörthe?! Guarda essa faca! — Se ele não tá com a gente, ele tá com o inimigo, Andrei! Sai da minha frente! — Claro que não! — Andrei estava com as mãos em seus ombros, forçando-a pra trás. — De onde tá vindo isso?! — É o que o Egon faria! — O quê?! E o que a Dörthe faria?! Ela iria atacar alguém indefeso?! Ela arregalou os olhos, assustada, e recuou como se Andrei tivesse batido nela. — Não é isso… Eu… — Anda, vamos embora. Sobe aqui no meu ombro e…

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Ele se desequilibrou, quando o vagão onde estavam recebeu com um tranco o puxão do vagão seguinte. — Anda, Dörthe! O trem tá saindo! — Não! — Fievel gritou, assustando-os. — Eles sempre colocam mais gente pra vigiar a estação quando o trem está saindo! — Quê? Isso não faz sentido! — Faz sim! É pra evitar que entre algum passageiro clandestino! Andrei e Dörthe ficaram encarando-o, sem palavras. — Que foi? — Alguém disse isso pra você? — Dörthe perguntou. — Sim! Os guardas! — Você acha que essa tática funciona? — Claro! Porque aí… — Ele foi se calando. — Ah… Três fortes batidas na porta dos fundos assustaram a todos. — O que tá acontecendo aí dentro?! — Uma voz masculina gritou lá de fora. — Eu… — Fievel olhou para Andrei e Dörthe por um longo segundo, antes de se virar para a porta. — Eu estava pensando sozinho! Acabei de ter uma ideia pra uma coisa! — Uma ideia?! — Gritou de volta a voz. — É! Eu vou colocar um cilindro com gás nas costas de um martelo, daí o usuário pode ativá-lo e… — Tá bom, tá bom! Fica quieto! — Tudo bem! Fievel fez uma expressão aliviada, jogando as mãos pro alto ao se virar pra eles. Dörthe rolou os olhos pra cima e se largou no chão, en-

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costada a uma parede. O trem estava começando a pegar velocidade. Andrei tentou dar um sorriso simpático, mas morreu no meio do caminho para seu rosto. Então deixou seu olhar correr pelo vagão, vendo o balcão onde o rapaz estava trabalhando quando eles chegaram. — Hã, é Fievel, né? — Isso. — Me diz… Aquilo é um braço?! *** — Ah, acho que entendi. — Então, aí com o vapor… — Iria fazer força como se fosse um músculo normal. Sim, entendi. Fievel mostrava, animado, as articulações, tanto no modelo quanto nos projetos que ele havia desenhado em papéis amarelados. Haviam desenhos de braços, pernas e até modelos de corpo inteiro. Ver um corpo completo daqueles deu uma ideia estranha a Andrei. — Mas olha. — Ele apontou no frágil modelo. — Se dá pra fazer os tais “tendões” moverem o braço e os dedos, por que não fazer isso normalmente? — Como assim? Com os próprios dedos? — É, como se fosse um fantoche. — E qual a utilidade disso? “Bom ponto.”, ele pensou. — Bom. — Andrei retomou, em um tom de desculpas. — Se você pode usar o vapor pra simular um músculo… Ele poderia fazer força

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por você. — Mas aí esse braço não ia servir. Eu teria que fazê-lo bem maior… E… — Fievel parou de falar no meio do pensamento, seu rosto parecendo se iluminar com a ideia. — Sim! Vestindo as peças como uma armadura! Daria pra levantar muito mais peso! Ele empurrou os papéis rabiscados para o chão, puxando um novo e pegando um lápis. Começou a rabiscar as ideias ali mesmo. — Andrei? — Dörthe chamou, do outro lado do vagão. — Sim? — Vem aqui, por favor? — Claro, só um minuto… — Ele estava olhando por cima do ombro de Fievel, admirado com a velocidade e precisão de seus desenhos. — Eu… — Agora, Andrei. Ele foi se afastando da mesa ainda olhando para os desenhos e só se virou quando já estava no meio do caminho. Daí viu a expressão no rosto de Dörthe, sentada no chão, e se arrependeu de não ter ido antes. — Tá se divertindo com seu amiguinho? — Não fala assim. — A gente é inimigo, Andrei! — Ela sussurrou ansiosa. — Agora você tá falando que nem o Egon também. A gente não é inimigo. Dá pra resolver tudo sem nem chegar perto do castelo. É o que estamos tentando fazer, não é? — Tá, mas deixa eu te perguntar. E quando alguém apontar uma arma pra minha cabeça? Ou quando alguém te der um tiro? Tudo vai se resolver na conversa também?

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— Dörthe, eu… Mas ele parou de falar quando se desequilibrou novamente. O trem estava parando. Dörthe se levantou apressada. — Anda, vamos sair de uma vez! Me levanta! Andrei a segurou pela cintura e a levantou até ela conseguir se puxar pra fora do vagão. — Vem, Andrei! Vamos pular antes de chegar na estação! — Já vou. Ele olhou pros fundos do vagão, para o balcão onde Fievel estava. O rapaz havia levantado os olhos de seus papéis. — Então adeus. — Andrei disse. — Tomara que dê tudo certo lá. — Vai dar sim. Eles falaram que vão pagar de acordo com a qualidade do meu trabalho, então é só eu… — Hã… Desculpa, mas eu tenho que ir. — Ah sim. Adeus então. Andrei, não é? — Isso. — Ele respondeu, saltando e segurando na borda do alçapão. — Andrei. E se puxou pra fora, torcendo de verdade que nunca mais se vissem novamente. Tinha medo da pergunta que Dörthe fez. Ou talvez tivesse medo do que responderia. Mas esses pensamentos foram levados pelo vento, quando ele viu a estação onde estavam chegando. Ele não sabia que o trem passava por um quartel militar.

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Tirando o Diabo

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ocê não entende — Disse Cella, dando um gole no chá -mate. — Ele tem problemas com a raiva, não se controla, mas isso não quer dizer que ele é perigoso ou qualquer coisa. Túlio sorriu, e também colocou pra dentro o chá. Estava aguado, nem de longe o tipo de chá que ele costumava beber. — Ele é o que, então? — Não, não é assim... Ele só... Não consegue. Não é como se ele quisesse. — E isso faz dele uma pessoa não perigosa — Disse Túlio — Acho que entendi a sua lógica. Cella suspirou fundo. O pior era que aquele Belusco tinha razão. Havia terminado com Jonas por um motivo, afinal. Olhou para as caixas com suas coisas empacotadas pela casa, todas já prontas para a mudança. Os vizinhos também pareciam concordar com o oficial. — Mas eu não sabia que a polícia trabalhava desse jeito. Só porque ele tem alguns problemas com o temperamento não quer dizer que ele pode querer me assassinar. — Mesmo se ele fosse um doido de pedra a polícia não mandaria alguém para te vigiar assim tão fácil. Coisas aconteceram. — Coisas? — Cella apertou a caneca de chá com força, e seus dedos ficaram brancos. — Que tipo de coisas? Túlio tocou o amuleto no seu pescoço num gesto involuntário e sentiu seu calor. Mamãe não estava contente. — Você está ciente que seu namorado tinha horários regulares com um psiquiatra? Cella parecia tudo, menos ciente. — Pois bem, duas sessões por semana, Doutor Gregório Santos. — Greg Santos? — Disse Cella — Jesus! — …E como você sabe, ele trabalhava para Durval Bergamoto na Ferraria Berga. — Onde você está querendo chegar?

