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plural jornal cultural

Número 5 | MARÇO A MAIO de 2014 | BH | MG | ISSN 2319-0000

Podre gente

Gente podre Por Barroso da Costa - Gente podre... Sartre tinha razão! Com essa frase, Ricardo Augusto II começava a subir a ladeira que levava ao cemitério da Boa Morte. De dentro da limousine funerária, olhava com expressão de nojo para as pessoas que, apenas por aquele momento ou rotineiramente, habitavam o cenário de casas humildes, terreiros de umbanda e bocas-de-fumo que circundam o cemitério. Podia ouvir os tambores marcando pontos, o cheiro de flores como o crisântemo já ocupava suas narinas, aumentando ainda mais o desconforto que sentia desde a manhã anterior, quando recebera a notícia da trágica morte de seu pai. Não conseguia imaginar seu pai morto, afinal mitos não morrem. Nunca houve muito contato entre os dois. Na verdade, lembrava-se mais de sua imagem altiva e austera pintada nos quadros espalhados pela casa que de sua imagem viva. Quando era pequeno, ouvia os criados chamando-o de parasita. Até hoje não entende o motivo dessa denominação, não via maiores problemas no fato de se emprestar dinheiro a juros. Desta forma Ricardo Augusto – que mais tarde acrescentou o “Primeiro” ao seu nome – fez fortuna. Dinheiro que possibilitou o casamento com Dora Veiga, fina dama da sociedade, filha mais nova de uma família tradicional à beira da falência, que só aceitou o matrimônio porque precisava do dinheiro do futuro genro para cobrir o rombo provocado pelos devaneios pródigos de Alexandre Veiga, o filho mais velho. Do casamento nasceu Ricardo Augusto II, menino prodígio educado pelos melhores professores da capital, os quais lhe davam aulas particulares na mansão em que morava no meio da Serra dos Ventos, num condomínio fechado em que a menor distância entre vizinhos era de cinco quilômetros. Local cujos habitantes eram, em sua maioria, velhos excêntricos que não prezavam qualquer forma de contato com outras

pessoas. Rico II viu o primeiro ser humano que não fosse seu pai, seus funcionários, criados, professores ou médicos – que não curavam sua asma – aos sete anos de idade, quando apareceu, na região da Serra, um homem de meia-idade, dizendo ser irmão de sua mãe. Porém, não se lembrava do rosto desse homem. Só lembrava que seu pai não quis muita conversa. Dizem que após a morte de Dora, durante o parto de Rico II, Ricardo, o pai, decidiu morrer em vida: construiu a mansão da Serra, se mudando da cidade, abandonando os poucos amigos e familiares que tinha. Aos dezessete anos, Rico II teve de ir para a capital concluir seus estudos. Formou-se em Direito e assumiu os negócios de seu pai, os quais administrava com extrema habilidade. Possuía a frieza necessária para executar devedores inadimplentes. Não se importava com nada que não fossem seus livros ou seus cavalos. Às vezes, fodia alguma prostituta, como se saciasse alguma fome. Dispensou o velório. Afinal, ninguém compareceria. Quando morre um agiota não se chora, a não ser que de alegria. Optou por um enterro sem maiores delongas. Chegou à entrada do cemitério, sendo obrigado a descer do automóvel. O desconforto havia aumentado. Se parecia muito com seu pai, pelo menos com o que retratavam os quadros. Isso criava uma proximidade incômoda. Será que também ficaria louco e se mataria? Meninos jogavam bola na rua. Quando desceu do carro, um deles, o catarrento, pediu um trocado. Ignorou o moleque. Considerava-se em nível superior a qualquer outro ser humano, principalmente aos daquela ralé. Que morram, resmungou, continuando seu caminho, evitando os demais meninos, os vendedores de flores, os guardadores de carro, que gritavam, praticando suas pequenas extorsões, aqui e ali. Nunca pensou muito na morte. Não imagi-

nava que pudesse morrer. Pelo menos até aquele dia. Os pensamentos embaralhavam-se à medida que seu coração acelerava. Afrouxou a gravata. Os coveiros começavam a descer o ataúde, estranhou, teve a impressão de que um deles se assemelhava a seu pai, devia ser o calor, merda de dia quente, disse para si mesmo, nunca havia se sentido confuso, devia ser o calor... O coveiro jogou a última pá de cal, seu rosto era familiar. Saiu apressado do cemitério, suava, estava desesperado, o suor escorria, o calor aumentava... Quanto mais suava, menor se sentia, parecia que suava a própria existência, calor desgraçado, pensou. Avistou os meninos jogando bola, estava em pânico, achou todos os meninos familiares, mas descobriu que não era com seu pai que se pareciam, se pareciam com ele, eram cópias, estava cercado por ele mesmo. Jogavam um futebol de espelhos, sentiu-se roubado, avistou um dos guardadores de carro, também tinha seu rosto, todos eram iguais a ele, continuou correndo, suava, estava encolhendo, pensou e caiu de joelhos... Arrastou-se até o muro do cemitério, os meninos se aproximavam, todos iguais a ele, suas vozes agudas se misturavam aos tambores dos terreiros vizinhos, sentia-se como se, ao invés do cérebro, tivesse uma colmeia no crânio. Estava acuado. Antes de ficar tudo escuro, olhou para o alto e ainda pôde ver o menino catarrento, que também roubara seu rosto, estender-lhe a mão, como quem oferece ajuda. Gente podre, pensou.


editorial

Humano é invenção?

