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plástico bolha

@ O P l a s t i c o B o l h a | j o r n a l p l a s t i c o b o l h a . b l o g s p o t . c o m | w w w. j o r n a l p l a s t i c o b o l h a . c o m . b r

Distribuição Gratuita

Ano 8 - Número 34

é involuntário

2113 um dia eu sei farão estátuas peroladas de nós dois assim artistas tão claramente escuros no centro ardido das multidões estreitas e seremos mais eficazes que todas as placas e mais abertos que todas as avenidas porém entre os corpos muitos somente nos amarão os pombos que nunca descobriram bem onde se depositar entre um voo e outro. Maíra F.

www.angeloabu.com.br

DESTAQUES

Nossos leitores-colaboradores entram na onda das manifestações no DESAFIO POÉTICO Miriam Sutter e os sempiternos adágios na coluna ORÁCULO Alice Sant’anna e Marilia Garcia na coluna DOBRADINHAS Mauro Ferreira analisa disco baseado no grande sertão na coluna NOTAS DO PLÁSTICO Entrevista com Ricardo Sternberg por Camila Justino Salazar Tradução exclusiva de poema por Paulo Henriques Britto Textos de João Paulo Cuenca, Chacal, Ana Paula Kiffer, Maria de Lourdes Souza, Breno César de Oliveira Góes e Thiago Picchi Poemas de Lu Menezes, Maria de Andrade, Éber Inácio, Greco Blue, Ricardo Sternberg, André Capilé, Flávio Morgado, Anelise Freitas Marina V. Medeiros, Eduardo Lacerda, Eduardo Leão Teixeira Quentel, Rafael Magalhães, Carlos Pittella-Leite e Leinimar Pires


BOLHETIM Antologia de Poesia

Cada vez mais lindo...

Está a caminho mais um livro do Plástico Bolha. Junto com a OrganoGrama Livros, estamos em pleno processo de produção da Antologia de Poesia Plástico Bolha, seguindo os passos da Antologia de Prosa Plástico Bolha (Oito e Meio, 2010). Prevista para 2014, esta edição trará mais de 70 poetas que já figuraram nas páginas do jornal, trazendo o que aqui já passou de melhor. Aguardem...

PZ no PB Nesta edição temos a estreia de nosso mais novo ilustrador, Pedro Zylber, com seus belos traços nas páginas do jornal. Pedro já participou de diversos eventos junto com o Plástico Bolha, como a Feira de Publicações do Comuna e o Labirinto Poético; agora, entra em cena ilustrando os poemas de Lu Menezes e de Ricardo Sternberg (nas páginas 3 e 16). Conheça mais sobre o artista no site: www.pedrozylber.com Heinz Langer

Estouro no Centro-Oeste O Plástico Bolha nunca se foi, mas está de volta! Com o brilho das almas de nossos colaboradores, como um tríptico relâmpago, eles passarão, sem medo dos urubus que caçam os passarinhos! Não tinha lógica trazer um pé, mas é tempo de manifestações, de amor, de roça e Rua Augusta, por isso trouxemos um búfalo para estreitar a relação entre o Brasil e o Canadá. Delicie-se com o contemporâneo nas páginas do Plástico Bolha!

EDIçÃo Lucas Viriato Conselho Editorial Isabella Pacheco | Marilena Moraes | Tomé Lavigne DIAGRAMAÇão Mariana Castro Dias Revisão Isabella Pacheco | Marilena Moraes Equipe Mariana Salim | Luisa Noronha webdesign Henrique Silveira Edição dedicada à chegada de Bento Justino Salazar Edição de novembro de 2013

DISTRIBUIÇÃO Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo, Bahia, Piauí, Distrito Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. TIRAGEM 13.000 | IMPRESSO na ZM Notícias

Envie seus textos através do nosso site. ANUNCIE NO PLÁSTICO BOLHA contato@jornalplasticobolha.com.br

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desconcentre a mídia crie seu jornal

O jornal Plástico Bolha, já distribuído há algum tempo em Brasília, agora pode ser encontrado também nas cidades de Cuiabá, Rondonópolis, Campo Grande e Goiânia. Temos o maior prazer em estabelecer essa ponte com os poetas da região e estamos de páginas abertas para receber seus textos. Participem!

Colabore com o Plástico Bolha Você pode nos ajudar a montar a próxima edição do Plástico Bolha! Basta entrar em nosso site e fazer uma contribuição de qualquer valor através do PagSeguro. Mesmo a menor das doações é muito importante para arcarmos com os custos da edição e distribuição do jornal impresso e a manutenção de nossas plataformas virtuais. Contamos com a colaboração de todos para construirmos um mundo com mais literatura!


Brilho de almas Alma, obsoleta medida demográfica vigente nas povoações brasileiras de outrora... hoje sobrevivente quando anoitece, quando se acendem as lâmpadas das casas e reanimam-se as cidadezinhas repovoadas de almas que luzem ao longe — ao largo da estrada. Não luzem na mondrianesca quadriculescência da urbe, no boogie-woogie noturno tão belo da urbe ou em qualquer refulgente favela nela incrustada. Gente demais apaga a lâmpada da alma — ela ao redor requer vazio que reacenda a sua aura — elétrica na era da reprodutibilidade eletrônica. Chama para a qual é clara condição a solidão chama-se alma. Lu Menezes

Pedro Zylber

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TRÍPTICO II. AMANHECER Ou semiose chinesa para Ezra Pound sorrir

III. MEIO-DIA

Abre a tua cara, ri, naufraga Na sepultura desta noite. Deixa que a música te açoite, Engole o arpão da madrugada,

Não sei pra que serve o ego, esta di-visão, quimera de-marcar “era” & “não era”, ego ainda quando nego...

Tal como Shakespeare cantou Southampton. Não. Como Neruda quebrou as rimas. Não. Como Pessoa quebrou o ego? Não! Nem Petrarca nem Camões. Já chega!

Chupa a estalactite, o chicote Frio do ar, música gelada, O Blues que o som do trem apaga... Dança, antes que a razão te afoite.

Que tal ver a forma inteira, que o partido aparta, cego? Sigo a ponte ao meio e rego signos para a sementeira

Quero um soneto de verdade, vivo, que rime como um furacão demente, que fale como o céu cuspindo gelo; na primavera rime de repente,

Pé ante pé, desce os degraus Desta estação velha — Bauhaus — Tanto barata quanto rara,

de acordar acordos. Rogo, pois a forma FLOR aFLORa demonstrando a estrada, agora...

cantando um sapo bobo de haikai e termine faltando um quarteto

De graça... vida de palhaço; Contorce em macarrão teu aço: — Naufraga, ri, abre a tua cara.

