Issuu on Google+

ISSN 2176 7785

NÚMERO 8

2O SEMESTRE DE 2013


ISSN 2176 7785

NÚMERO 8

2O SEMESTRE DE 2013


Copyright©2013 by Núcleo de Publicações Acadêmicas do Centro Universitário Newton Paiva Número 8 2/2013

Pós em Revista / Belo Horizonte: Centro Universitário Newton Paiva, 2013. Disponível na Internet: < http://npa.newtonpaiva.br/pos/> n.1.Semestral ISSN 2176-7785 1. Periódicos. 2. Revista Científica. I. Centro Universitário Newton Paiva CDU 001.891

(Ficha catalográfica elaborada pelo Núcleo de Bibliotecas do Centro Universitário Newton Paiva) 2 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


ComitÊ eDitoriaL EDITORA GERAL Eliana de Faria Garcia Horta

EDITOR ADJUNTO Anderson Hollerbach Klier

ÁREA DE CONHECIMENTO- CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS Maria do Carmo Resende Teixeira Guerra Fernando Ferreira Dias Filho Marcos Eugênio Vale leão Iremar Nunes Lima

ÁREA DE CONHECIMENTO- CIÊNCIAS HUMANAS Bruno Luciano de Paiva Silva

ÁREA DE CONHECIMENTO- CIÊNCIAS DA SAÚDE Sérgio Fernando de Oliveira Gomes Marta Marques Gontijo Aguiar Roberta Dias Rodrigues Rocha

ÁREA DE CONHECIMENTO- CIÊNCIAS DA ENGENHARIA Érika Silva Fabri Luciano Emirich Faria Tereza Cristina Magalhães


estrutura FormaL Da instituição PRESIDENTE DO GRUPO SPLICE Antônio Roberto Beldi

REITOR João Paulo Beldi

VICE-REITORA Juliana Salvador Ferreira de Mello

DIRETOR ADMINISTRATIVO E FINANCEIRO Marcelo Vinicius Santos Chaves

SECRETÁRIA GERAL Dorian Gray Rodrigues Alves

Centro Universitário Newton Paiva Rua do Trevo, s/n - Bairro Caiçara - CEP 31230 010 Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil 4 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


eXpeDiente

APOIO TÉCNICO NÚCLEO DE PUBLICAÇÕES ACADÊMICAS DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA http://npa.newtonpaiva.br/npa Cinthia Mara da Fonseca Pacheco

EDITORA DE ARTE E PROJETO GRÁFICO Helô Costa - RG127/MG DIAGRAMAÇÃO: Laura Senra e Márcio Junio (estagiários do Curso de Jornalismo) PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 5


apresentação

Prezado Leitor,

Temos a satisfação de divulgar a OITAVA EDIÇÃO da “Pós em Revista”. A cada edição, a Pós em Revista busca maturidade, indo ao encontro da qualificação de cada publicação e do reconhecimento como meio de divulgação de qualidade entre os alunos, professores e profissionais do Centro Universitário Newton Paiva e de outras instituições. Nesta oitava edição, por meio da mídia eletrônica, a revista traz dezenove artigos, resultantes de trabalhos científicos, interdisciplinares, de conclusão de curso e de revisão da literatura que possuem relevância em suas respectivas áreas do saber científico: ciências sociais e humanas, ciências da saúde, engenharias e ciências exatas. Aproveitamos a oportunidade para agradecer aos autores dos trabalhos que abrilhantaram esta edição. Nós, da Equipe Editorial estamos felizes por mais uma edição publicada e desejamos a participação, interação e divulgação de nossos alunos, professores e leitores para seguirmos crescendo no cenário da divulgação do conhecimento por meio da publicação desta revista. Queremos ainda, convidar aos professores e alunos a enviarem seus artigos. Caso os trabalhos se enquadrem em nosso escopo editorial poderão compor a NONA EDIÇÃO da “Pós em Revista”, NO MÊS DE JUNHO DE 2014. Boa leitura! Eliana de Faria Garcia Horta Editora-Geral

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 7


sumário CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS ADMINISTRAÇÃO AVALIAÇÃO DE EFICÁCIA DO TREINAMENTO: O uso e a importância da avaliação do aprendizado para a aprendizagem organizacional Wilimar Junio Ruas .......................................................................................................................................................................12 GESTÃO DO CONHECIMENTO: APLICAÇÃO NAS ORGANIZAÇÕES NUMA PERSPECTIVA SISTÊMICA Jeanne Cristina Martins Rodrigues, Maria Efigênia Nagem Moreira, Sandra Helena Lopes Nogueira ..................................................................................................................................................19 A IMPORTÂNCIA DO EMPREENDEDORISMO NAS ORGANIZAÇÕES ESTUDO DE CASO DA EMPRESA EXPRESSO GLOBAL LTDA Ana Maria Ribeiro Santiliano, Braulio Fernando Vieira, Priscilla Evangelista de Oliveira, Raphael Nilton Santos, Thais Lílian Fagundes Lopes, Helbert José de Goes, Laila Hamdan ..........................................................................................................................................24 A GESTÃO DO CONHECIMENTO COMO MECANISMOS DE MAXIMIZAÇÃO DE RESULTADOS ORGANIZACIONAIS Davson Mansur Irff Silva ...............................................................................................................................................................31 O PENSAMENTO ORIENTAL E A GESTÃO ESTRATÉGICA DO CONHECIMENTO: EDUCAÇÃO FORMAL E NÃO FORMAL, INOVAÇÃO E CONDUTAS FILOSÓFICAS Wallisson Nunes da Silva .............................................................................................................................................................41

GESTÃO OS DESAFIOS DA ÉTICA EMPRESARIAL E CIDADANIA NA ERA DA INFORMAÇÃO E DO CONHECIMENTO Inês de Carvalho Veloso, Mauro Elias Gebran ............................................................................................................................47 RESPONSABILIDADE SOCIAL NAS ENGENHARIAS DAS FORÇAS ARMADAS: o discurso da boa cidadania corporativa Cristia Rodrigues Miranda, Marley Rosa Luciano, Osní Francisco Severino ...............................................................................53

RELAÇÕES INTERNACIONAIS A SUBORDINAÇÃO DOS INDICADORES SOCIAIS E ECONÔMICOS: Comparações entre Brasil e Chile quanto ao IDH, PIB, Corrupção, Educação. Eduardo Bomfim Machado, Gabriel Chamone, Gabriela Salomão de Barros, João Felipe Chamone, Laila Lucie Dias Guimarães, Leonardo Vieira Babsky, Simone Gelmini Araújo .........................................................................................................................58 BRASIL E ÁFRICA DO SUL: Cooperação Sul-Sul Felipe Xavier Faria Alvarenga, Messias Borges dos Santos Júnior, Renata Aparecida Pinto, Rodney de Souza Pereira .....................................................................................................................66


CIÊNCIAS HUMANAS PEDAGOGIA ASPECTOS DA RELAÇÃO FAMÍLIA X ESCOLA Clarice Tolentino Barbosa, Joelma Lourdes Silva Rafacho, Sérgio Rafacho ..............................................................................73

CIÊNCIAS DA SAÚDE FARMÁCIA SÍNDROMES DEMENCIAIS, HOMOCISTEÍNA E VITAMINAS DO COMPLEXO B Gisele Santos Gonçalves, Flávia Batista Pinto Coelho, Josianne Nicácio Silveira, Maria das Graças Carvalho, Luci Maria Sant’Ana Dusse.............................................................................................................81 ATIVIDADE EDUCATIVA SOBRE A GRIPE EM UM CENTRO DE SAÚDE EM BELO HORIZONTE Adelson Mizerani Siqueira, Juliana Cioletti,, Marina Botelho Silqueira, Wendel Amaral, Paula Chiesa Guimarães, Wesley Peixoto Freitas, Renata Freitas Maletta ..................................................................................87

ODONTOLOGIA SÍNDROME DE DOWN: CARACTERÍSTICAS BUCAIS Maria Luiza da Matta Felisberto Fernandes, Lucas Costa Lopes, Paola Alves Farneze ...................................................................................................................................90 CATÁLAGO DE ÍNDICES E INDICADORES SOCIODEMOGRÁFICOS UTILIZADOS EM SAÚDE Camila da Penha Marques Braga, Gabrielle Rios de Oliveira, Maria Luiza da Matta Felisberto Fernandes, Veridiana Salles de Oliveira Furtado .......................................................................95

ENGENHARIAS ENGENHARIA DE MATERIAIS ADIÇÃO DE REJEITOS DE EXTRAÇÃO DE ARDÓSIA EM CONCRETO Claudio Gouvêa dos Santos, Luciana Boaventura Palhares, Emerson Diego Carvalho Rosa, Ewerton Ferreira Cruz, Michele Mamedes da Costa ................................................................100 A UTILIZAÇÃO DOS EXTRATOS DE MATE E ROMÃ COMO INIBIDOR DA CORROSÃO DO AÇO-CARBONO 1020 Claudio Gouvêa dos Santos, Luciana Boaventura Palhares, Cely de Fátima Santos, Carlos Martins Viana, Cintia Priscile Andrade Jesus, Lucas Alves Nascimento, Tatiane Gomes Santos........................................................................................................................104 O POLI (CLORETO DE POLIVINILA) NA CONSTRUÇÃO CIVIL Claudio Gouvêa dos Santos, Luciana Boaventura Palhares, Fellipe Braga Pacheco, Fernando Queiroz Carvalho, Glenda Marra Vidigal, Karen Christine Souza Sima, Magna Gomes da Cruz, Pâmela Nascimento Dos Reis Rabelo .................................................................................................109


POLIESTIRENO EXPANDIDO NA CONSTRUÇÃO CIVIL Claudio Gouvêa dos Santos, Luciana Boaventura Palhares, Raphael de Oliveira Duarte, Thiago Henrique Cardoso Gonçalves, Mariana de Melo Almeida Horta, Wagner Agostinho dos Reis, Rafael Vinicius Silva Straelh ...........................................................................................................114

CIÊNCIAS EXATAS E DA TERRA CIÊNCIAS DA COMPUTAÇÃO ESTUDO COMPARATIVO ENTRE AS FERRAMENTAS CACTI E MRTG NO GERENCIAMENTO DE UMA REDE COMPUTACIONAL COM TRÁFEGO HETEROGÊNEO Marcos Prado Amaral, Thiago de Freitas Faria ............................................................................................................................119


AVALIAÇÃO DE EFICÁCIA DO TREINAMENTO: O uso e a importância da avaliação do aprendizado para a aprendizagem organizacional Wilimar Junio Ruas1

Resumo: Este artigo analisa os resultados obtidos no processo de avaliação da eficácia de um treinamento de padronização, especificamente na etapa de avaliação do aprendizado, de acordo com sistema de avaliação de treinamento de Donald Kirkpatrick. A pesquisa realizada é do tipo descritiva, tendo como métodos a pesquisa bibliográfica e a pesquisa de campo. O instrumento de coleta utilizado foi um questionário estruturado, aplicado antes (pré-teste) e após o treinamento (pós-teste). Foram obtidos os resultados do aprendizado de 31 empregados do setor operacional de uma empresa de saneamento, referente ao conteúdo ministrado no treinamento. O treinamento ocorreu em setembro de 2012, visando disseminar os conceitos e aplicações de um sistema de padronização de tarefas e procedimentos. Os resultados da pesquisa demonstram a importância da avaliação do aprendizado para identificação da assimilação e retenção dos conteúdos repassados no treinamento, além de servir de instrumento de feedback para instrutores e organização. Conclui-se que a avaliação da eficácia do treinamento, não se restringe somente à avaliação do aprendizado, e sim da composição dos quatro níveis propostos por Kirkpatric. A aplicação dos quatro níveis serve de instrumento norteador para o desenvolvimento do processo de aprendizagem organizacional. Palavras-chave: Avaliação da Eficácia de Treinamento. Modelo de Kirkpatrick. Avaliação do Aprendizado.

1 INTRODUÇÃO

Para exploração do campo, serão abordadas definições acer-

Este artigo visa analisar a aplicabilidade da avaliação de

ca do conceito de treinamento e da necessidade de avaliação de

eficácia de treinamento no que tange a importância da avalia-

sua eficácia, com base no modelo de avaliação de treinamento em

ção do aprendizado, tendo como base teórica o sistema de

quatro níveis de Kirkpatrick. Serão também apresentadas definições

avaliação de treinamento em níveis proposto por Kirkpatrick.

acerca de aprendizagem organizacional e sua relação com a disse-

De acordo com Kanaane e Ortigoso (2001, p. 71), o modelo

minação e utilização do conhecimento no âmbito das organizações.

de Donald L. Kirkpatrick foi um dos pioneiros na elaboração de sistemas de avaliação de programas educacionais em

2 DESENVOLVIMENTO

ambientes organizacionais.

No desenvolvimento do artigo serão apresentadas as eta-

Tendo como fio condutor o sistema de avaliação de Kirkpatrick, a pesquisa justifica-se pela necessidade de obter

pas norteadoras da pesquisa, definidas como referencial teórico, metodologia e exposição da pesquisa.

uma forma de mensuração da eficácia de um sistema de treinamento, do qual se permite extrair de maneira quantitativa

2.1 Referencial teórico

os resultados de assimilação e retenção de conteúdo, rela-

O conceito de treinamento possui várias definições, sen-

cionando-os de maneira prática com os conceitos de apren-

do abordado em diversas literaturas da administração como

dizagem organizacional propostos por alguns autores. Neste

também da psicologia. Chiavenato (1994) define o treinamento

contexto, Senge (1999) define que a aprendizagem organiza-

empresarial como um processo educacional que leva um indiví-

cional é a capacidade das organizações em criar, adquirir e

duo a adquirir competências para exercer um cargo ou função

transferir conhecimentos e em modificar seus comportamen-

em uma organização. Para Vieira (1999), o treinamento é uma

tos para refletir estes novos conhecimentos e insights.

função de linha, onde os gerentes devem se preocupar com

A pesquisa prática para avaliação do aprendizado foi reali-

a capacitação de sua equipe, atentos para a real necessida-

zada em um grupo de 31 empregados do setor operacional de

de de cada funcionário e que o treinamento seja adequado e

uma empresa de saneamento, por meio de dois questionários

contínuo. Não se restringindo ao contexto empresarial, Vargas

denominados pré-teste (aplicado antes da atividade) e pós-

(apud MOURÃO, 2004, p. 16) conceitua treinamento e desen-

-teste (aplicado após a atividade), no qual objetivou averiguar

volvimento como um processo único de “aquisição sistemática

a assimilação e retenção do conteúdo ministrado em um treina-

de conhecimentos capazes de provocar, a curto ou longo pra-

mento sobre sistema de padronização de procedimentos.

zo, uma mudança na maneira de ser e de pensar do indivíduo”.

12 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


De acordo com ABNT (2001, p. 3), a definição de treina-

- Eficiente e ineficaz: quando os procedimentos foram se-

mento é apresentada de maneira mais simples, sendo o “pro-

guidos e os requisitos especificados não foram alcançados.

cesso para desenvolver e prover o conhecimento, habilida-

- Ineficiente e eficaz: quando os procedimentos não foram

des e comportamentos para atender requisitos.” De maneira

seguidos e os requisitos especificados foram alcançados.

mais sistêmica, Snell e Bohlander (2011, p. 250) apresenta

- Eficiente e eficaz: quando os procedimentos foram se-

uma conceituação mais ampla de treinamento, combinando

guidos e os requisitos especificados foram alcançados.

também ao conceito de desenvolvimento: Com base nestas definições, pode-se dizer que a eficiênO termo treinamento muita vezes é usado de forma ca-

cia significa realizar um treinamento de maneira correta, sem

sual a fim de descrever praticamente qualquer esforço

erros e de boa qualidade e que eficácia é fazer um treina-

da empresa para estimular o aprendizado de seus mem-

mento que atinja totalmente os resultados esperados. Tendo

bros. Muitos especialistas, entretanto, distinguem entre

como base o conceito de eficácia de treinamento e a neces-

treinamento (mais focalizado e orientado para questões

sidade de avaliar resultados, Donald L. Kirkpatrick, desen-

concernentes a desempenho de curto prazo) e desen-

volveu um sistema de avaliação de treinamento em quatro

volvimento (mais orientado para ampliar as habilidades

níveis de medição. De acordo com Kirkpatrick (apud DUTRA,

dos indivíduos para futuras responsabilidades). Os dois

1999, P. 1), existem quatro níveis em avaliação de treinamen-

termos tendem a combinar-se numa única frase – trei-

to que, se aplicados em seqüência, são a única forma eficaz

namento e desenvolvimento – para indicar a combina-

de avaliação de resultados. Para o autor, cada nível tem sua

ção de atividades nas empresas que aumentam a base

importância apesar de que a medida em que se passa de

de habilidades dos funcionários.

um nível para o seguinte, o processo se torna cada vez mais complexo e aumenta também o dispêndio de tempo, mas

Neste contexto, dada a importância do processo de trei-

em compensação provê informações cada vez mais valio-

namento para desenvolvimento dos indivíduos e das organiza-

sas. Conforme Lima (2007 p. 209), o modelo de Kirkpatrick

ções, traça-se a importância da avaliação dos resultados dos

foi “apresentado, em sua primeira versão, em 1959 e prevê

esforços de treinamento, que conforme definido pela ABNT

a existência de quatro níveis em avaliação de programas de

(2001, p. 7), possui a finalidade “de confirmar que ambos, os

educação em organizações, que, se aplicados todos em se-

objetivos da organização e do treinamento, foram alcançados,

qüência, constituem-se numa forma eficaz de avaliação [...]”.

ou seja, o treinamento foi eficaz. [...] Os resultados do treina-

Os níveis de avaliação do modelo são apresentados a seguir:

mento em geral não podem ser plenamente analisados e validados até que o treinando possa ser observado e avaliado

l Reação ou Satisfação: Rodrigues, Santos e Tadeucci

no trabalho.” Por isso, considerando a necessidade de obter

(2008, p. 90) apontam que a avaliação de reação “reflete

confirmação dos resultados de treinamento e se os objetivos

os sentimentos e opiniões dos treinandos sobre o trei-

foram alcançados, a ABNT (2001, p. 7) apresenta critérios de

namento. Essa avaliação é realizada logo após o treina-

conveniência para realização de avaliações:

mento e visa identificar as necessidades de melhoria dos materiais e métodos de instrução adotados.” Kirkpatrick

- a curto prazo: para verificar a opinião do treinando

(apud DUTRA, 1999, p. 1) define este nível como medida

sobre os métodos e recursos adotados e sobre os

de satisfação do cliente, justificando:

conhecimentos e habilidades adquiridas como resultado do treinamento; e

“Por muitos anos, conduzi seminários, cursos institu-

- a longo prazo: para verificar a melhoria da produtivi-

cionais e conferências na University of Wisconsin Ma-

dade e do desempenho no trabalho.

nagement Institute. As empresas pagam uma taxa para encaminhar seu pessoal para estes programas e fica

Na abordagem de treinamento, a avaliação é a forma mais

óbvio que a reação dos participantes é a mensuração

utilizada pelas organizações para medir a eficácia e eficiência

imediata da satisfação dos clientes. Também é óbvio

dos esforços aplicados. Campos e Guimarães (2008, p. 54)

que a reação precisa ser favorável se quisermos per-

apresentam os conceitos de eficiência e eficácia, que podem

manecer no negócio, atrair novos alunos e ter o retorno

ser aplicados na avaliação de treinamentos:

dos antigos para futuros programas. PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 13


Nos programas internos das empresas a necessidade

- Reativo: é aquele chefe que proíbe a mudança. É

de medir a satisfação do cliente já não parece tão ób-

quando é vedado ao participante a utilização do que

via, pois muitas vezes os funcionários são convocados

foi aprendido no treinamento. Ou porque seu estilo de

a participar quer queiram quer não. De qualquer forma,

liderança conflita com o que foi ensinado, ou porque

eles continuam sendo os clientes, mesmo que não pa-

não acredita na evolução da cultura organizacional já

guem pelo treinamento, e a reação deles pode levar ao

estabelecida, ou porque está influenciado pelo próprio

sucesso ou ao fracasso do programa, pois os comentá-

chefe na alta gerência.

rios que fazem junto aos seus chefes chegará aos ouvi-

- Desencorajador: é aquele chefe que não segue

dos da alta direção, que é quem toma a decisão sobre

o que foi ensinado e com seu exemplo negativo im-

a continuidade dos programas.

possibilita ou desencoraja a mudança de comporta-

Portanto, a reação positiva ao treinamento é importante

mento do subordinado. Ele não chega a dizer “Não

tanto para os instrutores de treinamento internos quanto

pode”, mas diz: “Isto tudo é besteira” deixando claro

para os que oferecem programas abertos ao público,

que a mudança o deixa descontente.

pois o futuro do programa depende desta reação. Além

- Neutro: é aquele chefe que “finge” ignorar o fato que

disso, se os participantes não reagem de forma favorá-

o participante esteja em treinamento. Se o subordinado

vel, provavelmente não estarão motivados a aprender.

desejar muito mudar, o chefe não impede, mas também

Reação positiva e satisfação, pode não assegurar o

não encoraja. É o que diz: “enquanto o trabalho estiver

aprendizado, mas reação negativa, insatisfação, certa-

no prazo...” No entanto, se acontecer algum resultado

mente reduz a possibilidade de aprendizado.”

negativo por causa da mudança de comportamento ou aumento de custos, por exemplo, então o chefe muda o

l

Aprendizado: Snell e Bohlander (2011, p. 279) citam

clima para desencorajador ou até para reativo.

que “além de saber o que os participantes pensam sobre

- Encorajador: é aquele chefe que realmente tenta

o treinamento, pode ser uma boa idéia ver se eles real-

estimular o subordinado a aprender e a aplicar seu

mente aprenderam alguma coisa.” Rodrigues, Santos e

aprendizado no trabalho. Idealmente, ele discute o

Tadeucci (2008, p. 90) citam que “este nível avalia a reten-

programa com o subordinado em primeira mão e

ção de conhecimento transmitido no treinamento pelos

estabelece como os dois irão definir sua aplicação

treinandos. É normalmente realizada por meio de exames

quando o programa terminar. É o que diz: - “Quero

no meio e no final dos treinamentos.” A aplicação de tes-

saber o que você está conseguindo aprender para

tes de conhecimentos e habilidades antes de iniciar um

ajudá-lo a trazer o que aprendeu para o seu trabalho.”

programa de treinamento oferece uma linha de base so-

- Requisitante: É aquele chefe sabe o que o subor-

bre os treinandos, que pode ser medida novamente após

dinado está aprendendo e garante a transferência do

o treinamento para determinar se houve aproveitamento.

aprendizado para o trabalho. Normalmente participa da

Kirkpatrick (apud DUTRA, 1999) define que o aprendiza-

elaboração do programa de treinamento, quando este

do só ocorre quando acontece um ou mais dos seguin-

é realizado na empresa. Em alguns casos fica estabele-

tes pontos: mudança na forma de perceber a realidade,

cido na avaliação de desempenho do funcionário o que

aumento dos conhecimentos, melhoria das habilidades.

o subordinado concorda que irá mudar. Ou um acordo pode ser preparado ao final da seção de treinamento e

l

Comportamento ou Aplicação: Neste nível, confor-

me Lima (2007, p. 209), é investigada “a extensão da mu-

uma cópia é encaminhada ao chefe. E o chefe cria as condições para que o contrato seja implementado.

dança de conduta e de procedimentos que ocorre após a participação em um programa.” Para ocorrer a mudan-

l

ça de comportamento, Kirkpatrick (apud DUTRA, 1999)

p. 90) definem que este nível “enfatiza a contribuição

propõe que o participante do treinamento queira mudar,

do treinamento para a realização da missão e objetivos

saiba o quê e como mudar, trabalhe em um ambiente

organizacionais.” Já para Kirkpatrick (apud DUTRA,

com clima correto e seja premiado pela mudança. Neste

1999) este nível define-se como os resultados alcança-

sentido, Kirkpatrick (apud DUTRA, 1999, p. 2-3) descreve

dos devido à participação dos empregados no treina-

cinco possibilidades de clima gerado pela chefia:

mento. Os resultados incluem aumento de produção,

Resultados: Rodrigues, Santos e Tadeucci (2008,

14 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


melhoria da qualidade, redução de custo, redução

“[...] a capacidade, conjunto de processos internos que mantém

de acidentes, aumento de vendas, redução de rota-

ou melhoram o desempenho baseado na experiência, cuja ope-

tividade de pessoal, aumento do lucro ou do retorno

racionalização envolve a aquisição, a disseminação e a utilização

do investimento. É importante reconhecer que resul-

do conhecimento.” Neste contexto, o processo de avaliação do

tados como estes são a razão de ser dos programas

aprendizado do treinamento corrobora para a mensuração da

de treinamento. De qualquer forma o objetivo final do

aquisição e de retenção do conhecimento pelo treinando, prepa-

treinamento deve ser estabelecido nestes termos. Lima

rando o espaço para eficiente disseminação deste conhecimento

(2007, p. 210) observa que “esta etapa da avaliação de

e seu consequente uso pela organização.

um programa apresenta-se ainda com maior grau de complexidade, pois, assim como o nível três, também insere a avaliação em conjunto de inúmeras variáveis.”

2.2 Metodologia Com base nos objetivos propostos neste trabalho, quanto ao seu fim, esta pesquisa tem caráter descritivo, pois de acordo

Sendo o aprendizado um dos fatores de avaliação do modelo

com Vergara (2000, p. 47) “expõe características de determi-

de Kirkpatrick, sua aplicação relaciona-se ao conceito de apren-

nada população ou de determinado fenômeno. Pode também

dizagem organizacional, que conforme Tsang (apud BASTOS,

estabelecer correlações entre variáveis e definir sua natureza.

GONDIM E LOYOLA, 2004, p. 222) “interessa-se pela descrição de

Não tem compromisso de explicar os fenômenos que descreve,

como a organização aprende, isto é, focaliza as habilidades e os

embora sirva de base para tal explicação.”

processo de construção e utilização do conhecimento [...]”. Neste

Quanto aos métodos, a pesquisa tem duas definições: pes-

sentido, o segundo nível do modelo de Kirkpatrick, do qual trata da

quisa bibliográfica e pesquisa de campo. A pesquisa bibliográfi-

avaliação do aprendizado, pode contribuir de maneira sistemática

ca foi orientada para o levantamento de conceitos e enunciados

para o processo de aprendizagem organizacional. A aprendiza-

teóricos sobre avaliação da eficácia de treinamento e do mode-

gem organizacional possui uma variabilidade conceitual relaciona-

lo de avaliação de Kirkpatrick. A pesquisa de campo foi utilizada

da aos três níveis de análise: individual, grupal e organizacional,

para a coleta dos dados da avaliação do aprendizado, tendo

que conforme Bastos, Gondim e Loyola (2004, p. 222) decorrem

como definição, conforme Vergara (2000, p. 47), como “[...] in-

da ênfase dada pelos pesquisadores do campo:

vestigação empírica realizada no local onde ocorre ou ocorreu um fenômeno ou que dispõe de elementos para explicá-lo.” Na

Alguns autores falam de aprendizado de indivíduos nas

pesquisa de campo, o instrumento utilizado para a coleta de da-

organizações, considerando ser esse um fenômeno no

dos foi o questionário estruturado, no qual foi aplicado no início

plano individual. Há, no entanto, os que defendem que

(denominado de pré-teste) e no final do treinamento (denomi-

as organizações, como entidades, também têm meca-

nado pós-teste). Foram formuladas treze questões acerca dos

nismo de busca, acesso, estoque e uso do conheci-

conteúdos que seriam abordados no treinamento de sistema de

mento gerado por seus membros, podendo-se falar em

padronização, objetivando avaliar o conhecimento prévio sobre

uma aprendizagem da organização.

os conteúdos do treinamento e da retenção deste conteúdo ao final do processo. Estes questionários foram aplicados em uma

Com base no conceito de Bastos, Gondim e Loyola (2004), a pesquisa em questão relaciona a importância da avaliação do

amostra de 31 empregados do setor operacional de uma empresa de saneamento no período de setembro de 2012.

aprendizado do treinamento como um processo que parte do nível

Após a coleta dos dados, foram tabulados e analisados os

individual para agregar ao coletivo, o que contribui para o acesso,

questionários por meio da comparação do pré-teste com o pós-

estoque e uso do conhecimento desenvolvido no processo de trei-

-teste, verificando o nível de aquisição e de retenção do conteú-

namento como fator de aprendizagem para a organização. Ainda

do transmitido no treinamento. Os dados foram tabulados com

conceituando o processo de aprendizagem organizacional, Simon

a utilização do software MS-Excel.

(apud BASTOS, GONDIM E LOYOLA, 2004, p. 223) define que se trata do “crescimento de insights e de reestruturações bem suce-

2.3 Exposição da pesquisa

didas de problemas organizacionais, provenientes de indivíduos

Com a tabulação dos dados dos questionários de pré-

que exercem papéis decisivos na estrutura e nos resultados da

-teste, foi possível identificar a base inicial de conhecimento

organização.” Já Dibella, Nevis e Gould (apud BASTOS, GON-

dos treinandos acerca do conteúdo ministrado no treinamen-

DIM E LOYOLA, 2004, p. 223) propõem que a aprendizagem é

to. A tabela 1 apresenta os resultados do pré-teste.

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 15


Inicialmente o pré-teste possibilitou identificar o grau de

de conhecimento nos assuntos pertinentes a essas questões.

conhecimento relativo ao conteúdo ministrado, sendo que a

Identificou-se ainda que 7% das questões foram deixadas em

marcação de resposta na opção Sim demonstra que o trei-

branco ou foram marcadas as duas opções, o que pode sinali-

nando possui um conhecimento prévio do assunto tratado no

zar dúvida ou falta de conhecimento acerca do conteúdo abor-

treinamento. Em termos percentuais, seis das treze questões

dado na questão.

tiveram maior percentual de respostas na opção Sim, enquanto

Já o pós-teste, aplicado logo após o treinamento, permite

que sete questões tiveram a opção Não com maior percentu-

identificar a assimilação e retenção do conteúdo apresentado.

al. De maneira geral, é possível perceber no pré-teste que na

O pós-teste permite ainda identificar lacunas que porventura

maioria das questões (questão 3, 4, 5, 8, 10, 11 e 13) a opção

possam ter ocorrido na disseminação do conteúdo. A tabela 2

Não representa o maior percentual, sinalizando uma lacuna

apresenta os resultados do pré-teste.

O pós-teste possibilitou apurar o grau de retenção do con-

cou-se ainda que 3% das questões foram deixadas em branco

teúdo abordado, sendo que em onze das treze questões a op-

ou foram marcadas as duas opções, que em comparação com

ção Sim obteve maior percentual de resposta. Nas questões 8

o pré-teste, representa uma redução do percentual anterior (de

e 13, apesar de terem maior percentual na opção Não, ocorreu

7%). Em termos comparativos, o pré-teste e o pós-teste permi-

uma redução deste percentual em comparação com o pré-teste,

tem avaliar a eficácia do treinamento quanto aos objetivos de re-

demonstrando uma evolução na assimilação do conteúdo per-

passe do conteúdo pelo instrutor e de retenção deste conteúdo

tinente as questões, embora indica ainda uma necessidade de

pelos treinandos. Para isso, a tabela 3 apresenta a comparação

maior detalhamento na disseminação daquele assunto. Identifi-

dos resultados dos testes aplicados.

16 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


A comparação dos testes permite analisar o grau de evolução

a necessidade de aprofundamento de alguns conceitos que

dos percentuais de cada questão. Para esta evolução considera-se

não obtiveram um resultado expressivo em termos de assi-

o aumento do percentual da opção Sim ou a redução do percen-

milação e retenção, sendo ferramenta norteadora do instru-

tual da opção Não. A tabela 3 demonstra que em doze das treze

tor para melhoria do processo de treinamento.

questões ocorreram evolução percentual, que relacionando com a

Para que se tenha uma adequada avaliação da eficácia do

análise de avaliação do aprendizado, permite contribuir para au-

treinamento, o modelo de Kirkpatrick orienta para a aplicação dos

mento da linha de eficácia, que conforme conceituação de Cam-

quatro níveis (reação, aprendizado, comportamento e resultados),

pos e Guimarães (2008) é o alcance dos requisitos especificados.

sendo esta composição ideal para que as organizações possam

Neste caso, tem-se como requisito a disseminação e a consequen-

mensurar de maneira mais completa a eficácia de um programa de

te retenção dos conteúdos apresentados no treinamento. Quanto

treinamento. Atualmente as organizações fazem uso incompleto do

às questões sem resposta, observa-se uma redução percentual

modelo, ou seja, utilizam somente um ou alguns dos níveis, e não

de 48%, demonstrando uma evolução significativa neste quesito,

do sistema completo proposto pelo modelo de Kirkpatrick.

caracterizando também uma linha de eficácia positiva quanto aos requisitos especificados no treinamento.

Portanto, esta pesquisa propõe incentivar a aplicação completa do modelo de avaliação de Kirkpatrick nas organizações, visando obter uma avaliação adequada da eficácia

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

do treinamento. Somente a avaliação do aprendizado não

Esta pesquisa teve como objetivo analisar a aplicabilida-

garante obtenção total da eficácia de um treinamento. A ava-

de da avaliação de eficácia de treinamento no que tange a

liação do aprendizado é uma importante e complementar eta-

importância da avaliação do aprendizado, tendo como base

pa dentro dos quatro níveis propostos, podendo ser utilizada

teórica o sistema de avaliação de treinamento em níveis pro-

como instrumento de feedback para instrutor e treinandos,

posto por Kirkpatrick. Nesse contexto, buscou-se, por meio

visando o desenvolvimento e melhoria dos programas de trei-

da pesquisa bibliográfica, um aprofundamento do conceito

namento das organizações.

de avaliação de treinamento e de sua importância, além da sua relação com a aprendizagem organizacional. Pautado na etapa específica da avaliação do aprendizado, sendo esta etapa o segundo nível do modelo de avaliação de treinamento de Kirkpatrick, os resultados obtidos na pesquisa de campo demonstram a importância da avaliação do aprendizado para avaliar a retenção de conhecimento transmitido no treinamento pelos treinandos. Na comparação dos resultados do pré-teste e do pós-teste, fica evidente que há retenção e aumento do conhecimento por parte dos treinandos, o que permite identificar o nível de eficácia do repasse dos conteúdos propostos, bem como sua contribuição para o desenvolvimento da aprendizagem organizacional. Por meio dos testes, pode-se também avaliar

REFERÊNCIAS ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR ISO 10015 – Gestão da qualidade – Diretrizes para treinamento. ABNT, 2001. BASTOS, Antônio V. B.; GONDIM, Sônia M. G.; LOYOLA, Elizabeth. Aprendizagem Organizacional versus Organizações que Aprendem: características e desafios que cercam essas duas abordagens de pesquisa – Revista Administração, São Paulo, v. 39, n. 3, p. 220-230, jul.-ago.-set. 2004. BOHLANDER, George; SNELL, Scott. Administração de Recursos Humanos. 14ªed. São Paulo: Cengage-Learning, 2011. CHIAVENATO, Idalberto. Recursos humanos na empresa. 38ª ed., São Paulo: Atlas, 1994.

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 17


DUTRA, Eliana. Quatro Níveis de Avaliação de Treinamento. 1999. Disponível em: <http://www.pro-fit-rh.com.br/artigos/artigo_kirkp.html>. Acesso em 19 Julho 2013. GUIMARÃES, Sebastião; CAMPOS, Jorge P. Em Busca da Eficácia em Treinamento. São Paulo: Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento, 2008. KANAANE, R.; ORTIGOSO, S. A. F. Manual de treinamento e desenvolvimento do potencial humano. São Paulo: Atlas, 2001. KIRKPATRICK, Donald L., Evaluating Training Programs – The four levels. Berrett-Koehler Publishers, Inc. 1994. LAKATOS, Eva e Marconi, Marina. Metodologia do Trabalho Científico. São Paulo: Atlas, 1992. LIMA, Marco A. M. Avaliação de programas nos campos da educação e da administração: idéias para um projeto de melhoria ao modelo de Kirkpatrick. Revista Electronica Iberoamericana sobre Calidad, Eficacia y Cambio em Educacion, v. 5, p. 199-216, 2007. MOURÃO, Luciana. Avaliação de programas públicos de treinamento: um estudo sobre o impacto no trabalho e na geração de empregos. 2004. 210 f. Tese (Doutorado em Psicologia) – Instituto de Psicologia da Universidade Nacional de Brasília, 2004. PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS. Pró-Reitoria de Graduação. Sistema de Bibliotecas. Padrão PUC Minas de normalização: normas da ABNT para apresentação de teses, dissertações, monografias e trabalhos acadêmicos. 9. ed. rev. ampl. atual. Belo Horizonte: PUC Minas, 2011. Disponível em: <http://www.pucminas.br/ biblioteca>. Acesso em 01 Julho 2013. RODRIGUES, Fernanda de S. S.; SANTOS, Isabel C.; TADEUCCI, Marilsa de S. R. Os Limites da Melhoria Contínua: a análise do desempenho operacional antes e após treinamento - Tecnologia em Metalurgia e Materiais, São Paulo, v. 5, n. 2, p. 89-93, out.-dez. 2008. SENGE, P. M. A quinta disciplina. Arte, teoria e prática da organização de aprendizagem. São Paulo: Best Seller, 1999. VERGARA, Sylvia C. Projetos e Relatórios de Pesquisa em Administração. 3ª ed., São Paulo: Atlas, 2000. VIEIRA, Luiz G. Levantamento de Necessidade de Treinamento - Ferramenta Básica na Gestão da Qualidade. Londrina: Editora UEL, 1999.

Notas de Fim 1 Wilimar Junio Ruas. Administrador com habilitação em Marketing pelo Centro Universitário Newton Paiva; Especialista em Gestão Estratégica da Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG; Especialista em Gestão de Pessoas pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Endereço eletrônico: juniorruas@ig.com.br

18 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


GESTÃO DO CONHECIMENTO: APLICAÇÃO NAS ORGANIZAÇÕES EM UMA PERSPECTIVA SISTÊMICA1 Jeanne Cristina Martins Rodrigues1 Maria Efigênia Nagem.Moreira2 Sandra Helena Lopes Nogueira3

Resumo: O artigo aborda a aplicação do conhecimento nas organizações, numa perspectiva sistêmica, e destaca sua importância na atualidade como valor agregado aos produtos e/ou serviços oferecidos pelas empresas. Inicialmente tem a conceituação de conhecimento e visão sistêmica e posteriormente o enfoque da aplicação desse conhecimento nas empresas com essa visão. São caracterizados itens, como o conhecimento agregado aos inputs e outputs do processo produtivo e a importância do estímulo ao capital intelectual. Foi utilizada a metodologia de pesquisa bibliográfica e observou-se que a relevância desse tema se justifica no contexto de transformação da sociedade atual. Conclui-se que a aplicação da gestão do o conhecimento é fundamental nas organizações com visão sistêmica. Palavras-chave: Aprendizagem organizacional. Capital humano. Capital intelectual. Gestão do conhecimento. Visão sistêmica.

INTRODUÇÃO As organizações tem passado por grandes transformações na contemporaneidade e, com isso, buscam cada vez mais a otimização de seus produtos, serviços, processos, re-

Figura 1: Níveis Hierárquicos da Informação: Registros ou fatos em estado bruto: . Facilmente estruturados . Facilmente transversíveis . Facilmente armazenados

DADOS

sultados e, consequentemente, a maior satisfação dos seus clientes/consumidores. Percebe-se a transição de uma visão tradicional, caracte-

iNFORMAÇÃO

rizada por métodos mecanicistas de trabalho, para uma visão sistêmica dos negócios e para a eficácia na gestão, pautada no desenvolvimento das competências, tanto individuais quanto organizacionais. Dessa forma, essa visão ampla está relacionada ao capital e ao trabalho e considera fatores que interferem nos processos produtivos, com destaque para a gestão do conhecimento. Esses temas, conhecimento e perspectiva sistêmica, se

CONHECIMENTO

Dados dotados de relevância e propósito: . Exige consenso em relação ao seu significado

Combinação de informação, experiências, insights: . Inclui reflexão, síntese e contexto . De difícil estruturação . De difícil captura em máquinas . De difícil transferência

Fonte: adaptado de BEAL (2004)

justificam pela relevância no contexto de transformação da

Para SILVEIRA (2004), o conhecimento é gerado a partir do

sociedade atual e foram trabalhados aqui com a utilização da

estabelecimento de relações entre diversos tipos de informa-

metodologia de pesquisa bibliográfica. São apresentadas con-

ções que o ser humano adquire durante a vida, e é construído

ceituações sobre os temas para depois fazer a associação de

de diversas formas e meios, como conversas, experiências, im-

gestão do conhecimento e perspectiva sistêmica.

pressões, valores e crenças. Conforme DRUCKER (1993), os meios de produção não

CONHECIMENTO

serão mais o capital, nem os recursos naturais, nem a mão-de-

Segundo SVEIBY (1998), “[...] a palavra conhecimento pa-

-obra. Eles serão o conhecimento.

rece ter vários significados. Pode significar informação, conscientização, saber, cognição, sapiência, percepção, ciência, ex-

As atividades centrais de criação de riqueza não se-

periência, qualificação, discernimento, competência, habilidade

rão nem a alocação de capital para usos produtivos,

prática, capacidade, aprendizado, sabedoria, certeza [...] “

nem a “mão-de-obra”, os dois pólos da teoria eco-

BEAL (2004) sintetiza a interação entre dados, informação e

nômica dos séculos XIX e XX, quer ela seja clássica,

conhecimento. Afirma que essa interação possibilita a compre-

marxista, keynesiana ou neoclássica. Hoje o valor é

ensão das relações e o entendimento de padrões e princípios,

criado pela “produtividade” e pela “inovação”, que

conforme apresentado na figura 1 seguinte:

são aplicações do conhecimento ao trabalho. Os PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 19


principais grupos sociais da sociedade do conhe-

que podem ser transformados em documentos, rotinas e treina-

cimento serão os “trabalhadores do conhecimento”

mentos. O conhecimento tácito é mais difícil de registrar, docu-

– executivos que sabem como alocar conhecimento

mentar para ensinar a outras pessoas, como por exemplo, a ca-

para usos produtivos (...) (DRUCKER, 1993).

pacidade de liderança que, embora seja claramente identificada em determinadas pessoas, é de difícil transmissão ou descrição.

Vivemos a era do conhecimento, e como tal o investimento

TERRA (2003) defende que o conhecimento tácito dos co-

na inteligência é essencial. TERRA (2003) aborda que na era in-

laboradores é a principal forma de riqueza organizacional, que

dustrial os esforços eram voltados a melhorar os processos pro-

é desenvolvido ao longo da vida e é influenciado pela cultura e

dutivos. Na era do conhecimento existe o desafio de influenciar

valores, acesso à informação e a experiências vivenciadas.

a condução desses processos. O autor acrescenta que a com-

FLEURY e OLIVEIRA (2002) afirmam que devido ao papel

petitividade é manifestada de forma crescente em função da ca-

do conhecimento, que atualmente ocupa uma posição central

pacidade do ser humano de agregar inteligência aos processos

e estratégica nos processos econômicos, os investimentos em

de trabalho. Assim, dentro de um contexto amplo dos desafios

ativos intangíveis crescem mais rápido que os investimentos em

da competitividade, o significado da gestão do conhecimento

ativos físicos ou tangíveis, de tal forma que as empresas e os

torna-se mais evidente e estratégico. “A gestão proativa do co-

indivíduos que detém um maior conhecimento são mais bem

nhecimento adquire um papel central para a competitividade,

sucedidos, produtivos e reconhecidos.

tanto das empresas como dos países” (TERRA, 2005). Para DAVENPORT e PRUZAK (1998, p. 23), “Conhecimento

PERSPECTIVA ORGANIZACIONAL TRADICIONAL X SISTÊMICA

não é dado nem informação, embora esteja relacionado com

De acordo com HAMMER (2003), as antigas as teorias da

ambos e as diferenças entre esses termos sejam, normalmente

organização abordam aspectos como divisão do trabalho, hie-

uma questão de grau”.

rarquia administrativa, controle minucioso, departamentos iso-

MERLO (2005) afirma que é fundamental o repensar dos fato-

lados. A ótica é a de que cada executivo deve preocupar-se

res críticos e competitivos, deparando-se com a valorização de um

exclusivamente com sua própria função e atividades derivadas,

ativo “intangível” como componente de um modelo emergente de

não percebendo as demais. Desse modo, as responsabilidades

gerenciamento. Trata-se de um modelo que despreza a visão de

principais se perdem na lacuna entre departamentos funcionais

controle e poder ao passo em que prioriza e promove a criação de

e os gestores não conseguem perceber a relevância e a inter-

uma cultura de interação, participação e transparência

face entre todas as áreas da organização e sua relação com o

Em complementação às conceituações mencionadas, STEWART (1998) assinala que “a informação e o conhecimento são as armas termonucleares competitivas de nossa era”.

ambiente no qual está inserida. Já a visão sistêmica de uma organização, conforme HAMMER (2003), retrata um enfoque exigido pela dinâmica da sociedade atual, que impulsiona a melhoria do desempenho no atendimento

Conhecimento Tácito e Explícito

ao cliente, ao considerar um mercado competitivo, globalizado e

Para melhor caracterização do conhecimento é importante

com variações no comportamento do consumidor.

a diferenciação do conhecimento tácito e explícito, conforme

A perspectiva sistêmica enfoca que as organizações traba-

NONAKA e TAKEUCHI (1997): o conhecimento tácito é a experi-

lham com processos integrados e não fragmentados, de forma a

ência, o poder de inovação e habilidades para realizar as tarefas

propiciar uma visão global e mais ampla do trabalho. Além disso,

do dia-a-dia. O conhecimento explícito são os procedimentos,

parafraseando HAMMER (2003), a cultura deve ser baseada na

banco de dados, patentes, relacionamento com clientes (sof-

cooperação, no trabalho em equipe e com foco no cliente.

twares de última geração que conseguem realizar com rapidez

A teoria tradicional das organizações (o enfoque mecâni-

o que o ser humano levaria muito tempo para fazer: processar

co), apresenta o caráter fechado das estruturas sociais. Por sua

grande massa de dados e tirar dela informações importantes

vez, a teoria da visão sistêmica enfatiza a necessária dependên-

para o sucesso do negócio).

cia de organização em relação ao sistema de valores do meio

FLEURY (2001) caracteriza o conhecimento explícito como

ambiente (interno e externo).

um conhecimento transmissível em linguagem formal e siste-

Nessa perspectiva sistêmica, OLIVEIRA (2002) define as

mática e o conhecimento tácito com uma qualidade mais pes-

organizações como um sistema aberto, dinâmico e com um

soal, tornando sua formalização e comunicação mais difícil.

continuo processo de entradas, transformações e saídas. As

Segundo BEAL (2004), conhecimentos explícitos são aqueles

entradas incluem pessoas, matérias-primas e energia; que são

20 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


transformadas dentro da organização para gerar uma saída

produção, implementação de melhorias freqüentes, ou seja, é

com um produto ou um serviço de valor agregado para o clien-

preciso agregar inteligência como inputs nos processos produ-

te. O ambiente organizacional interno, por meio de feedback

tivos e outputs aos produtos e/ou serviços gerados, bem como

externo, deve analisar permanentemente sua efetividade e diag-

transformar o conhecimento tácito em explícito.

nosticar os impactos externos e seus reflexos, que contribuirão para as mudanças necessárias em atendimento ao mercado externo. Esse é o ciclo vital das organizações.

Investimento no capital intelectual STEWART (1998), enfatiza que o conhecimento tornou-se

MORGAN (1996) postula que muitas empresas são pla-

o principal ingrediente do que se produz, compra e vende e

nejadas à imagem das máquinas, sendo esperado que seus

administrá-lo tornou-se a tarefa econômica mais importante das

empregadores se comportem como se fossem partes delas. A

empresas. A indústria está se desmaterializando, sendo forçada

palavra de controle é a ordem, sendo o trabalho especializado,

uma reconceituação do significado dos termos produção e pro-

simples e rotineiro. Essas organizações são chamadas de buro-

duto. Assim, é preciso estimular o capital intelectual com uma

cracias. Enfatiza que, em contraposição, as organizações vistas

administração participativa que só é possível na organização

como organismos existem em um ambiente mais amplo, que

com visão sistêmica, que está atenta a um ambiente propício

abrange o micro e o macroambiente (visão sistêmica).

à valorização e propagação do conhecimento. Por isso, cada

Ainda segundo MORGAN (1996), a visão mecanicista levou

vez mais, boa parte dos investimentos e esforços em gestão

teóricos organizacionais a se inspirarem na biologia como fon-

buscam melhorar a capacidade criativa, a tomada de decisão e

te de idéias para a reflexão sobre as organizações. Psicólogos

o emprego de melhores técnicas e métodos produtivos, já que

organizacionais demonstraram que as estruturas burocráticas,

o resultado do trabalho intelectual passa a fazer a diferença.

os estilos de liderança e a organização do trabalho podem ser

A gestão do conhecimento deve apoiar-se em um quadro

modificados com uma visão sistêmica e criar cargos motivado-

referencial que inclui tecnologia, processos e pessoas. O am-

res que encorajam as pessoas no exercício de sua capacidade

biente organizacional deve ser inspirador e a criatividade des-

de autocontrole e criatividade.

pertada e estimulada. Para VASCONCELOS (2002), a criação

Enfim, a empresa com perspectiva sistêmica é aquela com

de um ambiente de confiança é hoje indispensável à gestão

visão do todo, com suas interdependências e interfaces, que

empresarial e sem ele, o trabalho em equipes, a criatividade e o

buscam alternativas integradas para atingir as metas, por meio

compartilhamento do conhecimento ficam prejudicados.

da análise do ambiente interno e externo. Para isso, é preciso trabalhar com o conhecimento.

Cabe ao gestor esse papel fundamental para a aplicação do conhecimento nas organizações, com a responsabilidade de estimular a motivação e a criatividade das equipes com base nos

A APLICAÇÃO DO CONHECIMENTO NA ORGANIZAÇÃO

resultados finais do processo, além de trabalhar as habilidades

COM PERSPECTIVA SISTÊMICA

interpessoais, organizacionais e analíticas (HAMMER, 2003).

Com a competitividade, as empresas precisam ser, dentre outros fatores, altamente eficientes e eficazes e, para isso, a visão sistêmica e a aplicação do conhecimento são fundamentais, com a observação das etapas seguintes etapas:

Aprendizagem Organizacional SENGE (1998) retrata a importância do aperfeiçoamento da formação da estratégia empresarial em organizações que estejam atuando em ambientes hipercompetitivos ou vivenciando

Conhecimento dos inputs e outputs do

novas realidades institucionais e regulatórias.

processo produtivo

SENGE (1998) diz que é preciso “aprender e aprender”,

Em um processo produtivo existem inputs e outputs. Se-

ou seja, incorporar novas formas de perceber, pensar e agir,

gundo TERRA (2005) os inputs são matéria-prima, energia,

já que uma empresa que aprende é capaz de: obter van-

máquinas e mão-de-obra. Os outputs são os produtos gerados

tagens competitivas; gerar comprometimento de seus cola-

pelos processos produtivos.

boradores, conseguir sinergia, administrar a mudança; reco-

Então, deparando com os conceitos de TERRA (2003), Para o adequado andamento desses processos produtivos as em-

nhecer a sua rede de interdependências e criar a realidade que seus membros desejam.

presas precisam de pessoas capazes de tomar decisões para o

Ainda, segundo SENGE (1998), as empresas de sucesso

desenvolvimento dos trabalhos, com a analise das interfaces e

contam com pessoas inteligentes, que com o tempo aumenta-

interdependências entre as áreas, reorganização, sequência de

ram sua capacidade de criar aquilo que normalmente desejam

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 21


criar, que transformam o conhecimento individual em coletivo: A figura 2 ilustra essa teoria, com a utilização das cinco

As pessoas devem dedicar à esses objetivos não por obrigação, mas por comprometimento e vontade própria;

disciplinas caracterizadas por SENGE (1998), ao considerar pensamento sistêmico: é a pedra fundamental das

que os membros de uma empresa devem desenvolver as

l

seguintes capacidades que aprendizado: reflexão e diálogo;

organizações de aprendizagem, pois, o pensamento

aspirações e conceituação.

sistêmico se integra as demais disciplinas por meio de um modelo conceitual, com instrumentos que visam

Figura 2: As cinco disciplinas

melhorar continuamente os processos de aprendizagem, tornando as ações de aprendizado e as demais

PENSAMENTO SISTÊMICO

disciplinas inter-relacionadas. FLEURY (2001) descreve alguns pontos essenciais para

VISÃO COMPARTILHADA

DOMÍNIO PESSOAL

gerar a dinâmica da aprendizagem na empresa: l

O processo de inovação e de busca continua da capa-

citação e qualificação das pessoas e das organizações deve ser um processo permanente, jamais esgotado;

APRENDIZAGEM EM EQUIPE

MODELOS MENTAIS

Fonte: adaptado de SENGE (2003)

De acordo com as caracterizações de SENGE (1998), essas disciplinas englobam: l

domínio pessoal: as organizações somente

l

O processo de aprendizagem deve ser um proces-

so coletivo, partilhado por todos e não privilégio de uma minoria pensante; l

A comunicação deve fluir entre pessoas, áreas, níveis,

visando à criação de competências interdisciplinares. CONCLUSÃO

aprenderão se possuir indivíduos com o desejo e a

Uma empresa com visão tradicional trabalha basicamen-

capacidade de aprender, por meio do autoconheci-

te com o conhecimento individual e considera que cada ges-

mento, para expandir suas capacidades pessoais e

tor é responsável e limitado à sua área específica de atuação.

obter os resultados desejados;

A visão sistêmica em uma organização, com a quebra de velhos paradigmas é importantíssima para enfrentar as mudan-

modelos mentais: é um sistema de valores base-

ças de mercado geradas pela competitividade. Para se sobres-

ado nas descobertas pessoais, influenciadas por ex-

saírem e por uma questão de sobrevivência, as empresas pre-

periências familiares, sociais e culturais. Esclarecer e

cisam trabalhar com essa visão sistêmica e atentarem-se para

melhorar continuamente os modelos mentais ajuda a

as interfaces e as interdependências entre suas diversas áreas,

melhorar a imagem que cada um tem do mundo, com

com a análise do ambiente interno e externo.

l

o intuito de verificar idéias, atos e decisões que influenciam o modo de como a organização será gerida;

Na empresa com visão sistêmica a transformação do conhecimento tácito em explícito torna-se mais evidente, pois os inter-relacionamentos entre as áreas possibilitam a criação do

aprendizagem em equipe: a aprendizagem em equipe

conhecimento e a geração do conhecimento coletivo, transfor-

une as aptidões coletivas ao pensamento e à comunicação.

mados em procedimentos, normas e critérios, dentre outros fa-

Desenvolve no grupo inteligência, dialogo e proposição de

tores, que irão nortear a empresa rumo a seus objetivos.

l

idéias para participar da elaboração de uma lógica comum;

Face ao exposto, as influências oriundas de fatores internos e externos (visão sistêmica) e a gestão do conhecimento

visão compartilhada: é função dos lideres tornar os

tem sido percebidas como resultado de um novo paradigma

objetivos da organização concretos e legítimos, desenhar

organizacional que prevê maior valorização do indivíduo e sua

imagens do futuro e estimular o engajamento do grupo.

capacidade em gerar inovação, produtividade e inteligência.

l

22 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


RERERÊNCIAS

VASCONCELOS, Maria Celeste R. L. Capital social e gestão do conheci-

BEAL, Adriana. Gestão estratégica da Informação: como transformar a informação e a tecnologia da informação em fatores de crescimento e alto desempenho nas organizações. São Paulo: Atlas, 2004

mento, in Convivencialidade, cap. 9, Rio de Janeiro. Atlas, 2002.

DAVENPORT, T.; PRUZAK, L. Conhecimento empresarial: como as organizações gerenciam o seu capital intelectual. Rio de Janeiro: Campus, 1998 DRUCKER, Peter. Inovação e espírito empreendedor. São Paulo: Pioneira, 1993 FLEURY, M. T. L.; OLIVEIRA JR., M. M. Aprendizagem e gestão do conhecimento. As pessoas na Organização. São Paulo, Gente, 2002, p.133-146 FLEURY, M. T. L.; OLIVEIRA JR., M. M. Gestão estratégica do conhecimento: integrando aprendizagem, conhecimento e competências. São Paulo: Atlas, 2001

NOTAS 1 Professora do Centro Universitário Newton Paiva - Disciplinas Empreendedorismo e Projetos Empresariais, Gestão de Vendas e Negociação, Administração Mercadológica, Administração de Conflitos e Negociação, Gestão de Relacionamento com Fornecedores e Clientes, Gestão de Pessoas, Estratégia de Vendas e Negociação. E-mail:jeannecmrodrigues@gmail.com 2 Professora do Centro Universitário Newton Paiva - Disciplina de Gestão de Processos 3 Professora do Centro Universitário Newton Paiva - Disciplinas Comportamento Organizacional, Comportamento do Consumidor, Desenvolvimento Organizacional, Gestão de Pessoas, Mudança e Negociação, Psicologia Organizacional, Psicologia do Consumidor.

HAMMER, Michael. A empresa centrada em processos. HMS education, 2000/2003 MERLO, Teresa Raquel. O Paradigma da Gestão de Conhecimento: uma Questão de Enquadramento à Cultura Organizacional. Fevereiro/2005. Disponível em: http://kmol.online.pt/artigos/2005/02/01/paradigma-gc > Acesso em 10/05/2012 MORGAN, Gareth. Imagens da organização. São Paulo, Atlas, 1996 NONAKA, I. & TAKEUCHI, H. Criação de conhecimento na empresa: como as empresas japonesas geram a dinâmica da inovação. Rio de Janeiro: Campus, 1997 OLIVEIRA, Djalma de Pinho Rebouças de. Sistemas, Organização & Métodos: uma abordagem gerencial. São Paulo, Atlas, 2002. SENGE, P. M. A Quinta Disciplina: arte, teoria e prática da organização de aprendizagem. São Paulo: Best Seller, 1998 SILVEIRA, Antônio A. Gestão de conhecimento com ênfase na aprendizagem organizacional: um estudo multicaso no contexto bancários. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Itajubá – UNIFEI. Itajubá, MG. 2004. Disponível em 22.05.2012 STEWART, Thomas A. Capital intelectual: a nova vantagem competitiva das empresas. 2a ed. Rio de Janeiro: Campus, 1998 SVEIBY, K. E. A nova riqueza das organizações. gerenciando e avaliando patrimônios de conhecimento. Rio de Janeiro: Campus. 1998 TERRA, J. C., KRUGLIANSKAS, I. Gestão do conhecimento em pequenas e médias empresas. Rio de Janeiro: Campus. 2003

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 23


A IMPORTÂNCIA DO EMPREENDEDORISMO NAS ORGANIZAÇÕES: ESTUDO DE CASO DA EMPRESA EXPRESSO GLOBAL LTDA Ana Maria Ribeiro Santiliano Priscilla Evangelista de Oliveira1 Raphael Nilton Santos1 Thais Lílian Fagundes Lopes1 Herbert José de Goes Laila Maria Hamdan Alvim

RESUMO: Toda organização que visa alcançar seus objetivos, buscando a eficiência na utilização de seus recursos, e eficácia no atendimento das necessidades de seus clientes, deve prezar pela organização de seus processos e na clareza de suas informações. A empresa planejada e estruturada a partir de seus processos tende a maximização de seus resultados e desperdício mínimo. Esse artigo expõe a realidade empresarial de uma organização voltada para o ramo do motofrete e traz a principal dificuldade de se trabalhar com esse nicho do mercado. Palavras-chave: Eficiência. Eficácia. Realidade empresarial. Motofrete.