Ah o amor!!!

Peito oco, peito aberto

Por Bernardo G.B. Nogueira

Por Carlos Magalhães

Começaria esse editorial a dizer que este fora o Plural com maior carga existencial. Contudo, antes mesmo de começar a escrever percebi o pleonasmo que acompanharia uma fala assim. Ora, simplesmente a razão plural, e logo, a sem razão, que acompanha e funda o Jornal, necessariamente já são questões existenciais, pois não se trata mais de uma mirada pré-estabelecida racionalmente a que propomos com essas letras. O que impele esse Jornal está além e aquém da ratio moderna. Mas não se trata ao mesmo tempo de anunciar o fim de uma era. Essas falas apocalípticas são herdeiras de um jeito de pensar moderno que precisa e vive em ciclos supostamente em evolução sic. Então, agora em que o pensar se dá de maneira aberta e com mais cheiro, também o existir é tocado por ele. Estamos no mundo quando refletimos acerca dele. Fundamos o tempo ao mirarmos o horizonte. Constituímos humanidade quando amamos. Criamos quando vivemos a pluralidade do outro. Existimos então todas as vezes que colorimos o mundo com nossas emoções e as emoções emprestadas pelo rosto do humano que nos funda. Como disse, seria pleonasmo dizer plural e existencial. Ora, sem o outro que nos cria, ama, odeia, ri e chora, não há mesmo o existir, e sem a diversidade que nos fecunda não há vida! Assim, com esse ato de amor que é o estar no mundo é que dizemos em jeito de pleonasmo, que fora das amarras brota o amor, dentro desse Jornal, vivem letras, uni-las é amar, fazê-las namorar com os olhos do leitor é nossa sina: escrever amor, plural.

expediente JORNAL CULTURAL PLURAL ISSN 2319-0000

Editor: Bernardo G.B Nogueira APOIO TÉCNICO: Núcleo de Publicações Acadêmicas Newton Paiva: Cinthia Mara da Fonseca Pacheco Projeto Gráfico, Editora de Arte e Diagramação: Helô Costa - Registro Profissional: 127/MG

Uns versos antigos do Caetano Veloso dizem assim: “Eu sei que o mundo/ É um fluxo sem leito/ E é só no oco do seu peito que corre um rio”. Gosto desses versos. A mim eles dizem que a realidade e a vida são infinitamente diversificadas, inesgotáveis e caóticas. E é só dentro do peito ou da cabeça que pode existir algum sentido, algum significado. Ou seja, esse fluxo intenso, incontrolável, superabundante de uma realidade externa e infinita só ganha alguma forma, alguma direção, algum significado, enfim, dentro de nós mesmos. Tudo o que vivemos, fazemos, sentimos, pensamos – tudo – é invenção, é construção. Como não estamos sozinhos no mundo, a realidade que se nos apresenta – e que nos atravessa – é feita em nossas interações, em nossa convivência. Trata-se, portanto, de uma construção social, coletiva. A realidade é algo que experimentamos por dentro, mas que nos vem de fora. Um fora que não precisava ser tão estranho, tão inóspito, pois é habitado por outros igualmente humanos. Dá pra falar que somos feitos de cotidiano e história, que vivemos no pequeno e no grande simultaneamente. A partir das nossas pequenas interações diárias, remendamos e tecemos uma grande teia de significados que nos antecede e ultrapassa. Essa grande teia de significados, com o peso da grande história, cai sobre as nossas cabeças. Acabamos nos envolvendo na rede que nós mesmos ajudamos, bem ou mal, a construir. Os significados vindos do exterior passam por dentro de cada um de nós e são urdidos no tear que junta as pequenas interações diárias às grandes estruturas da história até virarem uma enorme trama. Essa trama resulta no cercado em que acabamos por nos encontrar presos. Isso foi e ainda é a vida de muita gente. Parecida com a daqueles animais que já nascem em cativeiro e que não sabem se virar fora do cercado, sem a comida e a água caridosamente oferecidas todos os dias pelos seus donos.

No entanto, vivemos em uma época que nos dá condições para escaparmos do cercado. O emaranhado da rede que nos envolve é mais largo. Não pode nos prender como antes. As diferenças, a diversidade, a variedade nos atingem de todos os lados. Talvez seja esse o motivo de encontrarmos atualmente tantas reações paradoxalmente radicais e fundamentalistas, que procuram suprimir todas as divergências. Quando se deparam com um buraco na cerca, parece que algumas pessoas preferem, em vez de aproveitá-lo para conhecer e aprender com o que existe lá fora, correr de volta pelos caminhos mais escuros, buscando a falsa segurança do fundo do cercado. Fazemos de tudo contra a tentação de passar pelo buraco da cerca. Inventamos nomes, marcamos rigorosamente o tempo como se quiséssemos segurá-lo, criamos personalidades, identidades, rótulos, preconceitos, estigmas. Tudo em nome do autoconvencimento de que somos alguma coisa. De que o mundo é alguma coisa. Fazemos isso com o mundo, com a nossa própria identidade, com o ser. Uma palavrinha perigosa que diz muito e nada ao mesmo tempo: “ser”. O mundo não é nada. Nós não somos nada. Pelo menos não definitivamente. Somos, o mundo e nós, absurdos à espera de um significado. A má notícia é que muitas pessoas não se dão conta disso. Escolhem ficar no cercado esperando que seu dono venha trazer a comida e a água sem gosto de nada. Para aguentar essa vida, tentam matar tudo que é diferente e ameaça as suas concepções pré-ordenadas. A boa notícia que vem do absurdo é que podemos escolher o que queremos ser. Podemos escolher o mundo em que vivemos. Podemos rejeitar os significados que nos têm sido impostos e construir novos significados. E não precisamos esperar pelo futuro. Se quisermos, o futuro já começou. No peito aberto o rio dos sentidos e significados pode ser largo e cheio de variedade.