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Túlio sorveu mais da água doce que aquela mulher insistia em chamar de chá com uma careta. Estava morno. Ela olhava pra ele com olhos tão abertos que mais pareciam janelas arreganhadas deixando a chuva entrar. — Durval Bergamoto foi encontrado hoje de manhã assassinado no seu escritório. E o doutor está desaparecido. Cella deixou a caneca cair no chão e levou as duas mãos à boca, segurando um grito de pavor. “Queria poder jogar o meu chá no chão assim”, Túlio pensou. — A coisa foi bem brutal. Na fábrica dizem que ele escorregou, mas... Não. E a última pessoa a ver Bergamoto aquele dia foi Jonas. E seu amigo Greg Santos foi visto pela última vez levando Jonas para dentro do seu apartamento. Não sei se você sabe, mas a casa do seu namorado pegou fogo. Cella manteve as mãos na boca e arregalou mais os olhos. — Foi no mesmo dia. — Ela murmurou, entre as mãos — No mesmo dia. — Vou pegar uma água pra você. Depois de beber, ela parecia mais calma. Não havia muito que Túlio pudesse fazer por ela, não podia nem usar sua magia, isso a marcaria para o faro do Cão. E por Deus, ela já seria um alvo fácil demais com as coisas que estavam por vir. Túlio tocou o amuleto enquanto Cella olhava para o chão, de olhos vidrados, e quando seu dedo indicador se queimou, o tss o e o palavrão a despertaram da letargia. — Você está bem? — Ela perguntou. — Não, não muito — Respondeu — Você? Ela não disse nada. Do alto do apartamento do doutor Gregório, Jonas podia ver os brilhos da cidade na noite que ia caindo. Podia ver a torre de celular no centro, iluminada como se fosse o monumento maravilhoso-venha-

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nos-conhecer do lugar, e os prédios baixos que eram o orgulho da população. MiniParis, às vezes pensava. A lua cheia vinha subindo, pequenininha, parecendo uma moeda, e Jonas pensou que nunca havia visto na sua vida uma daquelas luas enormes, como costumavam mostrar nos filmes ou como Chitãozinho e Xororó diziam que ela era no sertão. Sempre pequena, sempre medíocre. — Você conhece a casa dela bem, não conhece? — O doutor estava sentado na beira da sacada, com as pernas balançando no vazio. Jonas achava estranho aquele apartamento ser o único com sacada no prédio inteiro, mas não se importava muito. Tinha uma maldita lareira lá dentro, afinal. — Sabe o bairro, o nome da rua e o número? — Sei bem. — Ótimo. Agora olhe para o horizonte. Quando eu disser, você vai fechar os olhos e respirar fundo. Jonas assentiu e olhou para longe, para além da cidade, sem se fixar em ponto algum além da fina cortina de fumaça que cobria a região metropolitana como um domo de vidro numa cidade em quarentena apocalíptica. Ouvia o doutor murmurar algumas palavras, e percebia que seus lábios se mexiam também, pronunciando-as em voz baixa. Sabia que estava fazendo algum tipo de coisa estranha ali, embora não se desse conta de que tipo e de como a estava fazendo. Era como se ele fosse um bebê aprendendo a andar: Tinha a pernas, tinha a capacidade para dar alguns passos, só precisava aprender a fina arte de colocar um pé na frente do outro. Nada mais natural. — Certo, agora feche os olhos. Fechou, mas era como se ele os tivesse aberto em outro lugar. O mundo sépia apareceu de novo, com seus prédios de metal e sua terra árida, cobrindo tudo. O prédio em que estava não era mais um prédio, mas uma torre de marfim, e o apartamento, o único da torre, era uma abóboda de vidro fosco, fumê. O doutor não estava mais ali, por alguma razão, e não falava mais com ele. Estava sozinho na desolação. “Ótimo”,

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pensou, “e o que é que eu vou fazer agora?”. Lembrou-se do endereço de Cella, e de como costumava percorrer uns bons dez quilômetros para vê-la, enfrentando três ônibus que estariam, se ele estivesse com muita sorte, cheios de gente. Se estivesse com azar, estaria cheio de gente fedendo. E a paisagem começou a se mexer. Começou tremendo e fora de foco, e Jonas mal conseguia ver além da abóbada, percebendo assustado que estava se afastado dela. Ele não tinha mais corpo, estava solto no ar, sem uma forma para chamar de sua, apenas uma consciência flutuando no ar quente e pestilento. Como foi que o doutor chamou aquele lugar? Atrás do mundo? Fronteira? Alguma coisa assim. A Fronteira, aí estava um nome bom, fácil de pegar. A paisagem era ruim, cáustica e cheias de despedidas, como todas as fronteiras são. Perguntara ao doutor porque não podia ir andando até a casa de Cella, mas só recebera um “Vai em frente” como resposta. Podia roubar um carro, se quisesse, poderia até mesmo fazer com que o motorista do carro se esquecesse que o possuía. O doutor respondera a mesma coisa. “Vá em frente”. E agora estava ali. A última modalidade em transporte, seja já possuído por uma entidade e poupe o dinheiro da gasolina. Jonas se empurrou pra frente, e o cenário desolado lá embaixo começou a se mover mais depressa. Ele voava sobre as torres de ferro arruinadas e sobre os rios de diamante que eram as ruas, e chegou ao seu destino rápido demais pra poder apreciar a vista. Desceu numa velocidade vertiginosa, sem parar de ir para frente, e finalmente tocou o chão, percebendo que tinha pernas e braços novamente. Tocou-os, para ter certeza, e olhou ao redor. Casas com muros de cerca viva, carros bonitos na garagem, um pé de árvore muito bem podado na calçada com um casal de pardais que indo e voltando dos galhos. Estava na porta da casa de Cella, e o mundo estava normal de novo. — Como é que se sente? — Perguntou o doutor, escorado no muro, com um cigarro na boca.

