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“ONDE O DIREITO NÃO TOCA” BERNARDO G. B. NOGUEIRA


“OnDe O DIReITO nÃO TOCa”

ROTEIRO DE GRAVAÇÃO Bernardo g. B. nogueira Belo Horizonte | 2016


©2016 O autor ©2016 by Centro Universitário Newton Paiva 2016

Presidente do Grupo Splice: Antônio Roberto Beldi Reitor: João Paulo Beldi Diretor Acadêmico: Celso de Oliveira Braga Diretor Administrativo e Financeiro: Cláudio Geraldo Amorim Sousa Secretária Geral: Jacqueline Guimarães Ribeiro Coordenação da Escola de Direito Coordenação Geral: Emerson Luiz de Castro Coordenação do curso de Direito - Campus CL: Valéria Edith Carvalho de Oliveira Coordenação do Curso de Direito - Campus Buritis: Sabrina Tôrres Lage Peixoto de Melo AUTOR: Bernardo G.B. Nogueira APOIO TÉCNICO Núcleo de Publicações Acadêmicas do Centro Universitário Newton Paiva EDITORA DE ARTE E PROJETO GRÁFICO: Helô Costa - Registro Profissional 127/MG DIAGRAMAÇÃ O: Ariane Lopes e Marina Pacheco (estagiárias do Curso de Jornalismo)

N774 Nogueira, Bernardo G. B. Onde o Direito não toca : roteiro de gravação /Bernardo G. B. Nogueira. – 1. ed. - Belo Horizonte: Centro Universitário Newton Paiva, 2016. il. : 254 p. Inclui bibliografia e índice ISBN 978-85-98299-65-5 (versão impressa) ISBN 978-85-98299-66-2 (versão on-line)

1. Direito. 2. Amor. 3. Pesquisa científica. I. Nogueira, Bernardo F. B. II. Centro Universitário Newton Paiva. III. Título. CDU: 34 Ficha Catalográfica: Bibliotecária Kênia Amaral da Silva – CRB/6:2053

ESCOLA DE DIREITO DO Centro Universitário Newton Paiva Av. Presidente Carlos Luz, 220 - Caiçara Av. Barão Homem de Melo, 3322 - Buritis Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil


agRaDeCIMenTO Bernardo g. B. nogueira


A folha em branco. A rua também. A vida nua. Trasvestida de ilusões. Faróis vez em quando. Outra vez a chuva. À pé, depois de saltar de um carro muito valioso para o “mundo dos homens”. Não há o que agradecer. Cansada, cansado, amanhã não haverá luz. Andar por uma folha em branco manchando ela com palavras é jeito de inventar existência. Haja invenção! E haja existências esbranquiçadas! Haja existências que são desgarradas de uma realidade, estreita que é, oprime. Há uma rebelião em curso. Há uma rebelião em curso? O próprio cursor é uma violência que nos obriga à retidão na escrita. Por que escrevemos em linha reta? - uma vez que as curvas nos são das coisas mais arrebatadoras. A prosa aqui é sobre curvas. Esquinas e locais sem sol. Cheios de sombra. Olhos maquiados pelo tempo, que escorre, ora na veia, pela lágrima, pelo gozo. Pela ausência da linguagem, que aqui vai na mistura do som e da imagem. Que se movimenta. O tempo que foge e nos abraça – na esquina. Não há o que agradecer. Talvez “onde o direito não toca” esteja colocado naqueles lugares onde também a linguagem não fala. Desse jeito, nos trans-formamos em atores, atrizes, cineastas, câmeras, gruas, ruas, putas. Mas a questão que nos assombra, feito mesmo os vultos que saem das esquinas, só em um determinado momento, com uma cor, uma roupa, sem ela, calor ou frio: Por que transformar para existir? Haveria uma ambiência na qual a colocação no mundo não fosse trans? Há um local de partida do humano? Pensamos que o que é do humano é differànce. Não podemos supor pontos de partida, tampouco, de chegada. Estamos no local do agradecimento. Agradar aquele que nos agradou. Estou então agradecido. Mas haveria um agradecimento para aquele que não nos agradou? Trata-se aqui de mera formalidade cortês que compõe o início de um livro ou mesmo há um agradecimento sem que tenhamos algo em troca. O escambo de palavras não nos interessa.

“Onde o Direito não Toca”


Escrevo aqui para um agradecimento que vem. Do mesmo jeito em que ao sair do sertão, na mesma rua Pedro II nasce uma necessidade de agradecer. O sertão, enviesado que é, mostrou ali naquela rua – de dia cinza, de noite cor de mistério, sua face mais bonita, suja, amante e fatal. Não posso agradecer senão ao que vem. Àquelas pessoas da noite. Sem nome. Inventadas a cada encontro, dentro de um entre: o dia e a noite. Àquelas que vem...como agradecer? Como não agradecer? Como deixar um recado para ouvidos moucos? Quem o direito toca? Há toque no direito? Queremos tocar quando falamos de direito? E ainda, é necessário o direito para que pessoas sejam reconhecidas? Talvez precisamos mesmo de um registro fílmico para esse agradecimento. Entanto, eu vou ficando por aqui, o agradecimento é para aquela que vem. Não mais para “aquele”, o toque precisa ser reinventado. Há pessoas que são suprimidas da existência na luz platônica, há tanta coisa na toca/caverna – Alice que o diga. Àquelas que vem, agradecemos. Estamos entristecidos por agradecer. Essa é uma escrita de não alegria. Esse é um não filme. Uma não escrita. Uma não estrada. Vamos na contramão. Estamos tristes e felizes. Não gostaríamos de estar estrangeiros no mundo. Ele não seria uma habitação comum? Por que dois mundos? Alice que o diga. Não estamos tristes. Estamos assim, trans. Depois de Anyky, Brenda, Kamilly, Faby. Depois que a avenida Pedro II foi trans na gente. Ninguém restou esquecido, alunos viraram cineastas, atores, ajudantes de gravação, o diretor de filmagem, amigo, sua esposa, produtora. Belo Horizonte deixou de ser apenas uma cidade, tornou-se uma cidade que vem. Suas ruas, escorredouros de imaginação pela lente. As pessoas amigas de Itabirito, apenas por estarem na existência de nós, tornaram-se, também, trans, na medida que a médica virou celebrante e a decoradora, construtora de set de gravação. Ninguém pode ser agradecido. Estamos desde julho de 2015, trans, assim estaremos para sempre, agradecer é apenas jeito de lembrar que nunca mais somos os mesmos depois que sonhamos: o humano precisa de toque. Cantemos: luz, câmera, (trans)ação!

“Onde o Direito não Toca”


“O Projeto de Iniciação Científica intitulado “Onde o Direito não toca”, trata daquilo que exatamente acreditamos faltar na pesquisa, na construção do saber, o ouvido ético.”

“Uma pesquisa que não se responsabiliza não é sequer iniciante. Estar a caminho da pesquisa é sempre estar atento a partir do ouvido. O ouvido ético foi o que conduziu esta pesquisa.”

“Onde o Direito não Toca”


“A construção do pensamento científico requer também um olhar que não esteja “parado” dentro de determinados parâmetros.”

“Nem sempre a dor pode ser descrita pelas linhas da ciência. Quem sabe o percurso da iniciação não poderia ser desde já um a-caminho para a ética? “

“Onde o Direito não Toca”


“Uma iniciação trans, para uma pesquisa que seja trans, para um olhar atento ao que nos enreda, para que não escrevamos para um mundo que não podemos tocar.

Apenas para um mundo que seja trans...amor, trans-ético, trans-religioso, trans-parente, trans-lúcido e transporte para que nossos ouvidos sejam sempre e também trans.”

“Onde o Direito não Toca”


SUMÁRIO ONDE O DIREITO NÃO TOCA: PARA UMA PESQUISA TRANS ....................................................................11 OBSERVAÇÕES GERAIS ............................................................................... Cena1 - Escritório ........................................................................................ 23 Cena 2 - Bairro Santa Tereza/Indo para a CASA da CARTOMANTE .....27 Cena 3 - Cartomante .................................................................................... 31 Cena 4 - Casamento ..................................................................................... 35 Cena 5 - Café da Manhã .............................................................................. 43 Cena 6 - Supermercado ................................................................................ 47 Cena 7 - De volta para casa ......................................................................... 55 Cena 8 - BANHO/ELA INDO TRABALHAR ................................................ 59 Cena 9 - RITUAL .......................................................................................... 63 Cena 10 - ELA escrevendo .......................................................................... 67 Cena 11 - X saindo de casa .......................................................................... 71 CENA 12 - Última cena/Pedro II .................................................................... 73 ENTREVISTAS ............................................................................................... 83 RELATOS DOS ALUNOS .............................................................................. “Onde o Direito não Toca”


OnDe O DIReITO nÃO TOCa: PaRa UMa PeSQUISa TRANS Bernardo Gomes Barbosa Nogueira1 Diana Gonçalves Souza2 Taiara da Silva3 Clévio Lustoza dos Santos Leão4 Nathália Ventura5

1 Professor da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva). Email: bernardo.nogueira@newtonpaiva.br 2 Discente da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva. 3 Discente da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva. 4 Discente da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva 5 Discente da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva.


Resumo Este escrito pretende apresentar as bases filosóficas e conceituais com as quais lidamos para a construção do roteiro do curta metragem “Onde o direito não toca”, que trabalha questões que perpassam desde a invisibilidade social até as discussões acerca da ética da alteridade de Emanuel Lévinas (em diálogo com realidades como as de travestis e garotas de programa). Palavras Chave: Trans, Lévinas, travesti, amor, direito.

Abstract This writing aims to present the philosophical and conceptual basis with which we deal for the construction of the short film script “Where the law does not touch”, which work with issues that pervade from social invisibility to the discussions about the ethics of otherness of Emmanuel Levinas (in dialogue with realities such as transvestites and prostitutes). Keywords: Trans, Levinas, transvestite, love, right.

