Page 1


4 editorial


mulher à brasileir S

ou totalmente apaixonada pelas mulheres. Convenhamos, sou apaixonada por todos os seres humanos, mas acho que as mulheres merecem ser chamadas de obra-prima. Quem além delas consegue executar ‘250’ tarefas ao mesmo tempo e ainda sim desbravar o mundo?

Mulheres são exatamente o que quiserem ser: escritoras, presidentes, frentistas, médicas, balconistas, cozinheiras, piloto, cientistas, domésticas e quase sempre, somadas a isso, elas são donas de casa e mães. Ou se dedicam especialmente a serem mães e donas de casa, o que, cá entre nós, já é uma tarefa hercúlea.

Mas, apesar da dimensão de seu papel, aproximadamente 105 milhões de mulheres brasileiras enfrentam todos os dias o machismo, o sexismo e a misoginia. Se às vezes a subjetividade torna difícil apontar atitudes machistas e misóginas, as estatísticas revelam facilmente suas consequências.

As mulheres ganham, em seus rendimentos salariais, até 62,5% menos que os homens para desempenhar as mesmas funções, conforme pesquisa realizada pela Catho. A diferença salarial muda se levado em consideração a etnia, constatando que mulheres brancas ganham apenas 67% do salário dos

homens brancos, que estão no topo da pirâmide econômica. No final da fila, mulheres negras embolsam somente 38% do valor, de acordo com dados do censo 2010.

Resumindo, mulheres têm mais obstáculos a transpor do que homens. Se negras, por sua vez, mais do que brancos, nascendo diante de um Himalaia de desigualdades históricas. . * A garra das mães solos, de leste a oeste, faz com que a música de Negra Li, “Homenagem as Mães”, toque fundo a

alma de toda mulher que é, já, foi ou deseja ser mãe em meio ao caos brasileiro. Após enfrentar tempestades, uma jovem mãe solta o verbo. A carioca Sandri, no aconchego do seu lar, aproveita o colo dos seus três filhos Alyson, Renan e Geovanna, e dá um depoimento destemido na página 26. * Visionárias e atentas, as cariocas Élida Aquino, Bárbara Vieira e Graucianna Santos, perceberam a falta de representatividade, no ramo da beleza, em relação às mulheres de pele negra. O diálogo próximo entre empreendedorismo, representatividade ativa e luta contra o racismo na indústria cosmética, resultaram em um negócio empoderado para fazer jus à causa. Texto Paola Ferreira* *Paola Pinto Ferreira, mulher preta e periférica, é militante dos movimentos feminista e negro há 5 anos. Em busca de visibilidade para essas minorias, escreveu e coordenou a primeira edição da revista Power.

5


sumário Página 8 | FEMINISMO Ser mulher no brasil continua sendo resistência, luta, suor, coragem e força para caminhar em meio às adversidades.

30 | NEGÓCIOS Em meio a desigualdade de gênero, o empreendedorismo feminino é um passo para equilibrar as frentes de liderança no mercado de trabalho.

“Não se nasce mulher, torna-se” 6 sum[ario

38 | CULTURA A cultura influencia o desenvolvimento da sociedade, sendo moldada para novas experiências.


Editora PAOLA PINTO FERREIRA Projeto gráfico e diagramação PÉTALLA MENEZES Impressão BUREAU POWER IMAGE Fotos editadas por ordem de aparição

Capa Olayinka Babalola. pg4 Henri Meilhac, Sabrina May, Luizgyyer. Ella Jardim, Abo Ngalonkulu, Drew-Roberts, Timothy Paul Smith. Pg6 Autumn Goodman, Daniel Monteiro, Ionut Comanici, isaiah-mcclean Pg7 David Sedrakyan. Pgs 8 e 9 Marcello Casal Jr./Agência Brasil/Fotos Públicas. Pgs 10 e 11 Marcha Ni Una Menos, RJ/Divulgação. Pg13 Brooke Lark. Pgs 16 e 17 Arquivo pessoal das pessoas creditadas nas fotos. Pgs 19 e 20 Quadrinhos da Gabriela Masson. Pg23 Divulgação/Beta. Pgs 24 e 25 Arquivo pessoal das pessoas creditadas nas fotos. Pg26 Omar Lopez. Pg27 Arquivo pessoal de Sandri Sá. Pg30 Tanja Heffner. Pg31 Brooke Lark. Pg33 Nik Macmillan. Pgs 34 e 35 Afrobox/Divulgação. Pg37 Dashu83. Pg38 Divulgação. Pg41 MC Carol/Divulgação Pg43 ModCloth

Projeto orientado por

Rosane Lopes Corrêa Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. UFRJ, Brasil. Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. UFRJ, Brasil. Professora dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda na Universidade do Grande Rio.

Marco Aurelio Veiga Martins Graduado em Desenho Industrial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. UERJ, Brasil. Especialista em Desenvolvimento de Produto pela Universitat Politècnica de Catalunya. UPC, Espanha. Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. UFRJ, Brasil. Professor dos cursos de Comunicação, Design Gráfico e Design de Moda na Universidade do Grande Rio.


8 feminismo


re-sis-tĂŞn-cia

substantivo feminino

1. ato ou efeito de resistir. 2. propriedade de um corpo que reage contra a ação de outro corpo.

9


Como é sercodinome mulher no brasil? resistência

O

Brasil continua muito violento e machista – e por machista entende-se que historicamente as mulheres consistem numa minoria, mesmo correspondendo, em 2015, a 51,48% da população brasileira. Ainda não há igualdade de gênero com a base de que biologicamente o homem e a mulher não são iguais. E, apesar da importância de todo o seu papel dentro da sociedade, a mulher é, por diversas vezes, silenciada, oprimida e vítima do homem e/ou do sistema que o privilegia.

“SER MULHER NO BRASIL É F*DA” Apesar de ter dado a homens e mulheres o mesmo nível de acesso à educação, o país não evoluiu em todos os aspectos sociais ligados a condição da mulher na sociedade. O relatório Retrato do Gênero no Brasil Hoje, do Banco Mundial, aponta as desvantagens que as mulheres sofrem, em especial nas regiões mais pobres do país,

com diversas fontes que fazem comparação às demais latino-americanas. “É de extrema importância que se tenha uma luta voltada para as desigualdades raciais e geográficas, fundamental para conquistar a igualdade de gênero. Para conseguir bons indicadores do progresso feminino, não se pode fechar os olhos para grupos que ainda estão para trás”, afirma assistente social do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS/ UERJ), Anália da Silva Barbosa.

Geografia e raça são fatores importantes quando se fala em chances de morrer violentamente O relatório Retrato do Gênero no Brasil Hoje aponta que, em comparação realizada em 83 países, o Brasil é apresenta o quinto maior índice de homicídios de mulheres. Entre as regiões, o Sudeste

tem os menores índices - passando por uma diminuição de registros entre 2003 e 2013. Enquanto o Norte o Nordeste, durante o mesmo período, tiveram o índice elevado em mais de 70%.

Em suma, o aumento se manteve entre mulheres negras e indígenas, especialmente no Nordeste, onde o índice de homicídios de negras e pardas aumentou 103% ao longo de dez anos.

Apesar da jornada de trabalho maior, o salário ainda é muito inferior ao dos homens De acordo com o levantamento do Banco Mundial, na perspectiva dos países da América Latina e do Caribe, em 2010, as mulheres ganharam 71% do salário dos homens.

10 feminismo

Ambientando somente para o Brasil, os salários das mulheres negras são inferiores aos pagos aos homens e às mulheres brancas com o mesmo nível de educação. Segundo a

pesquisa, Segundo dados, negras faturam cerca de R$ 15,6 por hora; brancas, R$ 21,5 e os homens brancos, R$ 32,7.