Pura analogia. Logo, quem já for treinado em fogo lerá em vez de Aurora.

I. NOITE Ou blues para Peim

Ou dissoneto de Rogério “Caos”

— ou não termine nunca, como o céu e te arrebente de azul e te arrebente de azul e te arrebente de azul Carlos Pittella-Leite

Escarro Primaveral

Soneto de quebra

Os tigres cinzentos voadores e os cachorros bípedes uivam silenciosas salivas de chuva.

às vezes como se fosse outras vezes quase perto os troços que a vida trouxe os truques a céu aberto

Os relógios derretidos de Dali congelam a minha bílis e a mão-formigueiro de Buñuel.

lugar estranho lado a lado nossas mãos colidem querendo se encontrar, mas o mundo é vasto e não imaginamos que a morte possa vir agora

Ah! Giz de cera reluzente do arco-íris no Cerrado. Quimeras, sapos amarelos, Unicórnios aquáticos e guitarras aladas Assistem ao espetáculo da morte à vida. Rodrigo Fernandes Ferreira Brito

Anelise Freitas

os traços em movimento na tela depois do almoço e um soneto sonolento fabricado osso a osso passo a passo peça a peça os pés após a cabeça os braços saem dos ombros as pernas saem das coxas em ondas heterodoxas quebrando em versos de escombros Luiz Henrique

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Relâmpagos tava tão vivo mas tão vivo que me lancei via satélite

cair de um prédio de 40 andares não amarrota um paletó

é pela lua que a terra fica nua

e: um elogio que não exist a bem nossa! Como você xeroc

na hora que o assu nto tava pegando fogo você me diz que é sequestro

o peixe no aquário fora que inventou o lado de

a felicidade é uma lata a ser aberta com os dentes

relâmpago

é o cumulo perder o n˚ do seu túmulo

na falta de assunto puxe uma pistola

foto na iden tidade merece perd ão

vozes irritantes merecem um workshop com as

emplo o melhor do ex ão é sua abreviaç

baleias

ex.

bota mais forro neste caixão que ela morreu de minissaia mundo não

tos quilos perdi não sei quan co pergunte ao carras gagueja

re

cobra não tem sovaco pra medir feb

goiaba que nunca foi ve rde já nasceu com vida dent ro voltei a fum ar só pra ser pro ibido

a água é profunda

não me venha esfregar esse bife na cara e dizer que isso é performance que eu sei da sua macumba

o aviãozinho só é um av iãozinho por estar longe

tu não chia nem cu spindo no ferro de passar roupa

a pena de voar a galinha tem tant mas tanta pena que cisca letrinha miúda não enga

na piolho

vido

eu ou senhor, entro do s d a h in lc a tem uma c nha

para não ser bobi

entre roer as unhas ou se jogar prefira uma coxinha e um gu

araná

o papa me comeu e fui presa

nco toda vez que entro no ba faço cara de mocinho

toda vez que passo por um policial cismo que eu é que sou o bandido

nte esquisita o mundo é cheio de ge querendo a mesma coisa

o céu sou eu duas

vezes

mesmo não tendo é prudente inventar segredos

agora não adianta justo agora você fa lar mal da sua operadora telefônica

eu disse eu te amo o dos trovões justo na hora do estrond

Eber Inácio

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Sorria Naquela manhã andava tudo em alvoroço dentro dele. Acordara com um sussurro que o fizera gritar de medo, “Libertas Quæ Sera Tamen”. Julgou ter flagrado um rabicho do eco, que rapidamente desapareceu numa fissura da parede do quarto como se fosse uma lagartixa. Apesar de ter ouvido, nitidamente, “Libertas Quæ Sera Tamen”, desconfiou que seu inconsciente tivesse algum problema de dicção e adaptou a frase ao que lhe pareceu fazer sentido: “Liberta que serás também”. Tinha que fazer algo a respeito. Afinal, não era todo dia que ouvia vozes. Na verdade, ouvia vozes o tempo todo: a televisão loquaz, as pessoas no ônibus, a buzina histérica dos carros na rua, e a irmã; única sobrevivente da família, que ele visitava duas vezes por semana no hospital (segundo o médico, ela não resistiria por mais um mês à doença implacável, uma orquídea irremovível de tumores que se instaurara em seu organismo e que se alimentava de vida). Mas uma voz de dentro, assim, tête-à-tête consigo mesmo, cheia de sonoridade e convicção foi a primeira vez que ele ouviu: “Liberta que serás também”. Como nunca soube o que fazer da própria vida, resolveu acatar a ordenança interior:

que você tanto elogia riem da sua cara o tempo todo e você nem percebe. Outro dia uma delas, sim, essa de cabelo curto por quem você mal consegue dissimular sua paixão ridícula, veio me perguntar qual é o seu problema. Entende? Queria saber se você é perturbado! Essa expressão de melancolia e esperança que você se esforça para simular, franzindo a testa e apertando os olhos toda vez que ela passa por nós, um James Dean calvo e enrugado de 51 anos, não transmite nada além de cansaço e pena. Não à toa, ontem, depois que você foi embora, escutei as enfermeiras às gargalhadas: “Cruz credo, quem gosta de pau velho é cupim”. Digo isso porque sou sua irmã e quero o seu bem, não suporto ver alguém se expondo tanto ao ridículo. Essas roupas amassadas e desfiadas que você deu para vestir agora, em vez de transmitirem um estilo libertário e transgressor; denunciam, até para os mais ingênuos, que você está desempregado e sem dinheiro. Quando as pessoas veem um homem da sua idade usando uma calça jeans rasgada, elas não pensam: “Olha, que cara despojado e moderno. Não. Elas imaginam que você foi atacado por um cachorro, ou que caiu e se machucou ao descer do ônibus. Não percebe? Preste atenção: Ninguém se perfuma tanto assim para ir de dia a um hospital, ainda mais esse perfume doce que você deve ter pegado da nossa avó falecida, capaz de matar um diabético à distância. Mas faça o que quiser, só digo isso porque quero o seu bem.