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Introdução O texto que segue é uma tentativa de discussão acerca do modus do pensamento acerca de uma certa ideia de iniciação científica, bem como, uma exposição do caminho e fundamentos que sustentaram a construção e execução do projeto intitulado “Onde o direito não toca”. Não seguimos um caminho ortodoxo. A construção do pensamento científico requer também um olhar que não esteja “parado” dentro de determinados parâmetros, por isso mesmo questionamos se seria possível uma pesquisa trans. Assim, uma pesquisa nesse sentido, procura uma interlocução entre o que restou “marginal” dentro do próprio estertor do pensamento científico e aquilo que se diz “centro”. Assim, nos constituímos dentro de um paradigma diverso no qual o conhecimento seria uma construção que se dá, e tão somente, dentro de uma concepção ética que acolhe a diferença, contudo, não uma acolhida aos moldes modernos na qual aquele que é acolhido se perde na ratio daquele que acolhe. Dar morada acabaria por ser impor uma morada. Não importando o olhar de quem chega. Desta forma, uma pesquisa nos moldes aos quais nos propusemos, coloca-se como uma pesquisa que atende aos reclames de uma construção científica do impossível, posto que aquele que chega, o outro, que nos constitui, não “cabe” dentro de nossa razão, dentro dos próprios moldes que alicerçam a ideia de ciência. A ética é o que está para além do científico – o outro que estamos a nos referir supera a rigidez do reclame científico, quando ele traz para dentro do pensamento científico toda a sua dimensão, necessariamente alarga o que entendemos por ciência. Uma ciência trans dá-se através do que chamaremos de ouvido ético e que nos permitiu a construção do roteiro e sua execução. Apesar de um filme mudo - roteirizado através dos poemas de Florbela Espanca - e talvez exatamente por isso mesmo, necessitamos aguçar o olhar, carecemos de ouvidos atentos. Há pessoas que se tornaram paisagem pela cidade, e por elas, para que elas sejam ouvidas em sua dimensão mais plural é que construímos esse roteiro. Nele observamos que “onde o direito não toca” também mora humano. “Onde o Direito não Toca” página 15


Pesquisa tem regra? É necessário um salvo conduto institucional para que possamos falar de “onde o direito não toca”? Além desta questão, poderíamos perguntar se os formulários a que nos dispomos para escrever um trabalho de iniciação científica seriam desde já, necessários, meios, carimbos ou mesmo um limite? Iniciar à ciência seria, portanto, um dos primeiros pontos a que devemos debruçar por aqui. Um percurso de iniciação é aquele caminho no qual colhemos as bases para os próximos passos. Assim, iniciar cientificamente é o próprio pesquisar? Ou, de outro lado, aprendemos na escola aquilo que em verdade deveria ser des-aprendido? O conhecimento é um acúmulo de saberes a respeito de algo? Ou, ainda, conhecimento estaria ligado a seguirmos os métodos adequados para se chegar a uma questão cientificamente demonstrável? Haveria apenas um caminho a ser buscado dentro desta questão? A construção do conhecimento, que aqui estamos a confundir com a própria palavra pesquisa, estaria ligado mais a uma “construção” ou “desconstrução”? Estamos preparados para o ouvido? Ou as instituições de pesquisa tornaram-se um local de tantos falantes, abalizados por mecanismo, por vezes, não muito claro de classificação, que sequer conseguem ouvir os próprios pares. Se não erramos, em bancas as mais variadas, cobra-se do aluno um domínio acerca daquilo que autores estrangeiros disseram sobre o tema. É interessante pensar como no âmbito da pesquisa ainda estamos carentes de uma Aufklarung – para não deixar de citar um alemão. Assim, na pesquisa sem ouvido e com excesso de fala, um conteúdo importante é esquecido: o Outro. Esse mesmo que nos institui no mundo. Esquecidos do Outro, que é a própria ética, e porque não, a própria justiça, estamos distantes de alguma conclusão importante. Uma pesquisa que não visa um ato de alteridade, que não parte da própria noção de alteridade, talvez seja carente do principal componente do saber: a diferença. E pelo ouvido ela se nos chega. No entanto, as instituições que iniciam os alunos na pesquisa, parece-nos, não estão atentas a estas questões. “Onde o Direito não Toca” página 16


O ouvido é o ponto final e inicial da pesquisa. “O início, o fim e o meio”, diria o místico Raul Seixas – que por ser considerado como tal, não poderia comparecer entre os corifeus da construção do conhecimento. A razão, encenada pela saída da caverna de Platão, nunca mais cessou de criar margens que não devem ser exploradas pelo alto comissário do saber. Assim, restam estabelecidas, linguagem, método, prazos e esferas de pesquisa, daí que talvez o papel real da pesquisa não seja alcançado, o qual acreditamos ser o da própria invenção, pesquisa o impesquisável, explorar o que ainda não foi tocado e, sobretudo, deixar falar um idioma ainda não traduzido. Escutar. De uma maneira menos violenta, talvez buscar deixar vir, das ruas, do gueto, da favela, do escuro, da mulher, do gay, do bárbaro, de todo aquele que vem e que, por causas explicadas cientificamente, costumeiramente não têm vez nesse diálogo. Quase sempre sem cor, sem dor, sem cheiro, insípido e excludente como a injeção letal usada na pena de morte. Nem sempre a dor pode ser descrita pelas linhas da ciência. Quem sabe o percurso da iniciação não poderia ser desde já um acaminho para a ética? Talvez pudéssemos pensar para além dos conselhos de ética inseridos quando os discentes fazem pesquisa com humanos. E o discente, qual ética o conduz? Qual comitê elabora o direcionamento ético das pesquisas? Há preocupação ética na pesquisa? Estamos a nos referir novamente à questão do ouvido. Ouvir é ético. Antes de tudo dizer, escrever e provar. Menos uma citação e mais uma invenção. Talvez esse devesse ser um dos pontos a discutir. Temos plena dimensão de que a ideia da iniciação está em colocar o discente em contato com os aparatos que a própria ciência oferece para a pesquisa. No entanto, e o ouvido? Será que ainda iremos tratar os discentes do século XIX como a-lunos (sem luz) que necessitam da saída da caverna que é realizada quando acessamos a ciência através de um dito de professor? Um mínimo de dialética é necessário para a construção do saber. Aliás, não trata-se mais, como queria Hegel, de um pensamento que opera com tese, antítese e síntese. Parece-nos que a rede na qual estamos inseridos, nas nuvens, não permite mais esse tipo de raciocínio a medir “Onde o Direito não Toca” página 17


a criação. Importa mais o ouvido, como local de fecundação, do que propriamente o laboratório fechado. A abertura de softwares mostra que o tempo de guardar o conhecimento se foi. Daí que nossa “caixa de Pandora” está feridade morte. Não iremos mais voltar a um tempo no qual o saber estava guardado. Ele toma formas distintas e não pode mais ser manipulado sem que haja de um outro lado um que questiona, imprime dúvida e constrói. Aliás, a construção do saber é agora um pleonasmo, ora, não cabe mais um saber que não seja construído, e construção se dá apenas, pelo, para e com o outro. A alteridade é o local do saber. Quando Assange (WikiLeaks) quebra os códigos e democratiza as informações, parece-nos está a nos dizer, o conhecimento é coisa de democracia. Parece-nos, estamos no fim da era da Tirania do conhecimento. O demos se voltou contra o rei. Ele agora está nu. As pesquisas agora precisam de alteridade. O outro clama com seu olhar, o pesquisador não pode mais ser o centro, aliás, apenas na tirania haveria o centro e a periferia. Agora, se não erramos, experimentamos uma ocupação comum do espaço. A própria relação com o espaço é outra, não há mais espaço para a exclusão, tampouco, para a hierarquia no conhecimento, o saber, é ele mesmo, diferença, fora dela, tudo é opressão. Assim, iniciar à ciência, iniciar à pesquisa seria, antes de tudo, um erro. Ora, desde sempre, estamos no mundo. Estamos sempre a-caminho da ciência. Ou em melhores palavras, não há um grau zero do conhecimento que precise se startado na IES. O humano é conhecimento, e por essa simples percepção, de que o Outro me constitui no mundo e alimenta meu horizonte com sua perspectiva, é que podemos afirmar que estamos sempre no gerúndio, “a caminho da ciência”. Criar será a última instância, que ademais, é a primeira, base para o próximo passo. Onde o direito não toca Por conseguinte, o que seria isso: “onde o direito não toca”? Muitas perguntas quedaram sem resposta se tivermos por base o escrito acima. No entanto, parece-nos, as respostas ocupam o cenário com toda força, te“Onde o Direito não Toca” página 18


mos respostas prontas para tudo. Porém, estaríamos a fazer as perguntas corretas? Por esta via, poderíamos dizer – de novo o dizer - que o Projeto de Iniciação Científica intitulado “Onde o Direito não toca”, trata daquilo que exatamente acreditamos faltar na pesquisa, na construção do saber, o ouvido ético. Queremos antes de tudo dizer que entendemos por ouvido ético aquilo que Lévinas nos permite reconhecer a partir de sua ética primeira. O Outro, esse enigma, sempre inacessível será meu local de habitação no mundo, mesmo que impossível, mesmo que inalcançável. Assim, cumprimos nossos dizeres de que a pesquisa só o é se for uma pesquisa do impossível. Nesse sentido, a pesquisa em questão trabalha exatamente com pessoas, formas de vida e sentimentos que estão para além do conceito. Para além do centro, e quiçá, para além do direito. Antes de iniciar a pesquisa é importante mostrar como o ouvido ético fora imponente para tanto. A pesquisa está sustentada por uma nova linha de pensamento jurídico que de maneira ampla nomina-se Direito e Literatura (GODOY, 2008). Maneira de construir o direito alicerçado em obras literárias e em nosso caso, sustentado por uma construção de narrativa fílmica que nos abre a um pluralismo epistemológico, o qual, com sua faceta mais plural, nos permite encontrar com o pensamento de Emanuel Lévinas (2002, 2009) e Jacques Derrida(2011). Autores que se dedicaram a tratar de questões relevantes sobre ética, humanidade e suas possibilidades. O fundamento da pesquisa alia-se à uma nova e instigante maneira de refletir acerca do direito e da sociedade por ele construída. Maneira desafiadora pois essa descolonização do pensamento abre portas para o novo, ou aquele velho que sempre esteve ali mas que nunca fora enxergado. A sociologia de Boaventura de Sousa Santos também é aporte para sustentar nossa empreitada. O desenvolvimento do trabalho dar-se-á de maneira tal que exista um envolvimento concomitante entre pesquisa empírica e teórica, ou seja, haverá a colheita de relatos que servirão como inspiração para a composição da narrativa e do roteiro. Esse trabalho prático se desenvolverá junto com as pesquisas acerca da discriminação em seus mais diversos motes: gênero, sexo, cor, raça, condição social. “Onde o Direito não Toca” página 19


Junto da pesquisa serão realizados encontros com os pesquisadores a fim de que sejam distribuídas as funções e discutidos os temas a serem abordados; Caberá aos participantes a entrega de pesquisas estatísticas dentro dos temas que a narrativa quer tratar; Dados técnicos sobre filmagem serão trabalhados por professores convidados e que auxiliarão na construção do curta-metragem. O bairro de Santa Tereza, no qual eu residi em Belo Horizonte, durante os anos de 2012 e 2013, me encaminhava para a avenida Pedro II, ponte para chegar à Newton Paiva, que tem uma de suas unidades na Avenida Carlos Luz. Importa dizer que há, de pronto, várias cidades e várias ruas em uma cidade e em uma rua. De dentro dos carros observamos a rua passar, numa fração de segundos podemos perceber, ódio, discriminação, abandono e ao mesmo tempo amor e outono. Isso, por evidente, é uma observação poética, que talvez não estivesse descrita entre as mais festejadas fontes do conhecimento. Não será assim nessa pesquisa. O cheiro da avenida Pedro II era um durante o dia, e outro, durante a noite. A cor também. Contudo, e mais importante, as pessoas eram diferentes. Ai nasceria o problema da pesquisa. Estaria no ouvido ético o ponto para discutirmos se há locais onde o direito não toca? A avenida Pedro II será nosso palco. Em verdade, isso que chamamos de escuta ética seria a própria ideia de concebermos uma escuta total, do solo, do clima, da rua, da noite, do dia, das pessoas em sua total relação com o outro. Da pessoa em suas diversas formas de existência. De uma colocação no mundo que transcende uma única maneira de se colocar perante o Outro. O ouvido ético é a constatação, antes e depois da razão, que a pluralidade do humano é além do conceito, da fala, do verbo. O humano apenas poderia ser compreendido em sua totalidade, pela questão do amor. O ouvido ético é o próprio amor. O projeto não tinha como fim a produção técnica de conhecimento a respeito de um tema. O projeto é uma tentativa de resposta a uma questão quase infante que me consumiu durante todas as manhãs e noites que passava pela avinda Pedro II. De Santa Tereza desembocava na avenida Pedro II, e por lá podia ver alguns estabelecimentos comerciais iniciando seu dia “Onde o Direito não Toca” página 20