INTRODUÇÃO

conhecer bem a cidade em que estaria circulando.

No Brasil, existem vários tipos de transportes de cargas

Devido essa rotina estressante e corrida, as exigências de

e pessoas, sendo fundamental para o processo de gestão

prazos e horários e o desrespeito às normas e leis de trânsito

de qualquer empresa. Este ramo auxilia as organizações do

é alarmante o número de acidentes envolvendo motoboys. Por

mercado a concluírem seus processos, desde a entrega de

isso, hoje, o Código Brasileiro de Trânsito exige equipamentos

documentos que precisam ser assinados com urgência, até o

obrigatórios de segurança. A motocicleta deve estar matricu-

transporte da matéria-prima para dar início à produção de gran-

lada na categoria “aluguel”, equipada com “corta-pipa” e um

des indústrias. Estes processos são diferenciados, variando de

motor “mata-cachorro”. Durante o trabalho, é necessário usar

acordo com os tipos de cargas e as formas de transporte. A Ex-

o colete de segurança e o capacete devidamente sinalizados

presso Global Ltda., empresa abordada nesse artigo científico,

com adesivos refletores. Caso deixe de cumprir uma dessas

surgiu visando, o atual crescimento da atividade moto frete, que

normas, corre o risco de ser multado. O profissional que traba-

é formado por motoboys autônomos e empresas especializa-

lha com transportes de mercadorias deve ter instalado na moto

das. Existe atualmente cerca de um milhão de pessoas atuando

um baú que seja autorizado pelo Conselho Nacional de Trânsito

nesse nicho do mercado.

(CONTRAN). As novas leis entram em vigor a partir de agosto

Os chamados “motoboys” estão presentes nas cidades brasileiras há muitos anos, trabalhando como mensageiros,

de 2012 com intuito de filtrar os profissionais, adequando-os às leis de trânsito.

moto-taxistas, dentre outros. Especificamente em Belo Hori-

O moto frete é um ramo que altera conforme a globalização

zonte/ MG, é notável que o número de motocicletas aumenta

e a necessidade do mercado, enfrentando vários problemas ex-

mensalmente. Segundo a BHTRANS (Empresa de Transpor-

ternos como a clandestinidade, o alto número de concorrentes

tes e Trânsito de Belo Horizonte) houve um crescimento de

e o crescente número de acidentes no trânsito.

20,2% entre janeiro de 2008 e maio de 2009 e mais de 6% em 2011. Hoje existem aproximadamente 174.365 motocicletas circulando na capital.

DESCRIÇÃO DA EMPRESA EXPRESSO GLOBAL LTDA A Expresso Global Ltda. foi fundada no dia 11 de feve-

Um fato que confirma o crescimento desse mercado é a

reiro de 2001 por Walisson Alvin, único dono. Localizada na

regularização do serviço. Antes, para trabalhar como motoboy,

Rua Ouro Preto, 137 - 1° andar no Bairro Barro Preto em Belo

bastava ter no mínimo 21 anos, habilitação tipo A e uma motoci-

Horizonte/ MG, conta com 62 funcionários, dentre ao quais

cleta, sem a necessidade de nenhuma especialização, apenas

estão uma contadora, dois auxiliares administrativos, um di-

24 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


retor que é o responsável pelas demais áreas da empresa

gerando um marketing negativo. Por ser uma organização de

incluindo desde a logística até recursos humanos e mais de

pequeno porte, ela não dispõe de um setor de Recursos Huma-

50 motoristas. Os serviços oferecidos vão desde o transporte

nos, o que talvez seja a razão principal desse problema.

executivo de passageiros, transporte de pequenas cargas e moto frete, que é o forte da empresa.

OBJETIVO

Todos os motoboys trabalham com carteira assinada

Mostrar a importância das ferramentas empreendedoras na

e possuem o veículo próprio, recebendo um salário fixo de

resolução de problemas de uma empresa de transportes de pe-

R$1.332,00 (Hum mil trezentos e trinta e dois reais). O sistema

queno porte, qualificando-a para a eficiência empresarial.

de informação adotado pela empresa é o Triax, que possibilita o cadastro de clientes pessoa física ou jurídica, a entrada das Ordens de Serviços (OS), a administração dos processos e o faturamento mensal (notas fiscais e boletos bancários).

METODOLOGIA O trabalho foi realizado por meio de pesquisas e visitas à empresa Expresso Global Ltda. A pesquisa pode ser classifi-

Além da prestação de serviços temporários, a empre-

cada quanto aos fins como pesquisa descritiva e explicativa

sa trabalha com o aluguel de motoboys. Ou seja, o cliente paga

e quanto aos meios como pesquisa de campo, bibliográfica

uma mensalidade de R$2.480,00 (Dois mil quatrocentos e oiten-

e estudo de caso.

ta reais) para ter o motoboy fixo à sua disposição na empresa. A Expresso Global é referência no mercado de moto frete pela

DIAGRAMA DE ISHIKAWA

sua estrutura organizada e voltada para a satisfação do cliente,

De acordo com Takakura Junior o Diagrama de Ishikawa é

porém enfrenta problemas com o seu capital humano. A falta

uma ferramenta gráfica proficiente, utilizada nas empresas visando

de compromisso dos motoboys com a empresa é um fator pre-

à melhoria no controle de qualidade nos processos e tem como

ocupante e denegri a imagem da mesma perante a sociedade,

fundamento reunir as causas que estão na origem do problema.

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 25


DESCRIÇÃO DO DIAGRAMA

distribuídos categoricamente como:

A análise de custos baseia-se, fundamentalmente, na identificação dos custos e despesas gerados pelos processos

l

Salário fixo: R$600,00 (Seiscentos reais).

diários. O planejamento empresarial envolve a seleção de ob-

l

Aluguel da moto: R$500,00 (Quinhentos reais).

jetivos, bem como a definição dos meios para atingi-los. Neste

l

Vale alimentação: R$232,00 (Duzentos e trinta e

âmbito, cabe assinalar que a maximização dos lucros constitui

dois reais).

o objetivo mais relevante e clássico de qualquer organização empresarial (organizações que exercem atividade econômica

*Dados fornecidos pela empresa Expresso Global Ltda.

organizada, para a produção de bens ou serviços com fins lucrativos). Visando direcionar estratégias efetivas para maximizar

Ela tem parceria com um restaurante da região, que oferece

a receita e minimizar os custos, ou seja, manter o lucro sem-

alimentação aos empregados, ou seja, além do vale alimentação,

pre maior que a despesa, é imprescindível ter pleno controle e

os funcionários podem almoçar sem custo nas proximidades.

conhecimento das estruturas de custos e as formas de rateio

O principal objetivo da Expresso Global nesse momento é re-

mais adequadas para encontrar o ponto de equilíbrio e atingir

duzir desmotivação dos motoboys. Dentre as principais causas do

as metas estipuladas.

problema, estão:

Todos os motoboys recebem um salário em carteira com o valor de R$1.332,00 (Hum mil trezentos e trinta e dois reais),

l

Remuneração fixa: independente do esforço e

26 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


Equipar as motos com aparelhos que não deixem a

número de atendimentos, os motoboys continuarão

l

recebendo o mesmo salário. Outra causa ligada à re-

velocidade ultrapassar de 80km/h, para que acidentes

muneração é a acomodação dos funcionários, por re-

sejam evitados devido à competitividade.

ceberem um salário acima da média do mercado. l

Apresentar planos de carreira estimulando os mo-

Falta de expectativas: os motoboys não são esti-

toboys a desenvolver suas funções crescendo junto à

mulados, não têm horários específicos, não prestam

empresa. Oferecer oportunidades de convivência entre

outros serviços enquanto permanecem dentro da em-

os funcionários gerando o espírito de equipe.

l

presa, falta espírito de equipe e cultura organizacional. l l

Falha na Comunicação: os motoboys não têm credi-

bilidade, portanto não dão sugestões. As expectativas

Abrir espaço para que os motoboys manifestem

suas opiniões sobre as decisões que serão cabíveis a eles mesmos.

e metas da empresa não são compartilhadas entre líderes e liderados.

l

Estabelecer critérios de avaliação para que os mo-

toboys não sejam sobrecarregados e sejam remuneral

Desorganização: os bons motoboys trabalham em

dos de acordo com suas funções.

excesso para compensar o descompromisso dos outros. Após estudar os custos fixos e variáveis de todos os setoPossíveis reajustes para alcançar melhores resultados:

res da Expresso Global e identificar a margem de contribuição de cada funcionário. Foi feito um levantamento de alguns cus-

Definir metas e bonificações (monetárias ou em folgas

tos, detectando quais as melhores maneiras de evitá-los. De

de horas trabalhadas), de acordo com o tempo e, quanti-

acordo com a análise foram oferecidos a Expresso Global os

dade de clientes atendidos num período definido.

seguintes recursos, visando o custo e o benefício:

l

Fonte: Quadro desenvolvido pelos integrantes do grupo.

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 27


Com essas modificações os motoboys terão mais entusiasmo ao trabalhar, visto que a empresa transparecerá maior credi-

l

Cliente faz a conferência e assina a Ordem de Serviço.

l

Motoboy recolhe Ordem de Serviço, deixa a 1ª via

bilidade e segurança ao agir. A Gestão de Processos trata da organização por métodos, garantindo a qualidade nos meios de produção para atingir um re-

com o cliente e encaminha a 2ª via assinada para o

sultado eficaz. Ter um amplo conhecimento dos processos incen-

setor administrativo.

tiva a criatividade, facilitando o atendimento aos clientes e dando ênfase nos esforços dos colaboradores da organização.  Na Expresso Global o processo de moto frete é prepa-

l

Auxiliar administrativo cadastra a Ordem de Ser-

viço no sistema.

rado de acordo com a necessidade e expectativa do cliente, baseando-se nas seguintes etapas:

l

Setor financeiro emite a Nota Fiscal e o boleto ban-

cário no final do mês, constando todos os serviços l

Cliente entra em contato via telefone e solicita o serviço.

l

Atendente anota a solicitação e entra em contato

com o motoboy mais próximo.

prestados no período. As atividades citadas acima estão logicamente inter-relacionadas e, quando são encadeadas adequadamente, passam a compor um processo, como repre-

l

Motoboy gera a Ordem de Serviço e inicia a transi-

sentado na Figura 2.

ção da mercadoria. Figura 2 - Fluxograma do processo de atendimento do moto frete da empresa Expresso Global Ltda.

28 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


A comunicação e redação empresarial é fundamental

contratasse um consultor de RH para auxiliar na gestão da em-

dentro de uma organização, tanto para a eficácia de seus

presa, pois não é viável a instalação de um setor de Recursos

processos, quanto para manter um clima organizacional

Humanos numa empresa de pequeno porte. Outra sugestão foi

agradável. Como diz Medeiros (2010), favorecem a efetividade

a contratação de uma empresa especializada na captação de

da comunicação:

pessoas, aperfeiçoando o processo de recrutamento e seleção de motoboys capacitados, o que evitaria o sobrecarregamento

l

Ter um objetivo em mente.

l

Ter informações suficientes sobre o fato.

l

Planejar a estrutura da comunicação a ser feita.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

l

Conhecer o significado de todas as palavras ne-

Conclui-se que, apesar da atividade de moto frete ser hoje

da organização na feitura do processo.

cessárias. l

imprescindível para a economia e atividades comerciais, ainda

Tratar do assunto com propriedade.

há muito que se desenvolver nessa área. Com base na visita realizada na empresa Expresso Global, percebe-se que os profis-

A sobrevivência de qualquer organização depende da boa

sionais não recebem treinamentos específicos e não possuem

comunicação, pois é através dela que existe o entendimento do

a capacitação adequada para o desempenho da função, fato

processo de trabalho. “O sucesso empresarial também depende

que contribui para o alto índice de acidentes envolvendo os mo-

de um sistema de comunicação eficaz, tanto interna, quanto exter-

toboys gerando desmotivação no exercício da profissão.

namente. A comunicação imprecisa, ambígua e insuficiente tem gerado a ruína de muitos empresários” (MEDEIROS, 2010, p. 3).

Com as novas leis em vigor a partir de agosto de 2012, estarão presentes no mercado de trabalho profissionais mais

O planejamento e controle dos processos de uma orga-

qualificados, tratando os demais motoristas e pedestres com

nização ajuda na tomada de decisões, na otimização dos recur-

o respeito que todos reivindicam. Somente com educação e

sos para a minimização do desperdício e na fiscalização da ca-

conscientização teremos um trânsito digno e um melhor de-

pacidade de serviços a serem prestados. Segundo Rebouças

sempenho no trabalho, concretizando os objetivos almejados

(2004), o planejamento é um processo contínuo, que envolve

pela empresa. Investir em pessoas é primordial para qualquer

um conjunto complexo de várias decisões inter-relacionadas. “A

organização.

partir de um objetivo, esperam-se alguns resultados, que serão consequências de atividades e recursos disponíveis, baseados

REFERÊNCIAS

em ações padronizadas, de acordo com a política e filosofia da

BERNARDI, Luiz Antonio. Manual de empreendedorismo e gestão. São Paulo: Atlas, 2003.

organização, que gerarão informações para controle” (SERRAVITE / NUNAN, 2010, p. 9). O controle dos processos de uma organização preocupa-se também com a perspectiva de aprendizado e de crescimento de seus colaboradores, oferecendo infraestrutura e treinamentos que, consequentemente, possibilitarão a consecução de objetivos ambiciosos e metas lucrativas. O planejamento dos processos voltado para pessoas preocupa-se em garantir resultados a longo prazo monitorando três capacidades principais: capacidade dos funcionários; capacidades dos sistemas de informação; motivação, empowerment e alinhamento. O empowerment trata da delegação de autoridade, baseia-se na distribuição de tarefas e responsabilidades, com o intuito de aumentar a autonomia e participação dos funcionários. Está ligado à Gestão de Recursos Humanos e busca a excelência na prestação de serviços.

BORNIA, A.C – Análise Gerencial de Custos - Aplicação em Empresas Modernas. 2. ed.São Paulo. Editora Atlas, 2009. CAMPOS, V . Fanconi. Controle da Qualidade Total. Belo Horizonte. INDG, 2004 D’ ASCENÇÃO, Luiz Carlos M. Organização, sistemas e métodos: análise, redesenho e informatização de processos administrativos. São Paulo: Atlas, 2010 HARRINGTON, H. J. Aperfeiçoando Processos Empresariais. São Paulo, Editora Makron Books, 2004 MEDEIROS, João Bosco. Redação empresarial. 7.ed. São Paulo: Atlas, 2010. MOURA, E . C. As Sete Ferramentas Gerenciais da Qualidade. São Paulo, Editora Makron Books, 2004

SUGESTÃO PROPOSTA Após um mês de análise sugeriu-se que a Expresso Global

REBOUÇAS, Djalma. Planejamento Estratégico: conceitos, metodolo-

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 29


gias e práticas. São Paulo: Editora Atlas, 2004. SERRAVITE, Amilton; NUNAN Carolina. Apostila de Planejamento e Controle de Processos. Newton Paiva, 2010. SILVA, E. C da. Como Administrar o Fluxo de Caixa das Empresas. 3. ed. São Paulo: Editora Atlas, 2008. VERGARA, Sylvia Constant. Projetos e relatórios de pesquisa em administração. 12.ed. São Paulo: Atlas, 2010. VICECONTI, P.E. NEVES, S. das. Contabilidade de Custos – Um enfoque direto e objetivo.7. edi. São Paulo: Editora Frase, 2003. WHITELEY, Richard C. A Empresa Totalmente Voltada para o cliente. Rio de Janeiro, Editora Campus, 2002 www.administradores.com.br www.autotran.com.br www.cultoupop.com/motoboys www.em.com.br

NOTAS 1 Alunos do 4° período do curso de Administração de Empresas do Centro Universitário Newton Paiva. Contatos: ana.santiliano@hotmail. com, brualiotavares@oi.com.br, prizcl@yahoo.com.br, raphaelniltonsantos@gmail.com, thaislflopes@gmail.com, 2 Especialista, professor da disciplina Planejamento e Controle de Processos do Centro Universitário Newton Paiva. Coordenador do MBA Gestão Estratégica de Negócios Coordenação do Curso de Bacharelato em Administração e do Curso de Tecnologia em Processos Gerenciais – EaD. Atuação docente no curso de Administração Empresas do Centro Universitário Newton Paiva, 3 Doutora em Letras, Orientadora, professora da disciplina Comunicação e Redação Empresarial.

30 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


GESTÃO DO CONHECIMENTO: um mecanismo de maximização de resultados organizacionais Davson Mansur Irff Silva1

Resumo: Este artigo pretende demonstrar a importância da Gestão do Conhecimento no modelo de estrutura utilizado pela empresa favorece aos resultados que esta quer apresentar ao mercado, em função da aplicabilidade do conhecimento tácito e explícito que os colaboradores possuem e podem adquirir no desempenho de suas atividades. Demonstrar que os gestores promovem os resultados em função da expertise de seus colaboradores na cadeia produtiva, correlacionando a estrutura organizacional, enquanto ferramenta estratégica de apoio para gestores no seu desempenho gerencial, de acordo com o propósito empresarial da organização: visão, missão e valores institucionais. Sendo que, os resultados apresentam-se em função do modelo utilizado, promovendo melhores resultados, na razão de um planejamento realizado com indicadores de desempenho para alcançar os resultados desejados. Palavras chave: Conhecimento. Competitividade. Estratégia.

INTRODUÇÃO

Santos (2001, p. 35) corrobora:

Promover a gestão do conhecimento nas organizações é um desafio para a maioria dos gerentes de recursos hu-

[...] a competência não é um estado ou um conheci-

manos e empresários. Direcionar as ações do funcionário,

mento que se tem e nem é resultado de treinamento.

na busca de alcançar uma meta ou realizar um objetivo fun-

Competência é, na verdade, colocar em prática o que

cional, é uma tarefa que cada gestor exerce no desempenho

se sabe em um determinado contexto. Há competência

das atividades do seu cargo.

apenas quando há competência em ação. Do ponto

Uma série de ações que ocorrem simultaneamente na

de vista empresarial, é a prática que interessa: é o co-

empresa, e essas visam os resultados de um setor, de uma

nhecimento aplicado que gera capacidade de produzir

área funcional ou organizacional. É possível ressaltar um

resultados, ou seja, competência.

atendimento diferenciado, um padrão de qualidade e, mais holisticamente, o alcance da missão organizacional. Kotler

Promover alinhamentos no planejamento estratégico da em-

(1998, p. 24) considera que “a declaração de missão é uma

presa, redefinindo objetivos e metas é um exercício quase que di-

definição do propósito da organização – o que ela deseja

ário dos gestores que buscam atender às demandas do mercado

atingir em um ambiente maior”.

com prontidão, mas para que esse acontecimento não retarde as

A convergência das ações em resultados torna-se ainda muito mais complexa, em razão dos agentes internos e exter-

necessidades organizacionais, verifica-se que o gestor precisa se manter focado em quais são as reais prioridades da empresa.

nos à empresa não se alinharem às estratégias organizacio-

Kotler (1998, p. 23) defini Planejamento Estratégico “como

nais. Em alguns casos, esses agentes demandam análises e

o processo de desenvolvimento e manutenção de uma referên-

interpretações que necessitam de pessoas que sejam capa-

cia estratégica entre os objetivos e capacidades da empresa e

citadas a estabelecer as relações de causa e consequências

as mudanças de suas oportunidades de mercado”.

das ações endógenas e exógenas à empresa.

Segundo Cury (2005, p.285):

Fleury & Fleury (1999, p.38) ressaltam: O processo de análise administrativa deve ser iniciado A organização, situada em um ambiente institucional,

com um planejamento cuidadoso, prevendo o envolvi-

define a sua estratégia e as competências necessárias

mento positivo do público interno da organização, pos-

para implementá-las, num processo aprendizagem per-

sibilitando sua conscientização no sentido de aprender a

manente, não existe uma ordem de precedência neste

ver o problema por si próprio, participando ativamente do

processo, mas antes um círculo virtuoso, em que um

diagnóstico, antevendo, sua co-responsabilidade na ma-

alimenta a outra através do processo de aprendizagem.

nipulação da solução final.

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 31


Neste contexto, ressalta-se a importância de alocar cada

pode ser identificada com o seu envolvimento na realização

funcionário em seu respectivo campo de atuação. Posicioná-

da mesma, ou seja, com o término da tarefa propriamente

-lo onde possui a expertise necessária para a solução de pro-

dita. A soma de todas as etapas de um processo pode ser

blemas e a criação e melhorias de novos processos. Essa

representada pela Gestão Estratégica de Pessoas, ainda nas

tomada de decisão é importantíssima para que a empresa se

considerações propostas por Dutra (2009, p. 65): “A gestão

coloque em lugar de destaque no mercado.

estratégica de pessoas está intimamente ligada à estratégia

Gerir o conhecimento dos funcionários de uma empresa, não se relaciona apenas a colocá-lo em uma área e esperar dele resultados. É preciso que este funcionário tenha o co-

da empresa ou do negócio”. Dutra (2009), Albuquerque (1987, p. 51) e Wood (1992, p. 35) ressaltam:

nhecimento, as habilidades, as atitudes e promova a sua entrega para a realização de uma tarefa específica. Dutra (2009,

[...] argumentam que a gestão estratégica de pes-

p. 102) destaca: “a competência de uma pessoa pode ser

soas não deve ser excludente, considerando apenas

compreendida como sua capacidade de entrega”.

uma parte das pessoas do negócio ou da empresa,

Santos (2001, p. 30) ressalta:

mas abrangente, envolvendo a todos. Ao olharmos para o futuro, podemos dizer que a gestão estraté-

O conhecimento não é puro nem simples, mas é uma

gica de pessoa deve contemplar todas as pessoas

mistura de elementos; é fluido e formalmente estrutu-

da empresa que mantêm qualquer tipo de relação

rado; é intuitivo e, portanto, difícil de ser colocado em

de trabalho com a empresa, não importando seu

palavras ou de ser plenamente entendido em termos

vínculo contratual.

lógicos. Ele existe dentro das pessoas e por isso é complexo e imprevisível.

A busca das empresas no aperfeiçoamento de seus sistemas operacionais é uma constante, mas gerir o conhecimento pode ser

O posicionamento do colaborador na estrutura orga-

um desafio para conduzir aos melhores resultados. Neste contex-

nizacional tem uma razão. Seu cargo demanda por ações

to, a gestão do conhecimento é uma estratégia que favorece aos

que podem ser específicas e complementares ou de rotina,

resultados organizacionais? A proposta deste artigo é realizar uma

mas todas devem se relacionar a elaboração do produto ou

pesquisa bibliográfica do tema a Gestão do Conhecimento como

a prestação de serviços. Cada profissional tem a sua impor-

mecanismo de maximização de resultados.

tância identificada no processo. Seja um trabalho de rotina

O tema tem relevância no contexto organizacional e edu-

ou um trabalho especializado, as etapas não se concretizam

cacional, pois é de interesse primário dos empresários terem

caso uma das partes não finalize a sua etapa ou simplesmen-

uma empresa eficiente e voltada para resultados; é de interesse

te não execute suas ações em conjunto.

do meio acadêmico, pois oferece a possibilidade de integrar as

Dutra (2009, p. 65-66) pondera:

ações em busca de um objetivo comum, que apresente eficiência na administração de seus recursos humanos, no tocante à

As pessoas influenciam a estratégia da empresa: a

gestão do conhecimento, como instrumento que proporciona

estratégia organizacional é pensada com base na

um diferencial competitivo na gestão dos funcionários.

percepção que a empresa tem do contexto em que se insere, de sua capacidade para interagir com esse

A GESTÃO DO CONHECIMENTO

contexto e dos propósitos relativos a sua sobrevivên-

Davenport e Prusak (1998) consideram que o conheci-

cia, seu desenvolvimento e sua perenidade. [...] a ca-

mento não é dado nem informação, embora esteja relacio-

pacidade de resposta da empresa está relacionada

nado com ambos e as diferenças entre esses termos sejam

a seu patrimônio de conhecimentos, está em cons-

normalmente um questão de grau. Segundo Davenport e Pru-

tante desenvolvimento e se apóia na capacidade das

sak (1998, p. 1): “é importante frisar que dado, informação

pessoas com as quais se relaciona.

e conhecimento não são sinônimos”. Ressaltam que: “[...] o sucesso ou fracasso organizacional muitas vezes pode

Cada funcionário tem uma importância no processo pro-

depender de se saber de qual deles precisamos, com qual

dutivo, tem um motivo, uma razão para ocupar o cargo que

deles contamos e o que podemos ou não fazer com cada um

foi designado. A finalização da tarefa de cada colaborador

deles” (DAVENPORT e PRUSAK, 1998, p. 1).

32 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


Davenport e Prusak (1998, p. 6) conceituam:

“A organização acaba por ser entendida como um sistema de conjuntos de papeis, mediante os quais as pessoas se man-

Conhecimento é uma mistura fluida da experiência con-

têm inter-relacionadas” (MOTTA, 1979, p. 74). Essa abordagem

densada, valores, informação contextual e insight experi-

promove o entendimento de que “a gestão de pessoas é vista

mentado, a qual proporciona uma estrutura para a avalia-

como um sistema inserido em um sistema maior com o qual

ção e incorporação de novas experiências e informações.

interage” (DUTRA, 2009, p. 18). A gestão de pessoas é constitu-

Ele tem origem e é aplicado na mente dos conhecedores.

ída por subsistemas que interagem entre si e modificam o todo

Nas organizações, ele costuma estar embutido não só

em razão das suas interdependências e inter-relações.

em documentos de repositórios, mas também em rotinas, processos, práticas e normas organizacionais.

Davenport e Prusak (1998, p. 108) ressaltam:

A gestão do conhecimento nas organizações tem conquis-

A transferência espontânea e não estruturada do co-

tado gradativamente o seu espaço devido no interesse de ges-

nhecimento é vital para o sucesso de uma empresa.

tores e empresários.

Embora o termo gestão do conhecimento implique

Dutra (2009, p. 23) ressalta:

a transferência formalizada, um de seus elementos essenciais é o desenvolvimento de estratégias espe-

Ao colocarmos organização e pessoas lado a lado,

cificas para incentivar essas trocas espontâneas.

podemos verificar um processo continuo de troca de competências. A organização transfere seu patrimônio

Um sistema externa à empresa pode ser considerado um

de conhecimento para as pessoas, enriquecendo-as e

dos principais percursores de um processo de mudança: a

preparando-as para enfrentar novas situações profissio-

variável tecnológica. Esse agente possibilita ganhos em pro-

nais e pessoais, quer na organização, quer fora dela.

dutividade devido ao volume de informações em tempo real. Esse sistema oferece a possibilidade de troca de informa-

Dutra (2009, p. 23) conclui: “as pessoas, ao desenvolverem a sua capacidade individual, transferem para a organização seu

ções entre áreas funcionais e seus respectivos funcionários, fato que aumenta a eficiência dos operadores funcionais.

aprendizado, capacitando a organização para enfrentar novos

Araújo e Garcia (2009, p. 154) consideram que: “identifi-

desafios”. A troca de informações entre empresa e as pessoas

car o valor das pessoas para a organização de forma extre-

que nela trabalham é uma simbiose, na qual ambos ganham.

mamente objetiva que esta é a finalidade que visa mensurar

A empresa enquanto “laboratório de testes” de uma realidade

qualitativamente o impacto de cada pessoa nos resultados

o indivíduo como pesquisador de suas ações e atos. Os resul-

organizacionais”. Para Chiavenato (1999) julgar ou estimar

tados gerados são benéficos tanto a empresa, quanto às pes-

o valor, a excelência e as qualidades de uma pessoa e, so-

soas, pois o cenário que favorece ao aprendizado é essencial

bretudo, a sua contribuição para o negócio da organização.

para o desenvolvimento.

O aumento da eficiência cria maiores possibilidades de

Terra (2000, p. 70) pondera:

evitar perdas de matérias-primas, retrabalhos e favorece ao desenvolvimento de novos processos que podem aumentar

A Gestão do Conhecimento está desta maneira, in-

a eficiência do processo produtivo. Fleury, Wanke e Figuei-

trinsecamente ligada à capacidade das empresas em

redo (2006, p. 184) consideram que as ações direcionadas

utilizarem e combinarem as várias fontes e tipos de co-

podem reduzir os custos unitários no processo e salientam:

nhecimento organizacional para desenvolverem com-

“as empresa que possuem o know-how, economias de es-

petências específicas e capacidade inovadora, que se

cale e foco em diversas operações logísticas relacionadas

traduzem, permanentemente, em novos produtos, pro-

com a movimentação de materiais e o transporte” podem

cessos, sistemas gerenciais e liderança de mercado.

ser mais competitivas. Esses fatores e outros contribuem e reforçam o rom-

Para Senge (1990), o processo de aprendizagem na or-

pimento do paradigma de que o maior patrimônio das em-

ganização ocorre mediante condições concretas para que as

presas são as pessoas. Não basta somente ter a informa-

pessoas aprendam a criar sua própria realidade, auxiliando-as

ção em mãos, é preciso interpretá-la e dar um resultado

a compreender o contexto em que vivem e a com ele interagir.

para a empresa.

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 33


Nonaka (1997, p. 185) consideram que:

de trainee para atrair e tentar reter esse público. Com programas bem-estruturados, as organizações ofere-

À medida que o conhecimento e a inovação tornam-se

cem aos profissionais dessa geração salários atraen-

mais importantes para o sucesso competitivo, a crescente

tes e acima da media de mercado, planos de carreira

insatisfação com as estruturas tradicionais não deve ser

com possibilidades de ascensão mais rápida que por

surpresa. Durante grande parte deste século, a estrutura

modelos tradicionais e a oportunidade de conhecer e

organizacional oscilou entre dois tipos básicos: burocracia

trabalhar em diversos setores.

e força-tarefa. Mas, quando se trata de criação do conhecimento, nenhuma dessas estruturas é adequada. É preciso uma combinação ou síntese de ambas.

Essa transformação desencadeou uma corrente no sentido de desenvolver e capacitar os colaboradores, fornecendo-lhes ferramentas para promover o desenvolvimento pessoal e, conse-

O relacionamento entre o homem e a máquina tornou-se mais

cutivamente, o profissional. Seria a formalização do saber, como

estreito em função da interpretação de informações e no gerencia-

diferencial competitivo, para a retenção de talentos nas empresas.

mento de dados. Em um dado momento histórico as organizações

Davenport e Prusak (1998), Sidney Winter (1994, p. 189)

detinham um volume enorme de dados e informações que os com-

consideram:

putadores não transformavam em resultados. Esse momento culminou em um momento em que as empresas não somente busca o

Uma empresa é um conjunto de pessoas organizadas

capital intelectual no mercado, como faz de tudo para mantê-lo em

para produzir algo, sejam produtos, serviços ou algu-

seu quadro de colaboradores para obter a vantagem competitiva.

ma combinação de ambos, sua capacidade de produ-

“Peter Drucker disse certa vez que informações são “da-

zir depende daquilo que ela sabe e do conhecimento

dos dotados de relevância e propósito”, o que decerto suge-

subjacente nas rotinas e equipamentos de produção.

re que dados, por si só, têm pouco relevância ou propósito”

O ativo material de uma empresa só terá valor real se

(DAVENPORT e PRUSAK, 1998, p. 2).

as pessoas souberem o que fazer com ele. Se “saber

Davenport e Prusak (1998, p. 3) conceituam:

fazer” define o que a empresa é, então o conhecimento realmente é a empresa num sentido importante.

Dados descrevem apenas parte daquilo que aconteceu; não fornecem julgamento nem interpretação e nem qual-

A Era do Conhecimento cria uma nova mentalidade na

quer base sustentável para a tomada de ação. Embora a

sociedade no intuito de desenvolver práticas em comuni-

matéria-prima do processo decisório possa incluir dados,

dades do conhecimento humano. Essa ação direciona as

eles não podem dizer o que fazer. Dados nada dizem so-

pessoas a trabalharem em equipe na busca de solução para

bre a própria importância ou irrelevância. Porem, os dados

problemas. A utilização da criatividade como ferramenta para

são importantes para as organizações – em grande medi-

criar, desenvolver, inovar, ampliar e minimizar a utilização de

da, certamente, porque são matéria-prima essencial para

recursos e insumos da natureza é um mecanismo que ofere-

a criação da informação.

ce condições de ampliar os ganhos empresariais. Fato que é valorizado por essa nova força de trabalho.

Essa procura desenfreada por colaboradores qualifica-

Santana e Gazola (2011) complementam dizendo que a Gera-

dos e amplamente desenvolvidos direciona a organização

ção Y também apresenta como características um perfil inovador

a encontrar meios para reter os talentos que possui, mas,

com tendências a mudanças e adaptações comportamentais e de

também, em aprimora-los e desenvolvê-los. Nos dias atuais,

liderança baseadas em confiança e resultados. Além disso, de-

uma nova geração de pessoas vem se ofertando ao mercado

monstram a necessidade de dominar seu próprio estilo de vida,

de trabalho. Essa geração é conhecida como Geração Y.

gostam de independência e são aliados da tecnologia.

O mercado de trabalho desperta a atenção para a particularidade dessa nova geração. Rezende (2012, p.4) destaca:

De acordo com Lipkin e Perrymore (2010), a Geração Y tem por desejos a vontade de inovar, de pertencer, de ter significado, de conciliar o trabalho com uma boa qualidade

O mercado de trabalho já atentou para esse perfil dife-

de vida, o desejo de poder ter um trabalho que faça sentido,

renciado do jovem da geração Y. As empresas estão

um ambiente que seja alegre, em que haja respeito, afeto e

aumentando a cada ano o investimento em processos

um senso de importância.

34 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


A Geração Y prefere empresas que desenvolvem ações para

ao desenvolvimento e aprimoramentos das atividades laborais.

criar o moderno. Seu perfil é para consultores que estão voltados à

Segundo Nonaka & Takeuchi (1997, p. 79) consideram que

inovação, ao empreendedorismo de novas ideias. A criação é um

para se tornar uma empresa que gera conhecimento (Knowledge

fator positivo dessa geração, adoram a competitividade. As com-

Creating Company) a organização deve completar uma espiral do

panhias que realizam a terceirização de serviços se beneficiam

conhecimento, espiral esta que vai de tácito para tácito, de explíci-

desse perfil, uma vez que medidas/ações voltadas para esse tipo

to a explícito, de tácito a explícito, e finalmente, de explícito a tácito.

de necessidade empresarial pode-se valer de seus benefícios na

Logo, o conhecimento deve ser articulado e então internalizado

detenção desses talentos em seu quadro de colaboradores.

para tornar-se parte da base de conhecimento de cada pessoa.

A gestão de conhecimento dessa geração tornou-se um

Nonaka & Takeuchi (1997) consideram que o conheci-

novo desafio para as empresas. Elas precisam entender, as-

mento explícito pode ser expresso em palavras e números, e

similar e compreender todos os pontos relevantes e prepon-

facilmente comunicado e compartilhado sob a forma de dados

derantes para que eles possam produzir resultados relevan-

brutos, fórmulas científicas, procedimentos codificados ou prin-

tes para as organizações.

cípios universais. O conhecimento explícito pode ser catalogado em livros, anotações, revistas, reuniões e de outras formas

Conhecimento tácito e explícito

a explicitá-lo ao funcionário. Considera-se que o conhecimento

Nonaka e Takeushi (1997, p. 63) observam que “o conheci-

quando não é registrado, ele se perde no tempo.

mento, diferentemente da informação, refere-se a crenças e com-

Nonaka e Takeuchi (1997) descrevem que as empresas ja-

promisso”. Esses autores classificaram o conhecimento humano

ponesas veem o conhecimento como sendo basicamente “táci-

em dois tipos: conhecimento tácito e conhecimento explícito.

to” – algo dificilmente visível e exprimível. O conhecimento tácito é altamente pessoal e difícil de formalizar, o que dificulta sua

Conhecimento explícito é o que pode ser articulado na

transmissão e compartilhamento com outros. Ressaltam que

linguagem formal, inclusive em afirmações gramaticais,

esse conhecimento está profundamente enraizado nas ações

expressões matemáticas, especificações, manuais

e experiências de um indivíduo, bem como em suas emoções,

etc., facilmente transmitido, sistematizado e comunica-

valores ou ideias.

do. Ele pode ser transmitido formal e facilmente entre os

Logo, o conhecimento explícito é aquele conhecimento

indivíduos. Esse foi o modo dominante de conhecimen-

organizado e acessível às pessoas, enquanto o conhecimento

to na tradição filosófica ocidental.

tácito está na mente das pessoas e é difícil de ser mencionado

O conhecimento tácito é difícil de ser articulado na lingua-

formalmente, todavia é de extrema importância para as organi-

gem formal, é um tipo de conhecimento mais importante.

zações.

É o conhecimento pessoal incorporado à experiência in-

Segundo Nonaka & Takeuchi (1997) o conhecimento tácito,

dividual e envolve fatores intangíveis como, por exemplo,

para ser formalizado nas organizações, tem que ser transforma-

crenças pessoais, perspectivas, sistema de valor, insights,

do em palavras ou números para que todos possam compre-

intuições, emoções, habilidades É considerado como

ender. É nesse processo que ocorre a conversão de tácito em

uma fonte importante de competitividade entre as organi-

explícito e, novamente em tácito, onde é criado o conhecimento

zações. Só pode ser avaliado por meio da ação.

organizacional. A Figura 1 representa a espiral do conhecimento de No-

A definição dos conhecimentos: tácito e explícito são con-

naka & Takeuchi (1997, p.80). Ela demonstra que a empresa

ceitos que se complementam e se integram. Na dinâmica do

pode utilizar do modelo para promover o conhecimento e a sua

conhecimento organizacional, estes são necessariamente im-

devida utilização junto aos colaboradores.

portantes, pois, os dois podem ser essenciais no que se refere

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 35


Figura 1 – Espiral do conhecimento

Fonte: Nonaka & Takeuchi (1997, p.80).

Diante do exposto, verifica-se a real dificuldade no geren-

Davenport e Prusak (1998, p. 6) corroboram:

ciamento do saber tácito. Todavia, distinguir o conhecimento tácito do explícito é primordial, uma vez que a interação de ambos

[...] o conhecimento pode ser comparado a um sis-

para o processo de criação do conhecimento organizacional é

tema vivo, que cresce e se modifica a medida que

de extrema importância. O aprendizado que as organizações

interage com o meio ambiente. Os valores e as cren-

valorizam é aquele que pode ser utilizado para obter resultados,

ças integram o conhecimento, pois determinam, em

que pode ser utilizado de forma sistemática para conduzi-la

grande parte, o que o conhecedor vê, absorve e con-

para um nível elevado de competitividade. A inteligência huma-

clui a partir das suas observações.

na torna-se um recurso estratégico e é movido pela necessidade de buscar e aplicar novas técnicas de aprendizado. Os quatro modos de conversão apresentados por Nonaka & Takeuchi (1997) são:

Em função das considerações expostas, o conhecimento é um recurso intangível para as empresas, que, uma vez aplicados pelos colaboradores, podem demonstrar a eficiência de

- A socialização do conhecimento (tácito em tácito) é o pro-

toda uma equipe no desempenho de tarefas do dia-a-dia. Os

cesso de compartilhamento das experiências e pode acontecer

conhecimentos adquiridos e compartilhados podem maximizar

sem o uso da linguagem;

ganhos nas cadeias produtivas operacionais, em cadeias de

- A externalização (tácito em explícito) é um processo dinâmico, onde se utilizam de metáforas, conceitos, analogias ou modelos;

gerenciamento táticos e ações estratégicas voltadas para o propósito empresarial: missão, visão e os valores. Esses conhecimentos (tácito e explícito) que pode ser con-

- A combinação (explícito em explícito) é a combinação de

quistado ao longo dos anos no desempenho das tarefas pelo co-

conjuntos diferenciados de conhecimento explícito como, por

nhecimento compartilhado ou pelo conhecimento adquirido. Res-

exemplo, a construção científica do conhecimento;

salta-se que a utilização de ambos os conhecimentos promove o

- Internalização (explícito em tácito) é o aprender fazendo, manuais de instruções são exemplos típicos deste modo de

desenvolvimento pessoal e profissional do colaborador, e, para a empresa, na maximização dos resultados apresentados.

conversão do conhecimento. Avaliação de desempenho A associação dos saberes proporcionada não somente

A gestão do desempenho de cada colaborador prevê a men-

pelo registro, mas pela sua combinação conduz o indivíduo

suração de resultados por meio de ferramentas e metodologias

ao desenvolvimento profissional e pessoal. Essa situação se

específicas, utilizada de acordo com a atividade estipulada ao

torna possível, dada circunstância de que o homem é um

colaborador. A Figura 2 demonstra o esquema de mapeamento

sistema aberto e sujeito às mudanças.

da gestão de desempenho, relacionado ao momento de avaliação

36 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


de resultados de um colaborador, que inicia com um processo de

tendo uma nova base de informações. A autora considera que

sensibilização e finaliza com a Gestão do Conhecimento.

a verificação do desempenho mantém o foco nas competências

Gramigna (2007) argumenta que é por meio da avaliação

definidas nos perfis, agregadas a atitudes e comportamentos

das performances individuais que o gerente verifica a evolução

que só podem ser observados no desempenho do colaborador

ou involução no desempenho das pessoas de sua equipe, ob-

em suas atividades laborais.

Figura 2 - Esquema de mapeamento da gestão de desempenho

Fonte: Gramigna (2007, p. 33).

Um indicador de medida de desempenho, que se torna

um melhor conhecimento da realidade da empresa, incluindo

uma ferramenta gerencial e estratégica importantíssima para

o seu ambiente interno e externo. No que tange o ambiente in-

acompanhamento, controle e para efeito comparativo é o

terno, dentre as diversas técnicas com foco no conhecimento e

BSC – Balanced Scorecard.

desenvolvimento do negócio, destaca-se o controle gerencial,

Kaplan e Norton (1997, p. 19) definem o BSC da seguinte forma:

que facilita a obtenção da informação necessária para a análise contínua dos resultados pretendidos pela organização, o plane-

O Balanced Scorecard é um novo instrumento que inte-

jamento de ações e eventuais correções de rumo. O controle

gra as medidas derivadas da estratégia. Sem menosprezar as

gerencial gera ainda a informação para formulação e validação

medidas financeiras do desempenho passado, ele incorpora

da estratégia, e adequação de sua implantação.

os vetores do desempenho financeiro futuro. Esses vetores,

Kaplan e Norton (1997, p. 9) apresentam a seguinte validação:

que abrangem as perspectivas do cliente, dos processos internos, e do aprendizado e crescimento, nascem de um es-

Os objetivos e as medidas utilizadas no Balanced Score-

forço consciente e rigoroso de tradução da estratégia organi-

card não se limitam a um conjunto aleatório de medidas

zacional em objetivos e medidas tangíveis.

de desempenho financeiro e não financeiro, pois, deri-

O BSC é uma ferramenta de gestão estratégica que complementam as medidas financeiras do desempenho passado com as

vam de um processo hierárquico (top-down) norteado pela missão e pela estratégia da unidade de negócios.

medidas dos vetores que impulsionam o desempenho futuro. Um dos objetivos e medidas do scorecard deriva da visão e da estraté-

Kaplan e Norton (1997, p. 2) afirmam que o Balanced

gia da empresa. Os objetivos e medidas focalizam o desempenho

Scorecard oferece a esses executivos os instrumentos de que

organizacional sob quatro perspectivas: financeira, do cliente, dos

necessitam para alcançar o sucesso no futuro “[...] é funda-

processos internos e de aprendizado e crescimento.

mental que exista uma perfeita compreensão das suas metas

Para Gomes (2001), a melhoria da qualidade dos proces-

e dos métodos para alcançá-las”. Conforme Campos (1998,

sos decisórios é possível somente na medida em que se tem

p. 59), o Balanced Scorecard possibilita aos executivos inter-

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 37


pretar os objetivos estratégicos de uma empresa num con-

se comportando em relação à visão do negócio. Visão essa

junto coerente de medidores de desempenho, inseridos nas

que a empresa pretende alcançar no mercado junto aos for-

quatro perspectivas.

necedores, concorrentes e clientes.

As unidades de medida estabelecidas em função das

Sob as quadro perspectivas do BSC: financeira, do cliente,

metas e objetivos, previamente definidos no planejamento es-

dos processos internos e de aprendizado e crescimento. Far-

tratégico, é uma forma de controle e avaliação de resultados

-se-á foco a essa última: do aprendizado e crescimento. O pro-

individuais pelos gestores das áreas correlacionadas. É um me-

cesso de aprendizado considera-se que esteja relacionado ao

canismo de avaliação e desempenho que quantifica ações, ex-

desenvolvimento do colaborador, que, somada as suas ações,

pressando a utilização de dados e informações nos resultados

verifica-se que o mesmo pode crescer profissionalmente dentro

apresentados em números.

da equipe de trabalho.

Essa quantificação de resultados é uma ferramenta de

Esse aprendizado pode ser representado pelos conheci-

análise que possibilita a verificação de resultados, em um

mentos tácito e explicito. Relacionado aos ensinamentos pas-

comparativo de números desejados e realizados, em con-

sados, dado o conhecimento empírico adquirido ao longo dos

formidade com o que foi planejado pela empresa. O BSC vai

anos, e os ensinamentos repassados pela literatura.

além de interpretações de resultados, essa ferramenta pos-

Dentre as vantagens proporcionadas pelo processo Avalia-

sibilita uma interpretação focada no desempenho de cada

ção de Desempenho (AD) (FIG 3) faz-se destaque para: situam

colaborador. Como o funcionário de uma área qualquer está

as pessoas na estrutura organizacional.

Figura 3 – Algumas vantagens proporcionadas pelo processo de AD – Avaliação de Desempenho.

Fonte: Araújo e Garcia (2009, p. 157).

Araújo e Garcia (2009) consideram que o ponto central

atuação de perante aos olhos de outros gestores. Uma “sim-

deste item é que, pelo fato de subsidiar as demais atividades,

plória” avaliação de desempenho pode desencadear ações

deve-se admitir que sua utilidade não se esgotasse em ape-

que culminem com alterações significativas na estrutura da

nas “apreciar o desempenho do indivíduo no exercício das

organização.

funções inerentes ao seu cargo, mas também o situa na es-

A interação entre os membros da equipe é essencial para

cala impessoal de salários criada por aquela administração”

que os colaboradores se sintam engajados de qual a sua im-

(TACHIZAWA; FERREIRA; FORTUNA, 2001).

portância no processo. Trata-se da identificação do profissio-

Portanto, Araújo e Garcia (2009) consideram que ava-

nal na cadeia produtiva. Ele se posiciona, se encontra e se

liar o desempenho não se restringe em apenas identificar a

realiza enquanto ser humano produtivo de ações que contri-

performance das pessoas, mas, concomitantemente, é uma

buem para um propósito. Essa forma de promover a inserção

maneira de identificá-la em um processo e situá-las na es-

do colaborador no cerne empresarial possibilita a formação

trutura organizacional. É relevante que o gestor de pessoas

da sua consciência profissional. Essa consciência oferece ao

entenda essa vantagem como algo que vai diferenciar a sua

trabalhador, “meios de identificar” seus atos no processo.

38 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


O envolvimento com o resultado configura que o mesmo tem consciência do que ele representa para a empresa num

Nesse grupo estão inseridas as competências diferenciais, essenciais e básicas. Diferenciais: consideradas estratégicas, estabelecem

sentido mais amplo, e para a equipe em um sentido mais

l

funcional. Esse comportamento requer que as atribuições se-

a vantagem competitiva da empresa. São identificadas

jam claramente identificadas e que possam promover a sa-

no estabelecimento da missão empresarial e descritas

tisfação de cada colaborador no sentido de se motivar para

de forma genérica. São constituídas por um conjunto de

executar a sua tarefa, de acordo com a importância.

capacitações que auxiliam a empresa a alcançar seus resultados e fazer o diferencial no mercado. Essenciais: são identificadas e definidas como as

A core competence

l

A escolha do profissional para um cargo é uma tarefa com-

mais importantes para o sucesso do negócio e de-

plexa. Requer o envolvimento de colaboradores dos mesmos

vem ser percebidas pelos clientes.

níveis, uma vez que são os níveis que se encontram engajados

l

para alcançar os resultados maiores para a empresa.

funcionando, são percebidas no ambiente interno;

A triagem dos candidatos é uma das responsabilidades da Área de Recursos Humanos (ARH), pois, na escolha do

Básicas: necessárias para manter a organização

além disso, estimulam e alicerçam o clima de produtividade.

profissional é imprescindível que esteja ciente de todas as reais necessidades da empresa (Dutra, 2009). A gestão de

O compartilhamento das estratégias com os membros

pessoas alinhada aos objetivos organizacionais é uma estra-

da equipe é uma maneira de envolver os profissionais com os

tégia que visa, em tempo mais hábil, o alcance das metas e

resultados, mas, para tanto, é preciso que a estrutura orga-

objetivos organizacionais.

nizacional ofereça aos gestores o suporte/apoio necessário

Hamel e Prahalad (1990, p. 500) definem Core Competence:

para alcançar as metas e os objetivos pré-determinados. Kaplan e Norton (1997) consideram que a implementa-

Core Competence designa as competências estraté-

ção da estratégia começa pela capacitação e envolvimento

gicas, únicas e distintivas de uma organização que lhe

das pessoas que devem executá-la. Demonstra-se um desta-

conferem uma vantagem competitiva intrínseca e, por

que de que deve ser compartilhada entre todos os membros

isso, constituem os fatores chave de diferenciação face

da organização como forma de alinhar as ações desejadas.

aos concorrentes. A “competência nuclear” é assim algo

A Core Competence pode se relacionar à expertise que

muito próprio das organizações, uma fonte permanente

um funcionário possui. É o conhecimento e as habilidades

de incremento de valor para a própria organização. Como

adquiridas in locus. São os conhecimentos tácito e explícito

exemplo, podemos tomar a cultura organizacional de uma

aliados à prática de saber fazer com perfeição uma tarefa.

organização, pois da cultura organizacional advém a ca-

A formação do conhecimento do indivíduo é a soma de um

pacidade de excelência, produtividade e de inovação.

conjunto de fatores e ações que estão relacionados ao ambiente em que vive e o que faz para se desenvolver.

Gramigna (2007) destaca que ao optar pelo modelo de gestão de pessoas por competências, faz-se necessário

CONCLUSÃO

revisar ou investir no realinhamento de quatro indicadores:

Gerenciar conhecimento é uma ação totalmente intangível.

definição do negócio, da missão, da visão de futuro e na

Partindo-se desse pressuposto, verifica-se que a dificuldade em

identificação dos valores organizacionais. “O domínio de de-

obter ações direcionadas para o alcance de uma meta ou de

terminadas competências leva profissionais e organizações a

um objetivo é uma realidade organizacional.

fazerem a diferença no mercado” (GRAMIGNA, 2007, p. 23).

A gestão do conhecimento é uma tarefa estratégica da

Gramigna (2007, p. 25) pondera sobre as competências:

Área de Recursos Humanos que visa em algum momento uma vantagem competitiva da empresa junto ao mercado

Ao definir as competências de uma organização, optamos

que atua. Para tanto, as empresas precisam atualizar quase

por trabalhar com o grupo das competências de suporte

que diariamente suas estratégias. Não somente para alcan-

(aquelas que dão sustentação às competências técnicas

çar resultados, mas para, principalmente, reter os talentos

exigidas para cumprir funções específicas).

que possuem em seus quadros de funcionários.

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 39


Considerando-se que o indivíduo é um sistema aberto sujeito às variações do ambiente em que vive. As organizações precisam conhecer as novas gerações que surgem no mercado de trabalho. Seus hábitos, costumes, valores e comportamentos fazem parte de uma nova realidade. Neste contexto, a gestão do conhecimento como mecanis-

REZENDE, Jacqueline. Os desafios da geração Y. Estado de Minas, Belo Horizonte, 11 mar. 2012. Caderno Negócios e Oportunidades, p.4. SANTANA, Peri da Silva; GAZOLA, Janice Natera Gonçalves. Gestão, comportamento da geração Y. SEMEAD – Seminário em Administração, 13., 2010, São Paulo. Trabalhos técnicos... Disponível em: http://www.ead.fea.usp.br/semead /13semead/resultado/trabalhosPDF/995.pdf. Acesso em: 11 mai. 2012. p. 19.

mo de resultados organizacionais é um diferencial competitivo e estratégico para as empresas que buscam um posicionamento, não somente na mente dos clientes, mas dos seus funcionários. REFERÊNCIAS ARAÚJO, Luís César G. de; GARCIA, Adriana Amadeu. Gestão de pessoas: estratégias e interação organizacional. 2ª Ed. São Paulo: Atlas, 2009. CHIAVENATO, Idalberto. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. Rio de Janeiro: Campus, 1999. DAVENPORT, Thomas; PRUSAK, Laurence. Conhecimento empresarial: como as organizações gerenciam o seu capital intelectual. Rio de Janeiro: Campus, 1998. GOMES, Josir S. Controle de gestão: Uma Abordagem Contextual e Organizacional: Textos e Casos. 3ª. ed. São Paulo: Atlas, 2001. GRAMIGNA, Maria Rita Miranda. Modelo de competências e gestão de talentos. 2ª ed. São Paulo: Pearson Pretince Hall, 2007.

SANTOS, Antônio Raimundo dos, et. al. Gestão do conhecimento: uma experiência para o sucesso empresarial. Ed. Universitária Champagnat. Curitiba/PR. 2001. SENGE, P. M. A quinta disciplina. São Paulo: Best Seller, 1990. TERRA, J. C. C. Gestão do conhecimento: o grande desafio empresarial: uma abordagem baseada no aprendizado e na criatividade. São Paulo: Negócio Editora, 2000. WINTER, Sidney G. “On Coase, competence, and the corporation”, in the nature of the firm, Oliver Williamson e Sidney Winter orgs. (Oxford University Press, 1994), p. 189.

notas de fim 1 Administrador. Mestre em Administração (2012). Especialista com MBA em Gerência de Projetos. Doutorando em Educação pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Professor do Curso de Administração da Newton Paiva, Nova Faculdade e SENAC.

HAMEL, Gary Hamel; PRAHALAD, C. K. Competindo pelo futuro. Rio de Janeiro: Campus, 1995. ______. The Core Competence of the Corporation. Harvard Business Review: Boston, MA. 1990. KAPLAN, Robert S.; NORTON, David. P. Organização orientada para a estratégia: como as empresas que adotam o Balanced Scorecard prosperam no novo ambiente de negócios. Rio de Janeiro: Campus, 2000. ______. A estratégia em ação: Balanced Scorecard. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997. 26ª Reimpressão. LIPKIN, Nicole; PERRMORE, April. A geração Y no trabalho: como lidar com a força de trabalho que influenciará definitivamente a cultura da sua empresa. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010. KOTLER, Philip. ARMSTRONG, Gary. Princípios de Marketing. 7 ed. Rio de Janeiro: LTC – Livros Técnicos e Científicos Editora S.A., 1998. NONAKA, I; TAKEUCHI, H.. Criação de conhecimento na empresa. Tradução de Ana Beatriz Rodrigues e Priscila Martins Celeste. Rio de Janeiro: Campus, 1997. PORTER, Michael E. Estratégia competitiva: Técnicas para análise de indústrias e da Concorrência. Rio de Janeiro: Campus, 1986.

40 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


O PENSAMENTO ORIENTAL E A GESTÃO ESTRATÉGICA DO CONHECIMENTO: EDUCAÇÃO FORMAL E NÃO FORMAL, INOVAÇÃO E CONDUTAS FILOSÓFICAS Wallisson Nunes da Silva1

RESUMO: Dar maior importância às pessoas do que aos bens tangíveis tornou-se uma tendência. Os conhecimentos mais valiosos a respeito de como alcançar os resultados mais satisfatórios, aperfeiçoar rotinas e identificar falhas estão retidos nos colaboradores. Em uma das maiores economias mundiais, a japonesa, o conhecimento que os funcionários possuem, assume papel de destaque na estrutura organizacional e na competitividade entre as empresas. Por meio desse trabalho, objetiva-se analisar como as empresas orientais obtêm tamanha longevidade e como essas Organizações lidam com a gestão do conhecimento. Através da observação das melhores práticas adotadas por uma grande empresa oriental, esse trabalho analisa se essa experiência internacional pode contribuir para o desenvolvimento e melhor aproveitamento do capital intelectual das empresas brasileiras. Para tanto, utiliza-se de uma abordagem histórica, da pesquisa bibliográfica e do estudo de caso. PALAVRAS CHAVE: Cultura. Japão. Gestão do Conhecimento.

BREVE INTRÓITO

pessoas comprometidas.

De acordo com dados extraídos de estudos realizados pelo

Não se pretende nesse trabalho realizar uma comparação

Sebrae em 2004, no Brasil, mais de 49,9% das pequenas e mé-

entre empresas brasileiras e empresas japonesas, por diversos

dias empresas fecham suas portas, como popularmente diz-se,

motivos. Acredita-se, porém, que um olhar crítico para a realida-

antes que completem dois anos de existência; 56,4% antes de

de das Corporações brasileiras, somado a um olhar que busca

três anos e 59,9% antes de quatro anos. Comparativamente,

as melhores práticas nas empresas japonesas, pode contribuir

no que diz respeito às micro e pequenas empresas, estudos

para uma significativa melhora no cenário das Organizações,

da mesma instituição realizados na segunda metade de 2011

independente do país em que se situam.

a partir do processamento de bases de estudos recentes da

A partir dessa introdução, esse trabalho divide-se em se-

Secretaria da Receita Federal (2005 – 2009)2 apontou que para

ções curtas que pretendem abordar de forma simples (mas

as empresas constituídas em 2005, a taxa de sobrevivência

não simplista) questões relativas à gestão do conhecimento

com até 02 anos subiu para 73%. Ainda assim, esse cenário

nas empresas japonesas e alguns pressupostos do sucesso

configura motivo de preocupação. As causas apontadas pelos

oriental, do ponto de vista econômico e social, considerando

ex-proprietários são várias e variam desde a falta de dinheiro

a cultura milenar e o sucesso que acompanhou essa gestão

para manter a empresa, ausência de capital de giro, alta carga

estratégica do conhecimento.

tributária, falta de clientes, má localização da empresa e outros. Esses dados remetem à questão da morte prematura de

A ADMINISTRAÇÃO E A GESTÃO ORIENTAL VERSUS

empresas. Essa não é uma morte desejada. Por lógico, o que

BASE CULTURAL MILENAR JAPONESA

proprietários desejam é que empresas tenham vida longa. O

A empresa mais antiga do mundo é chamada Kongo Gumi.

tempo de vida de uma empresa é, portanto, um tema importan-

É uma construtora especializada em templos budistas e xinto-

te e aqui, busca-se discutir a questão da longevidade no cená-

ístas. Essa empresa nasceu no ano 578 como uma cooperativa

rio das empresas japonesas.

de carpinteiros que imigraram da Coréia do Norte. Em 2006,

Um ponto importante e interessante a ser considerado, diz

os principais noticiários japoneses notificaram a crise financeira

respeito à literatura sobre administração, que revela que tem

que a empresa atravessa e sua possível falência. O que ocorreu,

crescido o número de estudos acerca de “espiritualidade” nas

porém, foi que outra empresa, também construtora, criou uma

organizações (ex: REGO et al, 2005). Esses estudos têm apon-

nova empresa que abrigava todos os funcionários da Kongo

tado a ética como um dos bens intangíveis da empresa e acei-

Gumi e conseguiu a transferência da razão social da Compa-

ta-se que empresas éticas têm maiores chances de contar com

nhia antiga, salvando a tradição contida no nome da empresa.