vida da irmã se esvair rapidamente; ninguém imaginava que o irmão sentia na alma os golpes recebidos numa batalha feroz, e que remoía vinganças. Há muitas maneiras de se vingar de uma irmã em estado terminal sem que se pareça cruel. Uma delas é saber que a mana querida adora, desde pequena, bombons Sonho de Valsa, e dizer que comprou duas caixas, mas: — Cadê meus bombons? — Comprei duas caixas como havia prometido; mas lembrei que o médico disse que açúcar não é recomendável. Juro que comprei, estão lá em casa. Quando você sair daqui... — Porra, eu não vou sair daqui, eu vou morrer! — Não fale assim, maninha, sempre há esperança. Outra boa desforra é pedir emprestada a câmera profissional do ex-namorado dela e fotografá-la nesse estágio, vela derretida no leito do hospital, irreconhecível, uma boneca do Farnese de Andrade cheia de escaras na pele e a morte no coração quebrantado, que mal tem forças para protestar:

— Olha, Ana Clara, eu acordei com isso na cabeça. Uma frase tão bonita deve ter um significado. Pensei muito — Não. antes de vir aqui hoje. Você não me tolera desde a ado— Olhe para cá, sorria, por favor, sorria. Você não tem lescência, não me suporta nem mesmo agora, quando o direito de privar as pessoas que te amam de guardar venho te fazer uma simples visita. Por que não gosta de uma recordação. Deixe de ser boba, vou tirar apenas mim? Por que faz essa cara? Você não pode me acusar de Assim os dois se tratavam. É claro que ele não deixou duas cópias, uma para mim e outra para o Romualdo. Ele ter sido um irmão frio. Lembra como eu era carinhoso? de visitá-la, queria ser o último a insultar, mas sempre está noivo, você sabia? Mas jurou para mim que nunca Lembra que às vezes você chegava em casa chorando recebia o contragolpe, o que estendia a batalha fratervai esquecer você. Sorria. Sorria. sem me dizer o motivo e mesmo assim eu me compadena. Ambos se irmanavam na provocação e no insulto. cia e chorava também e tentava te abraçar e te morder? Naquela mesma tarde, enquanto aguardava a revelação E meus beijos e lágrimas não beiravam a volúpia, de A irmã vivia o criticando por ele nunca ter se casado, da foto numa lojinha de rua, recebeu uma chamada no tanto amor? O que eu recebia em troca? A mesma careta tido filhos (sendo que ela mesma nunca engravidou), celular: Ana Clara havia morrido. Foi para casa feliz por ter indisfarçável de nojo que você faz agora. Pois a partir de acusava-o de ser infeliz de nascença, inepto social e conseguido chorar com sinceridade. Fez até uma espéhoje decidi ficar em casa e ter notícias suas apenas pelos desprovido da capacidade prosaica de ter e de dar cie de santuário em homenagem à irmã dentro de uma médicos. “Liberta que serás também”. É isso aí, libertarei prazer. Para Ana Clara, o mundo era tão injusto; pois ela, gaveta do armário. Abriu as caixas de Sonho de Valsa e você da minha presença; embora goste muito da sua que sempre fora bem-sucedida — tinha uma carreira, os espalhou no fundo, deitando a foto da irmã por cima. companhia e de passear pelos corredores deste hospi- era advogada de uma grande empresa, e, não fosse a tal, que tem uma ótima máquina de café e enfermeiras doença, provavelmente teria se casado com Romualdo, Todas as tardes, solene, ele abria a gaveta e, embora solícitas que tratam os enfermos com tanta dignidade, com quem namorou por sete anos. Sim, ela, que pelo não gostasse de doces retirava um bombom e puxava não dispensando um sorriso amistoso a nós, parentes, menos vislumbrara a felicidade como algo tangível no lentamente as duas extremidades da embalagem de que nos sentimos, assim, um pouco melhor acolhidos futuro, morreria inexoravelmente em breve, já o irmão... plástico cor-de-rosa. O bombom girava sobre o próprio neste ambiente de paredes frias e luzes brancas. Pode Ana Clara nunca completava as reticências, segura de eixo como se fosse um planeta gay, antes de ser desvelacomemorar sua liberdade. Assim espero me libertar que ele preencheria a lacuna do discurso interrompido do. Deixava o chocolate derreter na boca, sem mastigar, também, nem sei de quê. Quem não quer ser livre? Eu da pior forma possível. Invariavelmente o irmão saía enquanto olhava para o retrato da irmã, tentando, sem também quero; embora nada me prenda. “Liberta que devastado do quarto com cheiro de éter, tentando sucesso, sentir-se culpado por ter sido o último a desferir esconder a raiva, a dor e a humilhação, principalmente serás também”. um ataque. Aquela cerimônia era quase religiosa, uma da enfermeira de cabelos curtos, por quem, de fato, se espécie de eucaristia em homenagem à Ana Clara. — Seu idiota. “Libertas Quæ Sera Tamen” está em latim enamorara. Quem via aquele ser encurvado, de olhos e significa: “Liberdade, ainda que tardia”. Tem a ver com esbugalhados e úmidos caminhando pelos corredores Foi numa dessas cerimônias que veio a pontada. A dor os Inconfidentes, Tiradentes. Burro. E essas enfermeiras do hospital pensava que ele sofria por testemunhar a era inconfundível. Uma orquídea crescera dentro dele.