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— Como se você tivesse roubado todos os meus cigarros. O doutor riu, se engasgando com a fumaça. — Se você tivesse me dito como era a viagem, eu teria roubado um carro. Deus sabe que eu teria. — Hm. Eu sei. Você... Aprende rápido. Jonas virou a cabeça para encarar o doutor, que tinha um sorrisinho cínico na boca. Não gostava de vê-lo sorrindo. Sua mente parecia não aceitar quando ele não estava com seu rosto habitual, quando ele sorria parecia que estava fazendo alguma coisa errada. — Que pena que Berga não viu isso em você. — Não quero falar nisso, doutor — Disse. — Ele mereceu cada soco. — Não quero falar nisso. Não quero. — Certo. — Parou de sorrir. “Sou eu quem manda”, Jonas pensou, “Só eu” — Vai ficar aí parado ou vai atrás da sua mulher? Jonas se levantou, nervoso. O doutor sabia ser uma pessoa bem nojenta quando queria. Tinha algo a fazer. Abriu o portão e entrou na casa. Tudo estava fechado e todas as luzes estavam apagadas, Cella deveria estar se escondendo lá dentro. Ela não precisava se esconder dele. Deus, era só ele. Sentiu o fogo correndo nas veias de novo e acertou um chute na porta da frente, e ela se esmigalhou e foi voando até o centro da sala. Jonas não se importou com a bagunça. Ela não precisava se assustar com ele, ela não podia se assustar com ele! Só a noção fazia seu sangue ferver e seus ossos estalarem. — Cella! — Disse — Você não precisa se esconder de mim! Cella, sai daí! Arrebentou a mesa de pedra escura com um soco, e jogou uma das cadeiras pela janela, fazendo vidro voar por toda a parte com um barulho dos diabos. — Eu só queria conversar, e agora você está se escondendo de mim! O que você acha que eu sou?

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Arrebentou os armários com socos, e as panelas caíram no chão. — Maldita filha da puta. — Disse, saindo da casa. — Não está lá dentro. — Ela está com medo. Está se escondendo de você. Jonas não via mais nada. Sua visão estava turva pela raiva, e ele sentia aquela dor de cabeça terrível de novo. Fechou a mão e fez força, e ela se acendeu como se estivesse encharcada de querosene. — Ela acha que você é um maluco fora de controle. Ela acha que você deveria ser trancado. É isso que ela acha. Jonas gritou, e as estruturas da casa tremeram. Seus olhos eram dois diamantes em chamas, e assim ele saiu da casa, deixando pra trás uma pequena fagulha na cozinha. O doutor ia atrás, sorrindo e assobiando Burning Down the House, dos Talking Heads. — Ele acha que está no controle — Disse Túlio, bebericando o chope gelado. Achava incrível como nenhuma bebida o satisfazia mais, tudo parecia feito de plástico e aromatizante. — Esse é o maior problema. Ele pensa que faz tudo o que quer, mas não. Ele é escravo do… da sua condição. O restaurante estava vazio e não estava aceitando mais ninguém. Os garçons os olhavam de longe com olhos vidrados, e mal conversavam entre si. Cella já tinha visto pelo menos uns três indo embora, e não se sentia confortável. A conversa de Belusco estava esfrangalhando seus nervos, e estava ficando amedrontada e paranoica. Por mais que achasse que o ruivo estava exagerando, sua voz rasgada e o seu rosto sempre sério a impressionava e a pressionava a acreditar. — Ele sempre teve um temperamento bem explosivo. — Ela disse, mexendo no seu prato e bebendo um gole de Coca-Cola. Sentia ânsias de vômito a cada gole — Mas isso? Acho demais, Belusco. — Túlio. Só Túlio. — Certo. Ele sempre teve esses problemas, mas não acredito que ele

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possa ter... Deus, não consigo nem falar a frase. Matado duas pessoas. — Não — Túlio disse — Você tem que acreditar que ele poderia sim. Cella abaixou os olhos para o colo e começou a chorar baixinho. “Deus, o que é que está acontecendo com a minha vida?” — Desculpe — Túlio tocou sua mão, e ela percebeu que seu toque era gelado. — Não tenho tato algum. Estou ficando velho demais. — Eu só quero ir pra casa. — Péssima ideia. Vou te levar para um lugar seguro. O amuleto no seu pescoço vibrou e começou a esquentar de novo. Túlio não se sentia confortável quando mentia, não era essa sua função. Mamãe não podia entender. Ela era de um tempo muito mais antigo, onde as coisas se resolviam com batalhas e baixas catastróficas. Túlio era um ser humano, não podia aceitar um confronto direto. Conseguia pensar à frente, e via as possibilidades. Mamãe era lógica demais. — Não, eu vou pra casa. Não vou a lugar algum com você, Túlio. Eu nem te conheço, e isso está longe de ser o protocolo policial. Cacete, eu nem vi sua identidade. — Marcella, você está numa situação arriscada, acredite em mim. Tem algo grande acontecendo. Ele precisaria usar magia. A mulher era inteligente demais, e a magia baixa que usara até agora não estava mais aguentando. Olhou-a nos olhos e começou a empurrar com a mente, tateando os pensamentos, mas foi interrompido por um alarme de carro. Odiava barulho, não conseguia se concentrar direito. Olhou para fora e viu que o veículo estava bem abaixo deles, e que o da sua frente também começou a cantar a canção do seu povo como se sua vida dependesse disso. Do outro lado da rua, outro carro também começou a berrar, e logo todos os que estavam na rua tinham o alarme disparado. Túlio se levantou e enfiou a mão na jaqueta cinza, fechando a mão em volta da arma. — A gente precisa ir agora. — Disse. — O que é que está acontecendo?