Contatos, sugestões e anúncios: jornalplural@yahoo.com.br www.torfadvogados.com.br

Os textos são de inteira responsabilidade dos seus autores.

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JORNAL CULTURAL PLURAL | NÚMERO 5 | MARÇO A MAIO DE 2014


Die Rubrik

Que sentimentos o Brasil da Copa desperta em você? Por Thalita Dittmaier Gostaria, inicialmente, de traçar um paralelo entre o nosso simpático tatu, representante da fauna brasileira, e sua relação com o “complexo de brasilidade” (já mencionado aqui por mim). A língua portuguesa, em constante mudança, apresenta bastante produtivo o sufixo – eco na formação de diminutivos, com o sentido de tamanho e de inferioridade (boteco, filmeco, cacareco). Deste modo, eis que batizam nosso tatuzinho de Fuleco, mascote do mundial de 2014, a ser realizado no Brasil. Balbúrdia geral da nação. O nome bizarro não foi escolhido pelos falantes da língua, aqueles que, inconscientemente ou não, conhecem o peso desse sufixosinho travesso. De qualquer maneira, tamanho alvoroço, aliado às nossas carências sociais, serve de ilustração para o sentimento de pequenez sustentado por muitos de nós. Não me oponho ao fato de que nos falta infraestrutura ou segurança, tampouco desdenho da importância do espírito crítico face à realidade brasileira. Insisto, entretanto, em destacar o quanto nos desmerecemos. E, em véspera de Copa, as vaias do time do contra chegam a ser ensurdecedoras. Nosso tatu atravessou o Atlântico e estampou inúmeros jornais europeus com manchetes tratando do suposto significado do seu nome. Na Alemanha, tal “descoberta” (codinome: jornalismo irresponsável) traduziu Fuleco por Arsch (em alemão cortês: “traseiro”). Dizem as más línguas que essa informação teria surgido no Brasil. E, sinceramente, eu não duvido, já que a propaganda anti-Brasil tem como seus principais disseminadores os próprios brasileiros. Circulam nas mídias sociais muitos textos (altamente discutíveis quanto à sua veracidade) envolvendo essa conturbada relação de amor/ódio dos brasileiros no que se refere à apresentação de seu país para os gringos. Enfim, um empenho legítimo na disseminação de opiniões exclusivamente unilaterais. O goro pútrido disfarçado de uma consciência política dispensável. Sem adentrar nos deméritos da máfia intitulada FIFA, muito menos nas nossas falhas político-administrativas, tento compreender essa torcida pelo insucesso. Sim, eu sinto orgulho de esportistas como Ronaldo ou Senna, o que não quer dizer que eu tenha essas pessoas e suas proezas memoráveis no esporte como heroísmo.

Para tanto, opto por personalidades como Tiradentes ou pelas batalhas diárias de brasileiros honestos mundo afora. Porque eu prefiro reconhecer que estamos caminhando, ainda que a passos lentos, em direção a um alcance cada vez maior de um nível razoável de dignidade humana (codinome: saúde, educação, transporte, previdência, justiça social). Nesses cinco séculos de História, será que não avançamos em nada? Vergonha? Eu sinto. Os alemães também. De seu passado repleto de guerras e de seu país dividido pelo Muro. No entanto, carregando a sombra do nazismo, o país soube se organizar e renasceu como uma fênix. Há que se enxergar os erros e os acertos de cada

sociedade. Por razões óbvias, lamento não termos o rigor e a disciplina alemãs, mas me orgulho da espontaneidade e a alegria gratuita como marcas registradas do meu país, sem que isso possa soar como mero saudosismo imigrante. Se nos limitarmos aos crancos da corrupção, com o apego à ideia de estarmos infinitamente condenados à negligência e ao caos, melhor fazermos as malas e tentarmos a vida na Noruega. Creio que temos o péssimo hábito de reclamar daquilo que nos falta, sem olhar para trás e enxergar o que já conquistamos. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. E eu vou torcer sempre pelo meu país, antes, durante e depois da Copa.