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NOTAS NO PLÁSTICO

por MAURO FERREIRA

Freire canta ‘causos’ do grande sertão no toque da viola em ‘Alto grande’ Os avós haviam morrido disso, os pais, os tios e a irmã. Aceitou sem dramas o próprio destino, até com certo alívio: “Liberdade, ainda que tardia”, pensou. Procurou pela casa uma escova de dente, pijama, sabonete, cobertor, sandálias; pôs tudo dentro da mala e partiu de bom grado para o hospital, com a certeza de que jamais voltaria. Aliás, quase voltou, ao constatar que havia esquecido o pente, depois sorriu do lapso: “Coisa mais inútil, daqui para frente”. O médico perguntou se ele preferia quimio ou rádio, como quem diz: “Escolhe a balinha”. No hospital passava os dias pensando na família que não teve, nos filhos. Como seriam? A orquídea crescia na proporção em que ele definhava. Sentiu uma solidão atroz, antes pelo menos se distraía nos embates com a irmã. A irmã! Claro, como podia morrer e deixá-la esquecida na gaveta do armário? Implorou que trouxessem a fotografia de Ana Clara. Que ficassem com os bombons, podiam pegar o que quisessem na casa, podiam até ficar com a casa desde que lhe trouxessem o retrato. Naquela manhã andava tudo em alvoroço dentro dele, um alvoroço diferente, o último. Acordou com um sussurro: “Senhor, me pediram para lhe entregar essa foto”. Tudo em alvoroço, seu corpo agora era uma estufa perfeita onde muitas orquídeas grassavam. Apesar da vista embaçada, conseguiu identificar a enfermeira de cabelos curtos entrando no aposento, estendia-lhe uma fotografia. Era a primeira vez que ela fora escalada para ficar naquele quarto. Quando viu o paciente, irmão da irmã, todo carcomido pela doença, ela, apesar de acostumada com o sofrimento alheio, não conteve a lágrima: — O senhor era tão bonito. — Pensei que você me achasse velho e perturbado. — Velho? O senhor era um gato, cheguei até a comentar com a sua irmã. As outras enfermeiras brincavam comigo porque eu corava cada vez que você aparecia. Ele olhou para a foto da irmã, e ela sorria. Sorria.

Thiago Picchi

www.leonardodavinci.com.br

Ao ler o livro Grande sertão: Veredas (1956), obra-prima do escritor mineiro Guimarães Rosa (1908 - 1967), o então aspirante a jornalista Paulo Freire resolveu morar em Urucuia, no sertão das Geraes. Lá, começou a tocar viola, instrumento que lhe daria projeção no meio musical. Alto Grande — o CD ora lançado pelo compositor e músico paulista, através do selo Vai Ouvindo, neste segundo semestre de 2013 — é álbum entranhado no grande sertão mineiro. A ponto de a música que dá título ao disco, Alto Grande (Paulo Freire), se referir ao local do sertão mineiro onde as mulheres esperavam os maridos que haviam partido nas comitivas de gado. No CD, Freire canta causos no belo toque de sua viola, sob a influência desse universo ruralista. Contudo, o artista se embrenha por esse sertão brasileiro sem xenofobia ou ranço folclórico. Tanto que o repertório concilia tema em tributo ao trompetista e cantor norte-americano de jazz Chet Baker (1929 - 1988) — celebrado na faixa Pintando o Chet na viola (Paulo Freire) — com regravação de A cobra e a onça, música da lavra de Manoel de Oliveira, o violeiro e compositor mineiro conhecido pelo nome artístico de Seu Manelim e nascido em Ucruia, região-musa inspiradora das veredas de Guimarães Rosa. Fora do grande sertão, Freire dá voz a Bom dia, parceria com Swami Jr lançada por Zizi Possi no CD Valsa brasileira (1994).

Confira mais Notas Musicais em blognotasmusicais.blogspot.com

Av. Rio Branco, 185 – Subsolo – Ed. Marquês do Herval Centro – Rio de Janeiro/RJ Tel.: (21) 2533-2237

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DESAFIO POÉTICO Nesta edição, propusemos um desafio poético em cima da hora. Inspirados pelas manifestações que ocorreram por todo o país nos últimos meses, decidimos não ficar de fora, e convocar nossos leitores-colaboradores a botar também a boca no trombone, ou melhor, o lápis no papel! Assim, para esta edição,

Sinal Preto

Sou contra o leilão de um novo plano de carreira para biografias não autorizadas de beagles vândalos.

Bombas pela esquerda Bombas pela direita São bombas por todos os lados Bombas em nossas cabeças

Breno César de Oliveira Góes

E eu vou ficar parado? E eu vou aguentar calado? Eu não. Escudo, pimenta e bala Vinagre, pedra e barricada Quando pensarem que calaram o povo “Olha eu aqui de novo”

convidados para figurar lado a lado dos participantes da coluna. Confira os textos abaixo, mas sem violência.

Manifesto A voz reprimida rompeu a inércia. Juventude partida se uniu em orquestra; E gritou aos políticos que a fartura acabou. O congresso tremeu, e pensou e votou. Sem união força não há! A hora é essa — reformas já!

Eduardo Leão Teixeira Quentel

Greco Blue

Trancafiado no ladrilho Dos sonhos, lá está O Amarildo Certo de que outros Sujeitos estão por vir

Talvez amanhã eu consiga relatar, narrar, pensar, elucidar sobre a violência desmedida que sofremos todos que comíamos algo, com o coração tocado pela potência pacífica e potente que saiu da candelária até a cinelândia, quando comíamos eu e minha amiga de mais de vinte anos, Tatiana Roque, e mais tantas famílias, crianças, trabalhadores, gringos, professores, no bar Vila Rica, glória com Candido Mendes, bairro já completamente fora do perímetro da manifestação... e como justificar ou entender quando um restaurante é cercado pelo batalhão de choque, quando ninguém sequer pode esperar e não tem para onde correr... enfim... cheguei agora sobrevivi, ainda tomada pelo gaz, medo, indignação, falta de chão, democracia suspensa, retirada de todas as esquinas... agradeço a solidariedade das pessoas desconhecidas que ajudaram... esperando que um dia, amanhã quem sabe, com sorte todos nós... um dia, amanhã quem... um dia quem sabe... quem sabe se consiga falar.

Ana Paula Kiffer

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Na robustez dos homens Da lei, perdemos Um amigo Alçado ao ares Sem alarido Algum nenhum

Meu amigo black bloc Eu resolvi fazer um rock Só pra te agradecer Pelas balas de borracha Ou por cada cacetada Que você não me deixou receber

fizemos uma seleção de escritos de autores especialmente

Cadê o Amarildo

E que grito nenhum Será auscultado Pois cala-se profundo Em céu obtuso Novos amigos Outros Amarildos

Rafael Magalhães

Peguei o ônibus. Passei o Riocard e fiquei olhando. dois vírgula sete cinco. Sorri. E rodei a roleta. *Sou dessas!

