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plástico bolha

@ O P l a s t i c o B o l h a | j o r n a l p l a s t i c o b o l h a . b l o g s p o t . c o m | w w w. j o r n a l p l a s t i c o b o l h a . c o m . b r

Distribuição Gratuita

A n o 8 ° - N ú m e r o 33

leve literatura

Ceia todos se reuniam ao redor da mesa não importava se era alegria genuína ou aquele sentimentalismo hipócrita de natal a euforia era contagiante quatro gerações se lambuzavam com pernil e leitoa e eu, assustado, não podia deixar de notar o quanto meus avós tinham diminuído Sérgio Luz www.angeloabu.com.br

DESTAQUES Nossos leitores escrevem sobre a paixão nacional no Desafio Poético especial Futebol Antonio Mattoso e o Samba de Calcanhotto na coluna Oráculo Mauro Ferreira analisa o violão ibérico, de Carlos Galilea, nas Notas no Plástico Ilustrações de Ingrid Bittar, Ângelo Abu, Raïssa Degoes e Heinz Langer Textos de Pedro Lage, Adriana Maciel, Marcelo Cassar Magdalena e Zé McGill Poemas de Ana Salek, Raquel Naveira, Knorr, Leonardo Marona, Vinícius Masutti, Alexandre Faria, Raquel Gaio, Pedro Braga, Diogo Borges, Naiara Barrozo, douglas m. zunino, Roberto Passeri, ulisses tavares, Matilde Campilho e Alice Sant’Anna


BOLHETIM Um plástico 2013!

Sigam-nos os bons!

Passadas as ceias e comemorações de fim de ano, às quais dedicamos nossa capa, 2013 começa com tudo! Eis que um sambinha vem surgindo da coluna Oráculo, contagiando a dança das palavras. O violão soa em nossas Notas no Plástico. Os demais se animam e a bola começa a rolar solta pelas páginas do Desafio Poético. A chuva nada atrapalha. O sonho só alimenta. Versos, contos e ilustrações. Samba, futebol e muita poesia. São Paulo, Cuiabá, Índia e Juiz de Fora: o Plástico Bolha #33 é aqui!

O Plástico Bolha se aproxima dos 500 seguidores no twitter. Para comemorar a marca, selecionamos os 30 perfis mais curiosos de nossos seguidores. Na lista tem de tudo. Confiram:

Heinz Langer

EDIçÃo Lucas Viriato | Isabella Pacheco Conselho Editorial Alice Sant’Anna | Marilena Moraes DIAGRAMAÇão Mariana Castro Dias Revisão Isabella Pacheco | Marilena Moraes Equipe Mariana Salim | Ingrid Bittar webdesign Henrique Silveira Edição dedicada ao nosso mascote desaparecido, Pacco Edição de Fevereiro de 2013

DISTRIBUIÇÃO Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo, Bahia, Piauí, Distrito Federal, Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. TIRAGEM 13.000 | IMPRESSO na ZM Notícias

ENVIE SEUS TEXTOS PARA textos@jornalplasticobolha.com.br ANUNCIE NO PLÁSTICO BOLHA CONTATO@jornalplasticobolha.com.br

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Lucia Helena Ramos Orgânica. Designer e produtora cultural. Leio, escrevo, desenho, recorto, costuro, pinto e bordo. Somo, substraio, multiplico e divido, exceto raiz quadrada.

Mariana Caldas I read books. I go to the movies as often as I can. There aren’t enough parks, schools and museums on Earth. I swim when I can. Giovani TK Um garoto com inteligência suficiente para reconhecer sua insignificância. Amante da ironia e, aparentemente, do fracasso. Contoscos Duros como hardware, frios como software.

Raimundo Neto Veronika Não-Escritor. Pequeno, destrutível; grudenMy name is Veronika. I’m from Bulgaria and to e comestível. Amanheço trovejando. Com I love Nina Dobrev :] & Ian Somerhalder :* , pancadas de chuva no final do dia. Demi Lovato, London :) and Mario Casas 3. André de Freitas Igraínne Marques sinistro. cascudo. faz que vai e vai. poeta − Revolucionária, escritora, universitária e neucrê que, mas é mais cricri. amigão quasecão. rótica. Seda Escarlate Anelise Freitas fulana de tal, sem eira nem beira. lava, passa, Uma vaca contemplativa em terreno baldio! limpa e cozinha. é romântica aos domingos e, em dias santos, rasga fotos. Larissa Andrioli Eu sou chata pra caralho, mas tem gente Jéssica Balbino que me ama. Vai entender. Jornalista, escritora, humana. Se falar meu nome três vezes, eu apareço! Erica Magni Uma jornalista polida vivendo uma vida lascada. Filipe Galvão Pós-doutor em jardinagem. Gilberto Porcidonio Jornalista cultural não-indie, cientista social Elisa Elísius Campos não-hippie e blogueiro. Não adianta dar Leio pessoas, intenções e artes; apesar de não bom dia e não fazer yoga com o porteiro. ser quiromante, meta-humana e quixota. Nayara Marfim Cibele Lopes Uma psicóloga que escreve, sobretudo aboProdutora cultural (e do cultural), jornalista, brinhas. ex-advogada, atriz e blá blá blá... Anna Luiza Josué F. Fernandes Prefiro comida a pessoas. Josué Francisco Fernandes é quase um avatar. Pós-humano, proto-criatura simbiônica. Marcela Lopes Trabalha na área de Comunicação e Inteli- Bêbada e vingativa. gência Digitais. Marília Trafica da Notícia Lenta. Meu dever é passar a informação pra frente, Wasther ser o seu avião do esclarecimento, esteja inOctossexual, culpaholic e pipoqueiro. formado com quem está no comando. Fernando J. Novaes K.atrina Sujeito feio, engenheiro e operário da susUma quase escritora fracassada. tentabilidade e engenharia de materiais, Duda gosta de vinho, macarrão, cinema, sexo e Linda, tesão, bonita, só que não. futebol, pra que mais? Fernanda La Ruina Ruiva, louca e carioca. Quer mais? Também sou apaixonada pela minha profissão: professora de português e cultura brasileira para estrangeiros.

Transreplas Consolidados como la Empresa Lider Mexicana dedicada a la fabricación de maquinaria, para la transformación y reciclado de plásticos.

Bruna Di Ferreiro Tá com tempo?

Entre você também para esse bando de loucos e siga-nos em @OPlasticoBolha.


a surpresa da lagarta é não saber que vai ser borboleta. Knorr

Ingrid Bittar

Ingrid Bittar

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Cuiabazão

São Paulo não está

Me disseram

São Paulo não está nas discussões acaloradas sobre o que não é São Paulo.

Que Cuiabá Era feita de pó

São Paulo nunca estaria nas cabeças esmagadas sobre os meios-fios, nos postes apagados, nós sozinhos à procura, na fumaça que respiramos em silêncio e seguimos, no som que faz pensar em deus e vem do Chá, nas catacumbas submersas, nos assustados que apenas vão, em Mario de Andrade atrás de amor na Consolação, no casal que não conversa há anos e sorri igual, nas mulatas Di Cavalcanti, aquele punheteiro genial, nos dedos grossos de Candido não tão cândido Portinari.