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FIloSoFIa e (In)FInItude

Imaginação e ausência Por Jose Carlos Henriques Não se trata de uma teoria da imaginação. Este esforço, já tantas vezes tentado, permanece inacabado e em curso, como tudo o mais em filosofia: um dizer será sempre explicitação, eloqüente manifestação do que ainda restaria por dizer, uma fixação no dito, apesar dos clamores do entorno. Trago apenas um minúsculo tema: o modo próprio como uma ausência provoca e impulsiona o ato imaginativo. Não a ausência absoluta, se existir: um nada, sem tempo e espaço, sem um quê onde firmar-se. Toda ausência é ausência em face de alguma presença. E aqui comparece a imaginação, vigorosa como negatividade, anunciante como criação. Na arte de reconhecer uma ausência, quer-se, em seu lugar, uma presença. Eis porque o ato imaginativo cria a presença que se quer, como possível, ao menos. Possível, em amplo sentido, ainda que apenas na real possibilidade de se pensar o irreal, como competência negativante, que a imaginação, por certo, tem. A ausência reconhecida, então, abre um espaço de sentido e impõe-se a tarefa de que certo vazio se preencha. Por isto, quem sabe, quando o vazio instaurado por uma ausência se reconhece, logo este se negativa. Na ânsia de ver negada uma ausência, a imaginação exercita suas competências, preenchendo os espaços com conteúdos de nossos desejos, com promessas para nossos anseios, com possibilidades, enfim. E, neste caso, é a imaginação que, desconstruindo a ausência, torna presentes tantas possibilidades de nulificação de um vazio que, reconhecido, quer-se vencer. Uma ausência de visão, por exemplo, provoca presenças imaginativas possíveis, mesmo que irreais, de tudo que agora já não se vê mas, ainda que uma vez, já se deixou ver. Toda experiência, que pode ser apenas pensada, é potencial a ser evocado como presença imaginativa. No escuro, quando não vemos, tudo se torna presente, sobretudo nossos medos, objetificados nos mais terrificantes monstros e deformidades oníricas. Ali onde a vista se cala, fala a experiência sem controle, agitada pela potência imaginativa.

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Poderá a imaginação controlar-se, quando o que ela em nós provocou já é real, de direito, sendo completamente irreal, de fato? As representações, inevitáveis interpretações do mundo, se me pertencem e me afetam, são comigo unas, sou inteiro no que sinto e penso. Quando se instala uma ameaça imaginária, de fato, mas real, de direito, tornada presença como evocação de mal, não há subterfúgios, desespera-se. Por isto, foge-se, freneticamente, de um animal feroz que não está presente, a não ser em nossa representação imaginante. Ali, onde não se pode ver, a vista é mais potente, cria-se a possibilidade, nascem os calafrios, recitam-se as preces, o humano acontece, trêmulo, oscilante no mundo, pronto a inserir-se em um mundo só seu, não compartilhado em realidade, produto de seu real e portentoso ato de imaginar. Curioso tematizar, ainda, sobre o controle. Talvez devêssemos iniciar por perguntar: quando não vemos, portanto na ausência de conteúdos identificados, por qual razão nos postamos a pensar o pior, a preencher o vazio com apontamentos ameaçadores? O mesmo parece ocorrer em uma pluralidade de casos. Se alguém não chega, quando deveria, preenchemos este vazio com fartos atos imaginativos e, sofregamente, atordoados pelos receios do pior, tentamos não confirmar nossas expectativas. Tudo, em se tratando do pior, poderá, felizmente, morrer; com a notícia de que aquela vinda esperada se retardou por um motivo banal, um qualquer motivo bem diverso e, a toda prova, melhor do que aqueles que profetizamos como causa. Desculpas, já aqui me assustei quando escrevi “morrer”, mas esta é uma ausência querida. No entanto, nos joga, com imensa força, nos braços da imaginação. E, de novo, nos vemos a descrever uma infindável lista potencial de males. Talvez o maior de todos, o fim. Mas o que há no fim? E para além dele? No mínimo, uma provocação, uma ausência que mantém experiências religiosas milenares. E, como fim, (calma!) deste texto, restaria imaginar o que poderia continuar a ser dito. Diga! Ausenta-se o autor, presentifique-se o leitor. Ponho-me já a imaginar dizeres que eu poderia ouvir.

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verSo e anverSo

o enigma de antero Por Tatiana Ribeiro de Souza - Antero, me vê uma caixa de fósforo, por favor. - Pois não, Firmino. - Tome o dinheiro. - Ih, rapaz, não tem troco não! - Então, depois eu pago você. - Ah, ocê sabe que eu num to vendendo fiado! - Pois fique com o dinheiro! Mas olhe, depois eu quero meu troco. - Também não fico com o que é dos outros. - Então, tome sua caixa de fósforo e muito obrigado, viu! - É? Também não aceito. Cê já riscou o palito! - Então, o que cê quer que eu faço? - E eu é que sei? Quem mandou ocê ser tão folgado? Por que cê riscou o palito antes de pagar?

O que deve fazer Firmino? Como sair da cilada das regras de Antero? O diálogo entre Antero e Firmino, extraído1 do filme brasileiro Narradores de Javé, além de oferecer um vasto campo para a análise do discurso, constitui verdadeira alegoria da inversão, no sentido marxista do termo. A ideia de inversão, em Marx, traduz a arquitetura de uma existência que busca a todo momento compensar no espírito as contradições da realidade. Neste sentido, não são as ideias equivocadas que se materializam em um mundo equivocado, mas, ao contrário, é o mundo equivocado que construímos que produz as ideias equivocadas que perpetuam as contradições da realidade. Em outras palavras, a realidade invertida corrobora com a formação de uma consciência invertida da realidade mesma. O bar de Antero é a vida. Esses lugares por onde transitamos com liberdade e intimidade e nos sentimos pertencentes a eles, possuem, aparentemente, uma ordem que precisa ser mantida, o que é feito por meio de habitus e regras. Para Bourdieu, o habitus corresponde à matriz desenvol-