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 41


Constitui fato interessante para observação, a forma como os orientais se posicionam frente às crises. Conforme

e a visão da própria Companhia, tem chances exponenciais de ser uma Corporação de “vida longa” e sucesso.

é da ciência de muitos, as empresas japonesas existiram em um ambiente em que a única certeza era a incerteza. Esse fato parece ter “treinado” o povo do Japão para olhar “para fora”, prever mudanças e encontrar soluções rápidas.

O CHAMADO “MILAGRE JAPONÊS” Todo o mundo ouve falar sobre o chamado “milagre japonês”, porém, poucos sabem onde esse milagre surgiu e

Antes de estudar a administração e a gestão japonesas

como se desencadeou. Pela relevância histórica e pela con-

faz-se importante compreender a base cultural do país que

tribuição com esse estudo, passa-se a analisar brevemente

foi o principal fator que contribuiu para a sustentação das

a história e os principais fatores que contribuíram para o pro-

empresas orientais e sua longevidade. Pelo menos três va-

gresso econômico do país.

lores fundamentais formam a cultura do Japão e influenciam

Fazendo menção ao pensamento da filósofa alemã Han-

diversas áreas e setores, inclusive a administração e a ges-

nah Arendt, é fundamental que nos voltemos para o passado

tão, e por isso merecem destaque. Cita-se3: Valor cultural do

para compreendermos o presente – para o passado e não para

trabalho, pátria e família.

a tradição –, em um processo de reapropriação seletiva de fa-

O valor cultural do trabalho ganha superior importância

tos que podem esclarecer o presente depois de recuperados

nesse estudo, por ligar os dois outros valores. O trabalho é

do esquecimento e re-iluminados pela nova visão retrospectiva4.

aquele que sustenta a família, dignifica o homem e garante

É de amplo conhecimento que o Japão viveu uma crise

a economia. Basta lembrar que as estruturas econômicas do

econômica após a II Guerra Mundial. O seu território foi ocupado

Japão foram destruídas ao final da II Guerra Mundial, assim

por forças americanas (EUA) até 1950. É exatamente a partir

como a maior parte do pátio industrial do país foi arruinado e

desse ano que os norte-americanos decidem apoiar o Japão,

a produção da indústria reduzida ao extremo.

devido a um receio de que as forças comunistas avançassem

O conceito de “pátria” está ligado ao nacionalismo fervo-

no território. Entre 1960 e 1970 o crescimento anual médio do

roso do povo japonês. Existe um orgulho na nacionalidade e

Japão torna-se o mais elevado do mundo e nos anos 70 o país

um forte entendimento de que cada cidadão é parte de um

se torna a potência econômica mundial.

povo, de uma nação e que a vida só tem razão de ser quando

Esse “milagre” se deve, sobretudo, a uma indústria bem

se está ligado aos destinos da pátria. Exemplos deste valor

organizada, com operários qualificados (e que inicialmente con-

cultural são os guerreiros samurais, que defendiam os se-

tou com o apoio dos Estados Unidos); o uso de tecnologias

nhores feudais e os “kamikazes”, os jovens pilotos de aviões

avançadas; o espírito de disciplina inerente ao povo japonês e

de combate, na II Guerra Mundial, cuja missão era atirar o

que leva o empregado a acreditar no trabalho e entregar-se a

avião contra o alvo inimigo.

empresa em uma espécie de sacrifício, acreditando que ao se

Já o conceito de “família” vem do valor da pátria que

entregar, contribui não só com a empresa, mas também com

em si, só será permanente através da família. O conceito é

sua família, sua pátria e sua dignidade como pessoa; abundân-

milenar e atravessa toda a história do povo japonês através

cia de mão de obra e um sindicato fraco que possibilita grandes

dos “clãs”, que eram a base da pátria. Na família japonesa,

lucros, uma vez que há pouca cobrança.

cada pessoa tem um papel determinado e há expectativa, por parte de outros familiares e da própria sociedade, que

AS EMPRESAS JAPONESAS E AS PRÁTICAS

cada um cumpra seu papel.

GERENCIAIS INOVADORAS

Os fatores supracitados, especialmente o primeiro (valor

Os produtos japoneses já possuíram uma fama negativa no

cultural do trabalho), fornecem a base para entender, pelo

mundo e antes de 1950 eram associados a falta de qualidade e

menos a princípio, a importância do trabalho para o povo

confiabilidade. Após o chamado “milagre japonês”, muita coisa

japonês e um dos possíveis motivos do sucesso dessas Or-

mudou. As Altas Direções das empresas, convenceram-se de

ganizações. As empresas são formadas por pessoas (capital

que a qualidade era essencial para o sucesso.

humano) e um quadro de funcionários formado por pessoas

Inicia-se no Japão a partir de 1954, um conjunto de idéias

engajadas, motivadas e que valorizam o trabalho, contribui

inovadoras de gestão que revolucionaram o modo como as em-

para o alcance dos objetivos de qualquer Companhia. Por

presas administravam. Por considerar pertinente e de grande

lógico, uma Companhia (seja ela qual for) que existe e que

contribuição, esse trabalho traz na integra, a seguir, um resu-

atende às expectativas da Alta Direção, bem como a missão

mo dessas novas práticas, abordadas com maestria no artigo

42 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


“Gestão do Conhecimento –Serpro5”. Conforme breve resumo,

anos vem apresentando lucros robustos, que somados, por ve-

assim traz o artigo:

zes, conseguem ser superiores aos lucros de suas três maiores concorrentes. Paulatinamente, a empresa vem conquistando

a) Qualidade Total (Total Quality Control): Sobre o processo de produção (ao invés de focar a qualidade no produto), visando satisfazer a expectativa do cliente;

cada vez mais espaço no mercado mundial e aumentando sua produtividade. Trata-se de uma montadora, a saber: A Toyota. A Toyota tornou-se uma das maiores fabricantes de automóveis do mundo e sua história revela uma trajetória de de-

b) Círculos de Controle de Qualidade (CQC): Grupos infor-

dicação ao cliente, inovação e emprego da experiência e da

mais de trabalhadores que espontaneamente passam a buscar

cultura japonesa. Grande parcela do mérito é atribuída a Sakichi

soluções criativas para os problemas da área ou da empresa;

Toyoda que em 1907 monta a “Toyoda Spinning and Weaving Co, Ltda”, pranteando as bases da Toyota. Sakichi morre pos-

c) Método “Ringi” de Decisão: Trata-se da decisão con-

teriormente e encarrega seu filho, Kiichiro, dos investimentos

sensual, obtida através do comprometimento individual com o

na indústria automobilística. Kiichiro começou a trabalhar no

resultado ou meta decidida pelo grupo.

desenvolvimento de motores movidos a gasolina e conseguiu produzir o protótipo de um caminhão e de um automóvel, fun-

d) Just-in-Time: Integração da empresa com seus fornecedo-

dando em 1937 a “Toyota Motor Company Ltda”. Um dos gran-

res, permitindo a eliminação de estoques com o suprimento aten-

des marcos na história da Toyota diz respeito a implantação

dido no momento da utilização dos componentes na produção;

do “Just-in-time” na produção de seus veículos. Produzia-se apenas o que era necessário, no momento certo e na quanti-

e) Kanban: Sistema de programação e controle de produ-

dade adequada. Essa filosofia valorizava o produzir mais com

ção que visa “enxugar” atividades-meio que não agregam va-

menos e é admirada ainda nos nossos dias, ficando conhecida

lor ao cliente (supervisão, controles administrativos e outros).

como “Sistema de Produção Toyota”. Em 1950, a empresa já

A produção é auto-gerenciada através de cartões ou painéis,

possuía 40% do mercado de vendas de automóveis no Japão.

permitindo o encadeamento de todas as atividades do proces-

Em 1958, a Toyota monta sua primeira fábrica no exterior, espe-

so, “puxando” a produção;

cificamente no Brasil. Caminhando um pouco mais pela história chegamos a 2003, onde ocorreu a implementação da “Toyota

f) Kaizen: Filosofia da melhoria contínua, que objetiva

Mercosul” onde a empresa se transforma em um pólo de pro-

sustentar e garantir a qualidade através de pequenas melho-

dução para toda a América Latina. Com metas ousadas e par-

rias no processo;

ticipação mundial a empresa tem conseguido manter liderança no mercado europeu e asiático.

g) Manufatura Flexível: Sistema de produção que permite

Um dos princípios que movem a empresa (e que se enqua-

a fabricação simultânea de vários modelos e especificações

dra de forma perfeita dentro do estudo que aqui se propõe) diz

de produtos, atendendo demandas individualizadas dos ni-

respeito ao estímulo de uma cultura empresarial que promova

chos de mercado;

a criatividade individual e o valor do trabalho em equipe, bem como uma forma de gerenciamento inovadora6. Desde seus pri-

h) Keiretsu: Sistema empresarial caracterizado pela atu-

mórdios, verifica-se que a Toyota sempre visualizou o homem,

ação em redes verticais e horizontais de parceria, integrando

não simplesmente como um ente que movimenta a produção,

todos os fornecedores da cadeia produtiva através da subcon-

mas também como uma alavanca que faz com que a Organiza-

tratação industrial.

ção sobreviva. Nessa mesma perspectiva, lembra-se do pensamento de Quel (2006, p.48), quando afirma que “o homem volta,

Essas características foram responsáveis por uma grande

então, a ser uma alavanca na sobrevivência das instituições.

transformação e diferenciação das empresas japonesas em re-

Não mais aquela mão-de-obra puramente mecânica, mas um

alização a empresas de outros países.

novo colaborador menos mecanicista e mais pensamente.” A Toyota utiliza três processos inter-organizacionais: 1) Asso-

ESTUDO DE CASO

ciação de fornecedores; 2) Grupos de consultoria e 3) Equipes de

Passa-se a um estudo de caso de uma das empresas ja-

aprendizado. Isso facilita a gestão do conhecimento e a transfe-

ponesas de maior solidez e representatividade e que há alguns

rência dele. Para estimular ainda mais o aprendizado, a empresa

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 43


lança mão de alguns recursos. Cita-se: Compartilhamento de in-

A partir da Teoria das Relações Humanas, inicia-se uma

formações gerais, inclusive as políticas da Toyota e as “melhores

corrente visionária que começa a enxergar o homem como

práticas” de ampla aplicação; assistência intensiva no local por es-

uma possibilidade de melhoria para o processo produtivo,

pecialistas da própria Toyota; seminários; compartilhamento know-

se tratado e ensinado de forma correta. Nesse sentido, Quel9

-how no local, usando grupos de 06 a 12 fornecedores.

se manifesta:

Dados7 interessantes dizem respeito a empresa e podem ser atribuídos às práticas de transmissão de conhecimento. Por

“O que se segue após essa descoberta é um ciclo

exemplo: A quantidade de peças defeituosas por milhão pro-

de tentativa de buscar no indivíduo o máximo que ele

duzidas para a Toyota caiu 84% entre os anos de 1990 e 1996,

podia produzir, por intermédio de instrumentos de

contra 46% de suas concorrentes.

manipulação de suas características individuais e de

Essa mesma visão que valora o capital intelectual tem sido

sua submissão ao meio social. Mesmo assim, o indi-

utilizada atualmente por muitas empresas em detrimento da vi-

víduo ainda era considerado - e isso até uns poucos

são que as Organizações adotavam nos primórdios da adminis-

anos atrás - um bem da empresa, utilizável como uma

tração, quando todo o foco estava voltado para as máquinas e

máquina, na qual se faz ajustes de maneira que renda

para a busca de inovações. Todavia, a Toyota destaca-se pela

o máximo possível com mínimo de despesas, ou seja,

valorização do capital humano desde sua fundação e justifica-

um “produto maximizável” (QUEL, 2006, p.44).

-se grande parcela de seu sucesso devido a esse fato. Entende-se que essa visão valorizadora pode ser per-

O conhecimento aumenta e promove a capacidade de

feitamente aplicada nas empresas brasileiras, contribuindo

inovação e pode contribuir em demasia para o futuro organiza-

para o desenvolvimento das Organizações e aproveitamento

cional. A gestão do conhecimento liga-se a produção direta e

do capital intelectual.

indireta, promove desenvolvimento sustentável, vantagem competitiva, inovações e pode derrubar as barreiras impostas pela

HISTÓRIA, HISTORICIDADE E GESTÃO DO CONHECIMENTO

hierarquia. Nas palavras de Quel10:

O mercado de trabalho atual é impulsionado por uma sociedade contemporânea, exigente, especialmente no que diz

“Por meio de seu conhecimento e de suas habilidades

respeito ao consumo de produtos e serviços. Historicamente,

e competências, o individuo pode representar o dife-

faz-se importante destacar pelo menos dois elementos que se

rencial no sucesso ou no fracasso dos negócios das

ligam com as novas formatações desse mercado. Cita-se: Au-

empresas. Quando já há uma estabilidade em termos

tomação e Globalização.

tecnológicos no mercado global, investir na capacita-

Desde a Revolução Industrial, que teve início na Inglaterra,

ção e no aprimoramento desses indivíduos passou a

por volta de 1760, a substituição de ferramentas por máquinas e

ser um trunfo das grandes corporações, como forma

da força de trabalho humana pela força das máquinas já era uma

de alavancar e potencializar seu mercado de atuação.”

realidade e fazia parte dos sistemas de produção. Todavia, todo

(QUEL, 2006, p. 56).

o maquinário era utilizado de forma auxiliar ao trabalho humano, possibilitando que o empregado produzisse mais. Essa interferência auxiliar no ambiente laboral foi chamada de mecanização.

O conhecimento envolvido nas atividades laborais tem sido abordado desde as principais teorias da administração na linha

Após a II Guerra Mundial o mundo ingressou em um processo

das relações humanas. Nos primórdios dos processos de pro-

de profundo desenvolvimento e inovação no campo tecnológico,

dução, nas oficinas, produzia-se artesanato sob encomenda e

gerado pela compreensão nova entre conhecimento científico e

o aprendizado se dava pela troca de informações e ensino das

produção industrial. Esse período, conhecido como Terceira Re-

técnicas àqueles que ainda não estavam familiarizados com o

volução Industrial ou Revolução Técnico-Científica, permitiu o de-

processo, por parte daqueles que já o dominavam. A gestão do

senvolvimento de diversas atividades na indústria e uma chamada

conhecimento cria um diferencial competitivo extremamente for-

dinamização produtiva, na medida em que implementava máqui-

te, dificilmente imitada pelos concernentes, pois está enraizada

nas e equipamentos capazes de produzir com rapidez e eficiência

nas pessoas que compõe a Organização.

e, em alguns casos, sem participação alguma do homem. A esse processo, chamamos de automação.8

Hodiernamente, apenas a estrutura física de uma empresa não é suficiente para que ela se mantenha. O olhar atual também está voltado para o capital intelectual, sobre a forma de

44 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


valorizar pessoas e usufruir da melhor maneira de seus conheci-

CONCLUSÕES FINAIS

mentos. A forma de aproveitar melhor o conhecimento é praticar

Esse trabalho objetivou analisar a longevidade das or-

a chamada gestão do conhecimento, que nada mais é do que

ganizações orientais, fazendo um contraponto com a cultura,

estimular e facilitar a troca, o uso e a criação de conhecimento

educação formal e não formal e ainda com a tradição oriental.

em toda a empresa.

Fica clara a contribuição dos valores da tradição japonesa no

Há dois tipos básicos de conhecimento que podem ser

que tange a sustentação das empresas, na medida em que se

aplicados pelo ser humano: O explícito e o tácito. Passemos

têm profissionais dedicados e que consideram o trabalho como

a uma breve diferenciação: O conhecimento explícito é o

algo que dignifica o homem e que entendem a importância da

mais fácil de ser colocado em palavras, registrado e docu-

gestão do conhecimento.

mentado. É facilmente adquirido por meio da leitura de jor-

Dividir o conhecimento é uma das atividades mais natu-

nais, revistas e livros, por exemplo. O segundo tipo - o tácito

rais, porém essa ainda não é uma prática comum no interior

- é o mais difícil de ser colocado em palavras e é adquirido

das empresas brasileiras. Superou-se o tempo em que apenas

apenas com a prática.

equipamentos e atividades operacionais geravam lucratividade.

De acordo com Pierre Fayard11:

Atualmente, o olhar empresarial também está voltado para o capital intelectual, um grande diferencial competitivo.

“Socializar o conhecimento tácito é a primeira etapa da

No que tange a essa nova forma de gerir o conhecimento,

criação de conhecimento, tal como foi codificada pelo

entende-se que ela representa um avanço e possibilita que a

professor Ikujiro Nonaka. Antes disso, é inútil pensar ser

empresa se posicione em situação vantajosa no mercado. A

possível seguir as três etapas sucessivas de seu modelo

gestão do conhecimento é um processo contínuo e de respon-

SECI: a Expressão, a Combinação e, finalmente, a Inte-

sabilidade de todos dentro da organização. É através dele que

gração de novos conhecimentos. Como seu nome indica,

o indivíduo se relaciona com a empresa e nesse sentido a ex-

nessa fase inicial a dimensão humana, social e relacional

periência oriental tem muito a nos acrescentar, porém, é neces-

é fundamental. Ela desenvolve-se no contexto do conceito

sário que ocorra uma integração com os demais processos or-

bem japonês de Ba, definido por Nonaka como um «es-

ganizacionais e empresarias dentro da Companhia, bem como

paço compartilhado em movimento», e que propomos

com as estratégias que a posicionam no mercado.

traduzir por «comunidade de conhecimento.”

É esse um dos maiores desafios para as empresas braceleiras: Aplicar a gestão do conhecimento de forma

Nas empresas japonesas, o conhecimento acumulado é

alinhada aos negócios, orientada para os objetivos estratégicos

compartilhado em amplitude dentro da Organização como parte

da empresa. A experiência japonesa pode contribuir para o

da base de conhecimento da empresa. Forma-se um ciclo de co-

alcance dos melhores resultados desse desafio.

nhecimento que gera inovação contínua e vantagem competitiva. A valorização do conhecimento como sendo um aprendizado po-

REFERÊNCIAS

deroso, faz com que haja ênfase nesse compartilhamento, forman-

DYER, Jeffrey H. HATCH, Nile W. A Toyota e as redes de aprendizado. Disponível em: http://franciscocu.dominiotemporario.com/doc/SITE__20070808_toyota.pdf Acesso em 09/05/2013.

do uma espécie de comunidade do conhecimento. Ainda segundo Fayard: “Uma comunidade de conhecimento reúne, sobre a

base de um interesse comum, atores de naturezas diferentes, de dentro e de fora da empresa, em uma estratégia de produção de conhecimentos operacionais que sirvam a todos os participantes.” Para criar conhecimento, o aprendizado que vem dos outros e as habilidades compartilhadas precisam ser internalizadas (esse processo de internalizar o aprendizado pressupõe modificação, enriquecimento e tradução de forma a se ajusta-

FAYARD, Pierre. O modelo inovador japonês de gestão do conhecimento. Disponível em: http://sbgc.org.br/sbgceduc/?p=635. Acesso em 09/05/2013. FLEURY, A.; FLEURY, M. T. L. Aprende-se com as empresas japonesas?- Estudo Comparativo entre Empresas Brasileiras e Mexicanas. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rac/v2n1/v2n1a02.pdf. Acesso em 09/05/2013. FLEURY, A.; FLEURY, M. T. L.Aprendizagem e inovação organizacional : as experiênciasde Japão, Coréia e Brasil. São Paulo : Atlas, 1995.

rem a identidade e a imagem da empresa). PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 45


Maurizio P. D’ ENTRÈVES. The political philosophy of Hannah Arendt. Cap 1, Seção 1, P. 31. QUEL, Luiz Felipe. Gestão do Conhecimento e os desafios da complexidade nas organizações. São Paulo: Saraiva, 2006. ROSSATTO, Maria Antonieta. Gestão do Conhecimento: a busca da humanização, transparência, socialização e valorização do intangível. Rio de Janeiro: Interciência, 2002. SANTOS, Antônio Raimundo. PACHECO, Fernando Flavio. PEREIRA, Heitor José. JUNIOR, Paulo Bastos. Gestão do Conhecimento como modelo empresarial. Disponível em http://www1.serpro.gov.br/publicacoes/gco_site/m_capitulo01.htm SEBRAE. Boletim fatores condicionantes e taxa de mortalidade no Brasil. Brasil, 2004. SEBRAE. Taxa de Sobrevivência das Empresas no Brasil, 2011. Disponível em http://bis.sebrae.com.br/OpacRepositorioCentral/paginas/ downContador.zhtml?uid=45465B1C66A6772D832579300051816C. Acesso em 09/05/2013. TAKAMURA, Naosuke. Kaishano tanjou (Nascimento de empresas). Tóquio: Yoshikawa Koobunkan, 1996. TERRA, José Cláudio Cyrineu; GORDON, Cindy. Portais Corporativos: a revolução na Gestão do Conhecimento. São Paulo: Negócio Editora, 2011. TOYOTA. Princípios da Toyota. Disponível em: http://www.toyota.com. br/sobre_toyota/toyota_mundo/principios_toyota.aspx Acesso em 09/05/2013.

3 SANTOS, Antônio Raimundo. PACHECO, Fernando Flavio. PEREIRA, Heitor José. JUNIOR, Paulo Bastos. Gestão do Conhecimento como modelo empresarial. Disponível em http://www1.serpro.gov.br/publicacoes/gco_site/m_capitulo01.htm 4 Maurizio P. D’ ENTRÈVES. The political philosophy of Hannah Arendt. Cap 1, Seção 1, P. 31 5 Artigo Gestão do Conhecimento – Serpro. Por Olheinfo. Disponível em: http://olheinfo.com/component/content/article/6-olhe-gestao/1125-administracao-japonesa-e-a-gestao-do-conhecimento.html. Acesso em 09 de maio de 2013, as 10:20. 6 TOYOTA. Princípios da Toyota. Disponível em: http://www.toyota.com. br/sobre_toyota/toyota_mundo/principios_toyota.aspx 7 DYER, Jeffrey H. HATCH, Nile W. A Toyota e as redes de aprendizado. Disponível em: http://franciscocu.dominiotemporario.com/doc/SITE__20070808_toyota.pdf 8 UFSM. Aspectos sociais da automação. Impactos na sociedade. Disponível em: www3.ufsm.br/.../ICA%20-%20Aula16%20-%Impactos%20 Sociais%20da%20Automacao.pdf 9 QUEL, Luiz Felipe. Gestão do Conhecimento e os desafios da complexidade nas organizações. São Paulo: Saraiva, 2006. 10 Idem. 11 O modelo inovador japonês de gestão de conhecimento. Bookman, Porto Alegre 2009.

UFSM. Aspectos sociais da automação. Impactos na sociedade. Disponível em:www3.ufsm.br/.../ICA%20-%20Aula16%20-%Impactos%20 Sociais%20da%20Automacao.pdf

NOTAS 1 Graduando pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (2010) e pelo Centro Universitário Newton Paiva (2012). É membro do corpo discente do Curso de Ciências do Estado (2010) da UFMG com percurso de formação diferenciada em Estado Democrático e Contemporaneidade, responsável pelo intercruzamento de temas relacionados ao Estado, Mercado e Terceiro Setor. Cursa o tecnólogo em Gestão Comercial com ênfase em Contact Center, junto a Newton Paiva (MG). Endereço eletrônico - wallisson@outlook.com/ hastereinter@gmail.com 2 SEBRAE. Taxa de Sobrevivência das Empresas no Brasil, 2011. Disponível em http://bis.sebrae.com.br/OpacRepositorioCentral/paginas/ downContador.zhtml?uid=45465B1C66A6772D832579300051816C. Acesso em 09/05/2013.

46 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


OS DESAFIOS DA ÉTICA EMPRESARIAL E CIDADANIA NA ERA DA INFORMAÇÃO E DO CONHECIMENTO Inês de Carvalho Veloso1 Mauro Elias Gebran2

Resumo: Este artigo tem por objetivo mostrar que no século XXI, era da informação e do conhecimento, a implantação de uma conduta ética, dentro das organizações e da sociedade, pode contribuir com excelentes resultados; Que todo o conhecimento adquirido tem como finalidade principal a realização pessoal e a maior igualdade social possível através da aplicação dos verdadeiros valores morais, objetivo da Ética. Quanto à abordagem a Pesquisa é de natureza exploratória e o método qualitativo. De acordo com Merriam (2002) o estudo qualitativo básico tem como objetivo descobrir e compreender um processo ou as perspectivas e visão de mundo das pessoas nele envolvidas. Portanto, a metodologia qualitativa mostra-se relevante e adequada para responder à questão da pesquisa proposta. O instrumento de coleta de dados é o de análise de conteúdo para a compreensão e interpretação dos fatos para o problema em foco. Foram selecionados livros, artigos e palestras de pesquisadores que demonstram grande conhecimento sobre o assunto para obtenção dos dados necessários. O processo de condução da pesquisa é essencialmente indutivo, isto é, o pesquisador coleta e organiza os dados com o objetivo de construir conceitos, pressuposições ou teorias, ao invés de dedutivamente derivar hipóteses a serem testadas. A pesquisa realizada demonstra que as empresas, nesta Sociedade Capitalista global, necessitam se adequar às exigências do mercado preservando a ética, uma vez que o acesso às informações cresce cada dia mais, exigindo mais transparência e atitudes éticas. Ignorar isso é um erro estratégico que pode comprometer a sobrevivência do negócio como também a realização pessoal do ser humano. Neste contexto se faz necessário que as empresas conscientizem-se de que a ética gera conhecimento de qualidade, é um diferencial competitivo para o crescimento e a imagem do negócio e fonte de lucros para as organizações, sem impor uma obrigatoriedade da necessidade de escolher entre o humano e o lucro. A problematização deste artigo é: Estamos construindo hábitos e costumes saudáveis em nossa Sociedade? Palavras-chave: Ética. Informação. Conhecimento.

1. Introdução

No artigo publicado em 2011, a socióloga Vera Araujo

As preocupações com a direção que a Sociedade Moderna

disse que:

vem tomando, com a busca incansável pelo avanço da Tecnologia da Informação, apontam os inúmeros desafios a enfrentar

[...] a globalização não contribuiu para a formação de

desde os de caráter econômico, cultural, social e legal, até os

comunidades, ao contrário, fez surgir patologias sociais

de natureza psicológica e filosófica. O ser humano busca a fe-

como a solidão global: A globalização não uniu as pes-

licidade, e sua própria realização. No entanto, nunca se cons-

soas e os povos, apenas os colocou em comunicação,

tatou tantas insatisfações, esgotamento e doenças psicosso-

não os colocou numa possibilidade de se doar e enri-

máticas como nos dias de hoje, tanto nas empresas como na

quecer uns aos outros. (p.22)

sociedade de modo geral. No sistema atual capitalista, com a globalização do indi-

Matos (2005) comenta que, é correto ligar o sucesso ou

vidualismo, a satisfação pessoal e o egocentrismo estão aci-

fracasso de uma organização ao seu comportamento ético.

ma da busca pelo bem comum, ou seja, as pessoas devem se

Para pessoas e organizações não é mais uma opção, é ques-

preocupar com elas mesmas e não com os outros. A socieda-

tão de sobrevivência. Com a velocidade que se processam

de moderna ensina que, para vencer, as pessoas devem ser

as transformações, há necessidade de valores internalizados

egoístas, que podem crescer sem os outros. As exigências do

para que haja alinhamento no momento das decisões, que

capitalismo levam a uma competitividade extrema, a um indivi-

exigem rapidez. Já, Arruda (2003) vai mais longe ainda: a au-

dualismo exagerado, levando a sociedade e as organizações

sência dos valores morais é o pior dos males que podem afligir

a valorizarem as pessoas por aquilo que são capazes de pro-

toda a sociedade.

duzirem. Com tudo isso se percebe o isolamento natural das pessoas agravada pelo medo da violência e falta de confiança uns nos outros, destruindo as bases do coletivismo.

Segundo Fleury e Fleury (2000), citado por Sordi, a competência do individuo é o saber agir responsável e reconhecido

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 47


que implica: mobilizar, integrar, transferir conhecimentos, recur-

Partindo das disposições naturais do homem (disposições

sos, habilidades, que agreguem valor econômico à organização

particulares a cada um e que constituem o caráter), a moral

e valor social ao individuo.

mostra como essas disposições devem ser modificadas para que se ajustem ao comedimento, à moderação. Estas disposi-

Dentro desse contexto surgem os desafios da ética como

ções costumam estar afastadas do justo meio, estado que Aris-

ciência da ação comunitária que tem o dever de cuidar do de-

tóteles considera o ideal. Assim, algumas pessoas são muito

senvolvimento do ser humano no seu convívio social e levá-lo a

tímidas, outras muito audaciosas. A virtude é o meio-termo e o

realização plena, pois o ser humano é um ser social em cons-

vício se dá ou na falta ou no excesso. As virtudes se realizam

trução que se realiza com os outros.

sempre no âmbito humano e não têm mais sentido quando as relações humanas desaparecem.

2. Desenvolvimento 2.1 Conceitos de ética

O filósofo Aristóteles tem os seguintes pensamentos: “A virtude é uma disposição adquirida voluntariamente, consistindo, em relação a nós, em uma medida, de-

O termo ética vem do grego Ethikós, que significa “modo

finida pela razão conforme a conduta de um homem

de ser”. Trata o comportamento humano pelo seu valor moral,

que age refletidamente. Ela consiste na medida justa

a natureza do bem e do justo. É também chamada de filosofia

entre dois extremos, um pelo excesso, outro pela falta”.

moral, por tratar dos valores em sociedade, isto é, do compor-

(ARISTÓTELES, VI)

tamento humano pelo seu valor moral. “(...) a virtude está em nosso poder, do mesmo modo Nos constructos de Japiassú e Marcondes (1996) encontra-se:

que o vício, pois quando depende de nós o agir, também depende o não agir, e vice-versa. de modo que

“Ética do grego ethike, de ethikós que significa cos-

quando temos o poder de agir quando isso é nobre,

tumes. Parte da filosofia prática que tem por objetivo

também temos o de não agir quando é vil; e se está em

elaborar uma reflexão sobre os problemas fundamen-

nosso poder o não agir quando isso é nobre, também

tais da moral (...), mas fundada num estudo metafísico

está o agir quando isso é vil. logo, depende de nós pra-

do conjunto das regras de conduta consideradas como

ticar atos nobres ou vis, e se é isso que se entende por

universalmente válidas. Diferentemente da moral, a éti-

ser bom ou mau, então depende de nós sermos virtuo-

ca está mais preocupada em detectar os princípios de

sos ou viciosos”. (ARISTÓTELES, III)

uma vida conforme a sabedoria filosófica, em elaborar uma reflexão sobre as razões de se desejar a justiça e

Outro importante conceito de etica a ser estudado para se

a harmonia e sobre os meios de alcançá-las. A moral

atingir o objetivo desta pesquisa é o de Emanuel Kant (1724-

está mais preocupada na construção de um conjunto

1804). O fillósofo parte do principio que cada um deve se com-

de prescrições destinadas a assegurar uma vida em

portar a partir de principios universais; Todos tem o dever de

comum justa e harmoniosa”. (p. 93)

cumprir com um compromisso assumido; A teoria Kantiana propoe que qualquer conduta aceita como padrao etico deve

Em sua principal obra sobre a ética, Ética a Nicômaco, Aristóteles esclarece que a etica é o estudo da conduta humana,

valer para todos, sem exceção, desde que se exija do próximo o mesmo que exigimos de nós mesmos.

menos exatas na medida em que se ocupa com assuntos passíveis de modificação. Ela não se ocupa com aquilo que no ho-

Portanto, o caminho para a felicidade é através de uma

mem é essencial e imutável, mas daquilo que pode ser obtido

vida regida por virtudes e morais, meta do ser humano e fi-

por ações repetidas, disposições adquiridas ou de hábitos que

nalidade da etica.

constituem as virtudes e os vícios. Seu objetivo último é garantir ou possibilitar a conquista da felicidade. Para o pensador não é

2.2 Conhecimento e verdade

possivel buscar a ciência sem ser virtuoso, e para ser virtuoso é

O conceito da verdade vem desafiando a humanidade por

preciso buscar a verdade e a verdade é dolorosa, exige abne-

milhares de anos. Filósofos da antiga Grécia debatiam a natu-

gacao , disciplina, moral e caráter.

reza da verdade. Eles discutiam se ela era real e absoluta, ou

48 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


relativa e ilusória. Suas dúvidas podem ter sido refletidas numa

felicidade, prazer e satisfação à sociedade. O conhecimento é

questão de Pilatos, encontrada no evangelho de João, seu ca-

útil porque, como outras ações éticas do ser humano, corres-

pítulo 18 e Vv. 38: “Que é a verdade?”

ponde à necessidade de uma prática desejável, aquela que nos

Os ensinamentos de Jesus Cristo no evangelho de Joao 8:32, onde ele diz: “E conhecereis a verdade e a verdade vos

leva a buscar a verdade e a felicidade de nossos semelhantes e nela sentir o prazer de sua realização no outro.

libertará.” Deus revela a verdade como certa e absoluta. Jesus

Para Vogt (2006), os atores principais desse momento do

não mostra a verdade como um objetivo ilusório e inatingível:

processo do conhecimento já não são mais as universidades,

Deus não nos deu meramente idéias subjetivas para serem

mas as empresas. Entretanto, para que a atuação das empre-

moldadas de modo a se ajustarem às nossas situações. Está

sas seja eficaz, é necessário que tenham no seu interior, como

escrito na Carta do Apóstolo Paulo em seu capitulo 2 e versos

parte de sua política de desenvolvimento, centros de pesquisas

2: Não vos conformeis com os esquemas deste mundo, mas

próprios ou consorciados com outras empresas e com labora-

transformai-vos pela renovação do espírito, para que possais

tórios de universidades. O importante é que a política de pes-

conhecer a vontade de Deus, que é boa, agradável, e perfeita.

quisa e desenvolvimento seja da empresa e vise às finalidades

O conhecimento é a única porta de acesso à verdade.

comercialmente competitivas da empresa. Sem isso, não há o

Quando o individuo recusa esse acesso ele se torna rebelde e

desafio do mercado, não há avanço tecnológico e não há, por

indiferente as leis do Universo. Em entrevista concedida à revis-

fim, inovação no produto. Concluindo, Vogt entende que divi-

ta Veja SP de 2006, David Livingstone Smith, diz que o culto à

dir a riqueza, fruto do conhecimento, e socializar o acesso aos

mentira é uma das razões pela qual o mundo atual leva ao indi-

seus benefícios, fruto da tecnologia e da inovação é, pois, o

vidualismo, à desintegração da pessoa e sua indiferença diante

terceiro grande desafio que devemos enfrentar.

da realidade. A substituição da verdade pela mentira traz consigo a perda de referências, de princípios e valores, a começar pela perda da própria identidade.

2.3 Os Desafios da sociedade da informação Segundo Adriana Beal (2002), o principal benefício que a

O relativismo é outra das razões, já que nesta cultura cada

tecnologia da informação traz para as organizações é a sua

pessoa cria os seus próprios valores, decide segundo seu

capacidade de melhorar a qualidade e a disponibilidade de in-

próprio critério o que é verdadeiro ou falso e acha que ser li-

formações e conhecimentos importantes para a empresa, seus

vre é fazer o que se tem vontade, desprezando as intenções

clientes e fornecedores. Os sistemas de informação mais mo-

que movem o sujeito; O ter se sobrepõe ao ser; Predomina o

dernos oferecem às empresas oportunidades sem precedentes

consumismo, o hedonismo, a busca da comodidade, o querer

para a melhoria dos processos internos e dos serviços presta-

levar vantagem, o lucro fácil, não importando os meios utiliza-

dos ao consumidor final.

dos para atingí-lo, sem contar a degradação e devastação do

No entanto, de acordo com frei Nilo Agostini (2010), Doutor

meio ambiente. Esses são os maiores desafios impostos para

em Teologia pela Faculdade Católica de Ciências Humanas de

se conquistar uma sociedade ética. O mais forte opositor desse

Strasbourg, França (1989), afirma que, num movimento já de

relativismo cultural é o Papa Emérito Bento XVI, que, do Castel

pós-modernidade, vive-se uma reação existencial que leva o

Gandolfo em 2009, a classificou não como cultura, mas sim,

homem a questionar o grande pluralismo de valores, numa pro-

como ditadura do Relativismo: o mundo atual vive uma espé-

liferação do relativismo, sob a proteção do não existe nada de

cie de ditadura do relativismo, que mortifica a razão, porque afir-

absoluto, do vale tudo. Desta forma mergulha-se no campo do

ma que o ser humano não pode conhecer com segurança nada

banal, do viver apenas o momento, à margem de toda moral, in-

além do campo científico: A todos peço que não tenham medo

centivados pelos meios de comunicação social que estabelece

da verdade, que nunca interrompam o caminho em direção a

como valores o dinheiro, a juventude, o sexo, o culto ao corpo, o

ela, que nunca deixem de procurar a verdade profunda sobre

hedonismo, o narcisismo, e por outro lado desvalorizam a pure-

nós mesmos e sobre as coisas, com o olhar interior do coração.

za, virgindade, caráter, trabalho, autoridade, disciplina, moral e

Por ocasião do discurso proferido em Lyon, na França no

ética. A vida foi incorporada ao videogame, a realidade é virtual,

ano de 2006, Carlos Vogt, lingüista e poeta ensina que todo

importa os efeitos especiais e as experiências pura adrenalina.

conhecimento é útil. Como o fundamento da moral é a utilidade,

Vive-se hoje uma imensa e profunda crise moral e ética,

é possível afirmar que a utilidade do conhecimento é o que o

onde o homem atual se destaca pela indiferença perante os

torna ético, por definição. Nesse sentido, não há conhecimento

problemas sociais. A verdade tornou-se relativa, o que faz re-

inútil, já que a ação de conhecer está voltada para proporcionar

cordar as palavras de Rousseau: O Homem nasce bom e a so-

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 49


ciedade o corrompe. Nesta busca desenfreada pelo rentável o

de Arruda e completa: lucro e ética alem de compatíveis são

ambiente empresarial está cada vez mais dependente da infra-

complementares; A empresa é como a moeda com duas faces:

-estrutura tecnológica de informação, que é sua matéria prima,

o lucro e a ética. Embora pareçam incompatíveis, as empre-

numa mudança continua, tornando-se cada vez mais complexo

sas buscam hoje um comprometimento recíproco de ambos os

e menos previsível. O ritmo acelerado das invenções, as incer-

conceitos. O lucro é a realização material da empresa, concomi-

tezas geradas, a perda de referenciais, provocaram um desen-

tante a sua atuação ética, tendo por princípios o respeito à pes-

canto frente à própria modernidade.

soa humana (empregados, consumidores, etc), e a promoção

Segundo o especialista Paulo Ranieri (2012), Mestre em

do bem comum (sociedade, governos, nações).

Ciência da Comunicação, nunca antes na história houve tanta

Segundo Montana & Charnov (2003, p.40) é do melhor inte-

informação acessível, porém apesar disso parecer ser benéfi-

resse da empresa melhorar as comunidades nas quais estão in-

co, o excesso de informação faz mal e pode gerar problemas

seridas e nas quais fazem negócios. A melhoria nos ambientes

ainda mais sérios como ansiedade, estresse e esquizofrenia.

comunitários, em última instância, reverterá em benefício da em-

O psicólogo britânico David Lewis, que usou pela primeira vez

presa. Ações que demonstram sensibilidade social, se efetivadas

o termo “síndrome da fadiga por informação”, em 96, concor-

dentro de um modelo econômico sustentável, podem, de fato, ser

da com Ranieri e acrescenta: Quando as pessoas se deparam

lucrativas para a empresa. Novas máquinas de controle de polui-

com mais informação do que têm capacidade de processar,

ção, por exemplo, podem ser mais eficientes e econômicas.

tornam-se incapazes de tomar decisões. Informação não é mais sinônimo de resolução de problemas. Muitas vezes, vira até a

2.5 A dignidade do ser humano

causa deles. O excesso de notícias pode ser tão ruim quanto

Para Agostini (2010), o ser humano tem um desejo ilimi-

à ignorância, dificultando a tomada de decisões e levando à

tado de realização, felicidade, mas nem sempre se contenta

paralisia, analisa o psicólogo, em entrevista ao Jornal Folha de

com o que pode realizar. Se moralmente fraco, resvala, não

São Paulo de 2000.

raro, na frustração da infelicidade, e se entrega facilmente ao desejo de consumir, à busca do poder e às promessas

2.4 Ética x Lucro

mirabolantes para preencher sua vida. O mal surge e instala-

O capitalismo selvagem ensinou que ética e lucro são con-

-se, atingindo o seu âmago, em um espectro que se alastra

ceitos incompatíveis. O mundo, no entanto, está mudando e

na sociedade. Sob múltiplas formas, a corrupção translitera o

a economia globalizada já começa a demonstrar que a ética

mal e aninha-o no próprio ethos humano, sugando a nature-

pode ser um elemento de valorização da empresa.

za, numa depredação voraz e sem limites; e parece dominar,

Conforme Arruda (2002) ética e lucro não apenas são compatíveis, mas essenciais; A função de toda empresa é gerar

desequilibrando o ser humano em suas relações fundamentais, consigo, com os outros, e com Deus.

produtos, serviços ou idéias que atendam às necessidades da

Em entrevista para o Jornal Diário do Comércio de São

população, da comunidade, da sociedade. Se ela não fizer isso

Paulo, edição dos dias 1, 2 e 3 de setembro de 2012, Agostini

de uma maneira lucrativa, eficaz, significa que não está usando

comenta: Verifica-se no mundo político sucessivos escândalos

adequadamente os recursos disponíveis, sejam eles humanos,

e uma falta de compromisso com a verdade; A missão dos po-

de capital ou de tecnologia. E todos eles têm que ser eficazes e

líticos é pesquisar e descobrir quais são as formas de governo

de qualidade moral. A empresa não lucrativa é incompetente e a

capazes de assegurar um desenvolvimento humano correspon-

incompetência não é ética. O lucro em si não é o problema, mas

dente ao econômico. Porém, o que se vê é a utilização de ver-

sim como ele é conseguido e de que forma é usado: O lucro

bas públicas para interesses próprios e enriquecimentos ilícitos,

abusivo, gerado a partir da exploração de recursos humanos

e isso é falta de ética; São Basílio (329-279) denuncia os maus

ou naturais, é um exemplo de mau uso. E isso é falta de ética.

políticos: Tornaste um explorador ao apropriar-te dos bens que

Funcionários bem tratados não querem deixar seu emprego e,

recebeste para administrá-lo. Se alguém se condena, não será

assim, a empresa acaba tendo um ganho forte. Aquela que ba-

por ter possuído riquezas, mas por tê-las empregado mal. No

talha por seus lucros agindo corretamente forma uma imagem

Brasil o capital humano está sendo deixado para trás de modo

coerente com o que faz com o que trabalha e com o que os

bastante antiético. Nossa pobreza é econômica, intelectual e es-

clientes esperam dela.

piritual, completa Arruda (2002).

Carlos Mota de Souza, (2007), Professor de pós-graduação

A corrupção desestabiliza a economia, aumentando o risco

da Universidade Ibirapuera (SP), compartilha da mesma opinião

da atividade econômica e elevando os custos de produção, o

50 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


que reflete numa diminuição do investimento e, conseqüente-

2.6 A ética da delação

mente, diminuição do crescimento da economia do País. Se-

Recentemente a humanidade foi surpreendida com as

gundo publicação da jornalista Vera Batista (2011), a organi-

revelações do gigantesco programa de vigilância realizado

zação Transparência Internacional e projeções da Federação

pela NSA (National Security Agency — a Agência de Segu-

da indústria do estado de São Paulo (Fiesp) revelam que no

rança Nacional dos EUA). Tais revelações só foram possíveis

cenário mais otimista, o Brasil responde por 26% de todo o di-

por causa das medidas de um só indivíduo, Edward Snow-

nheiro movimentado pela corrupção no mundo. Indignada, Ma-

den, o homem que delatou tudo e que atualmente está ten-

ria do Socorro Macedo de Carvalho, conselheira do conselho

do de viver escondido para se proteger da fúria do governo

consultivo do IBQV, conclui: O Brasil precisaria, urgentemente,

americano, cujos segredos indecorosos e apavorantes foram

preparar-se para enfrentar e dominar essa imensa onda que é

tornados públicos por Snowden, como relata o professor Ben

a corrupção que assola o país e que tem potencial para cau-

O’Neill, no seu artigo publicado pelo Instituto Ludwig Von

sar efeitos quase tão devastadores quanto os provocados pelo

Misses Brasil, em 12 de Julho de 2013. Segundo O’Neill ,

Tsunami em 2011, que abateu o Japão. Efeitos esses devas-

após todas essas revelações, fica evidente que a NSA co-

tadores como o mostrado pela TV Globo, em reportagem no

manda uma rede de espionagem especializada em coletar

Fantástico, edição de 06 de Janeiro de 2013, onde bilhões de

dados sobre as comunicações privadas feitas por cidadãos

reais são desperdiçados, por falta de um bom planejamento,

não-americanos. A NSA espiona seus alvos sem nenhum

em obras em portos, ferrovias, usinas abandonadas e estradas

mandado individual permitindo espionagem em massa e ar-

inacabadas que são fundamentais para o país crescer e gerar

mazenamento de dados ao bel-prazer dos analistas da NSA.

empregos. E o que é mais assustador: quem paga essa conta,

Snowden está sendo chamado de traidor e acusado pelo

no final, é o consumidor!

governo americano de roubo de propriedade governamental

A própria legislação tem enfatizado a conduta da lei do

e divulgação não-autorizada de material de defesa e de in-

mais forte e não da ética na tentativa, através do novo Código

teligência, enfatiza O’Neill. Para seus defensores, Snowden

Civil, da descriminalização do aborto, da liberação da maco-

é um “herói infrator”, um homem que “roubou” documentos

nha, do casamento gay, do consentimento sexual a partir dos

ilícitos do governo para expor as atividades de suas mais cor-

12 anos de idade, o que liberaria a pedofilia.

ruptas e secretas agências.  Tais circunstâncias nos obriga

Segundo Arruda (2003) os meios de comunicação de

a refletir acerca desta seguinte pressuposição: é legítimo o

massa - principalmente a televisão - têm uma grande respon-

governo reivindicar a propriedade das informações secretas

sabilidade, pois, em geral, reforçam essa superficialidade. A

que ele colheu? Quando a delação deveria e quando não

mídia necessita mudar a forma de avaliação da sua progra-

deveria ser considerada uma ação criminosa? Para O’Neill

mação, que atualmente atribuem valores baseados somente

(2013), contratos não podem ser considerados legítimos e

no índice de audiência, sem se preocupar em dar a socieda-

não deveriam ser considerados éticos se eles envolvem a

de uma contribuição construtiva. As novelas mostram que

realização de uma ação ilícita, ou uma ação que tenha o in-

todo mundo é desonesto e que não adianta fazer força, pois

tuito de aprofundar um propósito ilícito.  Esta é a base sobre

nada vai mudar e o povo vai continuar a ser massacrado.

a qual é possível considerar a delação uma atividade lícita.

A população não tem exemplos de esforço bem-sucedido e isso se reflete nos modelos sociais.

3. Considerações finais

Conforme pesquisa encomendada à Empresa de Consul-

Tendo em vista a pesquisa realizada com o tema sobre

toria Britânica Economist Intelligence Unit (EIU), e publicada em

os desafios da ética na era da informação e do conhecimento,

Novembro de 2012, o Brasil ocupa o penúltimo lugar em ranking

conclui-se que são necessárias primeiramente, mudanças ime-

global que mede a qualidade de sistemas educacionais. Em

diatas na administração do nosso país. Sem a superação da

plena era da informação e do conhecimento, a realidade é que

crise ética, a tecnologia da informação não poderá conduzir a

o Brasil tem sido levado por uma forte ganância do mercado,

uma sociedade justa, digna e de hábitos saudáveis.

deixando os investimentos sociais de lado, comenta Arruda

Vive-se uma crise civilizatória onde a informação cresce

(2003). E ainda, como dito na Conferencia latino-americana de

na mesma velocidade que a insatisfação. É preciso iniciar uma

Bispos, reunida em Puebla, México, em 1879: é preciso anun-

caminhada para a maturidade onde a tecnologia da informa-

ciar uma proposta concreta de restabelecimento da justiça, da

ção possa ser usada em favor do desenvolvimento sócio-eco-

igualdade dos cidadãos, da dignidade humana.

nômico. O Brasil precisa investir em educação. Conforme dito PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 51


pelo Primeiro Ministro da China, Wen Jiabao, em visita ao Brasil em 2012, um país que quer crescer precisa produzir os melhores profissionais do mundo e isso só é possível quando o país investe no mínimo 5 vezes mais do que o Brasil tem investido hoje em educação, caso contrário, o país fica emperrado, analisa ele. A corrupção no Brasil é avassaladora: Compromete a dig-

ARAÚJO, V. Ritmo da vida moderna gera doenças sociais. Disponível em: http://noticias.cancaonova.com/noticia, São Paulo: 2011. ARRUDA, Maria Cecília Coutinho – Fundamentos de Ética Empresarial e Econômica. 2ª. Ed. São Paulo: Atlas, 2003. BEAL, Adriana – Gestão Estratégica da Informação. São Paulo: Atlas, 2002.

nidade do cidadão, as políticas sociais, os órgãos públicos, e já ultrapassou os níveis suportáveis de decência. É estarrecedor saber que o Brasil tem o 2º maior índice de corrupção do mundo, perdendo apenas para a Nigéria. O Brasil é o único país do mundo que não tem absolutamente nenhum político preso por corrupção, conclui indignado, Jiabao. O poder Executivo público não cumpre seu papel. A lei existe, mas não pune. Existem cuidados formais, conselhos de ética, que não estão sendo levados a efeito. É possível ser ético num país desigual como o Brasil. A chave da mudança estaria numa legislação mais disciplinada, mais rígida e com maior punibilidade. A ordem social está abalada pela questão da impunidade em todas as esferas. A grande massa do povo brasileiro não acredita mais no governo, nem nos seus políticos, não acredita em suas leis, nem na sua própria cultura. O Brasil precisa investir na cultura brasileira, iniciando pela educação patriótica, afinal, um grande povo precisa amar e honrar seu grande país finaliza Jiabao (2012).

BIBLIA SAGRADA – São Paulo: Ave Maria, 2011. CASTELLS, Manuel. A era da informação, economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra, 2000. FERREIRA, A.R. - Da Ética Aristotélica para a Ética na Sociedade Brasileira Atual. VII SIAFMT. Ilhéus BA, 2008. GIL, Antonio Carlos. Como Elaborar Projetos de Pesquisa. 3ª ed. São Paulo: Atlas, 1996. JIABAO, W. – 10 soluções para melhorar o Brasil. Disponível em: http:// emdireitabrasil.com.br/index.php/diversos/281-10-solucoes-para-melhorar-o-brasil.html, São Paulo: 2012. MONTANA, P. J. CHARNOV, B. H. Administração. São Paulo: Ed. Saraiva 2003. O’NEILL, B. Edward Snowden e a ética da delação. Disponível em: http://mises.org.br/Article.aspx?id=1643, Camberra: 2013.

O ser humano é ético por excelência, as empresas que assumirem a ética como política empresarial vão ter a vantagem de assegurar clientes e fornecedores e obter lucro com ética. As empresas que não conseguirem implantar uma postura ética em todos os seus departamentos não sobreviverão por muito tem-

PENA, Roberto Patrus Mundin. Ética e felicidade. Belo Horizonte: FEA, 1999. SILVEIRA, F.L. - A Teoria do Conhecimento de Kant, CBEF- Caderno Brasileiro de Ensino de Física. Florianópolis-SC: 2002 pp. 28-51.

po, conclui Arruda (2003). Faz-se necessário um itinerário ético; Apoiar a pessoa humana em seu processo educativo e no despertar da fé e da consciência, num percurso marcado pela unidade, gradualidade e coerência. Trata-se de um processo vital para o qual concorre a todos os seres humanos, sem descuidar de ter claro os referenciais que dão suporte para que possam crescer em espírito e vida. Focar em grandes exemplos como Jesus Cristo, o maior líder de todos os tempos, que ensinou que liderar não é só querer ser servido, mas também servir; nem sempre é mandar, coagir ou forçar as pessoas a seguirem os nossos propósitos, mas saber ensinar, ouvir, motivar; Criar uma atitude de abertura para si mesmo e para o outro; somente assim a superação das desigualdades sociais pode ser alcançada: através da aplicação da verdade, e isto sim, é ter um itinerário ético. REFERÊNCIAS AGOSTINI, N. Ética: diálogo e compromisso. São Paulo: FTD, 2010.

SMITH, David Livingstone: Por que mentimos – Os Fundamentos Biológicos e Psicológicos da Mentira. Rio de Janeiro: Ed. Campus Elsevier, 2005. TRANSFERETTI, Jose. Filosofia, Ética e Mídia. Campinas: Alínea, 2001.

NOTAS 1 Graduada em Administração de Empresas pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Especialista em Gestão estratégica de negócios pela Universidade Pitágoras de Minas Gerais. Endereço eletrônico: inescveloso@yahoo.com.br 2 Mestre Profissional em Administração, pela FACCAMP-Faculdade Campo Limpo Paulista . Pós-Graduado em Gestão Estratégica Empresariais, Gestão de Pessoas e Gestão de Negócios, pela FCG-Faculdade de Ciências Gerenciais de Jundiaí/SP. Professor celetista da FACCAMP-Faculdade Campo Limpo Paulista nos cursos de Graduação em Administração de Empresas, Engenharia de Produção, Engenharia de Materiais.

52 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


RESPONSABILIDADE SOCIAL NAS ENGENHARIAS DAS FORÇAS ARMADAS: o discurso da boa cidadania corporativa Cristia Rodrigues Miranda1, Marley Rosa Luciano2, Osní Francisco Severino3

RESUMO: Neste artigo foi abordado o tema responsabilidade social empresarial nas organizações, tendo como delimitação o discurso da boa cidadania corporativa no corpo de defesa nacional. Para efeito de análise, visamos ampliar os conhecimentos sobre o corpo defensivo nacional, entendo sua estrutura organizacional no que concerne à prática de responsabilidade social através do discurso da boa cidadania corporativa. Nosso escopo teórico busca fundamentação em Dupas (1999) , Araujo (2006) dentre outros, para quem o novo modelo global de produção agrava a exclusão social no que se refere às tendências de aumento geral do desemprego formal. Diante dessa situação, as empresas têm investido em ações de responsabilidade social, visto que, precisam investir em um posicionamento ético para melhora sua imagem pública e gradativamente alcançar maior legitimidade social. Partiu-se da hipótese de que os orgãos públicos, enquanto organizações, utilizariam ações de cunho social para valorizarem suas imagens no mercado. Responsabilidade social seria, por esse âmbito, um conceito que tem se tornado presente em muitas empresas e instituições, já há algum tempo. Tal conceito também tem sido aplicado na área da defesa e forças armadas. Como resultado, a pesquisa concluiu que as forças armadas fazem uso do discurso da boa cidadania, que favorece a disseminação da imagem dos órgãos de defesa nacional, como promotores da ordem e do bem estar social. PALAVRAS-CHAVE: Responsabilidade social. Forças armadas. Empresas e instituições.

1. INTRODUÇÃO

em oportunidade de negócio, visto que o objetivo principal

A responsabilidade social é um tema que tem ganhado

delas não é o lucro. A responsabilidade social estaria, nes-

grande importância nas organizações, uma vez que tem sido

te caso, relacionada ao voluntarismo, direcionado a projetos

altamente debatido, em diversos seguimentos da socieda-

sociais, projetos construtivos, cujo compromisso ético, moral

de. Devido às pressões geradas no meio empresarial, ela é

e social coadunam para o melhoramento da imagem de uma

resultante das exigências e normatizações, por meio dos re-

organização. Além disso, o voluntarismo usufrui de princípios

cursos humanos e valores sociais. As empresas têm usado

os quais asseguram a capacidade de assimilar o crescimen-

ações de responsabilidade social, como forma de promover

to e processá-lo de forma lógica e coerente, agregando valor

suas marcas registradas, convertendo, assim, obstáculos so-

ético e moral.

ciais em oportunidades de negócio. Com efeito, este é um

Conhecer e aplicar as técnicas de boa cidadania, por in-

tema presente já há algum tempo na esfera empresarial, este

termédio de procedimentos que visam aumentar a eficácia do

artigo visa analisar, através de pesquisa, a existência de uma

ser humano, pode proporcionar uma futura boa formação e um

vertente social de responsabilidade, por parte dos órgãos de

exemplo para os próximos. As fundamentações teóricas dos

defesa nacional, apresentando também em sua contextuali-

autores Rocha (2008), Araujo (2006), Husted (2003), Ribeiro e

zação e ações cooperativas relacionadas ao tema.

Vieira (2002), possibilitaram reunir conhecimentos relevantes e

A responsabilidade social e corporativa pode ser consi-

eficazes que auxiliaram o desenvolvimento deste artigo.

derada uma ferramenta para o desenvolvimento humanitário,

A partir destas considerações, visa-se analizar o discurso

além de, uma oportunidade de negócios na esfera empre-

da boa cidadania corporativa no âmbito da responsabilidade

sarial, incitando o uso gradual das organizaçoes em prol da

social empresarial nas organizações. Partiu-se da hipótese

sociedade. Na esfera das organizações não empresariais, o

de que os orgãos públicos, como organizações, estariam

trabalhalo social, em uma primeira análise, não estaria rela-

utilizando ações de cunho social para valorizar seus nomes

cionado a oportunidade de converter as demandas sociais

no mercado, dando ênfase a projetos sociais e ambientais.