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Ele não teve tempo de explicar. Um Citroën prata veio voando do outro lado da rua e acertou a janela do restaurante, explodindo em chamas dentro do salão. Tomou Cella pela mão e começou a correr, procurando a saída de emergência. Coisas que pareciam morteiros começaram a explodir dentro do restaurante vindas do lado de fora com um assovio, espalhando fogo e destroços para todo lado. A barra da calça de Túlio se acendeu, mas ele não parou. ““Tenho que tirá-la daqui”“, pensou, enquanto sacava a arma. O plano estava dando certo até então, e foi aí que começou a dar errado. Jonas entrou pela porta da frente. — CELLA! — Ele berrou, possesso, e as chamas correram o lugar como se tivessem vida — QUEM É ELE? Túlio podia sentir nos ossos a magia do Cão, e estava com medo. A coisa estava forte demais. Lutou com todas as forças para chegar até a porta de metal enquanto o mundo desabava ao seu redor. Cella gritava desvairada, mas pelo menos se segurava firme e corria junto com ele. Túlio chutou algumas mesas e blocos de concreto que impediam sua passagem e gritou uma ordem. O fogo cedeu um pouco, mas ele sabia que agora só ficaria pior. Havia desafiado o Cão. Chegou à porta de emergência e empurrou Cella com força, e ela caiu na calçada do lado de fora do restaurante. Soltava fumaça do seu corpo e berrava como louca, mas não parecia machucada. — Ei, seu bosta — Disse Túlio, com metade do corpo dentro e metade fora do inferno do restaurante. Jonas olhou para ele, e seus olhos brilhavam brancos como explosões nucleares — Mas que bela merda que você aprontou, hein? O ruivo ergueu o braço e apontou a pistola negra. Jonas esticou o braço pra ele, como se fosse jogar um pouquinho de fogo ali, com licença, e Túlio atirou três vezes. Não pôde atirar mais, o restaurante explodiu em chamas e o jogou para a calçada. Se levantou depressa, tomando Cella pela mão, e correu como nunca havia corrido antes. Seu braço direito ardia, e quando olhou viu que ele estava completamente queima-

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do. Não se importou com a dor, tinham muito mais coisas em jogo ali. Correu até atingir uma encruzilhada, e no momento seguinte estava de volta à favela, no caminho que dava à casa da Mamãe. “Tudo bem, você estava certa”. Do lado de fora do restaurante, a lua estava enorme no céu. *** — Só estou dizendo que tinha alguma coisa errada ali — Disse o doutor Santos, mais cinza do que nunca — Será que você pode me arranjar um drinque? — Não temos bebida aqui, doutor — Respondeu o policial — Isso aqui não são os anos cinquenta. — Tudo bem, tudo bem então. Deus, eu preciso de um gole. — O doutor ia dizendo? — Então, tinha alguma coisa ali. Alguma coisa. O paciente tinha ferimentos demais, é difícil alguém bater num volante e se foder daquele jeito. Tem certeza que não tem nenhuma bebida? — Se perguntar mais uma vez, juro que vai sair daqui trocando as pernas. — Tudo bem! Deus, tudo bem, me desculpe — Disse o médico, tremendo e correndo os olhos pelo escritório — O sargento vai demorar? — Não. Quer escrever o que quer falar pra ele? Não precisa, mas você parece que precisa de alguma coisa pra fazer com as mãos. — As mãos, é isso que eu estou tentando dizer! Esse é o problema. Aquele loiro do hospital. As mãos dele. — Loiro? — O policial chegou mais perto — Está falando do rapaz que estava com o doutor… Como era o nome dele? — Você usa uma boa colônia, Cabo Freire. Qual é? Aquelas coisas baratas do Boticário? Deus, eu preciso de um gole. O Cabo Freire balançou a cabeça e saiu do escritório. Tirou o celular

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do bolso e discou o número do sargento. Ele não iria gostar de largar sua amante naquela hora da noite, mas a coisa era grande. Ele sabia que era. O telefone chamou cinco vezes, e o sargento atendeu. “Que vá tudo pro inferno”, pensou, “todos, tirando o pobre-diabo do hospital”. Aquele era seu. Começou a falar.

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eu amigo Raylock era uma dessas crianças às quais os pais se incumbem, desde o momento da escolha do nome, em transformar num completo e redondo almofadinha. No caso dele, o nome era de especial perícia na arte, uma vez que seus pais lograram lhe chamar RaylockHaywather, herdeiro de lojas e criado em meio à burguesia. Não contavam o Senhor e a Senhora Haywather, entretanto, que o demônio que veio a se encarnar em sua família era comtal força virado na aventura e na patifaria que fosse ser conhecido como o maior atirador de pedras do bairro, bem como aquele aos quais os pais indicavam aos filhos que deveriam manter distância. De mim nunca houve confusão. Chamaram-me Joshua Diggs, como era digno de um filho de estivador criado com joelhos ralados e camisas puídas. Não era atirador de pedras, mas era mestre em selecioná-las, o que fez de mim e Raylock grandes amigos, se não quase irmãos na falta de outros. O fato que lhes conto se deu quando eu e Raylock atravessávamos aquele limiar triste e pedante da vida no qual pouco a pouco se abandonam as fantasias em favor do romance, e já, então, tanto eu quanto ele tínhamos o interesse desperto pelas moças que desfilavam pelas ruas, o que por vezes nos levava ao até então inédito conflito. Entretanto, ainda era viva em nós a vontade de aventura e nos metíamos em maiores con-

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fusões do que deveriam se dignar rapazes de uma década e quase meia. Naquele verão, como todo bom verão, Raylock havia nos arrumado uma missão. No caso, encontrar quaisquer coisas fantásticas que pudesse haver nas florestas ao norte do rio, onde era dito pelos mais velhos que druidas haviam se reunido em tempos distantes, antes do vapor mover máquinas, e, portanto, seria assim uma terra de coisas medonhas. Eu estava convencido de que isso tudo era uma estratégia mal-concebida pelos mais velhos para nos manter afastados do perigo da mata, e a prova maior da má concepção era o fato de ser justamente a lenda que atraíra meu amigo para tais locais, me levando por tabela. Fazia já semanas que mapeávamos a área mais ao sul e próxima do rio e nem sinal de qualquer tipo de fada, duende ou pote de ouro ao final do arco-íris. Raylock dizia que aquilo não era mapear, mas esquadrinhar, e que na pior das hipóteses seríamos os maiores conhecedores da floresta, o que de fato seria vantajoso como terreno de brigas. Naquela tarde, entretanto, eu estava um pouco entediado com a tarefa e não parava de tentar convencer meu amigo a desistir por aquele dia, para que pudesse voltar ao bairro e passar o final da tarde tacando pedrinhas na janela de Camille. Camille, que viria a ser minha esposa, era pouco mais jovem que nós, e filha de um açougueiro que se vira com a sorte de fornecer ao quartel local do treinamento militar. “Muito

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dinheiro,” dizia meu futuro sogro, “para uma carne dura”, e completava com um sorriso. Mesmo sendo eu um pobre rapaz, ele via algo em mim, o que acabou por ser meu talento com contas, que me fez enriquecer quando ele me ajudou a erguer minha própria venda ao casar-me com sua filha. Mas, naquela tarde, eu não veria Camille, que sempre jogava um copo d’água da janela para me provocar. Naquela tarde e princípio de noite, eu veria algo que nunca mais me esqueceria, nem tornaria a ver. Já fazia horas que eu insistia para voltarmos, mas Raylock não me permitia. “Estamos atrasados na tarefa. Ainda falta muito a esquadrinhar até o final do verão e eu não vou desistir tão fácil.” Era um louco, meu amigo, mas não fosse não seria ele. Sua resposta negativa me fez suspirar, o que me fez por os olhos em uma perfeita pedra de arremesso, o que me fez pegar a dita pedra e arremessá-la nas costas de meu amigo. Ele se virou lentamente, com um sorriso nos lábios. Ambos sabíamos o que viria então. Um duelo de arremesso entre os dois melhores do bairro. Ele era de uma pontaria aguçada, que eventualmente o faria sair de soldado e chegar aos altos de tenente, e eu era um excelente avaliador e escolhia as melhores pedras. Corremos por cerca de meia hora, arremessando pedregulhos. Ele acertava meu joelho, e eu me jogava no chão calculadamente para já pe-