Formação educacional não significa maior participação em grandes setores do mercado de trabalho O nível de escolaridade, além do índice de alfabetização de jovens (15-24 anos), é crescente para as mulheres, chegando a 99% - quando, em 1980, era 84%. Apesar disso, o relatório mostra que, desde 2005, a participação das mulheres em grandes setores subiu apenas um ponto percentual.

De acordo com o documento, a cada ano, cerca de dois terços dos formandos nas universidades brasileiras são mulheres. No entanto, apesar do aumento do nível de escolaridade, 45% das mulheres ainda estão agrupadas em setores de menor crescimento e de menor retorno salarial,

como serviços sociais, educação, hospedagem e alimentação, serviços domésticos e saúde; enquanto 48% dos homens que estão empregados trabalham na construção civil, na indústria e na agricultura.

Mulheres ainda são minoria dentro da política brasileira Nos últimos anos, cresceu o número de mulheres candidatas a um cargo político. Apesar disso, os resultados não significaram o aumento da representatividade feminina no Congresso brasileiro. Para a Câmara dos Deputados, em 2010, 45 mulheres foram eleitas; enquanto, em 2014, 51 candidatas alcançaram assentos, representando respectivamente 8,8%

e 9,9% dos 513 deputados da Câmara. Em 2014, o Senado Federal renovou um terço dos seus 81 assentos, elegendo cinco parlamentares mulheres que se juntaram às seis já escolhidas anteriormente. Deste modo, as 11 mulheres que ocupam o Senado Federal representam apenas 13,6% dos assentos da casa.

Os números considerados abaixo da média da América Latina e do Caribe, onde 26% dos políticos nos parlamentos são mulheres, coloca o Brasil em 113º lugar global na Lista de Mulheres nos Parlamentos Nacionais, da União Interparlamentar – organização internacional dos parlamentos dos Estados soberanos.

A gravidez precoce ainda é uma forte realidade entre as mais pobres A taxa de fecundidade adolescente (15 a 19 anos) no Brasil está diminuindo desde o início do século 21, passando de 87,47% em 2000 para 70% em 2013. Porém, segundo os Indicadores de Desenvolvi-

mento Global, continua acima do nível médio que se encontra na América Latina e Caribe, de 67,7 em 2013. De acordo com o relatório, os altos índices de gravidez na adolescência no Brasil se relacion-

am com alta vulnerabilidade social e pobreza. O Norte concentra o maior índice de adolescente grávidas, tendo, nesta região, uma em cada cinco mulheres dado à luz em 2013.

11


Feminismo é su lut!

E

ntre tantos questionamentos que surgiram na última década, o feminismo se tornou um dos termos mais procurados na internet, tendo um aumento de procura de 217%, de acordo com a pesquisa de comportamento e tendências, Google Fashion Trends, da Google.

O fato, é que ‘ativismo digital’ trouxe à tona um movimento feminista, repaginado, antenado e ativo, mas com a mesma premissa das mulheres que lutaram por direitos desde os primórdios. Mostrando que, de fato, o feminismo é uma luta das mulheres pela busca de direitos equiparados aos homens e contra todas as formas de

opressão exercidas sobre as mulheres.

Luciene Medeiros, conselheira no Conselho Municipal dos Direitos da Mulher e coordenadora do Fórum Municipal dos Direitos da Mulher, ambos de Duque de Caxias, explica que, no século 21, ainda há muita luta pela frente. “A expectativa era de que os direitos da mulher iriam avançar ainda mais. No entanto, o que se dá é só a luta pela manutenção dos direitos conquistados no século 20. Por exemplo, a lei do aborto, que proíbe o procedimento em casos de estupro, é totalmente um retrocesso. Infelizmente, a gente não consegue avançar. O movimento feminista e em prol das

12 feminismo

mulheres tem sofrido com grandes barreiros. Hoje, precisamos mais do que nunca lutar contra o retrocesso que acomete nossos direitos já obtidos”, afirma. E, apesar do avanço da humanidade, em pleno século 21, mulheres continuam a luta pelos seus direitos ainda negligenciados pelo Estado e pela sociedade. A Catho, empresa de vagas de emprego, através de uma pesquisa, mostra que mulheres ganham até 62,5 % menos que os homens, enquanto um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que mulheres trabalham 7,5 horas a mais que os eles. Muito além

do mercado de trabalho, às mulheres lutam todos os dias pelo direito sobre seu próprio corpo, pelo direito à vida – colocando na roda o aumento da violência física, 10%, cerca de cinco milhões de mulheres; violência sexual, 8%, 3,9 milhões; feminicído, tendo entre 1980 e 2013, 106.093 pessoas mortas por sua condição de ser mulher; e a criminalização ao direito do aborto legal –, pela falácia da ‘obrigação’ de ser mãe, pela re-presentatividade sem os estereótipos que desumanizam as mulheres, pelo fim da dominação de gênero, entre outras pautas. Dentre elas, a base e mais difícil de ser conquistada dentro da sociedade patriarcal, o respeito.

Feminismo não é o contrário de machismo? “O feminismo não é o contrário do machismo. O movimento feminista quer,


e reivindica, uma sociedade em que as relações de gênero não sejam marcadas pela desigualdade. O machismo é outra coisa, sendo a suposição de que os homens são superiores”, aponta Luciene Medeiros. Sendo uma luta de mulheres contra o patriarcado, um dos grandes debates dentro do movimento feminista é a participação masculina em suas lutas. Em suma,

homens podem apoiar campanhas pelos direitos das mulheres. Porém, existem discordâncias entre as feministas, quanto à denominação desses homens: parte delas diz que sim, homens podem e devem ser chamados de feministas, outra parte diz que não. Para a feminista liberal Cecília Lopes, deixar homens do lado de fora do movimento feminista é, em parte, segregação. “Cremos que os homens também sofrem com sexismo, seja através

de privilégios ou de obrigações adicionais, sendo essencial a participação masculina para erradicar o sexismo para todos. Além disso, somos favoráveis a um debate amplo e aberto”. No entanto, a jornalista e feminista radical Julia Cabral, acredita que só pode se denominar feminista quem for vítima institucional do machismo, ou seja, as mulheres. “O feminismo radical não admite que uma casta que, desde sempre, oprime mulheres se aproprie de um termo que representa a resistência diária de uma mulher”, contou. Já para a femi-

nista interseccional Laís Fonseca, professora de literatura e pesquisadora do movimento feminista, homens não são feministas, mas podem ser pró-feminismo. “Homens não conhecem o sofrimento da mulher e não são capazes de senti-lo por motivos óbvios. No entanto, são uma ponte para promover essa conversa com a sociedade”, afirmou. Os diferentes apontamentos possuem grande influência das vertentes existentes dentro do feminismo. De acordo com a pesquisadora Carolina Branco de Castro Ferreira, é possível identificar três tendências mais populares no feminismo brasileiro hoje: o feminismo negro, o feminismo interseccional, e o feminismo radical. A estas, se pode acrescentar o feminismo liberal, “importado” dos Estados Unidos por meio da cultura pop.

13


Feminismo interseccional Busca observar as diferenças, através de recortes de gênero, raça, classe e sexualidade, compreendendo as particularidades e as necessidades específicas de cada mulher. Luta por equidade até mesmo entre as mulheres, pois reconhece que mesmo entre mulheres pode haver opressão, da mulher branca para a mulher negra, da mulher heterossexual para a mulher homossexual.

Referência: Entre suas principais autoras estão Avtar Brah, Anne McClinton e Kimberly Cranshaw.