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 53


Como delimitação, a pesquisa tem como objetivo de-

deste quadro, afirma Araujo (2006, p.425):

monstrar algumas estratégias em responsabilidade social,

O quadro descrito acerca do surgimento da responsa-

dentro das organizações empresarias, transpondo-se tais

bilidade social no Brasil leva-nos a suspeitar que tais

características para órgãos públicos, com ênfase nas organi-

ações seriam a tentativa dissimulada de converter um

zações militares de defesa nacional.

obstáculo (miséria) em oportunidade de negócios (a

Utilizaremos o método teórico metodológico. Primeiramente exporemos as definições, a importância do nosso objeto-te-

mercantilização da miséria), em proposta de marketing e em aumento de receita.

ma, a saber, responsabilidade social empresarial. Com efeito, serão considerados abordagens que tecem considerações a

Ante o exposto acima, postulamos que as corporações

respeito de tal conceito, dentro das corporações e suas ade-

estariam levando em consideração as demandas sociais, no

quações ao mercado global conforme indicado pelos aborda-

campo ético e moral, como forma de promoção e valorização

gens, tais como Araujo (2008), Ribeiro e Vieira (2002), Rocha

de suas imagens. De acordo com Dupas (1999) apud Araujo

et.al. (2008). Após isso, serão abordados os fundamentos da

(2006, p.423) “O novo modelo global de produção agrava a

Responsabilidade Social, bem como suas definições. Também,

exclusão social no que se refere às tendências de aumento

mostra-se-á a importância dada aos projetos socias, sua evolu-

geral do desemprego formal e à flexibilização do trabalho”.

ção conforme o tempo e como ele nos beneficia, no dia-a-dia.

O modelo econômico neoliberal diminui o controle do estado

Essa etapa foi embasada nos pressupostos teóricos de (ARAU-

sobre a economia o que faz com que os programas de im-

JO, 2006). Em seguida, analisar-se-á como tais conceitos po-

plantação do bem estar sejam colocados em segundo plano

dem ser analisados nas ações discursivizadas dos documentos

( ARAUJO, 2006). Ainda segundo a mesma autora, o neoli-

oficiais das forças armadas nacionais, mais precisamente, do

beralismo submete o social ao econômico e o Estado passa

corpo de defesa nacional.

a ter de se preocupar mais com a estabilidade econômica, e os cofres públicos sofrem com as limitações às taxas sobre

2. RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL

produtos, serviços, e movimentações de capitais impostas

A Responsabilidade Social, atualmente não se prende

pelas exigências da globalização.

mais a prevenção direta nem a uma tendência passageira,

Esta dificuldade orçamentária leva o Estado a transferir

mas sim, como exigência de cidadania. Não sendo somen-

sua responsabilidade com promotor do bem-estar ao assim

te como um tema transversal às políticas públicas e em-

chamado terceiro setor (sociedade civil, através de ONGs e

presariais, mas uma ação, com instrumentos e ferramentas

entidades filantrópicas), e é neste contexto que a iniciativa

experimentadas e partilhadas. Ela parte de problemas es-

privada é pressionada a ampliar o seu conceito original in-

pecíficos, recursos e práticas concretas das empresas, e

vestindo em áreas em que o Estado é ineficiente. Segundo

cria negócios sustentáveis, em diálogo com todas as áreas

Araujo (2006, p.425) “o quadro de exclusão social e a falên-

interessadas e responsáveis pelo desenvolvimento social,

cia do Estado de Bem-estar Social criam as condições para o

econômico e ambiental.

advento do fenômeno responsabilidade social empresarial”.

Devido às pressões de diversos seguimentos da socie-

Contudo, pode ser benéfico adotar ações de RSE cujos

dade tem-se abordados os conceitos em Responsabilidade

públicos não financeiros julguem importantes para que os

Social Empresarial (RSE) como oportunidade de inovação

mesmos apoiem as demais ações da empresa. Segundo

e competibilidade (ROCHA et. al; 2008). As empresas têm

Husted (2003) apud Rocha et. al. (2008, p.6) “ações de RSE

buscado melhorar as consequências sociais e ambientais

devem ser avaliadas em relação a sua habilidade de gerar,

de suas ações. Apesar das exceções, a Responsabilidade

não só benefícios sociais para a sociedade, mas também be-

Social Empresarial, é em geral, uma maneira de converter

nefícios econômicos para a empresa”.

obstáculos sociais em oportunidades de negócio (ARAUJO,

Devem-se avaliar quais ações a empresa precisa investir

2006). Com a globalização, abertura de fronteiras, união de

e a relação custo e retorno sobre o investimento. Para decidir

países em blocos econômico-comerciais e áreas de livre co-

qual forma de RSE é mais adequada (in-house, terceirizada

mércio, o mercado tem se tornado mais competitivo. Diante

ou híbrida) deve-se analisar proximidade com o núcleo do

deste quadro, o marketing desenvolve-se como uma ciência

negócio e a inimitabilidade e facilidade de excluir concorren-

mercadológica para ressaltar e singularizar a marca. Diante

tes dos benefícios gerados pela ação (DA ROCHA, 2008).

54 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


2.1. O DESENVOLVIMENTO ESTRUTURAL DA GESTÃO EMPRESARIAL

Em termos organizacionais, isso significa uma filosofia, ou éti-

A responsabilidade social não se caracteriza como uma

ca de serviço, e na medida em que o produto, ou o que estiver

ação emergencial ou pontual, mas uma tomada de consciên-

relacionado a ele represente um serviço para o mercado (ou seja,

cia a longo prazo, por parte das empresas de que o próprio

agregue valor), é que a empresa poderá obter um resultado eco-

desenvolvimento da organização depende da sociedade a

nômico valioso. E ainda, nesta perspectiva, o valor maior é a so-

qual pertencem, e estas devem incorporar, em sua missão,

lidariedade, a profunda interdependência humana, o crescimento

a busca pelo bem estar da população (ARAUJO, 2006). Esse

do outro. Mas, transformando esses valores em ética capitalista,

assunto não é uma novidade, a novidade está na evolução

este seria o objetivo: o lucro, o beneficio econômico, é um sub-

da concepção, relacionando a filantropia com o método de

produto do qual os homens dependem (RIBEIRO; VIEIRA, 2002).

estratégia comercial.

Com efeito, o conceito de ética, pode parecer distorcido se

Uma das estratégias adotadas é investir na melhoria da qualidade das relações empresariais, visto que, de acordo com

visto sob o ângulo do interesse e o intuito principal da empresa. Nesse contexto afirmam Ribeiro e Vieira (2002, p. 2):

De Araujo (2006, p.418) “empresas dotadas de posicionamento ético melhoram sua imagem pública e gradativamente alcan-

Na ética do interesse próprio, você proporciona algo

çam maior legitimidade social”. Com efeito, ações estratégicas

ao outro, porque é de seu interesse fazê-lo. De acor-

no campo ético, embora não detenham de resultados imedia-

do com algumas escolas filosóficas, a responsabilida-

tos, agregam valores que coadunam com os valores sociais,

de social da empresa consiste única e exclusivamente

que por sua vez melhoram os resultados das empresas. Vale

em aumentar o seu lucro, maximizar os seus retornos.

ressaltar que, no campo ético, muitos valores capitalistas foram

Logo, tudo em que se faz na empresa e nos negócios

responsáveis para a criação de um comportamento social ético.

tem por objetivo o cumprimento desta responsabilida-

O conhecido modelo weberiano analisa como a ética protestan-

de. A preocupação com os empregados, com a quali-

te, com determinados valores de conduta influenciam e impul-

dade, com o bem-estar da comunidade, enfim, tudo o

sionam o pensamento econômica, industrial e organizacional

que se faz pelos outros, justifica-se apenas se a ação

na transição da passagem de uma sociedade feudal para uma

resulta na maximização dos resultados econômicos da

sociedade burguesa.

empresa ou do negocio.

Verifica-se agora que a organização é refratária e, ao mesmo tempo, espelho de valores que pautaram o espírito

Assim, o compromisso principal da empresa seria assim

do capitalismo na Idade Moderna. Ribeiro e Vieira (2002, p.

definido: “O objetivo da empresa é exclusivamente produzir

2) atestam que:

lucro. Mas é preciso tomar cuidado para não cair no extremo oposto da tese do lucro como única finalidade” (RIBEIRO; VIEI-

A crescente atenção á ética e á responsabilidade social

RA, 2002, p.4). Do exposto anteriormente deduz-se que ,se-

corporativa, bem como a ideia de que as organizações

gundo os autores, deve-se atribuir algumas responsabilidades

do terceiro milênio precisam ser socialmente respon-

para com pessoas, comunidade, cientes e fornecedores, gover-

sáveis quiserem sobreviver em meio á competição

no, condições de trabalho, a capacitação dos seres humanos a

cada vez mais acirrada, fazem parte desses processos

ela ligados, e a utilização de métodos participativos.

profundos de mudança: o fato de a globalização e o

A responsabilidade social nas empresas é um processo evo-

reconhecimento de que instituições como o Estado, a

lutivo: “A manifestação da responsabilidade social no âmbito da

sociedade civil.

empresa também pode ser entendida como relacionada a um processo de evolução da atuação das empresas” (RIBEIRO; VIEIRA,

Responsabilidades éticas correspondem a valores morais

2002, p.6). Depois de começarem com a causa pura e atribuírem a

específicos, valores, esses que dizem respeito à crenças pes-

alguns setores como o de Recursos Humanos a responsabilidade

soais sobre comportamento eticamente correto, ou incorreto. É

pelo comportamento ético e social da companhia e seus funcioná-

dessa maneira que valores morais e éticos se complementam.

rios, as empresas, então, passam a repensar sua função e seus

Ainda segundo Ribeiro e Vieira (2002, p.3) “a moral pode ser

funcionários, passam, também, a repensar sua função e seus

vista como um conjunto de valores e de regras de comporta-

procedimentos, implantando mudanças conceituais e agindo de

mento que as coletividades, sejam elas, nações, grupos sociais

forma socialmente responsável, seja sozinha, ou em parceria com

ou organizações, adotem por julgarem corretos e desejáveis”.

o governo federal (RIBEIRO; VIEIRA, 2002).

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 55


A existência de uma variedade definições de responsabili-

salmente aceitos nas áreas de direitos humanos, princípios e direi-

dade social retrata a existência uma mistura de ideias, conceitos

tos fundamentais no trabalho, meio ambiente e desenvolvimento, e

e práticas em construção que tem provocado acaloradas dis-

combate a corrupção. Áreas nas quais se baseiam sua elaboração.

cussões. Diz Ribeiro e Vieira (2002, p.6) ”quando as organiza-

Seguindo esta tendência, na Europa, foi publicado no ano

ções revolvem praticar a responsabilidade social nos negócios,

seguinte o Livro Verde, definindo três objetivos, sendo eles,

trazem para si ganhos e benefícios capazes de dar sustentabi-

econômicos, sociais e ambientais, que contribuiriam para uma

lidade a suas estratégias”. Enfim a opção em ser uma empresa

sociedade mais justa e um ambiente mais limpo. Nesse livro, a

socialmente responsável traz como consequências, retorno de

responsabilidade social é definida como “integração voluntária

imagem, vendas e participação no mercado, para os acionistas,

de preocupações sociais e ambientais, por parte das empre-

publicitário e de produtividade e social desenvolvimento susten-

sas, nas suas operações e na sua interacção com outras partes

tável da comunidade entre outras.

interessadas”(UNIÃO EUROPEIA,2001, p.7). Falando a respeito da conciência social por parte das forças

3. RESPONSABILIDADE SOCIAL NÃO EMPRESARIAL

armadas portuguesas, como exemplo da adesão das mesmas as

Apesar da vasta literatura referente à responsabilidade

ações de RSE cita Marcelino(2010)apud Machado (2010,p.2):

social corporativa e cidadania empresarial, observa-se que a conceituação dos dois termos tem sido apresentada de forma

pelo segundo ano consecutivo o Ministério da Defesa

confusa e algumas vezes até contraditória. A responsabilidade

Nacional (MDN) e o Estado-Maior-General das Forças

social corporativa é geralmente relacionada a uma prerrogativa

Armadas (EMGFA) uniram esforços no sentido de pro-

do estado e não a um objetivo econômico privado. Basearemo-

mover mais uma campanha de recolha de brinquedos

-nos neste conceito para abordar o tema em relação aos orga-

e livros para serem doados a uma Instituição de Solida-

nismos de defesa nacional.

riedade Social.

3.1. AREAS DE ATUAÇÃO E FUNCÕES DAS FORÇAS ARMADAS

Ainda segundo Machado (2010) as ações de responsabi-

O corpo defensivo nacional é composto de três áreas corpo-

lidade social por parte de orgãos de defesa nacional não têm

rativas, vinculadas ao ministério da defesa, destinados a manter a

se restringido somente a datas especiais, como o natal, o que

ordem e a defender o território nacional, sendo elas: Exército, Ma-

demonstra uma vertente social de responsabilidade por parte

rinha e Aeronáutica. Considera-se o dia 19 de abril de1648 como

dos orgãos de defesa nacional.

a data da instituição das forças armadas no Brasil. Cada uma das organizações tem funções específicas: Ao Exército cabe o coman-

4. ATUAÇÃO DAS FORÇAS ARMADAS NACIONAIS

do e coordenação das operações terrestres. À Marinha a proteção

NA ÁREA SOCIAL

de áreas marítimas, estratégicas, de projeção de poder sobre a terra bem como instalações navais e portuárias, arquipélagos e

As forças armadas brasileiras têm seguido esta mesma

ilhas oceânicas. A Aeronáutica nasceu em 1913, com o intuito de

tendência, em 2007 a 3o divisão encouraçada do exército em

empregar aeronaves em objetivos militares.

Santa Maria (RS) arrecadou mais de 37 toneladas de alimentos

Com efeito, que se objetiva daqui em diante é analisar a

que foram doadas a Associação Leon Denis que acolhe pa-

existência de vertentes sociais de responsabilidade por parte

cientes em tratamento contra o cancer (COMANDO MILITAR

destas organizações.

DO SUL, 2007). Em 2009, no município de Ijuí (RS), membros

A responsabilidade social é um conceito, que conhecidamen-

do exército doaram três mil quilos de alimentos arrecadados

te, tem se tornado presente em muitas empresas e instituições já

à famílias carentes (PREFEITURA DE IJUÍ, 2009). Também em

há algum tempo. O que poucos sabem, é que esse conceito tam-

2009, o 59⁰ Batalhão de infantaria motorizado, em Maceió (AL),

bém tem sido aplicado na área da defesa e forças armadas.

realizou, pelo terceiro ano consecutivo, a campanha de arre-

No ano de 2000, a ONU publicou um código de conduta

cadação de livros e brinquedos para crianças carentes Natal e

intitulado “Pacto Global das Nações Unidas”, de adesão volun-

Ano novo com leitura (ALAGOAS 24 HORAS, 2009). Em 2013 o

tária, que visa promover o engajamento de pequenas, médias e

exército tem ajudado no combate à dengue no estado de São

grandes empresas, como também quaisquer outras entidades ou

Paulo, entre outros (G1 SANTOS, 2013). As ações ateriormente

instituições que tenham funcionamento de empresa em atividades

citadas são exemplos de uma vertente social de responsabilida-

que promovam os dez princípios declarados no mesmo, e univer-

de que tem se confirmado entre as forças armadas nacionais.

56 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


4.1. ENSINO E DESENVOLVIMENTO COOPERATIVO:

quer dos poderes constitucionais” (FORÇA AÉREA BRASILEIRA,

ATUAÇÃO DAS ENGENHARIAS NA DEFESA NACIONAL

2013,p.1). Ela tem, como atribuições subsidiárias, cooperar com

Na área da engenharia, as forças armadas nacionais tam-

o desenvolvimento nacional e a defesa civil, na forma determinada

bém têm contribuído para a melhoria do quadro socio-econômi-

pelo Presidente da República. Sendo sua missão principal manter

co, a exemplo das atividades de infra-estrutura tais como, cons-

a soberania do espaço aéreo nacional com vistas à defesa da pá-

trução de estradas, ferrovias, poços artesianos, saneamento e

tria (FORÇA AÉREA BRASILEIRA, 2013).

alfabetização, entre outras, realizadas pelos batalhões instalados no Nordeste, Amazonas, Roraima e outros estados.

E por fim, o Exército que tem como atribuição contribuir para a garantia da soberania nacional, dos poderes constitucio-

De acordo com o artigo 142 da constituição, constituem-se

nais, da lei e da ordem, salvaguardando os interesses nacionais

como funções das forças armadas: “a defesa da Pátria, a ga-

,e cooperando com o desenvolvimento nacional e o bem estar

rantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de quaisquer

social. Adotando o seguinte código de ética corporativo:

destes, da lei e da ordem” (COMISSÃO DE CIDADÂNIA, 2008, p.1). Originalmente, o batalhão de engenharia surgiu nas forças

Patriotismo - amar à Pátria - História, Símbolos, Tradi-

armadas pelo Decreto N° 1535, de 23 de janeiro de 1855, da

ções e Nação - sublimando a determinação de defen-

necessidade sentida pelo Exército da época, após a Campanha

der seus interesses vitais com o sacrifício da própria

de 1851/52, em se dotar a tropa de um elemento técnico para

vida. Dever - cumprir a legislação e a regulamentação,

facilitar o seu deslocamento, ajudando a vencer os obstáculos

a que estiver submetido, com autoridade, determina-

naturais do terreno e os impostos pelo inimígo (BATAHÃO DE

ção, dignidade e dedicação além do dever, assumindo

ENGENHARIA DE COMBATE,2005, p.2).

a responsabilidade pelas decisões que tomar. Lealda-

As ações de cunho social não estão previstas entre as atri-

de - cultuar a verdade, sinceridade e sadia camarada-

buições legais das forças armadas. Este é um assunto de tal

gem, mantendo-se fiel aos compromissos assumidos.

relevância que levou a tramitação no senado de uma proposta

Probidade - pautar a vida, como soldado e cidadão,

de ementa a constituição ((PEC) 87 de 2007) para incluir a coo-

pela honradez, honestidade e pelo senso de justiça.

peração em ações sociais como atribuição das forças armadas,

Coragem - ter a capacidade de decidir e a iniciativa de

proposta esta que foi posteriormente arquivada.

implementar a decisão, mesmo com o risco de vida ou de interesses pessoais, no intuito de cumprir o dever,

4.2 CÓDIGOS DE ÉTICA E CONDUTA

assumindo a responsabilidade por sua atitude (EXERCI-

Os orgão de defesa nacional têm sua atuação regida por

TO BRASILEIRO, 2013, p.1 grifo nosso).

códigos de conduta que visam direcionar e conduzir suas ações, de maneira a garantir o cumprimento de suas funções e obrigações de maneira ética e moral.

Com efeito, percebe-se que, também o exército pauta sua conduta ética em uma responsabilidade social que, em muitos

A Marinha brasileira orienta-se pelo seguinte código:

pontos, parece-se com o que se conceitua “Responsabilidade Social nas Organizações”. Ao selecionar termos em seu código

Preparar e empregar o Poder Naval, a fim de contribuir

ético tais como “lealdade”, “sinceridade”, “honradez”, o exército

para a defesa da Pátria. Estar pronta para atuar na ga-

cumpre salientar o compromisso que o órgão de defesa nacio-

rantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de

nal, mesmo sem nenhuma finalidade lucrativa, visa promovee

qualquer destes, da lei e da ordem; atuar em ações

para salvaguardar a pátria e a sua imagem. Quando menciona

sob a égide de organismos internacionais e em apoio à

“capacidade de decidir e implementar decisões” evoca solida-

política externa do País; e cumprir as atribuições subsi-

mente os preceitos organizacionais aliados à ética dos valores

diárias previstas em Lei, com ênfase naquelas relacio-

cultuados na empresa.

nadas à Autoridade Marítima, a fim de contribuir para a salvaguarda dos interesses nacionais (MARINHA DO

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

BRASIL, 2010, p.1).

Do exposto anteriormente, podemos concluir que a atuação das forças armadas no âmbito social, seria um exemplo

Por conseguinte, a Força Aérea nacional atua segundo as atri-

de trabalho em que demonstra o uso de uma filosofia calcada

buições constitucionais de: “defender a Pátria; garantir os poderes

na ética de responsabilidade social que favorece a dissemina-

constitucionais; e garantir a lei e a ordem, por iniciativa de qual-

ção da imagem, dos órgãos de defesa nacional. Esses como

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 57


promotores da defesa entre fronteiras, bem como em obrigações de manter a lei e a ordem, cooperando também em ações voluntárias à reestruturação de regiões afetadas, por quaisquer tragédias sejam elas ambientais ou humanas. Ainda que o atendimento às demandas sociais não conste das atividades prioritárias dos mesmos, que são a defesa do território nacional e

EXÉRCITO BRASILEIRO. Missão e Visão de Futuro. Centro de comunicação social do exército. Disponível em: <www.exercito.gov.br/web/guest/missao-e-visao-de-futuro >. Acesso em 12 mai. 2013. FORÇA AÉREA BRASILEIRA. Missão visão e valores. Comando da Aeronáutica, 2013. Disponível em: < www.fab.mil.br/portal/capa/index. php?page=missao >. Acesso em 11 mai. 2013.

a garantia da ordem pública, em que entidades estatais tem o dever de suprir as necessidades de seu Estado, sucessivamente nas cidades. E é nesse sentido que as forças armadas oferecem, em seu discurso, a legitimidade de RSE (responsabilidade social empresarial) uma vez que garantem que a credibilidade do órgão esteja subsidiado pelo seu compromisso não apenas de defesa nacional, mas de contribuição. No entanto, a união entre os órgãos privados, sejam eles corporativos empresarias ou de cunho governamental, traz diversos benefícios para a sociedade. O voluntarismo explora a verdade humana como um exemplo de solidariedade, servindo às empresas como uma forma de aceitação e identificação ética

G1 SANTOS. Exército ajuda no combate a dengue em Praia Grande, SP. G1, mar. 2013. Disponível em:<www.g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2013/04/exercito - ajuda - no -combate-dengue-em-praia-grande-sp. html>. Acesso em 1 mai. 2013 MACHADO, Miguel. Responsabilidade Social Promovida na Área da Defesa e Forças Armadas. Operacional, noticias, jan. 2010. Disponível em: <www. operacional.pt/ responsabilidade-social-promovida-na-area-da-defesa-e-forcas-armadas/>. Acesso 3 mai. 2013. MARINHA DO BRASIL. Missão e visão de futuro da Marinha. Centro de comunicação social da Marinha, 2010. Disponível em: <www.mar.mil.br/ menu_v/instituicao/missao_visao_mb.htm>. Acesso em 11 mai. 2013.

pelas mídias e sociedade. Uma fonte de desenvolvimento em que ambas as partes são contempladas em termos de resultados e ações. 6. REFERÊNCIAS ALAGOAS 24 HORAS. Exército arrecada livros para carentes de leitura. Alagoas 24 horas, Cultura, out. 2009. Disponível em: <http://www.alagoas24horas.com.br/conteudo/index.asp?vEditoria=Cultura&vCod=74740>. Acesso em 28 abr. 2013. ARAUJO, Marley Rosana Melo de. Exclusão Social e Responsabilidade Social Empresarial. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 2, p. 417-426, mai./ ago. 2006,< www.scielo.br> BATALHÃO DE ENGENHARIA DE COMBATE. Considerações sobre as origens da arma de engenharia. Noticiário do Visconde. Disponível em: <www.7becmb.eb.mil.br/galeriadefotos/70aniversario/pag2.htm >. Acesso em 30 abr. 2013. COMANDO MILITAR DO SUL. 3O Divisão do exército arrecada mais de 37 toneladas de alimentos. Comando militar do sul,Notícias, out. 2007. Disponível em: <http://www.cms.eb.mil.br/index.php?option=com_content&task= view&id=716&Itemid=2>. Acesso em 27 abr. 2013. COMISSÃO DAS COMUNIDADES EUROÉIAS. Livro Verde. Disponível em: <www.eur-lex.europa.eu/LexUriServ/site/pt/com/2001/com2001_0366pt01. pdf>. Acesso em 5 mai.2013.

PREFEITURA DE IJUÍ. Exército arrecada três mil quilos de alimento em campanha beneficente. Prefeitura de Ijuí, Noticias, ago. 2009. Disponível em: <www.ijui.rs.gov.br/noticia/ index/13878>. Acesso em 29 abr. 2013. RIBEIRO, Dina Gonçalves; VIEIRA, Eduardo Alves. Responsabilidade Social nas Empresas. nov-dez. 2003, NO 1, p. 1-2-3-4, http://www.ebah.com.br ROCHA, Vitor Andrade Alcoforado da; SILVEIRA, Lorena Campos; WANDERLEY, Lilian Soares Outtes; FRANÇA, Nadir Raquel Cunha. Responsabilidade Social Empresarial (RSE) e Alinhamento Estratégico: Análise da Centralidade e Especificidade em Práticas Sociais Empresariais. RGSA-Revista gestão social e ambiental, jan-abr. 2008, v-2, NO 1, PP.3-18, <www.grsa.com.br.>

NOTAS DE FIM 1 Professora Auxiliar do Centro Universitário Newton Paiva, doutoranda em Estudos Linguísticos no Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos – Poslin/Fale/UFMG. 2 Graduando do 1º Período de Engenharia Elétrica – Centro Universitário Newton 3Graduando do 1º Período de Engenharia Elétrica – Centro Universitário Newton

COMISSÂO DE CIDADANIA. Projeto prevê atuação das forças armadas em ações sociais. Senado, portal de notícias, mar. 2008. Disponível em: <www12.senado.gov.br/noticias/ materias /2008/03/24/projeto-preve-atuacao-das-forcas-armadas-em-acoes-sociais>. Acesso em 29 abr. 2013.

58 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


A subordinação dos INDICADORES SOCIAIS E ECONÔMICOS: Comparações entre Brasil e Chile quanto ao IDH, PIB, Corrupção, Educação Eduardo Bomfim Machado1, Gabriel Chamone 2, Gabriela Salomão de Barros2, João Felipe Chamone2, Laila Lucie Dias Guimarães2, Leonardo Vieira Babsky2, Simone Gelmini Araújo3

RESUMO: Em face ao recente julgamento no Supremo Tribunal Federal do esquema de corrupção e tráfico de influência denominado como Mensalão, torna-se oportuna a verificação dos efeitos negativos desses desvios de conduta pública e privada para o desempenho do país. O presente artigo busca analisar os principais indicadores socioeconômicos de dois países semelhantes quanto à sua posição geográfica e processo histórico de formação, em relação aos níveis de corrupção existentes em ambos. São mencionados o Índice de Desenvolvimento Humano, Produto Interno Bruto, Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, entre outros, e tais indicadores são comparados sob a perspectiva da Corrupção, como forma de indicar possíveis relações. Os resultados apontam que mesmo com a diversidade cultural e ambiental do Brasil, os indicadores chilenos superam, proporcionalmente, em muitos casos o desempenho brasileiro, mesmo havendo níveis similares de corrupção nos dois países, porém em setores distintos, o que denota indícios dessa relação, já que o desempenho da Educação advém de políticas públicas. PALAVRAS-CHAVE: Análise Comparativa. Corrupção. Indicadores socioeconômicos. Educação.

INTRODUÇÃO

ainda está buscando meios de melhorar a forma da educação

A crise mundial de 2008 é hoje um assunto que está em

do país já que seus índices ainda estão abaixo da média da

foco, devido à sua dimensão e resultados consequentes em

América do Sul. (MAGNOLI, 2011)

2010, principalmente quando se fala de economia. Para se res-

Uma análise comparativa do PIB, IDH (índice de desen-

guardarem desses efeitos negativos, os países tendem a pro-

volvimento humano), do índice de escolaridade, do índice de

teger sua economia e território, ou seriam diretamente afetados

corrupção, mortalidade, violência, dentre outros fatores, é útil

diretamente, quanto à taxa de desemprego, por exemplo, o que

para se medir à realidade socioeconômica de um país. Este ar-

desencadearia um processo em cadeia atingindo diretamente o

tigo estudou a forma como parte desses indicadores descreve

PIB (produto interno bruto) e indiretamente outros indicadores,

a economia do Brasil e do Chile e qual o impacto percebido da

tais como a escolaridade.

corrupção nas diferenças apresentadas.

Com isso, as antigas potências mundiais, como EUA,

Os índices de corrupção que foram analisados, dos dois

Espanha, Itália, dentre outras, estão perdendo força e, novas

países em questão, estabelecem um pequeno diferencial en-

economias como a brasileira e chilena, estão emergindo e con-

tre eles na aplicação dos recursos públicos necessários em

quistando espaço dentro do mundo. Entretanto, para que estas

âmbito social. Nesse sentido, foram apresentados dados do

continuem seu processo de desenvolvimento, é preciso que

Banco Mundial, que é uma instituição financeira internacional

suas economias estejam aquecidas e fortalecidas. (BBC, 2012)

fornecedora de empréstimos para países em desenvolvi-

Brasil e Chile são países que se aproximam dentro de um

mento em programas de capital, além da Transparência Internacional, organização não governamental que tem como principal objetivo a luta contra a corrupção.

contexto mundial em questões como: clima, posição geográfica, cultura e época da descoberta e independência. Entretanto, países tão parecidos se desenvolvem em proporções e veloci-

Em uma pesquisa exploratória de natureza qualitativa, que

dade muito diferentes. Por exemplo, o Chile possui um sistema

faz um comparativo entre os principais indicadores socioeco-

educacional voltado para o estilo europeu, enquanto o Brasil

nômicos dos dois países em questão. Como não existe ainda

58 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


uma fonte segura e ampla de evidência de uma correlação entre

De acordo com esse autor, tem-se inicialmente a for-

tais indicadores e a corrupção, sobretudo para a circunstância

mação do Estado e demais arcabouços de delineamento e

dos países selecionados de forma intencional. Buscou-se atra-

representação. A Teoria Geral do Estado fundamenta essa

vés de fontes secundárias, em uma pesquisa bibliográfica com

legitimidade e amplitude de poder emanado e exercido em

suporte de uma base de dados eletrônica. Foram comparados

função de interesses sociais comuns.

tais indicadores encontrados com a corrupção existente nos

Contudo, Azambuja, (2008) apresenta uma evolução desse

países Brasil e Chile, que serviu como um contraponto concei-

conceito para o que se chama de Estado Moderno, em que se

tual para direcionar a observação do fenômeno da disparidade

percebe certa acomodação de forças sociais e econômicas em

entre os dois países quanto ao seu desempenho na área da

função do que se chama de Crise de Agência.

educação especificamente, apesar da aproximação geográfica,

Com a decadência da atuação do Estado refletida nos mo-

histórica e cultural que ambos possuem. Com isso, tem-se a

vimentos de Liberalismo e Neoliberalismo ocorridos a partir da

questão norteadora: estariam os indicadores socioeconômicos

segunda metade do século XX. Corrobora-se com a situação

e socioculturais associados aos indicadores de corrupção dos

dialógica de “Invenção Social” apresentada por Hoffmann e

países Brasil e Chile?

Herz (2004). Nesse contexto de mudança e acomodação so-

Este artigo pretendeu mostrar, através da análise de um

cial, Estados passariam a concentrarem sua atenção a funções

conjunto de informações que apontam as diferenças do desem-

básicas e específicas de atuação. Gerando assim uma necessi-

penho entre os dois países em questão, como, e principalmen-

dade maior de controle e gerenciamento, do que propriamente

te, de que maneira seus indicadores estão relacionados com os

de executor de ações públicas, exceto em suas áreas básicas

níveis de corrupção e, sobretudo, como o desempenho do setor

de atuação. (ARAÚJO; SANCHEZ, 2005)

da educação se interpõe para esse desempenho socioeconômico dos países avaliados.

A fragilidade do Estado-Nação em um cenário plenamente integrado tecnologicamente está retratada nas palavras de Magnoli

Para responder à questão norteadora estabeleceu-se o

(2011), que direciona para uma configuração de crise a tentativa

objetivo geral de pesquisar a relação existente entre os indica-

de controle absoluto e burocrático dos movimentos econômicos

dores socioeconômicos do Brasil e do Chile com a corrupção

em função de uma autonomia flexionada da soberania.

existente em ambos. Os objetivos específicos estão indicados por: (i) efetuar um levantamento dos indicadores socioeconômi-

O movimento de globalização certamente modifica as

cos dos países selecionados; (ii) pesquisar informações sobre

relações entre os Estados e as economias nacionais.

corrupção existente em ambos; (iii) analisar eventuais relações

Os arautos do desfalecimento do Estado-Nação enxer-

entre o desempenho socioeconômico dos países pesquisados

gam indícios de corrosão da soberania na integração

e a corrupção pesquisada.

a blocos econômicos, no rebaixamento ou supressão

Foram apresentados primeiramente dados sobre o Esta-

de taxas alfandegárias, na ampliação da liberdade de

do e a corrupção, depois dados pesquisados sobre o Brasil,

movimentos dos capitais internacionais, na privatização

depois Chile e em seguida um comparativo dos principais indi-

de setores econômicos controlados pelo poder públi-

cadores de ambos. Desse comparativo, mostraram-se dados

co. Interpretam a mudança das funções econômicas

referentes à corrupção existente em ambos, para depois ser

dos Estados como sinal da sua inevitável dissolução.

apresentada uma análise dessa potencial relação.

(MAGNOLI, 2011 pág. 188)

REFERENCIAL TEÓRICO

A Corrupção A definição superficial de corrupção é, “o abuso do poder público para o benefício privado”4. Ela ocorre, mundialmente,

O Estado Para uma melhor percepção da relevância e contextualiza-

porém, deve-se analisá-la no Brasil e no Chile de acordo com

ção dos principais fatores econômicos utilizados para eviden-

os mesmos índices e em comparação a outros países do mun-

ciar um desempenho de uma nação. Parte-se inicialmente da

do, já que é um conceito de difícil definição e aplicação, dadas

própria conceituação de Estado enquanto entidade com per-

as nuanças de valores, costumes e contextos históricos. (UNO-

sonalidade jurídica, capaz de representar uma nação em suas

DOC, 2012); (ARAÚJO; SANCHEZ, 2005)

demandas e interesses. (AZAMBUJA, 2008)

A corrupção é pesquisada sob diferentes aspectos e abordagens, tendo o Direito sua principal área de aprofundamento PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 59


e volume de informações. Contudo, observam-se ainda outras ciências contribuindo com novos estudos para a compreensão desse fenômeno. Sociocultural com amplos reflexos econômicos. Sobretudo em se considerar a fala de Araújo e Sanchez (2005), que retrata o ônus da corrupção no Estado como fardo social de difícil aceitação. O que mais recentemente, como forma de constatação dessa prática no Brasil, verificou-se o resultado da ação do Supremo Tribunal Federal, instância maior da justiça no Brasil, contra uma representativa frente de corrupção dos poderes executivo e legislativo denominada de Mensalão (STF, 2013), que ganhou grande repercussão social. Outra questão relevante em relação à Corrupção é sua dificuldade de ponderação e mensurabilidade absoluta, dada

Observa-se que, a partir de 2004 o crescimento se re-

à sua natureza sigilosa e informal enquanto prática criminosa.

velou de forma muito mais expressiva, excetuando-se 2009,

Mesmo, com órgãos civis e sistemas estatais voltados para o

como resultado da crise internacional, mas retomando seu

tema. Apenas após esforços de investigação e elucidação é

crescimento em 2010.

que eventos dessa natureza se tornam conhecidos. (ARAÚJO;

No Brasil, tem-se visto uma grande mudança no ritmo de estrutura e crescimento da população. A queda nas taxas de

SANCHEZ, 2005)

mortalidade e de natalidade tem elevado o número de pessoas adultas e tem diminído o número da população jovem, o que,

DESENVOLVIMENTO

em longo prazo, ocorrerá um aumento significativo de idosos. (FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO, 2010)

Brasil em Indicadores A economia brasileira caracterizou-se, ao longo de sua his-

Já o Índice do Ensino Básico do Brasil (IDEB), com esca-

tória, pela ocorrência de vários ciclos. Destes ciclos, ocorreram

la de 0 a 10, do Ministério da Educação e Cultura (MEC) fixou

sucessivas mudanças culturais, sociais, pois, priorizaram-se

para o país alcançar até 2021 a nota 06. Este índice é resultado

em cada ciclo, alguns setores em detrimento de outros popu-

dos cálculos de dados tirados dos censos escolares relacio-

lacionais e políticas em sua sociedade Entre 1991 e 2000 o PIB

nados com as médias de desempenho avaliadas pelo Instituto

brasileiro cresceu, em média, 2,60% ao ano, enquanto no pe-

Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira,

ríodo compreendido entre 2001 e 2010 o crescimento foi em

o INEP, e o SAEB e a Prova Brasil, respectivamente para o DF e

5

média 3,6% . Pontualmente, essa diferença parece pequena, mas, percentualmente temos um crescimento da economia de 6

42,4%, contrapondo-se os 29,3% do período anterior.

para os municípios. (BLOG EDUCAÇÃO, 2012) Em contrapartida ao crescimento verificado e aos melhores índices de escolaridade e emprego, o Brasil tem um alto índice de corrupção se comparado com outros países de acordo com

Na década de 1990, houve um crescimento do PIB por

a Transparência Internacional (TRANSPARENCY INTERNATIO-

habitante de apenas 1,1% a.a., enquanto na década de 2000

NAL, 2013 a), conforme será mostrado no comparativo dos dois

7

houve um crescimento de 2,4% . Este dado é interessante, pois

países. Dentre os fatores que influem para aumentar os níveis

reflete que, no primeiro período citado, necessitaria-se de 63

de corrupção estão à burocracia elevada do Estado e um siste-

anos para que a média da renda do país fosse multiplicada por

ma judiciário lento e pouco eficiente.

02. De acordo com as taxas do segundo periodo citado, esse prazo ficaria reduzido em 29 anos.

Chile em Indicadores A economia chilena sofreu um crescimento econômico em média de 7% a.a. no período compreendido entre 1990 e 2000 (WORLD BANK, 2013; ONE WORLD NATIONS ONLINE, 2012) O Chile tem, também, o melhor IDH da América Latina. O IDH é representado por índices como saúde, educação,

60 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


investimento em P & D, natalidade, mortalidade, expectativa de vida, dentre outros.

sarrollo Humano en Chile, (2012) A despeito da classificação do Brasil e Chile em relação

Atualmente o Chile tem um governo democrático e uma eco-

ao seu risco à corrupção estarem na mesma faixa, cerca de

nomia tida como uma das melhores do continente americano. O

20%, observa-se no Quadro 02 que no Brasil, os riscos advin-

Chile se destaca em três setores da economia: agropecuária, ser-

dos das ações governamentais políticas e de licitação pública.

viços e indústria. As indústrias chilenas são responsáveis por cerca

Que representam um importante grupo de decisões acerca da

de 50% do PIB, e estão localizadas próximo à Santiago. Dentre

educação. Já o Chile, apresenta seu pior desempenho em rela-

seus principais setores de destaque estão: a produção de vinho, o

ção aos indicadores privados, sejam dentro das estruturas or-

setor siderúrgico e o cimento. Dentro desse potencial econômico,

ganizacionais e financeiras. (INTERNATIONAL DEFENCE AND

Chile tem baixo índice de corrupção de acordo com o International

SECURITY PROGRAMME, 2013)

Defence And Security Programme (2013). O Chile foi o país Latino Americano que teve a economia que mais cresceu no perídodo de 1983 a 2004, apresentando crescimento de 209%10. Alguns fatores que contribuiram para isso foram os sucessos das políticas macroeconômicas, com sua abertura financeira, a diminuição das barreiras comerciais e os investimentos estrangeiros diretos (IEDs). Devido a isso, ocorreu, também, um

Apesar de semelhantes em vários aspectos, observar-se

aumento no PIB de exportações, passando de um aparticipação

discrepâncias entre esses dois países. Em relação à educa-

de 17% nos primeiros anos da década de 1980 para 42% em 2004.

ção, de acordo com a UNB em 2006 apud no Blog Educação

(DESARROLLO HUMANO EN CHILE, 2013)

(2012), também abordado por Gouveia (2009) o Chile contava

Em relação à educação, após a ampla reforma no ensino

com 27% da população entre 28 e 24 anos no ensino superior,

básico e médio, o Chile concentrou seus esforços na reestrutu-

contra 12% de brasileiros. A UNB prevê que somente em 2022

ração dos conteúdos, na avaliação e na formação dos professo-

o Brasil terá os mesmos índices do Chile. De acordo aos dados

res. Melhorar a qualidade do ensino e garantir bons resultados

apresentados no Blog Educação, 2012:

na aprendizagem dos alunos foi a meta dos últimos 15 anos. Essas ações alavancaram a reforma do sistema, iniciada no

Apenas em 2022 o Brasil alcançará um índice de jovens

governo do presidente Eduardo Frei e está em curso até hoje.

inseridos no ensino superior próximo ao, apresentado pelo Chile hoje, mesmo com as atuais políticas de in-

Comparativo Brasil vs Chile

clusão. O diagnóstico é de uma pesquisa da Univer-

Toma-se como comparativo inicial entre esses dois pa-

sidade de Brasília (UnB), que comparou o acesso à

íses os aspectos educacionais como indicares que podem

universidade nos dois países. Instrumento de avaliação

representar outros tipos de consequências sócio econômi-

sem finalidades classificatórias, instituído pelo MEC em

cas, influenciadas pela prática da corrupção, sobretudo em

2008. Tem por objetivo oferecer aos professores, direto-

se considerando que a educação é uma das finalidades do

res, coordenadores e gestores das redes de ensino um

Estado e um importante indicador de desenvolvimento (OB-

instrumento para diagnosticar o nível de alfabetização

JETIVOS DO MILÊNIO, 2013).

dos alunos. (...) Os motivos para isto estão relacionados

É uma preocupação dos países da América Latina bus-

centralmente à maior desigualdade de renda encontra-

car maneiras para obter uma econômica de sucesso e não

da na sociedade brasileira, sendo a desigualdade de

mais, serem considerados países em desenvolvimento. Com

acesso ao ensino superior um espelho da desigual-

o passar dos anos, o Chile foi um dos poucos que conseguiu

dade de renda da sociedade.(BLOG DA EDUCAÇÂO,

eliminar essa diferença que o distingue dos mais desenvolvi-

2012 Disponível em: http://www.blogeducacao.org.br/

dos. As respostas para o sucesso chileno estão ligadas, prin-

pesquisa-compara-acesso-ao-ensino-superior-no-bra-

cipalmente, aos componentes dos princípios básicos que

sil-e-no-chile)

norteiam o desenvolvimento do Chile com sua democracia, tais como a boa governança, a economia de livre mercado, o

Simulação de CPI e PIB per capta

investimento em educação e a busca de acordos comerciais

Os dados referentes à percepção da corrupção mostram

com o maior número de parceiros possíveis, citados em De-

que o FBCF (Formação Bruta de Capital Fixo) e o IED (Investi-

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 61


mento Estrangeiro Direto) do Chile são superiores aos do Brasil

5,6% de seu PIB. Possivelmente, há uma clara relação entre o

nos mesmos períodos, o que reflete diretamente no PIB.

desempenho educacional entre esses dois países e o seu re-

O quadro abaixo mostra o resultado de uma simulação dos

sultado geral de IDH, muito também relacionado com o próprio

níveis do CPI (Índice de Percepção da Corrupção) do Brasil em

fator Educação, como um componente aferido dentro desse

relação ao Chile e outros países. São dados da ONG Trans-

índice. (ARAÚJO, 2006)

parência Internacional, tomando-se por base as médias entre 1996 e 2005.

Em relação ao IDH, apesar do Brasil ter ganhado uma posição do ano de 2010 para 2011, ainda assim o país ocupa um lugar não muito favorável, ficando atrás de países como Panamá, México, Bahamas, entre outros, e sendo o 20º país da América Latina com melhor IDH, enquanto o Chile tem o melhor IDH da região e situando-se na 44ª posição do ranking mundial, como pode ser visto abaixo:

Observa-se que, se o Brasil apresentasse nos últimos 30 anos o mesmo nível de CPI que o Chile, o PIB do Brasil poderia ser maior em até 22,5%. Em relação ao mesmo período, observa-se, também, que de acordo com a média de CPI apresentada pelos países na tabela acima de 7,43, estima-se que o custo médio anual do Brasil com a corrupção seria a diferença entre o PIB alcançado e um PIB relacionado com essa percepção

O Peso Real da Corrupção

de corrupção por parte da população, aproximadamente 30%.

Outro fator contribuinte para essas várias diferenças vistas

Tais análises contribuem para uma verificação da relação exis-

acima entre Brasil e Chile, seria a corrupção como prática pú-

tente entre os indicadores de percepção da população sobre a

blica e privada. De acordo com a tabela abaixo, observa-se os

corrupção e o PIB per capta dos países pesquisados, segundo

valores de indicadores de corrupção entre os países em ques-

dados da Controladoria Geral da União (2013).

tão em comparação com os dados do conjunto dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico

Educação e IDH

– OCDE (2013; 2013a)

O Brasil apresenta uma ruptura de estudantes na transição do ensino fundamental para o ensino médio, sendo esta, a principal responsável pelos atuais índices de escolaridade, que no Brasil só será obrigatório o ensino médio a partir de 2016, além de outra ruptura na transição do ensino médio para o superior. Essas rupturas são verificadas com a constatação entre o número de egressos de cada nível com o nível de ingressos do nível subsequente. (BLOG DA EDUCAÇÂO, 2012) Ainda para esse Blog, o Chile apresenta apenas uma ruptura do ensino médio para o superior. Para ocupar a mesma posição ocupada pelo Chile, o Brasil teria que dobrar o seu investimento em educação, ou seja, gastar o equivalente a mais 62 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


A nota recebida pelo Brasil foi de 3.7, enquanto a do Chile foi de 7.3 e a dos outros países tendo em média 7.9. A corrupção desestimula o investimento privado, os IED’S,

Na Figura 02 abaixo pode-se observar os efeitos econômicos da corrupção entre Brasil e Chile entre 1997-2005 como forma de apresentação de correlação de indicadores.

devido ao seu “custo Informal”, pois aumenta o custo so inves-

Dos dados avaliados no quadro acima, pode-se comparar

timento produtivo. Reduz, principalmente, a eficiência da admi-

Brasil e Chile, em que se observa consumo do governo, carga

nistracão pública, levando à realização de serviços e aquisição

tributária, gastos em saúde e educação em relação ao PIB de

de bens de qualidade inferior ou superfaturados. Acarreta uma

cada país. Apesar de o Brasil gastar mais em saúde e educa-

perda de arrecadação do Estado, pois a corrupção estimula

ção que o Chile, observa-se que os índices de escolaridade são

a sonegação fiscal. Dessa forma, o que acaba acarretando é

mais altos no Chile, mostrando a ineficiência dos gastos nessa

uma diminuição do gasto social, com sua redução de eficiência,

área de interesse governamental no balanço final.

como na saúde e na educação. (FIESP, 2012)

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 63


CONSIDERAÇÕES FINAIS

REFERÊNCIAS

Frente aos dados e aspectos analisados, pode-se concluir

ARAÚJO, Emílio. Descentralização e financiamento da educação no Brasil e no Chile dos anos 1980 e 1990. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2006.

inicialmente que o Brasil está defasado em relação ao Chile nos quesitos PIB, IDH, níveis de escolaridade, carga tributária, dentre outros, mas sem o devido viés da corrupção como variável independente, que provocaria tais distorções e desvios. Pelos estudos citados conclui-se que a corrupção, comum

ARAÚJO, Marcelo, SANCHEZ Oscar Adolfo: A corrupção e os controles internos do estado. São Paulo:  Lua Nova  n.65  maio/ago. 2005. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0102-64452005000200006.

aos dois países, não seria um grande entrave para o desenvolvimento dos indicadores citados no Brasil, em se considerando que o Chile também possui componentes críticos de corrupção. Contudo, em se tratando do desempenho Estatal, pode-se perceber que o aproveitamento orçamentário no Brasil para a área da educação, entre outros indicadores, sofre mais interferência do que no Chile. De forma qualitativa, percebe-se uma interveniência negativa da corrupção para assuntos de âmbito Estatal em suas grandes áreas de atuação, cujos indicadores relacionados, tal como a Educação. Tal interveniência é sustentada pelos comparativos de

AZAMBUJA, Darcy:  Teoria geral do estado. 2ª edição. Rio de janeiro: Globo Editora 2008. BBC: Brasil foi única economia dos Brics a avançar em ranking de competividade, diz pesquisa . Disponível em http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/09/120905 _brasil_economias_bg.shtml. Acessado em 20 de Novembro de 2012. BLOG EDUCAÇÃO. Pesquisa compara acesso ao ensino superior no Brasil e no Chile. Disponível em: <http://www.blogeducacao.org.br/ pesquisa-compara-acesso-ao-ensino-superior-no-brasil-e-no-chile/>. Acesso em: 09 de Abril de 2012.

percepção de corrupção e de projeções de desempenho esperadas, caso não houvesse corrupção na esfera estatal. Com isso a pergunta problema e seu respectivo objetivo de pesquisa puderam ser solucionados parcialmente, com a verificação da situação de interveniência da Corrupção e nos resultados dos principais indicadores socioeconômicos e so-

CONTROLADORIA GERAL DA UNIÂO (CGU): Controle interno de combate á corrupção – ações da CGU em 2008. Disponível em http://www. cgu.gov.br/Publica. Acessado em 13 de Abril de 2013. DESARROLLO HUMANO EN CHILE, 2012, Disponível em http://www. desarrollohumano.cl/. Acessado em 12 de Abril de 2013.

cioculturais dos dois países. Ao que se percebe, não se tem uma clara percepção sobre os componentes quantitativos de relação entre a corrupção e o desempenho dos países. Novas pesquisas nessa área podem guardar um interesse em revelar a exata correlação que poderia existir entre os indicadores de corrupção e os indicadores de desempenho socioeconômico. Ainda assim, guarda-se uma preocupação com a construção de um sistema de variáveis hipotético (constructo) que possa considerar que a corrupção seria uma variável independente para os indicadores socioeconômicos e socioculturais, representados pela educação, ou apenas uma variável interveniente na relação entre

FIESP. Relatório corrupção: custos econômicos e propostas de combate. Disponívelem:<http://www.consocial.cgu.gov.br/uploads/ biblioteca_arquivos/140/arquivo_abe13bc2c5.pdf>. Acesso em: 09 de Abril de 2012. FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO: www.fundaj.gov.br, Mudanças estruturais na distribuição etária brasileira: 1950-2050 por Moreira, Morvan de Mello Acessado 14 de Dezembro de 2010. GLOBO, G1: Ranking mundial de índice de desenvolvimento humano (IDH). Disponível em www.g1.globo.com/brasil/noticia/2011/11/brasil-ocupa-84-posicao-entre-187-paises-no-idh-2011.html. Acessado em 23 de Abril de 2012.

potencialidade estrutural, ou pré-condições de desenvolvimento e os indicadores de desempenho socioeconômicos.

GOUVEIA, Luana. Ensino superior público e privado no Brasil

Outro limite que poderia ser explorado reside na verifica-

e no Chile desde as reformas educacionais de 1968 e de 1981

ção das esferas de poder executivo, legislativo e judiciário e

até a década de 2000: financiamento, acesso e desigualdade.

nas três instâncias existentes aqui no Brasil, representadas

Universidade de Brasília, 2009.

pela União, Estados e Municípios. Após esse detalhamento pode-se direcionar melhores formas de entendimento dessa

HERZ, Mônica; HOFFMANN, Andrea Ribeiro. Organizações in-

relação entre corrupção e desempenho socioeconômico e da

ternacionais: história e práticas. Rio de Janeiro: Elsevier: Cam-

educação propriamente.

pus, 2004.

64 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


INTERNATIONAL DEFENCE AND SECURITY PROGRAMME: Government defence programme anto corruption index. Disponível em http://government.defenceindex. org/. Acessado em 12 de Abril de 2013. MAGNOLI, Demétrio: Relações internacionais, teoria e história.

org/southerncone/pt/corrupcao/index.html. Acessado em 05 de Outubro de 2012.

NOTAS 1 Mestre em Administração; Professor do Centro Universitário Newton Paiva – Organizações Internacionais e Planejamento Estratégico para o curso de Relações Internacionais.

São Paulo. Editora Saraiva. 2011. 6ª tiragem. 370 pág. OBJETIVOS DO MILÊNIO: Educação básica de qualidade para todos. Disponível em: http://www.objetivosdomilenio.org.br/educacao. Acessado em 12 de Abril de 2013. Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE Country statistical profile: Chile. Disponível em: http://www.oecd-ilibrary. org/economics/country-statistical-profile-chile_20752288-table-chl. Acessado em 14 de Abril de 2013. Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE Country statistical profile: Brazil. Disponível em: http://www.oecd-ilibrary. org/economics/country-statistical-profile-brazil_csp-bra-table-en. Acessado em 14 de Abril de 2013a.

2 Alunos do 7º período do curso de Relações Internacionais, do Centro Universitário Newton Paiva. 3 Mestre em Administração - Professora da disciplina de Marketing Multicultural Internacional. 4 Segundo Relatório Corrupção: custos econômicos e propostas de combate. (FIESP, 2012) 5 Dados disponíveis em: http://cenariosdesenvolvimento.blogspot.com. br/2011/03/o-pib-de-2010-e-desaceleracao-da.html 6 Idem item acima. 7 Idem item acima.

ONE WORLD NATIONS ONLINE. Chile in figures. Disponível em: http: //www.nationsonline.org/oneworld/Country-Stats/Chile-statistics.htm>. Acesso em: 01 de Março de 2012. STF – Supremo Tribunal Federal. Relator da AP 470 analisa imputação de corrupção passiva a parlamentares do PP. Disponível em http://www.stf. jus.br/portal/cms/verNoticiDetalhe.asp?idConteudo=218247&caixaBus ca=N. Acessado em 12 de Abril de 2013. THE WOLD BANK. Dados e estatísticas. Disponível em: <http://translate. google.com.br/translate?hl=ptBR&langpair=en|pt&u=http://web.worldbank.org/WBSITE/EXTERNAL/COUNTRIES/LACEXT/CHILEEXTN/0,,m enuPK:325299~pagePK:141132~piPK:141109~theSitePK:325273,00. html>. Acesso em: 01 de Março de 2012. THE WOLD BANK.: Chile profile 2010. Disponível em http://www.enterprisesurveys.org/~/media/FPDKM/EnterpriseSurveys/Documents/Profiles/English/chile-2010.pdf. Acessado em 11 de Abril de 2013. TRANSPARENCY INTERNATIONAL: Chile presenta una baja percepción de corrupción según estudio de transparencia internacional.Disponível em http://www. transparency.org/home/search/09fe74faed1ccc4fa1a0d87cbf4c43ea/. Acessado em 12 de Abril de 2013. _______________________________:70% of governments fail to protect against corruption in the defence sector. Disponível em http://www. transparency.org/news/ pressrelease/70_of_governments_fail_to_protect_against_corruption_in_the_defence_sectorAcessado em 12 de Abril de 2013a. UNODOC: UNODOC e a corrupção. Disponível em: http://www.unodc. PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 65


BRASIL E ÁFRICA DO SUL: Paradigmas de Cooperação Felipe Xavier Faria Alvarenga1 Messias Borges dos Santos Júnior1 Renata Aparecida Pinto1 Rodney de Souza Pereira2 Leandro Cesar Diniz da Silva3

RESUMO: Este trabalho apresenta uma abordagem preliminar da relação de cooperação horizontal que se fortaleceu entre Brasil e África do Sul, por meio de políticas priorizadas no governo do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (2003 - 2010), rompendo com o modelo Norte-Sul, então vigente. Como opção metodológica, optou-se pela estrutura de uma revisão bibliográfica. Para justificar tal ação, apresenta-se o desenvolvimento histórico e similaridades entre os países, o que corrobora com a adoção da prioridade pela política de cooperação, defendida pela Teoria Liberal. Como exemplo desse ideal, introduziu-se o trabalho da organização não-governamental (ONG) Blood:Water Mission (BWM), cuja atividade consiste na mobilização individual iniciada nos Estados Unidos e refletida em grupos voluntários no Brasil, a favor de comunidades carentes na África do Sul. Essa tríade ilustra uma nova concepção teórica acerca da cooperação prática e a discussão concernente ao modelo horizontal em oposição ao vertical permite identificar as possibilidades de se realizar a integração entre os Estados. Palavras-chave: Cooperação. Brasil. África do Sul.

1 INTRODUÇÃO

76), para os liberalistas, as instituições ampliam o potencial para a

Há uma hierarquia na classificação do sistema internacio-

cooperação, visto que elas não apenas facilitam a realização dos

nal no que tange ao conceito de super, média, ou potência em

interesses compartilhados percebidos, mas podem mudar as for-

desenvolvimento. Considerando como critérios para caracteri-

mas pelas quais os interesses são percebidos.

zar uma média potência as capacidades materiais, medidas de

O Brasil e a África do Sul possuem similaridades históri-

autopercepção e reconhecimento de outros Estados, o Brasil, a

cas, culturais, econômicas e climáticas, além de terem supe-

África do Sul e a Índia são exemplos de países que se enqua-

rado desafios semelhantes nos últimos 50 anos, o que justifica

dram em tal definição. Sobre esses três países, ainda pode-se

ainda mais o apoio técnico brasileiro em áreas como redução

dizer que são potências regionais e juntos formam o bloco de

da pobreza, agricultura, saúde, energia renovável, ensino pro-

cooperação Sul-Sul entre Índia, Brasil e África do Sul (IBAS). No

fissionalizante, infraestrutura e mineração, corroborando com a

entanto, este trabalho limita-se a estudar a relação de coope-

demanda de apoio brasileiro por toda a África do Sul. Portan-

ração entre Brasil e África do Sul, aproximação justificada nas

to, intensificar a colaboração do Brasil com a África do Sul nos

afinidades apontadas pelos referenciais antropológicos, geopo-

campos geopolítico, econômico e social reflete ambições brasi-

líticos e históricos difundidas no texto, por meio de livros e do-

leiras e amplia sua influência como ator internacional.

cumentos publicados contendo conceitos teóricos liberalistas

Este trabalho propõe-se a investigar, criticamente, a relação

de Relações Internacionais e, ademais, busca-se caracterizar

entre Brasil e África do Sul e observar o caso Norte-Sul, visando

esses Estados e suas mobilizações de política externa.

estabelecer a real validade dessa relação. Para exemplificar o ideal

Como sistematizado pelo ideal liberalista de Relações In-

de cooperação liberalista, que preconiza organizações não-gover-

ternacionais que prevê cooperações entre Estados, seguindo o

namentais (ONGs) como relevantes atores sociais no cenário de

conceito de interdependência complexa que, segundo Keohane

desenvolvimento econômico-social e cultural, citou-se o evento

e Nye (2001, p. 272), foca nas relações transnacionais, transgo-

realizado em Belo Horizonte por voluntários da ONG norte-ame-

vernamentais e interestatais, examinando como certos padrões de

ricana Blood:Water Mission (BWM), em que um dos coautores

processos políticos afetam o comportamento dos atores, em vez

do artigo colaborou para a realização das atividades, servindo-se

de empregar uma explicação estrutural que justifique suas ações.

dessa pesquisa de campo como parte da metodologia. Para tal,

De acordo com Keohane (apud Richardson, 2001, p.76), é im-

optou-se pela realização de uma revisão literária ou revisão biblio-

portante notar que no Liberalismo, a importância das instituições

gráfica que, segundo Trentini e Paim (1999), é um modo crítico,

está muito presente, uma vez que, explica Richardson (2001, p.

meticuloso e analítico sobre um assunto ou área de conhecimento.