vida, em cada posição social, condicionando a forma de ver o mundo, o pensamento e a ação2. Em linguagem cinematográfica, a ‘matriz’ de Bourdieu pode ser chamada ‘matrix’, esse mecanismo que faz com que as pessoas vejam como ‘natural’ as representações e as ideias sociais dominantes. Quando nos apropriamos do poder de neutralizar a ‘inversão’ de que nos fala Marx, a ‘matriz’ de que nos fala Bourdieu, ou a ‘matrix’ de que nos fala o cinema, constituímos uma realidade outra, antes ocultada pela posição que ocupávamos diante do objeto ou fato observado. Essa capacidade de mudar o objeto ou o fato a partir da mudança de postura diante dele, chamada por Žižek de ‘visão em paralaxe’, é a única chance de Firmino desvendar o enigma de Antero. Todas as condições objetivas apontam para a irregularidade de Firmino diante de Antero, a despeito das várias tentativas de cumprir sua obrigação. No bar e na vida, não faltam aqueles que, por ironia ou convicção, aplaudem e legitimam as regras que inviabilizam a participação de certos atores no próprio sistema. Assim acontece na sequência da cena acima reproduzida, quando Antônio Biá, personagem de José Dumont, que assistia àquela discussão intervém: “Tá Justo, Antero, muito justo! É por toda essa sapiência que eu lhe tenho muito respeito. Inda volto aqui só pra lhe escrever, na sua sabiografia, que você é um gênio da economia javélica”. A única chance de Firmino superar o imbróglio em que se metera, é desinvertendo a realidade, neutralizando a matriz que o sujeita aos caprichos do empresário, agindo em paralaxe, isto é, mudando a posição assumida diante das exigências de Antero, que aparentemente é seu credor material e moral. Mudemos a posição de Firmino! O crédito de Antero é a realidade invertida. Na lição de Chico Buarque, “é sempre bom lembrar, que um copo vazio está cheio de ar”. Se Antero se coloca como titular do copo cheio de ar, compete a Firmino fazer do ar do copo o vazio do olhar sombrio do dono do bar: - Pois fique sem receber! Onde já se viu, dono de bar não ter troco? 1

Notas Com exceção da fala “Tome o dinheiro”, usada para não interromper o discurso direto, em substituição à imagem do pagamento feito por Firmino. 2 VASCONCELLOS, Maria Drosila. Pierre Bourdieu: A herança sociológica. Educação & Sociedade, ano XXIII, n. 78, Abril/2002.

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Revelações Humanas

A humanidade é seletiva? Por Cândice Lisbôa O infeliz incidente no Rio de Janeiro, onde um adolescente foi espancado e amarrado junto a um poste com uma trava de bicicleta, trouxe à tona uma pergunta contundente: a humanidade é seletiva? Muito se lê sobre direitos humanos, por vieses diferentes e por perspectivas antagônicas: entre a imagem do adolescente acima mencionada e a narrativa de Rachel Sheherazade há todo um abismo, que tem sido preenchido pelas ideologias das classes que tomam para si o poder da palavra, e pretendem, por meio dela, revelar sua “verdade”. Mas, pergunta-se: onde está a verdade? E, diante dela, onde deve se posicionar o Direito? O Ordenamento Jurídico deveria proteger o garoto que se viu privado de sua liberdade ou a classe “de bem” que Rachel aclamou e defendeu? Será que estes dois segmentos não são, na essência, uma realidade só? Direitos humanos são direitos que deveriam ser garantidos a seres humanos, por mais redundante que essa frase possa parecer. Todavia, há um esquecimento proposital (eloquente) sobre esta questão. Assim, ao que tudo indica, as pessoas (humanas) estão deliberando por desconsiderar a obviedade biológica que é ser homo sapiens. É certo que desde o nascimento do Estado Moderno busca-se incessantemente por parâmetros de segurança em relação ao ser humano, como a garantia da integridade de seu corpo, o que obstaria castigos, assim como tratamentos degradantes e cruéis (por exemplo a exposição do corpo nu atado a um poste). Essa segurança iniciou seu processo de consolidação com a subordinação de todos à lei, ou com o conceito de igualdade formal. Mesmo que se ultrapasse a noção de igualdade formal e se adentre pela perspectiva de classe social (e do capital) não há como mensurar a “humanidade”. Quem seria mais humano: o mais abastado ou o mais desprovido? A constituição física do ser humano é simplesmente a mesma, e a concepção de igualdade formal deriva do fato de perten-