Parte do pressuposto de que é preciso lutar não só contra o machismo, mas também contra o racismo - opressão dupla que não chega à mulher branca. As mulheres negras protagonizam o feminismo negro, aliado ao Movimento Negro, com o objetivo de promover e trazer visibilidade às suas pautas, além de reivindicar seus direitos.

Referência: Audre Lorde, Sueli Carneiro e Angela Day são algumas das formuladoras desta corrente do feminismo.

Feminismo negro

Feminismo liberal Prega o empoderamento individual e propõem mudanças nos sistemas jurídicos, mas não mudanças nos sistemas sociais. Ao contrário do Movimento Interseccional, não apresenta recortes, sejam eles étnicos, sociais ou referentes à orientação sexual. O Movimento Liberal possui como umas de suas pautas a liberdade sexual feminina e igualdade de direitos civis. Diferente do Feminismo Radical, aceita homens, sem problemas, no movimento. Busca o respeito às escolhas da mulher diante da sua vida, seja qual for, pois estará exercendo seu poder de decisão.

14 feminismo

Referência: Mary Wollstonecraft, Betty Friedan, Gloria Steinem e o filósofo John Stuart Mill são alguns de seus formuladores.

Surge da ideia de que a raiz da opressão feminina é o papel social inerente aos gêneros. A vertente acredita que as mudanças ocorrerão se houver abolição de gênero, pois este foi construído socialmente para manter a subordinação das mulheres. Tendo como forte exemplo a luta pela abolição da prostituição e da pornografia, onde o movimento acredita só existir porque favorece a exploração da mulher pelo homem.

Referência: Shulamith Firestone e Judith Brown.

Feminismo radical


-----

15


o o que que fazer fazer Diant Diantddmachism? machism?

--------------

---

"

Devemos educa r nossas crian ças e também os que cresceram com uma consc adultos iência equivoc mulher”. A luta a d a co sobre “ser ntra o machism das mulheres, o deve existir n sendo não só co o co tidiano ntra a opressã mas da mulher o da mulher br negra, da lésbic anca, a, da latino-am preender as pa ericana... É com rticularidades de cada grupo pautas e as luta social para que s fortaleçam to as das ao invés de excluir.

"

"

Ludymila S ouza, Cientis ta Social

-------------------------Sou produtora cu ltural há 14 anos urbana, e não qu , porque amava música e cultura eria estar em ou tro lugar senão Sempre foi um fazendo parte di ambiente cheio de sso. ou certo, e també mulheres, mas a m os meios de p va li da çã o do qu rodução, seja no e é bom stream, é dirigid independente ou o por homens. E no mainntão na criação nhecer a desigu aldade de gêner e na direção eu o durante os pro passei a recobens culturais. A cessos, no acesso partir do dia em e n a produção de que eu passei a p de mim e com ou ensar e agir sobr tras mulheres m e isso para além e de sc meu ativismo cu ltural, imaginan obri feminista. Isso também se somou ao do outro mundo isso juntas. e reunindo pesso as para fazer Entender que o feminismo é par a mudar as estr dada pelo patriar uturas capitalis cado, é fundam tas, comanental para que p secular, garanti ossamos continu r nossas conquis ar esta luta tas e avançar nas na pluralidade questões contem de feminismos. p orâneas, Não precisamos mulheres, elas já construir espaços estão neles. Preci para as samos fazer o qu que não era pra e sempre nos diss nós: criar as nos eram sas narrativas, referenciais. Tu representações, m do isso em co-cri emória e ação no espaço co cultura machist mum, que precisa a para ser um am mudar seus par biente livre de se âmetros e parar xismo, onde toda de reproduzir a s e todos são responsá Giordana Mo ve is por isso. reira,

16 feminismo

Produtora C ultural


----dvogada, ade. Como a ed ci so a te peran possui aior desafio creditam que o homem m o ss o n m o e o é sempr e logo busca eralmente a er g lh , u er m lh à u O machism r m e ntes por ser que é superio r de ter um histórico d , ie cl so i ca d er m p u á a ir j nça para ger situações desse tipo, apes ização, inclusive pelos mais confia s lor a a v er ente am inúm os uma des em r f o S dar diariam e. li d por eles. For a to a id f v O ti a l. a inh as rea sua sucesso na m que bastante velada, m ídas não a livra de ter a u r d inst colegas, ain tese, são bem ada. em e, u q s a so on com pes sional questi is f o r p a ci mento competên a o enfrenta ma r a p es er lh as mu autoesti pacitar noss ando a sua ca lh e a u b q a s o tr e v em T têm quando fio, inclusi es a es er d lh e u m m r o s a as desse en que algum boas em tod ça s o n a m r so u s g a se d e o. Nós to e a falta d do de trabalh nos dedicar, ser mulher ca er m o n imos edade entram ção que decid que ninguém - e a soci a tu a e d s ea as ár ior do melhor ou p a n r to s o n o nã aceitar isso. e er d n te en precisa or’. s vezes melh a u d r se s o ‘precisam ele lance de u q a d a eg h C da , Advoga s n i t r a M Kessiane

"

-

---

"

"

---

agogo i um ped cargos de liv a c n u ica n ndo pedagóg ioria está ocupa ue é, muitas a e r á a d q a e dentro a? A grande m salas - o s s o a n n a s o o c i s filhos’. cin tam ênc o s á d e ‘d i , h c s a e a n d r i g i e o o u C g . que c , mulh Sou peda em sala de aula anto nós a mulher como a u q n o e d , ) n o o trabalha eção/coordenaçã sto que colocam de gêner s e õ t s e u q i (dir era, v mo as o ao derança ao máxi o à desconstruçã edade esp i o c o lh s a a b a e u a, tr isso e ced vezes, o q Em turm ca. Vejo que desd la livre não tem . ] s o s i r [ gógi as m au gras’ inhas re imples, mas peda lexões simples. E om que as crianç m , la a s ‘Minha ças, de forma s mo que com ref o e isso já faz c odos. te é pra t unt mes r j rian , o c o a p s i d s a r e u á t o s m é , s o c o’, nece ênero s de menin o se faz ão por g mente ela z machism ra de menina ou alguma distinç li e f n I ças. adei eira das crian isso, busco conde ‘brinc e não há de man o d n i v , qu or smem ante d percebem istas, pa lquer lugar. Di redito que o melh h c a m s e c a oduçõ m qu cola, pois a com repr ó em casa, mas e ele tipo de coisa, mofobia, é na es s s a m le b ro não s l aqu o e ho o mai Já tive p que vêem ar que não é lega sexismo, racism e em um futur o m e t e rep ir o ação mostr esconstru acredito na educ d versar e a r a p lugar de tudo, e, acima alitário. , igu rteloni

Be Jéssicaedagoga P

17


GAROTA SIRIRICA

corp, sexualidad  poític E

Em algum momento das andanças da internet, provavelmente você já tenha caído junto aos quadrinhos da artista Gabriela Masson, a Lovelove6. Autora de Ética do Tesão na Pós-Modernidade, Masson responde pelo mais novo sucesso na ‘net’, a história em quadrinho (HQ) Garota Siririca — que fala de sexualidade, feminismo, liberdade, tesão, sobre amar a vagina, os cheiros, as texturas, os pelos e os ciclos, sempre usando garotas como protagonistas.