66 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


Além disso, pretende-se analisar com este estudo o relacionamento crescente entre o Brasil e a África do Sul, como

Já na África do Sul, de acordo com Ribeiro e Visentini (2010, p.26),

grandes oportunidades para ambos os Estados que, com suas respectivas vantagens e desafios, oferecem excelentes

O crescimento populacional, as reivindicações anti-

perspectivas de cooperação horizontal, sendo elas objeto de

-mercantilistas dos colonos e dos boers (camponeses

interesse das Relações Internacionais.

trabalhadores) e a expansão territorial pelas migrações autônomas foram a base para a proibição da imigração

2 REVISÃO DA LITERATURA

branca em 1717. [...] Durante o século XVIII, com a chegada dos huguenotes (calvinistas franceses) refugiados

2.1 Brasil e África do Sul

das perseguições religiosas, a população colonial cres-

As semelhanças entre Brasil e África do Sul têm início no his-

ceu e se tornou mais complexa.

tórico de exploração de suas riquezas e dominação da política do território, o que culmina na diminuição do crescimento autônomo

A aproximação sistemática e gradativa entre os Estados

dos Estados, que os condicionou a um atraso no desenvolvimen-

acontece no momento em que saem de um cenário interno de

to econômico e menor articulação no cenário internacional.

conflitos e mudanças, o fim do Apartheid na África do Sul e a re-

Acerca da posição geopolítica da África do Sul, Visentini (2010, p.12) afirma que

democratização do Brasil, assim como expõe Pimentel (2012), “as necessidades comuns de superação de nossos modelos excludentes de desenvolvimento levou-nos a estabelecer um

[...] o país tem enormes potencialidades que podem se transformar [...] gradativamente, num novo ciclo de desenvolvimento. A infraestrutura e a base econômica herdada

padrão diferenciado, soberano, de parcerias comerciais”. Pimentel (2012) disserta também sobre a geopolítica dos Estados, que propicia uma atitude de cooperação entre eles,

do regime racista, bem como a posição geopolítica e os imensos recursos minerais, propiciam à África do Sul as

[...] somos as nações com maior PIB industrial de nos-

condições necessárias a uma nova arrancada. [...] Para o

sos continentes [...] Essa posição de liderança regional

Brasil, a África do Sul representa uma parceria fundamen-

nos permite a ampliação do diálogo Sul-Sul em novas

tal, tanto para a política africana como para a global.

frentes, seja articulando e integrando as cadeias produtivas de ambos os continentes, seja reforçando a defe-

Sobre o Brasil, Lima (2005) afirma que,

sa de nossos interesses comuns de desenvolvimento social e econômico num mundo em transformação.

O Brasil tem se deparado com um contexto geopolítico regional estável, uma vez que já no final do século XIX e

2.2 Cooperações, perspectivas e definição

início do XX, havia resolvido a seu favor praticamente to-

A relação existente entre o Brasil e a África do Sul é de coo-

dos os conflitos territoriais com seus vizinhos, a ponto de

peração e para explicar adiante essa relação, faz-se importante

se autodenominar um “país geopoliticamente satisfeito.

buscar respaldo teórico no Liberalismo Institucional. Para Keohane (apud Richardson, 2001, p.75), o liberalismo nasceu do pen-

Outro elemento que aproxima as duas nações é a forma-

samento kantiano4 de organização de Estados comprometidos

ção étnico-cultural do povo. De um lado a África do Sul foi colo-

com a manutenção da paz. Richardson (2001, p.75) explica que,

nizada por holandeses, franceses e ingleses, do outro, o Brasil

de acordo com essa teoria, uma rede de instituições criadas para

recebeu portugueses, africanos, italianos e espanhóis. Como

promover a cooperação internacional em campos técnicos espe-

afirma Alencastro (2007, p.106),

cializados transformaria gradualmente o ambiente internacional, no sentido da cooperação e da paz.

Um novo contingente estrangeiro, os africanos, substitui

Uma vez que, para Keohane (apud Richardson, 2001, p.75), o

progressivamente os índios nos enclaves coloniais para

comportamento internacional não pode ser explicado simplesmen-

construir a nova sociedade que se formava no ultramar.

te em termos estruturais, seja por poder geopolítico, capitalismo,

De fato, embora submetidos à imigração forçada e à

ou independência comercial, deve-se levar em conta as escolhas

escravidão, os africanos são co-participantes, ao lado

que determinam quais regras, convenções, regimes e organiza-

dos portugueses, da colonização do Brasil.

ções formais regularão as relações internacionais em um dado

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 67


momento. Nesse sentido, discorre Moravcsik (2010), o pensa-

2.2.1 Iniciativa de cooperação Norte-Sul: Pesquisa de Campo

mento liberalista é distinto na natureza das variáveis que privilegia,

Uma das assertivas deste estudo é a validade de ONGs ame-

com foco em preferências estatais determinadas socialmente. Tal

ricanas como a BWM, no papel de agentes de cooperação em

pensamento, explica Moravcsik (2010), preconiza que o Estado

níveis diretos de indivíduo para indivíduo, de comunidade para co-

não necessita recorrer à força, como defendido pela teoria realista

munidade, de organização para organização, reconhecidos sob

de relações internacionais, cujo foco é a variação de recursos de

os parâmetros Norte-Sul e dos quais se espera que estimulem

poder coercitivo, para atingir seus objetivos. Para tanto, bastaria

pelo menos indivíduos e comunidades, ou com mais dificuldade,

apenas, como regra, convenção ou regime, por exemplo, intervir

organizações e o próprio Estado, a tomarem iniciativas semelhan-

na economia de um país, por meio de cooperação com foco na

tes, porém igualmente representativas e efetivas, o que, pretende-

importância da ausência do estado de guerra entre duas nações

-se, venha a somar, ainda que indiretamente, ao impacto positivo

democráticas em cooperação.

causado em comunidades alvo na África - nisso observa-se, ainda

Moravcsik (2010) esclarece que a teoria liberal defende as ações do Estado para além da política, condicionadas também ao

que indireta e minimamente, um exemplo de cooperação Sul-Sul entre autonomias internas das nações.

crescimento do poder econômico, ou seja, da estrutura e dinâmica

A BWM é uma organização não-governamental sem fins

do sistema capitalista. Isto é, em prol de tal crescimento, o Libera-

lucrativos que busca conscientizar e levantar verbas contra a

lismo sustenta que os Estados devem fazer alianças e coopera-

pobreza e a epidemia do vírus Human Immunodeficiency Vi-

ções, um dos pilares da interdependência complexa de Keohane.

rus (HIV) em comunidades africanas. Suas iniciativas simples contam com o envolvimento de comunidades em todo o terri-

Os liberais defendem que a condição universal da

tório americano e, há dez anos, impactam núcleos carentes em

política mundial é a globalização. Os Estados estão

diversas regiões do continente africano. O projeto foi fundado

e sempre estiveram arraigados em uma sociedade

pelo ativista Daniel Paul Haseltine, após sua visita ao continente

doméstica e transnacional, que cria incentivos para

em 2002 e tem intuito de levar àquela região, como explicou o

interações econômicas, sociais e culturais para além

próprio fundador no site do projeto, “as duas coisas que a África

de suas fronteiras5. (MORAVCSIK, 2010)

mais precisa - sangue limpo e água limpa”. Desde os primeiros anos de atividade, a BWM focou-se em

A Organização das Nações Unidas (ONU), em Assembleia

seu principal desafio, o projeto 1000 Wells, em prol da construção

Geral de 1959, considera profícua a cooperação liberal, como

de mil novas cisternas de água pela África, meta que foi recente-

salientado, a seguir, por Maciel (2012)

mente atingida e celebrada, porém as construções continuam. Os meios para que se cumprisse tal desafio foram desde apelos di-

“Dessa forma, pretendeu-se conferir um caráter mais

retos ao Governo dos Estados Unidos, divulgação em veículos de

congruente a essa ferramenta, ao reconhecer a possibi-

comunicação importantes, como o jornal americano “Washington

lidade de aprendizado e ganhos mútuos a partir de uma

Post”, até o envolvimento voluntário de comunidades americanas

relação de trocas entre partes iguais e/ou desiguais”.

que se propusessem a abrir mão de um mínimo de seu tempo e recursos, para somar forças com a garantia de que os resultados

Ou seja, os Estados envolvidos atingem seus interesses

a serem atingidos pela BWM eram certos.

de maneira pacífica, por auxílio mútuo, naquilo que precisam

Além de cisternas de água, a BWM também constrói centros

e não deixam de ganhar. Moravcsik (2010) acrescenta que

para tratamento de pessoas portadoras do vírus HIV, reduzindo

a abordagem liberalista é distinta por não estressar a dis-

significativamente o número de mortes por ação deste, sobretu-

tribuição do poder coercitivo, mas a informação e crenças

do garantindo prolongamento e incremento de qualidade de vida.

culturais, entre outras características inerentes dos Estados.

Para arrecadar verbas para a construção das cisternas e centros

Entretanto, não se desconsiderou com este trabalho que

de tratamento de HIV, a BWM mantém várias iniciativas em conjun-

a crítica sobre a cooperação do ponto de vista liberal tange

to com voluntários do mundo todo, a saber:

ainda aos níveis de desigualdade atuais que têm aumenta40 Days of Water: a campanha consiste em abdi-

do significativamente nas últimas décadas, demonstrando

l

um arranjo tão pouco condutivo dos valores liberais quanto

car-se de toda variedade de bebida de que se usufrui

àquele da Europa nos séculos XVII e XVIII, quando os ideais

diariamente, com exceção da água, por um período de

liberais foram originalmente formulados.

40 dias que, geralmente, coincide com o período da

68 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


quaresma católica. Não há um rigor com relação àquilo

Many people took off their shoes and walked barefoot

de que se abdica. Os adeptos são livres para participa-

up and down the hills of the Mangabeiras Park, where

rem como desejarem. Ao término deste período, todo o

the mile walk was held, as it’s common to walk bare-

dinheiro que seria gasto com o consumo de bebidas é

foot at the TTW walks, as an illustration of the reality in

doado à BWM.

Africa and a way to connect with the millions of Africans who cannot enjoy the comfort offered by a pair of shoes

Ride:Well: nesta campanha, ciclistas de todo o ter-

as they walk miles each day for water. Attendees were

ritório americano se reúnem para pedalar algumas mi-

made aware of the need for clean water and of the im-

lhas em favor da BWM, levando informações e realizan-

portance of each $1 donated at the walk, according to

do palestras por onde passam.

the equation that $1 = Clean Water for 1 African for 1

l

Year. (BLOOD:WATER MISSION, 2012) l

Lemon:AID: voluntários produzem e vendem limo-

nada caseira, comprometendo-se a doar o lucro para

Um dos aspectos interessantes do projeto é a simplici-

a BWM. Como suporte desta campanha, os indivíduos

dade com que se pode cooperar e como os resultados po-

e grupos adeptos recebem kits com cartazes, balões e

dem ser surpreendentes, visto que, na prática, cada dólar

panfletos para montar seu estande.

arrecadado poderá significar, entre outras formas de auxílio, um ano de água limpa, para um indivíduo na África. Para a

Water:Walks: esta campanha consiste na realização de

ONG, a dedicação dos voluntários no Brasil é um exemplo de

caminhadas de aproximadamente um quilômetro e meio,

envolvimento pessoal com a ação social, por parte de pes-

com o intuito de promover coesão entre os participantes

soas que sequer conhecem os membros das comunidades

e levar informações sobre o projeto às pessoas que ex-

ajudadas, mas optaram por estabelecer com elas, uma rela-

perimentam a caminhada, ou somente observam a mo-

ção de cooperação sustentável.

l

bilização. As modalidades podem ser diversas, variando

Vale ressaltar que a perpetuidade dos benefícios promovi-

desde caminhadas sem nenhum retorno direto monetário,

dos por iniciativas como as caminhadas realizadas no Brasil é

a caminhadas em que é feita a doação de um dólar ao

monitorada por agentes da ONG atuando in loco, com mem-

projeto, em nome de cada pessoa que comparecer, por

bros das comunidades ajudadas, de forma que eles mesmos

parte da ONG americana TakeTheWalk, cujos focos hu-

sejam responsáveis por manterem a disponibilidade dos recur-

manitários são a construção de centros educacionais e de

sos inicialmente fomentados.

saúde, doação de calçados, construção de cisternas de água limpa, entre outros.

Dessa forma, o trabalho de um ator transnacional de iniciativa vertical transbordaria à ação do Estado e inspiraria o contexto horizontal de cooperação.

Como plataforma auxiliar do estudo, a pesquisa lançou mão dos eventos TaketheWalk realizados em capitais como

2.2.2 Política de cooperação Sul-Sul

São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal e, mais especifica-

Priorizar o foco de cooperação entre Estados do sul não

mente, Belo Horizonte, em que as expectativas de envolvimento

significa preterir a cooperação Norte-Sul, mas a primeira torna-

da comunidade local e retorno direto monetário foram excedi-

-se mais viável dada as similaridades entre as necessidades

das. Cento e onze pessoas de diferentes lugares do Brasil e

dos países, como já foi exposto neste trabalho.

estrangeiros então presentes se registraram no evento que pro-

Não obstante, o rompimento, ainda que paliativo, com a

pôs a marcha dentro do Parque dos Mangabeiras, em prol dos

cooperação Norte-Sul, em que os países do norte, por serem

projetos de construção de cisternas de água limpa na África.

sumariamente desenvolvidos, ao passo que os dos sul estão

A caminhada em Belo Horizonte foi a segunda de uma

em desenvolvimento, configura uma relação de doador e ne-

série iniciada pelo grupo voluntário brasileiro, do qual um

cessitado, respectivamente. Contudo, se devido ao crescimen-

dos coautores deste artigo faz parte. Os esforços filantrópi-

to entre Brasil e África do Sul, ambos podem deter o controle

cos por parte do grupo receberam reconhecimento da ONG

de suas políticas internacionais, suas ações voltadas para o sul

americana. Além de apoio direto com materiais de suporte

propiciam a criação de cooperação bilateral. Ideologicamente,

para os eventos, a ONG publicou em seu site uma matéria

estes países tornam-se independentes da supremacia do norte

sobre a mobilização e destaca:

e têm seu valor de poder de influência salientado. PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 69


A primeira ação brasileira que pode ser apontada como inte-

A respeito das Relações Brasil-África no Século XXI, Aqui-

gração com o país africano foi a construção de um consulado na

no (2012) explica como o governo Lula buscou espaços não

Cidade do Cabo em 1918. Como observou Penna Filho (2008),

ocupados, “privilegiando as relações Sul-Sul e devolvendo ao Itamaraty parte de suas prerrogativas que haviam sido repassa-

O gesto do governo brasileiro demonstrou o seu inte-

das à área econômica”.

resse em estreitar as relações comerciais com a União

Naturalmente a nova agenda privilegiou as desigualda-

Sul-Africana, ampliando o horizonte do intercâmbio

des sociais, a fome e a necessidade de se construir um mun-

comercial do Brasil com uma região economicamente

do mais justo, o que, segundo Aquino (2012), “aproximou o

próspera e estrategicamente significante.

Brasil da África, com a construção de alianças de geometria variável, como o G-3 (Brasil, Índia e África do Sul) e o G-20,

No entanto, essa aproximação horizontal só passou a ocorrer através dos esforços do governo do ex-presidente

constituído por países que defendiam interesses agrícolas nas negociações na OMC”.

Luís Inácio Lula da Silva (2003 - 2010), que priorizou a in-

Concomitantemente com os preceitos de cooperação em

clusão do continente africano na agenda de política externa

aplicação no presente artigo, a política externa brasileira procurou

brasileira, a qual tem se expandido para além da América do

associar desenvolvimento social e econômico, mas também se

Sul, abrangendo outros países em desenvolvimento nos con-

dedicou à segurança internacional e atribuiu prioridade especial

tinentes africano e asiático. Isso contrastou com o governo

aos países da África Austral e aos de língua portuguesa, buscando

anterior, como explica Bueno (2008),

aprofundar seus laços eles. São três as áreas significativas daquele governo apresentadas como destaque nos acordos de coope-

O atual governo brasileiro não apenas tornou prioridade

ração firmados entre o Brasil e a África, a saber:

a reabertura de postos diplomáticos no continente africano, que haviam sido fechados durante a administra-

A primeira, que já havia sido iniciada pelo governo de

ção de Fernando Henrique Cardoso (de 1995 a 2002),

Fernando Henrique Cardoso, foi no combate à AIDS,

como os ampliou, elevando de 18 para 30 embaixadas

um dos mais graves problemas de saúde pública vi-

e dois consulados gerais.

venciado pelo continente africano. A segunda área é a da pesquisa agropecuária, com a instalação de um

Tal aproximação acentuou a presença de políticas externas

escritório da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pes-

brasileiras na África, como defende Ribeiro (apud Bueno, 2008),

quisas Agropecuárias) em Gana. Também receberam recursos os programas de treinamento na área agrí-

Esse movimento proporcionou maior intensidade nas

cola, com a capacitação profissional das instituições

relações Brasil-África, uma vez que também se pôde

de pesquisa agropecuárias de Angola, Cabo Verde e

observar o interesse de vários Estados africanos (a

Moçambique. Essa iniciativa ilustra um dos principais

exemplo do Benin, Guiné-Conacri, Guiné Equatorial,

slogans do presidente Lula, tanto no nível domésti-

Namíbia, Quênia, Sudão, Tanzânia, Zâmbia e Zimbá-

co como no exterior, o “combate à fome”. Por fim, a

bue) na abertura de postos diplomáticos no Brasil. En-

cooperação na área educacional inclui o programa

tre 2003 e 2006, o número de embaixadores africanos

de intercâmbio acadêmico nas áreas de graduação,

acreditados em Brasília saltou de 16 para 25.

pós-graduação e técnicos, em que jovens africanos estudam gratuitamente no Brasil. (AQUINO, 2012)

Ainda sobre a importância do governo Lula, é relevante ressaltar suas viagens realizadas à África com o intuito de

Observa-se que o Brasil, uma potência pacífica, asso-

mostrar o compromisso do governo com o aprofundamen-

ciava afinidades culturais com países africanos, buscando

to da cooperação, tanto na área comercial, quanto na área

reforçar seus interesses comuns no plano do Atlântico Sul,

técnico-científica. O presidente visitou países diversos, tais

além de apoio em fóruns multilaterais, como na Organização

como Angola, Burkina Faso e África do Sul, com o objeti-

Mundial do Comércio (OMC) e na ONU.

vo de melhorar o diálogo político. Para Lula, era necessário

Neste contexto, a pobreza, o meio-ambiente e os direitos

encontrar soluções duradouras para os desafios e ameaças

humanos são questões que não apenas ampliam a noção de

globais, refletindo, assim, o interesse da maioria.

segurança, mas também conferem sentido de comunidade e

70 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


de universalidade aos interesses brasileiros no Atlântico Sul.

cessidades dos dois países. Inerentemente, esse contraponto

Portanto, existe o apoio ao coletivo e não ao individual, ao

foi a mola do estudo de reconhecimento da investida do gover-

consenso e não à força, que nitidamente são traços liberalis-

no brasileiro no campo da cooperação internacional, com certo

tas, conforme defendidos anteriormente.

êxito, lado a lado com o Estado sul-africano.

Além do mais, ampliar as relações do Brasil com países e

Demonstrou-se com o evento assistido pela ONG americana

regiões fora do eixo tradicional da diplomacia reforça a carac-

Blood:Water Mission que, na cooperação Norte-Sul, não somente

terística universalista da política externa brasileira. Tal estraté-

o Estado exerce fundamental participação na cooperação entre

gia chama à realidade o fortalecimento de valores e interesses

nações, com resultados transformadores que convidam e inspi-

comuns “solidários”, notadamente no eixo Sul-Sul, tanto em

ram à ação tanto indivíduos inseridos em comunidades locais, ou

aspectos culturais e históricos, como econômicos e políticos,

internacionais, como o próprio Estado, em esforços contra uma

abrindo caminho para a projeção crescente dos interesses na-

das maiores crises humanitárias da atualidade. Visto que esta pes-

cionais no Atlântico Sul, área relevante para o Brasil na etapa de

quisa se limita a exemplificar ações de atores não-governamentais

consolidação de sua hegemonia regional.

do sul, inspiradas pelas ações do Norte em favor de um terceiro

Finalmente, os benefícios obtidos na cooperação horizon-

Estado, sem contudo analisá-las com profundidade, sugere-se,

tal, assim como na vertical, são vantagens em prol da interação

primeiramente, que seja conduzida uma extensão dessa análise,

entre Estados, logo a soma e não a substituição propõe uma

todavia apoiada em ações de um Estado do sul.

nova relação triangular: Sul-Norte-Sul. Fordelone (2012) cita a tendência internacional a esse formato,

Atenção especial foi dada à independência do sul da supremacia do norte, salientando seu poder de influência, uma vez que dessa maneira promove seu crescimento e detenção do controle

O caso da cooperação triangular é mais complexo, e

de suas políticas internacionais. Concluiu-se que a consequência

a motivação que é mencionada mais frequentemente

direta desse processo é a cooperação bilateral, uma vez que as

é a possibilidade de capitalizar as vantagens da coo-

iniciativas que entremeiam as relações entre Brasil e África do Sul

peração Norte-Sul e da cooperação Sul-Sul através da

foram de teor coletivo e têm reforçado a característica universalis-

cooperação triangular.

ta da política externa brasileira, abrindo caminho para a projeção crescente dos interesses nacionais brasileiros, em uma área estratégica na etapa de consolidação da hegemonia regional do Brasil.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conclusivamente, as possibilidades cruzadas oferecidas

O Brasil e a África do Sul trabalham para encontrar o cami-

por ambos os modelos são favoráveis à interação entre os

nho do desenvolvimento sustentável e a cooperação é crucial para

Estados em novo formato triangular, como meio de se capi-

transformar afinidades e interesses comuns em benefícios concre-

talizar vantagens. Portanto, um exercício de pragmatismo é

tos para ambos. Com base no referencial teórico disposto neste

efetivo ao combinar a interação Sul-Sul à Norte-Sul, resultan-

estudo, percebeu-se que as relações de cooperação entre Brasil

do no pensamento Sul-Norte-Sul.

e África do Sul se deram pela urgência histórica em se afirmarem como potências regionais, gerando ganhos mútuos.

A partir deste trabalho, pode-se inferir que é vital a manutenção dos estudos realizados pelos governos no que tange as

Pode-se inferir que a cooperação entre Brasil e África do Sul se

oportunidades de desenvolvimento que se lhes apresentarem,

apresenta como uma amplíssima saraiva de questões positivadas

com o intuito de se identificar a natureza das ações futuras a

e outras ainda a se trabalhar, isto é, um vasto campo de investiga-

serem tomadas cooperativamente, em favor do fortalecimento

ção, cujos pontos principais foram passíveis de se conferir, ainda

de seus laços.

que brevemente neste artigo, entre os quais estão as percebidas oportunidades promissoras de desenvolvimento econômico-políti-

REFERÊNCIAS

co dos “sócios” desse acordo, no cenário global.

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Conferência Nacional de Política Externa e Política Internacional - II CNPEPI “O Brasil no Mundo que vem aí”. Seminário: África. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2008.

Foi possível concluir com olhar crítico que as iniciativas de cooperação Sul-Sul somente foram consideradas efetivas, sob o escrutínio dos efeitos práticos encontrados na cooperação Norte-Sul. No entanto, priorizar o foco de cooperação horizontal

ALTEMANI, Henrique e LESSA, Antônio Carlos (Org). Relações internacionais do Brasil: temas e agendas. V.1. São Paulo: Saraiva, 2006.

não significou preterir completamente a vertical, mas a primeira também se mostrou viável, dadas as semelhanças entre as ne-

AQUINO, Edson Tomaz de. O Atlântico Sul e as Relações Brasil-África

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 71


no Século XXI. Disponível em: <http://www.internacionalistas.org/o-atlantico-sul-e-as-relacoes-brasil-africano-seculo-xxi/> Acessado em 20 de out. 2012. BANCO MUNDIAL e IPEA. Ponte sobre o Atlântico - Brasil e África Subsaariana: parceria Sul-Sul para o crescimento. Disponível em: <http://pt.scribd.com/doc/96217459/10/Historiadas-Relacoes-Brasil%E2%80%93Africa> Acesso em 30 de ago. 2012. BUENO, Chris. Cooperação entre Brasil e África. 2008. Disponível em: <http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=34& id=403> Acesso em 20 de out. 2012. CAMPOS, Diego Araújo. A África na Política Externa Brasileira. Disponível em: <http://mundorama.net/2008/04/08/a-africa-na-politica-externa-brasileira-por-diego-araujocampos/> Acesso em de out. 2012. FILHO, Pio Penna. O Brasil e a África do Sul: o arco atlântico da política externa brasileira (1918-2000). Porto Alegre: FUNAG/MRE, 2008. FODERLONE, Talita. Entrevista com Talita Foderlone. Disponível em: <http://bricspolicycenter.org/homolog/Event/Evento/165> Acesso em: 23 set. 2012. KEOHANE, Robert Owen; NYE, Joseph S. Power and Independence. Longman, New York, 2001. LIMA, Maria Regina Soares de. A política externa brasileira e os desafios da cooperação Sul-Sul. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo. php?pid=S0034-73292005000100002&script=sci_arttext> Acesso em 3 de set. 2012. MACIEL, Tadeu Morato. As teorias de relações internacionais pensando a cooperação. Disponível em: <http://www.pucsp.br/ponto-e-virgula/ n5/artigos/pdf/pv5-20-tadeumorato.pdf> Acesso em 3 de set. 2012. MORAVCSIK, Andrew. Liberal Theories of International Relations: A primer. Princeton University. Princeton University. 2010. Disponível em <www.princeton.edu/~amoravcs/library/primer.doc‎> Acesso em 30 out. 2013. PENNA FILHO, Pio. África do Sul e Brasil: diplomacia e comércio (19182000). Rev. bras. polít. int., Jun 2001, vol. 44, nº.1, p.69-93. Disponível em: <www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-73292001000100006&scr> Acesso em 30 de ago. 2012. PIMENTEL, Fernando Damata. Brasil e África do Sul: uma parceria para um novo mundo. Disponível em: <http://www.brasilmaior.mdic.gov.br/ artigos/1903> Acesso em 23 de ago. 2012.

Ideology and power. Estados Unidos. 2001. Disponível em: <http:// books.google.com.br/books?id=FM_tCJk51yQC&printsec=frontco ver&dq=James+L.+Richardson&hl=en&sa=X&ei=eP1wUtC6Dey-sQTLkYDgAw&ved=0CC0Q6AEwAA#v=onepage&q=James%20 L.%20Richardson&f=false> Acesso em 30 out. 2013. SANTANA, Ivo de. Notas e comentários sobre a dinâmica do comércio Brasil-África nas décadas de 1970 a 1990. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-73292003000200005&lng=en&nrm=iso> Acesso em 23 ago. 2012. SARAIVA, José Flávio Sombra. A nova África e o Brasil na era Lula: o renascimento da Política atlântica Brasileira. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S0034-73292010000300010&lng=en&nrm=iso&tlng=pt> Acesso em 23 ago. 2012. TAKE THE WALK: Blood:Water in Brazil. Disponível em: <http://www. bloodwatermission.com/brazil.php> Acesso em 12 de out. 2012. TAKE THE WALK BRASIL. Disponível em: <http://takethewalkbrasil.blogspot.com.br/p/blood-water-mission.html> Acesso em 12 de out. 2012. TRENTINI, M.; PAIM L.; Pesquisa em enfermagem. Uma modalidade convergente-assistencial. Florianópolis. Editora UFSC, 1999. VISENTINI, Paulo G. Fagundes e PEREIRA, Analúcia Danilevicz. África do Sul: História, Estado e Sociedade. Brasília: FUNAG/CESUL, 2010.

NOTAS DE FIM 1 Alunos do Curso de Relações Internacionais - Centro Universitário Newton Paiva Email: xavierfelipe5@gmail.com; juniorbhbr@yahoo.com; fun.aprenderingles@yahoo.com.br 2 Professor do Curso de Relações Internacionais - Centro Universitário Newton Paiva Email: rodneysp@bol.com.br 3 Coordenador do Curso de Relações Internacionais - Centro Universitário Newton Paiva Email: leandro.silva@newtonpaiva.br 4 Pensamento de Immanuel Kant (1724 - 1804), figura central da filosofia moderna. Disponível em <http://plato.stanford.edu/entries/kant/> Acesso em 30 nov. 2013. 5 Tradução nossa.

PIMENTEL, José Vicente de Sá. Relações entre o Brasil e a África subsaárica. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_art text&pid=S0034-73292000000100001> Acesso em 23 ago. 2012. RICHARDSON, James L. Contending liberalisms in world politics.

72 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


ASPECTOS DA RELAÇÃO FAMÍLIA X ESCOLA Clarice Tolentino Barbosa de Oliveira1 Joelma Lourdes Silva Rafacho2 Sérgio Rafacho3

Resumo: O presente artigo aborda questão relacionada ao cotidiano escolar da educação infantil envolvendo a interação entre Escola-Família no âmbito da educação. A sociedade contemporânea se reveste de novas estruturas e de novos valores que têm influenciado o comportamento das crianças e, consequentemente, gerado novas necessidades tanto para os educadores quanto para a gestão escolar. Concepções modernas de família têm emergido como fruto da diversidade cultural e do novo contexto global em que estamos inseridos. Buscou-se discutir essa questão sob a perspectiva da escola, da família, em seguida, apresentando aspectos da estrutura escolar que devem ser considerados a fim de que haja eficácia no processo educacional. Palavras-chave: Educação; Educação Infantil; Relação Família-Escola.

1 – INTRODUÇÂO

dizado da criança, mas também para o alcance dos objetivos

A eficácia educacional está diretamente relacionada à efeti-

educacionais que buscam contribuir para a formação do ho-

vidade dos processos de ensino e de aprendizagem que envolve

mem como ser único, dotado de aspirações, desejos e de so-

todas as ações pedagógicas que buscam a construção do co-

nhos de realização pessoal e profissional.

nhecimento por parte dos discentes e a formação destes para o

A separação de pais, a guarda da criança, processos judi-

convívio social. Sabe-se que na educação infantil é fundamental

ciais relacionados às crianças, problemas com drogas relacio-

que haja uma interação positiva entre família e escola, de modo

nados aos pais, crianças que são enteadas, crianças criadas

que a cooperação entre ambas propicie condições que favoreçam

pelos avós, pais com personalidades desestruturadas, filhos

o desenvolvimento da criança. (MONKEN, 2011).

adotivos, dentre outros, são exemplos das diversas ocorrências

A parceria Família-Escola tem sido bastante discutida

que envolvem a relação família x escola.

no atual âmbito educacional e tem sido evidenciada pelos

Baseado no exposto, este artigo se propõe a discutir a

profissionais da educação como um dos principais reflexos

questão sob a perspectiva da escola, da família e, em segui-

das mudanças sociais no desenvolvimento educacional das

da, apresentar aspectos da estrutura escolar que devem ser

crianças. No dia a dia, a escola se depara com vários proble-

considerados para que haja eficácia no processo educacional.

mas familiares existentes no atual contexto social. A mudan-

Através desta proposta de estudo, espera-se identificar como a

ça significativa de valores tem alterado a estrutura familiar da

escola tem desenvolvido seus aspectos estruturais e pessoais

sociedade e isto tem refletido diretamente na relação família

para se relacionar com esta nova realidade familiar.

x escola x criança. A relação família-escola tem sido objeto

Para desenvolvimento deste trabalho, foram levantadas

de estudo de diversos pesquisadores pertencentes ao âmbito

diversas argumentações relacionadas ao tema em questão

escolar devido a sua importância para o sucesso educacional.

que, em seguida, foram agrupadas e correlacionadas ao pro-

A atual sociedade tem apresentado modificações em sua estru-

pósito da pesquisa.

tura e a modificação em seus valores culturais tem influenciado

Inicialmente, a pesquisa abordou a evolução da sociedade

o comportamento das crianças e, consequentemente, gerado

em relação aos valores culturais, à estrutura familiar e também

novas necessidades tanto para os educadores quanto para a

em relação à influência dos avanços tecnológicos no compor-

gestão escolar. Novas concepções de família têm emergido na

tamento dos cidadãos e das famílias. Em seguida, passou-se

sociedade como fruto da diversidade cultural e do novo contex-

a abordar a evolução da escola no que se refere à preparação

to global em que estamos inseridos (GOKHALE, 1980).

para receber e se adaptar a estas mudanças na sociedade,

Sob outra perspectiva, a consideração da relação famí-

considerando as modificações em sua estrutura e a importân-

lia x escola na formação dos alunos deve demandar atenção

cia da capacitação dos educadores para se relacionarem com

especial por parte dos agentes educacionais, uma vez que a

os diversos tipos de famílias encontradas na sociedade e com o

parceria a ser estabelecida entre a família e os educadores é

novo perfil de alunos oriundos deste novo contexto social.

fundamental para o desenvolvimento não somente do aprenPÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 73


parte do compromisso com a transformação social:

2 – A PERSPECTIVA DA ESCOLA As faculdades humanas de pensar, falar, criar, imaginar, planejar e trabalhar nos tornam “seres humanos” e se desen-

É necessário afirmar o compromisso com a eficiência

volvem pelo processo de socialização. Como seres sociais,

do ensino. Isto não significa interpretar a eficiência tal

as crianças dependem do relacionamento com outros seres

como o fazem as abordagens tecnológica ou escola-

humanos e este convívio contribui para seu desenvolvimento.

novista que, de fato, jamais realizaram esta eficiência.

Através da linguagem e do convívio social, são desenvolvidas

Trata-se de rever o que entendemos por eficiência,

habilidades e, assim, a criança passa a transmitir pensamen-

perguntarmo-nos pela razão de ser e pelo a serviço

tos e emoções. Quando o educador percebe distorções em

de que e de quem esta eficiência se situa.

relação à forma com que estas habilidades se manifestam

Mas a busca da possibilidade de que a maioria da

nas crianças, passa a investigar, mesmo que instintivamente,

população tenha de fato acesso ao saber escolar é

as causas deste comportamento junto à família da criança

indispensável. A isto chamamos de ensino eficiente.

(MONKEN e CASTRO, 2010).

A preocupação com a eficiência não deve ser enten-

Para um melhor entendimento do contexto que envolve a

dida como a utilização de meios e técnicas sofistica-

relação família-escola, é importante que se tenha como ponto

das. Pelo contrário: trata-se de partir das condições

para análise a compreensão de que os processos de ensino

reais em que se desenvolve o ensino em nossas es-

e de aprendizagem ocorrem sob a perspectiva de três dimen-

colas e buscar formas de intervenção simples e viá-

sões que envolvem o contexto educacional: dimensões técnica,

veis. (CANDAu, 1988, p.17).

político-social e humana (CANDAU, 1983). CANDAU (1983) tem como ponto de partida a compreen-

Em relação à dimensão Técnica, como há intencionalida-

são da multidimensionalidade do processo de ensino-aprendi-

de na realização dos processos de ensino e de aprendizagem,

zagem, que é o objeto de estudo da didática, devendo este

podem-se identificar aspectos técnicos presentes nesta inten-

processo ser analisado de tal modo que articule (e não indivi-

cionalidade. Sobre esta dimensão, CANDAU (1983) apresenta

dualize) de forma consistente as dimensões humana, técnica e

os seguintes argumentos:

político-social. A figura 1 apresenta uma ilustração desta multicomo ação intencional, sistemática, que procura orga-

dimensionalidade.

nizar as condições que melhor propiciem a aprendizagem. Aspectos como objetivos instrucionais, seleção do conteúdo, estratégias de ensino, avaliação, etc., constituem o seu núcleo de preocupações. Trata-se do aspecto considerado objetivo e racional do processo ensino-aprendizagem (CANDAu 1983, p. 15). Já em relação à dimensão Político-Social, por se tratar de prática social, o processo de ensino-aprendizagem se encontra contextualizado e permeado por variáveis sociais. Sobre esta dimensão, CANDAU (1983) argumenta que: se todo processo de ensino-aprendizagem é “situado”, Fonte: elaborado pelos autores.

a dimensão político social lhe é inerente. Ele acontece sempre numa cultura específica, trata com pessoas

CANDAU (1983) defende a ideia de que nenhuma destas

concretas que têm uma posição de classe definida na

dimensões, se consideradas individualmente no processo de

organização social em que vivem. Os condicionamen-

ensino-aprendizagem, conseguirá resultados eficientes no âm-

tos que advêm desse fato incidem sobre o processo

bito educacional. Neste ponto, cabe salientar as considerações

de ensino-aprendizagem. [...] a afirmação da dimensão

que a autora faz sobre eficiência do ensino, quando argumen-

política da educação em geral, e de prática pedagó-

ta que a eficiência pedagógica deve ser repensada quando se

gica em especial, tem sido acompanhada entre nós,

74 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


não somente da crítica ao reducionismo humanista ou

paço para fala e escuta, carinho, atenção, respeito aos

tecnicista, frutos em última análise de uma visão libe-

seus direitos (MEC, 2006).

ral e modernizadora da educação, mas tem chegado mesmo à negação dessas dimensões do processo de ensino-aprendizagem (CANDAU 1983, p. 15).

Obviamente são perspectivas diferentes que têm o mesmo objetivo, ou seja, o desenvolvimento pleno da criança como cidadã. Porém, quando os educadores se deparam com situa-

Finalmente, em relação à dimensão humana, como os pro-

ções em que a estrutura familiar contribui para o desajuste in-

cessos de ensino e de aprendizagem estão constantemente

fantil, são demandadas dos mesmos ações que envolvem tanto

presentes no relacionamento humano, a abordagem humanista

a escola, como a criança e a própria família (GOKHALE, 1980).

deve ser considerada pelos educadores nas ações escolares. Sobre esta abordagem, CANDAU (1983) afirma que:

2.1 - Direito à Educação e do dever de educar, no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)

para a abordagem humanista, é a relação interpesso-

Como estamos falando do papel da escola na formação do

al o centro do processo. Esta abordagem leva a uma

cidadão, é importante considerarmos que todos os seus esfor-

perspectiva eminentemente subjetiva, individualista e

ços devem atender ao direcionamento dado pelas autoridades

afetiva do processo de ensino-aprendizagem. Para esta

brasileiras através de normatizações explicitadas através de do-

perspectiva, mais do que um problema de técnica, a

cumentos oficiais que devem ser conhecidos e estudados pelos

didática deve se centrar no processo de aquisição de

educadores (PEREIRA, 2009).

atitudes tais como: calor, empatia, consideração positiva incondicional. A didática então é “privatizada”. O

O Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) regulamen-

crescimento pessoal, interpessoal e intragrupal é des-

ta os direitos das crianças, sendo um conjunto de normas que

vinculado das condições socioeconômicas e políticas

visa a proteção integral da criança e do adolescente. Influencia-

em que se dá; sua dimensão estrutural é, pelo menos,

do pela Convenção Internacional dos Direitos da Criança das

colocada entre parênteses (CANDAU 1983, p. 14).

Organizações das Nações Unidas, realizada em 1989, o ECA foi criado em 13 de julho de 1990; sendo instituído como Lei Fede-

Não há como dissociar a dimensão Técnica, relacionada à

ral nº. 8.069, tendo como objetivo básico afirmar que crianças

intencionalidade e objetivos das ações escolares, das demais

e adolescentes devem ser vistos como pessoas em desenvolvi-

dimensões, uma vez que o contexto político-social (como clas-

mento, tendo direitos e proteção integral (BRASIL, 1990).

se social, estrutura familiar, renda familiar, dentre outros) e os aspectos subjetivos que envolvem as crianças influenciam diretamente em seu desenvolvimento como aluno e como cidadão

A Lei 8.069/90 - Estatuto da Criança e do Adolescente traz em seu artigo 4º:

(CANDAU, 1983). É dever da família, da comunidade, da sociedade em Em relação a esta mesma perspectiva, vejamos como o

geral e do poder público assegurar, com absoluta prio-

MEC aborda as dimensões relacionadas à prática educacional:

ridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à

Afetiva, ou seja, nas relações com o meio, com as ou-

profissionalização, à dignidade, ao respeito, à liberdade

tras crianças e adultos com quem convive; cognitiva,

e à convivência familiar e comunitária (BRASIL, 1990).

construindo conhecimentos por meio de trocas com parceiros mais e menos experientes e do contato com

Já em seu artigo 22, enfatiza ainda que:

o conhecimento historicamente construído pela humanidade; social, frequentando não só a escola como

Aos pais incumbe o dever de sustento, guarda e edu-

também outros espaços de interação como praças,

cação dos filhos menores, cabendo-lhes ainda, no in-

clubes, festas populares, espaços religiosos, cinemas

teresse destes, a obrigação de cumprir e fazer cumprir

e outras instituições culturais; e finalmente na dimensão

determinações judiciais (BRASIL, 1990).

psicológica, atendendo suas necessidades básicas como higiene, alimentação, moradia, sono, além de es-

Já o artigo 53 do Estatuto da Criança e do Adolescente

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 75


procura assegurar o direito da criança à educação. Vejamos o

comportamentais diferenciados, sendo muitos destes decor-

que diz este artigo:

rentes de desajustes familiares. Também é comum ao cotidiano escolar, a convocação, por parte da escola, dos pais destes

A criança e o adolescente têm direito à educação, vi-

alunos para reuniões sobre o comportamento de seus filhos a

sando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, ao

fim de se obter ações conjuntas que venham a contribuir para o

preparo para a cidadania e à qualificação para o traba-

desenvolvimento da criança. Porém, em muitos destes casos,

lho, assegurando-lhes os princípios:

como as atitudes das crianças refletem a baixa (ou inexistente)

I – igualdade de condições para o acesso e permanên-

definição de regras de conduta por parte da família, os profis-

cia na escola;

sionais da educação envolvidos se deparam com situações em

II – direito de ser respeitado por seus educadores;

que os próprios pais não sabem como agir diante das necessi-

III – direito de contestar critérios avaliativos, podendo

dades disciplinares de seus filhos (GOKHALE, 1980).

recorrer às instâncias escolares superiores;

A família não é somente o berço da cultura e a base da

IV – direito de organização e participação em entida-

sociedade futura, mas é também o centro da vida social. A

des estudantis;

educação bem-sucedida da criança na família é que vai servir

V – acesso à escola pública e gratuita próxima de sua

de apoio à sua criatividade e ao seu comportamento produti-

residência.

vo quando for adulto. A família tem sido, é e será a influência

Parágrafo único. É direito dos pais ou responsáveis ter ci-

mais poderosa para o desenvolvimento da personalidade e do

ência do processo pedagógico, bem como participar da

caráter das pessoas. Assim, pode-se dizer que as crianças pre-

definição das propostas educacionais (BRASIL, 1990).

cisam sentir que fazem parte de uma família (GOKHALE, 1980). Quando a criança é carente deste sentimento ou, quando

Percebe-se então, a importância de que os profissionais

percebe que existem desajustes de sua família em relação à

da educação não somente conheçam esta legislação, mas

de seus colegas, a parceria Família-Escola torna-se ainda mais

também contribuam para que o Estatuto da Criança e do Ado-

importante para o desenvolvimento desta e tem sido cada vez

lescente (1990) seja cumprido tanto no exercício da profissão,

mais discutida por pesquisadores relacionados ao campo edu-

quanto na percepção do contexto que envolve crianças e ado-

cacional (GOKHALE, 1980).

lescentes. A atuação do educador é fundamental para que as

As mudanças na estrutura e no comportamento familiar têm

metas estabelecidas para o desenvolvimento de crianças e

sido fortemente influenciadas por um novo contexto social que

adolescentes sejam alcançadas (MONKEN, 2011).

permeia a sociedade moderna. Segundo GRINSPUN (2001),

Analisando estas considerações do ECA, podemos iden-

estamos vivendo num mundo sem fronteiras em que há inver-

tificar a seriedade com que a educação deve ser tratada por

são de valores, desafios institucionais, crises nas instituições

seus profissionais, independentemente destes concordarem

sociais, com crises no próprio desenvolvimento do indivíduo. A

com aspectos familiares que envolvem a criança. É comum o

autora apresenta um contexto que ilustra estas mudanças:

educador se deparar com situações familiares com as quais não concorda, mas cabe ao mesmo assumir seu papel perante a sociedade e contribuir da maneira mais efetiva possível para que a criança seja considerada de forma adequada no processo e seus direitos educacionais garantidos (MONKEN, 2011).

a) explosões do desenvolvimento (a população, o conhecimento e as aspirações); b) a globalização, a modernidade/pós-modernidade, e a política liberal; c) as guerras, a cultura, a tecnologia e a formação do ho-

3 – A PERSPECTIVA DA FAMÍLIA A evolução da sociedade tem apresentado mudanças em relação a valores antes superestimados pelas famílias e que

mem (problemas críticos); d) a luta pelo poder, as questões econômicas, as ideologias, o poderio tecnológico, o desemprego (problemas básicos);

agora estão sendo desconsiderados pelas gerações atuais. O

e) os conflitos profundos: o eu e o mundo exterior, a ciência

aumento do índice de divórcios e traumas familiares na socie-

e o lado espiritual, a liberdade individual e a organização social;

dade tem se apresentado cada vez mais recorrente e, silencio-

f) os contrates: os países em desenvolvimento e os países

samente, tem afetado o comportamento de muitas crianças no

desenvolvidos, o conhecimento e sua utilização, o poder e sua

âmbito escolar (GOKHALE, 1980).

dominação, a riqueza de poucos e a miséria de muitos;

É comum encontrar crianças que apresentam aspectos

g) as faltas sentidas: moradia, alimentação, saúde, educa-

76 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


ção e segurança;

e com mais justiça social, numa visão local, nacional e mundial

h) as novas necessidades do complexo tecnológico: informática e comunicação;

(GRINSPUN, 2001). Segundo Minuchin (1990) e Monken e Castro (2010),

i) as questões religiosas e as questões éticas (grandes inquietações do mundo moderno).

como cidadãos, é importante que os educadores conheçam as diversas composições familiares de nossa sociedade, procurando conhecer também os contextos que as envolvem

A autora ainda afirma que não se pode mais pensar em

e que exercem influência na educação de seus integrantes.

uma educação voltada apenas para a questão da escolaridade

Família pode ser considerada como um grupo social com-

em termos de conhecimento e saberes específicos e sim numa

posto por dois ou mais integrantes, no qual cada membro

educação com objetivos (além destes) na formação de um ci-

tem um desempenho a cumprir a fim de que haja o bom fun-

dadão mais crítico e consciente para viver e participar do con-

cionamento desse grupo.

texto apresentado, numa perspectiva de ação visando a busca de valores comprometidos com uma sociedade mais humana TIPOS DE FAMÍLIA Família nuclear simples e tradicional Família monoparental

Família recasada Família não convencional Família de casal homossexual Família de pais separados Família de filhos adotivos Família uniparental

O quadro a seguir apresenta resultado de estudo sobre os tipos de família existentes em nossa sociedade: CARACTERÍSTICAS

Pai e a mãe estão presentes; todas as crianças são filhos desse mesmo pai e dessa mesma mãe. Não há mais qualquer adulto ou criança (que não sejam os filhos) morando na mesma casa. Grupo onde apenas a mãe (ou o pai) está presente, vivendo com seus filhos e também, eventualmente, com outros filhos menores de idade sob sua responsabilidade. Não mais nenhuma pessoa maior de 18 anos, que não seja filho, morando na mesma casa. Grupo em que o pai e/ou a mãe estão vivendo em nova união, legal ou consensualmente e podem ter seus filhos vivendo ou não juntos na mesma casa. Grupo mais amplo que consiste na família nuclear (pai, mãe, filhos) mais os parentes diretos de ambos os lados, existindo uma extensão das relações entre pais e filhos para pais, avós e netos. Adotam os filhos ou um deles faz inseminação artificial e arruma uma barriga de aluguel. Família dissolvida, porém os ex- cônjuges ficam com a guarda compartilhada dos filhos. Por algum problema de infertilidade o casal adota filhos ou, além de terem seus filhos biológicos, optam por adoção também. Essa família é definida assim quando o ônus da criação do filho é de apenas do marido ou da mulher, seja por viuvez, maus tratos, etc. Fonte: Monken e Castro (2010)4

Pode-se perceber como a estrutura familiar vem se modifican-

filhos para a escola esperando que suas diferenças sejam con-

do ao longo do tempo, cabendo às escolas ou, mais especifica-

sideradas e assimiladas pelos educadores. Como todas as

mente, aos educadores envolvidos no planejamento, na execução

manifestações familiares influenciam no comportamento das

e no acompanhamento das ações pedagógicas a consideração

crianças, é importante que os educadores busquem formas de

de todos os aspectos presentes nesta nova composição social

compreender cada família, criando estratégias de ensino volta-

que influenciam na educação infantil (GOKHALE, 1980).

das para que o desenvolvimento das crianças seja o mais as-

Sobre este assunto, MONKEN e CASTRO (2010) argumentam que ainda existem muitas escolas e famílias que se

sertivo possível, dentro das condições estabelecidas pela própria escola e pelas famílias (MONKEN e CASTRO, 2010)

apoiam em modelos tradicionais de educação e tentam educar o sujeito de uma forma que não cabe mais nos dias de

3 – A PARCERIA FAMÍLIA X ESCOLA

hoje, ou seja, uma educação voltada para a obediência e não

A relação família x escola é de fundamental importância na

para a construção de pontos de vistas na busca da conscien-

construção da identidade e autonomia da criança, uma vez que

tização e da cidadania.

o processo educacional contribui para que a mesma adquira

É conhecido que atualmente temos diversos tipos de es-

segurança, sentindo-se amada tanto pelos pais quanto por

truturas familiares presentes na sociedade e que enviam seus

seus professores. Porém, com as modificações percebidas na

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 77


estrutura e nos valores familiares, uma nova identidade familiar

que a criança inicia sua educação, a construção de sua identi-

tem sido percebida nas relações sociais e influenciado com-

dade e recebe as primeiras influências de sua cultura. Também

portamentos e evidenciado novas necessidades de preparação

argumenta que toda proposta pedagógica de qualquer institui-

das escolas para acolhimento das crianças oriundas destas fa-

ção educacional deve ser construída em parceria com a comu-

mílias (GOKHALE, 1980).

nidade e com a família, favorecendo a inclusão dessas famílias

Esta nova identidade familiar tem demandado das escolas uma preparação diferenciada em relação ao antigo mode-

na escola, desde a construção da proposta até a avaliação de sua aplicação no decorrer do processo.

lo familiar no qual os valores culturais eram diferentes do atual

Ainda segundo MONKEN (2010), para que a participação

contexto familiar. A identificação e o estudo dos atuais valores

das famílias ocorra e para que haja o binômio família/escola é

culturais presentes na sociedade moderna, bem como da nova

imprescindível pensar em aspectos relacionados a esta parce-

estrutura familiar é fundamental para o planejamento da vida es-

ria, dentre os quais destaca:

colar no que se refere à estrutura física e pedagógica, à capaciConsiderar as diversas estruturas e formas de or-

tação de professores, à abordagem educacional, dentre outros

l

(GOKHALE, 1980).

ganização familiar;

Outro aspecto importante que deve ser conhecido está re-

l

Organizar momentos de trocas de experiências e

lacionado à influência dos avanços tecnológicos no comporta-

discussões para que as famílias compartilhem seus

mento das famílias e principalmente das crianças. A presença

pontos de vistas, expectativas, desejos, dificuldades e

significativa de jovens e crianças nas redes sociais (e outros ins-

críticas relacionadas à escola;

trumentos de integração social) desenvolvidas na internet tem

l

sido objeto de estudo de muitos pesquisados devido à influ-

lar, não apenas em festas e reuniões pontuais, fazendo

ência que estes instrumentos têm exercido no convívio familiar

com que ela seja ouvida e que participe também da

(GOKHALE, 1980).

tomada de decisões;

Essa nova realidade demanda da escola um planejamen-

l

promover a participação da família na rotina esco-

respeitar a diversidade cultural, étnico-racial, religio-

to adequado e flexível que deve ser desenvolvido em conjunto

sa e sexual das famílias;

pelos profissionais envolvidos diretamente na educação infantil,

l

visto que o impacto dessa nova realidade social na formação da

e de sua família desde a sua entrada na escola até sua

considerar todo o processo de formação da criança

criança é significativo e envolverá sua formação como cidadão

saída;

(GOKHALE, 1980).

l

De acordo com CASTRO (2002), a família e a escola, como instituições sociais nas quais o indivíduo permanece sob suas

incentivar o entendimento dos direitos da criança

e do adolescente assegurando-lhes estratégias para o alcance desses direitos; fazer com que a família participe do planejamento,

ações durante um bom tempo de sua existência, exercem um

l

poder de inculcação de princípios sociais na formação desse

da execução, do acompanhamento e da avaliação de

indivíduo. A família é considerada não só instância de reprodu-

todo processo educativo na instituição.

ção de valores, de condutas e normas sociais que regem a convivência entre as pessoas, como também instância de reprodução de representações e de formas de ver e de viver a vida.

Em todas as abordagens educacionais relacionadas aos processos educativo e formativo, percebe-se uma unanimida-

Segundo Bourdieu (2001) e Castro (2002), a família, en-

de no que se refere à necessidade de participação ativa dos

quanto instituição social tem um papel determinante na manu-

pais nas atividades pedagógicas promovidas pela escola. Po-

tenção da ordem social, na reprodução, não apenas biológica,

rém, existem relatos de professores que apontam para o pouco

mas social, isto é, na reprodução da estrutura do espaço social

comprometimento de uma parcela significativa dos pais nestas

e das relações sociais.

atividades, gerando obstáculos na construção da parceria.

Percebemos, então, que a escola deve agir de forma inclu-

OLIVEIRA e ARAÚJO (2010) apresentam o modelo de

siva buscando considerar o indivíduo como sujeito de direitos

Joyce Epstein, que defende a existência de cinco tipos de en-

que está associado a seus valores culturais, familiares, às suas

volvimento da família com a escola:

crenças, interesses e pessoas de seu convívio social. De acordo com MONKEN (2010), a família é uma instituição

a) os pais ajudarem os filhos em casa, que diz respeito

essencial no processo educativo do sujeito, pois é na família

à função dos pais em atender as necessidades bási-

78 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


cas dos filhos e em organizar a rotina familiar diária;

premissa, entendemos que a escola atingirá sua fun-

b) os professores comunicarem-se com os pais, que

ção social: ensinar em todos os aspectos e contextos

se refere à função da escola de informar os pais acer-

(MONKEN, 2010 p. 84-85)

ca do regulamento interno da escola, dos programas escolares e dos progressos e dificuldades dos filhos;

O professor tem papel protagonista nesta relação, pois na

c) envolvimento dos pais na escola, apoiando volunta-

educação infantil é o elo principal em se tratando da aproximação

riamente a organização de festas e alunos com dificul-

escola/família, devendo participar tanto do planejamento quanto

dades de aprendizagem;

(obviamente) da execução e acompanhamento, relatando junto

d) envolvimento dos pais em atividades de aprendi-

à coordenação de sua série, a evolução de todo o processo de

zagem, em casa, participando da realização de traba-

aproximação, dos avanços, das necessidades de superação de

lhos, projetos e deveres de casa;

resistências e outros obstáculos que venham a surgir. Por outro

e) envolvimento dos pais na direção das escolas, in-

lado, os coordenadores educacionais inseridos no processo de-

fluenciando e participando da tomada de decisões,

vem acompanhar efetivamente as ações propostas, dando supor-

se possível.

te aos professores e, principalmente, considerando que o relacionamento com pais de alunos inevitavelmente envolve sentimentos

De acordo com Hernandes (1995) e Oliveira e Araújo (2010) é importante que a escola desenvolva ações que favoreçam a

e emoções fortes que influenciam no comportamento de todos os agentes envolvidos (MONKEN, 2010).

aproximação dos pais, ao mesmo tempo em que deve haver abertura por parte destes para buscar o convívio com a escola

4 – CONSIDERAÇÕES FINAIS

que favoreça a educação de seus filhos. Tais atitudes decorrem

As mudanças sociais, no âmbito das relações interpesso-

da noção da escola de que o envolvimento dos pais aparece

ais e familiares não têm afetado apenas o grupo em que os

relacionado à participação e colaboração nas atividades pro-

membros, com suas peculiaridades, estão inseridos. Estudos

postas pela escola e no interesse pelo desempenho de seus

comprovam que as várias estruturas familiares hoje existentes

filhos. As expectativas quanto à participação dos pais envolvem

afetam as crianças em seu processo de desenvolvimento, inclu-

o acompanhamento da tarefa de casa ou a formação do aluno

sive no que se refere ao processo educacional. Essas mudan-

em termos de disciplina, respeito e comportamento adequado.

ças levam à criação de novos paradigmas que vêm a influenciar

Um aspecto importante em relação ao papel da escola na

o desempenho escolar e urge uma reavaliação dos objetivos

construção desta parceria com a família está associado à forma-

da escola e de como inserir estes novos modelos familiares na

ção e preparação do professor. Monken (2010) argumenta que:

construção de um aprendizado efetivo, não só cognitivo, mas também afetivo e social.

Há um papel social, quando existe uma realização

Certamente não se trata apenas de um, mas sim de muitos

de práticas pedagógicas competentes e socialmente

desafios que envolvem a prática de profissionais a serem dire-

comprometidas para uma melhor formação e realiza-

cionados por ações que busquem a realização e o alcance dos

ção desse indivíduo.

objetivos educacionais relacionados ao papel da escola.

Nesse caso, quando pensarmos nessas premissas em

O Educador, independente de seu posicionamento ideo-

relação à função da escola, é necessário investir na for-

lógico, a cada nova turma de alunos que assumir, sempre terá

mação do professor, para que este saiba sua função na

novos desafios, devendo superá-los com habilidades e compe-

instituição, pois somente fará diferença aquele docen-

tências que favoreçam o alcance dos objetivos de seu trabalho,

te que entender o papel da escola inclusiva e cidadã;

ciente que o comprometimento aliado à dedicação será funda-

aquele Ser crítico, conhecedor, ativo, pesquisador e

mental para que seu trabalho se desenvolva com sucesso.

reflexivo em relação ao papel social da escola. Nesse

Tanto a família quanto a escola têm papéis estruturais na

contexto, o professor estará aberto para conhecer as

formação dos alunos, devendo, portanto, desenvolver ações

políticas públicas para a educação; participará, jun-

que favoreçam o progresso educacional da criança. Para tanto,

tamente com os alunos, com a comunidade e a com

é necessária a aproximação entre ambas, sendo o professor o

família, da construção da proposta pedagógica da es-

principal elo para que esta aproximação aconteça de forma efe-

cola, bem como executá-la, acompanhar as mudanças

tiva e eficiente. A busca pela eficiência educacional passa por

e os desafios, avaliá-la continuamente. Ao partir dessa

aspectos técnicos que devem ser aplicados em sala de aula,

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 79


porém a eficácia da técnica está diretamente associada a consideração dos aspectos subjetivos e sociais da criança. Para que as metas educacionais sejam alcançadas, há a necessidade de esforço mútuo e organizado, de modo que os pais se envolvam com as atividades propostas pela escola, propiciando aos filhos condições para que o desempenho deles atenda às expectativas no que diz respeito ao desenvolvimento da criança rumo à formação de um cidadão crítico e sujeito educando autônomo comprometido com a construção da democracia e com a justiça social. REFERÊNCIAS BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 2001. BRASIL. MEC – Coordenação de educação Infantil – DPEIEF/SEB – Revista CRIANÇA – do professor de educação infantil. Brasília, DF, nº. 42, dez/2006. CANDAU, V. M., A didática e a formação de educadores – Da exaltação à negação: a busca da relevância. In: A didática em questão. Petrópolis, Vozes, 1983, p. 13-24.