de trabalho, pessoas comuns nos pontos de ônibus, eu comum dentro do carro, e por entre essa esvaziação comum do cotidiano, a pergunta: onde estão as pessoas que ocupam a avenida Pedro II à noite? Elas seriam pessoas da noite? Teriam elas acesso ao dia? E ainda, as pessoas que ocupam a avenida durante o dia, voltam à noite? Da mesma maneira que ia, não voltava. À noite, ao fim das aulas, voltava pela avenida agora decorada por um número menor de pessoas, bares ao invés de oficinas, e mulheres comuns que não se via durante o dia, trabalhando. Mas, se estamos garantidos constitucionalmente quanto à igualdade, qual o motivo de algumas pessoas estarem obrigadas a um trabalho na penumbra? Este trabalho, por acaso, seria menor que os demais? E assim, onde estão essas pessoas que trabalham pela extensão da avenida Pedro II durante o dia? Essas pessoas talvez iluminem a escuridão com o brilho incoerente da esperança na próxima noite que vem. Enquanto pesquisador de uma Escola de Direito, lancei-me a questionar acerca das pessoas que via à noite. Seu trabalho, condição social, vida, amigos, tristezas e alegrias. Percebi, de pronto, que mais uma vez estava a rondar aquelas pessoas com um olhar do cientista que sabe. Ora, dissemos, a pesquisa anda aqui pelo ouvido ético. Não poderia mais uma vez impor a essas pessoas questionários para auferir como elas viviam, como elas se portavam se bebiam, se amavam. Não! A ideia que não me deixava era aquela frase dita em sala de aula: “a avenida Pedro II à noite é onde o direito não toca”. Andanças Enquanto reunia os cacos das ideias para costurar o projeto, a aluna Nathália Ventura convidou-me a escrever o roteiro de um curta metragem. Como sempre acreditei em questões além da razão, entendi que o projeto estava ali nascido. Nunca escrevi um curta metragem. Nunca dirigi um curta metragem. Escrevi o roteiro e dirigi o curta. Insisto, o Outro aumenta nossa condição perante o mundo. O método aqui foi a alteridade. O ouvido ético, para mantermos o tom. “Onde o Direito não Toca” página 21


Liguei o som e com canções que variavam entre Chico Buarque, Caetano Veloso, Los Hermanos e Milton Nascimento, nasceu o amor de uma mulher trans que ganhava a vida com a prostituição e ao mesmo tempo enterrava nas palavras as mazelas da existência. Durante esse tempo em que escrevi, descobri, dentre várias questões que o amor é onde o direito não toca. A avenida Pedro II pode ser berço de amor, da falta, do excesso ou da perversão, mas sempre, do amor. Percorremos a vida d’Ela e de X, desde o casamento até a relação comum, do café, do supermercado, do flerte, da flor. Da escrita que salva e da rua que chama. Por que as pessoas do dia não se confundem com as pessoas da noite? Seria o amor, esse enigma, o próprio sinônimo de alteridade? Assim, decidimos por fazer um curta metragem como produto da iniciação científica. O a-caminho para a ciência permitiu aos alunxs participantes uma interação maior com a realidade fora dos livros. O Rosto do Outro, por vezes escondido nas próprias páginas dos livros aparece retumbante. Com toda sua beleza, diversidade, raiva, amor e simpatia. Viveu-se a ideia de igualdade na rua, ou a própria negação da constituição. Ausência de respeito à diversidade. Nulidade social. Ódio e desprezo. A frase de Caetano Veloso (VELOSO, 2012) de que “Narciso acha feio o que não é espelho” está enraizada na construção social. Que insiste em deixar para a noite o que é ódio durante o dia. O terror com a diferença é traço que restou evidente na construção e execução do projeto. O que não afasta também a constatação de que também há pessoas com esse ouvido ético atento, e recebe o outro com a hospitalidade que cria o amor. Foi um curta metragem que mostrou o Rosto. Na verdade curta é só um nome, a pesquisa aqui foi infinita. Na acepção que Lévinas (2009) dá ao termo. Aquele que vê na pesquisa uma ida ao Outro, por ele. Uma pesquisa que não se responsabiliza não é sequer iniciante. Estar a caminho da pesquisa é sempre estar atento a partir do ouvido. O ouvido ético foi o que conduziu esta pesquisa. Desde laivos de cineastas, até roteiristas, músicos, contra regras, motoristas e pesquisadores, atrizes e atores. Clévio, Diana, Taiara, Nathália, Eduardo, Brenda, Fabrício, Anyky, as meninas da casa da Brenda, a Lili e sua família, o Bibiço, Florbela Espan“Onde o Direito não Toca” página 22


ca e o amor, todos envolvidos para mostrar que a pesquisa, que a iniciação é um eterno estar a caminho de. Estivemos a caminho da relação amorosa de uma mulher trans, que vive da prostituição, que é apaixonada, que é apaixonante, dona de casa, mulher, traidora e amante – que mostra onde o direito não toca, que nos ensinou a todos que o método da escuta ética é o que aproxima a pesquisa da realidade. Estivemos transformados após as gravações. A pesquisa se mostrará extensão quando levarmos ao grande público o nosso curta. Nele, todos fomos pesquisadores e amantes, éticos e transformadores. Quem na pesquisa não escuta o outro, seria talvez incapaz de uma transformação, e na pesquisa em questão, tudo que é trans nos importa, posto que o amor é trans, muito mais que o que é dito, é ouvido, e é clamor. A avenida deixou de ser noite, para aquele casal, ali era dia, de casar e amar. E ainda estamos a caminho de perguntar onde estão as demais meninas, que amam e que são esquecidas, que são ignoradas e conceituadas. Onde estaria o direito ao amor? E o direito à visibilidade? Florbela Espanca será a trilha sonora do curta, que mostra em imagens e sons aquilo que o direito não toca. Foi mulher que lutou pela igualdade. O curta não clama por igualdade, mas por diferença, desde que no mesmo espaço, na noite, na rua, de fora e dentro do carro. Na calçada que habita a puta tem que haver respeito mesmo igual ao altar que ela se casa. Nos propusemos a falar acerca de nós, dos nossos amores, tristezas e felicidades. O impesquisável é o elemento novo que nasce a partir do ouvido ético. A seguir tens o roteiro do curta. Dentro dele, há vida e morte, alterações de clima, humor e tempo, coisa de pesquisa que procura pelo Outro, que toca, ama e trabalha, de dia e de noite. Na Pedro II ou no altar. Sugerimos uma iniciação trans, para uma pesquisa que seja trans, para um olhar atento ao que nos enreda, para que não escrevamos para um mundo que não podemos tocar. Apenas para um mundo que seja trans...amor, trans-ético, trans-religioso, trans-parente, trans-lúcido e transporte para que nossos ouvidos sejam sempre e também trans.

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Conclusão A pesquisa findou-se com a gravação do roteiro que segue. É impossível uma conclusão, pois o curta-metragem ainda não fora lançado. Tem data marcada para os fins do mês de julho do ano em curso. Aguardemos...

Referências DERRIDA, Jacques. Da Hospitaldiade. Lisboa. Galimard, 2011. GODOY, Arnaldo Sampaio de Morais. Direito e Literatura: ensaio de Síntese Teórica. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008. LÉVINAS, Emmanuel. De Deus que vem à ideia. Petrópolis - RJ: Vozes, 2002. LEVINAS, Emanuel. Totalidade e Infinito. São Paulo. Vozes. 2009. SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (orgs). Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez Editora, 2010, p. 31- 83 SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. 7a ed. São Paulo: Cortez Editora, 2010. VELOSO, Caetano. Site oficial. Disponível em:<http://caetanoveloso.com.br> Acesso em: 22 dez. 2015.

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OBSeRvaÇÕeS gerais

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RESPONSÁVEIS - Maquiagem/Demaquilante: Taiara - Água: Diana - Alimentação: Diana - Figurino: Diana - Objetos: Diana - CEJU: Bernardo - Ruas (Av. Dom Pedro II; Rua Mármore): Taiara - Supermercado: Taiara - Cena na casa da Diana: Diana - Tattoo: Taiara - Figurantes: Bernardo - Roupas DELE: Bernardo - Assistente de Câmera/Continuidade: Clévio

DETALHES - PEDRO II: FACHADAS! - Filmar a MARCA do Supermercado! - Segurança dos EQUIPAMENTOS: DIANA, TAIARA E CLÉVIO. SE SAIR UM DE PERTO DOS EQUIPAMENTOS, OUTRO TEM QUE FICAR NO LUGAR! - TROCA DE CENA, TROCA DE ROUPA! “Onde o Direito não Toca” página 27


Cena1 Escritório

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Três homens trajando terno e gravata em uma conversa amistosa entre funcionários e o patrão na mesa de reuniões – mesa com tampão de vidro transparente. Sala branca, insipiente de sinais. Homem 1: chefe, branco e com barba bem feita; Homem 2: funcionário, pouca idade, estagiário; Homem 3: X, nosso personagem, negro, alto, bem vestido. Há risos de todos os três envolvidos na prosa. Enquanto isso um deles – aparentemente o chefe – mostra fotos que insinuam ser de mulheres em uma festa prive. Em um lance, X arranca o telefone das mãos do chefe. Olha para a tela, incrédulo. Não há rostos sendo focados em momento algum. X lança o telefone à mesa e sai da sala. Câmera focada na queda. Filmado bem devagar. Celular quebra. Câmera colocada de maneira que apanhe bem o ar de superioridade do chefe. De bajulação do jovem e de indiferença de X. Câmera apanhando os três sentados à mesa. Por detrás das cabeças. Não vê-se os rostos. Apenas o áudio das risadas. Celular de mão em mão. Até o momento em que X o arremessa ao chão.