Para quebrar paradigmase protestar contra os tabus que se formam sobre o corpo da mulher, principalmente sob a masturbação

18 feminismo

feminina, a Garota Siririca, desde 2013, leva conteúdo representativo às mulheres, a fim de mostrar que não há nada de anormal em se satisfazer consigo mesma. De acordo com Gabriela, é de suma importância que a mulher tenha contato com seu próprio corpo, com seu próprio sexo — no caso da fêmea, a vulva. Com todo o conteúdo sexual sendo produzido dentro da indústria, que, por sua vez, é dominada por homens, a mulher tem sua sexualidade explorada, dominada, controlada e até mesmo desprezada. Diante disso, para Lovelove6, o hábito da masturbação para mulheres é, além de prazer, uma prática simbólica da autonomia

feminina. “As mulheres precisam se libertar ou, ao menos, aliviar um pouco a frustração esmagadora que é depender emocionalmente e sexualmente de homens”, critica. Muito mais do que somente uma HQ, o trabalho desenvolvido pela artista é uma crítica a sexualidade — e a força — reprimida, onde, muitas vezes, a mulher não possui liberdade sobre o próprio corpo — o que reflete em questões que podem gerar desconforto imediato. “Eu levo muito isso aos quadrinhos, a questão da libertação. Pois, se há algo que a mulher pode fazer é recusar, mais ou menos, radicalmente os padrões heteronormativos impostos pela sociedade e


19


20 feminismo


pelas indústrias. Um gesto de recusa pode ser, por exemplo, parar de depilar as pernas (sendo o corpo depilado uma das mais fortes características de diferenciação sexual atualmente), o que envolve uma desconstrução crítica e individual do que concebemos como nossos ‘gostos pessoais’ em função de uma libertação coletiva das mulheres”, afirma a Gabriela Masson. Aqui, nossa troca de ideia com ela. Power: Quando e porque começou a criar quadrinhos voltados para essa temática? Lovelove6: Eu sempre consumi quadrinhos, desde criança. Mas em 2013 comecei a produzir os meus, porque eu estava vivendo questões relacionadas à masturbação, queria fazer quadrinhos e percebia que não haviam quadrinhos sobre o tema.

Power: Em uma entrevista à revista Fórum você mencionou que sexo combina com política. Por quê? Lovelove6: Porque as relações sexuais e românticas de atualmente ainda refletem a tradição histórica de dominação do homem e do Estado sobre o corpo da mulher, assim como preservam a ignorância da mulher em relação ao seu próprio corpo. O controle da sexualidade da mulher é central para políticas populacionais, por exemplo, tornando a questão de como reclamamos e definimos nossa sexualidade mais do que individual, uma responsabilidade política.

ativamente é ótimo, porque há muitas visualidades e narrativas inexploradas que as mulheres podem desenvolver. Há muito machismo que, enquanto rede de articulação entre autoras, temos tentado combater. O machismo institucional relacionado às premiações e o machismo mercadológico praticado pelas editoras representam os obstáculos mais difíceis de serem superados. Na cultura das zines as mulheres têm muito mais poder e a relação entre os gêneros é bem menos tensa.

Power: Como é ser uma mulher, quadrinista, no meio da cultura das zines? Há machismo nesse meio? Lovelove6: Ser uma mulher autora de quadrinhos cri-

21


beta A robô feminist E

la foi programada para ocupar um sistema de tecnologia dominado por homens. Com pouco tempo de vida, a robô Beta interage com os usuários do Messenger, pelo chat box, e apoia as causas feministas, mobilizando centenas de pessoas contra projetos de lei que ameaçam os direitos das mulheres na Câmara, no Senado e até no judiciário brasileiro. Nascida no dia 28 de agosto, Betânia, ou carinhosamente Beta, tem ganhado espaço no inbox de mulheres por todo o Facebook. Filha mais nova da

ONG Nossas, um laboratório de ativismo político que procura aproximar as pessoas do poder público, ela responde sozinha a perguntas sobre o que é feminismo, machismo e revela até mesmo a música preferida (a propósito, é “Brincar de Viver” da Maria Bethânia). Com um perfil com mais de 15 mil seguidores, Beta é totalmente acessível e descomplicada. Basta o usuário enviar uma mensagem e seguir as instruções. Pronto! É informado sobre PEC’s que estão transitando. Por trás do sucesso está Mariana Ribeiro, 31 anos, diretora de projetos Nos-

22 feminismo

sas, que deu o “tom de voz” a robô — cujas respostas são acompanhadas de emojis e hashtags — e a “ensinou” sobre os direitos fundamentais das mulheres. “A Beta nasceu da vontade de viralizar campanhas de proteção aos direitos das mulheres. Percebemos que existem muitas mulheres que se dizem feministas, mas que nem sempre estão sabendo das pautas. Por isso, a Beta cria uma rede de alerta, sendo um canal efetivo para as mulheres que

querem atuar. A Beta vai nos ajudar a alcançar essas mulheres”, disse.

“É um robô feminista até o último código! Nenhum homem poderia ter programado a beta [risos].”

Grande aliada das mulheres, conseguiu, em apenas três dias de vida, angariar mais de 10 mil compartilhamentos sobre projetos públicos com propostas que retrocedem o direito das mulheres, como é o caso do Estatuto do Nascituro, que criminaliza o aborto em qualquer situação, mesmo as já previstas em lei. Em setembro, Beta ajudou a enviar os mais de 4.500 e-mails para pressionar deputados da comissão especial que vota a PEC 181/2015,


apontado por especialistas como capaz de acabar com o aborto legalizado no país — que permite interrupção da gravidez em casos de estupro, feto anencéfalo e quando há riscos para a mãe. Para fazer barulho, toda vez que uma pauta importante às mulheres está para ser debatida em Brasília, Beta envia mensagens a seus seguidores com instruções e estratégias para se posicionar contra. “Passo os dias monitorando”, explica a robô. “Dá um

trabalhão”. Apesar de ainda ser recente, a Beta chega para ser um canal de alerta e de contato direto com os tomadores de decisão. “É uma possibilidade de fazer barulho. Embora o poder público se sinta muito blindado, eles vão saber que tem gente preocupada com esses assuntos. Precisamos nos fazer presente em um processo que nos ausenta o tempo todo, um processo político”, afirma Laura Molinari, coordenadora do projeto da Beta.

23


qual o seu

Feminism? Giulia Verruck Tortola - sem vertente

Dominique Andrade - feminismo interseccional e trans-aliada

Dona Lanôr - Feminismo Interseccional

Babi Amorim - feminismo anarquista

Giovanna Guimarães Feminismo Radical

Mara Leida - sem vertente

Gabriela Moura - Feminismo Negro

Ariane Bertante - sem vertente

Juliana Araújo - Feminismo Interseccional

Giovanna Silene Feminismo Interseccional

Anna de Jesus - Feminismo Interseccional


Dani Cardoso - Feminismo Negro e Trans-aliada

Nathalya Victoria - feminismo interseccional

Bianca Dempsey feminismo interseccional

Bárbara Medeiros Silva - feminismo interseccional

Gleide Davis - feminismo marxista

Fabiana Borges - Feminismo liberal

Jahmine Miranda Feminismo negro

Lua Torres - Feminismo negro Joyce Nobre - Feminismo Negro

Laisa Euníria - Feminismo negro

Natalia Guimarães - Feminismo Interseccional

Laura Condé - Feminismo marxista

Angela Brandão Mendes - feminista interseccional

Sabrina Mares - feminismo radical


mamãe Corage

“E

u, Sandri Sá, nasci no subúrbio do Rio de Janeiro, em Santa Cruz, e um dos maiores traumas da minha vida foi não ter um bom relacionamento com a minha mãe. Apesar disso, soube o que era ter um ombro fraternal para encostar a cabeça, porque existia essa possibili- dade de escolha, o acolhimento amoroso da minha avó. Entretanto, com 13 anos eu saí de casa, fui morar com um r a p a z mais velho. Cabeça voava, logo engravidei. Me

vi aos 13 anos, sem ajuda, grávida. Sete anos mais nova que meu companheiro, em um relacionamento abusivo, vítima de violência doméstica, vi em meus braços o primeiro filho, Alyson, que me manteve em firme, mesmo com medo das agressões, mas, acima de tudo, com medo de voltar para casa. Mas, apesar da dor e do desespero, engravidei novamente e aos 16 anos, nascia Renan, meu segundo filho. Com dois filhos pequenos, me vi sem oportunidades, largando tudo, e com as bolsas nas costas indo morar em um cômodo emprestado. Sem espaço, sem banheiro, mas acomodando meus filhos em segurança, longe de toda e qualquer violência - larguei, sob ameaças e agressões, o progenitor. Tratada como coi-

