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Carlos Maltz, ex-Engenheiros do Hawaii, é um astrólogo de sucesso em Brasília >por

cristiano bastos

fotos ana volpe

nevitavelmente, ele sempre é comparado ao personagem criado pelo escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo, O Analista de Bagé, conhecido por seus métodos psicanalíticos pouco ortodoxos, como a terapia do “joelhaço”. Mas Carlos Maltz está mais é para “filósofo pop”. O ex-baterista e um dos fundadores da popular banda Engenheiros do Hawaii (junto com Marcelo Pitz e Humberto Gessinger) agora atende em um confortável consultório em Brasília. Sua especialidade? Astrologia e psicologia. Maltz ficou na banda de 1985 a 1996, quando integrou a clássica formação conhecida pela sigla Gessinger, Licks&Maltz. Farto do show business brasileiro, o judeu Carlos Maltz descobriu seu caminho ao se “converter” astrólogo, sua atual profissão de fé. Em 1999, largou tudo e veio morar em Brasília com Ana, sua atual mulher, com quem tem três filhas: Marianna, Rosana e Larissa. Em sua filosofia pop, Maltz, que também é psicólogo, afirma “beber em fontes junguianas, comer em mesas hollywoodianas e dormir em redes tropicalistas. "Remixo R.E.M. com Jackson Pollock, Nietzsche com Zé Ramalho e sampleio as vanguardas artísticas, mas sem perder o trocadilho”, diz. Maltz, que nunca largou de vez as baquetas, diz que tudo ficou “alinhado” quando conheceu Brasília. Foi visitar um amigo que se mudara para a Capital Federal e aí... “Numa daquelas noites, sob o céu estrelado do Planalto Central, compreendi que mais uma etapa de minha vida havia chegado ao fim.” E do dia, ou melhor, da noite, ele se lembra bem: foi em 11 de agosto de 1999. "Dia do grande eclipse que marcou o início do período das transformações mais radicais a que nosso planeta assistiu.” 30

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Na cidade, abriu um consultório de astrologia e passou a dedicarse exclusivamente ao novo ofício. No Centro-Oeste também montou sua nova banda, Irmandade Interplanetária, com a qual gravou dois álbuns que – francamente – não deram em nada. Neste ano, Carlos Maltz lançou o primeiro livro: Abilolado Mundo Novo (editora Via Lettera). Sem papas na língua – até porque “o pop não poupa ninguém”, conforme diz a música dos Engenheiros –, Carlos Maltz, um portoalegrense nascido às 18 horas de 24 de outubro de 1962, sob o signo de Escorpião, conversou com a revista ParkShopping em seu agradável consultório, no final da Asa Norte. O eterno engenheiro do Hawaii, hoje “das estrelas”, falou sobre a ex-banda, Brasília, Brasil, Era de Aquário, de “sincronicidade”, palavra-chave que o levou, sem escalas, do The Police aos astros.


Carlos Maltz, o moreno cabeludo que tocava bateria no grupo, agora faz mapa-astral para sua fiel clientela do Planalto Central

O destino traçou o futuro (de sucesso) dos Engenheiros muito cedo, você não acha? Carlos Maltz – Os Engenheiros surgiram num tempo em que as coisas estavam acontecendo rápido na música brasileira. Para ter ideia, ganhamos Disco de Ouro com Longe Demais das Capitais, nosso primeiro álbum, de 1985. Na época, nem o Caetano Veloso tinha recebido um ainda. Por volta de 1990 éramos uma das maiores bandas do Brasil, ao lado de Legião Urbana, Titãs e Paralamas. Época em que os Titãs estavam inteiros e tocavam no rádio praticamente o tempo todo. Paralamas e Legião também. O rock nacional estava em alta, e nosso apogeu foi muito rápido. Começamos a banda em 1985 e um ano depois veio o Disco de Ouro. Tudo começou de forma “estranha”. Juntamos a banda apenas para fazer um show na faculdade de arquitetura, em Porto Alegre. Era janeiro de 1985. Estreamos no mesmo dia em que começou a primeira edição do Rock In Rio, no Rio de Janeiro. A gente não tinha a menor pretensão. Coincidência “astrológica”? Carlos Maltz – Exatamente. A Legião tinha acabado de estourar nas rádios brasileiras. Então, por volta de junho daquele ano de 1985, os caras das gravadoras estavam atrás de bandas fora do eixo Rio-São Paulo. Queriam encontrar bandas fora e, então, buscaram em Porto Alegre e Brasília. Na época teve o festival Rock Universitário, em