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gar o próximo projétil e acertá-lo antes que subisse na árvore. Ele então se escondia atrás do tronco, olhando em volta a procura de alguma pedra, enquanto eu já colecionava um arsenal de causar inveja. Ele então corria, e assim seguíamos em frente. Entre uma pedrada e outra, saímos do rumo que pretendíamos seguir com o mapeamento e, quando dei por mim, me escondia através de uma enorme pedra. Foi só quando eu notei que ele também notou. Estávamos numa clareira aberta em meio às árvores, que formavam um círculo perfeito. Circuncêntrico ao limiar das árvores se encontrava outro círculo, de flores, que variavam de cores ao longo da linha que formavam, sem repetir em meio ao azul o vermelho que era de outro ponto, ou o amarelo, branco, róseo ou laranja. No centro, entre nós dois, a enorme pedra aonde eu me escondera de seu arremesso, numa forma que mais lembrava uma enorme mesa quadrada, quase cúbica, de ângulos perfeitos demais para a natureza. Mas o que nos chamara a atenção não fora a clareira ou toda a sua inesperada geometria exata, e sim a pedra arremessada por Raylock em minha direção. A dita pedra parara no ar sobre a mesa, e não satisfeita com isso, resolvera nos assombrar ainda mais ao ficar perfeitamente em pé sobre a enorme rocha cúbica, apoiada em uma ponta do triângulo quase perfeito que lhe dava forma. As pedras triangulares e chatas eram

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as de melhor arremesso, pois permitiam um giro perfeito. Mas eu nunca vira nenhuma delas se equilibrar daquela forma. “Vamos embora.” Eu disse, categoricamente e sem dúvidas. Mas, ao contrário de me escutar, meu amigo se aproximou, estendendo a mão até a pedra de comportamento estranho, empurrando um dos lados com o dedo indicador. A pedra oscilou, mas voltou a se equilibrar exata sobre a ponta, contra todas as leis que regem o universo. “Não estou gostando disso, Raylock...” Foi o que consegui dizer antes que ele me fizesse sinal para que me calasse. Ele tirou do bolso outra pedra, também triangular, que com certeza até então era destinada para mim, e a sustentou de pé sobre uma das pontas ao lado da primeira pedra. Ela, igualmente, se equilibrou. “Que fantástico.” Ele disse. Eu rebati: “Talvez não seja tão fantástico assim. O chefe do meu pai vive dizendo que existe uma força que rege as rochas e os metais, um tal de magnotismo”.Raylock me olhou com cara de poucos amigos. “Mesmo que seja esse tal magno, não é fantástico?” Enquanto eu pensava sobre a veracidade daquela afirmação, notei que o sol já se encontrava quase um terço oculto pela aba oeste da terra, que lhe servia de cobertor na hora de dormir. “É tarde, no verão o sol só se põe após as sete e meia. Precisamos voltar.” Eu disse, tentando mais uma vez ser a voz da razão, mas ele me

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negou novamente. “Apenas mais um pouco, quero marcar bem a visão.” Mal disse isso e algo aconteceu. A rocha sobre a qual as pedras se equilibravam se iluminou. Não por inteira, mas em riscos, faixas, que pareciam emitir raios solares pálidos. Então a luz enfraqueceu e parecia apenas o brilho de uma brasa. Antes que eu pudesse dizer algo, Raylock aproximou seu indicador das linhas na rocha e as tocou, mas nada aconteceu com ele ou com a rocha. “Você está maluco? Não pode ir encostando em qualquer coisa, ainda mais em algo que brilha!” Ele se virou, sorrindo. “Não é nada, Joshua. Está tudo bem. Acho até que...” O que quer que ele estivesse tentando me dizer, se perdeu para sempre em meio a uma gargalhada terrível que veio da floresta. Minha alma nunca mais esquecerá o som malévolo que rasgou minha alma em tantos pedaços que demoraram anos para costurar. Era uma risada grave e provocadora ao mesmo tempo. Então, veio a voz. “Dois jovens perdidos na floresta. Raylock, que é filho do irmão do pai, e Joshua, que nunca terá herdeiros. Que fazem na floresta, jovens?” Não sabíamos de onde vinha a voz. Estava a nosso redor, estava em todo lugar. Estava na rocha, nas pedras, nas flores e saindo de cada intervalo entre as árvores. Estávamos cercados pelo som daquela voz aguda e estridente.

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“Procuramos algo.” Respondeu Raylock. “O que procuram, então?” “Algo fantástico.” “Ah...” E fez-se um simples silêncio que pareceu ser um ponto e vírgula. “E não é fantástica a minha mesa?” “É sim, senhor.” “Não me chame de senhor, sou mais do que isso, e menos também. Me chamem de Puck.” Ficamos em silêncio. Não havia nada que quiséssemos dizer e, mesmo que houvesse, seríamos incapazes. “Mas duvido que tenhas sido suficiente.” A voz tornou a inundar a clareira. “Vou lhes dar algo mais. Mas lembrem-se: não podem se arrepender.” E sem que tivéssemos qualquer chance de negar o pedido, sem que pudéssemos expressar qualquer reação, mesmo a fuga, as pedras sobre as rochas mudaram de forma, lentas e pacientes, e se tornaram dois pequenos seres alados, ainda cinzentos, mas belíssimos. “São fadas?” Eu consegui questionar em meio a um sussurro. “Chame como quiser, meu garoto.” Respondeu-me Puck. “É algo maior do que esperavam ver.” Ambas as fadas então abriram as asas e levantaram vôo, entrando