"

tada, vista como resultado de rebeldia e humilhada a nada, somente por ser mulher, adolescente, separada e com filhos: o combo do machismo, do sexismo e da misoginia. Com muita fé e extrema luta, meu destino se fez em casas de família, recolhendo recicláveis, distribuindo prospectos e sendo babá para no final ter um alimento no prato das crianças. A luta era grande, com o auxílio da minha vó voltei a estudar aproveitando um programa do governo que dava R$ 100 por mês para o aluno concluir o ensino fundamental. A escola era distante, mas a vontade de vencer falava mais alto. Trabalho, escola, filhos, casa. Concluí o ensino fundamental e médio. Com amigos na escola e na rua, eu sempre passava despercebida. Aliás, não despercebida. No entanto, eu era a menina negra, com filhos e que não servia. Baita machismo, outra vez. Eu sofria o bombardeio da ‘ignorância masculina’ por todos os lados. Mas quem liga pra homem? Eu me bastava. Com uma causa ganha na justiça, um cômodo


novo e um diploma que gerou um emprego em telemarketing eu visei a independência financeira e a melhora na casa para criação das crianças. Aos 23, me vi apaixonada. Paixão fulminante, arrebatadora, que resultou no meu terceiro bebê, Geovanna. Poderia ser uma história que deu certo, poderia. Mas, aos sete meses, com a barriga enorme e redonda, descubro que meu então ‘amor perfeito’ era casado em outro estado do Brasil. Pensei, será que esse ser deve ter quantas mulheres espalhadas por aí? Larguei. O progenitor dois logo não quis reconhecer a paternidade. Novamente, o machismo arraigado, aliado a ausência de caráter, mostrou sua face. Eu crio dois, por que não criaria três?

As lambadas masculinas que levei da vida me fizeram mais forte, mais esperta e mais decidida. Trabalho forte se tornou meu sobrenome, por mim, por meus três filhos. Eles (pessoas em torno) diziam que eu não podia, que eu não conseguia. Com esforço veio à recompensa: CNH e um carro próprio. Eu podia! O mundo era meu! Vendi salgados nas estações de BRT, roupas para aumentar a renda e até voltei ao callcenter. Realizada com as conquistas, eu queria mais, mais, muito mais. Ser empreendedora era a chance de conseguir participar de forma presente da criação dos filhos. Na gigantesca onda do empoderamento negro veio a oportunidade de ser melhor, ganhar melhor e ajudar outras pessoas a se realizarem com seus cabelos, tão lindos e afros quanto o meu. O tsunami se chamava ‘box braids’ ou ‘trança rastafari’. Meu cômodo? Eu aluguei. Procurei um aluguel em um lugar próximo às

regiões de fácil acesso, minhas clientes vinham a minha residência. O dinheiro veio; a felicidade veio; a melhoria da condição de vida? Veio, também. Mas acima de tudo veio à recompensa de parar e perceber que apesar das rasteiras da vida, do abandono materno, do machismo-nosso-de-cada-dia... EU VENCI. Sandri, micro empreendedora. Mas, apesar de toda luta, o mais difícil não é levantar da queda e do abandono, mesmo quando adolescente. O mais difícil da luta é ser mulher, e principalmente mãe solo, numa sociedade machista; é ser mãe de crianças negras em uma sociedade desigual, tendo que resgatar, às vezes no tapa na orelha, filhos do caminho errado. No entanto, ressarcimento de toda uma vida sofrida se resume em ver os filhos crescendo, aprendendo a valorizar não só coisas, como pessoas. Tendo responsabilidade emocional sobre os outros, pois logo já não dependerão mais de mim. Quero falar uma coisa. Ser mãe solo, – não solteira, porque mãe (sem companheiro) não é status – é aprender a exercer dois papéis, mesmo aqueles pelos quais não estamos preparados.”

27


seja uma

Gir bos G

rande parte das mulheres decidiram colocar as ideias para ferver e preparar um bom chá para acompanhar seus grandes sonhos no mercado de trabalho. O empreendedorismo feminino vem dando passos largos há alguns anos e às mulheres saíram na frente e já representam 51,5% das pessoas que abriram novos negócios, segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE).

Empenhadas em realizar ações voltadas para a inserção de novos mercados, prestar serviços e investir em negócios digitais, a independência feminina levou à mulher a buscar mais qualidade de vida. Na busca por maiores possibilidades, crescimento profissional, necessidade de gerar renda,

30 negócios

lucro e empregabilidade, ser dona do próprio negócio pode ser a melhor solução para alcançar mais tempo para a família, liberdade profissional ou sair da pressão do cargo de funcionária. “Apesar de esbarrar nas dificuldades da vida pessoal e no preconceito, as mulheres identificam claramente as características em que são mais fortes que os homens. Elas têm um estilo mais “construtivo” de liderança, por isso são mais predispostas a trabalhar em equipe, construir boas relações com colegas e ser agentes promotores de mudanças”, afirma a gestora financeira comportamental, Thina Alvarez. De acordo com a especialista, ao virar empresária a mulher

demonstra a sua capacidade como profissional definindo as próprias regras e o melhor caminho para ser seguido. “É importante, sempre tomar decisões racionais e com planejamento. Um bom controle financeiro pode fazer toda a diferença. Uma maneira muito útil de começar o controle financeiro é através da separação das finanças pessoais e profissionais”, diz. Com base em pesquisas, Thina lista alguns cuidados que devem ser avaliados antes de se aventurar no empreendedorismo.


Acredite no seu potencial: Empreender é muito mais desafiador do que qualquer outra profissão. Se você buscou este caminho, certamente entende o potencial que tem, e sabe como oferecer algo que ninguém ainda oferece. Se quiser ter sucesso, acredite no seu potencial e crie maneiras de deixar isso claro para os consumidores.

Seja ousada ao escolher o diferencial do seu negócio: Todo novo negócio deve conquistar consumidores que hoje estão sendo servidos por outros concorrentes. Escolha um benefício que mostre claramente o quanto melhor o seu negócio é e faça disso o seu diferencial. É necessário, ao entrar no mercado, mostrar claramente porque o seu negócio é diferente dos outros, e porque os consumidores devem trocar a opção atual por você

Tenha perseverança: Criar marcas é uma atividade de longo prazo. As coisas não acontecem da noite para o dia. Há de se escolher um caminho, acreditar nele e investir tempo e recursos para persegui-lo.

Planejamento e Controle financeiro: Planejamento não é perda de tempo: é necessidade básica para o empreendedor. Tudo deve começar com um plano de negócio realista, este documento vai delinear seus próximos passos e já dará uma boa ideia de quem são seus concorrentes, quais seus gastos iniciais e quais os recursos necessários para abrir o negócio. E o planejamento não deve ficar por aí, de tempos em tempos, é necessário reavaliar os rumos do negócio, ver o que está funcionando e o que não está na sua estratégia realizando os ajustes a partir daí.