PEREIRA, Kely Cristina. Estrutura e Funcionamento do Ensino Fundamental e Médio: Modalidade a Distância. Revisora: Necy Maria de Campos Castro. Centro Universitário Newton Paiva. Minas Gerais: 2009.

Notas de Fim 1 Graduada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Norte de Minas (1987) e pós-graduada na área de Supervisão Pedagógica e Educação a Distância., professora do Centro Universitário Newton Paiva. Email: claratb@newtonpaiva.br 2 Graduada em Pedagogia pelo Centro Universitário Newton Paiva, profissional da educação do Colégio Batista Mineiro. Email: jorafacho@gmail.com 3 Mestre em Educação Tecnológica pelo CEFET-MG; especialista em Finanças pelo IEC-PUC-MG e Administrador pela PUC-MG, professor do Centro Universitário Newton Paiva, pesquisador do grupo AMTEC/ lattes.cnpq. Email: srafacho.prof@newtonpaiva.br 4 Quadro extraído do material didático da disciplina Sujeitos, Saberes e Conhecimento, cursado no terceiro período do curso de Pedagogia do Centro Universitário Newton Paiva, 2010.

CASTRO, Cláudio de Moura. Escola para a cidadania. S.n.t.: 23 dez. 2002. Disponível em: <http://www.namodemello.com.br/pdf/tendencias/cidadaniaclaudio .pdf>. Acesso em: 14 out. 2012. GOKHALE, S. D. A família desaparecerá? In: Revista Debates Sociais. Nº. 30, Ano XVI. Rio de Janeiro, CBSSIS, 1980. GRINSPUN, Mirian Paura Sabrosa Zippin. (Org.) Educação tecnológica: desafios e perspectivas, 2° edição, São Paulo: Cortez, 2001. HERNÁNDEZ, A. M. S. A relação escola e família na opinião de seus agentes. Dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Católica de Campinas-SP. 1995. MONKEN, Eliane M. F. Educação Infantil. Modalidade a Distância. Centro Universitário Newton Paiva. Minas Gerais: 2011. MONKEN, Eliane M. F.; CASTRO, Necy M. C. Sujeitos, Saberes e Conhecimento. Modalidade a Distância. Centro Universitário Newton Paiva. Minas Gerais: 2010. MINUCHIN, Salvador. Famílias: Funcionamento & Tratamento. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990. OLIVEIRA, Cynthia B. Evangelista de; ARAÚJO, Claisy Maria Marinho. A relação Família-escola: interseções e desafios. Disponível em: http:// www.scielo.br/scielo.php?pid =S0103166X2010000100012&script=s ci_arttext#link01. Acesso em: 14 out. 2012.

80 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


SÍNDROMES DEMENCIAIS, HOMOCISTEÍNA E VITAMINAS DO COMPLEXO B Gisele Santos Gonçalves 1,2 Flávia Batista Pinto Coelho1 Josianne Nicácio Silveira1 Maria das Graças Carvalho1 Luci Maria Sant’Ana Dusse1

Resumo: O diagnóstico precoce de demência permite identificar as formas tratáveis, bem como prevenir e minimizar os efeitos da doença. Uma associação entre demência e deficiência de vitamina B12, que resulta em hiperhomocisteinemia, tem sido sugerida na literatura. Vários pesquisadores relataram uma melhor recuperação da função cognitiva nos casos em que a suplementação de vitamina B12 foi feita em pacientes com o diagnóstico inicial de demência. Entretanto, algumas questões sobre os efeitos neurotóxicos da homocisteína ainda precisam ser comprovados. Não há dados suficientes para comprovar a correlação entre suplementação de vitamina B12 e a melhora da função cognitiva em pacientes com demência e níveis plasmáticos reduzidos dessa vitamina. Estudos clínicos aleatórios bem definidos com relação à faixa etária dos pacientes, grau de demência, tempo de manifestação dos sintomas, história de doença vascular, bem como o ponto de corte da homocisteína são necessários para elucidar a relação causa/efeito entre hiperhomocisteinemia e demência. Palavras-chave: Síndromes demenciais. Doença de Alzheimer. Homocisteína. Vitaminas do complexo B.

Introdução

em seus familiares (FRIDMAN et al., 2004). Os exames labo-

O envelhecimento da população mundial é um fenômeno

ratoriais obrigatórios na investigação etiológica de uma sín-

crescente com implicações diretas nos sistemas de saúde pú-

drome demencial incluem o hemograma, as provas de fun-

blica. As primeiras mudanças observadas no envelhecimento

ção tireoidiana, hepática, renal, as reações sorológicas para

normal manifestam-se como déficits leves na memória imediata.

sífilis, para HIV e a dosagem de vitamina B12 (CARAMELLI &

As síndromes demenciais são morbidades geralmente degene-

BARBOSA, 2002; APRAHAMIAN et al., 2009).

rativas e progressivas que implicam grandes transtornos mental, físico e psicológico. São adquiridas e cursam com declínio

Homocisteína

de memória juntamente com outro déficit em domínio cognitivo

A homocisteína é sintetizada a partir do metabolismo da

como linguagem, visuoespacial ou executivo, suficiente para in-

metionina, aminoácido essencial encontrado na carne e deriva-

terferir socialmente com o indivíduo (NITRINI et al., 2005).

dos de produtos animais. A metionina é convertida a S-adenosil-

As síndromes demenciais atingiram proporções epidêmi-

-metionina que é demetilada para formar S-adenosil-homociste-

cas, com um valor estimado de 4,6 milhões de novos casos

ína e posteriormente hidrolisada a adenosina e homocisteína

no mundo em cada ano. Dentre essas, a doença de Alzheimer

(SCOTT & WEIR, 1988).

(DA) e a isquemia cerebrovascular são as mais importantes. Es-

O excesso de homocisteína no sangue, que caracteriza a

sas síndromes estão associadas à aterosclerose, anormalidade

hiperhomocisteinemia, predispõe a formação de coágulos san-

microvascular cerebral e hipertensão arterial, sendo frequente

guíneos e de depósitos de gordura nas paredes dos vasos san-

encontrar pacientes que apresentam DA e doença vascular

guíneos, aumentando sua rigidez e dando origem à chamada

(CARAMELLI & BARBOSA, 2002).

aterosclerose (GEBARA & MATIOLI, 2006).

Embora fortemente relacionadas à idade, as síndromes de-

A hiperhomocisteinemia está associada à ativação e

menciais não são uma parte inevitável do envelhecimento, mas

agregação plaquetária, ativação da elastase, aumento do

constituem uma doença provocada pela exposição a vários fato-

depósito de cálcio arterial, formação de hidroxicolesterol

res de risco não genéticos, dentre esse, a idade e a elevação das

altamente aterogênico, degradação de ácidos graxos poli-

concentrações plasmáticas de homocisteína (SMITH, 2008).

-insaturados, formação de lisolectina, modificação aldeídica

O diagnóstico precoce da demência é importante, pois

dos restos de lisina, alterações nos receptores de lipoprote-

ele permite a identificação das formas tratáveis, bem como

ínas de baixa densidade, aumento na proporção de forma-

prevenir e minimizar os efeitos da doença nos pacientes e

ção de placa ateromatosa em grandes artérias, estímulo da

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 81


proliferação de músculo liso vascular, indução da prolifera-

Quando a via da remetilação está saturada ou quando há

ção de células musculares lisas, aumento da oxidação da

necessidade de síntese de cisteína, a homocisteína é meta-

LDL e comprometimento da bioaviabilidade do óxido nítrico

bolizada pela via da trans-sulfuração, onde ocorre a conden-

(SESHADRI & WOLF, 2003). Dessa forma, a hiperhomocis-

sação irreversível com uma serina, pela cistationina β sintase

teinemia aumenta o risco de acidente vascular cerebral, po-

(CβS), formando cistationina. A vitamina B6 é um co-fator

dendo ter um efeito neurotóxico direto que pode causar lesão

essencial para esta reação. A cistationina é, posteriormente,

cerebral e transtornos neuropsiquiátricos. A homocisteína

convertida em cisteína que é metabolizada para sulfato e ex-

apresenta, ainda, um efeito potencializador do risco cardio-

cretada na urina (SELHUB & D’ANGELO, 1997).

vascular quando associado à hipertensão, ao tabagismo e ao diabetes mellitus (GEBARA & MATIOLI, 2006).

O metabolismo da metionina é regulado pela disponibilidade de SAM. Ocorre ativação da enzima CBS na presença de SAM, que também inibe a metilenotetraidrofolato reduta-

Metabolismo da homocisteína

se (MTHFR), que converte 5,10 MTHF em 5-MTHF. O SAM é

As vitaminas do complexo B, vitamina B12, B6 e B9 (áci-

dependente da metilação de glicina que remove o excesso

do fólico), são essenciais para o metabolismo da homocisteí-

de grupos metil e é inibida por metiltetraidrofolato (GUERRA-

na. Essa pode ser metabolizada pelo ciclo da remetilação ou

-SHINOHARA et al., 2008).

pela via da transulfuração.

O SAM é o mais importante doador de grupos metil no

No ciclo da remetilação, a homocisteína é convertida a

cérebro e a metilação da homocisteína está relacionada à

metionina por meio de duas reações distintas. A primeira ocor-

integridade e manutenção de mielina, síntese e inativação de

re no fígado, onde parte da homocisteína é remetilada pela

neurotransmissores, síntese e metilação de DNA e RNA. A

betaína homocisteína metiltransferase, que atua como um do-

etiologia de diversas doenças psiquiátricas e neurológicas

ador do grupo metil. A segunda reação de remetilação ocorre

está relacionada a distúrbios na sua metilação e o aumento

na maioria dos outros tecidos e envolve a transferência do ra-

da concentração de homocisteína no plasma é fator de risco

dical metil do N5 -N10- metiltetraidrofolato (5,10 MTHF) para

para tais doenças (OBEID et al., 2007). A carência de vitami-

a vitamina B12 resultando em metilcobalamina. A enzima me-

na B12 é frequentemente acompanhada por desordens neu-

tionina sintetase (MS) catalisa a transferência do radical metil

rológicas ou psíquicas que podem preceder o aparecimento

para a homocisteína, formando metionina ou metil-homocis-

da anemia megaloblástica (LOIKAS et al., 2007).

teína. Após a transferência do grupo metil, o metiltetraidro-

A vitamina B6, na forma de fosfato de piridoxal, atua

folato (MTHF) é denominado tetraidrofolato (THF), o qual é

como co-fator no processo de regeneração do ácido N5-me-

um substrato importante para síntese da base nitrogenada

tiltetrahidrofolato (GUERRA-SHINOHARA et al., 2008).

timina, essencial para a duplicação do DNA que precede a divisão celular (GUERRA-SHINOHARA et al., 2008).

A vitamina B9 (ácido fólico ou folato) na forma de N5-metil-tetrahidrofolato doa um grupo metil para a formação

A metionina é precursora de S-adenosilmetionina (SAM),

de metilcobalamina (GUERRA-SHINOHARA et al., 2008). O

doador universal do grupo metil e importante na síntese de

ácido fólico é uma vitamina importante para o crescimento e

creatina, fosfolipídeos, neurotransmissores, bem como nas rea-

divisão celular, bem como para a síntese de DNA e RNA, sen-

ções de metilação de DNA e RNA (GUERRA-SHINOHARA et al.,

do de particular importância durante a infância e gravidez.

2008; SELHUB & D’ANGELO, 1997).

A deficiência de ácido fólico está associada ao compro-

Quando há deficiência de vitamina B12, a transferência do

metimento do crescimento, anemia, perda de peso, distúrbios

radical metil do MTHF não ocorre e, desta forma, não há for-

digestivos e comportamentais. Na gestação, esta deficiência é

mação de tetraidrofolato, o que compromete a síntese de DNA

apontada como uma causa grave de retardo na mielinização do

(GUERRA-SHINOHARA et al., 2008).

sistema nervoso do feto (LOVBLAD et al., 1997).

A vitamina B12 atua também na isomerização do L-metilmalonil-coA em succinil-coA. A L-metilmalonil Coenzima A

Fontes de vitaminas do complexo B

mutase converte metilmalonil-coA em succinil-coA. Esta rea-

Vitamina B12: as fontes usuais de vitamina B12 são os

ção bioquímica possui um papel importante para produção

produtos de origem animal, carne, leite, ovos, peixe e mariscos,

de energia proveniente de gorduras e proteínas e um dos

além de cereais prontos fortificados. A biodisponibilidade de vi-

produtos, a succinil-coA, é importante também para a síntese

tamina B12 em seres humanos a partir de ingestão de peixe,

de hemoglobina (GUERRA-SHINOHARA et al., 2008).

carne de carneiro e frango, é, respectivamente, 42%, 56-89% e

82 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


61 a 66%. A absorção desta vitamina após ingestão de ovos é

(cerca de mil vezes maior que a de vitamina B12) (ERDOGAN

reduzida comparando-se com a absorção de outros produtos

et al., 2010). Assim, a inclusão da determinação do ácido

de origem animal (WATABE, 2007).

metilmalônico nos exames de acompanhamento de pessoas

Ácido fólico: vegetais de folhas verdes, frutas, legumes,

idosas é bem vinda.

frutas cítricas, fígado e grãos integrais, castanhas, feijão e ervilhas e cereais prontos fortificados (WATABE, 2007). Vitamina B6: frutas não cítricas, carnes de aves de gado,

HERP (homocisteína-inducible endoplasmic reticulum stress protein)

feijão, aspargo, repolho e alcachofra, banana, castanha, couve,

Estudo envolvendo uma proteína conhecida como HERP

espinafre, batata-doce, abóbora, fígado, grãos integrais, bróco-

revelou que essa proteína leva ao aumento da produção de

lis, além de outros vegetais cereais prontos fortificados (MC-

peptídio beta-amiloide (A²) em cultura de células. A HERP está

CULLY & MCCULLY, 2000).

presente na região hipocampal e em neurônios corticais, onde sua expressão é induzida por um estresse do retículo endoplas-

Vitamina B12 em idosos

mático. Admite-se que a HERP possui uma função neuropro-

Pessoas com idade acima de 50 anos frequentemen-

tetora, pois encontra-se elevada em pacientes com DA. Além

te apresentam comprometimento da absorção de vitamina

disso, a superexpressão dessa protege culturas neuronais de

B12, sendo necessário que elas consumam principalmente

células contra a morte induzida pelo estresse do retículo endo-

alimentos fortificados com essa vitamina. A ingestão de ribo-

plasmático e A². Acredita-se que a HERP promova a homeosta-

flavina (vitamina B2), que pode funcionar como um co-fator

sia da liberação de cálcio pelo retículo endoplasmático, o que

da enzima 5,10- metilenotetrahidrofolato redutase (MTHFR),

garante a ação neuroprotetora (HO PI et al., 2001).

resulta em redução discreta dos níveis plasmáticos de homocisteína (MCCULLY & MCCULLY, 2000).

Hiperhomocisteinemia e síndromes demenciais

A deficiência de vitamina B12 é particularmente comum

A hiperhomocisteinemia está associada a um maior risco de

nessas pessoas, mas muitas vezes não diagnosticada devi-

ocorrência de trombose venosa e arterial, o que pode ser explica-

do a sua manifestação clínica sutil, embora possa ter con-

do pelo efeito tóxico direto da homocisteína ao endotélio vascular.

sequências graves, especialmente hematológica e neuropsi-

A homocisteína também pode levar a lesão arterial por promover

quiátrica (LOIKAS et al., 2007).

a oxidação do LDL colesterol. O LDL oxidado é reconhecido por

Boushey e colaboradores (1995) sugeriram uma dieta

receptores na membrana de macrófagos e, quando isto ocorre na

com aumento de 350mg/dia na ingestão de ácido fólico, para

parede das artérias, há desenvolvimento de células vacuolizadas

homens, e 280 mg/dia, para mulheres e calcularam que isso

repletas de inclusões lipídicas, que corresponde ao primeiro passo

poderia prevenir 30.500 e 19.000 mortes por doença vascular

para formação de lesões ateromatosas (PANCHARUNITI,1994).

anualmente em homens e mulheres, respectivamente.

A hiperhomocisteína está também associada ao maior ris-

Um complicador na investigação laboratorial dos níveis

co de complicações na gravidez, como pré-eclampsia, abortos

de vitamina B12 é que sua concentração plasmática não re-

de repetição e placenta prévia, além de malformação fetal (de-

flete a concentração intracelular. Dessa forma, a determina-

feitos de fechamento do tubo neural, defeitos cardíacos, fendas

ção do ácido metilmalônico surge como um marcador mais

palatinas, lábio leporino, etc), baixo peso ao nascer (LOVBLAD

sensível para detectar a deficiência dessa vitamina. O ácido

et al., 1997; ALPERIN et al., 1969; BOWER & STANLEY, 1989;

metilmalônico é um ácido dicarboxílico proveniente do ácido

CHANARIN, 1987; KIRKE et al., 1998; LAURENCE, 1992; LIN-

propiônico resultante do catabolismo de diversos aminoáci-

DENBAUM et al., 1988; RAY & LASKIN, 1999).

dos e ácidos graxos. A vitamina B12 participa da metaboliza-

Diversos estudos vêm sendo realizados visando avaliar a re-

ção do ácido metilmalônico em ácido succínico. Na deficiên-

lação da hiperhomocisteinemia e o déficit cognitivo característico

cia de vitamina B12, mesmo nas situações em que os níveis

das síndromes demenciais. No entanto, os resultados obtidos são

plasmáticos dessa ainda estão dentro da faixa de referência,

conflitantes. Cunha et al (1995) investigaram os possíveis efeitos

há comprometimento da metabolização do ácido metilmalô-

da reposição de vitamina B12 sobre a função cognitiva de pacien-

nico, resultando na elevação plasmática desse, o que o tor-

tes com demência leve manifestada a menos de dois anos. Foi

na um marcador mais sensível para determinar deficiência

avaliado um total de 181 pacientes, sendo que apenas 46 apre-

de vitamina B12. Outras vantagens incluem sua estabilidade

sentavam deficiência de B12. O tratamento com B12 resultou na

(mais estável que a vitamina B12) e concentração plasmática

melhora da função cognitiva de apenas três pacientes.

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 83


Clarke et al (1998) examinaram 164 pacientes com doença

Considerações finais

de Alzheimer (DA), com confirmação histológica em 76 deles, e

Diversos autores sugerem a lesão vascular provocada

encontraram que os níveis plasmáticos de homocisteína foram

pela hiperhomocisteinemia. Entretanto algumas questões

significativamente mais elevados, enquanto os de ácido fólico

sobre os efeitos neurotóxicos da homocisteína ainda preci-

e de vitamina B12 foram menores nos pacientes com confir-

sam ser comprovados. Vários autores relataram uma melhor

mação histológica DA em relação aos indivíduos controles.

recuperação da função cognitiva nos casos em que a suple-

Foi observado que níveis plasmáticos de homocisteína acima

mentação de vitamina B12 foi feita em pacientes com o diag-

11.1mmol/L foram associados com a progressão mais rápida

nóstico inicial da DA. No entanto, não há ainda dados su-

da DA, avaliada pela diminuição do tamanho do lobo temporal.

ficientes para comprovar a correlação entre suplementação

Um estudo conduzido no Reino Unido, considerando o

de vitamina B12 e a melhora da função cognitiva em pessoas

ponto de corte de homocisteína 14.5mmol/L, também reve-

com demência e níveis plasmáticos reduzidos dessa vitami-

lou associação entre o aumento de homocisteína, bem como

na. Estudos clínicos aleatórios bem definidos com relação à

redução de vitamina B12 e aumento do risco de declínio cog-

faixa etária dos pacientes, o grau de demência, o tempo de

nitivo (CLARKE et al., 2007).

manifestação dos sintomas, a história de doença vascular,

Smith (2008) avaliou setenta e sete estudos transversais

bem como o ponto de corte da homocisteína são necessá-

com mais de 34.000 indivíduos e 33 estudos prospectivos com

rios para elucidar a relação causa/efeito entre hiperhomocis-

mais de 12.000 indivíduos e todos demonstraram uma associa-

teinemia e síndromes demenciais.

ção entre o déficit cognitivo e concentrações elevadas de homocisteína, ou deficiências de vitaminas do complexo B. No entanto, outros estudos não têm encontrado esta associa-

Agradecimentos CNPq e FAPEMIG.

ção. Locascio et al., (2008) em um estudo coorte envolvendo 122 pacientes com diagnóstico de DA não encontraram relação entre níveis elevados de homocisteína e declínio cognitivo. Resultados

Referências

similares foram obtidos por Regan e colaboradores (2006).

ALPERIN, J.B.; HAGGARD, M.E.; MCGANITY, W.J. Folic acid, pregnancy, and abruptio placentae. Am J Clin Nutr, v. 22, p.1354-61, 1969.

Um estudo, realizado nos Estados Unidos, considerando o ponto de corte de homocisteína plasmática de 11.5mmol/L, não obteve associação do declínio cognitivo e elevação de homocisteína (Tangney et al., 2009).

APRAHAMIAN, I.; MARTINELLI, J.E.; YASSUDA, M.S. Doença de Alzheimer: revisão da epidemiologia e diagnóstico. Rev Bras Clin Med, v. 7, p.27-35, 2009.

Recentemente, Oulhaj et al. (2010) concluíram um estudo no qual foi analisado o declínio cognitivo global de 97 pacientes com DA, a cada seis meses, num período de 1,5 a 9,5 anos. Concluíram que quanto mais alto os níveis de homocisteína, mais rápido foi o declínio cognitivo, especialmente para os pacientes com idade menor que 75 anos e que não apresentavam história de doença vascular. Vários fatores devem ser levados em conta ao comparar os estudos encontrados na literatura que buscam a associação de déficit cognitivo e hiperhomcisteinemia, como a faixa etária dos pacientes avaliados e o ponto de corte da homocisteína, bem como o grau de demência dos pacientes, o tempo de manifestação dos sintomas e a história de doença vascular. A constatação que na DA há uma redução significativa de sulfeto de hidrogênio (H2S), um neuromodulador que produz uma resposta para excitação neuronal, reforçou a relação da homocisteína e essa doença. A síntese de H2S no cérebro depende da enzima cistationina b sintase (CBS), envolvida também em um dos caminhos metabólicos da homocisteína (DWYER et al., 2004).

BOUSHEY, C.J. et al. A quantitative assessment of plasma homocysteine as a risk fator for vascular disease. Probable benefits of increasing folic acid intakes. JAMA, v. 274, p.1049- 57, 1995. BOWER, C.; STANLEY, F.J. Dietary folate as a risk for neural tube defects: evidence from a casecontrol study in western Australia. Med J Aust, v. 150, p. 613-619, 1989. CARAMELLI, P.; BARBOSA, M.T. Como diagnosticar as quatro causas mais freqüentes de demência? Rev Bras Psiquiatr, v. 24(Supl I), p. 7-10, 2002. CHANARIN, I. Megaloblastic anemia, cobalamin and folate. J Clin Pathol, v. 40, p. 978-984, 1987. CLARKE, R et al. Folate, vitamin B12, and serum total homocysteine levels in confirmed Alzheimer disease. Arch Neurol, v. 55, p. 1449–1455, 1998. CLARKE, R. et al. Low vitamin B-12 status and risk of cognitive decline in older adults. Am J Clin Nutr, v. 86, p. 1384–1391, 2007.

84 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


CUNHA. U.G.V. et al. Vitamin B, Deficiency and Dementia. International Psychogeriatrics, v. 7 (1), p. 85-88, 1995.

NITRINI, R. et al. Diagnóstico de Doença de Alzheimer no Brasil avaliação cognitiva e funcional. Arq Neuropsiquiatr, v. 63, p. 720-727, 2005.

DWYER, B.E. et al. Homocysteine and Alzheimer’s disease: a modifiable risk? Free Radic Biol Med, v. 36(11), p.1471-1475, 2004.

OBEID, R. et al. Biomarkers of folate and vitamin B12 are related in blood and cerebrospinal fluid. Clin Chem, v. 53(2), p. 326-333, 2007.

ERDOGAN, E. et al. Evaluation of reference intervals for methylmalonic acid in plasma/serum and urine. Clin Chim Acta, v. 411 (21-22), p. 18271829, 2010.

OULHAJ, A. et al. Homocysteine as a predictor of cognitive decline in Alzheimer’s disease. Int J Geriatr Psychiatry, v. 25(1), p. 82-90, 2010.

FRIDMAN, C. et al. Alterações genéticas na doença de Alzheimer. Rev. Psiq. Clín, v. 3, p. 19-25, 2004.

PANCHARUNITI, N. Plasma homocysteine, folate, and vitamin B-12 concentrations and risk for early-onset coronary artery disease. Am J Clin Nut, v. 59, p. 940-948, 1994.

GEBARA, K.S.; MATIOLI, G. Relação da hiperhomocisteinemia com a doença cardiovascular e a doença de Alzheimer. Rev Bras Nutr Clin, v. 21, p. 239-43, 2006.

RAY, J.G.; LASKIN, C.A. Folic acid and homocysteine metabolic defects and the risk of placental abruption, pre-eclampsia and spontaneous pregnancy loss: a systematic review. Placenta, v. 20, p. 519-529, 1999.

GUERRA-SHINOHARA, E.M. et al. Evaluation of nutritional and genetic determinants of total homocysteine, methylmalonic acid and S-adenosylmethionine/S-adenosylhomocysteine values in Brazilian childbearing-age women. Clin Chim Acta, v. 388 (1-2), p.139-147, 2008.

REGAN, C. et al. Relationship of vascular risk to the progression of Alzheimer disease. Neurology, v. 67, p. 1357–1362, 2006.

HERRMANN, W. ;OBEID, R. Homocysteine: a biomarker in neurodegenerative diseases. Clin Chem Lab Med, v. 49 (3), p. 435 – 441, 2011. HO, P.I. et al. Homocysteine potentiates b-amyloid neurotoxicity: role of oxidative stress. J Neurochem, v. 78, p. 249-253, 2001. KIRKE, P., WEIR, D.G.; SCOTT, J.M. Preconception nutrition and prevention of neural tube defects. In: Sadler MJ; Strain JJ; Caballero B Encyclopedia of human nutrition. Academic Press p.1609-1619, 1998. LAURENCE, K.M. The genetics and prevention of neural tube defects and “uncomplicated” hydrocephalus. In: Emery AEH, Rimoin DL. Principles and Practice of Medical Genetics. 2.ed. London: Churchill Livingstone, p. 323-346, 1992. LINDENBAUM, J. et al. Neuropsychiatric disorders caused by cobalamin deficiency in the absence of anemia or macrocytosis. N Engl J Med, v. 318, p. 1720-8, 1988.

SCOTT, J.M.; WEIR, D.G. Folic acid, homocysteine and one-carbon metabolism: a review of the essential biochemistry. J Cardiovasc Risk, v. 5, p. 223-227, 1988. SELHUB, J.; D’ANGELO, A. Hyperhomocysteinemia and Thrombosis: Acquired Conditions. Thrombosis and Haemostasis, v. 78(1), p. 527-31, 1997. SESHADRI, S.; WOLF, A.P. Homocysteine and the brain: vascular risk factor or neurotoxin? Lancet, v. 2, p.11, 2003. SMITH, A.D. The worldwide challenge of the dementias: A role for B vitamins and homocysteine? Food and Nutrition Bulletin, v. 29, p. S143S172, 2008. TANGNEY, C.C. et al. Biochemical indicators of vitamin B12 and folate insufficiency and cognitive decline. Neurology, v. 72, p. 361–367, 2009. WATABE, F. Vitamin B12: sources and bioavailability. Exp Biol Med, v. 232, p. 1266-1274, 2007.

LOCASCIO, J.J. et al. Plasma amyloid {beta}-protein and C-reactive protein in relation to the rate of progression of Alzheimer disease. Arch Neurol, v. 65, p. 776–785, 2008.

NOTAS DE FIM

LOIKAS, S. et al. Vitamin B12 deficiency in the aged: a population-based study. Age and Ageing, v. 36, p. 177–183, 2007.

2 Faculdade de Farmácia – Centro Universitário Newton Paiva

1 Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas – Faculdade de Farmácia/ UFMG

LOVBLAD, K. et al. Retardation of myelination due to dietary vitamin B12 deficiency: cranial MRI findings. Pediatr Radiol, v. 27, p. 155-158, 1997.

Gisele Santos Gonçalves – PhD: Professora Adjunta do curso de Farmácia do Centro Universitário Newton Paiva. E-mail: giselesantos@ newtonpaiva.br

MCCULLY, K.; MCCULLY, M. O Fator Homocisteína: A revolucionária descoberta que mostra como diminuir o risco da doença cardíaca. Mitos e verdades a respeito do colesterol.1st ed. Rio de Janeiro (RJ): Objetiva, 2000.

Flávia Batista Pinto Coelho – Farmacêutica: Graduada em Farmácia pela Universidade Federal de Minas Gerais. E-mail: email: flaviabatista04@yahoo.com.br

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 85


Josianne Nicácio Silveira – PhD: Professora Adjunta do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Universidade da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais. E-mail: josianne. nicacio@gmail.com Maria das Graças Carvalho – PhD: Professora Titular do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Universidade da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais. E-mail: mgcarvalho@farmacia.ufmg.br Luci Maria Sant’Ana Dusse – PhD: Professora Associada do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Universidade da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais. E-mail: lucim@farmacia.ufmg.br, lucidusse@gmail.com

86 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


ATIVIDADE EDUCATIVA SOBRE A GRIPE EM UM CENTRO DE SAÚDE EM BELO HORIZONTE Adelson Mizerani Siqueira1 Juliana Cioletti1 Marina Botelho Silqueira1 Wendel Amaral1 Paula Chiesa Guimarães1 Wesley Peixoto Freitas1 Renata Freitas Maletta2

RESUMO: A promoção da saúde possui como finalidade a melhoria da qualidade de vida e da saúde da comunidade, por meio de ações voltadas ao seu bem-estar e o farmacêutico possui um importante papel dentro deste tema. O trabalho desenvolvido teve como objetivo conscientizar um grupo de idosos, usuários do Centro de Saúde Santa Amélia, sobre a campanha de vacinação contra a gripe e sanar as principais dúvidas sobre a doença. Para isso, foi realizada uma oficina educativa por meio de um jogo de perguntas e respostas sobre a gripe. Pode-se perceber que, apesar das dificuldades encontradas ao realizar o trabalho educativo, muitos idosos participaram ativamente da atividade por meio da troca de saberes com os estudantes. PALAVRAS-CHAVE: Promoção à saúde. Jogos educativos. Gripe.

INTRODUÇÃO

em menos de uma semana. A patogênese da gripe envolve um

Por definição, promoção da saúde é o nome dado ao pro-

conjunto de fatores: uns relacionados com a infectividade do

cesso de capacitação da comunidade para atuar na melhoria

próprio vírus, outros com o estado imunitário dos doentes, ou

de sua qualidade de vida e saúde, incluindo uma maior partici-

com eventuais co-infecções ou, ainda, com as respostas do

pação no controle deste processo. Esse termo refere-se ao em-

hospedeiro (BRASIL, 2012).

prego de ações voltadas ao bem-estar, a melhoria da qualidade de vida e das condições a ela associadas e, não especifica-

A gripe segue sendo um importante problema de saúde

mente, à prevenção de doenças, tendo assim uma abrangência

pública, como consequência das altas taxas de mor-

holística (BRASIL, 2002).

bidade que produz durante as epidemias anuais e a

Considerando a tendência atual de caracterização da prá-

presença de complicações e mortalidades em grupos

tica farmacêutica voltada fundamentalmente ao bem-estar do

específicos da população. O aumento das taxas de

paciente, Vieira (2007) considera que o farmacêutico assume

consulta e hospitalização, junto com o elevado núme-

papel fundamental quando soma seus esforços aos dos outros

ro de dias de trabalho perdidos por causa da doença,

profissionais e aos da comunidade para a promoção da saú-

gera custos elevados diretamente ou indiretamente a

de. Nesse sentido, segundo a mesma autora, esse profissional

população. Mas o que causa preocupação, dada a ele-

pode trabalhar incentivando ações com o desenvolvimento das

vada capacidade de propagação do agente etiológico

habilidades da comunidade. Dessa forma, o farmacêutico pode

da doença, é a possibilidade sempre grande da gera-

trabalhar para que a comunidade seja orientada sobre como

ção de uma pandemia (MATEO, 2003).

proceder em relação ao uso de medicamentos e conheça as doenças mais prevalentes em seu meio, bem como as maneiras para preveni-las ou minimizar suas complicações.

Com o aumento na quantidade de idosos na população brasileira, cresce o número de indivíduos que atingem faixas

Uma das doenças mais prevalentes durante as estações

etárias de risco para doenças crônicas, pois, cerca de oiten-

do outono e inverno, é a gripe, uma infecção viral aguda do trato

ta por cento dos idosos apresentam alguma dessas doenças.

respiratório cujas principais complicações são as pneumonias.

Nesse grupo, medidas preventivas e de proteção específicas

A doença inicia-se com febre alta, mialgia, dor de garganta, ce-

devem ser priorizadas, devido à significativa e crescente de-

faléia e tosse improdutiva. Em regra, no plano clínico, tem uma

manda por serviços ambulatoriais, hospitalares e de reabilita-

evolução favorável para a cura em poucos dias, habitualmente

ção (BARROS et. al, 2006).

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 87


Entre as várias alterações fisiológicas associadas ao pro-

acontecem na Igreja Batista da Pampulha (Av. Portugal, 637). O

cesso de envelhecimento, destacam-se aquelas referentes ao

grupo não possui paciente somente da UBS Santa Amélia e são

sistema imunitário dos idosos, à sua suscetibilidade e vulnerabi-

apresentados a cada mês uma palestra diferente.

lidade às infecções comparados a outras faixas etárias. Sendo

Torres, Hortale e Schall (2003) consideram que o trabalho

assim, os idosos são menos capazes de responder fisiológica e

em grupos pode ser enriquecido com o uso de jogos educa-

imunologicamente aos microorganismos invasores. Nos últimos

tivos, uma vez que favorecem o conhecimento e intensificam

vinte anos, o número e a taxa de internação por infecções respi-

as diversas trocas de saberes. Diante disso, foi elaborado um

ratórias agudas aumentaram de forma constante entre idosos.

jogo com perguntas e respostas, com linguagem compreen-

A influenza e a pneumonia estão entre as principais causas de

sível e simples, adequada a realidade dos participantes. Esse

morbi-mortalidade nesse grupo etário (BARROS et al, 2006).

trabalho teve como objetivo entender sobre a gripe, sua causa,

Considerando a crescente demanda por medidas para re-

sintomas, tratamento, esclarecer os mitos sobre a doença e es-

duzir as complicações decorrentes dessas infecções, a vaci-

timular a participação na campanha de vacinação, que iniciou

nação contra a gripe surgiu como uma estratégia nacional de

em cinco de maio de 2012. Foram utilizadas figuras ilustrativas

impacto na redução da morbi-mortalidade por doenças respira-

que estavam dentro de um saco plástico para que fossem reti-

tórias entre os idosos (BARROS et. al, 2006).

radas pelos presentes de forma aleatória. Toda vez que um par-

Com o intuito de contribuir para o desenvolvimento de ha-

ticipante retirava uma figura era feita uma pergunta relacionada

bilidades da comunidade no que se refere ao tratamento e pre-

à imagem para que o grupo pudesse responder. Em seguida,

venção da gripe e incentivar a prática da vacinação comunitária

eram feitas as intervenções e explicações necessárias. Para a

contra a doença, os alunos do curso de Farmácia do Centro

elaboração do jogo foram realizadas as seguintes perguntas:

Universitário Newton Paiva realizaram um projeto de promoção

“Os idosos podem “pegar” gripe mais facilmente?”, “Existem

da saúde voltado às pessoas da terceira idade em um Centro

remédios que servem para curar a gripe?”, “Comer bem ajuda

de Saúde em Belo Horizonte.

a evitar a gripe ?”, “O estresse pode causar gripe ?”, “Quais são os sintomas da gripe ?”, ”Por que é importante vacinar contra a

DESENVOLVIMENTO

gripe?”,“Sair na chuva, no frio ou andar descalço podem ajudar

A atividade educativa foi realizada com um grupo de ido-

a “pegar gripe”?”, “Quem deve ser vacinado contra a gripe?”, “A

sos que frequentam o Centro de Saúde Santa Amélia, em

vacina contra a gripe pode causar a doença?”, “Como eu pos-

Belo Horizonte.

so “pegar” gripe?”, “Em que situações a vacina não deve ser

A oficina realizada teve a participação de 18 pessoas e a

aplicada?”, “Qual a melhor época do ano para vacinar contra a

duração de 25 minutos. Foi utilizado o salão de uma igreja pró-

gripe?”, “Por quanto tempo dura a proteção da vacina contra a

xima ao centro de saúde, local onde o grupo costuma realizar

gripe?”, “A vacina contra gripe também protege contra a gripe

os seus encontros mensalmente. Os integrantes tiveram uma

suína?”e” Existem diferenças entre gripe e resfriado?”. Assim,

boa participação, já que responderam às perguntas e expres-

buscou-se resgatar os conhecimentos prévios dos participan-

saram suas opiniões e conhecimentos.

tes e o diálogo com os coordenadores.

O tema trabalhado com os participantes foi sugerido pela

Para auxiliar na visualização das figuras foi utilizado recurso

enfermeira coordenadora. Lembrando que nessas palestras já

áudio-visual. Ao final da atividade exibiu-se o vídeo promocional

foram abordados diversos temas, como: alergia, dor na coluna,

do Ministério da Saúde sobre a campanha de vacinação do ano

dengue, diabetes e hipertensão. Assim, a coordenadora propôs

de 2012 e oferecido um lanche para o grupo.

o tema diante da proximidade com o período da campanha de vacinação contra a gripe.

A atividade permitiu aos idosos um contato com um tema diferente dos que são tratados nas reuniões. Além disso, a

Ela, também informou o perfil do grupo, que existe há 8

atividade possibilitou falar sobre a doença, ensinar, escla-

anos, visando facilitar a dinâmica de atividades. Assim, desco-

recer e solucionar dúvidas, o que demonstra a importância

briu-se que o grupo era composto por 30 participantes, a maio-

da abertura ao diálogo nas ações educativas. A educação

ria acima dos 55 anos, que possuem doenças como a hiperten-

em saúde pode promover tanto um aprendizado prático que

são ou a diabetes e muitos são analfabetos.

contribui para tornar as pessoas mais preparadas para lidar

Outro ponto levantado pela coordenadora foi o acompa-

com certos acontecimentos e situações que fazem parte da

nhamento médico que o grupo possui. São realizados sempre

vida, quanto na pré-disposição como elas se relacionam com

medidas de glicemia e pressão, nos encontros mensais, que

a melhoria de sua saúde.

88 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


A troca de saberes enriqueceu o trabalho e permitiu momentos de interação, demonstrando que, por várias vezes, o

compartilhada, de troca de saberes, a ser desenvolvida no trabalho relacionado com a saúde.

profissional de saúde se esquece de levar em consideração o

Torna-se necessário promover uma prática educativa que

conhecimento que as pessoas adquirem ao longo do tempo.

visa à participação ativa dos pacientes das unidades básicas de

Conhecimento esse que, em alguns casos, não tem embasa-

saúde, auxiliando-os de acordo com suas necessidades, seus sa-

mento científico, mas na prática se mostram efetivos para as

beres e crenças. Essa troca torna o trabalho dinâmico e bastante

pessoas, o que pode ser ilustrado pelos relatos: “(...) Tomar

produtivo, alcançando o objetivo esperado.

mingau de fubá com bastante alho é tiro e queda para acabar

Ainda com relação a essa troca de saberes, pode-se perceber

com a gripe” ou “(...) tomo Tylenol com café e minha dor de

que quando o profissional de saúde envolve o paciente no proces-

cabeça vai embora na hora!”.

so educativo, este se torna mais eficaz, pois, faz com que o esse

A promoção da saúde leva o indivíduo à construção de um

mesmo paciente deixe de ser um simples expectador e o trans-

conhecimento mais verdadeiro em relação aos conhecimentos

forma em um construtor de conhecimento. Assim, esse indivíduo,

científicos, possibilitando que se façam escolhas conscientes

sentindo-se mais incluído no processo de aprendizagem, passa a

a respeito do tema abordado acabando, por exemplo, com a

ter mais atenção ao conteúdo abordado, consequentemente as

resistência em se vacinar contra a gripe.

informações são mais facilmente fixadas na mente dele.

Limitações do trabalho

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

A atividade, inicialmente programada para ser realizada em 40 minutos, foi apresentada utilizando a metade do tempo proposto, devido à solicitação da enfermeira coordenadora durante a apresentação. Sendo assim, não foram abordadas todas as perguntas elaboradas. Logo, o tema não foi abordado de forma completa, mas as questões discutidas tiveram uma boa participação e

BARROS, Marilisa Berti de Azevedo; et.al. Fatores associados á vacinação contra a influenza em idosos. 2006. Disponível em <http://www. scielo.br/pdf/csc/v12n1/20.pdf>. Acesso em 19 abr. 2012. BRASIL, Ministério da Saúde. As cartas da promoção a saúde. 2002. Disponível em: < http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cartas_ promocao.pdf >. Acesso em: 09 abr. 2012.

entendimento do grupo. Além dessa limitação, houve ainda um problema com o equipamento de audiovisual que, por algumas vezes, não mostrou devidamente as figuras. Entretanto, esse problema foi contornado já que os estudantes conseguiram explicar as perguntas. Diante disso, foi necessário mudar a forma de apresentação, de maneira a não prejudicar o entendimento dos usuários da unidade de saúde em relação ao tema proposto. Esses ocorridos realmente prejudicaram o andamento da apresentação, causando inicialmente uma tensão nos apresentadores, porém, eles souberam contornar as dificuldades apresentadas acima. Assim, essas limitações contribuíram para o desenvolvimento da capacidade de improviso diante de imprevistos, o que é extremamente importante para o amadurecimento e a formação de um bom profissional. Além disso, tal situação acabou por estimular os estudantes a realizarem a atividade novamente, porém com outro público

BRASIL, Ministério da Saúde. Gripe/Influenza. Disponível em: <http:// portal.saude.gov.br/portal/saude/area.cfm?id_area=1134>. Acesso em: 09 abr. 2012. MATEO, S. La importancia de la vigilância em El control y La prevención de La gripe. Servicio de Vigilancia Epidemiólogica. Instituto de Salud Carlos III. Madrid.España. 2003. Disponível em <http://www.scielo.br/ pdf/csc/v12n1/20.pdf>. Acesso em 09 abr. 2012. TORRES, H.C, HORTALE, V.A., SCHALL, V. A experiência de jogos em grupos operativos na educação em saúde para diabéticos. Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(4): 1039-1047, jul-ago, 2003. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/csc/v12n1/20.pdf . Acesso em 20 abr. 2012. VIEIRA, F.S. Possibilidades de contribuição do farmacêutico para a promoção da saúde. Ciência & Saúde Coletiva, 12(1): 213-220, 2007. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/csc/v12n1/20.pdf>. Acesso em 09 abr. 2012.

alvo, a fim de aprimorar a proposta de trabalho original. NOTAS DE FIM CONSIDERAÇÕES FINAIS Após essas reflexões, compreendeu-se que o trabalho educativo não é uma tarefa simples, sobretudo na saúde, pois, não se limita à transmissão de informações aos usuários em relação ao cuidado de si, ao contrário, é uma prática

1 Alunos do 6º período do Curso de Farmácia do Centro Universitário Newton Paiva 2 Orientadora. Professora do Curso de Farmácia do Centro Universitário Newton Paiva

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 89


SÍNDROME DE DOWN: CARACTERÍSTICAS BUCAIS Paola Alves Farneze1 Lucas Costa Lopes1 Maria Luiza da Mata Felisberto Fernandes2

RESUMO: Tendo em vista a alta prevalência da Síndrome de Down e a predisposição genética destes pacientes a apresentarem alterações bucais relevantes para a sua qualidade de vida, este estudo tem como objetivo fazer uma revisão da literatura sobre as características bucais presentes na síndrome de Down. Foram observadas na literatura as seguintes alterações: macroglossia, língua protusa, língua fissurada, hipertrofia papilar, palato ogival, alterações morfológicas crânio-faciais, achatamento do osso occipital e do osso nasal, má-oclusão dental, manchas dentárias, lesões cariosas e candidíase bucal. Comumente, encontra-se casos de doença periodontal e baixa prevalência de cárie nesses pacientes. A expectativa de vida deles tem aumentado graças à melhora do atendimento à saúde. Reconhecer as características bucais comuns nesta Síndrome pode ajudar o cirurgião dentista a manter a saúde bucal destes pacientes, implementando ações específicas às características encontradas. PALAVRAS-CHAVE: Manifestações bucais. Síndrome de Down. Má-oclusão.

INTRODUÇÃO

Em função da variabilidade das estruturas afetadas, o por-

A Síndrome de Down, também conhecida como trissomia

tador da Síndrome de Down requer tratamento especializado

do cromossomo 21, é uma alteração genética na qual os indi-

e multidisciplinar. O reconhecimento clínico das alterações bu-

víduos afetados carregam um cromossomo 21 extra (MORAES

cais provenientes da Síndrome e a intervenção precoce pelo

et al. 2007). Sua incidência é de aproximadamente um caso em

cirurgião dentista, permite um melhor prognóstico na evolução

cada 600 a 700 nascidos vivos, sendo maior o índice em mães

e na consequência das más-formações, assim como uma me-

com idade superior a 30 anos (CAMERA et al. 2011).

lhora nas condições de vida (CARVALHO et al., 2010).

Apesar da expectativa de vida desses pacientes variar de 35 a

O objetivo deste estudo foi identificar, através da literatura atu-

40 anos de vida, Carvalho et al. (2010), observaram que 80% dos

al, as características bucais de pacientes com Síndrome de Down.

adultos vivem 55 anos de idade ou mais. Pacientes com Síndrome de Down são considerados na odontologia pacientes especiais e

MÉTODO

necessitam de um atendimento diferenciado (CAMERA et al. 2011).

Realizou-se uma revisão da literatura dos últimos dez

A deficiência mental é uma das características mais pre-

anos baseada em artigos científicos indexados nos bancos

sentes no desenvolvimento de uma criança com Síndrome de

de dados Lilacs, BBO, Pubmed, Medline, Bireme, Scielo e

Down, o que pode provavelmente ser justificado por um atraso

Biblioteca Cochrane.

global no desenvolvimento, variando de criança para criança,

A busca da literatura foi realizada nos idiomas inglês,

em virtude da deficiência mental pode haver um atraso no de-

português e espanhol com os seguintes descritores: Síndro-

senvolvimento da fala (HENN et al., 2008).

me de Down, Down syndrome, manifestações bucais, mani-

Segundo Ribeiro et al. (2011), crianças com Síndrome de Down possuem alterações anátomo-fisiológicas da cavidade

festaciones bucales, oral manifestacions, má-oclusão, maloclusión, malocclusion.

bucal, macroglossia, estagnação da saliva devido à incompe-

Como critério de inclusão utilizou-se artigos que descre-

tência muscular da boca, dificuldade motora, doenças respira-

viam manifestações bucais clínicas da Síndrome de Down

tórias constantes, imunodeficiência e , também como fatores

e em populações humanas de qualquer idade. Os critérios

adicionais, susceptibilidade a doenças fúngicas.

de exclusão foram: estudos de aspectos genéticos, ultra-

A literatura que trata das condições bucais de pacientes com Síndrome de Down é ampla e por vezes contraditória. Este

-estruturais e estudos em animais, ou estudos que não se relacionavam à Sindrome de Down.

estudo contribui na importante função de rever as pesquisas constantemente, para se ter um diagnóstico crítico, favorecen-

RESULTADOS/DISCUSSÃO

do a tomada de decisões na clínica odontológica quando do

Dezesseis publicações foram selecionadas para este estu-

atendimento e acompanhamento desses pacientes.

do seguindo-se os critérios de inclusão e exclusão.

90 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


A Síndrome de Down é uma das alterações genéticas mais

Moraes et al. (2007) estudaram a incidência de anomalias

frequentemente encontrada. Sua incidência é de aproximada-

dentárias em indivíduos brasileiros portadores de SD. O estudo

mente um caso em cada 600 a 700 nascimentos com vida.

analisou 49 radiografias panorâmicas de indivíduos portadores

A literatura que trata das condições bucais de pacientes com

da Síndrome com idade entre três e 33 anos. As características

Síndrome de Down (SD) é ampla e aborda duas vertentes: os as-

radiográficas das anomalias dentárias foram observadas tan-

pectos morfológicos e a prevalência de doenças bucais (HENN et

to nos dentes decíduos quanto permanentes de acordo com a

al., 2008; CARVALHO et al., 2010; CAMERA et al. 2011).

Classificação Internacional de Doenças (CID).

As anomalias craniofaciais apresentadas são macroglos-

Os autores encontraram alta incidência de anomalias den-

sia, língua protusa, língua fissurada, hipertrofia papilar, palato

tárias nos portadores dessa Síndrome (95,92%), assim como

ogival, achatamento do osso occipital e do perfil facial e nasal,

a presença de mais de um tipo de anomalia em um mesmo

má-oclusão dental, manchas dentárias, lesões cariosas e can-

indivíduo (40,81% apenas um tipo de anomalia; 42,85% dois

didíase bucal (BERTHOLD et al., 2004).

tipos; 8,16% três tipos e 4,08% quatro tipos de anomalias

Os dentes destes pacientes apresentam mineralização

associadas). Dentre elas: taurodontismo (85,71%), anodon-

completa e, apesar de manter certa similaridade na sequência

tia comprovada (34,69%), suspeita de anodontia (18,36%) e

e simetria, apresentam variação no padrão de erupção. É alta

dentes cônicos (14,28%). Estes achados concordam com os

a prevalência de doença periodontal, principalmente em adul-

achados de Moraes et al.(2004) e Leonelli et al. (2007).

tos, e baixa incidência de cárie em pacientes com Síndrome de Down (MORAES et al., 2007, DEMICHERI et al., 2011).

No que diz respeito à má-oclusão, Berthold et al. (2004), observaram, em pacientes portadores da Síndrome de Down,

A macroglossia, que tem origem congênita, se dá por um

uma maior prevalência de mordida aberta anterior, mordida

crescimento excessivo da musculatura. Está diretamente re-

cruzada posterior e mordida cruzada anterior (que é uma re-

lacionado com a condição do paciente ser respirador bucal,

lação lábiolingual anormal entre um ou mais dentes incisivos

podendo causar o deslocamento dos dentes e má-oclusão,

superiores e inferiores). Ocorrendo assim um trespasse hori-

conduzindo à protrusão e abertura bucal como mecanismos

zontal negativo e a classe III de Angle (22%). Também obser-

compensatórios (CARVALHO et al., 2010).

varam uma maior frequência de giroversões e apinhamentos

Santangelo et al. (2008) afirmaram que esta macroglossia é relativa ao pequeno espaço encontrado para o posicionamento da língua.

nesses pacientes. Considerando-se as doenças bucais, a literatura é rica nos aspectos relacionados à doença periodontal, susceptibi-

A macroglossia e hipotonicidade da língua têm como conse-

lidade e prevalência da doença cárie, fluxo salivar, pH e ca-

quência irritação e fissuras no canto da boca (queilite angular) já

pacidade tampão da saliva e propensão ao desenvolvimento

que os lábios apresentam-se frequentemente banhados por saliva

de candidíase bucal.

facilitando a instalação de microrganismos como Cândida albicans (SANTANGELO et al., 2008; CARVALHO et al., 2010). Outra má-formação comum é a língua fissurada. Caracteriza-se como ranhuras na superfície dorsal que se irradiam do sulco

Tratando-se da doença periodontal na Síndrome de Down, a prevalência é de 30% a 40%, sendo que em indivíduos próximos aos trinta anos esta porcentagem sobe para cerca de 100% (CAVALCANTE et al., 2009).

central da língua. Estas são geralmente indolores, contudo, apre-

Segundo Berthold et al. (2010), os incisivos inferiores são

sentam sintomatologia dolorosa quando restos alimentares se

os primeiros a serem afetados, e em pacientes jovens a primeira

acumulam produzindo irritação (SANTANGELO et al., 2008).

indicação da presença da doença periodontal é uma gengivite

Crianças portadoras da Síndrome de Down apresentam um

severa, podendo ser observadas ulcerações e necrose da pa-

atraso na erupção dentária, tanto na dentição decídua quan-

pila interdental e margem gengival. Nos pacientes mais velhos

to na dentição permanente, se comparadas com crianças não

ocorre uma perda grave de osso alveolar, mobilidade dentária,

portadoras dessa síndrome (BERTHOLD et al. 2004).

e cálculo supra e subgengival (BERTHOLD et al., 2010).

Fraga (2011) afirmou que a dentição decídua em indivíduos

Está comprovada que a doença periodontal é causada

com SD se completa entre os três e quatro anos de idade e os

por fatores etiológicos locais, especialmente a placa bac-

incisivos laterais permanentes superiores e inferiores apresen-

teriana, mas alguns tipos de doenças e de distúrbios sistê-

taram erupção atrasada. A sequência de erupção também se

micos podem reduzir ou alterar a resistência ou a resposta

encontra alterada, além da presença de agenesia, microdontia

do hospedeiro e, então, predispor a alterações periodontais

e anormalidades nas formas dos dentes.

(CAVALCANTE et al., 2009). PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 91


As alterações presentes em pacientes com Síndrome de

Estudando-se as características salivares de pacientes com

Down que aumentam as chances de desenvolvimento da doença

SD com relação ao fluxo e pH, Ensslin et al. (2009) não encon-

periodontal são: pouca higiene bucal, que determina a gravidade

traram qualquer variação da normalidade, contudo a capacidade

da lesão, gengiva com pobre potencial de cicatrização, fatores die-

tampão da saliva foi comprometida. Os autores realizaram estudo

téticos, anomalias bucofaciais, interferência na erupção dentária,

transversal comparativo com uma amostra de 15 indivíduos de

morfologia dentária alterada e má-oclusão. Existem ainda alguns

ambos os gêneros e idades variadas (entre 18 e 41 anos). Sete

autores que concluíram que o aumento da susceptibilidade à do-

eram pacientes institucionalizados na Associação de Pais e Ami-

ença periodontal nestes pacientes está associada à diminuição da

gos Excepcionais (APAE) e Associação de Familiares Amigos do

resistência a infecções bacterianas e maior incidência de infecção

Down (AFAD), portadores de Síndrome de Down. Oito eram pa-

nos tecidos periodontais (BERTHOLD et al., 2004).

cientes não portadores de SD, escolhidos aleatoriamente.

Sabe-se que os indivíduos com Síndrome de Down apre-

Os autores coletaram amostras de saliva não estimuladas,

sentam alterações no sistema imune, gerando diminuição da

pelo método de drenagem. Concluíram que os parâmetros sali-

quimiotaxia e fagocitose realizada pelos neutrófilos e monóci-

vares, fluxo e pH dos portadores de SD não apresentaram alte-

tos. Essa quimiotaxia deficiente dos neutrófilos foi correlaciona-

rações dos seus valores quando comparados ao grupo contro-

da à maior perda de osso alveolar, juntamente com o número

le. Porém, a capacidade tampão da saliva desses indivíduos foi

reduzido de linfócitos T maduros que esses indivíduos apresen-

menos eficiente quando comparada à saliva dos indivíduos não

tam. Tais características podem contribuir para a progressão

portadores da Síndrome.

da doença periodontal nos portadores de Síndrome de Down

Areias et al. (2011) estudou o efeito da composição da saliva

quando comparados com indivíduos normais (OLIVEIRA, 2007).

na prevalência da cárie dentária em crianças com Síndrome de

Quanto à susceptibilidade e prevalência da doença cárie, al-

Down. Considerou como população alvo um grupo de crianças

guns estudos relatam indicadores de cárie semelhantes ou menores

com Síndrome de Down com idade entre seis e dezoito anos e

nesse grupo de indivíduos em comparação com grupos não aco-

seus irmãos. A amostra foi feita com 45 crianças com trissomia

metidos pela SD e grupos com outras deficiências. Esse fato acon-

do 21 e 45 irmãos não portadores da trissomia do 21. Encontrou

tece provavelmente pelo aumento da capacidade tampão da saliva

32 % de prevalência total da cárie. As crianças com a trissomia do

e também pela tendência desses indivíduos apresentarem o hábito

21 tiveram menor prevalência de carie (22%) do que seus irmãos

de bruxismo. Nesse caso as superfícies oclusas suscetíveis à cárie

(42%). Não houve diferença significativa no que dizia respeito à

são frequentemente lisas e desgastadas pelo ranger dos dentes.

concentração iônica da saliva dos dois grupos.

Alguns autores relatam ainda que a baixa prevalência de

A candidíase bucal é uma infecção fúngica que afeta os hu-

cárie nesses indivíduos pode estar relacionada com o atraso

manos durante toda a sua vida (RIBEIRO et al. 2011). O funcio-

na erupção dos dentes e ao alto número de diastemas exis-

namento adequado do sistema imunológico humano propicia

tentes, o que reduziria de modo considerável a prevalência

comumente uma relação de equilíbrio entre microbiota autócne

de lesões de cáries proximais (OLIVEIRA, 2007).

e hospedeiro, porém alterações físicas, químicas, iatrogênicas

Carvalho et al. (2010), discutiram que apesar de algumas

e mecânicas, que se processam na cavidade bucal, podem fa-

características químicas e estruturais favorecerem a incidên-

vorecer a ruptura do equilíbrio estabelecido entre o fungo e o

cia de cárie em pacientes com síndrome de Down, a doença

hospedeiro, fazendo com que as infecções por cândida sejam

não ocorre, uma vez que o fluxo salivar e a macroglossia fa-

de origem geralmente endógena (VIEIRA et al., 2005).

voreceriam a autolimpeza bucal.

Alterações físico-químicas da saliva, variação de pH e da

Em contrapartida, observa-se estudos que discorrem a

concentração de sódio, cálcio e íons de bicarbonato, entre outras

respeito da associação da doença cárie e Síndrome de Down.

substâncias, parecem afetar a sobrevivência da cândida na cavi-

Alguns fatores locais determinantes da doença cárie, como hi-

dade bucal, favorecendo a alta concentração de cândida na boca

giene bucal precária e dieta cariogênica, muitas vezes se sobre-

das crianças com síndrome de Down (RIBEIRO et al. 2011).

põem aos “fatores de proteção”; o que levaria a maior prevalência de cárie em indivíduos portadores de Síndrome de Down.