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nas árvores ao norte. Logo ali, então, notamos na penumbra das folhas, por entre os galhos, um vulto entre o humano e o animal. Um ser de pés de bode e corpo humano, embora não pudesse distinguir bem aquilo de primeira. “Me acharam.” E a gargalhada se repetiu. “Pois bem, garotos. Foram educados e honestos e eu já preguei minha peça de hoje. Podem ir em paz. Se forem agora.” Dito aquilo, foi como se algo desamarrasse nossas pernas, pois nos botamos para correr até que estivéssemos distantes. Corri pelo que pareceram horas, me perdendo entre os galhos retorcidos e as pedras escorregadias da floresta, mas sempre a sul, onde eu encontraria com facilidade a Rua dos Homeopatas, que guiava os cidadãos até a floresta. Mas aquela não era uma situação comum e tenho certeza que corri por uma distância longa o suficiente para cruzar não apenas a floresta, como a cidade e o campo, cruzar a nado o lago Azul e chegar até próximo de Cardiff. Mas enfim encontrei a rua que procurava e, para meu alívio, meu amigo Raylock vinha em meus calcanhares. Ao chegar tarde em casa e devendo uma explicação, decidi não inventar nenhuma história irreal e me ater a contar a irreal história que realmente se passara. Por óbvio, minha mãe desacreditou e já se preparava para me aplicar uma severa surra pela mentira quando foi inter-

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rompida por meu pai. “O que ele lhe disse?” Falou, sereno, o meu velho. “Sobre você, eu quero dizer.” Não entendi o que meu velho estava querendo dizer, mas então num estalo percebi ao que se referia. “Ele me disse que eu não teria herdeiros.” “É uma pena meu filho. A verdade que ele me contou quando eu tinha sua idade foi menos severa, mas não menos triste.” Nunca mais se falou daquilo em minha casa e eu decidi guardar eternamente a sina que me fora anunciada para mim, sem contar a minha Camille, jamais. Era um fardo triste demais para se dividir com alguém e eu temia o que ela faria se soubesse. No dia seguinte, me encontrei com Raylock. Já então se instalara a dúvida sobre sua procedência na cabeça, ao passar de apenas uma noite. Ele viria a descobrir que seu pai, o senhor Haywather, possuíra um irmão mais jovem e boêmio, que falecera misteriosamente de tiro próximo do nascimento de meu amigo. A partir desse dia, Raylock não teve uma única noite em que se deitasse na cama e não imaginasse ser fruto do caso de sua mãe com o falecido tio, ao qual se vingara o pai. Fosse isso, ele escapara por sorte da fúria paterna e, em lugar disso, fora adotado como legítimo. Desde então, meu amigo nunca mais destratou seu

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pai e, pouco a pouco, se tornou um homem de respeito, sem que nunca tivéssemos cortados laços, unidos que estávamos pela experiência. No ano seguinte, eu me muni de coragem numa noite de primavera e caminhei sob as árvores da floresta, procurando a mesa de Puck. Não a encontrei, mas achei possíveis pegadas e marcas nas árvores. Nunca mais vi fadas, mas,às vezes, no calor do poente.em um dia deverão, ainda posso ouvir, distante mas sonora, a gargalhada do pregador de peças.

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Tirando o filme antigo do Hulk, onde o Thor aparece, e um filme onde uma garotinha é fã do Thor, cujo nome eu não me recordo agora, não tenho muita lembrança do Thor pré-cinema Marvel. Entretanto, do que eu conheço, posso dizer que aquele herói que conhecemos no quadrinho teve que passar por algumas adaptações para sua chegada ao cinema. Muitas das escolhas do primeiro roteiro, mesmo num mundo digno do “Grande Thor”, não conseguiram nos passar o que se esperava por completo. Ficou o vazio. Veio então o filme dos “Vingadores” e, na intersecção dos mundos, o resultado foi à forma completa que esperávamos, não só para o Deus do Trovão, mas para todas as personagens que ali estavam. Ver Homem de Ferro, Capitão América, Hulk, Viúva Negra, Gavião Arqueiro, Nick Fury e os agentes da SHIELD dando tudo de si em uma história foi, por si só, maravilhoso. Mas o elemento crucial, que dá ao filme uma importância cronológica para a história de Thor nos cinemas, é o vilão. O Loki de Tom Hiddleston dispensa apresentação, tem a ironia, a maldade e a insanidade próprias de um bom vilão do cinema atual. Agora temos o segundo Thor em nossas mãos, vou aproveitar essa coluna e dizer o que ele trouxe para nós:

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Um novo Thor Não preciso repetir o que estão falando por ai, o novo filme é melhor em tudo. Eu prefiro tentar explicar o porquê, mesmo não sendo um especialista nisso. O que vemos neste filme não é a continuação do que foi desenvolvido no primeiro, até mesmo alguns pontos da história nos deixam claro o desejo de abandonar o roteiro inconsistente que foi desenvolvido lá atrás. O início do filme é incrível: uma história sendo contada na voz do fabuloso Anthony Hopkins. Com todo perdão aos maravilhosos dubladores, que a cada dia fazem um melhor trabalho, mas a voz dele ainda está ressoando no meu ouvido dizendo: “Você fez a escolha certa ao ver o legendado”. Esse pequeno prólogo é o bastante para nos dar o tom de tensão que vai permear a história toda vez que vermos o irreconhecível Cristopher Eccleston como Malekith e, também, entendermos de imediato o poder do perigoso Éter. O Rei dos Elfos negros veio direto do mundo de Tolkien, acho que isso é algo que está ressoando por ai que não posso deixar de repetir. É reflexo do desejo dos produtores de realmente fazer um filme de fanta-

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sia, se apegando o mínimo à ciência, transformando ela num mero detalhe. Incrível como eles conseguem isso, no seguimento do filme podemos veros outros mundos que não haviam sido mostrados, cada mundo com seus detalhes e características, sem perder jamais suas individualidades. Éa essência de uma história individual que não se desliga do núcleo de mundo da Marvel. Quando vemos Natalie Portman de novo, somos recebidos por uma enxurrada de bons ganchos com o péssimo uso de sua atuação no primeiro filme. Somos também recebidos por nenhuma explicação de porque Thor a deixou de lado, isso é bom, eles não precisam explicar coisas demais, esse não é um filme desses. Até esse filme, eu não conseguia entender como a casa das ideias estava modelando seu mundo de heróis na tela dos cinemas. Momentos de fantasia e momentos de ciência, tudo isso me deixava confuso. Na realidade, o que eles queriam não era nenhum dos dois. Por isso vemos cortes bruscos, em diversos filmes, entre estas temáticas, momentos claros onde a suspensão de realidade toma conta e eles te lembram o mais importante: Isso é um filme de super-heróis. E é ai que entra a personagem de Natalie Portman. Ela transita entre os mundos, ela ultrapassa esses limites e nos transporta além deles. É