OBSERVAÇÕES: ROTEIRO ALTERADO! Data da gravação: 24/07/15 - SEXTA Nome dos atores: X: Fabricio Victorino Estagiário: Clévio Patrão: Bernardo Local: CEJU: Endereço : Rua Catumbi, 522 – Caiçara Telefone :(31) 3516-2707


Transporte/estacionamento/alimentação: - Transporte: BERNARDO - Alunos podem utilizar o transporte público como se fossem para o Campus 220 - Há estacionamento na rua Catumbi o dia todo no período não letivo - Há vários locais para se fazer um lanche após a gravação das cenas na mesma rua, Catumbi -- TAIARA - Comprar água para todos antecipadamente -- TAIARA Figurinos: - Os figurinos devem possuir cores/tons diferentes para que na hora da gravação seja feita a diferenciação dos personagens -- TAIARA - Estagiário está sem terno, para mostrar mais informalidade -- TAIARA - Roupas sem possuir listras Posicionamento dos atores na Cena: - Ator X e estagiário sentados um em frente ao outro - Patrão com uma postura altiva e gesticulando - Patrão inicia a cena de pé, depois se senta na ponta da mesa, em uma cadeira diferenciada e mais alta, caso haja possibilidade - Patrão mostra o celular para o estagiário, depois levanta-se novamente e leva o aparelho até X, Objetos que irão compor a Cena: - Mesa, que não necessariamente deverá ser de vidro; - DIANA - 3 cadeiras disponíveis no local; -DIANA - Uma cadeira, se tiver, diferenciada; -- DIANA Responsável pela Cena: Taiara

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Celular que será jogado: - Celular novo (DE QUEM? – DIANA), parecido com o do Bernardo, deve ser jogado em uma almofada, filmagem do celular caindo - Celular Bernardo no chão, jogado a uma altura pequena, mas que de para a câmera capturar - Pegar a tela quebrada Foto: - Pegar, juntamente com a atriz, uma foto sua de corpo inteiro e lingerie – (terá que ser produzida, por causa da tattoo! – DIANA)

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Cena2

Bairro Santa Tereza/ Indo para a CASA da CARTOMANTE

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X acende um CIGARRO na calçada. Entra no taxi. Arremessa o cigarro antes de entrar no taxi. Nada de prosa com o taxista. Apenas a câmera a passear pela cidade. Tomada a ser realizada no bairro Santa Tereza. Importante que as fachadas antigas APAREÇAM. Ar bucólico de saudade. Dia de outono. Chuva fina. Céu cinza. A canção é a personagem principal dessa cena. Ela conduz a velocidade da filmagem. São tomadas presas. Bucólicas. Como se a câmera fosse um barbudo mal vestido. Câmera acompanha os passos de X pelas costas. Vê-se o taxi. Câmera apanha o aceno que ao mesmo tempo significa que o cigarro voou. Câmera flagra X entregando um cartão ao taxista. De dentro do carro a câmera apanha a cidade. Cena devagar. No ritmo da canção...

OBSERVAÇÕES: O ROTEIRO DESSA CENA FOI ALTERADO/NÃO TERÁ TAXI Data da gravação: 21/07/2015 – TERÇA Horário da gravação: 14h às 17h. Nome dos atores: X: Fabricio Vitorino Local: Bairro Santa Tereza, Rua Mármore, nº 386 – 689. Praça Duque de Caxias / Rua Estrela do Sul. TAXISTA:

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Figurinos; - Personagem X: terno e gravata. -- BERNARDO Posicionamento dos atores na Cena: Objetos que irão compor a Cena: - Cigarro -- BERNARDO - Fachadas (Praça Duque de Caxias – Casas da rua mármore) -- CLÉVIO Responsável pela Cena: Taiara. Organização da cena: Taiara, Clévio e Diana

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Cena3 Cartomante

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X entra em uma casa. Sem bater. Decoração que mistura hippie com coisas de religiões africanas. A casa tem incensos sendo queimados. Moveis velhos. Senta à mesa. São jogadas cartas. Ele sorri. Foco na carta do amor. Dedos da cartomante. Velhos e cheios de anéis. Beijo na cartomante. Dinheiro lançado sobre a mesa. A personagem aqui é a fé. Por isso as imagens da casa tem que ficar evidenciadas. Pouca luz e foco na fumaça dos incensos. O ar tem que ser quase sombrio. Mas aconchegante. De novo câmera apanha X pelas costas. Em tomada ampla para apanhar a casa. Em um plano cheio de novo, a câmera abraça as costas de X, a mesa de tarô, o busto e as mãos da velha... Depois do foco na carta, no beijo e no dinheiro....

OBSERVAÇÕES: Data da gravação: 23/07- QUINTA Horário da gravação: 18 horas. Tarde. Nome dos atores; - Cartomante: Anyky - X: Fabrício Local: Rua Luiz Cosme, Estrela Dalva, n° 485/483

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Transporte: - Para os atores, carro do Bernardo - Para os alunos, o local é ponto final dos ônibus 8207, 9206 e 5201(move) Estacionamento: - Há estacionamento na casa da Diana, além de vagas na rua Alimentação: - Água, pão de queijo, um bolo e 2 refrigerantes - DIANA Figurinos: -Cartomante com um vestido COLORIDO (tipo cigana) e com anéis nas mãos e pulseiras. (OLHAR COM ELA) -- TAIARA - X com o terno da primeira cena ainda (BERNARDO) Posicionamento dos atores na Cena: - X chega e a Cartomante encontra-se sentada - X senta-se em frente à cartomante, - Filmagem primeiro dele sentando - Filmagem depois pegando eles de perfil; o taro sendo lançado... - X beija o lado esquerdo do rosto da Cartomante

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Objetos que irão compor a Cena: - Pano da mesa com o desenho de uma grande estrela (procurar ou comprar em lojas indianas) -- OK - Decoração: Candomblé (já que a religião brasileira inspirada nas africanas), com esculturas em madeira de Iemanjá, com várias outras esculturas que simbolizam tal cultura (pesquisar no Google que aparecerão imagens) – OK - Decoração Hippie (sonhos, símbolo da paz, tecidos tingidos- pesquisar no Google que aparecerão imagens) -- OK - Incensos espalhados pela casa -- OK - Móveis presentes na casa da Diana -- OK - Taro deve ser comprado -- OK - Dinheiro sobre a mesa: uma nota de 10, uma de 20 e uma de 50 -- OK Organização do local antes da filmagem: Taiara, Clévio e Diana Responsável pela Cena: Diana

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Cena4 Casamento

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Cenário com o casal. Alguns poucos figurantes. Talvez 10 pessoas. Vestidas de maneira despojada, mas com alguma sensualidade no ar. Gays são necessários! As travestis amigas, para mostrar a família nova. Companheira vestida de noiva e o companheiro vestido de bermuda e uma espécie de bata. A Celebrante, mulher,vestida com um vestido comprido, com colares de religiões africanas. A canção é tocada enquanto os noivos entram em direção ao altar. Quando o companheiro chega perto de segurar a mão da noiva, no minuto 50’’ até 1’06’’, a noiva faz um gingado, e sorri, ANTESde receber a mão do noivo. Câmera apanha todos de costas, inclusive os convidados e convidadas. Há pétalas de flores sendo arremessadas enquanto os noivos passam. Importante a câmera pegar que A CELEBRANTE SORRI quando ELES chegam ao altar. Ninguém se ajoelha. A celebrante coloca o anel nas mãos dos noivos, uma LÁGRIMAnesse momento. DO HOMEM, claro. A personagem do casamento são os sorrisos. Nessa cena isso é o mais importante. Porque a canção é bonitinha. E eu quero mesmo esse sentimento aqui. Tudo muito bonitinho. No nível dos clichês iniciais do Woody Allen. Câmera apanha o plano cheio que contempla o local do casamento. Daí já acompanha X que caminha em direção à noivA. Ela está só à sua espera. Câmera apanha a entrada incluindo todos os presentes. Chegando na celebrante. Eles são cumprimentados por ela com um beijo... A câmera apanha as mãos colocando as alianças. OBSERVAÇÕES: Data da gravação:18/07/2015 - SÁBADO Horário da gravação: Manhã ou tarde. Nome dos atores; - NOIVA: Brenda Prado. - NOIVO: Fabricio Vitorino. - CELEBRANTE: Eliane Michel

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Transporte/estacionamento: - Bernardo - Alimentação: Clévio Figurinos: - A Noiva: Vestido de cor clara ou branco/leve... Arranjo para o cabelo dela. - O Noivo: Bermuda e bata. - A Celebrante: Vestido comprido. Colares de religiões africanas... - Figurantes: Livre... Ninguém calçado... Camisa... Posicionamento dos atores na Cena: - Sorrisos são IMPORTANTÍSSIMOS... - Toques das mãos dos noivos entre si... - Troca de sorrisos entre noivos... - Gingado da NOIVA ANTES de pegar na mão do noivo. - SORRISO da CELEBRANTE quando eles CHEGAM ao altar. - Lágrima do HOMEM no momento que a celebrante coloca as ALIANÇAS sobre as mãos dos noivos... Objetos que irão compor a Cena: - 10 cadeiras; - Altar; - Pano voal branco - Pétalas de flores - Flores - Alianças dos noivos... Responsável pela Cena: Diana, Taiara e Clévio.

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Cena5

Café da Manhã

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Aqui inicia um momento novo em que o casal terá cenas de amor. É madrugada, há uma tomada da câmera no relógio para essa questão. São cinco da manha... Casal na mesa do café da manhã: X sem camisa e apenas com um short; Ela de camisola transparente. O casal sempre troca caricias por sobre a mesa. As mãos são o principal aqui. Sempre haverá um toque na mao, uma caricia. O café é longo. X serve todas as refeições dEla: São três: 1- suco de laranja; 2 - geléia de amora na torrada; 3 - café com leite. Ela toma o café com um certo desdém. O interesse de X por agradar é o nosso mote nessa cena. Doação como sinônimo de amor. Os dois voltam pra cama. Antes a câmera para uns instantes na mesa posta e algo desarrumada pelo café tomado. Uma espécie de introdução ao amor. Na cama já, a cena é de um beijo demorado. Com insinuações de sexo. Nada explicito. Que toca enquanto devagar eles se amam. Até adormecerem. Há uma atenção especial as ações de X que depois dEla dormir, fica entreolhando com olhos apaixonados... A canção encerra a cena... Câmera apanha toda a cena cheia. Zoom acompanhando as mãos. Câmera passa pela mesa e acompanha o casal pelas costas. Câmera apanha os dois na cama. X vendo Ela dormir...câmera por cima dos dois...

OBSERVAÇÕES: Data da gravação: 19/07/2015 - DOMINGO Nome dos atores; - X: Fabricio Victorino - Ela: Brenda Prado Local: - Rua Sagitário, 320 – Santa Lucia, Belo Horizonte – MG

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Transporte/estacionamento/alimentação: - Bernardo Figurinos: - X com short claro - BERNARDO - Ela camisola transparente da cor que Ela possuir – Olhar com ela se possui - TAIARA Posicionamento dos atores na Cena: - Sentados um ao lado do outro na mesa do café da manhã - X está na direita e ela na esquerda - Voltam para cama com X tocando Nela (nas costas, cintura) - Filmagem da mesa desarrumada: um copo na metade do suco, outro vazio; geléia aberta com uma espátula em cima; em um pratinho a torrada com apenas uma mordida, xícaras vazias. - Na cama, X em cima dela - Ela deitada nos ombros de X, adormecida, e ele a olhando, esboçando um leve sorriso Objetos que irão compor a Cena: - relógio (pegar com alguém do curta/ou conhecido, não precisa comprar) - CLEVIO - Jarra de suco de laranja; -- DIANA - Geleia de amora e torrada; -- DIANA - Garrafa de café e leite em uma jarra transparente -- CLEVIO - 2 copos para o suco -- BERNARDO - 2 xícaras brancas com pires -- BERNARDO - 2 pratinhos -- BERNARDO - Pano branco de rendinha para a mesa -- TAIARA Responsável pela Cena: - Diana Organização da cena: Taiara, Clévio e Diana “Onde o Direito não Toca” página 59


Cena6

Supermercado

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Os dois. De bermudaX. De vestidoELA. MÃOS DADAS no corredor do supermercado. Há uma espécie de briga pelas mercadorias. Seguidas de risos. Uma coisa ou outra é colocada no carrinho de compras. Na hora de pagar, há uma flor que é apanhada próxima ao caixa. Enquanto X passa as compras. ELA fica deslumbrada com a flor...Mostrando aos transeuntes...e também a moçadocaixa... Aqui a personagem é mesmo as coisas simples... uma cena leve...e um poema muito forte ao fim... Sempre a câmera por detrás dos passos. A câmera agora flagra X a entregar a flor para Ela e depois Ela a cheirar a flor... A câmera foca nela mostrando a flor para a atendente...