31


beleza -frô d pel S

endo o Brasil o terceiro país Sendo o Brasil o terceiro país no ranking do mercado global da beleza e possuir, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 53% da sua população autodeclarada negra ou parda, a Afrô - startup criada por três mulheres negras para ampliar a visibilidade e gerar auto-valorização da beleza negra, surgiu com o slogan “Toda beleza importa”, desenvolvendo a primeira caixa de cosméticos por assinatura com foco na beleza negra, a AfrôBox.

Apesar de o Brasil possuir, segundo o IBGE, 103,5 milhões de mulheres negras, equivalente a 51,4% da popu lação, chama atenção a negligência por parte do mercado de cosméticos. Pensando nesse cenário, Élida Aquino, Bárbara Vieira e Graucianna Santos, criaram a AfrôBox para apresentar novas possibilidades e atendimento próximo, com cuidado e carinho, além de intermediar o diálogo com as marcas - levando ao pú-

32 negócios

blico desde maquiagem a produtos de cuidado com o corpo, em tamanho miniatura para experimentação. O diferencial, segundo as idealizadoras, está na idealização da caixa, que, por sua vez, é pensada uma a uma. “Selecionamos produtos interessante aos nossos públicos e entregamos mensalmente em caixas que contém de 5 a 8 produtos cosméticos variados, selecionados de acordo com as preferências de cada assinante”, afirmou a equipe Afrô. Possivelmente, quase toda mulher negra já passou pela situação de precisar de um produto de beleza e ter dificuldades em encontrar a cor exata ou o tom aproximado de sua pele, tendo que misturar dois ou mais produtos para conquistar o que, de primeira, era o plano inicial. Não foi diferente com a Bárbara Vieira, que já passou por diversas situações de compra equivocada e por gastos extras em produtos de diferentes cores para conquistar o tom da pele. “Já

comprei muito produto com cor errada ou até mesmo dois produtos diferentes para conquistar o meu tom. Lembro que fiquei durante anos utilizando o mesmo pó compacto porque a marca, na época, era a única que atendia o tom da minha pele. Além disso, quando eles anunciaram que iam acabar com esse pó compacto, cheguei a comprar cinco unidades, só pra estocar o suficiente até conseguir achar outro que me atendesse”, disse. Para Élida Aquino, a negligência não está só ligada a produtos de maquiagem, mas também a produtos de cabelo próprios para o fio crespo. “Atualmente, por conta da pressão que um mercado absurdamente grande e crescente representa, não é mais raridade encontrar produtos, mas muitas marcas – inclusive fazendo produtos mais direcionados aos crespos e cachos – ainda erram na forma como se comunicam e representam mulheres como nós. Há uma imagem reforçada de cachos extremamente moldados, volumes controlados e etc. Além disso, mulheres de pele negra quase não são notadas. Precisamos questionar esses comportamentos persistentes, já que somos a maioria da população por aqui”, afirmou.


Nós, da Power, interessados em discutir o mercado de beleza de uma forma mais democrática, batemos um papo com a Afrô para entendermos as suas dificuldades, subjetividades e a importância do recorte racial no que diz respeito à indústria da beleza no Brasil. Power: Ao contrário do que se vê em outros países, onde existem as mesmas marcas que atuam no cenário brasileiro, as grandes marcas de cosmético desenvolvem uma gama pequena de produtos específicos para mulheres negras no Brasil. Você acredita que este problema pode está ligado a visão de que esse público possui menor poder de consumo? Bárbara: Em pesquisa recente da Nielsen, foi divulgado o poder de influência de mulheres negras em serem “trendsetters”, de influenciarem, conduzirem e modificarem a cultura

de consumo norte-americana. As preferências das mulheres negras ressoam no mainstream e vão gerar USD 1,5 trilhão até 2021. É mais do que hora do mercado brasileiro começar a enxergar a mesma coisa. Não só consumimos como ditamos tendência. A quantidade de cosméticos para cabelos cacheados baseado no que blogueiras costumam consumir nas prateleiras atualmente é algo que não poderíamos nem imaginar anos atrás. Élida: Com certeza! E o estereótipo da mulher negra, sem condições de consumir,

também sem bom gosto e senso crítico para selecionar bons produtos, influencia diretamente no comportamento do mercado. Marcas mais caras – o que eu chamaria de marcas de luxo – nem se preocupam muito em ter representação negra em sua comunicação. Quando o assunto é fórmula e conteúdo... Entender que entre mulheres negras, especialmente, há mudança no perfil social, econômico, cultural e de comportamento, é um exercício urgente. Um segundo passo é trazer mulheres negras, crespas, cacheadas, etc. para dentro da criação dos produtos, da comunicação de marcas e produtos. Power: Como a Afrô se vê, e principalmente se sente, sendo o primeiro clube de assinatura, portanto pioneira, específico para o público negro? O que essa representatividade, tão negada pelo mercado, impacta na forma que a empresa se desenvolve? Bárbara: Acredito que a existência da AfrôBox, em si,

33


já é um diferencial. Quantas empresas como a AfrôBox (de CEOs mulheres e negras) existem no mercado brasileiro? Mulheres e negros ocupam menos de 20% dos cargos de liderança no Brasil. Nós prometemos romper alguns paradigmas desde a idealização desse negócio. Não só em relação à composição da liderança – falamos sempre em construir pontes. Cada vez que a AfrôBox for citada, queremos que mulheres negras saibam que elas também podem estar onde quiserem. Queremos

34 negócios

construir pontes ideológicas, empreendedoras e de sororidade. Estamos sendo pioneiras pra que outras mulheres negras sejam pioneiras também. Élida: Sinto o peso da responsabilidade. É incrível abrir caminhos, ter criado algo realmente inovador, atender a demanda e perceber que estamos crescendo como outras startups, acessando lugares onde negócios feitos por negros e negras normalmente não chegaram, sem jamais deixar de dizer

que meu primeiro sonho na criação desse projeto era - e ainda é - oferecer algo que eu mesma tivesse prazer em consumir, onde eu mesma pudesse ter certeza de que minha narrativa seria ouvida e considerada. Ao mesmo tempo a caminhada é longa, é árdua e é diferente em muitos pontos, sim. Se já é difícil levantar novos negócios no Brasil, ima-gine um negócio diferente de tudo, imagine ainda mais: e se esse negócio for feminino, feito por negras? Fazer com que compreendam


nossa proposta é difícil em muitos momentos, mostrar valor - mesmo quando temos números para provar - também. Então, ao longo desses nove meses, acredito que o que sinto é alívio por estar cumprindo o plano o melhor que posso e, ao mesmo tempo, gana por saber que preciso ir em frente e criar espaços maiores para quem está vindo aí. Power: Em relação às marcas que se associam ou venham a se associar com os serviços da Afrô,

vocês buscam nessas empresas a responsabilidade ambiental e política contra testes em animais? Élida: Sempre prestamos atenção ao que as marcas apresentam como filosofia, sim. Nem todas comprovam não testar em animais, mas priorizamos estar em contato com marcas assim. Além de responsabilidade ambiental, tentamos diálogo com marcas que também tenham responsabilidade social. Nem todas estão dentro desses parâmetros, mas nos

esforçamos sempre para criar um conjunto perfeito. Power: Por fim, como uma marca consegue unir forças com a Afrô? Qual o caminho para chegar até vocês? Élida: Marcas com produtos que possam interessar aos nossos públicos são muito bem vindas! Geralmente dialogamos com interessadas através de nossas redes sociais facebook.com/souafro, instagram. com/afroboxclube e do email marcas@souafro.com.br.

35


“mão na massa”

 mulhere à obr

Q

u a n d o uma obra surge é só ligar para um especialista, que faz uma visita agendada para avaliar o problema, esclarece o orçamento e depois, se concordar com o valor, basta contratar para fazer o serviço. Mas, nem tudo é tão simples, ainda mais quando se é mulher e se mora sozinha. Essa situação poderia ser simples se não fosse um detalhe: a maioria dos prestadores são homens.