Porto Alegre. Os Engenheiros do Hawaii tinham estourado na cidade com a música “Sopa de Letrinha”. Nos deram, então, a décima vaga nesse festival, para o qual veio um olheiro da RCA, que lançou o antológico pau de sebo Rock Grande do Sul. Dessas dez bandas do festival, o olheiro escolheu cinco: nós, Garotos da Rua, TNT, DeFalla e Os Replicantes. Para nós deu certo. Estouramos as duas músicas, “Sopa de Letrinha” e “Segurança” no Rio Grande do Sul, embora a aposta da gravadora, na verdade, fosse em Os Replicantes. Inclusive tem rodado na TV um comercial de automóvel com “Segurança”. Você recebe direitos autorais? Eu, não! (risos) Mas o Humberto (Gessinger), que é autor da música, sim. E como foi sua virada pessoal? Carlos Maltz – Lá por 1993, comecei a ficar de saco cheio daquela história. Vira rotina. Os artistas do Rio Grande do Sul que até então tinham feito sucesso eram só Teixeirinha e Elis Regina. De uma hora para outra viramos pop stars. Ainda na banda, nessa época, comecei a estudar a obra de Carl Jung, por causa do disco do The Police, Sincronicity. Eu queria saber por que diabos, na capa do disco, Sting estava segurando um livro do Jung (Carl Gustav, analista)... Comecei a ler e me interessar pela teoria da sincronicidade, a obra de Jung, um livro fininho, que tem um estudo sobre “coincidências significativas e aleatórias em mapas astrológicos de casais”. Um pensamento muito além da psicologia de sua época. Foi assim que comecei: para entender o ser humano em sua complexidade não se pode ter preconceito. Jung aplicava o empírico a qualquer fenômeno que observava. Na realidade, sempre tive um histórico de ligação com astrologia. Mas antes eu negava. Brigava contra. Sou de família judia.


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Judeu astrólogo... Carlos Maltz – Em 1981 fui para Israel. Eu tinha uma namorada que foi para lá e fui atrás dela. Um dia fomos visitar a ruína de um templo. Chegando lá, imaginei que fosse encontrar apenas colunas, escombros. Do templo em ruínas sobrara apenas o piso. Um homem lavava o piso e, de repente, apareceu uma mandala astrológica ao lado de símbolos sagrados do judaísmo. Justamente o símbolo que saía impresso na coluna da astróloga Zora Yonara, que na época era publicada no jornal Zero Hora. Quando vi esse símbolo astrológico de quase 4.000 anos, fiquei “zureta”. Fiquei fora do ar um mês, atordoado. Nem imaginava que pudesse haver a ligação da astrologia com o sagrado. E me interessei muito, mas só depois comecei e estudar o assunto. Foi por meio da conexão com a sincronicidade, de Jung e o The Police. Nesse caso, além dos astros, foi o pop que tramou para cima de você... Carlos Maltz – Sim, me abriu a porta. Muita gente começou a estudar assuntos sérios por causa de certas situações. É bom lembrar que a música pop feita nos anos 1960, 70 e 80 não era igual à de hoje em dia. Existia algo extremamente metafísico. Até hoje a canção do Sting, “Sincronicity”, me soa muito misteriosa. Desde George Harrison e a ponte que fez com a Índia, o pop inglês tem essa conexão “mística”. Esse misticismo foi o que sempre me atraiu no pop. Mas também foi o pop que separou os Engenheiros? Carlos Maltz – De certa forma, sim. Eu tinha escrito Marcelo Pitz , Humberto Gessinger e Carlos Maltz, da primeira formação