OBSERVAÇÕES: Data da gravação: 22/07/2015 - QUARTA Horário da gravação: 08 horas. Manhã. Nome dos atores; ELA: Brenda Prado X:Fabricio Vitorino Local: Rua Uberlândia, nº 899 – Carlos Prates

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Transporte/estacionamento/alimentação: Taiara Figurinos - Personagem X: bermuda, camisa... -- BERNARDO - ELA: vestido... -- TAIARA - Atendente: camisa e calça. -- TAIARA Posicionamento dos atores na Cena: - Casal de mãos dadas. - Risos enquanto fazem as compras. (como enquadrar esses sorrisos?) - BRIGAS pelas mercadorias... Brincadeiras do casal... (como será feito?) - Próximo ao CAIXA, X entrega uma FLOR a ela... - ELA CHEIRA A FLOR! Expressão facial DELA de deslumbre pelo ato... Enquanto o POEMA é recitado. - FIGURANTES (QUEM???) Algumas pessoas próximas para que ELA possa mostrar a FLOR (que também é mostrada para a moça do CAIXA). - BERNARDO recitará o poema. Objetos que irão compor a Cena: - Flor que X entrega a ELA. - DIANA - Compras... - Supermercado Responsável pela Cena: Taiara. Organização da Cena: Taiara, Clévio e Diana.

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Cena7

De volta para casa

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X serve café e biscoitos para Ela que esta ao computador escrevendo seu livro. Ela esta a escrever nua. A câmera apanha o corpo em silhueta e foca na tela do PC. A frase que é titulo do escrito é: “Enquanto lá fora as chuvas molham os carros. Sofro de agreste imenso aqui dentro. Será que algum dia meus pés irão encontrar um chão de rosas? Será que sou uma tola que ainda vive uma adolescência? Será que no dia em que sai do quarto decorado pelos meus pais eu estava a deixar pra trás qualquer cor em minhas veias? Há sangue aqui?” Essa tomada demora na tela e silenciosamente X se retira da sala. ELA não toca no café. Olha para a bandeja decorada com uma flor. Salva o texto. Esta cena é importante para mostrar a face DELA enquanto escritora. E de X de um homem apaixonado. Câmera apanha X colocando uma bandeja ao lado do PC. Ele sai de cena. A câmera agora vai apanhar apenas o PC e mostra a tela em zoom...

OBSERVAÇÕES: Data da gravação: - 19/07/2015 - DOMINGO Nome dos atores; -X: Fabrício Vitorino -Ela: Brenda Prado Local: - Rua Sagitário, 320 – Santa Lucia, Belo Horizonte - MG

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Transporte/estacionamento/alimentação: Bernardo Figurinos: Ela: Nua X: de pijama -- BERNARDO Posicionamento dos atores na Cena: - Atriz sentada com as pernas cruzadas (o resto está descrito no roteiro) Objetos que irão compor a Cena: - Bandeja para o lanche que X serve – BERNARDO - OK - Xícara branca do café da manhã com café – BERNARDO – OK - Forro de mesa branco – TAIARA - Jogo americano – BERNARDO – OK - Cookies de chocolate espalhados no pratinho também do café da manhã -- DIANA - Rosa branca – TAIARA (ver com o marido da Nathalia qual ficará melhor no preto e branco- se a vermelha ou a branca?) - Computador – BERNARDO -- OK - Cadeira aberta para mostrar o bumbum—BERNARDO -- OK Responsável pela Cena: Diana Organização da cena: Taiara, Clévio e Diana.

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Cena8

BANHO/ELA INDO TRABALHAR

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Um banho rápido.X dorme.ELA se apronta para sair.Vestido preto. Maquiagem acentuada, porém não vulgar... De soslaio a câmera pega; Um beijo em X que dorme; Um gole em uma garrafa de vodca; Um sinal da cruz feito por ela. Câmera no banho (aqui mostramos que é uma mulher trans) e depois corte para o quarto mostrando X. Câmera mostra ela se arrumando rapidamente. Gole na garrafa em foco. Beijo em X. Ela sempre apanhada pelas costas.

OBSERVAÇÕES: Data da gravação: 19/07/2015 - DOMINGO Nome dos atores; X: Fabricio Vitorino. ELA: Brenda Prado. Local da gravação: - Rua Sagitário, 320 – Santa Lucia, Belo Horizonte - MG

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Transporte/estacionamento/alimentação: Bernardo Figurinos: ELA: vestido preto (OLHAR COM ELA SE POSSUI) - DIANA - Maquiagem acentuada (como será essa make? FOTO). -T AIARA Posicionamento dos atores na Cena: - Cena focada NELA. - X DORME a cena TODA. - Câmera no BANHO DELA. - Mostra-se o corpo DELA... (como enquadrar essa cena? O que mostra?) -- BERNARDO Objetos que irão compor a Cena: - Maquiagem – (como será essa make? FOTO!) – TAIARA - Selecionar uma foto do Facebook da atriz com look carregado - DIANA - Vodka (Natasha) -- DIANA Responsável pela Cena: Taiara Organização da cena: Taiara, Clévio e Diana

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Cena9 RITUAL

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A primeira tomada da volta se divide em duas: 1 - olhar parado na foto da mãe dela, coloca um vaso de violetas ao lado; 2 - olhar parado na foto do pai, retira uma navalha de dentro da bolsa, faz um corte no braço; ELA dirige-se para a cama. Antes um olhar para a mesa posta por X. ELA, já sem som, retira a roupa. A câmera observa o sangue que corre pelo braço. No criado mudo há uma gaze para curar a ferida. ELA faz o curativo e se deita. Câmera dentro de casa. Barulho da chave na porta. Ela apanhada de frente. Sem o rosto. Câmera devagar a acompanhar os passos: Foco no retrato da mãe..foco na flor ao lado da foto. Foco no retrato do pai...foco na gilete que corta o braço câmera passeando por Ela enquanto retira a roupa. Enquanto limpa o sangue do braço e cura. Depois a cama...

OBSERVAÇÕES: Data da gravação: - 19/07/2015 - DOMINGO Nome dos atores; -Ela: Brenda Prado - X: Fabrício Victorino (ele aparece na cena, dormindo... como se ele deixasse o curativo sempre pronto para ELA) Local: - Rua Sagitário, 320 – Santa Lucia, Belo Horizonte - MG

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Transporte/estacionamento/alimentação: Bernardo Figurinos: - Vestido curto tubinho claro e salto alto (OLHAR COM ELA SE POSSUI) – TAIARA ELE: pijama -- BERNARDO Posicionamento dos atores na Cena: - Sangue já será colocado e a mão da atriz, juntamente com a navalha, tampará o mesmo -- NATHALIA Objetos que irão compor a Cena: - Foto do pai – DIANA - foto da mãe – DIANA - Altar onde serão colocadas as violetas (RITUAL) – TAIARA ALTAR: Enquadramento fechado em uma violeta/depois abre o zoom e mostra as demais violetas(algumas mais novas, outras velhas)/depois os retratos (ao lado do retrato do pai não tem violetas) FOTO DO PAI E DA MÃE – Olhar com a atriz - Vaso de violetas; 10 vasos (uns com flores, outros sem)-- TAIARA - Navalha -- OK - Sangue artificial (chocolate - fazer testes do ponto certo do chocolate e também se dará certo tampar o sangue com a mão e a navalha) - NATHALIA - Gaze -- TAIARA OBS: A MESA POSTA POR X SERÁ A MESMA FILMADA PELO CAFÉ DA MANHÃ (CENA 5), COM PÃO DE SAL E SEM O SUCO DE LARANJA Responsável pela Cena: Diana Organização da cena: Taiara, Clévio e Diana “Onde o Direito não Toca” página 85


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Cena10

ELA escrevendo

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ELA está pela manhã à frente do PC. Curativo no BRAÇO.X mais uma vez traz a bandeja de café, sempre decorada com uma flor. ELA não se trocou. Esta evidentemente bem arrumada. X esta de TERNO E GRAVATA. Ele bate a porta. Ela liga o PC. Mais uma vez o foco recai sobre a tela. Quando o PC liga na tela do livro, a canção cessa. Câmera foca na tela do PC: “Será então que amor é isso? Ir-se acostumando aos corpos e almas que nos envolvem? Ser hospitaleiro feito mãe? Simplesmente receber? Uma mulher daquelas de Atenas do Chico Buarque? Enquanto os pensamentos se acumulavam mais uma cama seria desarrumada. E aquela ideia de um amor único e fiel? É a única?” Câmera nas costas de novo. Vestido com as costas mostradas. Câmera a mostrar X com mais uma bandeja de café. Câmera em X saindo de casa. Som da porta junto com o som do PC sendo ligado. Câmera na tela do PC.

OBSERVAÇÕES: Data da gravação: 19/07/2015 - DOMINGO Nome dos atores; ELA: Brenda Prado. X: Fabricio Vitorino. Local da gravação: - Rua Sagitário, 320 – Santa Lucia, Belo Horizonte – MG

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Transporte/estacionamento/alimentação: Bernardo Figurinos: ELA: Vestido que mostre as costas. Na cena diz que ela está evidentemente bem arrumada... COM ou SEM make? -- TAIARA X: terno e gravata - BERNARDO Posicionamento dos atores na Cena: - X com a bandeja de café acompanhada de uma FLOR... - X sai da CASA e BATE a porta. - Ao MESMO tempo, ELA LIGA o computador/notebook. Objetos que irão compor a Cena: - Computador. -- BERNARDO - Curativo no braço dela. -- DIANA - Bandeja. -- CLÉVIO - Café. -- DIANA - Uma FLOR. (rosa branca) -- DIANA Responsável pela Cena: Taiara Organização da cena: Taiara, Clévio e Diana

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Cena11

X saindo de casa

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Enquanto ELA dorme, X se arruma para sair. OBSERVAÇÕES: Data da gravação: - 19/07/2015 - DOMINGO Nome dos atores; -X: Fabrício Victorino - Ela: Brenda Prado Local: - Rua Sagitário, 320 – Santa Lucia, Belo Horizonte - MG

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Transporte/estacionamento/alimentação: Bernardo Figurinos: - Atriz: camisola. Pode ser a transparente, já que estará coberta por um lençol (CHECAR COM ELA) -- TAIARA - X vestindo seu terno, pode ser o mesmo da primeira cena, porém com uma camisa e grava de cores/tons diferentes -- BERNARDO Posicionamento dos atores na Cena: - Ela dormindo coberta por um lençol - roupa de X em um cabide em suas mãos - X se senta na cama para colocar os sapatos Objetos que irão compor a Cena: - Sapatos -- BERNARDO - Cabide -- BERNARDO - Lençol: BERNARDO Responsável pela Cena: Diana

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Cena12

Última cena/Pedro II

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É o primeiro plano em que aparecem cores e sons. ELA esta na calçada. X estaciona o carro. Um carro escuro. Ele abaixa o vidro. ELA se debruça. A câmera foca na tatuagem de uma flor que ELA traz no seio. A câmera vagarosamente passa por dentro do carro, para por um segundo nas pernas de X onde esta um papel que tem como titulo: “CONTRATO DE PUBLICAÇÃO”. Câmera apanha algumas garotas de programa. Logo apanha o carro que para. Câmera filma a partir do lado do motorista. Apanha o rosto e a tatuagem no seio Dela... Câmera devagar mostra por dentro do carro até a perna de X onde está o contrato de publicação Câmera na face de X que diz: ACABOU... CORTA!