Poeira mesmo E que nascia Com o sol Que quando Repousava No horizonte Fazia a cidade Desaparecer Da vista

São Paulo não está nos risíveis senhores mijados e alegres, na perda da virgindade pelo gênio baiano, nos arranha-céus iguais a Tóquio ou Hong Kong, não está nos seus japoneses de Quixeramobim.

E então Num ciclo Infinito Cuiabá

São Paulo não está entre uma esquina escura e a história forjada, nos olhares caipiras para seus corredores vazios e largos, suas pessoas como formigas, seus colaboradores imaginários, sua caretice e suas matinês de putaria, sua rotina supervalorizada e poética, suas mensagens engarrafadas lançadas ao mar podre, seu mar uma fila interminável de concreto em movimento. muito menos São Paulo estará nos seus mimetismos e sua marginália.

Ressurgia Todos os dias E clareada Pela luz solar Reinava viva No centro-oeste De um país Desde sempre E até nunca mais. Vinícius Masutti

Agora Vamos imprimir nossas fotografias. Guardar guardanapos, arquivar livros e discos, contas vencidas ou pagas, bilhetes, listas de compras, ímãs de geladeira e papéis de bala. Embalar a vácuo nossos cupons, holerites e agendas caducas. Vamos escrever diários e livros, tatuar frases, enterrar baús, congelar nossos vinhos no nitrogênio líquido só por garantia. Corra, corra que esse sorrir à toa, essa alegria boba, esse momento agora vale mais que toda a história. Pedro Braga

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São Paulo não está nas ruas de São Paulo, na solidão indiscutível de São Paulo, muito menos São Paulo está nas pessoas que habitam São Paulo, no beijo único sem abraço, no cumprimento entre estranhos. São Paulo não tem tamanho, não é grande nem pequena, não está em mim ou em você. por isso é possível amar São Paulo. porque São Paulo não está em nós. Leonardo Marona


Chove Chove. Como Chove. Chove muito. Cismo em olhar a chuva. O vidro, a janela. O mundo à minha frente despedaçado em gotas. Eu, seco. E esse céu tão carregado, cinza próximo e acolhedor. Venta. As cortinas voam e eu respiro. Venta. Folhas voam e eu respiro. Venta. Eu respiro. A noite chega devagar, comendo o dia aos poucos. Eu, no vidro, refletido. Eu, no vidro. Me reconheço. Me estranho ali, todo molhado, eu, que de cá, tão seco. Escurece. Escorro pelo vidro, sem cuidado e sem frio, ganhando a rua. Passo por carros, ouço, de cá, longe, meus passos no chão, misturados à água que cai violentamente. Corremos, eu e a chuva. E daqui, seco, me vejo seguir atordoado e feliz, menos feliz que espalhado. Nesta noite molhada, eu fluido. Que de cá, tão estático. Nenhum movimento, a não ser meus olhos me acompanhando, leviano, pelas ruas. Viro uma esquina, aquela esquina, sigo com a água que corre aos meus pés. Um bar. Nunca antes o bar ou aquelas pessoas. Entro. Eu molhado, seco o bar. Todos me olham, não me estranham. Nada há estranho àqueles olhares. Olhares que arrotam o mundo. Desisto. Volto ao vento. Viro mais uma esquina, olho aquele cão completamente molhado. Ele manca. Eu não. Me olha sem cuidado e se junta à minha caminhada. Mais uma esquina. Uma mulher com um guarda-chuva verde passa por nós. Tenta uma fuga impossível da chuva pra que não se molhem, as botas. Não me vê, não vê o cão. Cuida as botas. Seguimos. A roupa toda molhada imprime meus contornos, me dimensiona, e me sinto quase real. Um casal se esquece num abraço. Não ouve o aguaceiro, meus passos de chuva, o cão. Não vejo ainda o que vem a seguir... Agora sim, olhos grandes. Olhos de memória carregam um senhor que passa e sorri pro cão. Caminha lento até a banca, para, compra jornais. Nenhuma pressa. Não se preocupa com o molhado da roupa, seca rápido, diz ao jornaleiro, numa voz enxuta e doce. Deixo-o ali e escorro por mais uma esquina, chego a uma rua conhecida, um prédio de grandes janelas, sétimo andar aceso. Minha casa. Um casal confuso, num carro, se perde esperando entre o verde e o vermelho de um sinal que ali não está. Atravesso, o cão segue. Olho pra cima. Ali estou, parado e seco. Imagem fragmentada. Me estranho, me reconheço. Apago a luz. Adriana Maciel

Toda última quinta do mês às 20h

PÃES ANTEPASTOS MASSAS MOLHOS PIZZAS SALGADOS DOCES TORTAS Arrependei-vos e rejubilai-vos!

http://cepvintemil.wordpress.com Teatro Sérgio Porto, Humaitá, Rio de Janeiro

www.ettore.com.br | @EttoreCucinaIT | facebook.com/ettorecucinaitaliana Av. Armando Lombardi, 800 - lojas C/D/E Condado de Cascais, Barra da Tijuca - RJ Tel.: 2493-5611 / 2493-8939 Rua Conde Bernadotte 26 - loja 110, Leblon - RJ Tel.: 2512-2226 / 2540-0036

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Domingo Acordou que nem um desesperado. Sentiu uma sensação estranha e, em meio a uma gritaria que ouvia na rua, não queria saber de nenhuma outra coisa a não ser achar sua mãe. Desde pequeno, o maior trauma de sua vida era estar longe de casa. Na escola, espancado pelos colegas e maltratado pelas professoras, não podia esperar a hora da saída. Ele era cheio de traumas. Mas, nesse dia, as coisas não pareciam estar claras em sua cabeça. Assim que se levantou, começou a procurar sua mãe. Ela não estava em nenhum lugar da casa. Era estranho, pois ela não costumava sair cedo. Eram sete e meia da manhã. Sem pensar duas vezes, pegou a lista telefônica e começou a ligar para todos os membros da família. Era domingo, sete e quarenta e cinco da manhã. Ninguém atendia. Não conseguia imaginar o que estava acontecendo. A mãe tinha oitenta e três anos, mal andava. Aonde teria ido? Os dois viviam sozinhos desde que o pai os abandonara há cinquenta e cinco anos, idade dele. Rodava e andava de um lado para o outro. Olhava-se no espelho. O rosto pálido e o pouco cabelo todo bagunçado refletiam o estado de angústia. Sair para a rua não era a solução. Não tinha motivo para aquilo estar acontecendo. Oito e cinquenta e quatro. O vento parecia aumentar, e as janelas tinham de ser fechadas. Não tinha força para tal. Não conseguia pronunciar uma só palavra. A situação começou a ficar tensa quando entrou na cozinha e viu que não tinha nada. Abriu a geladeira e encontrou potes vencidos de geleia. Nem água tinha. Não entendia nada. A cada passo que dava, ouvia o ranger do chão. Era o único som presente. Andando adunco e torto, resolveu parar. Queria gritar e entender o que estava acontecendo. Nove e treze. O tempo não passava. Tinha de esperar até as dez para ir perguntar a alguém o que estava acontecendo. As lojinhas só abriam nessa hora. Nove e quarenta. Subiu as escadas e voltou para o quarto. Viu que havia um bilhete perto de sua cabeceira. Estranho não o ter visto antes. Dizia: Não esquecer de levar. Ao lado, uma caixa vazia. O telefone começou a tocar, mas não teve tempo de chegar e atender. Cai na secretária eletrônica. Dizia na mensagem: Chegarei um pouco atrasado, mais fique tranquila que o negócio está quase fechado. A voz era desconhecida. Dez e quatro. Era hora de ir perguntar às pessoas na rua quem poderia ter visto sua mãe. Quando pretendia descer as escadas, ouviu um barulho de chave. Um homem alto, elegante e perfumado entrava juntamente com umas três senhoras que aparentavam ter uns sessenta anos. O senhor chamava pelo nome de minha mãe. Ele também a procurava. No momento em que eu ia descer para falar com ele e dizer que também não sabia onde ela poderia estar, uma das senhoras o cutucou e disse: - Ela não está em casa? - É, pelo visto, não. - Estranho, não é? Logo hoje? - Ah! Então é por isso. Há alguns meses, ela vai cedinho para o cemitério e fica lá até a hora do almoço. Dessa vez ela até deixou um bilhete para se lembrar de levar as bolinhas de gude. Pretendia enterrá-las junto. - Nossa! - Mas não se preocupem! Já ela chega e fechamos o negócio. O corretor estava ansioso pela venda da casa. Ninguém mais havia topado pagar um preço tão bom por uma casa velha e caindo aos pedaços. Marcelo Cassar Magdalena