Humberto e Carlos com o guitarrista Augustinho Licks 32

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uma música que falava sobre sincronicidade, destinos cruzados. A briga entre mim e Gessinger, em 1995 – e pouca gente sabe –, aconteceu por causa disso. Fiz uma música chamada “Castelo dos Destinos Cruzados”, que entre outros temas fala de reencarnação. O Humberto se recusou a gravar a música e a cantá-la. Foi o pomo da discórdia. Resolvi que, se fosse assim, eu não tocaria mais as canções dele. Nossa briga não foi por causa de dinheiro, mulher ou vaidade de egos. Os motivos foram ideológicos. O que aconteceu depois? Carlos Maltz – Por volta de 1997 eu estava duro. O casamento tinha acabado também. Não tinha vontade de tocar com outras pessoas. O que, de verdade, eu tinha era a astrologia, que usei para estudar a mim mesmo, meu “eu”. Eu era um mistério para mim. Foi sua iniciação. Carlos Maltz – Isso me levou a conhecer os caras da Escola Inglesa de Astrologia Psicológica, todos junguianos. Fui aprendendo a fazer sozinho. Primeiro fazendo mapas astrológicos de amigos. Tive aulas com o grande Antonio Carlos Arres. Comecei a cobrar e a me profissionalizar. Em 1998 conheci a Ana, com quem estou casado até hoje, ambos saídos de um relacionamento que não havia dado certo. Nos conhecemos, fomos morar no Rio de Janeiro. Porém, estávamos em busca de alguma coisa nova que pudesse fazer sentido para os dois. Em 1999 viemos visitar uma pessoa aqui, em Brasília, numa chácara perto do Vale do Amanhecer. Era uma noite de maio, céu limpo e estrelado do Planalto Central. Naquela noite olhei para o céu e disse a mim mesmo: “Vou vir morar aqui”. Falei: “Ana, vamos morar aqui?” E ela: “Vamos”. Simples assim. Qual é a localização astrológica de Brasília? Carlos Maltz – Brasília, localizada no Planalto Central, tem sua história ligada à chamada “Nova Era”, a Era de Aquário. Por sinal, é o signo ascendente da cidade, que marca a data em que foi fundada. Brasília tem Sol em Touro e o ascendente em Aquário. Tudo aqui é voltado para o futuro. A própria arquitetura de Brasília é a


Divulgação 30/05/2007 Maltz em participação especial na gravação do disco Novos Horizontes, com Humberto Gessinger

“Acrópole do Futuro”. É uma cidade que nasceu olhando para dentro, por intermédio do olhar futurista de Oscar Niemeyer. Antes, ainda, existia a “profecia de Dom Bosco”, que a anunciava como cidade destinada a ser a capital desta nova era que está começando. Brasília tem essa aura mística. É só andar pelas avenidas L2s que se veem templos budistas, espiritismo, igreja católica. São embaixadas políticas e espirituais também. Brasília tem a vocação de ser a capital dessa nova era que ainda não chegou, mas traz o paradigma do amor e do perdão. Nessa Era de Aquário, que começa agora, o Brasil tem importância fundamental no mundo por causa de seu desenvolvimento espiritual, o maior do planeta, e também por causa da miscigenação racial. Começa a formar-se uma nova civilização com novos valores que nunca se vai encontrar em outra parte do planeta. Brasília é a capital dessa nova era. E o Brasil? Carlos Maltz – O Brasil é um país que tem 500 anos; não está consolidado ainda. Na Inglaterra, Alemanha ou França, aos 500 anos de idade, o “pau tava comendo”. Numa nova civilização que está nascendo com ela, vem uma série de problemas de juventude. Ao mesmo tempo que existem coisas hiperdesenvolvidas no Brasil, como é o caso da espiritualidade, a exemplo de Chico Xavier, ainda se tem muita imaturidade política, por outro lado: essa coisa de se dar bem pessoalmente. Ainda reina a mentalidade extrativista. Para se dar bem é preciso sugar

tudo quanto pode e, depois, ir morar em Paris. Essas pessoas não percebem, no entanto, que o eixo mudou para cá. Os velhos continentes deram o que tinham para dar. Isso reflete na música. A capa do meu livro é justamente isso: a terra de cabeça para baixo e a América do Sul em cima. O “novo” sobre a Terra está em países como Índia, China e Brasil. Na Era de Aquário tudo é lindo e maravilhoso, como supunham os hippies? Carlos Maltz – Eu não acho. A gente não vai mudar da noite para o dia. Não é assim que acontece, na realidade. A humanidade, como diz a música do Lulu (Santos), “caminha em passos de formiga e sem vontade ”. Ainda é preciso muita transformação dentro das pessoas. Meu livro fala sobre isso. Os valores da era passada não valem mais. Hoje estamos vivendo um grande vazio de mitos, significados e sentidos. As pessoas fazem o que lhes dá na telha e acham que isso é liberdade. É libertinagem. As coisas não mudaram muito. “Nós ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.” Estamos mais perdidos que barata tonta. Não temos mais referências universais como existiam na Idade Média. A Organização Mundial da Saúde avisou que, segundo seus cálculos, daqui a dez anos, aproximadamente, 35% da população da Terra estará doente. Diagnóstico: depressão. O cara não sai da cama nem para trabalhar. Outros 15% sofrerão formas severas de adição, seja por compras, comida, sexo ou drogas. Isso é a metade da população da Terra. Na minha visão não se trata de um problema de saúde, mas da quebra de um grande paradigma. As pessoas querem tapar o buraco da alma com coisas que não saciam nunca. É a crise que estamos vivendo. Site: www.carlosmaltz.com.br par k s h o p p i n g

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O Engheiro das Estrelas  

Entrevista com astrólogo e ex-baterista do Engenheiros do Hawaii Carlos Maltz