OBSERVAÇÕES: Data da gravação: 21/07/2015 - TERÇA Horário da gravação: 22h às 01h. Noite. Nome dos atores; X: Fabricio Victorino; ELA: Brenda Prado Local: Av. Pedro II c/ Rua Mariana. Nº 507 - 646

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Transporte: Bernardo Alimentação: Taiara. Figurinos: - ELA: vestido ou saia e blusa. -- TAIARA - IMPORTANTE mostrar a tatuagem no SEIO da moça... Nisso, o vestido ou a blusa TEM que ter um decote/ser aberto... - X: terno e gravata – BERNARDO - Figurantes caricatas -- TAIARA Posicionamento dos atores na Cena: - GAROTAS/FIGURANTES na avenida... (Quem serão?) -- BERNARDO - ELA na CALÇADA. - X chega de CARRO (vidros escuros). - Contrato nas PERNAS de X. - VOZ e FACE de X. Objetos que irão compor a Cena: - Tatuagem de uma rosa negra. -- CLÉVIO - O contrato. -- TAIARA Responsável pela Cena: Taiara Organização da cena: Taiara, Clévio e Diana

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entrevistas Brenda Prado Kamilly Souza Prado Faby Prado

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Diana – O que é ser uma mulher trans/travesti? Anyky: É você acordar de manhã cedo LUTANDO e dormir LUTANDO! Tem de ter muita personalidade para ser o que eu sou e para passar pelo que passei e estar viva até hoje. Isso é ser uma travesti! Entendeu, porque eu perdi família, perdi amigos, perdi o “vinculo” com “muita coisa boa”, mas para me sentir bem comigo mesma eu resisti e estou aqui até hoje. Brenda: Bom, não existe uma finalidade para essa pergunta “o que é ser uma mulher trans”. Seria mais clássico fazer aquela grande pergunta “o que é ser uma mulher? ”, pois a palavra “trans/travesti” coloca no nosso meio uma vírgula, já nos diferenciando de uma mulher “normal”. E para mim não existe esse diferenciar, esse separar da mulher cis. É como eu sempre digo e sempre vou falar “eu nasci mulher, sou mulher, vou viver o resto da minha vida e vou morrer mulher”. Então, reformulando a pergunta: o que é ser mulher? É ter dentro de si todos os anseios, todas as alegrias, todas as dores, todas as compreensões de um ser magnífico. A mulher cis pode dar a luz e a mulher trans já é a própria luz, pois brilhamos e irradiamos em todos os lugares. Ao mesmo tempo que temos esse brilho temos também as dores que carregamos. Ainda existe um grande preconceito no qual somos apontadas nas ruas e na vida. O dia a dia da mulher trans é muito complicado por isso. Então é o que eu falo “ser mulher é algo magnífico, mas também um pouco doloroso”, pois enfrentar todo esse preconceito que é colocado para a gente não é fácil. Portanto ser mulher é algo magnífico porque sentimos o prazer de estar nesse mundo para fazer e mostrar a diferença, afirmando ainda a necessidade do respeito como qualquer outro ser humano. Logo, vou dizer mais uma vez: temos que tirar essa história de “mulher trans/travesti” e dizer “mulher”, pois colocando essa virgula você tira essa igualdade que queremos. Eu quero ser reconhecida como mulher, afinal, vivo como mulher, penso como uma mulher e sou mulher. “Onde o Direito não Toca” página 113


Faby: Eu faço das minhas palavras as da Brenda, porque ser mulher trans é minha realização, sabe? Sofremos todos os tipos de preconceito na vida amorosa, na vida familiar... e ser mulher trans é ser forte. Correr atrás de tudo. Brenda: Eu acho que esse “mulher trans” tinha que ser trocado por “força”, é como ser uma “mulher maravilha”, para simbolizar essa força, superação. Kamilly: É legal ser uma mulher trans. É saber que você pensa de duas formas: como mulher e como homem. Às vezes você age como uma mulher, outras você age como um homem... temos a sensibilidade de uma mulher e a brutalidade de um homem. Brenda: E ainda bem que a vida nos expõe a isso, né? Porque o mundo é tão agressivo e nos coloca em um plano tão masculinizada e ridicularizada que às vezes precisamos dessa força masculina para superar isso – por isso somos mulheres maravilha.

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Diana – Por que a vida se ganha na rua? Anyky: Eu fui garota de programa até os 50 (cinquenta) anos. É uma sobrevivência, você tem de sobreviver, você tem de ganhar de alguma maneira. Ou você vai para o lado “da droga”, de traficantes, de roubar, ou você vai se prostituir. Não tem muitos espaços, não tem ESPAÇO NENHUM, ninguém vai colocar você dentro de casa e falar: TADINHA! Emprego todo mundo reclama, mas ninguém DÁ EMPREGO. E até hoje é assim, imagine na minha época. Então, é uma experiência boa e ruim ao mesmo tempo. É uma faca de dois gumes. É a onde eu consegui sobreviver, passei por muitas coisas ruins, mas passei por muitas coisas boas também. Encontrei pessoas maravilhosas, carinhosas, encontrei agressão, encontrei todo tipo de coisa, como você encontra pela vida afora. E até hoje eu vejo a mesma coisa acontecer com outras meninas, porque a sua vida inteira é uma ilusão e enquanto há vida, há esperança, então, de qualquer maneira, você tem de confiar em alguma pessoa ou em alguém ou em alguma coisa, pois se você não confiar em ninguém você acaba se matando. A vida é isso, É ESPERANÇA. Mesmo quando eu estava na rua, eu tinha esperança de encontrar um homem bom que me tirasse de lá. Eu encontrei muita coisa boa. Ali (aponta para maquinas de costura), essas maquinas que eu tenho foi um homem que me deu. Já tem mais de 40 (quarenta) anos essas duas máquinas e até hoje ela me dá lucro. Se eu estou fazendo hoje as bandeiras para o “PT” é porque eu tenho essas duas maquinas, que tem mais de 40 anos comigo, fui carregando elas de um lado para outro, até que “estamos” aqui, mas a gente é isso... Brenda: Bom, essa pergunta é completa e incompleta. Ela é um labirinto, tendo várias formas de respondê-la. Primeiramente a vida se ganha na rua porque a sociedade nos empurra para a rua. Você já viu uma “mulher maravilha” trabalhando “Onde o Direito não Toca” página 115


em supermercado, farmácia... ou ser uma grande advogada, psicóloga, professora? Se tem, são poucas. A vida se ganha na rua porque precisamos comer, beber, vestir, dormir... e a rua é a única porta que a sociedade te empurra que você tem que abrir, fechar e não sair mais. Uma vez que você entra, sair dela não é fácil. Então a sociedade, com toda a sua hipocrisia e desaforos nos empurra para esse caminho. A vida também se ganha na rua observando aquele lado humano da “grande malandragem”, pois na rua aprendemos todos os saberes da grande boemia, porque é lá que temos que saber lidar com todos os tipos de pessoas – pessoas de fino trato e alto requinte, pessoas da lei e foras da lei, mendigos... Porque estamos na rua. E é como ser livre. Estar na rua mostra também tudo que é livre. A rua é a grande escola, afinal, sabendo lidar com tantas pessoas diferentes, aprendemos e levamos para a vida inteira. E a vida na rua é a mesma vivenciada dentro da sociedade, porém na rua estamos descalças e na sociedade estamos calçadas. Faby: É a única oportunidade que temos né... é a rua... A gente ganha dinheiro na rua por falta de oportunidade, pois ninguém nos proporciona algo melhor por sermos mulheres trans. Kamilly: Às vezes o preconceito não é nem do dono do estabelecimento, mas é do cliente. O dono não vai deixar de ganhar o dele para ajudar alguém. Infelizmente muitos pensam assim. Mas é a oportunidade que temos de pelo menos tentar sobreviver. Quem é forte consegue, mas quem não é, infelizmente... Brenda: Acaba perdendo né? Entrando no mundo das drogas para buscar força. As meninas e eu somos pessoas muito fortes, pois estamos na rua lutando, buscando nosso sustento, não precisamos de drogas, bebidas alcoólicas, roubos e tampouco nos submeter a nenhum delito para mascarar o nosso sofrimento que é continuo.

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Diana – Como vocês sentem com a vida de vocês sendo retratada em um filme? Anyky: Acho que é muito importante, principalmente na faculdade que é o lugar mais “transfôrmico” que existe na face da Terra. A primeira “transfobia” a gente recebe dentro de casa. A maioria, não são todos, tem muitos que os pais acolhem. Mas a maioria são postos para fora de casa. E depois, a “transfobia” vem na educação e logo a seguir na saúde, que a gente não tem ESPAÇO NENHUMA naquele lugar. E educação, faculdade, as pessoas tem de entender, que educação não é só você pegar um diploma e dizer “eu sou diplomada”. Educação é você acolher a outras pessoas, é dar oportunidade a outras pessoas e não acontece isso. Cada um cuida de si e Deus de todos. Porque educação deveria ser uma coisa totalmente diferente do que os jovens fazem hoje, sabe. Eu vejo jovens estudantes passarem na Pedro II e TACAR PEDRAS NAS TRAVESTIS! TACA GARRAFAS NAS TRAVESTIS! MULHERES! ISSO É EDUCAÇÃO! Para mim não é educação, então era melhor não ter estudado, porque eu jamais teria coragem de passar em frente a uma Faculdade e tacar uma garrafa em você, ou em algum rapaz que estivesse lá. Eu acho que educação é uma coisa totalmente diferente. Educação não é um diploma, educação é você acolher o outro, é você aproximar-se do outro, porque todos somos iguais perante a Deus. Brenda: Nós esperamos que esse retrato falado da nossa própria vida consiga mudar os pensamentos das pessoas toscas e completamente ogras que pensam de uma forma totalmente agressiva. Então não queremos atingir quem aceita, afinal esses vão aplaudir. Mas aqueles que não o farão que pelo menos mexa com a cabeça deles e entendam que nada impede o ser humano de viver aquilo que ele pensa que é. As pessoas pensam que “a gente é o que a gente come” e eu penso que “a gente é aquilo que pensamos ser”. Portanto esperamos que atinja essas pessoas e as mude, para que elas possam olhar de uma forma diferente, mais carinhosa, mais acolhedora. “Onde o Direito não Toca” página 117


E olhando por um outro lado, da nossa vaidade em si, é prazeroso saber que estaremos tendo uma visibilidade e sendo grandes figuras representativas para outras mulheres trans/travestis como uma peça chave para abrir caminhos para elas – pois deve servir de inspiração para muitas. O lado da vaidade também nos mostra que já passou da hora de ser mostrada realmente a nossa vida e que não somos somente um objeto de sexualidade ou criminalidade.