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A vida por um fio

Sedução

O fio traça a lâmina A lâmina traça a espada. A espada traça o destino. De viver no fio da navalha

O bote é cilada Adverte à naja A flauta do encantador

Douglas M. Zunino

Yang e Yin Se tem alguém Que de um lado Por liberdade berra, Óbvio: Do outro lado Existe guerra.

Melhor seduz Quem se deixa dominar Alexandre Faria

Ulisses Tavares

A única pirâmide Se O jornalismo Ó santo ofício, ordena Quês, Comos, Ondes e Porquês Da forma mais preguiçosa só para vender Eu vos digo: chatice! Eu, à profissão aspirante, escritor vacilante, sempre achei deveras imbecilizante Essa história de lead e de pirâmide invertida de informações E também nunca fui fã das rimas, o que a esta altura já lhes parece claro Mas o que há de se fazer quando só os versos e a construção moderna o salvam Dos grilhões das reportagens, do chicote do editor ou da masmorra que é uma redação? Roteiros não revelam o final no primeiro ato, piadas não arrancam risadas sem desamarrar Filosofias não se constroem em um único parágrafo, e vidas não se contam em linhas engessadas Se chegaram até aqui, creio que já mereçam. A inexpugnável notícia. Tão endeusada pelos medíocres. Depois do jogo da Libertadores, Neymar esticou a noite em Porto Alegre e acabou preso no elevador. Roberto Passeri

www.leonardodavinci.com.br Av. Rio Branco, 185 – Subsolo – Ed. Marquês do Herval Centro – Rio de Janeiro/RJ Tel.: (21) 2533-2237

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O CHAI Num dia comum, uma 2ª feira, talvez, o telefone tocou cedo na minha sala, saí do quarto para atender, era meu amigo Guepardo ao telefone: “Dorvas, vamos fazer este mês lá no PPP (Poesia pra Pegar) uma homenagem à Índia? O que você acha? Posso chamar o Leiva, o Botelho, o Leco, o Rui e mais uns poetas que passaram por lá. Você topa?” “Claro, vamos nessa.” “Mas eu queria oferecer alguma coisa típica de lá, o que você me sugere?” “Ora, um belíssimo chai, que é fácil de fazer, pode ser servido para muitos e vai agradar a todos. “Tá joia, mas, como é que a gente faz?” “Bom, a base é chá com leite, porém tem lá seus mistérios, eu preciso pesquisar. Me dá umas horas, vou pensar e já te ligo”. Na Índia, anos atrás, o que eu mais fazia era tomar chai, servido em qualquer birosca em cada esquina de qualquer cidade naquelas pequenas canecas descartáveis de barro. Mas nunca fizera eu mesmo um “verdadeiro chai indiano”, só umas tentativas em casa − longe, contudo, de toda a riqueza daqueles temperos variados com que eram enriquecidos os muitos chais tomados na velha Bharat. Depois do café, entre uma e outra baforada, lembrei-me do amigo Alonzo Martines, que já estivera por lá mais de vinte vezes nos últimos trinta anos, e que certamente saberia mais do que eu acerca da beberagem famosa. Mandei-lhe um email, pedindo com urgência uma receita que pudesse ser aplicada aqui rapidamente, ou seja, com ingredientes facilmente encontrados, por exemplo, na Cobal do Humaitá. Guepardo me ligou mais à noite, eu o tranquilizei, o PPP era ainda na outra semana, o Alonzo me responderia com toda a certeza, não costumava falhar, podíamos ficar sossegados. Passaram-se dois dias, e nada. Mas, na manhã do terceiro, ao abrir minha caixa de entrada, lá estava o esperado email:

“Sobre como fazer um bom chai indiano − Alonzo Martines”. Quanto ao chai, sei que existem diversas receitas e maneiras de se fazer, algumas bem refinadas e complexas. A que eu conheço, porém, vem das ruas, de meu convívio com pessoas simples, comuns, e de observar os chaiwallas. E, é claro, aí entra também uma certa adaptação minha à atmosfera brasileira. Compreendi que há uma especial importância quanto às etapas da preparação. Parece que, diferentemente da matemática, na confecção do chai, a ordem dos fatores, sim, altera o produto... Então, em primeiro lugar, vamos despejar a água (medida em xícaras). Acender o caldeirão (digamos, com água para trinta xícaras). Alguns pedaços de canela em pau, alguns cravos quebrados (sem muita força) na mão. Gengibre ralado (no ralador grosso), um polegar para cada três xícaras. Se tiver cardamomo, pode colocar uma semente (quebrada no pilão) para cada três xícaras. Cuidado, o cardamomo é forte e não deve predominar. O gengibre, este sim, pode predominar, colorido naturalmente pelos outros ingredientes.