No entanto, de acordo com a pesquisa ‘A Revolução Delas’, do Grupo ABC com a consultoria 65 |10, as mulheres deixaram de ser um nicho de mercado para criarem soluções e participarem de forma ativa.

Principalmente em áreas dominadas por homens – tais como no setor de serviços, manutenção, reparação, consertos e outros serviços técnicos –, as mulheres estão trabalhando especialmente para outras mulheres, para que assim as contratantes possam se sentir em segurança.

Apaixonada por serviços braçais ‘ditos masculinos’, Geisa Garibaldi, criadora da empresa Concreto Rosa – empresa de prestação de serviços ligados a construção – aprendeu os serviços no ambiente familiar e depois se especializou no curso de edificação. Segundo ela, cresceu vendo sua mãe cuidar de casa, resolvendo todos os problemas

36 negócios

nela existente, desde pequenos reparos a levantar uma casa, na época, de madeira. “Como eu sempre gostei de obra, percebi a necessidade de ter serviço voltado para mulheres priorizando outras mulheres. Tem toda uma questão da confiança, da transparência e do conforto, coisas mais fáceis se de adquirir quando se é do mesmo sexo - quando nos lembramos do machismo. Por isso, a Concreto Rosa nasceu com meu desejo de empreender, trabalhar com outra e colocar mulheres à frente”, conta. Ao precisar contratar pessoas para trabalharem em reparos em sua casa, a economista Ana Bossa criou

métodos para se proteger, caso se sentisse ameaçada, dos homens que iriam ficar no seu apartamento a trabalho. “Eu deixava a porta destrancada, evitava roupas curtas e sempre avisava alguém”, conta. Mas quando precisou de alguém para instalar um box no banheiro, a carioca encontrou o serviços da mecânica Isis Pioneli, que atende pelo Ela Repara. “Confio mais nos serviços das mulheres, são mais atenciosas, além de me sentir muito mais segura com uma mulher dentro de casa”, explica a cliente. E não é para menos, a economista conta que Isis Pioneli foi extremamente profissional. Para Ana, o trabalho além de limpo e caprichado, sanou todos os seus problemas e dúvidas. “Ela sempre me informava e mostrava o que fazia. Gostei muito do serviço”, diz a contratante. Já levou um celular ou qualquer


outro eletrônico para o conserto? E quanta mulher viu pelo local? Embora a área de serviços de manutenção de eletrônicos seja dominada por homens, como em muitas outras, as mulheres existem e resistem. Como é o caso de Carmem Santos, formada nos cursos técnicos de eletrônica, automação industrial, manutenção, tecnologia da informação e robótica, que realiza consertos de computadores através da empresa InfoPreta - empresa de reparos e serviços tecnológicos que conta apenas com mulheres negras e LGBT. “O mercado fala que aceita a diversidade, mas a diversidades dele é o ‘padrão’: pessoas brancas, hétero e homens. Eu era sempre excluída: por ser mulher, negra e lésbica. A InfoPreta foi criada para combater esse padrão da sociedade e acolher mulheres que são colocadas à margem”, afirma, ao contar que a empresa “tem a proposta de falar de tecnologia e

reparos técnicos com a mulher de igual para igual, sem usar termos técnicos ou desmerecer a consumidora”. Com a mesma percepção de oportunidade de negócio, as três profissionais começaram a atender de forma independente e segmentada. “Geralmente não atendo homens, só quando são indicações de alguma cliente que já conheço. Mas, mulheres normalmente conversam mais e contam as experiências, aliás, contam como se sentem seguras com outras mulheres fazendo o serviço. Já quando são homens, a maioria fica mais na deles, às vezes desconfiados se realmente darei conta. A maioria entende e reconhece quando não sabe nada (risos), mas tem também os que me tiram do sério, acham que sabem tudo e ficam dando pitaco”, ressalta Isis Pioneli.

37


leitura promove igualdad A

d gêner

pesar do grande sucesso das histórias de princesas indefesas esperando ou sendo salvas pelo seu príncipe encantado, as histórias de mulheres inspiradoras que pensaram à frente de seu tempo estão ganhando espaço. São essas mulheres que estampam as páginas do livro “Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes”, das italianas Elena Favilli e Francesca Cavallo, cofundadoras da empresa de mídia infantil Timbuktu Labs.

Com a história de 100 mulheres, de diversas áreas de atuação – das ciências às artes, passando pelos esportes e pela política –, o livro ajuda a quebrar os estereótipos de gênero e a dizer a meninas de diversas idades que é possível sonhar e se tornar tudo o que quiser. “Em Histórias de

38 cultura

ninar para garotas rebeldes, tudo o que podemos sentir é esperança e entusiasmo pelo mundo que estamos construindo. Um mundo onde gênero não defina quão alto você pode sonhar nem quão longe você pode ir”, diz a apresentação no site da V&R Editoras, responsável pela publicação. Com textos inspiradores – ilustrados por 60 artistas de diferentes nacionalidades –, o livro apresenta o estilo conto de fadas com o clássico “era uma vez”. No entanto, para ser um conto de fadas moderno, o livro apresenta nomes como os da matemática Ada Lovelace, da poetisa e confeiteira Cora Coralina, da aviadora Amelia Earhart, da sufragista Kate Sheppard, da médica Mae C. Jemison, da pintora Frida Kahlo, da pirata irlandesa

Grace O´Malley e da surfista de ondas grandes Maya Gabeira, entre outras mulheres que fizeram mudaram o mundo à sua maneira. Mais do que um livro para despertar os desejos, a cada página de Histórias de ninar para garotas rebeldes, estão os retratos da convicção de que a beleza está em todas as formas, cores e idades. Para a coordenadora da edição brasileira, Flavia Lago, apesar de o livro ser destinado ao público infantil, ele se faz de suma importância para todas as idades, pois desperta o entendimento de que o impossível é apenas questão de opinião. “Ele (o livro) apresenta as mulheres como protagonistas de suas vidas, realizando feitos maravilhosos. São mulheres reais que passam a mensagem de igualdade e de liberdade, fundamentais para alimentar os sonhos”, afirma


39


Funk feminista:  poder da mina O

cenário dos movimentos periféricos está em constante mudança e as mulheres ganham cada vez mais espaços dentro das expressões culturais urbanas como o funk. A inserção da mulher nesse meio nos faz pensar sobre a relação, bem mais próxima do que se poderia supor, entre o funk e o feminismo. Com letras que grudam na cabeça e ensinam meninas e mulheres a serem donas do próprio ‘nariz’, os funks da última década servem de inspiração para postura de mulheres empoderadas.