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Diana - Até porque a mídia noticia assim, né? Anyky: Eu acho que cada pessoa é um pessoa, cada pessoa faz a sua vida a melhor maneira, mesmo sem ter tido oportunidades. Claro que tem muitas meninas que caem nas drogas, vão presas, mas isso é ocasionado também pelo próprio sistema, porque elas estão na rua, no meio da violência. Eu sempre fui uma pessoa muito medrosa, eu nunca gostei de conviver com violência, com drogas. Se eu disse para você que eu não usei drogas, “estou” mentindo, porque eu usei todo tipo de droga. Não usei pedra porque na minha época não existia, Graças a Deus. Mas eu acho que mesmo você morando na rua, isso vai muito da sua índole. Isso vai da maneira que você segue seu caminho. A sociedade NÃO TE ACEITA. As pessoas NÃO TE ACEITAM. Os amigos NÃO TE ACEITAM. Se você mesma não se aceitar, se você mesma não se der valor, ninguém vai te dar! Então, eu acho que o ser humano tem de seguir uma reta de bemestar, e de nada que vá trazer mal-estar para as pessoas. Tanto à travesti, ao gay, à lésbica e se a gente não se amar, se você não gostar de si própria e procurar evoluir, nada vai acontecer. E, é aquele negócio. A única certeza que a gente tem na vida é que um dia a gente vai morrer! A gente não sabe se vai ficar rica, se vai ficar pobre, se vai virar morador de rua, usuário de droga, a gente não sabe! A única certeza que a gente “sabe” é que a gente um dia vai MORRER. Então, se a gente não ter oportunidade, se as pessoas não derem oportunidade, se as pessoas não gostam da gente, a gente tem de se gostar e seguir um caminho de uma maneira que a gente vai se desviando das coisas ruins, dando uma rasteira alia e aqui para conseguir viver uma vida boa! Brenda: Exatamente, a mídia coloca o negativo, mas a gente está com esse filme para mostrar o lado positivo da transexual. O lado da vida verdadeiro do qual ela vive. Porque uma transexual come, bebe, dorme, ama, odeia, gosta, desgosta, apaixona... ela tem todos os sentimentos como um ser cis também “Onde o Direito não Toca” página 119


tem. Antigamente as pessoas acreditavam que os negros não tinham alma e nasceram para servir o próximo. A sociedade e a mídia colocam a trans quase que dessa mesma forma – um objeto sexual que serve somente para dar prazer para aqueles que gostam e curtem uma transexual. Então até quando vamos ser vistas como objeto sexual? Objeto de uso? Não! A gente tem sentimentos! Somos todos uma raça só. Então da mesma forma que a cor não nos separa de ninguém, a sexualidade, a sua genitália, tampouco. E se for olhar até mesmo pelo lado espiritual, o grande criador fez o homem e a mulher, então sabemos que existem dois espíritos: o masculino e o feminino. Agora, o corpo... não interfere em nada. O que vale não é o espirito? Aquilo que não se vê? E se aquilo que não se vê é o seu sentimento e meu sentimento é feminino, eu sou feminina. O corpo não te diferencia, diminui ou aumenta em nada pois somos todos iguais. Logo, espero que esse filme mude a cabeça dessas pessoas que vivem no passado e com pensamentos negativos, para que esse olhar para a trans como objeto sexual e de criminalidade apague. Kamilly: O bom desse filme é que deu uma oportunidade para as pessoas verem que temos uma vida normal como outro ser qualquer. Como a Brenda falou, a gente vive, respira, sentimentaliza... e para eles não, é como se fossemos apenas aquele objeto que sai na rua prostituindo, faz o que quer e pronto, aquela é a nossa vida. Na cabeça deles não temos família, somos drogadas, ladras, doentes... entendeu? A minha sexualidade não vai ser o seu fetiche e nunca vai ser! Para eles é isso, olhar para uma travesti e já pensar “ah, aquela ali tem doença, aquela rouba, está nessa vida porque quer...” e não gente, estamos porque precisamos e ninguém iria gostar de passar o que vivenciamos todos os dias na rua, porque não é fácil mesmo. Às vezes o dinheiro pode ser rápido, mas as pessoas devem saber diferenciar o rápido do fácil. Entramos dentro do carro e fazemos o programa, é muito rápido. Mas não sabem o que você passou ali dentro. É difícil se deitar com uma pessoa que nunca viu na vida, nem sabe se toma banho, se realmente é higiênico, sabe?

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Diana – uma pessoa que pode te matar, inclusive. Kamilly: Isso, o tempo todo... Faby: O filme é uma oportunidade para fazer as pessoas pensarem bem antes de criticar, né? Deixarem de julgar e passarem a observar. Vamos ver o que vai dar, né? (risos).

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Diana – Como é ser uma mulher trans/ travesti nos dias atuais: trabalho, discriminação, família, leis, amigos, cidade? Brenda: Sobre as leis, nada nos garante. Eu, como militante, luto para que aja lei – lei de proteção, lei do acolhimento, lei do reconhecimento e da liberdade, da carta de alforria de todos os homens e mulheres trans. Eu amo a minha vida, amo tudo que faço, amo cada detalhe conquistado no meu corpo, toda a minha aparência feminina – porque eu alinhei a minha cabeça ao meu corpo. Me sinto completa. A sociedade é hipócrita, pois os seres humanos não têm o direito de julgar seres humanos. Só Deus tem esse direito, pois foi ele quem nos fez. Vivemos nesse mundo sujo e parafraseando aquele velho ditado “é o sujo falando do mal lavado”. E tem também essa falsa aceitação popular da mulher trans/homem trans, pois na casa deles tudo é belo, na minha não. Assim como o “ah, eu aceito os negros, também tenho sangue negro”, mas quando acontece algum problema dizem “só podia ser preto mesmo”. Já com a trans quando acontece alguma coisa, dizem “só podia ser viado mesmo”. Então para você ser uma transexual não pode ter erro nenhum. Se a trans beber e cair na rua “só podia ser viado”, se a trans cometer qualquer delito “só podia ser viado”.

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Diana – E no noticiário já vem escrito “transexual fez tal coisa”. Brenda: Pior, eles colocam ‘o’ travesti, masculinizam o feminino. A mídia poderia trabalhar um pouco melhor e mostrar os fatos como verdadeiramente são. Como você vai colocar “o travesti” para uma pessoa que usou saia, batom e viveu como mulher a vida inteira? É um absurdo! Tem muita coisa para evoluir. O mundo precisa de evolução. As pessoas buscam tanto a modernidade, mas o cérebro é tão atrasado em outras coisas...

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Diana – E em relação a família? Brenda: Bom, tive um problema sim, com a minha mãe. Ela dava muito trabalho na época. Ela é evangélica e querendo ou não o clero nos acusa muito. A bíblia fala que o homossexual será condenado, lançado ao inferno e por aí vai a grande história bíblica do Deus que condena. O Deus que eu acredito não é um Deus que condena. É um Deus amor e justiça. Ele nos fez dessa forma e não merecemos nenhuma condenação pois somos quem ele quis que a gente fosse. Por que ele iria permitir criar pessoas transexuais para serem lançadas simplesmente como objetos de um jogo de xadrez e depois guardá-las na caixa e jogar tudo no fundo? E a minha família pensava dessa forma. Hoje a minha mãe me aceita, me abraça, me ama, faz tudo para mim, aceitou meu casamento, minha vida inteira..., mas por causa dessa lavagem cerebral das religiões eu tive um grande afastamento familiar e um grande sofrimento através disso – porque ao invés do clero pregar o amor para com o próximo eles pregam a condenação. Fazem a mesma coisa que há anos atrás fizeram com os negros, dizendo que eles eram seres sem alma. E de uma forma ou outra a palavra do Papa vale muito. O que sai do Vaticano vale muito. A primeira libertação que deve ocorrer é quanto a religião, pois ela nos condena mais do que todos. Faby: No meu caso é diferente pois minha família sempre me aceitou e foram bons comigo. Eu já fui casada com um homem, morei junto a ele por três anos e foram ótimos... minha família super aceita. Dentro de casa eu nunca tive problema nenhum por ser mulher trans. Sou muito realizada nesse sentido.

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Kamilly: Em relação a família minha mãe foi uma pessoa de cabeça muito aberta, na adolescência ela sempre teve muitas amigas lésbicas, travestis, trans, amigos gays... enfim, eu me assumi com treze anos de idade, comecei com o uso de hormônios... minha mãe me abraçou e me aceitou numa boa. Até porque na minha família eu tenho uma tia trans e um irmão gay. Até minha avó que é testemunha de jeová me aceita, durmo na casa dela... tranquilo. Quanto a família não tenho o que reclamar. E a população é isso aí né gente, pessoas que fingem que aceitam... é difícil encontrar uma mulher trans que tenha amizade com homem hétero, por exemplo. Faby: Os homens sempre vão nos olhar como objeto sexual, não adianta. Kamilly: E até mulheres fazem isso. Bom, os amigos da infância carrego comigo até então. Como eu me assumi com treze anos, com quinze eu já casei e moramos juntos por três anos. Então quem é amigo de verdade, independente de quem fomos no passado e viramos no futuro, vão continuar sendo amigos de qualquer forma. Mas infelizmente poucos pensam e agem assim, portanto a gente tem que suportar. Eu com homens héteros não tenho amizade. Eu tento. Afinal é legal saber que sendo trans tenho um amigo hétero que me aceita. Todavia minhas relações de amizade são mais com trans, travestis, lésbicas, gays – aqui na casa somos muito amigas – e lá fora também tem amizades, mas até com mulher cis não é tanto.

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Diana – Mulher tem muito de falar “ah, amo amigos gays”. Kamilly: Pois é, mas é que nem a Brenda falou: adora enquanto não é na casa delas. As pessoas adoram falar que “adoram, amam, acham bonito”, mas deixa eu precisar e bater na porta delas pedindo ajuda, vamos ver se realmente vão me apoiar e me ajudar como amiga.

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Diana – A relação do homem hétero cis com uma mulher hétero cis já é tão complicada... Kamilly: Imagina com a gente? Por mais que a trans não seja prostituta já presumem que ela seja. Eu tenho uma amiga trans que trabalha no shopping e o homem já chega perguntando “você faz programa? ”. Eu vi em uma faixa no facebook “a minha sexualidade não é o seu fetiche” e realmente é verdade porque poxa, você assumiu a sua sexualidade para as pessoas terem fetiche? Como assim? Enfim, em questão de amizade não tenho o que reclamar porque a população é assim né – existem pessoas que aceitam de verdade, pessoas que fingem aceitar, pessoas que criticam ao máximo de conseguem pois nos veem como monstros, como pessoas que não têm família, amor, vida... eles pensam que vivemos naquele mundinho que eles mesmos criam, né? Tem só um buraco, a gente cai e fica ali para sempre com aquela vidinha de farras, drogas, doença e só. Para eles essa é a vida de uma transexual.