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Depois que a água ferver com todos estes ingredientes, é hora Bom, mãos à obra. Quem vai comprar o quê? “Se você quiser, de jogarmos o leite, de preferência em fio alto (calcular uns dois Guepardo, eu posso comprar aqui em Copa, depois você me padedos por xícara) e, quando estiver fervendo, jogar o açúcar, ga, lá na noite da Poesia”. “Não, não, deixa comigo, eu passo ali mas, por favor, de forma que ele se espalhe uniformemente na Cobal na própria tarde, antes do evento, e compro o que for pela água. Uma colher de sopa (tá bom, de sobremesa!!) de necessário”. “Tá certo. Eu levo a colher de pau, que tenho aqui açúcar cristal (ou refinado/careta) por xícara. E aí, vamos mexer, uma novinha em folha”. “Combinado, eu quero é que você dê com atenção, percebendo o que acontece. Para mexer, uma uma supervisionada lá na hora de mexer, abrir a mandala, etc”. colher de pau (de preferência, virgem). Olfato (sem desejo, tipo “Deixa comigo, vou chegar mais cedo para organizar a parada”. clínico.) Visão (quem é este eu que observa?) E assim foi. Só que, com a correria dos dias cariocas, não conNeste ponto, a mandala se abre! segui chegar no início da noite. Quando, finalmente, entrei no teatro, o caldeirão já estava no fogo, a Poesia já estava rolando e um rapaz desconhecido mexia o chai com outra colher, de alumínio, enquanto Guepardo se agitava para lá e para cá, apresentando os poetas da noite. Cheguei mais perto para dar uma olhada e notei que o chai estava muito claro, claro demais, aquela não era a cor de um bom chai indiano. Virei-me para o rapaz e perguntei: ”Vocês já puseram chá ou está só com o leite e os temperos?” “Não sei, foi o Guepa que misturou as coisas, eu só cheguei pra ficar mexendo”. “É que está um pouco pálido, você sabe onde está o chá?” O rapaz não sabia nada de nada, Assim que ferver, podemos jogar o chá em leque sobre a fui atrás do chá em meio aos pacotes empilhados num canto mistura e logo abaixar o fogo, abafando-a por uns dois ou três atrás do caldeirão. Não encontrei chá nenhum, nem tender leaf, minutos (fervendo, sim, mas – never tell a British about that!). nem twinings, nada. Onde será que o Guepardo teria escondido o tão precioso chá preto? Quanto ao chá, pode ser o de saquinho, tipo Tender Leaf, ou que tal. Funciona, mas acho que corta aquela onda do jogar. E as pessoas, curiosas, já começavam a rondar o caldeirão, Por isso, prefiro o solto... Uma colher de sobremesa por xícara. E perguntando: “O que tem aí dentro? Vocês vão servir pra todo outra coisa: ao usar chás mais refinados, special blends, devemos mundo?”“Onde estão os copinhos?”“Ali.” Peguei um copinho de verificar se eles vão interagir bem com o leite. Com o chá preto plástico, o que já não vi com bons olhos, servir qualquer coisa comum é mais garantido. quente em copinho de plástico é pedir uma dose de dioxina na veia, enfim, mas era o que havia, então, mergulhei o copinho Apagamos o fogo, tiramos a tampa do caldeirão e servimos no caldeirão e provei o que poderia ser o chai indiano, mas, um delicioso e genuíno chai indiano. Mais um segredo: se o infelizmente, não era. De jeito nenhum, aquilo não passava de caldeirão for grande, pode-se usar uma panela pequena como leite quente com especiarias. Senti um certo calafrio percorrer concha para passar pela peneira. Sim, é preciso peneirar a be- minha medula espinhal. Uma menina de olhos verdes estava ao bida antes de servir. O ideal seria se cada xícara fosse servida meu lado, já com um copinho na mão, esperando que a servisse. por um fio alto: dá uma arejada, uma espumada, é o toque final. Foi o que fiz, com um sorriso mais amarelo do que aquele leite temperado que o rapaz mexia com paciência. Enchi o copinho Sêva, serviço. Jamais self-service! O chai é para ser servido! Aliás, da menina de olhos verdes, que me sorriu agradecida, e parti está aí uma das características mais marcantes da Cultura Védi- qual um foguete atrás do Guepardo. ca: o serviço − ou o que eu chamei outro dia de “servicitude”. No mundo politizado, principalmente em períodos pós-ditadura, Puxei-o pelo braço, atrás do palco, e perguntei: “Guepa, onde é preciso um especial cuidado ao falar de serviço, obediência, é que você meteu o chá? Aquilo ali é leite com gengibre e solicitude − é compreensível. No contexto mítico, no entanto, só. Precisamos pôr o chá imediatamente!” “Mas já pusemos o é isto que possibilita ao indivíduo referenciar-se ao infinito, ao chá. Eu mesmo despejei uns dez saquinhos de chá dentro do eterno. Servir um visitante como se fosse Deus só traz bons caldeirão”. Olhei-o fundo nos olhos, aquilo estava realmente auspícios para quem o faz. E, sem dúvida, o chai é uma ótima me cheirando mal, alguma besteira devia ter sido feita, mas o forma de se fazer isso. quê? “Bem, me mostra lá onde está o chá”. Naquele momento, um poeta terminava sua apresentação, e ele teve que subir no Parece que Deus gosta de um chai...!!! He, he, he! palco para apresentar a próxima atração. Voltei para o caldeirão, que o rapaz continuava a mexer com paciência, agora auxiliado Grande Abraço, por uma menina de cabelos longos e lisos, que ia arrumando Alonzo. os copinhos de plástico em cima de um banco ali do lado, enquanto uma pequena fila de jovens se formava atrás dela, à espera da poção mágica que ela ia lhes servindo devagar e


NOTAS NO PLÁSTICO com cuidado para não derramar nem uma gota no soalho do teatro. Apenas os seus cabelos, vez por outra, encostavam no caldeirão e mergulhavam suas pontas no leite quente, sim, porque aquilo positivamente não era chai indiano nenhum. Vi então um homem baixo, com óculos grossos e um turbante na cabeça se aproximar; ele veio até mim e perguntou: ”What are you serving here, sir? Is that Indian chai?” O que poderia eu lhe responder, a ele que parecia saber do que estava falando? Sorri-lhe e resolvi eu mesmo achar o bendito chá preto perdido ali no meio daquela bagunça de sacos plásticos e sacolas, embrulhos, tudo amontoado no chão, num canto junto à parede. Estava um pouco escuro, a tarefa não era das mais fáceis. Foi quando chegou meu amigo Guepardo e me ajudou a encontrar o que eu procurava. “Está aqui! Você não está vendo? Chá,está escrito bem aqui”. Sim, estava escrito bem ali: Chá... Verde. “Mas, Guepa, você não leu na receita do Alonzo que tem que ser chá PRETO, de preferência o Tender Leaf comum, solto?”“Ué, mas o cara da loja me disse que este servia também. Eles não tinham chá preto lá, era uma loja de artigos naturais, não se vende chá preto em lojinhas naturais, cara”. Pensei com meus botões, agora não dava mais pra sair atrás de algum chá preto tender leaf em algum supermercado. O jeito era castigar no chá verde pra ver se dava algum resultado. Enquanto isso, o Seva se cumpria com a regularidade de um relógio suíço, a menina de cabelos longos e lisos servia as pessoas com muita calma e cortesia, o rapaz continuava a mexer o caldeirão com a colher de pau novinha que eu lhe dera, e o homem de turbante, após receber seu copinho de plástico com o leite temperado, deu um pequeno gole, olhou para mim e balançou a cabeça, como quem diz: “Esses brasileiros inventam cada coisa, leite quente com gengibre...” No dia seguinte, escrevi ao Alonzo, contando toda a aventura. Horas depois, veio a sua resposta: “Bom, meu amigo, o chá verde entrou ali como mais um tempero, igual ao cardamomo, o cravo e a canela. Mas se as pessoas tomaram e gostaram, então, valeu. O importante foi o serviço”. Valeu, Alonzo.