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difícil imaginar que a personagem que mais odiamos no primeiro filme seria a base que precisávamos para colar tantas referências diferentes. Mas isso foi feito, palmas para o roteirista. O Crescimento em cima das brechas. Um detalhe do filme que não pode passar despercebido é como as brechas são bem usadas. Como bem disse o nosso amigo Rafael, que escreve a coluna que vai abaixo da minha, eles Joss Whedonizaramo filme. JossWhedon, para quem não sabe, é o diretor de Vingadores, roteirista da série Buffy: a Caça Vampiros e de ToyStory. É ele o responsável por tamanha efetividade em ganhar ganchos e aproveitá-los ao máximo. Sua principal característica vem do fato de ele já ter trabalhado como um reparador de roteiros. Uma pena que, quando ele foi chamado para dar uma olhada em X-men, os produtores acharam melhor ignorá-lo. Quem sabe o que veríamos? Isso mesmo, se você pegar o IMDB dele e abrir verá que ele participou de um monte de obras sem ser creditado. Sua adição de piadas de tom irônico é o que garante a você ver aquela maravilhosa atuação de Tom Hiddleston. Loki se faz presente nesse filme. Acho que de uma forma geral po-

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demos dizer que Thor, como personagem, evolui porque ele o faz evoluir. O mundo de Thor evolui porque tem que responder a necessidade deste personagem. Não há como negar que um filme sem este personagem não seria o mesmo, não teria o peso necessário. Seu encaixe nesse mundo funciona, é ele que elucida para nós os detalhes desse mundo. Ele é nosso anfitrião. Mas, sem nunca perder o drama quando necessário, sem nunca perder a firmeza, ele se faz forte por saber mediar seus lados. Ele sabe enganar, porque, como nunca,sabe controlar seu próprio ego. Uma personagem interessante, completamente diferente de Malekith. Que talvez exatamente por essa necessidade de ser diferente é interpretado por Eccleston que, em sua atuação como Doctor Who, conseguiu demonstrar perfeitamente a capacidade expressa por Hiddleston. Ele vem magnífico e apático, deixando ganchos, com seus vilões e seus anjos negros. Seu embate com Loki, e não com Thor, demonstra a luta entre apatia e sagacidade. É algo brilhante. Thor: O Herói E, finalmente, falamos do Herói interpretado pelo - para delírio das moçoilas da sala de cinema -bombadinho Chris Hemsworth. Vocês

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acham que eu estou exagerando nesse comentário? Deviam ver os gritos histéricos no cinema quando o cara apareceu sem camisa. Bom, vamos deixar o físico do garoto de lado? Cara, ele se tornou o Thor, isso tem se tornado indiscutível. Mas eu não estou contente só com isso, não me basta ver só o Thor, pois não penso que o Thor seja um herói difícil de interpretar. Comparemos o Thor com a complexidade de um Bruce Banner ou com um Homem de Ferro. O que teremos? Teremos um cara com um código de honra severo disposto a ser herói de um mundo que ele mal conhece. Hemsworth faz bem este papel no primeiro filme, faz bem este papel nos vingadores. E no Thor 2, o que afinal ele nos deixa? Sua capacidade de atuação se concentra em minimizar os danos dos exageros cometidos pelo primeiro filme - exageros necessários ao roteiro do próprio filme. Ele media o romance e torna o amor repentino entre Thor e Jane Foster menos ridículo, usando de expressões para construir o amor entre os dois. Isso, auxiliado pelos signos, faz com que as coisas se tornem um pouco menos estranhas, apesar de continuarem incomodando. Outra coisa que ele traz é sua presença de cena incrível. Se não fosse ela, o filme teria que mudar seu título para Loki. Com ela, vemos o

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questionamento ao vilão, a quebra de sua máscara, o desenvolvimento de relações familiares extremamente complexas e profundas. Graças a isso o filme deixa de ser uma aventura épica para salvar o mundo e se torna a vingança de dois irmãos que antes se odiavam. O Thor que nos é apresentado nesse novo filme funciona melhor, está mais adaptado ao papel e espero que continue assim. Afinal, o herói que desagradou em seu primeiro filme foi o mote principal para os vingadores e merecia uma história melhor. Os créditos Ver os filmes da Marvel tem se tornado uma agonia: ficar na sala quase sozinho para ver os créditos finais até não sobrar nenhuma letra, até me expulsarem, se for necessário. Tudo para poder ver o que a casa das ideias tem para nós no próximo filme e nos seus futuros projetos Bem, sobre eles, só tenho a dizer uma coisa: Uma pena que a Fase 3 de vingadores esteja tão longe, ela parece promissora. Mas, enquanto isso, esperemos pelos Vingadores 2 em 2015, com Ultron que, aliás, é meu vilão preferido. Esperemos também pelo Homem-Formiga (Hater’s gonna hate).

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De todas as séries de ficção científica da televisão, criadas e idolatradas ao longo da história humana, uma única delas pode reclamar o posto de mais extensa e duradoura. Doctor Who iniciou sua longa jornada televisiva no dia 23 de novembro de 1963, contando a história de um senhor que atendia pelo nome de Doutor e viajava pelo tempo e pelo espaço com sua neta e alguns outros companheiros. Cinquenta anos depois, a série permanece no ar, embora tenha enfrentado um longo e pesaroso hiato. É, talvez, um dos maiores sucessos da história da televisão e uma franquia não apenas poderosa, como cheia de ensinamentos para aqueles que pensam em seguir carreira como escritores e roteiristas. Vamos explorar na coluna dessa semana os pontos que permitem a essa série ser tão duradoura e ainda atrair os fãs. 1. As Leis de Arthur C. Clarke. Dentre os autores de obras de ficção científica, destaca-se a figura de um britânico de nome Arthur Charles Clarke, autor de obras como 2001: Uma Odisséia no Espaço e Encontro com Rama, clássicos da ficção científica. Além de grandes obras do gênero, uma das maiores contribuição de Clarke foi o estabelecimento de suas três leis que, se não seguidas por todos os autores do gênero, ao menos serviram de guias a iniciantes no gênero. Em tradução livre, as leis seriam: 1ª Lei: Quando um cientista afirma categoricamente que algo é possível, ele provavelmente estará certo. Quando um cientista afirma categoricamente que algo é impossível, ele provavelmente estará errado.