Leinimar Pires


a mídia, os artistas, o medo e o silêncio você, articulista de jornal, rádio e tv, que ajudou a criminalizar os protestos e abriu espaço para a porrada da polícia no povo: a culpa é sua. você, editor preguiçoso, que jamais contou o número de manifestantes feridos, mas sim o número de cacos de vidro no chão: a culpa é sua. você, repórter, que fechou uma matéria sem ouvir nem sequer um manifestante, comprando a versão da PM como fato depois de décadas de assassinato e abuso: a culpa é sua. você, profissional liberal com voz na sociedade, que prefere não emitir nenhuma opinião porque tem medo de perder o emprego, o contato, a boquinha ou a pulserinha na área VIP: a culpa é sua. você, indigente intelectual militante de “esquerda”, que fica quieto para manter seus negócios, conchavos ou empreguinhos no governo dilma ou cabral: a culpa é sua. você, escritor, cineasta, diretor de teatro, ator, músico, artista plástico, que se cala com medo de queimar seu filme para os próximos editais, prêmios, bolsas e regadores de mão oferecidos pelas três esferas de poder estatal: a culpa é sua. chegou o futuro: somos todos políticos agora. o silêncio é a sua mão suja.

João Paulo Cuenca

Em meio a isso tudo ninguém vai reparar se você quebrar uma vidraça disser o que deveras pensa e tirar a sua máscara.

Lucas Viriato

O q veremos primeiro: 1 estrela global gritando na rua contra a violência e a midia ou a globo vir com um personagem anarquista black bloc na próxima novela para desconstruir o movimento? Cartas à redaçāo.

Chacal

Para a próxima edição, seguimos desafiando nossos talentosos leitores a compor um palíndromo de qualquer tamanho. Uhu! Envie suas frases de trás para a frente para desafio@jornalplasticobolha.com.br

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ORÁCULO

por Miriam Sutter

A vida pela hora da morte! — Sempiternos adágios As manifestações populares do mês de junho de “falo”. Locutus sum, por sua vez, é a origem da forma 2013, no Rio de Janeiro, tiveram como estopim o Locutius, e significa “falei”, “disse”. Deveras loquaz este aumento de vinte centavos no preço das passagens misterioso deus Falo e digo e repito ou Aio Locúcio! do transporte coletivo. Mas o movimento ultrapassou em muito o protesto contra o aumento do preço da Parecem ter sido vítimas desta misteriosa e divertipassagem de ônibus! Na realidade, os vinte centavos da divindade pagã aqueles funcionários da notícia incluíam o indignado e até então sufocado protesto que, antes da declaração oficial de legitimidade do contra a carestia, a inflação, a falta de recursos básicos movimento das ruas, ridiculamente o repudiaram e nas áreas de educação e saúde, contra a vigência da desclassificaram. — Pois é, Arnaldo Jabor, “anarquismo corrupção, dos impostos extorsivos cobrados dos inútil” é forte até mesmo em um discurso de retratação cidadãos, da falta de transparência na aplicação do pública! O ridículo de vozes deste tipo me fez associar dinheiro público, das negociatas que envolvem obras os sintagmas “vinte centavos”, “preço do transporte”, “passagem” a outro adágio estampado em cartazes de estatais, etc. — Vox populi, vox Dei! manifestantes do movimento: — O tomate está pela Pois é! A Res publica, na figura de Dilma Rousseff, foi hora da morte! Uma bem humorada paráfrase do velho forçada a ouvir a vox juvenum, a voz dos jovens nas A vida está pela hora da morte. ruas do Brasil, e foi forçada a declarar a legitimidade do movimento. E nem poderia ser diferente, pois a Se o custo de vida anda alto, o da morte, paradoideia de que uma opinião compartilhada por todos xalmente, anda altíssimo. E aí vai uma questão a ser não pode ser falsa já se encontra na literatura grega pensada: se em vida já pagamos altas taxas de juros desde Hesíodo e, na romana, desde Sêneca, o Velho, e impostos, por que temos de pagar pela morte? Não em que se lê que “a língua do povo é sagrada” (Sacra seria o caso de protestar também contra o custo do populilingua est) que confirma o dito medieval A voz transporte para o mundo dos mortos? Sem abordar o abjeto assunto da “máfia dos cemitérios”, a morte do povo é a voz de Deus. nunca foi grátis. O pagamento da passagem para a Em Roma, acreditava-se, até mesmo, que a primeira morte não é novo e nem moderno. Assim nos testifica palavra ouvida ao sair-se porta afora poderia ser a figura de Caronte, o barqueiro do mundo dos mortos uma palavra profética. Assim, se um romano tivesse da mitologia grega. algum assunto a tratar e estivesse em dúvida sobre que decisão tomar, a primeira palavra ouvida na rua Diz o mito que quando a alma abandonava o cadáver, ela seria a voz de um deus. Em outras palavras, seria a era conduzida ao mundo subterrâneo dos mortos por resposta à dúvida. De fato, nosso romano indeciso Hermes, que a deixava às margens do rio Aqueronte. Dali, sempre poderia invocar o deus Aius Locutius, que cer- se o corpo tivesse sido sepultado e mediante o pagamentamente se manifestaria, nem que fosse pela força do to de um óbolo, era permitido à alma entrar na sombria pleonasmo de seu nome. Aio significa “afirmo”, “digo”, barca de Caronte. Cruzando as tenebrosas águas do

Aqueronte, a barca atracava na margem oposta, e a alma chegara em definitivo ao Hades, o reino de Plutão e Perséfone, cujo imponente saguão era guardado pelo tricéfalo Cérbero, o cão do mundo subterrâneo. Um óbolo, portanto, era o preço da passagem para o mundo dos mortos. É por isso que na Grécia antiga existia o costume religioso de se colocar a dita moeda na boca ou por sobre a pálpebra do morto. O óbolo era a medida grega de menor valor: a sexta parte de uma dracma ou meio grama de prata. Nosso centavo de real, que já nem mais circula, apesar de continuar a ser computado no preço de mercadorias e produtos, não serve como comparação. Já vinte centavos, quem sabe? Só que, em nossa história, os vinte centavos de aumento seriam cobrados (não fosse o Movimento Passe Livre) pelo transporte de pessoas vivas em viagens diárias, verdadeiras vivências de um inferno surreal. Nenhum carioca, obrigado a usar o transporte público, terá dificuldade em imaginar a barca de Caronte! Ele a conhece dos ônibus e do metrô que servem à população. Ao fim e ao cabo, não é de estranhar que tenhamos a morte em tão alta conta: — Fulano vale mais morto que vivo! Pela fria lógica de mercado, um morto tem um polpudo saldo de créditos por tudo que pagou em vida, sem esquecer o custo derradeiro: o do funeral. Ainda que macabra, fica a irônica sugestão de uma nova reivindicação, não de todo descabida. — Abaixo o óbolo de Caronte: cemitérios públicos livres para todos!