Pedro Lage

por MAURO FERREIRA

Livro dá corda às emoções do violão ao refazer travessia do instrumento Resenha de livro Título: Violão ibérico Autor: Carlos Galilea Editora: Trem Mineiro Produções Artísticas Cotação: * * * *

Como diz o pesquisador Sérgio Cabral no prefácio de Violão Ibérico, livro que traça a rota do violão, da Europa ao Brasil, o autor Carlos Galilea recolheu informações suficientes para escrever um dicionário ou enciclopédia sobre o instrumento. Felizmente, Galilea optou por fugir da linha acadêmica / didática e, sem prejuízo da informação, apresenta livro fluente que refaz, com certa poesia, a travessia intercontinental do violão. Da Península Ibérica, aonde chegou através dos mouros no século VII, até aportar no Brasil, passando pela necessária escala em Portugal, o violão unifica emoções. Ao entrelaçar dados históricos com entrevistas com violonistas dos três países que formam o eixo central da narrativa (Brasil, Espanha e Portugal), Galilea humaniza sua saga. Dar corda aos sentimentos e às percepções dos músicos no toque de seus violões é um dos méritos do livro.”...O violão é feito escova de dente. Você é envolvido por ele. A maneira como reverbera no seu corpo muda de instrumento para instrumento. Muda tudo”, pontua Lenine, entre declarações similares de nomes como Gilberto Gil e João Bosco. Ao historiar o violão com ênfase na presença do instrumento no triângulo Brasil - Espanha - Portugal, o autor puxa a corda cuja ponta vem lá do antigo Egito, terra das liras e harpas. Por conta da elegância da escrita de Galilea, Violão Ibérico segura a atenção do leitor até quando a narrativa se prende a explicações teóricas sobre a gênese do instrumento. Com estilo, o autor esclarece que as raízes da guitarra são tão europeias quanto árabes, reconta a saga do espanhol Andrés Segovia (1893 - 1987) − “O violonista clássico mais universal do século XX”, na definição de Galilea, e conclui, páginas adiante, que, no Brasil, é tênue a fronteira que separa o violão clássico do violão popular. Talvez, por isso mesmo, haja preconceito contra o instrumento dentro do universo da música erudita. “A gente era um pouco o primo pobre dentro do mundo da música clássica”, ressalta o violonista Marco Pereira. Com dois belos cadernos de imagens, nos quais salta aos olhos a foto de Gilberto Gil abraçado afetuosamente a seu violão, Violão Ibérico dedica generosas páginas ao flamenco − gênero iniciado como o espanhol Francisco Rodríguez (1795 - 1848), El Murciano. É quanto entram em cena os virtuoses identificados com essa escola de violão, como o espanhol Paco de Lucía e o brasileiro Raphael Rabello (1962-1995). Na sequência, o autor dá corda à guitarra portuguesa, alma do fado. Na parte final do livro, ligeiramente menos sedutora, Galilea aplica questionário idêntico a alguns virtuoses do violão brasileiro. Mas ainda aí há a paixão que motivou esse espanhol − estudioso da música popular − a traçar a rota do violão neste ótimo livro que celebra João Gilberto e Paco de Lucía, e que vai enredar tanto músicos como amantes da musa música. Confira mais Notas Musicais em blognotasmusicais.blogspot.com

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DESAFIO POÉTICO

MORTE SÚBITA

Corinthians é campeão

Neste desafio poético,

Sem temer rebaixamento

Corinthians é campeão...

Ele disse que eu não sei

Libertadores enfim!

convidamos nossos leitores a

O que é impedimento

Vamos buscar no Japão

Que não me leva ao estádio

O bimundial... tintim!

escrever poesias sobre a paixão

Nem me deixa ouvir no rádio

nacional, o futebol! Veja a seguir nossos poetas matando no peito e escrevendo pro gol! DA CABEÇA AOS PÉS A cabeça ralenta e-num-passe-leve-rola-pela-gramaa-zaga-enrola-e-perde-a-bolaataque-leva-mas-se-embola-até — que chute! — num impacto sobe ao céu desvairadamente míssil minúsculo, milésimos de eclipse, desce bomba meteórica mas aterrissa silenciosa.

Valter Mota

A partida do Mengão Mas ele que se prepare E ponha a bola no chão

DE SOLITÁRIAS ESTRELAS

Meu chute é forte, a mira certeira Sei dar carrinho e chaleira

Botafogo Botafogo

Sem ter medo de cartão

Glorioso campeão

Se precisar, chuto canela, me atiro, seguro a bola

De mil novecentos e dez

Fazer falta, cera e finta, aprendi lá na escola

Estrela de panteão

Sei driblar, derrubar adversário

Tuas vitórias se contam

Gol de placa eu já fiz desde o berçário

Por todos os mares navegados Pretos e brancos artistas

Agora ele vai pro banco, No time reserva, se chance me der Até aprender, na base do tranco: Futebol também é coisa de mulher

Marilena Moraes

E seguir a vida Sempre nova saída Recomeçar o carnaval No fundo do gol.

A Mãe do Juiz

Entretanto, a bomba-bola não mata. Mas se explode maltrata milhares de [compatriotas que, de mãos atadas, assistem às derrotas. A guerra nunca acaba, porque por mais que doa a derrocada, há mais regras que lá fora.

Caracterizada sem mérito algum que justifique

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Da arte de sofrer

Apanhar a fantasia rasgada

Disputam no campo, meio-campo, centro verde e deserto, exércitos — apenas pés cobertos — pelo objeto [inteligentemente bélico: explode somente no contato com a pele, [garante (d)eficiência. Empurrem para a pátria inimiga! Na fronteira, um soldado-parede (luvas protegem-lhe a pele), a última barreira do atacante, a última defesa.

Erick Moraes

Malabaristas

Botafogo Botafogo Glorioso campeão

Ela chora, grita e ri

De mil novecentos

Como qualquer torcedor

E tanto tempo

Ela se enfurece, discorda do juiz

Garrinchas anônimos

Mas não xinga tua mãe Tua mãe, afinal, é ela

Carregam tua cruz

Que nada tem a ver com a história

Tuas tripas

Pobre mulher

E corações preto e branco Não são cores

Ela é Por Uma Torcida Arrogante

São misturas

Por Uns Tantos Atrozes Oh, mãe

De arquibancadas E superstições Dores dessa gente que espera

Não chores

A volta

Eles não falam bem de ninguém

De Garrincha.

A menos que Porventura

Botafogo campeão!

Seu nome seja gol

(Ai, quem me dera...)

Luisa Paulino

Paulo Luna


1.

PoeGol

sabe aquela marca de cerveja que passou na tevê enquanto a gente tava pensando em ir ao bar mas desistimos porque na tevê o bar é bem melhor que ficar lá fora com você: o início do jogo é uma possibilidade a transmissão é uma outra

Como jogador de futebol Sou excelente Poeta Visto e suo a camisa Da poesia Na torcida Por um gol de placa Quando acerto em cheio Um coração A jogada ensaiada Entrosa palavra com palavra Avançam versos Cruzam na intermediária Do pensamento Entram na pequena área do coração Aqui vale gol de mão Manuscrita ou digitada Poesia falada Meu grito poético Na torcida organizada Dos Poetas Nesse time eu tenho vaga Seleção Brasileira da Poesia Arrisco-me fazer Algumas embaixadinhas Matar no peito Mandar pra rede E correr pra galera Ao delírio Nas “olas” de um livro Ganho a partida Assim o meu gol Eu poetizo...