cimento à espécie. Posteriormente, houve uma sofisticação no entendimento do conceito de igualdade, abarcando-se nela as vicissitudes e demandas socais, para transformar a formalidade em materialidade, sempre um em sentido de proteção e inclusão. A sociedade, todavia, insiste em considerar o poder, o status e a matéria como elementos de classificação humana, até que, diante de sua insuficiência e problemas sociais correlacionados, se “des-diferenciou” novamente a humanidade, sobrelevando a inclusão, pelo menos no discurso politicamente correto. As desigualdades materiais inegavelmente acarretaram diferenciações sociais, ou seja, na práxis uns “podem” mais que outros. E uns querem colonizar o mundo da vida do outro, usando para tanto argumentações diversificadas (“proteger os homens de bem”, a “classe dominante”, determinado “grupo”, entre outros). Todavia, são ainda fisicamente iguais. E nesse sentido, vale a pena perguntar: por que direitos humanos? E a resposta é singela: porque nem todos têm as condições mínimas para gozarem de uma vida digna, e, exatamente neste momento, surge a obrigação Estatal de possibilitar que se sobreviva com dignidade, o que abarca muitas nuances, todas elas mencionadas de forma explícita ou subliminar na Declaração de Direitos do Homem de 1948. Há também a obrigatoriedade de que entre iguais (membros da sociedade) um mínimo ético seja mantido, o que é resguardado pela horizontalização dos direitos fundamentais, dentro da seara do Direito Constitucional. Direitos humanos não são direitos que servem tão somente para proteger os bandidos, como quer fazer crer a massa indignada, mesmo que este evento possa acontecer esporadicamente (e não invalide a essência da proteção dos direitos humanos). Deve-se lembrar, apenas a título de observação, que uma pessoa só é considerada culpada após sentença condenatória

transitada em julgado, e que esta sentença não garante tratamento humanitário àqueles que cumprem a punição imposta. Ou seja, mais do que nunca os ativistas humanitários devem estar atentos e aptos a agir. Direitos humanos devem ser associados a mecanismos que impossibilitem condenações sumárias, exigindo-se possibilidades reais de defesa, requisito essencial de segurança jurídica. Fundamenta-se a necessidade no fato de que virtualmente todos são passíveis de algum deslize, e se ele ocorrer, o ser humano deve estar protegido pelo Estado (que tem para si o monopólio do uso da força) e do Estado (que deve respeitar o devido processo legal). O episódio no Rio visto do avesso apenas apregoa a fragilidade da sociedade, e chama uma reflexão sobre a responsabilidade social pela condução de uma vida global harmônica. Para surpresa de alguns, essa pacificidade não deriva de um recrudescimento legal, tampouco da ação de justiceiros, ou de política de tolerância zero por parte do Estado. Ela depende de um renascimento da humanidade de todos (sociedade) e de cada um (indivíduo). Se a população merece receber um chamado, não é o feito por Rachel Sheherazade. Ao contrário: a população deve ser incitada a participar, acolher, promover o bem, enxergar o ser humano nos olhos do outro. A segmentação em castas ou classes apenas gera maior opressão, que resulta em mais (e maior) violência. Fazer apologia ao crime, chamando a uma higienização das ruas e da própria sociedade, não é o mecanismo adequado para pacificação, e sim para iniciar uma guerra civil. Nesse sentido, mister relembrar a revolução não violenta feita por Ghandi: “A força não provém da capacidade física. Provém de uma vontade indomável“, que seja ela a de reconhecimento do outro como ser humano, pois só assim o bem comum é realmente coletivo e garante segurança a todos nós.


Tempo e sonhar...

Roupa no varal

Por Tânia Dias Bendita chuva que cai do céu, teto do mundo, chão de Deus. Vento fino levantando poeira. Janelas batendo, Maria correndo. Voa folha, voa formiga, voam as pernas da calça rosa da Margarida, entrelaçam nas pernas da calça xadrez do Ovídio. Quintal. A hera verde musgo enlaça o muro, o calango agarra o chapisco e os galhos. O dia geme, o vento agita, os galhos das árvores retorcem. Bate uma, duas, três portas. Alguém grita: - Feche as janelas. Maria continua correndo. Carrega a cadeira que seca tinta nova amarela no quintal. Retorna com o balde verde grande, arranca as roupas do varal. Caem pregadores que vão um a um se amontoando no chão, escondendo entre as folhas secas, entre a grama e os resíduos do quintal. O cão também corre na esperança de uma meia, ou perna de calça restante, para saborear e cheirar durante a noite. O vento aumenta. Poeira nos olhos. Esfrega, esfrega, arde. - Alguém quer fechar esta porta, por favor... O grito do homem velho vem de dentro do quarto escuro. Maria retorna com o balde verde vazio. Sem três meias que já estão na casa do Krug, o cão; que acha que Maria brinca com ele. Pula, ladra, abana o rabo, as pulgas se agitam e voam, voam. Joana dentro da casa fecha as janelas lentamente, o vento corre em volta dela, Joana arrasta a pouca vontade de um lado para outro.

O vento ligeiro antecede à Joana e bate a aba de outra janela. Joana suspira. O vento amontoa num canto atrás das roupas colhidas no varal, esconde, encolhe e retorna por outra porta. O dia muda, transforma, dança e dentro de Joana voam os pensamentos e estagna uma pequena fração de ar que se acumula nublando o céu do seu peito. Tempo carregado que antecede tempestade. Soubera a poucos dias que engravidara. Semente caída na terra, esquecida, pequena raiz insistente fundindo ao chão de dentro dela. Maria entra na sala: - Vem Joana, me ajuda, ou a chuva chega antes e molha toda a roupa. A recente gestante não preocupa se a roupa se manterá seca ou molhada, se o velho doente estará exposto ao vento, se o dia lá fora se agita ou se acalma, se formigas...quanto a essas, ela nem mesma sabe que continuam existindo. O namorado dissera que a amava acima de tudo e todos. Que um dia se casariam e teriam muitos filhos, que lhe daria uma casa bem linda,com quintal e jardim; e nunca,mas nunca mesmo trabalharia cuidando da casa de mais ninguém. Gravidez comprovada, namorado perdido. Joana sabe que não mais encontrará o seu rastro, e que o filho que carrega não se perderá por nenhum tipo de mal súbito. Já sente a força dentro do ventre, chega a sentir uma pequena alminha que o habita. Joana, só não sabe, que bem mais tarde em um outro dia de vento, a criança, seu filho correrá pelo quintal, recolherá as roupas e a cadeira camaleônica recém pintada de laranja, o pequeno