Além disso, crianças com Síndrome de Down apresentam comprometimento da resposta imunológica inata e adquirida além das

Esses fatores podem se somar à alta frequência com que

alterações anátomo-fisiológicas bucais, macroglossia, estagnação

estes pacientes fazem uso de medicamentos adoçados indica-

salivar decorrente de incompetência muscular da boca, dificulda-

dos para sinusites, otites, amigdalites e outras infecções respi-

de motora fazendo com que estes fatores adicionais, as tornem

ratórias comuns a essa população (CARVALHO et al., 2010).

mais susceptíveis a processos infecciosos (VIEIRA et al., 2005).

92 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


Ribeiro et al (2011), verificaram que a cavidade bucal

é necessário considerar as características individuais e a na-

de crianças com trissomia do cromossomo 21 mostrou alta

tureza multifatorial das alterações bucais para a educação e

taxa de levedos de cândida com prevalência de 87%, o que

manutenção da saúde bucal destes pacientes.

correspondeu a 35 das 40 amostras de secreção de saliva recolhidas de crianças que apresentavam a Síndrome (grupo

REFERÊNCIAS

teste) contra 12.5% (n=10), de 80 amostras recolhidas de

AREIAS, C.M. et al. Dental caries em Portuguese children with Down Syndrom. CLINICS. São Paulo, v. 66, n. 7, p.1183-1186, 2011.

crianças sem Síndrome de Down do grupo-controle. CONCLUSÃO As alterações bucais encontradas em pacientes afetados pela Síndrome de Down são bem características e facilmente detectadas. As anomalias craniofaciais apresentadas foram macroglossia, língua protusa, língua fissurada, hipertrofia papilar, palato ogival, achatamento do osso occipital e do perfil facial e nasal, má-oclusão dental, manchas dentárias, lesões cario-

BERTHOLD, TB et al. Síndrome de Down aspectos gerais e odontológicos. Rev.Cien. Méd. Biol. Salvador, v.3, n.2, p.252-260, 2004.. CAMERA, GT et al. Papel do cirurgião dentista na manutenção da saúde bucal de portadores de Síndrome de Down. Odontol Clin.–Cient. Recife, v.10, n.3, p.247-250, 2011. CARVALHO, ACA; FLORES CPS; CRUSOÉ-REBELLO, I. Síndrome de Down: Aspectos relacionados ao sistema estomatognático. R. Ci. med. biol. Salvador, v 9, p 49-52, 2009.

sas e candidíase bucal. A literatura foi unânime no que diz respeito às altas taxa de levedos de cândida e a alta prevalência de doença periodontal encontrada em pacientes com síndrome de Down. No que diz respeito à má-oclusão em pacientes portadores da Síndrome de Down, uma maior prevalência de mordida aberta anterior, mordida cruzada posterior e mordida cruza-

CAVALCANTE, L; PIRES, JR, SCAREL-CAMINAGA, RM. Doença periodontal em indivíduos com síndrome de down: Enfoque genético. RGO. Porto Alegre, v.57, n.4, p.449-453, 2009. DEMICHERI, AR; BATTLE, A. La enfermedad periodontal asociada al paciente con Síndrome de Down. Odontoestomatología Montevideo, v.13, n.18, p.4-15, 2011.

da anterior também é de consenso na literatura. Contudo, a origem da característica de macroglossia foi divergente na literatura. Alguns autores afirmam que a macroglossia é característica da síndrome, conduzindo à protrusão e abertura bucal como mecanismos compensatórios. Outros acreditam que esta macroglossia é relativa ao pequeno espaço encontrado para o posicionamento da língua. A prevalência da cárie também encontra estudos conflitantes. Alguns acreditam que o fluxo salivar aumentado e presença de diastemas dentais são fatores que reduzem a prevalência da cárie nos pacientes com Síndrome de Down. Outros estudos contestam esta afirmação salientando os fatores locais, determinantes da doença cárie, como higiene bucal precária e dieta cariogênica. Alguns trabalhos consideram que existe certa similaridade na sequência e simetria dentária em pacientes com síndrome de Down comparados a indivíduos saudáveis, com mineralização completa, existindo apenas uma variação no padrão de erupção. Outros autores afirmam que a agenesia, microdontia e anormalidades nas formas dos dentes são achados frequentes nestes pacientes. A divergência de conclusões encontradas em diferentes estudos e populações demonstra a necessidade de se

ENSSLIN, AP. et al. Parâmetros salivares e dentários de indivíduos portadores de Síndrome de Down em um município do Rio Grande Do Sul. Stomatos, Canoas, v.15, n.28, p.58-66, 2009. FRAGA, PF. Síndrome de Down: Aspectos gerais de interesse ao ortodontista. Monografia (especialização) – Programa de especialização em ortodontia do ICS, FUNORTE/SOEBRÁS, Pouso Alegre, 2011. 59p. HENN, CG; PICCININI, CA; GARCIA, GL. A família no contexto da Síndrome de Down: revisando a literatura. Psicol. Estud., Maringá, v.13, n.3, p.485-493, 2008. MORAES, LC. et al. Ocorrência de taurodontismo em indivíduos portadores de síndrome de down. Rev. Inst. Ciênc. Saúde. São Paulo, v.22, n.4, p.317-322, 2004. LEONELLI ME et al. Dental anomalies in patients with down syndrome. Braz. Dent. J. Ribeirão Preto, v.18, n.4, p. 346-350, 2007. MORAES, LC; LEONELLI, ME et al. Dental age in pacients with down syndrom. Bras. Oral res. São Paulo, v.21, n.3, p.259-264, 2007. OLIVEIRA, ACB. Aspectos relacionados à saúde bucal de crianças e adolescentes com síndrome de down: um estudo quali-quantitativo. 111f. Tese (doutorado) – Escola nacional de saúde pública Sérgio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2007.

continuar investigando as propriedades da doença. Também PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 93


RIBEIRO, EL. et al. Buccal Candida albicans in children with Down´s syndrome: prevalence and in vitro susceptibility to antifungal drugs by E-test® ribbons method. RBAC. Rio de Janeiro, v.43, n.3, p.189-191, 2011. SANTANGELO, CN. et al. Avaliação das características bucais de pacientes portadores de síndrome de down da APAE de Mogi das Cruzes – SP. Conscientiae Saúde, São Paulo, v.7, n.1, p29-34, 2008. VIEIRA GJD et al.Candida albicans isoladas da cavidade bucal de crianças com síndrome de Down: ocorrência e inibição do crescimento por Streptomyces SP. Rev. Soc. Bras. Med. Trop. Rio de Janeiro, v.38, n.5, p.383-386, 2005.

NOTAS DE FIM 1- Alunos do curso de graduação em odontologia do Centro Universitário Newton Paiva. 2- Professora do curso de odontologia do Centro Universitário Newton Paiva, mestre em odontopediatria, doutoranda em odontopediatria UFMG.

94 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


CATÁLAGO DE ÍNDICES E INDICADORES SOCIODEMOGRÁFICOS UTILIZADOS EM SAÚDE Camila da Penha Marques Braga1 Gabrielle Rios de Oliveira1 Maria Luiza da Matta Felisberto Fernandes2 Veridiana Salles de Oliveira Furtado de Oliveira3

RESUMO: Tendo em vista a importância e a magnitude do problema das desigualdades sociais, suas relações com a saúde, no Brasil e demais países, o objetivo deste estudo foi rever a literatura médica para a análise e compreensão dos principais índices e indicadores sociodemográficos utilizados em saúde. A análise da literatura pesquisada permitiu constatar os diferentes tipos de indicadores que podem ser usados de acordo com os objetivos e realidades de cada pesquisa. Cada indicador socioeconômico em saúde parece revelar algo diferente. Os indicadores são fundamentais para uma melhor compreensão da situação e subsidiar o processo de tomada de decisões estratégicas dos agentes públicos e privados. PALAVRAS-CHAVE: Indicadores sociais. Equidade. Saúde.

Os estudos que visam mensurar a equidade nas políticas

1. INTRODUÇÃO A desigualdade socioeconômica é uma característica mar-

sociais são imprescindíveis para a construção de um sistema

cante do contexto brasileiro, influenciando a situação da saúde e

de saúde resolutivo, adequado às reais necessidades de seu

ocasionando extensas consequências (PELEGRINI et al; 2005).

entorno e capaz de produzir qualidade de vida, de forma cres-

O Brasil, em relação ao contexto mundial, revela uma situa-

cente, para a população (PELEGRINI et al., 2005).

ção peculiar por contrastar a sua posição relativa no ranking do

Assim, o objetivo deste estudo foi rever a literatura médica

Produto Interno Bruto (PIB) (13º lugar) com a posição ocupada

para a análise e compreensão dos principais índices e indica-

no ranking do PIB per capita (64º lugar) e do Índice do Desen-

dores sociodemográficos utilizados em saúde.

volvimento Humano (IDH) (63º lugar). Na classificação sociodemográfica, o Brasil ocupa uma posição pior que países bem menos desenvolvidos industrial

2. MÉTODO Estudo descritivo através de revisão da literatura biomédica entre os anos de 1990 a 2013, utilizando-se as palavras-chave:

e economicamente. No ranking de distribuição de renda das Nações Unidas,

Indicadores sociais, saúde, equidade, equity, equidad, social

dentre 124 países, o Brasil está na posição 117, com índice

indicators, indicadores sociales, health, salud. Utilizou-se as

Gini de 59,3.

fontes de informação: lilacs, med line, Scielo, biblioteca cochra-

Não obstante, há muita variação no nível de desigualdade

ne e BBO. Utilizou-se a literatura publicada nos idiomas português, inglês e espanhol.

dentro do Brasil (BRASIL, 2005). O aumento da desigualdade, em consequência da concentração de renda, tem sido evidenciado por indicadores econômicos.

3. RESULTADOS/ DISCUSSÃO

Além de estar associada à saúde das pessoas, a desigual-

Bem-estar social é um fenômeno complexo por se tratar de

dade de renda também é a principal explicação para as iniqui-

um estado subjetivo, podendo variar de pessoa para pessoa.

dades em saúde, quando medida pelo índice de concentração

Ela pode afetar a saúde física e mental dos pacientes interfe-

(WAGSTAFF, 2002).

rindo também no processo de cura e sobrevida das doenças.

É importante no desenho das políticas públicas, o conheci-

A partir da busca da biblioteca virtual em saúde observou-se que não há uma revisão sistemática sobre a utilização dos

mento dessas injustiças sociais. Deve-se ter noção das necessidades dos diferentes gru-

indicadores sociodemográficos em saúde.

pos populacionais para a formulação dessas políticas, no intui-

Para se conhecer e compreender os principais índices e

to de reduzir as desigualdades existentes no serviço de saúde

indicadores sociodemográficos utilizados em saúde, foram in-

(ARAÚJO et al., 2009).

cluídas 16 referencias. Todas mencionaram a renda per capita PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 95


como o principal indicador social. Esta pode ser definida como

cursos com formação presencial, e continua a se expandir até

indicador do grau de desenvolvimento econômico de um país

os dias de hoje, com a oferta de cursos de educação à distân-

ou região (soma dos salários de toda a população divididos

cia. O que era de acesso difícil e restrito em décadas anteriores,

pelo número de habitantes).

já não é mais. Em outras palavras, há muito mais pessoas com

As abordagens predominantes encontradas foram acerca

diploma de curso superior atualmente. A formação em curso

da renda familiar do chefe de família que pode ser classificada

superior não é remunerada da mesma forma em que foi no

pelo número de salários mínimos recebidos ou pela renda men-

passado. Esse fato, a posse de diploma de curso superior não

sal média do indivíduo.

é sinônimo de maior poder aquisitivo, também não representa

A literatura indica que se trata do indicador que melhor re-

maior capacidade de consumo e, consequentemente, condi-

presenta a possibilidade de acesso aos produtos e serviços bá-

ção de formação de uma classe econômica mais elevada como

sicos para o bem-estar e qualidade de vida.

propõe o Critério Brasil. Ao atribuir oito pontos para o chefe de

Vale ressaltar que no Brasil, a renda foi a dimensão que

família portador de diploma de curso superior no seu cálculo

mais evoluiu nos últimos dez anos. Cinquenta por cento da po-

de classificação econômica, o Critério Brasil comete o equívoco

pulação mais pobre do país experimentou um crescimento pró-

de supervalorizar a formação em curso de nível superior como

ximo de 52% (NERI et al., 2011).

determinante de poder aquisitivo (VIEIRA et al., 2013).

Observou-se uma sinergia entre os indicadores de educa-

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) foi menciona-

ção e renda. O aumento da escolaridade traduz uma melhor

do em 80% dos artigos estudados. Os valores do IDH variam

colocação no mercado de trabalho e por consequência melhor

de 0 a 1, sendo o valor maior, uma leitura indicativa de melhor

qualidade de vida (CLELAND et al., 1988).

índice e o valor menor, uma indicação de pior.

O indicador de educação é comumente expresso pelas ta-

Este índice tem o objetivo de avaliar o bem-estar de uma

xas de alfabetização e analfabetismo, reveladas por avaliações

população, não apenas sob o ponto de vista econômico, mas

dos estados ou órgãos mundiais, como a Organização da Na-

também sob outras dimensões fundamentais de vida humana,

ções Unidas (ONU) (DOMNICH et al., 2013)

tais como longevidade, educação e renda. O Brasil, com um

A taxa de alfabetização é considerada a porcentagem de pessoas com capacidade de ler e escrever na população de

IDH de 0.718, ocupa a posição 84 dentre os 187 países avaliados (LAKATOS et al., 2009).

um país. A taxa de analfabetismo é o percentual de pessoas na

Considera-se renda a soma (em valores monetários) de

população total residente, da mesma faixa etária, em determi-

todos os bens e serviços finais produzidos numa determinada

nado espaço geográfico, no ano considerado, com quinze anos

região, (países, estados ou cidades) durante um período deter-

ou mais, que não podem ler e escrever um simples bilhete, no

minado (mês, trimestre, ano).

idioma próprio.

O Produto Interno Bruto (PIB) foi mencionado em 15% da

Observa-se também um grande percentual de publicações que abordam a escolaridade do chefe de família, através do tempo de escolaridade formal em anos.

literatura avaliada. Existe uma associação entre renda e PIB; a renda é baseada no Produto Interno Bruto. Os maiores PIBs do Brasil se encontram no Distrito Fe-

De acordo com o Critério ABA-Abipeme de classificação

deral e em São Paulo, representando assim um maior núme-

econômica, em sua versão mais recente, divulgada em feverei-

ro de mão de obra local gerando maior riqueza para o estado

ro de 2012, a Associação Brasileira de

(BANDEIRA, 2004).

Estudos Popula-

cionais (Abep) continua atribuindo 8 pontos para o curso supe-

Tratando-se de concentração de renda, o Índice de Gini é

rior completo dentro da dimensão “grau de instrução do chefe

internacionalmente usado. Pode ser definido como um indica-

da família”. Desse modo, considerando as diferentes pontua-

dor de desigualdade elaborado a partir das informações refe-

ções na composição do cálculo do critério, possuir diploma de

rendes ao rendimento médio, em salários mínimos, dos chefes

curso superior completo equivale a dispor de duas empregadas

de família. Ele compara a proporção do rendimento total auferi-

mensalistas (4 pontos) mais duas máquinas de lavar (2 pontos)

do por uma parcela da população em relação ao peso relativo

e dois aparelhos de freezer (2 pontos). Provavelmente, este cál-

dessa parcela no conjunto da população geral. Consiste em um

culo tem suas limitações para traduzir a verdadeira categoriza-

número entre 0 e 1, onde 0 corresponde à completa igualdade

ção econômica (BRASIL, 2008).

de renda (onde todos têm a mesma renda) e 1 corresponde à

O ensino superior experimentou larga expansão no Brasil a partir da segunda metade dos anos 1990, com a oferta de

completa desigualdade (onde uma pessoa tem toda a renda, e as demais nada têm).

96 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


Este índice compara os 20% mais pobres com os 20% mais

índice específico utilizado apenas no Reino Unido, já que se

ricos em locais determinados. É relativamente citado, sendo

refere à condições particulares daquela comunidade (BEATO-

abordado por 25% da literatura referida. O coeficiente de Gini

-FILHO, 1998).

baseia-se na renda domiciliar líquida, que resulta em ser pouco

Existem ainda Índices usados nos demais países do mun-

influenciado pela transferência de renda e ajuste por tamanho

do como o Índice de Townsend que mede carências múltiplas

de domicilio (KAWACHI, 2000).

por área. A pontuação é calculada pela combinação de quatro

O Índice de Kaplan foi elaborado a partir de observações

variáveis do censo Inglês de 1991. Quanto maior o score neste

da relação de bem-estar psicológico, condições econômicas

índice, maior a medida de privação da comunidade. É muito

como renda e posição social, recebimento de rendas a par-

usado em pesquisas de saúde no Reino Unido, constituído pe-

tir de lucros, aluguéis, investimentos ou o grau de carência

las variáveis desemprego, superlotação, ausência de automó-

financeiras medidas longitudinalmente, em três diferentes

vel, casa própria e classe social baixa (BREILH, 2008).

períodos de tempo.

Em alternativa ao Índice de Townsend, para se evitar o uso

Baseou-se nas características de distribuição da renda ob-

das famílias como determinantes, criou-se o Índice de Carstairs.

servadas durante um estudo de coorte de 29 anos, no municí-

Trata-se de um índice de privação, usado para identificação so-

pio de Alameda (Califórnia), com 1127 participantes, correspon-

cioeconômica de fatores de confusão. O Índice está baseado

dente a 90% da amostra viva do primeiro estudo. Este índice foi

em quatro indicadores do mesmo censo inglês de 1991: clas-

determinado a partir da correlação do bem-estar com as variá-

se social baixa, falta de posse de veículo, superpopulação e

veis renda, desemprego e doenças incapacitantes.

O bem-

desemprego masculino. As áreas de residência são também

-estar psicológico foi definido em seis sub-categorias: auto

avaliadas pelos códigos postais. Incorpora-se índices constan-

aceitação, objetivo de vida, autonomia, crescimento pessoal,

tes a estas variáveis para a determinação dos riscos sociais da

bom relacionamento interpessoal, capacidade de administrar a

população (WILKINSON., 1999).

própria vida e os episódios ao seu entorno. Os resultados apon-

O Breadline Grã-Bretanha Score é outro índice utilizado

taram uma relação de bem-estar psicológico com crescimento

pela literatura médica, construído como resultado de uma pes-

de renda ou renda suficiente para as despesas sem a necessi-

quisa realizada para London Weekend Television em 1990.

dade de auxílio saúde (MATY et al., 2005).

Tem a intenção de definir a pobreza normativa (percepções

Mencionado por 10% da revisão da literatura, o índice de

das pessoas sobre a pobreza) em termos do limiar de pobreza,

Theil pode ser definido por uma medida estatística da distri-

através das variáveis: desemprego, falta de propriedade da casa

buição de renda utilizada em grande escala, para mensurar a

que moram, acomodações ocupadas, falta de propriedade de au-

desigualdade de renda. Quanto maior o índice de Theil, maior

tomóveis, doença limitante a longo prazo, famílias monoparentais

a concentração de renda na amostra. As principais vantagens

e classe social baixa são suas variáveis (ANSELIN, 1992).

desse índice em relação a outros, que medem a desigualdade

Pouco prevalente na literatura, porém encontrado, é o In-

de renda, é sua sensibilidade aos diferenciais de observações,

dex of Multiple Deprivation (Índice de Privação Múltipla). Foi

verificados nas proximidades da cauda inferior da distribuição e

idealizado por pesquisadores da Universidade de Oxford para

sua possibilidade de decomposição aditiva por subgrupos po-

revisar e atualizar o índice de pobreza de 1988. É determinado

pulacionais (JELINSKI et al., 1996).

pelas variáveis: renda, emprego, saúde, deficiência, educação,

O Índice de Pobreza, abordado em 10% dos artigos, possui

habilidades e treinamento, barreiras à habitação, serviços, meio

relação com o Índice de Jarman. Este foi criado por fatores so-

ambiente em que vive e prevalência de crimes contra as pesso-

ciais percebidos por médicos clínicos gerais através do censo

as (MELAMED et al., 2003).

demográfico em 1991 realizado no Reino Unido.

Conhecer os principais indicadores sociodemográficos pu-

O Índice de Pobreza foi adotado pelo Departamento de

blicados nas pesquisas em saúde é importante.

Saúde Inglês, como base para aprimorar a realização de pa-

Este artigo serve como fonte para pesquisadores em saúde

gamentos para os clínicos gerais daquele país. Possui compo-

que vão utilizá-los para categorizar a população de estudo ou

nentes como: desemprego, superlotação, pensionistas, famílias

analisar associações com as condições socioeconômicas ou

monoparenterais, local de nascimento das pessoas (nascidos

perfil social de uma população.

em New Commonwealth - região mais pobre, ou não), presença

Fornecer um catálogo dos principais indicadores em saúde

de crianças menores de 5 anos de idade nas famílias, classifi-

no intuito de contribuir na avaliação e escolha dos critérios de

cação social (baixa ou alta) e se eram imigrantes ou não. É um

classificação sociodemográficas a serem utilizadas nas pesqui-

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 97


sas apropriadas a seus objetivos específicos. Este estudo focou-se em indicadores direcionados a grupos populacionais. Portanto, não cobre pesquisas com grupos menores ou categorias socioeconômicas individuais. Os diferentes tipos de indicadores podem ser usados de acordo com os objetivos e realidades de cada pesquisa.

BRASIL. Critério Padrão de classificação econômica. O novo critério de classificação econômica/ Jun 2008. disponível em http://www.viverbem. fmb.unesp.br/ acessado em 25 de outubro de 2013 BREILH, J. Pilhagens, ecossistemas e saúde. In: Miranda A, Barcellos C, Moreira JC, Monken M, organizadores. Território, ambiente e saúde. Editora Fiocruz Rio de Janeiro. p. 159-180, 2005.

Não está no escopo do trabalho discutir as características e avaliar a melhor indicação de cada instrumento. Nota-se que muitos índices foram criados dentro de características específicas de uma população ou grupo. O uso ou interpretação errada destes indicadores pode resultar em erros de interpretação dos resultados. Contudo, o conhecimento do referencial teórico aqui descrito é considerado fundamental para propiciar uma melhor compressão da situação e para subsidiar o processo de tomada de decisões estratégicas dos agentes públicos e privados.

CLELAND, J.G.; VAN GINNEK, J.K. Maternal education and child survival in developing countries: The search for pathways of influence. Soc Sci Med. Oxford. v.27, n.12, p.1357-1368, 1988. DOMNICH, A.; AMICIZIA, D.; PANATTO, D. et al. Use of different subjective health indicators to assess health inequalities in an urban immigrant population in north-western Italy: a cross-sectional study. BMC Public Health. London. v.13, n.1, p.1006-1025. JELINSKI, D.E.; GOODCHILD, M.; STEYAERT, L. The modifiable real unit problem and implications for landscape ecology. Landscape Ecology. Amsterdam. v.11, n.3, p. 129-40, 1996.

4. CONCLUSÃO É notório que não existe um consenso na literatura biomédica sobre o melhor indicador de desigualdade social. Cada indicador socioeconômico em saúde parece revelar algo diferente e não pode ser ajustado às diferentes realidades sociais. A utilização de mesmos indicadores sociodemográficos, na

KAWACHI, I. Income Inequality and Health. In: BERKMAN LF, KAWACHI I, editors. Social epidemiology. New York: Oxford University Press. p. 76-94, 2000. LAKATOS, E.M.; MARCONI, M.A. Fundamentos da Metodologia Científica: Atlas.São Paulo, 6a ed., 2009.

literatura científica, independente da cultura ou nacionalidade, seria um facilitador para estudos comparativos. Torna-se necessário maiores esforços nas investigações sobre os métodos de estudos das características sociodemográficas para que possam representar de maneira homogênea e reprodutível tais condições que, sabe-se, são fatores de influência no processo da saúde e doença da população. REFERÊNCIAS ANSELIN, L. Spatial data analysis with Gis: an introduction to application in the social sciences. National Center for Geographic Information and Analisis. Santa Barbára, 1992. ARAÚJO, C.S., LIMA, R.C., PERES, M.A., BARROS, A.J.D. Utilização de serviços odontológicos e fatores associados: um estudo de base populacional no Sul do Brasil. Cadernos de Saúde Pública Rio de janeiro. v.25, n.5, p.1063-1072, 2009. BANDEIRA, P.S. Articulação de atores sociais, capital social e desenvolvimento regional: o caso dos Conselhos de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul. In: SEI. Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (Org.) Desigualdades regionais Salvador. v.67, p.219-250, 2004. BEATO-FILHO, C.C. Determinantes da criminalidade em Minas Gerais. Rev Bras Cienc Soc. São Paulo. v.13, p.74-87, 1998. BRASIL. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Relatório de Desenvolvimento Humano. Brasília (DF); 2005.

MATY, S.C.; EVERSON-ROSE, S.A.; HAAN, M.N.; RAGHUNATHAN, E.T.; KAPLAN, G.A. Education, income, occupation, and the 34-year incidence (1965–99) of Type 2 diabetes in the Alameda County Study. Int J Epidemiol. Oxford. v. 34, n.6, p. 1274-1281, 2005. MELAMED, C.; COSTA, N.R. Inovações no financiamento federal à Atenção Básica. Ciência & Saúde Coletiva. Rio de Janeiro. v.8, n.2, p.393-401, 2003. NERI, M.C. Desigualdade de renda na década. Fundação Getúlio Vargas, Centro de Políticas Sociais. Rio de Janeiro. p. 13-25, 2011. PELEGRINI, M.L.M.; CASTRO, J.D; DRACHLER, M.L. Eqüidade na alocação de recursos para a saúde: a experiência do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Ciência & Saúde Coletiva. Rio de Janeiro. v. 10, n. 2, p. 275-286, 2005. VIEIRA, F.G.D.; MEDEIROS, J.; NOGAMI, V.K.C. Práticas de mercado e inovação: dimensões esquecidas. RAI : Revista de Administração e Inovação, São Paulo, v. 10, n.3, p. 238-261, 2013 WAGSTAFF, A. Poverty and health sector inequalities. Bulletin of the World Health Organization. v.80, n.2, p. 80-97, 2002. WILKINSON, R.G. Health, hierarchy, and social anxiety. Ann N Y Acad Sci. New York. V.896, p.48-63, 1999.

98 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


NOTAS DE FIM 1-Alunas do curso de graduação em odontologia do CUNP 2- Professora do curso de odontologia do CUNP, mestre em odontopediatria, doutoranda em odontopediatria UFMG, 3- Professora de odontopediatria, doutora em odontopediatria USP- Bauru.

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 99


ADIÇÃO DE REJEITOS DE EXTRAÇÃO DE ARDÓSIA EM CONCRETO Claudio Gouvêa dos Santos1 Luciana Boaventura Palhares2 Emerson Diego Carvalho Rosa3 Ewerton Ferreira Cruz4 Michele Mamedes da Costa4

Resumo: A mineração é um dos pilares da economia nacional, proporciona o desenvolvimento interno e serve como subsídio para o progresso internacional. Porém, o ônus desta atividade tem sido pago pelo meio ambiente, que sofre sérios impactos, sendo muitas vezes irreversíveis. Junto a isso, a construção civil tem crescido exponencialmente no Brasil, gerando empregos, lucros, etc. e também problemas ambientais, já que é a maior poluidora desde a extração da matéria prima até o seu produto final. Esse trabalho teve o intuito de reutilizar os rejeitos gerados na extração da ardósia na produção de concreto para uso em funções não estruturais. Foi avaliado o desempenho de corpos de prova produzidos (10X20 cm) através de testes de resistência mecânica à compressão, substituindo-se parte dos agregados por ardósia moída em diferentes porcentagens, 5%, 10%, 15% e 50%. Observou-se que as amostras com 15% apresentaram os melhores resultados aumentando a resistência do concreto. PALAVRAS-CHAVE: Rejeitos. Ardósia. Concreto. Resistência mecânica.

INTRODUÇÃO

dos ou manufaturados, que se apresentam numa sequência

O Brasil está entre os maiores produtores de ardósia do

de diferentes tamanhos, os quais, interligados por um material

mundo. É o 2º maior produtor e exportador mundial, com Minas

aglomerante, formam argamassas e concretos”.

Gerais respondendo por cerca de 90% desta produção e qua-

Considerando que os agregados apresentam-se em dife-

se totalidade da exportação brasileira. A produção de ardósias

rentes granulometrias a utilização do resíduo de ardósia pode

de Minas Gerais totaliza aproximadamente 500 mil toneladas/

ser uma tentativa para minimizar os impactos gerados por esse

ano. Em valores, essas exportações mostraram crescimento de

rejeito e ainda poderá diminuir os gastos com extração da areia

45,1% em relação a 2003 e já representam 47,6% das exporta-

e uso de brita de acordo com a granulometria utilizada.

ções totais de rochas de Minas Gerais (FEINAR, 2006) O sistema de extração de blocos de rochas para produção de

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

chapas gera uma quantidade significativa de resíduos na forma de lama composto basicamente de água, lubrificantes e rocha moída. Esse rejeito sem aproveitamento acumula-se nos pátios, reservatórios e córregos, comprometendo o meio ambiente. Em 2009, a produção brasileiras de rochas ornamentais e de revestimento totalizou cerca de 9 milhões de toneladas.

Características e formação da ardósia Rochas são materiais constituintes da crosta terrestre, provenientes da solidificação do magma ou da consolidação de depósitos sedimentares, tendo ou não sofrido transformações metamórficas.

Estima-se que 7% desta produção sejam de ardósia e que a

Segundo Souza (2000), ardósia é uma rocha metamórfica,

geração de resíduos seja de 25% da produção, totalizando 1,5

que apresenta baixo grau de metamorfismo, constituída de mate-

× 105 toneladas de rejeitos (ABIROCHAS, 2012).

rial extremamente fino, semelhante aos de argilas. É formada por

Vários autores (Catarino, et.al. 2003; Cunha, 2007; Oli-

longas placas ao longo de sua superfície planar, fenômeno conhe-

veira, et.al., 2000; Dos Santos, et.al, 2013) vem tentando uti-

cido como clivagem ardosiana e resulta da recristalização sobre

lizar a ardósia na produção de cerâmica vermelha e concreto

pressão. Em sua constituição pode-se encontrar a presença de

visando a diminuição dos impactos ambientais provocados

minerais como mica, quartzo, óxido de titânio, clorita e outros. É

por esses resíduos.

encontrada onde houve aquecimento e pressão de folhelhos du-

O concreto é composto por misturas de agregados de va-

rante a formação de montanhas.

riadas granulometrias, aglomerantes e aditivos. Segundo Silva

Macroscopicamente classifica-se como uma rocha dura,

(1991) “agregado é um conjunto de grãos naturais, processa-

com tonalidade variada: preto, cinza escuro, ferrugem, verde

100 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


e vermelha. É uma das matérias-primas mais utilizadas no se-

Figura 2: Mineração de ardósia cinza em Papagaios - MG

tor de construção civil por ter excelentes propriedades físicas como: dureza média, baixa porosidade, alta resistência mecânica aliada ao baixo custo. Sua exploração é baseada na lavra de folhelhos nas fases de corte e acabamento. Conforme Souza (2000), devido a sua composição ser formada de silicatos de alumínio que constituem parte de utensílios cerâmicos, a ardósia pode vir a ser um material alternativo para indústrias cerâmicas em substituição aos convencionais. Ardósia no Brasil Na década de 70 iniciou-se a extração de ardósia no Brasil, localizado na zona do Alto São Francisco no estado de Minas Gerais

Disponível em <http://www.altivopedras.com/mineracao.html>

dentre os municípios de Caetanópolis, Curvelo, Felixlândia, Leandro Ferreira, Martinho Campos, Papagaios, Paraopeba e Pompéu

Adição de minerais no concreto

que possui uma das maiores reservas mundiais de ardósia. Con-

Mineral segundo Schumann (1989) é um componente ho-

forme Freitas (2012), as atividades ligadas à exploração, benefi-

mogêneo, de forma cristalina, da crosta terrestre que se origi-

ciamento e comercialização, envolvem uma população superior a

nou de forma natural. São constituídos de átomos que formam

8.000 habitantes. A falta de pesquisa geológica, planejamento de

os arranjos atômicos que são denominadas estruturas do cris-

lavra e pesquisa tecnológica aplicada na produção e exportação

tal. Os minerais conhecidos como quartzo, feldspato e mica se

de ardósia, são fatores que contribuem para geração de proble-

originam de gases e líquidos em estado de fusão. O mineral,

mas ambientais, como as grandes cavas abertas para extração,

conforme Furquim (2006), com suas diferenças físicos e quími-

grandes pilhas de estéril e rejeitos, efluentes líquidos que contêm

cas com diversidade de tipos é empregado no concreto com

pó de serragem, cujo descarte é realizado de forma inadequada,

o intuito de melhorar algumas de suas propriedades, tornando

próximo às lavras ou unidades de beneficiamento (figura 1).

necessário um conhecimento de suas características, como a

Essa quantidade de rejeito decorre da baixa recuperação

compreensão das reações e alterações promovidas pelas adi-

de placas com aproveitamento industrial inferior a 15% do vo-

ções minerais no material. Os minerais mais utilizados possuem

lume extraído. Apesar da importância econômica da ardósia,

em sua composição cinza volante, sílica amorfa e ativa e escória

pouco se tem feito na melhoria, como implementação de ações

de alto forno. Por se tratar de material fino, as pozolanas possuem

que visam minimizar os impactos negativos ao meio ambiente

efeitos físicos e químicos pela diminuição do volume de vazios e

(figura 2).

pela produção de silicato de cálcio hidratado, respectivamente. Ainda, segundo Furquim (2006), os minerais, contribuem para me-

Figura 1: Mineração de ardósia preta em Papagaios - MG

nor porosidade, permitindo maior resistência mecânica, proporcionando um concreto de baixa permeabilidade, garantindo proteção a estrutura a agentes agressivos deterioradores de concreto. MATERIAIS E MÉTODOS O resíduo de ardósia utilizado foi proveniente da empresa Micapel Slate e gerado nas etapas de extração e beneficiamento da rocha. Este foi previamente tratado antes da utilização visando à retirada de impurezas, como rejeitos e contaminações. As etapas deste tratamento foram: preparação de uma suspensão do pó em água; peneiramento a úmido na peneira de #400; decantação 24 horas; sifonamento (retirada da água); e secagem em estufa (temperatura 120 oC durante 24 horas). O cimento utilizado foi o CP II E-32 Portland. Os agregados

Disponível em <http://www.catchingphotons.co.uk/blog/?p=164>

utilizados foram: a areia normal fornecida em embalagens de 25

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 101


Kg, separadas em diferentes frações granulométricas (grossa #16,

observa-se variações muito grandes em relação aos outros.

média-grossa #30, média-fina #50 e fina #100) e brita número zero.

Observa-se um valor elevado de resistência para 15% de rejeito

A dosagem do concreto foi feita a partir dos dados obtidos

e isso sugere um efeito pozolanico. Pimenta, (2010) comprovou

através da caracterização dos materiais empregados, cimento,

o efeito pozolânico da ardósia em seus trabalhos.

agregados e resíduos, enfocando aspectos como a qualidade e a composição granulométrica destes. A dosagem foi feita para que

Figura 3: Variação da resistência mecânica X tempo de cura

a resistência da referência (sem adição de ardósia) para comparação fosse 30 MPa após 28 dias de cura. Com o objetivo de avaliar a influência da substituição de parte dos agregados por resíduos reciclados, foram dosados concretos com e sem resíduos. O concreto sem resíduos foi tratado como concreto de referência, enquanto os demais foram especificados conforme as diferentes porcentagens de resíduos, sendo adotadas de 5%, 10%, 15% e 50% em relação a quantidade de agregados adotada no concreto de referência. Foram moldados corpos-de-prova de forma cilíndrica de (10 x 20) cm visando sua homogeneidade através da mistura de seus constituintes, utilizando-se de uma betoneira durante o período que variou de acordo com a mistura. A cura foi feita tomando-se medidas de precaução para evitar

A utilização do rejeito de ardósia não prejudicou as pro-

a evaporação da água utilizada na mistura do concreto e que devia

priedades finais das peças a ponto de inviabilizar seu uso, pelo

reagir com o cimento, hidratando-o. Os corpos de prova ficaram

contrário, em adições de 15% observou-se um aumento dessa

na câmara úmida desde a moldagem e após 24 foram desmolda-

resistência. A figura 4 mostra o gráfico da resistência mecânica

dos e permaneceram na câmara até os ensaios de resistência à

em função da porcentagem de resíduo adicionado. Sugere-se

compressão aos 3, 14, 28 dias.

que o resíduo fino atuou como filler preenchendo os poros va-

No estudo da utilização de resíduos reciclados como subs-

zios e aumentando assim a resistência.

tituinte de parte dos agregados foi determinada a propriedade mecânica de resistência à compressão de acordo com NBR 5739

Figura 4: Porcentagem de rejeito de ardósia em função

(ABNT, 1994) aos 3, 14 e 28 dias de idade em uma máquina de

da resistência mecânica (MPa)

ensaios de compressão uniaxial. A absorção do concreto pode foi avaliada através do método de ensaio normalizado por imersão, segundo a NBR9778 (ABNT, 1990). RESULTADOS E ANÁLISES A tabela 1 mostra os valores de compressão obtidos para os corpos de prova produzidos. A figura 3 mostra que com o passar do tempo a influência do rejeito torna-se mais pronunciada. Aos 28 dias de cura

A absorção de água variou em função da porcentagem de resíduo adicionada. Obtendo-se valores dentro da norma para os corpos de prova com até 15% de resíduo. Observa-se que a quantidade de água requerida para se manter a consistência dos concretos cresce proporcionalmente 102 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


com o aumento do teor de material reciclado adicionado, fato explicado em função do elevado percentual de finos presentes na composição. CONSIDERAÇÕES FINAIS A utilização do rejeito de ardósia em porcentagens de até 15% foi favorável, aumentando a resistência dos corpos de prova produzidos. É importante ressaltar que devido à heterogeneidade do resíduo nas áreas de extração os concretos obtidos devem ser utilizados para funções não estruturais. O trabalho desenvolvido apresenta várias vantagens para a sociedade como a eliminação dos resíduos de ardósia produzidos nas minas e serrarias que são lançados e acumulados continuamente no meio ambiente, reduz a quantidade de agregados utilizados quando substitui areia, além de gerar de uma nova atividade econômica. REFERÊNCIAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. Argamassa e concreto endurecidos - Determinação da absorção de água, índice de vazios e massa específica. NBR 9778. Rio de Janeiro, 1990. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. Concreto - Procedimento para moldagem e cura de corpos-de-prova. . NBR 5738. Rio de Janeiro, 2003. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. Concreto – Ensaio de compressão de corpos-de-prova cilíndricos. NBR 5739. Rio de Janeiro, 1994. ABIROCHAS – Associação Brasileira da Indústria de Rochas Ornamentais. Estimativa da Serragem de Chapas de Rochas Ornamentais no Brasil. Informe 05/2012.

digo=2929. Acessado em 17/06/2012. FREITAS, Valéria Lúcia de Oliveira. Restauração de Áreas Degradadas pela Extração de Ardósia, utilizando seus rejeitos, no município de Papagaio, Minas Gerais. 2012.Belo Horizonte. FURQUIM, Paulo Ricardo de Vargas. Estudo estatístico de produção de concretos com adições minerais. 2006. Santa Maria, RS. OLIVEIRA, M.C. et al. Ardósia como Matéria Prima para Cerâmica. In: 44o Congresso Brasileiro de Cerâmica, São Pedro, 2000. Anais do 44o Congresso Brasileiro de Cerâmica, p.7401-7408. PIMENTA, F.T. Ardósia em Cimentos Pozolanicos. Patente. PI 10036711. A2. 2010. INPI. Brasil. SILVA, Moema Ribas. Materiais de Construção. Editora Pini. 1991, 2ª Ed.267 p. São Paulo, SP SOUZA, L. P. de F. et.al. Caracterização de pó de ardósia proveniente de rejeitos quanto a cristalinidade e comportamento térmico. 2000. São Pedro, SP. SCHUMANN, Walter. Rochas e minerais. Ao Livro Técnico S.A. 1989, Rio de Janeiro.

NOTAS DE FIM 1 PhD. Professor Universidade Federal de Ouro Preto 2 MsC. Professora do Centro Universitário Newton Paiva 3 Graduando do Curso de Engenharia Mecânica do Centro Universitário Newton Paiva 4 Graduandos do Curso de Engenharia Ambiental do Centro Universitário Newton Paiva

CATARINO, L., SOUSA, J., MARTINS, I.M., VIEIRA, M.T., OLIVEIRA, M.M. Ceramic Products Obtained from Rock Wastes. Journal of Materials Processing Technology. , v.143-144, p.843-845, 2003. CUNHA, J.P. Desenvolvimento de um novo material a partir da composição dos resíduos da mineração de varvito e da produção de cal. 2007. 94p. Tese (Mestrado em Engenharia e Ciência dos Materiais, Setor de Tecnologia, PIPE, Universidade Federal do Paraná, Curitiba. DOS SANTOS, C. G. PALHARES, L.B.; FABRI, E.S.; BAPTISTA, B.C.M., TAVARES, P. F., VIEIRA, R. V., OLIVEIRA, V. A. Avaliação Do Desempenho De Concretos Com Agregados Reciclados De Resíduos Sólidos De Construção Civil. In: Anais do 57o Congresso Brasileiro de Cerâmica, Natal, 2013, p. 3195-3205. FEINAR – Feira Nacional de Ardósia. 2006. Disponível em: http://www. jcnoticias.com.br/index.php?Conteudo=noticias&subMod=dodia&Co PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 103


UTILIZAÇÃO DOS EXTRATOS DE MATE E ROMÃ COMO INIBIDOR DA CORROSÃO DO AÇO-CARBONO 1020 Claudio Gouvêa dos Santos1 Luciana Boaventura Palhares2 Cely de Fátima Santos3 Carlos Martins Viana3 Cintia Priscile Andrade Jesus3 Lucas Alves Nascimento3 Tatiane Gomes Santos3

RESUMO: No presente trabalho foi avaliada a eficiência dos extratos da erva mate e da romã como potenciais inibidores da corrosão do aço AISI 1020 em água, solução de NaCl 3% p/v e solução de HCl 1mol/L. Amostras deste material foram expostas a esses meios e a taxa de corrosão foi determinada por perda de massa, com base na norma ASTM G1-72. A identificação dos produtos de corrosão formados foi realizada por difração de raios X. Os resultados para inibição mostraram-se mais eficientes para as soluções salinas e ácidas, sendo estes extratos, no entanto, potencializadores da corrosão em água pura e nos produtos da corrosão foi identificada a presença de lepidocrocita, akaganeita e goetita. PALAVRAS-CHAVE: Inibidores de corrosão. Aço AISI 1020. Norma ASTM G1-72.

INTRODUÇÃO

ções de recursos protetores, tais como: revestimento ou pintura

A corrosão é um processo químico no qual o meio age

capaz de garantir uma proteção contra a corrosão, emprego de

sobre o material. No cotidiano, associa-se corrosão sempre a

inibidores de corrosão, dentre outros recursos (BUENO, 2008).

ferrugem, camada marrom-avermelhada que cobre a superfí-

Mainier (2004) define inibidores de corrosão como substân-

cie dos metais ferrosos, porém, esta se apresenta sob diversas

cias que adicionadas ao meio corrosivo tem por objetivo evitar,

formas e está sempre associada à deterioração dos materiais,

prevenir ou impedir o desenvolvimento das reações de corro-

comprometendo a integridade, reduzindo a vida útil e impactan-

são. Atuam com uma barreira ou filme na superfície do material,

do na confiabilidade e segurança operacional (NUNES, 2007)

que impedem ou retardam as reações de corrosão, tornando o

Do ponto de vista econômico, a corrosão representa prejuí-

meio menos agressivo. A eficiência de proteção oferecida pelos

zos muito elevados que resultam em desperdício de investimen-

inibidores depende de cada material, bem como da severidade

tos. Estima-se que aproximadamente 30% da produção mun-

do meio. A taxa de corrosão pode ser determinada em milési-

dial de aço destinam-se a reposição de peças e equipamentos

mos de polegadas ao ano, conforme norma ASTM G1-72 (Re-

(MERÇON et al., 2004; NUNES E LOBO, 1990). Para minimizar

comendada para preparação, limpeza e avaliação de testes de

o problema, são utilizados inibidores de corrosão não naturais,

corrosão em amostras gerais).

que além de custo elevado, apresentam características tóxicas, nocivas ao meio ambiente e a saúde dos trabalhadores.

Vários estudos de inibidores de corrosão naturais, preparados a partir de extratos vegetais, mostram eficiência devido a

O aço AISI 1020 é uma liga ferro-carbono contendo entre

suas composições apresentarem polifenóis que possuem ação

0,008% e 2% de carbono. Apresenta boa resistência mecâni-

antioxidante. A viabilidade da utilização destes inibidores repre-

ca e deformação, tornando-o muito atrativo para a constru-

sentaria ganhos econômicos e sua inserção no desenvolvimen-

ção de estruturas e equipamentos, sendo muito utilizado na

to sustentável, haja vista que os extratos vegetais apresentam

engenharia e na indústria.

características pouco tóxicas, biodegradabilidade e menores

No entanto, o aço carbono sem adição de elementos de

custos de obtenção (SILVA, et al. 2007 a, b).

liga possui baixa resistência à corrosão, levando à formação de

Os extratos vegetais como os da erva mate e da romã atu-

filmes de óxidos/hidróxidos ou sais pouco aderentes e com mí-

am como antioxidantes, reduzindo a incidência de corrosão e

nima capacidade de proteger a superfície contra o ataque dos

aumentando a vida útil de equipamentos metálicos. Silva et al.

meios corrosivos. Desta forma, existe a necessidade de aplica-

(2007) constataram que o extrato de mate apresenta eficiência

104 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


inibidora de até 49% e o extrato de romã apresenta eficiência

ram secos em estufa à 100oC e todo o pó depositado juntamen-

inibidora de 45%, ambas dependentes da concentração. Isto se

te com as amostras foram novamente pesadas e a diferença de

deve à presença de substâncias polifenólicas, como flavonói-

massa constatada foi registrada. As amostras que tiveram sua superfície coberta com óxi-

des, saponinas e taninos, entre outros, às quais são atribuídas

dos/hidróxidos foram raspadas para que o pó aderido fosse

propriedades antioxidantes. Como os polifenóis apresentam reações de ionização, o pH é um fator determinante para a ação dos compostos fenólicos. Mo-

utilizado nas etapas de caracterização por difração de raios – X. Foi utilizado um difratômetro a Laser Philips modelo PW1710.

ran et al. (1997) sugerem que polifenóis apresentam maior capa-

A taxa de corrosão foi determinada por perda de massa

cidade antioxidante em valores de pH abaixo de 7. Por seu caráter

em mpy (milésimos de polegadas ao ano), empregando-se a

ácido, os polifenóis são mais ativos em pH ácido, alguns antioxi-

Equação 1, conforme a norma ASTM G1-72.

dantes fenólicos inativam em pH básico (PICCINI et al. 2002). Diversos autores têm estudado os produtos de corrosão formados sobre o aço carbono comum em diferentes situações utilizando difração de raios X e espectoscopia Raman. Antunes

Taxa de corrosão =

K .W

(1)

A.t.ρ

e Costa (2002) identificaram a presença de lepidocrocita, goetita e também de magnetita em amostras expostas à corrosão

onde K é uma constante (5,45x106 para unidades em mpy),

em atmosferas distintas (umidade elevada, industrial e urbana).

W a perda de massa em g, A é a área exposta em cm2, t o

No presente trabalho foi avaliada a eficiência dos extratos

tempo de exposição em h, e ρ a massa específica do material

da erva mate e da romã como inibidores de corrosão do aço

em g/cm3.

AISI 1020. Amostras do aço foram expostas a diferentes meios corrosivos, na ausência e na presença dos extratos permitindo

RESULTADOS E ANÁLISES

comprovar a eficiência dos mesmos como inibidores.

No estudo de processos corrosivos é necessário considerar as variáveis dos componentes envolvidos no processo, como

PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL

as propriedades do material, o meio corrosivo e a experimenta-

O estudo da eficiência da inibição à corrosão foi realizado

ção operacional. Neste contexto, o tipo de morfologia e a sua

a temperatura ambiente. Para a realização dos testes, foram

causa são fatores básicos no esclarecimento do mecanismo de

utilizadas amostras cilíndricas de aço-carbono AISI 1020, com

corrosão (ALMEIDA, 1012). Desta forma, realizaram-se ensaios

dimensões: 34 mm de diâmetro X 9 mm de altura. As amostras

de corrosão por imersão com medida da perda de massa, em

foram lixadas e lavadas em água destilada para livrar a superfí-

que a taxa de corrosão uniforme, usualmente expressa em mm/

cie de qualquer oxidação aparente.

ano, pode ser calculada e comparada a norma NACE RP 0775,

O extrato de mate foi preparado pela infusão de 50g gramas de erva mate seca em 500 ml de água destilada até a redução do volume a aproximadamente 50 ml. O extrato ficou em repouso por 24 horas antes da sua utilização. Quanto à romã,

para avaliação da classificação da taxa de corrosão. A tabela 1 mostra a classificação segundo a norma. Tabela 1: Classificação da Taxa de Corrosão Uniforme (NACE RP 0775)

utilizou-se extrato alcoólico comercial. Para determinação da perda de massa, nove amostras do aço foram imersas em soluções aquosas de HCl 1mol/L, NaCl 3%p/v e água destilada em béqueres de 500 mL. Para cada meio foram criadas três situações: a exposição da amostra à solução ou a água destilada, a exposição da amostra às soluções ou água com adição de extrato de romã e a exposição da amostra às so-

Classificação

Taxa de corrosão (mm/ano)

Baixa

< 0,025

Moderada

0,025 – 0,12

Severa

0,12 – 0,25

Muito severa

> 0,25

luções ou água com adição de extrato de erva mate. O tempo de exposição foi de 24 horas para os três testes de imersão. Decorrido o tempo de exposição, as amostras foram retiradas dos béqueres, lavadas e as soluções que continham as

Os resultados obtidos nos três diferentes meios são apresentados na tabela 2.

amostras foram filtradas para retirar qualquer sólido que pudesse ter sido depositado nos béqueres. Em seguida, os filtros foPÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 105


Tabela 2: Resultados da taxa de corrosão em meio aquoso, salino e ácido

Amostra

Taxa de

Meio

corrosão (mpy)

1

Água

31,14

2

Água e extrato romã

87,63

3

Água e extrato de mate

207,32

4

NaCl 3%p/v

109,32

5

NaCl 3%p/v e extrato de romã

92,71

6

NaCl 3%p/v e extrato de mate

87,66

7

HCl 1mol/L

619,51

8

HCl 1mol/L e extrato romã

190,80

9

HCl 1mol/L e extrato mate

98,83

A amostra exposta à solução de HCl 1mol/L, em presença

Segundo Coentrão, 2005 e Shahidi e Wanasudara, 1992,

do extrato da erva mate, apresentou corrosão seis vezes menor

possivelmente, por sua característica ácida, os polifenóis em

em relação a amostra exposta à solução pura. Comparando-se

água pura dissociam-se, porém em menor intensidade que o

as amostras expostas à solução de NaCl 3%p/v pura e com

ácido clorídrico, e juntos oxidam o aço. A propriedade antioxi-

adição deste extrato, também foi observada redução na taxa de

dante deste grupo de substâncias pode ser afetada pelo pH do

corrosão, no entanto a eficiência inibidora foi menor, a amostra

meio, altas concentrações de antioxidantes fenólicos e presen-

exposta a solução pura corroeu três vezes mais.

ça de ferro. Os polifenóis podem sofrer um processo de auto-

Com relação ao extrato de romã, a redução na taxa de cor-

-oxidação ou podem agir como agentes oxidantes.

rosão foi de apenas 20% em meio ácido e 15% em meio salino.

Comparando-se os valores das tabelas 1 e 2 quando em

O extrato de romã mostrou-se menos eficiente quanto à inibição

mm/ano, observa-se que para todos os casos avaliados, exceto

da corrosão quando comparado ao extrato da erva mate prepa-

para a amostra 1, segundo a norma NACE RP 0775, foram cor-

rado em laboratório, no entanto, não é possível afirmar que o

rosões muito severas sendo, para trabalhos futuros, necessário

extrato de romã é menos eficiente que a erva mate, pois não se

uma maior avaliação dos teores dos extratos utilizados.

conhece a concentração de polifenóis de cada extrato.

As figuras 1, 2 e 3 apresentam os resultados obtidos após

Conforme Fornazari et al. (2009) e Comminellis (1995),

a retirada das amostras da imersão em solução. A amostra

quando em solução de NaCl, é possível que ocorra a oxida-

imersa em água pura apresenta coloração alaranjada menos

ção dos polifenóis e a formação de NaClO, evitando assim que

intensa em sua superfície em relação àquela exposta ao extrato

ocorra a reação do Fe com o O ou mesmo com o Cl-.

de mate. O produto da corrosão ocorrida na amostra exposta

Quanto ao meio ácido, acredita-se que o pH baixo favoreça

à água com extrato de romã é quase preto, que pode indicar

a ação antioxidante destes compostos, conforme Moran et al.

diferente estado de oxidação do ferro, e ocorre de forma hetero-

(1997) e Piccini et al. (2002).

gênea na superfície da amostra (figura 1).

Os resultados obtidos para as amostras expostas à água pura, água com adição do extrato de romã e água com adição do extrato da erva mate, foram contrários àqueles apresentados em meio salino e meio ácido. O extrato de mate, que quando adicionado a estes dois meios, apresentou as menores taxas de corrosão do aço, propiciou a maior taxa de corrosão quando adicionado à água pura. O extrato de romã apresentou novamente resultado intermediário entre o meio puro e o meio com adição do extrato da erva mate. 106 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


A coloração dos produtos da corrosão das amostras ex-

O produto da corrosão nas amostras analisadas em HCl

postas à solução de NaCl 3%p/v, foram similares às amostras

1mol/L, tanto em solução pura, quanto na presença dos ex-

expostas à água, porém a amostra exposta a solução pura,

tratos, foi de coloração preta, porém mais intensa, para a

apresentou corrosão mais acentuada em relação às demais,

amostra exposta ao extrato de romã (figura 3). Observou-

enquanto que a superfície da amostra exposta à solução com

-se que na ocorrência deste tipo de produto, a coloração

adição de extrato de mate, ainda apresentava pontos mais iso-

escura é mais homogênea, melhor distribuída na superfície

lados de corrosão (figura 2).

da amostra.

A identificação dos produtos feita através de difração de raios X está mostrada na tabela 3, abaixo.

Tabela 3: Produtos formados na corrosão das amostras Amostra

Meio

Fases Presentes

1

Água

Lepidocrocita e Goetita

2

Água e extrato romã

Lepidocrocita e Goetita

3

Água e extrato de mate

Lepidocrocita e Goetita

4

NaCl 3%p/v

Lepidocrocita , Goetita, e Akaganeíta

NaCl 3%p/v e extrato de 5

romã

Akaganeíta, Goetita, Lepidocrocita

NaCl 3%p/v e extrato de 6

mate

Lepidocrocita , Goetita e Akaganeíta

7

HCl 1mol/L

Akaganeíta

8

HCl 1mol/L e extrato romã

Akaganeíta

9

HCl 1mol/L e extrato mate

Akaganeíta

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 107


A lepidocrocita aparece como majoritária nas soluções contendo água e água com NaCl. Já na presença de cloreto em maiores concentrações a presença de akaganeíta é mais marcante. Os óxidos de coloração avermelhada podem ser associados a presença de lepidocrocita, já nas regiões mais amareladas ocorre a presença de goetita. A akaganeíta mostrou-se

MAINIER, F. B.; DA SILVA, R.R. de C. M. As formulações inibidoras de corrosão e o meio ambiente. Engevista. Rio de Janeiro, v. 6, n. 3, p. 106-112. 2004. MERÇON, F.; GUIMARÃES, P. I. C.; MAINIER, F. B.. Corrosão: Um exemplo usual de fenômeno químico. Química Nova na Escola. Rio de Janeiro, n.19, p.11-14, mai. 2004.

presente nas soluções contendo altas concentrações de íons cloreto, resultado semelhante a Antunes e Costa (2002). CONCLUSÕES A partir dos resultados obtidos de perda de massa das amostras pode-se concluir que os extratos naturais de romã e de erva mate são eficientes inibidores de corrosão para os meios ácido e salino estudados, porém em água pura promovem a oxidação do aço. Os principais componentes identificados nas camadas de óxidos das amostras oxidadas foram a lepidocrocita, goetita e akaganeita.

MORANA, J. F.; KLUCASB, R. V.; ABIAND, J.; BECANAA, M.. Complexes of Iron with Phenolic Compounds from Soybean Nodules and Other Legume Tissues: Prooxidant and Antioxidant Properties. Free Radical Biology & Medicine. Amsterdam. v. 22, Issue 5, Pages 861-870. 1997. NACE - RP0775. “Preparation, Installation, Analysis, and Interpretation of Corrosion Coupons in Oilfield Operations”, 2005. NUNES, L de P. Fundamentos da Resistência a Corrosão. Rio de Janeiro: Interciência, 2007. PICCINI, A. R; BASSO, F.; CANELLAS, L. C. Aditivos alimentares - aromatizantes e antioxidantes. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. 2002.

Para futuros trabalhos sugere-se a determinação da concentração dos polifenóis nos extratos visando avaliar de forma quantitativa o efeito inibidor dos mesmos. REFERÊNCIAS ASTM - Standard specification for steel casting suitable for pressure service, Designation G1-72”. In: Annual Book of ASTM Standards. Philadelphia, 1998. ALMEIDA, C. C. Avaliação de inibidores verdes microemulsionados na inibição à corrosão do aço carbono AISI 1020. Dissertação (Mestrado), UFRN, Natal, 2012. BUENO, G. V. Formulação e otimização de uma mistura de inibidores de corrosão para aço carbono em meio de água de resfriamento industrial usando planejamento estatístico. Dissertação (Mestrado), Escola Politécnica, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

SHAHIDI, F.; WANASUNDARA, P.K.J.P.D. Phenolic antioxidants. Critical Reviews in Food Science and Nutrition. Amherst v.32, p.67-103, 1992. SILVA, F. B.; TORRES, V. V.; AMADO, R. S.; RIEL, C. A; D’ÉLIA, E. Extrato de mate como inibidor da corrosão do aço-carbono 1020. 30a Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química. 2007.

NOTAS DE FIM 1 PhD. Professor Universidade Federal de Ouro Preto 2 MsC. Professora do Centro Universitário Newton Paiva 3 Graduandos do Curso de Engenharia Química do Centro Universitário Newton Paiva

COENTRÃO, P. de A. M. Avaliação de três técnicas de isolamento de polifenóis: aplicação em amostras de chocolate meio amargo. Dissertação (Mestrado), UFF, Niterói, 2005. COMNINELLIS C., NERINE, A. Anodic oxidation of phenol in the presence of NaCl for wastewater treatment. Journal of Applied Electrochemistry. 25, 23-28. 1995. COSTA, I.; ANTUNES, R.A. Caracterização de Produtos de Corrosão de Aço Carbono e Aço Patinável Submetidos A Ensaio Acelerado De Corrosão E Ensaio De Intemperismo. 6o Conferencia sobre Tecnologia de Equipamentos. 2002. FORNAZARI, A.L.T.; MALPASS, G.R.P; MIWA, D.W.; MOTEO, A.J.. Aplicação da Degradação Eletroquímica de Efluentes Composto por Misturas de Fenol – Formaldeído. 2nd International Workshop - Advances in Cleaner Production. São Paulo. 2009.