2. e sabe aquela música de um cara que não me lembro bem se é negro se é brasileiro ou baiano mas tinha um jeito meio maluco de cantar e jogar, o que mesmo que ele dizia? era um negócio mais puxado para um jingado parecido com aquele outro sujeito, o michael jackson do pandeiro 3. sabe aquele jogo do santos que o neymar tabelou com o robinho e eles jogaram juntos, né? por pouco tempo e tinha um outro cara que jogava com a dez, um moleque que parecia meio assim meio assado que fez um golaço na final do paulista e eles foram campeões? me lembrou um time do galo que não chegou a jogar nem a existir nem a passar no bar mas que meu avô insiste em dizer o melhor time do mundo

Binho Cultura

Altinha

4. tinha lá tinha lá um outro cara que descia pela esquerda mas o professor de sociologia dizia que a esquerda não há mais então ele se aposentou e foi embora antes de terminar o contrato; esqueci o nome mas ele não era canhoto na entrevista ele chorou: jogo pela esquerda, meu tempo acabou

sobem as bolas nas rodas na beira do mar os corpos dos garotos bronzeados salgados ensolarados fazem piruetas radicais algumas meninas corajosas embelezam as rodas ninguém abandona o jogo enquanto a bola está no ar ele acaba junto com a luz ou a chegada da guarda municipal

5. ***

Thadeu C Santos

Ana Schlimovich

Ingrid Bittar

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responsa

MC

distância

foi quando vi uma passagem e atravessei aquele o númer o oponente sem tempo campo pernas para driblar o último mais um antes do arre mate então es tirei o de do míni mo do pé o terceiro na escala da trivela e o grande U não marca nem ofende tanto como gosto de terra presa na mandíbula tesa do ai acresce o que há de drama em um braço acusador quando estica tantos dedos quantos possam caber na palma aberta enquanto só um pode o não e ainda assim marca aponta severo e firme mas falso no verismo como o tombo o rolamento o estupor indicada a marca da giz da cal da penal como chamo ao passo que já trinou a campainha da falta me bate a cãibra e a fé qual seja talvez hoje eu possa fazer

um calor de derreter pusera óculos escuros daqui dá para ver que coxa! bumbum duro e a panturrilha? definida o suor respinga a galera vibra e a bola rola bola? que bola?

não quero te ver do ponto de vista que o marcos vê o rogério ceni numa partida de futebol entre palmeiras e são paulo

a diferença naquele espaço de tempo sem memória no lance do corpo que não corresponde ao repúdio uníssono da espera em silêncio do sopro que vem da arquibancada então inimiga aguardando o apito carrego a equipe como faltasse idade às pernas ciente de que em cada perna uma idade uma cena perdida enquanto ao encontro dela olho antes o antes do deslocamento dele e penso no caminho ao terminar à boca do túnel descendo as escadas como muitos e muitos trepados em minhas costas e depois à minha frente na boca os microfones esperando a declaração infeliz para a nota no jornal amanhã mas vou cumprir e chegar ao termo e quando chegar ao golpe que aqui ora inicio o pique vou seguir sem parar até o toque certeiro no gomo veneno da bola

André Capilé

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Cristhina Santhos

Futebol Que magia é essa, que hipnotisa a galera? Que magia é essa, que arrebata multidões? A bola rola como míssil, traçando linhas e curvas disparada, focada, destinada ao gol. De pé em pé procurando o gol. De pé em pé, evitando o gol.

Jovino Machado

FLAMENGO CAMPEÃO! Não me importo com as acusações que sofrerei; tenho consciência de estar sendo tendencioso nestas linhas pois não há de se negar voz ao coração: tremem por temê-lo e ao tê-lo à frente! Um mar suspenso, hermético, numa elipse de concreto: gente de verdade, de vários cantos, tons, peles, rostos: gente! A esperança, para nós, tem duas cores: intenso vermelho a galopar por nossas veias, batendo no peito de orgulho, paixão!; visceral negro, forte, êxtase que cega os que nos ousam tentar superar. RUBRO-NEGRO!

E os pés nervosos, em passes, impasses, procurando o gol, evitando o gol.

União perfeita extrapola estigmas, faz do impossível ponte sólida à glória que nos aguarda logo após a curva do último minuto: apita o árbitro e o mar não mais se sustenta, transborda das arquibancadas numa única explosão de doce redundância:

A bola rola, o tempo encolhe, a torcida grita, a tocida xinga, a torcida canta, as bandeiras flamam e o tempo encolhe e os pés nervosos, de passes impasses, procurando o gol, evitando o gol.

FLAMENGO CAMPEÃO!

Hernany Tafuri

Que magia é essa, que hipnotisa a galera, que volta ao campo, que grita, que xinga, que canta, que explode em Gooool!!!

Lenora Santos

Para a próxima edição, convidamos nossos leitores-colaboradores a escrever um palíndromo, de qualquer tamanho ou tema. Vale tudo, menos subir num ônibus no Marrocos! Envie suas frases de trás para a frente para desafio@jornalplasticobolha.com.br


ORÁCULO

por antonio Mattoso

O Samba de Calcanhotto “Numa festa imodesta como esta Vamos homenagear Todo aquele que nos empresta a sua testa Construindo coisas pra se cantar” Caetano Veloso

Júlio Diniz, em recente conversa com Adriana Calcanhotto, na série Grandes nomes, grandes discos (Rio de Janeiro, 2012), não se restringiu a um único disco, mas preferiu as veredas da criação da compositora e as canções inscritas na trilha sonora de nossas vidas. Nesse encontro memorável de música e narrativas, Calcanhotto contou-nos que, a pedido de Mart’nália, compôs o samba “Vai saber?”, gravado primeiro por Marisa Monte (Universo ao meu redor, 2006), e que só agora o samba chegou a quem é dedicado, a Mart’nália (Não tente compreender, 2012). Inexplicavelmente, a partir de “Vai saber” , diz Calcanhotto que passou a compor sambas, até a canção “Maldito rádio”, também a pedidos. Todos esses sambas foram, então, reunidos sob o título Micróbio do samba (2011), uma referência a seu conterrâneo Lupicínio Rodrigues. Nosso olhar se concentra nesse período, como diz Calcanhotto, “safra”, composto pelo Micróbio do samba e o Micróbio vivo (2012). Mesmo esse disco tão singular, cuja base é formada pelo trio Adriana Calcanhotto, violão, guitarra e piano, Alberto Continentino, contrabaixo, e Domenico Lancelotti, bateria e percussão, com poucos músicos convidados em faixas específicas, apresenta uma simetria que temos apontado na discografia de Calcanhotto, em outros textos para o Plástico. Em Senhas (1992), seu primeiro disco conceitual e reconhecidamente autoral, Calcanhotto, acompanhada pelo violão de Jaime Alem, gravara “Mulato calado”, de Wilson Batista, que, nos anos 1930, celebrizou uma polêmica com Noel Rosa. Os créditos, no entanto, registram M. Batista e B. Batista; segundo os biógrafos do compositor, Pimentel L. e Vieira L.F, no livro Wilson Batista (RelumeDumará, 1996), Wilson Batista assinava Marina Batista, nome de sua esposa, porque “os parceiros eram de sociedades arrecadadoras diferentes”. Originalmente, o samba foi gravado por Araci de Almeida (1947). Existem ligeiras diferenças em alguns versos cantados pelas intérpretes, mas vamos considerar a letra como consta do encarte de Senhas.