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Diana – O que vocês gostariam de dizer e nunca puderam? Anyky: Uma coisa que eu gostaria que acontecesse que com essa luta, que essas pessoas olhassem para os LGBT como seres humanos, procurasse saber porque que essas meninas estão nas ruas, quais eram suas necessidades. Que os pais tivessem consciência e não “jogasse” essas pessoas fora de casa, porque essa é a maior violência. Porque quando os pais jogam essa pessoa fora de casa, essa pessoa perde todo vinculo de uma VIDA! Então, se o próprio pai ou a mãe jogam “pra fora”, ela vai perder todo o vínculo. Eu gostaria que (eu sei que eu não vou ver, que eu já estou com 61 anos). Mas eu gostaria de ver várias meninas tendo a oportunidade de estudar, trabalhando, mas sem cobrança! Como se fosse uma coisa normal, como outra qualquer. Que você está trabalhando em uma loja e essa menina fosse trabalhar nessa loja, sem dizer que ela é uma travesti, que é uma transexual... É UM SER HUMANO QUE ESTÁ TRABALHANDO EM UMA LOJA! Eu não gosto muito dessas palavras LGBT, travestis, transexuais. Acho que isso é uma coisa muito rotulada, o ser humano gosta muito de rotular as pessoas. Eu sou aquilo que eu sou! EU SOU UMA MULHER COMO QUALQUER OUTRA! Vivo da maneira que eu quero, se quiserem me aceitar, aceitem! Se não quiserem, não me aceite! Eu vivo no meu quadrado, cada um no seu quadrado. É que eu acho que desde o momento que você não prejudica ninguém, as pessoas não tem direito de te prejudicar, mas eu não gosto muito desse negócio de rótulo que as pessoas colocam: você é travesti, você é transexual, você é binária ou não binária. Eu acho que todos somos seres humanos que devem ser respeitados! Brenda: Eu sou uma pessoa muito espontânea, então essa pergunta

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para mim não cabe nem ser feita porque eu sempre falo tudo o que quero. Então eu quero fazer uma pergunta: Por que tanto ódio? Eu quero perguntar, porque falar o que eu quis eu sempre falei. Tanto no meio familiar quanto social. Eu falo até pelos “cotovelos” e não estou nem aí. E vou continuar falando, porque eu exponho aquilo que acredito e se eu acredito tem valor para mim e tendo valor para mim eu vou dizer. Faby: Eu vou é pedir respeito, pois sou igual a todos. Só isso. Me respeitem. Kamilly: Acabou que você perguntou, mas nós é que queremos fazer a pergunta: o porquê de tanto ódio. Queremos respeito e que essas pessoas pelo menos tentem nos olhar como seres humanos normais. É horrível ter que andar na rua como se fosse uma pessoa muito estranha andando num mundo de gente normal. Corre o mesmo sangue, só os traços e as cores que mudam. Brenda: Nossos desejos são únicos. Todos pensam diferente, mas quando se trata do homossexual, trans ou travesti todos pensam igual: descriminação e isolação. É lindo, é legal, mas lá, não no meu meio. Kamilly: Tem pessoas que preferem ter um filho marginal do que homossexual, trans ou travesti. E isso é um absurdo! Brenda: E a gente vê o povo falar “ah, os bicha/viado querem respeito mas não se dão ao respeito, ficam ai de mãos dadas na rua...” Gente, pelo amor de deus! Kamilly: O legal é que eles acham o máximo duas mulheres juntas, daí vem aquilo que falei do fetiche, do desejo. “Nossa, duas mulheres! ” E já começam a imaginar.

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Brenda: Ninguém nos aceita! E eu só quero isso. Eu nasci mulher, vivo como mulher e vou morrer e ser enterrada como uma mulher, gente! Isso é o básico! É o que penso! Eu não vou ser da forma que a sociedade quer que eu seja. E tudo que a sociedade empurrou porque que queria que eu fosse, deu burrada. O mundo se tornou um caos. Ainda existe a lei da inquisição sim. Não somos queimadas como as bruxas antigamente, nas praças, mas dentro de nós a nossa alma, nossa essência é queimada todos os dias. Então essa lei da inquisição tem que acabar. Nós sofremos na carne sim. É muito triste quando você fecha o portão da sua casa e pensa “aqui eu sinto segura porque aqui eu posso ser quem eu quero ser”. Eu sou diminuída e ridicularizada todos os dias. Kamilly: É triste saber que você é uma pessoa normal como todos, mas só pode ser você mesmo na sua própria casa ou, alguns casos, na casa da família. E a família te aceitando já é a primeira porta aberta, pois na rua você vai apanhar, sofrer preconceitos, ser humilhada..., mas sabendo que quando você voltar para a casa vai ter a sua família para te aceitar... ameniza um pouco, né? Infelizmente muitas famílias colocam pra fora porque é trans/travesti. Daí esses filhxs começam a usar drogas, bebidas e acabam morrendo...

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relato

cinegrafista Eduardo Falcão

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A primeira gravação foi em um sítio em |Itabirito| e uma das cenas mais importantes seria captada no local. Os membros da equipe até então não se conheciam e no primeiro encontro ainda informal em uma lanchonete no caminho foram feitas as apresentações. A impressão que ficou ao conhecer os atores é que seria um projeto difícil e que talvez não fosse concluído pois o clima era muito descontraído o que não me passou segurança o que durante o trabalho mudou completamente e tudo foi muito profissional. Ao chegar na primeira locação (sítio) uma bela surpresa! O lugar era lindo e estava pronto para a gravação. Muito bem cuidado e um funcionário do local se colocou à disposição para resolver qualquer problema que aparecesse. Decidida a cena fui montando o equipamento com ajuda de minha esposa Nathália e dos assistentes alunos da Newton. A princípio muita calma e cuidado no posicionamento dos equipamentos e elementos de cena. ||Tatana Franca|| decoradora, cedeu seus serviços e talento para transformar uma entrada tradicional em um altar maravilhoso e de muito bom gosto. Brenda a atriz, já estava no interior da casa com a equipe de maquiagem providenciada por ela e junto com a dona do sítio que se mostrou muito interessada e totalmente disponível para qualquer solicitação da nossa equipe já passava pelo processo de transformação para a cena do casamento.

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E foi chegando a hora da gravação o diretor já ansioso combinava os últimos detalhes comigo e com os atores. Com o passar do tempo o dia que nos ofereceu um céu claro com sol perfeito já começava a terminar e a luz tão importante para a captação ia acabando. Importante citar a participação dos amigos e familiares como figurantes na cena que no resultado final fizeram com que as imagens tivessem as características que hoje em dia vemos nos principais filmes. Tudo pronto! Equipamentos posicionados, atores ensaiados e equipe a postos Bernardo o diretor dá a ordem: Atenção; gravando; AÇÃO! E acompanha as imagens que eu fazia através de um monitor. O curta que foi planejado para ser finalizado em preto e branco acabava de ganhar cores pois a primeira cena captada e vista através do monitor teve uma força tão grande que foi capaz de mudar todo o planejamento do diretor. A cena se repetiu algumas vezes e foi feita a gravação com a variação de enquadramento até que ||Lili|| a dona da casa, diz que tínhamos mais seis minutos de luz natural para gravar pois a noite já estava chegando e de uma forma impressionante a equipe se uniu e fizemos uma ultima tomada que fez toda a diferença pois ficou bem próxima do que o roteiro pedia. CORTA! Diz o diretor já dando os parabéns para todos presentes pois depois da primeira diária de gravação já estava ciente do potencial do que o curta teria.

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Equipamento usado Câmeras – Blackmagic Pocket Cinema Camera, Canon 70D, Canon T4i As câmeras foram ajustadas para o modo mais FLAT possível para que todas as nuances fossem captadas e pudessem ser trabalhadas na pós produção. Lentes – Sigma 24/70mm 2.8, Sigma 35mm 1.4, Canon 18/200mm 3.5/5.6, Canon FD 28mm 2.8, Canon 40mm 2.8 Iluminação – 2 softbox 200w, 2 LED portátil 300ld, Refletor 1000W Extras – Grua 4metros, gimbal brushless, tripés diversos, sistema para monitoraçãoo de vídeo.

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relatos dos alunos

Clévio Lustoza dos Santos Leão Diana Gonçalves de Souza Taiara da Silva

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CLÉVIO LUSTOZA DOS SANTOS LEÃO Quando vi o cartaz do processo seletivo da Iniciação fiquei logo interessado, eu sempre fui apaixonado por cinema. Para mim, a sétima arte, não pode ser simplesmente rotulada como mais uma forma de entretenimento, mas sim, como uma das formas mais brilhante de representação da realidade. Não muito confiante, fiz minha redação para a seleção, sem saber muito bem como seria a realização dessa iniciação. Acreditava em algo bem pragmático, pelo qual, basearíamos numa compilação de um artigo e, posteriormente, uma possível publicação. Porém, mal eu sabia o que me esperava. Após a aprovação e a primeira reunião, vi que, essa iniciação iria ser uma oportunidade ímpar na minha vida acadêmica. Eu estava participando da gravação de um curta! Oportunidades assim, são raras. Bernardo Gomes Barbosa Nogueira soube agregar, com maestria, num roteiro sublime, uma história de amor pela qual paradigmas são quebrados. Após a gravação do curta mudei muito a minha forma de pensar, as pessoas que são deixadas à margem da sociedade ainda não são respeitadas. A Dignidade da Pessoa Humana, que deveria ser um princípio capaz de orientar os caminhos da existência individual e coletiva, ainda não se efetivou. Conheci pessoas incríveis, batalhadoras, que correram atrás dos seus objetivos, mesmo com todos os empecilhos que a vida nos dá. Enfim, eu só tenho a agradecer. Afinal, Hollywood encontra-se logo ali, no bairro Santa Tereza.

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DIANA GONÇALVES DE SOUZA O processo de construção do curta “Onde o Direito Não Toca” foi excepcional. No primeiro contato ocorrido com o professor Bernardo Nogueira nos fora exposto um mundo de situações que achávamos serem impossíveis de se concretizar e que, ao mesmo tempo, eram sensacionais. Creio que nenhum dos alunos envolvidos esperava que fosse acabar produzindo um filme, tendo em vista a área que cursamos. Totalmente inesperado e instigante. Em um segundo momento ocorreu o contato com o povo que queríamos observar... Éramos calouros assistindo um debate sobre um tema totalmente desconhecido e tão cotidiano: Travestilidade e Transexualidade. Deu-se início ao amor pelo projeto. A vontade de ver algo ser feito por tal comunidade tão marginalizada perante órgãos públicos e pela própria sociedade (incluindo amigos, família, empregadores e até mesmo policiais). O envolvimento com o projeto em si proporcionou situações engrandecedoras, tornando-nos mais humanos a cada contato, debates, artigos e a leitura do grande roteiro. Então nas férias de inverno conversamos e nos posicionamos sobre o que estava para ser feito. O processo de filmagem. Outra experiência fantástica, onde tivemos prosas longas e esclarecedoras sobre todo o contexto vivenciado pelas atrizes – mormente a principal. Papéis que não fogem da realidade. Mas que focam em uma grandeza. Um nascimento. As gravações foram como um nascimento. Finalizamos então a nossa participação nesse trajeto de criação do curta, tendo em mente que o trabalho nunca acaba. Detalhes e temas dificilmente expostos em sala, passados em um ano de Iniciação Científica. Foda! {Provavelmente não poderei usar tal expressão, mas... tentei}.

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TAIARA DA SILVA Participei da construção e produção do curta “Onde o Direito Não Toca”. Minhas tarefas foram as mais diversas, como imaginar o que comporia o cenário de cada cena, planejar qual cena aconteceria primeiro, providenciar todos os objetos que iriam compor cada cena e também era assistente de câmera, quando necessário. Tal experiência me proporcionou um crescimento pessoal grandioso, pois nem em meus mais ousados sonhos poderia imaginar que fosse assessorar em qualquer projeto de filmagem, bem como de conviver com uma parte da sociedade tão excluída e marginalizada, como a das travestis e transexuais.

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“Educação não é um diploma, educação é você acolher o outro, é você aproximar-se do outro, porque todos somos iguais perante a Deus.” Anyky


ONDE O DIREITO NÃO TOCA  

Publicação da Escola de Direito do Centro Universitário Newton Paiva

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