correrá diante dela e atiçará o velho Krug, que já não gosta de brincadeira. O homem velho, seu patrão, antes rabujento, será o único a apoiar a sua gestação, que o fará sem nenhum comentário ou cobrança, e o menino será simplesmente a alegria dos seus últimos dias. Luz dos seus olhos. O pequeno correrá em direção ao quintal com seu short marrom gritando: Corre mãezinha, antes que a chuva molhe a roupa. E Joana não gostará que a chuva molhe a roupa lavada com tanto zelo, achará bonito o filho recolhê-la, poupando-lhe o trabalho, cuidando dela. E dentro dela nada estará pesado, o dia será leve e calmo, morno e terno. Lembrará da promessa de uma casa com jardim e quintal. Sentará no degrau da porta da cozinha, as roupas já dentro, protegidas da chuva. Esperará a chuva cair do céu, teto do mundo, chão de Deus. Entenderá que a vida tem uma forma avessa de costurar o tempo. O filho sentará em seu colo. - Mãezinha, a chuva demora? - Não filhinho, nada demora, nem mesmo a chuva, tudo tem seu tempo. A mãe beijará o rosto do filho: - Um beijo e um pedaço de queijo. - Cadê o queijo mãezinha? Joana sorrirá e abraçará o filho, broto verde do mundo, planta viçosa, perfeita, central de um jardim. E os dias continuarão feitos de vento, formigas voando, cadeiras que mudam de cor, pessoas indo, filhos vindo, gente mudando e roupas secando no varal.

Uma saída?

APAC: a alternativa humana e eficaz para a recuperação e reintegração social do preso Por Angela Albuquerque A Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC) é uma entidade civil de direito privado, com personalidade jurídica própria, dedicada à recuperação e reintegração social dos condenados a penas privativas de liberdade, cujo trabalho baseia-se em método de valorização humana vinculada à evangelização. A Associação é amparada pela Constituição Federal para atuar nos presídios e opera como entidade auxiliar dos Poderes Judiciário e Executivo, respectivamente na execução penal e na administração do cumprimento das penas nos regimes fechado, semi-aberto e aberto. A APAC estabelece

parcerias com entidades públicas e privadas para o desenvolvimento de suas ações. O objetivo da APAC é promover a humanização das prisões, sem perder de vista a finalidade punitiva da pena. Seu propósito é evitar a reincidência no crime e oferecer alternativas para o condenado se recuperar. A APAC distingue-se do sistema carcerário comum sob vários aspectos, especialmente na co-responsabilidade do preso em sua recuperação e nas assistências espiritual, médica, psicológica, educacional e jurídica prestadas a ele pela comunidade. O método socializador empregado pela APAC tem alcançado grande repercussão no Brasil e no exterior, pois o índice de recupe-

ração dos condenados fica em torno de 90%. Na APAC a disciplina é rígida, baseada no respeito, ordem, trabalho e envolvimento da família do sentenciado. A metodologia da APAC é sustentada pelos seguintes pilares: promover a justiça, socorrer a vítima e proteger a sociedade. Hoje são aproximadamente 100 APACs juridicamente organizadas em todo o território nacional. Outras foram implantadas em vários países, como Alemanha, Bulgária, Chile, Cingapura, Costa Rica, Estados Unidos, Inglaterra, Novas Zelândia e Noruega. Tem-se a assistência à família do recuperando como uma das formas de manter vivos os elos afetivos, reacendendo o ânimo do condenado para se recuperar.

JORNAL CULTURAL PLURAL | NÚMERO 5 | MARÇO A MAIO DE 2014

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“Peluquerías” plurais

Cabelo ruim Por José Luiz Quadros de Magalhães Para o quê um cabelo é bom? Toda vez que ouço esta expressão me faço esta pergunta: para o quê o cabelo é bom ou ruim? Acho que deve ser para pentear. Mas e se a pessoa não gosta de pentear o cabelo? Eu, por exemplo, não gosto de pentear e mantenho mensalmente meu cabelo com, no máximo, três centímetros de tamanho. Logo o cabelo ruim para mim é o cabelo bom para quem gosta de pentear. O cabelo bom então seria aquele que não precisa pentear. Ora, mas pentear para que? Porque o cabelo deve ser condicionado a permanecer com todos os seus fios na mesma direção. Poderíamos democratizar o cabelo e deixar que os fios fossem para o onde quisessem. O cabelo pode virar arte. O problema do cabelo arte é a submissão dos fios (individualmente e coletivamente) à vontade do artista (a submissão do dono (?) do cabelo também é radical: alguns nem mexem a cabeça). Ora, a estética pode ser extremamente autoritária. Teríamos assim o totalitarismo imposto aos fios de cabelo. Cada grupo de cabelo teria sua função pré-determinada e não poderia fazer outra coisa. Sair da formação implica em severa punição. O fio ou grupo de cabelo que não obedece ao artista pode ser excluído para sempre. Pode ser cortado! Esta intervenção valorativa da cultu-