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2ª Lei: A única forma de descobrir os limites do possível são atravessálos um pouco em direção ao impossível. 3ª Lei: Qualquer tecnologia suficientemente avançada será indistinguível de magia. Embora recebam o nome empírico de Leis, as três assertivas de Clarke seriam melhor descritas como “guias”, uma vez que não são regras inexoráveis e, sim, simples ferramentas das quais o autor pode se valer para defender a própria liberdade ao explorar um tema dentro do gênero. Doctor Who, como obra de ficção científica, lança mão das três leis para estabelecer o próprio cenário. Estamos falando de uma história na qual um alien de uma raça de viajantes do tempo (os “Time Lords”) viaja em uma máquina de nome TARDIS (“Time AndRelativeDimensions In Space”, algo como “Tempo e Dimensões Relativas no Espaço”), cruzando centenas de raças inteligentes e épocas diferentes em sua eterna aventura. Não por coincidência, aparentemente, as leis de Clarke foram criadas por um autor britânico extremamente popular em sua terra natal e apenas um ano antes do início da série. As leis são, portanto, o escudo protetor do Doctor, evitando explicações ultra elaboradas e desnecessárias. 2. Mantenha-se mudando. Se tratando de uma série com um total, até o momento, de 34 temporadas (26 clássicas e a oitava moderna em execução) seria fácil dizer que Doctor Who se tornaria, em determinado ponto, repetitiva e enfadonha. Isso não acontece, na verdade, devido a uma série de fatores

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sempre em constante mudança que não nos permite cansar de nenhum deles. Em primeiro lugar, o Doutor em si não é constantemente o mesmo. O ator que o retrata muda a cada cerca de três ou quatro temporadas e leva consigo a personalidade e a forma como conduzia o personagem. Embora alguns elementos sejam comuns a todos as versões do Doutor, a cada alteração de ator,o personagem ganha novas nuances e formas de responder a um mesmo problema, como os vilões recorrentes da série. Algumas versões são mais agressivas, outras mais passivas, e outras ainda parecem quase desligadas ou com uma forma de pensamento completamente não linear. Um ator facilmente passa o bastão para outro com a explicação de que o Doutor sofreu danos à sua constituição que o levarão a morte caso ele não passe pelo processo conhecido como Regeneração. Além do protagonista, os coadjuvantes diretos também são sempre alterados. Os chamados “Companions” (“acompanhante”) são personagens que acompanham o protagonista ao longo de suas viagens e servem de contraponto humano ao pensamento alienígena do Doutor. Mas, sendo nós mesmos, humanos, de uma variedade surpreendente, pode-se dizer que o acompanhante do doutor não servirá como visão geral, mas sim como uma visão restrita com a qual apenas alguns se identificarão. Assim sendo, a alteração do acompanhante já servirá, de certa maneira, como reciclagem da atual versão do protagonista. Por fim, mas mais importante, as histórias da série não podem ser simplesmente encaixadas em um único subgênero, uma vez que passeiam desde uma leve comédia até temas pesados como a existência e a versão

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científica de demônios. Em certos episódios é possível acompanhar o Doutor se envolvendo em uma investigação e deixando de lado quase que completamente a ação. Em outros, vemos o protagonista e seus acompanhantes em uma espaço-nave cheia de dinossauros, tendo de fugir e combater a cada instante. A variedade temática e gênica da série, episódio por episódio, permite aos escritores responsáveis se divertirem escrevendo em clima de velho-oeste e não estão restritos a contar uma história que se passe num submarino russo durante a Guerra Fria, entre outras centenas de gêneros. 3. A temática (quase) oculta. Os inimigos mais odiados do Doutor são os Dalek, inimigos de sua raça e adversários destes naquela que ficou conhecida como a Guerra do Tempo. Os Dalek são seres que abandonaram seu corpo e consciência, cedendo ao instinto de se tornarem mais próximos de uma consciência coletiva motivada pelo ódio e a dominação. Membros da raça não recebem nome, e seu mote, repetido a cada aparição de um personagem da raça, é “exterminar”. Outro grande adversário do protagonista é o grupo de andróides que recebe o nome de Cybermen. Estes seres prateados já tiveram sua origem alterada com o decorrer da série algumas vezes, mas são sempre seres mecânicos que transformam humanos em outros iguais a eles, quase sempre de forma irreversível. A mensagem oculta nos dois grandes vilões é de fácil percepção. Mas, caso haja alguma cacofonia que impeça a transmissão desta, o próprio

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Doutor ressalta o fundo temática geral da série nos não raros momentos em que exalta e demonstra admiração pela raça humana, sempre com um “apesar de”, uma vez que por vezes vemos o herói tendo de enfrentar situações provocadas pelo egoísmo ou ganância humana. Os grandes e clássicos vilões recorrentes sempre são aqueles que ressaltam uma característica ruim dos humanos e abrem mão de outras melhores e mais aceitáveis. 4. O Misterioso Doutor Me foge o conhecimento se isso já foi dito, mas, se não foi, cravem como a Primeira Lei de Marx: Para manter o interesse, é preciso manter o mistério. O Doutor é um exemplo disso. Embora saibamos sua origem e quase sempre saibamos como ele vai reagir, nos escapa seus motivos e por vezes o que lhe impulsiona. O Doutor foi um soldado, um herói, um pai e um avô em momentos distintos de sua longa e mutável vida como viajante temporal. Desta forma, ele experimentou mais do que qualquer um de nós jamais experimentará, e isso inclui coisas que fizeram dele um cão de guarda de certos aspectos do que é genericamente chamado de bem. Entretanto, essas experiências mexeram de tal forma com a cabeça do protagonista que ele prefere mantê-las em segredo. Não é raro, ao assistir a série, que se esqueça que aquele personagem que nos conduz por eras e lugares é na verdade um alien. Mas a série invariavelmente sacode esse esquecimento ao colocar na boca do Doutor uma frase de conhecimento exógeno ou um provérbio de um povo de

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outro planeta. Por vezes, entretanto, o que nos atinge é uma citação a Gandhi, Martin Luther King, Churchill ou outra figura história real. Afinal, em meio àquela figura misteriosa e de outro tempo e planeta, temos também um pai, um avô e um filho, como todos nós humanos nos esforçamos para ser. PS: Não quero encerrar essa coluna sem citar que o Doutor não porta armas. Em suas aventuras, além de seu meio de locomoção, a única ferramenta do qual ele faz uso é uma Chave de Fenda Sônica. O que quer que isso signifique.

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EDITORES-CHEFES LUCAS RUELES RAFAEL MARX

EDITORES SEMANAIS ERIC PARO JOÃO LEMES LUIZ LEAL DIOGO MACHADO

DIAGRAMADOR JOÃO LEMES

REVISORES ANDRÉ CANIATO IARA SPADREZANE

REDATOR ALAN PORTO VIEIRA


AUTORES: SEMANA FANTÁSTICA

SEMANA HORROR

Fantasia Épica: Marlon Teske

Horror: Amanda Ferrairo

Espada e Magia: Victor Lorandi

Noir: Philippe Avellar

Semana Científica

SEMANA FANTASIA MODERNA

Ficção Científica Social (Cyberpunk): Steampunk: Rafero Oliveira Alaor Rocha Ficção Científica Space Opera: Rodolfo Xavier

Fantasia Urbana: Thiago Sgobero



Pulp Feek #20