108 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


O POLI (CLORETO DE VINILA) NA CONSTRUÇÃO CIVIL Claudio Gouvêa dos Santos1 Luciana Boaventura Palhares2 Fellipe Braga Pacheco3 Fernando Queiroz Carvalho3 Glenda Marra Vidigal3 Karen Christine Souza Sima3 Magna Gomes da Cruz3 Pâmela Nascimento Dos Reis Rabelo3

RESUMO: Os polímeros apresentam propriedades físicas interessantes, como a resistência a ação de agentes externos do meio ambiente que muitas vezes os fazem ser mais interessantes em determinadas aplicações em engenharia do que os metais, como por exemplo, tubos e canos para passagem de fios elétricos e água. O PVC, poli(cloreto de vinila), tem ainda algumas vantagens, como a resistência ao fogo por apresentar em sua estrutura o cloro, além de uma enorme durabilidade, em geral, mais de 10 anos. A sua aplicação na Engenharia Civil acontece em vários segmentos como instalações hidráulicas, fechamento de fachadas, tintas e verniz, instalações elétricas, forros e revestimentos, instalações hidráulicas prediais e outros. O presente trabalho apresenta uma revisão sobre o que é o PVC, suas vantagens e aplicações. PALAVRAS-CHAVE: Polímeros. PVC. Construção civil.

INTRODUÇÃO

O PVC é um polímero termorrígido com características

Os polímeros são macromoléculas formadas a partir de unidades estruturais menores (os monômeros) que se repe-

bastante interessantes e vem sendo aplicado em vários segmentos.

tem. A reação pela qual os monômeros se unem para formar o polímero recebe o nome de polimerização. O nome vem do

O PVC E SUAS CARACTERÍSTICAS

grego: poli (muitos) + meros (partes), ou seja, muitas partes.

O PVC foi descoberto em 1872 e a partir do século XX co-

Os polímeros possuem propriedades físicas e químicas

meçou a ser produzido para o comércio nos Estados Unidos e

muito distintas comparadas aos de corpos formados por

na Europa. Este material é o único que não tem a sua composi-

moléculas simples. Por esta característica, são resistentes

ção baseada em 100% no petróleo, sendo composto também

à ruptura e ao desgaste, possuem alta elasticidade à ação

por cloro e etileno. Segundo Wang:

dos agentes atmosféricos. Estas propriedades, juntamente com a sua fácil obtenção a baixas temperaturas, têm feito

O PVC é composto de duas matérias-primas básicas:

com que cada vez mais os polímeros sejam produzidos em

etileno e cloro. O cloro aparece com 57% do peso,

larga escala e sejam amplamente utilizados com variadas

sendo obtido do sal comum ou de cozinha (NaCl)

aplicações. Podemos entender a importância dos polímeros,

pelo processo de eletrólise, e o etileno com 43%, vin-

quando constatamos a variedade de objetos a que temos

do do craqueamento do petróleo. Da reação dos dois

acesso hoje, onde muitos deles se devem à existência de

produtos resulta o dicloroetano, da onde se obtém o

polímeros sintéticos, como, por exemplo: sacolas plásticas,

gás cloreto de vinil, monômero do PVC. Através da

para-choques de automóveis, canos para água, panelas an-

reação de polimerização, as moléculas do cloreto de

tiaderentes, mantas, colas, tintas, chicletes, etc.

vinil vão se ligando formando o PVC, um pó quimica-

Os polímeros podem ser divididos em termoplásticos,

mente estável e inerte. Após o processo de polime-

termorrígidos (termofixos) e elastômeros. Como exemplo das

rização, o PVC pode passar por diversos acabamen-

classificações, temos: as sacolas, tubos de PVC e borrachas,

tos, tais como extrusão, injeção.

respectivamente.

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 109


FIGURA 1 – Fluxograma de fabricação do PVC.

tos e roedores; resistente à maioria dos reagentes químicos; bom isolante térmico, elétrico e acústico; sólido e resistente a choques; impermeável a gases e líquidos; resistente às intempéries (sol, chuva, vento e maresia); durável: sua vida útil em construções é superior a 50 anos; não propaga chamas: é auto-extinguível; versátil e ambientalmente correto; reciclável e reciclado; fabricado com baixo consumo de energia. Portanto, o PVC é um material muito diversificado, com uma vida útil bem longa. Oferece grandes vantagens e é empregado em diversos campos, tais como Engenharias, Arquitetura, Medicina e outros.

EDC: dicloro etano, MVC: mono cloreto de vinila Fonte: http://www.institutodopvc.org/publico/?

TIPOS DE PVC

aconteudo&canalid39&subcanal_id=40

PVC RÍGIDO A fórmula molecular do poli (cloreto de vinila) é (C2H3Cl)n e

As propriedades básicas deste PVC são a dureza e a re-

o cloro é o responsável pela grande versatilidade do PVC e pela

sistência à ruptura. Por ser um composto rígido, é resistente à

sua alta resistência ao fogo, sendo que ele tem uma baixa taxa

penetração e riscos. Segundo a Vick Comércio de Plásticos e

de propagação de fogo, sendo assim, bastante empregado em

Metais LTDA (2012), é comercializado em forma de bastões,

fios e cabos. O cloro contribui também para as várias formas e

chapas e tubos e suas principais características são: 

propriedades do material. O PVC é bastante utilizado, pois apresenta inúmeras carac-

Alta rigidez e força em comparação com outros termo-

terísticas que são mais vantajosas que as de outras matérias-

plásticos; força de impacto normal; alta resistência quí-

-primas. Segundo Fernandes (2011 apud SILVEIRA, 2011), esse

mica; boas propriedades adesivas; pode ser formado

plástico é imune à ação de fungos, bactérias, insetos, roedores

por vacuum; pode ser soldado e termoformado; boa

e à maioria dos reagentes químicos (...). Sem falar que é um

estabilidade dimensional; resistente a chamas; baixa

bom isolante térmico, elétrico e acústico; impermeável a gases

absorção de umidade; fácil processamento; alta resis-

e líquidos; não propaga chamas e é totalmente reciclável.

tência a choques e quedas; baixíssima permeabilidade

Essas são algumas das inúmeras propriedades deste ma-

a gases; impermeável a odores e aromas.

terial, que permitem um amplo campo de utilização, desde a produção de uma garrafa até a produção de um painel de auto-

Para a construção civil, os produtos de PVC rígido são fabri-

móvel. Nos dias atuais, o investimento no poli (cloreto de vinila)

cados por meio de extrusão. Entre as aplicações encontram-se:

tem sido cada vez maior. Ele está sendo empregado como um

tubos para água e esgoto, eletrodutos, divisórias residenciais, es-

substituto da alvenaria comum (feita com tijolos), usa-se no lu-

quadrias de janelas, corrugados, telhas, etc. Além de serem leves,

gar, encaixes de PVC e estes são preenchidos com concreto, é

resistentes e de fácil instalação, outro fator que torna vantajoso o

uma aplicação confiável, barata e mais rápida que a alvenaria

uso do PVC rígido é a sua resistência a condições climáticas.

comum. Esse processo vem sendo desenvolvido pela Braskem, Dupont e Global Housing e devido a simplicidade, não exige revestimento ou pintura, ficando os mesmos a critério do cliente (SILVEIRA, 2011). Algumas outras características podem ser notadas no material, por exemplo, segundo o Instituto do PVC:

PVC FLEXÍVEL O que torna o PVC flexível e maleável é o uso de plastificantes no composto. O tipo e a quantidade desse aditivo incorporado à formulação irá definir a flexibilidade e resistência química do mesmo. As características deste PVC destacadas pelo Instituto

O PVC é: leve (1,4 g/cm3), o que facilita seu manuseio e

do PVC e pela Vick Comércio de Plásticos e Metais LTDA

aplicação; resistente à ação de fungos, bactérias, inse-

(2013) são “durabilidade; atóxico; possui eficiência energé-

110 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


tica; isolante térmico e acústico; baixa inflamabilidade; auto-

Os gases gerados nesse processo são tratados para reduzir o

-extinção à chama; custo reduzido; flexibilidade em larga fai-

impacto sobre a atmosfera, enquanto as cinzas resultantes do

xa de temperatura de trabalho”.

processo de incineração são dispostas em aterros.

De acordo com o Instituto do PVC, o composto flexível é empregado em “estofamentos, coberturas de parede, cortinas e semelhantes. Peças flexíveis moldadas incluem componen-

De acordo com a NBR 13230 o símbolo utilizado para identificar o PVC está mostrado na figura 2:

tes de operação em dutos, tampas de caixas de saída em eletricidade, punhos e botas de proteção”. Porém, sua principal aplicação é encontrada em fios e cabos, onde é utilizado para isolamento dos mesmos.   O PVC E O MEIO AMBIENTE O PVC na construção civil tem duração de longos anos, podendo passar de 10 anos, por isso não é muito presente no lixo urbano, mas por ser um material de grande volume é um dos

Legenda: V ou PVC – Poli (Cloreto de vinila)

grandes responsáveis no chamado poluição visual. O PVC, quando termoplástico, pode ser reciclado diversas

APLICAÇÕES DO PVC NA CONSTRUÇÃO CIVIL

vezes mantendo suas propriedades originais. Porém, quando

Nas construções residenciais o PVC é muito utilizado de-

ocorre a queima deste material, uma fumaça tóxica é exalada e

vido a sua flexibilidade e fácil modelagem, atendendo as ne-

há formação de ácido clorídrico. O PVC não apresenta proble-

cessidades em estruturas irregulares como instalações subter-

mas ao meio ambiente, por ser uma “resina inerte”.

râneas, em rebaixamento de tetos, instalações hidráulicas e de

De acordo com Rodolfo Jr., Nunes e Ormanji (2002), há três

energia. Os materiais usados com mais frequência na construção residencial são: os tubos e conexões para água e esgoto,

maneiras de reciclar o PVC:

as esquadrias de janelas e portas, pisos, fios e cabos elétricos, l

Reciclagem mecânica: quando é utilizado um ou mais

eletrodutos, forros, acabamentos e muitos outros.

processos para o reaproveitamento do material descartado.

Nas construções industriais o PVC também é muito

Neste tipo de reciclagem pode dividir ainda em reciclagem pri-

utilizado em estruturas de escritórios, divisórias, janelas e

mária e secundária. Na primária as aparas são bastante limpas,

portas, trazendo facilidade no transporte e instalação dos

isentas de contaminantes de difícil remoção, bastando proce-

mesmos e facilitando a manutenção posterior da empresa.

der à sua moagem e eventualmente extrusão para filtragem dos

Além dos itens citados que são utilizados na parte interior e

contaminantes para se obter um material pronto para novo pro-

acabamento, atende também usos em alvenaria como: tan-

cessamento. A secundária por sua vez é mais complexa e en-

ques, isolamento acústico, contra piso, bancadas, calço de

volve etapas de triagem das aparas, lavagem e secagem para

máquinas e equipamentos, esteiras e etc.

eliminação de contaminantes provenientes do resíduo sólido

A facilidade de transporte, aplicação e o baixo custo e a

urbano, moagem, extrusão/filtração para retenção de contami-

manutenção mínima dos PVC’s comparado a outros tipos de

nantes sólidos diversos e granulação.

materiais vem fazendo com que esse material cresça muito na construção civil sendo utilizado em vários países da Europa e

l

Reciclagem química: consiste em processos tecnológi-

cos de conversão do resíduo de PVC em matérias-primas petro-

EUA se tornando assim o polímero mais consumido no mundo e de fundamental importância nas construções de engenharia.

químicas básicas. Alguns processos encontram-se disponíveis para reciclagem química do PVC, consistindo basicamente nas

FECHAMENTO DE FACHADAS - ESQUADRIAS

seguintes rotas: hidrogenação do resíduo, pirólise, gaseifica-

Podem substituir a madeira, o alumínio e o aço. Possuem

ção, incineração.

características que atendem as normas de segurança, de desempenho e estéticas e podendo ser construídos para pe-

Reciclagem energética: consiste na compactação dos

quenos e grandes vãos, em linhas ou em curvas. Não propa-

resíduos e subsequente incineração, convertendo a energia quí-

ga fogo, é inerte e reciclável favorecendo ao meio ambiente.

mica contida nos mesmos em energia calorífica ou eletricidade.

Podendo ser aplicado em fechamentos especiais de atritos,

l

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 111


terraços e jardins de inverno.

HADDAD; SAMPAIO, 2006) em alguns casos o PVC pode ser

Na maioria, a esquadria do PVC recebe no seu interior

tratado com aditivos resistentes a ação da luz solar para insta-

barras de aço galvanizado, reforçando sua estabilidade, di-

lações de fiação externa, não sofrem corrosão e são imunes às

ferentes das esquadrias de portas e janelas que são peças

composições das argamassas e concretos no caso dos eletro-

únicas. O PVC para extrusão recebe estabilizantes térmicos

dutos, possuem baixa densidade, são bons isolantes elétricos,

especiais, aditivo modificador de impacto e alta concentra-

acompanham as acomodações do solo no caso dos dutos e

ção de pigmentos brancos para aumentar a resistência a ra-

subdutos.

diações UV (raios ultravioletas). Resistente à chuva, a fogo e outros agentes agressores.

FORROS E REVESTIMENTOS

Podem ser reformulados para aguentar uma temperatura de

O forro de PVC é bastante utilizado em construções, em

-10°C, também apresentam resistência a agentes biológicos

divisórias, rebaixamento de tetos, pisos, revestimento em pare-

(fungos, bactérias, cupins), resistentes também em regiões

des, por ser um bom isolante térmico e possuir características

litorâneas e cidades com índice de poluição alto, e resistente

benéficas como: isolamento acústico, não propaga chamas,

quando aplicadas com grande exposição a luz solar.

impermeabilidade, resistência a choques, isolante térmico. Este material é uma opção para substituição do gesso, devido sua

FECHAMENTO DE COBERTURAS – TELHAS

resistência, preço e versatilidade.

Uma opção de telha encontrada no setor da construção ci-

O PVC ganhou espaço na área residencial por ser utilizado

vil são as telhas plásticas, feitas de PVC rígido. São telhas mais

também em pisos e revestimento de paredes, proporcionan-

leves que as comuns e apresentam diversos benefícios que

do maior beleza as residências e agilidade no acabamento da

as classificam como melhor opção no mercado. As vantagens

construção. Os pisos de PVC, ainda não muito utilizados em

destacadas pela Telha de PVC (2012) são a alta resistência me-

residências, vêm crescendo no mercado pela praticidade, ele-

cânica e a variações de temperatura; durabilidade; economia

gância e versatilidade, e substituindo as ardósias e cerâmicas.

de tempo por serem de fácil manuseio permitindo maior produtividade e rapidez na instalação; redução do custo final da obra,

INSTALAÇÕES HIDRÁULICAS PREDIAIS

já que não necessitam de caibros e ripas para a sua susten-

O PVC é bastante utilizado em encanamentos de água e

tação; não propagam chamas; oferecem isolamento térmico e

esgoto, sendo fácil sua utilização, pois podem ser feitos qua-

acústico; além de serem ecologicamente corretas, já que o PVC

drados, arredondados e por ser um produto que pode ser feito

é um material reciclável. É um material que pode ser aplicado

pela extrusão ele é bem comprido, tornando as emendas des-

em edificações residenciais, industriais e comerciais.

necessárias. Ele poder ser utilizado perto de outros tubos que

Um modelo especial de telha de PVC é o transparente, prin-

passem outros materiais pela sua resistência química. É um

cipalmente indicado para estabelecimento onde se deseja obter

material leve e de baixo custo. Porém alguns cuidados devem

iluminação natural durante o dia, diminuindo assim o uso de lâm-

ser tomados para não danificar o material: os tubos devem ser

padas. Segundo Haddad e Sampaio (2006), essa aplicação só e

carregados e nunca arrastados sobre o solo, a estocagem ex-

possível pelo fato do PVC ser um material translúcido ou opaco.

terna por período maior que seis meses deve ser evitada, no transporte de tubos deve ser evitado o manuseio violento e o

INSTALAÇÕES ELÉTRICAS O PVC também é utilizado nas instalações elétricas resi-

contato dos tubos com peças metálicas e salientes. Alguns tipos de PVC são listados e sua utilidade explicada:

denciais e prediais, devido a sua capacidade de isolamento térmico e elétrico, além disso, sua taxa de propagação do fogo é muito pequena, o que o torna muito adequado a esse tipo de

l

Conexões soldáveis e roscáveis de água fria (a): utiliza-

dos para condução de água fria.

uso. Caso ocorra um incêndio ele não se propagará por toda fiação elétrica, prevenindo assim curto-circuito. Segundo Haddad e Sampaio (2006), o “PVC é o único polímero aplicado

l

Registros (b): utilizados para controle de água. Ele pode

ser soldável rosca externa ou interna.

na produção de todos os componentes elétricos. (...) Os dutos e subdutos de PVC são utilizados em instalações subterrâne-

l

Conexões de bucha latão (c): conexões de água fria

as de redes elétricas e de telefonia, ou seja, têm a função de

com terminais de água e reforçadas com bucha latão para a

proteger cabos e fibras óticas”. Segundo Acetoze (1996 apud

instalação direta de torneiras de metal.

112 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


l

Conexões de esgoto predial (d): utilizados para condu-

ção de esgoto. Sifão sanfonado universal (e): ideal para saídas de água de pias de cozinhas e banheiros, por ser flexível e resistente. l

Caixa sifonada (f): recebe e distribui a água do banho

escoada pelo ralo até a tubulação de esgoto, sem permitir

REFERÊNCIAS E-CONSTRUMARKET. Soluções em PVC Para Sistemas Prediais. Disponível em: <http://www.aecweb.com.br/solucoes-em-pvc-para-sistemas-prediais/tematicos/artigos/2683/6> Acesso em: 15 abr. 2013. INSTITUTO DO PVC. Disponível em <http://www.institutodopvc.org/publico/> Acesso em: 3 abr. 2013.

mau cheiro HADDAD, Michel; SAMPAIO, Reinaldo de A., Polímeros - propriedades, aplicações e sustentabilidade na construção civil. Disponível em: <http://pcc5726.pcc.usp.br/Trabalhos%20dos%20alunos/Polimeros. pdf> Acesso em: 14 abr. 2013. NBR 13230 - Simbologia Indicativa de Reciclabilidade e Identificacao de Materiais Plásticos, 1994. Associação Brasileira de Normas Técnicas. ABNT, 1994. RODOLFO JR., Antonio; NUNES, Luciano Rodrigues; ORMANJI, Wagner. Tecnologia do PVC. 18ª ed. São Paulo: ProEditores, 2002.

Fonte:http://www.aecweb.com.br/solucoes-em-pvc-para-sistemas-prediais/ tematicos

CONCLUSÃO

SILVEIRA, Evanildo da. Casa de Plástico - Polímeros substituem tijolos de argila e dormentes de ferrovias. Disponível em: <http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2011/12/076-079_190.pdf> Acesso em: 2 abr. 2013 TECPLÁSTICOS. Reciclagem do PVC. Disponível em: <http://tecplastico.no.comunidades.net/index.php?pagina=1382756354> Acesso em: 13 abr. 2013.

O PVC é composto de etileno e cloro e pode ser usado em diversas situações, pois podem ser rígidos ou flexíveis. Ele é um material que não propaga fogo, é um bom isolante térmico e tem alta resistência química. Este é um material que está sendo bastante utilizado na construção civil por ser um material barato, de fácil manutenção e por ser fácil de transportar. Ele atende com mais precisão as

TELHA DE PVC. Ecológica, barata e com muitas vantagens. Disponível em: < http://www.telhadepvc.com.br/site/conteudo/telha> Acesso em: 16 abr. 2013. Vick Comércio de Plásticos e Metais LTDA. PVC Rígido. Disponível em: <http://www.vick.com.br/vick/novo/datasheets/datasheet-pvc-rigido.pdf> Acesso em: 3 abr. 2013.

necessidades da construção civil, tendo sua aplicação encontrada em maior escala em esquadrias, telhas, tintas e verniz, instalações elétricas, forros e revestimentos, instalações hidráulicas. O PVC está começando a ser utilizado também no lugar da alvenaria comum por ser mais barato, rápido e tão confiável quanto às alvenarias de tijolos. Quando rígido, o PVC é bastante utilizado por apresentar resistência à impactos além de ser resistente a chamas, quase não acumula umidade, fazendo assim com que ele seja bastante usado em eletrodutos. O PVC flexível, por sua vez, é bastante utilizado em instalações elétricas como isolantes por serem maleáveis, facilitando o manuseio do material. Este polímero é de baixo custo e leve, não se encontra dificuldade em utilizá-lo. É um material que pode ser reciclado pela

Vick Comércio de Plásticos e Metais LTDA. PVC Flexível. Disponível em: <http://www.vick.com.br/vick/novo/datasheets/datasheet-pvc-rigido.pdf> Acesso em: 3 abr. 2013. WANG, Renato R.. Cloreto de Polivinil – PVC. Disponível em: <http:// www.eletrica.ufpr.br/piazza/materiais/RenatoWang.pdf> Acesso em: 3 abr. 2013.

NOTAS DE FIM 1 PhD. Professor Universidade Federal de Ouro Preto 2 MsC. Professora do Centro Universitário Newton Paiva 3 Graduandos do Curso de Engenharia Civil do Centro Universitário Newton Paiva

forma mecânica, química ou energética. PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 113


POLIESTIRENO EXPANDIDO NA CONSTRUÇÃO CIVIL Claudio Gouvêa dos Santos1 Luciana Boaventura Palhares2 Raphael de Oliveira Duarte3 Thiago Henrique Cardoso Gonçalves3 Mariana de Melo Almeida Horta3 Wagner Agostinho dos Reis3 Rafael Vinicius Silva Straelh3

RESUMO: EPS é a sigla internacional do Poliestireno Expandido definida pela norma DIN ISO-1043/78, mais conhecido como Isopor®,apresenta características e propriedades bastante peculiares, tornando-o útil no ramo da construção civil. Suas maiores aplicações nesta área são em juntas de dilatação, isolantes acústicos e térmicos,outra aplicação é o concreto leve que faz com que a mistura do concreto mude a sua densidade para melhor atender a demanda da obra, lembrando que o maior foco atualmente é aplicação do EPS nas lajes pré-moldadas, visando à redução de peso e custo, além de ser uma solução que visa o meio ambiente por utilizar um material 100% reciclável. PALAVRAS CHAVE: EPS. Isopor®. Aplicação na Construção-civil. Poliestireno.

INTRODUÇÃO

de insuflação que perante aquecimento se decompõe

A construção civil é um ramo onde existem altos investi-

e libera um gás, que proporcionará formação de bolhas

mentos econômicos e tecnológicos. Ao longo dos anos, pes-

por toda a resina termoplástica fundida. (CALLISTER,

quisas e testes aplicados a esse ramo permitiram a descoberta

2002 apud BERLOFA, 2009, P. 19).

de novas técnicas e novos materiais que se aplicados corretamente podem trazer uma série de benefícios em uma obra.

Por meio do processo de polimerização do estireno em

Diferentes materiais podem beneficiar uma obra de diferen-

água, juntamente com a adição de um elemento expansivo,

ciadas formas, o EPS vem sendo aplicado no canteiro de obras

usualmente o pentano, ele sofre mudanças que o transfor-

e tem oferecido bons resultados na sua aplicação.Dentre suas

mam em poliestireno expandido. Após a expansão, ele se de-

aplicações ele oferece vantagens como isolamento térmico e

nomina uma espuma termoplástica, que é classificada como

acústico se usado em paredes e lajes, na promoção da leve-

material rígido e tenaz. É essencialmente de cor branca, ino-

za se agregado ao concreto usado para a construção de lajes.

doro, reciclável, não poluente e certamente é um material de

(BERLOFA, 2009, P. 13)

excelente qualidade nas temperaturas de -70ºC a 80ºC (HI-

Composto de espuma rígida de poliestireno proveniente

GGINS, 1982).

da expansão, o isopor é um comprovado material isolante,

O EPS microscopicamente é composto de células fecha-

sendo aplicado na construção civil visando economia ener-

das, compostas por 2% de poliestireno, sendo o restante de

gética. É também aplicado em edifícios por ser leve, resisten-

seu volume preenchido com ar (98%). A regra que normatiza

te, fácil de operar e possuir baixo custo.

o EPS é a NBR 11752, sendo ela responsável pelo padrão do composto e da produção do isopor.

COMPOSIÇÃO DO EPS O EPS é um plástico celular derivado do petróleo, que no estado compacto, é um material rígido, incolor e transparente.

O Isopor esta dividido em duas classes distintas, a classe P não retardante a chama e a classe F retardante a chama. E também dividido em três grupos de massas específicas: I - de 13 a 16 kg/m3, II - de 16 a 20 kg/m3, III - de 20 a

Polímeros termoplásticos, termorrígidos e elastômeros podem ser transformados em materiais expandidos quando são submetidos ao processo de espumação

25 kg/m3 (ABRAPEX, 2008). Abaixo, na tabela 1 seguem as características regulamentadas pela NBR 11752 ao EPS:

onde ocorre a inclusão em sua batelada de um agente

114 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


Tabela 1: Características regulamentadas para EPS

Fonte: http://www.abrapex.com.br/02Caracter.html APLICAÇÕES DO EPS NA ENGENHARIA CIVIL

Somente as nervuras de concreto tem o peso bastante

EPS EM LAJES

considerável, dessa forma o EPS também é favorável, alivian-

O EPS pode ser utilizado como forma de lajes e também

do o peso sobre a estrutura da edificação além de reduzir o

como enchimento nas lajes industrializadas unidirecional e bidire-

esforço na montagem da laje e permitir que sejam utilizadas

cional, onde a laje unidirecional é sustentada por vigas de concreto

as sobras de isopor já cortado, uma vez que as peças são

posicionadas em um único sentido e a laje bidirecional é susten-

geralmente comercializadas em um metro de comprimento e

tada por vigas de concreto que se cruzam perpendicularmente.

são de fácil corte. (SOARES, 2011)

Segundo Soares (2011) o EPS é bastante favorável na

Na concretagem das lajes onde é utilizado o EPS não há

construção civil, principalmente na fabricação de lajes, por ser

o risco das peças quebrarem como nas lajes convencionas de

leve ocasionando menor força sobre a estrutura da construção,

cerâmicas, evitando assim o vazamento do concreto e garantin-

e também por não servir de alimentos a alguns seres vivos

do assim um serviço bem feito e mais viável economicamente.

como a relação de cupim e madeira. A figura 1 mostra como o EPS é utilizado no enchimento

CONCRETO LEVE

de lajes. O isopor é apoiado sobre a estrutura guardando uma

O concreto é preparado de acordo com sua utilização, a

distância que logo após será preenchida de concreto. O aca-

principal diferenciação a ser considerada na engenharia civil é a

bamento será dado sobre o isopor que será revestido de arga-

densidade do mesmo.

massa ou gesso.

Segundo Brasipor apud Soares (2011) O concreto leve é formado a partir da inserção de flocos de EPS na massa do concreto convencional, desse modo o concreto fica consideravelmente mais leve mantendo a sua resistência, podendo ser utilizado de várias formas desde que não haja grandes esforços sobre o mesmo e que não seja utilizado estruturalmente. A tabela 2 quantifica os materiais para que se possa obter o concreto com dada densidade contendo um saco de cimento de 50 Quilos.

Figura 1: EPS utilizado em enchimento de lajes Fonte: http://www.abrapex.com.br/31z03LajesInd.html

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 115


Tabela 2: Dosagem do concreto de acordo com a densidade

Fonte:www.tecnocell.com.br/.../tecnocell_catalogo_novo.pdf

ISOLAMENTO TÉRMICO

e densidade mais adequadas, para este fim.

O poliestireno expandido é utilizado como sistemas iso-

Alguns produtos como as telhas térmicas mostradas na fi-

lantes de coberturas, paredes e pavimentos, tal como em

gura 2, confeccionadas em poliestireno expandido e moldado

todo o tipo de obras, desde grandes edifícios até à pequena

em diversas formas, dispõem de características físicas e mecâ-

moradia. Nos últimos anos esse material ganhou uma posi-

nicas elevadas e de excelente resistência térmica à temperatu-

ção estável na construção civil, não apenas por suas carac-

ras que variam entre -70ºC a 80ºC, proporcionando um encaixe

terísticas isolantes, mas também por sua leveza, resistência,

preciso no telhado ao qual irá ser aplicado.

facilidade de manuseio e baixo custo. A baixa condutibilidade térmica, propiciada pela estrutura de células fechadas e cheias de ar que dificultam a passagem do calor, é o que confere ao EPS um grande poder isolante. A condutividade térmica do Isopor® segundo Fenilli (2008) é de 0, 028 W.m-1.ºC-1.Com a substituição de elementos construtivos tradicionais por outros em EPS, visando o isolamento térmico, obtém-se um menor gasto de energia, para se aquecer ou resfriar um ambiente. Entre as principais vantagens em se utilizar sistemas de isolamento térmico estão, a economia de energia devido à redução das necessidades de aquecimento e

Figura 2: Telhas Térmicas de EPS Fonte: http://www.construlev.com.br/html/produtos.html

de arrefecimento do ambiente interior, redução do peso das paredes e das cargas permanentes sobre a estrutu-

Paredes de casas e edifícios voltadas para o sol poente po-

ra, diminuição do gradiente de temperaturas a que são

dem superaquecer, acumulando calor. À noite este calor se pro-

sujeitas as camadas interiores das paredes e diminui-

paga pela casa, fazendo com que temperatura aumente, sendo

ção dos riscos de condensações (FREITAS, 2002).

necessário o uso de equipamentos elétricos para controle desta temperatura, aumentando o gasto de energia.

Para que o EPS utilizado, realmente possa ser um bom isolante térmico é necessário observar as características técnicas

Uma forma de minimizar este acúmulo de calor pelas paredes é fazendo o seu isolamento térmico como mostra na figura 3.

116 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


concreto com mais de 35m de extensão, o EPS é usado nasjuntas seladas com material elástico. Segundo Lima e Brito (2009) estas juntas consistem na aplicação de um cordão de um material ligado aos bordos da junta e que, pelas suas características elásticas, permite acomodar pequenos deslocamentos onde os materiais utilizados devem ter estabilidade volumétrica. EPS NO ISOLAMENTO ACUSTICO Hoje em dia há uma tendência muito forte no processo de

Figura 3: Isolamento Térmico usando EPS

verticalização de moradias, salas comerciais, escritórios etc. Oca-

Fonte: http://www.braisoisolamentos.com.br/

sionados pelos altos preços dos terrenos e em algumas cidades a

O poliestireno em placas pode ser utilizado como isolamento

falta de espaço físico. Mas este processo gera alguns transtornos

térmico e acústico em paredes, divisórias, lajes, telhados e dutos

para os usuários destes espaços, como o barulho vindo dos pi-

de ar condicionado. Sob esse aspecto o EPS está bem situado,

sos superiores, ocasionados pelo deslocamento das pessoas que

pois pode ser obtido em vários tamanhos e diversas espessuras

transitam por estes espaços, pode ser solucionado com o isola-

tornando-se um dos mais consumidos para essas finalidades.

mento acústico do piso, chamado piso flutuante.

A figura 4 mostra o uso do EPS na parte externa da parede

Neste tipo de piso, o EPS é fixado sobre a laje e recoberto

onde é mais eficiente, pois a proteção é aumentada com o restante

com um filme de polietileno e posteriormente aplica-se o contra

das camadas que compõem a mesma. O sistema mais comum de

piso, que em seguida receberá o piso acabado.

isolamento é com revestimento de argamassa sobre as placas de isolante e o melhor material para esse sistema é o EPS.

Na figura 05 está representado o esquema do piso flutuante e isolamento de casas duplas. (ABRAPEX, 2008)

Figura 5: Piso flutuante e isolamento de casas duplas Fonte:http://www.abrapex.com.br/31z12IsoAcuPF.html Figura 4: Uso do EPS em paredes externas Fonte: http://www.abrapex.com.br/31z05ITTelha.html

DESTINAÇÃO E RECICLAGEM O EPS é um material 100% reciclável, porém não há muito

As placas do EPS são coladas diretamente nos tijolos com

interesse por parte das empresas em recicla-lo devido o po-

adesivos a base de água, logo após recebe o emboço e a ar-

límero ocupar grandes proporções volumétricas. O ideal para

gamassa de acabamento. Essa argamassa deverá ser pintada

que seja transportado é que ele seja triturado, mas para isso é

com tinta impermeável e de cor preferencialmente branca, para

compensatório possuir uma maquina de alto custo-benefício.

que não absorva calor e prejudique o isolamento. Existem alguns processos para a reciclagem dos mateJUNTAS DE DILATAÇÃO

riais à base de EPS, estes são aplicados conforme a uti-

As juntas de dilatação são executadas em estruturas de

lização final do produto. Os rejeitos podem ser processados para serem novamente moldados em forma de

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 117


blocos, injetados para formar peças para embalagens, entre outros; podem ser reutilizados na construção civil; ou até gerar energia elétrica ou calorífica por combustão direta e também podem ser aplicados como complemento em moldes de peças injetadas ou fundição no ramo industrial. (GROTE e SILVEIRA s.d. p. 13). Uma das melhores formas reciclagem do EPS é a utilização do mesmo na construção civil, além de não agredir o meio am-

view/1958/0 Acesso em: 12abr. 2013. HIGGINS, Rita Ann. Propriedades e estruturas dos materiais de engenharia. São Paulo: Difel, 1982 LIMA, J; BRITOJ. Teoria e Prática na Engenharia Civil, n.14, p.31-41,Outubro, 2009. SOARES, Diego Mazzeo O uso do EPS na construção civil. Faculdade de Tecnologia da Zona Leste, São Paulo, 2011 , 60 p.

biente e ser economicamente viável o concreto formado pode ser utilizado na própria obra que descartou o produto anteriormente, desde muros à elementos decorativos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Conclui-se que o EPS é utilizado das mais variadas formas na construção civil, desde a utilização nas lajes unidirecionais e bidirecional até mesmo incorporado nas paredes resultando no

Notas de fim 1 PhD. Professor Universidade Federal de Ouro Preto 2 MsC. Professora do Centro Universitário Newton Paiva 3 Graduandos do Curso de Engenharia Civil do Centro Universitário Newton Paiva

isolamento térmico e acústico do ambiente. A utilização do Poliestireno Expandido esta ficando cada dia mais usual nas obras, além de ser economicamente viável, o material não é alvo de insetos, fungos e bactérias, é extremamente leve e pode ser inteiramente reciclado. A maior desvantagem do material é o grande volume que ocupa, dificultando o armazenamento. A reciclagem pode acontecer no próprio canteiro de obras quando os flocos são utilizados para a fabricação do concreto leve REFERÊNCIAS ABRAPEX Associação Brasileira do Poliestireno Expandido.Aplicações do EPS.São Paulo, 2008. Disponível em:<http://www.abrapex.com. br/03Aplicacoes.html>. Acesso em: 06 abr. 2013. BERLOFA, Aline. A viabilidade do uso do poliestireno expandido na indústria da construção civil, 2009. 74p. (Trabalho de conclusão de curso. FATEC Zona Leste). COZZA, Eric. MANUAL DE UTILIZAÇÃO EPS na construção civil, s.d. Disponível em: http://www.acessuscri.com.br/pdf/manual_eps.pdf. Acesso em: 27 abr. 2013 FENILLI, R. J. Sistemas termoisolantes: tipos, finalidades e aplicação. Revista Climatização e Refrigeração. Editora Nova Técnica, ISSN 16786866, Jun 2008, São Paulo, SP, 2008. FREITAS, V. P. Isolamento térmico de fachadas pelo exterior. Relatório – HT 191A/02. MaxitGroup. Porto – Portugal. 64 pg, 2002. GROTE, Zilmara, SILVEIRA, José L., Análise energética e exergética de um processo de reciclagem do poliestireno expandido, 2011, Disponível em: http://www3.mackenzie.com.br/editora/index.php/rmec/article/

118 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


ESTUDO COMPARATIVO ENTRE AS FERRAMENTAS CACTI E MRTG NO GERENCIAMENTO DE UMA REDE COMPUTACIONAL COM TRÁFEGO HETEROGÊNEO Marcos Prado Amaral1 Thiago de Freitas Faria2

Resumo. A crescente globalização gera a demanda por quantidades cada vez maiores de informação, provinda de diversos locais do mundo. Tal situação tem levado empresas a dependências de sistemas computacionais interligados em redes. Essa situação faz com que as redes de computadores se mantenham em contínuo crescimento de escala, complexidade, heterogeneidade e importância. E isso torna imprescindível um bom sistema de gerência de redes. Várias são as ferramentas disponíveis para esse fim, o que pode levar duvidas na hora de escolher uma delas. Tentando definir parâmetros para servir de base nessa escolha, esse trabalho faz um estudo de caso comparativo, em uma computacional heterogênea, entre duas ferramentas: o MRTG, escolhido por ser a uma das primeiras ferramentas aplicadas na gerencia de redes e o Cacti que é hoje uma das ferramentas mais usadas para esse fim. Como conclusão verificou-se que o Cacti mostrou-se superior ao MRTG, apresentando diversas funcionalidades adicionais implementadas em sua instalação padrão. Essa diferença pode ser creditada ao fato do Cacti ser mais novo. E que o MRTG, mesmo tendo sua utilização reduzida, continua ativo e operante. Palavras-chave: Redes de computadores. Ferramentas de gerência. Comparação.

1. INTRODUÇÃO

pulsiona também o desenvolvimento de software cada vez mais

As redes de computadores existentes atualmente estão em

aprimorado tecnicamente e abrangendo uma gama maior de

contínuo crescimento de escala, complexidade e importância, ha-

características, adaptando-se ao boom de novas tecnologias

vendo uma expansão rápida e ampla no serviço, com a integra-

jogadas no mercado anualmente, e que neste ínterim, o geren-

ção de diversos novos tipos de equipamentos. Esse crescimento

ciamento de tais redes tornou-se uma tarefa indispensável para

está acontecendo tanto em redes internas, como intranets, quanto,

manter o seu funcionamento correto.

principalmente, em redes externas, como a internet.

Assim, devido à complexidade, escala e a heterogeneidade

A necessidade por obter uma grande quantidade de infor-

é cada vez mais impraticável a sua realização, pelo administra-

mação, de vários locais do mundo, em alta velocidade, faz com

dor da rede, sem o uso de ferramentas que possam auxiliá-lo no

que, cada vez mais, as empresas se tornem dependentes deste

recolhimento de dados, inspeção dos dispositivos e controle da

meio de comunicação para sobreviverem no mercado globa-

rede, dentre outras tarefas, que o mesmo deve realizar.

lizado em constante mudança. Isto, por sua vez, proporciona

Atendendo a essa demanda, muitas ferramentas de ge-

uma demanda ainda maior pela rede, uma vez que essa é o

renciamento foram desenvolvidas. E segundo Black (2002), “a

principal meio de transporte para essa informação.

maioria das ferramentas disponíveis para monitoramento de

Neste cenário, o gerenciamento de redes de computa-

rede são baseadas e/ou descendentes do Multi Router Traffic

dores torna-se cada vez mais importante. Pois este é res-

Grapher (MRTG)” (p.30). E dentre as ferramentas existentes po-

ponsável por organizar, controlar e gerenciar o acesso a

dem ser citadas, além do MRTG, o Cacti, Zabbix, Nagios, Big-

elas, mantendo a qualidade, a velocidade e, principalmente,

Brother4, ManageEngine OpManager, ZenOSS, dentre outras.

a disponibilidade delas para os usuários que as utilizam. O

Black (2008) afirma que, a maioria dessas ferramentas tem suas

gerenciamento abrange a configuração, busca e correção de

raízes baseadas nos conceitos do MRTG, mas evoluíram em

falhas, contabilização do uso, performance e segurança.

muitos aspectos, acompanhando as novas tendências voltadas

Stallings (1998, apud Black, 2008) reforça essa ideia, ao afirmar que, a cada ano, novas aplicações e novos usuários

para a web e as novas e poderosas ferramentas de desenvolvimento com foco na usabilidade e visibilidade do produto.

impulsionam o crescimento da redes de computadores internas

Baseado nesse panorama, esse trabalho tem a finalidade de

(intranets) e externas (extranets/internet) tanto em escala como

fazer um estudo de caso comparativo entre duas ferramentas de

em complexibilidade. O autor afirmar, também, que a necessi-

gerência, com o intuito de definir parâmetros para ajudar na es-

dade de monitorar essas redes diante desse crescimento im-

colha de uma delas. As ferramentas escolhidas foram o MRTG,

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 119


escolhido por ser a uma das primeiras ferramentas aplicadas na

Ainda, de acordo com Oliveira (2010), os servidores de

gerencia de redes e o Cacti que é hoje uma das ferramentas mais

gerencia são estações centrais de gerência, que possuem

usadas para esse fim para um estudo de caso comparativo.

aplicações que executadas fornecem informações que per-

O Estudo de caso comparativo foi escolhido, pois, de acor-

mitem a análise e identificação de desvios de comporta-

do com Vasconcelos (2005), esse tipo de estudo permite au-

mentos que podem prejudicar o funcionamento do sistema.

mentar as possibilidades de realizar generalizações analíticas,

Essas aplicações fazem a comunicação dos servidores ge-

na medida em que obriga o pesquisador a procurar saber mais

rentes com os agentes dos dispositivos gerenciados. Nessa

sobre suas descobertas e as possíveis aplicações em outros

comunicação, é necessário a utilização de um protocolo de

contextos. Ainda, de acordo com o autor, o objetivo do estudo

gerência, como por exemplo, o SNMP, que controlará e res-

de caso comparativo, ou estudo de casos múltiplos, não é o de

ponderá pelas operações de monitoramento e de controle.

prover generalizações estatísticas a respeito das conclusões,

As informações trocadas entre o gerente e os agentes são

até por serem os estudos qualitativos, em sua maioria, inapro-

denominadas informações de gerência. E elas que serão uti-

priados para tal fim, além de facilitar as buscas por similarida-

lizadas nas tomadas de decisões.

des e diferenças entre os casos estudados.

Um sistema de gerenciamento, geralmente, não é com-

O Cacti e MRTG foram instalados e configurados em uma

posto apenas por uma única ferramenta, mas sim de conjunto

rede de tráfego heterogêneo. Para o estudo serão coletados dado

de diversos softwares. Pode também ser composto por uma

sobre essa rede, tais como: tráfego da rede, possíveis pontos de

ferramenta principal que permite a integração de vários plu-

gargalo, quantidade de usuários e estado da rede. Após a cole-

gins para atender as configurações e necessidades que, por

tagem, os dados, obtidos pelas duas ferramentas, serão compa-

sua vez, são bastante heterogêneas. Além disso, a maioria

rados para verificar qual delas apresenta desempenho superior.

dos elementos da rede (Switchs, roteadores, etc) já possuem,

Será verificado também, em quais aspectos uma sobressai sobre

incorporados a eles, algum software agente que suporte ge-

a outra, de modo a verificar para que tipo de utilização uma ou

renciamento.

outra ferramenta deve ser utilizada para apresentar resultados satisfatórios para o serviço ao qual será designada.

Figura 1: Principais componentes de uma arquitetura de gerenciamento de rede

2. SISTEMA DE GERENCIAMENTO DE REDES O gerenciamento da rede é composto por um conjunto de ferramentas integradas, que fornece informações sobre estado da rede em uma interface única, e que possibilita a execução de comandos no gerenciamento de todas as atividades de gerenciamento. O gerenciamento de rede, segundo Oliveira (2010), está associado ao controle de atividades e ao monitoramento do uso de recursos da rede. Ainda, de acordo com o autor, as tarefas básicas da gerência em redes são: obter informações da rede, tratar estas informações possibilitando um diagnóstico e encaminhar as soluções dos problemas. Para Pinheiro (2006), a arquitetura geral dos sistemas de gerenciamento de redes é composta, basicamente, por ele-

Fonte: Kurose e Ross (2006, apud Oliveira, 2010)

mentos gerenciados, servidores de gerência, protocolos de gerenciamento e informações de gerência.

2.1. SNMP

Oliveira (2010), descreve que o dispositivo, ou elemento,

O SNMP (Simple Network Management Protocol) é um pro-

gerenciado é um ativo de rede que integra um conjunto de

tocolo de gerência de redes, a nível de aplicação, que permite

objetos gerenciáveis constituídos por componentes de har-

obter dados de servidores de SNMP em tempo real. Ele utiliza-

dware e software. Toda informação disponibilizada por esse

-se do protocolo UDP para enviar as mensagens. Isso permite

dispositivo, é organizada em uma base de dados denomina-

um intercambio mais fácil dos dados gerados pelos elementos

da MIB (Management Information Base), que pode ser aces-

gerenciamento, desde que esses elementos da rede possuam

sada e modificada pela entidade gerenciadora.

suporte para ele. O SNMP consiste em requisições, feitas por

120 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


um gerente, e respostas, fornecidas por agentes.

2.2.1. MRTG

Segundo Correia (2004), “O SNMP (Simple Network Mana-

O MRTG (Multi Router Traffic Grapher), disponível tanto

gement Protocol) permite que uma ou mais de uma máquina na

para Linux quanto para Windows, é uma ferramenta para coleta

rede sejam designadas como gerentes de rede. Esta máquina

de dados, que segundo Correia (2004), gera gráficos referentes

recebe informações de todas as outras máquinas da rede, cha-

ao tráfego de rede, possibilitando o monitoramento do desem-

madas de agentes, e através do processamento destas infor-

penho dos elementos conectados por meio do fluxo de dados

mações, ela pode gerenciar toda a rede e detectar facilmente

de entrada e saída nas portas dos comutadores da rede. Ainda,

problemas ocorridos. As informações coletadas pela máquina

de acordo com Correia (2004), o MRTG pode ser utilizado na

gerente estão armazenadas nas próprias máquinas da rede, em

gerência de desempenho, verificando o tráfego dos hosts mo-

uma base de dados conhecida como MIB (Management Infor-

nitorados e na gerência de contabilização onde é verificado o

mation Base). Nesta base de dados estão gravadas todas as in-

tempo de paralisação dos hosts na rede.

formações necessárias para o gerenciamento deste dispositivo,

Com isso, o MRTG coleta dados da rede utilizando SMNP,

através de variáveis que são requeridas pela estação gerente”.

ou scripts, e gera as páginas HTML com gráficos das informa-

MIBs são informações organizadas hierarquicamente que

ções coletadas. Essas coletas podem ser diárias, semanais,

são acessadas através de protocolos de gerência de redes, tais

mensais e anuais. Como exemplo das informações coletadas

como o SNMP. As MIBs compreendem objetos gerenciados e

temos tráfego de links da rede, utilização do disco e da CPU,

são identificadas por identificadores de objetos.

etc. O MRTG armazena os dados coletados em logs localizados

No gerenciamento com o SNMP, um host é configurado como

no diretório de instalação do sistema.

gerente e diversos outros que são os agentes, que possuem uma

Segundo Bondan (2008), para o funcionamento do MRTG

MIB com as variáveis relativas aos objetos gerenciados. O geren-

tendo como fornecedor de informações o SNMP, este deve es-

ciamento é baseado na requisição de informações aos objetos ge-

tar instalado e configurado na máquina a ser monitorada, en-

renciados. De posse desses dados, o gerente processa os dados

quanto os scripts Bash são executados pelo programa e obtém

obtidos para mostrar o estado da rede. Ele pode, também, usar

os dados por meio de comandos de sistemas.

esses dados para mostrar à detecção de possíveis falhas.

O MRTG pode ser configurado para gerar alertas quando limites mínimos de funcionamento são checados. Ele, obtém,

Figura 2: Exemplo de rede gerenciada por

por padrão, dados de cinco em cinco minutos, porém esse in-

um servidor SNMP

tervalo pode ser modificado. 2.2.2. CACTI O Cacti encontra-se disponível, também, para Linux e Windows. Ele possibilita o monitoramento de informações sobre a situação de uma rede local através de gráficos. É um front-end para o RRDTool, desenvolvido em PHP, contendo suporte para o protocolo SNMP, com uma interface web, que utiliza um banco de dados MySQL para armazenar os dados coletados. Para Dias (2009), o Cacti não exige muitos recursos do seu host e é altamente escalável. Em dispositivos com suporte a SNMP instalado e ativo, o Cacti utiliza-se dos dados fornecidos por esses elementos para Fonte: Adaptado de Pinheiro (2010)

2.2. As ferramentas

gerar os gráficos, mas ele, também, pode utilizar dados obtidos por meio de scripts, escritos, normalmente, em Bash, Perl e XML. Os gráficos são construídos por rotinas em PHP. Segundo

As duas ferramentas utilizadas para gerência e o monitoramento no ambiente de rede gerenciado, têm como caracte-

Neto (2006), partir desses dados é que são gerados os arquivos RRDs e depois os convertidos em gráficos.

rísticas em comuns, estarem sob licença GPL (Geral Licence

O Cacti possibilita, de maneira bastante simples e intui-

Public) e poderem ser instalados em sistemas baseados em

tiva, a adição de novos equipamentos para serem monito-

Linux, ou seja, em plataforma livre.

rados. E através do SNMP ele permite acessar informações PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 121


de hosts e de dispositivos de rede que suportem esse proto-

O sistema estipula um limite máximo para o tamanho da

colo, para posterior geração de gráficos pela ferramenta. O

base de dados. Quando esse limite é atingido, a base não cres-

software suporta todas as três versões do SNMP, segundo

ce mais. A resolução dos dados armazenados é reduzida de

Black (2008). Para tanto basta que oadministrador da rede

acordo com o tempo em que são armazenados, resultando em

informe ao software, os dispositivos que deseja monitorar,

um média dos dados salvos mais antigos, com dados mais

adicionando-os ou retirando-os quando for necessário. Ele

novos com resoluções mais precisas. Dados antigos são re-

deve repassar ao software, também, quais são as opções e

movidos para o armazenamento de dados novos, funcionando

parâmetros de cada dispositivo que deseja monitorar, confi-

semelhantemente a uma fila circular.

gurando a ferramenta para que esta gere os devidos gráficos para os esses recursos adicionados.

O RRDTOOL inicialmente faz a criação da base de dados com os parâmetros desejados, depois obtém os dados do dis-

O Cacti permite ainda a organização de gráficos e hosts em

positivo monitorado e os insere na base, atualizando-a e por

árvores e sub-árvores, de modo a possibilitar ao administrador

último é feito a geração dos gráficos a partir das informações

da rede organizá-los da maneira que lhe for mais conveniente.

armazenadas na base.

Há, também, alguns modelos padrões de consultas, gráficos e hosts, sendo que outros podem ser criados e incorporados. De

3. Coleta dos dados

acordo com Black (2008), existem também diversos plugins já

O primeiro passo foi a definição da rede local a ser geren-

implementados e largamente utilizados.

ciada: uma rede heterogênea, com tráfego heterogêneo, ou

As duas ferramentas que serão utilizadas no trabalho,

seja, uma rede contendo diversos tipos de equipamentos com

Cacti e MRTG possuem suporte para todas as versões do

tráfegos de diversos tipos, como acesso a páginas HTTP, HT-

protocolo SNMP.

TPS, downloads de arquivos por P2P, FTP, etc. Essa rede foi a rede local da unidade II do CEFET-MG.

2.3. RRDTool

O segundo passo foi um estudo aprofundado a respeito

De acordo com Black (2008), o RRDTool é um sistema de

das ferramentas a serem utilizadas para o trabalho, no caso

base de dados round-robin, com licença GNU General Public

Cacti e MRTG. De modo a entender como é o seu funciona-

License. Ele é composto por um conjunto de ferramentas que

mento, o modo de instalação e as configurações necessá-

possibilitam a criação de base de dados, com a possibilidade

rias. Paralelamente a isso, foi estudado o funcionamento do

de definição de parâmetros desejados; obtenção de informa-

protocolo SNMP e como duas ferramentas podem operar e

ções dos objetos gerenciados, para atualização da base, ou

como configurar as máquinas e dispositivos a serem monito-

seja, a manipulação e controle da base de dados; e a geração

rados. Foi estudada, também, as MIBs, que formam a base

de dados a partir de informações coletadas e armazenadas,

de dados que coletam e armazenam informações para se-

possibilitando a inclusão de dados provindos de bancos de da-

rem consultadas posteriormente pelo SNMP. Fez necessário,

dos diversos em um mesmo gráfico. Ele possui interface para

também, um estudo sobre o RRDTool, que é um sistema para

C, C++, Perl e Tcl, também permite o acesso às funções por

o qual o Cacti funciona como front-end.

meio de linha de comando Shell, expandindo assim o acesso e utilização do sistema, de acordo com. Balbinot (2000).

O terceiro passo foi a instalação dos softwares Cacti e MRTG em duas máquinas distintas, porém com mesma configuração. A

O RRDTOOL é um sistema para armazenar e mostrar da-

configuração igual reduz possíveis divergências de capacidade de

dos em série obtidos em um determinado período de tempo

processamento para a realização das tarefas. E permite uma com-

(banda de rede, temperatura da máquina, etc). Os dados são

paração da necessidade computacional exigida pelos dois siste-

armazenados de maneira bastante compacta e não aumen-

mas e seus impactos sobre o gerente da rede. Foram utilizados

tam com o tempo (por isso que o banco é dito “circular”). O

dois computadores: CPU1 (Cacti) e CPU2 (MRTG) configurados

RRDTOOL também é capaz de gerar gráficos a partir desses

com Processador: Dual 2.4 Xeon (IBM 335), Memória RAM: 2 Gb e

dados. Segundo Dias (2009), como o RRDTOOL não é capaz

Sistema Operacional Debian. Com os computadores inseridos na

de fazer o “polling” dos dados, nem apresentá-los de manei-

rede local da unidade II do CEFET-MG foi iniciado o monitoramen-

ra automática, é bastante comum a sua utilização associada

to dessa rede de tráfego heterogêneo, buscando obter alguns da-

a um frontend. Sendo assim, o RRDTOOL foi associado há

dos, como tráfego da rede, pontos de falha na rede, quais serviços

um frontend sendo este o Cacti para a geração de gráficos

estão ativos, utilização da rede pelos usuários. Com a coleta de

de desempenho de equipamento da rede.

dados dos dois sistemas foi feita uma análise das duas ferramen-

122 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


tas, buscando obter o desempenho de cada uma delas.

do no máximo colocar em um mesmo arquivo de configuração dados de diversos hosts para serem gerados em uma

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

única página.

Tanto o Cacti como o MRTG permitem adicionar disposi-

Através do plugin Monitor, o Cacti pode monitorar a situação

tivos com o agente SNMP ativo. Sendo que o Cacti, em sua

da rede em tempo real, recebendo informações sobre os hosts e

instalação padrão, permite a monitoração de outras informa-

emitindo alertas caso algum deles não esteja operante.

ções, além do tráfego da rede, como o uso de CPU, disco

Tanto o Cacti como o MRTG possibilitam a edição dos

e memória, números de processos em execução. Por outro

gráficos alterando valores de legendas, criação de fórmulas

lado, o arquivo de configuração padrão gerado pelo MRTG

para conversão de unidades, edição das escalas, cores e

restringe-se apenas ao tráfego da rede.

outras informações, dessa forma, são semelhantes nesse

Os dois softwares podem ter seus serviços de coleta

aspecto. Mas por trabalhar com o RRDTool, como um front-

de dados expandidos pelo uso de scripts diversos. O Cacti

-end para ele, o Cacti possibilita a geração de gráficos mais

permite a incorporação de scripts e consultas SNMP mais

detalhados, com suporte a coleta de dados a cada minuto;

facilmente, através da importação de templates. Já o MRTG

arquivos de logs com tamanho fixo. E o MRTG, por sua vez,

requer que o script seja repassado como alvo para a con-

não apresenta tais características em sua instalação padrão,

sulta através do arquivo de configuração para a geração do

porém pode incorporá-las instalando o RRDTool à parte.

gráfico. Com o plugin Discovery, o Cacti permite uma busca pela rede por dispositivos com o SNMP ativo, porém ainda

Figura 3: Comparação gráficos MRTG

não monitorados, o que facilita bastante o trabalho do admi-

(CPU2) vs Cacti (CPU1)

nistrador da rede. Ambas as ferramentas possuem sistema de alerta caso algum dado monitorado atinja algum limite pré-estabelecido pelo administrador. O MRTG possui alguns comandos no arquivo de configuração para a realização de tal tarefa, bastando, apenas, configurá-lo para informar quando esse limite for ultrapassado ou atingido. Já o Cacti necessita da instalação de alguns plugins, no caso, Thold e Settings para permitir alertar via e-mail ou outra forma o acontecimento. O Cacti possui uma interface mais simples, possibilitando um uso mais fácil. Ele apresenta um menu lateral com as opções disponíveis para modificação de seus serviços. Para realizar a mesma tarefa no sistema MRTG é necessário saber o comando específico dentro do arquivo de configuração, de modo a poder editá-lo para realizar a tarefa desejada, sendo necessário um conhecimento

Fonte: Os autores

maior do que para a utilização do Cacti. O Cacti apresenta um sistema de alocação dos dispositivos em árvores, o que possibilita ao administrador separá-los por grupos, facilitando assim o controle dessas informações. Enquanto o MRTG não apresenta essa possibilidade, poden-

PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785 l 123


Figura 4: Gráfico com tráfego Ethernet

Figura 5: Gráfico com tráfego Ethernet no Cacti (CPU1)

no MRTG 9(CPU2)

Fonte: (Os autores)

Fonte: Os autores Verificando os dados apresentados, percebe-se uma maior definição nos gráficos gerados pelo Cacti, que apresenta uma divisão maior da escala, proporcionando um melhor detalhamento sobre o tráfego. Apresentando assim dados mais realísticos e possibilitando visualizar melhor quaisquer alterações nas medições. O Cacti também mostrou ser mais amplo na variedade de informações que pode requisitar em sua instalação padrão.

124 | PÓS EM REVISTA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA 2013/2 - NÚMERO 8 - ISSN 2176 7785


Tabela 1: Diferenças entre as ferramentas Cacti e MRTG

5. CONCLUSÃO

espaço com o passar do tempo, tendo sua utilização reduzida,

Nesse trabalho foi realizado um gerenciamento efetivo de

apesar de ainda se manter ativo e operante, além de manter um

uma rede heterogênea com tráfego também heterogêneo, através das ferramentas de gerência de rede Cacti e MRTG.

grupo de desenvolvimento para ele. Diante dessa superioridade apresentada pela ferramen-

O Cacti mostrou-se superior ao MRTG, apresentando diversas

ta Cacti, ela mostrou-se mais adequada para a gerência da

funcionalidades adicionais implementadas em sua instalação pa-

rede em questão. Porém ela apresenta falhas no quesito de

drão, bem como uma possibilidade de expansão, por meio de plu-

armazenamento de dados a longo prazo. Armazenando infor-

gins, superior a esse. Ess