morte morte morte mor morte morte morte morte morte morte mor morte morte morte morte morte morte mor morte morte morte morte morte morte morte morte mortemortemorte morte Toda última quinta do mês às 20h

PÃES ANTEPASTOS MASSAS MOLHOS PIZZAS SALGADOS DOCES TORTAS Arrependei-vos e rejubilai-vos!

http://cepvintemil.wordpress.com Teatro Sérgio Porto, Humaitá, Rio de Janeiro

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www.ettore.com.br | @EttoreCucinaIT | facebook.com/ettorecucinaitaliana Av. Armando Lombardi, 800 - lojas C/D/E Condado de Cascais, Barra da Tijuca - RJ Tel.: 2493-5611 / 2493-8939 Rua Conde Bernadotte 26 - loja 110, Leblon - RJ Tel.: 2512-2226 / 2540-0036


urubu para Fabrícia Vale um bicho avançado na corda come o necessário íntimo o bicho se encosta ao acessório suspenso eu um bicho assumo o risco de ver o arrepiobicho que nenhuma perna enganada vai dizer cínico o gelado do ritmo de bicho avançado na corda atento ao frio feito um bicho que escorrega feito um verme rói a parede ciã da carne virada da fruta intestina e rói mais e rói e larga os ossos os cabelos o peso do morto não menos e não menos bicho torna ao fio da corda panço sem precisar medir o equilíbrio eu não mais me sei sequer um bicho me sei talvez o bicho que na corda é hábil e leve pássaro rapace bicho que ave-não carece ninho

Ao caçar passarinhos Tudo é exílio. Tudo, exceto a poesia Dante Milano um passarinho (sistema singular) é um voo sem palavras — não pertence ao poema — mantém-se estranho daí ao caçá-lo querer sê-lo; e me aplumo no poema o voo que só é sendo às asas não se diz — nós é que estamos dizendo (colecionamos pássaros mortos) o pássaro não se interroga não se publica não se pertence tal qual o poema que se pretende voo em outras asas mas vale a ele se ater no que dele tenho e a ele não posso me ter nos resta então este jogo, um voo do escrito: entre o que me deixo passarinho permanecido e o que minhas asas não sabem ao que bater

André Capilé

Flávio Morgado

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Amor de viajante O rio de águas claras corria lentamente, e o sol já ia se escondendo atrás das montanhas. Cansada, eu buscava algo além da realidade. Coisas como estrelas que falam, rosas que choram... A fantasia era para mim um desvio da realidade bruta. Diante daquele sol, dos ventos e homens em verdadeira harmonia, parei. Sentei na relva úmida. Sentia a natureza, meu mundo borbulhando em latência plena. Percebi que a uns metros de mim repousava um homem de aparência rude. Cabelos despenteados, barba por fazer e uma sacola com roupas como um pesado fardo. Sentado, com os joelhos junto ao peito, parecia se proteger da dor. A noite caía e ele permanecia ali, quase imóvel. Assobiava como se cantasse uma canção de adeus para alguém. Olhei-o pelas costas. Havia uma mistura de sentimentos fechados no peito. Me aproximei. “Triste?” Me atrevi a perguntar. “Não sei”, respondeu-me com voz mansa. Não falei mais nada. Sentei ao seu lado e fiquei admirando sua fisionomia austera e amável ao mesmo tempo. O vento soprava doce.

“Sabe, há muitos anos eu vivi nesse lugar...” começou a me dizer.

“Do lado esquerdo do rio havia uma palmeira. Já me banhei aqui quando menino”.

De repente parou de falar, como se eu não fosse digna de tais confissões. Mas suas confusões pareciam ser maiores que as desconfianças. Então, prosseguiu: “Foi numa tarde como essa que eu, cansado de andar, parei aqui para descansar. Desse mesmo lugar onde estou agora, vi uma menina. Estava de costas. E eu só pude ver aqueles longos cabelos negros que lhe caíam nas costas, como um manto. Depois disso, corri mundo. Naveguei os sete mares. Conheci mulheres deslumbrantes. Cheguei a lutar numa guerra, apesar de acha-la ridícula. Fiz o diabo nesse mundo de Deus. Mas nem todas as loucuras, nem todos os bordéis de beira de estrada, nem os vinhos que me embebedaram, me fizeram esquecê-la. Aquela menina sempre viveu nos lugares mais bonitos de minha memória. Se ela existiu realmente, não sei. Alucinação, talvez.” A essa altura o viajante não externava angústia. Era como se contasse mais uma de suas aventuras. Falava como se buscasse, num fundo qualquer, um jeito adocicado de me contar sua vida. “Talvez ela tenha se transformado numa estrela, ou esteja à beira de um outro rio, despedaçando outros corações. Quem sabe, esteja despertando outros amores. Mas viverá em mim até o fim dos meus dias”. E nessa mistura de amor, aventura, ilusão e doçura, levantou, se despediu e seguiu viagem. Sem perceber que a mulher que tanto procurava estava ali, a seu lado. Maria de Lourdes Souza

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O falso enforcado r. Augusta Rua Augusta. Vacas de presépio e um coração tatuado a cal no muro vermelho. Três coroas golpeiam-se na sobreloja. Ataque. Defesa. Taco no taco. Vitrine parada, luz de passarela. Artigos à venda. É festa, é Natal. Um indiano cristão estaca na vitrine. Na Índia as vacas circulam, como ele, pelas ruas. Rua Augusta. O coração lhe cabia. Farol vermelho, coração parado, vitrine piscante, coração no muro. Passarela. É Natal. O indiano some no fundo preto. Luz fria. Três coroas na sobreloja. Ataque. Defesa.

Fregueses se abraçam feito alambrados. Ataque. Defesa. Rua Augusta sobre muro pichado. É branco, é preto, é prata, é Natal. Chove na Augusta. A freguesia ri, um cara passa, o cara ri. Ataque. Defesa. É Augusta. É efêmera. Farol vermelho. Na Índia um rio brota da cabeça de Deus. É o Ganges. É sagrado. Corre a rua Augusta. Buzina. Sirene. Silêncio. Água no muro. Tatuagem.