ra sobre os fios e grupos de cabelos tem a finalidade de obrigar os cabelos (fios e grupos) a funções para as quais eles não nasceram para fazer. A cultura e o poder, assim, agem sobre os cabelos (fios e grupos) para submetê-los à vontade autoritária e preconceituosa da cultura, para obrigá-los a se comportarem e se posicionarem de tal forma que ajudem no processo de dominação hegemônica. Assim, o poder obrigará o dono do cabelo (mas o cabelo tem dono? O cabelo é escravo?) a enquadrar o seu cabelo. Ora, se o cabelo se torna escravo do dono o dono também é escravo do cabelo, principalmente quando ele é obrigado a negá-lo diariamente. Por exemplo: o dono (a dona) estica o cabelo diariamente, ou faz uma escova progressiva que deve ser renovada a cada três meses. De outra forma, os (as) donas (donos) de cabelos esticados, anelam os seus cabelos com certa freqüência (optei pelo português antigo só pra contrariar, pois querem me escravizar dizendo como devo falar e escrever: a quem pertence o idioma que falamos?). Eu não sou cabelo. Existem aqueles que fogem dos seus respectivos cabelos e raspam a cabeça para não se enquadrarem em determinado grupo que rejeitam. Estes já sofrem toda a força do poder hegemônico e se negam diariamente. Outros deixam o cabelo do rosto crescer; outras não podem deixar o cabelo do ros-

to crescer; outras(os) têm cabelos bonitos; outros(as) têm cabelos feios (quem diz o que é feio e bonito?); outras(os) têm cabelos compridos; outros não podem ter cabelos compridos e muito menos despenteados; alguns despenteiam cuidadosamente o cabelo para causar a impressão de que seus cabelos são livres: talvez estes cabelos sejam os mais escravizados. O problema disto tudo, é que o cabelo passa a ser usado como mecanismo de poder, de estranhamento, de controle, repressão, como mecanismo de exercício de hegemonia. Quando os cabelos finalmente se rebelarão? Ora, a tarefa é difícil uma vez que muitos cabelos se encontram drogados por química pesada o que condiciona a sua ação e elimina a sua rebeldia: o shampoo (será que posso escrever shampoo – xampú – champú – champô - schampuuuuu). Ora, é xampu[1] diz quem pode, e sem acento. Dicionário Aurelius locuta, causa finita. E abaixo ou viva a autoridade de quem a tem. Um bom filme para assistir: Hair. 1 Xampu: [Do hind. Chhamna, ‘amassar’, ‘apertar’, pelo ingl. Shampoo.] S.m. Substância saponácea, em geral liquida, usada para a lavagem dos cabelos e couro cabeludo. [Var. gráfica (lus.): champô.] Mas só em Portugal! (observação do autor). Encontrado no Novo Dicionário Aurélio da língua portuguesa, terceira edição revista e atualizada, editora Positivo, Curitiba, 2004.

Nada, por enquanto! - Gustavo? - Marcelo! - Oi! - Oi! - É... - Então? - Eu preciso te pedir desculpas. - Eu preciso ir ao banheiro. - Podemos conversar um pouco? - Falta um tanto para a próxima sessão. Podemos. - Te espero no balcão. - Não demoro. - O que deseja? - Espero um amigo. Logo peço. - Sim. É só chamar meu nome. Kika. - Obrigado, Kika. - Com licença. - A vontade. - Nunca deixam papel toalha no banheiro.

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- Nas primeiras sessões ainda é possível encontrar. - Eu nunca chego para as primeiras sessões. - Nem eu. Embora hoje já tenha visto um filme. - E qual foi? - A Lei do Desejo. - Queria ter visto. - Você também veio para a mostra Almodóvar? - Sim. - E verá o que agora? - Abraços Partidos. - Também. - Sessão das dezoito? - Sessão das dezoito. - Você vê comigo? - Você me perdoa? - A gente podia, antes, tomar uma cerveja, o que acha?

- Ótimo. Kika! - Pois não! - Quais cervejas você tem? - Heineken, Backer, Stela Artois e Brahma Extra. - Qual você prefere? - Gosto de Brahma. - Ok! Kika, duas Brahmas, por favor! - Um instante! - Então... - Você estava fora do país, como foi? - Foi bom, precisava deste tempo. - Um ano! - Um ano. - Ainda está chateado comigo? - Aqui estão as cervejas? - Obrigado! - Obrigado! - Mais alguma coisa? - Nada, por enquanto. - Qualquer coisa é só chamar.

JORNAL CULTURAL PLURAL | NÚMERO 5 | MARÇO A MAIO DE 2014

- Ok! - Com licença! - Pensei que não voltaria. - Foi só uma viagem. - Enquanto você ficou fora muita coisa aconteceu. - Imagino. Mas, ainda está em tempo de por as coisas no lugar. - A Fernanda lançou disco novo. - Tô sabendo. Comprei o meu assim que cheguei. - Eu assisti o lançamento aqui em BH. - Tem show mês que vem no Palladiun. Já tô por dentro. - Não estava sabendo. - Quer ir comigo? - É um convite? - É! - Então, você não está mais chateado? - Vamos. O filme já vai começar. Carlos Renatto


Jornal Plural N.5 | 2014