Passemos ao samba. Na primeira parte, o narrador nos No samba de Noel, existe um típico triângulo amoroso, apresenta seu personagem, pelos seguintes atributos: isto é, uma mulher entre dois homens: um de quem mulato e calado e com um violão, e sua ação, ter ma- ela não gosta e trai, e o outro, por quem ela não é tado um, intencionalmente repetida duas vezes, o que amada. Na primeira parte, o “eu” pergunta quatro dá notoriedade à ação, em seguida as circunstâncias: vezes “para que mentir?” a um “tu” que ignora o dom de iludir e a malícia de toda mulher, e trai, mesmo não o quando e o porquê. O narrador nos torna cientes do evento em oposição à insciência da polícia, porque em sendo correspondida; portanto, a mentira, própria do feminino, segundo Noel, e a traição ficam patentes Mangueira não há delator. Na segunda parte, o quem é nomeado, Zé da Conceição, e todas as circunstâncias desde o início. Na segunda parte, repete-se a mesma esclarecidas. O narrador espera então de seus ouvin- pergunta, intensificada pelo advérbio “tanto assim”; a tes a mesma cumplicidade e lealdade existentes em partir de então, se torna conhecido de ambos o fato Mangueira. Esse é o samba de Senhas, voz e violão. O de que o “tu” não gosta do “eu” e o trai, mas apesar da samba, parte integrante do imaginário musical rítmico traição − seja pelo ódio sincero, seja pelo amor fingido, e melódico do brasileiro, Wilson Batista, citado no be- o “eu” continua querendo-a. Calcanhotto relê Noel líssimo samba “Dos prazeres, das canções”, de Péricles trazendo ao samba dados novos: a transposição do Cavalcanti, do qual falaremos adiante, e Mangueira, “eu” para o gênero feminino e a traição tácita. O samba referência na geografia do samba carioca, esses três “Mais perfumado” também está dividido em duas parsignos estão de volta em Micróbio do samba, CD e DVD, tes, composta cada uma de seis versos seguidos do refrão. Curiosamente o “ele” está oculto no enunciado estabelecendo vínculo com Senhas. até o refrão em que é homólogo ao “homem que eu amo”, porém vai se desvelando por ações que, a princípio, não denotariam uma mentira aparente; nos três versos seguintes, começam a surgir as estranhezas por meio da lítotes, “não atrasado” e do paradoxo “sai para o jogo com ar distraído / e volta para casa mais perfumado”, concluindo com o refrão “ele acredita que me engano / pensa que sabe mentir o homem que eu amo”. Na segunda parte, repete-se o mesmo esquema semântico, substituindo-se a lítotes pelo sofisma “quando precisa comprar cigarro / porque A sonoridade una impressa pelo trio ao disco se contra- acordado de um pesadelo” e por um novo paradopõe, nas composições, à polifonia de vozes narrativas, xo, “quando sai cedo, terno escovado / e volta como tanto femininas, com timbres diversos, quanto mas- quem foi linchado”. Os dois paradoxos justapostos ao culinas. À exceção de “Vem ver”, em parceria com Dadi, refrão evidenciam a tensão entre o “ele” que mente, Calcanhotto assina todas as canções, cuja característica porém, em momento algum, admite sua mentira, e em sua obra são as frequentes citações literárias em suas o “eu” que é supostamente enganado. Quem mente letras. A poesia grega em sua origem não apresenta a cria um duplo falso do real; já quem ouve a mentira dicotomia, música e letra, mélos e épos são síncronos. ou pode ser iludido, isto é, entrar no jogo tomando o Em Micróbio do samba sobejam explícitas e implícitas falso pelo verdadeiro, ou pode desmascarar o mentireferências à música popular brasileira, a Chiquinha roso, tornando-o objeto de derrisão, ridículo, não se Gonzaga e a Cartola por um lado, a Noel Rosa por outro, deixando iludir, ou seja, não participar do jogo. Protalvez pelo fato de estar revendo um gênero musical cedimento semelhante se verifica na ironia socrática, genuinamente brasileiro. No ano em que se comemo- quando Sócrates, simulando ignorância, interroga rou o centenário de nascimento de Noel Rosa (2010), seus interlocutores expondo suas fraquezas éticas. coincidentemente o período de gravação do disco, Em Noel, todas as ações são manifestas e consabiCalcanhotto, em “Mais perfumado”, presenteou-nos das, pelo “eu” e pelo “tu”, enquanto em Calcanhotto com uma releitura de “Pra que mentir?”, de Noel Rosa a traição só pode se revelar subliminarmente, já que e Vadico (1937), feita também por Caetano Veloso em a mentira não é reconhecida pelo homem que pensa “Dom de iludir” nos anos 1980. Noel compôs o samba ter o dom de iludir, mas é discernida por um “eu” que, para seu grande amor, Ceci; dados biográficos à parte, compreendendo as artimanhas e jogos linguísticos ao tempo sobrevive a canção em si mesma. dele, simula acreditar.

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DOBRADINHAS

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por ALICE sANT’ANNA & Matilde Campilho

www.istonaoeumcachimbo.com

sonho Esta é a manhã dos trinta e nove graus e o rapaz mais novo repete em ladainha os acontecimentos da noite anterior. Fala do movimento muito constante de uma corda roçando suas gengivas e fala também de um equilibrista se posicionando repetidamente entre duas montanhas. Conta como o homem parecia estar se preparando para o atravessamento, mas parecia mais ainda estar bem consciente da queda. Não interrompi o menino, nem sequer cheguei a contar-lhe que andei com ele pelos mesmos lugares e na mesma noite. É tudo um sonho que se desdobra constantemente, tanto em sua linha vertical, como em sua linha horizontal − assim é o esquema de todas as noites. Suspeito sempre que tem um maestro muito inteligente comandando tudo naquele tempo incontável, invisível, na maioria das vezes incomunicável. E me parece que os cientistas nunca saberão explicar o sonho. Há um certo sossego nisso, como se fosse um afago divino em nossas cabeças ansiosas. Eles terão sempre muita dificuldade em explicar as corridas disparadas para lugar nenhum, os pés batendo sem ruído ora em campos de centeio ora em solo de boite ora nos crânios dos javalis ora em copas de árvores judias. Nunca vi médico nem cientista que fosse suficientemente corajoso para entrar no campo de uma visão noturna. No espaço da dormida não existe fogo, nem pecado, nem melancolia, nem a cor dos cabelos do anjo que recorrentemente tosse atrás da cortina de veludo. No espaço noturno, quero que você saiba, acho que uma dança de corda afagando os dentes é absolutamente equiparável ao movimento dos tambores do rei de Ghana. Matilde Campilho

revistaofelia.org A Revista Literária Ofélia é editada em Portugal. Com artigos, contos, poemas e uma diagramação muito bem cuidada, é ótima pedida para leitura de textos literários, escritos em português, de autores de Portugal, do Brasil e de outros países lusófanos.