Todo homem é arcano em seu jogo e destino. Digo, Todo homem o enforcado. Todo homem seu demônio. Todo homem seu impossível significado. O poeta, o poeta é sibilino. Face à forca. ele força seu pescoço contra corda. acorda o grito vibra a vida, engasgada na garganta. O poeta canta, mesmo morto a carta da morte.

Eduardo Lacerda

Aqui, brota água dos bueiros brota um tiro da cabeça. Na Índia, os rios são três, dois de água, um de alma. Lá vão os velhos ao Ganges morrer. É sagrado. Janelas fechadas na sobreloja. Da cabeça dos coroas brota festa. É pecado.

Maria de Andrade

Amor viúvo O tempo passa e a saudade teima em trazer recordações. Seus pedidos de sexo sussurrados em meus ouvidos suas mãos cobrindo minhas curvas de carícias seu corpo pesando em cima do meu nos levando ao êxtase. Ah, meu amado, até quando esse amor viúvo destroçará meu coração? Tu, com ternura responderias mais uma vez usando a palavra mágica do nosso amor: toujours.

Marina V. Medeiros

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DOBRADINHAS por ALICE sANT’ANNA & Marilia Garcia capítulo iv, por intermédio do naturalista

de manjericão pra casa

no portão esperando a vez,

mas e quando você for embora

percebe que esqueceu de

que fim vai dar ao vaso

devolver a chave

esqueci de devolver sua chave.

e ela diz, pode ficar. sai com a chave guardada na bolso do casaco e as duas frases repetindo

vai ter coragem de tirar as folhas colocá-las numa panela fumegante

mas o capítulo iv começa

com um avião cruzando o céu de madrugada, o brilho da asa no escuro, chegar do outro lado as luzes

cais.ato.br

a planta de que você cuidou

Cais é um site dedicado ao intercâmbio entre poesia e artes plásticas, com conteúdo de qualidade, navegação prática e design atraente. Editado por Luana Carvalho, com a colaboração de autores de diferentes áreas, conta também com uma agenda de shows cools da cidade do Rio de Janeiro, e uma interessante sessão de dicas de livros, discos e filmes feita por um pessoal da pesada, como António Zambujo, Geraldo Azevedo e Otto.

um bicho de estimação será que na verdade você não comprou esse vaso para que algo dependesse do seu cuidado algo

piscando, o ruído na estrada.

ainda mais frágil que

talvez se o portão se deformasse em paralaxe,

você não está pensando

uma frase passaria por ele. ou as duas frases

em levar isso na mala

iriam parar no apartamento com um piano

está?

no meio, o ruído dos frascos na bolsa

mallarmargens.com Alice Sant’Anna

quando atravessa o corredor.

CLIQUE AQUI

até as folhas murcharem e mastigar com tanto esmero como se fosse

na cabeça.

não tinha lógica trazer um pé

percebe não um corvo, mas uma folha seca batendo na janela. percebe o que dizer a ela já meio tarde. as ruas quadradas, percebe a chave no bolso quando sai de casa na primeira manhã. quase todos os dias, charles darwin se sentava no banquinho de jardim em frente ao pomar de tomateiros. quase todos os dias, charles darwin ficava por minutos a fio tocando trombone para estimular o crescimento

No ar desde maio de 2012, a revista digital de poesia e arte contemporânea Mallarmargens tem como objetivo aglutinar a diversidade artística nacional e internacional. Atualizada diariamente, conta com 112 autores fixos e 255 autores periódicos, proporcionando à revista uma diversidade de conteúdo que garante ao leitor encontros com bons textos a cada visita. A arte gráfica do site, que “esconde” os textos sob imagens das mais variadas obras de arte, também merece olhos atentos.

dos tomates. talvez se o portão se deformasse não precisaria

Vale o clique!

da chave. se lembra do ruído algum tempo depois e do que disse daniel f. no importa qué,

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algo que estuvo no está, y ni siquiera brilla por su ausencia

Marilia Garcia

Raïssa Degoes

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ENTREVISTA

por Camila Justino Salazar

Ricardo Sternberg: uma produção atravessada de charme e lirismo temos muitas antologias para jovens e até para crianças, como The Rattle Bag, editado pelo Seamus Heaney e o Ted Hughes. Mas não me lembro de ter lido uma antologia, uma seleção ou algo do gênero. Quando penso nas primeiras lembranças, lembro muito bem do disco que meu pai tinha do João Villaret, um ator português que recitava poesia brasileira. Isso me marcou bastante. Até hoje, quando leio alguns poemas, me lembro da música e a entonação que Villaret colocava na poesia. Ele dramatizava. Deste disco me marcaram Nega Fulô do Jorge Lima, Pátria Minha do Vinicius e O caso do vestido do Drummond de Andrade, que eu ainda estou traduzindo. Outra lembrança muito viva é a poesia da música infantil. Se essa rua se essa rua fosse minha, eu mandava... Essa rua, esse bosque até hoje me dá um frisson.

Bruno Pires

Em sua última passagem pelo Rio de Janeiro, o poeta Ricardo Sternberg visitou a oficina de poesia do professor Paulo Henriques Britto na PUC-Rio. Desde então, o Plástico Bolha firmou contato com Ricardo, publicando alguns de seus poemas, acompanhados de traduções feitas por alunos do curso de Letras. Dessa vez, o Plástico Bolha foi até a University of Toronto, onde Sternberg leciona. Lá tivemos o privilegio de ser recebidos em seu escritório, cercado de pinturas, esculturas, fotografias e, claro, livros. Ricardo Sternberg é brasileiro, estudou na famosa escola de padres Santo Antônio, em São João Del Rei (MG), e mudou-se com a família para os EUA aos 15 anos, onde mais tarde iniciou sua carreira acadêmica, passando pela University of Califórnia e Harvard, até chegar à tradicional universidade canadense. Nesta conversa ele conta um pouco de sua trajetória, da descoberta da poesia e de sua troca de correspondências com Drummond. A primeira pergunta é do Paulo Henriques Britto. Ele está curioso e quer saber quando vai poder ler seu próximo livro. Essa é uma notícia recente. Há umas poucas semanas, mandei a versão final do meu próximo livro para a editora McGill University Press, que publicou meu último livro, Bamboo Church. (Ricardo mostra o manuscrito em formato A4). Para mim, eu fechava o livro com 50 páginas. Prefiro um livro com menos poemas, mas eles pediram mais; então eu mandei mais sete poemas. Eles escolheram cinco e justamente o favorito do editor, era o poema que eu mais hesitava publicar e não incluí no primeiro manuscrito que mandei para McGill. Comentei até com a Christine, minha esposa, que iria aceitar 4 dos 5 poemas e pedir para que aquele não fosse incluído. Mas acordei à noite e pensei que o poema poderia, sim, encerrar o livro. No dia seguinte, escrevi para o editor, disse que havia aceitado publicar o poema, desde que fosse o último. Mas ele me respondeu que não poderia encerrar o livro com esse poema; ele queria encerrar com Some Dance, título do livro. Era preciso entrar em acordo para finalizar o livro, e o editor me convenceu. Eu aceitei algumas sugestões, outras não. Não é uma relação antagônica. Quando um poema fica pronto? Para mim é cada vez mais difícil acabar, mas eu gosto daquela frase — eu acho que era o Valéry quem dizia — “o poema nunca é terminado, ele é abandonado”. Começamos pelo fim, falando do seu último trabalho. Conte como começou seu contato com a poesia. Foi ainda no Brasil? Foi no Brasil, mas eu não tenho lembrança de ter lido poesia na escola. Devo ter lido Olavo Bilac, não sei. Hoje em dia, aqui,