Em um espaço onde as letras eram sobre a posse feminina, o que surpreende é que os funks que estão na ‘boca do povo’ já não são os mesmos de antes: com letras exaltando as mulheres, vemos crescer a onda de cantoras que falam sobre o seu cotidiano, relatando desde a descoberta da sexualidade como algo que

40 cultura

deve satisfazê-las tanto quanto ao homem à luta travada em casa e no trabalho. O convencional ritmo, as letras que envolvem apelo sexual e a idealização de uma vida ‘milionária’ ainda têm espaço dentro do funk. Porém, o eu-lírico, os problemas e os dilemas narrados são outros - agora, o funk começou a tratar dos assuntos ligados a mulher de forma explícita, a tirando da submissão do homem e a colocando como dona de si mesma, questionando papéis de gênero imposto pela sociedade, falando sobre a violência doméstica e colocando na roda as vontades pertinentes às mulheres. Diante disso, nem o público é tão o mesmo, começando a ganhar adeptas das classes médias e altas. Partindo de uma postura diferente, com ar de dona do próprio corpo e do poder de escolha, a funkeira,

ex-moradora do Complexo do Alemão, Valesca Popozuda mostrou, na letra da música ‘Larguei Meu Marido (Agora Virei Puta)’ que a mulher não tem que ser submissa ao homem: “Eu passava, eu lavava e tu não dava valor/ Só me dava porrada e partia pra farra/ Eu ficava sozinha esperando você/ Eu gritava e chorava que nem uma maluca/ Valeu, muito obrigada/ Mas agora virei puta”. Na letra de sucesso, a cantora retrata as dificuldades de ter sua liberdade cerceada por um homem, viver uma vida de violência, e, após muito tempo, conseguir se impor tendo novamente sua liberdade, até mesmo a sexual - de onde surge o termo ‘puta’, designado a mulheres que possuem vida sexual própria independente de estar em um relacionamento ou não. Mas, apesar da música ter invadido todas as classes sociais, o funk se mostra, ainda, maior


sucesso na periferia. Pois, de acordo com livro Assassinatos de Mulheres e Direitos Humanos, da professora Eva Blay, quase que a totalidade dos registros de ocorrência ligados a violência se originando das classes baixas; enquanto nas classes mais altas, as mulheres enfrentam a questão da violência no divã. O funk, vindo das mulheres, se tornou uma música de reação. Um som de mulheres que ao se erguerem, perceberam o seu valor e não admite homem nenhum – seja filho, amigo, namorado ou marido – erguendo a voz e a mão dentro e fora de casa. As composições musicais, por exemplo, de Anitta e Ludmilla brincam com a concorrência entre mulheres e com a vingança entre as ‘inimigas’, mas fortalecem a sororidade entre as mulheres, buscam uma aliança de irmandade e empatia, e ensinam as mulheres a destemer julgamentos, olhares e possíveis xingamentos.

“Me ensinaram que éramos insuficientes. Discordei! Pra ser ouvida, o grito tem que ser potente”

A funkeira Carol Bandida, por sua vez assumidamente feminista, incentiva a autoestima elevada e insubmissão das mulheres. Em suas letras, a niteroiense fala sobre abandono familiar, violência contra as mulheres e, com toda sua irreverência, ensina sobre empoderamento diante de discriminações que ela enfrenta em seu cotidiano, como machismo, gordofobia e racismo. Na música “meu namorado é mó otário, ele lava minhas calcinhas”, a cantora exalta o dever do homem em fazer as coisas dentro de casa. “Eu não aceito a minha submissão. Dentro da minha casa não tem isso. Meu namorado, por exemplo, ele é bolado com a música da calcinha. Mas a realidade é essa. Quem manda nessa porra sou eu. O homem tá acostumado com uma mulher que lava, passa, cozinha e tá ali

pra fazer o que ele quer… Mas não!”, afirmou em entrevista a UOL. O funk do século 21 se tornou a voz da mulher que assume seu real papel, desmistificando a ideia da mulher como inferior. Em vista de que ao longo dos anos as mulheres já se posicionaram como independentes em diversas áreas, chegando o momento de ratificar isso na música da periferia. Apesar de algumas reclamações relacionadas ao barulho que o grito de liberdade tem provocado, mulheres agradecem por ouvirem, na música, assuntos relacionados à sexualidade e ao prazer feminino. Ainda que, para isso, precise ser ‘queimada viva’ na fogueira do moralismo como bruxas da Idade Média.


liberte-se quebr o

padrõe esético

D

a preferência às ‘gordurinhas’ na antiguidade à valorização da magreza na última década, os padrões de beleza sofrem alterações de acordo com as mudanças contextuais e culturais de cada sociedade. No entanto, se moldar segundo o padrão se transformou em uma busca interminável por um determinado tipo de beleza. Atingir o que é considerado padrão, muitas vezes elevado num pedestal, é quase impossível levando em conta que o disseminado pela mídia é principalmente a beleza referente às mulheres altas, magras, brancas, de olhos claros e cabelos lisos; e sempre retocadas por programas de edição.

42 cultura

Com grande impacto na vida da população feminina, os padrões de beleza atuais são colocados até mesmo como um meio de inclusão em grupos sociais. A situação leva mulheres à procura incessante de ideal, muitas vezes distante da sua realidade, para conquistar a aceitação e evitar sofrimento de exclusão ou recriminação por estar fora do que é taxado como ‘bonito’.

Para a psicanalista Ruth Castro, toda essa extensa procura por um ideal causa o descontentamento com a aparência e a preocupação com a maneira de como são enxergadas, podendo causar uma dor incomensurável que muitas

vezes pode levar a pessoa ao adoecimento e em casos mais extremos, ao suicídio. “O aumento significativo de doenças psicossomáticas, tais como, as depressões, as dependências químicas, os distúrbios alimentares como as anorexias, as bulimias e as obesidades, nos sinalizam inevitavelmente à questão de como o corpo tem se tornado o último reduto da subjetividade na atualidade”, afirma ao dizer que “é preciso que se crie novos estilos de vida, novos modos de existência, enfim, que crie a si mesmo, pois a abertura para a criação, permite uma produção singular para o bem estar e uma possibilidade de evitar a frustração e consequentemente o adoecimento”. O conceito de beleza e a busca pela adequação corporal passar todos os segmentos sociais. Diante disso, o culto ao corpo magro, dito pela mídia como ‘perfeito’, vem sendo amplamente questionado e criticado. Um grande exemplo se deu pela Revista Marie Claire que ao publicar que a modelo magérrima Izabel Goulart tinha o ‘corpo perfeito’, recebeu uma chuva


de críticas e, logo após, publicou um pedido de desculpas aos leitores. Para a nutricionista Kênia Moreno, não existe o corpo perfeito; o que existe é o corpo que cada pessoa acredita ser o corpo ideal, seja um padrão que ela mesma idealizou ou que seja o melhor corpo para si. “Antes de tudo a gente precisa viver em paz com nosso corpo, com seu ambiente. Você habita em si e só você sabe o que é estar sob sua pele. Precisamos sim cuidar de nosso corpo também fazendo escolhas que nos façam bem, a partir de um ponto de vista amplo, não somente nutricional. Eu, particularmente, acredito que podemos fazer os dois: comer bem e comer de maneira nutritiva. Fazer as es-

colhas que também trazem conforto é alimentar-se de maneira saudável”, contou ao completar que “você não tem que se privar porque a sociedade se sente mal com sua aparência. Se o mal estar é alheio, quem precisa mudar é o ambiente ao redor e não você”, afirmou. O movimento contra a ‘ditadura do corpo perfeito’ caracteriza um processo de reorganização, que une mulheres de diferentes classes sociais, etnias, tamanhos e idades. Exaltando a diversidade e a aceitação da beleza natural, cada vez mais mulheres estão em busca, não só de questionar, mas quebrar os estereótipos que são colocados sobre seus corpos. Para a modelo plus size Ianca Maria, de 21 anos, o processo de aceitação foi doloroso, cheio de espinhos,

mas recompensador. “Após as centenas de situações gordofóbicas que já passei, busco inspirações e tento inspirar outras mulheres a se aceitarem. Porque, acima de tudo, isso é uma luta diária e contínua. Temos que buscar o empoderamento, principalmente o emocional. Precisamos ser firmes”, disse. Com toda ascensão e consolidação de um movimento social que luta contra os corpos, estilos de vida e ideais inalcançáveis propagados como adequados, a expectativa é de que no futuro não existam mais rótulos. E que, desse modo, se espalhe o ideal de que tamanhos e conceitos como felicidade, caráter e autoestima não estão ligados a medidas – pois isto também é ser livre.


Revista Power  
Revista Power  
Advertisement