neres-outrossilencios.blogspot.com.br Este blog divulga eventos literários e livros, publica poemas e tem links para revistas de arte e outros blogs que têm a literatura como tema, seja em prosa ou poesia, em português e em espanhol.

paralerepensar.com.br/index.php Site que permite contato com muitos gêneros textuais. De textos de autores consagrados a cordéis, artigos, frases e ditos populares, e ainda há a possibilidade de você publicar seu texto e/ou de comentar os textos publicados. Além disso, disponibiliza links para as revistas e jornais de grande circulação, museus e artes em geral, música e atualidades. É um lugar para quem quer colocar seus escritos em circulação, experimentar a aventura de ser também autor.

o que era estanho daquilo tudo é que eu caminhava com muita pressa e quanto mais eu corria mais aquela placa, lá na frente, ficava parada no mesmo lugar, digo, a mesma distância. e não era um sonho aquilo, sei que sonhei com uma pastilha que fazia crescer um eucalipto dentro do corpo, um tronco que subia pelas costelas e deixava escapar uma folha bem verde e bem miúda pelo ouvido embora com os cabelos tentasse disfarçar a folha fazendo cócegas e subindo a ladeira e a placa que se mantinha lá longe apesar de minha investida o gosto ou o cheiro ou só de saber da árvore que crescia dentro e tomava o corpo e talvez fosse impossível saber como terminaria a história se o eucalipto me sufocaria ou se poria fim à gripe, se a placa caminharia em minha direção se o fim seria enorme, bom ou perto

acicuta.wordpress.com

Raïssa Degoes

Um jornal irreverente! Preparado por Pablo Thiago Bosco, Raphael Vieira, Vinícius Masutti e Vinícius Cintra, A Cicuta publica textos com tons de crítica e humor, com uma “pitada filosófica” muito própria e um quê de acidez. É uma boa pedida para olhos que desejam literatura e um pouco mais.

Vale o clique!

Alice Sant’Anna

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Luiz Nadal queria ter sido Truman Capote ou Madame Bovary, mas sua paixão pela literatura acabou levando-o a criar o site “Isto não é um cachimbo”. Nele, são apresentados diversos nomes da literatura contemporânea em perfis bastante inusitados. Tudo com direito a trilha sonora e acompanhamento gastronômico!

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FLORBELA ESPANCA

A fábrica de tecidos

Florbela, Fada branca, Dolorosa, A dor foi teu dote, Teu embate, Teu prazer, Transfiguraste o mundo Em arte.

a vida do casal tem pouco com as questões desmedidas pouco a pouco é costurada como faz a aranha, arquiteta genuína são amigos calculam o gasto no fim do mês não praticam exorbitâncias

Florbela, Asa branca, Amorosa, O amor foi tua sede, Tua loucura, Teu vinho forte, Choraste sempre O ausente. Florbela, Égua branca, Potranca insaciável, Eros foi teu amante, Bebeste fel amargo, Na luminosa taça De um sol agonizante. Florbela, Branca castelã, Princesa de boca rubra, Isolada numa torre de névoa, Espalhaste sangue Pelos cravos Da volúpia. Alavanca de quimeras, Primavera na charneca, Força demoníaca, A poesia de Florbela Espanca. Raquel Naveira

da teia no alto da coluna a aranha desce acrobata de circo para o tapete parcelado em 10x sem juros a vida do casal é franca microempresa de grandes projetos já compraram o novo fogão a sombra passeia no teto silenciosa planeja a teia presença insuspeita nessa família

Ingrid Bittar

as patas do ressentimento desejam ao casal maduro a peleja dos intempestivos

MOTIM O coração não bate: virou uma pedra que a si própria quer lan çar. Pensa em achar alguém, porque só resta bater-se . Há uma fúria que extrapo la

pela chama dessa vela acesa do casamento só restam cinzas da viúva negra, inquilina intrusa. Ana Salek

a carnadura.

A pedra pesa no corpo como um botão de rosa vergando o caule: bate a sua dureza. Diogo Borges

s dentes silêncio ardendo no (madrugada) zante, pólvora macia, desli ventres. abrindo segredos e anhã/ fresco cimento da m o e ec rp to en as rn (um descuido das pe ia). quinas de tua ausênc escorre oleoso nas es Raquel Gaio

Encontro timbre vin ho aspirad o mudas de mudas pala vras pernas de noites mo rd idas bocas entr elaçadas Naiara Barr ozo

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Denize I Denize, meu sol. Em primeiro lugar, perdoe minha longa falta em nossas correspondências. Saiba que a saudade e a vontade que sinto quando penso em você não minguaram, de forma alguma. Pelo contrário, busco forças para tolerar o suplício que causa a distância que nos separa. Acontece que, nos últimos dias, Jussara – essa monstruosidade peçonhenta que chamam de minha mulher – foi acometida do mais alto grau de desconfiança e irritabilidade de que tenho conhecimento desde o malfadado dia em que nos casamos. Estávamos sentados à mesa do jantar, na noite da última terça-feira, quando a infeliz largou os talheres sobre o prato e iniciou uma série de perguntas sem sentido, imersa num estado de alteração que me deixou atemorizado. Depois disse que havia encontrado, minimizado na tela do computador, um daqueles nossos e-mails fogosos, recheados com a nossa intimidade, e finalmente me perguntou, entre os dentes cerrados: “Quem é Denize?”. Pergunta à qual recusei resposta retrucando com imediata indignação e fazendo a discussão enveredar para o âmbito da invasão da minha privacidade. Me custa crer que tenha sido leviano a esse ponto! Todavia, cuidarei para que Jussara não tome mais ciência da nossa troca de mensagens e voltarei a lhe escrever assim que possível. Ela me vigia. Vigia o computador. Um inferno. Com carinho, Jofre. II _enize, meu sol. Aproveito este momento em que a casa está vazia para lhe escrever e para confirmar o recebimento _e sua última mensagem. Sim, é provável que eu consiga subir a serra na próxima sexta-feira, sob o pretexto _e presi_ir um seminário em Belo Horizonte. Como você reparou, a quarta letra _o alfabeto sumiu _o tecla_o _o meu computa_or. Logo a letra que inicia o seu nome, o nome mais belo que há! Oh, pequena garbosa! Se você soubesse o calor que sinto quan_o mentalizo nossos feria _os secretos em Saquarema! Envio notícias assim que possível e assim que conseguir consertar o problema no tecla_o. A miserável chegou, preciso ir agora. Um beijo na sua coxa. Eternamente seu, Jofre. III M&u sol. Jussara ficou louca! Foi &la qu&m arrancou a inicial _o s&u nom& _o t&cla_o. Agora tirou o “&” tamb&m, com uma colh&r. Avisou ain_a qu& as próximas l&tras serão o “N”, o “I” & o “Z”. Não s&i mais o qu& faz&r com &ssa vaca! Por favor, t&nha paci&ncia. Não posso subir a s&rra na s&xta-f&ira. Jofr&. IV Sol. &sta s&rá a últ!ma v&z qu& m& comu~!co com voc&. Pr&c!so f!car com Jussara, &la ~ão &stá b&m. M& p&r_o&, por favor! &U T& AMO

Zé McGill

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Jornal Plástico Bolha #33  

Jornal literário independente aberto à publicação de poesia e prosa de autores contemporâneos.

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