Idaho (risos). Eu senti uma ironia do Drummond. Eu também traduzi Um escritor nasce e morre, para a revista Ploughshares e o Mark Strand traduziu também três poemas nessa edição. O Drummond me respondeu agradecendo por ter mandado a revista com as traduções de Mark Strand. Não fosse você, eu não saberia das traduções do Mark Strand etc. Eu fiquei angustiado porque ele não comentou nada sobre minha tradução. Passaram algumas semanas, e eu mandei mais uma carta perguntando se ele havia lido a tradução para o inglês de Um escritor nasce e morre. Um tempo depois, ele respondeu com uma página datilografada dizendo ter sentado para agradecer a tradução, mas não agradeceu, e a única explicação só podia ser de ordem psicológica: era um conto que foi escrito num momento de amargura e que ele mais tarde rejeitou, e, em vez de se vingar do escritor, se vingou do tradutor, ele escreveu. Você também traduziu João Cabral de Melo Neto e Jorge de Lima... Traduzi, e traduzir João Cabral é bem mais difícil. Não é fácil conseguir manter a complexidade da sintaxe do Cabral sem que o poema traduzido fique com aquele ranço traduçoide. Traduzir Drummond é mais simples. Se você consegue pegar o tom de Drummond, o tom irônico, e equilibrar essa ironia do poema na tradução, fica mais fácil.

A produção começou em inglês, já nos EUA? Sim, comecei a escrever poesia nos Estados Unidos. Quando a gente ensina aqui nas universidades da América do Norte, a gente pode observar um aspecto interessante. Os estudantes estão aprendendo francês, por exemplo, e nunca escreveram um poema antes, mas de repente estão escrevendo poesia em francês ou em espanhol. Eu acho interessante esse contato com a nova língua, que é exatamente o que a poesia precisa, essa coisificação das palavras. Cada palavra é misteriosa, tem um peso, então minha iniciação na escrita está relacionada com o aprender de uma nova língua, o inglês. O início da minha produção também está relacionado com a tradução. Eu traduzia poemas e músicas de que gostava, foi um caminho. Assim que comecei a escrever, comecei a traduzir. Traduzi muitos poemas do Drummond e publiquei sem nenhuma permissão dele. Hoje em dia isso seria difícil. Na época eu traduzia e mandava para as revistas e, quando eram publicados, eu mandava as revistas para o Drummond. Ele sempre me respondia. Me lembro da primeira vez que ele me respondeu uma carta. Nessa época eu morava em Pocatello, Idaho. Ele escreveu: Me agrada muito saber que estou sendo traduzido por um jovem brasileiro em Pocatello,

Os leitores e críticos dos seus livros são unânimes quando comentam sobre o charme da sua escrita, sobre o prazer que a leitura dos seus poemas proporciona. Como você enxerga esses comentários? Acho que no início o que pode ter me ajudado a publicar rapidamente é esse curb appeal para o leitor, eu brinco que o poema é reader-friendly. Talvez aconteça uma atração imediata e até superficial, mas eu espero que tenha outras camadas depois desta mais imediata, mais superficial. Mas são poemas que, pelo menos num nível, você entende logo, não é um quebra-cabeça. Sem querer sugerir comparações ridículas: um romance como Cem Anos de Solidão tem este charme imediato (o que nós chamamos a good read) e, claro, aspectos menos acessíveis. Meus filhos leram o Garcia Marques ainda adolescentes e adoraram, sem entender muito os aspectos históricos, toda a triste história da exploração do Caribe que subjaz a narração. Eu acho que esse próximo livro, Some Dance, talvez tenha menos deste curb appeal. A música é mais complexa. A primeira parte do livro é mais chegada ao inglês coloquial. Essa é a minha impressão e a maior dificuldade foi escrever usando esse tom coloquial sem perder a força da poesia. O escritor acha que está sempre fazendo alguma coisa diferente até alguém apontar e dizer, “olha, mas aqui está a mesmíssima voz do seu primeiro livro!”.

Livros publicados: The Invention of Honey (Vehicule Press, Montreal, 1990, 2a edição 1996), Map of Dreams (Vehicule Press, Montreal, 1996) e Bamboo Church (McGill-Queen’s University Press, 2003, republicado em 2006). Some Dance (McGill-Queen’s University Press) tem sua publicação prevista para 2014. Site de Ricardo Sternberg: http://ricardosternberg.com

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Buffalo I have wrestled a buffalo into this poem the least I could do for an endangered species. I have given him a tree for shade, a stream to slake his thirst. A hulk of night, stranded on my gold-green pasture he shakes stars from his fur, paws thunder into the ground. The reader is to blame who brings red into the poem Ricardo Sternberg

Búfalo Arrastei um búfalo até este poema o mínimo que pude fazer por uma espécie ameaçada. Dei-lhe uma árvore para fazer sombra, um riacho para saciar-lhe a sede. Um pedaço de noite, preso no meu pasto dourado, ele esparge estrelas ao sacudir-se, planta trovão no solo ao escarvá-lo. Será o culpado o leitor que puser vermelho no poema.

Pedro Zylber

Paulo Henriques Britto

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Jornal Plástico Bolha #34  

Jornal literário independente aberto à publicação de poesia e prosa de autores contemporâneos.

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